Evolução do Direito Português
Evolução do Direito Português
0. PERIODIFICAÇÃO DO DIREITO
Outras Periodificações
1. Época pluralista
- Entre 1140 e 1415, data que marca a conquista de Ceuta e o início
dos Descobrimentos.
- Fontes: existiam várias fontes de direito diversas (costume, lei, direito
local, como forais e foros, direito romano, direito canónico). Não
existia, assim, um poder central criador de Direito, mas sim uma
variedade de instituições. Não existia Estado. O único domínio era o
domínio feudal.
2. Época monista
- De 1415 até aos nossos dias. Caracteriza-se pelo predomínio da fonte
lei, cujo surgimento vem da necessidade dos monarcas em centralizar
o poder.
2.1. Período monista formal: decorreu desde 1415 até 1820,
caracteriza-se por um direito público estável, pelo desenvolvimento
progressivo das doutrinas políticas, pela permanência de linhas essenciais de
direito privado.
2.2. Período monista material/substancial: decorre desde 1822 até
aos nossos dias, caracterizado pelas novas ideias de Estado e do indivíduo.
A ordem jurídica é tida como um sistema, prevalecendo a lei. Os códigos
M. Tristão e F.
Penucho
M. Tristão e F.
Penucho
(período pluralista)
Defendia que o direito natural era a razão Em que a lei natural se confunde ou se
que se encontrava no próprio homem, que submete com o Evangelho ou até com a lei
é fruto da natureza de Deus. mosaica, contida no Antigo Testamento
Philippe Delhaye → influenciado pelo Defendia que era no direito natural que se
renascimento da ideia de natureza e encontrava a resposta para alguém que se
sob impacto do escritores pagãos e revia em Deus.
depois do pensamento aristotélico- Santo Agostinho→ o direito natural, é a
tomista, cita “a um universo sacral regido síntese entre a consciência e a graça, foi
por Deus a seu bel-prazer sucede um dado por Deus desde a criação do homem.
cosmos ordenado, feito de seres
submetidos às leis naturais” O dto vem de Deus para o Homem.
E se é certo que Deus, fonte de origem e
de tudo (da natureza, inclusive) não foi
banido do processo, desde então o “dto
natural, muito inspirado que seja por Deus,
situa-se ao lado do dto positivo divino”
Considerava-se que ele apontava para a rigidez, os doutrinadores deste período quando
M. Tristão e F.
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falaram nesta lei justa por natureza, que se impunha à observância dos homens,
nomeadamente, através da criação das suas próprias regras, entendia-se que este Direito
era um Direito fixo, imóvel, universal, intemporal.
Graciano (1140) → entende que o Direito Natural seria universal e intemporal.
Esta conceção rapidamente surgiu como uma perspetiva que traduziria numa rigidez
excessiva do Dto Natural.
Não é justa a crítica que foi feita ao Direito Natural de que ele seria um Direito imóvel no
tempo e no espaço – muito pelo contrário, teólogos que meditaram sobre o Direito
Natural, vão afirmar que nele podemos encontrar preceitos que impõem, preceitos que
proíbem e preceitos que meramente aconselham ou persuadem, estes últimos, não
seriam universais nem intemporais.
Deus inscreve no coração do Aqui, operando a nossa razão, São O Direito Natural é um corpo
homem três tendências: Tomás de Aquino já admite a limitado e valioso de princípios,
1) Tendência para viver em dúvida, que nalguns sistemas de de regras, não serve para
sociedade (o homem é um direito complexos, se possa entender disciplinar da forma mais concreta
animal gregário) que a regra é que o bem, mesmo e mais precisa os
2) Tendência para a assim, deve ser entregue ao seu comportamentos, pois esse é o
conservação do ser depositário, ou, então, a regra papel do Direito positivo.
3) Tendência para conhecer a exatamente oposta, em que essa O Direito Natural funciona como
verdade obrigação de entregar o bem cessa. padrão de validade, funciona, no
Admite a variação dos preceitos fundo, como critério de aferição
São Tomás de Aquino não secundários do Direito Natural. da justeza do Direito que é
invalida a hipótese de outros criado positivamente. Isto é
pensadores puderem identificar Assim, falece a crítica ao Direito evidente para todos os homens
outras tendências inatas em nós. Natural que este seria um direito deste período histórico.
Contudo, estes preceitos, porque cristalizado no tempo e no espaço,
são imediatamente derivados das pois só os preceitos primários,
tendências que Deus inscreveu no aqueles que são evidentes para
homem, que decorrem de forma todos, é que se impõem universal e
evidente e irracionalmente para intemporalmente. Os preceitos
M. Tristão e F.
Penucho
Dto Divino:
- preceitos móveis que correspondiam aos secundários e terciários do direito.
natural, admitiam a mudança
- preceitos imóveis, correspondentes aos primários do direito natural, não admitiam
alterações, pois tratavam-se de princípios de Deus que impunham proibições ou
comportamentos.
Atos Contra a lei divina→ o Decretum de Graciano reza que tal norma não possui,
consequentemente, qualquer valor. O ordenamento positivo, incluindo não apenas as leis
humanas, mas também o costume, só pode mesmo, em verdade, subsistir e obter o nome
do dto desde que articulado segundo a regra divina e natural.
A lei humana que contrarie a lei de Deus ou a lei natural não pode ser classificada
como verdadeiro direito.
Quando o Rei cria a sua lei, ela não pode estar em desconformidade quer com a lei
divina, quer com a lei natural, uma lei que foi inscrita nos homens e que nos permite
descobrir preceitos particularmente valiosos – estamos perante uma corrupção de lei
(Álvaro Pais), que não deve ser acatada
- apenas se questiona a sua eficácia e não a sua validade ou vigência, o processo do
dto positivo transpõe-se para o do dto natural, visto que, também ele é dto, dirigindo
a homens livres, que se podem conformar ou não com as suas regras
Se o Direito Natural é, portanto, esta possibilidade que o homem tem de, partindo de
tendências inatas, descobrir preceitos que se impõem com particular vigor porque
preenchem o conteúdo valioso do Direito, assumindo-se como padrão de validade ao Direito
positivo, como vimos há pouco, há uma pluralidade de entendimentos que se cifra, desde
logo, na questão de saber se o Direito Natural é algo próprio da razão ou do instinto. O que
é facto é que não se questionou a ideia de que o Direito Natural se funda em Deus.
No entanto, há pensadores deste período que vão recuperar a ideia de natureza,
considerando que o Direito Natural se fundava em natureza. Porém, também se entendia,
em contradita, que a natureza era criada por Deus. Portanto, para alguns autores a
natureza seria a causa imediata do Direito Natural, enquanto que Deus seria a sua causa
mediata do mesmo. Esta nuance não é indiferente quando falamos do instituto da dispensa.
Dispensa dos Dtos → será que o Papa, sendo representante de Deus na Terra
pode isentar alguém da observância dos preceitos do Dto Natural? A resposta
depende da conceção que se assumir a cerca da intervenção ou não do conceito
de natureza na origem do Direito Natural.
M. Tristão e F.
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Aqueles que entendem que o Direito Natural se funda imediatamente na lei eterna,
terão muito maior facilidade em admitir o instituto da dispensa pelo Papa. Com efeito, só
o Papa, perante um determinado caso concreto que lhe fosse apresentado, poderia
dispensar alguém da observância duma norma de direito natural ou direito divino, e fazer
aplicar outra. Porém, esse alguém não era qualquer cidadão, pois, apenas o monarca, em
certas situações que não pusessem em causa o bem comum, poderia pedir a dispensa das
leis de direito natural ou direito divino.
A dispensa da lei poderia revestir 3 formas:
1. magna causa: necessidade e utilidade comum, em casos de sobrevivência da
independência da nação
2. causa probabilis: suscetível de ser aprovada
3. justa causa (a maioria)
O estudo do dto positivo «supra regna» do período pluralista, na generalidade dos autores,
só incide sobre o Dto Romano e o Dto Canónico. Com efeito, normalmente o monarca
enaltecia o Dto Romano, por ser anterior a ele, porém, controlava o Dto Canónico, pelo
facto deste ser elaborado pelo Papa, que era alguém vivo e atual.
“Os cânones, uns são decretos dos pontífices e outros estatutos dos concílios”, Graciano
Tradição
Costume
Decretais
Doutrina ←
Concórdias e Concordatas ←
A mensagem expressa nas Sagradas Escrituras não passa aos homens, à comunidade
dos fiéis e à Igreja através do contacto e da leitura direta com os textos sagrados. A
iliteracia e o analfabetismo eram esmagadores (tradição e costume).
Na pena de alguns autores um outro fator leva ainda ao respeito da tradição pela Igreja: só
com recurso a ela se pode estabelecer a integridade e autenticidade dos livros santos.
Os livros dos padres são a fonte principal da tradição, ou seja, cujas obras tenham sido por
elas tidas como expressão de comunidade com a fé, pois só assim tais autores poderão dar
o testemunho.
A distinção entre decretal e decreto (Papa decidia por si só – criava decretos) terá entrado
em ocaso por volta do séc. XIII. O termo decretal passou então a designar genericamente a
norma ou comando pontifício (Papa- sequência de um pedido de resolução).
Conforme o âmbito, qualificou-se em: decretal geral ou especial. A primeira era dirigida à
generalidade dos fiéis, a segunda a um círculo delimitado ou mesmo a uma pessoa
individual.
No séc XIII, veio dominar a sistemática e a terminologia respeitantes aos ditames
pontifícios: a decretalis generalis– passou a designar-se constitutio, resposta a consulta
particular (lei geral =constitutio, esta acaba por se aplicar também às resoluções conciliares
de carácter geral) .
A distinção entre a medida geral e individual levou, por aplicação dos métodos lógicos, a
uma hierarquização da competência das normas pontifícias entre si (complementar
dicotomia decretais-cânones).
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Segundo Graciano, como nem sempre os concílios estavam de acordo com o Papa, os
decretos (decreta) eram atos do Papa para formalizar a oposição aos estatutos conciliares,
quando estes não eram coincidentes com as suas ideias.
