N.
14, 2022
Dossiê:
ETNOGRAFIAS DE UMA SINDEMIA:
A COVID-19 E SUAS INTERAÇÕES
Fotografia: Weverson Bezerra
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO: Dossiê etnografias de uma sindemia. A Covid-19 e suas
interações
Mónica Franch, Sônia Weidner Maluf, Mariana Simões, Soraya Fleischer ........ e01402
INTERAÇÕES SINÉRGICAS ENTRE O HIV/AIDS E A COVID-19: a descentralização
do cuidado em HIV/Aids na atenção básica em Rio Tinto (Paraíba)
Luziana Marques da Fonseca Silva, Francisco Paulino de Oliveira Neto e Gabriel
Cavalcante Bueno de Moraes .............................................................................. e01403
EL “HOSPITAL COVID-19”: una mirada etnográfica de las rutinas médicas del
VIH en un servicio hospitalario público de la ciudad de Buenos Aires durante la
emergencia sanitaria del Covid-19 en 2020
Tomas Kierszenowicz .......................................................................................... e01404
MEDO DA MORTE E SOLIDÃO: os cuidados paliativos para pacientes com câncer
em tempos de Covid-19 na ótica dos profissionais de saúde
Weverson Bezerra Silva ....................................................................................... e01405
RENDA BÁSICA DO ZIKA À COVID-19: amparando as trabalhadoras do cuidado em
emergências humanitárias
Juliana Santana, Raquel Lustosa, Luciana Brito, Ilana Ambrogi, Martha Ysis e Aissa
Simas ..................................................................................................................... e01406
NUTRICÍDIO DA POPULAÇÃO NEGRA EM TEMPOS DE COVID-19: Analisando os
impactos do encontro de crises no Nordeste rural brasileiro
Nádja Silva e Thayonara Santos ........................................................................... e01407
PANDEMIA, SINDEMIA E ENVELHECIMENTO: o que temos a dizer sobre isso?
Artur Pereira Quinteiro Costa e Marcia Reis Longhi ........................................... e01408
ASPECTOS SINDÊMICOS ENTRE SAÚDE MENTAL E COVID-19 NO CONTEXTO DA
RESISTÊNCIA TUPINAMBÁ DE OLIVENÇA (BAHIA)
Amanda Silva Rodrigues e Sônia Weidner Maluf ................................................ e01409
“É UMA DOR SEM LIMITES”: o adoecimento, a morte e o luto na pandemia de
Covid-19
Érica Quinaglia Silva e Karla Roberta Mendonça de Melo .................................. e01410
ADOECIMENTO MENTAL DE ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS NO BRASIL: antes
e durante a pandemia de Covid-19
Rafael de Mesquita Ferreira Freitas ...................................................................... e01411
DOSSIÊ ETNOGRAFIAS DE UMA SINDEMIA:
A COVID-19 E SUAS INTERAÇÕES
Ethnographies about a sindemics: Covid-19 and interactions
Etnografías de una sindemia: Covid-19 y sus interacciones
Mónica Franch
Professora de Antropologia, Universidade Federal da Paraíba
E-mail: monicafranchg@[Link]
Sônia Weidner Maluf
Professora de Antropologia, Universidade Federal de Santa Catarina
E-mail: soniawmaluf@[Link]
Mariana Simões
Fundação Dom Cabral
E-mail: marianalvesimoes@[Link]
Soraya Fleischer
Professora de Antropologia, Universidade de Brasília
E-mail: soraya@[Link]
Áltera, João Pessoa, Número 14, 2022, e01402, p. 1 -10
ISSN 2447-9837
FRANCH, Mónica; MALUF, Sônia Weidner; SIMÕES, Mariana, FLEISCHER, Soraya
A IDEIA DE “SINDEMIA”
O dossiê “Etnografias de uma sindemia: a Covid-19 e suas interações” reúne
artigos resultantes de pesquisas antropológicas realizadas em tempos pandêmicos
com foco nas dimensões sindêmicas da Covid-19. O termo sindemia remonta à déca-
da de 1990. Neologismo resultado da união das palavras “sinergia” e “epidemia”, o
conceito foi cunhado e utilizado pelo antropólogo médico Merrill Singer, inicialmente
para refletir sobre o contexto de crise sanitária que a Aids representava entre a po-
