0% acharam este documento útil (0 voto)
19 visualizações233 páginas

Crítica do Capitalismo Contemporâneo

tese sobre horckeimer e ideias falhas.

Enviado por

pasargadahades
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
19 visualizações233 páginas

Crítica do Capitalismo Contemporâneo

tese sobre horckeimer e ideias falhas.

Enviado por

pasargadahades
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS


DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA

GUSTAVO MOURA DE CAVALCANTI MELLO

Algumas respostas teóricas para as vicissitudes do capitalismo


contemporâneo: crítica ou fetichismo?

São Paulo
2007
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA

Algumas respostas teóricas para as vicissitudes do capitalismo


contemporâneo: crítica ou fetichismo?

Gustavo Moura de C. Mello

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-


Graduação em Sociologia, do Departamento de
Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas da Universidade de São Paulo,
para a obtenção do título de Mestre em Sociologia.

São Paulo, agosto 2007

2
Resumo

Nessa dissertação analiso, à luz de conceitos marxianos, as noções de trabalho imaterial -


tal qual exposto por Antonio Negri e André Gorz, sobretudo – e de pós-grande indústria –
desenvolvido por Ruy Fausto, Eleutério Prado e Leda Paulani –, as quais estão no cerne da
interpretação desses autores acerca da atual fase do desenvolvimento do modo de produção
capitalista. Com isso, pretendo, por um lado, apreender alguns problemas teóricos dessas
tentativas de se entender a contemporaneidade com base nos conceitos de trabalho imaterial e de
pós-grande indústria; e por outro, chamar a atenção para a força e a atualidade da obra de Marx e
de conceitos como o de trabalho abstrato, de mais-valia relativa, de subsunção real do trabalho
ao capital, de grande indústria, dentre outros.

Abstract

In this dissertation I analyse, through marxian concepts, the notions of immaterial labour
– as exposed by Antonio Negri and André Gorz, - and of post-great industry – developed by Ruy
Fausto, Eletério Prado and Leda Paulani -, wich are in the center of these authors’ interpretations
concerning the current phase of development of the capitalist mode of production. With this, I
intend to, on the one hand, apprehend the theoretical problems of these attempts of understand
the contemporary capitalism based in the concepts of immaterial labour and pos-great industry;
and on the other hand, call attention to the force and atuality of the work of Marx and the
concepts of abstract labour, of relative plus-value, of real subsuntion of the labour to the capital,
of great industry, amongst others.

Palavras-chaves: Marx; teoria do valor; capitalismo; trabalho imaterial; pós-grande


indústria.

3
Índice

Introdução P.5

Primeira Parte. Sobre o trabalho imaterial.

Capítulo 1. O conceito de trabalho imaterial, em Gorz e Negri. P.24

Capítulo 2. O conceito de trabalho imaterial, em Marx. P.39

Segunda Parte. Sobre o desenvolvimento histórico do capital.

Capítulo 3. O conceito de subsunção real e o desenvolvimento histórico do capital, em


Gorz e Negri. P.74

Capítulo 4. O conceito de pós-grande indústria. P.88

Capítulo 5. O conceito de subsunção real e o desenvolvimento histórico do capital, em


Marx. P.100

5.1 A polêmica passagem dos Grundrisse. P.142


5.2 Algumas considerações sobre o conceito de desmedida. P.153
5.3 Crítica da pós-grande indústria. P.168

Conclusão. P.180

Anexos:
Esboço de uma análise marxiana do Estado. P.184
Biopolítica e biopoder em Negri e Foucault. P.206

Referências bibliográficas. P.228

4
Introdução
O irracional poder e a autoridade dos “dados” é contundente índice dos miasmas deste
mundo; não obstante, colecionemos estatísticas oficiais quase que ao acaso, sem questionar sua
fidedgnidade: segundo relatório da ONU, de 2006, só nos cinicamente chamados “países em
desenvolvimento” cerca de 2,6 bilhões de pessoas, quase metade da sua população total, não têm
acesso a saneamento básico, e cerca de 1,1 bilhão de pessoas não tem acesso à água potável, o
que provoca a morte de mais de 2 milhões de crianças todo ano 1 . Ademais, a produção de
alimentos é capaz de nutrir mais de 12 bilhões de pessoas, entretanto, quase 850 milhões de
pessoas passam fome no mundo, e mais de 1 bilhão estão num limiar, comendo hoje, passando
fome no dia seguinte, segundo dados da FAO2. Em 1990, 2,718 bilhões de pessoas viviam com
menos de 2 dólares por dia; em 1998 esse número aumentou para 2,801 bilhões3. Atualmente
mais de 1 bilhão de pessoas vivem em favelas, e a projeção é que em três décadas esse número
dobre (cf. o relatório ONU-Habitat 2006/2007). Somente no Brasil, mais de 15 milhões de
pessoas são analfabetas, de acordo com relatório do IBGE de 2006 4 . Segundo este mesmo
relatório, em 1995 6,1% da PEA (População Economicamente Ativa) se encontrava
desempregada, ao passo que em 2005 este percentual se elevou a 9,3%, enquanto no mesmo
período houve uma queda no rendimento dos trabalhadores de 12,7%, e um aumento da jornada
de trabalho de 10%. Um recente relatório que causou grande polêmica em todo o mundo, feito
pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática 5 , o qual reúne centenas de
especialistas de vários países, alerta que até 2100 a temperatura global se elevará em média de
1,1o C a 6,4o C, o que implicará num enorme aumento das catástrofes climáticas, de furações,
enchentes, ondas de calor e de frio, falta de água, perda de safras, etc. Com isso, é apresentada a
previsão de que até 2050 tais mazelas produzirão mais de 1 bilhão de refugiados no mundo, e até
2080, 3,2 bilhões de pessoas padecerão com a escassez de água potável. Em um também recente
relatório da OIT, diz-se que existem cerca de 2,2 milhões de acidentes e doenças do trabalho ao
ano; além disso, segundo prognóstico feito pela OMS, o número de mortes por doenças
provocadas pelo stress no trabalho vai duplicar até 2020 é passará a ser “a maior causa mundial
de morte natural”; tudo isso sem falar na concentração de renda, na chamada precarização do
trabalho, na dominação cultural, no totalitarismo dos grandes meios de comunicação, na

1
Cf. Relatório de Desenvolvimento Humano, 2006, em www.pnud.org.br/arquivos/rdh/rdh2006/rdh2006.
2
Cf. Relatório sobre Insegurança Alimentar no Mundo, de 2006, no site http://www.fao.org/sof/sofi/.
3
Cf. Global economic prospects and the developing countries 2000, relatório do Banco Mundial (cf. Stiglitz, J. A globalização e
seus malefícios. São Paulo: Futura, 2002).
4
Cf; www.ibge.gov.br/home/estatistica/população/condição de vida.

5
mutilação espiritual generalizada, etc. Incontáveis são os analfabetos e analfabetos funcionais, os
sem-teto, os que morrem anualmente de doenças facilmente tratáveis, as vítimas das balas
perdidas, das carnificinas policiais, os que sem saber exatamente o motivo perdem suas vidas em
guerras declaradas e não-declaradas, os literalmente escravizados. Esta “coleção” seria, pois,
infindável.

Em um contexto em que a voracidade do capital parece sem limites, em que a busca


encarniçada por lucros, sobretudo advindos de especulações e maquinações financeiras, sem
correspondência produtiva real, é padrão de conduta indiscutível e inexorável, por parte dos que
“estão por cima”; em um contexto em que os problemas sociais ganham estatuto de leis da
natureza, e “o crime acontece como a chuva que cai”; em “tempos negros” nos quais sobram
injustiça e sofrimento e falta a revolta; nesse contexto, os inumeráveis motivos para a crítica
teórica e prática das sociedades capitalistas não desvaneceram; ao contrário, os múltiplos
aspectos da barbárie desse modo de produção tornam sua eliminação tão necessária quanto
urgente, e a compreensão profunda sobre o seu funcionamento é um momento desse hercúleo - e
talvez vão - esforço. Não obstante, os empreendimentos teóricos críticos se encontram em baixa,
seja devido ao processo de embotamento espiritual que a todos grassa - indústria cultural,
degradação dos sistemas de ensino, etc. -, seja devido à falta de condições objetivas para a
dedicação aos estudos e à elaboração teórica –exploração desmedida do trabalho, falta de verba,
excesso de tarefas não relacionadas à pesquisa, etc. -, seja ainda devido à impossibilidade de se
construir coletivamente tais empreendimentos e divulgá-los; entre diversos outros motivos.

Da parte dos apologistas predomina cinicamente o silêncio frente àquelas mazelas, ou a


dissimulação. Da parte dos que se pretendem críticos, muitas vezes vê-se o estarrecimento, a
confusão, o desespero, o desânimo, a falta de rigor. Um quadro desolador, à altura da desgraça
vigente para qual debilmente chamei a atenção há pouco. Entretanto, poder-se-ia indagar: como
entender a discrepância entre a produção e o consumo, a coexistência de fome e das necessidades
mais elementares com a abundância, com a disponibilidade de meios para extirpá-las? Como
entender o tão místico, envolvente e frenético processo de valorização financeira, e a
preponderância da esfera financeira frente à produtiva? Como entender a conversão do
conhecimento científico em mercadoria tão importante, e seu “trancamento” em patentes? Como
entender o desenfreado e irracional processo de degradação ambiental resultante das relações
predatórias que nas presentes formações sociais os homens estabelecem com o meio? Como

5
Cf. www.ipcc.ch.
6
entender a coexistência de processos de “super-exploração” do trabalho e de alijamento de
enormes contingentes populacionais dos processos produtivos, que faz com que essa massa
“estruturalmente desempregada” tenha negada as condições de sobrevivência? Como encarar
questões como essas que inspiram a redação de tantos livros e artigos, sob as mais diversas
matrizes teóricas?

De modo extremamente precário, poder-se-ia dizer, em relação à primeira pergunta, que

Nunca [se deve – G.M.] esquecer que o objetivo direto da produção capitalista não é o
valor de uso, mas o valor de troca e em especial [o – G.M.] incremento da mais-valia. Este é o
motivo que impulsiona a produção capitalista, e é um primor de concepção a que, para
escamotear as contradições da produção capitalista, omite-lhe a base e faz dela uma produção
dirigida para o consumo imediato dos produtores6.
Em um contexto em que a valorização fictícia se sobrepõe à não-fictícia, em que a
especulação corre desenfreada, e numa sociedade na qual a regulação da produção se dá por trás
das costas dos produtores, ou na qual “a racionalidade social só se faz valer sempre post festum,
podem e têm de ocorrer constantemente grandes perturbações”7, e grandes discrepâncias entre o
que é produzido e as necessidades sociais solváveis, já que no capitalismo as necessidades só se
efetivam socialmente quando mediadas por dinheiro8. Com isso, talvez seja possível se começar
a entender o descalabro de uma situação em que as coisas não são feitas simplesmente para
satisfazerem necessidades humanas originárias do estômago ou da fantasia, mas para ensejarem a
valorização do capital, de tal forma que a fome não é socialmente válida sem o dinheiro para a
feira, e se morre de fome enquanto os alimentos apodrecem nos estoques; a carência por moradia
que não perfaz uma “demanda efetiva”, como já falava Marx nos Manuscritos de 18449, ou seja,
que não corresponde às condições monetárias para a aquisição de uma casa, significa para os
tantos sem-teto dormir ao relento sujeitos a todo tipo de violência e sofrimento, provavelmente
próximos a ‘empreendimentos habitacionais” de caráter puramente especulativos. Com isso,
dizia, talvez se possa começar a entender o processo de escravização dos homens pelas coisas
que ele mesmo criou; a reificação humana e a concomitante subjetivação dos produtos do
trabalho humano.

6
Marx, K. Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980,
p.931.
7
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Victor Civita: Livro II, 1984, p.233
8
“O dinheiro é o alcoviteiro entre a necessidade e o objeto, entre a vida do homem e os meios de subsistência” (Marx, K.
Grundrisse: foundations of the critique of political economy. London; New York Penguin Books associada à New Left Review,
1993, p. 230).
9
Cf. Marx, K. Manuscritos Econômico-Filosóficos e outros textos escolhidos. Lisboa: Edições 70, 1993, p. 233.
7
Já sobre a segunda pergunta, da mesma maneira apressada e incompleta poder-se-ia
argumentar que, em primeiro lugar, o dinheiro “pode ser vendido como fonte de lucro. Com o
dinheiro etc. outorgo a outra pessoa o poder de se apropriar de mais-valia. Justifica-se portanto
que eu receba parte desse valor excedente”10. Desse modo, é inerente ao movimento fetichista do
capital o desenvolvimento da esfera financeira, mesmo porque “o fetiche mais completo é o
capital produtor de juros. Nele temos o ponto de partida original do capital – o dinheiro – e a
fórmula D-M-D’ reduzida aos dois extremos D-D’. Dinheiro que gera mais dinheiro. É a fórmula
primitiva e geral do capital, contraída numa súmula absurda”11. Aqui “permanece apenas essa
função [de gerar dinheiro], sem a mediação do processo de produção e do processo de
circulação”12.
Nada a se surpreender, portanto, com a pululância das miríades de papéis que rendem
juros, e seu descompasso em relação ao setor produtivo, com o qual em tese teria profunda
imbricação. Novamente nas palavras de Marx, “A maior parte do capital bancário é, portanto,
puramente fictícia e consiste em títulos de dívidas (letras de câmbio), títulos de dívida pública
(que representam capital passado) e ações (direitos sobre rendimento futuro)”13; “Todos esses
papéis representam de fato apenas direitos acumulados, títulos jurídicos sobre produção futura,
cujo valor monetário ou valor-capital ou não representa capital algum, como no caso da dívida
pública, ou é regulado independentemente do valor do capital real que representam”14.
Apesar de toda a mistificação e o fetichismo efetivos que isso implica, não representa, por
conseguinte, nenhum descalabro teórico a autonomização da esfera financeira e a multiplicação
do capital fictício, e tampouco sua predominância, sobretudo em um momento histórico que
sucede uma forte queda das taxas de lucro15.

Sobre o atual papel da ciência, é possível afirmar de maneira rudimentar que o capital
possui necessariamente um impulso totalizante e totalitário, visando - de maneira cega,
automática e contraditória -, subordinar a si todas as esferas da vida social de maneira sempre
mais plena. No bojo de seu desenvolvimento histórico, e por conseqüência, do processo de
produção de mais-valia relativa, mormente com o advento da grande indústria, o capital logra

10
Idem, Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980,
p.1496.
11
Idem, ibidem, p.1495.
12
Idem, ibidem, p.1496.
13
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro III, tomo IV. 1986,
p.13.
14
Idem, ibidem, p.13.

8
subordinar a si a ciência, forçando-a a servi-lo16. Melhor dizendo, ele “... conjura todas as forças
da ciência e da natureza assim como a combinação social e do intercâmbio social, para tornar a
criação da riqueza relativamente independente do trabalho empregado nela”17, e a ciência se
torna “força produtiva direta”18. Assim, “A invenção torna-se então um negócio, e a aplicação
da ciência na própria produção direta torna-se uma perspectiva que a determina e solicita”19.
Desse modo, dada a premência que adquire a ciência no processo produtivo, o “cercamento” do
conhecimento científico através de patentes – e a famigerada “mercantilização do conhecimento”
- é uma saída compreensível.

No que tange à quarta indagação, a respeito da degradação ambiental, e já adentrando de


certa forma a pergunta subseqüente, uma argumentação cabível, para se começar a tratar do tema,
poderia ser algo como segue:
Tanto na agricultura quanto na manufatura, a transformação capitalista do processo de
produção aparece, ao mesmo tempo, como martirológio dos produtores, o meio de trabalho como
um meio de subjugação, exploração e pauperização do trabalhador, a combinação social dos
processos de trabalho como opressão organizada de sua vitalidade, liberdade e autonomia
individuais. A dispersão dos trabalhadores rurais em áreas cada vez maiores quebra, ao mesmo
tempo, sua capacidade de resistência, enquanto a concentração aumenta a dos trabalhadores
urbanos. Assim como na indústria citadina, na agricultura moderna o aumento da força produtiva
e a maior mobilização do trabalho são conseguidos mediante a devastação e o empestamento da
própria força de trabalho. E cada progresso da agricultura capitalista não é só um progresso na
arte de saquear o trabalhador, mas ao mesmo tempo na arte de saquear o solo, pois cada progresso
no aumento da fertilidade por certo período é simultaneamente um progresso na ruína das fontes
permanentes dessa fertilidade. Quanto mais um país, como, por exemplo, os Estados Unidos da
América do Norte, se inicia com a grande indústria como fundamento de seu desenvolvimento,
tanto mais rápido esse processo de destruição. Por isso, a produção capitalista só desenvolve a
técnica e a combinação do processo de produção social ao minar simultaneamente as fontes de
toda a riqueza: a terra e o trabalhador20.
Por fim, a respeito da última pergunta, valeria a pena dizer que “... em seu impulso cego,
desmedido, em sua voracidade por mais-trabalho, o capital atropela não apenas os limites
máximos morais, mas também os puramente físicos da jornada de trabalho” 21 , promovendo

15
“As taxas de lucro, que atingem mais de 20% no início dos anos 1960, caem para cerca de 12% em 1982 ou 1983” (Duménil,
G., Lévy, D. Superação da crise, ameaças de crises e novo capitalismo. In: Uma nova fase do capitalismo?. São Paulo: Xamã,
2003, p.18-19).
16
Marx, K. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.271.
17
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973, vol.II,
p.229.
18
Idem, ibidem, p. 230.
19
Idem, ibidem, p.226-7, tradução modificada, grifos meus.
20
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988,
p.100.
21
Idem, ibidem, p.202.
9
portanto um “prolongamento antinatural da jornada de trabalho” 22 , aviltando de maneira
animalesca as condições de trabalho e de vida dos trabalhadores23.
As condições técnicas para tanto estão postas há tempos, sobretudo com o surgimento das
máquinas: “Se a maquinaria é o meio mais poderoso de elevar a produtividade do trabalho, isto é,
de encurtar o tempo de trabalho necessário à produção de uma mercadoria, ela se torna, como
portadora do capital, inicialmente nas indústrias de que se apodera de imediato, o mais poderoso
meio de prolongar a jornada de trabalho para além de qualquer limite natural” 24 . Se
historicamente a luta entre capital e trabalho implicou na regularização da jornada de trabalho e
no surgimento de diversas intervenções estatais e políticas que trouxeram de um modo ou de
outro algumas melhorias materiais para certas categorias de trabalhadores, nas últimas décadas,
com o processo de desmantelamento do chamado “Estado de Bem-Estar Social” no centro do
capitalismo, e do “Estado Desenvolvimentista”, na periferia, faz-se valer novamente, e de
maneira generalizada, o referido impulso desmedido do capital e seu descaso para com sua fonte
vital.
Esse processo de aumento da exploração do trabalho, que muitas vezes é denominado de
“precarização do trabalho”, tem as mesmas raízes que o processo de redução relativa e absoluta
do capital variável frente ao constante. Em seu movimento descomedido “... a acumulação
capitalista produz constantemente — e isso em proporção à sua energia e às suas dimensões —
uma população trabalhadora adicional relativamente supérflua ou subsidiária, ao menos no
concernente às necessidades de aproveitamento por parte do capital”25. Essa população relativa,
o exército industrial de reserva, que “pertence ao capital de maneira tão absoluta”26, rebaixa o
valor da força de trabalho e proporciona às “mutáveis necessidades de valorização o material
humano sempre pronto para ser explorado, independente dos limites do verdadeiro acréscimo
populacional”27.
Apesar da possibilidade dos trabalhadores “desempregados” encontrarem ocupações em
outras indústrias ou setores da economia (geralmente em condições terríveis e instáveis), “Nada
se opõe a que parte do capital-dinheiro fique ociosa e sem emprego, ao mesmo tempo em que
baixam os preços dos meios de subsistência em virtude de superprodução relativa, e os

22
Idem, ibidem, p.203.
23
Cf., por exemplo, os capítulos VIII, XIII e XXIII do Livro Primeiro de O Capital, respectivamente sobre a “Jornada de
Trabalho”, sobre a “Maquinaria e Grande Indústria” e sobre “A lei geral da acumulação capitalista”, em Marx, K. O Capital:
crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I e II, 1988.
24
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural; Livro I, Tomo II, p.26.
25
Idem, ibidem, p.190.
26
Idem, ibidem, p.191.
27
Idem, ibidem, p.200.
10
trabalhadores desempregados pelas máquinas são dizimados pela fome”28. Em suma, “Decorre
da natureza do capital sobrecarregar de trabalho parte da população trabalhadora, e pauperizar o
resto”29.
Disso tudo, poder-se-ia arrebatar asseverando que
dentro do sistema capitalista, todos os métodos para a elevação da força produtiva social
do trabalho se aplicam à custa do trabalhador individual; todos os meios para o desenvolvimento
da produção se convertem em meios de dominação e exploração do produtor, mutilam o
trabalhador, transformando-o num ser parcial, degradam-no, tornando-o um apêndice da máquina;
aniquilam, com o tormento de seu trabalho, seu conteúdo, alienam-lhe as potências espirituais do
processo de trabalho na mesma medida em que a ciência é incorporada a este último como
potência autônoma: desfiguram as condições dentro das quais ele trabalha, submetem-no, durante
o processo de trabalho, ao mais mesquinho e odiento despotismo, transformam seu tempo de vida
em tempo de trabalho, jogam sua mulher e seu filho sob a roda de Juggernaut do capital. Mas
todos os métodos de produção da mais-valia são, simultaneamente, métodos da acumulação, e
toda expansão da acumulação torna-se, reciprocamente, meio de desenvolver aqueles métodos.
Segue portanto que, à medida que se acumula capital, a situação do trabalhador, qualquer que seja
seu pagamento, alto ou baixo, tem de piorar. Finalmente, a lei que mantém a superpopulação
relativa ou exército industrial de reserva sempre em equilíbrio com o volume e a energia da
acumulação prende o trabalhador mais firmemente ao capital do que as correntes de Hefaísto
agrilhoaram Prometeu ao rochedo. Ela ocasiona uma acumulação de miséria correspondente à
acumulação de capital. A acumulação da riqueza num pólo é, portanto, ao mesmo tempo, a
acumulação de miséria, tormento de trabalho, escravidão, ignorância, brutalização e degradação
moral no pólo oposto, isto é, do lado da classe que produz seu próprio produto como capital30.
Desse modo, talvez a obra marxiana forneça elementos e chaves para a compreensão de
importantes processos econômicos, políticos, sociais e culturais hodiernos, e dentro dela a teoria
do valor cumpre papel central, pois visa apreender o cerne do processo de valorização do valor e
da subjetivação do capital, inegavelmente “a finalidade determinante, predominante e
avassaladora do capitalista, impulso e conteúdo absoluto de suas ações” 31 , e “o interesse
impulsor e o resultado final do processo de produção capitalista”32.

Do exposto, espero não dar origem a dois equívocos. O primeiro seria fazer acreditar que
minha pretensão com este texto é dar conta de todas as questões aventadas, ou ainda de realizar
um estudo abrangente da obra marxiana; sobre os objetos desta dissertação falarei logo na
seqüência. O segundo consistiria em entender que pretendo argumentar que nada mudou no
capitalismo quando se compara o momento presente e o momento em que Marx produziu suas
principais obras, de tal modo que sua análise serviria perfeitamente para hoje. Muito pelo

28
Idem, Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, p.994.
29
Idem, ibidem, p.1352.
30
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988,
p.200-201.
31
Idem, Capítulo Sexto Inédito de O Capital: resultados do processo de produção imediata. Porto: Publicações Escorpião, 1978,
p.21.
32
Idem, ibidem, p.8.
11
contrário. Não creio nem mesmo que algum dia sua análise tenha cumprido esse papel - o que é
óbvio, se se considera seu caráter inconcluso. Como pretendo desenvolver minhas reflexões da
perspectiva desenvolvida por Marx, cuja teoria, por seus fundamentos, não se propunha e nem
poderia ser supra-histórica, mas se encontra necessária e profundamente ancorada na história e
em processo de constante atualização, penso ser fundamental a busca pela apreensão critica
daquilo que o capital introduz como novidade, em seu processo (contraditório) de auto-
constituição. Não obstante, não é possível entender tais inovações se não se leva em conta as
configurações pretéritas do sistema, por um lado, e por outro, as diversas “permanências”, as
diversas determinações que se mantém no decorrer da histórica do capitalismo, manifestando-se
com maior ou menor intensidade em cada momento. Além disso, é imprescindível se levar em
conta os desenvolvimentos teóricos críticos relevantes já feitos, pois obviamente não se trata de
começar do zero ou de se “inventar a roda”. Assim não só se melhora a posição para o
cumprimento das tarefas que a crítica social impõe, mas também se evita cair no erro que por
vezes caem os autores que decidi aqui estudar, os quais “absolutizam” o tempo presente, e
entendem que vivem em uma época radicalmente sui generis, que precisa ser investigada sobre
bases totalmente novas, ou pelo menos analisadas através de conceitos totalmente originais.

No presente texto, optei por centrar minha atenção na tese da pós-grande indústria e no
debate acerca do trabalho imaterial. No primeiro caso, fundamentalmente por sua consistência
lógica, e por ter sido formulada por um brasileiro, encontrando uma considerável aceitação de
marxistas conterrâneos; e, no segundo, por sua repercussão no âmbito do marxismo de diversos
países. Vale dizer, antes de tudo, que os conceitos de trabalho imaterial e de pós-grande indústria
constituem respostas teóricas a recentes mudanças do modo de produção capitalista,
concernentes sobretudo ao enorme desenvolvimento das forças produtivas durante o último
quartel do século XX, que teria conduzido a uma progressiva eliminação do trabalho braçal ou
do trabalho diretamente empregado no processo produtivo, e conferido centralidade à ciência ou
ao conhecimento. Nesse contexto, teria ocorrido uma grande expansão do setor de serviços e
uma mudança no caráter do trabalho, e na própria fonte do valor.

Sobre a discussão acerca do trabalho imaterial, concentrar-me-ei principalmente em dois


autores: Antonio Negri e André Gorz. O primeiro faz parte de uma importante tradição do
marxismo italiano, da qual cabe também destacar Mario Tronti, Sergio Bologna, Paolo Virno,

12
entre muitos outros, tendo inclusive integrado o movimento operaísta, um movimento socialista
italiano bastante atuante nas décadas de 1960 e 1970. Segundo o próprio Negri, o conceito de
trabalho imaterial tem suas origens nos desenvolvimentos teóricos dos operaístas, que deram
centralidade ao conceito marxiano de intelecto geral ou intelecto social 33 . Entretanto, apesar
dessa origem italiana, o debate sobre o trabalho imaterial não ficou circunscrito a esse país, e
alguns autores italianos, com destaque para o próprio Negri, introduziram-no na França, no bojo
das discussões sobre a crise do fordismo e as transformações do trabalho34. Além disso, o livro
Império, escrito por Negri em parceria com o norte-americano Michael Hardt, fez um grande
sucesso em diversos países, em especial nos EUA e na Inglaterra, principalmente através da
Revista New Left Review (que inclusive publicou em dezembro de 2003 o livro Debating Empire,
no qual diversos autores analisam as proposições de Hardt e Negri). Fora isso, aqui no Brasil a
publicação do Império também causou um certo rebuliço entre os marxistas – e muitos não-
marxistas -, e as idéias de Antonio Negri, que foi colaborador no caderno Mais! do jornal Folha
de São Paulo, foram bastante discutidas.

André Gorz, por seu turno, é um austríaco - que ainda na juventude passa a viver na
França - autor de diversos livros que também tiveram uma considerável repercussão nesse país, e
em outros como a Alemanha e o Brasil. Dentre suas obras, a de maior sucesso foi Adeus ao
proletariado, de 1980, mas sobre o tema em questão os seus livros mais importantes são mais
recentes, merecendo destaque o Misérias do Passado, Riqueza do Possível, de 1997, e O
Imaterial – Conhecimento, valor e capital, escrito em 2003.

Tanto Negri quanto Gorz (que sem dúvida fora influenciado pelo primeiro), grosso modo,
conceituam o trabalho imaterial simplesmente como aquele que não resulta em algo material e
durável, sendo ao contrário caracterizado pelo manuseio de símbolos e informações. No seu livro
Trabalho Imaterial: formas de vida e produção de subjetividade, Negri e Lazzarato relacionam
esse conceito às mudanças no processo comunicativo e no processo de constituição da
subjetividade, à centralidade assumida pela afetividade e criatividade do trabalhador no processo
produtivo, ao novo caráter cooperativo da produção, tudo isso ligado ao processo de
cientifização e intelectualização dessa produção.

33
Negri, A. 5 lições sobre Império. Rio de Janeiro, DP&A, 2003, p.160.
34
Para uma apresentação mais detalhada sobre o movimento operaísta e sobre sua importância na trajetória de Negri, vide a
Introdução de Giuseppe Cocco ao livro Trabalho Imaterial – Formas de vida e produção de subjetividade (Negri, A., Lazzarato,
M. Trabalho imaterial e subjetividade. In: Trabalho imaterial: formas de vida e produção de subjetividade. Rio de Janeiro:
DP&A, 2001).
13
Já em Império, descobre-se que, com o desenvolvimento recente do capitalismo,
“Inteligência e afeto (...) se tornam os poderes produtivos básicos”35, e segundo Hardt e Negri,
tal processo condiz com a noção de intelecto geral, apresentada por Marx nos Grundrisse, que de
acordo com a definição desses autores, “... é uma inteligência coletiva, social, criada por
conhecimentos, técnicas e know-how acumulados”36. Da preponderância do intelecto geral, os
autores extraem a urgência para se desenvolver uma “nova teoria do valor”37, propugnando que
“O excesso de valor é hoje determinado nos afetos, nos corpos cruzados de conhecimento, na
inteligência da mente e no puro poder de agir”38, e que o “... trabalho produtivo não é mais ‘o
que diretamente produz capital’, mas o que reproduz a sociedade”39.

Desse modo, o processo de trabalho sofre alterações fundamentais, tornando-se um


processo de “reprodução da subjetividade”40 e os trabalhadores tornam-se independentes “em
relação ao tempo de trabalho imposto pelo capital”, e autônomos “com relação à exploração”41.
Disso decorre que a subsunção do trabalho ao capital passa a ser externa ao processo produtivo,
sendo mantida pelo emprego de poder, ou do biopoder, “a forma de poder que regula a vida
social por dentro, acompanhando-a, interpretando-a, absorvendo-a e a rearticulando” 42 , cuja
natureza é política, ou biopolítica.

Outra importante conclusão a que chegam Negri e Hardt, relacionada aos conceitos de
biopoder e biopolítica, é que está em curso um processo de dissolução dos Estados nacionais e de
constituição de uma nova ordem mundial, na qual o imperialismo seria substituído pelo Império,
o qual não possui centro nem fronteiras, e tampouco limites para o exercício de seu poder,
penetrando nas “profundezas do mundo social”43 e em cada aspecto da vida social44.

Já André Gorz, aproximando-se em diversos pontos de Negri, constata que na sociedade


“pós-industrial”, o capital progressivamente pode prescindir do trabalho para se valorizar. Isso se
deve ao fato do trabalho ter se tornado predominantemente imaterial, intelectual, cognoscitivo,
“complexo”, o que impossibilitaria a sua redução a trabalho abstrato. Em função dessas

35
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p. 387.
36
Idem, ibidem, p. 386.
37
Idem, ibidem, p. 48.
38
Idem, ibidem, p. 387.
39
Negri, A. Twenty Theses on Marx – Interpretation of Class-Situation Today. In: Marxism beyond Marxism. Ed. S. Makdisi, C.
Casarino e R. E. Karl. Londres: Routledge, 1996, p. 157.
40
Negri, A., Lazzarato, M. Trabalho imaterial e subjetividade. In: Trabalho imaterial: formas de vida e produção de
subjetividade. Rio de Janeiro: DP&A, 2001, p. 30.
41
Idem, ibidem, p. 30.
42
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p. 43.
43
Idem, ibidem, p. 15.
44
Idem, ibidem, p. 14-15.
14
transformações, “... o ‘valor’ designa hoje o valor de troca de uma mercadoria contra outras
mercadorias”45, e passa a ter a inteligência e a imaginação como sua “fonte”46. Devido a essa
mudança no próprio valor, o capitalismo teria perdido a sua principal lei reguladora, e se tornado
desregrado.

A tese da pós-grande indústria, por sua vez, será estudada principalmente com base em
textos de seu formulador, Ruy Fausto47, e nos trabalhos dos economistas Leda Maria Paulani e
Eleutério Prado, o qual nos últimos anos tem se esforçado para desenvolvê-la, inclusive em
contraposição às proposições de Gorz e Negri. Essa tese foi construída com base em algumas
passagens dos Grundrisse 48 , onde Marx, segundo Ruy Fausto e Eleutério Prado, estaria
descrevendo uma realidade histórica que só viria a se efetivar mais de cem anos depois49, e que
corresponderia ao advento de uma terceira fase do modo de produção capitalista, sua fase
terminal.

Como defende Ruy Fausto, a pós-grande indústria é marcada pela segunda negação do
trabalho pelo capital e pela segunda posição material do capital no processo produtivo 50 . A
primeira negação do trabalho se dá com o advento da grande indústria, quando os trabalhadores
perdem qualquer controle sobre a produção e são reduzidos à condição de apêndices do sistema
de máquinas. A segunda negação (negação da negação) decorreria da substituição dos
trabalhadores por máquinas, e na conseqüente assunção da tarefa de “guardião e regulador”51, a
qual de certa forma reporia o controle dos trabalhadores sobre o processo produtivo (que existia
na manufatura), e junto com isso, colocaria em primeiro plano a sua subjetividade, ou o
“empenho da subjetividade”52. Sobre a “posição material”, na grande-indústria, o capital ganha
um estofo objetivo adequado a sua existência, na medida em que é posto materialmente no
sistema de máquinas; ao passo que na pós-grande indústria, o que ocorre é a posição da ciência

45
Gorz, A. O imaterial: conhecimento, valor e capital. São Paulo: Annablume, 2005, p. 10.
46
Idem, ibidem, p. 15.
47
Que a apresentou pela primeira vez na sua tese de livre docência defendida na Universidade de São Paulo em 1989, e a
publicou na revista Lua Nova (no 19, em novembro de 1989), sob o título “Pós-grande indústria nos Grundrisse (e para além
deles)”, e mais recentemente, no Terceiro Tomo da séria Marx: Lógica e Política, de 2002.
48
Ver, basicamente, Marx, K. Grundrisse: foundations of the critique of political economy. London; New York Penguin Books
associada à New Left Review, 1993, p. 702-712, que correspondem ao final do sexto caderno e início do sétimo caderno dos
Grundrisse, escritos entre fevereiro e junho de 1858.
49
Prado, E.F.S. Crítica à economia política do imaterial. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande indústria. São Paulo:
Xamã, 2005, p.82.
50
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo:
Editora 34, 2002, p. 129.
51
Marx, K. Grundrisse: foundations of the critique of political economy. London; New York Penguin Books associada à New
Left Review, 1993, p. 705.
52
Prado, E.F.S. Crítica à economia política do imaterial. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande indústria. São Paulo:
Xamã, 2005, p. 87.
15
“na matéria”, no sistema de máquinas, de modo que ela “se objetiva enquanto ciência”53, e assim,
“A forma material [a ciência] passa a servir a si própria em vez de servir à forma formal [o
capital]” 54 . Logo, nesse processo, o capital não mais teria uma base adequada para a sua
reprodução.

Dessa perspectiva teórica, novamente o conceito de intelecto geral ou intelecto social é


fundamental, pois ele corresponde à “situação geral da ciência” 55 , ao nível de conhecimento
científico de uma dada sociedade, através do qual ela se apropria das “forças da natureza” e
desenvolve as forças produtivas.

Segundo a tese da pós-grande indústria, o revolucionamento das forças produtivas estaria


promovendo o alijamento do trabalho diretamente empregado na produção e uma mudança na
substância do valor, que por sua vez estaria deixando de ser trabalho abstrato, e se tornando o
trabalho científico, ou o trabalho “criativo, inteligente, cognoscitivo, etc.”56, algo qualitativo que
não poderia ser “abstraído” ou reduzido a uma mera determinação quantitativa, de modo que o
tempo de trabalho perderia importância em favor da qualidade desse trabalho. De acordo com
Eleutério Prado, isso implica no surgimento do “valor desmedido”57, e assim, “... as proporções
que regulam as relações sociais de produção capitalistas (...) tornam-se até certo ponto
arbitrárias”58.

Tais mudanças, como mencionei, acarretariam obstáculos à acumulação capitalista, que


deixaria de se estruturar sobre uma base material adequada, e adentraria uma fase de derrocada; e
nesse ponto, aproximam-se os teóricos do trabalho imaterial e os da pós-grande indústria, tanto
que Eleutério Prado concorda explicitamente com André Gorz quando este afirma que o
capitalismo entrou em uma nova fase, “.... o capitalismo chamado de cognitivo...”, o qual “... é
já a crise do capitalismo”59, “pois a economia baseada no trabalho conceitual e no conhecimento
científico e tecnológico avançado é incongruente com a relação de capital”60.

53
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo:
Editora 34, 2002, p. 134.
54
Idem, ibidem, p. 135.
55
Marx, K. Grundrisse: foundations of the critique of political economy. London; New York Penguin Books associada à New
Left Review, 1993, p.709.
56
Prado, E.F.S. Crítica à economia política do imaterial. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande indústria. São Paulo:
Xamã, 2005, p.89.
57
Idem, ibidem, p.88.
58
Idem, ibidem, p.88.
59
Gorz citado por Prado, E.F.S. Crítica à economia política do imaterial. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande indústria.
São Paulo: Xamã, 2005, p.94.
60
Idem, ibidem, p.94.
16
Da perspectiva desses teóricos, a importância assumida pelo chamado setor de serviços
também é decisiva. Como define Marx, “Serviço não é, em geral, senão uma expressão para o
valor de uso particular do trabalho, na medida em que este não é útil como coisa, mas como
atividade” 61 . Entretanto, nas palavras de Eleutério Prado, nos serviços existe uma “...
inadequação da matéria do valor de uso à forma mercadoria, já que ela é atividade como tal e não
existe, pois, independentemente da compra e da venda, tal como ocorre no outro caso”62. Além
disso, os serviços são associados a um trabalho “espiritual, intelectual, moral ou artístico”63, cujo
produto não pode ser apreendido em termos meramente quantitativos.

Nota-se que tanto a conceituação de trabalho imaterial por Gorz e Negri quanto a tese da
pós-grande indústria buscam apreender de maneira abrangente diversos aspectos fundamentais
da contemporaneidade, e para tanto se ancoram em análises do desenvolvimento histórico do
capital. Elas serão alvo de investigação por meio de análise dos autores contemporâneos e da
obra de Marx, e irei me concentrar nos conceitos de subsunção formal e real do trabalho ao
capital, bem como os de cooperação, manufatura e grande indústria.

Como já foi visto, o conceito de trabalho imaterial refere-se ao resultado concreto da


atividade laboral, de modo que tanto Negri quanto Gorz fundam suas análises do capitalismo no
caráter concreto do trabalho, perdendo de vista o seu conteúdo social. Isso explica a própria
análise história do capitalismo feita por Negri no Império, a qual é dividida em três períodos ou
momentos, “cada qual definido pelo setor dominante da economia”64, primário, secundário e
terciário, respectivamente.

Nas palavras de Marx, “A mania de definir o trabalho produtivo e o improdutivo por seu
conteúdo material origina-se (...) da concepção fetichista, peculiar ao modo de produção
capitalista, e derivada de sua essência, que considera as determinações formais econômicas, tais
como ser mercadoria, ser trabalho produtivo, etc., como qualidade inerente em si mesma aos
depositários materiais dessas determinações formais ou categorias” 65 , o que indica que a

61
Marx, K. Capítulo Sexto Inédito de O Capital: resultados do processo de produção imediata. Porto: Publicações Escorpião,
1978, p.78.
62
Prado, E.F.S. Trabalho imaterial e fetichismo. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande indústria. São Paulo: Xamã,
2005, p.51.
63
Idem, ibidem, p.51.
64
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p. 300.
65
Marx, K. Capítulo Sexto Inédito de O Capital: resultados do processo de produção imediata. Porto: Publicações Escorpião,
1978, p. 78.
17
centralidade atribuída à noção de trabalho imaterial é problemática para uma perspectiva
marxista, como constata Eleutério Prado66.

É justamente essa concepção fetichista que possibilita tanto Negri quanto Gorz
propugnarem que o capital passou a, ou está em vias de, prescindir do trabalho para se valorizar,
ignorando que a criação de valor não se deve à força de trabalho enquanto tal, mas enquanto
forma do capital (capital variável) que assume no capitalismo. Graças a esse equívoco, Negri
pode tomar como anacrônico o conceito de capital variável, posto que o processo de valorização
não mais estaria subordinado ao capital67; e Gorz pode identificar tanto o valor com o valor de
uso, e tomar a teoria do valor como uma teoria de preços relativos, caindo na chamada ilusão
convencionalista68, quanto capital variável e capital constante, como se ambos gerassem mais-
valia, e pode empregar termos como “capital-humano”, e “capital-conhecimento”69 - diga-se de
passagem, usados nos manuais de administração de maneira freqüente e não fortuita, dado seu
caráter ideológico -, de modo que o próprio homem é tido como capital, ou seja, a relação social
que é o capital é identificada com os próprios conteúdos materiais que lhe são suportes, o que
parece uma clara ilusão fetichista. Vale dizer ainda, que Gorz associa o conceito de intelecto
geral à noção de capital-humano, concluindo que “... a idéia de ‘capital humano’ encontra-se já,
pois, nos Manuscritos de 1857-1858”70. Por fim, para Gorz, o trabalho complexo não “... vale
apenas como trabalho simples potenciado ou, antes multiplicado” 71 , mas tanto o trabalho
complexo como o trabalho simples são categorias históricas, tendo este último prevalecido desde
os primórdios do capitalismo até a “pós-modernidade”72; e aquele domina a presente fase do
desenvolvimento capitalista.

No que se refere à tese da pós-grande indústria, acredito que ela se estrutura sobre uma
interpretação problemática de trechos dos Grundrisse, nos quais entendo que Marx opõe grande-
indústria a uma sociedade emancipada, e de modo algum tece elucubrações acerca de uma nova
fase do modo de produção capitalista. Assim, à guisa de ilustração, vejamos a interpretação de

66
Cf. Prado, E.F.S. Trabalho imaterial e fetichismo. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande indústria. São Paulo: Xamã,
2005.
67
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p. 315.
68
Cf. o texto Abstração real e contradição: sobre o trabalho abstrato e o valor, em Fausto, R. Marx: Lógica e Política –
Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo I. São Paulo: Brasiliense, 1987.
69
Gorz, A. Metamorfoses do trabalho: Crítica da razão econômica. São Paulo:Annablume, 2003, p. 11.
70
Idem, ibidem, p. 12-13.
71
Marx, K. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p. 51-52.
72
Gorz, A. Metamorfoses do trabalho: Crítica da razão econômica. São Paulo:Annablume, 2003, p. 11.
18
Ruy Fausto de um trecho dos Grundrisse, que ele considera talvez “o texto principal”73,74. Nele,
Marx afirma que a “produção que repousa sobre o valor”, a produção capitalista, pressupõe “o
quantum de trabalho utilizado como fator decisivo da produção de riqueza”, mas que o
desenvolvimento das forças produtivas cria um “descompasso” entre a “criação da riqueza
efetiva” e o quantum de trabalho utilizado nessa produção 75 . Comentando esse trecho, Ruy
Fausto explicitamente entende por “criação de riqueza efetiva”, algo como criação de valor,
valorização; ao passo que considero que riqueza efetiva se refere aos valores de uso, e que
riqueza se refere à valorização do valor, quando se trata do capitalismo; e ao “cultivo do
espírito”, quando se trata de uma sociedade emancipada76. É a partir disso que Ruy Fausto vai
desenvolver a idéia de uma mudança na substância do valor, o qual “não é mais a cristalização
de um tempo posto”, mas que “se dá no tempo”77, deixando assim de ser tempo de trabalho
abstrato objetivado no processo de produção imediata, e se tornando algo qualitativo,
relacionado à “força dos agentes que são postos em movimento durante o tempo de trabalho”,
que por sua vez dependeria do intelecto geral.

Ao contrário de Ruy Fausto, creio que nessas páginas dos Grundrisse, Marx defende que
a desproporção entre a quantidade de riqueza produzida e a quantidade do tempo de trabalho
empregado nessa produção, somada ao fato de que a base do capitalismo é a apropriação do
trabalho diretamente empregado na produção, e não a produção de riqueza efetiva (valores de
uso), acabaria por revelar a miserabilidade desse modo de produção78, o que desencadearia uma
ruptura revolucionária, que se encontra aqui apenas implícita 79 . Somente após essa ação
eminentemente política, é que o “desenvolvimento do indivíduo social” se torna a “base da
produção e da riqueza”80.

Também é o caso de dizer que tanto as proposições de Antônio Negri e de André Gorz,
quanto as de Ruy Fausto e de Eleutério Prado, parece-me fundadas sobre uma percepção
distorcida do atual processo de produção capitalista, o qual, ao mesmo tempo em que tende a
eliminar o trabalho vivo do processo produtivo, revela-se extremamente ávido por se apropriar

73
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo:
Editora 34, 2002, p. 128.
74
E que não irei transcrever aqui devido à sua grande extensão, e ao fato de que ele será analisado adiante
75
Marx, K. Grundrisse: foundations of the critique of political economy. London; New York Penguin Books associada à New
Left Review, 1993, pp. 704-705.
76
Idem, ibidem, p. 705.
77
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo:
Editora 34, 2002, p. 129.
78
Marx, K. Grundrisse: foundations of the critique of political economy. London; New York Penguin Books associada à New
Left Review, 1993, p. 705.
79
Ver Marx, K. ibidem, p. 705, 706, 708 e 709.
19
do tempo de trabalho humano, explorando as atividades laborais da população trabalhadora que
ele alicia numa intensidade e durante uma jornada (determinada formalmente ou não) cada vez
maior.

No que tange à idéia de mudança da substância de valor, também presente em todos os


autores que me propus a estudar, farei remissão ao conceito hegeliano de desmedida, o qual
revela a unidade entre o lado qualitativo e o lado quantitativo da medida, já que a desmedida
ocorre quando uma certa mudança quantitativa produz uma mudança qualitativa. No caso do
valor, que assim como a medida é uma regra81, a diminuição quantitativa do trabalho diretamente
empregado na produção conduziria a uma alteração do aspecto qualitativo do valor, o qual
deixaria de consistir no trabalho abstrato, dando lugar a um trabalho científico, intelectual, etc.
Em seguida, buscarei apresentar sucintamente o uso que o próprio Marx faz desse conceito,
sobretudo nalguns momentos d’O Capital e dos Grundrisse82, de modo a chamar a atenção para
o fato de que, nesse aspecto, os autores que se remetem ao conceito hegeliano de desmedida
estão mais próximos de Hegel do que de Marx. Segundo este autor, o capital, o valor que se
valoriza, põe-se a si mesmo como medida, uma dada magnitude de trabalho abstrato objetivado
que forçosamente se impõe como um limite a ser ultrapassado, pois, do contrário, o processo de
valorização cessaria, e assim, o próprio capital desapareceria. Desse modo, o capital “é o
impulso desmedido e sem barreiras de ultrapassar suas barreiras”83, e sua medida se fixa a partir
da desmedida. Mas existe também outra acepção do conceito de desmedida empregado por Marx,
que se refere à impossibilidade do estabelecimento de novas barreiras a serem ultrapassadas pelo
capital engendrada pela própria dinâmica da acumulação capitalista, que em função do processo
de competição - que impõe aos capitalistas o constante revolucionamento das forças produtivas e
a busca por redução de custos -, “reduz o tempo de trabalho a um mínimo, enquanto põe, por
outro lado, o tempo de trabalho como única medida e fonte de riqueza”84, o que redunda em
crises de superacumulação (as quais evidentemente só podem ser compreendidas levando-se em

80
Idem, ibidem, p. 705.
81
Hegel, G. W. F. Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio (1830). São Paulo: Loyola, 1995, p. 212.
82
Nesse esforço, irei me apoiar em alguns momentos no livro O Negativo do Capital (1998), de Jorge Grespan, no qual o autor
relaciona o conceito de desmedida presente em Marx ao conceito de crise.
83
Marx, K. Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973,
vol.I, p.277, tradução modificada com base em Grespan, J. L. O negativo do Capital. São Paulo, Hucitec, 1998, p. 136.
84
Idem, Grundrisse: foundations of the critique of political economy. London; New York Penguin Books associada à New Left
Review, 1993, p. 706.
20
conta o processo global de produção capitalista, a existência de um sistema de crédito
desenvolvido, e o próprio mercado mundial consolidado)85.

Ademais, dado que, como se viu, todos os autores que abordo nessa dissertação têm como
importante esteio as já mencionadas passagens dos Grundrisse, terei que dispensar uma grande
atenção a elas.

Evidente que, para além da análise do rigor teórico dos autores discutidos, bem como a
relação que eles estabelecem com a obra de Marx, a necessária investigação sobre a relevância
das proposições teóricas de Gorz, Negri, Prado, etc. para a compreensão do capitalismo hodierno
fica prejudicada em um trabalho fundamentalmente conceitual, carente de investigações
empíricas.

Diferentemente do procedimento adotado nesse intróito, não irei realizar uma crítica
direta dos conceitos investigados; ao contrário, separadamente, em diferentes capítulos,
apresentarei tais conceitos tal qual foram formulados pelos autores contemporâneos e por Marx,
permitindo ao leitor compará-los e analisá-los. O confronto direto se dará apenas em um
momento da análise da tese da pós-grande indústria, dada a sua densidade teórica.

No primeiro capítulo deste texto apresento o conceito de trabalho imaterial segundo Gorz
e Negri (remetendo, evidentemente, a outros autores, quando necessário), bem como diversos
outros sem os quais aquele não pode ser inteiramente apreendido, tais como o de trabalho
concreto e abstrato, trabalho produtivo e improdutivo, serviços, etc. No capítulo seguinte, será a
vez de tratar da apresentação marxiana dos mesmos conceitos.

De modo similar, no terceiro capítulo buscarei apresentar o conceito de subsunção formal


e real em Gorz e Negri, e alguns momentos de suas análises sobre o desenvolvimento histórico
do capital. Já no quarto capítulo exporei a tese da pós-grande indústria tal qual desenvolvida por
Ruy Fausto, Eleutério Prado e Leda Paulani, levando em consideração as diferenças entre as
análises dos três autores.

No quinto e último capítulo irei apresentar alguns conceitos e análises marxianas


diretamente relacionados com as discussões precedentes. Desse modo, serão apresentados de
maneira abrangente os conceitos de subsunção formal e real, os conceitos de cooperação,
manufatura e grande indústria, de exército industrial de reserva, o que trará à tona uma gama de

85
Não é o caso de mencionar aqui as demais acepções marxianas da desmedida, que serão vistas no último capítulo da
dissertação.
21
temas como o papel da ciência para o desenvolvimento capitalista, os efeitos de tal
desenvolvimento sobre o trabalhador, no que tange à sua qualificação, à sua absorção no
processo produtivo, etc. O único desvio em relação a esse procedimento será a sucinta
apresentação do conceito hegeliano de desmedida - na medida em que ele se relaciona ao
conceito de pós-grande indústria -, seguida da apresentação do conceito marxiano de desmedida.
Com isso, cabe reiterar, pretendo indicar a existência de importantes diferenças entre ambas as
concepções da desmedida e seus objetos, e pôr em relevo a extração hegeliana do conceito de
pós-grande indústria. Por fim, este conceito, tal qual exposto por Ruy Fausto, será diretamente
criticado.

É bom enfatizar que de maneira alguma busco esgotar as idéias de qualquer um dos
autores mencionados; trato apenas daquilo que considero central para o tema investigado.
Ademais, cabe alertar que chamará a atenção do leitor o fato de que os capítulos que se baseiam
na obra de Marx têm uma extensão maior que os demais; afora os motivos já apresentados, isso é
resultado do esforço de realizar a apresentação dos conceitos marxianos com certo cuidado, na
esperança de contribuir com a preparação do terreno para ulteriores atualizações da teoria
marxiana que se fazem necessárias na atualidade.

22
Primeira Parte: Sobre o conceito de trabalho imaterial.

23
Capítulo 1. O conceito de trabalho imaterial, em Gorz e Negri.

São inumeráveis os autores que decretam, a torto e a direito, a obsolescência da teoria de


Marx, a qual não teria conseguido resistir à prova da história, em suas previsões, ou que teria
sido atropelada pelas transformações pelas quais passou a sociedade capitalista. Esse diagnóstico
não é compartilhado pelos autores que abordo neste capítulo. Ao contrário, eles86 fazem parte de
um grupo de pensadores que se propõe a superar Marx, no sentido de aproveitar os aspectos
atuais e vivos da análise marxiana, e ultrapassar os aspectos envelhecidos, ou mesmo
equivocados em sua origem87,88.

O conceito de trabalho imaterial, tal como formulado por Gorz e Negri, é muito
abrangente e multifacetado, assumindo papel central no arcabouço teórico desses autores, que
procuram apreender a contemporaneidade como uma totalidade, em seus vários aspectos,
mediante um esforço de grande fôlego. Nas palavras de Negri, “... o método (variante metódica)
que utilizamos fixa-se na relação entre trabalho material e trabalho imaterial, ou melhor, no
processo de transição de um para outro”89. Já Gorz constata que “O fornecimento de serviços,
esse trabalho imaterial, torna-se a forma hegemônica do trabalho; o trabalho material é remetido
à periferia do processo de produção ou abertamente externalizado”90. Vê-se, com essa breve
consideração metodológica de Negri e com essa verificação empírica de Gorz, que o conceito de
trabalho imaterial é basilar para o pensamento desses autores, e para sua compreensão acerca da
atual fase de desenvolvimento do capitalismo. Apresentemo-lo, pois, mencionando apenas de
passagem as análises sobre o processo histórico que desembocou no advento do trabalho
imaterial91.

Abstraindo inicialmente as diferenças que existem entre as conceituações de Gorz e Negri


acerca do trabalho imaterial, e de outras questões a elas concernentes, temos, numa primeira
aproximação, que aquele trabalho é a forma de trabalho atualmente dominante, a um tempo

86
Não falo apenas de Gorz e Negri, pelo fato do último ter desenvolvido parte de suas idéias em parceria com Maurício
Lazzarato, Michael Hardt, entre outros
87
Pode causar surpresa a ênfase que se dará aqui à importância que Marx exerceu tanto para Negri quanto para Gorz, já que o
pensamento de ambos deve muito a outros autores, como a Espinosa, no caso de Negri, e a Sartre, no caso de Gorz. Entretanto,
nas obras que servirão de base para a presente análise Marx é seguramente o autor mais discutido – direta e indiretamente – e
podemos inclusive ler no início de Império, que as duas obras fundamentais para a análise apresentada neste livro são O Capital,
de Marx, e a obra A thousand platos, de Deleuze e Guattari (Cf. Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001,
p.439, nota 4; Negri, A. 5 lições sobre Império. Rio de Janeiro, DP&A, 2003, p.44). Já no início do livro Misérias do presente,
riquezas do possível Gorz afirma que a centralidade dos conceitos marxianos para sua análise (cf. p.37).
88
Em todo caso, vale enfatizar, limito-me a apresentar as idéias desses autores na medida em que dizem respeito aos conceitos
estudados; não farei, portanto, uma análise ampla do pensamento deles, de sua trajetória intelectual, de seus interlocutores, e de
suas principais referências – com exceção de Marx.
89
Negri, A. 5 lições sobre Império. Rio de Janeiro, DP&A, 2003, p.20.
90
Gorz, A. O imaterial: conhecimento, valor e capital. São Paulo: Annablume, 2005, p.19.

24
expressão máxima e fundamento da hodierna configuração do modo de produção capitalista. No
livro Metamorfoses do trabalho, de André Gorz, lê-se que, com a “revolução microeletrônica”92,
diversas atividades outrora realizadas pelo trabalhador no processo de produção imediata passam
a ser feitas por máquinas, e frente ao uso delas, o trabalho que ainda resta é marginal, e não mais
se processa através da manipulação da matéria, de tal forma que desaparece a “atividade
imediata completa e soberana”. Com isso, “A espessura do mundo é abolida. O trabalho como
atividade material é abolido. Resta apenas uma atividade puramente intelectual ou, melhor,
mental”93.

Já nas palavras de Negri e Lazarrato, “... hoje em dia definimos o trabalho operário como
atividade abstrata ligada à subjetividade”94. A compreensão do trabalho como atividade abstrata
se deve à percepção de que o desenvolvimento da automação ou da “informatização da produção
(...) a heterogeneidade do trabalho concreto tende a ser reduzida, e o trabalhador é cada vez mais
afastado do objeto do seu trabalho” 95 ; “Mediante a informatização da produção, portanto, o
trabalho tende à posição de trabalho abstrato96”97.

Percebe-se que a determinação “imaterial” do trabalho concerne ao crescente


distanciamento entre trabalhador e os objetos e meios de produção. Desaparece, segundo os
autores, a intervenção imediata do trabalhador no processo produtivo, onde outrora ele
empunhava ferramentas mobilizando sua força física e suas habilidades manuais específicas no
sentido de dar forma aos objetos que deveria produzir, caracterizando sua atividade como
material, e mesmo braçal. Ademais, as diferentes atividades laborais passam a se identificar mais
e mais, o que estaria relacionado, segundo Negri, “à posição do trabalho abstrato” no âmbito da
produção. Sobre este ponto, existe uma outra passagem de Império, que suscita a impressão de
que Negri e Hardt compreendem o conceito de trabalho abstrato como generalidade, tomado
como dispêndio fisiológico de força de trabalho. Nele, pode-se ler que,

Da perspectiva de Marx no século XIX, as práticas concretas de diversas atividades


laborais eram radicalmente heterogêneas: as artes da costura e da tecelagem envolviam ações
concretas incomensuráveis. Só quando abstraídas de suas práticas concretas, as atividades

91
Que serão objetos de investigação no terceiro capítulo da presente dissertação.
92
Que, no terceiro capítulo, veremos se tratar para o autor de um conjunto de inovações tecnológicas desenvolvidas sobretudo
nas décadas de 1970 e 1980 com base na informatização, robótica e outras formas de automação
93
Idem, Metamorfoses do trabalho: Crítica da razão econômica. São Paulo:Annablume, 2003, p.89.
94
Negri, A., Lazzarato, M. Trabalho imaterial e subjetividade. In: Trabalho imaterial: formas de vida e produção de
subjetividade. Rio de Janeiro: DP&A, 2001, p.25.
95
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p. 313.
96
“A revolução de produção da comunicação e da informática transformou práticas laborais a tal ponto que todas elas tendem ao
modelo das tecnologias de informação e comunicação” (idem, ibidem, p.312).
97
Idem, ibidem, p.313.
25
laborais poderiam ser reunidas e vistas de maneira homogênea, não mais como arte de costura e
arte da tecelagem, mas como gasto de força humana de trabalho, como trabalho abstrato98.
Avançando um pouco, dizem Antonio Negri e Michael Hardt que

Hoje o trabalho é, de imediato, uma força social animada pelos poderes do conhecimento,
do afeto, da ciência e da linguagem. De fato, o trabalho é a atividade produtiva de um intelecto
geral e de um corpo geral fora de medida. O trabalho aparece simplesmente como o poder de agir
(...). Só quando se forma o que é comum pode ocorrer a produção, e pode a produtividade geral
subir. Qualquer coisa que bloqueie esse poder de agir é meramente um obstáculo a ser vencido –
um obstáculo que é eventualmente flanqueado, enfraquecido e esmagado pelos poderes críticos
do trabalho e da sabedoria passional cotidiana dos afetos. O poder de agir é constituído por
trabalho, inteligência, paixão e afeto num lugar de todos99.
Por seu turno, André Gorz propugna que

... a informatização revalorizou as formas de saber que não são substituíveis, que não são
formalizáveis: o saber da experiência, o discernimento, a capacidade de coordenação, de auto-
organização e de comunicação. Em poucas palavras, formas de um saber vivo adquirido no
trânsito cotidiano, que pertencem à cultura do cotidiano. (...) Os trabalhadores pós-fordistas (...)
devem entrar no processo de produção com toda a bagagem cultural que eles adquiriram nos
jogos, nos esportes de equipe, nas lutas, disputas, nas atividades musicais, teatrais, etc. É nessas
atividades fora do trabalho que são desenvolvidas sua vivacidade, sua capacidade de
improvisação, de cooperação. É seu saber vernacular que a empresa pós-fordista põe para
trabalhar, e explora100.
Com essas passagens, enriquece-se em determinações o conceito de trabalho imaterial, o
trabalho próprio do “pós-fordismo”. Ele consiste no conjunto de capacidades cognitivas,
comunicativas, organizacionais, científicas, adquiridas com base na experiência cotidiana, nas
relações interpessoais que se dão nas diferentes esferas da vida social101. Ao contrário, vale a
pena chamar a atenção para o fato de que, para Negri, um momento fundamental da conceituação
de trabalho imaterial são os afetos e a produtividade dos corpos, o que não merece muita atenção
de Gorz. Segundo Negri, essa seria a grande limitação da perspectiva teórica dos operaístas, os
quais – ainda de acordo com Negri (e Hardt) - já no final da década de 1960, percebem a
necessidade de se construir uma nova teoria do valor - dado que o trabalho que se estava
tornando hegemônico era o “trabalho intelectual, imaterial e comunicativo” -, e junto com isso,
“uma nova teoria da subjetividade, que opere, basicamente, através do conhecimento, da
comunicação e da linguagem”102.
Dos trechos supracitados, depreende-se também que tanto em Gorz quanto em Negri, e
sobretudo no último, o conceito de trabalho imaterial se encontra bastante imbricado ao de

98
Idem, ibidem, p. 313.
99
Idem, ibidem, p.359-360.
100
Gorz, A. O imaterial: conhecimento, valor e capital. São Paulo: Annablume, 2005, p.9 e p.19, respectivamente, grifos meus.
101
Já se anuncia aqui o potencial emancipatório que é atribuído ao trabalho imaterial pelos referidos autores, mas deixemos isso
de lado por hora.
102
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p.48.
26
“intelecto geral”, conceito que ele toma de Marx, nos Grundrisse, em trechos que cita
abundantemente 103 . Segundo a interpretação de Negri e Hardt, “O intelecto geral é uma
inteligência coletiva, social, criada por conhecimentos, técnicas e know-how acumulados”104.
Em Império, Negri e Hardt compreendem o trabalho imaterial como atividade geral,
universal, como “a capacidade universal de produzir”105, e asseveram que “... em cada forma de
trabalho imaterial a cooperação é totalmente inerente ao trabalho. O trabalho imaterial envolve
de imediato a interação e a cooperação sociais” 106 . Em outro momento, eles identificam o
trabalho imaterial aos chamados serviços, ou pelo menos tratam dos serviços como um tipo
bastante difundido de trabalho imaterial. Segundo os autores, “como a produção de serviços não
resulta em bem material e durável, definimos o trabalho envolvido nessa produção como
trabalho imaterial – ou seja, trabalho que produz um bem imaterial, como serviço, produto
cultural, conhecimento ou comunicação” 107 . Esclarecendo melhor a questão, dizem Negri e
Hardt que

Serviços incluem uma vasta gama de atividades, de assistência médica, educação e


finanças a transporte, diversão e publicidade. Os empregos são em sua maioria altamente
movediços, e envolvem flexibilidade de aptidões. Mais importante, são caracterizados em geral
pelo papel central desempenhado por conhecimento, informação, afeto e comunicação108.
Indo mais além na definição do trabalho imaterial Negri e Hardt afirmam que “a
produtividade, a riqueza e a criação de superávites sociais hoje em dia tomam a forma de
interatividade cooperativa mediante redes lingüísticas, de comunicação e afetivas”109, nas quais
se desenvolve o trabalho imaterial. Essa metamorfose deve ser explicada através de uma
atualização da teoria do valor.
Segundo Negri, no último quartel do século XX “a lei do valor” entra em crise: “o valor
não pode ser reduzido a uma medida objetiva”110. Sendo o trabalho cada vez mais intelectual,
afetivo, comunicativo, complexo, torna-se impossível a sua redução a trabalho abstrato tal qual
ocorria anteriormente, tornando-o suscetível de mensuração. Assim, a teoria do valor de Marx é

103
cf. Negri, A., Lazzarato, M. Trabalho imaterial e subjetividade. In: Trabalho imaterial: formas de vida e produção de
subjetividade. Rio de Janeiro: DP&A, 2001, p.28-9.
104
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p.386.
105
Idem, ibidem, p.229.
106
Idem, ibidem, p. 315.
107
Idem, ibidem, p.311.
108
Idem, ibidem, p.306.
109
Idem, ibidem, p. 315.
110
Negri, A. Twenty Theses on Marx – Interpretation of Class-Situation Today. In: Marxism beyond Marxism. Ed. S. Makdisi, C.
Casarino e R. E. Karl. Londres: Routledge, 1996, p.151.
27
superada, já que “sua teoria do valor [de Marx] é, na realidade, uma teoria da medida do
valor”111.

Haveria, assim, uma mudança na substância do valor: “... a comunicação constitui a


fábrica de produção e a substância da forma do valor”112, ou ainda “... a nova organização do
trabalho e o próprio novo modo de produção têm por base aquilo que há de mais comum na vida
dos homens: a linguagem”113. Com isso, o “capital se torna portanto tão permeável que ele pode
filtrar toda relação através da espessura material da produção”, e “o processo de trabalho se
prolonga tanto quanto o social”114. Nesse contexto, “... somente a criatividade do trabalho (...) é
medida com a dimensão do valor”115.

