Cariologia
Diagnóstico das Lesões Cariosas
Responsável pelo Conteúdo:
Prof.ª M.ª Gizela Faleiros Dias Costa
Prof. Me. Gerson Lopes
Revisão Textual:
Prof. Me. Luciano Vieira Francisco
Revisão Técnica:
Prof. Dr. Claudio Froes Freitas
Diagnóstico das Lesões Cariosas
• Diagnóstico das Lesões de Cárie;
• Avaliação de Risco Individual de Cárie Dentária;
• Identificação das Lesões de Cárie;
• Inspeção Visual;
• Inspeção Tátil-Visual;
• ICDAS;
• Métodos Adicionais para a Detecção de Lesões de Cárie;
• Métodos Baseados na Luz.
OBJETIVO DE APRENDIZADO
• Adquirir conhecimentos teóricos relativos ao diagnóstico da cárie dentária, desenvolvendo
a competência para identificar as lesões cariosas de maneira segura e integral no paciente.
UNIDADE Diagnóstico das Lesões Cariosas
Diagnóstico das Lesões de Cárie
Diagnosticar significa identificar uma doença com base na descrição de seus sinais
e sintomas através de exames, sendo um processo bastante complexo. O método de
diagnóstico usual abrange três objetivos principais:
Análise dos sintomas relatados pelo paciente;
Avaliação dos sinais da doença;
Exame clínico e exames complementares.
Figura 1
Esses três pilares determinam o diagnóstico da doença. E é através de um bom diag-
nóstico que o profissional consegue elaborar um plano de tratamento que deverá ser
individualizado e personalizado.
Levando em consideração que a cárie dentária é uma doença complexa, ocasionada
pelo desequilíbrio do processo fisiológico de desmineralização e remineralização que
ocorre entre o dente e biofilme, o diagnóstico deverá estar fundamentado na identifica-
ção desse desequilíbrio.
Para a doença cárie, o cirurgião-dentista necessita de todo o processo de diagnóstico
para definir uma estratégia de tratamento abrangente, incluindo os sinais clínicos ocasiona-
dos pela doença cárie e avaliação da atividade de cárie e dos fatores etiológicos envolvidos.
Avaliação do risco de cárie Diagnóstico de Detecção das
atividade de cárie lesões cariosas
Figura 2 – Processo de diagnóstico da cárie dentária
Avaliação de Risco
Individual de Cárie Dentária
Considerando risco como a possibilidade de um episódio ocorrer em um período
após a exposição a um determinado fator, o risco à cárie dentária pode ser apontado
como a chance de uma pessoa desenvolver uma ou mais lesões cariosas, atingindo
determinado estágio de desenvolvimento da doença em um período. Desse modo, a de-
finição de avaliação de risco à cárie dentária seria a perspectiva de incidência da doença
(número de novas lesões incipientes ou cavitadas) por determinado período.
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A avaliação de risco à cárie dentária individual é de extrema relevância para a
elaboração de uma abordagem de tratamento que atenda à necessidade de cada pa-
ciente. Outro aspecto de fundamental importância no diagnóstico da doença cárie é a
atividade de cárie. Podemos considerá-la como o grau de progressão ou a velocidade
da doença. Consequentemente, o paciente que apresenta atividade de cárie já tem a
doença manifestada.
Avaliamos a atividade de cárie para determinar o risco de desenvolvimento e progres-
são das lesões, de modo que possamos estipular o tratamento preventivo e/ou terapêuti-
co adequado a cada caso. O cirurgião-dentista precisa saber distinguir entre doença ativa
e experiência pregressa de cárie. Presença de restaurações, lesões de cárie paralisadas
caracterizam que o paciente teve um episódio da doença, mas o que determina de fato
a presença da doença são lesões recentes ativas. A avaliação dos aspectos clínicos das
lesões de cárie ativas e inativas é essencial na rotina clínica e deve ser analisada em
conjunto com os fatores etiológicos da cárie dentária.
As lesões ativas em esmalte são porosas, rugosas e opacas, geralmente contínuas à
margem gengival livre, enquanto as lesões inativas se apresentam como lisas, polidas
e brilhantes. A cor escura da lesão cariosa pode ser um indicador de lesão inativa, mas
não pode ser empregada como único elemento de avaliação. Além disso, outro aspecto
relevante é a análise e detecção da profundidade das lesões.