Graciano na obra “Glosa ao Decretum Gratiani” distingue decretos de decretais, alegando
que os primeiros são normas que o Papa determina por conselho dos cardeais sem que
qualquer questão lhe tenha sido colocada, para se opor aos estatutos conciliares
discordantes, enquanto que os segundos (decretais) são normas que o Papa
determina sozinho ou com os cardeais para uma questão que lhe tenha sido colocada,
destinada à generalidade dos fieis (Decretal Geral), ou a um círculo limitado de fiéis
(Decretal Especial).
Conciliaristas vs curialistas
1. afirmam a superioridade do Concílio face ao poder do Papa
2. entendem que o Papa, como representante de Deus, tem um poder superior ao do
Concílio
Distinguem-se os concílios em ecuménicos (universais), nacionais, provinciais e
diocesanos. Os concílios ecuménicos são de convocatória pontifícia, os membros do
concílio são os bispos, os cardeais, os gerais das ordens religiosas e os abades isentos. Os
bispos assumem funções de juízes e de legisladores.
A aliança do dto canónico e da ciência jurídica dos canonistas do dto em geral foi
fundamental para a formação do dto moderno – certas zonas do jurídico receberam
importante contributo da igreja e do respetivo ordenamento, como o dto da família, em
especial o casamento, as obrigações, a introdução do dto penitenciário, etc.
É na própria metodologia jurídica que se apresentam estes 2 dtos: canónico e civil, com a
aplicação subsidiária do dto romano pelos tribunais eclesiásticos e na aplicação pelos
tribunais civis, em idêntico plano, dos princípios gerais do dto canónico..
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A doutrina vai estudar e criar o Direito Canónico e as opiniões dos canonistas também vão
permitir resolver casos da vida. O Direito Canónico precisa, no entanto, de um Direito
tecnicamente aperfeiçoado para criar as suas próprias soluções, como o Direito Romano.
A doutrina canonista era particularmente conhecedora do Direito Romano, um jurista
canonista era também um civilista, portanto, criava o Direito Canónico com base no Direito
Romano. Assim, a partir do século XII, é possível separarmos a doutrina canonista em
Escola dos Glosadores e Escola dos Comentadores.
- glosadores, iniciada por Irnério e que terá o seu apogeu com a Glosa Ordinária ou
Magna Glosa de Acúrsio, obra de rescolha e sistematização de dezenas de milhares
de glosas
- comentadores, a partir do século XIV, também chamada de bartolista
Através desta que se fez a ponte entre o direito laico e o direito canónico. O “Utrumque
Ius” é um ordenamento criado pelos juristas e é o resultado da resolução das contradições e
da própria rivalidade entre a lei civil e a canónica por via da formação dos próprios juristas
que eram simultaneamente doutores nos dois direitos (in utroque).
Um largo passo em direção à certeza do direito foi dado, no segundo quartel do século
XII, com a elaboração de um dos mais significativos monumentos jurídicos da história do
direito: conhecido por Decretum/Concordia Discordantium Canonum, tendo sido
elaborado por Graciano. A harmonização dos cânones discordantes.
O Decreto corresponde a um longo texto, sendo que formalmente corresponde a uma
sistemática tripartida:
Dto Velho (séc VI) Dto Novo: corpus iuris canonicis, que destaca as 5
compilações antigas, qu atestam a penetração do dto
canónico em Portugal
Coleção Hispana (conj de leis elaboradas Decretais de Gregório IX (1234) –dividida em 5 livros
entre o séc VI e VII) compostos pelos decretos pontifícios do séc. XII e XIII
que foram reunidos pelo pontifício de Gregório IX.
Pode-se assinalar mais do que um documento em Já na fase gracianeia, são outros instrumentos ou
que se refere o direito canónico na fase pré- referências mortis causa a coleções de Decretais que
gracianeia, como são exemplos: o testamento do procederam as Decretais de Gregório IX.
bispo do Porto de 1185, documento mais importante A penetração do direito canónico era tal que nas
de relevância da penetração do dto canónico na cortes ou cúria alargada de 1211 houve
Península Ibérica necessidade de hierarquizá-lo em relação ao direito
- na doação de D. Maurício, bispo de do rei. A interpretação do texto não é consensual,
Coimbra, ao presbítero Afonso, estatui-se devido às A ordenação estabeleceu-se, segundo o
que o objeto da doação não será retirado ao entendimento geral, com prevalência daquele. Estava-
beneficiado se não atuar com culpa pela se perante um reconhecimento de supremacia
qual segundo os cânones deve perdê-la eclesiástica, traduzida na superioridade das normas
- a carta de couto outorgada pelo conde D. jurídicas da Igreja sobre os vários monarcas.
Henrique aos 31 de março de 1108, contém
uma alusão aos “decretos dos santos D. Pedro I, contudo, poria em vigor o beneplácito,
cânones sobre as ordens eclesiásticas e as que determinaria que as leis e os atos autoritários da
liberdades das igrejas”. Igreja apenas seriam aplicáveis e obrigatórios no
território nacional depois de aprovados pelo rei.
➔ da pessoa: entendia-se que certas pessoas só podiam ser julgadas pelos tribunais
das Igrejas (membros do clero, mulheres, órfãos, miseráveis, estudantes
universitários)
Os monarcas também vão criar legislação para limitarem esta competência da Igreja,
criando a regra do foro do réu. Esta regra diz que se uma das partes for membro do clero,
então deve-se seguir o foro do réu e deve ser o tribunal da Igreja a julgar o caso. Contudo,
se o réu for laico, se não pertencer à Igreja, o caso deve ser julgado num tribunal do Rei.
Nos tribunais civis, o dto canónico aplicou-se também, primeiramente, como dto
preferencial. Na cúria de Coimbra de 1211, o próprio monarca, D. Afonso II, decidiu que as
suas leis não deviam valer se feitas ou estabelecidas contra os dtos da Santa Igreja de
Roma.
Entende que esta lei só se refere às regalias e Defendem a prevalência do dto canónico; No séc
privilégios da Igreja, visto que apenas refere “dtos da XII, estamos numa situação em que não há dto
St Igreja de Roma” e não dto da St Igreja ou dto legislado mas há muito dto canónico compilado. Face
canónico. à história multissecular da Igreja, ao resistira na
Assim sendo, as leis pátrias só não valeriam clandestinidade, sobreviver a Queda do Império
contra os cânones que se estabeleciam em favor da Romano e ainda liderar a Reconquista Cristã, não
Igreja; mas nada obstaria à sua aplicação, de choca a maioria da doutrina o rei querer reconhecer a
preferência ao dto canónico, nos casos de mera supremacia da suas leis .
diversidade de regulamentações dada pelos dois dtos
a problemas jurídicos idênticos.
A doutrina comum é exagerada e aquilo que está
escrito na lei são os dtos ou privilégios da igreja; o
dto do rei não pode violar dtos adquiridos da igreja
sobre pena de não prevalecerem.
Mais tarde, a lei de Afonso II perde eficácia, pelo que o Rei vai consolidando o seu poder e
assumindo maior distanciamento face à autoridade da Igreja e do Papa – o dto canónico vai
ser relegado para a posição de dto subsidiário, isto é, apenas aplicável quando faltasse dto
nacional (régio ou romano) – o Rei assume-se como legislador.
M. Tristão e F.
Penucho
Atribuído ao rei Eurico e de Teve por fontes constituições Codex Revisus Representa, de certa
que se conhece apenas um imperiais retiradas dos Códigos Leovigildianus forma, o termo da
fragmento, o chamado Teodosiano, Hermogeniano e ou Codex evolução legislativa do
Palimpsesto de Corbie. Nele Gregoriano e de novelas de vários Revisus reino visigodo,
transparece já a influência imperados, bem como escritos de contudo é o último
jurídica de Roma, pelo que as juristas romanos. momento jurídico dos
suas normas estão muito Também conhecido como Lex godos. Publicado pelo
longe de representarem Romana Visigothorum, Lex rei Recesvindo, após
direito germânico, muito pelo Theodosii, Breviário Aniano e Liber aprovação do VIII
contrário, representa direito Legum Concílio de Trento.
romano vulgar. Uma tese O Breviário de Alarico teria tido
antiga sustentava que este por fim, não revogar o Código de O Código Visigótico
Código, como as restantes Eurico, mas pôr ao alcance dos surge como
leis visigóticas, era de magistrados uma coletânea das “transição entre as
M. Tristão e F.
Penucho
Contudo, a partir do século XII deixam de ser tão evidentes os testemunhos do Código
Visigótico, isto porque o CV é fortemente influenciado pelo Direito Romano e, em Portugal,
começa-se a discutir a partir do século XII a aplicação do Direito Romano Justinianeu. A
partir do séc XII, ele já é diretamente aplicado e é fonte de dto, pelo que os juristas acabam
por fazer entrar em desuso a aplicação do Código Visigótico, que é Direito Romano
vulgarizado.
Pequeno tratado de direito Obra de direito Criado entre 1252 e Admitido tradicionalmente que se
processual do séc XIII (1235), processual, 1255, tem um carácter tratava da obra de Afonso X e que a
que conhece tradução também eminentemente redação das Partidas havia
portuguesa entre 1235 e 1282, designada por 9 localista e foi aplicado começado em 1256, pouco depois
estava integrado numa Tempos do a todas as cidades de terminado o Fuero, aceitavam-
coletânea vulgarmente Juízo, que que não tinham um se, também, como datas prováveis
designada por Caderno dos divide o foral, ou para integrar do termo de elaboração da obra os
Foros da Guarda e por isso se processo judicial lacunas do direito anos de 1263 ou 1265. Crê-se que
diz que era aplicado na região em 9 fases, local, tendo, portanto, o processo de elaboração ter-se-ia
da Guarda. Neste códice estando um carácter prolongado no tempo passando por
transcreveram-se, também, em integrada nos subsidiário. sucessivas revisões.
versão portuguesa, os Nueve Foros da De toda esta problemática,
Tiempos del Juicio e o Fuero Guarda. Não se verifica interessa-nos destacar a existência
Real. nenhuma referência à de versões diferentes das Partidas,
receção do FR como o que os textos portugueses das
lei geral do país, pelo mesma evidenciam e refletem – e o
que, o mais provável, facto delas estarem permeadas de
foi o FR ter constituído dto romano e canónico.
uma mera tradição As Partidas circularam largamente
popular, sem qualquer em Portugal, crê-se que foram
valor legal entre nós oficialmente aplicadas no nosso
território, pois existem partes
copiadas esta obra nas Ordenações
Afonsinas.
