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Fisiopatologia da Sepse e Choque Séptico

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Nasser Fraga
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Sepse e Choque Séptico

A sepse é uma condição clínica grave vascular aumenta, permitindo que fluidos
caracterizada por uma resposta vazem para o interstício, resultando em
inflamatória exacerbada e desregulada edema tecidual. Esse edema prejudica
do sistema imune, desencadeada por a perfusão sanguínea e a oxigenação
uma infecção. Embora a infecção possa dos tecidos, gerando hipoperfusão e
ser local, a ativação exagerada das vias hipóxia celular, o que contribui
imunológicas leva a uma inflamação diretamente para a falência de múltiplos
sistêmica, resultando em disfunção de órgãos.
múltiplos órgãos e sistemas. A
fisiopatologia da sepse envolve a Além disso, a inflamação sistêmica afeta
liberação maciça de mediadores a função mitocondrial, comprometendo
inflamatórios, como citocinas, que a produção de energia nas células
promovem um estado de inflamação afetadas. A falta de energia essencial
descontrolada e autossustentada. Esse para manter as funções celulares agrava
processo leva a uma cascata de eventos ainda mais a disfunção orgânica. A
fisiológicos prejudiciais, incluindo fagocitose, processo pelo qual células
vasodilatação generalizada, aumento imunes eliminam patógenos, também
da permeabilidade capilar, redução do contribui para esse quadro, pois, na
volume sanguíneo efetivo e queda na sepse, pode ocorrer dano colateral às
pressão arterial. células saudáveis durante a resposta
desregulada. Assim, a inflamação
Fisiopatologia crônica, associada ao dano tecidual,
A disfunção orgânica na sepse ocorre cria um ciclo vicioso que perpetua a
devido à intensa resposta inflamatória disfunção de órgãos e sistemas.
desencadeada pela invasão de micro-
organismos patogênicos em áreas A resposta inflamatória na sepse inicia-se
normalmente estéreis do corpo. Esse com a ativação do sistema imunológico
processo aciona uma resposta inato em resposta à infecção ou ao dano
imunológica complexa, na qual células tecidual, levando à liberação de citocinas
imunológicas, como os macrófagos, pró-inflamatórias como TNF, IL-1 e IL-6.
reconhecem os patógenos e ativam Essas citocinas promovem inflamação e
uma cascata inflamatória. Esses desencadeiam uma série de efeitos
macrófagos liberam citocinas pró- sistêmicos, incluindo febre, produção de
inflamatórias, como TNF-alfa, IL-1 e IL- proteínas de fase aguda e ativação de
6, que amplificam a resposta imune e células endoteliais. Esse ambiente
recrutam mais células inflamatórias altamente inflamatório também ativa o
para o local da infecção. Como sistema de coagulação, convertendo
consequência, há um desequilíbrio entre fibrinogênio em fibrina, o que, aliado à
fatores pró e anti-inflamatórios, levando formação de trombos em
a uma inflamação sistêmica que microvasculaturas, resulta em lesão
compromete a função dos órgãos. endotelial e obstrução do fluxo
sanguíneo. A hipóxia subsequente
A ativação exacerbada do sistema agrava o quadro inflamatório, levando à
imunológico na sepse também provoca a liberação de mais mediadores
liberação de mediadores inflamatórios inflamatórios e à formação de
que afetam a função endotelial, microtrombos, o que contribui para a
comprometendo a barreira disfunção orgânica.
vasculotissular. A permeabilidade
Sepse e Choque Séptico

