FURB – Universidade Regional de Blumenau
CCEAL - Centro de Ciências da Educação, Artes e Letras
Departamento de Letras
Professora Mª Patrícia Gonçalves Jorge
Estudante: Tainara Zimermann
N2: Resumo do livro "A Coesão Textual", de Ingedore Villaça Koch
COESÃO TEXTUAL: CONCEITO E MECANISMOS
A autora apresenta o texto “Os urubus e sabiás”, de Rubem Alves, e traz
diversos apontamentos a respeito dos “recursos de coesão textual”. Ela apresenta
exemplos de catáfora e anáfora presentes no texto.
Na sequência, continua apontando outro “grupo de mecanismos cuja função é
assinalar determinadas relações de sentido entre enunciados ou partes de
enunciados” (Koch, 2010, p. 15), tais como: oposição ou contraste, finalidade ou meta,
consequência, localização temporal, explicação ou justificativa e adição de
argumentos ou ideias. De acordo com a autora, a coesão textual é a tessitura do texto,
a criação dele como um todo.
Para Halliday e Hasan (1976 apud (Koch, 2010, p. 15), a coesão textual vai se
referir às relações que estão no texto e que se entrelaçam entre si, formando o texto.
Entendem que os elementos são uns dependentes dos outros para que se entendam,
não podendo haver análise separadamente. Ainda, consideram a coesão como parte
da sistematização de uma língua.
De acordo com Halliday e Hasan (apud Koch, 2010) entendem que a
referência, a substituição, a elipse, a conjunção e a coesão lexical são considerados
os principais aspectos da coesão.
Beaugrande & Dressler (1981 apud Koch, 2010) inferem que a coesão tem a
ver com a maneira que as palavras e frases se conectam entre si numa linearidade.
Marcuschi (1983 apud Koch, 2010) explica os fatores de coesão como o que
estrutura a “sequência superficial do texto.” É, entre os elementos linguísticos do texto,
o que gera as relações de sentido. Diferente dos autores ditos anteriormente,
Marcuschi defende que a coesão não é necessária para a compreensão e criação de
textos. Há diversos exemplos de textos que não se utilizam de recursos coesivos e
que têm continuidade a nível de sentido. Também há exemplos de diversos textos com
recursos coesivos que ficam isolados e não têm “textura”.
Os autores destacam a diferença entre coesão e coerência, considerando que
muitos negligenciaram essa distinção no passado. Atualmente, é praticamente um
consenso que são conceitos distintos.
Para Beaugrande & Dressler, a coerência refere-se à maneira como os
elementos do texto, como conceitos e relações subjacentes, são acessíveis e
relevantes entre si, formando uma estrutura que transmite significado. A coerência,
que assegura a continuidade do significado no texto, não é apenas uma característica
superficial, mas é o resultado de diversos fatores linguísticos, cognitivos e
interacionais. Marcuschi complementa, destacando que “a simples justaposição de
eventos e situações em um texto pode ativar operações que estabelecem ou reforçam
relações de coerência.”
É evidente que textos podem existir sem elementos de coesão, mas ainda
assim possuem coerência textual. Por outro lado, sequências de enunciados podem
ser coesivas, mas sem coerência suficiente para formar um texto coeso.
Embora a coesão não seja suficiente nem necessária para definir um texto, sua
presença melhora a legibilidade, deixando claro os tipos de relações entre os
elementos linguísticos. Em muitos contextos, como textos científicos ou didáticos, a
coesão é valiosa como uma manifestação superficial da coerência. Em resumo, a
coesão textual abrange todos os processos que garantem ou tornam possível uma
conexão linguística significativa entre os elementos presentes na superfície do texto.
MECANISMOS
Halliday & Hasan (1976) identificam cinco tipos de mecanismos de coesão, que
incluem referência, substituição, elipse, conjunção e coesão lexical.
A referência envolve itens linguísticos que não possuem significado por si
mesmos, mas remetem a outros elementos no discurso para sua interpretação,
chamados de pressuponentes e pressupostos.
