AGRUPAMENTO DE ESCOLAS ROMEU CORREIA
TESTE DE PORTUGUÊS – módulo 2
Data: ____de março de 2017
Nome: ___________________________________ Nº. ____ Ano: 10º Turma: ____
Classificação: __________________________________________ Professora: Rita
Rasteiro
Encarregado(a) de Educação: ___________________________________________________
GRUPO I (10 valores)
PARTE A
(Vem a Mãe e diz:)
MÃE
Pêro Marques foi-se já?
INÊS
E pera que era ele aqui?
MÃE
E não t'agrada ele a ti?
(…)
MÃE
Como às vezes isso queima!
E que é desses escudeiros?
INÊS
Eu falei ontem ali Que passaram por aqui Os judeos casamenteiros E hão-de vir
agora aqui.
(Aqui entram os judeus casamenteiros, um, Latão, e outro, Vidal e diz Latão:)
LATÃO
Ou de cá!
INÊS
Quem está lá?
VIDAL
Nome del Deu, aqui somos!
LATÃO
Não sabeis quão longe fomos!
VIDAL
Corremos a iramá. Este e eu.
LATÃO
Eu, e este...
VIDAL
Pola lama e polo pó, Que era pera haver dó, Com chuva, sol e Nordeste. Foi a coisa
de maneira, Tal friúra e tal canseira, Que trago as tripas maçadas. Assi me fadem
8
AGRUPAMENTO DE ESCOLAS ROMEU CORREIA
boas fadas Que me saltou caganeira!
Pera vossa mercê ver O que nos encomendou.
LATÃO
O que nos encomendou Será o que hoiver de ser Todo este mundo é fadiga Vós
dixestes, fiiha amiga, Que vos buscássemos logo...
VIDAL
E logo pujemos fogo...
LATÃO
Cala-te!
VIDAL
Não queres que diga?
Não fui eu também contigo? Tu e eu não somos eu? Tu judeu e eu judeu, Não
somos massa dum trigo?
LATÃO
Leixa-me falar.
VIDAL
(…)
INÊS
Jesu! Guarde-me ora Deus! Não falará um de vós? Já queria saber isso...
MÃE
Que siso, Inês, que siso Tens debaixo desses véus...
INÊS
Diz o exemplo da velha: «O que não haveis de comer Leixai-o a outrem mexer».
MÃE
Eu não sei quem t'aconselha...
INÊS
Enfim, que novas trazeis?
VIDAL
O marido que quereis, De viola e dessa sorte, Não no há senão na corte Que cá não
no achareis.
Falámos a Badajoz, Músico, discreto, solteiro. Este fora o verdadeiro, Mas soltou-
se-nos da noz. Fomos a Vilhacastim E falou-nos em latim: - «Vinde cá daqui a uma
hora, E trazei-me essa senhora».
INÊS
Assi que é tudo nada enfim!
VIDAL
Esperai, aguardai ora! Soubemos dum escudeiro De feição d'atafoneiro Que virá
logo essora, Que fala... e com' ora fala! Estrugirá esta sala. E tange... e com' ora
tange! E alcança quanto abrange, E se preza bem da gala.
1. Recorda a cena cujo excerto se transcreve e aponta as características de Pêro
Marques, sob o ponto de vista de Inês Pereira.
8
AGRUPAMENTO DE ESCOLAS ROMEU CORREIA
2. Justifica a visita dos judeus casamenteiros a casa de Inês.
3. Indica as características do pretendente apresentado por Lianor Vaz e do
pretendente apresentado pelos judeus casamenteiros, apresentando os seus
nomes.
4. Indica os processos de cómico utilizados nesta cena e explica-os
exemplificando.
Parte B
Lê o texto seguinte.
O humor em Portugal
Em Portugal o humor, como representação da crítica moral e social, teve a sua
expressão mais comum através da palavra escrita, quer sob a forma das cantigas de
escárnio e maldizer quer sob a forma de teatro que Gil Vicente tão acutilantemente 1
revelou. A Inquisição2 surgiu como censora da liberdade de expressão remetendo o
riso e a ironia para a representação iconográfica3 nas artes populares.
Como menciona Osvaldo de Sousa, o humor, expresso através do desenho
associado à palavra impressa, é referido em Portugal já nos séculos XVII e XVIII
(sobretudo de origem estrangeira) mas com maior incidência no século XIX, no
contexto da Guerra Peninsular4. No entanto, só em meados desse século é que
emerge, com regularidade, na imprensa a publicação de caricaturas e desenhos
satíricos produzidos por autores portugueses que refletem a política nacional ou a
crítica de costumes. Este tipo de humor passa a funcionar como uma forma de
oposição ao poder instituído.
Nas décadas de 60 e 70 do século XIX, nomes como Manuel Macedo, Manuel
Maria Bordalo Pinheiro e sobretudo Raphael Bordalo Pinheiro, inseridos na corrente
naturalista, irão marcar uma nova visão da caricatura e do humor em Portugal. A
publicação dos seus trabalhos, bem como de outros artistas, era divulgada através
de periódicos como A Berlinda, O Binóculo, O Sorvete, O Charivari ou o Pontos nos ii,
entre outros. Dos temas tratados, com mais ironia, destacava-se a política
monárquica, denotando-se a tendência republicana de muitos caricaturistas que se
acentuará no final desse século.
