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Fichamento 4

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Tópicos abordados

  • expansão biológica,
  • diminuição populacional,
  • imperialismo ecológico,
  • história colonial,
  • colonização portuguesa,
  • história epidemiológica,
  • Ianomâmis,
  • doenças epidêmicas,
  • Cahokia,
  • indígenas
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  • expansão biológica,
  • diminuição populacional,
  • imperialismo ecológico,
  • história colonial,
  • colonização portuguesa,
  • história epidemiológica,
  • Ianomâmis,
  • doenças epidêmicas,
  • Cahokia,
  • indígenas

Instituto Federal Fluminense

Curso: Licenciatura em História


Disciplina: América Colonial
Docente: Anne Caroline Santos Nunes
Discente: Maria Carolina de Souza Valente

Fichamento de citação

CROSBY, Alfred W. Imperialismo ecológico: a expansão biológica da Europa,


900-1900.p.180-198

“Os germes do velho mundo eram entidades dotadas de tamanho, peso e massa, em nada
diferindo, neste aspecto, de Sweet Betsy, seu amado rei e seus animais. Eles também
precisavam de transporte para cruzar os oceanos, algo que os marinheiros inadvertidamente
lhe forneceram. Uma vez em terra firme e alojados no corpo de novas vítimas em novas
terras, a sua taxa de reprodução (chegavam a dobrar a cada vinte minutos) permitia que
superassem todos os imigrantes de maior porte na rapidez com que se proliferavam e na
velocidade da sua expansão geográfica.”

“Devemos examinar a história colonial dos patógenos do Velho Mundo, pois o seu sucesso
constitui um dos exemplos mais espetaculares do poder das realidades geográficas
subjacentes ao êxito dos imperialistas europeus no além-mar. Foram os seus germes — e
não os imperialistas em si, a despeito de toda a sua ferocidade e desumanidade — os
principais responsáveis pela devastação dos indígenas e pela abertura das Neo Europa à
dominação demográfica.”

“Até pouco tempo atrás os cronistas da história humana desconheciam os germes, e a


maioria acreditava que as doenças epidêmicas tinham origem sobrenatural — algo a ser
suportado piamente mas quase nunca descrito em detalhe. Portanto, a história
epidemiológica das colônias europeias além das “suturas da Pangeia” assemelha-se a um
quebracabeça de 10 mil peças, das quais só dispomos da metade — o suficiente para termos
uma ideia das dimensões do original e de suas principais características, mas insuficiente
para uma remontagem completa.”

“ Antes de abordarmos a história dos patógenos nas Américas e na Australásia, examinemos


alguns exemplos recentes do que a ciência chama “epidemia em solo virgem” (a rápida
proliferação de patógenos entre pessoas que nunca haviam sido infectadas anteriormente) a
fim de nos acostumarmos com as possibilidades da catástrofe epidemiológica.”

“Em 1954, uma epidemia dessa mesma infecção “menor” irrompeu entre a população do
remoto Parque Nacional do Xingu, no Brasil. A taxa de mortalidade foi de 9,6% entre as
vítimas que contaram com tratamento médico moderno e 26,8% entre as demais. Em 1968,
Quando os ianomâmis da fronteira Brasil-Venezuela foram atacados pelo sarampo, 8 ou 9%
morreram, a despeito da disponibilidade de remédios e tratamento moderno.”

“Os sinais da suscetibilidade dos ameríndios e dos aborígines às infecções do Velho Mundo
aparecem quase imediatamente após a intrusão dos brancos. Em 1492, Colombo raptou uma
série de habitantes das Antilhas com o intuito de treiná-los como intérpretes e exibi-los ao
rei Fernando e à rainha Isabel. Vários deles parecem ter morrido durante a tempestuosa
viagem para a Europa, de modo que Colombo pôde apresentar apenas sete na Espanha, além
de alguns berloques de ouro, ornamentos aruaques e uns papagaios.” 182

“Os ingleses nunca chegaram a enviar grandes números de aborígines australianos para a
Europa como escravos ou empregados domésticos, ou em qualquer outra categoria; em
1792, porém, dois aborígines, Bennilong e Yemmerrawanyea, foram levados para a
inglaterra como valiosos bichos de estimação.” 182

