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Fisiopatologia e Nutrição na AIDS

Fisiopatologia de doenças catabólicas

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FISIOPATOLOGIA E TERAPIA

NUTRICIONAL NAS DOENÇAS


CATABÓLICAS
AULA 5

Profª Rafaela P. Klauberg


CONVERSA INICIAL

A AIDS é definida como síndrome da imunodeficiência adquirida e é uma


consequência da contaminação pelo vírus HIV. Ainda é uma doença de alta
prevalência e continua sendo um problema de grande saúde pública no mundo,
apesar do avanço na medicina, maior acesso a diagnósticos e tratamentos
existentes – a infecção pelo vírus se tornou uma condição de saúde crônica
gerenciável.
Entre os anos de 2000 e 2019, as novas infecções pelo HIV caíram 39%
e as mortes relacionadas ao HIV caíram 51% em nível mundial, com 15,3
milhões de vidas salvas graças à terapia antirretroviral, mas ainda são números
expressivos.
A AIDS pode ser considerada uma doença catabólica devido às
alterações metabólicas ocasionadas pela doença. Sugere-se que o gasto
energético de repouso aumente aproximadamente 10% em adultos com HIV
assintomáticos e que, de uma infecção oportunista, as necessidades
nutricionais aumentam de 20% a 50%.
Por isso, a aula tem como objetivo conhecer a fisiopatologia e
compreender alterações metabólicas ocorridas, forma de tratamento e
sintomas associados, avaliação nutricional nesses pacientes, objetivos da
terapia nutricional, bem como as recomendações de macro e micronutrientes
para essa população.

TEMA 1 – FISIOPATOLOGIA E ALTERAÇÕES METABÓLICAS

O vírus da imunodeficiência humana (HIV, sigla em inglês) tem como


alvo o sistema imunológico e enfraquece os sistemas de defesa, tornando os
indivíduos afetados gradualmente imunodeficientes, ficando suscetíveis a
infecções e outras doenças oportunistas.
A infecção pelo HIV e a síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS,
sigla em inglês) são diferentes. O estágio mais avançado da infecção por HIV é
que caracteriza a AIDS. Portanto, um indivíduo pode ser portador do vírus, mas
não possuir a síndrome (Paho, 2021).
Uma pessoa infectada pelo vírus HIV pode levar de 10 a 15 anos para
desenvolver a AIDS e as drogas antirretrovirais podem retardar ainda mais
esse processo (Deiro; Sampaio; Jesus, 2014).

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Portanto, a infecção primária pelo HIV é a causa subjacente da AIDS. O
HIV é um vírus da família Retroviridae (retrovírus) e subfamília Lentivirinae; ele
necessita de uma enzima chamada transcriptase reversa para se multiplicar.
Essa enzima transforma o RNA em DNA e depois se incorpora ao material
genético da célula alvo do ataque por meio da integrase, outra enzima. Após
isso, o vírus é “montado” por ação da enzima protease e se libera das células
que destrói, incorporando parte da membrana celular na sua (Deiro; Sampaio;
Jesus, 2014; Coppini; Ferrini; Pasternak; Waitzberg, 2017).
O vírus infecta as células do sistema imunológico humano, em especial
as células T helper CD4, que são as principais células envolvidas na proteção
contra a infecção, levando à sua depleção, tornando o sistema imunológico
debilitado e o indivíduo mais suscetível a infecções secundárias (Deiro;
Sampaio; Jesus, 2014; Burgos; Dias, 2019).
A transmissão pode ocorrer pelo contato direto com fluidos corporais
infectados (sangue, sêmen, fluido pré-seminal, fluido vaginal e leite materno e
outros que contêm sangue). Ademais, o uso compartilhado de agulhas
contaminadas e injeção de produtos com sangue infectado são capazes de
transmitir o vírus.
Já a transmissão por saliva, lagrimas e urina não ocorre, pois não
possuem quantidade suficiente do vírus HIV para realizá-la. Contatos casuais
como toque, abraço, beijo e uso compartilhado de utensílios como pratos e
copos também não transmitem o vírus (CDC, 2008; DONG, IMAI, 2013;
Burgos; Dias, 2019).
A infecção pelo HIV se desenvolve por meio de quatro estágios clínicos:
infecção aguda pelo HIV, latência clínica, infecção sintomática pelo HIV e
progressão do HIV para AIDS. Os dois principais biomarcadores utilizados para
avaliar a progressão da doença são o ácido ribonucleico (RNA) do HIV, que
avalia a carga viral e a contagem de células TCD4+ (DONG, IMAI, 2013).
O Centers for Disease Control and Prevention (CDC) classifica como
AIDS os casos em que há confirmação laboratorial positiva de infecção pelo
vírus em pessoas com celular TCD4+ < 200 células/mm3 ou a presença de
uma condição definidora de AIDS (como linfomas, pneumonias recorrentes,
sarcoma de Kaposi etc.) (Schneider et al., 2008; Dong, IMAI, 2013).
Alterações nutricionais são comuns em pacientes com HIV/AIDS e
costumam ocorrer precocemente. Podem estar relacionadas a diversos fatores,