Essa referência pode ser exofórica, quando remete a elementos fora do texto,
ou endofórica, quando remete a elementos dentro do texto. Quando o referente ocorre
antes do termo coesivo, é uma anáfora, e quando ocorre após, é uma catáfora.
A referência pessoal usa pronomes pessoais e possessivos, a demonstrativa
usa pronomes demonstrativos e advérbios de lugar, enquanto a comparativa opera por
meio de identidades e similaridades indiretas. Na substituição, um elemento é
colocado no lugar de outro no texto, inclusive substituindo uma oração inteira, sendo
uma relação interna. A diferença principal entre substituição e referência é que na
primeira há uma redefinição, enquanto na segunda há total identidade referencial entre
o item de referência e o pressuposto. A substituição é usada quando há uma diferença
ou adição de informação, exigindo um mecanismo mais gramatical do que semântico.
Isso resulta em uma definição contrastiva em relação à original.
No sintagma nominal "uma camisa vermelha", o adjetivo "vermelha" é
substituído por "verde", o que implica em uma redefinição do referente. Na elipse,
ocorre a substituição por zero, omitindo-se um item lexical, sintagma ou oração,
recuperáveis pelo contexto. A conjunção estabelece relações entre elementos ou
orações do texto, indicadas por conectores como "e", "mas", "depois", etc. Halliday &
Hasan destacam tipos como aditiva, adversativa, causal, temporal e continuativa. A
colocação usa termos do mesmo campo significativo em proximidade.
Uma questão na classificação de Halliday & Hasan é a fluidez na distinção
entre referência e substituição. Alguns autores, como Harweg, defendem que toda
retomada de referentes textuais é feita por substituição, concebendo o texto como uma
cadeia pronominal ininterrupta. Por outro lado, estudiosos como Kallmeyer e Meyer-
Hermann refutam essa visão, propondo uma "Teoria da Referência Mediatizada". Eles
argumentam que os pronomes pessoais de terceira pessoa fornecem instruções de
conexão, não de substituição, durante o ato comunicativo, e que as relações de
referência não dependem apenas dos elementos linguísticos, mas também das
contribuições de seus contextos, para estabelecer uma relação textual apropriada.
As instruções de conexão do pronome "ele" permitem ao ouvinte vinculá-lo a
um náufrago. No entanto, quando dois ou mais sintagmas nominais anteriores podem
ser referentes potenciais, a decisão do ouvinte depende da compatibilidade das
instruções de sentido dadas pelo referente e das predicações sobre a forma
referencial. Kallmeyer et al. e Meyer-Hermann investigam diversas formas de
referência, incluindo aquelas tratadas por Halliday & Hasan como substituição. Brown
& Yule, ao abordarem a coesão, identificam formas de correferência, como formas
repetidas, parcialmente repetidas, substituição lexical, forma substitutiva e elipse. Além
disso, eles consideram relações lexicais, como hiponímia e hiperonímia, e outras
estruturais, como a substituição clausal e a comparação, criticando a visão
"substitucionalista".
Os autores destacam que, embora a "identidade" do frango seja mantida, a
descrição muda ao longo do texto, implicando que o pronome oblíquo "o" não substitui
diretamente o sintagma nominal "um frango ativo e roliço". Isso revela a necessidade
de associar mudanças de estado ao referente e transportá-las ao longo do discurso.
Essas reflexões minam o principal critério diferenciador de referência e substituição
proposto por Halliday & Hasan. Quanto à elipse, ela é vista como uma substituição por
zero, mas pode também ter uma função referencial, onde todas as considerações
sobre a visão substitutiva de referência se aplicam. Além disso, a coesão lexical não é
considerada um mecanismo independente, pois o uso de sinônimos, hiperônimos e
repetição serve à mesma função coesiva das pro-formas. Com base na função dos
mecanismos coesivos na construção do texto, sugere-se a existência de duas
modalidades principais de coesão: a referencial e a sequencial.