Identificação das Lesões de Cárie
No momento em que a perda de mineral alcança um estágio em que podemos perce-
ber uma porosidade no esmalte ocasionada pela redução de translucidez, detectamos os
primeiros sinais clínicos da doença cárie. O ideal é que esses sinais clínicos sejam detec-
tados o mais precocemente possível, para que o profissional consiga intervir e recuperar
o equilíbrio da cavidade bucal do paciente.
Com o objetivo de uma melhor visualização e diagnóstico clínico diferencial das le-
sões de cárie ativas e inativas, é necessário realizar uma profilaxia profissional para a
remoção do biofilme dental. É essencial que a superfície dentária esteja limpa, seca e
bem iluminada.
As opções de exames para diagnóstico são inúmeras e podemos considerá-las desde
clássicas até as mais modernas, que serão detalhadas a seguir.
Inspeção Visual
Trata-se do método mais antigo, porém mais indicado e fundamental para avaliar a
atividade de cárie, identificando as lesões cariosas.
É rápido, de fácil execução, mais confortável para o paciente e rotineiramente utiliza-
do na prática clínica, sendo considerado indispensável para a decisão apropriada sobre
o tratamento.
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UNIDADE Diagnóstico das Lesões Cariosas
Inspeção Tátil-Visual
É a associação da inspeção visual combinada com a sondagem, que pode ser empre-
gada para remover o biofilme das superfícies dentárias e examinar a textura das lesões.
A sonda exploradora era utilizada para o exame, mas caiu em desuso. Por ser pontia-
guda, causava defeitos traumáticos irreversíveis na superfície dental, ocasionando maior
susceptibilidade à evolução de novas lesões, sendo considerada invasiva.
Figura 3 – Sonda exploradora
Fonte: Getty Images
Uma alternativa viável à substituição da sonda exploradora pontiaguda na inspeção
tátil-visual foi a sonda OMS (ball-point). Sua ponta ativa é esférica, apresentando tama-
nho ideal para auxiliar na identificação de microcavidades, não provocando danos em
superfícies desmineralizadas. É útil na remoção de biofilme dental e na análise de textura
da superfície dental.
Figura 4 – Sonda OMS ball-point
Fonte: PRO-Odonto Prevenção, 2012
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Em razão da grande importância da inspeção tátil-visual no diagnóstico das lesões
cariosas, foram sugeridos alguns índices para avaliar a severidade e atividade das lesões
de cárie utilizando um sistema de escores.
Para padronizar, um sistema de identificação apoiado na inspeção tátil-visual, melhoran-
do a sensibilidade do método diagnóstico, foi desenvolvido por um grupo de pesquisadores,
o International Caries Detection and Assessment System (ICDAS). O ICDAS objetiva de-
tectar e avaliar a severidade das lesões de cárie e tem como vantagens a detecção de lesões
iniciais e a oportunidade de subdividir as lesões cavitadas de acordo com a gravidade.
Importante!
Para a realização do ICDAS a superfície dental necessita estar limpa e iluminada. Primei-
ramente, os dentes são avaliados úmidos; depois são secos por apenas 5 segundos com
a seringa tríplice e reexaminados.
ICDAS
Inicialmente, o examinador identifica se o dente está hígido, selado, restaurado, se
apresenta coroa ou se está ausente. Em seguida, as superfícies são analisadas com o auxí-
lio da sonda OMS (ball-point) e classificadas em relação à severidade das lesões cariosas,
utilizando uma escala ordinal de 0-6, indicando de superfície hígida até cavitação extensa.
Assista ao vídeo “Projeto Homem Virtual | Formação de lesões de cárie em superfície
oclusal e o ICDAS”, disponível em: https://youtu.be/kf9bYCab7RU
Tabela 1 – Escores do ICDAS
Critério I (pontos) Característica visual
0 Dente sadio
1 Modificação inicial de esmalte evidente após secagem
2 Alteração de esmalte perceptível sem secagem
Cavitação identificada em esmalte sem tecido dentinário visível ou som-
3 breamento
4 Sombreamento da dentina com ou sem cavitação em esmalte
5 Cavitação com exposição da dentina
6 Cavitação extensa com exposição da dentina
Para ser considerado sadio (escore 0) um dente não pode apresentar alteração na
translucidez do esmalte após a secagem.