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entre eles: baixa ingestão alimentar, má́ absorção de nutrientes, alterações
metabólicas, infecções oportunistas, fatores psicossociais e neurológicos e
interações drogas-nutrientes, sendo que todas essas condições podem levar a
deficiências nutricionais que afetam negativamente o estado nutricional desses
indivíduos (Deiro; Sampaio; Jesus, 2014).
Pacientes com AIDS apresentam naturalmente hipermetabolismo com
aumento da Taxa Metabólica Basal (TMB). Infecções secundárias,
constantemente presentes, em sua maioria, produzem anorexia e elevação da
TMB, levando a um círculo vicioso – quanto mais desnutrido o paciente com
AIDS, mais suscetível a infecções oportunistas, que leva a perda de peso e
diminuição de ingestão dietética (Coppini; Ferrini; Pasternak; Waitzberg, 2017).
A desnutrição pode ser classificada em desnutrição calórico-proteica
(DPC) ou Wasting Syndrome (síndrome consumptiva).
A Desnutrição Proteico-Calórica (DPC) se desenvolve pela ausência ou
redução da utilização do nutriente; pode ser causada por ingestão calórica
insuficiência ou presença de fatores que afetam a absorção dos nutrientes.
Quando proporcionada uma oferta adequada de energia e nutrientes, os
mecanismos podem ser revertidos e o anabolismo prevalece.
Já a Wasting Syndrome (síndrome consumptiva) é caracterizada pela
perda de peso involuntária >10% do peso corporal usual. Em geral, está
associada à presença de diarreia, fraqueza ou febre documentada por mais de
30 dias. É um processo multifatorial, em que ocorre inadequada ingestão
calórica, má absorção, alterações metabólicas e atividades de citocinas.
Nesses casos, a perda de massa magra não pode ser melhorada com o
aumento na ingestão de nutrientes; somente após o controle da atividade
catabólica presente.
Há uma associação entre síndrome consumptiva com aumento da
morbidade e mortalidade, além do aumento da suscetibilidade a infecções
oportunistas e tumores. A incidência da desnutrição e síndrome consumptiva
diminui com o uso do TARV (terapia antirretroviral) (Coppini; Ferrini; Pasternak;
Waitzberg, 2017; Burgos; Silva, 2019).

