Didática de Leitura e Avaliação em Português
Didática de Leitura e Avaliação em Português
Deolorda Bango
Domingos Gomes
Graciela Nobre
Didáctica de Português II
Leitura e Avaliação
Universidade Pedagógica
Beira
2015
Bento Manuel Bento
Deolorda Bango
Domingos Gomes
Graciela Nobre
Didáctica de Português II
Leitura e Avaliação
Universidade Pedagógica
Beira
2015
Índice
0.0. Introdução.............................................................................................................................3
0.1. Objectivos.............................................................................................................................4
0.1.1. Geral...............................................................................................................................4
0.1.2. Específicos......................................................................................................................4
0.2. Metodologia..........................................................................................................................4
Conclusão......................................................................................................................................22
Bibliografia....................................................................................................................................23
Apêndices
3
0.0. Introdução
O ponto de partida deste trabalho é o pressuposto de que o conhecimento teórico sobre leitura em
Português como língua estrangeira / materna e sobre avaliação de leitura seria fundamental na
formação de professores de Português. Além disso, há a suposição de que a falta desses
conhecimentos podem influenciar a validade da avaliação desta competência.
O principal objectivo deste trabalho é propor uma proposta didáctica de 3 aulas de 90 minutos
versando o tema “Leitura e Avaliação”. Nesta ordem de ideia, o trabalho mostrará que os
professores devem possuir uma boa formação e domínio dos conteúdos para trabalhar o tema em
análise, mas também devem estar cientes das próprias dificuldades. Assim sendo, pode-se
concluir que esse conhecimento teórico sobre leitura e avaliação exerce uma influência
significativa na elaboração de testes de leitura em Português.
0.1. Objectivos
0.1.1. Geral:
0.1.2. Específicos
0.2. Metodologia
Para a materialização do tema “Leitura e Avaliação”, elaboramos uma proposta didáctica tendo
em conta uma turma da 11ª classe da Escola Secundária da Ponta-Gêa, dado que até a este nível
educacional esperemos que os alunos tenham algumas experiências alusivas à leitura. No
entanto, sabemos que a população moçambicana, muitas das vezes, é classificada como não
leitora, não se trata de problemas psicolinguísticos na maioria dos casos, propomos uma proposta
didáctica com intuito de despertar nos alunos o gosto pela leitura, oferecendo-lhes mecanismos
simples de abraçar o processo de leitura. Mas também trouxemos à proposta didáctica
actividades que se encaixam no nível do nosso grupo-alvo e que possam ser levadas avante nos
próximos níveis de escolaridade com ou sem a orientação dos professores.
Isso indica que a necessidade da leitura e sua avaliação é crescente e que precisamos voltar nossa
atenção para esta habilidade rapidamente, se quisermos dar conta dessa demanda e, ao mesmo
tempo, manter e melhorar a qualidade do nosso trabalho.
No entanto, devido às nossas experiências como aluno e estudantes, percebemos que na mesma
medida da necessidade de trabalhar com a leitura há uma dificuldade em fazê-lo de forma
sistemática, demonstrada por vários professores Português nas escolas. O problema que
geralmente é levantado em se trabalhar com a leitura em sala é o tempo, que na opinião dos
professores, parece não ser suficiente para permitir que o aluno leia um texto (de
aproximadamente meia lauda) e realize algumas actividades envolvendo a compreensão do
mesmo. Este é o argumento principal dado pelos professores para deixar a leitura como tarefa de
casa.
Essa dificuldade de trabalhar com a leitura parece aumentar, quando surge a necessidade de
preparar os testes, porque então, não é apenas uma questão de utilizar o material que já está
pronto, na íntegra, mas de selecionar e preparar o material a ser utilizado. E o problema é como
avaliar a leitura.
Daí que trabalhar este tema “Leitura e Avaliação” é uma forma de aprofundarmos os nossos
conhecimento a respeito do tema e contribuir em informação para os colegas do curso de tal
maneira que a leitura seja trabalhada de forma sistemática bem como deve ser avaliada tendo em
conta bases sólidas.
Em termos de recursos, optamos por trazer às aulas aqueles que despertassem maior interesse
nos alunos relativamente ao processo de ensino-aprendizagem da leitura, acima de tudo aqueles
recursos que proporcionassem uma aprendizagem significativa aos alunos.
6
Já no que toca às estratégias ou métodos usados, procuramos sempre usar aqueles que tendem às
novas abordagens de ensino-aprendizagem de línguas, deixando sempre o aluno no centro das
atenções, ou seja, no centro de aprendizagem.
No que diz respeito à avaliação, preconizamos a diagnóstica (experiência dos alunos mediante à
leitura) e a formativa (desenvolvimento das habilidades de leitura dos alunos).
Com isto tudo, achamos que as nossas escolhas sejam eficazes para a materialização da nossa
proposta didáctica composta por três aulas de 90 minutos.
7
FOUCAMBERT (1994, p.5) diz que “Ler significa ser questionado pelo mundo e por si mesmo,
significa que certas respostas podem ser encontradas na escrita, significa poder ter acesso a essa
escrita, significa construir uma resposta que integra parte das novas informações ao que já se é.”