Apesar do trabalho ter sido posto como trabalho abstrato na pós-modernidade, não é mais
possível a sua mensuração. Ademais, a substância do valor é apresentada ora como a
comunicação, ora como a linguagem, e o valor passa a medir “somente a criatividade do
trabalho”. Sendo aqueles dois elementos – a comunicação e a linguagem – o fundamento do
processo produtivo, e constituindo eles uma dimensão “onipresente” na vida social, apagam-se
as fronteiras entre esta e a própria produção.

Outra implicação das alterações sofridas pelo trabalho vivo é a mudança no conceito de
trabalho produtivo, ou melhor, a supressão das distinções entre trabalho produtivo e improdutivo.
Segundo Negri, ainda no “curso da segunda revolução industrial”, “... torna-se cada vez mais
difícil manter distinções entre trabalho produtivo, reprodutivo e improdutivo. O trabalho –
material ou imaterial, intelectual ou físico – produz e reproduz a vida social, e durante o processo
é explorado pelo capital”116. Em outras palavras, “... o trabalho produtivo não é mais ‘aquele que
diretamente produz capital’, mas aquilo que reproduz a sociedade – deste ponto de vista, sua
separação do trabalho improdutivo está completamente deslocada” 117 . Mas não só isso, “a
distinção entre ‘trabalho simples’ e ‘trabalho socialmente necessário’ perde qualquer
importância”118, e “as distinções entre (...) ‘produção’ e ‘circulação’, entre ‘trabalho simples’ e

111
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p.377.
112
Idem, Twenty Theses on Marx – Interpretation of Class-Situation Today. In: Marxism beyond Marxism. Ed. S. Makdisi, C.
Casarino e R. E. Karl. Londres: Routledge, 1996, p.152.
113
Idem, 5 lições sobre Império. Rio de Janeiro, DP&A, 2003, p.257.
114
Idem, Twenty Theses on Marx – Interpretation of Class-Situation Today. In: Marxism beyond Marxism. Ed. S. Makdisi, C.
Casarino e R. E. Karl. Londres: Routledge, 1996, p.152.
115
Idem, ibidem, p.152.
116
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p.426.
117
Negri, A. Twenty Theses on Marx – Interpretation of Class-Situation Today. In: Marxism beyond Marxism. Ed. S. Makdisi, C.
Casarino e R. E. Karl. Londres: Routledge, 1996, p.157.
118
Idem, ibidem, p.157.
28
‘trabalho complexo’ são todas derrubadas”119. Trabalho identifica-se com produção e reprodução
da vida; é o poder de ação e criação por excelência120.

Vimos que o cerne das atividades desenvolvidas pelo trabalhador do pós-fordismo é “o


saber vivo adquirido no trânsito cotidiano”, que deve ser mobilizado no correr do processo
produtivo mediante o empenho subjetivo dos agentes. Segundo Gorz, “Ele [o trabalho imaterial –
G.M.] exige o investimento de si mesmo, aquilo que na linguagem empresarial é chamado de
‘motivação’. Não só o especialista, toda a humanidade deve se entregar a seu trabalho. A
qualidade da produção depende desse comprometimento”121.

Tal investimento de si não pode ser totalmente ditado pelo capital, o que se revela pela
difusão da chamada “gestão por objetivos” - a fixação de metas definidas pelos dirigentes das
empresas, que exigem seu cumprimento pelos trabalhadores sem controlar totalmente os meios
para fazê-lo -, em função da “impossibilidade de mensurar o desempenho individual e prescrever
os meios e os procedimentos para chegar a um resultado”122. Nesse contexto, “... os empregados
têm de se tornar empresas”123; em outras palavras, “‘A pessoa é uma empresa’. No lugar da
exploração entram a auto-exploração e a autocomercialização do ‘Eu S/A’, que rendem lucros às
grandes empresas, que são os clientes do auto-empresário”124. Eis aí a idéia de capital humano,
fundamental para as análises de Gorz.

Em outra passagem, Gorz cita Norbert Bensel, então diretor de recursos humanos da
Daimler-Chrysler, na qual este trata do “capital humano” em termos muito parecidos com os
empregados por Gorz, dizendo que

O que conta, para esses ‘colaborados’ [os “trabalhadores imateriais”] de um dos maiores
grupos industriais do mundo, são as qualidades de comportamento, as qualidades expressivas e
imaginativas, o envolvimento pessoal na tarefa a desenvolver e completar. Todas essas qualidades
e essas faculdades são habitualmente próprias dos prestadores de serviços pessoais, dos
fornecedores de um trabalho imaterial impossível de quantificar, estocar, homologar, formalizar e
até mesmo de objetivar125.

119
Idem, ibidem, p.157.
120
Vejamos na seqüência como Gorz aborda tais questões, mas antes vale dizer que no decorrer do tempo seu pensamento sofreu
várias e decisivas transformações, muitas das quais passaremos por alto nesse momento. Interessar-nos-á aqui sobretudo suas
formulações mais recentes, nas quais ganha centralidade o conceito de trabalho imaterial.
121
Gorz, A. O imaterial: conhecimento, valor e capital. São Paulo: Annablume, 2005, p.9.
122
Idem, ibidem, p.18.
123
Idem, ibidem, p.10.
124
Idem, ibidem, p.10; Cf. Idem, ibidem, p.23.
125
Bensel citado por Gorz, A. ibidem, p.17.
29
Com isso, estaria em curso “o retorno ao trabalho como prestação de serviços 126 ”127 ,
acarretando importantes alterações no processo de produção como um todo. Segundo Gorz,

A noção de tempo de trabalho socialmente necessário deixa de ser pertinente para


serviços de aparência pessoal. O vendedor deve fazer com que esqueçam que seu objetivo é o de
vender, e, tratando o cliente como uma pessoa única, singular, deve dar à relação comercial a
aparência de uma relação privada à qual a lógica econômica não se aplica. O valor do serviço de
pessoa a pessoa deixa de ser mensurável na medida em que esse serviço perde seu caráter de
trabalho social128.
Por conseguinte, surge também para Gorz a questão da incomensurabilidade do trabalho.
E o profundo impacto dessa mudança para o aparato teórico marxista e mesmo não-marxista não
é ignorado pelo autor: logo no começo do livro O imaterial: conhecimento, valor e capital, diz
ele que: “A ampla admissão do conhecimento como a principal força produtiva provocou uma
mudança que compromete a validade das categorias econômicas chaves e indica a necessidade
de estabelecimento de uma outra economia”129, que deveria responder às mudanças no próprio
modo de produção, que se torna um “capitalismo cognitivo” 130 . A tarefa de Gorz no livro
supracitado não é nada menos que desenvolver de maneira articulada conceitos que dêem conta
dessas mudanças.

Novamente em suas palavras,

Nós atravessamos um período em que coexistem muitos modos de produção. O


capitalismo moderno, centrado sobre a valorização de grandes massas de capital fixo material, é
cada vez mais rapidamente substituído por um capitalismo pós-moderno centrado na valorização
de um capital dito imaterial, qualificado também de ‘capital humano’, ‘capital conhecimento’ ou
‘capital inteligência’. Essa mutação se faz acompanhar de novas metamorfoses do trabalho. O
trabalho abstrato simples, que, desde Adam Smith, era considerado como a fonte do valor, é agora
substituído por trabalho complexo. O trabalho de produção material, mensurável em unidades de
produtos por unidades de tempo, é substituído por trabalho dito imaterial, ao qual os padrões
clássicos de medida não mais podem se aplicar131.

Esse trecho apresenta muitas idéias que merecem destaque. Com o advento do
“capitalismo pós-moderno”, a própria forma hegemônica do capital muda – torna-se “capital
humano”, “capital conhecimento” ou “capital inteligência”, correspondendo a uma mudança na
forma do trabalho e na substância do valor. O trabalhador pós-moderno, com seus
conhecimentos, criatividade, capacidade de tomada de decisões, etc., torna-se de certa forma o
portador do capital - o próprio capital - e este passa a ter como substância o “aparato espiritual”

126
Vale recordar a primeira citação que fizemos de Gorz, na qual ele identifica serviços e trabalho imaterial, dizendo que “O
fornecimento de serviços, esse trabalho imaterial, torna-se a forma hegemônica do trabalho” (cf. p.23 do presente texto).
127
Gorz, A, O imaterial: conhecimento, valor e capital. São Paulo: Annablume, 2005, p.18.
128
Idem, ibidem, p.47.
129
Idem, ibidem, p.9.
130
Idem, ibidem, p.37.

30
daquele trabalhador qualificado, polivalente, que realiza um “trabalho complexo”
incomensurável, em oposição ao “trabalho abstrato simples” que preponderou “desde Adam
Smith”.

As implicações dessas transformações para a teoria do valor são imediatas.


Demonstrando concordância com seu conteúdo, Gorz cita a seguinte passagem do livro
L’enterpreise au XXIe siècle: “O valor encontra hoje sua fonte na inteligência e na imaginação.
O saber do indivíduo conta mais que o tempo da máquina. O homem, carregando consigo seu
próprio capital, carrega igualmente uma parte do capital da empresa” 132 . Dessa forma, “Os
fatores que determinam a criação de valor são o ‘componente comportamental’ e a motivação, e
não o tempo de trabalho despendido”133.

Em outro momento, Gorz constata que o conhecimento é fonte do valor 134 , e daí a
importância do chamado capital conhecimento. Apesar de reconhecer que “o capital
conhecimento não é novo”135, Gorz assevera que hoje ele assume um novo papel, pois

Todo conhecimento passível de formalização pode ser abstraído de seu suporte material e
humano, multiplicado quase sem custos na forma de software e utilizado ilimitadamente em
máquinas que seguem um padrão universal. Quanto mais se propaga, mais útil ele é à sociedade.
Seu valor mercantil, ao contrário, diminui com a sua propagação e tende a zero: o conhecimento
torna-se um bem acessível a todos (...). Por conseguinte, para ser vendido como mercadoria e
aproveitado como capital, o conhecimento deve se transformar em propriedade privada e tornar-
se escasso136137.
Desse modo, o capital tem que enfrentar o desafio de privatizar o conhecimento, e torná-
lo inacessível, de maneira gratuita, através de patentes. Além disso, aparece novamente a idéia
de que estamos longe do domínio do trabalho abstrato, ou do “trabalho abstrato simples” a que
Gorz se referiu a pouco, a substância do valor segundo Marx, e portanto um dos pilares
fundamentais de sua teoria. Não obstante, diga-se de passagem, Gorz se vale dos próprios
Grundrisse para subsidiar suas teses. Em suas palavras, “o conhecimento (knowledge) é
considerado como a ‘força produtiva principal’. Marx mesmo já notava que ele se tornaria ‘die
grösste Productivkraft’ e a principal fonte de riqueza138”139, e isso “faz a liberação do tempo

131
Idem, ibidem, p.15.
132
Idem, ibidem, p.16.
133
Idem, ibidem, p.9-10.
134
Idem, ibidem, p.37.
135
Idem, ibidem, p.10.
136
“O saber não é uma mercadoria qualquer, seu valor (monetário) é indeterminável; ele pode, uma vez que é digitalizável, se
multiplicar indefinidamente e sem custos; sua propagação eleva sua fecundidade, sua privatização a reduz e contradiz sua
essência” (idem, ibidem, p.59).
137
Idem, ibidem, p.10.
138
Gorz está aqui citando os Grundrisse.
139
Idem, ibidem, p.15.
31
‘para o pleno desenvolvimento do indivíduo’ poder ser considerada ‘do ponto de vista do
processo de produção imediata, como produção de capital fixo, esse capital fixo being man
himself [sendo o próprio homem - G.M.]’. A idéia de ‘capital humano’, se encontra, pois, já nos
manuscritos de 1857-1858”140.

Na medida em que consiste em um momento fundamental da construção do conceito de


trabalho imaterial, cabe apresentar agora as análises de Gorz e Negri sobre seus potenciais
emancipatórios, começando pelo primeiro. Segundo Gorz, o caráter do trabalho imaterial e a
natureza do conhecimento que ele mobiliza impõem limites decisivos à voracidade do capital.
Nas suas palavras, “o conhecimento, que, graças ao livre autodesenvolvimento dos homens, com
todas as suas qualidades insubstituíveis, e não graças à sua instrumentalização e dominação,
tornou-se a principal força produtiva, deveria abrir caminho para ‘uma nova era, que precisa de
novas formas de estruturações sociais, culturais e éticas’”141. Com isso, “... o conceito de riqueza
deve ser desatrelado do conceito de valor mercantil e a pergunta ‘O que é riqueza?’ deve ser
recolocada”142.

Quando a inteligência e a imaginação (o general intellect) tornam-se a principal força


produtiva, o tempo de trabalho deixa de ser a medida do trabalho, mais ainda, ele deixa de ser
mensurável. O valor de uso produzido pode não ter nenhuma relação com o tempo consumido
para produzi-lo. Pode variar enormemente segundo as pessoas e o caráter material ou imaterial de
seu trabalho. Enfim, o trabalho-emprego contínuo e pago pelo tempo está em rápida regressão.
Torna-se cada vez mais difícil definir uma quantidade de trabalho incompressível a cumprir por
cada um ao longo de um período determinado. É impossível medir a duração do trabalho dos
autônomos, artesãos e prestadores de serviços imateriais143.

As novas configurações assumidas pelo processo de acumulação trariam em seu bojo


contradições que levariam à sua derrocada, já que com o desenvolvimento das forças produtivas
cria-se um tipo de tecnologia que, ao mesmo tempo em que eleva a um grau sem precedentes a
produção de mercadorias, elimina o trabalho material diretamente despendido na produção e põe
um tipo de trabalho que se funda na autonomia e na individualidade do trabalhador 144 , que,
finalmente, não pode ser totalmente submetido ao domínio do capital, pondo em cheque esse
domínio145 . Segundo Gorz, “A economia da abundância tende por si só a uma economia da

140
Idem, ibidem, p.16, grifos da última frase são meus.
141
Idem, ibidem, p.12.
142
Idem, ibidem, p.11.
143
Idem, Miséria do presente, riqueza do possível. São Paulo: Annablume, 2004, p.97.
144
“O trabalho do saber vivo não produz nada materialmente palpável. Ele é, sobretudo na economia de rede, o trabalho do
sujeito cuja atividade é produzir a si mesmo” (idem, O imaterial: conhecimento, valor e capital. São Paulo: Annablume, 2005,
p.20).
145
“A racionalidade econômica não é mais o que já foi. Ela agora exige que os critérios habituais do rendimento sejam
subordinados ao critério do desenvolvimento humano e, assim, a uma racionalidade fundamentalmente diferente” (idem, ibidem,
p.61).
32
gratuidade; tende a formas de produção, de cooperação, de trocas e de consumo fundadas na
reciprocidade e na partilha, assim como em novas moedas. O ‘capitalismo cognitivo’ é a crise do
capitalismo em seu sentido mais estrito”146.

Desse modo, as condições materiais e técnicas para a superação das relações capitalistas
estariam postas, já que, no âmbito de atuação do trabalho imaterial,

A divisão do trabalho em tarefas especializadas e hierarquizadas está virtualmente abolida;


assim como está a impossibilidade, na qual se encontravam os produtores, de se apropriar dos
meios de produção, e de autogerí-los. A separação entre os trabalhadores e seu trabalho reificado,
e entre este último e seu produto, está pois virtualmente abolida147.
No mesmo sentido, lê-se que

O capitalismo do saber gera em si e para além de si a perspectiva de sua possível


supressão. Em seu âmago, germina uma semente comunista: nas palavras de Richard Barbrook,
uma ‘economia da doação anarco-comunista’, que disputa com o capital a esfera estrategicamente
sensível de transmissão e acessibilidade do saber. Não se trata de mera visão. Trata-se de uma
práxis que, no mais alto nível técnico, foi desenvolvida por homens, sem cujo comunismo
criativo o capitalismo não poderia mais avançar148.
Mas não é apenas no “movimento dos programas de computador livres” que Gorz
deposita suas esperanças. Ao lado desses “comunistas criativos” em relação aos quais o
capitalismo depende, encontram-se diversos outros movimentos, “como ‘Reclaim the Street’,
‘Ya Basta!’, ‘People’s Global Action’, ‘Um outro mundo é possível’, ‘Via campesina’ ou como a
‘Armada zapatista de libertação’ [EZLN]”. Todos eles construindo “Um outro mundo possível”,
que é o título do item do livro O imaterial: conhecimento, valor e capital em que aparecem essas
idéias. Salta aos olhos a semelhança entre elas e a noção de “comunismo espontâneo e
elementar”, de Negri e Hardt.

Após discorrer acerca das mudanças no trabalho e de seus impactos para a teoria do valor,
Negri adverte que “... se a lei do valor não funciona mais como medida do desenvolvimento
capitalista, o trabalho, todavia, continua sendo a dignidade do homem e a substância de sua
história” 149 . Com as mudanças no modo de produção capitalista, o trabalho não tende a
desaparecer, nem perde sua centralidade; ao contrário, a centralidade se desloca do trabalho
material para o imaterial, que se torna a fonte da riqueza. Citando Negri, “a incomensurabilidade
do valor não elimina o trabalho como sua base”150, e “o excesso de valor é determinado hoje nos

146
Idem, ibidem, p.37.
147
Idem, ibidem, p.21.
148
Idem, ibidem, p.69.
149
Negri, A. 5 lições sobre Império. Rio de Janeiro, DP&A, 2003, p.44.
150
Idem, Twenty Theses on Marx – Interpretation of Class-Situation Today. In: Marxism beyond Marxism. Ed. S. Makdisi, C.
Casarino e R. E. Karl. Londres: Routledge, 1996, p.151.
33
afetos, nos corpos cruzados de conhecimento, na inteligência da mente e no puro poder de
agir”151.

Já em Império, os autores propugnam que “Seria bom, de fato, distinguir entre duas
noções marxistas de abstração. De um lado, o lado do capital, abstração significa separação de
nossos poderes de agir, e portanto é a negação do virtual. De outro, entretanto, o lado do trabalho,
o abstrato é o conjunto geral de nossos poderes de agir, o próprio virtual152”153. De acordo com a
leitura de Negri e Hardt, há, portanto, uma duplicidade em Marx no que tange ao uso do conceito
de abstração, e portanto no cerne do conceito de trabalho abstrato.

Dessas últimas passagens, fica claro o sentido positivo que Negri atribui ao trabalho, não
apenas ao trabalho imaterial, na atual fase de desenvolvimento capitalista, mas ao trabalho em
geral. Entretanto, na atual fase do desenvolvimento capitalista o trabalho torna-se algo como uma
libertação em ato. “A universalidade da criatividade humana, a síntese de libertação, desejo e
trabalho ativo, é o que ocorre no não-lugar das relações de produção pós-modernas” 154 .
Coerentemente com isso, temos que “o trabalho imaterial não se reproduz (e não reproduz a
sociedade) na forma de exploração, mas na forma de produção da subjetividade”155.

Dessa maneira, o trabalho imaterial, essa “atividade abstrata” é a própria produção da


subjetividade, a qual não é apenas produto desse novo arranjo social, mas sua condição156. Essa
atividade, pois, não poderia transcorrer nos marcos de relações de produção repressivas e
exploratórias, tal qual ocorria no espaço da fábrica fordista. Ao contrário, no pós-fordismo, o
trabalho torna-se uma atividade eminentemente subversiva, um exercício de autonomia e de
constante superação das barreiras impostas pelo movimento do capital157. Como dizem Negri e

151
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p.387.
152
“A ontologia do trabalho vivo é uma ontologia de libertação. A eficácia do materialismo histórico como uma teoria da
liberdade é baseada nesta materialidade criativa” (Negri, A. Twenty Theses on Marx – Interpretation of Class-Situation Today. In:
Marxism beyond Marxism. Ed. S. Makdisi, C. Casarino e R. E. Karl. Londres: Routledge, 1996, p.169).
153
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p.491, nota 9.
154
Idem, ibidem, p.230.
155
Negri, A., Lazzarato, M. Trabalho imaterial e subjetividade. In: Trabalho imaterial: formas de vida e produção de
subjetividade. Rio de Janeiro: DP&A, 2001, p.30.
156
Não é à toa que Negri e Hardt propugnam que o elemento determinante para explicar a mudança do fordismo para o pós-
fordismo é o surgimento de uma nova subjetividade (Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p.296), que
inclusive explicaria a derrocada da União Soviética, já que a nomenklatura teria sido incapaz de lidar com essa transformação
dentro de seus próprios domínios (idem, ibidem, p.287); nas palavras de Negri e Hardt, “A burocracia soviética foi incapaz de
construir a armadura necessária para a mobilização pós-moderna da nova força de trabalho” (idem, ibidem, p.299). Além disso,
eles asseveram que a explicação da manutenção da hegemonia americana após a crise das décadas de 1960 e 1970 está “não no
gênio de políticos e capitalistas americanos, mas no poder e na criatividade do proletariado americano” (idem, ibidem, p.289). E
também dizem que “A globalização dos mercados, longe de ser simplesmente o fruto abominável da organização capitalista, foi,
na realidade, os resultados dos desejos e demandas da força de trabalho taylorista, fordiana e disciplinada no mundo inteiro”
(idem, ibidem, p.276-277).
157
Dentre os “elementos constitutivos da nova subjetividade” Negri e Lazzarato destacam, “Acima de tudo, (...) a independência
progressiva da força de trabalho, enquanto força de trabalho intelectual e trabalho imaterial em face do domínio capitalista”
34
Hardt, “O trabalho é excesso produtivo com relação à ordem existente e as regras de sua
reprodução. Esse excesso produtivo é ao mesmo tempo o resultado da força coletiva de
emancipação e substância da nova virtualidade social das capacidades de produção e libertação
do trabalho”158. De maneira ainda mais enfática, falando sobre o presente momento histórico,
tem-se que
Em outras palavras, o aspecto cooperativo do trabalho imaterial não é imposto e
organizado de fora, como ocorria em formas anteriores de trabalho, mas a cooperação é
totalmente imanente à própria atividade laboral. Esse fato põe em questão a velha noção (comum
à economia clássica e à economia política marxista) segundo a qual a força de trabalho é
concebida como "capital variável", isto é, uma força ativada e tornada coerente apenas pelo
capital, porque os poderes cooperativos da força de trabalho (particularmente da força de trabalho
imaterial) dão ao trabalho a possibilidade de se valorizarem. Cérebros e corpos ainda precisam de
outros para produzir valor, mas os outros de que eles necessitam não são fornecidos
obrigatoriamente pelo capital e por sua capacidade de orquestrar a produção. A produtividade, a
riqueza e a criação de superávites sociais hoje em dia tomam a forma de interatividade
cooperativa mediante redes lingüísticas, de comunicação e afetivas. Na expressão de suas
próprias energias criativas, o trabalho imaterial parece, dessa forma, fornecer o potencial de um
tipo de comunismo espontâneo e elementar159.

Anteriormente, a cooperação e as formas de interação entre os trabalhadores no interior


do processo produtivo eram ditadas pelo capital, de modo que as forças produtivas do trabalho
somente poderiam ser ativadas sob o comando do capital; eram forças do próprio capital, poder
do capital contra os trabalhadores, que acentuava sua exploração e dominação. Na “era pós-
moderna”, ao contrário, os “poderes cooperativos da força de trabalho” tendem a ultrapassar o
capital e seu domínio, tornando sua função de comando potencialmente supérflua ou anacrônica.
Nessa passagem se explicita, portanto, um elemento fundamental: os poderes produtivos do
trabalho imaterial não seriam determinados pelo capital, o que mudaria o caráter da exploração.

Em outro trecho de Império, pode-se ler que

As próprias qualidades do poder do trabalho (diferença, medida e determinação) já não


podem ser captadas, e, da mesma forma, a exploração não pode mais ser localizada e quantificada.
De fato, não são atividades produtivas específicas que tendem a ser objeto de exploração e
dominação, mas a capacidade universal de produzir, isto é, atividade social abstrata e seu poder
inclusivo160,161.

(Negri, A., Lazzarato, M. Trabalho imaterial e subjetividade. In: Trabalho imaterial: formas de vida e produção de subjetividade.
Rio de Janeiro: DP&A, 2001, p.31). Segundo Negri, “... o trabalho livre já está completamente separado, autônomo e posicionado
contra toda rigidificação naturalista do ser” (Negri, A. Twenty Theses on Marx – Interpretation of Class-Situation Today. In:
Marxism beyond Marxism. Ed. S. Makdisi, C. Casarino e R. E. Karl. Londres: Routledge, 1996, p.171), ou ainda, “... o ciclo do
trabalho imaterial é pré-constituído por uma força de trabalho social e autônoma, capaz de organizar o próprio trabalho e as
próprias relações com a empresa” (Negri, A., Lazzarato, M. Trabalho imaterial e subjetividade. In: Trabalho imaterial: formas
de vida e produção de subjetividade. Rio de Janeiro: DP&A, 2001, p.26-27).
158
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p.379.
159
Idem, ibidem, p. 315, grifos meus.
160
Idem, ibidem, p.229.
35
No entanto, tais mudanças não acarretam, de maneira alguma, a supressão imediata do
capital. Este deve se apropriar, da maneira mais plena que seja possível, da subjetividade do
trabalhador, do extraordinário poder produtivo do trabalho imaterial 162 . Fica claro, por
conseguinte, que a manutenção do predomínio do capital só pode agora ocorrer caso mude
radicalmente sua forma de exercício de poder sobre o trabalho.

Segundo Negri, atualmente

Exploração é a produção de linhas políticas de sobredeterminação da produção social.


Isso não é para dizer que o aspecto econômico da exploração possa ser negado; ao contrário, a
exploração é precisamente a captura, a centralização, e a expropriação da forma e do produto da
cooperação social; portanto ela é uma determinação econômica em um sentido muito significativo
– mas sua forma é política163.
Esse ponto é crucial: a determinação econômica do domínio do capital sobre o trabalho
não desapareceu, mas agora “sua forma é política”. Muda assim o comando do capital, de tal
modo que ele diretamente organiza o processo de exploração164; assim, a “crise da lei do valor
(...) introduz ao imediatismo do comando” 165 . Em outra passagem, descobre-se que “... a
organização do capitalismo cognitivo se baseia cada vez mais em uma capacidade de apropriação
privada, imposta por meio da captação dos fluxos sociais do trabalho cognitivo. Como
conseqüência, a exploração volta a ser extração de mais-valia absoluta, pois, para produzir, o
capital utiliza somente o comando”166.

Logo, em um contexto em que o comando do capital poderia desaparecer, este se torna


imediato, e o principal meio de valorização do capital volta a ser a extração de mais-valia
absoluta. À medida que o caráter cooperativo e dinâmico do trabalho se torna imanente a ele
mesmo, para controlá-lo o capital introduz “de fora” do processo imediato de produção uma
forma direta e plena de comando, eminentemente política. Com isso, o capital torna-se totalitário,
e novamente nas palavras de Negri e Lazzarato,

161
“Na época do General Intellect a cooperação produtiva não é, pois, imposta pelo capital, mas é, pelo contrário, uma habilidade
da força-trabalho material, do trabalho mental que só pode ser cooperativo, bem como do trabalho lingüístico que só pode
expressar-se de forma cooperativa” (Negri, A. 5 lições sobre Império. Rio de Janeiro, DP&A, 2003, p.96-97).
162
“Na grande empresa reestruturada, o trabalho do operário é um trabalho que implica sempre mais, em diversos níveis,
capacidade de escolher entre diversas alternativas e, portanto, a responsabilidade de certas decisões” (Negri, A., Lazzarato, M.
Trabalho imaterial e subjetividade. In: Trabalho imaterial: formas de vida e produção de subjetividade. Rio de Janeiro: DP&A,
2001, p.25). “Como prescreve o novo management hoje, ‘é a alma do operário que deve descer na oficina’. É a sua
personalidade, a sua subjetividade, que deve ser organizada e comandada. Qualidade e quantidade do trabalho são reorganizadas
em torno de sua imaterialidade” (idem, ibidem, p.25).
163
Negri, A. Twenty Theses on Marx – Interpretation of Class-Situation Today. In: Marxism beyond Marxism. Ed. S. Makdisi, C.
Casarino e R. E. Karl. Londres: Routledge, 1996, p.153.
164
Idem, 5 lições sobre Império. Rio de Janeiro, DP&A, 2003, p.69.
165
Idem, ibidem, p.69.
166
Idem, ibidem, p.95.
36
No momento em que o controle capitalista da sociedade tornou-se totalitário, o
empreendimento capitalista vê as suas características constitutivas tornarem-se puramente formais.
De fato, ele exercita hoje sua função de controle e de vigilância do externo do processo produtivo,
porque o conteúdo do processo pertence sempre mais a outro modo de produção, à cooperação
social do trabalho imaterial167.
É apenas através desse comando político que o capital logra impedir a plena efetivação
dos já apontados potenciais emancipatórios do trabalho imaterial. De acordo com Negri, “Na
constituição política do capitalismo avançado, a função fundamental do Poder é a de arrancar do
processo social de cooperação produtiva o comando sobre seu próprio funcionamento – de
encarcerar o poder produtivo social dentro das grades do sistema de Poder”168, e, nessa época, “...
somente o político pode arrancar o econômico de sua tendência que o leva a se misturar com o
social e realizar a si próprio na autovalorização”169.

Logo, cria-se uma nova articulação entre o político e o econômico, mas a sua tratativa
não é unívoca. Já se viu que em suas “teses sobre Marx” Negri defende que a exploração
econômica adquire forma política. Ainda nesse texto, ele diz que “‘No período de ‘subsunção
real’, o político tende a absorver inteiramente o econômico e a defini-lo como separado somente
na medida em que fixa suas regras de dominação. Logo, a separabilidade do econômico, e
principalmente da exploração, é uma mistificação do político, que é de quem tem Poder”170.
Entretanto, no Império, a coisa se inverte, e é dito que

Hoje a noção de política como esfera independente da determinação do consenso e como


esfera de mediação entre forças sociais conflitantes tem pouca razão de existir. O consenso é
determinado, mais significativamente, por fatores econômicos (...). Governo e política foram
completamente integrados ao sistema de comando transnacional. Controles são articulados
mediante uma série de corpos e funções internacionais (...). A política não desaparece, o que
desaparece é a noção de autonomia do político171.
Assim, em ambos os momentos Negri constata o fim da autonomia do político e do
econômico, mas no primeiro o político assume papel precípuo, “absorvendo o econômico”, ao
passo que no segundo, é o econômico que subordina o político. Não obstante, a mensagem
fundamental é passada: existe uma profunda imbricação entre essas duas esferas da vida social,
que não podem, portanto, ser tratadas em separado.

167
Negri, A., Lazzarato, M. Trabalho imaterial e subjetividade. In: Trabalho imaterial: formas de vida e produção de
subjetividade. Rio de Janeiro: DP&A, 2001, p.31.
168
Negri, A. Twenty Theses on Marx – Interpretation of Class-Situation Today. In: Marxism beyond Marxism. Ed. S. Makdisi, C.
Casarino e R. E. Karl. Londres: Routledge, 1996, p.154.
169
Idem, ibidem, p.166.
170
Idem, ibidem, p.153.
171
Idem, Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p.328-329.
37
Creio não ser de todo descabido tratar do conceito de trabalho imaterial remetendo
conjuntamente a Gorz e Negri, já que no livro O imaterial..., temos uma enorme aproximação
entre as idéias de ambos os autores: coincidem no diagnóstico do caráter incomensurável do
trabalho imaterial, de seu papel na produção da própria subjetividade, na necessidade da
mobilização dessa subjetividade na produção, na importância da comunicação e da linguagem no
processo produtivo, no potencial emancipatório do trabalho imaterial, entre outros pontos.

Passemos às conceituações de Marx que se relacionam, de uma forma ou de outra –


positiva ou negativamente –, ao conceito de trabalho imaterial.

38
Capítulo 2. O conceito de trabalho imaterial, em Marx.

No capítulo anterior, vimos como no processo de conceituação do trabalho imaterial,


Gorz e Negri trataram de questões polêmicas, como a da incomensurabilidade do trabalho
atualmente hegemônico no capitalismo “pós-moderno”; da obsolescência da teoria marxiana do
valor; da distinção entre trabalho produtivo e improdutivo; entre “trabalho simples e trabalho
socialmente necessário”; entre “trabalho simples e trabalho complexo”. Além disso, vimos os
autores mobilizarem os conceitos de serviços, trabalho abstrato, trabalho concreto, mais-valia -
absoluta e relativa -, entre outros. Devemos agora, coerentemente com a proposta da pesquisa,
retomar alguns momentos da crítica marxiana à Economia Política, de modo a apresentar – de
maneira nada exaustiva, e com ênfase aos momentos da conceituação que têm relevo em Negri e
Gorz - a tratativa que Marx deu a algumas das questões apontadas – sobretudo em O Capital, no
Capítulo Sexto Inédito de O Capital172, nos Grundrisse, nas Teorias sobre a Mais-Valia173, e em
Contribuição para a Crítica da Economia Política174 -, e nessa medida, realizar indiretamente a
crítica do conceito de trabalho imaterial apresentada por Gorz e Negri.

Na medida em que existe grande imbricação entre a forma marxiana de exposição e seu
projeto crítico da Economia Política, e portanto profunda relação entre a apresentação teórica e a
construção dos conceitos, tentarei o quanto possível concatenar as categorias que devem ser
abordadas de acordo com seu grau de abstração –do mais abstrato ao mais concreto –buscando
ser fiel à sua formulação original. De início, apresento de maneira bastante sucinta e
“panorâmica” o movimento das primeiras seções de O Capital, junto com algumas considerações
metodológicas que julgo pertinentes para o entendimento dos conceitos visados, o que ajuda a
estabelecer as condições para se transitar por eles em distintos momentos da obra de Marx.
Depois disso, será feita a exposição das principais categorias que são objetos dessa dissertação.

Marx inicia sua principal obra analisando a forma mais elementar de aparecimento da
riqueza nas sociedades burguesas: a mercadoria175. Para tanto, logo de início são expostos os
seus dois fatores, ou seus dois conteúdos: um material, o valor de uso, a capacidade da
mercadoria de satisfazer necessidades humanas (oriundas “do estômago ou da fantasia”, é
indiferente); e o outro social, o valor, um quantum de trabalho abstrato objetivado no processo de
sua produção, que permite a igualação e troca das diferentes mercadorias; os quais Marx

172
Que por vezes será chamado apenas de Capítulo Sexto...
173
Que por vezes será chamada apenas de Teorias...
174
Que será chamada daqui por diante apenas de Contribuição...

39
descobre originar-se do duplo caráter do trabalho produtor de mercadorias – trabalho concreto
útil e trabalho abstrato, respectivamente. O primeiro refere-se aos trabalhos particulares, o
trabalho de pedreiro, marceneiro, professor, etc.176; já o segundo consiste numa substância social,
177
que redunda de uma redução objetiva dos diferentes trabalhos concretos , e possui
determinações qualitativas – trabalho simples, “simples gelatina de trabalho humano
indiferenciado”178, trabalho em geral, mero “dispêndio de cérebros, músculos, nervos, mãos, etc.
humanos” 179 -, e uma quantitativa – trabalho socialmente necessário, “aquele requerido para
produzir um valor de uso qualquer, nas condições dadas de produção socialmente normais, e
com o grau social médio de habilidade e de intensidade de trabalho180”181, medido pelo tempo182.

Como logo fica claro, o trabalho abstrato é o contrário do trabalho concreto, da mesma
forma que o valor de uso é o contrário do valor. Enquanto valor, a mercadoria não possui um
átomo de valor de uso, e a recíproca é verdadeira, de modo que eles não são apenas diferentes
um do outro. Portanto, a mercadoria se constitui como tal pela oposição interna entre valor de
uso e valor, enquanto unidade de opostos, unidade contraditória, mas é claro, uma contradição

175
“Mercadoria é a mais elementar forma de riqueza burguesa” (Marx, K. Teorias da Mais-Valia: História Crítica do
Pensamento Econômico. 3 vols. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, p.152).
176
“O trabalho cuja utilidade representa-se (...) no valor de uso de seu produto ou no fato de que seu produto é um valor de uso
chamamos, em resumo, trabalho útil. Sob esse ponto de vista é considerado sempre em relação ao seu efeito útil” (idem, O
Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988, p.50).
177
“O trabalho (...), o qual constitui a substância dos valores, é trabalho humano igual, dispêndio da mesma força de trabalho do
homem. A força conjunta da sociedade, que se apresenta nos valores do mundo das mercadorias, vale aqui como uma única e a
mesma força de trabalho do homem, não obstante ela ser composta de inúmeras forças individuais. Cada uma dessas forças de
trabalho individuais é mesma força de trabalho do homem como a outra, à medida que possui o caráter de uma força média de
trabalho social, e opera como tal forma de trabalho socialmente média, contanto que na produção de uma mercadoria não se
consuma mais que o trabalho em média necessário ou tempo de trabalho socialmente necessário” (idem, ibidem, p.48). Entretanto,
enfatiza Marx, “O trabalho que é medido dessa maneira, isto é, pelo tempo, aparece não como o trabalho de diferentes sujeitos,
mas ao contrário, os indivíduos diversos que trabalham aparecem como meros órgãos do trabalho” (idem, Contribuição à crítica
da Economia Política. São Paulo: Martins Fontes, 1977, p.33).
178
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.47.
179
Idem, ibidem, p.51.
180
Evidentemente o tempo de trabalho socialmente necessário muda “com cada mudança da força produtiva do trabalho. A força
produtiva do trabalho é determinada por meio de circunstâncias diversas, entre outras pelo grau médio de habilidade dos
trabalhadores, o nível de desenvolvimento da ciência e sua aplicabilidade tecnológica, a combinação social do processo de
produção, o volume e a eficácia dos meios de produção e as condições naturais” (idem, ibidem, p.48). “Genericamente, quanto
maior a força produtiva do trabalho, tanto menor o tempo exigido para a produção de um artigo, quanto menor a força produtiva
do trabalho, tanto menor o seu valor” (idem, ibidem, p.49), e vice-versa. Em suma, “a grandeza de valor de uma mercadoria
muda na razão direta do quantum, e na razão inversa da força produtiva do trabalho que nela se realiza” (idem, ibidem, p.49).
181
Idem, ibidem, p.48.
182
Em certa altura da exposição Marx pergunta como se mede a grandeza de valor de uma mercadoria; ao que ele responde: “Por
meio do quantum nele contido da ‘substância constituidora do valor’, o trabalho. A própria quantidade de trabalho é medida pelo
seu tempo de duração, e o tempo de trabalho possui, por sua vez, sua unidade de medida nas determinadas frações de tempo,
como hora, dia, etc.” (idem, ibidem, p.47). Na Contribuição..., diz Marx que “Tempo de trabalho é o modo vivo de ser do
trabalho, indiferente à sua forma, ao seu conteúdo, à sua individualidade; é o seu modo vivo de ser como quantidade, ao mesmo
tempo em que é sua medida imanente. O tempo de trabalho objetivado nos valores de uso das mercadorias é tão exatamente a
substância que os torna valores de troca, e daí mercadorias, como também mede sua grandeza determinada de valor” (idem,
Contribuição à crítica da Economia Política. São Paulo: Martins Fontes, 1977, p.33). E “Assim como o modo quantitativo de
existência do movimento é o tempo, o modo quantitativo de existência do trabalho é o tempo de trabalho” (idem, ibidem, p.33).

40
ainda bastante pobre em determinações, que será bastante desenvolvida no decorrer da
apresentação de Marx.

Não obstante, Marx constata que a mercadoria só vem-a-ser no processo de troca, na


relação com outra mercadoria: ela deve ser um não-valor de uso para seu possuidor, e ao mesmo
tempo possuir um valor de uso social, que a possibilita encontrar compradores. Analisando o
processo de troca, que se inicia com uma troca simples, Marx demonstra como aquela oposição
interna, aquela contradição ainda precária, exterioriza-se, para poder se mover e desenvolver.
Assim, uma mercadoria passa a valer em sua relação com outra mercadoria como valor de troca,
ao passo que a outra vale enquanto valor de uso. O desenvolvimento da oposição entre valor e
valor de uso é fundamental para o desenvolvimento da expressão de equivalência de mercadorias,
e portanto para a dedução da forma-dinheiro. A apresentação segue para a forma mercadoria
equivalente simples, tratando-a a partir de suas três peculiaridades, que “o valor de uso torna-se
forma de manifestação de seu contrário, do valor”183; que “o trabalho concreto se converte na
forma de manifestação de seu contrário, trabalho humano abstrato”184; e que “o trabalho privado
se converte na forma de seu contrário, trabalho diretamente social”185.

Ao demonstrar que o valor de uso é o pressuposto ou a base material, ou ainda o portador


ou suporte do valor, e que da mesma forma o trabalho de cada indivíduo não vale enquanto
trabalho concreto útil, mas apenas ao ser reduzido socialmente a trabalho abstrato e como
trabalho socialmente necessário, e ao aventar as inversões promovidas pela forma equivalente,
Marx começa a tematizar a negação do homem186 - que passa a valer apenas enquanto “órgão do

“Dado que o trabalho é movimento, sua medida natural é o tempo” (idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la
Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973, vol.I, p.140).
183
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.59.
184
Idem, ibidem, p.61.
185
Idem, ibidem, p.61.
186
Em uma passagem de O Capital, é dito que “Onde a necessidade de vestir o obrigou, o homem costurou durante milênios,
antes de um homem tornar-se alfaiate” (idem, ibidem, p.50); quando isso ocorre tem-se um novo tipo de inversão sujeito-
predicado, no qual o homem passa a ter como principal determinação a atividade laboral que exerce, e fica preso a ela como
Prometeu às correntes de Hefaísto. O homem não vale socialmente enquanto homem – que por negação de sua condição atual
poderia ser definido grosseiramente como o conjunto de suas possibilidades de existência -, mas vê essas possibilidades negadas
frente à determinação que lhe é atribuída pelo trabalho que realiza (sobre essa inversão, cf. “Dialética marxista, humanismo, anti-
humanismo”, em Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo I.
São Paulo: Brasiliense, 1987). Sobre tal processo histórico pode-se remeter à célebre passagem da Ideologia Alemã na qual Marx
e Engels asseveram que “... assim que o trabalho começa a ser dividido, cada um tem uma esfera de atividade exclusiva e
determinada que lhe é impingida e da qual não pode fugir; ele é caçador, pescador ou pastor ou crítico crítico e tem que continuar
a sê-lo se não quiser perder os meios para viver – ao passo que na sociedade comunista, onde ninguém tem uma esfera de
atividade exclusiva, mas pode se treinar em qualquer ramo de seu agrado, a sociedade regula a produção geral e me torna com
isso possível fazer hoje isso, amanhã aquilo, de manhã caçar, de tarde pescar, a noite cuidar do rebanho, depois da refeição fazer
crítica como me aprouver, sem jamais me tornar caçador, pescador, pastor ou crítico” (Marx, K., Engels, F. A Ideologia Alemã
(excertos). In: Karl Marx. Coleção Grandes Cientistas Sociais. São Paulo: Ática, 1989, p.199, tradução modificada com base em
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo I. São Paulo:
Brasiliense, 1987, p.297).
41
trabalho social” -, pela mercadoria, que se autonomiza. Assim, é preparada a exposição do
fetichismo da mercadoria, de seu caráter misterioso, o fato de que “ela reflete aos homens as
características sociais do seu próprio trabalho como características objetivas dos próprios
produtos de trabalho, como propriedades naturais sociais dessas coisas e, por isso, também
reflete a relação social dos produtores com o trabalho total como uma relação social existente
fora deles, entre objetos” 187 , de modo que as relações sociais entre os diferentes trabalhos
privados aparecem aos indivíduos como elas realmente são: “relações reificadas entre as pessoas
e relações sociais entre coisas”188.

Entretanto, as mercadorias não podem ir sozinhas ao mercado se trocarem, elas devem ser
levadas e trocadas como um ato de vontade de seus possuidores. Mas, com a exposição
precedente, percebe-se que a vontade dos indivíduos que intercambiam suas mercadorias reside
nas próprias coisas, ou melhor, esses indivíduos são apenas suportes das relações sociais entre
mercadorias. E é por isso que apenas após a exposição do fetichismo da mercadoria, Marx trata
do processo de troca, no segundo capítulo de O Capital.

Com o desenvolvimento da forma relativa e equivalente, no primeiro capítulo, havia


surgido o equivalente geral e o dinheiro, e essa determinação formal atribuída à mercadoria
expulsa do mundo das mercadorias é decisiva: através dela, a mercadoria que serve de
equivalente geral ganha um novo valor de uso, o de expressar o valor de todas as mercadorias, e
ser forçosamente o elemento mediador de seu intercâmbio. E diga-se de passagem que isso
explica o porquê da exposição do dinheiro suceder a da mercadoria, já que o dinheiro é também
uma mercadoria, mas uma mercadoria especial. Acompanhando esse movimento, o fetichismo
também avança, e surge o fetichismo do dinheiro: a função de equivalente geral não aparece
como um resultado das relações estabelecidas entre o conjunto das mercadorias, mas antes, como
uma propriedade natural do próprio equivalente geral, e as mercadorias não parecem ter no valor
um caráter constitutivo de si, mas sim um resultado da própria existência do dinheiro. Citando
Marx:

Uma mercadoria não parece tornar-se dinheiro porque todas as outras mercadorias
representam nela seus valores, mas, ao contrário, parecem todas expressar seus valores nela
porque ela é dinheiro. O movimento mediador desaparece em seu próprio resultado e não deixa
atrás de si nenhum vestígio. As mercadorias encontram, sem nenhuma colaboração sua, sua
própria figura de valor pronta, como um corpo de mercadoria existente fora e ao lado delas. Essas
coisas, ouro e prata, tais como saem das entranhas da terra, são imediatamente a encarnação direta

187
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.71.
188
Idem, ibidem, p.71.
42
de todo o trabalho humano. Daí a magia do dinheiro. A conduta meramente atomística dos
homens em seu processo de produção social e, portanto, a figura reificada de suas próprias
condições de produção, que é independente de seu controle e de sua ação consciente individual,
se manifestam inicialmente no fato de que seus produtos de trabalho assumem em geral a forma
mercadoria. O enigma do fetiche do dinheiro é, portanto, apenas o enigma do fetiche da
mercadoria, tornado visível e ofuscante189 ,190.

Tendo apresentado o processo de troca, Marx se dedica à análise do dinheiro e suas


múltiplas funções: medida de valores, padrão de preços, meio de circulação, meio de
entesouramento, meio de pagamento e dinheiro mundial. Nesse mesmo capítulo sobre o dinheiro,
Marx demonstra que é possível fazer um recorte do processo de troca, de modo a se apreender a
forma por excelência do intercâmbio de mercadorias no âmbito da circulação simples, o
movimento M-D-M (metamorfose da mercadoria em dinheiro e deste novamente em mercadoria),
na qual um possuidor de uma mercadoria que é um não-valor de uso para ele, vende sua
mercadoria a um possuidor de dinheiro que por ela se interessa, e com o dinheiro adquirido, ele
compra uma outra mercadoria, da qual pretende usufruir de algum modo. Nesse movimento, e
portanto, na circulação simples de mercadorias, o telos é o consumo e o que rege é a troca de
equivalentes. Daí Marx dizer que a esfera da circulação é o éden dos direitos naturais do homem,
onde reina unicamente a Liberdade, a Igualdade, a Propriedade e Benthan191.

Não obstante, ele mostra que outro corte no processo de troca também é possível,
obtendo assim o ciclo D-M-D, ou D-M-D’, no qual o dinheiro, ou melhor o processo de obtenção
de mais dinheiro ou de valorização, é o telos. Surge aqui o capital, mas lembremos que este tem
como pressuposto a circulação de mercadorias; e o dinheiro, o produto último dessa circulação, é
assim a primeira forma de aparição, ou de manifestação, ou ainda de existência, do capital192. E
daí a exposição da circulação simples e do dinheiro anteceder à do capital.

189
Idem, ibidem, p.85.
190
“O fetiche aqui não é tanto a transposição das relações sociais de troca na matéria do dinheiro – ouro ou prata – e sim a
manifestação do poder social de comandar o trabalho dos outros indivíduos como o poder que o dinheiro confere a seus
possuidores” (Grespan, J. L. O negativo do Capital. São Paulo, Hucitec, 1998, p.77). É por isso que nos Grundrisse, Marx
assevera que “Ele [o possuidor de dinheiro] carrega seu poder social, bem como seu nexo com a sociedade, no bolso” (idem,
Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973, vol.I, p.84,
tradução modificada com base em Grespan, J. L. O negativo do Capital. São Paulo, Hucitec, 1998, p.77).
191
“O que aqui reina é unicamente Liberdade, Igualdade, Propriedade e Benthan. Liberdade! Pois o comprador e vendedor de
uma mercadoria, por exemplo, força de trabalho, são determinados apenas por sua livre-vontade. Contratam como pessoas livres,
juridicamente iguais. O contrato é o resultado final, no qual suas vontades se dão uma expressão jurídica comum. Igualdade! Pois
eles se relacionam um com o outro apenas como possuidores de mercadorias e trocam equivalente por equivalente. Propriedade!
Pois cada um dispõe apenas sobre o seu. Benthan! Pois cada um só cuida de si mesmo. O único poder que os junta e leva a um
relacionamento é o proveito próprio, a vantagem particular, os seus interesses privados. E justamente, porque cada um só cuida
de si e nenhum do outro, realizam todos, em decorrência de uma harmonia preestabelecida das coisas ou sob os auspícios de uma
previdência toda esperta, tão-somente a obra de sua vantagem mútua, do bem comum, do interesse geral” (idem, O Capital:
crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988, p.141).
192
Cf. Marx, K., ibidem, p.121.
43
Salta aos olhos o fato de que um processo cujo ponto de partida e de chegada são
exatamente os mesmos é completamente “insosso e sem conteúdo” 193 . Mas no ciclo D-M-D
existe sim uma diferença, mesmo que apenas quantitativa. A quantidade de dinheiro ao final da
troca deve ser maior que a inicial, caso contrário o processo não faria sentido. No decorrer do
capítulo IV Marx demonstra que esse aumento do dinheiro, ou que a mais-valia, o quantum de
valor que excede o valor que entrou no processo de troca, não se explica pela venda da
mercadoria acima do preço, pelo logro mútuo, etc. Portanto, circunscrevendo-se à esfera da
circulação simples, onde vigora a troca de equivalentes, não é possível compreender o
surgimento da mais-valia, e conseqüentemente o processo de valorização. Faz-se necessário
adentrar o âmbito da produção simples de mercadorias, mas evidentemente não é por isso que se
pode prescindir da circulação simples, que é onde se realiza o valor, e portanto, é onde se efetiva
a valorização; e que também é pressuposto da produção simples, a qual não é compreensível sem
a circulação. Segundo Marx,

A transformação do dinheiro em capital tem de ser desenvolvida com base nas leis
imanentes ao intercâmbio de mercadorias, de modo que a troca de equivalentes sirva de ponto de
partida. Nosso possuidor de dinheiro, por enquanto ainda presente apenas como capitalista larvar,
tem que comprar as mercadorias por seu valor, vendê-las por seu valor, e, mesmo assim, extrair
no final do processo mais valor do que lançou nele. Sua metamorfose em borboleta tem de
ocorrer na esfera da circulação e não tem de ocorrer na esfera da circulação194. Hic Rhodus, hic
salta!195.

Esses são os termos do problema, e essa é a maneira como Marx lança o desafio de se
explicar a valorização do valor sem infringir a lei da troca de equivalentes, o que permite inferir
que não será através do valor de troca das mercadorias intercambiadas que se irá descobrir o
segredo da valorização, mas sim do valor de uso. E é sabido como ele transpõe Rhodus,
demonstrando que a valorização só pode ser explicada pelo fato de que o capitalista pode
encontrar no mercado uma mercadoria sui generis, a força de trabalho, que, como qualquer
mercadoria, é comprada pelo capitalista por seu preço, o qual no âmbito da circulação simples é
igual ao seu valor. E como ocorre com qualquer outra mercadoria, através de sua compra pelo
capitalista, que portanto respeita a lei da troca de equivalente, aquele ganha o direito de se valer

193
Idem, ibidem, 122.
194
E no capítulo V, podemos ler que “Todo este seguimento, a transformação de seu dinheiro em capital, se opera na esfera da
circulação e não se opera nela. Por intermédio da circulação, por ser condicionado pela compra da força de trabalho no mercado.
Fora da circulação, pois ela apenas introduz o processo de valorização, que ocorre na esfera da produção” (idem, ibidem, p. 153).
195
Idem, ibidem, p.134.
44
do valor de uso da força de trabalho como bem lhe aprouver, no âmbito da produção, durante o
período estabelecido no momento da troca196.

Temos aí um exemplo de um pressuposto que Marx tira da história, possibilitando o


desenvolvimento da apresentação categorial. Pois a existência de “livres” possuidores da
mercadoria força de trabalho, de trabalhadores assalariados, não é uma mera dedução lógica; ao
contrário, é resultado de um longo e complexo processo histórico - o qual será explicado apenas
no final do livro I, no capítulo XXIV -, e que de certa forma representa uma quebra na exposição
de O Capital, tal qual ela vinha sendo construída até então.

Longe de significar uma falha do método de apresentação, esse tipo de “incursão


histórica”, em busca de pressupostos e mediações históricas, é um recurso mobilizado
conscientemente por Marx, de modo a responder às exigências que lhe são impostas pelo seu
objeto. Em suas palavras, “A forma dialética da exposição só é correta quando reconhece seus
próprios limites”, e “... nosso método põe de manifesto os pontos em que tem que se introduzir a
análise histórica, ou nos quais a economia burguesa como mera forma histórica do processo de
produção aponta para além de si mesma aos precedentes modos de produção históricos”197.

Com isso se evidencia que o método recursivo-progressivo de Marx - que tendo como
ponto de partida efetivo o concreto, submerge até atingir o nível mais abstrato, mais geral e
simples, para em seguida paulatinamente trilhar o caminho inverso, de modo a se apreender o
concreto enquanto “concreto pensado” 198 , enquanto “síntese de múltiplas determinações” 199 ,
abandonando a “representação caótica do todo” 200 - não se trata apenas de “determinações
conceituais e da dialética desses conceitos”. Citando Grespan, em O Negativo do Capital, “Para
Marx, o desenvolvimento real do objeto não pode ser constituído pela própria exposição dele,
porque não é presidido pela dialética de seu conceito que se torna efetivo ao expor, como seria o
caso do projeto hegeliano de demonstrar que a razão tem em si o poder de se realizar e é
justamente este poder de realização”201. Como assevera Marx, “[O método recursivo-progressivo

196
Vê-se, desse modo, a impossibilidade de se passar diretamente do trabalho ao capital, sem a mediação do dinheiro, da mesma
forma como não se poderia tratar do capital sem referência ao trabalho. Nas palavras de Marx, “Para alcançar o conceito de
capital, é necessário partir do valor e não do trabalho, e concretamente do valor de troca já desenvolvido no movimento da
circulação. É tão impossível passar diretamente do trabalho ao capital, como passar diretamente das diversas raças humanas ao
banqueiro ou da natureza à máquina à vapor” (idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política
(borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973, vol.I, p.198-9).
197
Idem, ibidem, p.422.
198
Idem, Introdução aos Esboços de uma Crítica da Economia Política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Abril, 1982, p.40.
199
Idem, ibidem, p.39.
200
Idem, ibidem, p.39.
201
Grespan, J. L. O negativo do Capital. São Paulo, Hucitec, 1998, 39.
45
– G.M.] não é de modo nenhum o processo da gênese do próprio concreto”202. Ao contrário, ele
trata de apresentar a realidade capitalista apreendendo a articulação das diferentes categorias
econômicas dentro da sociedade burguesa.

Por outro lado, obviamente Marx não está produzindo uma narrativa histórica.
Sintetizando essa discussão, ele diz que

Seria, pois, impraticável e errôneo colocar as categorias econômicas na ordem segundo a


qual tiverem historicamente uma ação determinantes. A ordem em que se sucedem se acha
determinada, ao contrário, pelo relacionamento que têm umas com as outras na sociedade
burguesa moderna, e que é precisamente o inverso do que parece ser uma relação natural, ou do
que corresponde à série do desenvolvimento histórico. Não se trata das relações que as relações
econômicas assumem historicamente na sucessão das diferentes formas de sociedade. Muito
menos sua ordem de sucessão ‘na idéia’ (...). Trata-se de sua articulação dentro da sociedade
burguesa moderna203.

Em função disso, o processo de apresentação conceitual deve proceder a um processo de


investigação, a qual “... deve apropriar-se detalhadamente do seu material, analisar as suas
diversas formas de desenvolvimento e rastrear seu nexo interno. Somente depois de consumado
este trabalho, pode ser adequadamente apresentado o movimento efetivamente real. Conseguido
isto, e se a vida do material se espelha idealmente, pode parecer que se tem a ver com uma
construção ‘a priori’”204. Assim, cabe à pesquisa a descoberta da racionalidade própria do objeto,
da articulação, do “nexo interno” entre as diferentes categorias econômicas, que permite
apreender e apresentar o seu “movimento efetivamente real”. Em outras palavras, deve-se
apreender a “lógica da coisa” sobre a qual Marx já falava em sua Crítica da filosofia do direito
de Hegel, em oposição a Hegel, o qual se ocuparia com as “coisas da Lógica”205,206.

Ocorre que Marx se depara com um objeto, o modo de produção capitalista, que é
contraditório, já que sua realidade se desdobra em essência e aparência, que se negam
mutuamente e se constituem através desta negação207. O movimento poderia ser apresentado, em
uma primeira aproximação, da seguinte forma: a essência do modo de produção capitalista é

202
Marx, K. Introdução aos Esboços de uma Crítica da Economia Política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Abril, 1982,
p.40.
203
Idem, ibidem, p.45, tradução modificada.
204
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988, p.
26, tradução modificada com base em Grespan, J. L. O negativo do Capital. São Paulo, Hucitec, 1998, p.39.
205
Idem, Crítica da filosofia do Direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2005, p.39 e p.67.
206
“... temos de descrever o processo de circulação ou o processo de reprodução, antes de descrever o capital pronto e acabado –
capital e lucro –, uma vez que temos de explicar como o capital produz e, ademais, como é produzido. O movimento real, porém
parte do capital existente; o movimento real é o que se faz na base da produção capitalista desenvolvida, que parte de si mesma e
pressupõe a si mesma” (idem, Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. 3 vols. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1980, p.948).
207
“... toda a ciência seria supérflua se a forma de manifestação e a essência das coisas coincidissem imediatamente” (idem, O
Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro III, tomo IV. 1986, p.271).
46
contraditória e se exterioriza, põe uma aparência que ao mesmo tempo em que nega e vela sua
essência, permite que a contradição que a constitui se mova. No Livro Primeiro de O Capital a
produção imediata, a valorização do valor no âmbito da fábrica, por assim dizer, revela-se como
a essência da sociedade capitalista, e a circulação simples enquanto sua aparência. E a igualdade
abstrata que nesta predomina, ao mesmo tempo vela e permite que se reproduza a desigualdade
essencial entre capitalistas e trabalhadores.

Marx percebe que existe um “elemento” totalizador na sociedade capitalista - o capital -,


que é fundamentalmente contraditório: essa relação social, que tem como substância o trabalho
abstrato, precisa rebaixar a força de trabalho a um momento de si, reduzindo-a à condição de
capital variável (parte do capital que possibilita a valorização do valor, e por isso é designada
“variável”), e lhe fazer oposição. Para tanto, reduz-se a si próprio à capital constante, aos meios
de produção (parte do capital que apenas transfere seu valor aos produtos, mediante a ação do
trabalhador, e daí ser chamada por Marx de “constante”). Com isso, constitui-se enquanto
totalidade formal. Entretanto, e ao mesmo tempo, precisa impedir que o trabalho, seu Outro,
constitua-se por seu turno enquanto totalidade, e para isso, não permite que o trabalhador se
aproprie dos meios de produção e do produto total do trabalho, o que significaria a negação do
capital, e sua superação (Aufhebung). Assim o capital ao mesmo tempo precisa incluir e negar a
força de trabalho208.

Nesse processo, vê-se que o capital “domina as condições de sua própria valorização e se
apresenta como ‘sujeito’ deste processo”209. Mas isso se revela como uma tendência, e merece
maiores qualificações. Viu-se que o capital procura incessantemente se elevar à condição de
sujeito, mas que, não obstante, sua substância, o trabalho, ser-lhe-á sempre e forçosamente
exterior, e sempre será negada pelo capital. Daí Marx rotular o capital de sujeito “cego e
automático”, já que ele não tem em si próprio sua substância, a qual daria uma forma adequada a
sua existência. Muito diferente, portanto, do sujeito hegeliano, que é definido como o agente e
resultado do processo dialético que se auto-desenvolve reflexionando-se em seus próprios
predicados, e se compreende a si próprio nesse processo ativo, sendo por conseguinte em-si, por-

208
Segundo Grespan, “Ao incluir o trabalho vivo como seu momento, como capital variável, o capital se apresenta como uma
totalidade formalmente estabelecida, sendo pela formalidade desta subsunção, que ele domina as condições de sua própria
valorização, e se apresenta como o sujeito deste processo. Por um lado, no entanto, o poder ‘vampiresco’ do capital revela sua
dependência da vitalidade do trabalho, cuja objeção constitui a ‘substância’ do valor das mercadorias, pois apenas ‘sugando o
trabalho vivo’ o ‘morto’ retorna a vida e nela permanece” (Grespan, J. L. O negativo do Capital. São Paulo, Hucitec, 1998,
p.139).
209
Idem, ibidem, p. 139.
47
si e para-si, uma substância que por sua própria conta dá-se uma forma adequada de existência, e
tem consciência desse processo210.

Percebe-se com isso que a exposição de O Capital, ao responder ao objeto e a seu


movimento, corresponde ao processo de subjetivação do capital, ou do desenvolvimento do
fetichismo, que tem no capital sua principal expressão, e no capital a juros (o dinheiro que
imediatamente gera dinheiro211) seu paroxismo. Assim, esse movimento de totalização que se
desenrola na sociedade capitalista possui inumeráveis desdobramentos, não se restringindo a essa
relação entre capital e trabalho no âmbito da produção imediata 212 . Ao contrário, o caráter
totalizante e totalitário do capital faz com este tenda a subsumir todas as categorias econômicas e
todas as esferas da vida social213. Nas palavras de Marx o capital é “... a potência econômica da
sociedade burguesa, que domina tudo. [E] Deve constituir o ponto inicial e o ponto final...”214; é
por isso que a apreensão da sociedade burguesa enquanto totalidade deve ser feita mediante o
desenvolvimento de seu fundamento contraditório, processo no qual as diferentes categorias se
revelam como formas de manifestação da contradição constitutiva do capital.

E é também por isso que Marx procede à elaboração de uma “crítica dialética” à
Economia Política, através da qual ele consegue encarar a contradição e desenvolvê-la em seus
diferentes momentos, fazendo as devidas mediações 215 . Levando a cabo essa crítica, Marx
demonstra que a principal falha da Economia Política “clássica” - e não os desvarios
apologéticos e a pobre ideologia encarnada e propalada pela economia vulgar (de Bastiat, Say,
etc.) - consiste justamente no fato de que ela, apesar de ter apreendido o fundamento da

210
Cf., por exemplo, Hegel, G. W. F. A Razão na História. Lisboa: Edições 70, 1995, p.31.
211
“De todas essas forma, porém o fetiche mais completo é o capital produtor de juros. Nele temos o ponto de partida original do
capital – o dinheiro – e a fórmula D-M-D’ reduzida aos dois extremos D-D’. Dinheiro que gera mais dinheiro. É a fórmula
primitiva e geral do capital, contraída numa súmula absurda” (idem, Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento
Econômico. 3 vols. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, p.1495).
212
Não obstante, “Para entender como Marx define o poder do capital, tanto no seu aspecto real quanto no mistificador, é preciso
entender, antes de mais nada, como ele concebe a lógica conforme a qual se estrutura a relação entre trabalho e capital” (Grespan,
J. L. O negativo do Capital. São Paulo, Hucitec, 1998, p.118).
213
O capital possui um impulso “de dominar as condições de sua existência e de convertê-las em momentos da sua relação
consigo próprio” (idem, ibidem, 157). Nas palavras de Marx, “Todas as formas anteriores de propriedade condenaram a maior
parte da humanidade, os escravos, a serem puros instrumentos de trabalho. O desenvolvimento histórico, o desenvolvimento
político, a arte, a ciência se processam nas altas esferas, por sobre eles. Foi o capital que capturou pela primeira vez o progresso
histórico a serviço da riqueza” (Marx, K. Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador).
Argentina: Siglo Veintiuno, 1973, vol.II, p.91-2).
214
Idem, Introdução aos Esboços de uma Crítica da Economia Política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Abril, 1982, p.45.
215
Pois, como Marx constatara desde cedo, grosso modo a partir de sua Crítica à Filosofia do Direito de Hegel, de 1843, a
“anatomia da sociedade burguesa deve ser procurada na Economia Política” (idem, Prefácio de 1859 (à obra Para a Crítica da
Economia Política). Coleção Os Economistas. São Paulo: Abril, 1982, p.51), já que ela trata das relações sociais de produção,
utilizando e produzindo categorias que “são formas de pensamento socialmente válidas e, portanto, objetivas para as condições
de produção desse modo social de produção, historicamente determinado, a produção de mercadorias” (idem, O Capital: crítica
da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988, p.73), como diz Marx no
primeiro capítulo de O Capital. Conceitos e categorias econômicas, ou da Economia Política “clássica” são expressões em
pensamento de relações econômicas efetivas, reais, portanto, mesmo que freqüentemente mistificadas ou invertidas.
48
sociedade capitalista, não conseguiu lidar com seu caráter contraditório; antes, fez de tudo para
expulsar a contradição, e com isso se viu às voltas com todo tipo de contradições vulgares. Em
Teorias da Mais-Valia, Marx assevera que: “Em Ricardo, a unilateralidade vem dele querer
demonstrar que as diversas categorias ou relações econômicas não contradizem a teoria do valor,
em vez de, ao contrário, desenvolvê-las junto com suas contradições aparentes a partir deste
fundamento ou expor o desenvolvimento deste fundamento mesmo216”217.