pulação urbana pobre dos Estados Unidos (SINGER, 1994); e também sobre o abuso
de substâncias entre porto-riquenhos morando no país (SINGER, 1995). Conforme o
próprio autor, numa acepção potencialmente muito mais ampla e abrangente:
Propus o termo ‘sindêmico’ para me referir ao complexo inter-relacionado de crises
de saúde e crises sociais enfrentadas pelos pobres urbanos. Assim como
os termos epidemia e pandemia (propagação de problemas de saúde de
distribuição local ou extra-local), o sufixo de sindemia é derivado da pala-
vra grega ‘demos’ (o povo), enquanto o prefixo é retirado do termo gre-
go para ‘trabalhar em conjunto’. Em outras palavras, uma sindemia é um
conjunto de problemas de saúde estreitamente interligados e mútuos que
afetam significativamente o estado geral de saúde de uma população no
contexto de uma configuração perpetuante de condições sociais nocivas
(SINGER, 1996, p. 99, tradução nossa1).
Desse modo, o conceito de sindemia se refere ao inter-relacionamento de duas
ou mais doenças, crises de saúde e também crises sociais, e tem o intuito de rotular
e evidenciar a carga excessiva que resulta dessa interação. Merrill Singer e Scott Clair
(2003, p. 429) reforçam que, para além do enfoque de interação no nível biológico en-
tre doenças, a sindemia também diz respeito e está diretamente relacionada ao social,
uma vez que as doenças e suas interações se desenvolvem e são sustentadas em uma
população também em decorrência de vulnerabilidades e condições sociais prejudiciais.
Desde o surgimento do conceito, diversos trabalhos em diferentes áreas –
não apenas dentro do campo da antropologia médica estadunidense – se dedicaram
a pensar sobre o tema. Emily Mendenhall (2016), por exemplo, discute as interações
sinérgicas que caracterizam uma sindemia em sua pesquisa sobre comorbidade, de-
pressão e diabetes em populações da África do Sul, dos Estados Unidos e da Índia.
Já Thomas Novotny e seus colegas (2017) definem o HIV/Aids, a tuberculose e o ta-
1 “I proposed the term ‘syndemic’ to refer to the interrelated complex of health and social crises
facing the urban poor. Like the terms epidemic and pandemic (spreading health problems of local or
extralocal distribution), the suffix of syndemic is derived from the Greek word demos (the people),
while the prefix is taken from the Greek term for ‘working together.’ In other words, a syndemic is a
set of closely intertwined and mutual enhancing health problems that significantly affect the overall
health status of a population within the context of a perpetuating configuration of noxious social
conditions.”
4
Dossiê etnografias de uma sindemia: a Covid-19 e suas interações
bagismo como três epidemias que agem de maneira independente, mas que, juntas,
conformam uma sindemia.
Em 2020, em decorrência da declaração de Emergência de Saúde Pública de
Importância Internacional (ESPII) causada pela Covid-19, o conceito de sindemia foi
trazido para o contexto da nova pandemia. Em um comentário na revista The Lancet,
Richard Horton (2020) defendeu que a Covid-19 não se tratava de uma pandemia,
mas sim de uma sindemia, sublinhando a importância de ver a nova doença sob essa
ótica, como forma de frisar suas origens e consequências sociais. Em consonância
com Horton, no ano seguinte, e já pensando no contexto brasileiro, José Patrício
Bispo Júnior e Djanilson Barbosa dos Santos (2021) publicaram um ensaio que parte
dessa mesma concepção, retomando e revisando o conceito de sindemia e propondo
fundamentos para uma abordagem mais abrangente em saúde, frisando que “pro-
blemas complexos demandam soluções abrangentes, estruturais e de longo prazo”
(BISPO JÚNIOR; SANTOS, 2021, p. 11). No ensaio deles, a Covid-19 é analisada como o
resultado da interação entre várias doenças e o contexto socioeconômico.