“Temos alguma ideia da origem da morbidez e mortalidade dos aborígines: infecção


pulmonar. Mas o que matou os arauaques em 1493 e 1495? Maus-tratos? Frio? Fome?
Excesso de trabalho? Sim, tudo isso, não temos como duvidar; mas será essa a resposta
completa? Colombo certamente não queria matar os seus intérpretes, e senhores e
traficantes de escravos não têm o menor interesse no massacre declarado de sua
propriedade. Todas, ou quase todas as vítimas parecem ter sido jovens adultos, geralmente
os membros mais resistentes da nossa espécie —exceto no caso de infecções
desconhecidas.” 183

“Os candidatos mais prováveis para o papel de exterminador dos primeiros ameríndios na
Europa são os mesmos que mataram tantos outros aruaques nas décadas imediatamente
subsequentes: os patógenos do Velho Mundo. Voltemo-nos agora para as colônias.
Obviamente, os limites deste capítulo não nos permitem incluir sequer uma história
epidemiológica superficial das colônias europeias no além-mar, mesmo que nos
restringirmos às Neoeuropas.” 183

“Portanto, iremos nos concentrar nas peregrinações de um único patógeno do Velho Mundo
pelas colônias: o vírus da varíola. A varíola, uma infecção que geralmente passa de vítima
para a vítima pela respiração, era uma das doenças mais transmissíveis é uma das mais
mortíferas.10 Uma antiga infecção humana no Velho Mundo, raras vezes foi de importância
crucial até irromper com violência no século xvi.” 183

“Na Europa, foi a pior das doenças infantis. A maioria dos adultos, especialmente nas
cidades e nos portos, já a tinha tido e estava imunizada. Nas colônias, a doença atacou os
indígenas jovens e idosos, e foi a mais letal de todas.” 184

“A varíola cruzou pela primeira vez as suturas da Pangeia — chegando, especificamente, à


ilha Hispaniola — normal de 1518 ou início de 1519, e durante os quatro séculos seguintes
desempenhou um papel tão essencial quanto a pólvora no avanço do imperialismo branco
do ultramar — um papel talvez até mais importante, pois os indígenas acabaram voltando o
mosquete, e depois o rei, contra os invasores, mas a varíola pouquíssimas vezes lutou do
lado dos primeiros habitantes.” 184

“Logo o mal exterminou um terço ou metade dos arauaques em Hispaniola, e quase


imediatamente cruzou os estreitos até Porto Rico e as outras ilhas das Grandes Antilhas,
empreendendo lá a mesma devastação. Passou de Cuba para o México e juntou-se às forças
de Cortés na pessoa de um soldado negro que adoeceu, um dos poucos invasores que não
estavam imunes à infecção. A doença exterminou uma grande parcela dos astecas e abriu
caminho para os forasteiros até o centro de Tenochtitlán e à fundação da Nova Espanha.
Adiantando-se aos conquistadores, logo apareceu no Peru, matando uma grande proporção
dos súditos do inca, o próprio inca e o sucessor que ele havia escolhido. Guerra civil e caos
seguiram-se.” 184

“Essa primeira pandemia registrada no Novo Mundo talvez tenha chegado até as
Neoeuropas americanas. A população ameríndia era mais densa do que jamais seria durante
os séculos subsequentes, e completamente suscetível à varíola. No início do século xvi,
canoeiros da tribo calusa costumavam ir da Flórida a Cuba para negociar, e com certeza
levaram a varíola de volta consigo para o continente. Além disso, povos que mantinham
pelo menos um contato esporádico entre si habitavam toda a orla do golfo do México, de
regiões onde a doença era comum até a extremidade oposta, as áreas densamente povoadas
do que é hoje o Sudeste dos Estados Unidos.” 184, 185.

“A varíola é uma doença com botas de sete léguas. Seus efeitos são aterrorizantes: febre e
dor; o aparecimento rápido de pústulas que às vezes destroem a pele e transformam a vítima
numa massa hedionda de sangue; uma estarrecedora taxa de mortalidade, que chega a um
quarto, metade ou mais das vítimas nas variedades mais violentas. As pessoas ainda
saudáveis fogem, deixando os doentes para trás para enfrentar uma morte certa, e
geralmente levando consigo a doença.” 185

“Para darmos apenas um exemplo (um exemplo preciso e nada sensacional), a maioria dos
abipones com quem o missionário Martin Dobrizhoffer estava vivendo no Paraguai em
meados do século xviii fugiu quando a varíola surgiu em seu meio, alguns chegando a viajar
até oitenta quilômetros. Em determinadas circunstâncias, essa quarentena- por-fuga deu
certo, mas geralmente servia apenas para disseminar a doença.” 185