TEMA 2 – TRATAMENTO E SINTOMAS

O tratamento consiste no uso da terapia antirretroviral (TARV), que


surgiu na década de 1980. Ele atua de forma a impedir a multiplicação do vírus
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no organismo e consiste na combinação de pelo menos dois agentes
antirretrovirais ativos para exterminar o vírus ou suprimir sua replicação
(Burgos; Silva, 2019).
Com o passar dos anos, o avanço da medicina e o maior acesso ao
TARV, observa-se que pacientes portadores do vírus vivem por mais tempo.
No entanto, esses fármacos apresentam efeitos colaterais graves, tanto
clínicos como metabólicos, além de doenças cardiovasculares e resistência à
insulina – cada vez mais presentes nesse perfil de pacientes. Entre os efeitos
mais comuns, estão: hiperglicemias, hipertrigliceridemia, hipercolesterolemia e
síndrome de lipodistrofia do HIV (SLHIV) (Burgos; Silva, 2019).
A SLHIV atinge cerca de 50 a 80% dos indivíduos com AIDS em TARV e
se refere às anormalidades metabólicas e alterações corporais, com padrão
muito similar à síndrome metabólica encontrada na população em geral. É
composta por três partes: mudança na forma do corpo, hiperlipidemia e
resistência à insulina (Dong; Imai, 2013; Copini et al. 2017; Burgos; Dias,
2019).
Entre as mudanças físicas típicas observadas nesses casos, estão: a
deposição de gordura (geralmente, tecido adiposo visceral na região abdominal
ou como coxim de gordura dorsocervical e hipertrofia mamária) ou atrofia da
gordura, vista como perda da gordura subcutânea dos membros, da face e das
nádegas. Já em relação às anormalidades metabólicas, estão: a hiperlipidemia
(particularmente elevação nos triglicerídeos e de LDL, e redução do HDL) e
resistência à insulina (Dong; Imai, 2013; Burgos; Dias, 2019).
Porém, as intervenções nutricionais associadas à SLHIV são limitadas e
devem seguir as diretrizes estabelecidas para tratamento de dislipidemia e
controle glicêmico, além de estarem associadas à prática de atividades físicas
(Dong; Imai, 2013; Burgos; Dias, 2019).
Consequentemente, devido às alterações estéticas, esses indivíduos
podem ser estigmatizados fisicamente como uma pessoa com infecção pelo
HIV, impactando negativamente em aspectos psicológicos sobre o humor,
autoestima e adesão ao tratamento por conta do paciente (Dong; Imai, 2013).
Ainda, é valido lembrar que medicamentos de todas as classes podem
causar efeitos colaterais que impactam nutricionalmente, inclusive os
medicamentos antirretrovirais e aqueles empregados para tratamento de
infecções oportunistas e comorbidades. Podem afetar desde a absorção,

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metabolismo, distribuição e excreção dos nutrientes como afetar diretamente o
consumo alimentar, por atingirem o trato gastrointestinal, ocasionando
sintomas como diarreia, vômitos, náuseas, alterações do paladar etc.
Estratégias nutricionais podem ser utilizadas para amenizá-las (Dong; Imai,
2013).
Além disso, o momento de utilização também é importante para a
eficácia da terapia antirretroviral. Por isso, pacientes devem fazer uso dos
medicamentos no horário correto. Alguns medicamentos precisam ser
administrados justamente com alimentos ou em jejum, considerando as
interações fármaco-nutriente (Deiro; Sampaio; Jesus, 2014).

TEMA 3 – AVALIAÇÃO NUTRICIONAL

A nutrição é um dos principais pontos envolvidos no tratamento e a


terapia nutricional deve ser implementada o mais precocemente possível, de
maneira individualizada. A frequência do acompanhamento deve ser
permanente e considerar as complicações multifatoriais que podem afetar o
atendimento (BURGOS, DIAS, 2019)
A American Dietetic Association (ADA) recomenda um acompanhamento
com nutricionista de ao menos 1 a 2 atendimentos por ano para indivíduos com
infecção assintomática pelo HIV e pelo menos 2 a 6 atendimentos por ano para
indivíduos com infecção sintomática pelo HIV, mas estáveis. Os pacientes com
diagnóstico de AIDS tendem a necessitar de avaliações com maior frequência,
já́ que podem necessitar de suporte nutricional (Ada, 2010; Krause; Burgos;
Dias, 2019).
São fatores relevantes para a avaliação nutricional (Dong; Imai, 2013):

