II Congresso de Pesquisa e Inovação da Rede Norte Nordeste de Educação Tecnológica
João Pessoa - PB - 2007
ESTUDO DA INFLUÊNCIA DA ARGAMASSA NO TRANSPORTE DE
CLORETOS
Munique S. LIMA (1); Gibson [Link] (2);Raphaele LIRA(3)
(1) CEFET-PB, Rua Dom Bosco -1070 Cristo Cep 58070470 João Pessoa –PB e-mail: munique10@[Link]
(2) Centro Federal de Educação Tecnológica da Paraíba, e-mail: gibson@[Link]
(3)Universidade Federal da Paraíba, e-mail: raphaelelira@[Link]
RESUMO
Este trabalho tem como objetivo avaliar o efeito de diferentes dosagens de argamassa utilizadas pelas
construtoras da cidade de João Pessoa – PB, como barreira protetora em relação à penetração de cloreto no
concreto. A pesquisa realizou-se essencialmente em laboratório tendo como variáveis independentes
analisadas, a dosagem das argamassas de revestimento e o tempo de exposição ao ensaio acelerado, como
variável dependente a concentração de cloretos nos matérias empregados. Os corpos-de-prova analisados
foram moldados em formas prismáticos de 4x4x16 cm., empregando-se o cimento CP V ARI e cal CH I. Os
ensaios acelerados foram realizados através de ensaios de difusão em soluções de NaCl com concentrações
de 1M e 0,5M e duração de 20 dias. Após o período de ensaio acelerado os corpos-de-prova foram retirados
de ensaio para extração de amostras e posterior determinação das concentrações de cloretos através da
técnica de titulação potenciométrica. Com estes ensaios será possível traçar os perfis de cloretos.
Palavras-chave: argamassa, transporte de cloretos, revestimento.
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João Pessoa - PB - 2007
1. INTRODUÇÃO
A degradação de estruturas de concreto em ambiente marinho tem sido objeto de estudo de muitos centros
de pesquisas. Tais estudos se intensificaram nos últimos trinta anos e hoje abordam temas relacionados às
características dos materiais e ao ambiente. Atualmente se aceita que, ao se projetar uma estrutura, as
características de durabilidade dos materiais em questão devam ser avaliadas com o mesmo cuidado que
aspectos como propriedades mecânicas e custo inicial. Uma vez que durabilidade sob um conjunto de
condições não significa necessariamente durabilidade, sob outro conjunto, costuma-se incluir uma referência
geral ao ambiente ao se definir durabilidade (MEHTA, 1994).
Segundo Brandão (1998), a evolução da tecnologia dos materiais, observada nos últimos anos, conduziu a
um aumento das resistências, principalmente do concreto. Inúmeros são os pesquisadores que realizam
estudos no sentido de desenvolver técnicas para obtenção de concretos com melhor desempenho, seja em
termos de baixa permeabilidade e porosidade, como em termos de maior ductilidade e resistência. Sendo
assim importante o estudo dos mecanismos de deterioração das estruturas e dos materiais que as compõem,
indicando-se as condições que propiciam o seu desencadeamento e apontando-se as medidas preventivas
mínimas.
Os processos físicos e químicos que podem afetar a durabilidade das estruturas de concreto têm dois fatores
predominantes: os mecanismos de transporte através dos poros e das fissuras e a presença de água.
Os cloretos do ambiente podem penetrar no concreto através dos mecanismos clássicos de penetração de
água e transporte de íons. Os cloretos com maior potencial de agressão estão na forma dissolvida em água.
Como sólido, na forma de cristal, não é potencialmente agressivo porque não difunde para o interior do
concreto, a menos que, por ser higroscópico, absorva umidade ambiente e, em solução, possa difundir para o
interior do concreto. Quando depositado na superfície do concreto, pela chuva ou por absorção capilar,
difusão, permeabilidade ou migração de íons, por ação de um campo elétrico, penetra no concreto, criando a
chamada "frente de cloreto" em analogia à "frente de carbonatação", cuja concentração varia da superfície
para o interior (PEREIRA, 2001).