A COESÃO REFERENCIAL
A autora apresenta o texto Shopping News, de Kátia Simões, e destaca os
diversos mecanismos de coesão referencial.
Para a autora a coesão referencial é:
[…] aquela em que um componente da superfície do texto faz
remissão a outro(s) elemento(s) nela presentes ou inferíveis a
partir do universo textual. Ao primeiro denomino forma
referencial ou remissiva e ao segundo, elemento de referência
ou referente textual. (Koch, 2010, p. 31).
A definição de elemento de referência abrange uma variedade de elementos
linguísticos, como nomes, sintagmas e enunciados inteiros, conforme apontado por
Blanche-Benveniste (1984).
O referente, representado por um nome ou sintagma nominal, se desenvolve
ao longo do texto, incorporando características à medida que o texto avança.
Kallmeyer et al. (1974) destacam que a relação de referência não se limita à forma
remissiva e ao elemento referenciado, mas também inclui os contextos que os
envolvem.
A remissão pode ocorrer tanto para trás quanto para frente, como anáfora ou
catáfora. Embora muitos estudos assumam uma identidade entre a forma remissiva e
seu referente textual, essa identidade é questionada, levando à proposta da "Teoria da
Referência Mediatizada" por Kallmeyer et al. (1974), que descreve a função mediadora
da forma remissiva na referência a outros elementos linguísticos do texto. A ilustração
abaixo demonstra o pronome pessoal na 3ª pessoa, na visão dos autores:
Fonte: Kallmeyer et al., 1974 apud Koch, 2010, p. 32.
Quando se trata da "identidade de referência" em relação a formas remissivas
como "isto", "aquilo" e "o", é importante não presumir automaticamente uma
correspondência direta entre a forma remissiva e o elemento referenciado em termos
de categoria ou função, como observado por alguns autores. Pode ocorrer que uma
forma adverbial, por exemplo, refira-se a um sintagma nominal com função de sujeito
ou objeto.
Além disso, há situações em que formas pronominais não se referem a
nenhum elemento específico do texto, mas sim ao contexto precedente ou
subsequente, ou até mesmo a algo que precise ser inferido do texto como um todo.
As formas remissivas (ou referenciais) no português podem ser de ordem
gramatical ou lexical.
Koch (2010) entende que as formas gramaticais não oferecem diretamente
significado ao leitor ou ouvinte, mas sim conexões dentro do texto, como concordância
de gênero e número. Elas podem ser classificadas como presas, quando ligadas a um
nome dentro de um grupo nominal, desempenhando funções determinantes, ou livres,
como os pronomes pessoais de terceira pessoa e os pronomes substantivos em geral.
Por outro lado, as formas remissivas lexicais, como os grupos nominais definidos, não
apenas fornecem instruções gramaticais, mas também têm sentido próprio, referindo-
se a algo no mundo real.
FORMAS REMISSIVAS GRAMATICAIS PRESAS
As formas gramaticais que concordam em gênero e/ou número com um nome,
antecedendo-o e possíveis modificadores dentro do grupo nominal, desempenham a
função de determinantes, mesmo que não sejam necessariamente artigos.
Essas formas incluem os artigos definidos (o, a, os, as) e indefinidos (um, uma,
uns, umas). Geralmente, o artigo indefinido introduz informação subsequente
(catáfora), enquanto o artigo definido faz referência à informação prévia (anáfora) no
texto.
Weinrich (1971, 1973), em sua "Teoria do Artigo", originalmente desenvolvida
para o alemão e posteriormente adaptada para o francês, demonstra que o artigo
definido pode referir-se não apenas a informações do contexto imediato, mas também
a elementos da situação comunicativa e ao conhecimento culturalmente compartilhado
entre os interlocutores. Isso ocorre em casos como "o sol" ou "o cristianismo". Além
disso, o artigo pode remeter a classes, gêneros ou tipos, como em "O homem é um
animal racional" ou "O lobo encontrou o cordeiro bebendo água no riacho", ativando
"frames" ou esquemas cognitivos.