De todo modo, Marx apreende as premissas e proposições dos economistas “clássicos”, e


por meio de sua crítica, leva-as às últimas conseqüências, de modo a demonstrar as aporias e as
contradições do discurso da economia política, as quais expressam as contradições do próprio
capital. Tão logo Marx apreende seu objeto como contraditório, e expõe suas contradições, tal
exposição torna-se dialética, e a apropriação crítica da dialética hegeliana mostra sua importância
para a apreensão crítica da estrutura e da dinâmica da sociedade capitalista. Malgrado o caráter
de crítica à Economia Política, vale notar, Marx não reproduz simplesmente sua forma de
apresentar as categorias, mas promove uma radical rearticulação delas, no bojo do processo de
crítica 218 . Entretanto, apesar da importância dessa crítica, nunca se deve perder de vista: a
Economia Política só é material para a constituição de conhecimento crítico acerca do real
naquilo em que ela logrou apreender do real – de modo parcial e fetichista, por certo -, em uma
complexa relação entre a crítica e a mistificação219.

216
Porém, vale dizer de passagem que as limitações da Economia Política clássica não se devem a uma falta de perspicácia dos
seus representantes, ou algo do gênero; ao contrário, explica-se pelo fato de que apreender o caráter contraditório da sociedade
capitalista implica em concebê-la como histórica e historicamente limitada, significa apreender no positivo a sua própria negação,
significa perceber que o positivo se encontra na verdade inserido no negativo, significa talvez chegar à dialética não-idealista,
que é crítica e revolucionária e não se deixa impressionar por nada, como diz Marx no célebre posfácio à segunda edição alemã
de O Capital (idem, ibidem, p.26). Nas palavras de Marx, “Os economistas não concebem o capital como relação. Não podem
fazê-lo se ao mesmo tempo não o concebem como forma historicamente transitória, relativa, não absoluta da produção” (idem,
Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. 3 vols. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, p.1322).
217
Idem, ibidem, p.580, tradução modificada.
218
Segundo Grespan, “é a crítica que permite a exposição assumir a forma dialética. Por outro lado, não se trata de uma crítica
qualquer, mas da que vai ‘até um ponto’ determinado, a partir do qual os próprios conceitos da ciência resultam em seus opostos.
Se inicialmente a crítica aparece como exterior à Economia Política, que é só ‘levada’ por ela, depois deste ‘ponto’ específico são
os conceitos dela que se apresentam ‘dialeticamente’ e a crítica se determina por seu movimento próprio. Se no primeiro sentido
a ‘crítica’ é um requisito da forma dialética da exposição, é para depois aparecer como conseqüência desta forma mesma, isto é,
do movimento em que os conceitos da Economia Política se desenvolvem ‘até o ponto’ em que exigem sua própria
transformação” (Grespan, J.L. A crise na crítica da Economia Política. In: A Obra Teórica de Marx: Atualidade, problemas e
interpretações, São Paulo: Xamã Editora, 2001, p.232).
219
Grosseiramente falando, nos momentos históricos de surgimento e consolidação do capitalismo, a Economia Política se torna
arma de combate à formação social que fenecia, e de afirmação dos ideais e práticas burguesas. Daí sua busca por desvendar o
funcionamento profundo – a essência – da sociedade que nascia e florescia, e daí seus conteúdos críticos e apologéticos, tão
imbricados. Tão logo se assenta o capitalismo como modo de produção dominante e se acirram seus antagonismos inerentes, a
efetiva compreensão sobre seu movimento, e portanto suas contradições, torna-se uma fraqueza passível de ser explorada por
seus adversários – como de fato ocorreu -, e os conteúdos apologéticos se sobrepõem aos críticos, sufocando-os. Floresce assim a
economia vulgar - ocupada sobretudo em descrever os fenômenos mais superficiais da economia capitalista e justificá-la -, e a
economia “catedrática” - ainda mais degradada, buscando voluntária ou involuntariamente em seus manuais apagar a história que
produziu o surgimento das modernas teorias econômicas junto com os embates que se deram no interior dessa ciência, e que
expressavam decisivos embates entre classes que se travaram fora do âmbito epistolar e livresco -, tudo isso ao mesmo tempo em
49
Antes de darmos continuidade à exposição, deve-se atentar para mais um elemento
anteriormente mencionado: com a posição do capital, no quarto capítulo de O Capital, tem-se
uma inflexão na exposição, que inclusive modifica os resultados atingidos anteriormente; dá-se o
que se poderia denominar “determinação retroativa”: como foi dito, a circulação simples de
mercadorias, onde domina a igualdade entre os possuidores de mercadorias e a troca de
equivalentes, revela-se enquanto aparência, e a produção simples, na qual se produz e reproduz a
desigualdade entre trabalhadores e capitalistas, revela-se enquanto essência do modo de
produção capitalista. Ambas se põem e pressupõem mutuamente, negam-se e se constituem,
reciprocamente, mas a essência subordina a aparência, mostra-se como dominante frente a ela. O
princípio motor e a finalidade última da produção capitalista, nesse momento da apresentação
categorial, consistem na valorização do valor, e não na produção de mercadorias para consumo, a
qual evidentemente não deixa de existir e de ter sua importância.

Eis aí mais um importante aspecto do método de exposição de Marx. De uma perspectiva


dialética não existem axiomas, tudo deve ser demonstrado, e tudo é a um tempo posto e
pressuposto dos demais momentos da apresentação 220 . Mas ao se caminhar no sentido da
concreção, os próprios resultados atingidos nas análises dos níveis mais abstratos sofrem
alterações decisivas, de modo que é apenas no final dessa dura estrada que se tem a real
apreensão não só da totalidade, como também de seus diversos momentos constitutivos.

Em sentido parecido, pode-se como o desenrolar da apresentação desemboca na chamada


“inversão da lei de apropriação”. Até a sétima seção do primeiro livro de O Capital, apesar de
demonstrar que o capital é valor que se valoriza, e que só existe no processo de valorização,
Marx não analisa o processo de contínua reprodução do capital, o qual desfaz algumas
aparências capciosas, na medida em que demonstra a internalização de pressupostos do capital e
a sua conversão em momentos deste, que outrora eram introduzidos “de fora”. Percebe-se com a
análise da reprodução, mas ainda no âmbito da produção direta, que todos os elementos do
processo produtivo constituem resultados de uma pretérita exploração do trabalho. Com a
reiteração do processo de troca da força de trabalho por dinheiro e do processo de produção,

que ouvidos atentos como o de Marx percebiam os estertores da “economia clássica” (cf. Marx, K. O Capital: crítica da
economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988, p.22-24, e Marx, K. Teorias da
Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. 3 vols. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, p.1538-1540).
220
“Toda precondição do processo social de produção é ao mesmo tempo seu resultado, e cada um de seus resultados revela-se
ao mesmo tempo precondição” (idem, ibidem, p.1544). “... no sistema burguês acabado cada relação econômica pressupõe a
outra sob a forma econômico-burguesa, e assim cada elemento posto é ao mesmo tempo suposto, tal é o caso com todo sistema
orgânico. Este mesmo sistema orgânico em sua totalidade tem seus pressupostos,e seu desenvolvimento até alcançar a totalidade
plena consiste precisamente [em que] se subordina todos os elementos da sociedade, o em que cria os órgãos que ainda o fazem

50
mostra-se que são os trabalhadores que adiantam tudo aquilo que pertence aos capitalistas, e
permitem o constante aumento de seu patrimônio. Aquele dinheiro com o qual o capitalista
comanda uma crescente força de trabalho, bem como meios de produção, para novos ciclos
produtivos, consiste na mais-valia que ele obteve dos ciclos anteriores, e que ele deve reaplicar
na produção, de modo a lograr nova acumulação.

Desse modo, desvanece a aparência de que o capitalista, na condição de possuidor de


capital em forma-dinheiro - o qual teria obtido previamente e de maneira independente do
processo produtivo -, vai ao mercado adquirir força de trabalho, deparando-se com o trabalhador,
um igual possuidor de mercadorias. Nas palavras de Marx,

[Com a reprodução do capital] desaparece até a aparência que a relação apresentava à


superfície e segundo a qual se defrontam na circulação, no mercado, possuidores de mercadorias
dotados de prerrogativas iguais, os quais, como todos os demais possuidores de mercadorias, só
se diferenciam entre si pelo conteúdo particular das mercadorias que dispõem para vender um ao
outro. Ou então, esta forma original da relação subsiste apenas como aparência da relação que lhe
serve de base, da relação capitalista221,222.

Ainda no primeiro livro de O Capital, nota-se claramente que o modo de produção


capitalista possui não apenas uma gênese histórica, analisada por Marx no capítulo XXIV, “a
acumulação originária”, mas também uma história que é exposta no decorrer da obra223. Mas
antes, retrocedamos um pouco.

Vimos que, da perspectiva ora adotada e em seus aspectos estritamente teóricos, pode-se
dizer que o projeto marxiano consiste na tentativa de criticamente apreender e expor o processo
de subjetivação do capital – e o correspondente processo de reificação humana. Suas diversas
proposições e conceitos, bem como a forma de sua exposição - que pretende ser a expressão
correta do modo de produção capitalista – respondem ao caráter contraditório de seu objeto
fundamental, o capital, e são portanto dialéticas. Em seu desenvolvimento a contradição
constitutiva do capital se torna mais e mais complexa, e assume as mais diversas formas, nunca
se neutralizando. Tais formas devem ser apresentadas articuladamente – como o são realmente –

falta a partir daquela” (idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo
Veintiuno, 1973, vol.I, p.220).
221
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988,
p.136.
222
“A relação de intercâmbio, pois, deixou cabalmente de existir ou é mera aparência” (idem, Elementos Fundamentales para la
Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973, vol.I, p.419). E “... originalmente o direito de
propriedade se apresentava baseado sobre o trabalho próprio. A propriedade se apresenta agora como direito ao trabalho alheio e
como impossibilidade, por parte do trabalho, de apropriar-se de seu próprio produto. A separação radical entre a propriedade e
ainda mais entre a riqueza e o trabalho se apresenta agora como conseqüência da lei que partia de sua identidade” (idem, ibidem,
p.419).
223
Evidentemente, o mesmo vale para os processos imediatos de produção e de circulação, mas em função do objeto em questão,
darei atenção apenas ao primeiro, no que impacta na conceituação de trabalho produtivo e improdutivo.
51
da mais simples à mais rica em determinações, e daí a importância da investigação sobre o
trabalho e seu duplo caráter224, a qual explica não só a contradição inerente à forma mercadoria,
mas aponta para seu desdobramento e desenvolvimento em diversos sentidos e fornece a chave
para sua explicação, como veremos ao tratar brevemente do processo de trabalho e de
valorização225.

Não obstante, é o caso de falar algo mais sobre o conceito de trabalho abstrato, não
somente por ser ele central para a teoria do valor de Marx, mas também pelo fato de que sua
correta apreensão propicia uma importante chave para a crítica da interpretação que fazem Gorz
e Negri da obra marxiana, e da teoria social desses autores em sentido mais amplo.

Muitas leituras vulgares de O Capital, tanto por parte de críticos de Marx, quanto de
marxistas, tomam o conceito de trabalho abstrato como idêntico à noção de trabalho em geral,
reduzindo-o ao nível fisiológico ou “subjetivando” o conceito, fazendo-o “a representação
abstrata do trabalho em geral”226. Ao contrário, é fato que o conceito de trabalho abstrato não
elimina a “realidade biológica” do trabalho, ou a generalidade em sentido fisiológico (“dispêndio
de cérebros, músculos, nervos, mãos, etc. humanos”, como citado anteriormente), mas tal
generalidade é em certo sentido o pressuposto material do trabalho abstrato, necessário à sua
existência, à sua posição: não obstante, é tal posição que constitui o trabalho abstrato. É evidente
que a representação “trabalho em geral” existiu em diferentes momentos históricos, mas é apenas
no capitalismo que o trabalho de cada indivíduo só vale enquanto trabalho em geral, trabalho
abstrato simples, trabalho socialmente necessário, ou ainda que o indivíduo só vale enquanto
trabalhador que objetiva trabalho abstrato, e respeitando um certo mínimo estabelecido pela
concorrência com outros trabalhadores. Do contrário, ele é socialmente inútil, fadado à penúria

224
Não é à toa que Marx constata em mais de uma oportunidade que a descoberta do duplo caráter do trabalho é uma de suas
grandes contribuições teóricas à crítica da Economia Política e do capital. Em carta a Engels de 24 de agosto de 1867, diz ele que
“Os melhores pontos do meu livro [O Capital – G.M.] são: 1) o duplo caráter do trabalho, de acordo com que ele se expressa em
valor de uso e valor de troca. (Toda compreensão dos fatos dependem disso). (...); 2) o tratamento da mais-valia
independentemente de suas formas particulares como lucro, juros, renda da terra, etc.” (Marx, K., Engels, F. Selected
Correspondence. Moscou: Progress Publishers, 1965, p.192). Cf. também carta de 8 de janeiro de 1868, in: Marx, K., Engels, F.
Selected Correspondence. Moscou: Progress Publishers, 1965, p.198.
225
Não cabem aqui grandes aprofundamentos conceituais, pois não tenho o objetivo de apresentar os conceitos abordados em
toda sua complexidade e em todos os seus momentos de desenvolvimento - como foi dito, o avanço da exposição e a conseqüente
diminuição do nível de abstração faz com que se modifiquem os conceitos antes apresentados por acréscimo de determinações
(no processo que chamamos de determinação retroativa), os quais são ressignificados em seu papel no dentro do conjunto da
teoria marxiana -, tampouco dar conta das tantas interpretações e querelas que surgiram ao seu redor desde que foram
desenvolvidos por Marx; isso por um lado tornaria o texto por demais extenso e carregado, por outro, creio que boa parte dos
debates que se produziram no interior do marxismo e entre Marx, os marxistas e seus críticos, tem sua origem no
desconhecimento do método marxiano, na má-fé, e na incompreensão acerca da “paciência do conceito” (cf. (Marx, K., Engels,
F. Selected Correspondence. Moscou: Progress Publishers, 1965, p.191), ao que as considerações metodológicas tecidas
anteriormente dão alguma resposta.
226
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo I. São Paulo:
Brasiliense,1987, p.89.
52
material, à inanição, etc. O momento fundamental aí, e muitas vezes ignorado, é não o da
generalização, mas o da redução, a eliminação de toda a riqueza de determinações que
caracterizam o trabalho concreto, e a redução do trabalhador que o realiza à condição de um
produtor de trabalho abstrato, independentemente do seu conteúdo material.

Logo, através de um processo historicamente determinado a generalidade fisiológica dos


trabalhos é socialmente posta de tal forma que surge um universal concreto: têm-se ao mesmo
tempo universalidade e singularidade como demonstra Ruy Fausto. Sintetizando a discussão,
esse autor assevera que o “trabalho abstrato não é nem uma construção do espírito, embora o
espírito a reproduza, nem um generalidade fisiológica: é o movimento da abstração, que se opera
no próprio real”227,228. Nas palavras de Marx, ao se abstrair o valor de uso das mercadorias no
processo de sua igualação e troca “resta a elas apenas uma propriedade, que é a de serem
produtos do trabalho”229, dos quais “todas as (...) qualidades sensoriais se apagaram”230. Porém,
“ao desaparecer o caráter útil dos produtos do trabalho, desaparece o caráter útil dos trabalhos
neles representados, e desaparecem também, portanto, as diferentes formas concretas desses
trabalhos, que deixam de diferenciar-se um do outro para reduzir-se em sua totalidade a igual
trabalho humano, a trabalho humano abstrato” 231 . Falando claramente, “esta redução aparece
como uma abstração, mas é uma abstração que se faz diariamente no processo da produção
social” 232 , não sendo portanto, um mero produto do cérebro humano ou uma simples
“fantasmagoria”.

227
Idem, ibidem, p.123, nota 4.
228
“No interior da relação de valor e da expressão de valor que está incluída nela o abstrato universal não vale como propriedade
do concreto, do sensível efetivo, mas pelo contrário o sensível-concreto [só vale – RF] como pura forma fenomenal ou forma de
realização efetiva determinada do abstrato universal. Por exemplo, o trabalho do alfaiate que está contido no equivalente casaco
não possui, no interior da expressão de valor da tela, a propriedade geral de ser também trabalho humano. Pelo contrário. Ser
trabalho humano vale como sua essência, ser trabalho do alfaiate [só vale – RF] como forma fenomenal ou forma de realização
efetiva determinada desta sua essência (...) Esta inversão pela qual o sensível-concreto só vale como forma fenomenal do
abstrato-universal, em vez do abstrato-universal valer, pelo contrário, como propriedade do concreto, [tal inversão - RF]
caracteriza a expressão de valor, ela torna ao mesmo tempo difícil a sua compreensão. Se eu disser: o direito romano e o direito
alemão são ambos direitos, isto é evidente. Mas se, pelo contrário, eu disser: o direito, este abstrato, se realiza efetivamente no
direito romano e no direito alemão, o contexto torna-se então místico” (Marx citado por Fausto, R. ibidem, p.102). E essa
inversão deve, forçosamente, ter expressão no discurso: “Que o paradoxo da realidade efetiva se exprime assim em paradoxos da
linguagem, que contradizem o senso comum, o que os vulgares pensam e acreditam dizer, isto é evidente. As contradições que
nascem do fato de que, sobre a base da produção de mercadorias, o trabalho privado se apresente como social, geral, que as
relações pessoais se apresentam como relações entre coisas e como coisas – essas contradições residem na coisa, não na
expressão verbal da coisa” (Marx citado por Fausto, R. ibidem, p.102). Assim, o trabalho abstrato é uma “coisa social”, e “Nesta
acepção de ‘coisa social’, o valor não é simplesmente diverso do valor-de-uso, já que o trabalho abstrato não é mero gênero que
abrange os trabalho concreto-específicos’, distinguindo-se deles só por isso; é também uma ‘substância’, algo real que se opõe a
eles, pois sua realidade é a de um processo que os subordina e controla” (Grespan, J. L. O negativo do Capital. São Paulo,
Hucitec, 1998, p.65).
229
Marx, K. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.47.
230
Idem, ibidem, p.47.
231
Idem, ibidem, p.47.
232
Idem, Contribuição à crítica da Economia Política. São Paulo: Martins Fontes, 1977, p.34.
53
Como resultado dessa abstração real, do “resíduo dos produtos do trabalho”, nada sobrou
“a não ser a mesma objetividade fantasmagórica, uma simples gelatina de trabalho humano
indiferenciado, isto é, do dispêndio de força de trabalho humano, sem consideração pela forma
como foi despendida. O que essas coisas ainda representam é apenas que em sua produção foi
despendida força de trabalho humano, foi acumulado trabalho humano. Como cristalizações
dessa substância social comum a todas elas, são elas valores – valores mercantis”233. Portanto,
“O que há de comum, que se revela na relação de troca ou valor de troca da mercadoria, é,
portanto, seu valor”234, que existe à medida que na mercadoria foi “objetivado ou materializado
trabalho humano abstrato”235,236.

Logo, evidencia-se já aqui que a teoria do valor de Marx nada tem a ver com uma teoria
de preços relativos, ou uma mera “teoria da medida do valor”; um de seus momentos essenciais é
a descoberta do valor como forma social e o trabalho abstrato como sua substância, bem como de
seu movimento no processo de constituição e nos distintos momentos do conceito de capital
(construído ao longo de toda a obra, e apontando para além dela, para a análise do Estado, do
comércio exterior, do mercado mundial...). Do contrário, não teria cabimento investigar o
fundamento do valor, seu caráter historicamente determinado, bastando, como faz a ortodoxia
econômica contemporânea, permanecer na superfície do sistema econômico onde só existiriam
preços e agentes racionais maximizando sua utilidade, realidade mais ou menos compatível com
modelos de equilíbrio geral. Os ônus desse procedimento, por exemplo a eliminação do caráter
específico do dinheiro (e portanto a exclusão do dinheiro dos modelos econômicos), e a
impossibilidade de se explicar racionalmente e prever as crises econômicas, tornar-se-iam
perfeitamente aceitáveis frente ao elevado grau de sofisticação formal dos modelos, a sua
inacessibilidade aos não-especialistas – ambos com importantes efeitos ideológicos e
apologéticos -, e a relativa capacidade de se prever o preço dos tubérculos no próximo trimestre.

Mas vejamos melhor o conceito de trabalho abstrato com base na Introdução de 1857. Lá,
Marx constata que “o trabalho parece ser uma categoria bastante simples. E a concepção do
trabalho nessa forma geral – como trabalho em geral – é também incomensuravelmente antiga.
No entanto, concebido economicamente nessa simplicidade, o ‘trabalho’ é uma categoria tão

233
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.47.
234
Idem, ibidem, p.47.
235
Idem, ibidem, p.47.
236
Para uma discussão mais detalhada sobre o tema, cf. o texto “Abstração real e contradição: sobre o trabalho abstrato e o
valor”, em Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo I. São
Paulo: Brasiliense, 1987.
54
moderna quanto são as relações que criam essa simples abstração” 237 . Ou seja, existe uma
diferença entre a representação do trabalho enquanto trabalho em geral, e sua concepção
enquanto categoria econômica: antes de ser concebida, no sentido de apreendida enquanto
conceito, a abstração deve se efetivar na própria realidade, sendo portanto um produto das
relações sociais efetivas.

Isso se clarifica em uma passagem subseqüente, que merece ser citada na íntegra, apesar
de sua extensão:

A indiferença frente ao gênero de trabalho determinado pressupõe uma totalidade muito


desenvolvida de gêneros de trabalho efetivos, dos quais nenhum domina os demais. Como regra,
as abstrações mais gerais surgem somente em meio ao desenvolvimento concreto mais rico, onde
um aparece como comum a muitos, comum a todos. Então não pode mais ser pensado somente
sob uma forma particular. Por outro lado, essa abstração do trabalho em geral não é apenas o
resultado intelectual de uma totalidade concreta de trabalhos. A indiferença em relação ao
trabalho determinado corresponde a uma forma de sociedade na qual os indivíduos podem
facilmente passar de um trabalho a outro, e na qual o gênero determinado de trabalho é fortuito, e,
portanto, é-lhes indiferente. Não somente como categoria, mas também na realidade efetiva o
trabalho se converteu em um meio de produzir riqueza em geral, deixando, como determinação,
de se confundir com o indivíduo em sua particularidade. Tal estado de coisas se encontra mais
desenvolvido na forma de existência mais moderna da sociedade burguesa – nos Estados Unidos.
Aí, pois, a abstração da categoria ‘trabalho’, ‘trabalho em geral’, trabalho sans phrase (sem
rodeios), ponto de partida da Economia moderna, torna-se pela primeira vez praticamente
verdadeira. Portanto, a abstração mais simples, que a Economia moderna situa em primeiro lugar
e que exprime uma relação muito antiga e válida para todas as formas de sociedade, só aparece no
entanto nessa abstração praticamente verdadeira como categoria da sociedade mais moderna238,239.
Diversas das proposições do último trecho transcrito chamam a atenção. Em primeiro
lugar, Marx mais uma vez reitera a idéia de que a existência das abstrações em questão
pressupõe a existência de um concreto desenvolvido, e quando mais simples e gerais as
abstrações, mais desenvolvido deve ser o concreto que as produz e é por elas produzido. Além
disso, tem-se que a abstração do trabalho deve implicar na indiferença dos indivíduos
particulares frente aos diversos gêneros de trabalho, mas isso pressupõe uma divisão do trabalho
rica e desenvolvida, bem como a não–prevalência de determinações extra-econômicas que
possam privilegiar esse ou aquele ramo de produção ou atividade laboral. E novamente se afirma
que esse tipo de abstração, no caso a categoria do trabalho em geral, não é um resultado
puramente intelectual, mas possui dimensões práticas relevantes.

Em primeiro lugar, da perspectiva de Marx a posição na realidade efetiva é em si uma


“determinação”, uma característica essencial do objeto. Lembremos da seção sobre o fetichismo

237
Idem, Introdução aos Esboços de uma Crítica da Economia Política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Abril, 1982, p.42.
238
Idem, ibidem, p.42-43.

55
da mercadoria, no primeiro capítulo de O Capital. Lá, Marx “visita” diversas formas sociais
(historicamente existentes, e mesmo uma “imaginária”), e demonstra que em todas elas existem
as determinações do valor (uma certa divisão do trabalho, o tempo de trabalho como princípio
regulador, a própria representação do trabalho enquanto trabalho em geral, etc.), mas não o valor.
Ou seja, as características do valor existem, mas o valor não está posto, de modo que não há
valor propriamente dito. Nas palavras de Ruy Fausto, “Marx supõe que a posição da coisa – e a
posição da coisa é a existência (social) da coisa – é essencial para que ela seja o que é (...). No
socialismo, no caso de Robinson etc., as determinações essenciais do valor estão dadas, mas falta
a posição objetiva dessas determinações, porque em todos esses casos elas só existem enquanto
representação – na cabeça de Robinson, dos planificadores (ou como resultado dessa
representação, mas não como coisas sociais)”240. Para Marx, ainda segundo Fausto, “o conjunto
das determinações não esgota o conceito. Mesmo plenamente determinado, o conceito não é ele
próprio se não foi posto”241.

No caso do valor, portanto, é necessário que o trabalho em geral não exista somente como
representação, mas que exista na realidade efetiva. Isso corresponde ao processo no qual, através
da generalização das relações mercantis, o tempo de trabalho de qualquer indivíduo só valha
enquanto tempo de trabalho socialmente necessário, e que o trabalho concreto só valha enquanto
trabalho em geral, mais precisamente trabalho abstrato. Com isso não queremos dizer que a
dimensão do valor de uso desapareça, mas que ela se subordina (contraditoriamente) à dimensão
do valor, de tal forma que um trabalho específico que não se reduza a trabalho abstrato, que não
corresponda até certo grau ao tempo de trabalho socialmente necessário, e que portanto não
produza valor em condições competitivas ou nem poderá se realizar, ou estará fadado a
desaparecer; por conseguinte, qualquer trabalho concreto útil no capitalismo só se efetiva
enquanto trabalho em geral. Daí podemos repetir Marx, dizendo que o trabalho na sociedade
capitalista “... não pode ser pensado somente sob uma forma particular”, e acrescentar que ele
tampouco pode existir somente sob tal forma.

Por outro lado, o acréscimo de determinações reforçam a existência do conceito, o qual,


na condição de expressão ideal do movimento real, pode ser construído a partir de uma
existência (histórica) precária, só vindo a se realizar de maneira plena posteriormente.

239
Cf. Marx, K. Capítulo Sexto Inédito de O Capital: resultados do processo de produção imediata. Porto: Publicações
Escorpião, 1978, p.44-5.
240
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo I. São Paulo:
Brasiliense,1987, p.105.
241
Idem, ibidem, p.106.
56
A Economia moderna - cujo ponto de partida pode ser localizado no século XVII,
sobretudo com William Petty -, certamente não deve sua existência aos Estados Unidos, mas aos
países europeus centrais, principalmente à Inglaterra. É analisando este país que se chegou à
categoria de trabalho em geral, que Marx está a se referir; entretanto, na situação histórica
inglesa, ainda marcada por resquícios corporativos feudais e tradições “anacrônicas” (como
denuncia Marx na Miséria da Filosofia, e em alguns outros textos 242 ), falta uma das
determinações daquela categoria, uma determinação que deve ser tirada do “plano do vivido” –
termo usado por Fausto -, e que à época só existe nos Estados Unidos, a saber, a indiferença em
relação ao conteúdo material do trabalho, ao seu caráter de trabalho concreto útil. Desse modo,
nos Estados Unidos a categoria do trabalho abstrato teria uma existência mais plena do que na
Inglaterra, o que não quer dizer que aí ela não tenha validade.

Esse âmbito prático, na qual os indivíduos se tornam indiferentes ao trabalho particular


que executam, transitando com maior ou menor facilidade de um “emprego” a outro, é o
“vivido”. Mas corresponde também ao conceito de realidade efetiva, que Marx identifica ao
“mundo fenomenal”. Tendo isso em vista, Ruy Fausto assevera que “a diferença entre a
categoria e a realidade efetiva remete assim não à oposição pensamento/realidade, mas a
diferença entre a realidade só no nível da essência e a realidade que se manifesta também no
fenômeno (...). A mobilidade do trabalhador e a experiência vivida que lhe corresponde são pois
a reflexão da categoria no plano da realidade fenomenal e do vivido. Essa reflexão não é, sem
dúvida, exterior ao objeto, mas uma realização imperfeita da reflexão não exclui a realidade do
objeto no nível da essência243”244. De todo modo, “... qualquer que seja o papel do vivido em O
Capital, papel que sem dúvida não se poderia subestimar, o vivido, entretanto, nunca é
constitutivo”245,246.

Ainda se faz necessário tratar dos conceitos de trabalho simples e trabalho complexo,
alvo de elucubrações por parte de Gorz e Negri. O mais adequado é utilizar as palavras do
próprio Marx. Na Contribuição..., ele diz que

242
Cf. Marx, K. Miséria da Filosofia, São Paulo: Global, 1985 , p.45, nota de rodapé.
243
“... a mobilidade do trabalhador não realiza o universal que é ao mesmo tempo singular, o universal só é aqui uma sucessão de
singularidades ou de particularidades” (Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido
da Dialética. Tomo III, São Paulo: Editora 34, 2002, p.95).
244
Idem, ibidem, p.96.
245
Idem, ibidem, p.96.
246
Diga-se de passagem que a indiferença em relação aos diversos tipos de trabalho e a possibilidade de trânsito entre um
trabalho e outro se relaciona a um processo material de simplificação do trabalho, ou de abstração real do trabalho relativa ao
próprio âmbito da produção, no qual o revolucionamento das forças produtivas eliminam determinações do processo de trabalho
nos diversos ramos da produção, desprovendo-os igualmente de conteúdo. Esse processo, que também se relaciona ao “plano do
vivido”, é constitutivo. É evidente que isso só pode ser tematizado por Marx muito mais à frente no processo expositivo.
57
o trabalho, tal como se apresenta em valores de troca, poderia expressar-se como trabalho
humano geral. Essa abstração do trabalho humano geral existe no trabalho médio, que qualquer
indivíduo médio de uma sociedade dada pode executar; um gasto produtivo determinado de
músculos, nervos, cérebro, etc. É trabalho simples ao qual qualquer indivíduo médio pode ser
adestrado, e que deve executar de uma ou de outra forma. O caráter desse trabalho médio é, ele
próprio, diferente em diferentes países e épocas culturais, contudo aparece como dado em uma
determinada sociedade. O trabalho simples constitui de longe a maior parte do trabalho total da
sociedade burguesa, como se pode verificar a partir de qualquer estatística247.
Já em O Capital, Marx afirma que apesar da realização de diferentes trabalhos pressupor
distintos desenvolvimentos da força de trabalho, “o valor de mercadoria representa simplesmente
trabalho humano, dispêndio de trabalho humano (...), dispêndio de força de trabalho simples, que
em média toda pessoa comum, sem desenvolvimento especial, possui em seu organismo
físico” 248 . Eis aí a definição de trabalho médio simples, o “trabalho não-qualificado” dos
economistas ingleses249. Por seu turno, o “trabalho complexo vale apenas como trabalho simples
potenciado ou, antes, multiplicado, de maneira que um pequeno quantum de trabalho, de maneira
que um pequeno quantum de trabalho complexo é igual a um grande quantum de trabalho
simples”250. E aqui Marx também assevera “que essa redução ocorre constantemente, mostra-o a
experiência”251, o que ensejou diversas críticas às noções de trabalho simples e complexo, pois
segundo alguns autores, aquilo que Marx deveria explicar ou demonstrar é arbitrariamente
considerado evidente ou demonstrável pela própria experiência. Entretanto, Marx diz que “as
diferentes proporções nas quais as diferentes espécies de trabalho são reduzidas a trabalho
simples como unidade de medida, são fixadas por meio de um processo social por trás das costas
dos produtores e lhes parecem, portanto, ser dadas pela tradição”252, mas “As leis que regulam
essa redução não correspondem a esta parte do nosso estudo”253.

O sentido da investigação é distinto daquele que julgam muitos críticos: Marx não parte
da premissa “o trabalho é a substância do valor”, para deduzir logicamente que isso permite que
seus produtos sejam trocados, e de tal e tal forma, etc. Ao contrário, ela parte do fato concreto e
cotidiano de que os produtos dos distintos trabalhos são igualados, e perscruta como isso ocorre,
chegando então ao trabalho e ao fato de que o trabalho complexo é reduzido a simples mediante

247
Idem, Contribuição à crítica da Economia Política. São Paulo: Martins Fontes, 1977, p.33.
248
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.51.
249
Idem, Contribuição à crítica da Economia Política. São Paulo: Martins Fontes, 1977, p.33, nota de rodapé.
250
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.51.
251
Idem, ibidem, p.52.
252
Idem, ibidem, p.52.
253
Idem, Contribuição à crítica da Economia Política. São Paulo: Martins Fontes, 1977, p.34, grifos meus.
58
um rico processo social254 que tem como momentos desde a produtividade do trabalho, a divisão
social do trabalho entre diferentes setores da economia e empresas, em função daquela
produtividade e da distribuição dos lucros mediante o processo de nivelação decorrente da
formação de taxas médias de lucro no interior do processo concorrencial, até o costume255. Desse
modo a compreensão plena desse processo só pode se dar no bojo da análise da realidade efetiva,
da esfera da concorrência entre capitais, na qual as leis imanentes do sistema a um tempo são
(contraditoriamente) negadas e ganham existência. Em outras palavras, é necessário “se decidir a
ascender do particular ao geral”256, e percorrer todo o caminho de O Capital, para se chegar às
respostas que muitos críticos e leitores de primeira viagem exigem imediatamente.

Ademais, como afirma Ruy Fausto, “se Marx se reporta efetivamente a dados estatísticos,
não são estes, como simples dados, que legitimam o papel do trabalho simples na teoria. O
privilégio do trabalho simples está ligado a uma determinação essencial ao sistema (ao sistema
plenamente desenvolvido). Na realidade, o trabalho simples é posto ou criado pela grande
indústria (com a qual se passa ao capitalismo em sentido específico)” 257 , mesmo já tendo a
manufatura simplificado bastante o trabalho258.

No primeiro capítulo do Livro Primeiro de O Capital Marx apresenta o trabalho como o


processo de mediação e regulação do metabolismo entre o homem e a Natureza259, por meio do
qual a humanidade garante a sua subsistência e reprodução, atuando sobre o material natural, e se
constitui enquanto humanidade 260 . Já no quinto capítulo, o processo de trabalho, como

254
“Ora, se se deve pensar o valor em termos de trabalho – e isto não depende de redução dos trabalhos, mas a realidade o exige -,
toda redução dos valores dos produtos do trabalho deve aparecer como fundada numa redução do trabalho complexo ao trabalho
simples” (Rosdolsky, R. Gênese e estrutura do Capital de Karl Marx. Rio de Janeiro, Contraponto, 2001, p.94).
255
“A diferença entre trabalho superior e trabalho simples, skilled e unskilled labour, baseia-se, em parte, em meras ilusões ou
pelo menos diferenças que há muito tempo cessaram de ser reais e só perduram em convenções tradicionais; em parte baseia-se
na situação desamparada de certas camadas da classe trabalhadora, situação que lhes permite menos que as outras exercer pressão
para obterem o valor de sua força de trabalho. Circunstâncias acidentais desempenham no caso um papel tão importante que os
mesmos tipos de trabalho invertem suas posições. Onde, por exemplo, a substância física da classe trabalhadora está enfraquecida
e relativamente esgotada, como em todos os países de produção capitalista desenvolvida, os trabalhos em geral brutais, que
exigem muita força muscular, se tornam geralmente superiores em confronto com trabalhos muito mais delicados, que
descendem ao nível de trabalho simples, como, por exemplo, na Inglaterra, o trabalho de um bricklayer (pedreiro) ocupa um
nível muito mais alto que o de um tecedor de damasco. Por outro lado, o trabalho de um fustian cutter (tosador de veludo) figura
como trabalho “simples”, embora exija muito esforço físico e faça, além disso, muito mal à saúde. De resto, ninguém deve se
iludir que o chamado skilled labour represente uma proporção quantitativamente significativa do trabalho nacional” (Marx, K. O
Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988, p.157, nota de
rodapé).
256
Idem, Prefácio de 1859 (à obra Para a Crítica da Economia Política). Coleção Os Economistas. São Paulo: Abril, 1982b,
p.50.
257
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo I. São Paulo:
Brasiliense,1987, p.93.
258
Esse processo será analisado com algum detalhe no quinto capítulo do presente texto.
259
Marx, K. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.50. Cf. também Marx, K. ibidem, p.142.
260
Tendo sido o trabalho apresentado, em referência a William Petty, como o “pai” e a natureza como a “mãe” da riqueza
material, no referido primeiro capítulo (idem, ibidem, p.51).
59
especificidade do homem, é caracterizado pelo fato de que este antecipa idealmente o resultado
de sua atividade, planejando sua ação de modo a conquistar determinado objetivo, o que
pressupõe uma “vontade orientada a um fim”261, que deve ser tanto mais intensa quanto menos
tal atividade o apraz262.

Em sua atividade, o homem age tanto sobre objetos retirados diretamente da natureza,
quanto sobre objetos previamente trabalhados, as matérias-primas. Além disso, ele atua sobre
esses objetos de trabalho mediante instrumentos, os meios de trabalho, que se constituem
enquanto prolongamentos do corpo humano, e que também podem ser encontrados prontos no
meio natural, ou produzidos por meio do trabalho, sendo que os últimos se tornam cada vez mais
importantes com o desenvolvimento do processo de trabalho. Segundo Marx, são sobretudo os
meios de trabalho que permitem diferenciar as formações sociais, no decorrer da história263.

Por meio do processo de trabalho, em suma, o homem modifica a natureza de modo a


produzir um valor de uso que satisfaça às suas necessidades, e com isso o processo tem seu
termo: “O trabalho se uniu com seu objetivo. O trabalho está objetivado e o objeto trabalhado”264.
Assim, o processo de trabalho consiste em um processo de produção, sendo a atividade do
trabalhador um trabalho produtivo. E a importância desse trabalho deve ser enfatizada, pois sem
ele todos os demais fatores do processo produtivo, mesmo quando resultado de trabalhos
realizados anteriormente, permanecem inúteis, “mortos”, sendo consumidos pela “ação do
tempo”. É apenas seu consumo no decorrer do processo de trabalho que os “vivifica” e converte
em produtos úteis, em novos valores de uso265.

Quando se considera o processo de trabalho tal qual é desenvolvido no interior do modo


de produção capitalista a coisa se torna mais complexa; entretanto, como já se falou, de antemão
não se alteram as condições materiais de produção por serem os produtos feitos para o
capitalista266. O que muda é o fato de que o trabalhador passa a estar subordinado ao capitalista,

261
Idem, ibidem, p.143.
262
“O processo de trabalho, como o apresentamos em seus elementos simples e abstratos, é atividade orientada a um fim para
produzir valores de uso, apropriação do natural para satisfazer a necessidades humanas, condição universal do metabolismo entre
o homem e a Natureza, condição natural eterna da vida humana e, portanto, independente de qualquer forma dessa vida, sendo
antes igualmente comum a todas as suas formas sociais” (idem, ibidem, p.146).
263
Idem, ibidem, p.144.
264
Idem, ibidem, p.144.
265
“O trabalho vivo deve apoderar-se dessas coisas [os meios e objetos de trabalho produzidos pelo homem], despertá-las dentre
os mortos, transformá-las de valores de uso apenas possíveis em valores de uso reais e efetivos” (idem, ibidem, p.146).
266
“O processo de produção do capital é, antes de tudo, considerando-se seu lado real – ou considerando-o como processo que
por meio do trabalho útil cria com valores de uso novos valores de uso – um processo efetivo de trabalho” (idem, Capítulo Sexto
Inédito de O Capital: resultados do processo de produção imediata. Porto: Publicações Escorpião, 1978, p.12). Entretanto, como
se verá melhor, “... o processo de trabalho não é mais do que um meio do processo de valorização, processo que, por sua vez, é
essencialmente produção de mais-valia” (idem, ibidem, p.22).
60
o qual assume a função de adquirir os meios de produção e a capacidade de trabalho nas
proporções corretas, e velar para que o processo de trabalho se realize adequadamente, sendo seu
fim determinado pelo próprio capitalista. Além disso, o produto do processo também pertence ao
capitalista, que paga pela força de trabalho seu valor, e adquire o direito de utilizá-la no interior
do processo produtivo. Nas palavras de Marx, “O processo de trabalho é um processo entre
coisas que o capitalista comprou, entre coisas que lhe pertencem”267.

Vê-se a necessidade de se analisar o “outro lado” da produção de mercadorias, o processo


de valorização. O primeiro aspecto para o qual se deve atentar é o fato de que o capitalista não
produz valores de uso pelos valores de uso, pois no capitalismo, “o valor de uso não é algo que
se ama por si mesmo”268, mas antes, o interesse de produzi-los reside no fato de que os produtos
são mercadorias destinadas à venda e contém em si também o valor de troca, e ainda, que eles
devem ter um valor superior ao exigido para sua produção. Nos dizeres de Marx, o capitalista
“quer produzir não só valor de uso, mas uma mercadoria, não só valor de uso, mas valor e não só
valor, mais também mais-valia”269.

No processo de produção, como também foi dito, consomem-se meios de trabalho,


matérias primas e força de trabalho. Como “o trabalho passado que a força de trabalho contém, e
o trabalho vivo que ela pode prestar, seus custos diários de manutenção e seu dispêndio diário
são duas grandezas inteiramente diferentes” 270 , o capitalista logra comprar mais tempo de
trabalho do que paga, já que ele preside o processo por ter sob seu domínio os elementos
necessários à produção, e porque ele encontra no mercado uma mercadoria peculiar, a força de
trabalho, cuja especificidade não decorre do seu valor; este, como ocorre com qualquer outra
mercadoria, equivale ao seu custo de produção e reprodução. Ao contrário, a especificidade da
força de trabalho reside em seu valor de uso, que consiste na capacidade de produzir valor, numa
grandeza que excede seu próprio valor, ou o valor dos meios necessários à subsistência do
trabalhador, pois, no decorrer da jornada de trabalho, o capitalista usa a força de trabalho para
além do tempo no qual ela reproduz o valor que corresponde ao seu próprio valor. Durante esse
tempo excedente, esse tempo de mais-trabalho, o trabalhador produz uma mais-valia que é
apropriada pelo capitalista sem equivalente. Tem-se assim um processo de valorização271, e com

267
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.147.
268
Idem, ibidem, p. 148.
269
Idem, ibidem, p.148.
270
Idem, ibidem, p. 152.
271
Esse modo de transformação do dinheiro em capital significa uma “grande sorte para o comprador [da força de trabalho], mas,
de modo algum, uma injustiça contra o vendedor” (idem, ibidem, p. 153).
61
ele, torna-se possível transformar o “trabalho passado, objetivado, morto em capital, em valor
que se valoriza a si mesmo, um monstro animado que começa a ‘trabalhar’ como se tivesse amor
no corpo”272.

Mas, diga-se de passagem, é claro que essa relação entre capitalistas e trabalhadores
pressupõe que existam indivíduos “duplamente livres”, livres de laços de dominação pessoal,
política, etc., e livres, sito é, desprovidos dos meios de produção, possuindo apenas a sua própria
força de trabalho como mercadoria; junto com indivíduos que possuem capital na forma de
meios de produção e de dinheiro. Assim, é imprescindível, no modo de produção capitalista, a
existência da força de trabalho enquanto mercadoria, e portanto do trabalhador enquanto
trabalhador assalariado.

Se na primeira parte desse capítulo quinto do Livro Primeiro de O Capital, acerca do


trabalho em geral, importava o processo de “transformação do algodão em fio”, o trabalho em
particular, o trabalho concreto, aqui o trabalho conta como formador do valor e os diferentes
trabalhos não se distinguem. A produção desta identidade, através da abstração real de seus
traços distintivos, faz com que os diversos trabalhos se distingam entre si apenas
quantitativamente.

O processo de produção capitalista é, portanto, a unidade do processo de trabalho e do


processo de valorização, o que significa dizer que a valorização não pode ocorrer separada da
atividade mesma do trabalho e que ela se efetiva por seu caráter social273. E no Capítulo Sexto
Inédito Marx enfatiza as similitudes entre essa unidade e a unidade da mercadoria. Em suas
palavras, “Assim como a mercadoria é a unidade imediata do valor de uso e do valor de troca, o
processo de produção que é o processo de produção de mercadorias, é a unidade imediata do
processo de trabalho e do processo de valorização”274.

Com o advento do capitalismo e da subordinação formal do trabalho ao capital, o


processo de trabalho em nada se alterava. Nas palavras de Marx, “a transformação do próprio
modo de produção mediante a subordinação do trabalho ao capital só pode ocorrer mais tarde e

272
Idem, ibidem, p. 154.
273
“Se considerarmos o processo de produção segundo dois pontos de vista diferentes, 1) como processo de trabalho, 2) como
processo de valorização, tal implicará que aquele é apenas um processo de trabalho único, indivisível. Não se trabalha duas
vezes, uma para criar um produto utilizável, um valor de uso, para transformar os meios de produção em produtos e a outra, para
criar valor e mais-valia.” (idem, Capítulo Sexto Inédito de O Capital: resultados do processo de produção imediata. Porto:
Publicações Escorpião, 1978, p. 57).
274
Idem, ibidem, p.10.
62
deve por isso ser considerada apenas mais adiante”275. Entretanto, com o passar do tempo, ele
sofre modificações profundas, sendo inclusive negado enquanto tal. Esse complexo processo é
apresentado sobretudo nos capítulos XI, XII e XIII, do primeiro livro de O Capital, sobre a
cooperação, a manufatura e a grande indústria, respectivamente, e sintetizado no capítulo XIV.
Aí se vê que aquele processo de trabalho que foi abstratamente considerado no capítulo V como
algo individual, cujas funções eram reunidas em um único trabalhador que controlava a si
mesmo e a todo o processo de trabalho - o qual existia para satisfazer suas necessidades -; e que
se caracterizava pela interligação entre trabalho intelectual e manual; torna-se um processo social,
no qual o trabalhador primeiramente se converte em uma anomalia, em um simples órgão parcial
do trabalho 276 , e progressivamente, com o surgimento e desenvolvimento do sistema de
máquinas, é reduzido à condição de mero apêndice delas 277 , as quais passam a presidir o
processo, a ditar o ritmo e a maneira de se produzir, e dessa forma, extingue-se o processo de
trabalho propriamente dito, que se torna processo de produção, ou um organismo de produção
inteiramente objetivo278. Com isso, há uma separação radical entre mãos e cérebro, que passam a
se “oporem como inimigos”, o trabalhador perde qualquer controle sobre a produção, que
também se aparta radicalmente de suas necessidades279.

No bojo desse processo, o conceito de trabalho produtivo se amplia por um lado, já que
deixa de se relacionar somente aos trabalhadores diretamente ligados à produção, e passa a valer
para qualquer “órgão do trabalhador coletivo”280; por outro lado, entretanto, ele se restringe, pois
apenas será produtivo o trabalhador que produzir mais-valia para o capitalista, ou “servir à
autovalorização do capital”281. O conceito de trabalho produtivo, portanto, expressa uma relação
social historicamente determinada, e não apenas a conexão entre uma determinada atividade e
seu efeito útil, no que tange ao seu aspecto material.

Os conceitos de trabalho produtivo e improdutivo são bastante desenvolvidos nas Teorias


sobre a Mais-Valia e n’O Capítulo Sexto Inédito de O Capital, e farei vasto uso de suas
passagens em função da sua precisão em definir esses conceitos, e para que não haja dúvida de
sua determinação por Marx. Naquela última obra, Marx constata que “Como o fim imediato e o

275
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.147.
276
Idem, ibidem, p.256.
277
Idem, ibidem, p.43.
278
Idem, ibidem, p.17.
279
Esse processo histórico corresponde à passagem da mera subsunção formal do trabalho ao capital à subsunção real, que será
alvo de investigação no quinto capítulo deste texto.
280
Idem, ibidem, p.105.
281
Idem, ibidem, p.105.
63
produto por excelência da produção capitalista é a mais-valia, temos que só é produtivo aquele
trabalho – e só é trabalhador produtivo aquele que emprega a força de trabalho – que
diretamente produza mais-valia; portanto, só o trabalho que seja consumido diretamente no
processo de produção com vistas à valorização do capital”282.

Já nas Teorias..., lê-se que

Trabalho produtivo no sentido da produção capitalista é o trabalho assalariado que, na


troca pela parte variável do capital (a parte do capital despendida em salário), além de reproduzir
essa parte do capital (ou o valor da própria força de trabalho), ainda produz mais-valia para o
capitalista. Só por esse meio, mercadoria ou dinheiro se converte em capital, se produz como
capital. Só é produtivo o trabalho assalariado que produz capital283,284.
Por sua vez, de maneira bastante concisa, nos Grundrisse é dito que “Trabalho produtivo
é unicamente aquele que produz capital”285. Por conseguinte o trabalho improdutivo “é trabalho
que não se troca por capital, mas diretamente por renda”286. E novamente no Capítulo Sexto... é
esclarecido que “a diferença entre o trabalho produtivo e o improdutivo consiste tão-somente no
fato de o trabalho trocar-se por dinheiro como dinheiro ou por dinheiro como capital”287.

Em síntese, tem-se que “trabalho produtivo não é senão expressão sucinta que designa a
relação integral e o modo pelo qual se apresentam a força de trabalho e o trabalho no processo
capitalista de produção288”289.

De todas essas passagens pode-se apreender algumas determinações fundamentais do


trabalho produtivo e improdutivo no capitalismo: o trabalho produtivo é aquele que valoriza
diretamente o valor, que é trocado por capital na forma de salário, e que produz capital, e isso
independentemente da maior ou menor proximidade que exista entre o trabalhador e o objeto de
trabalho no âmbito do processo produtivo, e do caráter da intervenção laboral que ele realiza. Já

282
Idem, Capítulo Sexto Inédito de O Capital: resultados do processo de produção imediata. Porto: Publicações Escorpião,
1978, p.70.
283
Idem, Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, vol.I,
p.132.
284
No mesmo sentido, cf. Marx, K. ibidem, p.388 e p.391.
285
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973, vol.I,
p.245, nota de rodapé.
286
Idem, Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, vol.I,
p.137.
287
Idem, Capítulo Sexto Inédito de O Capital: resultados do processo de produção imediata. Porto: Publicações Escorpião,
1978, p.79.
288
“Somente a estreiteza mental burguesa, que toma a forma capitalista de produção pela forma absoluta, e, em conseqüência,
pela única forma natural de produção, pode confundir a questão do que seja trabalho produtivo e trabalhador produtivo do ponto
de vista do capital com a questão sobre o que seja trabalho produtivo em geral, contentando-se assim com a resposta tautológica
de que é produtivo todo trabalho que produz, todo o que redunda em um produto ou em algum valor de uso qualquer; resumindo,
em um resultado” (idem, ibidem, p.71).
289
Idem, ibidem, p.75.
64
o trabalho improdutivo é aquele que se troca por renda, e portanto não contribui diretamente para
a criação de capital290.

É o caso de lançar mão também dos exemplos usados por Marx para esclarecer os
conceitos ora em vista. Em suas palavras, “Uma cantora que entoa como um pássaro é um
trabalhador improdutivo. Na medida em que vende seu canto, é assalariada ou comerciante. Mas,
a mesma cantora, contratada por um empresário, que a faz cantar para ganhar dinheiro, é um
trabalhador produtivo, já que produz diretamente capital”291. Da mesma maneira, “Um mestre-
escola que é contratado com outros para valorizar, mediante seu trabalho, o dinheiro do
empresário da instituição que trafica com o conhecimento, é trabalhador produtivo”292. Ou mais
enfaticamente,

Se for permitido escolher um exemplo fora da esfera da produção material, então um


mestre-escola é um trabalhador produtivo se ele não apenas trabalha as cabeças das crianças, mas
extenua a si mesmo para enriquecer o empresário. O fato de que este último tenha investido seu
capital numa fábrica de ensinar, em vez de numa fábrica de salsichas, não altera nada na relação.
O conceito de trabalho produtivo, portanto, não encerra de modo algum apenas uma relação entre
a atividade e o efeito útil, entre trabalhador e produto do trabalho, mas também uma relação de
produção especificamente social, formada historicamente, a qual marca o trabalhador como meio
direto de valorização do capital. Ser trabalhador produtivo não é, portanto, sorte, mas azar293.
Por fim, “um ator por exemplo, mesmo um palhaço, é um trabalhador produtivo se
trabalha a serviço de um capitalista (o empresário), a quem restitui mais trabalho do que dele
recebe na forma de salário, enquanto um alfaiate que vai à casa do capitalista e lhe remenda as
calças, fornecendo-lhe valor de uso apenas, é um trabalhador improdutivo. O trabalho do
primeiro troca-se por capital, o do segundo, por renda. O primeiro trabalho gera mais-valia; no
segundo, consome-se renda”294.

Apesar de não ser conveniente se alongar demais esse ponto, existem algumas discussões
acerca do trabalho produtivo e improdutivo que merecem menção. Existem intérpretes e críticos

290
Caso ainda não tenha ficado clara a importância do conceito para a compreensão do modo de produção capitalista – e logo o
porquê da insistência de Marx em apresentá-los de maneira precisa – transcrevo mais duas passagens das Teorias..., e do
Capítulo Sexto..., respectivamente: “Trabalho produtivo é uma abreviação para designar o conjunto do relacionamento e dos
modos em que a força de trabalho figura no processo capitalista de produção. É da maior importância, porém, distingui-lo de
outras espécies de trabalho, pois essa distinção exprime a especificidade da forma de trabalho sobre que repousam o modo
capitalista de produção por inteiro e o próprio capital” (idem, Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento
Econômico. 3 vols. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, vol.I, p.391), e A “diferença entre trabalho produtivo e trabalho
improdutivo é importante com respeito à acumulação, já que só a troca por trabalho produtivo constitui uma das condições da
reconversão da mais-valia em capital” (idem, Capítulo Sexto Inédito de O Capital: resultados do processo de produção imediata.
Porto: Publicações Escorpião, 1978, p. 80).
291
Idem, ibidem, p. 76.
292
Idem, ibidem, p. 76.
293
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988, p.
101-102.
294
Idem, Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, vol.I,
p.137.
65
da obra de Marx que discutem o estatuto de alguns tipos de trabalho, mormente daqueles
contratados pelo Estado e daqueles que labutam na esfera da circulação.

No primeiro caso, deve-se ter em mente que o Estado, apesar de ser a forma política do
capital sem a qual não se pode pensar a sociedade capitalista, e apesar de se encontrar
profundamente imbricado com a esfera econômica, numa relação historicamente mutável que é
ao mesmo tempo de autonomia e dependência 295 , o Estado não atua estritamente como um
capitalista individual, não tendo como escopo a produção direta de mais-valia e o acúmulo de
capital. Portanto as atividades que realiza, mesmo as que visam diretamente a economia e sejam
imprescindíveis para que haja na sociedade a valorização do valor, não são atividades produtivas
em sentido capitalista; logo, o trabalho que o Estado comanda não é trabalho produtivo, apesar
de serem os trabalhadores assalariados, e mesmo quando exercem funções idênticas às exercidas
por empregados de empresas capitalistas, que aqui se adéquam ao conceito de trabalho produtivo.

Sobre isso, diz Marx: “o trabalho pode ser necessário e não ser produtivo. Por
conseguinte, todas as condições gerais, coletivas da produção – enquanto elas não possam ser
criadas pelo capital enquanto tal, sob suas condições – se cobrem com uma parte da renda
nacional, do erário público, e os trabalhadores não se apresentam como trabalhadores produtivos,
ainda que aumentem a força produtiva do capital”296,297, e nesse caso, “Os trabalhadores são
assalariados, então, mas o Estado não os emprega como tais, senão como menial servants [servos
domésticos]”298.

Vejamos agora a questão dos trabalhadores da esfera da circulação do capital. Se deve


distinguir dois tipos de atividades; de um lado, estão as atividades que dizem respeito à mera
transferência do direito de propriedade de uma mão à outra, as atividades da esfera da circulação
propriamente dita, que apesar de imprescindíveis, são improdutivas, de modo que o trabalho
realizado nelas é trabalho improdutivo. Os custos que elas acarretam são deduções da mais-valia
criada na esfera da produção. De outro lado, estão as atividades de transporte, armazenagem e

295
Para um esboço de análise conceitual – bastante introdutório e insuficiente - acerca do Estado vide o primeiro anexo desta
dissertação.
296
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973,
vol.II, p.23.
297
“Um daqueles sabichões de Paul de Kock pode dizer-me que sem essa compra, como sem a compra de pão, não posso viver e,
em conseqüência, não posso enriquecer-me; que ela portanto é um meio indireto ou pelo menos uma condição para meu
enriquecimento. Da mesma maneira, a circulação do meu sangue e meu processo respiratório são condições para me enriquecer.
Mas, por isso, nem a circulação do sangue nem o processo respiratório, por si mesmos, me enriquecem (...). A mera troca direta
de dinheiro por trabalho, portanto, não transforma o dinheiro em capital ou o trabalho em trabalho produtivo” (idem, Teorias da
Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. 3 vols. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, p.397).
298
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973,
vol.II, p.19.
66
distribuição das mercadorias, as quais promovem modificações no próprio valor de uso das
mesmas ao garantir seu deslocamento no espaço. Nos Grundrisse... pode-se ler que “o caso [do
setor de transporte, do trabalho do “marinheiro, do carreteiro, etc.”] é exatamente igual ao da
produção imediata, e a mais-valia originária do produto transportado somente pode obedecer a
que não se paga uma parte do tempo de transporte aos trabalhadores, já que aquela é tempo
excedente, está além do trabalho necessário para viver” 299 . “Na medida, pois, em que a
circulação mesma acarreta custos, na medida em que requer mais-trabalho, aparece ela mesma
como incluída no processo de produção. Neste aspecto a circulação aparece como momento do
processo imediato de produção”300. Assim, o setor de transportes é aqui um prolongamento da
esfera produtiva dentro da esfera da circulação, e o trabalho nele realizado é indubitavelmente
trabalho produtivo301.

Vale reforçar: o caráter produtivo do trabalho nada tem a ver com seu conteúdo material,
tampouco com o fato de se tratar de uma atividade predominantemente manual ou intelectual.
Nas palavras de Marx, “trabalho produtivo é uma determinação daquele trabalho que em si
mesmo nada tem a ver com o conteúdo determinado do trabalho, com sua utilidade particular ou
valor de uso peculiar no qual se manifesta. / Um trabalho de idêntico conteúdo pode ser,
portanto, produtivo e improdutivo302”303. E em outra passagem,

... como com o desenvolvimento da subsunção real do trabalho ao capital ou do modo de


produção especificamente capitalista, não é o operário individual, mas uma crescente capacidade
de trabalho socialmente combinada que se converte no agente real do processo de trabalho total,
e como as diversas capacidades de trabalho que cooperam e formam a máquina produtiva total
participam de maneira muito deferente no processo imediato da formação de mercadorias, ou
melhor, de produtos – este trabalha mais com as mãos, aquele trabalha mais com a cabeça, um

299
Idem, ibidem, p.11.
300
Idem, ibidem, p.12.
301
Por fim, lê-se em uma longa passagem de O Capital que “o que, porém, a indústria de transportes vende é a própria
locomoção. O efeito útil acarretado é indissoluvelmente ligado ao processo de transporte, isto é, ao processo de produção da
indústria de transportes. Pessoas e mercadorias viajam com o meio de transporte, e as viagens, seu movimento espacial é,
precisamente, o processo de produção efetivado por ele. O efeito útil só é consumível durante o processo de produção; ele não
existe como uma coisa útil distinta desse processo, que só funcione como artigo de comércio depois de sua produção, que circule
como mercadoria. Mas o valor de troca desse efeito útil é determinado, como o das demais mercadorias, pelo valor dos elementos
de produção consumidos para obtê-lo (força de trabalho e meios de produção) somados à mais-valia, criada pelo mais-trabalho
dos trabalhadores empregados na indústria de transportes. Também em relação a seu consumo, esse efeito útil se comporta
exatamente como as outras mercadorias. Caso consumido individualmente, então seu valor desaparece com o consumo;
consumido produtivamente, de modo que ele mesmo é um estágio de produção da mercadoria que se encontra no transporte,
então seu valor é transferido, como valor adicional, à própria mercadoria. A fórmula para a indústria de transportes seria,
portanto, D – M – (FT + MP) ... P – D’, já que é o próprio processo de produção, não um produto separável dele, que é pago e
consumido” (idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Victor Civita: Livro II, 1984,
p.43).
302
“As definições consideradas [de trabalho produtivo e improdutivo – G.M.], portanto, não decorrem da qualificação material
do trabalho (nem da natureza do produto nem da destinação do trabalho como trabalho concreto), mas da forma social
determinada, das relações sociais de produção em que ele se realiza” (idem, Teorias da Mais-Valia: História Crítica do
Pensamento Econômico. 3 vols. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, vol.I, p.137).
303
Idem, Capítulo Sexto Inédito de O Capital: resultados do processo de produção imediata. Porto: Publicações Escorpião,
1978, p.75.
67
como diretor (manager), engenheiro (engineer), técnico etc, outro, como capataz (overloocker),
um outro como operário manual direto, ou inclusive como simples ajudante -, temos que mais e
mais funções de capacidade de trabalho se incluem no conceito imediato de trabalho produtivo,
e seus agentes no conceito de trabalhadores produtivos, diretamente explorados pelo capital e
subordinados em geral a seu processo de valorização e de produção. Se se considera o
trabalhador coletivo, de que a oficina consiste, sua atividade combinada se realiza materialmente
e de maneira direta num produto total que, ao mesmo tempo, é um volume total de mercadorias;
é absolutamente indiferente que a função de tal ou qual trabalhador – simples ela desse
trabalhador coletivo – esteja mais próxima ou mais distante do trabalho manual direto304,305.
E mais adiante nesta mesma obra, Marx, como que antecipando a resposta a tantos
críticos que buscaram de uma maneira ou outra dissimular a especificidade histórica do
capitalismo, assevera categoricamente que “a mania de definir o trabalho produtivo e o
improdutivo por seu conteúdo material origina-se... da concepção fetichista, peculiar ao modo de
produção capitalista, e derivada de sua essência, que considera as determinações formais
econômicas, tais como ser mercadoria, ser trabalho produtivo, etc., como qualidade inerente em
si mesma aos depositários materiais dessas determinações formais ou categorias"306.

Passemos ao conceito de serviço, que ganha enorme importância para a teoria sociológica
e econômica sobretudo a partir da segunda metade do século passado, com a enorme expansão
do chamado setor terciário e com seu predomínio frente aos demais setores no que tange ao
número de trabalhadores empregados e no quantum de dinheiro que mobiliza e produz, o que
levou muitos a decretarem a obsolescência da teoria marxiana, a qual se restringiria ou teria
como cerne a produção industrial e não daria resposta a esse fenômeno que Marx não teria
presenciado ou antecipado. Em O Capital, Marx afirma que “um serviço é nada mais que o
efeito útil de um valor de uso, seja da mercadoria, seja do trabalho”307. Já segundo definição do
Capítulo Sexto... “serviço não é, em geral, senão uma expressão para o valor de uso particular
do trabalho, na medida em que este não é útil como coisa, mas como atividade. Dou para que
faças; faço para que faças; faço para que dês; dou para que dês (Do ut factas, facio ut facias,
facio ut des, do ut des)”308. Por fim, e no mesmo sentido, nas Teorias... lê-se que “de modo geral
[serviço – G.M.] não passa de uma expressão para o valor de uso especial que o trabalho

304
Idem, ibidem, p.71-72.
305
E ainda “... produtivo é todo trabalho que entra na produção de mercadoria (produção aí abrange todas as operações por que
passa a mercadoria, do primeiro produtor até o consumidor), seja qual for a espécie, trabalho manual ou não (científico); e
improdutivo é o trabalho que nela não entra e que não tem por propósito e objetivo produzir mercadoria. Essa distinção tem de
ser mantida e o fato de todas as espécies de atividade repercutirem na produção material e vice-versa, em nada muda a
necessidade dela” (idem, Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. 3 vols. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1980, p.1473).
306
Idem, Capítulo Sexto Inédito de O Capital: resultados do processo de produção imediata. Porto: Publicações Escorpião,
1978, p. 78.
307
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.152.

68
proporciona como qualquer outra mercadoria; mas expressão específica para o valor de uso
particular do trabalho, no sentido de este prestar serviços não na forma de coisa e sim na de
atividade”309.

Logo, serviço é toda atividade laboral cujo efeito útil não pode ser desvinculado da
própria atividade, de modo que o seu resultado não se materializa em coisa independente da
atividade. Mas deve ficar evidente que sua definição como serviço não exclui de determinado
trabalho sua qualificação de produtivo, como usualmente se crê. Mais uma vez citando o
Capítulo Sexto...