O que se deve apreender do que ele diz é que ler é um processo activo por parte do leitor e não
passivo, como se costumava pensar há poucas décadas. Ler não é apenas atribuição de
significado ao que está escrito, mais que isso, ler é a construção de sentido que se faz da
mensagem transmitida a partir do conhecimento de mundo que se tem, para que essa nova
mensagem, ou parte dela, passe a fazer parte do próprio leitor. E é exatamente isso que lemos em
CARRELL (1987, p. 24): “... não apenas o leitor é um participante activo no processo de leitura,
fazendo predições e processando informação, mas tudo na experiência ou formação de
conhecimento prévia do leitor representa um papel potencial no processo”. O leitor, portanto, é a
peça principal no processo de leitura, sem o qual não há razão para o texto, nem construção de
sentido possível. É a partir do leitor que um texto passa a existir, de fato, como veículo
transmissor de mensagens. E, considerando que cada leitor constrói sentidos novos a partir do
seu conhecimento prévio e que este conhecimento é diferente em cada leitor, podemos entender
que toda leitura que se faz de um mesmo texto é particular e única.
COHEN afirma que “Ler requer que o leitor supra o significado ativamente com regularidade.”
(1994, p.212) Ou seja, para ler o leitor deve interagir com o texto.
Todo texto pressupõe algum conhecimento prévio que vai ser necessário para que o leitor possa
interagir com o conteúdo desse mesmo texto. O leitor, então, faz um “diálogo” entre o que ele já
sabe e o que está lendo, criticando, complementando, aceitando, recusando, etc, e assim, ele
reestrutura e constrói novas ideias, conceitos e conhecimentos. No entanto, tanto o conhecimento
pressuposto quanto as construções de sentido têm uma limitação imposta pelo contexto em que o
texto é lido. Se assim não fosse, os textos se tornariam inviáveis num dado momento, devido ao
volume de informações, sempre crescente, que conteriam. Da mesma forma, a variação de
8
sentidos apreendidos impossibilitaria a chegada a um sentido geral que pudesse ser partilhado
pela maioria dos leitores em questão, uma vez que cada leitor poderia inferir qualquer coisa que,
para ele, fizesse sentido. Nesse modelo de leitura interativa que COHEN adota a leitura “...é vista
como uma interação entre o texto e o leitor,...”(1994, p.212) e a compreensão 1 desse texto vai
depender tanto das características do texto, como do conhecimento prévio que o leitor tem sobre
o assunto abordado. Quanto maior o conhecimento prévio do assunto, mais fácil se torna a
compreensão de um texto. Da mesma forma, quanto mais complexa é a abordagem de um
assunto em um texto, mais conhecimento prévio se faz necessário, para uma adequada
compreensão do mesmo.
Em geral, quando lemos algum texto é porque queremos encontrar alguma “coisa” naquilo que
está escrito. Pode ser o desfecho de algum acontecimento, fictício ou não, a cotação da bolsa de
valores, ou a opinião de quem escreveu um artigo, por exemplo. Na sala de aula, o aluno
geralmente não escolhe o que quer ler, cabe então ao professor proporcionar ao aluno uma razão
para ler um determinado texto. Seja qual for a situação, NUTTALL (2000, p. 3) denomina essa
“coisa” que queremos encontrar de “mensagem”. O que nos interessa na leitura, portanto, é a
mensagem que o autor do texto quer transmitir. Em seu livro Teaching Reading Skills in a
Foreign Language, NUTTALL preocupa-se “... com o significado, especificamente com a
transferência de significado de mente para mente: a transferência de uma mensagem do escritor
para o leitor.” As visões de leitura que estes autores apresentam, são visões gerais, que não se
concentram em aspectos específicos dos diferentes tipos de leitura existentes, em relação ao
diferentes tipos de textos, por exemplo. Mas, embora amplas, são bastante adequadas aos
propósitos deste trabalho, pois no que tange testes de leitura em Português como língua
estrangeira ou segunda, o que basicamente nos interessa é que o aluno seja capaz de construir
significados novos, através da interação com o significado pretendido pelo autor de uma
mensagem2, transmitida por meio da escrita, seja ela qual for e que possa também interagir com o
1
Ver definição de “compreensão” utilizada ao longo deste trabalho na nota de roda-pé da seção 2.1, p. 5.
2
Uma mensagem, no contexto da leitura, pode ser uma ideia, um sentimento, um fato, ou alguma outra coisa que
uma pessoa queira compartilhar com os possíveis leitores do seu texto.
9
texto, independentemente do tipo, na busca e elaboração das informações que sejam mais
relevantes naquele momento (saber qual o tópico de um texto, qual a opinião do autor sobre o
assunto, ou uma informação precisa sobre o assunto abordado, por exemplo). São essas
informações que nos vão permitir analisar se um aluno será capaz de utilizar a habilidade de
leitura na compreensão e construção de significados a partir de mensagens escritas em Português.
A leitura avaliativa, como temos observado a partir da nossa experiência como alunos,
estudantes até como professores, não se preocupam com a formação de leitores competentes,
pois se reduz a ser uma prática inibidora de leitura para os alunos, principalmente no ensino
secundário com a leitura em voz alta e colectiva.