No caso de lesões iniciais sem cavitação, o índice sugere dois escores diferentes: 1
pressupondo uma lesão mais inicial, e 2 para mais profunda, porém, ambas em esmalte,
mas com a diferença de identificação após a secagem do dente, visto que lesões detecta-
das com o dente úmido são classificadas como escore 2, pois tendem a ser mais amplas.
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UNIDADE Diagnóstico das Lesões Cariosas
O escore 3 descreve uma provável descontinuidade no esmalte, que pode ser uma
microcavidade ou perda de contorno do sulco, porém, sem atingir a dentina.
As lesões indicadas com escore 4 são aquelas que já atingiram dentina, mas que
ainda estão recobertas por esmalte ou que apresentam microcavitação, não estando evi-
denciada na cavidade bucal. Contudo, mesmo localizando-se em dentina, a progressão
da lesão é menor, pois o biofilme não entra em contato direto com a dentina, devido à
estrutura da cavidade.
Os escores 5 e 6 especificam lesões mais preocupantes, com exposição de dentina.
Quando a cavidade se apresenta com esmalte opaco ou escurecido, e com menos da
metade da superfície com dentina evidenciada, classificamos como escore 5. Já o escore
6 demonstra uma cavidade bastante extensa, com perda de estrutura e dentina evidente.
A diferença entre os escores 5 e 6 está na extensão da lesão.
O ICDAS considera os diversos níveis de progressão da lesão de cárie, e tem como
objetivo sugerir uma linguagem internacional para identificar os diferentes graus de pro-
gressão das lesões, além de apontar a presença e o grau de profundidade das mesmas.
Avaliação da Atividade das Lesões de Cárie Utilizando o ICDAS
Para avaliar a atividade de cárie, foi proposto pelo ICDAS Committee um método
denominado ponderação mental, que consiste em o examinador, através do exame tátil-
-visual associado ao ICDAS, determinar, mediante características diferenciais, se a lesão
se encontra ativa ou inativa.
Códigos do Códigos do Códigos do
ICDAS 1, 2 ou 3 ICDAS 4 ICDAS 5 e 6
Ativa
Esmalte com opacidade, Ativa
esbranquiçado, amarelado, Cavidade mostrando
perda de brilho e rugosidade
Provavelmente ativa ao fundo tecido
à leve sondagem. amolecido à sondagem.
Área de estagnação de placa.
Inativa
Esmalte esbranquiçado, Inativa
amarronzado ou escurecido, Cavidade mostrando ao fundo
com aspecto brilhante, duro e aspecto brilhante e duro
liso à leve sondagem. Fora de à sondagem.
regiões de acúmulo de placa.
Figura 5 – Esquema de ponderação mental da atividade
da lesão de cárie (proposto pelo ICDAS Committee)
Fonte: Adaptada de PRO-Odonto Prevenção, 2012
A ponderação mental não utiliza uma escala ordinal como o ICDAS e é equivalente
a outros índices que analisam a atividade de cárie.
Diagnóstico e Decisão de Tratamento
O exame tátil-visual ainda é predominante na definição do plano de tratamento.
Aplicando o método ICDAS em conjunto com a avaliação da atividade das lesões, a
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ponderação mental, de modo que o cirurgião-dentista será capaz de estabelecer o
melhor plano de tratamento, que deverá ser individualizado conforme o risco de cárie
do paciente.
Desse modo, podemos resumir a decisão de tratamento da lesão de cárie utilizando
os 2 métodos como:
Quadro 1
Dente sadio • ICDAS escore 0: nenhum tratamento.
Lesões inativas • ICDAS escores 1 e 2: tratamento não operatório.
• ICDAS escores 1 e 2: tratamento não operatório;
Lesões ativas • ICDAS escores 3, 4 e 5: tratamento operatório ou não operatório;
• ICDAS escore 6: tratamento operatório.
Esses parâmetros podem auxiliar os clínicos na elaboração do plano de tratamento
personalizado para o paciente.
A inspeção tátil-visual, embora seja um método fundamental, apresenta alguns pro-
blemas, como não conseguir detectar lesões de cárie ocultas e interproximais. Com isto
são necessários outros exames complementares para o diagnóstico.