2.04
DIREITO OUTORGADO E PACTUADO
Direito Outorgado → é aquele que resulta da outorga da concessão de algo, de
normas, através de um ato oficial.
Direito Pactuado → pressupõe um acordo entre duas partes, um encontro de
vontades, celebrando-se um pacto jurídico entre quem elabora as normas ou
regras e quem as recebe para as aplicar. Deste resultam direitos e deveres para
ambas as partes.
prerrogativas, povoar uma determinada mais extensas e completas que as cartas de Distinguem-se dos
liberdades, franquias localidade, atraindo povoação e abarcavam um número mais forais pelo seu
e isenções de população para terras significativo de matérias. Enquanto que as CP conteúdo, porque
qualquer ordem
escassamente povoadas têm conteúdo estritamente agrário, as CF têm abarcam muito mais
★ em sentido
estrito – ou mesmo despovoadas, maior nº de matérias, com regras de Dto matérias. Enquanto
documento que com o propósito de Processual, Militar, Fiscal, Penal, que forais têm
estatui o regime garantir a sua defesa Administrativo e algumas regras de dto privado, essencialmente uma
jurídico específico de através do povoamento. nomeadamente Familiar e Sucessões. incidência no Direito
uma determinada Eram elaboradas pelos Geralmente, a norma do foral prevalecia à do Público, os foros têm
povoação, disciplina monarcas e pelos monarca, tendo esta, no foral, um carácter fortíssima incidência
própria e diferenciada.
senhores das terras, subsidiário, já que só se aplicava em caso de no Direito Privado
É este o sentido que
vamos assumir. estabelecendo os termos lacuna no ordenamento do foral. O problema de (principalmente
As cartas de e as condições de articulação entre as normas foraleiras e o regime família e sucessões,
privilégio assumem ocupação e exploração geral surge nos casos em que, dimanando o foral a maior parte dos
um regime particular das terras, além dos dtos de um senhor ou outra entidade particular, nele cadernos surgem nos
que possibilita que lhes estariam se inserem estatuições do âmbito não local. séc XII e XIII e
diferenciá-las da lei, a garantidos. muitas vezes
qual contém, ao
Esta restringe o seu As CF confundem-se muitas vezes com as CP, outorgados pelo rei).
menos em princípio, e
no sentido moderno, conteúdo às condições de pois a linha divisória entre estes 2 tipos não é Em regra, eram da
uma regulamentação assentamento na terra, muito nítida e a terminologia aparece flutuante. iniciativa dos
geral e abstrata. definindo os estatutos dos Para Alexandre Herculano, a carta de foral era habitantes de um
É enorme a futuros colonos e as uma carta constitutiva de um município porque município, que
variedade de cartas condições de exploração estava relacionada com o conceito de autonomia formavam escritos,
de privilégio, contando da terra, tanto prestações territorial. longos cadernos de
com as cartas de patrimoniais – o tipo de Contudo, parece que assim não é, os forais não regras que, por
liberdade de uma tributos que os colonos serviram sempre para elevar uma determinada vezes, se
povoação, carta de devem pagar aos povoação a concelho. Se olharmos para o prolongavam mesmo
doação (concessão de senhores – como conteúdo e para as circunstâncias históricas que por títulos e por
uma terra), carta de prestações pessoais. ditaram o aparecimento de alguns forais, vemos capítulos,
franquia. Nelas que há cartas de foral que foram atribuídas a apresentando já uma
incorporam-se Problemática: saber se localidades que já eram concelhos ou a sistemática completa.
também e, estes documentos têm ou localidades que nunca chegaram a ser Os foros são
habitualmente, cartas não uma natureza considerados concelhos. constituídos pelas
de povoação, forais e pactícia/contratual próprias autoridades
foros (não instituem Tomás y Valienti Problemática: se o senhor em causa não é o Rei, locais (concelhos),
um regime jurídico a considera que estes ele não pode disciplinar para todo o reino, então que os ilustram de
uma comunidade documentos têm conteúdo qual é o valor deste regra? forma muito rica. Os
inteira mas sim normativo, pelo que: A regra é reduzir o âmbito de aplicação deste habitantes criavam
individual) estamos perante um ato preceito, portanto se o senhor não pode ou alteravam as
unilateral do senhor, não disciplinar para todo o reino, a norma é reduzida, normas existentes no
há um contrato porque os aplicando apenas as terras daquele senhor – se o município, de acordo
povos não têm liberdade senhor for o Rei, então a norma é geral e com o conhecimento
de estipulação; estamos abstrata, aplicando a todo o reino. que tinham das leis e
perante uma figura de Dto dos costumes locais.
público em que, para além Classificação forais: Nestes documentos
das condições de 1. Entidade Outorgante:régios (do rei, com extensos e
exploração da terra, são, confirmação da complexos, cabiam
muitas vezes, criados rainha e dos filhos) e particulares (do senhor várias matérias
vínculos pessoais entre o eclesiástico e feudal) sobre a revelação
senhora da terra e os 2. Molde ou matriz: as famílias de forais, da vida jurídica
colonos; a carta cria ou seja, forais que local e dos
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Penucho
regras para o futuro tinham um texto base comum (padrão ou tipo), costumes dos
Prof Albuquerque: destacando a Família de Forais de forais através de
apesar da sua natureza Lisboa/Santarém, Évora/Ávila e de Salamanca normas.
contratual, em que as 3. Grau de complexidade das instituições
cartas de povoação municipais: Fontes jurídicas do
assumem, em simultâneo, (Herculano) forais rudimentares, imperfeitos e foros: costume,
o carácter dos contratos perfeitos ou (Sousa Soares) rurais, urbanos e visigodos,
de adesão e de dos distritais conforme a simplicidade ou muçulmanos,
normativos, em que não complexidade das estruturas locais canónico, romano
há muita liberdade de 4. Originalidade: forais originários (criados Famílias de foros:
estipulação (os especificamente Castelo Bom,
povoadores não podem para uma determinada comunidade), ampliativos Alfaiate, Castelo
alterar as prestações (criados com base na estrutura de outros forais, Rodrigo, Castelo
pagas aos senhores) mas aos quais se acrescentavam normas específicas) Melhor.
há liberdade de e confirmativos (confirmados pelo monarca ou
celebração (podem correspondiam a cópias integrais de outros forais
escolher ir ou não para a anteriores)
terra), pode-se, ainda,
falar numa relação
pactuada.
das famílias de forais e estatutos, mas também do âmbito de aplicação mais ampla das
fontes de absorção, como a lei.
Assim sendo, para ser considerado fonte de dto, o costume necessitava de ver
preenchidos determinados pressupostos cumulativos, entre os quais:
1. Antiguidade→ em que o costume tinha de ser plural e antigo, o que lhe dava
carácter de prática reiterada, repetida e com convicção de obrigatoriedade – Joaquin
Costa observou que, como o costume se subtraia à ação das leis biológicas, tinha
de nascer perfeito, maduro, velho. Resulta do DIgesto de que o costume dever ser
diuturno, sendo observado durante muitos anos, de modo a ser suscetível de
resolver casos da vida. Na Partidas é fixado 10 anos se for invocado contra pessoa
presentes e 20 anos se for invocado contra ausentes
2. Racionalidade → o costume tem que ser racional, isto é, estar conforme à razão.
Deduziu-se isso de um rescrito de Constantino e de uma decretal de Gregório IX.
Também as Partidas dispunham que ele devia obedecer à direita razão.
3. Consensualidade → o povo é quem induz o introduz o costume pelo que se requer
o consentimento da maioria - o animus ou consensu populis é qualificado como
causa eficiente do costume. O consensus populis obriga o conhecimento do
costume que, por vezes, é publicado, tal como a lei. Verifica-se ainda o consensus
legislatoris que pressupõe o conhecimento consciente do costume e aprovação
voluntária, exceto se o costume for legitimamente prescrito. O consensus
communitais e o consensus legislatoris podiam coincidir, quando à comunidade
pertencesse a potestas legis condendae.
4. Conformidade com o direito divino → o costume tinha de estar em
conformidade com a lei de Deus, a qual ajustava a ideia de direito natural à
utilidade pública, que, na época medieval, correspondia à salvação da alma.
Não obedecendo aos requisitos apontados era o costume julgado não como bom costume.
O costume judicial não tardará a É um julgamento sobre uma ação fora São decisões dos tribunais
autonomizar-se conceptualmente, do comum, que fica como padrão arbitrais. Em Portugal, os
passando a assumir o nome de normativo para o futuro, por virtude da alvidros eram juízos livremente
estilo, conceito adotado a partir da autoridade de quem o praticou ou escolhidos pelas partes, os
segunda metade o século XIV. aprovou. Eram decisões de tal forma quais deveriam julgar nos
Cino de Pistóia: é uma espécie de complexas que se entendia que deveriam termos dos poderes por elas
dto não escrito, introduzido pelo passar a funcionar como um padrão de conferidos. Eles são escolhidos,
uso de determinado pretório (juiz), referência para o futuro. em regra, para resolver
diferindo do costume consagrado José Anastásio de Figueiredo questões céleres, normalmente,
pela generalidade. Corresponde à sustentou que as façanhas eram relativas à atividade mercantil
prática de um tribunal que cria um sentenças que valiam não só para o ou marítima. Dos alvidros era
estilo de decisão, uma norma suscetível de recurso para os
respetivo processo onde eram
consuetudinária de dto processual. tribunais do rei e ainda
Há um fator comum a todas as enunciadas, mas para todos os outros suscetível de composição que
posições doutrinárias de semelhantes por serem decisões régias e era o acordo entre as partes do
consideração do estilo como se tratar de casos duvidosos ou omissos litígio.
costume judiciário. No entanto, a da legislação pátria.
doutrina disputou os requisitos e Prof Albuquerque: apesar das
atributos do estilo, concluindo que, façanhas representarem um julgamento
de um modo geral, seriam a
por exemplos, o que é facto é que se
racionalidade, conformidade com o
dto natural e a pluralidade. olharmos para muitas façanhas que estão
Entende-se ainda que um estilo de hoje disponíveis, vemos que muitas delas
um tribunal superior era vinculativo, não são decisões do Rei.
enquanto que o de um tribunal
inferior era meramente indicativo.