10
Assim, ter o porquê de se escrever determinado texto é o primeiro requisito para a produção de
um género (BAKHTIN, 2003).
Portanto, a avaliação de leitura deve ser estudada por quem a tem como instrumento de trabalho,
porque factores dependentes dela, como a própria leitura e escrita, precisam ser desenvolvidos a
partir do diagnóstico que se tem por meio da avaliação. Perceptível é o facto de desconhecerem
as modalidades avaliativas e suas verdadeiras funções o que provavelmente os daria princípios
básicos para uma possível alteração em sua prática para que os resultados de suas avaliações
fossem positivos. A princípio, tinha-se o conhecimento de duas modalidades de avaliação 3: a
classificatória/somativa e a diagnóstica/discriminatória 4. No entanto, para atender a verdadeira
necessidade do processo de ensino e aprendizagem, o acto de avaliar deve ser o de informar o
aluno e o professor se houve aprendizado ou desenvolvimento do que já havia sido aprendido.
Para isso, a avaliação formativa, complementada pela diagnóstica e somativa, tem por função
controlar o ensino para a aprendizagem de conteúdos não internalizados.
Para COLOMER & CAMPS (2002, p.172), podem-se enumerar dois aspectos em torno da
avaliação formativa: 1) é - um instrumento nas mãos‖ de todos os sujeitos envolvidos no ensino,
isto é, todos têm o controle do processo, podendo visualizar seus erros e falhas para o
aprimoramento e o crescimento; 2) a aprendizagem é entendida como - uma construção do
próprio aluno e implica uma mudança na utilização dos instrumentos de avaliação, que perdem
3
Ao tratarmos das modalidades de avaliação, temos três destaques: classificatória, diagnóstica e formativa,
respectivamente. As duas primeiras serão explicadas primeiramente, pois a última é foco trabalho.
4
A modalidade de avaliação classificatória é também denominada por Luckesi (2000) como somativa, pois, ao
classificar, o professor transpõe os resultados em números, adquirindo a possibilidade de soma e divisão de notas
para o estabelecimento das médias. O mesmo ocorre com a modalidade de avaliação diagnóstica, a qual o autor se
refere como discriminatória por ter a função de discriminar os níveis que os alunos já alcançam.
11
seu habitual sentido sancionador‖. A avaliação formativa é, portanto, uma avaliação orientadora e
global, concebida como um meio pedagógico para ajudar o aluno em seu processo educativo.
ANTUNES (2003, p.162) afirma que:
A prática de avaliação de leitura, nessa perspectiva, faz-se por meio da observação do que o
aluno já sabe, ou seja, pelo conhecimento prévio do que se sabe sobre o tema de um texto, bem
como pela utilização desse conhecimento na vida de cada um. A partir daí, é possível fornecer
exercícios produzidos especificamente em função do que o aluno necessita para melhorar sua
leitura ou desenvolvê-la (MENEGASSI, 2005). Toma-se, portanto, a leitura como processo,
objetivando a consciência do aluno sobre esse fato. Contudo, para isso, o professor também se
conscientiza sobre a avaliação como um processo contínuo. Não se concentra, dessa forma, em
um determinado período do ano ou do bimestre, considerando que, se a leitura é um processo, a
avaliação dessa leitura também necessita ser vista como tal (VYGOTSKY, 1988).
A tomada de consciência sobre seu próprio processo de leitura possibilita ao aluno - observar o
resultado da própria atuação na leitura, analisando as estratégias empregadas (seleção,
antecipação, inferência e verificação), criando assim um processo consciente do uso de
12
estratégias durante a leitura‖ (MENEGASSI, 2005, p.101). O professor pode observar se o aluno
está consciente do processo de leitura por diversas formas, uma delas é atentar para a leitura em
voz alta do aluno. Se ele, ao ler um texto em voz alta ou de forma silenciosa, corrigir-se,
significa já ter um nível de consciência aparente, devendo ser considerada para a elaboração de
estratégias pelo professor, conforme afirma MENEGASSI (2005).
2.0. Aula I
Dados de Identificação
Objectivos:
Geral:
Específicos:
Recursos didácticos
Métodos
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Pequenos grupos de alunos que receberão diferentes coleções de livros, tornando assim o
trabalho prático e fácil. Mas para além deste método optaremos pela miscelânea de
métodos de acordo com a realidade dos alunos.
Introdução
Num dia antes da aula iremos formar grupos de alunos, aos quais daremos a orientação de
trazerem para a aula livros de histórias aos seus gostos. Já no dia propriamente dito da aula,
iniciaremos a aula fazendo uma contextualização a respeito de leitura (o que é e qual é a sua
importância), depois vamos pedir aos alunos para que façam o manuseamento dos livros e
descubram informações sobre os mesmos:
Obs: Depois da descoberta das informações alusivas aos livros, os alunos ou o professor podem
fazer uma resenha do porquê da importância da leitura na formação dos indivíduos.
Desenvolvimento
Após a leitura5 orientada na introdução, pediremos aos alunos que escolham o livro que mais
chamou a atenção deles – entre todos os que receberam – e que gostariam de ler primeiro.
Pediremos que justifiquem para o outro grupo a escolha (pelo título, tema, autor conhecido – já
leu livros dele antes – gravura).