Métodos Adicionais para a
Detecção de Lesões de Cárie
Métodos Radiográficos
Em virtude de o exame tátil-visual apresentar algumas limitações, outros métodos
foram desenvolvidos no intuito de auxiliar e aumentar a precisão do diagnóstico da do-
ença cárie.
O método complementar mais empregado na rotina clínica é o exame radiográfico,
que consiste em um exame de diagnóstico por imagem utilizado desde a década de
1930. Apresenta maior estimativa relacionada à profundidade da lesão e auxilia na iden-
tificação de cáries interproximais e oclusais que já atingiram dentina, possibilitando um
monitoramento mais confiável da lesão.
A prescrição do exame radiográfico necessita de indicação específica, sendo adicio-
nal ao exame tátil-visual, sempre avaliando o risco versus benefício, uma vez que esse
exame expõe o paciente à radiação ionizante.
Para a detecção de lesões de cárie oclusais, proximais posteriores e lesões secundá-
rias, a técnica radiográfica mais apropriada é a interproximal. A posição do filme radio-
gráfico proporciona um paralelismo entre o dente e a incidência dos feixes de raios X,
possibilitando o alcance de uma imagem mais próxima do real, permitindo a visualiza-
ção das estruturas dentárias e possíveis alterações. Mas outros métodos radiográficos in-
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UNIDADE Diagnóstico das Lesões Cariosas
trabucais também podem ser aplicados para avaliar superfícies lisas, cáries secundárias
e cáries oclusais em esmalte.
Todas as técnicas radiográficas intrabucais precisam do uso de posicionadores ade-
quados. No caso da radiografia interproximal, uma aleta de mordida também pode ser
confeccionada com fita adesiva, para um melhor enquadramento, evitando sobreposi-
ções das superfícies proximais.
O que são posicionadores radiográficos? Disponível em: https://youtu.be/hrnYKhFRfpI
A despeito da técnica empregada, a condição fundamental para as radiografias de
identificação de lesões de cárie é que elas apresentem um bom contraste e uma densida-
de escura, garantindo a identificação dos tecidos duros. Além disso, precisam mostrar o
formato real dos dentes, sem sobreposições nas superfícies proximais.
Os receptores de imagem das radiografias intrabucais são películas convencionais
ou receptores digitais que abrangem um sensor ou uma placa de fósforo. As películas
convencionais são as mais usadas, mas em breve tenderão a desaparecer, devido a um
aumento expressivo no uso dos sensores digitais.
As radiografias digitais apresentam as vantagens de exibir a imagem com maior rapi-
dez, oferecendo a possibilidade de utilizar programas de detecção automática de lesão de
cárie, favorecendo à troca simples de radiografias entre os profissionais para a discussão
do diagnóstico e sendo de fácil armazenamento, necessitando de mínimo espaço no
disco rígido do computador.
Lesões de cárie podem ser precisamente identificadas tanto com radiografias digitais
quanto pelas convencionais à base de película. Porém, é necessário avaliar a questão
do investimento, pois mesmo que as radiografias digitais não necessitem de máquinas
de revelação e substâncias químicas, precisam de receptores de imagem que são mais
caros que as películas convencionais e de computadores e monitores para a exibição
das imagens.
Embora o exame radiográfico seja um método importante para o diagnóstico de
cárie, apresenta algumas desvantagens: a radiografia não detecta lesões em estágios
iniciais, pois tende a minimizar a real perda mineral das lesões. O método também não
avalia atividade das lesões de cárie e não especifica se há ou não a presença de cavidade.
Além disso, expõe o paciente ao risco das radiações ionizantes.
Método Baseado em Corrente Elétrica
Eletrocondutividade
Cada vez que uma corrente elétrica percorre um material, as características elétricas
deste indicam a extensão em que a corrente é conduzida. Quando se aplica uma corren-
te colocando na superfície um eletrodo, a resistência elétrica pode ser medida.
A constituição dentária é de esmalte, dentina e cemento, e cada estrutura apre-
senta uma condutividade específica. Os biomateriais com alta concentração de fluidos
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produzem mais corrente elétrica se comparados aos que apresentam menores concen-
trações – neste sentido, a dentina é mais condutiva do que o esmalte.