Mat de substantivo ou processo,
Bartolo diz que o estilo só que podia
constituir em mat de processo
A partir do século XII, o Corpus Iuris Civilis e, com particular realce, a sua obra maior, o
Digesto, passa a ser objeto de estudo preferencial em Bolonha, graças ao génio criativo
Irnério, que é professor em Bolonha e que olha para aquele acervo normativo como base
essencial de análise. Ao fazer isto, ele cria, de facto, um ensino técnico universitário de
Direito. O DR vai, assim, funcionar como base de trabalho jurisprudencial, com maior
expoente no CIC.
Escolas Jurisprudenciais
A escola dos Glosadores começou com Irnério nos princípios do século XII e terminou com
Acúrsio, cuja obra máxima: Magna Glosa, se pode tomar como respetivo termo; os Prof de
Albuquerque não concordam com uma divisão de barreiras estanque entre as escolas,
muito pelo contrário, considerando que a Glosa veio introduzir uma linha de continuidade.
Daí apresentarem o esquema: glosadores, pós-acursianos e comentadores.
❖ Glosadores – teve como fundador Irnério, um magister in artibus a quem se atribui o
mérito de haver emancipado o estudo do dto do ensino da dialética e retórica, além
disso, também fez do dto romano objeto de estudo autónomo. Entre os seus vários
discípulos, destaca-se Acúrcio, com a sua obra máxima: Magna Glosa, em que
recolheu as glosas que os seus juristas antecessores efetuaram ao longo do estudo
do CIC, incluindo também glosas da sua autoria.
Os glosadores liam os textos de DR e, como estes tinham uma linguagem muito técnica, na
tentativa de os perceber, apunham-lhes glosas, que eram pequenas anotações, geralmente
colocadas nas margens.
❖ Pós-Acursianos – limitou-se a fazer um trabalho de compilação e sistematização
das glosas. A doutrina mais moderna, considera-se que a MG não criou um fosso
entre as 2 escolas, mas antes um elo de ligação, pelo que verificar-se-ão os seus
efeitos e/ou influência, chegando mesmo a interligarem-se em muitos pontos
❖ Comentadores – dentro dos nomes desta escola destaca-se Bártolo e o seu
discípulo, Baldo, sendo o primeiro conhecido por ser a luz do dto. Esta escola
beneficiou do trabalho dos glosadores e criou o Direito Nacional, isto é, o trabalho
dos comentadores foi o de porém em prática os textos justinianeus, partindo já do
M. Tristão e F.
Penucho
Géneros jurídico-literários
Correspondem a Caracterizam-se pela sua forma É um género complexo, um método dialogado ou disputado, que
pequenos discursiva, ultrapassando a corresponde à aplicação do princípio da contradictio como
comentários mera interpretação do texto, já forma de apurar a verdade e de resolver situações da vida reais
clarificadores de que consistiam em longas ou ficcionadas. É um elemento de atualização do direito, visto
uma pequena dissertações sobre um tema, conduzir a um adequamento da norma às situações da vida da
passagem do assumindo uma especial época.
conteúdo do importância por terem sido ★ Quaestio facti: reporta-se a uma
texto, isto é, utilizados pelos juristas na questão de facto; estava em causa a existência de um evento e,
correspondem a adaptação dos textos romanos aos portanto, provava-se.
uma explicação direitos da época, os chamados ★ Quaestio iuris: reporta-se a uma
sumária de uma direitos locais. questão de interpretação do direito, implicava uma disputa
palavra ou Contrariamente às glosas, os intelectual que se resolvia com o recurso a leges, ractiones e
expressão de um comentários continham posturas auctoritates.
texto jurídico de críticas aos textos romanos,
Direito Romano. sendo por isso que se diz que são A quaestio era muito utilizada nas aulas, onde o docente levava os
Podem ser: géneros literários superiores, nos alunos a aceitarem os seus argumentos. No fundo, tratava-se da
interlineares (entre quais os prudentes se afirmavam resolução de uma questão contrapondo argumentos a favor e
as linhas do texto) na sua plenitude. contra para cada solução possível.
ou marginais (nas Bártolo, defendia que o jurista, O reconhecimento do valor científico e pedagógico da quaestio
margens). ao analisar um texto, deveria levou ao seu registo.
Podem ter primeiramente saber qual era a ★ Quaestio reportata: a quaestio decorria na aula e era
natureza histórica, solução correta e só depois é que registada por um aluno, que
filológica, técnico- deveria procurar um texto legal transcrevia os argumentos resultantes da discussão e a decisão
jurídica ou retórico- para fundamentar e basear essa final. Muitas vezes, o raportador completava esse trabalho com
dialéticas. Há quem solução. novos argumentos seus, com críticas às posições assumidas e
ainda as classifique Instrumento utilizado pelas escolas juntando um exórdio e um título.
M. Tristão e F.
Penucho
como declarativas para adaptar o DR ao direito local ★ Quaestio redacta: era o mestre a redigir uma espécie de
(explicativas) ou ata, na qual também
discursivas acrescentava os argumentos não discutidos no debate.
(apresentam catesticsco para ensinar, em fig que nao tem o mesmo estatuto;
autonomia face ao controversistico, em que sao em pessoas com o mesmo estatuto
texto).
A doutrina moderna tem posto em causa a atribuição aos glosadores de uma feição
meramente teórico-científica, além de não ser igualmente acolhida a ideia de que
glosadores se terão limitado a determinar a letra da lei. As suas opiniões não podem, assim,
ser vistas como rigorosas descrições históricas de um estado de coisas generalizado,
traduzindo antes posições polémicas e, portanto, insuscetíveis de serem tomadas na
expressão da sua literalidade. Também nos glosadores se vai verificar que, muitas vezes,
falece a nota de originalidade do seu trabalho, traduzindo os seus comentários, no fundo,
a síntese de opiniões de juristas anteriores.
Doutrina Atual: as escolas distinguiam-se pela diferente perspetiva de estudo dos juristas
e pelos seus objetivos
Prof Albuquerque consideram inviável a caracterização das escolas medievais com
base na preocupação da distinção entre a letra da lei e o seu espírito, alegando que da letra
da lei já resultava o sentido literal e, por isso, não era de supor que os prudentes pudessem
estudar e explicar um texto sem aprenderem, pelo menos, o seu sentido mais imediato.
Deste modo, o verdadeiro fator distintivo entre as escolas do glosadores e comentadores
residiria na valoração dos iura propria: enquanto que os glosadores visaram uma
construção do ius commune, os comentadores, sem teoricamente renunciarem a essa
conceção, privilegiaram a mútua integração entre ele e os iura propria. Influenciados pela
hegemonia dos dtos municipais e do dto canónico relativamente ao DR, que permite uma
aplicação de tais complexos jurídicos como dtos principais, a doutrina sustentou o
reconhecimento pelos comentadores do carácter subsidiário do DR, enquanto absoluto
postulado pela necessidade de compatibilização com ordenamentos de formação posterior
Os autores atuais defendem que o que realmente separa as 2 escolas são razões
políticas, pelo que, na prática, não se deve fazer uma separação rígida entre as escolas.
M. Tristão e F.
Penucho
A universidade começou sob o signo do próprio direito romano. Ele passou a ser ensinado
na Faculdade de Leis e durante cinco séculos foi o direito que os juristas portugueses
aprenderam. Só no séc. XVIII se introduziu uma cadeira de direito pátrio. Até aí, a formação
dos juristas portugueses era romanista, e isso influenciou todo o trabalho autónomo ou
integrado na esfera do poder. A par deste direito, ensinava-se direito canónico na
Faculdade dos Cânones.
Foi pelos juristas e através do veículo difusor constituído por outras ordens normativas
que se deu o fenómeno de receção do DR em Portugal, trata-se de um processo que nasce
à margem do poder e que, este acaba inevitavelmente por acolher. O DR, sendo dto
cesáreo não terá recebimento em Portugal como manifestação de uma superioridade do
Império, da iurisdictio imperii, pelo que, a aplicabilidade do DR decorrerá como
consequência da receção da cultura jurídica bolonhesa na cultura jurídica portuguesa e das
necessidades da vida jurídica. Deste modo, o DR adquire vigência não pela razão do
Império, mas pelo Império da razão, justificado pela sua ideia de racionalidade e de que era
a “razão escrita”.
Na IM e em Portugal, a legitimidade da vigência do DR decorre da ideia de continuidade
dos poderes políticos, entre os poderes do imperadores e dos monarcas portugueses, como
se lê numa lei de D Dinis, os imperadores foram apenas predecessores dos reis de
Portugal. Por serem titulares do ius, os monarcas portugueses sempre se sentiram livres
para afastarem quando entendessem o inconveniente, fazendo-o de facto a qualquer dto
positivo – verifica-se uma apropriação do DR que passa a dto próprio do reino.
O modo de encarar o problema está na fórmula: o rei no seu reino é imperador, que
traduzir 2 ideias: 1) o rei que não reconhece superior é independente do Império 2) o
princípe detinha no seu reino um poder idêntico ao do imperador nos respectivos domínios.