O mesmo trabalho, por exemplo, jardinagem, alfaiataria, etc., pode ser realizado pelo
mesmo trabalhador a serviço de um capitalista industrial ou de um consumidor direto. Em ambos
os casos, estamos ante um assalariado ou diarista, mas, num caso trata-se de trabalhador
produtivo, e noutro, de improdutivo, porque no primeiro caso este trabalhador produz capital e no
outro não; porque num caso seu trabalho constitui um momento do processo de autovalorização
do capital, e no outro não310.
Mas permita-me uma pequena digressão. Na época de Marx, de fato, os serviços tinham
relativamente pouca relevância econômica - segundo ele, os serviços “constituem magnitudes
insignificantes se comparados com o volume da produção capitalista”311 -, mas quando eles se
expandem enormemente, tal qual ocorreu no último século, suas peculiaridades se tornam
relevantes e merecem atenção. Sobretudo uma, o fato do resultado do serviço não se materializar
em coisa, uma determinação essencial da mercadoria, que inclusive leva Marx a propugnar que
rigorosamente falando, os serviços não produzem mercadorias, apesar de possuírem todas as
demais determinações da mesma312. Sem essa importante característica, é impossível a criação
de estoques, e a concorrência nesse setor difere da que ocorre nos demais; entretanto isso não é o
decisivo, mesmo porque o desenvolvimento dos transportes e da comunicação, sobretudo, faz
com que se eliminem cada vez mais os estoques em todos os ramos da produção, e se aumente a
rotação do capital. O fundamental são os impactos para o fetichismo da mercadoria, para o que a
determinação enquanto coisa é fundamental. Em todo caso, esta é uma discussão teórica de
fôlego, na qual não se entrará nessa dissertação313.

308
Idem, Capítulo Sexto Inédito de O Capital: resultados do processo de produção imediata. Porto: Publicações Escorpião,
1978, p.78.
309
Idem, Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, vol. I,
p.398.
310
Idem, Capítulo Sexto Inédito de O Capital: resultados do processo de produção imediata. Porto: Publicações Escorpião,
1978, p. 76.
311
Idem, ibidem, p.76.
312
Cf. Marx, K. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Victor Civita: Livro II, 1984, p.42.
Mas, vale registrar, poucas páginas adiante Marx volta a se referir aos serviços como produtores de mercadoria.
313
Para o apontamento de uma base profícua para abordá-la, fornecida por Eleutério Prado, cf. p.95 desta dissertação.
69
Vejamos agora o conceito de trabalho imaterial, também bastante em voga. Para tanto, o
melhor procedimento, assim parece, continua sendo aproveitar as definições marxianas. N’O
Capítulo Sexto... é que se encontra a mais rica delas314.

No caso da produção não material, ainda que esta se efetue exclusivamente para a troca e
produza mercadorias, existem duas possibilidades: 1) O resultado são mercadorias que existem
isoladamente em relação ao produtor, ou seja, que podem circular como mercadorias no intervalo
entre a produção e o consumo; por exemplo: livros, quadros, todos os produtos artísticos que se
diferenciam da atividade artística do artista executante. A produção capitalista só se aplica aqui
em forma muito limitada. Essas pessoas, sempre que não contratem oficiais etc., na qualidade de
escultores etc., comumente (salvo se forem autônomos) trabalham para um capital comercial,
como, por exemplo, livreiros, uma relação que constitui apenas uma forma de transição para o
modo de produção apenas formalmente capitalista. Que nessas formas de transição a exploração
do trabalho alcance um grau superlativo, não altera a essência do problema. / 2) O produto não é
separável do ato de produção. Aqui, também, o modo capitalista de produção só tem lugar de
maneira limitada, e pela própria natureza da coisa, não se dá senão em algumas esferas (Necessito
do médico, não do seu moleque de recados). Nas instituições de ensino, por exemplo, os docentes
podem ser meros assalariados para o empresário da fábrica de conhecimentos. Não se deve
considerar o mesmo para o conjunto da produção capitalista315.
Dessa passagem pode-se apreender que tipo de trabalho Marx define como imaterial:
aqueles marcados por uma maior mobilização do lado subjetivo da atividade, da criação, do
conhecimento e dos efeitos informacionais e culturais da atividade laboral ou de seu produto,
como no caso dos trabalhos do artista, do escritor, do professor, ou ainda do criador de softwares,
etc. E dentre tais trabalhos se diferenciam aqueles que se realizam como serviços, daqueles que
podem ser separados da própria atividade na forma de uma coisa. (De modo que se equivocam
aqui também os tantos autores que confundem os conceitos de trabalho imaterial e serviço,
considerando-os equivalentes).

No entanto, o que Marx enfatiza nessa passagem é justamente a resistência que tais
atividades, por sua natureza, impõem à subordinação real capitalista, ou seja, à sua determinação
material pelo capital, a serem plasmadas de acordo com as necessidades da valorização do valor.
Nesse mesmo sentido, ele escreve nas Teorias... que “... a produção capitalista é hostil a certos
setores de produção intelectual, como a arte e a poesia”316. E “por natureza, o trabalho sem tal
fixação [em coisa – GM] e o que se troca por renda não podem, na maioria dos casos,
subordinar-se ao modo capitalista de produção”317.

314
A qual se encontra em termos bem parecidos nas Teorias..., cf. Marx, K. Teorias da Mais-Valia: História Crítica do
Pensamento Econômico. 3 vols. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, vol. I, p.403-404.
315
Idem, Capítulo Sexto Inédito de O Capital: resultados do processo de produção imediata. Porto: Publicações Escorpião,
1978, p.79.
316
Idem, Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980,
p.267.
317
Idem, ibidem, p.166.
70
A tais considerações se aferram diversos teóricos que vêem no capitalismo
contemporâneo importantes limites, ou crises deflagradas, ou sua derrocada iminente, ou mesmo
a sua já concretizada superação, advindos da proliferação do chamado trabalho imaterial e dos
serviços. Essa questão será tratada no último capítulo dessa dissertação, mas vale adiantar que,
no interregno que existe entre o presente momento histórico e aquele em que Marx viveu, o
capital avançou bastante nas formas de dominação e subordinação do trabalho, de tal modo que
seria totalmente absurdo – ainda mais absurdo do que no passado - ter hoje uma visão idílica, por
exemplo, da atividade científica, tecendo representações do cientista como o gênio inventor em
seu laboratório doméstico, ou o professor que teria autonomia entre as quatro paredes da sala de
aula. Basta conhecer um departamento de Pesquisa e Desenvolvimento de uma grande empresa
para saber o quão rotinizado e controlado é o trabalho de criação científica de novos produtos,
programas, fórmulas, etc., ou basta ir a uma escola e tomar contato com o tipo de formação que
recebem os professores, com a enorme quantidade de horas de trabalho e o tipo de rotina que
devem desenvolver, com o material didático que são obrigados a utilizar, com o tipo de
supervisão a que são submetidos cotidianamente, afora todos os esdrúxulos e cada vez mais
numerosos processos de “avaliação” interna e externa com os quais eles se defrontam todo o
tempo, e para os quais tem que dar respostas satisfatórias.

Para concluir este capítulo, deve-se tratar de maneira sumária dos conceitos de mais-valia
absoluta e relativa. Como já se viu, “a produção de mais-valia, que compreende a conservação
do valor adiantado inicialmente apresenta-se, assim como a finalidade determinante, o interesse
impulsor e o resultado final do processo de produção capitalista, em virtude do qual, o valor
originário se transforma em capital”318. E isso se dá no interior do processo de produção, no qual
o trabalhador logra a um tempo conservar o valor dos meios de produção (em função do caráter
concreto do trabalho), e criar novo valor (objetivando trabalho abstrato ao produto final). Em
parte da jornada de trabalho, o quantum de valor que o trabalhador cria corresponde aos meios
necessários à sua subsistência, ao valor da mercadoria força de trabalho (valor historicamente
determinado que muda em cada momento e lugar, de acordo com aspectos culturais, políticos,
etc. 319 ), e a essa parcela se chama tempo de trabalho necessário, ou simplesmente trabalho
necessário. No restante da jornada de trabalho o valor que o trabalhador cria é apropriado pelo

318
Idem, Capítulo Sexto Inédito de O Capital: resultados do processo de produção imediata. Porto: Publicações Escorpião,
1978, p.8.
319
“Sem dúvida essas condições de vida, o mínimo com que pode viver o trabalhador, e daí a quantidade de trabalho excedente
que deles se pode extorquir, são coisas relativas” (idem, Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. 3
vols. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, p.1288).
71
capitalista, e se chama trabalho excedente, produtor de mais-valia320. A produção da mais-valia
absoluta consiste na obtenção de mais-valia mediante a ampliação da jornada de trabalho, o que
evidentemente aumenta o tempo de trabalho excedente. Já a produção da mais-valia relativa
consiste na produção da mais-valia mediante a redução do valor da força de trabalho, ou do custo
de subsistência do trabalhador, ou do tempo de trabalho necessário, mediante o barateamento dos
produtos que são consumidos pelos trabalhadores, o que só é possível com o aumento da
produtividade nos setores que produzem tais mercadorias, ou seja, com o desenvolvimento das
forças produtivas desses setores.

Sucintamente, diz Marx que “a produção da mais-valia absoluta gira apenas em torno da
duração da jornada de trabalho; a produção da mais-valia relativa revoluciona de alto a baixo os
processos técnicos do trabalho e os agrupamentos sociais” 321 , 322 . O fato é que histórica e
conceitualmente ambas as formas de produção de mais-valia se encontram bastante imbricadas,
apesar de discerníveis. Segundo Marx, “de qualquer modo, as duas formas de mais-valia – a
absoluta e a relativa – se consideradas isoladamente, como existências separadas (e a mais-valia
absoluta precede sempre a relativa) -, correspondem a duas formas separadas no interior da
produção capitalista, das quais a primeira é sempre precursora da segunda323, embora a mais
desenvolvida, a segunda, possa constituir, por sua vez, a base para introdução da primeira em
novos ramos da produção”324,325. Antes disso, voltemos a Negri e Gorz.

320
“O desenvolvimento da força produtiva do trabalho, no seio da produção capitalista, tem por finalidade encurtar a parte da
jornada de trabalho durante a qual o trabalhador tem de trabalhar para si mesmo, justamente para prolongar a outra parte da
jornada do trabalho durante a qual pode trabalhar gratuitamente para o capitalista. Até que ponto pode-se alcançar ainda esse
resultado sem baratear as mercadorias, mostrar-se-á nos métodos particulares de produção da mais-valia relativa...” (idem, O
Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988, p.243).
321
Idem, ibidem, p.102.
322
Cf. Marx, K. ibidem, 1988, p.239, e Marx, K. Capítulo Sexto Inédito de O Capital: resultados do processo de produção
imediata. Porto: Publicações Escorpião, 1978, p.53.
323
“Ela constitui a base geral do sistema capitalista e o ponto de partida para a produção da mais-valia relativa” (idem, O Capital:
crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988, vol.I, tomo II, p.102)

72
Segunda Parte: Sobre o desenvolvimento histórico do capital.

324
Idem, Capítulo Sexto Inédito de O Capital: resultados do processo de produção imediata. Porto: Publicações Escorpião,
1978, p.56.
325
Esse é mais um dos pontos que será analisado melhor no último capitulo da dissertação.
73
Capítulo 3. O conceito de subsunção real e o desenvolvimento histórico do capital,
em Gorz e Negri.

Sobretudo nas obras de Negri o conceito de subsunção ou subordinação real ocupa um


papel muito importante. Em Império, ele e Hardt propugnam que a subordinação real consiste no
próprio processo de constituição do capital, que em seu movimento plasma toda a sociedade de
acordo com seu conceito, subjugando a si próprio as diversas dimensões da vida social. Mais
precisamente, a subsunção real é o processo de internalização dos vários elementos da sociedade
ao capital, da conformação daqueles segundo o processo de valorização do valor, num estágio
posterior do desenvolvimento capitalista. Não se trata da mera assimilação formal da sociedade
ao capital, que decorre do seu movimento de expansão extensiva para regiões geográficas ou
esferas sociais não-capitalistas, o que corresponderia ao conceito de subsunção ou subordinação
formal; ao contrário, com a subsunção real, trata-se para o capital de plasmar a sociedade da
maneira mais adequada possível ao seu movimento de acumulação.

De acordo com Negri e Hardt, “... cada vez mais ele [o capital] subjuga não ambientes
não capitalistas, mas seu próprio terreno capitalista – ou seja – (...) a subordinação já não é
formal mas real”326. Ademais, “Os processos de subordinação real do trabalho ao capital não
contam com o exterior e não envolvem os mesmos meios de expansão [utilizados na
subordinação formal]. Mediante a subordinação real, a integração do trabalho ao capital torna-se
mais intensa do que extensa, e a sociedade é cada vez mais moldada pelo capital”327.

É evidente que Negri e Hardt tomam aqui os conceitos de subsunção formal e real de
Marx. Novamente nas palavras dos autores,

Marx usa o termo “subordinação formal” para designar processos pelos quais o capital
incorpora em suas próprias relações de produção práticas de trabalho originadas fora de seus
domínios. Os processos de subordinação formal estão, portanto, intrinsecamente ligados à
extensão do domínio da produção e dos mercados capitalistas328.
Entretanto, a apropriação que eles fazem desses conceitos é crítica, pois busca superar as
limitações que tais conceitos encontrariam em Marx. Ressaltam a unilateralidade de seu uso por
seu formulador, que teria privilegiado a esfera econômica em detrimento de outras esferas
fundamentais. Segundo Negri e Hardt, a subordinação real deve ser “entendida como envolvendo
não apenas a dimensão econômica ou apenas a dimensão social, mas também o próprio bios

326
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p.292.
327
Idem, ibidem, p.276.
328
Idem, ibidem, p.276.
74
social”329. Além disso, “As intuições de Marx sobre os processo de subordinação real não nos
fornecem a chave que precisamos. A transição da subordinação formal para a subordinação real
precisa ser explicada por meio das práticas subjetivas em atividade”330.

Além de criticar a conceituação marxiana da subsunção real pelo fato dela se


circunscrever, segundo os autores, apenas aos aspectos econômicos da sociedade capitalista,
também se afirma que Marx negligenciou a dimensão da subjetividade dos agentes, e seu papel
ativo na determinação do desenvolvimento do capital. Como vimos no primeiro capítulo deste
texto331, Negri e Hardt consideram que a constituição do que chamam de sociedade pós-moderna
foi a um tempo produto das lutas dos trabalhadores e das novas subjetividades que se originaram
nas últimas décadas do século passado, sobre a base da difusão de um novo tipo de trabalho, o
trabalho imaterial. Nessa chave explicam a derrocada do socialismo realmente existente, o
desenvolvimento do que denominam pós-fordismo, a constituição do mercado mundial, etc.
Dizem também que,

... os processos de subordinação formal previram e levaram à maturidade a subordinação


real, não porque esta ultima fosse produto da primeira (como o próprio Marx parecia acreditar),
mas porque, na primeira, estavam construídas as condições de libertação e luta que só a última
poderia controlar332.
Mais uma vez fica claro que os autores entendem o capital como uma força reativa, que
tenderia a uma estática e não possuiria um movimento próprio não fosse o caráter dinâmico,
criativo e criador da força de trabalho, ao qual o capital necessariamente tem que responder. Por
outro lado, dessa discussão se evidencia que os conceitos de subsunção formal e real relacionam-
se inextricavelmente com o processo histórico de constituição do capital, do qual devemos tratar
a seguir, ainda na perspectiva de Negri.

Convém alertar que se pode encontrar em Negri análises acerca da história recente do
capitalismo assentadas em referenciais teóricos distintos e à primeira vista conflitantes: por vezes
ele parte da passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de controle, inspirado em
Foucault; em outros momentos, ele trata da grande-indústria, suas vicissitudes, e da passagem
para a “sociedade pós-industrial”333, ou para o “capitalismo cognitivo”334, ou ainda para a “pós-

329
Idem, ibidem, p.44.
330
Idem, ibidem, p.276, grifo meu.
331
Cf. p.33.
332
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p.277.
333
Negri, A., Lazzarato, M. Trabalho imaterial e subjetividade. In: Trabalho imaterial: formas de vida e produção de
subjetividade. Rio de Janeiro: DP&A, 2001, p.35-36.
334
Negri, A. 5 lições sobre Império. Rio de Janeiro, DP&A, 2003, p.95.
75
modernidade” 335 - as variações terminológicas são grandes, como se pode ver -, uma forma
social estruturada sobre o “pós-fordismo”336, ou sobre o “toyotismo”337, que por sua vez tem por
base o trabalho imaterial.

Em Twenty Theses on Marx, de 1996, e no livro 5 lições sobre Império, de 2003, Negri
apresenta quase nos mesmos termos uma sucinta história do capitalismo desde meados do século
XIX. No texto mais recente ele divide “o período da ‘grande indústria’ em duas grandes fases.
Uma primeira fase que vai de 1870 à Primeira Guerra Mundial, da Comuna de Paris [que se
inicia em 18 de março de 1871, e é destruída em 28 de maio do mesmo ano - G.M.] à Revolução
Russa de 1917. Uma segunda fase que vai do fim da Primeira Guerra Mundial a 1968”338,339.
Após 1968, tem-se o advento de um “novo modo de produção”340, que supera a grande indústria.

No estudo dessas fases, Negri analisa quatro de suas dimensões: a dos “processos
laborais”; a das “normas de consumo”; as “das normas de regulação” ou do “modelo de Estado”;
e a da organização e atuação política do proletariado ou das “formas de constituição do
proletariado”.

No primeiro momento da grande indústria, “o operário se torna parte da maquinaria, ou


melhor, seu apêndice. É força-trabalho anexada ao ciclo produtivo. É força-trabalho que
paulatinamente se qualifica, inserida em um learning process que, vagarosamente, lhe permite
certo conhecimento do ciclo laboral. Podemos chamar esse período de fase do operário
profissional”341. Em relação ao consumo, ele se adapta à produção de massa, a qual é “somente
em parte submetida a uma adequada capacidade de regulação social por parte do capital”342. Já o
“Estado se desenvolve em direção a níveis cada vez mais rígidos de integração institucional com
o capital financeiro e reconhece no desenvolvimento dos monopólios e na consolidação
imperialista sua base e seu cenário político” 343 . Por fim, o proletariado apresenta uma
“organização dual (de massa e de vanguarda, sindical e partidária)”, e atua politicamente “com

335
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p.42.
336
Negri, A. 5 lições sobre Império. Rio de Janeiro, DP&A, 2003, p.105.
337
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p.311.
338
Negri, A. 5 lições sobre Império. Rio de Janeiro, DP&A, 2003, p.60.
339
Vale chamar a atenção para o fato de que em suas “teses sobre Marx”, ele considera que a primeira fase da grande indústria se
inicia antes, em 1848, e não em 1871 (cf. Negri, A. Twenty Theses on Marx – Interpretation of Class-Situation Today. In:
Marxism beyond Marxism. Ed. S. Makdisi, C. Casarino e R. E. Karl. Londres: Routledge, 1996, p.154).
340
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p. 279.
341
Negri, A. 5 lições sobre Império. Rio de Janeiro, DP&A, 2003, p.61.
342
Idem, ibidem, p.62.
343
Idem, ibidem, p.62.
76
base em um programa que prevê a gestão operária da produção industrial e da organização social,
de acordo com o projeto da emancipação socialista das massas”344.

No segundo momento, “Do ponto de vista dos processos laborais, a nova composição
técnica do proletariado torna-se uma força-trabalho ‘abstrata’, no sentido de que é abstraída de
qualquer qualidade concreta e anexada, como tal, ao processo industrial, nas formas do
taylorismo”345. Nessa fase, a figura predominante é a do “trabalhador de massa”, o qual “perde o
conhecimento do ciclo [de produção]”346. “Do ponto de vista das normas de consumo, essa é a
fase na qual se constitui o fordismo” 347 , o qual, segundo Negri, consiste em “uma prática
capitalista do salário como antecipação adequada à aquisição e ao consumo dos bens produzidos
pela indústria de massa”348. Com isso se produziu a “alienação consumista”349, e a necessidade
de uma “regulação interna e eficaz” do ciclo produtivo global 350 , daí a emergência do
keynesianismo. Junto com ele, surge o Estado intervencionista, que busca garantir o pleno
emprego e a assistência social 351 . Em relação à atuação política do proletariado, há o
“prolongamento” das práticas precedentes, mas surgem outras novas, centradas na “recusa ao
trabalho, [na] igualdade sindical, [na] recusa a qualquer figura de delegação e [na] reapropriação
do poder, em formas de massa e de base” 352 . Nessas novas formas de atuação ele inclui o
movimento operaísta, do qual fez parte nas décadas de 1960 e 1970.

Na terceira fase, os processos laborais “se dão como processos de automação das fábricas
e de informatização do social, ou seja, pondo inteiramente o social ao trabalho. O trabalho
material imediatamente produtivo perde sua centralidade no processo de produção, enquanto
emerge a nova figura do operário social que se apresenta como intérprete das funções de
cooperação laboral veiculadas pelas redes produtivas sociais”353. No que tange às normas de
consumo, “elas são, em geral, reconduzidas à escolha de mercado e, deste ponto de vista, têm
condições de expressar-se em formas de individualismo extremamente difundidas”354. As formas
de regulação “se distendem ao redor de linhas multinacionais, passando numa primeira fase
através das dimensões monetárias, depois através do mercado financeiro e, finalmente, através da

344
Idem, ibidem, p.62.
345
Idem, ibidem, p.64.
346
Idem, Twenty Theses on Marx – Interpretation of Class-Situation Today. In: Marxism beyond Marxism. Ed. S. Makdisi, C.
Casarino e R. E. Karl. Londres: Routledge, 1996, p.155.
347
Idem, 5 lições sobre Império. Rio de Janeiro, DP&A, 2003, p.64.
348
Idem, ibidem, p.64.
349
Idem, ibidem, p.64.
350
Idem, ibidem, p.64.
351
Idem, ibidem, p.65.
352
Idem, ibidem, p.65.
353
Idem, ibidem, p.66.
77
concretização da função político-imperial”355. Já o proletariado “se torna social, mas é sempre
imaterial do ponto de vista da substancia do trabalho, e é móvel, multiforme e flexível do ponto
de vista de suas formas”356.

Antes de comentar os trechos citados, convém lembrar que em outros momentos Negri dá
maior atenção às noções de taylorismo, fordismo e toyotismo ou pós-fordismo. No trecho citado
anteriormente o taylorismo surge como um elemento que provoca a desqualificação do trabalho
envolvido na produção, e o fordismo é caracterizado pela adequação do salário pago ao
trabalhador e as necessidades do consumo de massa. No mesmo sentido, em Império, o
taylorismo é apresentado como o conjunto de modificações no processo imediato de produção,
advindas da introdução da linha de montagem e do “regime fabril em massa”357, e o fordismo
aparece como forma de “regulamentação do ciclo social de reprodução”358. Ainda nessa obra, o
toyotismo surge com as “transformações tecnológicas da década de 1970”, e sua “arremetida
rumo à racionalização automática”359. Segundo os autores, “o toyotismo baseia-se numa inversão
da estrutura fordiana de comunicação entre a produção e o consumo. Idealmente, neste modelo, o
planejamento de produção se comunica com os mercados constante e imediatamente”360.

Já em Trabalho imaterial e subjetividade, Negri e Lazzarato apontam duas “condições


que estão na base do desenvolvimento da sociedade pós-fordista”: “O trabalho se transforma
integralmente em trabalho imaterial e a força de trabalho em ‘intelectualidade de massa’ (os dois
aspectos que Marx chama General Intellect)” 361 . Como visto no primeiro capítulo desta
dissertação, é a extensão e o predomínio do trabalho imaterial, portanto, o principal momento da
atual fase de desenvolvimento capitalista, ou seja, só se pode compreender a contemporaneidade
à luz das transformações que sofreu o trabalho vivo362. A referência a Marx não é gratuita: este
teria antevisto as mudanças no modo de produção capitalista que Negri estaria agora a
desenvolver conceitualmente. Numa passagem de Império, lemos que “a certa altura do
desenvolvimento capitalista, que Marx vislumbrou apenas como o futuro, os poderes do trabalho

354
Idem, ibidem, p.67.
355
Idem, ibidem, p.67.
356
Idem, ibidem, p.67.
357
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p.288.
358
Idem, ibidem, p.288.
359
Idem, ibidem, p.288.
360
Idem, ibidem, p.311.
361
Negri, A., Lazzarato, M. Trabalho imaterial e subjetividade. In: Trabalho imaterial: formas de vida e produção de
subjetividade. Rio de Janeiro: DP&A, 2001, p.27.
362
Negri e Lazzarato constatam que essas transformações no modo de produção, que se mostraram “de maneira evidente no
curso da década de 1970” (idem, ibidem, p.27), revelam-se hoje “como um processo irreversível” (idem, ibidem, p.25). “O
trabalho imaterial tende a tornar-se hegemônico, de forma totalmente explícita” (idem, ibidem, p.27).
78
são insuflados pelos poderes da ciência, comunicação e linguagem (...). O que Marx viu como o
futuro é a nossa era”363.

Em outro momento de Império, Negri e Hardt dividem a história mundial da Idade Média
até o presente em termos do predomínio de “setores” da economia – primário, secundário e
terciário -; uma divisão da história em função do conteúdo concreto das atividades produtivas.

Já se tornou comum ver a sucessão de paradigmas econômicos desde a Idade Média em


três momentos distintos, cada qual definido pelo setor dominante da economia: um primeiro
paradigma no qual a agricultura e a extração de matérias-primas dominaram a economia; um
segundo no qual a indústria e a fabricação de bens duráveis ocuparam posição privilegiada; e um
terceiro − e atual − paradigma, no qual a oferta de serviços e o manuseio de informações estão no
coração da produção econômica. A posição dominante passou, portanto, da produção primária
para a secundária e para a terciária. A modernização econômica envolve a passagem do primeiro
paradigma para o segundo, da preponderância da agricultura para a da indústria. Modernização
significa industrialização. Podemos chamar a transição do segundo paradigma para o terceiro, da
dominação da indústria para a dominação dos serviços e da informação, de processo de pós-
modernização econômica, ou melhor, de informatização364.
E logo na seqüência deste trecho, Negri e Hardt alertam que “a mudança histórica (...)
precisa ser reconhecida em termos de relações de poder em toda a esfera econômica”365, e nesse
sentido, recorrem à noção de sociedade disciplinar e sociedade de controle, um empréstimo da
teoria de Foucault366. Segundo eles,

... a obra de Foucault nos permite reconhecer uma transição histórica, de época, nas
formas sociais da sociedade disciplinar para a sociedade de controle. Sociedade disciplinar é
aquela na qual o comando social é construído mediante uma rede difusa de dispositivos ou
aparelhos que produzem e regulam os costumes, os hábitos e as práticas produtivas. Consegue-se
pôr para funcionar essa sociedade, e assegurar obediência a suas regras e mecanismo de inclusão
e/ou de exclusão, por meio de instituições disciplinares (a prisão, a fábrica, o asilo, o hospital, a
universidade, a escola e assim por diante) que estruturam o terreno social e fornecem aplicações
lógicas adequadas para a ‘razão’ da disciplina (...). Devemos entender a sociedade de controle, em
contraste, como aquela (que se desenvolve nos limites da modernidade e se abre para a pós-
modernidade) na qual mecanismos de comando se tornam cada vez mais ‘democráticos’, cada vez
mais imanentes ao campo social, distribuídos por corpos e cérebros dos cidadãos. Os
comportamentos de integração social e de exclusão próprios do mando são, assim, cada vez mais
interiorizados nos próprios súditos. O poder agora é exercido mediante máquinas que organizam
diretamente o cérebro (em sistemas de comunicação, redes de informação etc.) e os corpos (em
sistemas de bem-estar, atividades monitoradas etc.) no objetivo de um estado de alienação
independente do sentido da vida e do desejo da criatividade367.
A partir de Foucault, Negri e Hardt dividem a história do capitalismo de uma outra forma.
A ênfase agora é dada na passagem da sociedade disciplinar - na qual predomina uma forma de

363
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p.386, grifos meus.
364
Idem, ibidem, p. 300-301.
365
Idem, ibidem, p.303.
366
Cf. a análise da relação entre Negri e Foucault, ou mais precisamente da forma de apropriação dos conceitos foucaultianos por
Negri no anexo “Biopolítica e biopoder em Negri e Foucault.
367
Idem, Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p.42.
79
poder que, de maneira descentralizada e capilar, submete o corpo social, invadindo seus mais
recônditos interstícios e controlando sua dinâmica, mediante instituições disciplinares -, para a
sociedade de controle, na qual a forma hegemônica de poder penetra, ou melhor, é internalizada
nos membros da sociedade, e se torna “cada vez mais imanente ao campo social”. Segundo Negri
e Hardt, esse “novo paradigma de poder” tem “natureza biopolítica”368, a qual “marca, pois, a
passagem da disciplina, isto é, o controle dos corpos dos indivíduos para o controle como
tecnologia de poder dirigida às populações”369, as quais passam a ser vistas como um corpo vivo.

Nessa fase, predomina o biopoder, que “é a forma de poder que regula a vida social por
dentro, acompanhando-a, interpretando-a, absorvendo-a e a rearticulando. O poder só pode
adquirir comando efetivo sobre a vida total da população quando se torna função integral, vital,
que todos os indivíduos abraçam e reativam por sua própria vontade”370. “O biopoder, portanto,
se refere a uma situação na qual o que está diretamente em jogo no poder é a produção e a
reprodução da própria vida” 371 , e ademais, “O biopoder é outro nome da real submissão da
sociedade ao capital, e ambos são sinônimo da ordem produtiva globalizada”372.

Vejamos algumas proposições de André Gorz sobre o tema. Em primeiro lugar, cabe
considerar que em geral ele não se detém tanto quanto Negri sobre a fase do “fordismo” ou do
“taylorismo”. Ademais, tanto no que tange ao “fordismo” quanto ao “pós-fordismo”, que ele
analisa com mais profundidade, a ênfase recai sobre a análise do trabalho, suas formas concretas,
os seus potenciais de emancipação, etc. Tratemos de início sobretudo de questões gerais, para na
seqüência nos debruçarmos mais detidamente sobre a análise de Gorz acerca do trabalho.

Segundo Gorz, a fase anterior à “Terceira Revolução Industrial” ou à “revolução


microeletrônica” era marcada, no interior do processo produtivo, pela existência de fábricas
enormes, que exigiam a construção de uma gigantesca administração centralizada, caracterizada
por uma rígida hierarquia, ligada por sua vez a um forte parcelamento do trabalho 373 . Os
processos de trabalho estavam sob o controle da “gerência científica” taylorista, que controlava
rigorosamente até os mais insignificantes movimentos do trabalhador. Quanto a isso, sob
influência de Stephen Marglin374, Gorz propugna que

368
Idem, ibidem, p.43.
369
Idem, ibidem, p.105.
370
Idem, ibidem, p.43.
371
Idem, ibidem, p.43.
372
Idem, ibidem, p.386-7.
373
Gorz, A. Miséria do presente, riqueza do possível. São Paulo: Annablume, 2004, p.19.
374
Cf. o texto Origem e funções do parcelamento das tarefas. Para que servem os patrões?, em Gorz, A. Prefácio à obra Crítica
da divisão do trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1980.
80
Tamanha obsessão pelo controle disciplinar não provinha dos imperativos técnicos da
produção de massa. Provinha, ao contrário, como deixou muito explícito F. W. Taylor, da
profunda desconfiança que nutria o administrador por uma mão-de-obra considerada bestificada e
‘naturalmente’ refratária ao esforço. A organização ‘científica’ do trabalho destinava-se a
extorquir do operário o máximo de rendimento, enclausurando-o num sistema de obrigações que
lhe retirava qualquer margem de iniciativa375.376
No que tange ao consumo, Gorz diz que nessa fase, houve a criação da figura do
trabalhador-consumidor, que se deu graças à “oferta de quantidades crescentes de mercadorias
chamadas ‘de conforto’”377 e “ao recrutamento de uma mão-de-obra inexperiente, composta de
jovens oriundos da zona rural e de imigrantes, quer dizer, de populações mais permeáveis que a
classe operária tradicional, em razão de seu desenraizamento social e cultural, às seduções do
consumismo” 378 , este recrutamento também como conseqüência da resistência operária aos
ditames da produção capitalista.

Durante o período de vigência do “fordismo”, o predomínio da racionalidade econômica,


a qual se define “precisamente pela preocupação em economizar, isto é, movimentar os fatores
de produção da maneira a mais eficaz possível”379, atinge seu ápice, sobretudo em sua “forma
por excelência”, o “cálculo contábil”, que “mede em si mesmo a quantidade de trabalho por
unidade de produto, ignorando o vivido”380.

Entretanto, a gigantesca estrutura fordista passa a se tornar por demais dispendiosa,


pouco dinâmica, e pouco controlável; em função disso, advém uma forte crise, que exige
alterações profundas na estrutura produtiva. Nas palavras de Gorz, “a mundialização, com efeito,
não se explica pela revolução informática, nem pela busca de novos mercados comerciais. Foi de
início uma resposta essencialmente política àquilo que, por volta dos anos setenta, era chamado
‘crise de governabilidade’”381.

Dessa crise surge um novo arranjo social, caracterizado por um processo de


internacionalização do capital, no qual “a lógica financeira prevalece sobre as lógicas

375
“A função da hierarquia da fábrica, em última análise, é subtrair ao controle operário as condições e as modalidades do
funcionamento das máquinas, tornando a função de controle uma função separada. Somente desse modo, os meios e o processo
de produção podem apresentar-se como potência estranha, tornada autônoma, exigindo submissão dos trabalhadores” (O
despotismo de fábrica e suas conseqüências. In: Crítica da divisão do trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1980, p.83). Em
sentido semelhante, também se diz que “a organização ‘científica’ do trabalho é, antes de tudo, a destruição científica de qualquer
possibilidade de controle operário” (idem, Técnica, técnicos e luta de classes. In: Crítica da divisão do trabalho. São Paulo:
Martins Fontes, 1980, p.231).
376
Idem, Miséria do presente, riqueza do possível. São Paulo: Annablume, 2004, p.39.
377
Idem, Metamorfoses do trabalho: Crítica da razão econômica. São Paulo:Annablume, 2003, p.50.
378
Idem, ibidem, p.51.
379
Idem, ibidem, p.15.
380
Idem, ibidem, p.109.
381
Idem, Miséria do presente, riqueza do possível. São Paulo: Annablume, 2004, p.17.
81
econômicas, a renda sobre o lucro”382. A grande empresa, que agora “só tem nacionalidade na
aparência, por suas origens”383, passa a auferir lucros sem precedentes, em função das fusões e
dos investimentos financeiros no mercado monetário e de câmbio, apesar da diminuição do nível
de investimentos produtivos em relação às décadas de 1960 e 1970. Ao mesmo tempo, tem-se
um expressivo aumento da distribuição de lucros e dividendos aos acionistas, bem como da
remuneração dos administradores, o que é acompanhado pela diminuição dos salários.

Também surge um novo arranjo entre as empresas, sempre no sentido de proteger os


lucros e rendimentos da empresa principal, a qual terceiriza diversos momentos de sua produção.
Nas palavras de Gorz, “essas empresas subcontratadas servirão de amortecedores das flutuações
conjunturais; empregam ou demitem conforme a evolução da demanda, ainda mais prontamente
porque seus trabalhadores não têm, em geral, proteção sindical ou social”384.

No que tange mais propriamente à configuração do trabalho nas fases do fordismo e do


pós-fordismo, temos que já no início da década de 1970, em seus textos publicados na coletânea
Crítica da divisão do trabalho, organizada pelo próprio, Gorz diz que “sob o aspecto tecnológico,
as economias capitalistas avançadas encontram-se em período de transição (a ‘terceira revolução
industrial’) da produção mecanizada para a produção automatizada. As escolas secundárias
devem continuar a produzir um importante resíduo de modo a fornecer à indústria (e aos
‘serviços’) uma mão-de-obra pouco qualificada. Mas já é claro que a proporção de empregos não
qualificados vai diminuindo e que a formação pós-secundária torna-se rapidamente a condição
de obtenção de um emprego, por mais especializado ou embrutecedor que seja”385.

À época, Gorz percebe uma “revolução industrial” em curso, fundamentada na


automatização da produção. Nesse processo, constata que o trabalho sofre uma progressiva
especialização, o que não enriqueceria os trabalhos em conteúdo, mas antes, universalizaria
ainda mais a alienação. Em suas palavras, “... a maioria dos diplomados destina-se a tornar-se
trabalhadores subalternos nas indústrias avançadas e nos ‘serviços’ (eles próprios
industrializados) e a realizar o trabalho alienado e frustrante da ‘sociedade pós-industrial’”386.
Sugere que haveria uma tendência à diminuição dos trabalhos desqualificados, apesar dos
trabalhos qualificados terem se tornado embrutecedores. Os trabalhadores estariam a esse
processo reagindo fortemente através de greves, sabotagens, absenteísmo, buscando melhores

382
Idem, ibidem, p.26.
383
Idem, ibidem, p.22.
384
Idem, Metamorfoses do trabalho: Crítica da razão econômica. São Paulo:Annablume, 2003, p.69.
385
Idem, Técnica, técnicos e luta de classes. In: Crítica da divisão do trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1980, p.345.

82
condições de trabalho e maior controle da produção, com a quebra do caráter parcelar e
unilateral do trabalho. Tais ações estariam custando caro aos empresários, e nessa luta, algumas
conquistas eram arrancadas, e outras concedidas pelos patrões, em busca de um aumento de seus
lucros através da diminuição dos custos de produção resultantes da danificação de máquinas, da
paralisia da produção, da necessidade de contratar um contingente de trabalhadores maior do que
o necessário em função das faltas, etc. De todo modo, segundo Gorz, isso ocorria apenas quando
os capitalistas logravam quebrar o radicalismo do movimento operário.

Um tema que recebe grande atenção de Gorz ao tratar do desenvolvimento histórico do


capital e de suas forças produtivas é o da “não-neutralidade da técnica e da ciência”. Ele é
enfático ao afirmar que a estrutura de dominação capitalista e toda a sua brutalidade está posta
nos próprios meios de produção, e na própria estrutura da ciência que os concebe. Em suas
palavras,

produzir e dominar, dominar aquele a quem se obriga a produzir e que se escraviza a


objetivos que lhe são desconhecidos, a instrumentos de trabalho dos quais se lhe impõe
minuciosamente o modo de usar: a vontade de domínio está profundamente inscrita na natureza
das máquinas, na organização da produção, na divisão do trabalho que ela materializa: o capital,
seus representantes e funcionários de um lado; os executantes do processo de produção de outro.
Organizações, técnicas de produção, divisão do trabalho forma a matriz material que,
invariavelmente, reproduz, por inércia, as relações hierárquicas de trabalho, as relações
capitalistas de produção387,388.

Assim, a própria “tecnologia da fábrica” “impõe uma certa divisão técnica do trabalho, a
qual, por sua vez, exige um certo tipo de subordinação, de hierarquia e de despotismo”389. Tal
constatação tem profundo impacto para a definição da tarefa emancipatória do proletariado, e da
forma de cumpri-la. Frente à constatação da não-neutralidade da técnica, não basta simplesmente
a gestão operária da produção, mas é preciso revolucionar a própria técnica e a própria ciência.
Diz Gorz:

Se a transição para o comunismo deve acontecer; se aí deve haver apropriação coletiva (e


não estatal), pelos produtores, dos meios de produção e vitória da colaboração voluntária sobre a
divisão hierárquica das tarefas, então é preciso que os produtores diretos apropriem-se e
subvertam as técnicas, a organização do trabalho, o modo de usar as máquinas, a disposição dos

386
Idem, ibidem, p.245.
387
Idem, Prefácio à obra Crítica da divisão do trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1980, p.11.
388
“A cultura e as competências científicas e técnicas trazem assim claramente a marca das relações capitalistas de produção
(autonomização e alienação dos meios de produção e das forças produtivas enquanto ‘forças exteriores’) e da divisão capitalista
do trabalho que separa trabalho intelectual e manual, combina em exterioridade os trabalhos que concorrem à produção do
‘produto comum’, nega aos trabalhadores parciais qualquer possibilidade de cooperação voluntária, de compreensão e de
autodeterminação do processo de trabalho e de seus objetivos, separa decisão e concepção de execução, a capacidade de produzir
conhecimentos da capacidade de determinar o uso que será feito desses conhecimentos” (idem, Técnica, técnicos e luta de
classes. In: Crítica da divisão do trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1980, p.225).
389
Idem, Prefácio à obra Crítica da divisão do trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1980, p.12.
83
locais de trabalho, a relação com o saber e as instituições (Escola) que o transmitem... Pois os
‘meios de produção’ não são somente instalações e máquinas e instalações, e que dominam os
operários como uma ‘força produtiva independente do trabalho’. Pois bem: a ciência e as técnicas
também devem ser revolucionadas e reconquistadas pelo proletariado, reapropriadas
coletivamente, como poder comum de todos, pela reunificação do trabalho manual e intelectual, o
refundir completo da organização do trabalho, bem como da escola390.

Trata-se de promover “uma ‘revolução cultural’”, a “destruição da distinção, da


hierarquia e da separação entre trabalho intelectual e manual, entre concepção e execução;
liberação das capacidades criadoras de todos os trabalhadores”391. De acordo com Gorz, tais
objetivos seriam alcançáveis, desde que o movimento operário não se contentasse com as
concessões feitas pelos capitalistas.

Em Adeus ao proletariado, escrito alguns anos depois, existem discrepâncias em relação


ao que acaba de ser visto. Não há mais oscilações acerca dos efeitos da terceira revolução
industrial e do desenvolvimento tecnológico no que tange à qualificação do trabalho; eles passam
a serem vistos como instrumentos de desqualificação e degradação dos trabalhadores envolvidos
no processo produtivo, de tal forma que a capacidade de controle operário das fábricas minguam.
Segundo Gorz, “a automatização e a posterior informatização suprimem os ofícios e as
possibilidades de iniciativa e substituem por um novo tipo de operários não-qualificados o que
ainda resta de operários e funcionários qualificados”392. Assim, a história teria desmentido Marx,
que nos Grundrisse, “prevê então que o desenvolvimento das forças produtivas substituirá o
exército de trabalhadores braçais operários não-qualificados militarmente enquadrados, por uma
classe de operários politécnicos, ao mesmo tempo manuais e intelectuais, que dominarão o
processo de fabricação em seu conjunto, exercerão seu controle sobre conjunto técnicos
complexos, com facilidade, de um trabalho para outro, de um tipo de produção para outro (...).
Sabe-se que ocorreu exatamente o contrário”393, 394.

Na fase anterior do desenvolvimento industrial, o trabalho operário se estruturaria sobre o


“ofício”, ou sobre as “profissões operárias”, “fonte da autonomia operária”395. Nessa situação, o
trabalhador teria certo controle sobre as atividades que executava, o que abria brecha para uma

390
Idem, ibidem, p.13.
391
Idem, Técnica, técnicos e luta de classes. In: Crítica da divisão do trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1980, p.247.
392
Idem, Adeus ao proletariado: para além do socialismo. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987, p.39.
393
Idem, ibidem, p.39.
394
“A história desconectou assim, aquilo que a perspectiva de Marx unira. Ele previa que, por meio da dominação científica da
natureza, os indivíduos desenvolveriam em seu trabalho a ‘totalidade de suas capacidades’. É que, graças a ‘esse
desenvolvimento mais rico do indivíduo’, o ‘livre desenvolvimento da individualidade’ de cada um tornar-se-ia uma necessidade
que buscaria (e encontraria) satisfação fora do trabalho graças à ‘redução ao mínimo do tempo de trabalho necessário’” (idem,
Metamorfoses do trabalho: Crítica da razão econômica. São Paulo:Annablume, 2003, p.94 – as aspas correspondem a trechos
dos Grundrisse, de Marx, p.439, 505, 593).

84
organização do processo produtivo operário, autogestionário. Entretanto, “o capital teve sucesso,
para além de tudo o que se podia prever, em reduzir o poder operário sobre a produção (...).
Conseguiu fazer com os próprios trabalhadores chamados a dominar máquinas gigantes fossem
dominados no e pelo trabalho de dominação que deviam executar”396.

Desse modo, o proletariado teria entrado em uma profunda crise, que seria ela mesma
uma “crise do socialismo”: “Com o desaparecimento do operário profissional polivalente, sujeito
possível de seu trabalho produtivo e, portanto, sujeito possível da transformação revolucionária
das relações sociais, desapareceu a classe capaz de tomar sob sua responsabilidade o projeto
socialista e de realizá-lo nas coisas. A degenerescência da teoria e da prática socialista vem
fundamentalmente disso397”398.

Em Metamorfoses do Trabalho (2003) a descrição é outra. Surgem novas possibilidades


de emancipação, já que a progressiva eliminação do trabalho de grande parte da população
implica em um aumento do tempo disponível, potencial tempo para o desenvolvimento das
capacidades dos indivíduos, e para a experimentação da liberdade frente aos ditames da
produção. Nas palavras de Gorz, “a ‘sociedade do trabalho’, portanto, caducou: o trabalho não
pode mais servir de fundamento à integração social”399,400, e dessa maneira,

novas relações de cooperação, de comunicação, de troca, podem ser tecidas no tempo


disponível e inaugurar um novo espaço societal e cultural, feito de atividades autônomas, de fins
livremente escolhidos (...): as atividades autônomas podem tornar-se preponderantes com relação
à vida de trabalho, a esfera da liberdade com relação à esfera da necessidade. O tempo da vida
não precisa mais ser gerido em função do tempo do trabalho; é o trabalho que deve encontrar seu
lugar, um lugar subordinado, em um projeto de vida401.
Alguns anos depois, em Misérias do presente, riquezas do possível (2004), Gorz
desenvolve essas idéias, centrando novamente a atenção nos novos processos produtivos
originados da revolução microeletrônica, e as correspondentes mudanças do trabalho e das
possibilidades revolucionárias. Diferentemente do que ocorria na fábrica fordista, a empresa
atual busca envolver o trabalhador em todas as suas dimensões. Assim, “a dominação total,

395
Idem, Adeus ao proletariado: para além do socialismo. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987, p.61.
396
Idem, ibidem, grifos meus.
397
“Ora, tal como já foi visto, a divisão capitalista do trabalho destruiu o fundamento duplo do ‘socialismo científico’: - o
trabalho operário não comporta mais poder (...). O trabalho não é mais atividade própria do trabalhador” (idem, ibidem, p.86). Da
mesma forma, “o marxismo está em crise porque há uma crise do movimento operário. Rompeu-se, ao longo dos últimos vinte
anos, o fio entre desenvolvimento das forças produtivas e desenvolvimento das contradições de classe” (idem, ibidem, p.25).
398
Idem, ibidem, p.85.
399
Idem, Metamorfoses do trabalho: Crítica da razão econômica. São Paulo:Annablume, 2003, p.75.
400
“Repito-o ainda uma vez e mais uma vez: um trabalho que tem por efeito e por finalidade fazer economizar trabalho não
pode, ao mesmo tempo, glorificar o trabalho como fonte essencial da identidade e do desenvolvimento pessoais. O sentido da
atual revolução técnica não pode ser o de reabilitar a ética do trabalho, a identificação ao trabalho” (idem, ibidem, p.93).
401
Idem, ibidem, p.95.
85
totalmente repressiva, da personalidade operária deve ser substituída por sua mobilização
total” 402 ; o operário deve “transformar-se ao mesmo tempo em ‘fabricante, tecnólogo e
administrador’403”404. Ademais, hoje a grande empresa propicia ao seu empregado uma forma
específica de inserção social, uma identidade, um sentimento de conforto e de pertencimento,
mas o preço que cobra do trabalhador é o “risco de perda total de si”405. Isso o leva a afirmar que,
“deixamos, sob certos aspectos, o plano do trabalho abstrato – que, segundo Marx, punha fim às
relações pré-capitalistas de submissão pessoal, justamente porque era uma prestação impessoal,
‘indiferente a seu conteúdo’ e independentemente da personalidade de seu destinatário – para
voltar a solicitar uma prestação personalizada, impossível de ser formalizada, difícil de
contratualizar e que restabalece, escreve Paolo Virno, a relação do operário ao patrão baseada na
‘universal dependência pessoal, em um duplo sentido: depende-se de tal ou qual pessoa, não de
regras dotadas de um poder coercitivo anônimo, e é toda a pessoa, a aptidão de pensar e de agir,
em suma ‘a existência genérica’ de cada um, que é assim assujeitada406”407,408. Desse modo, com
essa tentativa de subordinação total do trabalhador, “o retrocesso com relação ao fordismo é
evidente: o toyotismo substitui relações sociais modernas por relações pré-modernas”409.

No capitalismo contemporâneo, as transformações no processo de trabalho são


comandadas pelo capital, e portanto limitadas ao seu movimento, o movimento da acumulação410.
Desse modo, afirma Gorz que

O capitalismo pós-fordista faz sua a velha fórmula de Stalin: ‘o capital mais precioso é o
homem’. ‘O homem’, subsumido no processo de produção como ‘recurso humano’, como ‘capital
humano’, como capital fixo humano. Suas capacidades especificamente humanas são integradas
em um mesmo sistema junto com o intelecto inanimado das máquinas. Torna-se cyborg, meio de
produção em sua totalidade, até em seu ser-sujeito, isto é, capital, mercadoria e trabalho a um só

402
Idem, Miséria do presente, riqueza do possível. São Paulo: Annablume, 2004, p.40.
403
Coriat citado por Gorz, A. ibidem, p.41.
404
Idem, ibidem, p. 41.
405
Idem, ibidem, p.48.
406
Virno citado por Gorz, p.49.
407
Idem, ibidem, p.49.
408
“A individualização das remunerações, a transformação dos assalariados em autônomos ou em prestadores independentes
tendem a suprimir, além do assalariamento, o próprio trabalho abstrato” (idem, ibidem, p.63). “[Os “prestadores de trabalho”]
não fornecem mais um trabalho abstrato, trabalho em geral, independente de sua própria pessoa, qualificando-os como
indivíduos sociais em geral, úteis de modo geral. Seu estatuto não é mais regido pelo direito do trabalho graças ao qual o
pertencimento do trabalhador à sociedade é mais importante que seu pertencimento à empresa. Os clientes ou as empresas às
quais fornecem seus serviços podem tratá-los de modo desigual, conforme lhes agrada, ou não, sua atitude ou sua personalidade,
selecioná-los conforme critérios subjetivos” (idem, ibidem, p.63-64).
409
Idem, ibidem, p.48.
410
“De quantitativo e material, o crescimento deveria tornar-se ‘qualitativo’ e ‘imaterial’. Os produtos deviam impor-se por sua
‘imagem’, sua novidade, seu valor simbólico. A competitividade exigia a máxima produção de novidades. As empresas deviam
ser capazes de improvisações contínuas, deviam incitar e explorar os entusiasmos efêmeros, as modas imprevisíveis e voláteis”
(idem, ibidem, p.37).
86
tempo. E, como não há uso rejeitado, excluído, dado por inexistente, o homem-capital-mais-
precioso só é homem se pode funcionar como capital411.
No lugar do grande contingente de trabalhadores que é expulso das fábricas, surge um
pequeno grupo de “trabalhadores de elite” 412 , o “operário de processo”, caracterizado pela
polivalência, que aumentaria a mobilidade potencial dos trabalhadores, a qual “confere pois ao
trabalhador uma maior autonomia existencial”413. Nessa circunstância, esse trabalhador “não é
prisioneiro de ‘sua’ empresa, mas pode mudar, variar seus empregos”414, mas, “por outro lado,
não é difícil substituí-lo. Dito de outro modo, seu saber profissional pode ser, em larga medida,
banalizado, o que deve ser entendido não como a desqualificação e a conseqüência monotonia do
trabalho, mas uma larguíssima acessibilidade da qualificação”415. Não obstante, Gorz reconhece
que a referida desqualificação e rotinização do processo de trabalho também pode acometer parte
do trabalho desse novo operário.

Apesar de não se referir diretamente aos conceitos marxianos de subsunção formal e real
no bojo das análises apresentadas acima, é evidente que as concepções de Gorz acerca do papel e
das características da força de trabalho e do processo de trabalho à luz do desenvolvimento
histórico recente do capital em nenhum momento fogem à discussão do capítulo; ao contrário,
introduzem elementos importantes 416 . Antes disso, apresentemos o conceito de pós-grande
indústria.

411
Idem, ibidem, p.14.
412
Idem, Metamorfoses do trabalho: Crítica da razão econômica. São Paulo:Annablume, 2003, p.71.
413
Idem, ibidem, p.81.
414
Idem, ibidem, p.81.
415
Idem, ibidem, p.81.
87
Capítulo 4. O conceito de “pós-grande indústria”.

Neste capítulo, apresento uma tentativa de estabelecer uma teoria acerca do capitalismo
contemporâneo fortemente ancorada nos textos marxianos, dos quais inclusive extrai prenúncios
daquilo que o movimento do capital iria consolidar muito depois de Marx. A tese central, que
hoje se vive na fase da pós-grande indústria, que teria sucedido a etapa da grande-indústria, foi
apresentada por Ruy Fausto. Ele busca, por meio de uma crítica rigorosa, “reconstituir o sentido
da dialética”, o que seria imprescindível para a compreensão do capitalismo contemporâneo, e
para o posicionamento político.

Apesar de sua aparente originalidade, a noção de pós-grande indústria, segundo Ruy


Fausto, teria sido desenvolvida pelo próprio Marx, em algumas passagens dos Grundrisse. Com
base na exposição de Fausto, que tratou em poucos momentos dessa questão, alguns autores
buscaram desenvolver a análise da pós-grande indústria, de modo a lhe dar ainda maior
amplitude e consistência, e atualizá-la naquilo em que, supunham, isso se fazia necessário.
Interessará aqui as proposições de Eleutério Prado e Leda Paulani, dois importantes marxistas
brasileiros, que foram influenciados pelas interpretações da obra de Marx feitas por Ruy
Fausto417.

A maior parte da análise do “modelo” exposto nos Grundrisse e n’O Capital, é


constituída por uma investigação acerca das fases do modo de produção capitalista. Inicialmente,
Ruy Fausto se vale daquelas duas obras para tratar da manufatura e da grande-indústria. É o caso
de se chamar a atenção para alguns momentos de sua exposição, imprescindíveis para a
compreensão da fase da pós-grande indústria.

Ao apresentar as fases da manufatura, grande indústria e pós-grande indústria, Ruy


Fausto constrói “silogismos dialéticos” que caracterizam cada um desses momentos do
desenvolvimento capitalista, os quais devem ser referenciados, já que sintetizam alguns aspectos
decisivos da leitura de Fausto. No caso da manufatura, os juízos que a caracterizam são: “o

416
Que merecerão atenção no final da dissertação.
417
A discussão sobre a pós-grande indústria foi apresentada inicialmente como parte da tese de livre docência de Ruy Fausto,
defendida na Universidade de São Paulo em 1989, parte essa que foi publicada pela revista Lua Nova, em novembro de 1989.
Entretanto, irei basear a exposição da noção de pós-grande indústria num trecho do texto denominado “A apresentação marxista
da história: modelos”, publicado no terceiro tomo da série Marx: Lógica e Política (Cf. Fausto, R. Marx: Lógica e Política –
Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo: Editora 34, 2002, p.115-140), no qual o
autor discute, com o rigor e a complexidade que lhes são características, as passagens dos Grundrisse que interessam à presente
discussão 417 . Tal discussão se dá no bojo de uma interessante análise da “apresentação marxista da história” presente nos
Grundrisse e em O Capital, que de acordo com Ruy Fausto, constitui um dos modelos marxianos daquela apresentação, sendo
que um outro se encontraria nos Manuscritos Econômico-Filosóficos, e um terceiro, na Ideologia Alemã e no Manifesto
Comunista. Em função da riqueza e densidade desse texto, e dos objetivos do presente capítulo, seria equivocado tentar analisá-lo
de maneira abrangente aqui. Ao contrário, serão discutidos apenas os elementos concernentes ao tema em questão.
88
trabalhador é o trabalhador parcial”, “o trabalhador é o trabalhador total”, e “o capital é o
trabalhador total”418. De acordo com Ruy Fausto, tratam-se de juízos de reflexão, nos quais “o
sujeito é pressuposto e o predicado posto”419, ou seja, existe a passagem do sujeito no predicado
- aquele é negado por este, o sujeito se perde no predicado420.

Do lado do sujeito, “na medida em que o predicado não é objetivo mas subjetivo
[trabalhador parcial - G.M.], a passagem é de certo modo quantitativa, não qualitativa. Passa-se
do todo individual pressuposto [trabalhador - G.M.] à parte, posta [trabalhador parcial - G.M.]. E
do todo individual pressuposto ao todo [trabalhador total - G.M.], posto. Entenda-se que a parte
posta é parte, tanto relativamente ao todo individual, quanto relativamente ao todo social”421.
Dessa forma, a negação do sujeito pelo predicado, no que tange ao trabalhador, é quantitativa,
segundo Ruy Fausto.

Entretanto, “a negação qualitativa existe também na situação da manufatura, mas para o


caso do capital. No enunciado ‘o capital é o trabalhador global’, a reflexão é qualitativa, porque
o capital, forma objetiva, põe-se numa matéria de estofo subjetivo, que lhe é assim
inadequada”422. Nesse caso, vê-se que na manufatura o processo já é comandado pelo capital, já
que o trabalhador total é um predicado daquele; entretanto, “do ponto de vista material, o
verdadeiro sujeito da produção é o que Marx chama de trabalhador total”423, e nessa medida, o
capital não encontra aqui sua base material adequada, já que ainda depende das habilidades,
disposição, etc., dos trabalhadores parciais. Disso, Ruy Fausto conclui que a subsunção do
trabalho ao capital ainda é meramente formal. Em suas palavras, “... o capital – que é o todo no
plano da forma – não adquiriu ainda [na manufatura] um corpo próprio adequado. Ele organiza e
domina um corpo subjetivo. Por isso, a subordinação, ou antes a subsunção, é dita formal,
embora ela já introduza modificações no interior do processo de produção (reunião de
trabalhadores, disciplina etc.)”424.

Na fase da grande-indústria, o silogismo que lhe corresponde teria os seguintes juízos: “o


trabalhador submete a matéria-prima, o sistema mecânico submete o trabalhador, o sistema

418
Idem, ibidem, p.116.
419
Idem, ibidem, p.116.
420
Sobre os juízos de reflexão, inerência, essência, transição, de devir, de sujeito, cf., por exemplo, Fausto, R. Marx: Lógica e
Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo I. São Paulo: Brasiliense, 1987, p.189; Idem,
Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo II. São Paulo: Brasiliense,
1987, p.20, 22, 23, 24 e 85.
421
Idem, ibidem, p.116.
422
Idem, ibidem, p.117.
423
Idem, ibidem, p.115.
424
Idem, ibidem, p.116.
89
mecânico submete a matéria-prima”425, e nele, Ruy Fausto esclarece, “o trabalhador é constituído
como termo médio, mediador do processo (o qual desaparece na conclusão), e o sistema
mecânico é constituído como sujeito. (Esse ‘silogismo’ se refere ao lado material do processo.
Nele o termo médio ‘trabalhador’ se torna ‘apêndice’ do sistema mecânico)”426.

Com o advento da grande indústria, o próprio sistema de máquinas se torna o sujeito da


produção, e desse modo deixa de existir o “processo de trabalho” propriamente dito, já que os
trabalhadores mobilizados na produção imediata perdem todo o controle sobre ela, sendo
reduzidos à condição de meros apêndices das máquinas ou, em outras palavras, sendo
subsumidos materialmente ao capital. A subsunção se torna, aqui, real, e essa é, segundo Ruy
Fausto, a primeira negação do processo de trabalho, produzida pelo desenvolvimento do capital.
Junto com essa negação do trabalho, ocorre a posição do capital num material de “estofo
objetivo”, numa forma adequada à sua existência – vale repetir, o sistema de máquinas -, o que
se faz possível pela subordinação da ciência ao processo produtivo.

Tais transformações têm importantes implicações no processo de valorização. Segundo


Ruy Fausto,

Na primeira forma [manufatura – G.M.], o desenvolvimento da exploração da mais-valia


relativa só pode ser limitado (mas dada a resistência, ainda possível, com base na natureza da
organização material da produção, o prolongamento da jornada é também limitado). Na segunda
forma [grande indústria - G.M.], temos o pleno desenvolvimento da exploração da mais-valia
relativa (mas, com essa forma, também a exploração da mais-valia absoluta pode se expandir). Na
terceira forma [pós-grande indústria – G.M.], tem-se a ‘negação’ do trabalho como fundamento
do valor, e do tempo de trabalho como medida da grandeza do valor427.

Passemos agora, desse modo, à pós-grande indústria, que possui, segundo Fausto, o
mesmo estatuto das fases anteriores, devendo ser, portanto, apresentada nas mesmas dimensões
em que foram a manufatura e a grande-indústria, e com base nelas.

Ruy Fausto não enuncia o silogismo, mas ancorado em uma passagem dos Grundrisse
afirma que o silogismo da pós-grande indústria “é comparável ao da manufatura”428. O trecho em
questão é o seguinte: “Não é mais o trabalhador que intercala o objeto natural modificado como
membro intermediário entre ele e o objeto. Mas ele intercala o processo natural que ele
transforma em um processo industrial como intermediário entre ele e a natureza inorgânica que

425
Idem, ibidem, p.125.
426
Idem, ibidem, p.125.
427
Idem, ibidem, p.133.
428
Idem, ibidem, p.130.
90
ele submete” 429 . Enquanto na manufatura o objeto natural modificado (a ferramenta ou o
instrumento de trabalho) servia de mediador entre o trabalhador – ainda o sujeito, no aspecto
material da produção - e o objeto da produção, aqui, o termo médio é o processo natural tornado
processo industrial. Há, segundo Ruy Fausto, retorno a uma condição na qual o princípio da
produção é subjetivo.

Esclarecendo esse ponto, Ruy Fausto assevera que

Com a pós-grande indústria desaparece a subordinação material [do trabalho ao capital -


G.M.], e é nesse sentido e só nesse sentido que se retoma a primeira situação. Na realidade, tem-
se uma negação da negação. Se a subordinação material desaparece é porque o processo de
trabalho perdeu completamente o seu caráter de processo de trabalho. O processo de produção
tem um caráter muito próximo ao de um processo de produção da ciência. São novas máquinas
que o executam, o indivíduo sai até certo ponto do processo430.

Portanto, o desenvolvimento da maquinaria iria até um ponto no qual os trabalhadores-


apêndices são progressivamente substituídos por máquinas, e com isso, passam a se postar “ao
lado da produção, em vez de ser seu agente principal”431. Isso, que Fausto chama de segunda
negação do trabalho pelo capital - negação da negação -, faz com que o primeiro passe de certa
forma a controlar o segundo, não estando o trabalho mais realmente submetido ao capital, mas
apenas formalmente432: “Teríamos assim a sucessão: subordinação formal, subordinação real,
subordinação formal novamente”433.

Fausto introduz assim uma importante objeção à análise de Marx, pois segundo ele, ao
desenvolver suas reflexões, “Marx pensa num modelo que poderia ser, por exemplo, o do
engenheiro que pilota um avião supersônico. Mas há também o modelo do trabalhador que faz
uma longa jornada diante do instrumento”434. Assim, verificou-se historicamente que na pós-
grande indústria, surgiram atividades que não poderiam ser consideradas livres de certo tipo de
subsunção material ao capital. Em função disso, Fausto cunha o conceito de subsunção formal-
intelectual, ou apenas subsunção intelectual do trabalho ao capital.

429
Marx, K. Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973,
vol.II, p.228; ou Idem, Grundrisse: foundations of the critique of political economy. London; New York Penguin Books
associada à New Left Review, 1993, p.705.
430
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo:
Editora 34, 2002, p.135.
431
Idem, ibidem, p.135.
432
“Com a pós-grande industria desaparece a subordinação material [do trabalho ao capital]...” (idem, ibidem, p. 135).
433
Idem, ibidem, p.136.
434
Idem, ibidem, p.136.
91
Como no caso da grande indústria, essa nova negação do trabalho está relacionada a uma
nova posição da ciência435:

A ciência, que é forma material do capital, é posta uma segunda vez. E agora a posição é
de tal ordem que a matéria, o esqueleto material enquanto tal, torna-se simples suporte da ciência.
Nesse sentido, essa posição é muito diferente da primeira e do seu análogo, a encarnação do
dinheiro no ouro. Aqui não há mais encarnação, porque a forma excede a matéria. A forma
(sempre a forma material) reduz a matéria (a matéria material) a suporte436.
Em outras palavras, na pós-grande indústria a ciência “é posta na matéria”; “a
compreensão [científica] da natureza está objetivada nas novas máquinas”; “a ciência se objetiva
enquanto ciência”437; e “A forma material [a ciência] passa a servir a si própria em vez de servir
à forma formal [o capital]”438.

Surge assim uma nova inadequação da forma (capital) em relação à matéria, e a própria
substância do valor muda. Segundo Ruy Fausto, “agora a substância da forma não é mais o
trabalho, mas o não-trabalho (é a ciência que cria ‘valor’)”439, e desse modo, o valor passa a ser
qualitativo440, e “... a riqueza passa a ser essencialmente a ciência (a arte etc.), e esta é produzida
no tempo de não-trabalho”441.

4.1. Alguns desenvolvimentos logrados por Eleutério Prado.

Como foi dito na introdução do presente capítulo, apesar de promover algumas críticas a
Marx, Ruy Fausto procura se restringir ao texto marxiano, e reproduzi-lo fielmente, sem
pretensões de atualizá-lo. Leda Paulani e Eleutério Prado também reivindicam fidelidade ao
texto de Marx; no entanto, buscando analisar o presente com base na noção de pós-grande
indústria, acabam por desenvolver proposições de interesse para a compreensão da referida
noção442.