No contexto da sepse, ocorre também equilíbrio entre combater a infecção e


uma redução das proteínas minimizar os danos teciduais causados
anticoagulantes, como a proteína C e S, pela resposta inflamatória e pela
a antitrombina e os inibidores da via do ativação da coagulação pode ser uma
fator tecidual, o que exacerba o estado estratégia eficaz no manejo da sepse.
pró-trombótico. A isquemia tecidual Manifestações Clínicas:
resultante é uma consequência crítica, já
que a insuficiência de oxigênio agrava a
disfunção orgânica. A lesão citopática,
resultante de danos celulares diretos e
de aumento da apoptose, também
desempenha um papel importante na
progressão do quadro. A coagulação
intravascular disseminada (CIVD)
representa um estágio avançado da
sepse, caracterizado por
Disfunções Orgânicas da Sepse/
microtromboses generalizadas e
Choque Séptico:
hemorragias, que agravam o quadro
clínico. Cardiovascular: A taquicardia,
hipotensão e hiperlactatemia indicam um
aumento da demanda cardíaca devido à
inflamação e uma perfusão inadequada
de oxigênio aos tecidos. A diminuição da
perfusão periférica, edema e livedo
refletem a má circulação e hipoperfusão
A fisiopatologia da sepse pode ser periférica. Elevações de enzimas
dividida em duas fases: a ativação cardíacas e arritmias podem ser sinais
benéfica e a prejudicial da coagulação. de sofrimento cardíaco, possivelmente
Na fase inicial, a ativação da coagulação levando a disfunção miocárdica. A sepse
ajuda a conter a hemorragia e facilita a também afeta gravemente o sistema
eliminação de patógenos através da cardiovascular. A resposta inflamatória
ativação de peptídeos antimicrobianos, desencadeia vasodilatação sistêmica,
promovida pela proteólise de fatores de causando hipotensão (pressão arterial
coagulação. Assim, a coagulação baixa). Há uma redução na resistência
funciona como uma barreira física contra vascular sistêmica, e o coração tenta
a disseminação de patógenos. No compensar isso aumentando a
entanto, a ativação excessiva da frequência cardíaca (taquicardia). No
coagulação, como visto na fase entanto, a perfusão tecidual permanece
avançada, contribui para a formação de comprometida, o que resulta em
trombos microvasculares que geram hipoperfusão de órgãos vitais. Em
hipóxia e danos teciduais. Esses casos avançados, o músculo cardíaco
trombos reduzem a perfusão sanguínea, pode ser diretamente afetado pela
levando à isquemia e à disfunção inflamação e mediadores tóxicos,
orgânica. resultando em disfunção miocárdica
séptica, caracterizada por uma
Por fim, a administração de diminuição da contratilidade cardíaca,
anticoagulantes surge como uma que agrava ainda mais a hipoperfusão e o
abordagem terapêutica potencial. O choque.
Sepse e Choque Séptico

disfunção cognitiva.

Hematológica: A plaquetopenia (baixa


contagem de plaquetas) e as alterações
no coagulograma indicam a ativação da
coagulação, que pode evoluir para
coagulação intravascular disseminada
(CIVD). A anemia, leucopenia (baixa
contagem de glóbulos brancos) e desvio
Respiratória: A dispneia (dificuldade à esquerda (presença aumentada de
para respirar), taquipneia (respiração formas jovens de glóbulos brancos) são
rápida), cianose (coloração azulada da reflexos da resposta inflamatória e da
pele) e hipoxemia (baixa concentração disfunção hematopoiética.
de oxigênio no sangue) são indicativos de
insuficiência respiratória. A resposta Gastroenterológicas: A gastroparesia
inflamatória pode levar à síndrome do (diminuição do esvaziamento gástrico),
desconforto respiratório agudo íleo adinâmico (paralisação do intestino),
(SDRA), uma complicação comum na úlceras de stress, hemorragias
sepse. digestivas, diarreia e distensão
abdominal refletem o impacto da sepse
Neurológica: A confusão, redução do no sistema gastrointestinal, que pode
nível de consciência, delírio, agitação e sofrer com hipoperfusão e danos da
polineuromiopatias refletem disfunções mucosa, predispondo a lesões e
neurológicas que ocorrem devido à infecções secundárias.
hipoperfusão cerebral e lesão
inflamatória do sistema nervoso. A Hepáticas: A colestase (diminuição do
encefalopatia séptica é uma fluxo biliar), aumento de enzimas
complicação neurológica frequente. canaliculares e elevação discreta de
transaminases indicam disfunção
OBS: Encefalopatia Associada à Sepse hepática, com possível desenvolvimento
(SAE) - a disfunção neurológica de insuficiência hepática. O fígado pode
causada por alterações metabólicas e ser afetado pela hipoperfusão e pelo
inflamatórias no cérebro durante a impacto da inflamação sistêmica.
sepse. Os mediadores inflamatórios,
como citocinas, podem atravessar a Endócrinas e Metabólicas: A
barreira hematoencefálica e alterar o hiperglicemia, hipertrigliceridemia,
funcionamento neural. Além disso, a catabolismo proteico e
perfusão cerebral pode ser hipoalbuminemia refletem um estado de
comprometida, contribuindo para a estresse metabólico grave. A hipotensão
por comprometimento adrenal e a
redução dos hormônios tireoidianos
indicam disfunções no eixo hipotálamo-
Sepse e Choque Séptico