A abordagem sindêmica se propõe a ser inovadora não apenas por compreen-
der a dimensão inter-relacionada de diferentes patologias e condições de saúde, mas
por mostrar a relação estreita dessas interações com o contexto social, econômico e
ambiental dos diferentes grupos afetados, e por sugerir ainda que essas circunstân-
cias se potencializam mutuamente.
Há um desdobramento evidente dessas compreensões em termos de políticas
de enfrentamento, de produção de conhecimento e de práticas de saúde e cuidado,
mas nossa intenção neste dossiê foi pensar essas interações a partir da antropologia,
de modo mais geral, e a partir dos diversos contextos de pesquisa e atuação das pes-
quisadoras e pesquisadores da rede Antropo-Covid, de modo mais localizado. Esta
rede foi formada ainda em 2020, a partir do projeto de pesquisa “Estado, populações
e políticas locais no enfrentamento à pandemia de Covid-19: análise social e diretrizes
de ação e intervenção não farmacológica em populações em situação de vulnerabi-
lidade e precariedade social”. A iniciativa foi desenhada como uma resposta direta,
criativa e científica da área da antropologia face à pandemia. A rede é coordenada
por três de nós, Sônia Weidner Maluf, Mónica Franch e Soraya Fleischer; é composta
por seis diferentes universidades, UFPB, UFSC, UFAM, UFPA, UnB e Unicentro, de
quatro regiões brasileiras, Nordeste, Norte, Centro-Oeste e Sul; e conta com a parti-
cipação de doze professoras e dezenas de seus estudantes, orientandos e bolsistas
de graduação e pós-graduação. A rede apoiou a realização de muitas pesquisas de
campo, de documentos e de arquivos e vem, desde então, escrevendo textos, orga-
nizando eventos e publicando seus resultados. Este dossiê, ao reunir nove artigos de
vinte pesquisadores, é um produto direto da rede Antropo-Covid.
5
FRANCH, Mónica; MALUF, Sônia Weidner; SIMÕES, Mariana, FLEISCHER, Soraya
O DOSSIÊ
Em novembro de 2021, lançamos uma chamada interna aos pesquisadores que
compõem a rede do Projeto Antropo-Covid. A chamada ficou aberta por um par de
meses, e quinze resumos foram selecionados, sobretudo pela sua adesão à proposta
do dossiê, de abordar a pandemia de Covid-19 a partir de uma abordagem sindêmi-
ca. Até março de 2022, chegaram nove artigos completos; nós lemos e comentamos
cada um deles. Os autores tiveram mais um mês para realizar essa primeira revisão.
Em seguida, os artigos foram lidos e avaliados por pareceristas ad hoc e todos foram
aprovados. À luz das ótimas sugestões e correções, uma segunda revisão foi feita
pelos autores. Lemos, realizamos os últimos ajustes, e os artigos foram finalizados
em agosto de 2022.
Desde o início, quando desenhamos a chamada para este dossiê, quisemos en-
volver um periódico que fosse ligado a uma das universidades que compõem a rede
Antropo-Covid. Quando consultada, a revista Áltera (UFPB) prontamente se interes-
sou pelo tema e acolheu a nossa proposta. Em setembro, o conjunto de nove artigos
foi enviado para revisão de língua portuguesa e diagramação. E agora o dossiê vai ao
ar.