435
“Se a grande indústria aparece como a negação do processo de trabalho, a pós-grande indústria seria a segunda negação do
processo de trabalho, e na realidade a negação da negação. Mas se a grande indústria representa a posição (material) adequada do
capital no processo produtivo, poder-se-ia dizer também que a pós-grande indústria representa a segunda posição material...”
(idem, ibidem, p.129).
436
Idem, ibidem, p.134.
437
Idem, ibidem, p.134.
438
Idem, ibidem, p.135.
439
Idem, ibidem, p.137.
440
Idem, ibidem, p.130.
441
Idem, ibidem, p.137.
442
Comecemos pelas análises de Eleutério Prado, mas apenas naquilo que ele acrescenta ou se distancia da análise de Ruy
Fausto, a qual ele busca desenvolver.
92
Cabe considerar que Prado explicita bastante a idéia de que nos Grundrisse Marx não
estaria analisando o momento histórico em que vivia, mas realizado uma previsão para o futuro:
“Nos Grundrisse de 1857-58, Marx distingue duas etapas da produção capitalista, uma delas
representada pela própria realidade do século XIX e a outra que viria a existir num certo
momento do futuro” 443 . Esse momento corresponderia à contemporaneidade, à fase do
desenvolvimento capitalista que se inicia no “último quartel do século XX” 444 . Atribui-se
portanto grande atualidade à análise presente nos Grundrisse, na qual, “segundo Marx, o
desenvolvimento da grande indústria conduz o modo de produção capitalista para uma fase de
transição (aqui denominada, como já se disse, pós-grande indústria). Nessa etapa, a geração de
valor deixa de depender inteiramente do tempo de trabalho, passando a se sujeitar também ao
emprego de recursos sociais de produção que o ato de trabalhar mobiliza durante o tempo de
trabalho”445.

Analisando os processos produtivos das empresas “de ponta”, Prado constata que

conforme se reduziu o tempo necessário para produzir uma determinada quantidade de


produto, elevou-se o volume dos meios de produção utilizados e processados no processo
produtivo; assim, mudaram também as características de complexidade dos sistemas de produção
que passaram a exigir um grau crescente de coordenação administrativa. A hierarquia rígida e de
comando centralizado, assim como o trabalho repetitivo, maçante e desqualificado, tornaram-se
então incongruentes com essa complexidade. Em conseqüência, as diminuições do tempo de
trabalho deixaram de ser um objetivo sempre dominante na produção de riqueza. O que, então,
tornou-se importante para o crescimento da força produtiva do trabalho foram as determinações
qualitativas que informam o próprio trabalho e que advém do próprio progresso da ciência e da
tecnologia446.

Dessa maneira, nas empresas que empregam tecnologia mais avançada, ocorre um
revolucionamento na própria administração e na natureza do trabalho dos que não foram
simplesmente substituídos por máquinas. A hierarquia e o controle do processo de trabalho são
destruídos, o trabalho se qualifica, e essas qualidades se tornam o elemento determinante da
produção.

A qualificação do trabalho é acompanhada pela sua imaterialidade, e sua complexidade


torna difícil sua redução a trabalho abstrato - “ora, é verdade que essa mutação do trabalho
concreto, de material para imaterial, torna-o especialmente imensurável enquanto tal. Sobre isto

443
Prado, E.F.S. Crítica à economia política do imaterial. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande indústria. São Paulo:
Xamã, 2005, p.82.
444
Idem, Pós-grande indústria e neoliberalismo. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande indústria. São Paulo: Xamã,
2005, p.125.
445
Idem, Crítica à economia política do imaterial. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande indústria. São Paulo: Xamã,
2005, p.83.
446
Idem, ibidem, p.85.
93
não há dúvida”447. Com isso, o capital perde sua medida, ou melhor, “a medida interna do modo
de produção capitalista torna-se desmedida, sem que haja restauração da medida – possibilidade
que está contemplada na Lógica de Hegel. Em conseqüência, os preços ganham um elemento
convencional – possibilidade esta, aliás, que não pode ser considerada estranha à lógica de O
Capital”448,449.

Enquanto Ruy Fausto trabalha com a noção de valor negado450, Eleutério Prado, com
base no conceito de desmedida, trabalha com a noção de “valor desmedido”: “O capitalismo
monopolista contraria e distorce, pois, a medição da riqueza pelo tempo de trabalho, mas não a
suprime. Isto só vai ocorrer quando surge, tal como já foi visto anteriormente, a pós-grande
indústria. É então que o próprio valor se torna desmedido”451.

Além disso, discordando de Ruy Fausto, que situa a ciência como fonte e substância do
valor452, Eleutério Prado alerta que “não se trata de dizer que a ciência e a tecnologia em si
mesmas, independentemente do trabalho, são agora as produtoras do valor”453. Em todo caso,
Eleutério Prado ainda afirma, a respeito das mudanças no caráter do trabalho, que “na pós-
grande indústria (...) o trabalho de produção aproxima-se do trabalho artístico e do trabalho
intelectual”454.

Prado destaca algumas características do capitalismo contemporâneo, que Fausto não


analisou. Segundo aquele,

a pós-grande indústria projeta um modelo limite de empreendimento capitalista: empresas


sem fábricas, ou seja, empresas que concentram apenas as atividades financeiras e as atividades
de pesquisa e de criação de bens culturais, científicos e tecnológicos, ou seja, daqueles valores de
uso que, sob a forma de mercadorias, podem receber a forma de capital de empréstimo. Os ativos
desse tipo de empresa consistem, então, apenas em dinheiro, títulos públicos e privados, ações,
assim como direitos de propriedade intelectual. Rigorosamente, essa empresa não produz e não
vende diretamente mercadorias do modo ordinário; ela comercializa o direito de acesso às suas

447
Idem, ibidem, p.87.
448
Idem, ibidem, p.88.
449
Analisaremos esse engenhoso emprego do conceito de desmedida para a análise da pós-grande indústria, que Eleutério Prado
infelizmente não aprofunda muito, no próximo capítulo.
450
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo:
Editora 34, 2002, p.130.
451
Prado, E.F.S. Crítica à economia política do imaterial. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande indústria. São Paulo:
Xamã, 2005, p.93.
452
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo:
Editora 34, 2002, p.137.
453
Prado, E.F.S. Crítica à economia política do imaterial. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande indústria. São Paulo:
Xamã, 2005, p.89.
454
Idem, ibidem, p.84.
94
patentes, direitos autorais, marcas, projetos e processos de produtos, etc. que não são mais do que
mercadorias que funcionam como capital455.

Ao mesmo tempo em que na pós-grande indústria existe a tendência a se “prescindir das


fábricas”, ocorre uma enorme ampliação da produção de serviços, e esta passa a servir de modelo
para a própria produção “de coisas”. Esse processo acarreta fundamentais alterações para o
fetichismo das mercadorias e do capital. Nas palavras de Prado,

... a produção de massa é substituída mais e mais pela produção aparentemente


personalizada, que apela aos gostos e desejos de indivíduos postos objetivamente como pessoas
despersonalizadas, meramente contemplativas e manipuláveis. Por criação e recriação geram-se
cada vez mais necessidades imaginárias de indivíduos cada vez mais narcisistas, de tal modo que
as próprias coisas se transfiguram em imagens e representações de que as próprias coisas
enquanto tais são apenas suportes. É assim que a produção capitalista em estágio avançado repõe
o fetiche da mercadoria, fazendo com que o caráter social do trabalho deixe de se apresentar
como naturalidade de coisas, para passar a figurar como artificialidade de um mundo de criações
‘intelectuais’ e ‘artísticas’ da própria indústria cultural. Chega-se, assim, àquilo que Debord
chamou de sociedade do espetáculo, que “não é um conjunto de imagens, mas uma relação social
entre pessoas, mediada por imagens” (Debord, 2000, p. 14). Agora, o fetiche passa a ser posto
consciente e compulsivamente456.

Além disso, Prado constata que as atividades financeiras passam a preponderar sobre as
produtivas, mesmo imateriais. Num diálogo tácito com Lenin de Imperialismo: etapa superior
do capitalismo, diz Prado que

ao invés de uma fusão do capital bancãrio com o capital industrial, há aqui uma outra
forma de subordinação do capital produtivo – enquanto um momento intransponível do processo
de valorização – à própria lógica do próprio capital financeiro, cumprindo assim um destino
imanente do próprio evolver do capital. É assim que na “era da informação” surge a empresa
totalmente rentista capaz de obter juros, dividendos, rendas de monopólios, assim como
rendimentos especulativos, de seus ativos financeiros, entre os quais se encontram, também, os
ativos potencialmente produtivos. Ainda que nessa espécie de empresa possa haver geração de
valor (e de mais-valia) – desmedido enquanto tal devido à negação do tempo de trabalho como
determinante exclusivo do valor – ela é por excelência um empreendimento de captação de renda,
ou seja, uma firma “rent seeker”457.

Por fim, com base na idéia apresentada por Fausto acerca da inadequação da base
material da pós-grande indústria à forma capital458, Eleutério Prado propugna que, nessa fase, o
capitalismo entra em crise, e abre brechas à sua superação por uma formação social socialista.
Segundo ele,

455
Idem, Valor desmedido e desregramento do mundo. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande indústria. São Paulo:
Xamã, 2005, p.108-109.
456
Idem, Crítica à economia política do imaterial. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande indústria. São Paulo: Xamã,
2005, p.92-93.
457
Idem, Valor desmedido e desregramento do mundo. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande indústria. São Paulo:
Xamã, 2005, p.109.

95
em síntese, pode-se dizer que o modo de produção capitalista põe o valor e as suas leis
como normas objetivas e inconscientes da formação dos preços de mercados, de remuneração da
força de trabalho e de geração de mais-valia, de regulação da apropriação de mais-valia pelos
capitais particulares, mas em seu desenvolvimento vem depô-las seja, primeiro, por transgressão,
seja, depois, por meio de sua supressão dialética. Assim, o capitalismo cria a sua própria
regulação, mas não tem outro caminho histórico senão tornar-se um capitalismo desregulado,
cada vez mais anárquico, sempre mais irracional, até que deixa de ser um modo de produção
progressivo para se tornar um modo de produção regressivo. Nessas condições, as taxas de lucros
efetivas dependerão do poder de mercado que varia no tempo e segundo a circunstância em
função do custo de produção, penetração da marca, grau de novidade, vantagem tecnológica, etc.
Elas se tornam, por isso, casuais. Seria errôneo pensar, entretanto, que elas se tornam puramente
arbitrárias, pois ainda estão limitadas, dada a massa total de lucros, pela concorrência dos capitais
(...). O que se torna, então, uma necessidade histórica é a abolição da relação de capital e do
trabalho assalariado, ou seja, o advento de um novo modo de produção no qual possa ocorrer o
pleno desenvolvimento das capacidades científicas e artísticas de todos os homens. Isto requer a
eliminação da penúria em que vive grande parte da massa de trabalhadores e o fim do
antagonismo de classe, de tal modo que a produção da riqueza possa estar baseada na cooperação
voluntária e espontânea de trabalhadores livremente associados459.

Não obstante a constatação da necessidade histórica da superação do capitalismo, Prado


não perde de vista a negatividade também presente nos seus atuais movimentos, sobretudo no
que tange às suas perversas conseqüências para o processo de dominação do trabalhador. Ao
mesmo tempo em que as atividades dos trabalhadores se enriquecem em determinações, e
propiciam o desenvolvimento de sua autonomia, “a empresa da pós-grande indústria vem
submeter o trabalhador de um modo total, envolvente, hipócrita ou mesmo cínico, inclusive fora
do tempo de trabalho”460. “Agora, ele [o capitalista] tem de passar a controlar o trabalhador não
apenas como trabalhador e consumidor, mas também como político, religioso, profissional, etc.,
de um modo que tende a ser total”461.

4.2. Alguns desenvolvimentos logrados por Leda Paulani.

Em O papel da força viva de trabalho no processo capitalista de produção, texto de 2001,


Leda Paulani expande a noção de pós-grande indústria, à luz das transformações do capitalismo
no século XX, notadamente o advento do taylorismo-fordismo e, posteriormente, do toyotismo.

458
“... a economia baseada no trabalho conceitual e no conhecimento científico e tecnológico avançado é incongruente com a
relação de capital” (idem, Crítica à economia política do imaterial. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande indústria. São
Paulo: Xamã, 2005, p.94).
459
Idem, ibidem, p.93-94.
460
Idem, Valor desmedido e desregramento do mundo. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande indústria. São Paulo:
Xamã, 2005, p.114-115.

96
Como expressa o título do artigo, a ênfase de Paulani recai sobre a análise da força viva de
trabalho, e as tendências que se põem hoje em relação ao seu papel frente ao desenvolvimento da
maquinaria, que “foi paulatinamente se difundindo para todos os setores”462.

Paulani retoma a análise de Marx acerca da grande-indústria, e assevera que, durante a


vigência dessa fase, o capital teria encontrado uma forma material adequada, tendo sido
resolvida, ao menos “em princípio”, a “contradição forma/matéria” 463 . Entretanto, estando
resolvida essa contradição, como explicar o advento do taylorismo-fordismo, indaga Paulani. E
em resposta, propugna que tal contradição persistiu mesmo após o desenvolvimento da grande-
indústria. Segundo ela,

... mesmo com a existência da máquina, o processo de produção ainda está nas mãos dos
operários. Porque ninguém entende tanto do processo de produção do que quem nele trabalha, seu
resultado final, se bom ou ruim, ainda depende, em certa medida, dos caprichos do ser humano,
vale dizer, da intromissão, na lógica abstrata e quantitativa da acumulação, de uma lógica de
fundamento qualitativo, porque humana464.
Expondo esse movimento com maior rigor lógico, propõe que “o resultado, portanto, é
que, inicialmente, a introdução da maquinaria põe o trabalho vivo como sujeito negado, mas põe
de modo não-pleno: a negação efetiva do trabalho vivo como sujeito é ainda um vir-a-ser, de
modo que o trabalho vivo, apesar de já negado pela máquina, ainda existe como sujeito”465.

Teria sido isso que Taylor percebeu e – compreendendo os empecilhos que a lógica
humana acarreta à produção capitalista - tentou extirpar, mediante sua “gerência científica”. Com
base nela, Ford teria realizado modificações materiais no processo produtivo, por meio da
introdução da esteira rolante na linha de montagem, entre outras inovações, que resultaram na
completa objetivação do trabalho vivo, ou seja, a eliminação de qualquer “estofo subjetivo” para
o desenvolvimento da produção capitalista. Assim, “da existência de um sujeito negado
passamos à negação de sua existência como sujeito. Agora sim, com a objetivação plena da força
viva de trabalho, estaria consumada a primeira posição da forma na matéria e resolvida,
finalmente, essa contradição (enquanto na fase anterior, pré-taylorismo/fordismo, só estavam
postas as determinações desse sujeito negado, não sua existência ela mesma)”466.

461
Idem, Trabalho imaterial e fetichismo. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande indústria. São Paulo: Xamã, 2005, p.63.
462
Paulani, L. M. O papel da força viva de trabalho no processo capitalista de produção – Uma análise dos dilemas
contemporâneos. In: Estudos Econômicos, vol. 31 (4), 2001, p.699.
463
Paulani, L. M. ibidem, p.699.
464
Paulani, L. M. ibidem, p.704.
465
Paulani, L. M. ibidem, p.703.
466
Paulani, L. M. ibidem, p.703.
97
Entretanto, o movimento não teria cessado aí, e o desenvolvimento tecnológico mediante
a aplicação da ciência na produção, conduziu à eliminação do trabalho que era nela diretamente
empregado, desaparecendo, tendencialmente, a figura do trabalhador-apêndice 467 . Ao mesmo
tempo, a máquina passa a ser o sujeito do processo material de produção, e com isso é posta uma
nova contradição, uma “superadequação” da matéria (a ciência objetivada no sistema de
máquinas) à forma (o capital), já que o caráter de sujeito do sistema de máquinas lhe garante
autonomia, até mesmo ao ponto de negar a forma capital. Nas palavras de Paulani, “essa espécie
de superadequação da matéria à forma transmuta-se em inadequação e, como afirma Fausto
(1989), a subordinação que resta aí é apenas formal, visto que a subordinação material
desaparece junto com a própria exclusão do trabalho do processo de produção”468.

Ademais, com essa exclusão do trabalho, “abre-se então a possibilidade de o homem ser
o sujeito do processo, que não é mais agora, contudo, processo de trabalho, mas processo de
produção apenas e processo de produção que pode ser colocado a serviço do homem e sob sua
guarda”469. No entanto, não é bem isso que ocorre na pós-grande indústria; a empresa toyotista
passa a exigir o envolvimento total do trabalhador, sua criatividade, sua capacidade de tomar
decisões, sua participação na gestão da empresa, etc., e com isso, o trabalhador efetivamente
retoma certo estatuto de sujeito, mas um sujeito totalmente subordinado ao capital, um sujeito
que se mobiliza por completo para servir à acumulação capitalista – concedendo ao capital o uso
de sua “capacidade mental presente no estoque de elementos fisiológicos encarnado no
trabalhador”470. Assim, “só agora, portanto, é que a contradição forma/matéria está efetivamente
resolvida e não no momento anterior, e isto porque o ‘outro’ do verdadeiro sujeito, do sujeito
positivamente posto, não é um objeto mas um sujeito negado. E este último, como se viu, só vai
existir plenamente na última etapa da grande indústria, ou seja, na fase contemporânea”471.

Com essas sofisticadas análises Paulani procura demonstrar que as transformações no


processo produtivo ocorridas no século XX consistem em “... respostas lógicas do sistema”472 à
contradição entre forma e matéria e entre capital e trabalho, que lhe são constitutivas. Ao tratar
da contemporaneidade, ela é enfática: “Seja resgatando a capacidade integral da força viva de
trabalho (movimento operado pelas transformações centradas no toyotismo), seja simplesmente
expulsando-a do processo produtivo (automação, robótica), a evolução contemporânea da

467
Paulani, L. M. ibidem, p.700.
468
Paulani, L. M. ibidem, p.705.
469
Paulani, L. M. ibidem, p.700.
470
Paulani, L. M. ibidem, p.713.
471
Paulani, L. M. ibidem, p.708.
98
produção capitalista não fez nada mais do que responder objetivamente à contradição basilar
desse processo, que coloca sempre em confronto a qualitativa lógica humana e a abstrata lógica
da acumulação”473.

472
Paulani, L. M. ibidem, p.697.
473
Paulani, L. M. ibidem, p.714.
99
Capítulo 5. O conceito de subsunção real e o desenvolvimento histórico do capital,
em Marx.

Em Marx há uma profunda relação entre os conceitos de subsunção formal ou real do


trabalho ao capital e o desenvolvimento histórico capitalista, ou ainda os conceitos de
cooperação, manufatura e grande indústria. Se, à primeira vista, estes últimos concernem às
forças produtivas do capital, enquanto que os conceitos de subsunção formal e real estão
relacionados às relações sociais de produção, existe uma profunda imbricação entre eles, entre o
aspecto mais propriamente técnico e o social.

Sendo o objetivo fundamental de O Capital e dos Grundrisse a apresentação do conceito


de capital em seus diferentes momentos de constituição, um dos principais objetos de análise
dessas obras é, obviamente, o processo de produção capitalista, processo este que, segundo Marx,
é uma unidade do processo de trabalho e do processo de valorização, o que significa dizer que a
valorização não pode ocorrer separada da atividade mesma do trabalho e que ela se efetiva por
seu caráter social. Ambos os processos ocorrem ao mesmo tempo, e tal qual ocorre com a
mercadoria, perfazem uma unidade contraditória; o processo de trabalho corresponde ao
conteúdo concreto da produção, ao passo que o processo de valorização, ao seu conteúdo
abstrato474. Nesse caso a dimensão abstrata, a valorização, também prepondera sobre a concreta,
mas de tal forma que esta apresenta uma série de limitações à primeira, as quais são
progressivamente superadas sob a égide da valorização. Desse modo, a contradição não se esvai,
desenvolve-se assumindo novas configurações.

Nos primórdios da produção capitalista, relata Marx, “a produção de valores de uso ou


bens não muda sua natureza geral por se realizar para o capitalista e sob seu controle”475; o
capital apenas coloca a seu serviço trabalhadores fornecendo-lhes os meios de produção e as
matérias-primas em troca de um salário, e colocando-os sob seu comando. Inicialmente em nada
se altera a atividade concreta de tais trabalhadores, a única coisa que muda é que, se antes eles
realizavam sobretudo atividades de fiação e tecelagem de maneira subsidiária às atividades
agrícolas, vendendo seus produtos ao capital comercial, agora, com o fornecimento dos meios de

474
Não obstante, como explicitado no segundo capítulo deste texto, é o caráter concreto do trabalho que promove a transferência
dos valores dos meios de produção e matérias-primas ao produto final, enquanto que o caráter abstrato concerne propriamente ao
aumento do valor do produto final frente ao valor dos fatores de produção e da força-de-trabalho, de tal forma que não existe um
fosso entre as duas dimensões.
475
Marx, K. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.142.
100
produção pelo capital – que se torna capital produtivo - e com a relação de assalariamento, os
trabalhadores passam a estar formalmente subsumidos ao capital476. Com isso,

o processo de trabalho converte-se em instrumento do processo de valorização, do


processo de autovalorização do capital – da fabricação da mais-valia. O processo de trabalho é
subsumido ao capital (é seu próprio processo), e o capitalista se enquadra nele como dirigente,
condutor; para este, é ao mesmo tempo, de imediato, um processo de exploração de trabalho
alheio. É a isso que denomino subsunção formal do trabalho ao capital. É uma forma geral de
todo processo capitalista de produção; mas é ao mesmo tempo uma forma particular, a par do
modo de produção especificamente capitalista, já que a última inclui a primeira, mas a primeira
não inclui necessariamente a segunda477.

O termo “formal” nos remete à formalidade do contrato, e à sua indiferença frente ao


processo material de trabalho. E, vale repetir, o trabalho passa a estar subordinado ao processo
de valorização do valor, mas não tem alterada sua “natureza geral”. Com isso, a subsunção
formal se diferencia do modo de produção especificamente capitalista, a subsunção real, que é
também formal, já que obviamente não deixa de manter o aspecto formal acima referido, apesar
da recíproca não ser verdadeira.

De todo modo, já nessa fase surgem determinações relevantes, dado que “o capitalista (...)
está atento a que o trabalho alcance o grau normal de qualidade e intensidade, e prolonga o mais
possível o processo de trabalho para que cresça a mais-valia por ele produzida”478; “tudo é feito
para que o produto represente apenas o tempo de trabalho socialmente necessário”479. Ademais,
desenvolve-se “uma relação econômica de superioridade e subordinação, posto que é o
capitalista quem consome a capacidade de trabalho, e, portanto, vigia e dirige”480. Fora isso,
desenvolve-se o fetichismo do capital: “Surge também a mistificação inerente à relação
capitalista. A faculdade que o trabalho tem de conservar valor apresenta-se como faculdade de
autoconservação do capital; a faculdade de o trabalho gerar valor, como faculdade de
autovalorização do capital, e em conjunto e por definição, o trabalho objetivado aparece como
utilizando o trabalho vivo”481,482.

Frente à manutenção da antiga base técnica do processo de produção subsumido apenas


formalmente, a referida conservação e geração de valor – a produção de mais-valia -, só pode

476
Idem, Contribuição à crítica da Economia Política. São Paulo: Martins Fontes, 1977, p.107.
477
Idem, Capítulo Sexto Inédito de O Capital: resultados do processo de produção imediata. Porto: Publicações Escorpião,
1978, p.51.
478
Idem, ibidem, p.52.
479
Idem, ibidem, p.57.
480
Idem, ibidem, p.57.
481
Idem, ibidem, p.52.

101
ficar restrita à mais-valia absoluta, ao prolongamento da jornada de trabalho. Como constata
Marx,

... à base de um modo de trabalho preexistente, ou seja de determinado desenvolvimento


da força produtiva do trabalho e da modalidade de trabalho correspondente à essa força produtiva,
só se pode produzir mais-valia através do prolongamento do tempo de trabalho, isto é, sob a
forma da mais-valia absoluta. A essa modalidade, como forma única de produção de mais-valia,
corresponde, pois, a subsunção formal do trabalho ao capital483.

Sendo a produção da mais-valia relativa o meio por excelência da valorização do valor é


preciso avançar na análise até a apreensão do movimento de constituição do modo de produção
especificamente capitalista, que corresponde à subsunção real do trabalho ao capital.
Nos Grundrisse, Marx relata que, inicialmente, o movimento de transformação capitalista
do processo de trabalho ocorre por meio da “análise minuciosa da divisão do trabalho, que
gradualmente transforma as operações dos trabalhadores em algo mais e mais mecânico, de
modo que num certo ponto um mecanismo pode colocar-se em seus lugares” 484 . Mas
ultrapassado certo “estágio”, “é a análise e aplicação de leis mecânicas e químicas, provenientes
diretamente da ciência, que possibilita a maquinaria realizar o mesmo trabalho que era realizado
anteriormente pelo trabalhador”485. Enfatiza-se aqui, portanto, a tendência do capital de substituir
o trabalho humano diretamente despendido na produção pela “atividade” de máquinas, de tal
modo que, na grande-indústria, “o processo de produção cessou de ser um processo de trabalho
no sentido de um processo dominado pelo trabalho como sua unidade governativa”486.
Em outro trecho bastante famoso dessa obra, Marx assevera que o capital “conjura todas
as forças da ciência e da natureza assim como a combinação social e do intercâmbio social, para
tornar a criação da riqueza relativamente independente do trabalho empregado nela”, ao mesmo
tempo em que “ele quer usar o tempo de trabalho como unidade de medida para as gigantescas
forças sociais, assim criadas, e as conter nos limites exigidos para manter como valor o valor já
criado”; e por isso “o capital é ele próprio a contradição em processo [ou em movimento]”487.
Com esse processo, são introduzidas modificações materiais no processo de trabalho, e
tem-se o advento da subsunção real do trabalho ao capital. De acordo com passagem do Capítulo
Sexto..., “... [Sobre a base da subsunção formal do trabalho ao capital] se ergue um modo de

482
No mesmo sentido, lê-se que “... suas [do trabalhador] condições objetivas de trabalho (meios de produção) e condições
subjetivas de trabalho (meios de subsistência) se lhe defrontam como capital, monopolizadas pelo comprador de sua capacidade
de trabalho” (idem, ibidem, p.57).
483
Idem, ibidem, p.53.
484
Idem, Grundrisse: foundations of the critique of political economy. London; New York Penguin Books associada à New Left
Review, 1993, p.704.
485
Idem, ibidem, p.704.
486
Idem, ibidem, p.699.

102
produção tecnologicamente específico que metamorfoseia a natureza real do processo de
trabalho e suas condições reais: o modo capitalista de produção. Somente quanto este entra em
cena, se dá a subsunção real do trabalho ao capital” 488 . E tendo em vista que o
revolucionamento das forças produtivas pelo capital constitui um meio para a extração de mais-
valia relativa, já que atua no sentido de reduzir o tempo de trabalho necessário e nessa medida
aumentar o tempo de trabalho excedente, Marx conclui que “do mesmo modo porque se pode
considerar a produção da mais-valia absoluta como expressão material da subsunção formal do
trabalho ao capital a produção da mais-valia relativa pode ser considerada como a de subsunção
real do trabalho no capital489”490, e que “a subsunção real do trabalho ao capital se desenvolve
em todas as formas que produzem mais-valia relativa, diferentemente da absoluta”491,492.

No bojo dessa análise, novamente Marx dá grande ênfase ao fetichismo do capital, que se
desenvolve na medida em que se logra avanços na produtividade justamente em decorrência da
forma capitalista de produção, ou seja, quando ocorre o revolucionamento das forças produtivas
e da organização da produção por meio do movimento de valorização do capital, esse
desenvolvimento aparece como imanente ao capital. Nas palavras de Marx,
as forças produtivas sociais do trabalho, ou as forças produtivas do trabalho diretamente
social, socializado (coletivizado) por força da cooperação; a divisão do trabalho na oficina, a
aplicação da maquinaria, e em geral a transformação do processo produtivo em aplicação
consciente das ciências naturais, mecânica, química etc., para fins determinados, a tecnologia etc.,
assim como os trabalhos em grande escala correspondente a tudo isso (só esse trabalho
socializado está em condições de utilizar no processo imediato de produção os produtos gerais do
desenvolvimento humano, como a matemática etc, assim como, por outro lado, o
desenvolvimento dessas ciências pressupõe determinado nível do processo material de produção);
esse desenvolvimento da força produtiva do trabalho objetivado, por oposição ao trabalho mais
ou menos isolado dos indivíduos dispersos etc, e com ele a aplicação da ciência – esse produto
geral do desenvolvimento social – ao processo imediato de produção; tudo isso se apresenta
como força produtiva do capital, não como força produtiva do trabalho; ou como força produtiva
do trabalho apenas na medida em que este é idêntico ao capital, e em todo caso nunca como força
produtiva quer do operário individual, quer dos operários associados no processo de produção. A
mistificação implícita na relação capitalista em geral, desenvolve-se agora muito mais do que

487
Idem, ibidem, p.706.
488
Idem, Capítulo Sexto Inédito de O Capital: resultados do processo de produção imediata. Porto: Publicações Escorpião,
1978, p.66.
489
“Ela [a extração de mais-valia relativa] supõe portanto um modo de produção especificamente capitalista, que com seus
métodos, meios e condições nasce e é formado naturalmente apenas sobre a base da subordinação formal do trabalho ao capital.
No lugar da formal surge a subordinação real do trabalho ao capital” (idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os
Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988, p.102).
490
Idem, Capítulo Sexto Inédito de O Capital: resultados do processo de produção imediata. Porto: Publicações Escorpião,
1978, p.56.
491
Idem, ibidem, p.66.
492
“Com a subsunção real do trabalho ao capital, dá-se uma revolução total (que prossegue e se repete continuamente) no próprio
modo de produção, na produtividade do trabalho e na relação entre o capitalista e o operário” (idem, ibidem, p.66).
103
podia ou teria podido se desenvolver no caso da subsunção puramente formal do trabalho ao
capital493.

Convém acompanhar esse processo, tendo por base a exposição de O Capital. Nele, mais
precisamente na seção IV do Livro I, “A produção da mais-valia relativa”, Marx analisa
conceitual e pormenorizadamente o desenvolvimento da subsunção real do trabalho ao capital,
partindo da cooperação simples do trabalho, até o desenvolvimento da grande-indústria fundada
sobre o sistema de máquinas.

Segundo Marx, “a forma de trabalho em que muitos trabalham planejadamente lado a


lado e conjuntamente, no mesmo processo de produção ou em processos de produção diferentes,
mas conexos, chama-se cooperação”494. Não obstante, a apreensão do conceito de cooperação
simples não é tão trivial, pois ela aparece, de certa forma, como uma etapa de transição para o
modo de produção especificamente capitalista, e com isso carrega certas ambigüidades, que têm
conseqüência teórica. Diferentemente da manufatura e da grande indústria, “embora sua figura
simples mesma apareça como forma particular ao lado de suas formas mais desenvolvidas”495, a
cooperação simples “não constitui nenhuma forma característica fixa de uma época particular de
desenvolvimento do modo de produção capitalista496”497,498. Logo, da mesma maneira que se viu
que a subsunção formal do trabalho é a base da subsunção real, que a mais-valia absoluta
“constitui a base geral do sistema capitalista e o ponto de partida para a produção da mais-valia
relativa”499, tem-se que a cooperação simples “permanece a forma básica do modo de produção
capitalista”500.

A cooperação aparece, desse modo, ligada à subsunção formal, e não é por acaso que o
capítulo XI adota por ponto de partida histórico e conceitual do modo de produção capitalista, a
reunião de um certo número de trabalhadores num mesmo local, subordinados formalmente ao

493
Idem, ibidem, p.55.
494
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.246.
495
Idem, ibidem, p.253.
496
“No máximo, aparece aproximadamente assim nos inícios ainda artesanais da manufatura e em cada espécie de agricultura em
grande escala, a qual corresponde ao período manufatureiro e se distingue substancialmente da economia camponesa apenas pela
massa de trabalhadores empregados ao mesmo tempo e pelo volume dos meios de produção concentrados. A cooperação simples
continua sendo ainda a forma predominante nos ramos de produção em que o capital opera em grande escala, sem que a divisão
do trabalho ou a maquinaria desempenhem papel significativo” (idem, ibidem, p.253).
497
Idem, ibidem, p.253.
498
“O capital produtivo, ou o modo de produção correspondente ao capital, somente conhece duas formas: a manufatura ou a
grande indústria” (idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo
Veintiuno, 1973, vol.II, p.87).
499
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988,
p.102.
500
Idem, ibidem, p.253.
104
capital sob o regime do assalariamento, e sob o comando do capitalista, proprietário dos meios
de produção e das matérias-primas501.
Entretanto, adverte Marx, “dentro de certos limites, ocorre uma modificação” 502 , e o
comando do capital (para além das modificações estritamente quantitativas, referentes à
mobilização de um maior número de trabalhadores, que permite ao capitalista se libertar da
condição de trabalhador e se tornar efetivamente capitalista), promove uma mudança qualitativa
no que tange à própria existência efetiva do valor, ou à posição do valor, já que o “trabalho
objetivado em valor é trabalho de qualidade social média”, e que apenas com a cooperação o
capitalista “põe em movimento” “trabalho social médio”503.
Além disso, o fato do capital reunir e empregar um grande número de trabalhadores, ao
mesmo tempo, para produzir uma dada mercadoria, criando assim uma jornada de trabalho
combinada, “mesmo não se alterando o modo de trabalho”504, por si só “efetua uma revolução
nas condições objetivas do processo de trabalho” 505 , produzindo um enorme aumento da
produtividade do trabalho, e conseqüentemente a redução do “tempo de trabalho necessário para
produzir determinado efeito útil”506. Tal revolução é sintetizada por Marx nos seguintes termos:
Se, conforme o caso, ela [a cooperação] obtém essa força produtiva mais elevada por
aumentar a potência das forças mecânicas do trabalho ou por estender sua escala espacial de ação,
ou por estreitar o campo espacial de produção em relação à escala da produção, ou por mobilizar
no momento crítico muito trabalho em pouco tempo, ou por provocar a emulação entre os
indivíduos e excitar seus espíritos vitais, ou por imprimir às operações semelhantes de muitos o
cunho da continuidade e da multiplicidade, ou por executar diversas operações ao mesmo tempo,
ou por economizar os meios de produção mediante seu uso coletivo, ou por emprestar ao trabalho
individual o caráter de trabalho social médio, em todas as circunstâncias a força produtiva
específica da jornada de trabalho combinada é força produtiva social do trabalho ou força
produtiva do trabalho social. Ela decorre da própria cooperação. Ao cooperar com outros de um
modo planejado, o trabalhador se desfaz de suas limitações individuais e desenvolve a capacidade
de sua espécie507.

Apesar da cooperação entre trabalhadores ter sido uma constante na história da


humanidade, Marx afirma reiteradamente o caráter específico que ela assume com o advento do
modo de produção capitalista.
Do mesmo modo que a força produtiva social do trabalho desenvolvida pela cooperação
aparece como força produtiva do capital, a própria cooperação aparece como forma específica do
processo de produção capitalista, em contraposição ao processo de produção de trabalhadores
isolados independentes ou mesmo dos pequenos mestres. É a primeira modificação que o

501
Idem, ibidem, p.244.
502
Idem, ibidem, p.244.
503
Idem, ibidem, p.245.
504
Idem, ibidem, p.245.
505
Idem, ibidem, p.245.
506
Idem, ibidem, p.245.
507
Idem, ibidem, p.248-249.
105
processo de trabalho real experimenta pela sua subordinação ao capital. Essa modificação se dá
naturalmente. Seu pressuposto, ocupação simultânea de um número relativamente grande de
assalariados no mesmo processo de trabalho, constitui o ponto de partida da produção capitalista.
Este coincide com a existência do próprio capital. Se o modo de produção capitalista se apresenta,
portanto, por um lado, como uma necessidade histórica para a transformação do processo de
trabalho em um processo social, então, por outro lado, essa forma social do processo de trabalho
apresenta-se como um método, empregado pelo capital, para mediante o aumento da sua força
produtiva explorá-lo mais lucrativamente508.

Por conseguinte, a cooperação surge aqui como uma “forma específica do processo de
produção capitalista”509, sendo ela própria uma “modificação no processo real de trabalho”, o
que dificulta ainda mais a compreensão daquela passagem na qual se diz que mesmo sem alterar
o “modo de trabalho” as condições objetivas são revolucionadas. Entretanto, com os exemplos
fornecidos por Marx isso se faz compreensível, já que neles os diversos trabalhadores em geral
executam exatamente a mesma atividade que executavam antes de serem reunidos num único
local, mas logram uma produtividade muito maior do que se teria com a soma das jornadas
individuais.

Outro aspecto da cooperação simples digno de nota é que o caráter formal da função de
comando do capital sobre o trabalho, que se torna uma “exigência para a execução do próprio
processo de trabalho”, “uma verdadeira condição da produção”510. De acordo com Marx, “todo
trabalho diretamente social ou coletivo executado em maior escala requer em maior ou menor
medida uma direção”511. Mas ele acrescenta que

a direção do capitalista não é só uma função específica surgida da natureza do processo


social de trabalho e pertencente a ele, ela é ao mesmo tempo uma função de exploração de um
processo social de trabalho e, portanto, condicionada pelo inevitável antagonismo entre o
explorador e a matéria-prima de sua exploração. Do mesmo modo, com o volume dos meios de
produção, que se colocam em face do assalariado como propriedade alheia, cresce a necessidade
do controle sobre sua adequada utilização. Além disso, a cooperação dos assalariados é mero
efeito do capital, que os utiliza simultaneamente. A conexão de suas funções e sua unidade como
corpo total produtivo situa-se fora deles, no capital, que os reúne e os mantém unidos (...). Se,
portanto, a direção capitalista é, pelo seu conteúdo, dúplice, em virtude da duplicidade do próprio
processo de produção que dirige, o qual por um lado é processo social de trabalho para a
elaboração de um produto, por outro, processo de valorização do capital, ela é quanto à forma
despótica. Com o desenvolvimento da cooperação em maior escala, esse despotismo desenvolve
suas formas peculiares512.

No entanto, vale dizer que a função de direção da produção não é inerente à figura do
capitalista, e tão logo ele se desprende da necessidade de trabalhar, “... ele [o capitalista]

508
Idem, ibidem, p.252-253.
509
“... a cooperação mesma aparece como uma forma histórica peculiar do processo de produção capitalista que o distingue
especificamente” (idem, ibidem, 252).
510
Idem, ibidem, p.250.
511
Idem, ibidem, p.250.
106
transfere agora a função de supervisão direta e contínua do trabalhador individual ou de grupos
de trabalhadores a uma espécie particular de assalariados”513 – os “oficiais superiores industriais
(dirigentes, managers) e [os] suboficiais (capatazes, foremen, overlookers, contre-maîtres)” -, de
tal forma que “o trabalho da superintendência se cristaliza em sua função exclusiva”514.
Por fim, convém chamar a atenção para o fato de que nesse ponto, e nos dois capítulos
subseqüentes, Marx concede grande importância aos desdobramentos do fetichismo do capital.
Diz ele que “Como cooperadores, como membros de um organismo que trabalha, eles [os
trabalhadores] não são mais do que um modo específico de existência do capital. A força
produtiva que o trabalhador desenvolve como trabalhador social é, portanto, força produtiva do
capital (...). Uma vez que a força produtiva social do trabalho não custa nada ao capital e, por
outro lado, não é desenvolvida pelo trabalhador, antes que seu próprio trabalho pertença ao
capital, ela aparece como força produtiva que o capital possui por natureza, como sua força
produtiva imanente”515.
As dificuldades advindas do fato da cooperação simples não constituir propriamente uma
época ou uma fase da produção capitalista desaparecem com a manufatura. Este, “como forma
especificamente capitalista do processo social de produção − e sob as bases preexistentes ela não
podia desenvolver-se de outra forma, a não ser a capitalista − é apenas um método especial de
produzir mais-valia relativa e aumentar a autovalorização do capital, o que se denomina
riqueza social, Wealth of Nation, etc., à custa dos trabalhadores”516.
Segundo Marx, e antes dele Smith, a reunião dos trabalhadores num mesmo campo de
trabalho pelo capital enseja uma divisão técnica do trabalho sem qualquer precedente. É
precisamente essa divisão do trabalho que fornece à manufatura sua característica fundamental,
sua “forma clássica”, que “dura de meados do século XVI até o último terço do século
XVIII”517,518.
Em função da natureza do processo real de produção de mercadorias, “a origem da
manufatura, sua formação a partir do artesanato, é (...) dúplice”, podendo partir de “ofícios
autônomos de diferentes espécies, que são despidos de sua autonomia e tornados unilaterais até o

512
Idem, ibidem, p.250, grifos meus.
513
Idem, ibidem, p.250.
514
Idem, ibidem, p. 251.
515
Idem, ibidem, p.251.
516
Idem, ibidem, p.273, grifos meus.
517
Idem, ibidem, p.254.
518
“... a consolidação da manufatura acontece num momento no qual tanto as necessidades, quanto a massa crescente de
mercadorias inseridas no intercâmbio, assim como o comércio internacional (em realidade um relativo mercado mundial)
expandem-se subitamente de maneira prodigiosa” (idem, Maquinaria e Trabalho Vivo (Os efeitos da mecanização sobre o
trabalhador). In: Crítica Marxista. Vol. I, no 1. Campinas: Brasiliense, 1994, p.105).
107
ponto em que constituem apenas operações parciais que se complementam mutuamente no
processo de produção de uma única e mesma mercadoria”, ou da “cooperação de artífices da
mesma espécie, [situação em que se] decompõe o mesmo ofício individual em suas diversas
operações particulares e as isola e as torna autônomas até o ponto em que cada uma delas torna-
se função exclusiva de um trabalhador específico”519,520. Não obstante, “qualquer que seja seu
ponto particular de partida, sua figura final é a mesma — um mecanismo de produção, cujos
órgãos são seres humanos”521. Deve-se atentar para o fato de que Marx fala aqui em “órgãos” da
produção; veremos que ao tratar do sistema de máquinas ele se referirá aos trabalhadores como
“apêndices”.
Por outro lado, devido às distintas naturezas do produto, as manufaturas podem ser de
dois tipos: heterogênea ou orgânica. A primeira consiste na “composição meramente mecânica”
de atividades independentes entre si, autônomas, como é o caso da fabricação de relógios; já a
última consiste na articulação “orgânica” de processos profundamente imbricados e contínuos,
dependentes uns dos outros, como no caso da fabricação de pregos, analisada por Smith logo na
abertura de sua grande obra 522 . No primeiro caso, segundo Marx, “essa relação externa do
produto acabado com seus elementos de diferentes espécies torna aqui, como em fabricações
semelhantes, acidental a combinação dos trabalhadores parciais na mesma oficina. Os trabalhos
parciais podem mesmo ser executados como ofícios independentes entre si...”523. E desse modo,
esse tipo de manufatura dificulta bastante a sua transformação em grande indústria
mecanizada524.
O princípio fundamental da manufatura é o parcelamento e especialização do trabalho,
logrado a partir da análise do processo de trabalho, que faz com que se aumente as habilidades
específicas dos trabalhadores, tornados parciais, e que se diminuam os desperdícios de tempo, de
materiais, e das mudanças de ritmo de trabalho oriundos da passagem de um mesmo trabalhador
de uma atividade a outra, dentro do processo produtivo 525 . Junto com esse parcelamento, a
divisão do trabalho impõe o crescente aperfeiçoamento das ferramentas existentes, e a sua

519
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.255.
520
“A cooperação baseada na divisão do trabalho ou a manufatura é nos seus inícios uma formação naturalmente desenvolvida.
Tão logo ela tenha ganho alguma consistência e amplitude de existência, torna-se a forma consciente, planejada e sistemática do
modo de produção capitalista” (idem, ibidem, p.272).
521
Idem, ibidem, p.255.
522
Cf. Smith, A. A riqueza das nações – Investigação sobre sua natureza e suas causas. São Paulo: Abril Cultural, 1983, p.41-42.
523
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.258.
524
Idem, ibidem, p.259, n.32.
525
Cf. Marx, K. ibidem, 1988, p.257.
108
diversificação, adequando-as “às funções exclusivas dos trabalhadores parciais”526,527. Com isso,
aumenta-se de maneira expressiva a “... continuidade, uniformidade, regularidade, ordenamento
e nomeadamente também a intensidade de trabalho” se comparadas às “vigentes no ofício
independente ou mesmo na cooperação simples”528.

Nesse processo, de conseqüências nefastas para o trabalhador, se estabelece uma


tendência a reduzi-lo à condição de autômato, que executa em ritmo acelerado e por toda a vida
operações extremamente simples. Entretanto, convém lembrar que o processo de trabalho
continua sendo a base da produção, e seu sujeito, o trabalhador total, resulta da combinação dos
diversos trabalhadores parciais 529 . Uma das conseqüências disso é que “a unilateralidade e
mesmo imperfeição do trabalhador parcial tornam-se sua perfeição como membro do trabalhador
coletivo. O hábito de exercer uma função unilateral transforma-o em seu órgão natural e de
atuação segura, enquanto a conexão do mecanismo global o obriga a operar com regularidade de
um componente de máquina530”531. Também se deve chamar a atenção para a comparação do
trabalhador manufatureiro a uma máquina.
Comparando a manufatura à cooperação, Marx propugna que

Enquanto a cooperação simples em geral não modifica o modo de trabalho do indivíduo,


a manufatura o revoluciona pela base e se apodera da força individual de trabalho em suas raízes.
Ela estropia o trabalhador convertendo-o numa anomalia [na tradução de Fausto, R. Marx: Lógica
e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo:
Editora 34, 2002, “numa monstruosidade”], ao fomentar artificialmente sua habilidade
particularizada mediante a repressão de um mundo de impulsos e capacidades produtivas, assim
como nos Estados de La Plata abate-se um animal inteiro apenas para tirar-lhe a pele ou o sebo.
Os trabalhos parciais específicos são não só distribuídos entre os diversos indivíduos, mas o
próprio indivíduo é dividido e transformado no motor automático de um trabalho parcial,
tornando assim realidade a fábula insossa de Menenius Agripa, segundo a qual um ser humano é
representado como mero fragmento de seu próprio corpo532,533.

526
Idem, ibidem, p.257.
527
Dessa maneira, é criada “uma das condições materiais da maquinaria, que consiste numa combinação de instrumentos
simples” (idem, ibidem, 1988, p.258).
528
Idem, ibidem, p.260.
529
“A maquinaria específica do período manufatureiro permanece o próprio trabalhador coletivo, combinação de muitos
trabalhadores parciais” (idem, ibidem, p.262).
530
“Muito corretamente responde o sr. Wm. Marshall, o general manager de uma manufatura de vidros, à pergunta do
comissário de inquérito, como a laboriosidade dos jovens trabalhadores era mantida: “Eles não podem, de forma alguma,
negligenciar seu trabalho; depois de terem começado a trabalhar, têm de prosseguir; eles são exatamente como partes de uma
máquina”. (Child. Empl. Comm., Fourth Report. 1865. p. 247.)” (idem, ibidem, p.263, n.47). “Dugald Stewart denomina os
trabalhadores de manufatura ‘autômatos vivos (...) que são empregados em trabalhos parciais’ (Op. cit., p. 318.)” (idem, ibidem,
p.270, nota 63).
531
Idem, ibidem, p.263.
532
Idem, ibidem, p.270, tradução modificada com base em Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma
Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo: Editora 34, 2002, p.116.
533
“A inteligência da maior parte dos homens”, diz A. Smith, “desenvolve-se necessariamente a partir e por meio de suas
ocupações diárias. Um homem que despende toda a sua vida na execução de algumas operações simples (...) não tem nenhuma
oportunidade de exercitar sua inteligência. (...) Ele torna-se geralmente tão estúpido e ignorante quanto é possível a uma criatura
109
Além desses terríveis efeitos, a manufatura desenvolve uma forma de hierarquia entre os
trabalhadores. Segundo Marx, “depois da separação, autonomização e isolamento das diferentes
operações, os trabalhadores são separados, classificados e agrupados segundo suas qualidades
dominantes534”535. No entanto, o momento mais importante desse processo é a nítida divisão que
se estabelece entre os trabalhadores qualificados e os não-qualificados, os quais não tinham lugar
na época em que predominavam os ofícios. Essa tendência à criação de um grupo de
trabalhadores desqualificados536, que tem custos menores de aprendizagem e, portanto, menores
salários, é importante, pois potencializa a produção de mais-valia537.
A divisão manufatureira do trabalho produz um duplo movimento: a desqualificação de
um expressivo contingente de trabalhadores, junto com a especialização sem precedentes de
outros tantos, o que também empobrece enormemente o trabalhador. Caracteriza-se assim um
movimento geral de desqualificação do trabalho. Nas palavras de Marx, o “tecelão indiano
executa um trabalho muito complicado em comparação com a maioria dos trabalhadores da
manufatura”538.
Outra importante característica da manufatura é o desenvolvimento da função de
comando e direção do processo produtivo539. Estabelece-se uma nova articulação entre divisão
técnica e divisão social do trabalho. Segundo Marx,

humana.” (Smith citado por Marx, K. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova
Cultural: Livro I, Tomo I, 1988, p.271). “A uniformidade de sua vida estacionária corrompe naturalmente também a coragem de
sua mente. (...) Ela destrói mesmo a energia de seu corpo e o incapacita a empregar suas forças com vigor e perseverança, a não
ser na operação parcial para a qual foi adestrado. Sua habilidade em seu ofício particular parece assim ter sido adquirida à custa
de suas virtudes intelectuais, sociais e guerreiras. Mas, em toda sociedade industrial e civilizada, esse é o estado no qual
necessariamente tem de cair o pobre que trabalha (the labouring poor), isto é, a grande massa do povo” (Smith citado por Marx,
K. ibidem, p.271). Por fim, “A ignorância é a mãe da indústria, como da superstição. A reflexão e a imaginação estão sujeitas ao
erro; mas o hábito de movimentar o pé ou a mão não depende nem de uma nem da outra. As manufaturas prosperam portanto
mais onde mais se dispensa o espírito, de modo que a oficina pode ser considerada uma máquina cujas partes são seres humanos”
(Fergurson citado por Marx, K. ibidem, p.271).
534
“Uma vez que as diferentes funções do trabalhador coletivo podem ser mais simples ou mais complexas, mais baixas ou mais
elevadas, seus órgãos, as forças de trabalho individuais, exigem diferentes graus de formação, possuindo por isso valores muito
diferentes” (idem, ibidem, p.263).
535
Idem, ibidem, p.262.
536
“A manufatura cria portanto em todo ofício, de que se apossa, uma classe dos chamados trabalhadores não qualificados, os
quais eram rigorosamente excluídos pelo artesanato. Se ela desenvolve a especialidade inteiramente unilateralizada, à custa da
capacidade total de trabalho, até a virtuosidade, ela já começa também a fazer da falta de todo desenvolvimento uma
especialidade. Ao lado da graduação hierárquica surge a simples separação dos trabalhadores em qualificados e não qualificados.
Para os últimos os custos de aprendizagem desaparecem por inteiro, para os primeiros esses custos se reduzem, em comparação
com o artesão, devido à função simplificada” (idem, ibidem, p.263).
537
“A desvalorização relativa da força de trabalho, que decorre da eliminação ou da redução dos custos de aprendizagem, implica
diretamente uma valorização maior do capital, pois tudo que reduz o tempo de trabalho necessário para reproduzir a força de
trabalho amplia os domínios do mais-trabalho” (idem, ibidem, p.263).
538
Idem, ibidem, p.257.
539
A divisão manufatureira do trabalho “desenvolve a força produtiva social do trabalho não só para o capitalista, em vez de para
o trabalhador, mas também por meio da mutilação do trabalhador individual. Produz novas condições de dominação do capital
sobre o trabalho. Ainda que apareça de um lado como progresso histórico e momento necessário de desenvolvimento do
processo econômico de formação da sociedade, por outro ela surge como um meio de exploração civilizada e refinada" (idem,
ibidem, p. 273, tradução modificada com base em Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição
do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo: Editora 34, 2002, p.117).
110
se a anarquia da divisão do trabalho social e o despotismo da divisão do trabalho
manufatureiro condicionam um ao outro, na sociedade do modo de produção capitalista, formas
sociais anteriores nas quais a particularização dos ofícios se desenvolve naturalmente, depois se
cristalizam e em seguida é fixada legalmente, oferecem pelo contrário a imagem de uma
organização planificada e autoritária da divisão do trabalho, ao mesmo tempo em que, por outro
lado, elas excluem a divisão do trabalho no interior da oficina, ou só a desenvolvem numa medida
reduzida ou esporádica e acidentalmente”540. “Poder-se-ia mesmo estabelecer como regra geral
que, quanto menos a autoridade preside à divisão do trabalho no interior da sociedade, mais a
divisão do trabalho se desenvolve no interior da oficina e mais ela está aí submetida à autoridade
de uma só pessoa. Portanto, em relação ‘a divisão do trabalho, a autoridade na oficina e a
autoridade na sociedade estão reciprocamente em razão inversa541.
Malgrado se basear na divisão do trabalho, “o período da manufatura, o qual logo
proclama conscientemente como princípio a diminuição do tempo de trabalho necessário para a
produção de mercadorias, também chega esporadicamente a desenvolver a utilização de
máquinas, sobretudo para certos processos iniciais simples que têm de ser executados
maciçamente e com grande emprego de força”542. De modo que a mera existência de máquinas
não significa por si só a superação da manufatura ou o surgimento do sistema de máquina
característico da grande indústria, segundo a conceituação de Marx.
Deve-se atentar para o fato de que no último trecho citado se assevera a importância da
produção de mais-valia relativa na manufatura, embora trechos de outras obras de Marx sugiram
algo diferente. No texto Maquinaria e Trabalho Vivo543, por exemplo, lê-se que “a divisão do
trabalho e a cooperação simples nunca se baseiam imediatamente na substituição do trabalho ou
na criação de um excedente de trabalhadores; por um lado, sua base é a concentração destes e,
por outro, a formação de uma maquinaria viva ou um sistema de máquinas vivas intermediado
por este mesmo conglomerado. Em todo caso, porém, um excedente relativo de trabalho é
produzido”544. Nos Grundrisse, lê-se que “na manufatura predomina o mais-trabalho absoluto,
não o relativo”545.
Sem negar as diferenças entre as obras, julgo que tais trechos não desmentem a análise de
O Capital, na medida em que no primeiro se diz que a divisão manufatureira do trabalho não se
baseia imediatamente na substituição do trabalho, o que não exclui a possibilidade da produção
de mais-valia relativa. Já a segunda passagem fala em predomínio, o que se pode justificar tanto

540
Idem, ibidem, p.267, tradução modificada com base em Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma
Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo: Editora 34, 2002, p.120.
541
Idem, Miséria da Filosofia, São Paulo: Global, 1985, p.127, idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os
Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988, p.267.
542
Idem, ibidem, p.262.
543
Fragmento do XX caderno do Manuscrito de 1861-1863, mais especificamente da parte denominada “A mais-valia realativa –
acumulação”.
544
Idem, Maquinaria e Trabalho Vivo (Os efeitos da mecanização sobre o trabalhador). In: Crítica Marxista. Vol. I, no 1.
Campinas: Brasiliense, 1994, p.104.

111
pela grande expansão da produção capitalista e o relativo vagar do desenvolvimento técnico e
científico da época, se comparado ao período subseqüente, quanto à inexistência de regulação da
jornada de trabalho. O fato é que a subsunção real e a produção de mais-valia relativa são sim
características do período manufatureiro, apesar de não encontrarem nele sua forma mais
desenvolvida546.
Antes de avançar na análise histórica convém ainda lembrar que a revolução material
produzida pela manufatura desenvolve ainda mais o fetichismo, já que “... o trabalhador
manufatureiro só desenvolve atividade produtiva como acessório da oficina capitalista”547, sob
controle despótico de seu empregador, em ritmo cada vez mais intenso.
Entretanto, o desenvolvimento da divisão manufatureira do trabalho não é harmônico. O
cerne de suas contradições assenta-se na manutenção de dependência do processo produtivo em
relação à força de trabalho, uma força parcelar, se considerada individualmente. Na manufatura,

o ofício permanece a base. Essa estreita base técnica exclui uma análise
verdadeiramente científica do processo de produção, pois cada processo parcial percorrido pelo
produto tem que poder ser realizado como trabalho parcial artesanal. Precisamente por
continuar sendo a habilidade manual a base do processo de produção é que cada trabalhador é
assimilado exclusivamente a uma função parcial e sua força de trabalho é transformada no órgão
perpétuo dessa função social. Finalmente, essa divisão do trabalho é uma espécie particular da
cooperação e algumas de suas vantagens decorrem da natureza geral e não dessa forma particular
da cooperação548.

Ademais, se por um lado a parcialização diminui os poros na jornada de trabalho da


maneira como se viu, por outro ela cria novos, devido ao isolamento das diferentes tarefas
parciais. Assim, “estabelecer e manter a conexão entre as funções isoladas requer transporte
ininterrupto do artigo de uma mão para outra e de um processo para outro. Do ponto de vista da
grande indústria, isso se apresenta como uma limitação característica, custosa e imanente ao
princípio da manufatura”549.
Nos dizeres de Marx,

durante o período manufatureiro propriamente dito, isto é, o período em que a manufatura


era a forma dominante do modo de produção capitalista, a plena realização de suas tendências se

545
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973,
vol.II, p.90.
546
Analisando uma obra de Necker, redigida em 1775, Marx assevera que “O importante é que Necker, em suma, derivou do
trabalho excedente a riqueza das classes que não trabalham – lucro e renda da terra. Ao observar a mais-valia, deteve-se na mais-
valia relativa” (idem, Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. 3 vols. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1980, p.289). Cf. Marx, K. ibidem, p.288-292).
547
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.270.
548
Idem, ibidem, p.255-256, grifos meus, tradução modificada com base em Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações
para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo: Editora 34, 2002, p.116.
549
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.259.
112
choca com obstáculos de diversas naturezas. Embora, como vimos, ela criasse ao lado da
graduação hierárquica dos trabalhadores uma divisão simples entre trabalhadores qualificados e
não qualificados, o número dos últimos fica muito limitado em virtude da influência
predominante dos primeiros. Embora ajustasse as operações especiais aos diversos graus de
maturidade, força e desenvolvimento dos seus órgãos vivos de trabalho e portanto induzindo a
exploração produtiva de mulheres e crianças, essa tendência malogra geralmente devido aos
hábitos e à resistência dos trabalhadores masculinos. Embora a decomposição da atividade
artesanal reduzisse os custos de formação e portanto o valor do trabalhador, continua necessário
para o trabalho de detalhe mais difícil um tempo mais longo de aprendizagem, e mesmo onde este
se tornava supérfluo, os trabalhadores procuravam zelosamente preservá-lo550,551.

Com base nisso, Marx conclui que “ao mesmo tempo, a manufatura nem podia apossar-se
da produção social em toda a sua extensão, nem revolucioná-la em sua profundidade. Como obra
de arte econômica ela eleva-se qual ápice sobre a ampla base do artesanato urbano e da indústria
doméstica rural. Sua própria base técnica estreita, ao atingir certo grau de desenvolvimento,
entrou em contradição com as necessidades de produção que ela mesma criou”552.
Tornou-se necessário substituir a divisão manufatureira pelo sistema de máquinas 553 ,
eliminando “a atividade artesanal como princípio regulador da produção social”. Assim, “por um
lado, é removido o motivo técnico da anexação do trabalhador a uma função parcial, por toda a
vida. Por outro lado, caem as barreiras que o mesmo princípio impunha ao domínio do capital”554.
Isso foi possível graças à criação, pela manufatura, da oficina para a produção dos instrumentos
de trabalho, e da especialização destes instrumentos. Com o passar do tempo, a grande indústria
se apoderou da própria produção das máquinas, no sentido de que passou a produzir máquinas
por meio de máquinas, e com isso, “criou sua base técnica adequada e se firmou sobre seus
próprios pés”555, 556.

550
Idem, ibidem, p.274-275.
551
“Uma vez que a habilidade artesanal continua a ser a base da manufatura e que o mecanismo global que nela funciona não
possui nenhum esqueleto objetivo independente dos próprios trabalhadores, o capital luta constantemente com a insubordinação
dos trabalhadores” (idem, ibidem, p.275).
552
Idem, ibidem, p.275.
553
“As máquinas propriamente ditas datam do fim do século XVIII” (idem, Miséria da Filosofia. São Paulo: Global, 1985,
p.129).
554
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.276.
555
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988,
p.14.
556
"O revolucionamento do modo de produção toma, na manufatura, como ponto de partida a força de trabalho; na grande
indústria, o meio de trabalho” (idem, ibidem, p. 5).

113
a própria manufatura fornece ao sistema de máquinas557 (...) o fundamento naturalmente
desenvolvido da divisão e portanto da organização do processo de produção. Aí se introduz,
porém, imediatamente uma diferença essencial. Na manufatura, trabalhadores precisam,
individualmente ou em grupos, executar cada processo parcial específico com sua ferramenta
manual. Embora o trabalhador seja adequado ao processo, também o processo é adaptado ao
trabalhador. Esse princípio subjetivo da divisão é suprimido na produção mecanizada. O processo
global é aqui considerado objetivamente, em si e por si, analisado em suas fases constituintes, e o
problema de levar a cabo cada processo parcial e de combinar os diversos processos parciais é
resolvido por meio da aplicação técnica da mecânica, da química, etc., no que, naturalmente, a
concepção teórica precisa ser depois como antes aperfeiçoada pela experiência prática acumulada
em larga escala558.

O ponto fundamental consiste em que a base subjetiva da produção - o trabalhador total


da manufatura -, que tantas dificuldades impunha ao desenvolvimento da produção capitalista, é
suprimida; em seu lugar, surge uma base objetiva, mediante a aplicação da ciência à produção.
“A máquina, da qual parte a Revolução Industrial, substitui o trabalhador”559. O trabalhador é
reduzido à tarefa de vigiar a máquina, zelando para que a produção siga em seu curso normal.
Assim, “o que agora um trabalhador mecânico tem de fazer, e o que qualquer garoto pode fazer,
não é ele mesmo trabalhar, mas supervisionar o belo trabalho da máquina. Já está posta de lado
toda a classe de trabalhadores que depende exclusivamente de sua própria habilidade”560,561.
Desse modo, o sistema de máquinas, emancipa-se “da barreira orgânica que restringe a
ferramenta manual de um trabalhador” 562 . Com isso “na manufatura e no artesanato, o
trabalhador se serve da ferramenta; na fábrica, ele serve à máquina. Lá, é dele que parte o
movimento do meio de trabalho; aqui ele precisa acompanhar o movimento. Na manufatura, os

557
Segundo a análise de Marx, “toda maquinaria desenvolvida constitui-se de três partes essencialmente distintas: a máquina-
motriz, o mecanismo de transmissão, finalmente a máquina-ferramenta ou máquina de trabalho” (idem, ibidem, p.6), sendo esta
última a parte mais importante da maquinaria: "a máquina-ferramenta é (...) um mecanismo que, ao ser-lhe transmitido o
movimento correspondente, executa com suas ferramentas as mesmas operações que o trabalhador executava antes com
ferramentas semelhantes" (idem, ibidem, p. 7), de tal modo que “o número de ferramentas com que a máquina-ferramenta joga
simultaneamente está, de antemão, emancipado da barreira orgânica que restringe a ferramenta manual de um trabalhador” (idem,
ibidem, p.7). Mas deve-se distinguir entre um conjunto de máquinas individuais e um sistema de máquinas, que é caracterizado
pela “unidade técnica” (idem, ibidem, p.10). Nos dizeres de Marx, “um autêntico sistema de máquinas só substitui, no entanto, a
máquina autônoma individual quando o objeto de trabalho percorre uma seqüência conexa de diferentes processos graduados,
que são realizados por uma cadeia de máquinas-ferramentas diversificadas, mas que se complementam mutuamente. Aí reaparece
a cooperação por meio da divisão do trabalho, peculiar à manufatura, mas agora como combinação de máquinas de trabalho
parciais” (idem, ibidem, p.10); “exatamente como muitas ferramentas constituem os órgãos de uma máquina de trabalho, muitas
máquinas de trabalho constituem agora apenas órgãos da mesma espécie do mesmo mecanismo motor” (idem, ibidem, p.10). De
fato, “só depois que as ferramentas se transformaram de ferramentas manuais em ferramentas de um aparelho mecânico, a
máquina-motriz adquiriu forma autônoma, totalmente emancipada dos limites da força humana” (idem, ibidem, p.10).Entretanto,
“que (...) a força motriz provenha do homem ou novamente de uma máquina em nada modifica a essência da coisa” (idem,
ibidem, p.7).
558
Idem, ibidem, p. 11.
559
Idem, ibidem, p.8.
560
Marx cita Nasmyth, em Marx, K. ibidem, p.50.
561
“... na roda de fiar, o pé atua apenas como força motriz, enquanto a mão, que trabalha no fuso, puxa e retorce, executa a
operação de fiar propriamente dita. Exatamente dessa última parte do instrumento artesanal a Revolução Industrial apodera-se
primeiro e deixa para o homem, além do novo trabalho de vigiar com o olho a máquina e corrigir com a mão os erros dela, antes
de tudo ainda o papel puramente mecânico de força motriz” (idem, ibidem, p.7).
562
Idem, ibidem, p.7.
114
trabalhadores constituem membros de um mecanismo vivo. Na fábrica, há um mecanismo morto,
independente deles, ao qual são incorporados como um apêndice vivo563”564, 565. Dessa maneira,
segundo os Grundrisse, não se pode mais falar em processo de trabalho propriamente dito, mas
sim num processo de produção totalmente determinado pelos movimentos do sistema de
máquinas566.
Eis a figura do trabalhador-apêndice, diferente da quase-máquina da manufatura, que
mobilizava sua ferramenta parcial para realizar uma função especializada e rotinizada. Ao
contrário, trata-se do vigia da máquina; mas de maneira alguma este se encontra em vantagem
em relação ao primeiro, apesar do surgimento com o sistema de máquinas das condições técnicas
para a sua libertação da ossificação de sua atividade laboral. Isso porque o trabalhador se torna
escravo da máquina parcial, condenado a assisti-la em todo o seu tempo de trabalho. Como
constata Marx,

embora a maquinaria descarte agora, tecnicamente, o velho sistema da divisão do trabalho,


este persiste inicialmente como tradição da manufatura, por hábito, na fábrica, para ser, depois,
reproduzido e consolidado sistematicamente pelo capital como meio de exploração da força de
trabalho de forma ainda mais repugnante. Da especialidade por toda a vida em manejar uma
ferramenta parcial surge, agora, a especialidade por toda a vida em servir a uma máquina parcial.
Abusa-se da maquinaria para transformar o próprio trabalhador, desde a infância, em parte de
uma máquina parcial567 (...) [Dessa maneira], o trabalho em máquinas agride o sistema nervoso ao
máximo, ele reprime o jogo polivalente dos músculos e confisca toda a livre atividade corpórea e

563
Na maquinaria “a subsunção de seu trabalho ao capital – a absorção de seu trabalho pelo capital –, que está no cerne da
produção capitalista, surge aqui como um fator tecnológico” (idem, Maquinaria e Trabalho Vivo (Os efeitos da mecanização
sobre o trabalhador). In: Crítica Marxista. Vol. I, no 1. Campinas: Brasiliense, 1994, p.108).
564
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988,
p.41.
565
“A partir do momento em que a máquina de trabalho executa todos os movimentos necessários ao processamento da matéria-
prima sem ajuda humana, precisando apenas de assistência humana, temos um sistema de maquinaria automático, capaz de ser
continuamente aperfeiçoado em seus detalhes. Como maquinaria, o meio de trabalho adquire um modo de existência material que
pressupõe a substituição da força humana por forças naturais e da rotina empírica pela aplicação consciente das ciências da
Natureza. Na manufatura, a articulação do processo social de trabalho é puramente subjetiva, combinação de trabalhadores
parciais; no sistema de máquinas, a grande indústria tem um organismo de produção inteiramente objetivo, que o operário já
encontra pronto, como condição de produção material. Na cooperação simples e mesmo na especificada pela divisão do trabalho,
a supressão do trabalhador individual pelo socializado aparece ainda como sendo mais ou menos casual. A maquinaria, com
algumas exceções a serem aventadas posteriormente, só funciona com base no trabalho imediatamente socializado ou coletivo. O
caráter cooperativo do processo de trabalho torna-se agora, portanto, uma necessidade técnica ditada pela natureza do próprio
meio de trabalho” (idem, ibidem, p.15).
566
“O processo de produção cessou de ser um processo de trabalho no sentido de um processo dominado pelo trabalho como sua
unidade governativa. O trabalho aparece, ao contrário, meramente como um órgão consciente, dispersos entre os muitos
trabalhadores individuais vivos nos numerosos pontos do sistema mecânico, subsumido sob o processo total da própria
maquinaria, como sendo ele próprio somente uma ligação do sistema, cuja unidade não existe nos trabalhadores vivos, mas antes
na maquinaria viva (ativa), que confronta seus afazeres individuais e insignificantes como um organismo poderoso” (idem,
Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973, vol.II, p.219).
Dessa maneira, “a atividade do trabalhador, reduzido a uma mera abstração de atividade, é determinada e regulada por todos os
lados pelo movimento da maquinaria, e não o oposto” (idem, ibidem, p.219). Cf. Marx, K. ibidem, p.237.
567
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988,
p.41.
115
espiritual. Mesmo a facilitação do trabalho torna-se um meio de tortura, já que a máquina não
livra o trabalhador do trabalho, mas seu trabalho de conteúdo568,569,570.