• Clínicos: estágio da doença; comorbidades; infecções oportunistas;


complicações metabólicas; dosagens bioquímicas;
• Físicos: mudanças na forma do corpo; preocupações com o peso ou
crescimento; sintomas orais ou gastrointestinais; estado funcional
(função cognitiva, mobilidade); antropometria;
• Sociais: ambiente em que vive (apoio da família e amigos);
preocupações comportamentais ou comportamentos alimentares
incomuns; saúde mental (depressão);

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• Econômicos: barreiras á nutrição (acesso aos alimentos, recursos
financeiros);
• Nutricionais: consumo típico; compras e preparo dos alimentos;
alergias e intolerâncias alimentares; vitaminais, minerais e outros
suplementos; uso de álcool e fármacos.

Quanto à avaliação do estado nutricional, é importante distinguir a


SLHIV da síndrome consumptiva, sendo que as duas podem estar associadas.
Diretrizes brasileiras recomendam o uso de métodos tradicionais utilizados:
Avaliação Subjetiva Global (ASG), parâmetros bioquímicos e bioimpedância
elétrica, quando disponível, associada a exames de avaliação metabólica para
que seja possível avaliar a presença da SLHIV (Burgos; Dias, 2019). São
etapas da avaliação nutricional nesses pacientes:

• Medidas antropométricas: altura, peso, % de perda de peso, peso


ideal e usual, IMC, gordura, musculo e massa células, circunferência da
cintura, quadril, pescoço e coxa;
• Bioquímica: albumina, pré-albumina, perfil lipídico sérico,
glicose/insulina, pressão arterial, hemograma completo, marcadores de
função hepática, eletrólitos, densidade mineral óssea;
• Condições clínicas: condição oral/intestinal, náuseas, vômito, diarreia,
anorexia, apetite, capacidade funcional, neuropatia;
• Ingestão diária: ingestão e necessidade estimadas, segurança
alimentar e nutricional, preferencias, padrão alimentar, intolerâncias e
alergias alimentares (Ada, 2010).

TEMA 4 – TERAPIA NUTRICIONAL E RECOMENDAÇÃO DE


MACRONUTRIENTES

A AIDS é uma doença que não tem cura e a terapia nutricional não pode
evitar o resultado da doença, mas pode impactar de forma positiva no curso do
paciente ao longo do tratamento (Coppini; Ferrini; Pasternak; Waitzberg, 2017).
A terapia nutricional no paciente com AIDS tem como objetivos:

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• Gerais: melhorar a qualidade de vida; reduzir a incidência e/ou retardar
o aparecimento de complicações associadas ao HIV; reduzir efeitos
colaterais do TARV;
• Específicos: prevenir a desnutrição (visto a dificuldade de revertê-la em
estágios avançados, de caquexia); manter massa muscular e peso
adequado; auxiliar no controle de distúrbios metabólicos e morfológicos
causados pelo TARV, reduzindo risco de doença cardiovascular
associada; melhorar a função imune; minimizar as consequências de
distúrbios gastrointestinais causados por infecções oportunistas ou pela
TARV (Burgos; Dias, 2019).

O uso de Suplementos Nutricionais Orais (SNO) é indicado quando não


for possível atingir as necessidades nutricionais somente com alimentos
ofertados ou em períodos de maior requerimento energético, quando
metabolismo basal se encontra aumentado. Na impossibilidade de atingi-lo
mesmo com SNO ou algum comprometimento da ingestão via oral, recomenda-
se o uso de Nutrição Enteral (NE) e/ou Nutrição Parenteral (NP) (Silva; Mura,
2010; Coppini; Ferrini; Pasternak; Waitzberg, 2017).
O uso de NP nesses pacientes deve ser monitorado, visto que a
incidência de infecção de cateter venoso central nesses pacientes tende a ser
maior do que já população em geral, devido ao quadro de depleção
imunológica (Coppini; Jesus, 2011).