“A doença alastrou-se pela Nova Inglaterra, avançando para o oeste até a região do rio St.
Lawrence e dos Grandes Lagos, e de lá até ninguém sabe onde. A varíola devastou
repetidamente Nova York e adjacências nas décadas de 1630 e 1640, e estima-se que tenha
causado uma redução de 50% na população das confederações de huronianos e iroqueses.
Depois disso, a varíola parece nunca mais ter se mantido afastada por mais de duas ou três
décadas de cada vez.18 Os missionários, jesuítas e menonitas, e os comerciantes de
Montreal e Charleston, tinham todos as mesmas histórias aterradoras para contar sobre a
varíola e os indígenas.” 186

“A varíola tendia a se alastrar bem além do limite territorial dos europeus, muitas vezes
atingindo povos que mal tinham ouvido falar dos invasores brancos. Provavelmente chegou
em 1782 ou 1783 à região do estreito de Puget, na costa noroeste do Pacíco, uma parte do
mundo tão distante dos principais centros de população humana quanto qualquer outro lugar
da Terra.” 186
“ Das últimas décadas do século xvi à segunda metade do século xix, a varíola assolou
repetidamente as estepes do Sul e regiões adjacentes, parecendo irromper sempre que um
número suciente de pessoas suscetíveis houvesse nascido desde a última epidemia para
sustentar uma nova. O século xvii iniciou-se com o governo de Buenos Aires pedindo à
Coroa espanhola permissão para importar mais escravos negros, pois a varíola dizimara os
ameríndios. Somente a cidade de Buenos Aires enfrentou pelo menos quatro epidemias de
varíola em menos de cem anos (em 1627, 1638, 1687 e 1700), e muitas outras se seguiram
nos dois séculos subsequentes. A primeira referência inequívoca da doença no Rio Grande
do Sul data apenas de 1695, mas essa doença violenta deve ter assolado a província,
contígua a áreas portuguesas e espanholas onde as epidemias irrompiam sem cessar, muito
antes do final do século xvii.” 187

“Jamais saberemos quantos morreram entre as tribos que vagavam pelos pampas. A
capacidade que tinham de partir sem aviso prévio deve tê-las preservado de algumas
epidemias; porém, por quanto mais tempo evitavam a infecção, mais aniquilador era o
impacto desta quando atacava. Existe, por exemplo, o caso dos checheletes, que em 1700
eram um dos povos mais numerosos das pradarias e, portanto, provavelmente uma tribo que
escapara das piores epidemias.” 188

“A doença continuou assolando periodicamente as tribos dos pampas, sendo debelada


somente com a disseminação das vacinas e com a destruição, encarceramento ou expulsão
dos últimos povos da estepe Argentina. O doutor Eliseo Cantón, médico, cientista e
historiador da medicina na Argentina, arma categoricamente que o extermínio dos
ameríndios como força efetiva nos pampas não foi obra do exército argentino e de suas
Remingtons [metralhadoras], e sim da varíola. A história médica da Austrália começa com
a varíola, ou algo muito parecido com ela. A Primeira Armada chegou ao porto de Sydney
em 1788 e, durante certo tempo, os problemas de infecção entre os mil colonos e os
aborígines foram insignificantes.” 188

“Os ingleses começaram a encontrar corpos de aborígines mortos nas praias e nas pedras ao
redor do porto. A causa disso permaneceu um mistério até que uma família de nativos
acometidos de varíola chegou ao povoado. Em fevereiro, um aborígine que conseguira se
recuperar da doença contou aos brancos que no mínimo metade de seus companheiros nas
cercanias de Sydney havia morrido e que muitos outros tinham fugido, carregando consigo
a infecção. Os doentes deixados para trás raramente sobreviviam por muito tempo,
sucumbindo à falta de água e alimento.[..] 189

“A pandemia talvez tenha chegado até o litoral nordeste e oeste do continente, pois nada era
capaz de estancá-la enquanto houvesse novos aborígines para contraí-la. Por três vezes no
século xix a varíola retornou para assolar os aborígines, mas a primeira pandemia foi
certamente o maior choque demográfico que os povos nativos da Austrália jamais
receberam. De acordo com Edward M. Curr, o grande estudioso dos aborígines no século
xix, ela pode ter matado um terço da população, deixando intactas apenas as tribos do
quadrante noroeste do continente. Essas tribos só foram receber a sua dose de varíola e
devastação em 1845 ou depois. Por várias gerações, os aborígines estremeciam quando
falavam sobre a varíola, expressando “terror genuíno, eles que nenhum outro mal consegue
tirar da sua inerente impassibilidade”. 189