Ademais, antes da regulamentação da jornada de trabalho – que redundou das lutas entre
capital e trabalho, estimulada pela brutal exploração dos trabalhadores fabris – o
desenvolvimento da maquinaria acarretou um enorme aumento da jornada de trabalho e da
exploração, em função não só da possibilidade técnica de se pôr para funcionar o sistema de
máquinas incessantemente, mas da necessidade de fazê-lo, na medida em que a paralisação das
máquinas acarretava tanto sua deterioração improdutiva quanto a não utilização de todo o seu
potencial produtivo, algo impensável para o capitalista individual premido pela concorrência. O
resultado foi a criação de novos turnos de trabalho e a exploração da força de trabalho para além
de todo limite físico, de maneira verdadeiramente genocida571,572.

Outra importante característica da grande indústria é o surgimento de uma nova divisão


hierárquica entre os trabalhadores. Sendo o processo produtivo totalmente emancipado do
controle do trabalhador total, o conjunto de trabalhadores especializados que constituem o grupo
dominante dentre os trabalhadores da manufatura, tende a desaparecer, frente à tendência à
simplificação e homogeneização do trabalho. Nas palavras de Marx, “No lugar da hierarquia de
operários especializados que caracteriza a manufatura, surge, por isso, na fabrica automática, a
tendência à igualação ou nivelação dos trabalhos, que os auxiliares da maquinaria precisam
executar; no lugar das diferenças artificialmente criadas entre os trabalhadores parciais surgem
de modo preponderante as diferenças naturais de idade e sexo”573. Entretanto, também surge um
número insignificante de trabalhadores “que se ocupa com o controle do conjunto da maquinaria

568
Idem, ibidem, p.41.
569
“No sistema automático o talento do trabalhador é progressivamente suprimido” (Ure citado por Marx, K. ibidem, p.48).
570
“John Stuart Mill, em seus Princípios da Economia Política, diz: ‘È de se duvidar que todas as invenções mecânicas até agora
aliviaram a labuta diária de algum ser humano’. Tal não é também de modo algum a finalidade da maquinaria utilizada como
capital. Igual a qualquer outro desenvolvimento da força produtiva do trabalho, ela se destina a baratear mercadorias e a encurtar
a parte da jornada de trabalho que o trabalhador precisa para si mesmo, a fim de encompridar a outra parte da sua jornada de
trabalho que ele dá de graça para o capitalista. Ela é meio de produção de mais-valia." (idem, ibidem, p. 5).
571
Cf. os capítulos VIII, XIII e XXIII do Livro Primeiro de O Capital em Marx, K. O Capital: crítica da economia política.
Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomos I e II.
572
Em trecho citado na introdução deste texto, lê-se que “[Com a maquinaria surgem – G.M.] novos e poderosos motivos para o
prolongamento desmedido da jornada de trabalho e revoluciona o próprio modo de trabalho, bem como o caráter do corpo social
de trabalho, de tal maneira que quebra a oposição contra essa tendência, ela produz, por outro lado, em parte mediante a
incorporação do capital de camadas da classe trabalhadora antes inacessíveis, em parte mediante a liberação dos trabalhadores
deslocados pela máquina, uma população operária excedente, compelida a aceitar a lei ditada pelo capital. Daí o notável
fenômeno na história da indústria moderna de que a máquina joga por terra todos os limites morais e naturais da jornada de
trabalho. Daí o paradoxo econômico de que o meio mais poderoso para encurtar a jornada de trabalho se torna o meio infalível de
transformar todo o tempo de vida do trabalhador e de sua família em tempo de trabalho disponível para a valorização do capital.
‘Se’, sonhava Aristóteles, o maior pensador da Antiguidade, ‘cada ferramenta, obedecendo às ordens ou mesmo pressentindo-as,
pudesse realizar a obra que lhe coubesse, como os engenhos de Dédalo que se movimentavam por si mesmos, ou as trípodes de
Hefaísto que iam por si mesmas ao trabalho sagrado, se as lançadeiras tecessem por si mesmas, não seriam, então, necessários
auxiliares para o mestre-artesão nem escravos para o senhor’” (idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os
Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988, p.30).
116
e com sua constante reparação, como engenheiros, mecânicos, marceneiros etc. É uma classe
mais elevada de trabalhadores, em parte com formação científica, em parte artesanal, externa ao
círculo de operários de fábrica e só agregada a eles. Essa divisão de trabalho é puramente
técnica”574.
Como essa questão suscitou um número considerável de polêmicas, convém examinar
melhor aa qualificação do trabalho na grande indústria. Se durante a manufatura foi introduzido
um processo de desqualificação das atividades laborais - com o surgimento de um grupo de
trabalhadores sem qualificação e de “virtuoses” mutilados -, na grande indústria esse
procedimento opera em intensidade e abrangência sem precedentes. Apesar do surgimento de
condições técnicas para o desenvolvimento da polivalência dos trabalhadores, e da criação de um
pequeno grupo de trabalhadores qualificados responsáveis pelo controle e manutenção do
conjunto do processo produtivo, o que se verifica é uma desqualificação ainda maior, e o
trabalho realizado pelos operários da grande indústria se torna “mera abstração de atividade”. Eis
aí mais um passo para a efetivação do trabalho abstrato, ou para sua posição na realidade efetiva
e no “plano do vivido” dos trabalhadores575.
Nas palavras de Marx, “Na oficina mecânica, (...) é essencial que todos façam a mesma
coisa. É, aliás, seu princípio fundamental” 576 ; ou ainda, “... seu princípio fundamental é a
substituição de trabalho qualificado por trabalho simples; e, portanto, também a redução da
massa de salário ao salário médio, ou seja, a redução do trabalho necessário do trabalhador ao
mínimo médio e a redução dos custos de produção da capacidade de trabalho”577. As causas
desse esforço do capital em eliminar as qualificações do trabalho e homogeneizar os
trabalhadores ao seu nível de desenvolvimento mais baixo responde em primeiro lugar à busca
por redução do trabalho necessário e dos custos de produção de maneira geral; além disso, enseja
a mobilidade do trabalhador, que pode migrar de um ramo a outro de produção de acordo com as
necessidades da valorização; ademais, faz com que se acirre a concorrência entre os
trabalhadores, diminuindo seu poder de barganha e mobilização contra os ditames do capital, o
que também leva a um rebaixamento de seu valor; por fim, permite o aumento da regularidade da

573
Idem, ibidem, p.39.
574
Idem, ibidem, p.40.
575
“Aqueles que consideram a autonomização do valor como mera abstração esquecem que o movimento do capital industrial é
essa abstração in actu” (idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Victor Civita: Livro
II, 1984, p.78)
576
Marx citado por Romero, D. Marx e a técnica: um estudo dos manuscritos de 1861-1863. São Paulo: Expressão Popular,
2005, p.129-130.
577
Marx citado por Romero, D. ibidem, p.133.
117
produção, a manutenção de ritmos constantes, de certo nível de qualidade dos produtos, em suma,
do controle e da calculabilidade capitalista.
Sobre o último desses pontos, lê-se em uma passagem da Miséria da Filosofia que
de fato, a distribuição, ou sobretudo a adaptação dos trabalhos às diferentes capacidades
individuais, quase não entra no plano de operação das fábricas: ao contrário, sempre que um
procedimento qualquer exige muita destreza ou mão segura, retiram-no do braço do operário
hábil e freqüentemente inclinado a irregularidades de vários tipos, entregando-o a um mecanismo
particular, cuja operação automática é tão bem regulada que uma criança pode controlá-lo578,579.

Além disso, a apropriação das habilidades laborais pelas máquinas possibilita ao capital
explorar tipos de mão-de-obra que outrora tinham pouco lugar na produção.
À medida que a maquinaria torna a força muscular dispensável, ela se torna o meio de
utilizar trabalhadores sem força muscular ou com desenvolvimento corporal imaturo, mas com
membros de maior flexibilidade. Por isso, o trabalho de mulheres e de crianças foi a primeira
palavra-de-ordem da aplicação capitalista da maquinaria! Com isso, esse poderoso meio de
substituir trabalho e trabalhadores transformou-se rapidamente num meio de aumentar o número
de assalariados, colocando todos os membros da família dos trabalhadores, sem distinção de sexo
nem idade, sob o comando imediato do capital580.

Esse “avanço” do capital também contribui para rebaixar o valor da força de trabalho,
aumentar a concorrência dentre os trabalhadores e quebrar a sua resistência à exploração
capitalista. Introduz-se também uma inovação na própria forma do contrato e na esfera da
circulação, que não é estática, e também possui uma história; é parte da história do capital.
A maquinaria também revoluciona radicalmente a mediação formal das relações do
capital, o contrato entre trabalhador e capitalista. Com base no intercâmbio de mercadorias, o
pressuposto inicial era que capitalista e trabalhador se confrontariam como pessoas livres, como
possuidores independentes de mercadorias: um, possuidor de dinheiro e de meios de produção; o
outro, possuidor de força de trabalho. Mas, agora, o capital compra menores ou semidependentes.
O trabalhador vendia anteriormente sua própria força de trabalho, da qual dispunha como pessoa
formalmente livre. Agora vende mulher e filho. Torna-se mercador de escravos581. E “quebra
finalmente a resistência que o trabalhador masculino ainda opunha na manufatura ao despotismo
do capital”582.

Comparando-se a grande indústria à manufatura saltam aos olhos ainda outros


importantes “progressos”, da perspectiva do capital. Um deles consiste no fato de que um índice
da perfeição do sistema de máquinas é o grau de continuidade do processo global de produção.
Sobre isso, Marx lembra que “se na manufatura o isolamento dos processos particulares é um
princípio dado pela própria divisão de trabalho, na fábrica desenvolvida domina, pelo contrário,

578
Marx, K. Miséria da Filosofia. São Paulo: Global, 1985, p.132-3.
579
“Onde quer que uma operação requeira muita destreza e mão segura, retirar-se-á, tão rápido quanto possível, dos braços do
trabalhador demasiado qualificado e freqüentemente inclinado a irregularidades de toda espécie, para confiá-la a um mecanismo
específico, que é tão bem regulado que uma criança pode cuidar dele” (Ure citado por Marx, K. O Capital: crítica da economia
política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988, p.47-48).
580
Idem, ibidem, p.21.
581
Idem, ibidem, p.21.
118
a continuidade dos processos particulares”583. Assim, a luta do capital para diminuir os poros da
jornada de trabalho perde totalmente o sentido num contexto em que vigora o sistema de
máquinas desenvolvido.
Com o advento da grande indústria desenvolve-se a função de comando e da disciplina
laboral;

a subordinação técnica do operário ao andamento uniforme do meio de trabalho e a


composição peculiar do corpo de trabalho por indivíduos de ambos os sexos e dos mais diversos
níveis etários geram uma disciplina de caserna, que evolui para um regime fabril completo, e
desenvolve inteiramente o trabalho de supervisão, já antes aventado, portanto ao mesmo tempo a
divisão dos trabalhadores em trabalhadores manuais e supervisores do trabalho, em soldados
rasos da indústria e suboficiais da indústria584, 585.

Esse é um ponto fundamental para a consolidação da grande indústria, cuja implantação


encontrou forte resistência dos trabalhadores. Segundo Ure, citado por Marx,

a principal dificuldade na fábrica automática consistia em sua disciplina necessária, em


fazer os seres humanos renunciar a seus hábitos irregulares no trabalho e se identificar com a
invariável regularidade do grande autômato. Divisar um código de disciplina fabril adequado às
necessidades e à velocidade do sistema automático e realizá-lo com êxito foi um empreendimento
digno de Hércules, eis a nobre realização de Arkwright! Mesmo ainda hoje, quando o sistema está
organizado com toda perfeição, é quase impossível encontrar entre os trabalhadores que atingiram
a idade adulta ajudantes úteis para o sistema automático586,587.

Afora a disciplina e o despotismo no interior da fábrica, o desenvolvimento da grande


indústria acarreta outros empecilhos à organização operária, pois muitas vezes as invenções
serviam para expulsar da produção os trabalhadores que se opunham de forma mais contundente
à exploração. Em O Capital e em A Miséria da Filosofia, respectivamente, lê-se que “Ela [a
maquinaria – G.M.] se torna a arma mais poderosa para reprimir as periódicas revoltas operárias,

582
Idem, ibidem, p.26.
583
Idem, ibidem, p.11.
584
Idem, ibidem, p.42.
585
“No lugar do chicote do feitor de escravos surge o manual de penalidades do supervisor” (idem, ibidem, p.43).
586
Ure citado por Marx, K. ibidem, p.44 – também citado em Marx, K. Miséria da Filosofia, São Paulo: Global, 1985, p.131-2.
587
Desde de os primórdios da produção capitalista, a criação da laboriosidade e da disciplina dos trabalhadores é fundamental.
Em passagem do capítulo XXIV do Livro Primeiro de O Capital, sobre a acumulação primitiva, é dito que “não basta que as
condições de trabalho apareçam num pólo como capital e no outro pólo, pessoas que nada têm para vender a não ser sua força de
trabalho. Não basta também forçarem-nas a se venderem voluntariamente. Na evolução da produção capitalista, desenvolve-se
uma classe de trabalhadores que, por educação, tradição, costume, reconhece as exigências daquele modo de produção como leis
naturais evidentes. A organização do processo capitalista de produção plenamente constituído quebra toda a resistência, a
constante produção de uma superpopulação mantém a lei da oferta e da procura de trabalho e, portanto, o salário em trilhos
adequados às necessidades de valorização do capital, e a muda coação das condições econômicas sela o domínio do capitalista
sobre o trabalhador. Violência extra-econômica direta é ainda, é verdade, empregada, mas apenas excepcionalmente. Para o curso
usual das coisas, o trabalhador pode ser confiado às “leis naturais da produção”, isto é, à sua dependência do capital que se
origina das próprias condições de produção, e por elas é garantida e perpetuada. Outro era o caso durante a gênese histórica da
produção capitalista. A burguesia nascente precisa e emprega a força do Estado para “regular” o salário, isto é, para comprimi-lo
dentro dos limites convenientes à extração de mais-valia, para prolongar a jornada de trabalho e manter o próprio trabalhador
num grau normal de dependência. Esse é um momento essencial da assim chamada acumulação primitiva” (idem, O Capital:
crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988, p.267).
119
greves etc., contra a autocracia do capital”588, e que “enfim, desde 1825, quase todas as novas
invenções resultaram das colisões entre o operário e o patrão, que, a qualquer preço, procura
depreciar a especialidade do operário”589,590.

Como não podia deixar de ser, na fase da grande indústria ocorrem novos
desenvolvimentos do fetichismo do capital, o qual, encarnado no sistema de máquinas, adquire
uma existência material adequada a seu conceito, e torna-se “autocrata”, de tal modo que o
processo de produção agora totalmente objetivo se subjetiva, e rebaixa ainda mais a condição do
trabalho vivo 591.
Toda produção capitalista, à medida que ela não é apenas processo de trabalho, mas ao
mesmo tempo processo de valorização do capital, tem em comum o fato de que não é o
trabalhador quem usa as condições de trabalho, mas, que, pelo contrário, são as condições de
trabalho que usam o trabalhador: só, porém, com a maquinaria é que essa inversão ganha
realidade tecnicamente palpável. Mediante sua transformação em autômato, o próprio meio de
trabalho se confronta, durante o processo de trabalho, com o trabalhador como capital, como
trabalho morto que domina e suga a força de trabalho viva. A separação entre as potências
espirituais do processo de produção e o trabalho manual, bem como a transformação das mesmas
em poderes do capital sobre o trabalho, se completa, como já foi indicado antes, na grande
indústria erguida sobre a base da maquinaria. A habilidade pormenorizada do operador de
máquinas individual, esvaziado, desaparece como algo ínfimo e secundário perante a ciência,
perante as enormes forças da Natureza e do trabalho social em massa que estão corporificadas no
sistema de máquinas e constituem com ele o poder do “patrão” (máster)592,593.

Por fim, convém chamar a atenção para o fato de que essa tendência à negação do
trabalho vivo pelo capital, posta no conceito de capital em todos os seus momentos de
constituição, ganha enorme força com o advento da grande indústria, pois a substituição do
594
trabalho diretamente empregado na produção por máquinas além de promover um
deslocamento de trabalhadores para a função de vigia e guardião do processo produtivo e

588
Idem, ibidem, p.49.
589
Idem, Miséria da Filosofia. São Paulo: Global, 1985, p.131.
590
Em trecho que explicita a intensidade do conflito, bem como certo desfavorecimento dos trabalhadores, diz Marx que na luta
dos operários fabris “Trata-se do homem de ferro contra o homem de carne e osso” (idem, Maquinaria e Trabalho Vivo (Os
efeitos da mecanização sobre o trabalhador). In: Crítica Marxista. Vol. I, no 1. Campinas: Brasiliense, 1994, p.108).
591
“As condições objetivas do trabalho adquirem uma existência subjetiva frente à capacidade viva de trabalho” (idem,
Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973, vol.I, p.423).
592
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988,
p.41-42.
593
“De modo algum a máquina aparece como os meios de trabalho do trabalhador individual. Sua característica distintiva não é
em absoluto, como no caso dos meios de trabalho, a de servir de mediador entre a atividade do trabalhador e o objeto; essa
atividade [do trabalhador], ao contrário, é posta de tal modo que ela meramente serve como mediadora para o trabalho da
máquina, a ação da máquina, à matéria-prima – supervisiona essa ação e a protege contra perturbações. Não como com o
instrumento, que o trabalhador anima e transforma em seu órgão com sua destreza e força, e cujo manuseio portanto depende de
sua virtuosidade. Ao contrário, é a máquina que possui a destreza e a força no lugar do trabalhador, é ela própria o virtuosi, tendo
sua própria alma nas leis mecânicas que agem através dela” (idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia
Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973, vol.II, p.218-9, tradução modificada com base em Fausto, R. Marx:
Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo: Editora 34, 2002,
p.119).

120
desqualificar a maioria dos operários, também expulsa um grande número deles do processo
produtivo595. Além da tendência à substituição relativa do capital variável por capital constante,
em função da extração de mais-valia relativa, em muitos casos ocorre a eliminação do capital
variável em termos absolutos. Segundo Marx, “em certo grau de desenvolvimento, uma
extraordinária expansão de ramos fabris pode estar unida a um decréscimo não só relativo, mas
absoluto, do número de trabalhadores empregados” 596 . Tais trabalhadores são em parte
direcionados para outros ramos de produção, menos intensivos em capital, ou em maior
expansão, outra parte engrossa as fileiras do exército industrial de reserva, que com a grande
indústria é produzido numa magnitude sem precedentes, servindo para baratear o preço da força
do trabalho e para atender às flutuantes exigências dos diversos ramos do processo produtivo; já
um terceiro contingente afunda-se no pauperismo. Vejamos isso mais de perto.
No segundo capítulo dessa dissertação procurei estabelecer de maneira mais ou menos
sistemática algumas determinações do conceito de capital; tentei mostrar como sua constituição
se dá de maneira contraditória, de modo que, para existir e portanto constituir-se enquanto
totalidade em-si, o capital precisa negar sua substância, o trabalho vivo, impedindo que os
trabalhadores se apropriem do produto de seu trabalho, convertendo-se em totalidade. Com os
desdobramentos do conceito de capital, essa tendência à negação do trabalho vivo se amplia, e
passa a se efetivar como substituição do capital variável por capital constante, no bojo da
produção de mais-valia relativa. Entretanto, faz-se necessário abandonar o nível de abstração no
qual se estava operando, e se adentrar “o processo global de produção capitalista”.
Marx não podia tratar do capital diretamente no âmbito da concorrência, na sua “natureza
interna”, no seu “comportamento real” na relação com outros capitais, pois desse modo
dificilmente teria como investigar “em estado puro as leis imanentes do capital”, o “capital como
tal”. Assim, ele teve de abstrair, num primeiro momento, a concorrência, na qual a um tempo se

594
Que possui o estatuto de lei, a “lei do crescente aumento da parte constante do capital em relação à parte variável” (idem, O
Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988, p.185).
595
... é apenas na maquinaria, e no emprego dos novos sistema de máquinas sobre o qual se funda a mecanização das oficinas,
que a substituição do trabalhador por uma parte do capital constante (aquela parte do produto do trabalho que se tornar
novamente meio de trabalho) se coloca, produzindo genericamente um excedente de trabalhadores como tendência expressa e
apreensível, que atua e se estabelece em larga escala. O trabalho passado surge aqui como meio para substituir o trabalho vivo ou
como aquele meio de fazer diminuir o número de trabalhadores. Esta diminuição do trabalho humano aparece como especulação
capitalista, como meio para aumentar a mais-valia (idem, Maquinaria e Trabalho Vivo (Os efeitos da mecanização sobre o
trabalhador). In: Crítica Marxista. Vol. I, no 1. Campinas: Brasiliense, 1994, p.103). Em outra passagem, “A oposição entre
capital e trabalho assalariado desenvolve-se, assim, até sua plena contradição. É no interior desta que o capital aparece como
meio não somente de depreciação da capacidade viva de trabalho, mas também como meio de torná-la supérflua. Em
determinados processos isso ocorre por completo; em outros, esta redução se efetua até que se alcance o menor número possível
no interior do conjunto da produção. O trabalho necessário coloca-se, então, imediatamente como população supérflua, como
excedente populacional – aquela massa incapaz de gerar mais-trabalho” (idem, ibidem, p.106).
596
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988,
p.59.
121
efetivam e se negam as leis imanentes ao capital, para melhor encaminhar o estudo do seu
processo de formação. Não considerou o capital tal qual ele se encontra na realidade efetiva,
concretamente, mas sim o capital em suas determinações comuns a todos os capitais, de modo
que fosse possível acompanhar o processo de sua formação. O capital era considerado como
“capital em geral”, ou o capital que contém em si uma propriedade que se refere a todos os
capitais: a “propriedade de expandir seu valor”597,598.

Mas como constata Marx, “O capital existe e só pode existir como muitos capitais, sua
autodeterminação aparece como ação e reação recíproca entre si”599, o que ocorre no plano da
concorrência capitalista, da realidade efetiva. Nesse cenário “aparece, pois, tudo invertido. A
figura acabada das relações econômicas, tal como se mostra na superfície, em sua existência real
e portanto também nas concepções mediante as quais os portadores e os agentes dessas relações
procuram se esclarecer sobre as mesmas, difere consideravelmente, sendo de fato o inverso, o
oposto, de sua figura medular interna, essencial mais oculta, e do conceito que lhe
corresponde”600,601.

Dessa maneira, ao analisar a concorrência, Marx tem que abandonar a pressuposição de


que as mercadorias são vendidas por seus valores, mas de modo algum a própria lei do valor. Ou
melhor, a lei do valor é negada, mas essa negação é sua própria efetivação e confirmação; em
outras palavras, a esfera da concorrência efetiva, por meio da negação, as leis do valor, as leis
essenciais do capital. Como já foi reiterado, o movimento fundamental da sociedade capitalista é
a valorização do valor, a incessante apropriação de mais-valia em escala crescente, sobretudo por
meio da produção de mais-valia relativa. Entretanto, esse processo só se efetiva por meio da ação
individual dos diversos capitalistas, que não estão imediatamente interessados em diminuir o
valor da força de trabalho, mas sim buscando a redução de seus custos de produção de modo a
auferirem lucros extraordinários e açambarcarem mercados. Na medida em que esse processo
também é válido para os capitalistas dos ramos de produção de bens consumidos pelos
trabalhadores, ocorre a redução do valor da força de trabalho, e a produção da mais-valia relativa.

597
Rosdolsky, R. Gênese e estrutura do Capital de Karl Marx. Rio de Janeiro, Contraponto, 2001, p. 52.
598
Sobre o conceito de capital em geral, cf. Rosdolsky, R. Gênese e estrutura do Capital de Karl Marx. Rio de Janeiro,
Contraponto, 2001.
599
Marx citado por Rosdolsky, R. ibidem, p. 50.
600
Marx, K. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Victor Civita: Livro III, 1984b, p.160.
601
“... conceitualmente a concorrência não é senão a natureza interna do capital, sua determinação essencial, que aparece e é
realizada como ação recíproca dos muitos capitais uns sobre os outros, a tendência interna enquanto necessidade externa” (Marx
citado por Grespan, J. L. O negativo do Capital. São Paulo, Hucitec, 1998, p.195).
122
Os capitalistas individuais se pautam pela busca por lucros e portanto pela taxa de lucro
(a relação entre a mais-valia e o capital total), não pela mais-valia e pela taxa de mais-valia (a
relação entre a mais-valia e o capital variável) – as quais estão profundamente imbricadas, já que
“mais-valia e taxa de mais-valia são, em termos relativos, o invisível e o essencial a ser
pesquisado, enquanto a taxa de lucro e, portanto, a forma da mais-valia como lucro se mostram
na superfície dos fenômenos”602,603.

Ao se nortear pela taxa de lucro os capitalistas individuais não realizam qualquer


discriminação entre a parte constante e a parte variável do capital total, como se ambas
produzissem valor. Eis aí um processo fetichista que obnubila a origem do capital e a exploração
capitalista do trabalho e que leva Marx a dizer que “pelo fato de que todas as partes do capital
aparecem igualmente como fontes de valor excedente (lucro), a relação-capital é mistificada”604.
Mistificação esta que “é apenas o desenvolvimento ulterior da inversão que já ocorria durante o
processo de produção, de sujeito e objeto”605,606.

Na esfera da concorrência os capitalistas individuais exigem receber o lucro de acordo


com a magnitude de seus capitais totais, pois a existência de um ramo produtivo com taxa de
lucro consideravelmente mais baixa ou mais alta que as demais tende a levar a um êxodo de
capitais, que redunda no aumento da concorrência nos ramos em que vige as taxas de lucro mais
elevadas e seu conseqüente rebaixamento a um nível adequado para conter o fluxo de capitais.
Dessa maneira, o processo concorrencial produz uma taxa média de lucro, criada em função da
taxa de lucro vigente em cada ramo produtivo e do peso relativo desses ramos na determinação
da produção global607, e que portanto não se determina imediatamente pela efetiva valorização
dos capitais individuais608.
Como observam diversos críticos da obra de Marx, tais modificações efetivamente
negam a “lei do valor”, ou a contraditam, mas de maneira alguma a suprimem. Ao contrário, a

602
Marx, K. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Victor Civita: Livro III, 1984b, p.34.
603
“Da transformação da taxa de mais-valia em taxa de lucro deve-se derivar a transformação da mais-valia em lucro, e não o
contrário” (idem, ibidem, p.34).
604
Idem, ibidem, p.35.
605
Idem, ibidem, p.35.
606
O lucro “é uma forma em que sua origem e o segredo de sua existência são velados e apagados” (idem, ibidem, p.37). E “já
que num pólo o preço da força de trabalho aparece na forma transmutada de salário, no pólo antitético a mais-valia aparece na
forma transmutada de lucro” (idem, ibidem, p.30).
607
“A taxa geral de lucro é determinada pois por dois fatores: 1) pela composição orgânica dos capitais nas diversas esferas da
produção, portanto pelas diferentes taxas de lucro das esferas individuais; 2) pela distribuição do capital social global entre essas
diversas esferas, portanto pela grandeza relativa do capital investido em cada esfera particular e, portanto, aplicado a uma taxa de
lucro particular: isto é, pela parcela relativa da massa do capital social global que cada esfera particular da produção engole”
(idem, ibidem, p.127).
608
Essa taxa média de lucro é acrescentada aos preços de custo das mercadorias de cada ramo particular da produção, formando
o que Marx denominou preço de produção (idem, ibidem, p.123).
123
contradição existe porque o movimento do capital é realmente contraditório, mas se pode notar
que “já que o valor global das mercadorias regula a mais-valia global, e esta, por sua vez, o nível
do lucro médio, e portanto da taxa geral de lucro – como lei geral ou como lei que domina as
oscilações -, então a lei do valor regula os preços de produção”609. “Qualquer que seja o modo
como os preços das várias mercadorias são, de início, fixados ou regulados reciprocamente, a lei
do valor domina seu movimento”610,611.
Com base nesses últimos desdobramentos, é possível compreender melhor as novas
configurações do processo de negação do trabalho pelo capital. Em um trecho dos Grundrisse,
lê-se:
O capital, partindo de si mesmo como sujeito ativo, como sujeito do processo (...) se
comporta consigo mesmo como valor que se aumenta a si mesmo, isto é, se comporta com a
mais-valia como posta e fundada por ele (...). Por isso, ao valor recém produzido já não o mede
por sua medida real, a proporção entre o mais-trabalho e o trabalho necessário, senão que o mede
por si mesmo, pelo capital, como suposto desse valor612.

Sendo a medida de si mesmo realizada por meio da taxa de lucro, o capital vê a sua parte
variável como mero custo de produção, o qual busca a minimizar da maneira que lhe for possível,
esforçando-se para eliminar os trabalhadores da produção613. Desse modo, “O aumento da força
produtiva do trabalho e a maior negação possível do trabalho necessário é a tendência necessária
do capital (...). A transformação dos meios de trabalho na maquinaria é a realização dessa
tendência”614,615.

609
Idem, ibidem, p.140.
610
Idem, ibidem, p.138.
611
Diga-se de passagem que com o exposto é fornecida a chave para a compreensão daquilo que ficou conhecido como o
problema da transformação de valores em preços – que não receberá atenção aqui -, que consiste justamente no processo de
mistificação capitalista no qual se escamoteia o fundamento do capital, processo em que a essência do sistema contraditoriamente
se efetiva mediante sua negação.
612
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973,
vol.II, p.278.
613
E não cabe aqui qualquer crítica moral ao capital, já que, deve-se enfatizar, “o limite da produção capitalista é o lucro do
capitalista e de maneira nenhuma a necessidade dos produtores” (idem, Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento
Econômico. 3 vols. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, p.962). Como já propugnava Marx em 1844, nos Manuscritos de
Paris, cada formação social possui suas próprias “leis morais” (idem, Manuscritos Econômico-Filosóficos e outros textos
escolhidos. Lisboa: Edições 70, 1993, p. 212).
614
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973,
vol.II, p.219-220.
615
“A divisão do trabalho unilateraliza essa força de trabalho em uma habilidade inteiramente particularizada de manejar uma
ferramenta parcial. Assim que o manejo da ferramenta passa à máquina, extingue-se, com o valor de uso, o valor de troca da
força de trabalho. O trabalhador torna-se invendável, como papel-moeda posto fora de circulação. A parte da classe trabalhadora
que a maquinaria transforma em população supérflua, isto é, não mais imediatamente necessária para a autovalorização do
capital, sucumbe, por um lado, na luta desigual da velha empresa artesanal e manufatureira contra a mecanizada, inunda, por
outro lado, todos os ramos mais acessíveis da indústria, abarrota o mercado de trabalho e reduz, por isso, o preço da força de
trabalho abaixo de seu valor. Para os trabalhadores pauperizados, deve ser grande consolo acreditar, por um lado, que seu
sofrimento seja apenas ‘temporário’ (a temporary inconvenience), por outro, que a maquinaria só se apodera paulatinamente de
todo um setor da produção, ficando reduzida a dimensão e a intensidade de seu efeito destruidor” (idem, O Capital: crítica da
economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988, p.46). “Trata-se para o
trabalhador não somente da eliminação da especialização e da depreciação de sua capacidade de trabalho, mas da eliminação
124
Quais são os efeitos dessa negação do trabalho? Significa ela uma tendência à diminuição
relativa ou absoluta do número de trabalhadores mobilizados pela grande indústria? A resposta
não é trivial, pois as variações de ênfase e contexto das distintas passagens das obras marxianas
na qual tal questão é abordada ensejam distintas interpretações. Em algumas passagens Marx fala
em redução absoluta do número de trabalhadores616, ou que

... a fórmula da maquinaria é: não a diminuição relativa da jornada individual de trabalho


– jornada esta que é parte necessária da jornada de trabalho – mas a redução da quantidade de
trabalhadores, isto é, das muitas jornadas paralelas, formadoras de uma jornada coletiva de
trabalho, fundamental à constituição da maquinaria. Em outros termos, uma quantidade
determinada de trabalhadores é posta para fora do processo de produção e seus postos de trabalho
extintos como sendo, ambos, inúteis à produção de mais-trabalho. Tudo isso abstraindo da
eliminação daquelas especializações surgidas mediante a divisão do trabalho de onde resulta,
por conseqüência, uma depreciação da própria capacidade de trabalho617.

Aparentemente, o prognóstico apresentado é o da progressiva redução dos trabalhadores


nos ramos produtivos em que vige a grande indústria. No entanto, no geral a questão da
eliminação do trabalho é tratada em termos de diminuição relativa da força de trabalho, de tal
modo que Marx conclui que “esta [é] a tendência da maquinaria: por um lado, a constante
expulsão de trabalhadores, seja do interior daquela oficina já mecanizada, seja do interior dos
ofícios; por outro, sua constante reintegração, posto que a partir de um grau determinado de
desenvolvimento da força produtiva, o aumento da mais-valia só se coloca com a elevação
simultânea do número de trabalhadores ocupados618. Esse movimento de atração e expulsão é
característico e representa o constante oscilar da existência do trabalhador619”620.
Efetivamente são estas as duas tendências do capital, de um lado negar o trabalho vivo a
ponto de substituí-lo por capital constante e atentar contra sua própria substância, e de outro
reabsorvê-la em novos ramos da produção ou em ramos antigos em processo de expansão, pois

mesma desta parte cuja flutuação é constante e pertencente a ele como sendo sua única mercadoria – a eliminação de sua
capacidade de trabalho. Capacidade que se coloca como supérflua ante a maquinaria, seja porque cabe a esta última a realização
completa de parte do trabalho, seja porque diminui o número de trabalhadores que assistem diretamente à maquinaria” (idem,
Maquinaria e Trabalho Vivo (Os efeitos da mecanização sobre o trabalhador). In: Crítica Marxista. Vol. I, no 1. Campinas:
Brasiliense, 1994, p.107).
616
Cf. p.114 deste texto.
617
Idem, Maquinaria e Trabalho Vivo (Os efeitos da mecanização sobre o trabalhador). In: Crítica Marxista. Vol. I, no 1.
Campinas: Brasiliense, 1994, p.106, os grifos da última frase são meus.
618
“Uma tendência lança os trabalhadores no olho da rua e torna a população excessiva; a outra reabsorve-os e aumenta em
termos absolutos a escravatura assalariada, e assim está o trabalhador seguindo sempre seu fadário flutuante e dele nunca se
livra” (idem, Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. 3 vols. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1980, p.1007).
619
“Sem dúvida, a longo prazo – o que porém favorece mais os sucessores dos que foram despedidos que a estes mesmos – o
trabalho liberado em conjunto com a parte liberada da renda (revenue) ou do capital tem de achar saída num novo ramo ou na
expansão dos antigos” (idem, ibidem, p.995). E “... se o progresso da acumulação diminui a grandeza relativa da parte variável do
capital, não exclui, com isso, de modo algum, o crescimento de sua grandeza absoluta” (idem, O Capital: crítica da economia
política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988, p.186).
620
Idem, Maquinaria e Trabalho Vivo (Os efeitos da mecanização sobre o trabalhador). In: Crítica Marxista. Vol. I, no 1.
Campinas: Brasiliense, 1994, p.107.
125
do contrário a valorização do valor em escala aumentada se faria impossível, e o capital não
desempenharia o seu movimento mais essencial. Em todo caso, julgo que isso não significa que
tais tendências vão sempre e necessariamente se realizar, e muito menos que isso se dê de
maneira mais ou menos harmônica; ao contrário, o movimento contraditório do capital o leva a
contrariar suas próprias determinações essenciais, de tal modo que possa haver uma diminuição
absoluta da força de trabalho devido à proliferação da grande indústria.

Acerca do destino dos trabalhadores alijados do processo produtivo, também parece


haver oscilações. Em trecho das Teorias..., assevera Marx que “nada se opõe a que parte do
capital-dinheiro fique ociosa e sem emprego, ao mesmo tempo em que baixam os preços dos
meios de subsistência em virtude de superprodução relativa, e os trabalhadores desempregados
pelas máquinas são dizimados pela fome” 621 , 622 . Mas da mesma forma, em Maquinaria e
Trabalho Vivo, escrito nessa época, diz ele que “se, por exemplo, de um total de cinqüenta
trabalhadores, quarenta são postos para fora, nada se opõe inteiramente a que, neste momento,
sobre a base de uma nova fase da produção, estes quarenta trabalhadores sejam novamente
integrados”623. Uma leitura atenta das últimas passagens transcritas permite ver que Marx não
apresenta uma fórmula acabada, uma descrição de processos inelutáveis; ademais, no primeiro
trecho ele está a pensar no conjunto dos trabalhadores de uma perspectiva mais ampla, de modo
que a ascensão do número absoluto de postos de trabalho pode se dar na próxima geração ou nas
gerações subseqüentes de trabalhadores.

Esse tema pode ser abordado no bojo da discussão sobre o conceito de exército industrial
de reserva. Nas palavras de Marx, “as máquinas criam sempre população relativa, um exército de
reserva de trabalhadores, o que muito acresce o poder do capital” 624 , de tal modo que a
625
“acumulação do capital é (...) multiplicação do proletariado” . Necessariamente tal
multiplicação conduz a uma superpopulação, que é produto do processo de produção e converte-

621
Idem, Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980,
p.994.
622
“Mas o absurdo subjacente em Ricardo é este: Os meios de subsistência antes consumidos pelos trabalhadores despedidos
[com o avanço da maquinaria] continuam, porém, a existir e estão, como dantes, no mercado. Ademais, seus braços também se
encontram no mercado (...) em conseqüência [esses trabalhadores] encontrarão emprego. / É possível que até um economista
como Ricardo nos venha com esta charla arrepiante?” (idem, ibidem, p.993).
623
Idem, Maquinaria e Trabalho Vivo (Os efeitos da mecanização sobre o trabalhador). In: Crítica Marxista. Vol. I, no 1.
Campinas: Brasiliense, 1994, p.109.
624
Idem, Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980,
p.989.
625
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988a, p.
188.
126
se em “alavanca da acumulação capitalista” 626 , pois este “exército industrial de reserva” –
formado por todo trabalhador que se encontra “desocupado parcial ou inteiramente”627 - pertence
ao capital e proporciona “às suas mutáveis necessidades de valorização o material humano
sempre pronto para ser explorado, independente dos limites do verdadeiro acréscimo
populacional”628. Na exposição da lei geral da acumulação capitalista Marx demonstra que o
aumento da classe trabalhadora e a condenação de uma parcela desta classe à ociosidade forçada
“torna-se um meio de enriquecimento do capitalista individual” 629 , já que, como se viu, o
aumento da concorrência entre os trabalhadores, proporcional ao tamanho do exército industrial
de reserva rebaixa o valor da força de trabalho, e a abundância de mão-de-obra permite seu
deslocamento e mobilização de acordo com a demanda do capital630.
O movimento de valorização preside o desenvolvimento numérico do proletariado,
constituindo uma verdadeira “lei populacional”. Nas palavras de Marx,
com a acumulação do capital produzida por ela mesma, a população trabalhadora produz,
portanto, em volume crescente, os meios de sua própria redundância relativa. Essa é uma lei
populacional peculiar ao modo de produção capitalista, assim como, de fato, cada modo de
produção histórico tem suas leis populacionais particulares, historicamente válidas. Uma lei
populacional abstrata só existe para planta e animal, à medida que o ser humano não interfere
historicamente631,632.
Por fim, cabe lembrar que existem diversos tipos de superpopulação relativa; “abstraindo
as grandes formas, periodicamente repetidas, que a mudança das fases do ciclo industrial lhe
imprime, de modo que ora aparece agudamente nas crises, ora cronicamente nas épocas de
negócios fracos, ela [a superpopulação relativa] possui continuamente três formas: líquida,
latente e estagnada”633. Nos centro da indústria moderna, em função dos ciclos industriais, ora
trabalhadores são alijados do processo produtivo, ora atraídos para ele em grau mais elevado do
que o anterior; eis a forma líquida do exército industrial de reserva. Por outro lado, no meio

626
“... a acumulação capitalista produz constantemente — e isso em proporção à sua energia e às suas dimensões — uma
população trabalhadora adicional relativamente supérflua ou subsidiária, ao menos no concernente às necessidades de
aproveitamento por parte do capital” (idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova
Cultural: Livro I, Tomo II, 1988, p.190).
627
Idem, ibidem, p.197.
628
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988, p.
200.
629
Idem, ibidem, p. 203.
630
“... grandes massas humanas precisam estar disponíveis para serem subitamente lançadas nos pontos decisivos, sem quebra da
escala de produção em outras esferas” (idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova
Cultural: Livro I, Tomo II, 1988, p.192).
631
Idem, ibidem, p.191.
632
“A condenação de uma parcela da classe trabalhadora à ociosidade forçada em virtude do sobretrabalho da outra parte e vice-
versa torna-se um meio de enriquecimento do capitalista individual e acelera, simultaneamente, a produção do exército industrial
de reserva numa escala adequada ao progresso da acumulação social” (idem, ibidem, p.194). “Quanto maiores a riqueza social, o
capital em funcionamento, o volume e a energia de seu crescimento, portanto também a grandeza absoluta do proletariado e a
força produtiva de seu trabalho, tanto maior o exército industrial de reserva” (idem, ibidem, p.200).
633
Idem, ibidem, p.197-198.
127
agrário, a mecanização costuma expulsar trabalhadores em termos absolutos, ou seja, sem uma
correspondente atração de novos contingentes. Isso produz um constante fluxo de migração para
as cidades, a superpopulação latente. Por sua vez, a superpopulação estagnada “constitui a parte
do exército ativo de trabalhadores, mas com ocupação completamente irregular. Ela proporciona,
assim, ao capital, um reservatório inesgotável de força de trabalho disponível. Sua condição de
vida cai abaixo do nível normal médio da classe trabalhadora, e exatamente isso faz dela uma
base ampla para certos ramos de exploração do capital. É caracterizada pelo máximo do tempo
de serviço e mínimo de salário”634. Por fim, “o mais profundo sedimento da superpopulação
relativa habita a esfera do pauperismo635. Abstraindo vagabundos, delinqüentes, prostitutas, em
suma, o lumpemproletariado propriamente dito, essa camada social consiste em três
categorias”636: primeiro, os “aptos para o trabalho”637; “segundo, órfãos e crianças indigentes.
Eles são candidatos ao exército industrial de reserva e, em tempos de grande prosperidade, como,
por exemplo, em 1860, são rápida e maciçamente incorporados ao exército ativo de
trabalhadores”; “terceiro, degradados, maltrapilhos, incapacitados para o trabalho”638.
Sintetizando a discussão, tem-se que
A grandeza proporcional do exército industrial de reserva cresce, portanto, com as
potências da riqueza. Mas quanto maior esse exército de reserva em relação ao exército ativo de
trabalhadores, tanto mais maciça a superpopulação consolidada, cuja miséria está em razão
inversa do suplício de seu trabalho. Quanto maior, finalmente, a camada lazarenta da classe
trabalhadora e o exército industrial de reserva, tanto maior o pauperismo oficial639. Essa é a lei
absoluta geral, da acumulação capitalista. Como todas as outras leis, é modificada em sua
realização por variegadas circunstâncias, cuja análise não cabe aqui640.

Para concluir essa investigação sobre alguns aspectos da análise marxiana do


desenvolvimento histórico do capital, cabe destacar ainda alguns pontos, discutidos pelos autores

634
Idem, ibidem, p.199.
635
“O pauperismo constitui o asilo para inválidos do exército ativo de trabalhadores e o peso morto do exército industrial de
reserva. Sua produção está incluída na produção da superpopulação relativa, sua necessidade na necessidade dela, e ambos
constituem uma condição de existência da produção capitalista e do desenvolvimento da riqueza. Ele pertence ao faux frais da
produção capitalista que, no entanto, o capital sabe transferir em grande parte de si mesmo para os ombros da classe trabalhadora
e da pequena classe média” (idem, ibidem, p.200).
636
Idem, ibidem, p.199.
637
Idem, ibidem, p.200.
638
Idem, ibidem, p.200.
639
Isso nada tem a ver com a teoria da pauperização crescente do proletariado. Em primeiro lugar, Marx sabia perfeitamente que
pauperismo e riqueza são noções relativas; por outro lado, ele propugnava que em períodos de prosperidade do capitalismo a
tendência era a melhoria das condições materiais de vida dos trabalhadores, mas em proporção menor do que o enriquecimento
dos capitalistas. Daí a idéia de que a situação do proletariado tendia a piorar relativamente em relação à classe capitalista. Nas
palavras de Marx, “de seu próprio mais-produto, em expansão e expandindo a parte transformada em capital adicional, flui de
volta para eles uma parcela maior sob a forma de meios de pagamento, de maneira que podem ampliar o âmbito de suas
satisfações, podem prover melhor seu fundo de consumo de vestuário, móveis etc., e constituir um pequeno fundo de reserva em
dinheiro. Mas assim como melhor vestuário, alimentação, tratamento e um pecúlio maior não superam a relação de dependência e
a exploração do escravo, tampouco superam as do assalariado. Preço crescente do trabalho em decorrência da acumulação do
capital significa, de fato, apenas que o tamanho e o peso da cadeia de ouro, que o próprio trabalhador forjou para si, permitem
reduzir seu aperto” (idem, ibidem, p.182).

128
estudados nesta dissertação. Um deles se refere aos custos de reprodução da fundamental força
produtiva da grande indústria que é ciência (e alguns produtos científicos). Como se pode
perceber com facilidade, o custo de reprodução de um programa de computador, por exemplo,
tende à zero com o aumento de sua difusão, o que muitos consideram uma violação à lei do valor.
Segundo trecho das Teorias..., “o produto do trabalho intelectual – a ciência –está sempre muito
abaixo do valor. É que o tempo de trabalho necessário para reproduzi-la não guarda em absoluto
proporção alguma com o tempo de trabalho requerido pela produção original. Um colegial, por
exemplo, pode aprender em uma hora o teorema do binômio”641. Já em O Capital, lê-se que “o
que ocorre com as forças naturais ocorre com a ciência. Uma vez descobertas, a lei do desvio da
agulha magnética no campo de ação de uma corrente elétrica ou a lei da indução de magnetismo
no ferro em torno do qual circula uma corrente elétrica já não custam um único centavo. Mas,
para a exploração dessas leis pela telegrafia etc., é preciso uma aparelhagem muito cara e
extensa”642.
Dessa maneira, Marx analisa a especificidade da ciência, e também do trabalho científico
que, como foi visto no segundo capítulo deste texto, tende, por sua natureza, a apresentar
resistência à subordinação real capitalista. No entanto, da mesma maneira que é preciso ter claro
que as leis do desenvolvimento capitalistas devem ser entendidas como regras gerais, o que
possibilita violações ou alterações em alguns casos particulares, não se pode negligenciar a
capacidade do capital de superar as barreiras que encontra. Assim, além de subordinar a ciência
transformando-a num negócio, produz-se sua escassez – necessária para sua exploração em
termos capitalistas – mediante patentes e práticas de sigilo industrial, o que tende a refrear o
desenvolvimento científico. Não obstante, não se deve ignorar também os custos efetivos da
produção do conhecimento científico, nada desprezíveis, e que geralmente envolvem a utilização
de capital constante – máquinas, computadores, etc. - extremamente custoso, que faz diferença
na determinação do preço dos produtos científicos.

Outro tema digno de nota é a questão da neutralidade ou não da técnica e da ciência. A


maquinaria é apresentada como a forma produtiva mais adequada ao capital, a grande indústria é
um meio de extração da mais-valia e opera mediante a aviltante exploração dos trabalhadores, o
capital subsume a ciência e a coloca sob seu serviço; de tal modo que não se pode ter dúvida

640
Idem, ibidem, p.200.
641
Idem, Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980,
p.339.
642
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988,
p.15.
129
acerca do caráter capitalista da ciência e da técnica. No entanto, Marx é enfático em propugnar a
possibilidade de se dar outras utilizações para o sistema de máquinas, que em outra formação
social pode deixar de ser meio de escravização para se tornar um fator essencial da emancipação
humana. Em suas palavras, “as máquinas não cessarão de ser agentes da produção social quando,
por exemplo, se converterem em propriedade dos trabalhadores associados643”644. Ademais,

As contradições e os antagonismos inseparáveis da utilização capitalista da maquinaria


não existem porque decorrem da própria maquinaria, mas de sua utilização capitalista! Já que,
portanto, considerada em si, a maquinaria encurta o tempo de trabalho, enquanto utilizada como
capital aumenta a jornada de trabalho; em si, facilita o trabalho, utilizada como capital aumenta
sua intensidade; em si, é uma vitória do homem sobre a força da Natureza, utilizada como capital
submete o homem por meio da força da Natureza; em si, aumenta a riqueza do produtor, utilizada
como capital o pauperiza etc.645,646.

Da mesma forma como se procedeu em relação à manufatura, é o caso de frisar melhor as


contradições que estão postas no desenvolvimento da grande indústria, malgrado todos os
avanços advindos no que tange à dominação do capital. Primeiramente, vimos que a
consolidação do sistema de máquinas ensejou um extraordinário aumento da extração de mais-
valia absoluta e principalmente relativa, mediante a incorporação de novos e expressivos
contingentes de trabalhadores ao processo produtivo (crianças e mulheres), que atingiu
proporções colossais e sem quaisquer precedentes; a redução do valor da força de trabalho; a
ampliação da jornada de trabalho, entre outros fatores. Contudo, como o incessante

643
“Mas se o capital só na máquina e em outras formas de existência material do capital fixo, como estradas de ferro etc. (...) se
dá a sua configuração adequada enquanto valor de uso no interior do processo de produção, isso não significa de modo algum
que esse valor de uso – a máquina em si – é capital, ou que a sua existência como maquinaria seja igual à sua existência como
capital, assim como o ouro não perderia o seu valor de uso como ouro, se ele deixasse de ser dinheiro” (Marx citado por Fausto,
R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo: Editora 34,
2002, p.117). “A maquinaria não perderia seu valor de uso quando deixar de ser capital. Do fato de a mercadoria ser a forma mais
adequada do valor de uso próprio do capital fixo, não se depreende, de modo algum, que a subsunção na relação social de capital
seja a mais adequada e melhor relação social de produção para o emprego da maquinaria” (idem, Elementos Fundamentales para
la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973, vol.II, p.222). “O valor de uso da lã pertence-
lhe por ser lã e não por ser capital. Idem, a operação da máquina a vapor nada tem em comum com sua existência como capital.
Prestaria o mesmíssimo serviço se não fosse ‘capital’ e pertencesse não ao senhor da fábrica, mas aos trabalhadores” (idem,
Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. 3 vols. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, p.1313).
644
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973,
vol.II, p.396.
645
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988,
p.54-55.
646
“O Dr. Ure, o Píndaro da fábrica automática, descreve-a, por um lado, como ‘a cooperação de diferentes classes de
trabalhadores, adultos e menores, que com destreza e diligência vigiam um sistema de máquinas produtivas, que é
ininterruptamente posto em atividade por uma força central (o primeiro motor)’, por outro lado, como ‘um enorme autômato,
composto por inúmeros órgãos mecânicos e conscientes, agindo em concerto e sem interrupção para a produção de um mesmo
objeto, de modo que todos estão subordinados a uma força motriz, que se move por si mesma’. Essas duas formulações não são,
de modo algum, idênticas. Numa, o trabalhador coletivo combinado ou corpo social de trabalho aparece como sujeito
transcendental e o autômato mecânico como objeto; na outra, o próprio autômato é o sujeito e os operários são apenas órgãos
conscientes, coordenados com seus órgãos inconscientes e subordinados, com os mesmos, à força motriz central. A primeira
formulação vale para qualquer aplicação possível da maquinaria em grande escala, a outra caracteriza sua aplicação capitalista
e, portanto, o sistema fabril moderno. Por isso, Ure também gosta de apresentar a máquina central, da qual parte o movimento,
não só como autômato, mas como autocrata” (idem, ibidem, p.38, grifos meus).
130
revolucionamento das forças produtivas, característico da grande indústria, redunda na
substituição da força de trabalho pelo capital constante, sobretudo por máquinas cada vez mais
produtivas, a base da acumulação é relativamente estreitada, mesmo porque com a produção de
máquinas por máquinas se reduz cada vez mais o valor destas, sobretudo se comparado ao valor
das ferramentas parciais do período manufatureiro647. Tal tendência é contraposta pelo aumento
extensivo da produção, mas os limites da valorização do valor não desvanecem, como se revela
nas crises de sobreacumulação.
Ademais, apesar do enorme aumento do poder do capital frente à classe trabalhadora, ao
reduzi-la à condição de apêndice da produção, ao produzir um gigantesco exército industrial de
reserva, e uma massa populacional supérflua ou redundante, com o advento da grande indústria o
conflito entre trabalho e capital se torna potencialmente muito mais aberto e declarado 648 ,
fornecendo aos trabalhadores indícios contundentes acerca da miserabilidade e irracionalidade
inerente ao mundo do capital, fortalecendo a tese de que o melhor a fazer é destruir e superar
esse modo de produção649. Um desses indícios seria, como se viu, a ausência de justificativa
técnica para o aprisionamento dos trabalhadores a uma tarefa parcial, e durante uma jornada de
trabalho tão extensa, já que na grande indústria existe uma distância abissal entre o volume da
produção e a contribuição dos trabalhadores, o que somado à existência de um grande
contingente de trabalhadores desocupados, cria as condições para uma brutal redução da jornada
de trabalho individual.
Em um trecho bastante famoso de O Capital, é dito que
Viu-se como essa contradição absoluta [entre a revolução material da produção e a
manutenção de seu fundamento social, a exploração do trabalho pelo capital – G.M.] elimina toda

647
“Quanto menos trabalho ela mesma contém, tanto menos valor agrega ao produto. Quanto menos valor transfere, tanto mais
produtiva é e tanto mais seu préstimo se aproxima do das forças naturais” (idem, ibidem, p.22).
648
“Ela destrói todas as formas antiquadas e transitórias, atrás das quais a dominação do capital ainda se esconde em parte, e as
substitui por sua dominação direta, indisfarçada. Generaliza, com isso, também, a luta direta contra essa dominação” (idem,
ibidem, p.98). “É primeiramente junto à maquinaria que o trabalhador luta de imediato contra a força produtiva desenvolvida
pelo capital como sendo aquele princípio antagônico fundado no trabalhador mesmo – o trabalho vivo. A destruição das
máquinas e a oposição geral, por parte dos trabalhadores, à introdução da maquinaria é a primeira expressão esclarecida de luta
contra a produção capitalista desenvolvida, tanto como modo, quanto como meio de produção. Nada há que se assemelhe a isto
na cooperação simples e na divisão do trabalho” (idem, Maquinaria e Trabalho Vivo (Os efeitos da mecanização sobre o
trabalhador). In: Crítica Marxista. Vol. I, no 1. Campinas: Brasiliense, 1994, p.104).
649
“... é apenas uma necessidade do modo de produção capitalista que o número de assalariados aumente de maneira absoluta,
apesar de sua diminuição relativa. Para ele, forças de trabalho já se tornam supérfluas assim que não for necessário empregá-las
diariamente por 12 a 15 horas. Um desenvolvimento das forças produtivas que diminuísse o número absoluto dos trabalhadores,
isto é, capacitasse realmente a nação inteira a efetuar toda a produção em menor espaço de tempo, acarretaria revolução, pois
tornaria marginal a maior parte da população. Aqui aparece novamente a barreira específica da produção capitalista, e vê-se que
não é de maneira alguma forma absoluta do desenvolvimento das forças produtivas e da criação de riqueza, colidindo com este
desenvolvimento, a partir de certo ponto. Essa colisão aparece parcialmente nas crises periódicas, oriundas da circunstância de
ficar supérflua, no antigo tipo de atividade, ora esta, ora aquela fração da população trabalhadora. Sua barreira é o tempo
excedente dos trabalhadores. Não lhe interessa o tempo excedente absoluta que a sociedade ganha. A produtividade só lhe
importa quando aumenta o tempo de trabalho excedente da classe trabalhadora e não quando diminui apenas o tempo de trabalho
da produção material. Assim, move-se a produção contraditoriamente” (idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção
Os Economistas. São Paulo: Victor Civita: Livro III, 1984, p.198, tradução modificada).
131
tranqüilidade, solidez e segurança na situação de vida do trabalhador, ameaçando constantemente
arrancar-lhe da mão, com o meio de trabalho, o meio de subsistência e torná-lo, com sua função
parcelar, supérfluo; como essa contradição desencadeia um ritual ininterrupto de sacrifício da
classe trabalhadora, o mais desmesurado desperdício de forças de trabalho e as devastações da
anarquia social. Esse é o lado negativo. Mas, se a variação do trabalho agora se impõe apenas
como lei natural preponderante e com o cego efeito destrutivo de uma lei natural, que se defronta
com obstáculos por toda parte, a grande indústria torna, por suas catástrofes mesmo, uma questão
de vida ou morte reconhecer a mudança dos trabalhos, e portanto a maior polivalência possível
dos trabalhadores, como lei geral e social da produção, adequando as condições à sua realização
normal. Ela torna uma questão de vida ou morte substituir a monstruosidade de uma miserável
população trabalhadora em disponibilidade, mantida em reserva para as mutáveis necessidades de
exploração do capital, pela disponibilidade absoluta do homem para as exigências variáveis do
trabalho; o indivíduo-fragmento, o mero portador de uma função social de detalhe, pelo indivíduo
totalmente desenvolvido, para o qual diferentes funções sociais são modos de atividade que se
alternam650,651.

Outro indício enfatizado por Marx, e que também diz respeito ao amadurecimento das
condições materiais para a construção consciente de uma nova formação social, relaciona-se com
a gênese de indústrias monumentais e de enormes conglomerados, em decorrência do processo
de concentração e centralização do capital652. Esse processo amplia o caráter social e cooperativo
da produção – uma necessidade técnica da grande indústria -, potencializando assim a
contradição entre tal caráter e a apropriação privada dos produtos da grande indústria. Nas
palavras de Marx, “se excluirmos desse fato o caráter antagônico que o qualifica no sistema de
produção capitalista, que é que expressa esse fato, essa tendência à centralização? Apenas que a
produção perde seu caráter privado e se torna processo social não formalmente (...) mas em
condições reais”653.
Além disso, a incorporação de mulheres e crianças à produção cria as condições para a
superação da dominação patriarcal no interior das famílias.

650
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988,
p.87-88.
651
“O que caracteriza a divisão do trabalho na fábrica é o fato de o trabalho perder aí todo caráter de especialidade. Mas, a partir
do momento em que cessa todo desenvolvimento especial, a necessidade de universalidade, a tendência a um desenvolvimento
integral do indivíduo começa a se fazer sentir. A fábrica liquida as especializações e o idiotismo do ofício” (idem, Miséria da
Filosofia. São Paulo: Global, 1985, p.134-5).
652
Concentração de capital, que é o mesmo que a reprodução ampliada do capital, é o processo de aumento dos meios de
produção em cada empresa, ou nas mãos dos capitalistas individuais, no bojo da acumulação capitalista; já centralização,
processo bastante relacionado ao primeiro, é o processo de concentração de capital nas mãos de cada vez menos capitalistas, ou
da absorção de capitais menos competitivos pelos mais competitivos, no interior do processo concorrencial; é a “expropriação de
capitalista por capitalista”. São tendências decorrentes do processo açambarcador do capital, que se efetivam mediante a criação
de monopólios ou oligopólios, os quais competem entre si de modo ainda mais encarniçado; assim, no capitalismo a concorrência
leva à monopolização, e esta ao desenvolvimento da concorrência, sob novas bases. Não é o caso de se falar aqui da importância
do sistema de crédito para a concentração e centralização de capital, o qual por um lado possibilita a mobilização de imensas
massas de dinheiro que podem viabilizar o investimento em empreendimentos imensos e altamente produtivos - o que tende a
significar a falência das empresas existentes menos produtivas -; e por outro contribui para conduzir à bancarrota miríades de
empresas insolventes que contraem empréstimos nas instituições creditícias.
653
Idem, Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980,
p.1487.
132
Por terrível e repugnante que agora pareça a dissolução do antigo sistema familiar no
interior do sistema capitalista, a grande indústria não deixa de criar, com o papel decisivo que
confere às mulheres, pessoas jovens e crianças de ambos os sexos em processos de produção
socialmente organizados para além da esfera domiciliar, o novo fundamento econômico para uma
forma mais elevada de família e de relações entre ambos os sexos654,655.

No mesmo sentido, o movimento avassalador do capital, que grassa todo o orbe, e que
tende a submeter tudo à lógica de sua valorização - e ganha novo fôlego com o surgimento do
sistema de máquinas -, exige que as necessidades humanas se ampliem exponencialmente, de
modo que correspondam à imensa massa de novos produtos que inundam os mercados. Ao
submeter a natureza à análise científica e ao produzir um sistema mundial, o que sob a égide do
capital implica na destruição ambiental, no surgimento de novas formas de dominação pela
“segunda natureza” – a técnica e a ciência que fogem ao controle dos homens e se tornam meios
para sua exploração e negação -, na degradação e destruição de um sem-número de culturas; ao
fazer tudo isso, são criadas as condições para a superação das limitações nacionais e religiosas,
para o controle consciente das formas de reprodução material e espiritual da vida em suas
múltiplas possibilidades, para o estabelecimento de uma relação harmônica com a natureza. Em
passagens bastante extensas, mas que merecem ser transcritas em toda sua extensão, Marx
assevera que
daí a exploração da natureza inteira, para descobrir novas propriedades úteis das coisas;
intercâmbio universal dos produtos de todos os climas e países estrangeiros; novas elaborações
(artificiais) dos objetos naturais para dar-lhes valores de uso novos. A exploração da Terra em
todas as direções, para descobrir novos objetos utilizáveis e novas propriedades de uso dos
antigos, como novas propriedades dos mesmos enquanto matérias-primas, etc.; por conseguinte o
desenvolvimento das ciências naturais ao ponto mais elevado; igualmente o descobrimento,
criação e satisfação de novas necessidades procedentes da sociedade mesma; o cultivo de todas as
propriedades do homem social e a produção do mesmo como um indivíduo cujas necessidades se
tenham desenvolvido ao máximo possível, por ter numerosas qualidades e relações; sua produção
como produto social o mais pleno e universal possível (...) constitui dessa forma uma condição da
produção fundada no capital (...). Pela primeira vez a natureza se converte puramente em objeto
para o homem, em coisa puramente útil, cessa-se de reconhecê-la como poder para si; inclusive o
reconhecimento teórico de suas leis autônomas aparece somente como artimanha para submetê-la
às necessidades humanas, seja como objeto de consumo, seja como meio de produção. O capital,
conforme esta sua tendência, passa também por cima das barreiras e preconceitos nacionais,
assim como sobre a divinização da natureza; liquida toda a satisfação tradicional, complacente e
encerrada dentro de limites estreitos, das necessidades existentes, e a reprodução dos velhos
modos de vida. Opera destrutivamente contra tudo isto, é constantemente revolucionário656,657.