Segundo Kroöp (1995), os principais mecanismos de transporte de cloretos no concreto são absorção
capilar, difusão iônica, permeabilidade e migração iônica.
A absorção capilar é um fenômeno, motivado por tensões capilares, que ocorre imediatamente após o
contato superficial do líquido com o substrato. A absorção capilar é dependente da porosidade aberta, isto é,
dos poros capilares interconectados entre si, mas depende, sobretudo do diâmetro dos poros. Por este
processo a solução salina pode penetrar vários milímetros em poucas horas (CASCUDO, 1994).
A difusão iônica acontece devido a gradientes de concentração iônica, seja entre o meio externo e o interior
do concreto, seja dentro do próprio concreto. Estas diferenças nas concentrações de concreto suscitam o
movimento desses íons em busca do equilíbrio. Sendo este, portanto o mecanismo de transporte
predominante dos cloretos no concreto, caso seja resguardada uma certa interconexão dos capilares e haja
eletrólito (CASCUDO, 1994).
A permeabilidade representa a facilidade (ou dificuldade) com que dada substância transpõe um dado
volume de concreto, quando submetido a diferenças de pressão. Como ela está relacionada com a
interconexão de poros capilares, constitui-se em um fator de fundamental importância para que haja o
transporte iônico via penetração de substâncias líquidas, como a já mencionada absorção capilar.
(CASCUDO, 1994)
Meijers et al.(2005) afirma que a absorção capilar, seguida pela difusão, é o procedimento que causa rápida
penetração dos íons para o interior do concreto.
De acordo com a bibliografia pesquisada, percebe-se que na maioria dos casos, as estruturas são analisadas
através de simulações que expõem o concreto a condições naturais de uso ou a ambientes criados através de
ensaios acelerados, sem nenhuma proteção física adicional em ambos os casos. Todavia, o que acontece na
grande maioria das obras inseridas no perímetro urbano é a utilização do concreto armado aliada a vários
tipos de revestimento o que funcionam como barreira física para penetração dos íons cloretos.
Estudar o transporte dos íons cloretos no concreto aliado a essa barreira protetora de argamassa, permitirá
análises cada vez mais próximas da realidade e, conseqüentemente, soluções cada vez mais eficazes para os
casos de patologias em concreto que envolva a ação deletéria destes íons.
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2. METODOLOGIA
Antes de caracterizar o material em estudo, argamassa, fez-se necessário uma seleção criteriosa dos
materiais que a compõe a fim de obter uma menor porosidade nos corpos-de-prova (CPs) a serem moldados.
A cal empregada em duas das dosagens em estudo é a cal cálcica CH I, para este componente da argamassa
foi determinada sua massa unitária, 0,42 kg/dm3. A água de amassamento utilizada é proveniente da rede
pública, nesta não foi realizado nenhum tipo de análise. Com relação ao cimento utilizado optou-se pelo
CPV ARI, esta escolha se deu por causa do seu baixo teor de adições. Selecionado o tipo de cimento, uma
pequena amostra foi enviada para análise química obtendo o resultado mostrado no quadro a seguir.
Quadro 1 - Análise química do cimento CPV ARI
P.r. SiO2 R.I Fe2O3 Al2O3 CaO MgO Na2O K2O
% % % % % % % % %
2.65 20.06 0.46 2.18 5.99 60,48 3.82 0,94 1,09
A areia empregada na preparação da argamassa foi escolhida com base numa comparação entre areias
disponíveis e utilizadas no comércio local. Foram realizados ensaios de granulometria, massa unitária e
índice de consistência em 9 areias. Dentre estas, dois tipos foram selecionados levando em conta,
principalmente, a uniformidade da granulometria e um menor consumo de água para um mesmo valor de
espalhamento. Abaixo se pode observar a granulometria e o gráfico que mostra a relação água/material seco
versus espalhamento das duas areias selecionadas.