Naturalmente, aos monarcas convinha mais esta última posição, já que lhes possibilitava a
M. Tristão e F.
Penucho
assunção do poder supremo com a invocação das normas do dto justinianeu relativas ao
princeps romano, altamente favorecedoras e propícias ao fortalecimento do poder régio.
ÉPOCA MODERNA
1. Ordenações
2. Leis extravagantes
3. Lei da boa razão
4. Humanitarismo jurídico
5. Movimento geral de codificação
M. Tristão e F.
Penucho
AS FONTES DO DTO
Entre o período de 1415 e 1820, em relação às fontes de direito, a lei ganha uma
preponderância imensa e crescente.
A partir do reinado de D.Afonso II a lei começa a ter um papel central e a actividade
legislativa começa a ser uma actividade normal para o monarca. De tal maneira se torna
uma actividade normal que com o decorrer dos tempos, a lei impõe-se perante as demais
fontes de direito. O facto assinalado está de acordo com o alargamento da esfera do
poder régio e com o fortalecimento do poder do principe, mas também do
desenvolvimento do Estado como noção e realidade em si própria, enquanto entidade
polític, juridicamente construída e diversa da pessoa do monarca, em substituição das
expressões coroa, reino e república. Assim, verifica-se a emergência da noção de Estado
que tem como pressuposto necessário o Estado instituição, o Estado aparelho –
representa um centro aglutinador e centrípeto de interesses.
Não será, portanto, ao acaso, que o conceito de Estado, desenvolvido e introduzido por
Maquiavel, aparece agora muito associado ao conceito de soberania (Jean Bodin). Deste
modo, a fragmentação politica medieval principia a ser substituída por uma tendência
convergente do poder, também o pluralismo jurídico da Meia-Idade cede passo a uma linha
unitária, de que a predominância da lei é expressão. As fronteiras dos Estados começam
a consolidar-se e, com o rescaldo da expansão ultramarina, começam a estabelecer-se
novos contactos, começando, também, como referido a falar-se nas teses sobre os
conceitos de Estado e Soberania. Neste período, começam a surgir, também, movimentos
eclesiásticos de combate à estrutura da própria Igreja, designadamente os livros da
reforma e da contra-reforma.
O Estado assume a soberania em termos de fontes, chamando a si o poder legislativo. A
lei passará a ser definida essencialmente como preceito autoritário, ou seja, como norma ou
regra obrigatória imposta pela vontade superior, esta vontade superior será o poder
soberano, seja um imperador, um rei ou um príncipe. Esta identificação entre lei e
vontade do principe, que vai ser concebido como membro principal do Estado, não deve
levar à conclusão de que a lei, como emanação da vontade do governante, é um ato
arbitrário. Por um lado, obsta isso à sua necessidade de conformação a conjuntos
normativos superiores de direito positivo (direito divino e direito natural).
Por outro lado, a ideia de que o poder do príncipe se deve orientar para o bem comum. A
lei para ser válida e eficaz deveria obedecer a certos requisitos. Estava patente a ideia de
que certas leis constituem o cerne da sociedade e do aparelho político pelo que não podem
ser derrogadas ou alteradas.
Assim se chega à noção de lei fundamental, verdadeiro precedente da lei constitucional.
A lei começa a ser, cada vez mais, o produto da vontade do Rei. Todavia, não era vista
como arbitrária, pois continuou a ter algumas limitações, nomeadamente a competência
das Cortes nalgumas matérias e o conceito de lei fundamental, que surgiu no sec. XIX,
como um antecedente da norma constitucional.
É também no período monista que se dá a divisão entre Direito Público e Direito
Privado, regulando o primeiro as relações entre o Estado e o particular e o segundo as
relações entre os particulares, isto é, entre os sujeitos colocados ao mesmo nível.
M. Tristão e F.
Penucho
Se for injusta quanto ao fim, ao agente ou à forma, considerava-se que devia ser
cumprida caso a sua não observância resultasse num prejuízo maior para a comunidade
do que a sua obediência.
Porém, no caso da lei injusta quanto à autoridade ou agente havia ainda a considerar e
distinguir duas situações:
★ A lei feita por um monarca tirano quoad titulum (quanto ao título), aquele que
usurpou o poder ilegitimamente e, por isso, não tem sequer legitimidade para
governar.
As leis feitas pelo tirano quanto ao título não deviam, em princípio, ser obedecidas. Isto
porque, definindo o dto natural que se dê a cada um o seu e se cumpram muitos outros
deveres, se tudo isso se não poder conservar na república senão obedecendo às leis de um
senhor ilegítimo, então o mesmo dto natural as mandar guardar sob um estado de culpa,
embora o tirano, entretanto, promulgando-as, peque mortalmente, pois usurpa a jurisdição
alheia.
★ A lei feita por um monarca tirano quoad regimen/dominium (quanto ao exercício, à
administração, ao regime), aquele que chegou ao poder por forma lícita mas
ultrapassou os limites da sua autoridade, deixou de governar para o bem comum
e passou a governar para proveito próprio.
As leis feitas por um tirano quanto ao exercício, deviam ser obedecidas se fossem justas
quanto aos outros aspectos (fim, matéria, forma).
Para outros autores, não basta que a lei seja justa para obrigar, sendo necessário que haja
sido publicada, recebida e não derrogada. Reveste um carácter excecional importante a
receção da lei, pelo que, se a lei for aceite ou não, estamos perante um afloramento da
supremacia do povo sobre o rei, ou deste sobre aquele.
Publicação da lei. Registo de lei → uma nova lei não deve ser promulgada exceto
quando estritamente necessário, de modo a não se afetar a estabilidade do sistema jurídico,
e a sua publicação faz-se através do registo nos livros de Chancelaria Régia e notificação
a certas autoridades. Nas Ordenações Manuelinas dispõe-se a obrigação do chanceler-mor
publicar as leis no próprio dia da emissão e que sejam enviadas aos corregedores.
Da mesma forma, os principais tribunais dispunham de registos próprios, nomeadamente a
Casa da Suplicação que tinha o Livro das Posse ou a Casa do Cível que tinha os
denominados Livros das Esferas.
Tanto a dispensa, como a revogação, têm, como requisitos necessários, a justa causa,
que se traduz na racionalidade e na realização do bem comum. A dispensa da lei podia ser
atacada por duas formas:
1. a subrepção – a atribuição de uma dispensa podia ser contestada se ela tivesse
sido atribuída por falsos motivos
2. a obrepção – dispensa contestada se tivesse sido atribuída na omissão de factos
importantes
As Ordenações estavam divididas em (5) cinco Livros e estes, em Títulos que, por sua
vez, se dividem em Parágrafos, apresentando os livros a seguinte estrutura:
❖ 1 – tratava dos regimes dos cargos públicos, tanto régios como municipais,
compreendendo o Governo, a Justiça, a fazenda e o exército
❖ 2 – regulava os bens e privilégios da Igreja, os direitos do rei e a sua cobrança, a
jurisdição dos donatários e as prorrogativas da nobreza, o estatuto dos Judeus e dos
Mouros
❖ 3 – Processo Civil
❖ 4 – Dto Civil
❖ 5 – Dto Penal, sendo por isso designado de Livro Vermelho ou de Sangue
O Livro I das Ordenações Afonsinas foi escrito num estilo decretório, enquanto que os
restantes livros destas Ordenações foram escritos num estilo compilatórios. Todos os
livros das Ordenações Manuelinas e Filipinas, foram escritos num estilo decretório.
ORDENAÇÕES AFONSINAS
Foi D. João I quem tomou a iniciativa de elaborar uma compilação oficial de leis,
entregando esta tarefa ao corregedor da corte João Mendes, o qual, por ter entretanto
falecido, não chegou a concluir o trabalho. O corregedor falecido foi substituído pelo Dr. Rui
Fernandes, que acabou por concluir a compilação em 28 de Julho de 1446. Todavia, como
as ordenações só entraram em vigor em Agosto de 1447, portanto já no reinado de D.
Afonso V, foram designadas por Ordenações Afonsinas. Após a morte de D. Duarte, o
M. Tristão e F.
Penucho
Apesar de tudo isto, a maioria da doutrina tende hoje a aceitar, em função do número de
exemplares encontrados em todo o território, que as ordenações foram suficientemente
divulgadas e entraram de facto em vigor, tendo sido aplicadas ao nível dos tribunais
superiores do reino, designadamente na Casa da Suplicação.
Os exemplares encontrados mostram que houve uma efectiva generalização. Facilitava tal
difusão o facto de as ordenações não apresentarem inovações profundas enquanto
utilizaram, numa larga escala, fontes anteriores. Realizaram, por assim dizer, uma
M. Tristão e F.
Penucho
Lei do Reino (Ordenações) DR, nas matérias puramente temporais, exceto se,
“onde a lei do reino dispõe cessam todas as outras leis” o dto contrariando o DC, fizessem incorrer em pecado (critério
pátrio tem primazia sobre o dto subsidiário; recorre-se ao do pecado)
subsidiário quando não há solução no pátrio ex: o possuidor de má fé pode se transformar em
proprietário desde que a situação se prolongasse por
mais de 30 anos, neste caso.
Costume “antigamente usado no nosso reino”, desta maneira, o DC, para questões espirituais e temporais de pecado
próprio costume ficava no poder do monarca, tendo em conta que ex: não permite a usucapião de má fé, uma vez que se
ele próprio é que definia que era ou não antigo ia incorrer em pecado
Resolução Régia
DN: baseada na ideia de rivalidade entre os dois dtos, o professor entende que em
questões puramente temporais, que não são de pecado, se o DR não oferecer solução,
deve aplicar-se a GA, se esta também não solucionar, a OB e, por último, a Resolução
Régia.
Para a maioria da doutrina aplica-se o DC, mas DN avança para o patamar seguinte.
Ordenações: na omissão de dto nacional, decisão conjunta pelo DR e DC, com base na
unidade e complementaridade das 2 ordens jurídicas e não na sua relação de rivalidade –
Utrumque ius.