A implantação da República e os tempos conturbados que se lhe seguiram,
assim como o facto de aquela não ser afinal a derradeira solução para o país,
tornaram-na alvo da sátira e da pena dos humoristas.
A partir de 1926, o Estado Novo5 veio refrear a crítica política, condicionando os
caricaturistas a abordarem sobretudo temas de crítica social e de costumes. Apesar
dos constrangimentos da censura, é por essa altura que surge, no contexto das
publicações humorísticas de caráter periódico, um dos jornais de referência da ironia
em Portugal no século XX, o Sempre fixe, publicado até 1962. Os seus colaboradores
zombavam dos acontecimentos ou astutamente tratavam os temas políticos.
8
AGRUPAMENTO DE ESCOLAS ROMEU CORREIA
A par deste tipo de publicações, diários e semanários de outra índole contavam
também com o trabalho de caricaturistas. Para além destes, surgiram jornais
associados a instituições que, muitas vezes produzidos de forma quase artesanal,
refletiam a atualidade da organização que os editava. Como exemplo, podem referir-
se os inúmeros “jornais de caserna6” que durante o século XX foram sendo editados
nas unidades, quer no continente quer no ultramar, os quais tiveram uma larga
divulgação durante o período da Guerra Colonial 7. Embora não se tratassem de
publicações de caráter cómico, muitos eram os humoristas que, estando a prestar o
serviço militar, colaboravam com os seus trabalhos nestas edições, ironizando as
situações vividas na guerra e nos quartéis.
“O humor no Jornal do Exército 1961-1974” resultou de um desafio lançado a
dois jovens soldados com o objetivo de pesquisarem, selecionarem e exporem
caricaturas e cartoons que ao longo do período em apreço pudessem caracterizar a
expressão desta arte gráfica no âmbito da sátira, da ironia, da irreverência, ou da
crítica social que, entre outros aspetos, refletissem o dia a dia de um meio
profissional que, particularmente no período em causa, atravessava e participava na
designada Guerra Colonial/Guerra do Ultramar.
[Link]
(Texto adaptado, consultado em janeiro de 2016)
_____________________
1
tão acutilantemente – tão bem; 2 Inquisição – tribunal de natureza religiosa, fortemente repressivo;
3
representação iconográfica – representação em imagens; 4 Guerra Peninsular – a guerra entre os
exércitos de Napoleão e os de Inglaterra, Portugal ou Espanha (1807-1814); 5 Estado Novo – regime
político ditatorial que vigorou em Portugal entre 1933 e 1974; 5 caserna – quartel; 6 Guerra Colonial –
guerra travada por Portugal em algumas das suas antigas colónias (1961 – 1974).
1. Para responder a cada um dos itens de 1.1 a 1.7, seleciona a opção que
permite obter uma afirmação correta.
1.1 Este texto tem como função principal
(A) traçar a história do humor em Portugal.
(B) apresentar os principais humoristas militares portugueses.
(C) apresentar a história do humor em geral em Portugal e no exército português
em particular.
(D) indicar o contexto cultural de uma pesquisa efetuada por alguns soldados
portugueses relativa ao humor no exército português.
1.2 A censura da Inquisição sobre formas de humor em Portugal exerceu-se
principalmente sobre
(A) as imagens.
(B) a palavra escrita.
(C) a palavra dita.
(D) as artes populares.
1.3 Em meados do século XIX, o humor, em Portugal, assume forma
(A) oral.
(B) escrita.
(C) iconográfica.
(D) religiosa.
8
AGRUPAMENTO DE ESCOLAS ROMEU CORREIA
1.4 Em meados do século XIX, o humor, em Portugal, debruça-se principalmente
sobre temas
(A) religiosos.
(B) políticos.
(C) artísticos.
(D) sociais.
1.5 Durante os anos que se seguiram à implantação da República, o humor satírico
desenvolveu-se com base
(A) numa desilusão.
(B) numa oposição de ideias.
(C) numa ilusão.
(D) numa discrepância.
1.6 O Estado Novo procurou reprimir a crítica de natureza
(A) social.
(B) religiosa.
(C) de costumes.
(D) política.
1.7 «O humor no Jornal do Exército 1961-1964» é uma iniciativa cujo objetivo
principal é
(A) uma pesquisa de documentação humorística.
(B) uma seleção de documentação humorística.
(C) uma apresentação de documentação humorística.
(D) uma exposição de documentação humorística.
8
AGRUPAMENTO DE ESCOLAS ROMEU CORREIA
GRUPO II (5 valores)
O viajante das estrelas
8
AGRUPAMENTO DE ESCOLAS ROMEU CORREIA
“Sou um astrofísico que viaja na também. Não os contos mas as gentes
Terra”, com 5
descreve-se Pedro Mota, que viaja ao quem contacta, “normalmente mais
sabor abertos
de histórias velhas como os povos. e expansivos com aquele que vem de
Atravessa 2 fora do
os continentes há mais de duas décadas. que aquilo que se poderia imaginar”.