100,00
90,00
80,00
% Ret. Acumulada
70,00
60,00
Areia 4
50,00
Areia U
40,00
30,00
20,00
10,00
0,00
5
o
15
8
07
du
4,
2,
1,
0,
0,
sí
0,
#
Re
#
Peneira
Figura 1 – Curvas granulométricas
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Areias Selecionadas - A- [Link] B- [Link] e C- 1:3
34 Areia 4-A
Areia 4-B
30
Espalhamento (cm)
Areia 4-C
26
Areia U-A
22
Areia U-B
18
Areia U-C
14
1 2 3 4
A/MS
Figura 2 – Relação água/material seco versus espalhamento
Foram moldados CPs com os dois tipos de areia a fim de avaliar sua resistência à compressão segundo
norma vigente, NBR 13279 (ABNT,2005), sendo realizadas medidas aos 8, 17 e 23 dias, Figuras 3 e 4. Os
CPs foram moldados em três dosagens, aqui indicadas em volume: 1:3, [Link] e [Link].
20 20
18 18
16 16
14 14
12 01:03 12 01:03
Rc
Rc
10 [Link] 10 [Link]
8 8 [Link]
[Link]
6 6
4 4
2 2
0 0
8 15 23 8 15 23
Dias Dias
Figura 3 – Relação dias versus resistência à Figura 4 – Relação dias versus resistência à
compressão da areia U compressão da areia 4
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Com base na caracterização do agregado miúdo, dados mostrados acima, optou-se pelo uso da areia U. Esta
areia apresenta granulometria mais contínua, consumo de água (para um mesmo espalhamento) próximo ao
apresentado pela areia 4 e resistência à compressão superior. Além disso, a areia U tem acesso facilitado aos
pesquisadores. É válido ressaltar que os ensaios realizados com o agregado miúdo visaram a obtenção de
uma menor porosidade nos CPs em estudo.
Determinados os materiais a serem utilizados na composição da argamassa, foram moldados CPs de
dimensões 4x4x16 cm. Para estes CPs a cura foi de 28 dias. Vencido o período de cura, os CPs receberam
uma pintura epóxi em cinco de suas faces, curada por mais 48 horas, deixando apenas uma face livre para a
penetração dos íons cloreto durante o ensaio de difusão em solução de NaCl. Estas soluções possuem
concentração de 1,0M e 0,5M. Vencida a cura do epóxi, os CPs permaneceram em difusão por um período
de 20 dias.
Passado o período de imersão realizou-se a extração de amostras e posterior determinação da concentração
de cloretos nas mesmas. Esta determinação foi realizada através da técnica de titulação potenciométrica.
Esta técnica permite avaliar à concentração de íons cloretos absorvidos em cada amostra extraída de CPs
expostos à soluções com diferentes concentração e diferentes traços.
3. ANALISE DOS RESULTADOS
A análise dos perfis de cloretos mostra que os CPs imersos em solução de NaCl com concentração de 1M,
independente da dosagem, possuem maior concentração inicial de cloreto e um maior decréscimo desde a
superfície até os 4 cm estudados. Os perfis a seguir deixam explícita essa realidade.
3,5000
3,0000
2,5000
%Cl ([Link])
2,0000 cimento
1,5000 Expon. (cimento)
1,0000
0,5000
0,0000
0,00 1,00 2,00 3,00 4,00
Profundidade
Figura 5 – Dosagem 1:3, concentração 1M NaCl
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3,5000
%Cl (cimento) 3,0000
2,5000
2,0000 cimento
1,5000 Expon. (cimento)
1,0000
0,5000
0,0000
0,00 1,00 2,00 3,00 4,00
Profundidade
Figura 6 – Dosagem 1:3, concentração 0,5M NaCl
Com relação as diferentes dosagens, o que se observa é a alta concentração de cloretos na superfície e um
sutil decréscimo na concentração de cloretos, da superfície até os 4 cm estudados, a medida que a argamassa
vai ficando mais pobre. Os perfis mostrados a seguir expressam essa afirmação que é válida tanto para os
CPs imersos em solução com concentração de 1M quanto para os imersos em solução com concentração de
0,5M.