Prosseguindo, pediremos à turma que imagine como são as histórias dos livros escolhidos, com
base na imagem, no título, no conhecimento que cada um já possui sobre o assunto ou no
interesse pelo tema. Pediremos para que exponham suas ideias para o grupo.
5
Veja o tipo de leitura na grelha de planificação I nos apêndices.
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Ainda neste processo de despertar o gosto pela leitura nos alunos, pediremos aos mesmos que
folhem o(s) livro(s) e descobrir se há alguma informação sobre o autor. Onde se encontra essa
informação? O autor ainda vive? Escreveu outros livros? Onde nasceu?
Conclusão
Já na fase final da aula, achamos melhor perguntarmos aos alunos por que eles acham que é
importante fazer a leitura do livro antes de ler a história. Aqui devemos esclarecer que é assim
que geralmente pessoas escolhem livros para ler: baseando-se no autor de quem gostam e cujos
livros querem conhecer mais, ou que desconhecem, mas cujo tema ou título lhes chamou
atenção; na editora que costuma publicar livros interessantes; na indicação que receberam de
alguém que conhece o livro, o autor ou a editora; entre outras coisas. Os alunos estão a se formar
leitores e precisam de ter os mecanismos para escolher um livro, que podem guiá-los em suas
próprias escolhas.
Tendo em conta que a nossa proposta didáctica contém 3 aulas de 90 min., faremos a marcação
do TPC com vista a preparar os alunos para a aula seguinte:
1- Em casa, cada grupo, terá que seleccionar um livro e lê-lo, sempre que for necessário a
ter em conta os mecanismos para a escolha de um livro para ler (suspeitas, autor,
conhecimento do mundo, título, etc.)
2- Depois da leitura do livro cada grupo deverá resumi-lo.
Avaliação
Nesta aula iremos avaliar o nível de manuseamento dos livros e informações sobre os
mesmo ao longo da aula, mas também iremos avaliar a experiência que os alunos têm no
que se refere à leitura.
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Dados de Identificação
Objectivos:
Geral:
Ler textos
Conhecer os níveis de leitura em que os alunos se encontram.
Específicos:
Recursos didácticos
Livros seleccionados pelos alunos na aula anterior, um livro por cada grupo.
Métodos/Estratégias
6
Veja a grelha de planificação no apêndice II.
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Pequenos grupos os quais vão participar do debate da história de livros e leitores, isto é,
cada grupo irá apresentar as suas experiências relativamente a leitura feita em casa assim
como as suas posições como leitores. Na base de perguntas elaboradas por nós, irão
classificar as suas experiências.
Introdução
Tendo em conta que na primeira aula procuraremos basicamente despertar o gosto pela leitura
por parte dos alunos, nesta segunda optaremos por criar um debate com vista a identificarmos os
níveis dos alunos relativamente à leitura.
Neste caso, no primeiro momento, iremos pedir aos líderes dos grupos que nos apresentem o
resumo do livro escolhido pelo grupo.
Desenvolvimento
E de seguida iremos ler as perguntas abaixo e promover um debate, para que todos possam falar
de suas experiências com os livros escolhidos. Discutiremos as respostas de cada grupo e
descobrirão quem está precisando de ajuda para continuar a leitura e quem ainda não começou a
ler.
Depois de os alunos conhecerem os seus desafios, que tal trocarem ideias sobre os livros? Os
líderes escrever no caderno as dicas que receberem uns dos outros. Pois o objectivo do debate é
poder ajudar e ser ajudado quando necessário.
Conclusão
Após o debate, perceberemos que a experiência de cada grupo com seus livros até o momento
pode ser classificada da seguinte forma:
Foi uma decepção! Eu não Meu desafio é contar aos colegas como
estou gostando do livro que é se sentir um leitor de “coração
escolhi, preciso de ajuda para partido” e encontrar, com ajuda deles
FOI RUIM... continuar a ler! um livro que tenha a ver comigo!
Com esta classificação podemos orientar o aluno para desenvolver harmoniosamente o seu
processo de leitura.
Avaliação
A avaliação das actividades arroladas na segunda aula terá em vista o debate que teremos
com os alunos, de forma informal iremos avaliar os níveis de leitura dos alunos, de
interesse assim como a proficiência dos mesmos face à leitura.
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Dados de Identificação
Texto específico: “Por que alguns livros mexem com nossa cabeça?”, do autor Antonio Gil Neto.
Objectivos:
Geral:
Específicos:
Recursos didácticos
Frases síntese8 e trechos9 do texto “Por que alguns livros mexem com nossa cabeça? 10”,
do autor Antonio Gil Neto.
7
Veja a grelha de planificação no apêndice III.
8
Veja frases síntese no apêndice IV.
9
Veja os trechos recortados no apêndice V.
10
Veja o texto original no apêndice VI.
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Métodos/Estratégias
Pequenos grupos de alunos que receberão as frases síntese assim como os trechos do
texto em análise a serem montados na ordem correcta, pois, trata-se de um quebra-cabeça
para os alunos com vista a avaliar a sua compreensão do texto através da leitura que farão
ao texto.