Você Sabia?
Esmalte mais poroso e imaturo é mais transmissor de corrente elétrica do que o es-
malte maduro.
Em um dente saudável, quando se aplica uma corrente elétrica, a condutância se
apresenta baixa e a resistência, alta. Entretanto, em um dente com lesão de cárie, a
condutância ficará alta e a resistência, baixa.
Um exemplo de aparelho que mede a resistência elétrica é o monitor elétrico de cá-
rie – Eletronic Caries Monitor (ECM) Vanguard. Este sistema é fundamentado em uma
única medida de frequência e condutância.
Figura 6 – Monitor elétrico de cárie (ECM)
Fonte: MALTZ et al., 2016
Há aumento de condutibilidade elétrica em tecidos cariados, de modo que o moni-
tor elétrico de cárie (EMC) demonstra boa precisão no diagnóstico de lesões profundas
em dentina, mas diminuída em lesões em esmalte e cárie rasa que já ultrapassou o
limite amelodentinário.
Esses aparelhos têm demonstrado resultados razoáveis com elevados valores de sen-
sibilidade, mas com baixa especificidade, sendo necessários até então mais estudos clí-
nicos para a aplicação dessa tecnologia na rotina clínica.
Métodos Baseados na Luz
Os recursos baseados tanto em luz quanto em correntes elétricas para detecção de
lesão de cárie são fundamentados na interpretação dos sinais físicos e foram desenvol-
vidos na expectativa de que pudessem substituir o exame radiográfico convencional
devido ao seu problema de expor o paciente à radiação ionizante. Apesar disso, ainda
não são tão acessíveis na rotina clínica.
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UNIDADE Diagnóstico das Lesões Cariosas
Um esmalte saudável é constituído de cristais compactados, dando uma aparência
translúcida, semelhante à de vidro. A coloração branco-amarelada dos dentes é conse-
quência do brilho da dentina atravessando a camada translúcida do esmalte. No dente, a
luz que reflete penetrará e será absorvida ou disseminada em seu interior.
A dispersão é mais provável do que a absorção em um dente saudável. Nesse senti-
do, a aparência esbranquiçada acontece devido ao fato de que a absorção é mais baixa
do que a dispersão. Um leve aumento na porosidade do esmalte altera as propriedades
ópticas, difundindo cada vez mais a luz.
Em lesões do tipo mancha branca, a dispersão é mais intensa quando comparada ao
esmalte íntegro, com isto aparecem mais brancas do que as outras partes saudáveis do
dente. Lesões de coloração amarronzada são resultantes de pigmentações exógenas e/
ou presença de substâncias que absorvam luz.
Transiluminação
É um método simples, não invasivo e confortável para o paciente, que emprega luz
para auxiliar na identificação de lesões de cárie.
A transiluminação por fibra óptica – Fiber Optic Transilumination (Foti) – é uma téc-
nica de exame visual avançado, que utiliza a luz alógena do fotopolimerizador e mensura
a diferença na transmissão da luz entre esmalte sadio e poroso, devido à lesão de cárie. O
esmalte cariado apresenta um índice mais baixo de transmissão de luz em comparação ao
tecido sadio e como consequência na área da lesão observa-se uma sombra escura.
Pode-se utilizar a Foti para detectar cáries interproximais. As lesões proximais em
esmalte, quando transiluminadas, aparecem como cinzas e opacas, e em dentina apre-
sentam-se como uma sombra de cor marrom-alaranjada no interior do dente.
Você Sabia?
Há ainda bastante discussão sobre a indicação da Foti ou radiografia para a identificação de
cáries interproximais. Alguns estudos indicam que a transiluminação apresenta resultado
inferior no diagnóstico de lesões interproximais quando comparada ao exame radiográfico.
Outros comprovaram ser um método tão eficiente quanto o exame radiográfico interproxi-
mal, podendo ser uma alternativa à não exposição do paciente à radiação ionizante.
A técnica da Foti também se mostrou promissora para detectar e avaliar a profundi-
dade de lesão de cárie oclusal que já ultrapassou a junção amelodentinária.