4.1 Energia

A estimativa das necessidades de energia e proteína para essa


população é complexo devido a fatores como emaciação, obesidade, SLHIV e
falta de equações de predição precisa.
Em geral, as necessidades energéticas desses pacientes variam
conforme a condição clínica (estágio da doença, presença de infecções
oportunistas), necessidade de ganho de peso e do nível de atividade. E, por
isso, é necessário que seja realizado avaliações médicas e nutricionais para
ajustes necessários.
Alguns autores sugerem que indivíduos com HIV bem controlado são
incentivados a seguir os mesmos princípios da alimentação saudável

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recomendada para toda a população em geral (Coppini; Jesus, 2011; Dong;
Imai, 2013; X; Burgos; Dias, 2019).
De forma geral, as necessidades energéticas para paciente
assintomático é de 30 a 35 kcal/kg/dia. Em paciente sintomático com a doença
propriamente dita (AIDS) e CD4 inferior a 200 células, a necessidade é de 40
kcal/kg/dia.
Quando utilizado o método de Harris e Benedict para estimativa de gasto
energético, recomenda-se utilizar o fator injúria de 1 a 1,75 (Deiro; Sampaio;
Jesus, 2014).
Há autores que sugerem a oferta energética de acordo com o estágio da
doença, conforme Tabela 1:

Tabela 1 – Recomendação de energia para adultos com HIV/AIDS

Estágio Recomendação energética


Estágio A – assintomático, peso estável 30 a 35 Kcal/Kg de peso atual/dia
Estágio B – sintomático com 35 a 40 Kcal/Kg de peso atual/dia
complicações do HIV, necessidade de
ganho de peso
Estágio C – infecção oportunista e/ou 40 a 50 Kcal/Kg de peso atual/dia
AIDS (CD4 < 200)
Estágio D – com desnutrição grave Iniciar com 20 Kcal/Kg de peso
atual/dia, aumentando
gradualmente para evitar a
síndrome de realimentação
Obesidade 20 a 25 Kcal/Kg de peso
ajustado/dia
Fonte: Elaborado com base em Deiro; Sampaio; Jesus, 2014.

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4.2 Proteína

Em geral, a oferta adequada de proteínas tem como objetivo garantir


substrato para sistema imunológico, bem como auxílio para restaurar ou
preservar a massa magra (Deiro; Sampaio; Jesus, 2014). Sabe-se que, no HIV
e AIDS, há uma deficiência na estocagem proteica e alteração no metabolismo
das proteínas. No caso de infecções oportunistas, a oferta proteica deve ser
aumentada em até 10% por conta do aumento do turnover proteico gerado
(Dong; Imai, 2013).
De forma geral, pode-se considerar, na fase estável da doença, uma
oferta de 1,2 g/kg peso atual/dia e, na fase aguda, a necessidade de proteínas
aumenta para 1,5 g/kg de peso atual/dia (Burgos; Dias, 2019).
Também é possível considerar as recomendações baseadas no estágio
da doença, conforme apresentado na Tabela 2.
A proporção segue o recomendado para a população em geral: 15 a
20% do Valor Energético Total (VET) e, na presença de disfunção renal ou
hepática, deve-se reavaliar as necessidades proteicas, ajustando-as à
gravidade da disfunção e às necessidades individuais.