Introdução
Tratando-se duma aula de consolidação, optaremos por levar para a sala de aula um quebra
cabeça alusivo à actividade de leitura. Para começarmos iremos distribuir aos alunos frases
síntese e os trechos do texto “Por que alguns livros mexem com nossa cabeça?” recortados, do
autor Antonio Gil Neto de modo que eles ordenem correctamente os trechos.
Desenvolvimento
Iremos explicar aos grupos já formados na aula inicial que cada frase síntese justifica ou resenha
um trecho, portanto, os grupos devem descobrir, ou melhor, identificar tal trecho e depois
ordenar os trechos no sentindo de darem ao texto coesão e coerência. Os grupos devem utilizar
muitas suspeitas inteligentes, encontrem as pistas que aparecem no texto (palavras e expressões)
Devem também pensar também quais foram as ‘estratégias’ que usam para descobrir a ordem
certa! Ressaltar ainda que os trechos não se encontram na ordem do texto original, os grupos
terão que reorganizá-los.
Assim, os grupos vão ter que ler as frases síntese do texto em análise, só depois é irão montar o
texto na ordem correcta.
Conclusão
Já na conclusão, os grupos irão escolher um líder o qual irá apresentar a correcção da actividade,
ou seja, irá ler em voz alta o texto montado. A turma irá acompanhar as leituras de cada grupo e
fará a devida correcção.
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Avaliação
Nesta última aula, teremos a avaliação formativa, onde iremos avaliar a compreensão da
leitura dos alunos durante a montagem do texto anteriormente referenciado, mas também
iremos avaliar o nível de leitura dos grupos aquando da correcção da actividade proposta
para a aula III.
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Conclusão
As informações que pesquisamos e reflectirmos indicam-nos que o trabalho realizado em sala de
aula relativamente à leitura deve ocorrer sob bases sólidas e sistemáticas, com um plano
sistemático da sua avaliação. Notamos depois da elaboração da proposta didáctica que a falta de
dinamismo pode estar levando os professores a deixar que a leitura seja feita apenas em casa e
não na sala de aula, que muitas vezes é equivocadamente vista como um ambiente dinâmico por
excelência. Além disso, a falta de hábito de leitura pode realmente comprometer o rendimento do
trabalho com leitura, uma vez que a tendência é que os alunos que não têm esse hábito precisem
de mais tempo na realização das actividades. No entanto, essa é uma dificuldade que pode ser
trabalhada com técnicas de leitura, treino e controle de tempo, sem precisar ser a causa de um
trabalho incompleto. Mas também pudemos perceber que um maior conhecimento teórico sobre
avaliação da leitura seria muito útil, tanto para nortear e facilitar o trabalho dos professores,
quanto para garantir a validade dos resultados dos mesmos, através da antecipação dos pequenos
problemas ou actividades.
Finalmente, na medida em que os alunos percebem que não precisam entender o significado
exacto de cada palavra do texto, eles geralmente mudam suas expectativas em relação à leitura e
isso deixa de ser um problema. Portanto, podemos concluir que pode estar havendo um
comprometimento do trabalho realizado com a leitura na sala de aula, em vários graus, e que o
conhecimento sobre o trabalho com leitura pode fazer uma diferença significativa na qualidade e
na otimização do processo de ensino/aprendizagem.
23
Bibliografia
ANTUNES, Irandé. Aula de Português: Encontro e Interação. São Paulo: Parábola, 2003.
BAKHTIN, Michael. Estética da Criação Verbal. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
COHEN, Andrew D. Assessing Language Ability in the Classroom. 2nd ed. Boston: Heinle &
Heinle, 1994.
COLOMER, Teresa.; CAMPS, Anna. Ensinar a Ler, Ensinar a Compreender. Porto Alegre,
2002.
FOUCAMBERT, Jean. A Leitura em Questão. Tradução: Bruno Charles Magne. Porto Alegre:
Artmed, 1994. MCNAMARA, Tim. Language Testing. Oxford: Oxford University Press, 2000.
LUCKESI, Cipriano Carlos, Avaliação da Aprendizagem Escolar. São Paulo: Cortez, 2000.
VYGOTSKY, Lev Semenovich. A Formação Social da Mente. 2.ed. São Paulo: Martins fontes,
1988.
APÊNDICES
Apêndice I
Aula I
Apêndice II
Aula III
Apêndice III
Aula III
Apêndice IV
1. Os livros nos transformam, pois nos mostram outros mundos, fazendo-nos conhecer melhor a
nossa realidade e a dos outros.
2. Os livros nos levam a realidades que nunca conheceríamos em nossa própria experiência.
4. Os livros nos encantam pelas palavras, pela habilidade de seus autores e por serem objetos
bonitos.
5. Os livros não são únicos e monótonos, pois carregam inúmeras possibilidades de tipos e
gêneros textuais.
7. Começar a ler e não continuar não é pecado. Há sempre outros para se ler.
Confesso que, às vezes, me pego mais atraído pela autoria, pelo jeito de escrever do que
propriamente pelo livro, pelo escrito em si. Leio a história, mas me envolvo com a arquitetura
do texto, o “modus operandi” do escritor com as palavras. Também dou de adiar o fim da
leitura, relendo alguns trechos soltos e anteriormente lidos, relidos. Volto, procurando pistas,
segredos, minúcias... Uma sensação parecida com aquela do final do conto “Felicidade
Clandestina”.
