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Vulnerabilidade natural das águas subterrâneas no entorno da Embrapa
Milho e Sorgo
João Herbert Moreira Viana(1); Daniela Alcântara Machado(2) & Celso de Oliveira
Loureiro(3)
(1) Pesquisador, Embrapa Milho e Sorgo, Rod. MG 424 km 45, Sete Lagoas, MG, CEP 35.701-970,
[email protected] (apresentador); (2) Mestranda do Curso de Pós-Graduação em Saneamento, Meio Ambiente e
Recursos Hídricos, UFMG, Belo Horizonte, MG, CEP 31270-901, [email protected] ; (3) Professor,
Departamento de Engenharia sanitária e Ambiental, Belo Horizonte, MG, CEP 31270-901, [email protected]
Apoio: CNPq, Copasa
RESUMO: Esse trabalho visou um melhor oferecem riscos à qualidade das águas subterrâneas,
entendimento do sistema hidrogeológico e da principalmente pelo uso de agroquímicos
vulnerabilidade natural das águas subterrâneas à (fertilizantes e herbicidas) e seus metabólitos, que
contaminação por insumos da atividade agrícola na podem contaminar as águas subterrâneas e
área de influência da Embrapa Milho e Sorgo, em superficiais.
Sete Lagoas – MG. Foi realizada uma caracterização A avaliação da vulnerabilidade em áreas onde
geral da área de estudo com visitas aos principais existe um potencial de contaminação da água
locais de interesse hidrogeológico. Foram subterrânea apresenta-se útil na medida em que pode
executados furos de sondagem, medidas da auxiliar na priorização das diversas atividades de
infiltração de água no solo com permeâmetro de monitoramento ambiental. Pode-se, por exemplo,
Guelf, e instalados poços de monitoramento da
através da utilização de mapas de vulnerabilidade,
qualidade da água subterrânea e de medição do nível
definir áreas onde o monitoramento deva ser
d`água. Esse conjunto de dados foi utilizado para a
executado de maneira mais intensiva, bem como
caracterização do modelo de circulação hídrica
subterrânea. A partir desse modelo, foi desenvolvido auxiliar no planejamento de práticas
o modelo hidrogeológico computacional, utilizando conservacionistas visando à definição de áreas que
o aplicativo Visual MODFLOW. A avaliação devam ser protegidas de modo a garantir a
preliminar da vulnerabilidade à contaminação das integridade do aquífero em termos de qualidade da
águas subterrânea foi realizada a partir do modelo água.
qualitativo denominado DRASTIC Agrícola. O A utilização sustentável dos recursos hídricos
modelo hidrogeológico computacional indicou que o implica na adoção de medidas de gestão adequadas,
sentido principal do fluxo d`água subterrânea é dos que evitem a degradação desses recursos e que
divisores de água local em direção aos córregos permitam a sua proteção, especialmente em zonas
Jequitibá e Matadouro. O índice DRASTIC Agrícola sujeitas ao maior risco de poluição. A Embrapa
apresentou cinco classes de vulnerabilidade: baixa, Milho e Sorgo está localizada na região cárstica da
moderada, alta, muito alta e extrema, predominando Província Hidrogeológica do São Francisco.
a classe muito alta (26 km² ou 34 % da área Peculiaridades envolvendo os aquíferos cársticos
avaliada), associada às regiões próximas aos têm justificado inúmeros estudos realizados em suas
córregos Jequitibá e Matadouro. áreas de ocorrência, visto que esses aquíferos
apresentam grande importância como fonte de água
Palavras-chave: contaminação, aquífero, modelagem.
para abastecimento, mas também são vulneráveis à
contaminação. Como fornecedor de tecnologia na
INTRODUÇÃO
área de manejo e uso do solo, e tendo em vista a
As questões referentes à preservação dos crescente preocupação com a proteção dos
mananciais hídricos subterrâneos dependem das mananciais hídricos (superficial e subterrâneo), a
atividades que são adotadas em superfície, uma vez Embrapa Milho e Sorgo tem voltado suas atenções
que existem inúmeros sistemas de comunicação para o tema. Desta forma, o objetivo geral deste
entre o solo e as águas subterrâneas e superficiais. estudo foi fazer a caracterização hidrogeológica e a
Neste contexto, as atividades de origem agrícola
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avaliação preliminar da vulnerabilidade à topográficos;definição das condições de contorno,
contaminação das águas subterrâneas no entorno da tais como: cargas constantes, fluxo zero e drenos;
Embrapa Milho e Sorgo. incorporação das unidades hidroestratigráficas
MATERIAL E MÉTODOS definidas no modelo hidrogeológico conceitual;
A metodologia adotada para a realização deste atribuição dos valores dos parâmetros hidráulicos,
trabalho consistiu na integração das seguintes para cada unidade hidroestratigráfica, baseados em
atividades: levantamento bibliográfico e dados obtidos em campo e da literatura; e calibração
cartográfico; trabalhos de campo; caracterização do modelo por meio de ajustes nos valores da
geral da área de estudo; caracterização do modelo de recarga e dos parâmetros hidráulicos, utilizando
circulação hídrica subterrânea e caracterização da como referência os valores de cota d`água nos
vulnerabilidade e do risco de contaminação de poços, cisternas e nascentes, e da vazão nos
aquíferos. córregos.