Ressaltamos a diversidade de temáticas e de procedências institucionais e re-
gionais dos autores e autoras. Agrupamos os nove artigos em três grandes temas,
todos em relação direta com a pandemia de Covid-19: serviços de saúde; vulnera-
bilidades e políticas públicas; e saúde mental. No primeiro tema, Luziana Marques
da Fonseca Silva, socióloga, Francisco Paulino de Oliveira Neto e Gabriel Cavalcante
Bueno de Moraes, graduandos em Antropologia, todos da UFPB do campus Rio Tin-
to/PB, discutem como as dificuldades existentes para a descentralização do cuidado
em HIV/Aids em municípios de médio e pequeno porte (que incluem tensões entre
lógicas territoriais, simbólicas e programáticas) se viram potencializadas a partir da
reorganização dos serviços para o enfrentamento à Covid-19. O artigo tem por base
entrevistas com gestoras da saúde do município de Rio Tinto, realizadas remotamen-
te em função das medidas socio-sanitárias de distanciamento social. No segundo ar-
tigo deste dossiê, Tomas Kierszenowicz, mestrando em Antropologia Social na UnB,
também trata do encontro entre estes dois vírus, HIV e o novo coronavírus, mas no
cenário de um hospital em Buenos Aires. A partir do acompanhamento das reuniões
remotas da equipe de saúde, o autor mostra como foram se redesenhando as rotinas
no espaço hospitalar e traz casos que revelam as tensões e estratégias dos profis-
sionais diante de diagnósticos incertos. Já Weverson Bezerra Silva, doutorando em
Antropologia pela UFPB, detalha os serviços de saúde pela ótica dos profissionais da
saúde responsáveis pelos cuidados paliativos de pacientes oncológicos num hospital
6
Dossiê etnografias de uma sindemia: a Covid-19 e suas interações
do câncer da Paraíba. A observação do cotidiano hospitalar antes e durante a pan-
demia (pós-vacinação) é um dos elementos de interesse desse artigo, que também
discute o impacto emocional da pandemia para as equipes, com destaque para os
sentimentos de medo e solidão. Aqui, em termos metodológicos, temos três exem-
plos do que chamamos, na área da antropologia da saúde, de “etnografias em servi-
ços de saúde” (FLEISCHER; FERREIRA, 2014), com a entrada, a circulação e o convívio
dos pesquisadores em instituições como unidades básicas de saúde, ambulatórios,
alas de internação, consultórios, salas de espera etc. Em tempos de pandemia, essas
etnografias também precisaram se adaptar aos “novos protocolos” (menos tempo
em campo, uso de EPI, circulação mais restrita), além de incluírem “o modo remo-
to” para as interações com os interlocutores (entrevistas em plataformas digitais,
acompanhamento de grupos de WhatsApp, entre outras mediações). Além disso, os
autores desse primeiro bloco de artigos revelam como outras doenças crônicas ou
cronificadas perderam prioridade, espaço e atenção específica quando os serviços se
tornam “referência” para o atendimento de pacientes com Covid-19.
No segundo tema, que aborda a Covid-19, vulnerabilidades e políticas públi-
cas, Juliana Santana, Raquel Lustosa, Luciana Brito, Ilana Ambrogi, Martha Ysis e
Aissa Simas, antropólogas, sanitaristas e bioeticistas que atuam na organização não
governamental Anis (Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero) em Brasília,
notaram o encontro sindêmico entre o novo coronavírus e o vírus da zika no estado
de Pernambuco. Sobretudo, constataram como as mães, principais cuidadoras das
crianças com a Síndrome Congênita do Vírus Zika (SCVZ), têm lidado com a queda de
renda, e a diminuição do acesso aos direitos básicos e às políticas públicas para suas
crianças com deficiência. Em especial, acompanhamos os desafios que essas mulhe-
res, jovens, negras e periféricas, tiveram que enfrentar para efetivar a política públi-
ca do “auxílio emergencial” durante a fase crítica do isolamento social. Nádja Silva
e Thayonara Santos, respectivamente mestrandas em Antropologia e Sociologia na
UFPB, também pesquisaram os impactos da pandemia sobre a renda e a segurança
alimentar de populações negras e rurais. Ambas destacaram como, durante a pan-
demia, a extinção de políticas historicamente construídas e consolidadas, a exemplo
do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), contribuiu di-
retamente para o incremento do nutricídio no país. Já Artur Pereira Quinteiro Costa,
mestrando em Antropologia, e Marcia Reis Longhi, antropóloga, ambos da UFPB,
voltaram seu interesse para as articulações entre velhice, vulnerabilidade e pande-
mia. Para isso, investigaram uma instituição de longa permanência para idosos no
sertão de Pernambuco, analisando as consequências da pandemia para esses idosos
e descrevendo em mais detalhes a história de um morador, que acabou falecendo de
Covid-19. Deficiência, nutrição, raça, local de moradia e geração são todos aspectos
7
FRANCH, Mónica; MALUF, Sônia Weidner; SIMÕES, Mariana, FLEISCHER, Soraya
intensamente atravessados pela pandemia, e que também revelam o caráter sindê-
mico da situação que atravessamos desde março de 2020, agudizando as vulnerabili-
dades dos grupos com os quais a antropologia frequentemente trabalha. Esses três
artigos demonstram, ademais, como as políticas públicas brasileiras pouco se sensi-
bilizaram com as realidades de iniquidade enfrentadas por essas e outras populações
vulneráveis.