Chego por vezes a um livro de um jeito curioso, quase infantil, inconseqüente. Vou
acarinhando-o com as mãos, alentando-o. Vou gostando da capa, dos recados das suas orelhas
ou de algum detalhe inesperado que em meu olhar vejo brotar. Depois de um manuseio solto,
descompromissado, acabo levando-o comigo, sem pestanejar. Como um apaixonado mesmo.
Adoro e me enlevo quando isso acontece.
Trecho 1
Quantas vezes, armados não só de uma limonada ou café ou de um cheirinho de bolo no ar, mas
sobretudo de nosso patrimônio de leituras, nos colocamos de frente a um problema insolúvel, um
lancinante mistério ou a um dilema que nos retorce por inteiro e nos envolve deliciosamente.
Movidos pelo simples prazer, ficamos a imaginar, vislumbrar, absortos e lúcidos. Somos
amalgamados, vivendo a vida que desabrocha das entrelinhas das páginas como sementes, e a vida
real, como frutos maduros, que seguimos vivendo, por vezes crua, corriqueira, previsível e real
demais. Temos a leve presença da experiência humana que lateja, brilha e se oferece para ser
acolhida em nós num simples naco de saborosa leitura.
Trecho 2
Nunca estamos sozinhos e nunca ficamos sendo os mesmos no decorrer de uma leitura que se
preze. Acho que é porque, quando lemos, somos simultaneamente únicos e muitos. Temos muitas
vidas para viver durante um simples ato de ler. Ao mesmo tempo reais e imaginárias. Afinadas e
sincronizadas. Íntimas e singulares. Talvez seja esse um segredo. Assim, o mundo real acaba não
saindo ileso do nosso ato de ler. Ele vai se modificando paulatinamente pelo que vai sendo
incorporado no olhar do seu morador que o investiga e o redescobre à luz do que vai lendo. O
nosso coração se exercita nos músculos e nas emoções das personagens que acolhemos. Em
tempos, espaços e situações adversos e dissonantes visitamos, do nosso canto doméstico,
preferido ou particular, lugares e sonhos nunca imaginados... Vamos ficando cada vez mais
artífices ao traduzir ou intervir no que vai acontecendo ao nosso redor. Nós sentimos mais capazes
de sermos nós mesmos e com os outros...
Trecho 3
E pensar que neste mundo supostamente tão evoluído ainda existem tantas e tantas cabeças que
ainda não foram mexidas ou sequer tocadas pelo movimento dos livros! Isso me parece muito
prejudicial para o mundo, para o coletivo, o globalizado ou virtual. A criatividade ou a
transgressão e toda a atitude de busca e aperfeiçoamento da humanidade estão na cabeça das
pessoas. E o livro e suas possibilidades de leitura podem contribuir para essas façanhas dos
homens. De bem, espero.
Olhando de perto para a escola que tem a função de formar as crianças para este mundo de
deuses, percebo que a leitura ainda não é trabalhada no cotidiano curricular como bem merece.
A leitura faz parte do trabalho dos educadores. É necessário difundir, ampliar, engrandecer esse
trabalho de leituras. Nas mãos de todos os alunos. É claro que num jogo prazeroso e dialógico
entre leitores e textos, sem os dogmas da imposição. Ouso pensar que a leitura pode ser uma
ferramenta, uma possibilidade, uma concreta esperança de futuros melhores.
Trecho 4
Depois de tudo isso, guardo a sensação de que poderia tentar responder à pergunta-título
expondo infinitas e plausíveis explicações. Num orgulho improvisado, me arriscaria a dizer sem
sobressaltos que, para mim, o livro mexe com a nossa cabeça porque dá sentido à vida. Nos
humaniza. Faz emergir da gente o primordial e genuíno que há em nós e nos faz humanos a
inteligência, os sentimentos. O gosto pelo viver. Pelo outro, pelo convívio. Pelos mistérios que
nos inundam. E, sobretudo, porque nos coloca diante de uma gama infinda de possibilidades de
aprender, de revigorar experiências. Nos faz atravessar as paredes do tempo, imaginar, intuir,
sonhar, fortificar as sensibilidades, mergulhar em novas águas ou em águas de outrora. Nos
encanta e nos renova e nos leva a fugir da mesmice, do monótono, a refletir, ver as coisas com
outros olhos, lúcidos e lúdicos, a mudar, aprimorar-se, criar. E, num diapasão de alegria íntima,
a descobrir e usufruir dessas sutis engenhosidades do cérebro humano que são a maior benção
para quem está vivo!
Trecho 5
Se fizesse agora mesmo um instantâneo do meu movimento de leitura eu diria que estou em
meio a uma colagem de textos. Artimanhas do livro. Peguei o gosto de ler alguns
simultaneamente. O diálogo, a conexão, os links entre eles, vão se tecendo sem saber, como uma
teia, uma dança de sentidos, chuva e sol. Uma leitura sempre ecoa noutra, como escada,
tempero, vibração, contracanto, contraponto, referente. Tenho lido algumas biografias
ultimamente. É um gosto desabrochado e desavergonhado pela ideia de conhecer mais do que
intimamente pessoas especiais. Li várias. Estou lendo uma agora e parece que não vou mais
parar.