Tabela 2 – Recomendação proteica para adultos com HIV/AIDS

Estágio Recomendação proteica


Estágio A – assintomático, peso estável 1,1 a 1,5 g/Kg de peso atual/dia
Estágio B – sintomático com 1,5 a 2,0 g/Kg de peso atual/dia
complicações do HIV, necessidade de
ganho de peso
Estágio C – infecção oportunista e/ou 2 a 2,5 g/Kg de peso atual/dia
AIDS (CD4 < 200)
Estágio D – com desnutrição grave Aumentar a oferta gradativamente,
conforme a evolução das calorias
Obesidade Utilizar o peso ajustado para
cálculo das necessidades
proteicas
Fonte: Deiro; Sampaio; Jesus, 2014.

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4.3 Carboidratos

Podem ser ofertados 45 a 65% do VET sob a forma de carboidratos. A


escolha das fontes e a necessidade de restrição de carboidratos simples
seguem de acordo com as recomendações de condições clínicas individuais e
da presença de comorbidades associadas (Deiro; Sampaio; Jesus, 2014).

4.4 Lipídios

Evidências apontam que os requisitos de gordura provenientes da dieta


sejam diferentes na presença de infecção pelo HIV e, portanto, deve-se seguir
as diretrizes gerais para prevenção de doenças cardiovasculares para a
recomendação de gorduras totais (Who, 2005; Burgos; Dias, 2019).
A oferta de gorduras totais provenientes da dieta deve corresponder de
20 a 35% do Valor Energético Total (VET) diário, podendo sofrer variações
conforme a individualizada e meta nutricional para controle de alterações no
perfil lipídico (Deiro; Sampaio; Jesus, 2014; Burgos; Dias, 2019).
Sugere-se ainda um aumento de oferta de ácidos graxos ômega-3 em
pacientes com HIV que apresentam níveis séricos elevados de triglicerídeos
pois podem auxiliar na melhora da inflamação (Dong; Imai, 2013; Burgos; Dias,
2019).

4.5 Hidratação

A recomendação de oferta de líquidos em pacientes com HIV/AIDS é


similar às dos demais indivíduos: entre 30 e 35 ml por kg de peso por dia, com
quantidades adicionais para aquelas que apresentam perdas por diarreia,
náuseas e vômitos, sudorese noturna e febre prolongada (Burgos; Dias, 2019).

TEMA 5 – RECOMENDAÇÃO DE MICRONUTRIENTES

Comumente, pacientes portadores com HIV/AIDS apresentam


deficiência de micronutrientes que podem ser multifatoriais: má absorção,
ingestão inadequada, aumento de demandas nutricionais, interações fármaco-
nutriente. No entanto, vitaminas e minerais em quantidades adequadas são
importantes para promover uma melhora da função imunológica.

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Alguns nutrientes específicos parecem impactar de forma importante na
manutenção do sistema imune e redução da mortalidade e, portanto, merecem
atenção nesse perfil de pacientes, entre eles: vitaminas A, B, C, E, zinco,
selênio. Ainda, há necessidades especiais desses nutrientes, mas a oferta não
deve ultrapassar as ingestões diárias de referência (DRI), visto que não há
evidencias que apoiem o uso acima desses valores (Coppini; Jesus, 2011;
(Deiro; Sampaio; Jesus, 2014; Burgos; Dias, 2019).

Tabela 3 – Deficiências comuns de micronutrientes e indicações para


suplementação

Vitamina Potencial causa de Resultado da deficiência Indicações para


ou deficiência vitamínica suplementação
mineral
B12 Má absorção; ingestão Aumento do risco de Pouca evidencia de
inadequada progressão para AIDS; benefício da suplementação
demência; neuropatia além da correção dos baixos
periférica; mielopatia; níveis séricos
desempenho diminuído
(processamento de
informações e habilidades
de resolução de
problemas)
A Ingestão inadequada Aumento do risco de Necessária para corrigir os
progressão para AIDS baixos níveis. Não deve
exceder a ingestão dietética
de referência quando níveis
séricos estiverem normais.
O consumo elevado, além
da correção de baixo níveis,
pode ser prejudicial à saúde
e pode aumentar o risco de
mortalidade por AIDS. São
necessárias mais pesquisas.
β- Ingestão inadequada; Potencial relação com Recomendados apenas os
caroteno
má absorção de estresse oxidativo; montantes encontrados no
gordura possivelmente enfraquece suplemento multivitamínico
a função imunológica