O sucessor da Foti, o Dexis CariVu-KaVo (Difoti), é um aparelho digital que capta a
imagem do dente e a exibe no computador, tornando possível uma avaliação quantita-
tiva. Porém, não pode ser considerado um método objetivo, uma vez que é o cirurgião-
-dentista quem faz o diagnóstico.
DEXIS CariVu™ Transillumination in Action!, disponível em: https://youtu.be/6U4GX2ceAKE
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Figura 7 – Dexis CariVu-KaVo
Fonte: Divulgação
Fluorescência
Determinados materiais, quando iluminados com luz, apresentam a característica
de fluorescência, que é uma propriedade de alguns materiais naturais e artificiais que
absorvem a luz em certos comprimentos de onda e transmitem comprimentos de onda
mais longos.
Empregando um filtro em que somente a luz fluorescente pode passar, conseguimos
distingui-la e medi-la. A sua intensidade é equivalente à quantidade de luz absorvida e
material presente.
Através da luminosidade induzida por luz ou Light Amplification by Stimulated
Emission of Radiation (Laser), podemos visualizar a diferença entre a fluorescência dos
tecidos dentários saudáveis e das lesões de cárie. Na atualidade, muitos equipamentos se
baseiam nesse princípio para auxiliar o cirurgião-dentista na detecção de lesões cario-
sas, como é o caso do DIAGNOdent, QLF e Vista Proof.
DIAGNOdent – KaVo Biberach, Alemanha
É um dispositivo elaborado em 1998 por Hibst e Gall e que auxilia no diagnóstico de
lesão de cárie baseado na transmissão de fluorescência. De acordo com os autores, o tecido
cariado emite maior fluorescência que o tecido hígido. Os metabólitos bacterianos parecem
ser os responsáveis pelo aumento da fluorescência no comprimento de onda proposto.
O equipamento utiliza um sistema de Laser de diodo que produz um pequeno com-
primento de onda de 655 nm, que é propagado através de fibra óptica a um aparelho
de mão que capta e mede a fluorescência, transformado em uma escala numérica de
0 a 99 – quanto maior o valor obtido, mais profunda será a lesão de cárie.
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UNIDADE Diagnóstico das Lesões Cariosas
O aparelho contém duas ponteiras, uma para superfícies lisas e outra para superfície
oclusal, e preconiza-se que faça uma calibração inicial em um padrão cerâmico específi-
co para padronizar a leitura. Recomenda-se que o dente esteja livre de biofilme e não é
necessária a secagem prolongada para que se faça a medição.
A primeira versão do aparelho foi desenvolvida para identificar lesões de cárie em
superfícies lisas e oclusais. O dispositivo apresentou alta confiabilidade na identificação
de lesões nas faces oclusais e moderada nas faces lisas.
Partindo do mesmo princípio da versão original, mas com um design diferente, em
forma de caneta, uma nova versão foi elaborada com o nome de DIAGNOdent pen, que
possibilita a avaliação de todas as superfícies, lisas, oclusais e interproximais, uma vez
que essa versão apresenta uma nova ponteira para a avaliação de faces proximais.
Sobre a interpretação clínica dos resultados obtidos com o DIAGNOdent, estudos
mostram que valores de 0 a 13 indicam superfícies hígidas que não demandam cuida-
dos específicos. De 14 a 20 são lesões de cárie em esmalte, necessitando de cuidados
preventivos. Entre 21 e 29 encontram-se as lesões de cárie em dentina que demandam
tratamento preventivo ou restaurador conforme o risco de cárie do paciente. Acima de
30 são superfícies que apresentam lesões mais profundas de cárie em dentina, estando
recomendado o tratamento restaurador e preventivo.
Os aparelhos DIAGNOdent apresentam alta sensibilidade e reprodutibilidade na
identificação de lesão de cárie quando comparadas aos métodos de inspeção tátil-visual
e exames radiográficos, podendo funcionar como uma boa ferramenta para avaliar e
monitorar lesões cariosas.
Figura 8 – DIAGNOdent (KaVo)
Fonte: Divulgação
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Figura 9 – DIAGNOdent pen (KaVo)
Fonte: Divulgação
KaVo DIAGNOdent pen: Find hidden caries, disponível em: https://youtu.be/4fvFNygphdU
Figura 10 – Procedimento para a detecção de cárie oclusal com o DIAGNOdent pen
Fonte: FEJERSKOV et al., 2017
Quantitative Light-Induced Fluorescence (QLF)
– Inspektor Research Systems BV, Holanda
A quantificação de fluorescência fotoinduzida tem como finalidade quantificar e mo-
nitorar lesões de cárie. O dispositivo registra a fluorescência emitida pelos tecidos caria-
dos e produtos bacterianos existentes no biofilme dentário.