E poesia? Sempre. Como pão e água de todos os dias. Como bálsamo, perfume, chaves,
manejos... Estou aqui escrevendo e sobre a mesa de trabalho fotografo de rabo de olho um livro
de Adélia Prado oferecendo poemas para ler e me sustentar. Abro-o, leio um verso, mais outro e
tenho um instante da vida enfeitado, evidenciado e iluminado pelas palavras.
Mas não dá para ficar sem romances e contos. São os deliciosos oásis do cotidiano. Viajamos
sem quaisquer passaportes para tempos e lugares inesperados, inesquecíveis e inebriantes.
Ficamos cúmplices e amorosamente ligados em pessoas que nascem, crescem e inundam nosso
pensar num simples suspiro ou virar de páginas. Sem sairmos de nosso chão, sem máquina do
tempo nos transportamos e nos recriamos continuadamente. Sem alardes. Há os livros que ficam
na fila do nosso desejo, esperando o nosso sopro de vida. O próximo sempre serão muitos,
quando caímos na graça da leitura: um livro de correspondências entre pessoas ímpares, outro
de jardinagem com culinárias, mais um que conta uma história mais que inesquecível e ainda
outro que nos revela um autor perdido na memória dos tempos ....
Trecho 6
Leio como se meu olhar fosse itinerante e aventureiro, companheiro das palavras e a minha
alma fosse fotografando as imagens e os sentimentos vivos que nelas se espelham... Quando a
coisa começa a funcionar como obrigação, desencanto, falta de apetite para as entrelinhas,
costumo parar e pronto. Esqueço o livro pelo menos por algum tempo. Pode ser que eu precise
de uma calibragem na minha gana de ler, ou então o livro é um equívoco ou coisa assim.
Existem livros que não são interessantes. Não estão em sintonia com nossos momentos. Já
encontrei livros que não mereciam ser livros. Outros, comprei com tanta sede ao pote e depois
os abandonei sem ler.
Acontece. Não sei bem o porquê. A escolha é do leitor, do diálogo que ele faz com seu objeto
de leitura. Álibi provisório.
Sempre tenho livros por perto, prontos para ler. Sempre tenho uma lista interminável para
comprar. Por vezes fisgo algum adormecido no armário, nas gavetas. E sempre tenho livros às
mãos, como frutos e flores espalhados pela casa. Admiro vê-los: esparsos, empilhados,
arrumados fazendo desenhos pelos espaços, instigando desejos, curiosidades... Para mim são
como humanos ou mais, pelas potencialidades que carregam. Acho bonito o visual deles e acho
salutar manusear e estar em contato com seu papel, suas cores, imagens, sua densidade e peso, seu
formato diverso, sua tessitura, seu cheiro, seu porte...
Trecho 7
Como ficaria a vida sem os livros?
Nem pensar. Acho que tudo ficaria mofo, sem graça, sem belezas... O livro é uma espécie de
academia bem aparelhada capaz de exercitar o nosso comando maior, a cabeça, e todo o
maquinário natural que dentro dela está e nos faz pulsantes, singularmente concretos e
sobreviventes, vibrantes. Presenteamos o cérebro com as leituras e ele vai ficando em boa
forma.
Então dá de sonhar fácil, de inventar de tudo, de amar o essencial, de optar e decidir com
autoria, de aprender mais, de perdoar com leveza, de lavar águas e almas, de perceber
minúcias de azuis e outros tons, de comprar com outros olhos e mãos, de comparar valores
implícitos, de se encantar, de olhar o quase não visto, de observar, imaginar e fazer acontecer
pela leve intenção de fazer existir o desejado, de investir e investigar como quem respira
maneiro, de refazer, repensar, tomar partido, se expor, potencializar, estar presente... e mais
uma infinita modalidade de atitudes que nos qualificam e nos identificam como humanos e
inteligentes. Talvez ler seja um jeito de existirmos em lances de plenitude, escancarando
nossos sentimentos mais íntimos, intensos, íntegros.
Acho que cada vez que ler um livro, um texto, um poema, mexem e remexem com a nossa
cabeça, essa metáfora do humano acontece em nós, nos tornamos gente, genuinamente
pessoas.
E, quando isso acontece, corremos o grato risco de dentro de nós mesmos abrigarmos, sem
cerimônia alguma, uma doce revelação, uma sutil evolução, uma silenciosa revolução. O que
se parece com o desenho da experiência amorosa na vida. Podemos ficar mais poderosos, mais
desnudos e refeitos, sem darmos conta das potencialidades do humano em nós.
Trecho 8
NB: Estes trechos não estão organizados, os números 1-8 não obedecem a sequencia original do
texto que consta do apêndice VI.
Apêndice VI
“Por que alguns livros, ou textos, mexem com a nossa cabeça?” Por Antonio Gil Neto11
Sinto que os livros, antes, durante e depois de saborosamente lidos, não mexem só com a nossa
cabeça. Mexem com tudo de nós, com a nossa existência. Como uma sinfonia, um turbilhão, uma
maratona, uma revoada.