Dentro da previsão cabem:
1. todos os caso que as 2 ordens jurídicas resolviam identicamente
2. todos os casos que uma ordem jurídica resolvia e a outra não
M. Tristão e F.
Penucho
O cenário aqui apresentado é completamente diferente do ocorrido nas cúrias de 1211, pelo que já existe dto pátrio. No séc
XII, a atividade legislativa era uma atividade pontual, agora é uma atividade normal, o monarca passa a ter uma enorme
variedade de leis, podendo revelar, por isso, independência face às antigas fontes primárias, agora subsidiárias.
Esta independência não foi, contudo, total, por um lado, porque apesar de já existir uma amplitude de leis, ainda não eram
em número suficiente para regular todas as situações a serem julgadas, por outro lado, porque ainda se verifica uma
influência muito grande do papado.
A doutrina diverge em relação à preponderância ou não da opinião de Bártolo e da glosa de Acúrsio sobre o Direito
Canónico (considerando a opinião e a glosa, também, direito romano). Porém, as glosas e os comentários não são
verdadeiramente direito romano, partindo deste, evoluíram e adaptaram-no.
ORDENAÇÕES MANUELINAS
o Rei não apenas como o supremo juiz, mas também como o supremo legislador, num
tempo histórico em que não há separação de poderes.
Como a lei do Rei se destina a produzir efeitos num tempo alargado, então, o processo
de elaboração das leis deveria estar rodeado de particulares cautelas, o que aponta
para a exigência de requisitos. Além disso, não é possível impor o cumprimento da lei aos
súbditos, se não for possível levá-la ao seu conhecimento.
A lei deve ser clara, a sua disciplina deve ser retilínea, há a obrigação do Rei proceder à
interpretação autenticamente se o texto da lei for obscuro e o conhecimento pelos
destinatários é indispensável para impor o cumprimento normativo legal. O conhecimento
da lei passa também por um esforço de compilar o Direito vigente.
Tem-se conjeturado sobre os motivos que levaram o monarca a determinar tal reforma.
Condicionantes:
Nos finais do século XV. Uma vez que impunha levar à D. Manuel assistiu a pontos altos dos Descobrimentos, daí
tipografia a coletânea jurídica básica do país, para facilidade ser particularmente relevante ligar o seu nome a uma reforma
da sua difusão, convinha que a mesma constituísse objeto de legislativa de vulto. Esta suposição alicerça-se em vários
um trabalho prévio de revisão e atualização. testemunhos, inclusive na importância atribuída pelo rei ao Dto
e à realização da justiça
Importa salientar que há autores que defendem que estas ordenações já avançaram mais
no sentido da sistematização, na medida em que todos os livros foram escritos num
mesmo estilo, o decretório ou legislativo, porém, em termos de estrutura, manteve-se a
lógica das Afonsinas (livros, títulos e parágrafos). Em matéria e conteúdo, existiram
alterações no tríplice sentido de eliminações, acrescentos e mudanças – das cortes um
dos mais importantes é uma norma que determina a expulsão dos judeus, verificado ainda
no séc XV.
As Ordenações Manuelinas, até pelo estilo em que estão redigidas, constituem uma
compilação mais apurada, não se tratando de uma mera recolha de leis transcritas.
Alguns autores falam já de um código, entendido obviamente de acordo com o conceito da
época. Por isso, as ordenações manuelinas representam progresso no ângulo de técnica
jurídica.
Sistematização de AC: Mantém-se a estrutura básica de cinco livros, integrados por títulos
e parágrafos. Conserva-se a distribuição das matérias. As principais alterações foram:
1) Supressão dos preceitos aplicáveis a Judeus e a Mouros, que, entretanto, tinham
sido expulsos do País;
2) A inclusão da disciplina da interpretação vinculativa da lei, através dos assentos da
Casa da Suplicação;
3) Alterações em Matéria de Direito Subsidiário;
Do ponto de vista material não houve uma transformação radical ou profunda do direito
português. Foi, acima de tudo, uma actualização e um ajustamento.
Do ponto de vista formal, a obra marca um progresso de técnica legislativa, que se traduz,
sobretudo, no facto, de os preceitos se apresentarem sistematicamente redigidos em estilo
decretório, ou seja, como se de normas novas sempre se tratasse. A esta vantagem
M. Tristão e F.
Penucho
O costume antigo GA – exceto se for contrariada pela opinião comum dos doutores anteriores e posteriores
Se estas não OB – exceto se for contrariada pela opinião comum dos doutores posteriores
oferecerem solução
para um determinado
caso, recorre-se às
subsidiárias.
Resolução Régia
Opinião Comum dos Doutores – nova introdução usada como critério de filtro de utilização e de
tutela da GA e OB.
Foi entendida como alguns autores como uma cedência às ideias do humanismo, que criticava as
escolas medievais e particularmente as suas maiores figuras.
Outros autores fazem notar que a prevalência da opinião comum dos doutores só funciona em
relação a juristas futuros, nunca se contestando a autoridade de Bártolo. Deste modo, era preciso
deixar em aberto a possibilidade dos juristas posteriores terem mais opiniões válidas a atualizadas
do que ele.
Em bom rigor, a limitação representava-se menor do que se poderia julgar prima facie. O que foi
feito a partir daqui foi fechar o passado em beneficio de Bártolo mas sem se fechar a porta ao
futuro. Ou seja, com exclusão da glosa, fez-se tábua rasa de tudo o que ficava para trás de Bártolo,
admitindo-se contra ele apenas a opinião comum dos juristas posteriores, ou seja, dos pósteros.
Legislação Extravagante
O aparecimento das compilações ou sistematizações oficiais de fontes de direito não impedia, nem impediu que se continuasse
a legislar. Às grandes leis que não ficaram incluídas nos grandes corpos legais se deu o nome de extravagantes (permaneciam
mas fora da compilação).
Face à dinâmica legislativa acelerada, característica da época, teve como efeito que as Ordenações Manuelinas, se vissem
rodeadas de inúmeros diplomas avulsos. Estes não só revogavam, alteravam e esclareciam muitos dos seus preceitos, mas
também dispunham sobre matérias inovadoras. Acrescia a multiplicidade de assentos da Casa da Suplicação.
Tornava-se imperiosa a elaboração, pelo menos, de uma coletânea que constituísse um complemento sistematizado das
Ordenações, permitindo a certeza e a segurança do Direito.
Coube a iniciativa ao cardeal D.Henrique, regente na menoridade de D. Sebastião, que encarregou Duarte Nunes de Lião de
organizar um repositório de Direito extravagante, ou seja, que vigorava fora das Ordenações Manuelinas.
Na compilação que obteve força vinculativa, em vez de uma transcrição de leis e de assentos anteriores, procedeu-se, com o
objetivo de a tornar menos volumosa ao resumo ou excerto da essência de diversos preceitos. Este resumo ou excerto, reduzia
a lei e os assentos ao seu essencial mas foi-lhe conferida força de lei.
M. Tristão e F.
Penucho
Na permanência de dúvidas pela consulta deste texto, a solução passaria pela consulta dos documentos originais.
ORDENAÇÕES FILIPINAS
São as últimas compilações que conhecemos, foram aquelas que permaneceram mais
tempo em vigor, sendo completamente revogadas no século XIX com a codificação,
designadamente, com o CC de 1867.
M. Tristão e F.
Penucho
AC: A coleção de leis extravagantes não passou de uma simples obra intercalar.
Impunha-se uma reforma profunda nas Ordenações Manuelinas, cada vez mais urgente.
Até porque estas não realizaram a transformação jurídica que o seu tempo reclamava. A
elaboração das Ordenações constituiu um facto natural que Filipe I, em cujo reinado, se
tomaram outras decisões relevantes na esfera do Direito. Esta reforma permitiu a Filipe I
demonstrar pleno respeito pelas instituições portuguesas e empenho em atualizá-las
dentro da tradição jurídica do país.
As ordenações filipinas apresentam-se, por isso, como uma cópia atualizada e retocada,
os compiladores filipinos tiveram, sobretudo, a preocupação de rever e coordenar o dto
vigente, reduzindo-o ao mínimo de inovações. Pretendia-se uma simples atualização das
OM, visto que o trabalho dos compiladores não foi o mais perfeito, sendo, por vezes, pouco
claro e com contradições. Daí subsistirem normas revogadas ou caídas em desuso.
A ausência de originalidade e os restantes defeitos mencionados receberam o nome de
filipismos.
O costume antigo: introduzido algo mais específico GA - exceto se for contrariada pela opinião comum dos
Para ser aceite como fonte principal, passou a ter de ser doutores, tanto anteriores como posteriores
plural, antigo (pelo menos 100 anos), conforme à razão e à lei.
Se estas não oferecerem solução para um determinado OB - exceto se for contrariada pela opinião comum dos
problema passamos às seguintes doutores posteriores. Esta ficou mais reforçada, em
consequência da valorização das opiniões deste jurista na
prática judiciária, ocorrida durante o séc. XVII. É nesta época
que alguns autores falam de uma fase bartolista do direito
português
Resolução Régia
Só no início do séc XVII, se rompeu a última amarra que prendia o problema do direito
subsidiário à ideia inicial de um conflito de jurisdição entre o poder temporal (DR), e o poder
espiritual/eclesiástico (DC). Só com a reforma filipina, o legislador tomou consciência da
necessidade de cortar esse cordão umbilical, dando ao título em causa um enquadramento
formal inteiramente diverso.
Apesar da delimitação da autoridade de Bártolo pela opinião comum dos doutores, que
persiste nas Ordenações Filipinas, pode dizer-se que o bartolismo atinge no período da
História do Direito Português que se inicia com aquela codificação jurídica um dos
momentos senão o momento de maior intensidade, imperará em tribunais, no foro e na
jurisprudência e até com prejuízo da opinião comum, como também no ensino.