Por fim, no terceiro e último tema deste dossiê, três realidades diferentes
comprovam o impacto da pandemia no bem-estar, nas emoções e nas condições
psicossociais das pessoas. Amanda Silva Rodrigues e Sônia Weidner Maluf, ambas
antropólogas, uma da Universidade Estadual de Santa Cruz/BA e outra da Universi-
dade Federal de Santa Catarina, mostram como a Covid-19 intensifica as questões
de sofrimento e saúde mental que já acompanhavam os Tupinambá em sua luta por
reconhecimento cultural e territorial no município de Olivença/BA. As autoras defen-
dem que a abordagem sindêmica, no caso em tela, revela a dimensão coletiva das
experiências de doença e sofrimento, que atingem a comunidade como um todo. Evi-
denciam, também, como os Tupinambá se mobilizaram para levar suas reivindicações
ao Estado e para garantir sua autoproteção durante a pandemia, praticando o isola-
mento social comunitário em seus territórios. No cenário do Distrito Federal, a antro-
póloga Érica Quinaglia Silva e a enfermeira e mestranda em Ciências e Tecnologias da
Saúde Karla Roberta Mendonça de Melo, ambas da Faculdade de Ceilândia da UnB,
também notaram como processos difíceis de envelhecimento foram exponenciados
pela pandemia. No único artigo com foco quanti-qualitativo, essas duas autoras iden-
tificaram idosos e idosas da capital federal com possível depressão e ansiedade, para
entender como lidaram com a pandemia em suas vidas. O adoecimento, a dor, o luto,
o silenciamento e a solidão compõem a experiência desses interlocutores e agravam
seu sofrimento mental. Por fim, Rafael de Mesquita Ferreira Freitas, doutorando em
antropologia social na UnB, retoma uma pesquisa realizada em Fortaleza/CE, para
comparar a saúde mental de estudantes universitários antes e depois da chegada
da Covid-19. Solidão, ansiedade, depressão, tentativas de suicídio, medo da morte,
óbito, luto, viuvez, orfandade, silenciamento da dor são realidades que vinham sen-
do enfrentadas por todos esses interlocutores, mas que só se intensificaram, nessas
localidades da Bahia, Ceará e Brasília.
Todos os trabalhos publicados nesta coletânea partem de uma abordagem
social dos fenômenos de adoecimento, sofrimento, saúde e cura. A abordagem da
saúde nas ciências sociais pressupõe sua articulação com diferentes dimensões da
vida social, coletiva e individual. Nenhuma crise de saúde acontece sem essas cone-
xões. O conceito de sindemia nos permite especificar melhor o modo como essas
8
Dossiê etnografias de uma sindemia: a Covid-19 e suas interações
conexões acontecem, e como os diferentes vetores (de saúde, doença e de outros
problemas vividos pela população) se somam a uma ou mais doenças ou crises sani-
tárias. No caso da maior parte das situações analisadas, a sindemia se relaciona ainda
a contextos de violência estrutural, como desigualdade, racismo e outras formas de
discriminação. Para Singer e Rylko-Bauer (2021), essa é uma dimensão central para
entender os impactos da Covid-19 e sua natureza sindêmica.