Inicialmente foi realizado um reconhecimento O método utilizado para a avaliação e
geral da área de estudo, com visitas a pontos de mapeamento da vulnerabilidade natural das águas
interesse para o desenvolvimento desde estudo. Os subterrâneas no entorno da Embrapa foi o
locais visitados e cadastrados incluíram as DRASTIC Agrícola, desenvolvido por Aller et al.
nascentes, lagoas, cursos d`água, pontos de captação (1987). As informações necessárias para a aplicação
da água subterrânea (cacimbas e poços tubulares), do método foram obtidas por meio de investigações
afloramentos rochosos e as áreas de cultivo agrícola. de campo e em bases de dados disponíveis em
Foi então providenciada a execução de furos de instituições públicas e órgãos de pesquisa. O
sondagem, utilizando trado manual e mecânico, para software utilizado como ferramenta para montagem
descrição macroscópica do perfil do solo ou do do mapa preliminar de vulnerabilidade foi o
saprolito e localização do nível freático, quando ArcGIS, na versão 9.2, da empresa ESRI. O índice
possível. DRASTIC corresponde à soma ponderada de sete
Foi feita a medição da infiltração de água, valores que correspondem à avaliação dos seguintes
usando o permeâmetro de Guelph, nas mesmas áreas parâmetros hidrogeológicos (Fig. 1):
em que se realizou a sondagem a trado. Foram feitas D – Profundidade do Lençol Freático (Depth to
a perfuração e a instalação da rede de poços de groundwater);
monitoramento hidrogeológico e da qualidade da R – Recarga do Aquífero (Recharge rate);
água subterrânea; com a amostragem concomitante A – Materil do Aquífero (Aquifer media)
do material geológico nos furos a trado e nos poços S – Tipo de Solo (Soil media);
de monitoramento e a medição do nível d’água nos T – Topografia (Topography);
furos de sondagem a trado e nos poços de I – Influência da Zona Vadosa (Impact of the vadose
monitoramento. zone)
Após a caracterização da área de estudo, foram C – Condutividade Hidráulica do Aquífero
desenvolvidos o modelo hidrogeológico conceitual e (Hydraulic conductivity). O mapa preliminar da
o computacional. Para o modelo hidrogeológico vulnerabilidade foi elaborado através da álgebra de
conceitual, foram definidos: a área de influência e mapas (análise de
contornos topográficos da Embrapa; as unidades multi-critérios), utilizando o software ArcGIS
hidroestratigráficas existentes na área de estudo e as versão 9.2.
áreas de recarga e descarga do aquífero subterrâneo. Após a fase de atribuição de valores foi realizado
Para o desenvolvimento do modelo hidrogeológico o cruzamento dos sete mapas: mapa de profundidade
computacional foi utilizada a metodologia de do lençol freático (D), mapa de recarga do aquífero
Anderson & Woessner (1992), que se resume nas (R), mapa de tipo de aquífero (A), mapa de tipo de
seguintes etapas: definição da base topográfica; solos (S), mapa de topografia (T), mapa de impacto
definição do domínio e da malha do modelo da zona vadosa (I) e o mapa de condutividade
computacional, a partir da avaliação da área de hidráulica (C).
influência da Embrapa e os contornos A soma dos produtos dos pesos e índices de
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avaliação de cada parâmetro de vulnerabilidade tipo de material da zona vadosa e pela variação na
(Da*Dp+Ra*Rp+Aa*Ap+Sa*Sp+Ta*Tp+Ia*Ip+Ca* declividade do terreno. As classes de
Cp; na qual: a – índice de avaliação atribuída ao vulnerabilidade alta e muito alta (26 km² ou 34 %)
parâmetro e p – peso atribuído ao parâmetro), foram dominantes na área de estudo e estão
produziu a classificação final, transformada então distribuídas próximas aos córregos Jequitibá e
em vulnerabilidade natural à contaminação dos Matadouro, onde o nível d`água subterrânea está
aquíferos livres na área de estudo. mais próximo da superfície e as cotas topográficas
mais baixas. O mapa de vulnerabilidade denota a
RESULTADOS E DISCUSSÃO importância do fator profundidade do nível d`água
uma vez que a faixa de maior vulnerabilidade
corresponde à de menores profundidades do lençol
O modelo hidrogeológico computacional freático.