654
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988,
p.89.
655
“É igualmente óbvio que a composição do pessoal coletivo do trabalho por indivíduos de ambos os sexos e dos mais diversos
grupos etários — embora em sua forma capitalista espontaneamente brutal, em que o trabalhador comparece para o processo de
produção e não o processo de produção para o trabalhador —, fonte pestilenta de degeneração e escravidão, tenha, sob
circunstâncias adequadas, de converter-se inversamente em fonte de desenvolvimento humano” (idem, ibidem, p.89).
656
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973, vol.I,
p.361-362.
133
Trechos como este fomentaram a idéia, polêmica, do caráter revolucionário do capital, de
sua “função histórica” na preparação do terreno para o florescimento de uma sociedade
emancipada658. Muitos críticos acusam Marx de impor um finalismo fatalista ou uma teleologia
histórica, concebendo o comunismo como uma conseqüência inevitável do capitalismo. O fato é
que Marx concebia esse modo de produção como um momento histórico imprescindível para a
construção do comunismo 659 , mas tal feito não seria de maneira alguma uma decorrência
imediata do desenvolvimento capitalista; ao contrário, seria uma tarefa histórica a ser cumprida
pela classe trabalhadora, que para tanto deveria compreender o funcionamento do modo de
produção capitalista e se organizar de múltiplas formas de modo a fortalecer sua posição na
guerra de classes.
O tema é cheio de nuances. A crítica de Marx ao capitalismo é tão profunda e incisiva –
ele o considera um momento histórico no qual se dá o “completo esvaziamento” do homem, sua
“alienação total”, e o “sacrifício da auto-finalidade”, afora todas as demais atrocidades e
violências que fundamentam o mundo do capital – que há quem considere Marx um nostálgico,
ou um reacionário, um idealizador das formações sociais pretéritas, que almejaria um retorno a
elas. A tais críticos o próprio Marx responde assim: “nos estágios de desenvolvimento
precedentes, o indivíduo se apresenta com maior plenitude precisamente porque não elaborou
ainda a plenitude de suas relações e não as pôs frente a ele como potências e relações sociais

657
Sobre o caráter revolucionário do capital, vale citar uma passagem bastante conhecida do Manifesto Comunista, que diz: “[A
burguesia] Dilacerou sem piedade os laços feudais, tão diferenciados, que mantinham as pessoas amarradas a seus ‘superiores
naturais’, sem pôr no lugar qualquer outra relação entre os indivíduos que não o interesse nu e cru do pagamento impessoal e
insensível ‘em dinheiro’. Afogou na água fria do cálculo egoísta todo fervor próprio do fanatismo religioso, do entusiasmo
cavalheiresco e do sentimentalismo pequeno-burguês. Dissolveu a dignidade pessoal no valor de troca e substituiu as muitas
liberdades, conquistadas e decretadas, por uma determinada liberdade, a de comércio. Em uma palavra, no lugar da exploração
encoberta por ilusões religiosas e políticas ela colocou uma exploração aberta, desavergonhada, direta e seca” (Marx, K.; Engels,
F. Manifesto Comunista. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo; Rio de Janeiro: Contraponto, 2001, p.10).
658
Nesse sentido, diz Marx que quando do cumprimento dessa “função histórica” do capital, o desenvolvimento das forças
produtivas terá alcançado “um ponto tal que a posse e conservação da riqueza geral por uma parte exigem tão somente um tempo
de trabalho menor para a sociedade inteira, e que por outra a sociedade trabalhadora se relaciona cientificamente com o processo
de reprodução progressiva, de sua reprodução em plenitude cada vez maior: por conseguinte, cessou de existir o trabalho no qual
o homem faz o que pode lograr que as coisas façam em seu lugar (...) Enquanto esforço incessante na direção da forma geral da
riqueza, o capital impulsiona o trabalho para além dos limites de sua necessidade natural e cria assim os elementos materiais para
o desenvolvimento da individualidade rica que é universal tanto na sua produção como no consumo, e cujo trabalho por isso não
aparece mais como trabalho, mas como pleno desenvolvimento da própria atividade, na qual desaparece a necessidade natural na
sua forma imediata; porque em lugar dela aparece uma necessidade histórica” (idem, Elementos Fundamentales para la Crítica
de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973, vol.I, p.266, tradução modificada com base em Fausto, R.
Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo: Editora 34,
2002, p.145).
659
“... tampouco há dúvida de que a forma capitalista de produção e as condições econômicas dos trabalhadores que lhe
correspondem estão na contradição mais diametral com tais fermentos revolucionários e seu objetivo, a superação da antiga
divisão do trabalho. O desenvolvimento das contradições de uma forma histórica de produção é, no entanto, o único caminho
histórico de sua dissolução e estruturação de uma nova” (idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os
Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988, p.88).
134
autônomas. É tão ridículo sentir nostalgia daquela plenitude primitiva como crer que é preciso
deter-se neste esvaziamento completo”660,661.

Dessa maneira, apesar de passagens isoladas de Marx fornecerem fortes argumentos para
ambos os grupos de críticos, a perspectiva de sua obra desmente a ambos: ele critica
radicalmente todas as formações sociais até então existentes, como formas limitadas,
brutalizantes e alienantes, marcadas pela exploração da maioria da população e caracterizadas
por distintas formas de dominação e violência. Por meio de uma profunda análise da história,
sobretudo do modo de produção capitalista, negativamente Marx logra vislumbrar as
potencialidades de superação dessa pré-história da humanidade, ou dessa história natural, e
sugerir a construção de um modo de produção verdadeiramente racional e livre 662 . Seu
procedimento é crítico. Ele jamais fornece “receitas para a cozinha do futuro”, imaginando
doutrinas ou modelos para a nova sociedade. Ademais, malgrado os limites imanentes do capital,
Marx concebe a construção de uma nova sociedade como um resultado possível – a alternativa
seria o aprofundamento da barbárie e mesmo a destruição da humanidade - do desenvolvimento
de um movimento operário amplo e organizado, o qual com sua prática teórica e militante ele
tentava impulsionar e fortalecer. Do contrário, considerasse ele que o comunismo fosse um
desdobramento natural do movimento do capital, evidentemente não teria aberto mão de tantas

660
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973, vol.I,
p.90.
661
“A antiga visão em que o homem, qualquer que fosse a sua determinação limitada nacional, religiosa, aparece sempre como a
finalidade da produção, parece ser muito elevada diante do mundo moderno, em que a produção aparece como finalidade do
homem e a riqueza como finalidade da produção. Mas, de fato, se a forma limitada for retirada, que é a riqueza senão a
universalidade das necessidades, capacidades, gozos, forças produtivas etc. dos indivíduos, criada no intercâmbio universal, o
pleno desenvolvimento da dominação humana sobre as forças naturais, tanto da assim chamada natureza como da sua própria
natureza? A elaboração absoluta de suas disposições criadoras sem outra pressuposição que não a do desenvolvimento histórico
anterior, que transforma em auto-finalidade essa totalidade do desenvolvimento, isto é, do desenvolvimento de todas as forças
humanas enquanto tais, não mensuradas por nenhuma medida preestabelecida, na qual ele não se reproduz numa determinidade
mas produz a sua própria totalidade? Na qual ele não procura permanecer em algo que veio a ser, mas está no movimento
absoluto do devir? Na economia burguesa e na época que lhe corresponde – essa plena elaboração da interioridade humana
aparece como completo esvaziamento, essa objetivação universal aparece como alienação total, e o dilaceramento de todas as
finalidades determinadas unilaterais como sacrifício da auto-finalidade sob finalidades totalmente externas” (Marx citado por
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo:
Editora 34, 2002, p.140-41).
662
Cabe um pequeno comentário acerca dessa diferenciação entre “história natural” ou “pré-história” da humanidade, e história
propriamente dita, os quais se relacionam às noções de “necessidade natural” e “necessidade histórica”. O termo natural se refere
àquilo que é dado, imediato, aquilo que é um produto humano que foge ao controle consciente de seu criador; ao passo que o
termo histórico é seu antônimo, referindo-se a todo tipo de atividade humana que resulta de um planejamento consciente por parte
de “homens livremente socializados”. Tal diferenciação nos remete a um elemento central da concepção de história de Marx
(elemento este que, diga-se de passagem, foi apropriado criticamente de Moses Hess, já em 1844): à divisão entre a história e a
pré-história humana, a primeira relacionando-se à época em que todos os homens têm controle consciente do processo de
produção e reprodução de suas vidas, e que corresponderia a uma sociedade emancipada a qual só poderia surgir mediante uma
superação do capitalismo através de um processo revolucionário; e a última relacionada às épocas nas quais as atividades humanas
foram heterodeterminadas, resultando das mais diversas formas de coerções “externas”, o que valeria para todas as formações
sociais que precedem o advento da sociedade emancipada. Cf. Marx, K. Prefácio de 1859 (à obra Para a Crítica da Economia
Política). Coleção Os Economistas. São Paulo: Abril, 1982b, p.52-53, e diversas passagens dos Manuscritos de 1844 (idem,
Manuscritos Econômico-Filosóficos e outros textos escolhidos. Lisboa: Edições 70, 1993).
135
horas de sono e despendido tantas energias estudando e produzindo as dezenas de milhares de
páginas que escreveu, bem como fazendo agitação política, articulações, criando organizações
como a Associação Internacional dos Trabalhadores, entre outras atividades.
Marx acreditava que o fortalecimento dos trabalhadores enquanto classe tornaria possível
o advento de uma nova fase histórica – ou da história propriamente dita, da “história histórica” -;
uma era em que se produziria uma “individualidade rica” e plena, em que as “necessidades
perderiam seu caráter natural”, dado, cego, inconsciente e incontrolado, em que se daria o
“desenvolvimento das faculdades humanas” em suas várias (potenciais) dimensões e direções,
em que o homem se produziria coletivamente como síntese de suas múltiplas possibilidades,
como totalidade em incessante devir. Para tanto, far-se-ia necessário romper com os ditames do
capital e ressignificar aspectos fundamentais da vida; com destaque para o tempo, imprescindível
para a fruição dos produtos humanos, para o ócio, para a realização de atividades livres, de
cunho artístico e científico, para a vivência coletiva e solidária. O tempo perderia seu caráter
abstrato e opressor – cujo modelo é o tempo vazio do relógio, da produção capitalista -, e
ganharia novos conteúdos, nova substância, tornando-se um tempo propriamente humano.
O tempo de trabalho, mesmo anulando-se o valor de troca, permanece sempre a
substância criadora da riqueza e a medida do custo que sua produção exige. Mas o tempo livre, o
tempo disponível, é a própria riqueza – quer para fruir o produto, quer para a atividade livre,
atividade que não é determinada como o trabalho pela coerção de um objetivo externo que é
mister atingir e cuja realização é necessidade ou dever social, como se queira663.
Esse tempo substantivo 664 seria, portanto, numa sociedade emancipada, a “verdadeira
riqueza”.
Mas é preciso distinguir entre o tempo dedicado à produção material, às necessidades
mais imediatas, e o tempo efetivamente livre. Em O Capital, quando aborda-se o comunismo,
faz-se uma separação bem nítida entre dois “reinos”, o da necessidade e o da liberdade. No
primeiro, no espaço da produção material, os homens são invariavelmente premidos pelas suas
necessidades vitais fundamentais; não obstante, seu caráter é bastante distinto do trabalho
capitalista, já que são os indivíduos que planejam, controlam e executam a produção
coletivamente, dando fim à sua submissão às coisas, aos produtos de sua labuta, e organizando
suas atividades laborais de maneira à torná-las o menos penosas possível, e ocupando o menor
espaço possível dentro de seu cotidiano. O reino da liberdade, ao contrário, caracteriza-se pela
ausência de qualquer tipo de coerção, venha ela também do estômago ou da fantasia; é o espaço

663
Idem, Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980,
p.1306.

136
do desenvolvimento individual, da realização de atividades artísticas e científicas, da plena
edificação do indivíduo verdadeiramente coletivo.
[No comunismo] a riqueza real da sociedade e a possibilidade de constante expansão de
seu processo de produção não depende, portanto, da duração do mais-trabalho, mas de sua
produtividade e das condições mais ou menos ricas de produção em que ela transcorre. O reino da
liberdade só começa na realidade lá onde cessa o trabalho que é determinado pela carência e a
finalidade externa; conforme a natureza da coisa, ele fica assim além da produção propriamente
material. Assim como o selvagem tem de lutar com a natureza para satisfazer suas necessidades,
para manter e reproduzir sua vida, assim também o civilizado tem de fazê-lo, e tem de fazê-lo em
todas as formas de sociedade e sob todos os modos de produção possíveis. Com o seu
desenvolvimento, amplia-se esse reino da necessidade natural, pois se ampliam as necessidades.
Mas, ao mesmo tempo, ampliam-se as forças produtivas que as satisfazem. Nesse terreno, a
liberdade só pode consistir em que o homem social, os produtores associados, regulem
racionalmente esse seu metabolismo com a natureza, trazendo-o para seu controle comunitário,
em vez de serem dominados por ele como se fora por uma força cega; que o façam com o mínimo
de emprego de forças e sob as condições mais dignas e adequadas à sua natureza humana. Mas
este sempre continua a ser um reino da necessidade. Além dele começa desenvolvimento humano
de forças, que vale como seu próprio fim, o verdadeiro reino da liberdade, que entretanto só pode
florescer sobre aquele reino da necessidade [que é] como sua base. A redução do tempo de
trabalho é condição fundamental665.

Nos Grundrisse as idéias apresentadas acima também aparecem, mas com algumas
variações que cabe mencionar. Apesar de distinguir entre o espaço do trabalho material e das
atividades livres – por exemplo quando trata do princípio econômico fundamental da sociedade
realmente coletivizada, dizendo que “economia de tempo e repartição planificada do tempo de
trabalho entre os distintos ramos da produção resultam sempre a primeira lei econômica sobre a
base da produção coletiva”666,667 -, Marx, em certos momentos, ao discernir entre o trabalho
realizado sob o domínio do capital e o trabalho depois de sua superação - dá a entender que seria
possível converter as atividades laborais em atividades livres.

Que o indivíduo (...) tenha também necessidade de uma porção normal de trabalho e de
supressão do repouso parece totalmente estranho a A. Smith. Sem dúvida a própria medida do
trabalho parece dada externamente, através do objetivo a alcançar e através dos obstáculos que,
para alcançá-lo, [é preciso] vencer pelo trabalho. Mas que essa superação de obstáculos é em si
exercício da liberdade – e além disso que os fins externos sejam despojados da aparência de mera
necessidade externa e postos como fins que o próprio indivíduo põe – e assim [sejam postos]

664
O “tempo que não é absorvido por trabalho de imediato produtivo, mas para fruir, para lazer, de modo que permite atividade e
desenvolvimento livres. O tempo é o espaço para o desenvolvimento das faculdades etc.” (idem, ibidem, p.1305).
665
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro III, tomo IV. 1986,
p.273, tradução modificada com base em Fausto, p.128.
666
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973, vol.I,
p.101.
667
“Uma vez suposta a produção coletiva, a determinação do tempo, como é óbvio, passa a ser essencial. Quanto menos é o
tempo que necessita a sociedade para produzir trigo, gado, etc., tanto mais tempo ganha para outras produções, materiais ou
espirituais. Igualmente que para um indivíduo isolado, a plenitude de seu desenvolvimento, de sua atividade e de seu gozo
depende da economia de seu tempo. Economia de tempo: a isto se reduz finalmente toda a economia” (idem, ibidem, p.101,
grifos meus).
137
como auto-realização, auto-objetivação do sujeito, por isso como liberdade real, cuja ação é
669
precisamente o trabalho, A. Smith tampouco pressente668, .

Talvez as dificuldades para interpretar esse tipo de passagens residem no fato de Marx
manter o termo “trabalho” para designar o conjunto das atividades humanas após a destruição do
modo de produção capitalista. Existem trechos dos Grundrisse em que Marx aventa a
possibilidade de uma espécie de liberdade absoluta no comunismo, o que está em contradição
com outras passagens da mesma obra670. Assim, a abordagem de O Capital parece mais precisa e
rigorosa, ao estabelecer de maneira inconteste as diferenciações entre o âmbito da produção e o
das atividades livres, as quais Marx resiste denominar de trabalho.
Convém destacar ainda outros aspectos do movimento de expansão da grande indústria.
Apesar de ser contemporâneo dos primórdios da grande indústria, Marx a concebia como a
forma dominante da produção capitalista, a qual progressivamente se espalharia para os distintos
ramos produtivos. “O princípio da produção mecanizada — analisar o processo de produção em
suas fases constitutivas e resolver os problemas assim dados por meio da aplicação da mecânica,
da química etc., em suma, das ciências naturais — torna-se determinante por toda parte. A
maquinaria força portanto sua entrada ora neste ora naquele processo parcial das manufaturas”671.

668
Marx citado por Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo
III, São Paulo: Editora 34, 2002, p.143-144.
669
“[Segundo Adam Smith] um quantum determinado de trabalho para o trabalhador (...) é quantitativamente sacrifício da
mesma grandeza (...). ‘Quantidades iguais de trabalho devem ter um valor igual para aquele que trabalho, em todos os tempos e
lugares (...) ele deve dar sempre a mesma porção do seu repouso, da sua liberdade, e da sua felicidade’669 (...). Você deve
trabalhar com o suor do teu rosto! Foi a maldição que Jeová transmitiu a Adão. E [é] assim, como maldição, [que] A. Smith
considera o trabalho. O ‘repouso’ aparece como a situação adequada, como idêntico à ‘liberdade’ e à ‘felicidade’” (Marx, K.
Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973, vol.II, p.143).
“Sem dúvida ele tem razão de que na forma histórica do trabalho, como trabalho escravo, trabalho assalariado, o trabalho é
sempre repulsivo, aparece sempre como trabalho coercitivo externo e diante dela o não-trabalho [aparece] como ‘liberdade e
felicidade’. Trata-se de duas coisas: desse trabalho contraditório, e o que é conexo, do trabalho que ainda não criou as condições
subjetiva e objetiva (ou ainda, diante da condição pastoral etc., que as perdeu) para que o trabalho seja trabalho atrativo, auto-
realização do indivíduo, o que não significa que ele se torne puro prazer, pura diversão, como o concebe, de modo ingênuo,
Fourier, à maneira de uma ‘grisette’” (Marx citado Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição
do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo: Editora 34, 2002, p.144). “Trabalho efetivamente livre, por exemplo, compor, é ao
mesmo tempo a coisa mais danadamente séria, o esforço mais intensivo. O trabalho da produção material só pode receber esse
caráter, através do fato de que: 1) O seu caráter social seja posto, 2) que ele seja de caráter científico e igualmente trabalho
universal, não esforço do homem como força natural treinada de um modo determinado, mas como sujeito que aparece no
processo de produção não como mera forma natural, [forma] que cresce naturalmente, mas como atividade que rege todas as
forças naturais. De resto, A. Smith pensa só nos escravos do capital. Por exemplo, mesmo o trabalho semi-artístico da Idade
Média não deve ser colocado sob essa definição” (Marx, K. Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política
(borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973, vol.II, p.119-120, tradução modificada com base em Fausto, R. Marx: Lógica e
Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo: Editora 34, 2002, p.144).
670
“Ao contrário do que quer Fourier, o trabalho não pode tornar-se brincadeira, mas a aquele cabe o grande mérito de ter
assinalado que o fim último não era abolir a distribuição, senão o modo de produção, inclusive a sua forma superior. O tempo
livre – que tanto é tempo para o ócio como tempo para as atividades superiores – transformou a seu possuidor, naturalmente, em
outro sujeito, no processo imediato da produção. É este por sua vez disciplina – considerado com respeito ao homem que vem-a-
ser – e exercício, ciência experimental, ciência que se objetiva e é materialmente criadora – com respeito ao homem que já veio-
a-ser, em cujo intelecto está presente o saber acumulado da sociedade. Para ambos, o trabalho, na medida em que exige atividade
manual e liberdade de movimentos, é por sua vez exercício” (idem, ibidem, p.237).
671
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
vol.I, tomo II, p.69.
138
Entretanto, a grande indústria também convive com outras formas de produção,
estabelecendo com elas várias articulações, nas quais é sempre predominante. Não se pode, por
exemplo, compreender a indústria domiciliar independentemente dos movimentos da grande
indústria. “Essa assim chamada moderna indústria domiciliar nada tem em comum, exceto o
nome, com a antiga, que pressupõe artesanato urbano independente, economia camponesa
autônoma e, antes de tudo, uma casa da família trabalhadora. Ela está agora transformada no
departamento externo da fábrica, da manufatura ou da grande loja” 672 . Além disso, com o
predomínio do sistema de máquinas, as manufaturas também passam a empregar máquinas, sem
perder seu caráter manufatureiro; “as manufaturas posteriores, que se desenvolvem tendo por
base a própria máquina, tomam-na por pressuposto, ainda que o emprego da maquinaria tenha
uma dimensão apenas parcial”673.

Existem produtos e processos produtivos que por sua própria natureza dificultam o
desenvolvimento da grande indústria, aqueles que constituem a chamada “manufatura
heterogênea”. Os exemplos usados por Marx foram o do relógio e o da carruagem, mas
poderíamos atualizar a lista acrescentando o dos automóveis, dos eletrodomésticos, algumas das
indústrias mais importantes do século XX. Desse modo, como destaca Benedito Moraes Neto em
diversos textos674, pode-se explicar um fenômeno da história recente do capital: o fato de que
algumas indústrias se organizam ou se organizaram nesse período, de modo “extemporâneo”,
sob uma base manufatureira. Isso nos permite questionar alguns dogmas relativos ao
desenvolvimento do capital no último século, sobretudo no que tange ao papel e ao caráter do
chamado taylorismo-fordismo.

Com raríssimas exceções, o taylorismo-fordismo é considerado como uma “fase” do


desenvolvimento capitalista, que se estenderia do início do século XX até a década de 1960,
aproximadamente - momento em que seria destituída de seu posto pelo toytismo-ohnoísmo -; e
consistiria em um desenvolvimento direto das análises de Marx sobre a grande indústria 675 .
Segundo a sua compreensão hegemônica, o taylorismo ou o método da “gerência científica”,

672
Idem, ibidem, vol.I, tomo II, p.69.
673
Idem, Maquinaria e Trabalho Vivo (Os efeitos da mecanização sobre o trabalhador). In: Crítica Marxista. Vol. I, no 1.
Campinas: Brasiliense, 1994, p.105.
674
Cf. bibliografia desta dissertação.
675
Por exemplo, Coriat afirma que “tudo o que Marx anuncia em relação às características especificamente capitalistas do
processo de trabalho (parcelamento de tarefas, incorporação do saber técnico no maquinismo, caráter despótico da direção), o
realiza Taylor, ou mais exatamente, lhe dá uma extensão que até então não havia tido” (Coriat citado por Moraes Neto, B.R.
Observações sobre os Grundrisse e a História. In: IX Encontro Nacional de Economia Política. Uberlândia - MG. Anais do IX
Encontro Nacional de Economia Política, 2004, p.3). Já Tauile diz que “A título meramente de ironia, parece que Taylor tinha
lido Marx e aplicou suas idéias a favor do desenvolvimento capitalista” (Tauile citado por Moraes Neto, B.R. Observações sobre

139
surgido na virada do século XIX para o século XX, consistiria num método de controle e
desenvolvimento da organização e execução do trabalho, com vistas à lograr aumentos de
produtividade e a promover a quebra da resistência dos trabalhadores a uma exploração mais
intensa, sendo que a principal inovação taylorista consistiu no rigoroso controle do tempo e dos
movimentos dos trabalhadores, no interior do processo de trabalho. Segundo a análise de
Braverman, nesse aspecto amplamente aceita, “logicamente, o taylorismo pertence à cadeia de
desenvolvimento dos métodos e organização do trabalho, e não ao desenvolvimento da
tecnologia, no qual seu papel foi mínimo”676. E da perspectiva estrita dos processos produtivos, o
fordismo é um desenvolvimento do taylorismo, como propugnam alguns teóricos da escola da
regulação 677 . Dessa forma, a base do taylorismo-fordismo é o trabalho vivo e a divisão do
trabalho, como demonstra o próprio Ford678, o que destoa da ênfase que o conceito marxiano de
grande indústria concede aos meios de produção, como se demonstrou fartamente. O taylorismo-
fordismo teria como objetivo fundamental superar os limites que o estofo subjetivo da produção
lhe impunham ainda sobre uma base manufatureira. Nas palavras de Moraes Neto, “pela via
taylorista, busca-se objetivar o fator subjetivo, o trabalho vivo”679.

Cabe ressaltar ainda que o taylorismo-fordismo não se desenvolveu na indústria têxtil, na


indústria siderúrgica680 e tampouco na indústria química, entre outras. A primeira constituía o

os Grundrisse e a História. In: IX Encontro Nacional de Economia Política. Uberlândia - MG. Anais do IX Encontro Nacional de
Economia Política, 2004, p.20).
676
Braverman, H. Trabalho e Capital Monopolista. Rio de Janeiro: Zahar, 1980, p.82.
677
“... o fordismo abraça os princípios do taylorismo e os coloca mais efetivamente em prática, para obter uma intensificação
ainda maior do trabalho”; e “[o fordismo] aprofundou o taylorismo no processo de trabalho” (Aglietta citado por Moraes Neto,
B.R. Marx, Taylor, Ford: as forças produtivas em discussão. São Paulo: Brasiliense, 1991, p.35). “Ford, mediante a introdução
da cadeia de montagem, leva a cabo um desenvolvimento criador do taylorismo que o leva – do ponto de vista do capital – a uma
espécie de perfeição” (Coriat citado por Moraes Neto, B.R. ibidem, p.36).
678
Segundo Ford, “Os princípios de montagem são: 1º) Trabalhadores e ferramentas devem ser dispostos na ordem natural da
operação, de modo que cada componente tenha a menor distância possível a percorrer da primeira à última fase. 2º) Empregar
planos inclinados ou aparelhos concebidos de modo que o operário sempre ponha no mesmo lugar a peça que terminou de
trabalhar, indo ela à mão do operário imediato por força do seu próprio peso sempre que isto foi possível. 3º) Usar uma rede de
deslizadeiras por meio das quais as peças a montar se distribuam a distâncias convenientes. / O resultado dessas normas é a
economia de pensamento e a redução ao mínimo dos movimentos do operário, que, sendo possível, deve fazer sempre uma só
coisa com um só movimento” (Ford citado por Moraes Neto, B.R. ibidem, p.47-8). Da mesma maneira, relata Ford sobre “a
primeiro aplicação de uma rede de montagem”, numa produção de magnetos: “Um operário, executando todas as operações,
conseguia montar, num dia de 9 horas, 35 a 40 magnetos, o que dava 25 minutos para cada peça. Esse trabalho de um homem foi
distribuído entre 29 operários, o que reduziu o tempo da montagem a 13 minutos e 10 segundos. Em 1914 elevamos de 8
polegadas a altura da rede e o tempo de montagem caiu a 7 minutos, novas experiências sobre a rapidez do movimento [resulta
que o] operário faz hoje quatro vezes mais do que antes. A montagem do motor, confiada antigamente a uma só pessoa, hoje é
feita por 84, com um rendimento três vezes maior” (Ford citado por Moraes Neto, B.R. Marx, ibidem, p.48-9).
679
Moraes Neto, B.R. Marx, Taylor, Ford: as forças produtivas em discussão. São Paulo: Brasiliense, 1991, p.34.
680
Como analisa K. Stone, ‘Diferentemente das inovações anteriores na fabricação do aço, a mecanização dos anos 1890
transformou as funções envolvidas na produção do aço. As qualificações tradicionais de aquecimento, desbaste, alimentação
manual de perfis e laminação foram incorporadas às novas máquinas. As máquinas também movimentavam as matérias-primas e
os produtos através da indústria. Conseqüentemente, o novo processo não requeria nem os trabalhadores pesados nem os oficiais
altamente qualificados do passado. Ao invés disso, requeria trabalhadores para operar as máquinas, para alimentá-las, para vigiá-
las, para fazê-las iniciar e terminar sua atividade. Uma nova classe de trabalhadores foi criada para realizar essas tarefas, uma
nova classe de operadores de máquinas conhecidos como ‘semiqualificados’” (Stone citado por Moraes Neto, B.R. ibidem, p. 32).
140
modelo da produção realizada pelo sistema de máquinas à época de Marx, tendo servido de base
às suas análises; a segunda se estruturou sobre essa base já no final do século XIX, e a terceira
algum tempo depois, assim como diversas outras indústrias conhecidas como de “processo
contínuo”. Dessa maneira, a concepção que apresenta o taylorismo-fordismo como genérico,
como um todo abrangente, é bastante problemática.

Salta à vista a semelhança entre a figura do trabalhador fordista encenado por Chaplin em
Tempos Modernos e a descrição de Marx do trabalhador da manufatura, o trabalhador-máquina
que repete incessantemente os mesmos movimentos simples; o trabalhador parcial, mutilado,
degradado, que mobiliza suas ferramentas também parciais e intervém nos objetos de trabalho
com seus músculos, nervos, cérebros, mãos, etc., amoldados e condicionados a realizar a mesma
atividade da maneira mais intensa e acelerada possível; o trabalhador “virtuosi” em sua função
bestial, e incapaz de realizar qualquer outra.

Não é meu propósito minimizar a importância do advento do taylorismo-fordismo – que


possuem “n” outras dimensões que não foram mencionadas681 -, a qual se deve não somente à
extensão em que vigorou, e a importância econômica das indústrias de que se apossou, mas aos
diversos impactos que teve no estabelecimento dos pactos entre trabalho e capital
imprescindíveis para a estruturação do Estado de Bem-Estar Social no centro do capitalismo e do
Estado Desenvolvimentista na periferia e para as principais políticas estatais que foram levadas a
cabo à época; para a organização operária do período - mormente a gigantesca estrutura
partidária e sindical que se criou – que como vimos, é influenciada de múltiplas maneira pela
base produtiva; entre outros.

O que pretendo destacar é que a perspectiva de Marx de modo algum é negada por esse
desenvolvimento histórico, seja porque sua obra abre brechas para esse tipo de desdobramento,
seja porque a grande indústria posteriormente se apossou desses ramos produtivos, após o
advento da microeletrônica, da informática e da robótica.

681
Como, por exemplo, defende David Harvey: “O que havia de especial em Ford (e que, em última análise, distingue o fordismo
do taylorismo) era a sua visão, seu reconhecimento explícito de que produção de massa significava consumo de massa, um novo
sistema de reprodução da força de trabalho, uma nova política de controle e gerência do trabalho, uma nova estética e uma nova
psicologia, em suma, um novo tipo de sociedade democrática, racionalizada, modernista e populista” (Harvey, D. A condição
pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1992, p.121). E “os novos métodos de trabalho (fordistas) são indissolúveis de um determinado
modo de viver, de pensar e de sentir a vida” (idem, ibidem, p.121).
141
5.1. A polêmica passagem dos Grundrisse.

Como a maior parte da obra de Marx, os Grundrisse, não foram preparados para
publicação, e só vieram a público muito tempo depois de sua redação, em 1939, em Moscou (e
reeditados em Berlin, em 1953). A sua extensão e complexidade, bem como o fato de se tratar de
um “esboço”, certamente não contribuiu para sua difusão, mesmo quando o texto se tornou mais
acessível. Entretanto, alguns exegetas foram atraídos por ele, e já na década de 1950, algumas
páginas - do final do sexto caderno e início do sétimo caderno – tiveram destaque, tornando-se
base de grandes polêmicas. Não por coincidência são as mesmas páginas que hoje amparam as
reflexões acerca da “pós-grande indústria” e do “trabalho imaterial”.

Não é o meu escopo resgatar esse longo debate, mas como julgo que boa parte das
controvérsias (e até mesmo da “mistificação”) decorreu da deconsideração em relação a uma
leitura mais atenta dessa passagem dos Grundrisse, e tendo em vista o deletério e recorrente
“hábito” de se transcrever pequenos períodos e parágrafos isolados dela, que adquirem um efeito
bombástico quando apartados do conjunto do texto, irei inicialmente me dedicar a uma
apresentação e comentário da referida passagem, propondo uma interpretação própria.

Nas (aproximadamente) dez páginas dos Grundrisse que irei analisar, em linhas muito
gerais Marx expõe, de modo um tanto fragmentado, o caráter contraditório do desenvolvimento
do capitalismo, apresentando sucintamente seu movimento fundamental – a valorização do valor
– e suas principais características na fase da grande-indústria. Caso se limitasse a isso, o texto
não despertaria maiores interesses, no entanto, o que ele introduz como “novidade” (em relação
ao Capital), são as considerações de Marx acerca da superação daquela contradição; ou melhor,
acerca do momento em que ela não mais existe. A dificuldade de compreensão desse texto reside
justamente no fato de que a exposição desses dois momentos – do funcionamento contraditório
do modo de produção capitalista, e da sociedade posta pela superação daquela contradição – é
feita de modo “concomitante”.

Começarei com uma famosa e amplamente citada passagem dos Grundrisse:

O capital é ele próprio a contradição em processo [ou em movimento], porque ele reduz o
tempo de trabalho a um mínimo, enquanto põe, por outro lado, o tempo de trabalho como única
medida e fonte de riqueza. Por isso, ele reduz o tempo de trabalho na forma do tempo de trabalho
necessário, para aumentá-lo na forma do tempo excedente; por isso põe o tempo excedente, em
medida crescente, como condição – questão de vida ou morte – para o trabalho necessário. Por
um lado conjura todas as forças da ciência e da natureza assim como a combinação social e do
intercâmbio social, para tornar a criação da riqueza relativamente independente do trabalho

142
empregado nela. Por outro lado, ele quer usar o tempo de trabalho como unidade de medida para
as gigantescas forças sociais, assim criadas, e as conter nos limites exigidos para manter como
valor o valor já criado682. As forças produtivas e as relações sociais – ambos lados diferentes do
desenvolvimento do indivíduo social – aparecem só como meio, e para ele só são meio para
produzir a partir de sua base limitada. Na realidade, são entretanto condições materiais para fazê-
lo explodir683.

Nesse trecho, vemos enfatizada a preponderância do capital, que subsume “o indivíduo


social” ao seu movimento de valorização do valor, reduzindo-os a “mero meio” ou a momento
desse processo. Assim, o capital é um fim em si, que açambarca e mobiliza tanto as “forças
produtivas” quanto “as relações sociais” de modo a se repor de maneira ampliada. Entretanto,
esse movimento não se desenrola sem conflitos; ao contrário, ele é contraditório. Esse mesmo
capital que tem como substância o trabalho abstrato, e que reduz o trabalho vivo a um momento
necessário de seu movimento (à forma capital variável), move-se no sentido de excluí-lo do
processo produtivo, relativamente ao montante total de capital. Em outras palavras, à medida que
o capital se desenvolve, e para desenvolver-se, ele promove um alijamento relativo do trabalho
vivo do processo produtivo através do revolucionamento das forças produtivas (logrado com a
instrumentalização “das forças da ciência e da natureza assim como a combinação social e do
intercâmbio social”), num impulso para reduzir o tempo de trabalho necessário e aumentar o
tempo de trabalho excedente e para baratear os custos da produção, de modo a lograr lucros
extraordinários. Mas ao fazê-lo, ele atenta contra a sua própria existência, já que o tempo de
trabalho é justamente a “única medida e fonte do valor”. A afirmação de que a força produtiva e
as relações sociais são “condições materiais” para fazer o capital “explodir”, significa que um
certo grau de desenvolvimento das forças produtivas, e do intercâmbio material, cultural, etc.,
constituem um pressuposto para a superação do capitalismo684 (e logo veremos que Marx não
tem em vista uma superação do capitalismo que se dá em qualquer direção, mas sim rumo a uma
sociedade emancipada).

Na mesma direção do parágrafo citado anteriormente, encontramos o seguinte:

682
“Já postos anteriormente como sendo momentos diferenciados, é possível verificar como o capital de fato - contra a sua
vontade – faz diminuir a massa de mais-trabalho que um capital determinado é capaz de produzir. Atuando como tendência que
se movimenta contraditoriamente, ele procura manter baixo o número relativo de trabalhadores efetivamente ocupados e, ao
mesmo tempo, elevar o quanto for possível o mais-trabalho absoluto, ou seja, aumentar a jornada de trabalho absoluta” (idem,
Maquinaria e Trabalho Vivo (Os efeitos da mecanização sobre o trabalhador). In: Crítica Marxista. Vol. I, no 1. Campinas:
Brasiliense, 1994, p.107).
683
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973,
vol.II, p.229, e Idem, Grundrisse: foundations of the critique of political economy. London; New York Penguin Books associada
à New Left Review, 1993, p.706.
684
Idéia já apresentada em 1845-46 – ver Marx, K. e Engels, F. La Ideologia Alemana. Barcelona: Ed. Grijalbo. 1970, p. 36-37 -,
e reafirmada em diversos momentos, dos quais o mais conhecido é O Manifesto Comunista, de 1848 - ver, por exemplo, Marx, K.
e Engels, F. Manifesto Comunista. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo; Rio de Janeiro: Contraponto, 2001, p. 9-14, 20.
143
A troca de trabalho vivo por trabalho objetivado – isto é, a posição do trabalho social na
forma da contradição do capital e do trabalho assalariado – é o desenvolvimento essencial da
relação de valor e da produção baseada no valor. Sua pressuposição é – e permanece – a massa
de tempo de trabalho direto, a quantidade de trabalho empregado, como o fator determinante na
produção de riqueza. Mas na medida em que a grande indústria se desenvolve, a criação de
riqueza efetiva passa a depender menos do tempo de trabalho e do montante de trabalho
empregado do que do poder dos agentes postos em movimento durante o tempo de trabalho, cuja
própria ‘poderosa eficácia’ não tem nenhuma relação com o tempo de trabalho imediato que custa
sua produção, mas depende antes do estado geral da ciência e do progresso tecnológico, ou da
aplicação da ciência na produção685.

Nesse trecho, também se explicita que a contradição entre o capital e o trabalho está
inexoravelmente na base do modo de produção capitalista, e que a acumulação de riqueza é o
movimento fundamental desse sistema. Não obstante, Marx introduz uma distinção entre riqueza
- em uma palavra o valor que se valoriza -, e riqueza efetiva - os valores de uso, um pressuposto
da riqueza, do valor, mas que é absolutamente subordinado a ele. Assim, com o desenvolvimento
do capitalismo, a produção de valores de uso “passa a depender menos do tempo de trabalho e do
montante de trabalho empregado do que no poder dos agentes postos em movimento durante o
tempo de trabalho”, e esse poder dos agentes “depende (...) do estado geral da ciência e do
progresso tecnológico”. Ou seja, aquela situação em que o trabalho imediato despendido era o
fator determinante no processo produtivo torna-se cada vez mais longínqua, sendo substituída
por uma outra em que o montante (relativo) do trabalho imediato é cada vez menor, ao mesmo
tempo em que a produção de valores de uso é incrivelmente maior, em função do
desenvolvimento das forças produtivas, o qual se relaciona diretamente com o nível de
desenvolvimento da ciência.

Eis ainda um outro trecho em que Marx aborda as mesmas questões:

... apesar de si mesmo, [o capital] serve de instrumento para criar as possibilidades do


tempo disponível em escala social, para reduzir a um mínimo decrescente o tempo de trabalho de
toda a sociedade e tornar livre o tempo de todos para o desenvolvimento de todos. Porém, a
tendência do capital é sempre, de um lado, criar tempo disponível e, de outro, convertê-lo em
mais-trabalho. Se logra grande êxito no primeiro objetivo, experimenta uma superprodução; o
trabalho necessário será interrompido, pois o capital não pode realizar mais-trabalho algum686.

Novamente, encontramos a ênfase no caráter contraditório do capitalismo; ao mesmo


tempo em que ele subordina tudo e todos a sua reposição e ao seu agigantamento, ele abre a
possibilidade de sua destruição, pois, repetimos, o desenvolvimento das forças produtivas e do

685
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973,
vol.II, p.227-228; Idem, Grundrisse: foundations of the critique of political economy. London; New York Penguin Books
associada à New Left Review, 1993, p.704-5, segundo e terceiro grifos meus.

144
intercâmbio social é pressuposto material para o advento de uma sociedade pós-capitalista. Além
disso, aparece aí a necessidade (relativa) da crise de superacumulação687, como resultado desse
impulso do capital de “criar tempo disponível” e convertê-lo em “trabalho excedente”.

Em todas estas passagens, não há dúvida que Marx está tratando do capitalismo,
especificamente na fase da grande-indústria; nelas, é exposta a contradição fundamental desse
sistema, a qual está imbricada com o papel da ciência no processo de seu desenvolvimento. No
entanto, na seqüência de cada um dos trechos citados, e em diversas outras passagens, a
contradição abruptamente explode, sem haver menção de um processo revolucionário. É
precisamente isso que levou às diversas e muito díspares interpretações do texto de 1857.

O último trecho citado continua da seguinte forma:

Quanto mais se desenvolve esta contradição, tanto mais evidente fica que o
desenvolvimento das forças produtivas não pode permanecer confinado à apropriação de mais-
trabalho alheio. A própria massa trabalhadora deve apropriar-se de seu mais-trabalho. Fazendo-o
– e por isso o tempo disponível deixará de ter uma existência contraditória -, o tempo de trabalho
necessário encontrará sua medida nas necessidades do indivíduo social, e o desenvolvimento da
força produtiva social será tão mais rápido que, embora a produção seja calculada em função da
riqueza comum, crescerá o tempo disponível de todos, pois a riqueza efetiva é a capacidade
produtiva desenvolvida de todos os indivíduos. O tempo de trabalho não é mais de modo algum a
medida da riqueza, e sim o tempo disponível [ou tempo livre]. O tempo de trabalho como medida
de riqueza põe a própria riqueza como fundada na pobreza, e o tempo disponível como existindo
na e através da oposição ao tempo de trabalho excedente [mais-trabalho] ou [através da] posição
de todo o tempo de trabalho de um indivíduo como tempo de mais-trabalho; e por isso a
degradação do mesmo a mero trabalhador, subsunção sob o trabalho688.

Como podemos ver, Marx afirma nessa passagem que o desenvolvimento do capitalismo
implica no desenvolvimento de sua contradição fundamental, o que por sua vez torna
transparente a pobreza de um sistema que se estrutura sobre a “apropriação do mais-trabalho
alheio”. Sendo a riqueza efetiva cada vez menos dependente do trabalho direto executado na
produção, a exploração do trabalhador deixa de ter qualquer “justificativa”, e sua brutalidade fica
explícita. Percebendo isso, os trabalhadores “se apropriam de seu mais-trabalho”, e dão cabo ao
modo de produção capitalista. A riqueza, que tinha como fonte e medida o tempo de trabalho
deixa de existir, e em seu lugar é posta uma riqueza que é o próprio florescimento do indivíduo
social. A riqueza efetiva, os valores de uso que correspondem às “necessidades do indivíduo

686
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973,
vol.II, p.232; Idem, Grundrisse: foundations of the critique of political economy. London; New York Penguin Books associada à
New Left Review, 1993, p.708.
687
Sobre o estatuto dessa “necessidade”, ver Grespan, J. L. O negativo do Capital. São Paulo, Hucitec, 1998.
688
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973,
vol.II, p.232, idem, Grundrisse: foundations of the critique of political economy. London; New York Penguin Books associada à

145
social” é efetiva e conscientemente socializada, assim como o processo produtivo, e desse modo,
ela se torna “a capacidade produtiva desenvolvida de todos os indivíduos”. Estes, associados,
logram um tamanho desenvolvimento das forças produtivas, que é permitido a todos os membros
da sociedade gastarem um tempo muito menor com a produção direta, a produção voltada para o
atendimento das “necessidades brutas”, de modo a poderem dedicar-se, nesse tempo livre criado,
às “necessidades espirituais”, à verdadeira riqueza.

Nessa passagem, e em todos as demais trechos do texto em análise que prenunciam o


advento de uma sociedade emancipada, o processo revolucionário está suposto. Ao dizer que “o
desenvolvimento da contradição” torna “evidente” que “os trabalhadores devem se apropriar de
seu mais-trabalho”, e ao anteceder a descrição de uma forma social, em que são “as necessidades
do indivíduo social” que contam, com um explícito “fazendo-o”, está marcada sutilmente a
ruptura entre as duas formas sociais antagônicas. Marx rechaça ferozmente qualquer tipo de
solução idealista ou evolucionista para a questão da emancipação humana. Ele acreditava que
esta só poderia ser consumada por meio de uma revolução. Assim, com um pouco de imaginação
(e conhecimento da obra e da biografia de Marx), podemos ler a passagem transcrita acima da
seguinte forma: “apreendida a abjeção do modo de produção capitalista pelos trabalhadores,
estes desencadeiam um processo revolucionário no sentido de se apropriarem do seu mais-
trabalho, e desse modo, dá-se a construção de uma sociedade em que se socializa tanto a
produção quanto a distribuição da riqueza efetiva, e onde se toma como riqueza o tempo livre, o
tempo em que os indivíduos realizam livremente suas potencialidades”. Antes, porém, convém
acompanhar a exposição de Marx acerca do processo de desenvolvimento da maquinaria, e sua
relação com o desenvolvimento científico.

Na maquinaria, a apropriação do trabalho vivo pelo capital logra uma realidade direta
também nesse sentido: primeiramente, é a análise e aplicação de leis mecânicas e químicas,
provenientes diretamente da ciência, que possibilita a maquinaria realizar o mesmo trabalho que
era realizado anteriormente pelo trabalhador. Entretanto, o desenvolvimento da maquinaria por
esse caminho ocorre somente quando a grande indústria já atingira um estágio mais avançado, e
todas as ciências foram colocadas a serviço do capital, e quando, em segundo lugar, a própria
maquinaria disponível já provê grandes capacidades. A invenção torna-se então um negócio, e a
aplicação da ciência na própria produção direta torna-se uma perspectiva que a determina e
solicita. Mas esta não é a estrada através da qual a maquinaria, de um modo geral, surgiu, e muito
menos a estrada na qual ela se desenvolve detalhadamente. Esta estrada é, na verdade, a análise
minuciosa da divisão do trabalho, que gradualmente transforma as operações dos trabalhadores
em algo mais e mais mecânico, de modo que num certo ponto um mecanismo pode colocar-se em
seus lugares. Logo, o modo de trabalho específico aparece aqui diretamente como sendo
transferido do trabalhador para o capital na forma da máquina, e sua própria capacidade se

New Left Review, 1993, p.708, tradução modificada com base em Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma
Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo: Editora 34, 2002, p.138-9, primeiro grifo meu.
146
desvaloriza desse modo. Daí a luta dos trabalhadores contra a maquinaria. O que era a atividade
dos trabalhadores vivos se torna a atividade da máquina. Logo a apropriação do trabalho pelo
capital confronta o trabalhador numa forma vulgarmente sensual; o capital absorve o trabalho
nele mesmo – “como se tivesse o Diabo no corpo689”690.

Desse modo, num certo grau de desenvolvimento da grande indústria, a ciência é


completamente subordinada ao capital, tornando-se um “negócio” atrelado ao desenvolvimento
das forças produtivas, e é justamente o que possibilita à maquinaria reproduzir a atividade
outrora realizada pelo trabalhador. Ou seja, a apropriação da ciência pelo capital e sua
“aplicação” ao processo produtivo é a condição de possibilidade da substituição do trabalho
humano pela máquina (o que provoca tanto a “desvalorização do trabalhador”, quanto a sua
revolta contra a máquina691). No entanto, Marx deixa claro que esse é um processo ulterior, que
só se desenrola após o desenvolvimento da maquinaria. Tal desenvolvimento, por sua vez, ocorre
mediante “a análise minuciosa da divisão do trabalho”, após a conversão dos antigos artesãos em
trabalhadores parciais, por meio de operações que simplificam, rotinizam e “mecanizam” as
funções exercidas por eles.

De qualquer forma, passada essa etapa, a produção de conhecimento científico adquire


um papel central:

Na troca direta, o trabalho imediato individual aparece como realizado num produto
particular ou parte do produto, e seu caráter comunal, social – seu caráter como objetivação do
trabalho geral e satisfação das necessidades gerais – como posto através da troca. No processo
produtivo da grande-indústria, ao contrário, assim como a conquista das forças da natureza pelo
intelecto social é a pré-condição do poder produtivo dos meios de trabalho desenvolvidos dentro
do processo automático 692 , por um lado, então, de outro, é o trabalho do indivíduo em sua

689
Passagem do Fausto de Goethe - no original: “als hãtt’ es Lieb im Leibe”.
690
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973,
vol.II, p.226-7, idem, Grundrisse: foundations of the critique of political economy. London; New York Penguin Books associada
à New Left Review, 1993, p.704, grifo meu.
691
Cuja menção nesse contexto indica que Marx não está esquecido do caráter ativo dos trabalhadores, e tampouco da luta de
classes.
692
Os “produtos da indústria humana [“locomotivas, estradas de ferro, telégrafos elétricos, etc.”] (...) são órgãos do cérebro
humano, criados pela mão humana; o poder do conhecimento objetivado” (idem, ibidem, p. 706). Isso evidentemente vale
também para o capital fixo, o que leva Marx a afirmar que “o desenvolvimento do capital fixo indica até que ponto o saber social
geral se tornou força produtiva direta, e até que ponto, portanto, as próprias condições do processo social de vida caíram sob o
controle do intelecto geral e são criados de modo conforme a ele. [Indica] em que grau as forças produtivas sociais são produzidas
não só na forma do conhecimento, mas como órgãos imediatos da práxis social, do processo de vida real” (idem, ibidem, p. 706).
Não obstante, pouco depois, Marx também diz que “... é na produção de capital fixo que o capital se põe como um fim-em-si-
mesmo e aparece ativo como capital, num poder maior do que ele faz na produção de capital circulante. Portanto, também a esse
respeito, a dimensão já possuída pelo capital fixo, que sua produção ocupa dentro da produção total, é a vara [unidade] de medida
do desenvolvimento da riqueza fundada no modo de produção do capital” (idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la
Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973, vol.II, p. 234; Idem, Grundrisse: foundations of the critique of
political economy. London; New York Penguin Books associada à New Left Review, 1993, p. 710).
147
presença imediata posto como indivíduo suspenso, isto é, como trabalho social. Por conseguinte
a outra base desse modo de produção cai por terra693.

Na grande indústria, portanto, o grau de socialização da produção atinge níveis sem


precedentes. O intelecto social, do qual Marx fala, é a “situação geral da ciência”, o nível de
conhecimento científico de uma dada sociedade, por meio do qual ela se apropria das “forças da
natureza” e desenvolve as forças produtivas. O gigantesco poder produtivo das máquinas, ou do
processo automático, deve-se justamente ao conhecimento científico aplicado à produção, ou
“objetivado” nas máquinas. Entrementes, o uso da expressão intelecto social não é fortuito; ele
condiz com o fato de que o conhecimento científico não é produzido isoladamente, num gabinete
de estudos ou num laboratório destituído de qualquer conexão com o restante do mundo, e
tampouco é desprovido de qualquer base; ao contrário, toda atividade científica recorre, de uma
maneira ou de outra, a muitos conhecimentos acumulados ao longo da história da humanidade.
Desse modo, a produção de conhecimento sempre se fez acompanhada de um certo caráter
“público”, social 694 . Na grande-indústria, o trabalhador isolado, ao realizar sua atividade
produtiva, mobiliza inelutavelmente conhecimentos produzidos pelo conjunto da sociedade, na
medida em que tais conhecimentos penetraram nas próprias máquinas com as quais lida. Isso, e o
fato de sua atividade parcial só fazer pleno sentido quando inserida em um complexo processo
produtivo, que mobiliza inúmeros outros trabalhadores parciais e que pressupõe um vasto
sistema de intercâmbio; faz com que sua atividade adquira um estatuto social: o trabalho
individual é posto como trabalho social. Em oposição à troca direta, na qual “o trabalho imediato
individual aparece como realizado num produto particular ou em parte de um produto”, e seu
“caráter social” é posto como tal apenas através da troca; na grande-indústria, o trabalho
individual aparece e é posto como trabalho social na própria produção imediata695. Esse processo
entra em contradição com a apropriação privada dos produtos criados – de maneira diretamente
social - sob a base da grande indústria, e o acirramento e explicitação dessa contradição induziria
à derrubada do capitalismo. É por isso que Marx afirma que “a outra base desse modo de
produção cai por terra”. Novamente o “aparecer”, e a “posição” marcam uma ruptura.

693
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973,
vol.II, p.233, idem, Grundrisse: foundations of the critique of political economy. London; New York Penguin Books associada à
New Left Review, 1993, p.709, primeiro grifo meu.
694
E isso não invalida o fato de que o acesso e a produção do conhecimento científico sempre ter sido restrito a um certo grupo de
pessoas, e servido como importante meio de dominação e de exércício de poder, o que não deixa de ser verdade para o
capitalismo, principalmente nos últimos tempos, em que se desenrola um processo de “cercamento” da produção científica pelas
patentes, um processo de monopolização da ciência pelo grande capital.
695
N’O Capital podemos ler sobre isso que “a maquinaria, com algumas exceções (...), só funciona com base no trabalho
imediatamente socializado ou coletivo. O caráter cooperativo do processo de trabalho torna-se agora, portanto, uma necessidade

148
A riqueza efetiva se manifesta, antes – e a grande indústria revela isto – na monstruosa
desproporção entre o tempo de trabalho aplicado, e seu produto, assim como na desproporção
qualitativa entre o trabalho reduzido a uma pura abstração e o poder do processo de produção que
ele vigia. O trabalho não aparece mais até o ponto de estar incluído no processo de produção, mas
o homem se relaciona antes como guardião e regulador do próprio processo de produção696.

Nas formações sociais que antecederam o capitalismo a riqueza efetiva estava em relação
direta com a destreza do trabalhador bem como com o tempo que ele dedicava à sua produção, e
aparecia dessa forma 697 . Na grande indústria, o processo de produção é levado a cabo pelo
sistema de máquinas que produz uma quantidade imensa de bens e que até certo ponto funciona
à revelia do trabalhador, e dessa forma, a destreza do trabalhador e o tempo de trabalho
despendido por ele diretamente na produção perdem aquela relação direta com o montante de
riqueza efetiva criado – essa é a “monstruosa desproporção entre o tempo de trabalho aplicado, e
seu produto”. Ao mesmo tempo, o poder produtivo do processo automático, ou seja, a qualidade
desse processo, que vimos se relacionar com o nível de conhecimento científico da sociedade,
destoa da abstração de qualquer qualidade dos trabalhos, daí sua redução a uma mera existência
quantitativa, tal qual é objetivamente feita pelo capital – essa é a “desproporção qualitativa entre
o trabalho reduzido a uma pura abstração e o poder do processo de produção que ele vigia”.

A produção de ambas desproporções se tornam “manifestas”. Elas aparecem enquanto


desproporções e fazem o trabalhador aparecer como não incluído processo produtivo, e se
posicionar apenas como “guardião e regulador” desse processo. Em decorrência disso,

não é mais o trabalhador que intercala o objeto natural modificado como membro
intermediário entre ele e o objeto. Mas ele intercala o processo natural que ele transforma em um
processo industrial como intermediário entre ele e a natureza inorgânica que ele submete. Ele [o
trabalhador] coloca-se ao lado do processo produtivo ao invés de ser seu ator principal. Nessa
transformação não é nem o trabalho imediato que o homem executa, nem o tempo que ele
trabalha, mas a apropriação de sua própria força produtiva universal, sua compreensão da
natureza e sua dominação dela através da sua existência como corpo social – em uma palavra é o
desenvolvimento do indivíduo social que aparece como o grande pilar da produção e da
riqueza698.

técnica ditada pela natureza do próprio meio de trabalho” (idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os
Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988, vol I, tomo II, p. 15).
696
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973,
vol.II, p.228, idem, Grundrisse: foundations of the critique of political economy. London; New York Penguin Books associada à
New Left Review, 1993, p.705, grifos meus.
697
Já na fase capitalista da manufatura isso deixa de ser verdade (ver o célebre exemplo da produção de alfinetes apresentado no
bojo das consagradas análises acerca da divisão do trabalho em Smith, A. A riqueza das nações – Investigação sobre sua natureza
e suas causas. São Paulo: Abril Cultural, 1983, vol.I, p. 41-42).
698
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973,
vol.II, p.228, idem, Grundrisse: foundations of the critique of political economy. London; New York Penguin Books associada à
New Left Review, 1993, p.705, grifo meu.
149
O pleno controle da produção aparece assim como resultado da ação do indivíduo social.
A produção e a riqueza tornam-se uma função de seu próprio desenvolvimento: é a realização
das potencialidades desse indivíduo (ou de todos os indivíduos da sociedade) que “aparece como
o grande pilar da produção e da riqueza”. Desse modo, põe-se em primeiro plano “o livre
desenvolvimento das individualidades e, por isso, não a redução do tempo de trabalho para pôr
sobre-trabalho; mas antes a redução do trabalho necessário da sociedade a um mínimo, o qual
corresponde à formação artística, científica, etc. dos indivíduos no tempo liberado, e com os
meios criados para todos eles” 699 . Desnecessário dizer que não se está mais falando em
capitalismo, mas numa sociedade emancipada, na qual a formação científica e artística não teria
somente o papel de promover a criação de riqueza efetiva e aumentar o tempo livre de todos, no
qual se produz a “verdadeira riqueza”, mas também possibilitar a compreensão e o domínio
consciente do processo de produção material da vida, no sentido de viabilizar a
autodeterminação dos homens.

Em outra passagem, temos que:

com a base sobre a qual a grande indústria se estrutura, a apropriação do tempo de


trabalho alheio, cessa, com seu desenvolvimento, de constituir ou de criar riqueza, assim como o
trabalho direto como tal cessa de ser a base da produção, logo que, num sentido, ele é
transformado numa atividade de supervisão e regulação; mas também porque o produto cessa de
ser o produto de um trabalho direto isolado, e a combinação da atividade social aparece, antes,
como o produtor700.

Cabe chamar a atenção para uma idéia com que já nos deparamos em outras passagens:
com o desenvolvimento da grande indústria, as atividades realizadas pelos trabalhadores passam
a ser executadas por máquinas, que vimos serem construídas graças ao açambarcamento do
conhecimento científico posto a serviço da valorização do valor. Marx não fala nesse trecho em
redução absoluta de número de trabalhadores na produção, mas sim de uma mudança na função
desses trabalhadores, que passam a realizar tarefas “de supervisão e regulação”. No entanto, essa
passagem dá a entender que as referidas novas funções laborais deixam de objetivar trabalho
abstrato, e, portanto, de produzir mais-valia, a qual seria criada apenas pelo trabalho direto
empregado na produção. Isso entra em conflito com o conceito marxiano de trabalho produtivo
tal qual exposto no segundo capítulo dessa dissertação, que abarca o conjunto de atividades que
constituem o trabalhador coletivo, de maneira independente de seu caráter mais ou menos

699
Idem, ibidem, p.706.
700
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973,
vol.II, p.233, idem, Grundrisse: foundations of the critique of political economy. London; New York Penguin Books associada à
New Left Review, 1993, p.709, grifo meu.
150
mediado ou direto em relação a ela. Somente recorrendo às demais passagens dessa parte dos
Grundrisse que será posssível compreender o que Marx está propugnando.

O roubo de tempo de trabalho alheio sobre a qual repousa a riqueza atual aparece como
base miserável diante dessa base que se desenvolve pela primeira vez criada pela própria grande
indústria. Logo que o trabalho em forma imediata deixa de ser a grande fonte de riqueza, o tempo
de trabalho deixa e deve deixar de ser a sua medida e por isso o valor de troca deve deixar de ser
a medida do valor de uso. O sobre-trabalho da massa deixou de ser condição para o
desenvolvimento da riqueza universal, assim como o não-trabalho de poucos para o
desenvolvimento da força universal do cérebro humano. Com isso, cai a produção fundada no
valor de troca, e o próprio processo de produção imediato se desposa da forma de carecimento e
oposição701,702.

Nas últimas passagens citadas pode-se observar uma contraposição entre o modo de
produção capitalista e uma formação social emancipada. Na primeira, o principal movimento é a
valorização do valor, que se dá mediante a redução do trabalho a trabalho abstrato (posto como a
“única medida e fonte de valor”) e o “roubo do trabalho alheio”, que confere ao “trabalho
disponível” uma existência contraditória, na medida em que constantemente o produz, mediante
a diminuição do trabalho necessário e do aumento da composição orgânica do capital, ao mesmo
tempo em que precisa se apropriar dele como mais-trabalho, e nesse processo subsume os
indivíduos, “degradando-os a meros trabalhadores”. Na formação social emancipada, que Marx
não dá nome, mas aponta algumas de suas características, por negação das características da
sociedade capitalista:, “o tempo disponível deixará de ter uma existência contraditória”, já que
“o tempo de trabalho necessário encontrará sua medida nas necessidades do indivíduo social”; a
riqueza corresponderá “à formação artística, científica, etc. dos indivíduos no tempo liberado”, o
caráter social do trabalho será visível em todo o processo de produção de produção, pois o
conjunto da sociedade participará livre e conscientemente tanto do processo produtivo imediato
quanto da distribuição de seu produto. Além disso, convém ressaltar que nesses trechos, o
desenvolvimento das forças produtivas, logrado com a subsunção da ciência à produção, surge
como pressuposto material para a “explosão” da sociedade capitalista e a posição da sociedade
emancipada.

A produção da riqueza material, dos valores de uso, perde progressivamente sua relação
com o tempo de trabalho despendido na produção imediata, de modo que desapareceria a

701
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973,
vol.II, p.228-9, idem, Grundrisse: foundations of the critique of political economy. London; New York Penguin Books associada
à New Left Review, 1993, p.705-6, grifo meu.
702
Feito isso, “uma nação é realmente rica quando se trabalha 6 horas em vez de 12. A riqueza não é comando sobre o tempo de
trabalho excedente (riqueza real), mas tempo disponível fora do que é utilizado na produção imediata, para cada indivíduo e para
toda a sociedade” (passagem da obra The Sourcy and Remedy of the National Dificulties from Principles of Political Economy in
a Letter to Lord Russell, de autor anônimo, citada em Marx, K. ibidem, p. 706).
151
“justificativa” para a subordinação da maior parte da sociedade a esse tipo de trabalho. Nesse
sentido, aquele desenvolvimento conduz à crises de superacumulação, à uma paralisia
(momentânea) da produção e do processo de revolucionamento das forças produtivas; ou seja, o
processo de desenvolvimento das forças produtivas e da conseqüente criação de valores de uso
que antes parecia tornar necessário o aliciamento de enormes contingentes de trabalhadores se
mostra na verdade subordinado à tal aliciamento, de modo que uma interrupção do processo de
extração de mais-trabalho conduz à interrupção de todo o processo produtivo. Além disso, o
desenvolvimento das forças produtivas decorrente do movimento contraditório da valorização do
valor acaba por diminuir a necessidade do trabalho humano imediato, que passa a ser realizado
pelas máquinas, e os indivíduos passam a assumir funções de “supervisores” e “reguladores” do
processo de produção. Também vimos que o processo produtivo da grande indústria conduz ao
aparecimento do caráter social das atividades individuais, já que cada trabalho isolado não possui
qualquer sentido fora de um todo complexo, e de que o conhecimento científico que se torna
crucial dentro desse processo é construído socialmente, assim, o fetichismo reinante na esfera da
circulação, na qual o caráter social da produção aparece somente mediante a troca, o que lhe
confere a aparência de uma relação entre coisas e não entre homens, de certo modo seria
quebrado dentro da esfera da produção703. Todos esses desdobramentos necessários da produção
capitalista da grande-indústria são apontados por Marx não só como pressupostos para a
derrocada do modo de produção capitalista, mas como reveladores da sua contradição, que
contribuiriam para dar início a uma revolução que aponte para uma sociedade emancipada.

Marx não explicita bem o ponto de ruptura, ou como se dá a separação entre as duas
formas sociais antagônicas (capitalista e “socialista”). Ao contrário, essa separação é marcada
apenas pelos termos “manifesta”, “percebe”, e principalmente “aparece”, seguidos
imediatamente pela “posição” da nova forma social. O movimento geral é o seguinte: o capital,
para existir e para se reproduzir de maneira ampliada (pressuposto para sua existência) nega o
indivíduo, o degrada, e o subsume, mas com seu desenvolvimento, a sua miserabilidade e o seu
caráter aviltante tornam-se evidentes, e em função disso, os indivíduos outrora negados dão fim
ao capital, e põem em seu lugar uma sociedade verdadeiramente livre704.

