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CAPÍTULO

O vivenciar do luto na infância


27
[Link] irreversibilidade da morte, a pessoa não voltará e
que seu corpo está enterrado no chão ou foi
Katiuscia Carvalho de Santana incinerado. Para que a criança viva isso de um modo
Especialista, Centro Universitário FAEMA – mais favorável é preciso dar a ela a oportunidade de
UNIFAEMA compartilhar seus sentimentos e emoções. Também
no decorrer do artigo busca-se compreender a
RESUMO dinâmica do luto e como ele se manifesta na
Falar sobre o fenômeno da morte não é fácil, infância e discorrer sobre a importância de a criança
comunicar a morte de um ente querido a uma participar dos rituais fúnebres. O artigo se constrói
criança gera muitas dúvidas ainda. O luto é um mediante uma pesquisa bibliográfica onde diversos
processo normal da vida, não é um processo autores são revisitados na construção deste texto.
patológico, mas se não for bem elaborado pode Incluir a criança contando a ela a verdade é a melhor
gerar o que se chama de luto complicado. A criança saída para a elaboração de um luto saudável.
elabora o luto de uma maneira própria, mas para que
isso seja possível algumas informações são Palavras-Chave: Psicanálise, Luto, Infância.
importantes serem passadas para elas como, a

1 INTRODUÇÃO
Freud, em seu texto Luto e Melancolia (1917/2010), expõe esclarecimentos sobre esses termos.
No luto o sujeito vive a perda da pessoa ou objeto amado. Ele não é um processo patológico, apesar
de poder gerar um afastamento da condução normal da vida, pode ser superado após certo tempo,
mesmo sem a intervenção de outrem. Na melancolia a pessoa se sente desanimada, perde o interesse
pelo mundo exterior, a aptidão para amar, experimenta uma inibição de toda atividade e tem sua
autoestima diminuída. O luto exibe os mesmos traços da melancolia, menos um, nele a autoestima está
preservada, não é afetada¹.
Quando se perde uma pessoa amada o sofrimento sentido é um dos mais intensamente
dolorosos experimentados pelo ser humano. É árdua tanto para quem experimenta como para quem
observa, pois este se sente impotente ao tentar ajudar. Para quem está em processo de luto somente a
volta da pessoa poderia lhe proporcionar um verdadeiro consolo; ao oferecer algo aquém disso, pode
ser sentido como um insulto. É comum que quem observa de fora subestimar o quão aflitivo e
desnorteante essa dor de perder uma pessoa amada é, e também o tempo que dura o desnorteamento e
a aflição sentida pelo enlutado².
Uma das experiências mais impactantes que a criança pode vivenciar é a morte de um de seus
progenitores, ela se configura em potencial estressor para a criança, podendo colocar em risco a sua
segurança e sobrevivência emocional. Diante da morte a criança apresenta sentimentos de desamparo
e impotência, pois seu provedor está agora ausente. A criança se sente perdida, pois o mundo que

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O vivenciar do luto na infância 341
conhecia está confuso, seu genitor que antes podia afastar-se e retornava, agora não retorna mais. “O
luto é um processo de reconstrução, reorganização, diante da morte, desafio emocional e cognitivo
com o qual ela tem que lidar”³.
As crianças elaboram o luto, com modelo próprio, não uma versão deficiente do adulto, e nem
é necessário impor-lhes o modelo adulto. Ele tem características especificas, entendendo que a criança
está em processo de estruturação de sua personalidade³.
Com base nesses aspectos, essa pesquisa traz como questão norteadora o seguinte problema: É
fundamental discutir sobre a importância de se comunicar bem a questão da morte de um ente querido
a uma criança, muitas vezes invisibilizada nesse processo vivenciado com tanta dor pela família. A má
comunicação e informação da morte de alguém gera desdobramentos para além da infância. São nesses
aspectos que esse estudo se justifica.