5 Re-colhe contos tradicionais, afetos e 3 Por exemplo, na Costa dos Esqueletos
paixões. (Namíbia): “onde aprendi com os locais
Partilha-os, depois, com os outros. Seja como proteger a pele das queimaduras
no com pó de barro e gordura”, mais eficaz
seu livro Quatro Ventos, Sete Mares – O do que
Mundo Pelos Olhos de Um Viajante […], qualquer protetor solar industrial. Embora
seja banal, exemplos como este servem para
em exposições fotográficas. Seja, ainda, 3 de-monstrar “que apreendemos sempre
1 com coisas
aqueles de quem recolhe os fragmentos que ultrapassam as ideias feitas”. No
de caso
história e passado. concreto, “poderia ser levado a pensar
Recolher “contos e tradições de povos que o
só fariam por questões estéticas, por uma
com tradição oral foi a grande ‘desculpa’ tradi-ção de decorar o corpo”. A razão era
para 4 bem
a primeira viagem há mais de vinte anos. mais pragmática. Menos apaixonante.
1 Foi Mas, paixão e amor não faltam nas via-
também para mostrar, com o meu gens de Pedro Mota: “Há muito amor.
exemplo, Ainda
a importância de outras culturas”, há muito amor de quem recebe e depois
explica- de
-nos. Uma ideia que ainda não quem dá. Em Timor, em Angola, em Mo-
abandonou. çambique… em locais onde os
Uma história, “da qual não sou portugueses
personagem”, 4 apenas passaram e muitas vezes
sublinha. Uma história que prossegue, em deixaram
2 novos capítulos, “recolhidos, apenas o nome, como a Patagónia e
habitualmente, outros
em inglês e depois traduzidos”. locais remotos, onde deixámos palavras.
Fotografados, Como ‘barco grande’ em tibetano. Soa a
8
AGRUPAMENTO DE ESCOLAS ROMEU CORREIA
‘nau’. Eles têm palavras para todos os
tipos
de barcos que usam e conhecem. Um
barco
com a dimensão de uma cidade é ‘nau’.
Se
não for herança dos portugueses eu gosto
de
acreditar que sim, que é”.
Talvez uma das poucas dúvidas que
lhe
ficam. Antes de partir prepara-se com “li-
vros, documentos, músicas e outros
bocados
dos lugares”. Quando volta, põe o que viu
em
livro, em exposições fotográficas. “Para
par-tilhar o que trago de rotas antigas”.
6 Aquelas
de que diz gostar particularmente: “a
Rota da
Seda – da qual conheço alguns ‘fios’ – a
Rota
das Especiarias, a Rota do Ártico, o Mapa
Cor-de-Rosa”. A próxima, com as estrelas
por companhia, será à Austrália. Na
compa-nhia de outros homens que
sempre soube-
ram ler as estrelas.
MARINHA, C. Luís, 2008. “Aventureiros Solitários”.
Os Meus Livros, n.º 65, julho de 2008 (p. 41)
8
AGRUPAMENTO DE ESCOLAS ROMEU CORREIA
[Link] as funções sintáticas desempenhadas pelas expressões
sublinhadas no
texto.
Expressões do texto Funções sintáticas
a. “há mais de duas décadas” (l. 4)
b. “oral” (l. 13)
c. “primeira” (l. 14)
d. “a importância de outras culturas” (l.
16)
e. “bem mais pragmática” (ll. 36-37)
f. “paixão e amor” (l. 38)
g. “têm palavras para todos os tipos de
barcos que usam e conhecem” (ll. 47-
48)
h. “lhe” (l. 52)
i. “dos lugares” (l. 55)
1.2. Assinala a opção que completa de forma correta cada uma das frases
apresentadas.
1.2.1. Na frase “Pedro Mota considera a sua atividade fascinante.” a expressão
sublinhada desempenha a função sintática de
(A) predicativo do sujeito.
(B) predicativo do complemento direto.
(C) modificador do nome restritivo.
(D) complemento direto.
1.2.2. Na passagem “’Sou um astrofísico que viaja na Terra’, descreve-se
Pedro Mota,
que viaja ao sabor de histórias velhas como os povos.” (ll. 1-3) as orações
introduzidas por “que” desempenham a função sintática de
(A) modificador restritivo do nome.
(B) modificador apositivo do nome.
(C) modificador restritivo do nome e modificador apositivo do nome,
respetivamente.
(D) modificador apositivo do nome e modificador restritivo do nome,
respetivamente.
8
AGRUPAMENTO DE ESCOLAS ROMEU CORREIA
GRUPO III (5 valores)
Escreve um texto de natureza expositiva que tenha entre 120 e 150 palavras no
qual exponhas formas de representação do quotidiano na Farsa de Inês Pereira,
referindo, nomeadamente
– a relação entre raparigas casadoiras e suas mães / mentalidades sobre o
casamento;
– a função das alcoviteiras;
– a festa do casamento.