Esta relação entre elementos é chamada de anáfora semântica ou anáfora
associativa. Essa teoria distingue entre anáfora superficial, estabelecida entre uma
forma remissiva e um referente textual explícito, e anáfora profunda, na qual o
referente é inferido do contexto.
Existem regras para o uso dos artigos como formas remissivas. Por exemplo,
um referente introduzido por um artigo indefinido pode ser retomado por um sintagma
nominal com artigo definido. Por outro lado, um sintagma nominal com artigo definido
pode ser retomado por outro sintagma nominal também introduzido por artigo definido.
É importante notar que a remissão catafórica, por meio do artigo, refere-se à
informação subsequente e ocorre apenas dentro do mesmo enunciado, enquanto a
remissão anafórica pode atravessar os limites do enunciado.
Pronomes Adjetivos
Para Kallmeyer et al.(1974), os pronomes a seguir desempenham a “função-
artigo”: Demonstrativos: este, esse, aquele, tal; Possessivos: meu, teu, seu, nosso,
vosso, dele; Indefinidos: algum, todo, outro, vários, diversos; Interrogativos: quê?
Qual?; Relativo: cujo.
Pronomes adjetivos
Os numerais cardinais e ordinais também podem desempenhar a função de
determinantes quando acompanham um nome dentro de um sintagma nominal.
FORMAS REMISSIVAS GRAMATICAIS LIVRES
As formas remissivas gramaticais livres são aquelas que não estão associadas
a um nome dentro de um grupo nominal, mas são utilizadas para fazer referência, seja
anafórica ou cataforicamente, a um ou mais elementos do texto. Estas são geralmente
chamadas de "pronomes" ou "pro-formas". São elas:
Pronomes pessoais de 3ª Pessoa:
Ele, Ela, Eles, Elas
Segundo Koch (2010, p. 40), os pronomes fornecem instruções de conexão ao
leitor ou ouvinte sobre qual elemento de referência deve ser relacionado. Quando
utilizados de forma anafórica, eles sinalizam que as referências das predicações
relacionadas ao pronome devem ser ligadas às referências de um grupo nominal
específico do contexto anterior.
Quando há mais de um grupo nominal que poderia servir como elemento de
referência, as indicações referenciais das predicações sobre cada elemento são
fundamentais para que o leitor ou ouvinte decida qual deles deve ser selecionado
como referência.
Elipse
Deve-se ressaltar que, na língua portuguesa, a remissão também pode ser
inserida por meio da elipse.
Pronomes substantivos
Demonstrativos
Grupo 1: este, esse, aquele, tal, o mesmo.
Grupo 2: isto, isso, aquilo, o.
Os pronomes demonstrativos do grupo 1 concordam em gênero e número com
o elemento de referência.
Já as formas do grupo 2 geralmente se referem a fragmentos oracionais,
orações, enunciados ou ao contexto anterior como um todo.
Palavras como "este", "aquele", "isto" e "aquilo" podem desempenhar uma
função localizadora, indicando ao leitor ou ouvinte a localização dos referentes no
texto.
As formas remissivas demonstrativas, tanto as do grupo 1 como as do grupo 2,
podem atuar anafórica ou cataforicamente.
Possessivos: (o) meu, (o) teu, (o) seu, (o) nosso, (o) vosso, (o) dele.
Indefinidos: tudo, todos, nenhum, vários, cada um, cada qual etc.
Interrogativos: que? qual? Quanto?
Relativos: que, o qual, quem.
Numerais
Cardinais, Ordinais, Multiplicativos e Fracionários.
Advérbios “Pronominais”;
Exemplo de um sistema de instruções
As formas remissivas do tipo "lá", "aí", "ali", "aqui", "onde" geralmente se
referem a grupos nominais que possuem o traço semântico [-animado], exceto quando
o referente é [+animado] e possui o traço [+localizável]. Quando há dois ou mais
possíveis antecedentes para essas formas, o referente geralmente é o mais próximo,
embora a regra da proximidade nem sempre seja aplicável.