2 METODOLOGIA
Esse estudo fundamenta-se em uma pesquisa bibliográfica, construída através de pesquisas em
livros, artigos, além de documentos encontrados em bases como o Scientific Electronic Library Online
– SciELO, Periódicos Eletrônicos em Psicologia – PePSIC e Google Acadêmico. A pesquisa
bibliográfica é construída com base em materiais já existentes, como livros e artigos científicos, com
isso uma considerável quantidade de estudos exploratórios configura-se como pesquisas
bibliográficas⁴.
Para cumprir os critérios estabelecidos para a construção do trabalho, as palavras-chave
utilizadas no levantamento foram: Psicanálise, luto infantil, psicoterapia infantil, depressão infantil.
Os materiais estão datados entre 1984 a 2011, composto por obras clássicas sobre o tema, num recorte
temporal a maior de cinco anos, justificados pela relevância que o tema propõe e pobreza de
publicações específicas.

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES
Com a morte de um dos pais a criança perde ainda os pais da forma como eram antes, já que o
pai sobrevivente também passa por um processo de mudança emocional, comportamental e tem seus
papeis reorganizados. A tarefa desempenhada pela criança então é ainda mais complexa do que a do
adulto, porque a perda a priva de uma base segura e de identificação⁵. Por se encontrarem também
enlutados, o referencial da criança do pai sobrevivente é alterado, eles também estão transtornados em
sua forma de se expressar e agir. O mundo que a criança conhecia é perdido com a morte de seu genitor,
é complexo para ela suportar toda gama de sentimentos que a envolvem com o desmoronamento
familiar³.

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O luto é um processo que todos passam, seja criança, adolescente, jovem, adulto ou idoso,
diante da perda de um objeto de apego. O sentimento que é descrito por quem está passando por ele é
o de vazio⁶. O sentimento de abandono sentido pela criança é frequente, pois se sente desamparada
tanto pelo que morreu, como pelo que ficou e está também sofrendo esta perda. Ela pode apresentar
fantasias de que foi a responsável pela morte. Se essa criança apresentava agressividade pelo pai que
morreu, isso pode acarretar em uma dificuldade na elaboração deste luto. É necessário que alguém
ajude essa criança a lidar com esses sentimentos de ambivalência emocional e culpa provocada pela
morte de um genitor³.
Se a perda de um genitor ocorre durante a infância, um curso patológico é a reação mais
corriqueira a se seguir. Os efeitos que essa perda pode gerar quando adultos serão: despontar sérias
ideias de suicídio, revelar alto grau de superdependência, aumentar condições depressivas graves,
classificáveis como psicóticas².
A maior crise que uma criança pode se deparar é a morte repentina de um ou ambos os pais,
ela afeta o sentimento de onipotência infantil, ao contestar a visão de pais superpoderosos que a criança
idealizava que tinha. Pode também surgir culpa, pois os impulsos agressivos que ela pode ter tido, a
criança acredita que se realizaram, causando a morte de seu pai. E diferente do que ocorre com a morte
esperada, na morte repentina a criança é privada de fazer um luto antecipatório, uma oportunidade de
se preparar previamente para o evento⁵.
As crianças elaboram o luto, com modelo próprio, não uma versão deficiente do adulto, e nem
é necessário impor-lhes o modelo adulto. Ele tem características especificas, entendendo que a criança
está em processo de estruturação de sua personalidade. ³ O adulto sente a necessidade de pessoas de
apoio à sua volta, pessoas dispostas a oferecer consolo e ajuda, a criança igualmente busca esse apoio.
Diferente do adulto que sabe que conseguirá viver sem o ente querido, a criança não tem noção que
conseguirá viver sem o falecido, precisa então se sentir apoiada e segura. O adulto tem todas as
informações necessárias à sua disposição, já a criança muitas vezes é privada dela².
Outra desvantagem do luto infantil é que os adultos frequentemente não toleram a saudade, o
sofrimento e a angústia da criança, para eles ela não sofre desses dissabores. A falta de entendimento
infantil sobre questões relativas à vida e à morte leva a um mau saber do que aconteceu com seu
genitor. Geralmente, quando a criança deixa de reagir à notícia do falecimento de um de seus pais é
por que a informação foi passada de forma inadequada e não deram a ela a chance de um real
entendimento da natureza do ocorrido².
Vários fatores podem influenciar o luto das crianças, dificultando-o ou facilitando-o. Dentre
estes fatores destacam-se a informação que a criança tem da perda, os modelos de relacionamento