‘Vivendo num mundo do qual o vírus da varíola foi exterminado pela ciência, nós jamais
poderemos compreender plenamente o impacto da varíola sobre os indígenas da Austrália e
das Américas, seu efeito mortífero, desnorteante e devastador. As estatísticas de redução
demográfica são frias, e os relatos de testemunhas oculares inicialmente comovem mas
depois tornam-se apenas macabros. O impacto do mal foi tão aterrador que somente um
escritor com o talento de um Milton no auge de seus poderes estaria à altura do tema, mas
não havia ninguém como ele em Hispaniola em 1519 ou em Nova Gales do Sul em 1789.
Somos então forçados a recorrer não às testemunhas, mas às vítimas, para obter
esclarecimento; e as vítimas criam lendas, não poemas épicos. Os kiowas do Sul das
Grandes Planícies da América do Norte, que sofreram pelo menos três e provavelmente
quatro epidemias de varíola no século xix, têm uma lenda a respeito da doença.” 190

“A varíola foi apenas uma das doenças que os navegadores lançaram à solta sobre os povos
nativos do além-mar — talvez a mais destrutiva, certamente a mais espetacular, mas apenas
uma delas. Até agora nem sequer mencionamos as infecções respiratórias, as febres
“hécticas” tão frequentes entre os indígenas que entravam em contato com estrangeiros
vindos do outro lado do horizonte.” 191

“Os patógenos do Velho Mundo, em sua lúgubre variedade, espalharam-se por toda parte
além das suturas da Pangeia, debilitando, aleijando ou matando milhões na vanguarda
geográfica da espécie humana.” 191

“As colônias da zona temperada evoluíram de modo a se diferenciar menos: tornaram-se


neoeuropeias, com apenas minorias de não brancos. Admite-se que o México e o Peru
estavam cheios de povos indígenas antes da chegada dos europeus porque os seus antigos
monumentos de pedra são enormes demais para serem ignorados e porque seus
descendentes ainda vivem em grande número nessas terras. Porém, imaginar que as
Neoeuropas, hoje absolutamente repletas de neoeuropeus e outros povos do Velho Mundo,
tenham tido outrora imensas populações nativas que foram eliminadas por doenças
importadas exige um grande salto de imaginação histórica.” 192

“Examinemos uma região neoeuropeia que tenha sido habitada por povos indígenas
agrícolas de uma cultura avançada: a parte do Leste dos Estados Unidos entre o oceano
Atlântico e as Grandes Planícies, o vale de Ohio e o golfo do México. 192

“Quando os europeus já estavam instalados nessa região, percorrendo-a de alto a baixo e de


cabo a rabo, quase sempre em busca de outro império asteca, de rotas para a China, de ouro
e peles, e estavam familiarizados com as suas principais características — ou seja, por volta
de 1700 —, os habitantes nativos eram os ameríndios que conhecemos dos livros didáticos
de história dos Estados Unidos: os cheroqui, os creek, os shawnee, os choctaw e outros.
Esses e todos os demais, com apenas uma ou duas exceções, eram povos sem qualquer
estratificação social pronunciada, sem as artes e ofícios avançados que as aristocracias e os
cleros costumam produzir e sem grandes obras públicas comparáveis aos templos e
pirâmides da Mesoamérica. “ 192

“As coisas nessa parte da América do Norte tinham sido bem diferentes em 1492. Os
Construtores de Túmulos (nome geral de uma centena de povos de uma dúzia de culturas
diferentes que se espalharam por milhares de quilômetros quadrados durante quase um
milênio) haviam erguido e continuavam a erguer outeiros para servirem de templo e
sepulcro, muitos da altura do joelho ou dos quadris de uma pessoa, mas outros comparáveis
em tamanho às maiores estruturas terrosas jamais criadas pelo ser humano em qualquer
parte do globo. O maior deles, o Outeiro dos Monges, apenas um dentre 120 outros de
Cahokia, em illinois, tem um volume de 623 mil metros cúbicos e abrange 6,5 hectares.39
Cada partícula dessa enorme massa de terra foi transportada e colocada no lugar por seres
humanos sem qualquer ajuda de animais”domesticados. As únicas estruturas maiores das
Américas pré-colombianas são a pirâmide do Sol em Teotihuacán e a grande pirâmide de
Cholula.” 193