3,5000
3,0000
2,5000
%Cl ([Link])
2,0000 cimento
1,5000 Expon. (cimento)
1,0000
0,5000
0,0000
0,00 1,00 2,00 3,00 4,00
Profundidade
Figura 7 – Dosagem 1:3, concentração 1M NaCl
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3,5000
3,0000
%Cl ([Link]+cal)
2,5000
2,0000 cimento+cal
1,5000 Expon. (cimento+cal)
1,0000
0,5000
0,0000
0,00 1,00 2,00 3,00 4,00
Profundidade
Figura 8 – Dosagem [Link], concentração 1M NaCl
3,5000
3,0000
%Cl ([Link]+cal)
2,5000
2,0000 cimento+cal
1,5000 Expon. (cimento+cal)
1,0000
0,5000
0,0000
0,00 1,00 2,00 3,00 4,00
Profundidade
Figura 9 – Dosagem [Link], concentração 1M NaCl
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
De posse dos resultados de caracterização dos componentes da argamassa e da caracterização dos próprios
CPs de argamassa moldados em diferentes dosagens, observa-se a importância da escolha dos materiais.
Neste caso, a escolha do agregado miúdo correto foi de grande importância, pois se buscou conseguir um
agregado que concedesse a menor porosidade possível ao CP quando pronto.
No que diz respeito à concentração da solução de imersão dos CPs é fácil constatar a maior concentração
cloretos nas argamassas imersas na solução mais concentrada, ou seja, 1M. Verifica-se também que mesmo
em dosagens diferentes a concentração superficial de cloretos é elevada e que, à medida que a argamassa
possui uma dosagem mais pobre, acontece um sutil decréscimo na diferença de concentração de cloretos no
sentido superfície interior.
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De modo geral verifica-se a importância de se escolher, do ponto de vista da penetração dos íons cloreto,
uma argamassa mais resistente quando utilizada em revestimento externo, onde a exposição a estes íons é
perigosa e elevada, em detrimento aquelas usadas nos revestimentos internos, onde a exposição aos íons
cloretos é mais branda.
REFERÊNCIAS
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 13279 : Argamassa para Assentamento e
Revestimento de Paredes e Tetos – Determinação da resistência à tração na flexão e à compressão axial.
2005.
BRANDÃO, A.M.S. Qualidade e durabilidade das estruturas de concreto armado: Aspectos relativos
ao projeto. Dissertação (Mestrado). Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo, 1998.
CASCUDO,[Link] da corrosão de armaduras em concreto:inspeção e técnicas eletroquímicas. São
Paulo: PINI,1994.
KRÖOP,J. Clhorides in concrete. In: KROOP,J.;HILSDORF,H.K.(Ed.) Performace criteria for concrete
durability (report12 –RILEM).London: E & FN Spon,1995.p.138-164.
MEHTA, P. K;MONTEIRO,P.J.M. Concreto: estrutura, propriedade e materiais. PINI,1994.
MEIJERS,S.J.H. et al. Computational results of a model for chloride ingress in concrete including
convection, drying- wetting cycles and carbonation. Material and Structures.v.38,p.145-154,2005.
PEREIRA ,L.F.L.C.;Cincotto,M.A..Determinação de cloretos em concreto de cimentos Portland :
influência do tipo de cimento – São Paulo:EPUSP,2001.19p.- (Boletim Técnico da Escola Politécnica da
USP,Departamento de Engenharia de Construção Civil,BT/PCC/294)
AGRADECIMENTOS
À equipe do Laboratório de ENSAIOS DE MATERIAIS E ESTRUTURAS da Universidade Federal da
Paraíba (LABEME/UFPB) e ao Centro Federal de Educação Tecnológica da Paraíba (CEFET-PB) pelo
auxílio no desenvolvimento das atividades gerais do projeto de pesquisa, ao Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico( CNPQ ) e à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Nível Superior ( CAPES) pela concessão de bolsas de estudos.