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familiar prévio, as alterações ocorridas após a morte, e, sobretudo, a oportunidade que lhe é dada para
compartilhar seus sentimentos e emoções⁵.
Diferente dos adultos, as crianças não estarão presentes no momento da morte, e é habitual que
elas só saibam do ocorrido muito tempo depois, e mesmo depois disso ainda as informações podem
vir de maneira enganosa². Visto isto, as reações delas podem ser desproporcionais ao que aconteceu.
E quanto menor a criança, maior a chance dessa notícia ser postergada, informando a criança que o pai
ou a mãe foi viajar, ou que será transferida de hospital. Outra explicação utilizada pelos pais é que o
ente querido foi para o céu ou que foi dormir. Essas explanações geram nas crianças uma repulsa ao
céu, pois levou seu genitor querido e até um medo de dormir e não acordar mais⁵.
Existem duas informações cruciais, segundo o autor citado anteriormente, que devem ser
apresentadas às crianças o quanto antes. Primeiro: a irreversibilidade da morte, a pessoa não voltará; e
segundo: que seu corpo está enterrado no chão ou foi incinerado. Isso por si só já é uma dificuldade
para o sobrevivente, pois ele busca proteger a criança contra a consciência da morte e da dor do luto,
além de que falar essas coisas o expõe a sua própria dor e à realidade da situação⁵.
Outra dificuldade enfrentada pelos sobreviventes é ocultar sua dor para as crianças, eles têm
medo de ser muito perturbador para ela. Mas pelo contrário, o filho é muito sensível ao que está sendo
demonstrado pelo genitor, se o pai esconde suas emoções, seu filho também esconderá, se aquele
preferir o silêncio, este mais cedo ou mais tarde abandonarão as perguntas. resultado desse
obscurecimento de informações sobre a morte só traz confusão e patologia às crianças. É necessário
primeiro oferecer ajuda e apoio ao pai enlutado para que ele possa dar o suporte necessário ao filho.
Somente ao informar corretamente às crianças é que elas poderão enfrentar o ocorrido com realidade.
É possível sim que a criança pequena compreenda o fenômeno da morte como irreversível. Ela pode
entender que poderá ficar triste e sentir saudade, mas para isso é necessário que tudo fique bem
conversado e explicado para ela².
Se o adulto que está ao lado desta criança se nega a esclarecer verbalmente sobre a morte, o
processo de luto dela fica, em um primeiro momento, perturbado, pois envolve aceitou que alguém se
foi para sempre. As explicações mais utilizadas são as que a pessoa foi para o céu, foi viajar a trabalho,
ficou doente, que logo vai voltar, entre outras, esse tipo de esclarecimento só proporciona dor, confusão
e frustração permanente para as crianças. Esse tipo de resposta, que num primeiro momento tem a
função de proteger a criança da dor, apenas causa mal a longo prazo, privando-a de vivenciar o luto e
o vivenciar de uma forma mais saudável⁷.
Existem condições favoráveis para que até mesmo crianças pequenas possam enlutar-se pela
perda de um pai ou uma mãe, de um modo que muito se parece com o luto sadio dos adultos. São elas:
primeiro, que tenha tido um relacionamento seguro com o pai antes da perda; segundo que tenha