O sistema de regras para instrução dessas formas precisa levar em
consideração diversos fatores, como a hierarquia dos traços semânticos [-animado] e
[+localizável], e a estrutura temática dos enunciados. A decisão de considerar o grupo
nominal mais próximo como referente pode ser o resultado de uma sequência de
passos decisórios, ocupando um lugar inferior na hierarquia das regras.
Expressões Adverbiais do tipo: Acima, Abaixo, A Seguir, Assim, Desse modo
Etc.
São formas remissivas dêiticas que atuam anafórica ou cataforicamente,
apontando, de modo geral, para porções maiores do texto (predicados, orações,
enunciados inteiros).
Formas verbais remissivas (pro-formas verbais)
Koch (2010, p. 48) afirma que certas formas remissivas livres, como verbos,
por exemplo "fazer", são chamadas na literatura de pro-formas verbais. Entretanto,
essas formas geralmente não aparecem isoladas, mas sim acompanhadas de
pronomes como "o mesmo", "o", "isto", "assim", entre outros. Além disso, elas não se
referem apenas ao verbo em si, mas a todo o predicado, incluindo seus complementos
e advérbios. Embora algumas línguas, como o inglês, tenham pro-formas verbais mais
comuns, no português, seu uso é bastante restrito, sendo o verbo "fazer" um exemplo
com as restrições previamente mencionadas.
FORMAS REMISSIVAS LEXICAIS
As formas remissivas lexicais não apenas fornecem instruções de conexão,
mas também possuem um significado extensional, ou seja, referem-se a elementos do
mundo real fora da linguagem.
Expressões ou Grupos Nominais Definidos
Os grupos nominais introduzidos pelo artigo definido ou pelo demonstrativo
desempenham uma função remissiva, referindo-se a elementos previamente
mencionados no texto.
Algumas expressões realizam uma "ativação parcial" das propriedades do
referente anterior, enquanto outras fornecem suas próprias instruções referenciais. Em
ambos os casos, o contexto é fundamental para determinar as instruções referenciais
adequadas.
Por vezes, a escolha das características a serem ativadas na expressão
nominal tem um propósito argumentativo, especialmente quando o referente é um
nome próprio ou equivalente.
Nominalizações
São formas nominalizadas, também conhecidas como nomes deverbais, que
referenciam o verbo e seus argumentos da oração anterior. Quando não há uma forma
deverbal correspondente no léxico, formas supletivas são empregadas. Essas formas
encapsulam as predicações antecedentes ou subsequentes, transformando-as em
rótulos nominais.
Expressões sinônimas ou quase sinônimas
Nomes genéricos (ex.: coisa, pessoa, fato, fenômeno)
Formas referenciais com lexema idêntico ao núcleo do SN antecedente, com ou
sem mudança de determinante,
Meyer-Hermann (1976 apud Koch, 2010, p. 52) chama a atenção, ainda, sobre
os seguintes tipos de formas remissivas referenciais: Formas referenciais cujo lexema
fornece instruções de sentido que representam uma “categorização” das instruções de
sentido de partes antecedentes do texto; e Formas referenciais em que as instruções
de sentido do lexema constituem uma “classificação” de partes anteriores ou
seguintes do texto no nível metalinguístico.
Conforme evidenciado ao longo deste capítulo, a referência ou remissão nem
sempre é estabelecida de forma inequívoca. Quando há dois ou mais referentes
potenciais para uma forma remissiva no co-texto, a decisão do leitor ou ouvinte deve
ser baseada nas predicações relacionadas a eles, considerando todo o contexto
textual. Portanto, é responsabilidade do produtor do texto evitar, sempre que possível,
a ambiguidade potencial de referência. A questão da coesão referencial é, sem dúvida,
mais complexa do que foi abordado neste capítulo. Espera-se que o leitor se sinta
motivado a explorar mais a fundo essa questão.