Corresponde a um método objetivo de Laser quantitativo que possui as vantagens de
alta sensibilidade e confiabilidade, reprodutibilidade e precisão.
Esse sistema utiliza uma lâmpada de xenônio que emite uma luz azul-violeta em um com-
primento de onda de 405 nm e as imagens são transmitidas e analisadas por um software
que mensura o grau de perda de fluorescência entre o esmalte hígido e o desmineralizado.
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UNIDADE Diagnóstico das Lesões Cariosas
Está indicado para a detecção de lesões de cárie precoce, acompanhamento da pro-
gressão das lesões iniciais, avaliação da qualidade de selantes e restaurações e análise da
eficácia na remoção de biofilme dental após a higienização, contribuindo para a motiva-
ção do paciente com relação aos cuidados com a saúde bucal. Entretanto, para lesões
mais profundas, o método demonstrou-se limitado.
Figura 11 – QLF, Inspektor Research Systems BV, Holanda
Fonte: Divulgação
Vista Proof – Durr Dental, Alemanha
Consiste em uma câmera intraoral de fluorescência vermelha que apresenta um com-
primento de onda de 400 nm associado a um software próprio que seleciona a fluores-
cência transmitida pelo tecido e mede a lesão de cárie em superfície oclusal em valores
de 0 a 3, conforme a profundidade e fluorescência da placa bacteriana.
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Entretanto, ainda não existem evidências científicas que embasam a aplicabilidade
clínica do aparelho.
Figura 12 – Câmera intraoral Vista Proof (Durr Dental)
Fonte: Divulgação
Para o diagnóstico da cárie, precisamos considerar todos os aspectos envolvidos na etiologia
da doença cárie (biológicos, socioeconômicos e psicossociais). Desta forma, necessitamos
avaliar o paciente na sua totalidade – e não exclusivamente a superfície dental.
Estratégias avançadas para a detecção de lesões de cárie são desenvolvidas e comple-
mentares aos métodos convencionais. Neste sentido, é complicado indicar um único mé-
todo que possa ser utilizado com maior sucesso e segurança. Com isto, faz-se necessário
que o clínico tenha sempre conhecimento atualizado dos diferentes recursos para diag-
nóstico, conseguindo selecionar o melhor para o seu paciente – sempre ressaltando-se
a importância da combinação de métodos para se atingir um diagnóstico mais preciso.
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UNIDADE Diagnóstico das Lesões Cariosas
Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:
Vídeos
Dexis CariVu Transillumination in action
https://youtu.be/6U4GX2ceAKE
DIAGNOdent pen: find hidden caries
https://youtu.be/4fvFNygphdU
Formação de lesões de cárie em superfície oclusal e o ICDAS
https://youtu.be/kf9bYCab7RU
O que são posicionadores radiográficos?
https://youtu.be/hrnYKhFRfpI
Leitura
Desempenho de métodos baseados em indução de fluorescência na avaliação da remoção de dentina cariada
https://bit.ly/3bZmEF2
O uso do sistema internacional de avaliação e detecção de cáries (ICDAS) para diagnóstico e planejamento
do tratamento da doença cárie
https://bit.ly/30ZYbcu
Métodos de detecção de cárie: do tradicional às novas tecnologias de emprego clínico
https://bit.ly/2P83fbU
Métodos de detecção de cárie
https://bit.ly/3s4wbQy
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Referências
FEJERSKOV, O.; NYVAD, B.; KIDD, E. Cárie dentária: fisiopatologia e tratamento.
Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017.
MALTZ, M. et al. Cariologia: conceitos básicos, diagnóstico e tratamento não restaurador.
São Paulo: Artes Médicas, 2016. (Série Abeno: Odontologia Essencial – Parte Clínica).
MASSARA, M. L. A.; RÉDUA, P. C. B. Manual de referência para procedimentos
clínicos em odontopediatria. São Paulo: Santos, 2017.
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