“Quando brancos e negros se fixaram perto do sítio de Cahokia e em outros centros


similares (Moundsville, no Alabama; Etowah, na Geórgia) nos séculos xviii e xix, as
sociedades ameríndias locais eram relativamente igualitárias, suas populações, esparsas,
suas artes e ofícios, admiráveis mas não mais de altíssima qualidade, suas redes comerciais,
apenas regionais. Esses povos nada sabiam dos outeiros, túmulos e centros cerimoniais,
abandonados gerações antes, de modo que os brancos os atribuíram aos vikings, às tribos
perdidas de israel ou a raças pré-históricas hoje desaparecidas da face da Terra.” 193

“Nas nossas imagens das sociedades nativas da América do Norte não há lugar para, por
exemplo, a sagaz oponente de De Soto, a “Señora de Cofachiqui”, de uma província que
provavelmente abrangia o atual sítio de Augusta, na Geórgia. Ela viajava de liteira
carregada por nobres e era acompanhada por um séquito de escravos. Num raio de cem
léguas “era formidavelmente obedecida, e tudo o que ordenasse era executado com
diligência e eficácia”. Numa tentativa de desviar a voracidade dos espanhóis por seus
súditos vivos, ela enviou os estrangeiros para pilharem uma câmara ou templo funerário de
trinta metros de comprimento e cerca de doze de largura, com um telhado decorado em
conchas marinhas e pérolas de água doce, que “proporcionaram uma visão magnífica no
brilho do sol”. Em seu interior havia arcas contendo os mortos e, para cada arca, uma
estátua esculpida à semelhança do falecido. As paredes e o teto eram cobertos com obras de
arte, e as salas continham uma profusão de clavas requintadamente entalhadas,machadinhas
de guerra, lanças, arcos e flechas engastadas com pérolas de água doce. Na opinião de um
dos saqueadores do túmulo, Alonso de Carmona, que vivera antes no México e no Peru, o
edifício e seu conteúdo estavam entre o que de mais belo e no ele já virá no Novo Mundo.”
194

“ No século xviii, algo já eliminara ou expulsara a maior parte da população de Cofachiqui


e das diversas outras regiões onde populações densas de povos de estatura cultural
semelhante haviam habitado dois séculos antes: a costa do golfo do México, entre as baías
de Mobile e Tampa, o litoral da Geórgia e as margens do Mississippi acima da embocadura
do rio Vermelho. Nas regiões Leste e Sul de Arkansas e no Nordeste da Louisiana, onde De
Soto encontrara trinta cidades e províncias, os franceses se depararam apenas com um
punhado de vilarejos. Onde De Soto, de cima de um outeiro que servia de templo, podia
enxergar diversas vilas, cada uma com seus próprios outeiros, separadas por extensos
milharais, agora havia apenas um ermo. O que quer que tenha atingido as terras por onde ele
passara deve também ter avançado bem para o norte.” 194

“ As epidemias continuaram chegando e realizando a sua obra de extermínio, como ocorreu


nos séculos xvi e xvii em todas as partes das Américas das quais temos alguma notícia. Para
citarmos apenas uma ocorrência, em 1585-6 sir Francis Drake comandou uma grande frota
até o arquipélago de Cabo Verde, onde seus homens contraíram uma perigosa doença
transmissível e em seguida partiram para atacar localidades da parte meridional do mar das
Antilhas. Porém, tantos dos ingleses estavam doentes que o empreendimento fracassou
miseravelmente. Querendo se vingar, Drake atacou a colônia espanhola em St. Augustine,
na Flórida, infectando a população local com a epidemia de Cabo Verde. Os ameríndios, “à
chegada de nossos homens morreram rapidamente, e diziam entre si que foi o deus inglês
que os fizera morrer assim tão depressa”. 197

“O intercâmbio de doenças infecciosas — isto é, de germes, coisas vivas dotadas de um


ponto de origem geográfico como qualquer outra criatura visível — entre o Velho Mundo e
suas colônias americanas e australianas foi espantosamente unilateral, tão unilateral e
unidirecional quanto o intercâmbio de pessoas, ervas e animais. A Australásia, até onde a
ciência pode nos dizer, não exportou sequer uma de suas doenças humanas para o mundo
externo, supondo que tivesse alguma peculiarmente sua” 198

“A Europa foi magnânima na quantidade e qualidade dos tormentos que enviou para além
das suturas da Pangeia. Em contraste, as suas colônias, epidemiologicamente mal dotadas
para começar, hesitaram em exportar até mesmo os poucos patógenos que possuíam.” 198

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