A COESÃO SEQUENCIAL
Outra grande espécie da coesão textual é a coesão sequencial ou
sequenciação.
A coesão sequencial envolve procedimentos linguísticos que estabelecem
relações semânticas e/ou pragmáticas entre diferentes segmentos do texto, como
enunciados, partes de enunciados, parágrafos e sequências textuais, garantindo a
progressão textual. Segundo Weinrich (1964), o texto é uma "estrutura determinativa"
na qual as partes são interdependentes e necessárias para a compreensão do todo.
Essa interdependência decorre, em parte, dos mecanismos de sequenciação da
língua, que serão explorados neste capítulo. A progressão do texto pode ocorrer com
ou sem elementos recorrentes, sendo a sequenciação frástica caracterizada pela
ausência de procedimentos de recorrência estrita, enquanto a sequenciação
parafrástica envolve tais procedimentos.
Sequenciação Parafrástica
A autora apresenta o texto “A Aldeia que nunca mais foi a mesma”, de Rubem
Alves, e passa a análise.
No primeiro parágrafo do texto 3, o autor transmite aos leitores a imagem de
estagnação e monotonia da aldeia, utilizando recursos linguísticos que tornam o texto
pesado e arrastado. No segundo parágrafo, com o conector "até que" e a mudança
para o pretérito perfeito, é introduzido um fato novo que quebra a rotina. No primeiro
parágrafo, predomina a sequenciação parafrástica, caracterizada pelo uso de
procedimentos de recorrência na progressão do texto.
Recorrência de Termos (reiteração de um mesmo item lexical)
Ressalte-se, contudo, que os elementos recorrentes no texto apresentado não
possuem uma identidade total de sentido. Cada um traz novas instruções de sentido,
que se somam às do termo anterior.
Recorrência de Estruturas — Paralelismo Sintático
A progressão é realizada utilizando as mesmas estruturas sintáticas,
preenchidas com itens lexicais diferentes.
Recorrência de Conteúdos Semânticos — Paráfrase
No paralelismo, há recorrência de estruturas sintáticas preenchidas com
elementos lexicais diferentes, veiculando conteúdos semânticos diversificados. Na
paráfrase, o mesmo conteúdo semântico é apresentado sob formas estruturais
diferentes.
Como na recorrência de termos, cada reapresentação do conteúdo na
paráfrase sofre alguma alteração, que pode incluir ajustamento, reformulação,
desenvolvimento, síntese ou previsão maior do sentido original. Cada língua possui
expressões introdutoras de paráfrases, como: isto é, ou seja, quer dizer, ou melhor, em
outras palavras, em síntese, em resumo, etc.
Recorrência de Recursos Fonológicos Segmentais e/ou Suprassegmentais
No caso, há a existência de uma invariante, como igualdade de metro, ritmo, rima,
assonâncias, aliterações, etc.
Recorrência de Tempo e Aspecto Verbal
Weinrich (1964, 1971), dentro de uma “macrossintaxe textual”, examina os
tempos verbais considerando três características constitutivas do sistema temporal: a
atitude comunicativa, a perspectiva e o relevo.
Segundo Weinrich (1964, 1971), existem dois tipos de atitude comunicativa:
comentar e narrar. Cada língua possui tempos verbais específicos para sinalizar essas
atitudes. Os tempos do comentário, como o presente do indicativo, o pretérito perfeito
e o futuro do presente, envolvem o ouvinte de forma ativa e atenta. Já os tempos do
relato, como o pretérito imperfeito e o mais-que-perfeito, induzem uma atitude
receptiva mais relaxada, sem exigir reação direta.
Quanto à perspectiva, cada mundo possui tempos-zero (sem perspectiva) e
tempos retrospectivos e prospectivos. No mundo comentado, o presente é o tempo-
zero, o pretérito perfeito é retrospectivo e o futuro do presente é prospectivo. No
mundo narrado, o pretérito perfeito e o imperfeito atuam como tempos-zero, enquanto
o mais-que-perfeito é retrospectivo e o futuro do pretérito é prospectivo.