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recebido informações imediatas e precisas sobre o ocorrido, que seja livre para a criança o
questionamento e as respostas estejam o mais sinceras possíveis e que possa participar do pesar
familiar, além de ter a presença garantida nos rituais fúnebres; e, terceiro, que tenha a presença
confortadora do pai sobrevivente, ou de uma figura conhecida que faça esse papel e que tenha
confiança que essa relação continuará².
A não participação nos rituais de morte do pai ou da mãe podem acarretar em depressão na
criança, e até em sua vida adulta, além de vivenciar sentimento de culpa. É necessário realçar a
importância de apoio e autorização para que a criança possa compartilhar abertamente sobre sua dor
com seus familiares. Ao ocultar informações a criança fica impedida de participar plenamente dos
acontecimentos relacionados à perda, com isso o processo de reconhecimento da realidade e a
socialização do pesar ficam dificultados. O desencontro ou a insuficiência de informações, a
dificuldade da família em dividir os eventos da perda, o medo de expor suas próprias dificuldades em
aceitar a perda deixam a criança sem o devido suporte social e eleva a dificuldade de elaboração da
perda⁵.
Ao não comunicar a criança a morte de maneira adequada, o adulto não a está protegendo, é
sim um movimento de subestimação da criança, pois a impede de aprender sobre a realidade da vida,
que a morte e as perdas fazem parte da existência humana. Na verdade, o adulto tem dificuldade de
contar para a criança sobre a morte, pensando que essa não pertença ao universo infantil. Mas privar a
criança dessa informação não a impedirá de sentir a dor, e muitas vezes estará confusa com tudo o que
está passando ao seu redor⁸.

4 CONCLUSÃO
As crianças, como os adultos vão sentir saudades e necessitam de que alguém esteja ao lado
delas para ser seu apoio e ouvinte. Os sentimentos que ela pode experienciar são os mais diversos
como, raiva, culpa, medo da morte, sua ou dos parentes que ficaram, e todos esses sentimentos devem
ser validados por quem cuida dela. A criança nunca esquecerá a pessoa falecida e sua lembrança deve
ser estimulada por quem está a sua volta, para que a medida que cresça ele busque mais informações
para poder conhecer mais ele.
A morte é inerente a todos os seres humanos, e a criança deve ser incluída nos ritos de passagem
de seus entes queridos. Pensar que ela ainda não entende ou que não sofre pela perda tanto quanto os
adultos é um grande erro. A diferença é que mesmo em meio à dor, a criança, mediante mecanismos
de defesa, consegue momentaneamente se desligar do grande sofrimento. Incluir a criança contando a
ela a verdade é a melhor saída para a elaboração de um luto saudável.

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REFERÊNCIAS

Freud s. Luto e melancolia. Em obras completas. São paulo: companhia das letras; 2010 [1917].

Bowlby j. Perda: tristeza e depressão, volume 03 da trilogia apego e perda. 3ª ed. São paulo: martins
fontes; 2004.

Franco mhp, mazorra l. Criança e luto: vivências fantasmáticas diante da morte do genitor. Estudos de
psicologia (campinas). 2007; v.24, n.4: pp. 503-511. Https://[Link]/10.1590/s0103-
166x2007000400009

Gil ac. Métodos e técnicas de pesquisa social. 5 ed. São paulo: atlas, 2002

Anton mc, favero e. Morte repentina de genitores e luto infantil: uma revisão da literatura em
periódicos científicos brasileiros. Integração em psicologia. 2011; 15 (1) ed.: 101-110.
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Wolrden jw. Aconselhamento do luto e terapia do luto. 4 ed. São paulo: roca; 2013.

Aberastury a. A percepção da morte na criança e outros escritos. Porto alegre: artmed; 1984.

Paiva le. A arte de falar da morte para crianças: a literatura infantil como recurso para abordar a morte
com crianças e educadores. São paulo: ideias e letras; 2011.

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