LEGISLAÇÃO EXTRAVAGANTE
Aos diplomas que as Ordenações Filipinas não eliminaram ou que, abusivamente,
continuaram a ser aplicados, outros se foram acrescentando. A coletânea filipina ver-se-ia,
sem demora, alterada ou complementada por um núcleo importante e extenso de
diplomas legais avulsos.
Utiliza-se, aqui, o conceito de lei num sentido muito mais amplo que aquele que lhe
corresponde no direito moderno, qualificando-se como lei, de um modo geral, toda e
qualquer manifestação da vontade soberana destinada a introduzir alterações na ordem
jurídica estabelecida.
M. Tristão e F.
Penucho
Resoluções Provisões
Pelos finais de 1518 providenciou-se acerca do início da vigência das leis: estas teriam
eficácia, em todo o País, decorridos 3 meses sobre a sua publicação na chancelaria e
independentemente de serem publicadas nas comarcas. O preceito transitou para as
Ordenações Manuelinas, mas reduzindo-se o prazo para 8 dias quanto à Corte. A vigência
dos outros diplomas, dos não submetidos à chancelaria, começava na data de publicação.
As ordenações filipinas conservaram os prazos indicados
O costume constitui a fonte predominante do sistema jurídico pluralista, Mencionado nas Ordenações enquanto fonte
passa a ceder essa posição à lei, desde meados do séc. XIII. de dto. Tratava-se de um costume de origem
As Ordenações Afonsinas limitam-se a consagrar a vigência do costume do judiciária/tribunal. Estava, ainda, sujeito a
Reino antigamente usado. Já as Ordenações Manuelinas estabelecem requisitos de validade:
alguma especificação: por um lado, salienta-se a validade dos costumes 1. não devia, como qualquer ato judicial,
locais no mesmo plano dos costumes gerais, por outro lado, restringe-se a contrariar a lei
observância do costume, geral ou local como fonte de direito imediata, aos 2. devia ser prescrito, ou seja, existir há
casos em que a doutrina romanística e canonistica admitisse a sua vigência. mais de 10 anos
No estudo doutrinário prestava-se atenção a alguns requisitos que deviam 3. Depois do assento de 20 de
ser cumpridos para a invocação do costume pudesse ser vinculativa: dezembro de 1757, julgou-se que o
1. Antiguidade – exigia-se, em regra, um período de duração igual ou estilo devia ser também conforme à
superior a 10 anos, exceto se fosse contrário à lei, apontando, aqui, boa razão.
os canonistas, para um prazo de 40 anos (séc XVIII passa a 100
anos se fosse conforme à boa razão e não se opusesse à lei De acordo com as Ordenações, os estilos da
2. Pluralidade - certo número de casos necessários à demonstração Corte legitimamente estabelecidos
da sua existência constituíam lei e se deviam observar como
tal.
A doutrina tem alguma dificuldade em explicar o facto de no período De acordo com a disciplina das ordenações,
monista, em que a vontade suprema era a do rei, se tivesse dado algum valor os estilos valiam como lei e deviam ser
à chamada “voluntas populi”, na qual se traduzia o costume. aprovados por assento. Em 1605
A lei, como visto, tornou-se um elemento que permitiu a própria determinou-se que só seriam válidos os
centralização de poderes no monarca. Havia agora que conciliar duas estilos aprovados por assento da Mesa
realidades que, aparentemente se excluíam, de um lado a situação de facto Grande da Casa da Suplicação.
decorrente da tradição consuetudinária, do outro a vontade do rei, houve
necessidade de conciliar inteligivelmente a simultânea vigência dos dois.
A explicação foi então tentada através da presunção da vontade régia em
querer ver tal fonte aplicada. Por isso, dir-se-ia também que o costume tinha
força de lei, considerando-o a manifestação da vontade tácita do monarca.
DTO SUBSIDIÁRIO
DR e DC GA e OB Resolução Régia
Na falta de direito nacional caberia utilizar, Se o caso omisso não fosse Sempre que, através dos sucessivos
antes de mais, o direito romano e o direito decidido directamente pelos elementos indicados, não se
canónico. textos de direito romano ou de conseguisse disciplina para o caso
Em questões jurídicas de natureza temporal, a direito canónico devia atender- omisso, impunha-se a consulta do rei,
prioridade pertencia ao direito romano, exceto se se à Glosa de Acúrsio e, em cuja estatuição valeria, de futuro, para
da sua aplicação resultasse pecado. seguida, à opinião de Bártolo, todos os efeitos semelhantes.
O direito canónico prevalecia sobre o direito ainda que outros doutores se Determinava-se o mesmo
romano nas ordens de matéria espiritual e nas pronunciassem de modo procedimento quando a hipótese
temporais em que na observância deste ultimo diverso. considerada, não envolvendo matéria
conduzisse o pecado (“ratio peccati”), quer dizer, O legislador justifica a de pecado, nem sendo disciplinada
se mostrasse contrário à moral cristã. prevalência de Bártolo dada a pelos textos de direito romano, tivesse
A supremacia do direito canónico sobre o maior racionalidade soluções diversas no direito canónico e
direito romano em matéria pecado representava reconhecida a este jurista, nas glosas e doutores das leis. Nestes
a doutrina corrente. (ex da usucapião) assim como o desejo de evitar casos, “seja remetida à nossa Corte, e
incertezas e contradições guarde sobre ele a nossa decisão”.
jurisprudenciais.
Não raro, o direito pátrio era preterido pelo direito romano. Abusava-se da opinião
comum. Chegou-se, inclusive, à aplicação do direito castelhano, que se encontrava fora
do quadro das fontes de direito subsidiária
DIREITO CANÓNICO
Beneplácito Régio
Medida instituída durante o pluralismo e que persistiu nos séculos do período monista, limitador da aplicação do DC.
Este instituto jurídico de autorização de publicação das letras apostólicas no reino, em vigor desde o reinado de D.
Pedro I, suscitou da parte da Igreja múltiplas diligências tendentes a uma revogação pelos monarcas portugueses. Estes
resistiram a todas as tentativas.
Apenas com D.João II foi consentida e desejada a revogação. A carta revogatória não expõe directamente os motivos,
mas atendendo ao contexto da política interna e internacional portuguesa no período em causa enxerta-se num conjunto de
circunstâncias que interessavam ao Papado e Portugal para uma optimização de relações. Nomeadamente, e pelo que toca
ao nosso país, estava em causa a consolidação interna da realeza e toda a política de expansão. Esta revogação foi
apenas temporária entre 1487 e 1495 com D. João II e foi depois reposto em vigor, permanecendo até aos tempos do
constitucionalismo.
Se a política interna e externa ditadas pelas necessidades da realeza e da expansão levou à revogação do beneplácito,
também o alinhamento político de Portugal com as nações que desencadearam a Contrarreforma e a tradicional
obediência a Roma dos nossos monarcas, aliado ao tradicional cariz religioso da população em geral, originou uma
atitude de acatamento de parte do ordenamento católico, nomeadamente a constituída pelos Decretos do Concílio de
Trento.
Aberto em 1545 e encerrado em 1563, as resoluções tridentinas eram aprovadas em consistório secreto e delas era
dado conhecimento aos católico pela Bula Benedictus Deus, por exemplo, a 3 de Julho de 1564, a Santa Sé apelava
aos monarcas a colaboração no cumprimento das normas aprovadas pelo Concílio de Trento, o que foi aceite pelo Rei
português, através de um alvará régio de 12 de setembro de 1564. Este foi posteriormente regulado, condicionando a
aplicação das sentenças do CT à certeza de que o Processo Canónico tinha decorrido de forma justa.
Durante este período, o DC manteve o seu carácter de dto subsidiário em termos idênticos
aos que lhe eram reconhecidos pelas Ordenações anteriores até à Lei da Boa Razão (18
agosto de 1769), quando se dispôs que o DC só poderia, a partir daí, ser utilizado nos
tribunais civis em 4 situações:
1. nos casos em que a própria lei civil o mandasse aplicar
2. nos casos em que os seus preceitos fossem utilizados pelas nações civilizadas da
Europa, como forma de correção das normas de DR
3. nos casos em que fosse impossível o recurso a qualquer outra legislação
4. nos casos em que se devesse tomar conhecimento da norma canónica para
impedir os excessos e a opressão praticada pelos Juízes Eclesiásticos, isto é,
para evitar os seus abusos
Fora destas situações, o DC não devia ser aplicado nos tribunais civis.
AL: a LBR veio vibrar o golpe mortal no sistema vigente (aos meus ministros seculares não
toca o conhecimento de pecados mas sim de delitos
M. Tristão e F.
Penucho
DIREITO PRUDENCIAL
DR
Direito Prudencial
O direito prudencial, trabalhando sobre o direito romano, continua a ter uma grande importância no período do monismo
jurídico, inclusivamente, foi uma fonte subsidiária do direito português, nomeadamente, nas Ordenações.
Relevância nas Ordenações, devido: trabalho dos juristas, que eram chamados a analisar e a estudar o DR; obras de
Acúrsio e Bártolo; muitas vezes concluídos pela formulação de uma opinião comum dos doutores – tudo isto permitiu o
desenvolvimento da ciência jurídica
Neste período o critério preferido de fixação da opinião comum foi o qualitativo (que constava que o peso da opinião de
alguns juristas que devia prevalecer). Antes do séc. XV e nos sécs. XVII e XVIII, usava-se o critério misto ou de maioria
qualificada. Contrapondo estes dois critérios existe também o critério quantitativo, onde pesa o maior número de opiniões
iguais.
Porém, tudo isto se passa no nosso país durante o século XVI, enquanto lá fora é o Humanismo Jurídico a corrente de
pensamento que está a deixar marca. Desta forma, percebemos que Portugal está em contra círculo. Enquanto lá fora se
pensa o Humanismo Jurídico, em Portugal é a opinião dos doutores que surge consagrada.
Internos Externos
O papel desempenhado pela Os movimentos ou correntes do pensamento jurídico que foram divulgados
Universidade. A Universidade, criada em na Europa e que tiveram, com maior ou menor intensidade, influência em
data incerta entre 1288 e 1290 por D. Dinis, Portugal: Humanismo e Racionalismo.
com a designação de Estudo Geral, foi a
instituição fundamental para o
Humanismo
desenvolvimento da ciência do direito ao
longo dos séculos.