Aproveitamos para agradecer a todos os autores, coautores, seus interlocu-
tores de pesquisa, seus orientadores e grupos de pesquisadores. Também somos
gratas ao corpo de pareceristas, à revisora, à diagramadora e à querida comissão
editorial da Áltera, tanto em sua composição anterior (que acolheu a nossa proposta)
quanto na atual (que viabilizou sua publicação). Em especial, agradecemos a Mariana
Simões, que secretariou todo o trabalho de composição deste dossiê, do seu início
em 2021 até o momento em 2022, e que também assina essa apresentação conosco.
E sem nossos financiadores, nossas universidades e a parceria entre tantas colegas
e pesquisadoras da rede Antropo-Covid nestes anos pandêmicos – e sindêmicos! –,
este dossiê teria sido impossível.
Boa leitura!
9
FRANCH, Mónica; MALUF, Sônia Weidner; SIMÕES, Mariana, FLEISCHER, Soraya
REFERÊNCIAS
BISPO JÚNIOR, José Patrício; SANTOS, Djanilson Barbosa dos. Covid-19 como sinde-
mia: modelo teórico e fundamentos para a abordagem abrangente em saúde. Ca-
dernos de Saúde Pública [online], Rio de Janeiro, v. 37, n. 10, p. 1-14, 2021. Disponível
em: <[Link] Acesso em: 21 out. 2022.
FLEISCHER; Soraya; FERREIRA, Jaqueline (org.). Etnografias em serviços de saúde.
Rio de Janeiro: Garamond, 2014.
HORTON, Richard. Offline: Covid-19 is not a pandemic. The Lancet [online, s. l.], v.
396, n. 10255, p. 874, 26 set. 2020. Disponível em: <[Link]
nals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)32000-6/fulltext>. Acesso em: 21 out. 2022.
MENDENHALL, Emily. Beyond comorbidity: a critical perspective of syndemic de-
pression and diabetes in cross-cultural contexts. Medical Anthropology Quarterly
[online, s. l.], v. 30, n. 4, p. 462-478, dez. 2016. Disponível em: <[Link]
org/article/MED/25865829#free-full-text>. Acesso em: 21 out. 2022.
NOVOTNY, Thomas et al. HIV/Aids, tuberculose e tabagismo no Brasil: uma sinde-
mia que exige intervenções integradas. Cadernos de Saúde Pública [online], Rio de
Janeiro, v. 33, n. supl. 3, e00124215, 2017. Disponível em: <[Link]
0102-311X00124215>. Acessado em: 12 ago. 2022.
SINGER, Merrill. A dose of drugs, a touch of violence, a case of Aids: conceptualizing
the SAVA syndemic. Free Inquiry in Creative Sociology, Stillwater, v. 24, n. 2, p. 99-
110, nov. 1996.
SINGER, Merrill. Providing substance abuse treatment to Puerto Rican clients living
in the U.S. In: Providing substance abuse treatment in the era of Aids. Washington,
DC: CSAT, 1995.
SINGER, Merrill. Aids and the health crisis of the U.S. urban poor; the perspective of
critical medical anthropology. Social Science & Medicine [s. l.], v. 39, n. 7, p. 931-48,
out. 1994.
SINGER, Merrill; CLAIR, Scott. Syndemics and public health: reconceptualizing di-
sease in bio-social context. Medical Anthropology Quarter [online, s. l.], v. 17, n. 4,
p. 423-41, 2003. Disponível em: <[Link]
abs/10.1525/maq.2003.17.4.423>. Acesso em: 21 out. 2022.
SINGER, Merrill; RYLKO-BAUER, Barbara. The syndemics and structural violence
of the Covid pandemic: anthropological insights on a crisis. Open Anthropological
Research, Varsóvia, v. 1, n. 1, p. 7-32, 2021.
10