Nunca ficamos sendo o mesmo no decorrer de uma leitura que se preze. Acho que é porque,
quando lemos, somos simultaneamente únicos e muitos. Temos muitas vidas para viver durante
um simples ato de ler, ao mesmo tempo reais e imaginárias. Afinadas e sincronizadas. Talvez
seja esse o segredo. O mundo real acaba não saindo ileso do nosso ato de leituras. Ele vai se
modificando paulatinamente naquilo que é incorporado no olhar do seu morador e leitor que o
investiga e o redescobre à luz dos textos lidos. O nosso coração se exercita nos músculos e nas
emoções das personagens que acolhemos. Em tempos, espaços e situações adversos. Visitamos,
do nosso canto doméstico, preferido ou particular, lugares e sonhos nunca imaginados.
Quantas vezes, em plena tarde ensolarada, armados não só de uma limonada geladinha ou de um
cheiro de bolo assando, mas sobretudo de todo o nosso patrimônio de leituras, nos colocamos de
frente a um problema insolúvel ou a um dilema que nos retorce por inteiro e nos envolve
deliciosamente? Movidos pelo simples prazer, ficamos a imaginar. Somos amalgamados,
vivendo a vida que desabrocha das entrelinhas das páginas como frutos maduros e a vida real que
seguimos vivendo, por vezes crua, sem graça, previsível, corrida e real demais.
Como ficaria a vida sem os livros? Nem pensar. Acho que tudo ficaria mofo, sem graça, sem
beleza...O livro é uma espécie de academia bem aparelhada capaz de exercitar o nosso comando
maior, a cabeça, e todo o maquinário natural que dentro dela está e nos faz pulsantes,
singularmente concretos e sobreviventes vibrantes. Presenteamos o cérebro com as leituras e ele
fica em boa forma. Então dá de sonhar fácil, de inventar de tudo, de amar o essencial, de optar e
decidir com autoria, de aprender mais, de perdoar com leveza, de lavar águas e alma, de perceber
minúcias de azuis e verdes, nuances da alvorada, de comprar com outros olhos e mãos, de
comparar valores implícitos, de se encantar, de olhar o quase não visto, de usufruir aromas e
11
Texto disponível www.institutocea.org.br/download/download.aspx?...livrosantoniogil..., consultado aos
30/03/2015.
movimentos, de observar, imaginar e fazer acontecer pela pura intenção de existir o desejado, de
investir e investigar como quem respira leve, de refazer, repensar, tomar partido, se expor,
potencializar, estar presente... E mais uma infinita modalidade de atitudes que nos qualifica e nos
identifica como humanos e inteligentes.
Acho que cada vez que um livro, um poema, um texto mexe e remexe com a nossa cabeça, essa
metáfora do humano em nós, nos tornamos gente, genuinamente pessoas.
Você já se pegou num atormentado prazer de ler e reler algum conto ou poema e sentir-se
completamente envolvido em uma situação inusitada, perplexa, maravilhosa, intrigante ou coisa
assim?
Você já devorou algum romance rapidamente, quase num fôlego só, se entregando plenamente a
uma trama interessante, envolvente e original a ponto de no “acabou-se o que era doce” ficar
nadando no ar um gosto bom de quero, queria mais?
Você nunca teve uma leve sensação de suspeita e fantasiosa lucidez em meio a uma leitura de
estudos de que o autor escreve exclusivamente para você, como se adivinha a sua necessidade
especial de saber algo mais? Ou que no fundo teria chegado às mesmas conclusões implícitas no
texto? Parece até que em nós se instala o esboço, a primeira versão. O autor só teria o mérito de
organizar tudo, nos dando de presente o que já tínhamos desenhado em nós, intuitivamente.
Essas são algumas das situações que a gente vive em torno do convívio com o livro. Ele sempre
é e será inusitado, sutil, imprescindível, surpreendente e laborioso. E a nossa cabeça, o nosso
corpo e o nosso viver precisa dele. Como precisa do amor. São coisas de leitor e leituras que
criam e iluminam dinâmicas inteligentes em nossa cabeça, em nosso pensar, em nosso existir.
Depois de tudo isso, guardo a sensação de que poderia responder à pergunta título expondo
infinitas e plausíveis imagens que fluem do encontro leitor e livro, como dinâmicas fotografias.
Mas, simplificando, me arriscaria a dizer sem sobressaltos que, para mim, o livro mexe com a
nossa cabeça porque dá sentido à vida. Nos humaniza. Faz emergir da gente o primordial e
genuíno que há em nós e nos faz humanos. A inteligência, os sentimentos. O gosto pelo viver,
pelo outro, pelo convívio. Pelos mistérios que nos inundam. E sobretudo porque nos coloca
diante de uma gama infinda de possibilidades de aprendizagens, revigora nossas experiências,
nos faz atravessar as paredes do tempo, imaginar, brincar, intuir, sonhar, fortificar as
sensibilidades, mergulhar em novas águas ou nos jogar novamente em águas de outrora, nos faz
encantar, renovar, fugir da mesmice, do monótono, refletir, ver as coisas com outros olhos,
lúcidos e lúdicos, mudar, aprimorar-se... Criar e, em um diapasão de alegria íntima, descobrir
essas sutis engenhosidades do cérebro humano, que são a maior bênção para quem está vivo!