12
E Ingestão inadequada Potencial aumentado de São necessárias mais
progressão para AIDS; pesquisas
estresse oxidativo; prejuízo
na resposta imunológica
Alta ingestão: pode estar
associada à aumento nos
marcadores substitutos de
aterosclerose
D Ingestão inadequada; Imunossupressão Corrigir os baixos níveis.
exposição inadequada São necessárias mais
ao sol pesquisas
Selênio Ingestão inadequada Potencial aumentado de Multivitamínico fornecendo a
progressão para AIDS; ingestão dietética de
enfraquecimento da função referência recomendada.
imunológica; estresse Atualmente, as doses mais
oxidativo. altas não são
recomendadas, até que
sejam realizadas novas
pesquisas
Zinco Ingestão inadequada Risco aumentado de Recomendada a
mortalidade relacionada suplementação até a
com o HIV; sistema ingestão dietética de
imunológico enfraquecido; referência; níveis acima
processos de cicatrização podem levar à progressão
prejudicados; menor mais rápida da doença. São
contagem de CD4 necessárias mais pesquisas
Ferro Níveis baixos durante Anemia; progressão e Corrigir os baixos níveis,
a primeira infecção mortalidade na infecção por quando necessário.
assintomática pelo HIV; altos níveis de ferro Recomendada a ingestão
HIV, causados pela potencialmente aumentam até a ingestão dietética de
absorção inadequada; a carga viral; aumento na referência. São necessárias
Ingestão inadequada suscetibilidade e gravidade mais pesquisas
de outras infecções, como
a tuberculose
Fonte: Dong; Imai, 2013; Burgos; Dias, 2019.

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NA PRÁTICA

Junto às características da própria doença, os pacientes com AIDS


ainda costumam apresentar efeitos adversos relacionado ao uso de TARV,
como citado anteriormente. É importante lembrar que, em sua maioria, esses
efeitos acometem o trato gastrointestinal, o que contribui ainda mais para a
perda de peso acentuado e piora do estado nutricional desses pacientes – que
são direcionados ao profissional nutricionista, em muitos casos, com quadros
de síndrome consumptiva.
É importante lembrar das recomendações quanto à oferta de macro e
micronutrientes para esse perfil de pacientes, mas, antes de tudo, é preciso
realizar o manejo desses sintomas, para que a terapia nutricional seja efetiva.
Por exemplo, paciente com perda de peso severa, diarreia e lesões em
cavidade oral – com baixo consumo por odinofagia e alterações de absorção.

FINALIZANDO

Apesar dos avanços e uso de TARV, pacientes portadores de AIDS


podem apresentar alterações metabólicas importantes, quadros de desnutrição,
perda de peso e alterações de composições corporais ao longo do curso da
doença e tratamento.
A terapia nutricional tem como objetivo principal minimizar a perda de
massa muscular, promover uma adequada oferta de micronutrientes e prevenir
e tratar complicações nutricionais associadas. Assim, pode contribuir para
melhora da resposta imune, prevenir a ocorrência de infecções oportunistas e
prolongar a sobrevida destes pacientes, mantendo sempre o foco na melhora
da qualidade de vida.
Para que isso ocorra, é necessário que haja uma avaliação nutricional
completa e de qualidade, individualizada, acompanhamento periodizado e as
orientações e condutas tomadas sempre de forma a considerar o quadro clínico
por completo, além de seguir as orientações de diretrizes especificas.

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REFERÊNCIAS

AMERICAN DIETETIC ASSOCIATION (ADA). Position paper on nutrition


intervention and human immunodeficiency virus infection. J Am Diet Assoc., v.
110, p. 1105, 2010.

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<[Link]
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