hipófise-adrenal e tireoidiano, comuns em choque séptico apresentam uma alta


estados sépticos avançados. mortalidade, e seu manejo exige
intervenções agressivas, incluindo
Renal: A oligúria (diminuição da fluidoterapia, vasopressores, suporte
produção de urina) e o aumento de ventilatório, e às vezes diálise.
escórias (acúmulo de substâncias tóxicas
no sangue, como ureia e creatinina) são qSOFA:
sinais de insuficiência renal aguda. Avaliação Rápida na Sepse
O qSOFA (Quick Sequential Organ
OBS: A disfunção renal ocorre devido à Failure Assessment) é uma ferramenta
má perfusão e lesão direta dos túbulos simplificada para avaliar rapidamente
renais. Na sepse, a disfunção renal é pacientes com suspeita de sepse fora
uma das complicações mais frequentes, de ambientes de UTI (pacientes com
manifestando-se principalmente como infecção). Ele inclui três critérios:
lesão renal aguda (LRA). Um dos 1) Frequência respiratória >
mecanismos centrais para essa disfunção 22/minuto (taquipneia)
é a perfusão renal inadequada e 2) Alteração no estado mental
heterogênea. A sepse induz um estado (Glasgow < 15)
inflamatório generalizado que afeta a 3) Pressão arterial sistólica < 100
vasculatura renal, levando à formação mmHg
de áreas de hipoperfusão (má A presença de 2 ou mais desses
perfusão) adjacentes a regiões de critérios em um paciente com infecção
perfusão relativamente normal. Essa sugere um risco aumentado de morte e
distribuição desigual do fluxo a necessidade de intervenções
sanguíneo renal contribui para a hipóxia imediatas. O qSOFA é uma forma prática
e lesão tecidual, agravando o quadro de e rápida de identificar pacientes em
oligúria e retenção de escórias risco de desenvolver sepse grave ou
(aumento de ureia e creatinina no choque séptico, permitindo que os
sangue). Além disso, a ativação do profissionais de saúde ajam rapidamente
sistema imune e da coagulação pode para mitigar os danos.
resultar em microtromboses nos
capilares renais, reduzindo ainda mais SOFA:
a perfusão glomerular e levando ao Padrão outro na Sepse. Escala mais
acúmulo de produtos tóxicos no abrangente que avalia a função de seis
organismo. sistemas orgânicos principais para
determinar a gravidade da disfunção
Choque Séptico orgânica em pacientes com suspeita de
O choque séptico é a forma mais grave sepse.
de sepse e se caracteriza por
hipotensão refratária à reposição
volêmica adequada, ou seja, mesmo
após a administração de fluidos, o
paciente continua com pressão arterial
baixa. Isso exige o uso de
vasopressores para manter a perfusão
tecidual. O choque séptico leva à falência A gravidade da sepse e do choque
de múltiplos órgãos devido à má séptico é tamanha que, a cada ano, 11
perfusão sustentada. Pacientes em
Sepse e Choque Séptico

milhões de pessoas morrem no mundo


em decorrência dessa condição. No
Brasil, são cerca de 400 mil casos
anuais de sepse em adultos, com uma
taxa de mortalidade de 60%. Em
crianças, ocorrem aproximadamente 42
mil casos anuais, com um índice de
mortalidade de 19%. Esses números
alarmantes refletem a urgência de
diagnósticos precoces e intervenções
rápidas para mitigar os danos fisiológicos
associados à sepse.

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