apresentou-se coerente com o respectivo modelo
conceitual, mostrando que o fluxo de água CONCLUSÕES
subterrânea ocorre dos altos topográficos em direção
às respectivas drenagens, no caso os córregos O modelo hidrogeológico computacional
Jequitibá e Matadouro, e de sul para norte, em desenvolvido nesse trabalho apresentou-se coerente
direção ao nível de base local, que é o rio das com o respectivo modelo conceitual. O mapa
Velhas. preliminar de vulnerabilidade natural do aquífero
freático mostrou que as vulnerabilidades variam de
O modelo indica que os pontos de baixa a extrema, com predomínio da vulnerabilidade
monitoramento denominados lagoas Olhos d’Água e muito alta e alta e que essa vulnerabilidade aumenta
Subida da Estação são áreas de descarga da água com a proximidade dos ribeirões Matadouro e
subterrânea, e na região da lagoa da Capivara o Jequitibá e diminui nos altos topográficos.
fluxo d`água subterrânea tende a ser epidérmico,
com uma contribuição limitada na parte superior do AGRADECIMENTOS
escoamento freático e em profundidade, o fluxo de Os autores agradecem o apoio da Copasa na
água sob a lagoa se direciona para os elementos de realização dos trabalhos e a bolsa do CNPq.
base, representados pela lagoa Olhos d´Água e
córrego Matadouro (Fig. 2a). Os índices de REFERÊNCIAS
vulnerabilidade obtidos variaram de 124 a valores
superiores a 200, permitindo o agrupamento de ALLER, L., et al. DRASTIC: a standardized system
cinco classes de vulnerabilidade: baixa, moderada, for evaluating ground water pollution potencial
alta, muito alta e extrema, com predominância, na using hydrogeologic settings. Washington, D.C.,
maior parte da área, de vulnerabilidade alta (índice U.S. Environmental Protection Agency, 1987. 643
de 160 a 179), conforme mostrado no mapa da Fig. p. (Publication EPA 600287035).
2b. ANDERSON, M. P.; WOESSNER, W.W. Applied
groundwater modeling: simulation of flow and
A Tab. 1 mostra os intervalos das classes de advective transport. Califórnia: Academic Press,
vulnerabilidade com os respectivos valores de área 381 p, 1992.
em km². É importante ressaltar que o índice MACHADO, DANIELA ALCÂNTARA.
determinado é independente da carga poluente. No Caracterização hidrogeológica e vulnerabilidade
caso de se pretender determinar o risco de uma natural das águas subterrâneas no entorno do
determinada área com relação a um tipo específico Centro Nacional de Pesquisa Milho e Sorgo - Sete
de poluente é necessário considerar outros fatores, Lagoas/MG. Dissertação de mestrado. Escola de
como as propriedades físico-químicas do poluente, a Engenharia, Universidade Federal de Minas Gerais,
intensidade de aplicação, a persistência do Belo Horizonte. 2011. 215 P.
contaminante no ambiente dentre outros. Para as
classes de vulnerabilidade baixa e moderada o risco
de poluição foi minimizado, principalmente, pela
profundidade mais elevada do lençol freático, pelo
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Tabela 1. Classes de vulnerabilidade para a área de estudo.
Intervalo de valores Classe de vulnerabilidade Área (km2) Fração da área (%)
124 - 139 Vulnerabilidade baixa 0,90 1,17
140 - 159 Vulnerabilidade moderada 16,23 20,92
160 - 179 Vulnerabilidade alta 26,49 34,14
180 - 199 Vulnerabilidade muito alta 23,43 30,20
>200 Vulnerabilidade extrema 10,53 13,58
Total 77,60 100,00
Figura 1. Planos de informações que foram combinados para a classificação da vulnerabilidade.
a b
Figura 2. Equipotenciais do nível d’água e direções do fluxo d’água subterrânea na área de trabalho, obtidas
através do modelo hidrogeológico computacional (a) e mapa preliminar da vulnerabilidade à
contaminação no entorno do CNPMS (b).