A primeira corrente do pensamento jurídico divulgada na Europa a partir
Depois de mudanças sucessivas entre
do século XV, também conhecido por Mos Gallicus, em contraposição ao
Lisboa e Coimbra, fixou-se em Coimbra em
Mos Italicus.
1537 com D. João III.
Mos Italicus→ conhecimento do dto prudencial pelas escolas;
Graças ao clima de renovação cultural
teve palco essencial em Bolonha (anterior)
do Humanismo e à reforma Joanina da
Mos Gallicus → surgiu no final do século XV e desenvolveu.se no
Universidade, o ensino jurídico conheceu
século XVI, por oposição ao dto prudencial, numa lógica de que o
algum esplendor momentâneo.
conhecimento só seria verdadeiro se pudesse ser demonstrado.
Continuava a seguir-se o método
Traduziu-se pela contestação e crítica da metodologia dos prudentes
escolástico, em Direito continuava a usar-se
medievais, o ensinamento do Dto efetuado pelas escolas medievais,
o método casuístico e não havia ainda
designadamente pela Escola dos Comentadores, sendo que Bártolo é o
qualquer cadeira dedicada ao ensino do
principal alvo de crítica.
direito pátrio.
Para fazer vingar as suas teorias, os humanistas jurídicos elencaram uma
Em 1591 foram elaborados os Estatutos
série de crítica ao trabalho dos mesmos:
Filipinos da Universidade, revistos e
❖ ao nível da linguagem – no regressar às origens que o
repostos em vigor em 1598, são regras que
Renascimento significa aquilo que os prudentes apresentavam não
vão ditar o funcionamento da Universidade
era DR autêntico, era um dto formado glosas a glosas; aquilo que
reformada, mais tarde conhecidos por
fizeram foi uma deturpação dos textos romanos
Estatutos Velhos, para os distinguir dos
❖ ao nível de objeto de análise – acusaram-nos de se terem limitado
Estatutos Novos de Marquês de Pombal,
ao estudo do código justinianeu quando este não continha o melhor
no século XVIII.
do direito romano. Por outro lado esse estudo era incompleto
Estes vão trazer para a Universidade de
porque não sabiam grego e o código justinianeu tinha uma estrutura
Coimbra, de forma definitiva, a influência
histórica grega.
marcante de Bártolo. O ensino jurídico
❖ ao nível da variedade das fontes – acusaram-nos de não se ter
continua a ser dado em latim, com base na
preocupado com a veracidade das fontes jurídicas e não jurídicas
leitura e no comentário dos textos romanos
dos trabalhos que produziram, e, portanto de terem efectuado um
justinianeus.
M. Tristão e F.
Penucho
Racionalismo
Lei de 18 de agosto de 1769, é uma lei devida ao Rei D. José I, sob o consulado de
Marquês de Pombal. Esta lei teve como objeto disciplinar as fontes de direito, visava
impedir irregularidades em matéria de utilização dos assentos e de utilização do
M. Tristão e F.
Penucho
direito subsidiário, pretendia fixar normas precisas sobre a validade do costume e fixar os
elementos a que o intérprete podia recorrer para o preenchimento das lacunas.
Assim, veio consagrar as bases principais da legislação portuguesa.
Estilo da Corte – permanece como fonte de dto, mas para ter essa natureza precisa de ser confirmado pelo assentos da
Casa da Suplicação. Os assentos são fontes de interpretação das leis. Os assentos produzidos pelas relações subalternas
podiam ser objeto de recurso para a Casa da Suplicação. Os assentos produzidos pela Casa da Suplicação podiam ser
objeto de recurso para o monarca.
Costume – permanece como fonte de dto de forma muito residual e limitada; para ser considerado fonte de dto, tinha de ser
conforme à boa razão, não podia contrariar a lei e tinha de ter mais de 100 anos
Na falta de Dto Pátrio, o DR funcionava como subsidiário. Contudo, passa a estar absolutamente submetido ao Usus
Modernus Pandectorum, ou seja, o direito romano tinha de estar trabalhado, moderno, conforme à boa razão e reconhecido
pelas nações europeias cristãs.
Surge uma nova fonte de direito. No caso de lacunas sobre matérias políticas, económicas, mercantis ou marítimas era
permitido o acesso direto às leis das “Nações Cristãs, Iluminadas e Polidas” da Europa, sendo o direito romano
liminarmente posto de lado
O DC é relegado para as questões do foro espiritual, sendo aplicado apenas nos tribunais eclesiásticos. Deixou de ser fonte
subsidiária de direito. Ele passa a poder ser aplicado na sua vigência apenas em 4 situações:
1. se a lei do rei remetesse para ele
2. nos casos em que o seus preceitos fossem aplicáveis pelo uso das nações civilizadas e polidas da Europa, em
correção do próprio DR
3. se não fosse possível recorrer a outros ordenamentos
4. nos casos em que os ministros tenham necessidade de conhecer o DC para obviar aos próprios abusos dos juízes
eclesiásticos que consideram aquela questão do foro espiritual
A glosa de Acúrsio, a opinião de Bártolo e a opinião comum dos doutores são definitivamente revogadas à luz da boa razão.
Ao compreenderem que o Dto vigente não bastava para orientar os juristas nas leis e nas
demais fontes que deveriam aplicar e por que ordem deveriam ser aplicadas, bem como
que, face à impossibilidade de alteração da aplicação do Dto, sobretudo por não ser
possível fazer relevar a lei relativamente ao DR, visto nas Universidades continuava-se a
estudar apenas DR, o Rei D. José I e Marquês de Pombal entendem que o ensino do Dto
precisa de ser profundamente reformado, pelo que se vai iniciar a Reforma da
Universidade em 1770, com a criação de uma Junta de Providência Literária.
Esta comissão apresentou no ano seguinte o Compêndio Histórico da Universidade de
Coimbra, onde criticou de forma implacável a organização do ensino existente e propôs a
aprovação de uns novos estatutos, denominados de Estatutos Pombalinos, os quais havia
elaborado e que vieram efetivamente a ser aprovados por uma Carta de Lei de 28 de
agosto de 1772.
Mudanças:
D. José I entende que a preparação anterior de todos aqueles que iriam entrar no curso
de Direito era determinante para o sucesso desse mesmo curso. Além disso, diz também
que os pais precipitam a entrada dos seus filhos nos estudos jurídicos pela cega ambição
dos melhores lugares.
M. Tristão e F.
Penucho
Durante todo o século XIX, mas já com precedentes desde os meados do século XVII, a
Europa assiste a um movimento codificador generalizado, traduzido na elaboração de
M. Tristão e F.
Penucho
amplos corpos legislativos unitários, obedecendo a uma orgânica mais ou menos científica
e que condensavam, autonomamente, as normas relativas aos ramos básicos de direito, já
então individualizados.
Os Códigos modernos, são fundamentalmente inovadores, propõem-se realizar uma
verdadeira transformação jurídica, em vez de pura síntese do direito do passado,
manifesta-se uma profunda intenção prospectiva. Na raiz do movimento codificador,
encontram- se vectores jusracionalistas e iluministas. Havia que estabelecer a nova
ordem decorrente do direito natural racionalista, isto é, daquele conjunto de normas que
traduziam valores imutáveis que se tornava possível atingir pela razão.
O século XIX é marcado pelo projeto político do liberalismo que se funda no pensamento de John Locke. É com ele que
simbolicamente consideramos que se inicia doutrinariamente o liberalismo político. No que respeita a Portugal o Liberalismo
instaura-se com a revolução liberal de 1820.
1) Dtos Naturais do Homem – o Homem, devido à influência do racionalismo século passado, é o ponto de partida e o
ponto de chegada pois é ele e os seus direitos que fundamentam o poder.
2) Constituição Escrita – entendeu-se que a forma mais adequada de proteger estes direitos seriam impondo limites
através da lei. Se a lei é o garante e o limite da salvaguardar dos direitos, será de compreender passá-los a escrito e
compilar numa constituição.
3) Soberania popular – o fundamento está no direito dos Homens e não no direito natural ou divino, assim a soberania
M. Tristão e F.
Penucho
1. Princípio democrático
- Contrato social
- Parlamento
- A lei vai sendo cada vez mais equiparada ao direito, existindo uma
desvalorização de outras legitimidade
- Liberalismo
- Humanismo
- Escola da exegese
3. A Lei
- Livre do despotismo
4. Desvalorização da jurisprudência
HUMANITARISMO JURÍDICO
Ainda no século XIX, o Dto Penal português assentava ainda a sua base legislativa no
livro V das Ordenações Filipinas onde estavam tratadas as matérias relativas aos delitos e
M. Tristão e F.
Penucho
Preocupações:
Ideias:
Vai haver uma inovação por parte dos autores. As sanções criminais passam a ter, para
alem da vertente ética e punitiva uma ideia de defesa e prevenção da sociedade. A pena
apresenta-se não como castigo ao facto passado, mas principalmente como meio de evitar
futuras violações da lei criminal (quer de modo individual, quer geral). Racionalização das
penas.
3. Dignidade humana
A ação preventiva do direito penal teria de ser feita dentro dos limites da justiça e atendendo
à dignidade humana. Surge a ideia de proporcionalidade entre pena e gravidade do delito.
Às penas corporais passam a dar lugar penas de prisão. Sendo a liberdade o principal valor
da vida humana e social, a maior sanção seria, pois, a privação da mesma. Abolição da
pena de morte.
4. Processo Penal
Novas posições
Beccaria:
- Proporcionalidade
- Não retroatividade
- Adequação
- Crítica À tortura
Direito penal
Como podemos caracterizar esta evolução em que, para usar uma expressão de um
professor desta Faculdade, a cada avanço civilizacional corresponde um avanço dogmático
da ciência do direito.
M. Tristão e F.
Penucho