Finalmente, o relevo divide o texto em primeiro plano e segundo plano,
orientando o ouvinte sobre a informação principal e a secundária. Em português, essa
indicação de relevo através do tempo verbal ocorre no mundo narrado: o perfeito
indica o primeiro plano, enquanto o imperfeito marca o pano de fundo.
Assim, a recorrência de tempos verbais tem função coesiva, ajudando o leitor
ou ouvinte a identificar se a sequência é de comentário ou de relato, a perspectiva
adotada (retrospectiva, prospectiva ou zero) e o relevo (primeiro ou segundo plano)
dentro do relato.
Weinrich identifica "transições homogêneas" como indicadores do segundo
plano em um relato. A mudança do imperfeito para o perfeito do indicativo marca a
transição para o primeiro plano. A sequenciação é parafrástica até que ocorra nova
mudança de tempo. O autor rejeita a ideia de aspecto verbal, acreditando que está
incorporado nos tempos verbais de cada situação, mas isso pode não abranger todos
os matizes aspectuais. Portanto, a recorrência do mesmo aspecto verbal também deve
ser vista como sequenciação parafrástica.
Sequenciação Frástica
Neste momento, Koch (, 2010, p. 61) traz o texto de Chagas, “Arte e artes da
crônica política” para debate.
No texto anterior, a progressão ocorre através de encadeamentos sucessivos,
marcados por relações estabelecidas entre os enunciados. Não há interrupções que
diminuam o fluxo de informação, caracterizando uma sequenciação frástica.
No texto, elementos como "mesmo", "até" e "antes de mais nada" têm função
argumentativa, orientando os enunciados para conclusões específicas. Os principais
campos lexicais são política e jornalismo, devido ao tema do texto. Comparando os
textos 3 e 4, no primeiro a progressão é lenta devido à repetição exaustiva de ideias,
enquanto no segundo o fluxo de informação é mais rápido. Vou agora examinar os
mecanismos de sequenciação frástica, que garantem a coesão textual ao manter o
tema, estabelecer relações e articular sequências textuais.
Procedimentos de Manutenção Temática
A continuidade temática do texto é assegurada principalmente pelo uso de
termos do mesmo campo lexical, mantendo uma contiguidade semântica.
Esses termos ativam um esquema cognitivo na memória do leitor/ouvinte,
permitindo a interpretação dos elementos do texto dentro desse esquema. Isso ajuda a
identificar o tema, antecipar o que virá em seguida no texto e resolver ambiguidades.
Progressão Temática
Na sequenciação do texto, a progressão temática é crucial. A Escola
Funcionalista de Praga, incluindo Danes, Firbas, Mathesius e Sgall, discute a
organização das unidades semânticas em tema (informação contextualmente
deduzível) e rema (informação nova). Duas perspectivas - oracional e contextual -
divergem sobre a definição desses termos. Danes combina ambas em sua concepção
de progressão temática, considerada o "esqueleto" da estrutura textual.
Na progressão temática, existem quatro formas principais:
1. Linear: O rema de um enunciado se torna o tema do próximo, e assim por
diante;
2. Com um tema constante: Novas informações remáticas são adicionadas a
um tema constante em cada enunciado;
3. Com tema derivado: Há um "hipertema" do qual temas parciais são
derivados;
4. **Por desenvolvimento de um rema subdividido: Desenvolvimento das partes
de um rema superior.
O encadeamento no texto é essencial para estabelecer relações entre partes
do texto. Ele pode ser por justaposição, sem conectores explícitos, ou por conexão,
usando conectores interfrásticos. Os conectores estabelecem diversas relações lógico-
semânticas, como condicionalidade, causalidade, mediação e disjunção, entre outras.
Além disso, há relações discursivas, como conjunção, disjunção argumentativa,
contrajunção, entre outras, que estruturam os enunciados no texto, facilitando a
interpretação e a construção da coerência. É importante usar esses mecanismos
adequadamente para garantir a compreensão do texto e sua progressão.