703
Evidentemente que Marx não ignora que exista na fábrica um poderoso fetichismo, já que os extraordinários ganhos de
produtividade advindos da cooperação aparecem como resultantes do próprio capital que mobiliza os trabalhadores, bem como as
máquinas e todo o capital constante parecem deter a “propriedade natural” de produzir valor.
704
Convém chamar a atenção para mais uma dificuldade na interpretação desse movimento: sabemos que onde existe contradição,
há uma duplicação da realidade em dois planos: o da essência e o da aparência; sendo que esta última é uma expressão da
essência, mas uma expressão que nega (contradiz) e vela essa essência (contraditória). Sabemos também que Marx está aqui a
tratar da superação do capitalismo e das suas contradições, vislumbrando o surgimento de uma sociedade na qual aparência e
152
Em função da “sutileza” desse movimento, e do fato dele ter como momento o
desenvolvimento das forças produtivas (um pressuposto material da superação do capitalismo),
alguns leitores dos Grundrisse foram levados a ver nele a postulação de uma possível “superação
técnica” do modo de produção capitalista, que se daria sem o desencadeamento de um processo
revolucionário. Outros não vêem aí a superação do capitalismo, mas sim uma transformação
qualitativa dentro do próprio capitalismo; o surgimento de uma nova fase de seu
desenvolvimento. Outros, ainda, consideram esse trecho dos Grundrisse apenas um devaneio
idealista de Marx.

5.2. Algumas considerações sobre o conceito de desmedida

A tese de que ocorreu uma mudança na substância do valor remete, em algumas de suas
acepções, ao conceito hegeliano de desmedida. Para compreendê-lo, não cabe retomar toda a
“Doutrina do Ser”705, mas se faz necessário apresentar alguns de seus conceitos fundamentais.
Julgo que esse esforço pode contribuir com a compreensão da tese da pós-grande indústria, e
somado à comparação entre as acepções hegeliana e marxiana de desmedida, permite perceber a
forte extração hegeliana do conceito de pós-grande indústria, e alguns pontos de conflito com a
perspectiva teórica de Marx.

A Lógica de Hegel é uma tentativa de desvelar a estrutura e dinâmica do pensamento por


meio de sua análise imanente. No entanto, a própria formulação do empreendimento já exige
alguma antecipação do que se visa constituir. Ou seja, não é possível iniciar a “revelação” do
pensamento a si próprio, sem fazer uso de categorias que deveriam ser resultado dessa
empreitada. Para resolver essa aparente aporia, Hegel recorre à indeterminação, à abstração. De
início, sua exposição se desenvolve no plano da absoluta imediatidade, num terreno em que não

essência coincidem diretamente. Em alguns em que Marx emprega o termo “aparece”, estamos ainda no âmbito do capitalismo, de
modo que a aparência continua a negar a essência, mas assume tal configuração que acaba levando ao processo (prático) de
superação do modo de produção capitalista; enquanto em outros momentos, nos quais se fala de uma situação “pós-
revolucionária”, teria havido uma certa efetivação daquela aparência enquanto essência, ou melhor, teriam sido promovidas
modificações essenciais na sociedade no sentido de tornar aquela aparência (de liberdade, de igualdade, de satisfação, de
autonomia, de sociabilidade, etc.) imediatamente adequada a essa essência, de maneira que a sociedade emancipada seria
essencialmente livre, autônoma, etc., e apareceria dessa forma.
705
Primeira parte da Ciência da Lógica, de Hegel, e da “Pequena Lógica”, como ficou conhecida o primeiro volume da
Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Compêndio, na qual irei basear as próximas considerações.
153
existe qualquer determinação, e só progressivamente se abandona essa situação, em direção à
verdade, à concretude.

O primeiro universal indeterminado que Hegel propõe é justamente o ser, o puro ser706:
“o puro ser constitui o começo, porque é tanto pensamento puro como o imediato indeterminado
e simples; mas o primeiro começo nada pode ser de mediato e de determinado” 707 . E no
parágrafo seguinte, “Ora, o puro ser é a pura abstração, por conseguinte, o absolutamente
negativo, que, tomado também imediatamente, é o nada”708.
Abstrair é negar, é desconsiderar, é ignorar, é deixar de lado determinações. Sendo o puro
ser o imediato, o indeterminado, ele é “pura abstração”, e portanto, o “absolutamente negativo”,
o nada. Buscando-se o ser, chega-se ao nada. Assim, no estágio de absoluta imediatidade e
indeterminação, tem-se o ser e o nada como definições do absoluto; o ser e o nada se
identificam: “o ser é o nada, algo de indizível”709.
Uma vez explicitado o vazio dessas abstrações, o pensamento é impelido a encontrar para
o ser e/ou para o nada “um significado firme”710, algo que os distinga, que os diferencie, que os
determine mais profundamente de modo a conduzir à “uma definição mais verdadeira do
absoluto”711. A primeira definição a qual chegou-se foi a pura abstração, pura vacuidade; agora o
pensamento, a “reflexão”, busca uma definição mais concreta, mais verdadeira, “em que ambos,
o ser e o nada, são momentos”712,713.
Desencadeia-se assim o processo dialético por meio do qual se reconstituirá o absoluto,
não mais imediatamente ou mediante a pura abstração, mas ao contrário, por meio da superação

706
“... o começo da lógica é o mesmo que o começo de uma história propriamente dita da filosofia” (Hegel, G. W. F.
Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio (1830). São Paulo: Loyola, 1995, adendo oral de Hegel ao parágrafo 86, p.
177). “Os diversos graus de idéia lógica encontramos na história da filosofia, na figura de sistemas filosóficos que fizeram
aparição um após o outro (...), assim como o desenvolvimento de idéia lógica se mostra como um processo do abstrato para o
concreto, assim também na história da filosofia os sistemas mais antigos são os mais abstratos, por isso, os mais pobres” (idem,
ibidem, adendo oral de Hegel ao parágrafo 86, p. 176).
707
Idem, Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Epítome. Lisboa, Edições 70, 1988, p.138.
708
Idem, ibidem, p.139.
709
Idem, ibidem, p.139.
710
Idem, ibidem, p.139.
711
Idem, ibidem, p.139.
712
Idem, ibidem, p.139.
713
Toscamente falando, o concreto, para Hegel, é sempre universal, um universal expresso inteiramente no particular que o
compõe (é a pars totalia, que significa que cada parte pode exprimir completamente o todo). Pode-se definir o concreto como a
coexistência do diverso no Uno; ou a síntese de muitas determinações; ou a unidade que é em-si, por-si e para-si; ou a unidade
dos momentos que constituem o processo do sujeito. O concreto é o sujeito da atividade (em-si), o resultado da atividade (por-si),
e o reconhecimento do por-si (para-si) e como tal; é puro ato objetivo-subjetivo. À guisa de esclarecimento, vale dizer que o “em-
si” é aquilo que algo é efetivamente; a essência desse algo, sua natureza; algo que é independente dos outros, incondicionado. O
em-si se opõe ao “em-outro”, o dependente, o condicionado. Algo é “por-si” quando ele é causa de si mesmo, em oposição ao
“por-outro”. Em função do caráter inelutavelmente dinâmico da dialética (processo de incessante devir, movimento no qual
aquilo que é por si se objetiva para poder se tornar em si), o em-si deve ser entendido como dynamis ou potencia, como
capacidade, potencial; ao passo que o por-si deve ser entendido como energéa ou actus, atualidade. Já o “para-si” concerne ao

154
de toda a negatividade, ou seja, lograr-se-á a plena positividade mediante a superação da
negatividade plena, das determinações compreendidas no sentido de Spinoza714.
O primeiro passo (e adentramos assim o domínio da qualidade) é a apreensão de que,
apesar de sua indeterminação, o ser e o nada constituem uma antítese. Logo, “tão correta como a
unidade do ser e do nada é também a afirmação de que eles são perfeitamente diversos – um não
é o outro”715. Quando se diz que “o ser e o nada são o mesmo”, tal proposição é falsa na medida
em que fixa apenas a unidade entre o ser e o nada; entretanto, nessa proposição também se
encontra a diferença entre ambos, uma diferença que ainda não é determinada. Demonstra-se
assim novamente a falsidade de proposições isoladas como essa, já que elas não permitem
“apreender a unidade na diferença simultaneamente existente e posta”716. Ao contrário, “O devir
é a verdadeira expressão do resultado do ser e do nada, enquanto unidade dos mesmos; não é só a
unidade do ser e do nada que nele existe”717,718.
A proposição do devir é “o ser é a passagem ao nada e o nada é a passagem ao ser”719. O
devir é a unidade dos opostos, ser e nada, uma unidade dinâmica contraditória, cuja contradição
“desvanece” (é superada) e no qual tanto o ser como o nada constituem momentos daquela
unidade. Sendo o devir uma unidade mediada, o resultado do processo de superação da
contradição entre ser e nada, tal resultado é o ser determinado, o ser não mais imediato, mas sim
determinado pela sua passagem pelo nada, que o nega. Tem-se o ser determinado através do
processo de negação daquilo que o nega, o nada; ou seja, através da negação da negação
(superação, Aufhebung). Um ser que constitui agora uma “simples unidade consigo”, um ser que
é o devir, posto na forma de um dos seus momentos, do ser”720,721.

auto-reconhecimento do ser como sujeito, como agente do processo dialético, que sabe o que ele mesmo é em-si. Por fim,
adiantemos o sentido do ser-aí; ele é o ser tal qual ele efetivamente se encontra em sua imediatez.
714
Vale lembrar que a palavra determinação vem do latim, derivada de terminatus, que significava originalmente limitação,
finitude, negação. Daí a célebre proposição de Spinoza, em sua carta de número 50 a J.Jelles (cf. Spinoza, B. Epistolário. Torino:
Giulio Einaudi, 1974), omni determinatio est negatio, toda determinação é negação – à qual Hegel se apropria, evidentemente de
uma perspectiva distinta daquela de Spinoza.
715
Hegel, G. W. F. Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Epítome. Lisboa, Edições 70, 1988, p. 140.
716
Idem, ibidem, p. 142.
717
Idem, ibidem, p. 142.
718
“O vir-a-ser é o primeiro pensamento concreto, portanto, o primeiro conceito, enquanto, ao contrário, ser e nada são
abstrações vazias” (idem, Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio (1830). São Paulo: Loyola, 1995, adendo oral de
Hegel ao parágrafo 88, p. 184).
719
Idem, ibidem, p. 142.
720
Idem, ibidem, p. 143.
721
“No ser temos pois o nada, e, neste, o ser; mas este ser que no nada permanece junto a si é o vir-a-ser. Na unidade do vir-a-ser,
a diferença não pode ser abandonada, porque sem ela se retornaria de novo ao ser abstrato (...). O vir-a-ser, enquanto primeira
determinação-de-pensamento concreta, é ao mesmo tempo a primeira verdadeira” (idem, Enciclopédia das ciências filosóficas
em compêndio (1830). São Paulo: Loyola, 1995, adendo oral de Hegel ao parágrafo 89, p. 184).
155
Logo, o devir produz resultados, “... quando há um vir-a-ser, nesse caso, surge algo...”722.
Sendo o devir a unidade entre o ser e o nada, e sendo seus momentos evanescentes; o devir é ele
próprio evanescente723, de tal modo que “... o resultado desse processo [de vir-a-ser] não é o
nada vazio, mas o ser idêntico à negação, o qual chamamos ser-aí” 724 , o qual é a própria
qualidade725, de tal modo que a negação contida e constitutiva dessa qualidade “não [é] mais (...)
o nada abstrato”, mas sim um ser determinado, um ser-outro.
O ser determinado, o ser que possui certa qualidade é o ser-em-si, cuja determinidade se
dá por meio da relação com o ser-outro. O ser-outro é um momento constitutivo do ser-em-si, e
ao mesmo tempo uma negação do ser-em-si, um limite. Segundo Hegel,
o ser estabelecido como diferente pela determinidade, o ser-em-si, seria apenas a vazia
abstração do ser. No ser-aí, a determinidade, é um só com o ser e, posta ao mesmo tempo como
negação, é fronteira, limite. Eis porque o ser-outro não é algo de indiferente fora dele, mas o seu
próprio momento. Algo mediante a sua qualidade é, em primeiro lugar, finito e, em segundo,
mutável, de maneira que a finalidade e a mutabilidade pertencem ao ser726,727.
Nesse ponto, fica evidente que há uma contradição entre o estado em que o ser-aí se
encontra e a verdadeira natureza do algo, o ser-em-si. O ser-outro, a negação do ser, é um
momento seu, um momento que deve ser superado 728 . O ser-em-si adquire assim um certo
estatuto de sujeito, um certo controle sobre sua condição, posto que sua finitude o oprime,
impelindo-o à mudança, à superação da determinidade do ser, que o limita, que o impede de
realizar todas as suas potencialidades729. Assim, o processo de superação do limite é a posição do

722
Idem, ibidem, adendo oral de Hegel ao parágrafo 89, p. 186.
723
Idem, ibidem, adendo oral de Hegel ao parágrafo 89,186.
724
Idem, ibidem, adendo oral de Hegel ao parágrafo p. 89, p. 186.
725
Idem, Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Epítome. Lisboa, Edições 70, 1988, p. 143.
726
Idem, ibidem, p. 144.
727
“No ser-aí, a negação é ainda imediatamente idêntica com o ser, e essa negação é o que chamamos limite. Somente em seu
limite e por seu limite, algo é o que é. Não se pode, assim, considerar o limite como simplesmente exterior ao ser-aí; mas, antes,
o limite atravessa o ser-aí inteiro” (idem, Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio (1830). São Paulo: Loyola, 1995,
adendo oral de Hegel ao parágrafo 92, p. 188).
728
“... o limite, de um lado, constitui a realidade do ser-aí, e de outro lado, é a sua negação. Ora, além disso, o limite, enquanto é
a negação do Algo, não é um nada abstrato em geral, mas um nada essente, ou seja, aquilo que chamamos um Outro (...).Algo
não defronta indiferentemente o Outro, mas é em si o Outro de si mesmo, e por isso se altera (...), [e] alterar-se reside no
conceito do ser-aí, a alteração é só a manifestação do que o ser-aí é em-si. O vivente morre, e na verdade simplesmente pelo
motivo de que, como tal [como vivente], carrega dentro de si mesmo o gérmen da morte” (idem, ibidem, adendo oral de Hegel ao
parágrafo 92, p. 189).
729
Evidentemente, essa última proposição também é falsa, pois Hegel ainda está a tratar aqui do mundo da natureza, do mundo
objetivo (e, vale lembrar de passagem, que Hegel identifica objetivação com alienação, uma “perda” do sujeito). Em suas
palavras: “... a qualidade [a determinidade] essencialmente é só uma categoria do finito, que por esse motivo também só tem seu
lugar próprio na natureza, e não no mundo do espírito” (idem, ibidem, adendo oral de Hegel ao parágrafo 90, p. 186-187). Como
se viu no segundo capítulo deste texto, o sujeito hegeliano pode ser definido como o agente e o resultado do processo dialético;
ele possui uma essência (é em-si), ele não deve sua existência a nada externo, sendo a causa de si-mesmo (é por-si), e ela se sabe
como causa de si-mesmo (é para-si). O sujeito dialético passa por seus predicados, suas determinações, mas não é negado por
elas, ao contrário, ele se repõe em tais determinações, e tem pleno domínio desse movimento. Ou seja, a condição de sujeito
dialético pressupõe consciência. Isso leva Hegel a afirmar que: “o exemplo mais próximo do ser-para-si, temos no Eu (...). Pode-
se dizer que o homem se diferencia do animal, e assim da natureza em geral, porque se sabe como Eu, e com isso se enuncia ao
mesmo tempo em que as coisas da natureza não chegam ao livre ser-para-si, mas, enquanto limitadas ao ser-aí, são sempre ser-
para-Outro” (idem, ibidem, adendo oral de Hegel ao parágrafo 96, p. 194).
156
ser-por-si; o limite só é limite porque pode ser ultrapassado, e sua ultrapassagem é um impulso
imanente do ser–por-si. Por ser determinado, o ser determinado possui um limite, ou seja, o ser
determinado é negado internamente por sua determinação, seu limite; e para que ele se mantenha
e se reponha como ser-em-si, para não se deixar destruir por esse negativo, essa contradição, ele
deve negar a negação, superar sua determinação, ultrapassando seu limite.
Atribuir uma determinação ao ser, dar-lhe uma certa concretude, é lhe fornencer uma
qualidade. Tomemos a proposição “a caneta é azul”. A caneta, que possui a qualidade de ser
azul, é um ser-em-si, ou seja, ela possui uma natureza que lhe é própria: a caneta é um objeto de
múltiplas utilidades, cuja principal é servir de instrumento para a escrita. No entanto, o termo
“azul” designa uma cor, também um ser-em-si. Tanto a cor quanto o objeto são “seres” distintos;
e desse modo, a caneta se determina por seu ser-outro, a cor azul. Cabe destacar também que a
caneta é azul porque não é branca, preta, verde, lilás, etc., ou seja, a determinação “azul”, nega
todas as demais cores; e cada cor individual só faz sentido na medida em que existem as demais
cores. Além disso, uma caneta não possui como única característica a cor, sendo necessário para
sua determinação mais uma série de qualificações (peso, comprimento, composição química,
etc.), que implicam por sua vez em um número infinito de novas relações, e novas negações.
Assim, sua finitude oprime o ser, pois este pode ser muito mais do que ele efetivamente é
no momento atual, em sua presente determinação. Quando se acrescenta uma nova qualificação
ao ser, quando algo (o ser-em-si) busca expandir sua determinação reduzindo a um momento seu
um novo ser-outro, e tornando-se assim ele mesmo um outro, ele não deixa de ser algo finito,
particular, limitado. Oprimido pela sua própria finitude, o ser-em-si busca ampliar sua
determinação, aumentar suas qualidades, mas ao fazê-lo, apenas nega uma certa finitude, pondo
outra no lugar. Não importa quantas novas qualidades sejam atribuídas ao ser; forçosamente elas
negarão uma infinidade de outras qualidades730.
O processo de negação do finito mediante a expansão das determinações do ser, que põe
novamente a finitude, pode-se estender ao infinito, a isso Hegel chama de “falso infinito”731, ou
“mau infinito”732. Para se fugir desse mau infinito, o ser-em-si deve compreender o outro, e todo
outro, como parte constitutiva de si, sobre a qual ele exerce controle. Assim fazendo, o infinito
nega o finito, e como o finito é negação, o infinito é a negação da negação, a superação do

730
Quando algo se torna outro, mediante o aumento de suas qualidades, esse outro é ele mesmo algo, que irá se tornar outro, e
assim sucessivamente. Com esse processo, não se foge da finitude.
731
Idem, Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Epítome. Lisboa, Edições 70, 1988, p. 144.
732
“Um limite é posto, [e] é ultrapassado: depois outra vez um limite [é posto], e assim por diante, até o [mau] infinito” (idem,
Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio (1830). São Paulo: Loyola, 1995, adendo oral de Hegel ao parágrafo 94, p.
190).
157
infinito, que é assim reduzido a momento do infinito. O infinito é o positivo, o afirmativo, que
supera toda determinação, toda a negação, toda finitude; no entanto, não é demais reiterar, o
finito é momento constitutivo do infinito. “O ser determinado (...) tem realidade, por
conseqüência, também a finidade está, em primeiro lugar, na determinação da realidade. Mas a
verdade do finito é antes a sua idealidade”733, o verdadeiro infinito ou o bom infinito. O finito só
faz sentido como momento (necessariamente superado) do bom infinito.
Como todos os demais conceitos, o conceito de infinitude não pode ser compreendido de
modo estático. O bom infinito é o processo de superação da finitude, processo no qual o ser
internaliza seus seres-outros, suas determinações, seus limites, os nega enquanto seres-outros,
determinações e limites; e assim se repõe num movimento de atualização de suas
potencialidades734.
Convém chamar atenção para a dificuldade de compreensão desse ponto da Doutrina do
Ser, pois, como aponta Marcuse, Hegel “aplica ao mundo objetivo categorias que são
verificáveis unicamente na vida do sujeito” 735 . Esse controle do ser-em-si sobre suas
determinações e sobre o negativo que o oprime não existe plenamente; não existe no mundo
objetivo um “livre ser-para-si”.
O ser-em-si internaliza o ser-outro, concebe-o como momento de si; ou seja, ele se
constitui mediante a redução de todo ser-outro, de toda determinação, de toda negatividade, a um
momento de si próprio, sobre o qual ele exerce poder. Assim, o ser-em-si nega toda
negatividade, todo ser-outro, toda determinidade, e se reestabelece como ser-para-si.
Entrementes, esse ser-para-si possui determinidade qualitativa 736 , mas esta não pode ser

733
Idem, Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Epítome. Lisboa, Edições 70, 1988, p. 146.
734
Talvez seja o caso de precisar melhor alguns conceitos. Atualidade significa que o processo histórico é sempre perpassado por
um conflito entre possibilidade e realidade. O real só é real porque contém em si a sua negação: todos os “possíveis”. O possível
só é possível caso se efetive (caso negue a condição de possibilidade e torne-se realidade). O possível é potencial de um certo
real, deste real. A realidade do fato é a sua possibilidade real (de “deixar de ser”, de se transformar), e a possibilidade do fato é a
sua realidade transformadora. A atualidade é a resolução presente do antagonismo entre o possível e o real, é a superação
(passageira) da contradição entre eles. A atualidade contém dentro de si mesma o seu negativo (“o germe de sua destruição”). O
atual é um aspecto do real, porque o real é possibilidade. Outro conceito que merece atenção é o de infinitude. Para o
“entendimento” o infinito é o inflacionar do finito (que é tido como o eterno, o perene) é a soma de finitos ou a atribuição de
mais e mais predicados, é levar o finito às últimas conseqüências. Para Hegel, esse infinito (o “mau infinito”) nunca pode se
realizar, pois o finito é perecível; não é uma positividade dada: ser finito é um processo de vir-a-ser o que se é de fato, ou negar o
que se é aqui e agora; é o perecer. Assim, o infinito obtido pela soma dos finitos é a potencialidade, nunca a atualidade. O “bom
infinito” é um processo de conquista do ser-por-si da coisa mediante a negatividade, da negação de uma certa atualização
imperfeita. O infinito é o finito realizado, é a verdade do finito.
735
Marcuse, H. Razão e Revolução, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978, p. 132.
736
Mesmo porque, “a qualidade é, antes de tudo, a determinidade idêntica com o ser, de modo que uma coisa deixa de ser o que
é, quando perde sua qualidade” (Hegel, G.W.F. Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio (1830). São Paulo: Loyola,
1995, adendo oral de Hegel ao parágrafo 85, p. 174).
158
confundida com uma determinação particular737. De acordo com Hegel, “o ser-para-si, enquanto
relação a si mesmo, é imediticidade e, como relação do negativo a si mesmo, é o existente-para-
si, o um; - o em si mesmo indiferenciado e, portanto o que de si exclui o outro”738. O ser-para-si,
ao “retornar infinitamente sobre si mesmo”, passa a se relacionar consigo mesmo, e se isola;
torna-se o um, uma unidade. No entanto, “a relação do negativo a si é relação negativa, portanto,
distinção do um consigo mesmo, a repulsão do um, isto é, a posição de muitos uns”739. A posição
do ser-para-si, do um, em função da sua imediaticidade, que faz com que o ser-para-si exija
exclusividade, implica na “repulsão” do um, isto é, “a posição de muitos uns”740, que se excluem
mutuamente, ao mesmo tempo em que são todos uns, “uma só e mesma coisa”. Logo, o processo
através do qual o ser determinado torna-se por-si e para-si, e desse modo, põe-se como o um,
ocorre com todos os seres-determinados, e tem-se, então, muitos uns, que buscam se afirmar
como o um, negando os demais, repelindo-os741. Ou seja, quando um certo um repele outro um, e
sendo esse um a mesma coisa que o outro um, o um repele-se a si mesmo. Entretanto, “A
repulsão é, pois, também essencialmente atração, e o um exclusivo ou ser-para-si, suprime-
se”742, 743.
Adentra-se assim ao reino da quantidade, pois “Aa determinidade qualitativa, que
alcançou no um o seu ser-determinado-em-si e para-si, transitou assim para a determinidade
enquanto suprimida, isto é, para o ser como quantidade”744,745. A quantidade é constituída por

737
“Enquanto ser, o ser-para-si é simples relação consigo mesmo, e enquanto ser-aí é determinado. Contudo, essa determinação
não é mais a determinidade finita do algo e, sua diferença do Outro, mas a determinidade infinita, que contém em si a diferença
como suprassumida” (idem, ibidem, adendo oral de Hegel ao parágrafo 96, pp. 193-194).
738
Idem, Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Epítome. Lisboa, Edições 70, 1988, p. 146.
739
Idem, ibidem, p. 146.
740
Idem, ibidem, p. 146.
741
“... o uno, essente para-si, não é um carente-de-relação como o ser, mas é relação, tanto como o ser-aí, só que não se refere
como Algo a Outro, mas enquanto unidade do Algo e do Outro, é relação consigo mesmo, e esta relação é negativa, sem dúvida.
O Uno mostra-se nisso como o absolutamente incompatível consigo mesmo, como o que se repele de si mesmo, e aquilo, como
se põe, é o Muitos” (idem, Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio (1830). São Paulo: Loyola, 1995, adendo oral de
Hegel ao parágrafo 97, p. 195).
742
Idem, Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Epítome. Lisboa, Edições 70, 1988, p.147.
743
Acompanhemos o resumo que o próprio Hegel faz do caminho percorrido até então: “Tínhamos aqui inicialmente o ser, e,
como sua verdade produziu-se o vir-a-ser; este formava a passagem para o ser-aí, e como sua verdade do ser-aí reconhecemos a
alteração. Mas a alteração mostrou-se em seu resultado como o ser-para-si retirado da relação ao Outro e da passagem para esse
Outro; ser-para-si que se mostrou, afinal, nos dois lados de seu processo – a repulsão e a atração -, como o suprassumir de si
mesmo, e, assim, [como o suprassumir] da qualidade em geral, na totalidade de seus momentos. Ora, essa qualidade
suprassumida não é um nada abstrato, e carente-de-determinação, mas somente o ser indiferente à determinidade, e é essa figura
do ser que se encontra também em nossa representação ordinária como quantidade. Por conseguinte, consideramos as coisas
primeiro sob o ponto de vista da sua qualidade, e isso vale para nós como a determinidade idêntica ao ser da coisa. Se depois
passamos a consideração da quantidade, essa logo nos fornece a representação da determinidade indiferente exterior, de modo
que uma coisa ainda assim permanece o que é, embora sua quantidade varie, e a coisa se torne maior ou menor” (idem,
Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio (1830). São Paulo: Loyola, 1995, adendo oral de Hegel ao parágrafo 98, p.
198).
744
Idem, Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Epítome. Lisboa, Edições 70, 1988, p. 147.
745
“A quantidade é o puro ser em que a determinidade já não se põe enquanto uma com o próprio ser, mas como superada ou
indiferente” (idem, ibidem, p. 148). “A quantidade (...) é a determinidade exterior ao ser, para ele indiferente. Assim, por
exemplo, uma casa permanece o que é, seja maior ou menor; e o vermelho continua vermelho quer seja mais brilhante ou mais
159
uns que se atraem, ao mesmo tempo em que se mantém como uns. Dessa maneira, ela possui
duas determinações, uma determinação contínua “posta pela atração”, e uma discreta, em função
do um nela contida. No entanto, a determinação contínua “é também discreta, pois é apenas
continuidade do muito”; e a determinação discreta “é igualmente contínua, a sua continuidade é
o um enquanto o mesmo dos muitos uns, a unidade”746.

Como vemos, a quantidade pode ser determinada de formas diversas, ou seja, podemos
“aglutinar” mais, ou menos “uns”. Cada determinação exclusiva, cada uma das possíveis
“aglutinações” de “uns”, é o quantum, a “quantidade limitada”, ou dizendo melhor, “a
quantidade posta essencialmente com a determinidade exclusiva, que nela está contida”747,748.
Ainda segundo Hegel, “o limite é idêntico à totalidade do quantum; como determinidade
múltipla em si, é a grandeza extensiva, mas, enquanto determinidade simples em si, é a grandeza
intensiva ou o grau. A diferença entre as grandezas contínuas e discretas e as grandezas
extensivas e intensivas consiste, pois, em que as primeiras se referem à quantidade em geral, ao
passo que as últimas se referem ao limite ou à sua determinidade como tal”. O quantum é a
grandeza extensiva, enquanto o grau é a intensiva, mas toda e qualquer grandeza intensiva é
extensiva e vice-versa. “Por exemplo, certo grau de temperatura é uma grandeza intensiva, a que
como tal corresponde também uma sensação totalmente simples; se depois vamos ao termômetro,
encontramos como correspondente a esse grau de temperatura certa dilatação da coluna de
mercúrio, e essa grandeza extensiva varia ao mesmo tempo com a temperatura, enquanto [esta é]
a grandeza intensiva”749.

O grau é a superação do quantum - “no grau está posto o conceito do quantum; é a


grandeza enquanto indiferente para si e simples, mas de maneira que a determinidade, pela qual
ela é quantum, se encontra fora dela noutras grandezas”750. A dialética da quantidade se move de
tal forma que “o quantum é o ser-aí da quantidade, enquanto a quantidade pura corresponde ao
ser, e o grau corresponde ao ser-para-si”751.

fosco” (idem, Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio (1830). São Paulo: Loyola, 1995, adendo oral de Hegel ao
parágrafo 85, p. 174)
746
Idem, Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Epítome. Lisboa, Edições 70, 1988, p. 148.
747
Idem, ibidem, p. 149.
748
“O quantum tem o seu desenvolvimento e a sua determinidade completa no número que, ao incluir como elemento o um,
contém em si, segundo o momento da discreção, o número contado, segundo o momento da continuidade, a unidade – como seus
momentos qualitativos” (idem, ibidem, p. 149).
749
Idem, Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio (1830). São Paulo: Loyola, 1995, adendo oral de Hegel ao
parágrafo 103, p. 207.
750
Idem, Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Epítome. Lisboa, Edições 70, 1988, p. 151.
751
Idem, Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio (1830). São Paulo: Loyola, 1995, adendo oral de Hegel ao
parágrafo 103, p 207.
160
De início, a quantidade parece estar além da qualidade, parece negar toda determinação, e
dessa forma, parece se opor à qualidade. No entanto, a análise desse conceito mostra que a
quantidade é uma qualidade, é a verdade da qualidade, é a qualidade superada. Nos dizeres de
Hegel,

O ser-externo a si mesmo do quantum na sua determinidade que é para si constitui a sua


qualidade; ele é no mesmo ele próprio e a si está referido. É a exterioridade, ou seja, o
quantitativo, e o ser-para-si, o qualitativo, aí reunidos (...). Os lados da relação [interior e exterior]
são ainda ‘quanta’ imediatos, e a determinação qualitativa e quantitativa são ainda mutuamente
extrínsecas. Mas, segundo a sua verdade, isto é, que o próprio quantitativo é relação a si na sua
exterioridade, ou que o ser-para-si e a diferença da determinidade estão reunidos, a quantidade é a
medida752,753.
Chega-se, dessa forma, à medida 754 , que nas palavras de Hegel, é a “quantidade
qualitativa”755 ou o “quantum qualitativo”756. A medida é uma quantidade limitada de um ser
determinado qualitativamente 757 . Hegel, nesse ponto, aborda o “ser completo”, determinado
qualitativa e quantitativamente, tendo ultrapassado a dialética da qualidade – que teve como
resultado a superação da qualidade, resultando na quantidade - e a dialética da quantidade - cuja
superação deu origem à medida.

À primeira vista, parece possível modificar a quantidade de algo como bem se entende,
sem promover com isso uma supressão da medida, “que é uma regra” 758 . Entretanto, caso
houvesse uma absoluta independência entre o aspecto qualitativo e quantitativo da medida, ou
caso ambos os aspectos sempre coexistissem de modo harmonioso, e assim, caso fosse possível
alterar-se o seu quantum indefinidamente, sem provocar nenhum tipo de alteração na qualidade

752
Idem, Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Epítome. Lisboa, Edições 70, 1988, p. 151.
753
“Ora, o ser é essencialmente isto: determinar-se a si mesmo; e sua completa determinidade, atinge-a na medida” (idem,
Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio (1830). São Paulo: Loyola, 1995, adendo oral de Hegel ao parágrafo 107, p.
214).
754
Vejamos mais um elucidativo resumo de Hegel sobre o processo pelo qual da quantidade, chegou-se à medida. “Mediante o
movimento dialético até aqui examinado, a quantidade revelou-se como retorno à qualidade através dos seus momentos. Primeiro
tínhamos, como conceito da quantidade, a qualidade suprassumida, isto é, a determinidade apenas exterior, não idêntica ao ser
mas indiferente a seu respeito. Como acima notamos, é esse conceito o que está também na base da definição comum de
grandeza na matemática: ‘aquilo que pode ser aumentado ou diminuído’. Ora, de acordo com essa definição pode parecer antes
de tudo que a grandeza é somente o variável em geral (porque aumentar, como também diminuir, significa somente determinar
diversamente a grandeza). Mas nisso não seria ela diferente do ser-aí, igualmente variável segundo seu conceito (o ser-aí é o
segundo degrau da qualidade). Deve assim ser completado o conteúdo dessa definição, de modo que tenhamos na quantidade
algo variável que, apesar de sua variação, permaneça o mesmo. O conceito da quantidade mostra-se, por isso, como contendo em
si uma contradição; e é essa contradição que constitui a dialética da quantidade. Ora, o resultado dessa dialética não é o simples
retorno à qualidade – como se esta fosse o verdadeiro e, ao contrário, a quantidade o não-verdadeiro; mas é a unidade e a verdade
desses dois, a quantidade qualitativa, ou a medida754. A propósito, pode-se ainda notar que, quando na consideração do mundo
objetivo nos ocupamos com determinações quantitativas, de fato é já a medida que temos diante dos olhos como a meta dessa
tarefa” (idem, ibidem, adendo oral de Hegel ao parágrafo 106, pp. 212-213).
755
Idem, Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio (1830). São Paulo: Loyola, 1995, p.213.
756
Idem, ibidem, p.152.
757
Tomemos, à guisa de exemplo, a medida 5 centímetros. Temos aí uma dada quantidade (o número 5), associado a uma
determinação qualitativa (o comprimento).
758
Idem, ibidem, p.152.
161
do ser, cair-se-ia no “mau infinito” 759 . No entanto, os dois aspectos da medida estão
profundamente imbricados, formando uma unidade contraditória. É possível alterar-se o
quantum sem alterar a medida, mas apenas até certo ponto, para além do qual a determinação
quantitativa entra em contradição com a determinação qualitativa. Essa contradição é a
desmedida.
O desmesurado [ou a desmedida] é, antes de mais, o excesso de uma medida em virtude
da sua natureza quantitativa para além da sua determinidade qualitativa. Mas, visto que a outra
relação quantitativa, o desmesurado da primeira, é igualmente qualitativa, o desmesurado é de
modo semelhante uma medida; as suas transições, da quantidade para o quantum e deste para
aquela, podem por seu turno representar-se como progresso infinito – como a supressão e o
restabelecimento da medida no desmesurado760.

Recorramos, uma vez mais, a um exemplo. Uma caneta de 10 centímetros é uma caneta
de tamanho médio, ao passo que uma caneta de 25 centímetros é uma caneta grande. Ambas
ainda são canetas. Uma caneta de 5 metros, no entanto, não mais pode ser chamada de caneta,
pois perde sua função fundamental, que é a de servir de instrumento para a escrita. Tem-se aí
uma mudança qualitativa, ou seja, não se tem uma destruição absoluta do ser, mas ele se torna
algo qualitativamente diferente761. Nesse sentido, o desmesurado põe uma nova medida; é ele
próprio uma medida, uma nova regra762.

Na dialética hegeliana da medida, as duas determinações constitutivas da medida, a


quantidade e a qualidade, parecem, de certo modo, guardar plena autonomia entre si - o quantum
parece poder se alterar indefinidamente, sem transformar o ser-determinado, a qualidade do ser.
No entanto, logo se viu que existe um limite para além do qual uma mudança na quantidade
provoca uma alteração na qualidade, de modo que a medida é negada enquanto tal – pela
desmedida. Essa desmedida é ela própria uma medida, pois mesmo ao ser negada, repõe-se.

759
Idem, ibidem, p.144.
760
Idem, ibidem, p.154.
761
Hegel usa como exemplo de desmedida a água, que até uma dada temperatura, é apenas uma água cada vez mais quente, mas
ultrapassado esse ponto, ela entra em ebulição e sofre uma mudança qualitativa, tornando-se vapor. Um exemplo mais exótico,
formulado por Roger Garaudy (1983), seria o seguinte: existem ratinhos de diferentes tamanhos e pesos; no entanto, caso
surgisse um “ratinho” de quatro toneladas e cinco metros de altura, ele deixaria de ser um ratinho, e tornar-se-ia um monstro.
Acontece que todos esses exemplos não passam precisamente a idéia que está sendo desenvolvida nesse momento, já que
nenhum deles consegue frisar a existência de uma ruptura brusca que não é fruto de um processo contínuo e gradual, e que dessa
forma não pode ser explicada, prevista, ou antecipada, pela simples análise processual.
762
“A quantidade, como vimos, não é só suscetível de variação, isto é, de aumento e diminuição, mas como tal é em geral o
ultrapassar sobre si mesma. Essa sua natureza, a quantidade também a confirma na medida. Ora, quando a quantidade presente na
medida ultrapassa certo limite, também a qualidade que lhe é corresponde é suprassumida. Contudo, não se nega nisso a
qualidade em geral, mas apenas esta qualidade determinada, cujo lugar é logo tomado de novo por uma outra qualidade” (idem,
Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio (1830). São Paulo: Loyola, 1995, p. 217).

162
Assim, percebe-se que a medida está em relação ou “está conforme apenas consigo mesma”763: a
desmedida não é o Outro da medida, mas ela mesma, só que diversa764.
Mas, precisamente, como tudo isso se relaciona à apresentação feita por Ruy Fausto
acerca da mudança da substância do valor? Pode-se aplicar essa tese da lógica hegeliana à
análise do valor. Este poderia ser considerado como uma medida que tem por determinação
qualitativa a característica de ser “simples gelatina de trabalho humano indiferenciado”, mero
“dispêndio de cérebros, músculos, nervos, mãos, etc. humanos”, e como determinação
quantitativa ser trabalho socialmente necessário. A dinâmica capitalista conduz a uma
diminuição relativa do trabalho mobilizado na produção direta, em função do desenvolvimento
das forças produtivas resultantes da aplicação do conhecimento científico, o qual resiste a ser
apreendido quantitativamente. Segundo Ruy Fausto e Eleutério Prado, até certo ponto, essa
mudança quantitativa não teria qualquer impacto sobre a determinação qualitativa do valor, e
portanto sobre o valor enquanto regra, mas ultrapassado esse limite, ela promoveria uma
mudança nele, fazendo com que seu aspecto qualitativo deixasse de ser o trabalho abstrato, e
passasse a ser o trabalho científico. Teríamos assim uma mudança na substância do valor, ou o
surgimento de uma nova medida, uma nova regra, mediante um processo que guarda similitudes
com a “dialética da medida”.

Não se pode negar que haveria a possibilidade lógica de ocorrer tal mudança radical do
modo de produção capitalista; tão radical que talvez significaria o fim do capitalismo (o que
evidentemente não ocorreria sem conflitos) e a posição de uma nova forma de sociabilidade, que
de maneira nenhuma seria a socialista. Isso sem dúvida tornaria anacrônica boa parte das
proposições de Marx (que obviamente são válidas apenas para o modo de produção capitalista),
impondo uma monumental renovação teórica765.

No entanto, é o caso de acompanhar – e isso será feito de maneira pouco exaustiva - a


conceitução de desmedida feita pelo próprio Marx766. A primeira acepção “forte” desse conceito
surge logo que Marx apresenta o conceito de capital em sua forma mais elementar, no quarto e
quinto capítulos de O Capital, no bojo da análise do processo de produção imediata.

763
Idem, Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio (1830). São Paulo: Loyola, 1995, p.218.
764
Anuncia-se assim a superação da medida, do ser completo, de modo que se passa da Doutrina do Ser à Doutrina da Essência,
movimento que não é o caso de se tratar aqui.
765
Muito mais radical do que as atualizações das análises de Marx que se tornam necessárias em cada momento do
desenvolvimento do capitalismo. No entanto, mesmo nesse caso, de maneira alguma isso tornaria Marx “obsoleto”, pois o objeto
em questão, a realidade efetiva, continuaria contraditória, requerendo para seu desvelamento uma análise dialética (não idealista).
De qualquer forma, aberta a possibilidade lógica, deve-se considerar se existem reais evidências sobre o desdobrar desse processo
no presente, o que não me parece ocorrer.

163
Determinado como o valor que se valoriza, mediante apropriação de trabalho excedente767, ele
deve sempre se pôr como seu limite e como uma barreira a ser superada. O capital é concebido
como um incessante processo de auto-expansão. Não existe uma grandeza ótima, na qual se
interrompe naturalmente o movimento do capital. Ao contrário, a grandeza atual deverá ser
sempre ultrapassada, à custa do trabalho vivo, de tal forma que o capital se põe como medida de
si próprio768, à qual deve superar. O capital põe-se enquanto medida de si próprio por meio da
desmedida769.

Na realidade, essa idéia de desmedida já se encontrava presente, em sentido mais fraco,


no movimento do dinheiro, em sua função de meio de entesouramento. Lá já estava posta de
alguma forma a dialética do limite-barreira, ou do limite-fronteira, o processo incessante de
superação das limitações quantitativas do dinheiro, algo que é sempre uma quantidade
determinada, mas que é potencialmente ilimitado; entretanto, sabe-se que não é o dinheiro em-si
que preside o movimento. Nessa passagem de O Capital isso é dito com clareza:

O impulso para entesourar é por natureza desmedido. Qualitativamente, ou segundo a sua


forma, o dinheiro é ilimitado, isto é, representante geral da riqueza material, pois pode trocar-se
imediatamente por qualquer mercadoria. Porém, ao mesmo tempo, toda a soma efetiva de
dinheiro é quantitativamente limitada, portanto também apenas meio de compra de eficácia
limitada. Essa contradição entre a limitação quantitativa e o caráter qualitativamente ilimitado do
dinheiro impulsiona incessantemente o entesourador ao trabalho de Sísifo da acumulação.
Acontece a ele como ao conquistador do mundo, que com cada novo país somente conquista uma
nova fronteira770.

Com a posição do capital, o sujeito do processo, esse movimento se enriquece em


determinações, e é apresentado por Marx nos seguintes termos:

O capital, pois, como representante da forma universal da riqueza – o dinheiro – constitui


o impulso desenfreado e desmedido de ultrapassar suas próprias barreiras. Para ele, cada limite é
e deve ser uma barreira. Em caso contrário deixaria de ser capital, dinheiro que se produz a sim

766
Para tanto, irei me valer de diversas análise que Jorge Grespan apresenta no livro O Negativo do Capital (Grespan, J. L. O
negativo do Capital. São Paulo, Hucitec, 1998).
767
“O capital tem um único impulso vital, o impulso de valorizar-se, de criar mais-valia, de absorver com sua parte constante, os
meios de produção, a maior massa possível de mais-trabalho. O capital é trabalho morto, que apenas se reanima, à maneira dos
vampiros, chupando trabalho vivo e que vive tanto mais quanto mais trabalho vivo chupa. O tempo durante o qual o trabalhador
trabalha é o tempo durante o qual o capitalista consome a força de trabalho que comprou. Se o trabalhador consome seu tempo
disponível para si, então rouba ao capitalista” (Marx, K. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São
Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988, tomo I, p.179-180).
768
“... a medida desta produção excedente é o próprio capital, o nível dado das condições de produção e o impulso desmedido ao
enriquecimento e à capitalização pelos capitalistas” (idem, ibidem, p.203).
769
“A medida se fixa, por este ponto de vista, a partir da ‘desmedida’ que configura o capital (...): primeiro, capacidade de
converter os limites exteriores em barreiras estabelecidas pelas condições internas à autovalorização; segundo, ilimitação
característica de alterações basicamente quantitativas. Como a grandeza a ser delimitada não é meramente a do valor do produto,
mas a da ‘produção excedente’ em que ‘todo o processo de acumulação se resolve’ sua medida só pode ser determinada pelo
capital, que estabelece o limite desta grandeza e em seguida faz dela uma barreira a superar, isto é, que busca converter o valor
excedente em base para nova etapa de acumulação” (Grespan, J. L. O negativo do Capital. São Paulo, Hucitec, 1998, p.138).
770
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.112, tradução modificada com base em Grespan, J. L. O negativo do Capital. São Paulo, Hucitec, 1998, p.127-128.
164
mesmo. Bastaria deixar de perceber um determinado limite como uma barreira, bastaria se sentir
confortável dentro dele, para decair de valor de troca a valor de uso, de forma universal da
riqueza a determinada existência substancial daquela. O capital como tal cria uma mais-valia
determinada porque não pode criar at once [de uma só vez] uma ilimitada; mas o capital é a
tendência permanente a criar mais mais-valia. O limite quantitativo da mais-valia se lhe apresenta
tão somente como barreira natural, como necessidade, a que ele constantemente procura
derrubar771,772.

Com os desdobramentos do conceito de capital ao longo do livro, o conceito de


desmedida também sofre alterações. Ao apresentar o processo de extração da mais-valia relativa,
Marx já aponta a tendência para a substituição do capital variável por capital constante, ou de
trabalhadores por máquinas. Dessa maneira, no bojo do movimento de auto-constituição do
capital, de sua produção em escala ampliada, este reduz, ao menos relativamente, sua própria
fonte de existência, o trabalho vivo, atentando contra si próprio. Ainda de forma bem fraca, já
que, sabemos, esse movimento só pode ser investigado efetivamente no interior da análise do
processo global de produção, aponta-se aí um novo tipo de limite do capital, aquele que ele não
consegue converter em barreira a ser superada, e portanto, a agir de acordo com seu conceito, o
valor que se valoriza; eis um novo significado de desmedida. Nas palavras de Grespan,
“enquanto limite que não é necessariamente transformado em barreira, que não é posto como
mero obstáculo a superar, portanto, a desmedida nesta segunda acepção é o inverso da
desmedida na primeira acepção, de progresso infinito e desenfreado da acumulação”773.

Na exposição do processo de circulação do capital, encontra-se uma nova configuração


da desmedida. Nesse ponto, como se sabe, Marx procura investigar o movimento da circulação
entendido em sentido mais amplo como o processo no qual o capital (e a mais-valia) assume e
abandona sucessivamente diferentes formas - capital monetário, capital produtivo (força de
trabalho e meios de produção), capital mercadoria, capital monetário, etc. (D-P-M-D’-etc.). Seu
escopo é o processo global da acumulação do capital, que “abrange tanto o consumo produtivo
(o processo direto de produção) juntamente com as transformações de forma (materialmente
consideradas, intercâmbios) que o medeiam, como consumo individual com as mudanças de
forma ou intercâmbio que os medeiam”774.

771
Idem, Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador). Argentina: Siglo Veintiuno, 1973, vol.I,
p.277.
772
“O primeiro significado de ‘desmedida’, específica do movimento de acumulação do capital portanto, vem da infinitude deste
movimento, ou seja, de que seu início e fim são qualitativamente idênticos e de que sua diferença quantitativa é constantemente
suprimida e reposta” (Grespan, J. L. O negativo do Capital. São Paulo, Hucitec, 1998, p.130).
773
Idem, ibidem, p.145.
774
Marx, K. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Victor Civita: Livro II, 1984, p.261.
165
O segundo volume de O Capital trata inicialmente das sucessivas formas que o capital
assume em seu ciclo, ou da “metamorfose do capital e seu ciclo”775, ou as diferentes formas em
que o ciclo do capital aparece: ciclo do capital monetário, ciclo do capital produtivo, e ciclo do
capital dinheiro. Na seqüência, Marx analisa o tempo de rotação do capital, de enorme
importância para o processo de valorização do valor, já que um capital de alta rotatividade
produz mais-valia com mais velocidade que um capital de mesma magnitude e composição, mas
dotado de rotatividade baixa. No bojo dessa analise, os componentes da produção adquirem uma
nova determinação formal, em função da maneira como cada elemento é consumido nesse
processo (o que responde ao seu valor de uso): os que são consumidos num único ciclo produtivo,
constituem o capital circulante; os que duram mais do que um ciclo, constituem o capital fixo.
Desse modo, a análise da maneira como os diferentes elementos da produção são adquiridos e
renovados torna-se central; o mesmo acontece com a proporção em que o capital se distribui em
suas diferentes formas, que devem coexistir de modo a possibilitar a continuidade do processo de
circulação do capital. Ainda no segundo volume, Marx deixa de considerar o capital enquanto
capital em geral na figura de capitais individuais, e passa a tomá-los enquanto componentes do
capital social total (ainda abstraindo da concorrência). Analisa o entrelaçamento entre os
diferentes ciclos dos capitais individuais e seu condicionamento recíproco. Divide tais capitais
entre departamentos, o de bens de consumo e o de bens de produção, apresentando a maneira
como o capital deve se distribuir entre eles, na forma de capital constante e capital variável, para
garantir a reprodução ampliada do capital. Com isso, revela-se que a circulação é a unidade entre
produção e circulação, mas tal unidade é apenas alvo de “reflexões gerais”776, na medida em que
ela ainda não é tomada em toda sua concretude, no bojo do processo concorrencial.

O movimento da circulação do capital dá margem ao surgimento de desproporções


interdepartamentais, com potencial para paralisar a circulação e impedir a reprodução capitalista.
A possibilidade de uma desarmonia, de uma produção excessiva ou insuficiente num ou noutro
departamento, o que acarretaria em prejuízos para o conjunto dos capitalistas, fato esse previsível
numa sociedade em que o nível de produção se determina post festum, e na qual o equilíbrio é
atingido mediante o desequilíbrio, introduz-se um novo significado para o conceito de desmedida.
Nas palavras de Grespan, “[A desmedida] se define agora pela necessidade de o capital social
dividir seu volume global de valor de acordo com a importância dos valores-de-uso distintos que

775
Idem, ibidem, p.23.
776
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Victor Civita: Livro III, tomo IV. 1984,
p.21.
166
colaboram para sua reprodução ampliada, ou seja, conforme a função que cada um deles exerce
na composição do produto de valor e no seu constante crescimento”777.

Na análise do processo global de produção, quando se trata de descobrir e expor as


“formas concretas que surgem do processo de movimento do capital considerado como um
todo”778, Marx demonstra que a busca por mais-valia relativa se efetiva, de maneira mistificada,
através do processo de concorrência entre capitais. Ao invés de buscar reduzir o preço da força
de trabalho mediante o barateamento dos produtos consumidos pelos trabalhadores, os
capitalistas individuais de todos os setores buscam reduzir os custos de produção, de modo a
auferir lucros extraordinários, e de não serem suplantados pelos capitais mais competitivos, o
expediente fundamental nesse processo é o revolucionamento das forças produtivas. O capital
continua aqui se colocando como medida de si mesmo, mas o parâmetro para os capitalistas
individuais é agora a “taxa fetichista de valorização”, a taxa de lucro, que não diferencia entre
capital variável e capital constante, considerando a ambos fontes de valor. Com a tendência a
substituir força de trabalho por capital constante, diminuindo assim a mais-valia produzida, dá-se
a tendência à queda da taxa de lucro, à qual convive com um aumento da taxa de mais-valia, em
função da diminuição do trabalho necessário, que decorre do mesmo movimento de extração de
mais-valia relativa. Assim, ao mesmo tempo e pelos mesmos motivos, coexistem a tendência ao
aumento da taxa de mais-valia e à diminuição da taxa de lucro. No entanto, sendo esta a
motivação do capitalista individual, sua redução abaixo de certo limite inibe a ampliação e
mesmo a continuidade da produção. Trava o movimento fundamental do capital, movimento este
que, geralmente, só pode ser retomado após um surto de auto-desvalorização. Com a
superacumulação, isto é, com a impossibilidade do capital de produzir valor superior ao valor
existente, devido à taxa de lucro encontrar-se em um patamar excessivamente baixo, surge uma
nova acepção de desmedida, na qual a medida é perdida de maneira abrupta e violenta.

“Medida pela taxa de mais-valia, a valorização do capital é crescente; ao passo que, ao


mesmo tempo, medida pela taxa de lucro, ela é decrescente. É justamente esta oposição entre as
duas medidas que define a desmedida: a incapacidade do próprio capital em avaliar
univocamente seu processo de constituição, reprodução e acumulação; ou ainda, a perda de
referência do capital a si mesmo na determinação de seu devir, de sua autodeterminação”779,780.

777
Grespan, J. L. O negativo do Capital. São Paulo, Hucitec, 1998, p.179-180.
778
Marx, K. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Victor Civita: Livro III, tomo IV.
1984, p.21.
779
Grespan, J. L. O negativo do Capital. São Paulo, Hucitec, 1998, p.213.
167
Além dos sentidos apontados acima para o conceito de desmedida em Marx, cabe ainda
lembrar que este autor também o mobiliza ao falar dos perniciosos efeitos que o impulso
desmedido por valorização do capital exerce contra os trabalhadores, associando-o, portanto, à
violência desenfreada e à voracidade desregrada do capital. À guisa de exemplo, em trecho já
citado anteriormente, lê-se que “... em seu impulso cego, desmedido, em sua voracidade por
mais-trabalho, o capital atropela não apenas os limites máximos morais, mas também os
puramente físicos da jornada de trabalho”781,782.

5.3. Crítica da pós-grande indústria.

Procurei ressaltar na análise acerca da subsunção real o equívoco de se considerar que


Marx nos Grundrisse esboçou uma profecia acerca dos desdobramentos do modo de produção
capitalista, antecipando uma nova fase da produção que só viria a existir mais de cem anos
depois. Ademais, como constata Moraes Neto, “A suposição de uma significativa alteração
tecnológica, ou melhor, de uma alteração na natureza da maquinaria, significa considerar que a
base técnica de O Capital (grande indústria) não é a mesma dos Grundrisse (pós-grande
indústria). São diferentes as máquinas sob análise no mesmo momento histórico!”783.

Procurei salientar também os equívocos cometidos por aqueles que concebem o


taylorismo-fordismo em uma acepção genérica, e como desdobramentos da grande indústria. Isso
os leva a considerar a contemporaneidade como uma etapa radicalmente nova do

780
Note-se a entrelaçamento entre o conceito de desmedida e o conceito de crise – crise de superacumulação, crise de
desproporção entre os departamentos -, tal qual este foi apresentado anteriormente. Não irei aprofundar essa discussão, que não é
o objetivo deste item, mas apenas mencionar que, como constata Grespan, “... a crise se define como o momento em que as
medidas autônomas se opõem, como contradição de medidas ou, na terminologia da Ciência da Lógica de Hegel, como
‘desmedida’” (idem, ibidem, p.186).
781
Marx, K. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
tomo I, p.202.
782
“Nas indústrias revolucionadas de início por água, vapor e maquinaria, nessas primeiras criações do moderno modo de
produção, nas fiações e tecelagens de algodão, lã, linho e seda, é satisfeito primeiramente o impulso do capital para a
prolongação sem limites e sem considerações da jornada de trabalho. O modo de produção material modificado e as condições
sociais modificadas, que lhe correspondem, dos produtores dão origem primeiramente a abusos desmedidos e provocam então,
em contraposição, o controle social, que limita, regula e uniformiza legalmente a jornada de trabalho com suas pausas” (idem,
ibidem, p.226). E “... se esse prolongamento antinatural da jornada de trabalho, a que o capital visa em seu impulso desmedido de
autovalorização, encurta o período de vida dos trabalhadores individuais e com isso a duração de sua força de trabalho, torna-se
necessária a mais rápida substituição dos que foram desgastados” (idem, ibidem, p.203). Cf. também Marx, K. ibidem, p.182,
394; e Marx, K. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II,
1988, p.30, 103, 115.
783
Moraes Neto, B.R. Observações sobre os Grundrisse e a História. In: IX Encontro Nacional de Economia Política. Uberlândia
- MG. Anais do IX Encontro Nacional de Economia Política, 2004, p.8.
168
desenvolvimento do capital. Seus esforços para apreender teoricamente essas novas
características fgeram uma série de contra-sensos.

Procurei ainda demonstrar por meio de uma interpretação da passagem dos Grundrisse
(no item 5.2 deste capítulo), de que modo os teóricos da pós-grande indústria se vêem obrigado a
realizar uma verdadeira ginástica intelectual para dar coerência a sua interpretação do referido
texto, na tentativa de relacioná-la com o momento histórico presente.

Acompanhemos novamente o texto de Ruy Fausto que embasou a exposição da noção de


pós-grande indústria. O seu ponto de partida é o estabelecimento de algumas diferenciações entre
os Grundrisse e O Capital, de modo a justificar a quase coexistência, na crítica da economia
política de Marx, de análises pelo menos à primeira vista conflitantes.

Fausto afirma que em O Capital não é feita menção à possibilidade de ocorrerem


mudanças essenciais no próprio processo material de produção capitalista. Nessa obra, a grande-
indústria constituiria o auge do desenvolvimento desse modo de produção, e o ponto a partir do
qual se ergueria uma sociedade emancipada. Além disso, O Capital apresentaria “uma postura
menos otimista no que se refere ao destino que teria o processo de trabalho na sociedade
comunista”784, pois dentro dela, a “necessidade se ‘manteria’”785.

Já os Grundrisse apresenta uma perspectiva bastante diferente - “provavelmente mais


interessante”, mas um pouco menos “realista”786. De acordo com a interpretação de Ruy Fausto,
Marx teria tecido considerações acerca de “modificações por que deve passar o sistema
[capitalista] em seu desenvolvimento, modificações que introduzem, sem dúvida, uma ruptura
qualitativa”787, a qual marcaria o advento de uma nova fase da produção capitalista, com estatuto
equivalente ao da manufatura e da grande-indústria788. No entanto, Marx não teria apresentado
tais reflexões como concernentes a uma terceira fase do desenvolvimento capitalista, acentuando
as rupturas em relação à fase anterior (a grande indústria) mediante uma análise conceitual
similar àquela feita em relação às outras duas “formas”; antes, ele teria exposto apenas

784
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo:
Editora 34, 2002, p.128.
785
Idem, ibidem, p.128.
786
Idem, ibidem, p.128.
787
Idem, ibidem, p.128.
788
“O estágio descrito pelos Grundrisse representa uma terceira forma, cuja predominância define um terceiro momento do modo
de produção capitalista (...). Na terceira forma, tem-se a ‘negação’ do trabalho como fundamento do valor, e do tempo de trabalho
como medida da grandeza do valor” (idem, ibidem, p.133).
169
“negações [do capitalismo] no interior da forma específica [a grande-indústria]”789. Ruy Fausto
se propõe justamente a “sanar” essa “deficiência”.

Além disso, nos Grundrisse, em função das alterações materiais pelos quais passaria o
processo produtivo, o trabalho “entra ao lado do processo de produção em vez de ser o seu
agente principal”790, e é o “o desenvolvimento do indivíduo social que aparece como o grande
pilar da riqueza”791; donde Ruy Fausto conclui que “o processo material de produção (...) deixou
de ser o lugar da necessidade”792 - a qual se oporia à liberdade. “O Capital aponta assim para
uma sociedade que é a mais livre possível, enquanto os Grundrisse apontam para uma sociedade
plenamente livre”793.

Tendo em vista a ênfase que Fausto concede a essa última questão, e que o leva a
diferenciar O Capital e os Grundrisse, convém retomar o que foi dito no primeiro item do
capítulo. Assim como em O Capital, o sentido geral apresentado nos Grundrisse acerca da
superação da barbárie capitalista é a existência da possibilidade de que a necessidade “bruta”
(relativa à reprodução material da vida humana) deixe de ser algo externo aos indivíduos, algo
relacionado a uma atividade heterônoma fundada na exploração e na dominação de uma “classe”
por outra (tal qual teria ocorrido em todos os momentos históricos até então), mediante o
emprego de diversas formas de violência; e se torne um produto de “produtores livremente
associados”, que “regulam racionalmente sua troca com a natureza (...) em vez de serem
governados por ela como por uma força cega”794, de modo que o caráter social da produção seria
posto. Desse modo, não acabaria a necessidade, mas surgiria a “necessidade histórica”.

Do mesmo modo, tanto nos Grundrisse quanto em O Capital, a “verdadeira riqueza”


aparece como as “atividades mais elevadas”, o “cultivo do espírito”, realizado no tempo livre (de
não-trabalho), mas tal riqueza “só pode florescer sobre aquele reino de necessidade”795. Não
obstante, existe sim uma importante diferença entre as perspectivas apresentadas naquelas duas
obras. Nos Grundrisse, Marx considera a possibilidade da atividade realizada no processo de
produção imediata se tornar “em si exercício da liberdade”, “auto-realização, auto-objetivação”,
na medida em que fazem parte do processo de “desenvolvimento do indivíduo social”, e por
haver essa profunda ligação entre ambos os momentos, de trabalho e de não-trabalho, de

789
Idem, ibidem, p.128.
790
Marx citado por Fausto, R. ibidem, p.131.
791
Marx citado por Fausto, R. ibidem, p.131.
792
Marx citado por Fausto, R. ibidem, p.131.
793
Idem, ibidem, p.145.
794
Marx citado por Fausto, R. ibidem, p.145.

170
liberdade e de necessidade; esta necessidade, enquanto necessidade, confunde-se com a liberdade,
ou melhor, já se torna liberdade, mas não liberdade plena (que só existiria eliminando-se
completamente o tempo de trabalho despendido diretamente na produção material). Já em O
Capital, como vimos, a cisão entre as duas esferas (da liberdade e da necessidade) é apresentada
como sendo mais sólida.

Ambas as obras destacam a importância de mudanças materiais no processo produtivo


para o advento de uma sociedade emancipada, de modo que Fausto se equivoca ao dizer que “o
processo material de produção que corresponde ao comunismo, tal como é pensado em O
Capital, não é qualitativamente diferente do da grande indústria”796. Ele extrai tal conclusão da
interpretação segundo a qual em O Capital, a base sobre a qual se ergueria uma sociedade
emancipada seria a base da grande-indústria, enquanto que nos Grundrisse, essa base seria a pós-
grande indústria, materialmente diferente da fase anterior.

Cabe ainda abordar outra distinção que Ruy Fasto aponta entre os Grundrisse e O Capital.
Baseando-se numa passagem já transcrita e comentada dos Grundrisse na qual se encontra a
famosa proposição de que “... o capital é ele próprio a contradição em processo...”, Fausto afirma:

A contradição do capital que se assinala aqui não é a que se analisa em O Capital, ou


preferindo, não é considerada no mesmo grau, e por isso muda de caráter. Em O Capital, a
contradição consiste em que o desenvolvimento do sistema (desenvolvimento que só pode se
fazer pela substituição crescente da força de trabalho pela maquinaria), ao aumentar a composição
orgânica c/v797, tem como resultado, já que a mais-valia vem de v (e supostas certas condições), a
redução da taxa de lucro Pl/C. O sistema iria à ruína, porque a sua finalidade é acumular mais-
valia e, se a taxa de lucro for muito baixa, cai o estímulo (objetivo e subjetivo) para que a
acumulação prossiga. Os Grundrisse nos põem diante do mesmo movimento, só que eles
consideram não os efeitos formais imediatos de uma mecanização crescente, mas os efeitos
materiais – que entretanto anunciam revoluções formais – de uma mecanização que transfigurou
a relação da ciência para com a produção. Estamos, assim, diante de uma verdadeira
transformação – como vimos, o termo se encontra no texto – do processo produtivo, de uma
mutação tecnológica, e os efeitos formais considerados não atingem apenas o nível, que é afinal
fenomênico, da taxa de lucro, mas os “fundamentos” do sistema. A mutação tecnológica não
produz contradições internas no sistema, ele provoca a explosão de suas bases. O resultado é a
revelação do que é a “verdadeira riqueza”798.

Não é o caso de criticarmos aqui a forma extremamente simplificada por meio da qual
Ruy Fausto expõe a “contradição do capital”, tal como ela seria apresentada em O Capital, mas
cabe novamente discordar da diferenciação que é feita entre as duas obras. Convém reiterar,
como faz Ruy Fausto, que aquele movimento contraditório fundamental do capital, que o leva a

795
É por isso que vimos, em ambas as obras, ser fundamental para a emancipação humana a criação de tempo livre.
796
Idem, ibidem, p.145.
797
c = capital constante, v = capital variável, C = capital total (nota de Ruy Fausto).
798
Idem, ibidem, p.132.
171
criar incessantemente tempo (potencialmente) livre, e concomitantemente a convertê-lo em
tempo de mais-trabalho (produtor de trabalho excedente, mais-valia) é exposta tanto nos
Grundrisse quanto n’O Capital799. Na minha interpretação a diferença entre as duas obras é que
na primeira, esse movimento tornaria explícita a contradição do sistema capitalista, e com isso se
desencadearia uma revolução que “explodiria” essa formação social; enquanto na segunda tal
possibilidade não é aventada. Nesse ponto, a exposição d’O Capital se mostrou superior à dos
Grundrisse.

Tratando do “conceito” de pós-grande indústria Ruy Fausto afirma que, diferentemente


da perspectiva d’O Capital, nos Grundrisse, Marx “supõe uma espécie de prolongamento da vida
do sistema (...) e uma espécie de quase-ruptura (auto-ruptura) estrutural dele...” 800 . Assim, a
negação da grande-indústria por sua própria dinâmica não conduziria diretamente ao socialismo,
mas haveria um “interregno”, uma “etapa”, no qual o capitalismo ainda subsistiria, apesar
daquela negação.

Já ficam explícitas aí as enormes diferenças entre a interpretação que sustentei e a de Ruy


Fausto. Como tentei demonstrar anteriormente, nos Grundrisse não há quaisquer traços de um
prolongamento do sistema capitalista e muito menos a descrição de uma nova forma capitalista,
havendo, ao contrário, uma passagem da grande-indústria ao socialismo, mediante um processo
revolucionário apenas sutilmente suposto; e do mesmo modo, não há nada que aponte para uma
“auto-ruptura estrutural” do sistema; o que configuraria uma espécie de “semi-superação
técnica” do capitalismo.

Como discordo desses dois elementos basilares da análise de Ruy Fausto, surgem
diferenças em relação a todo o desenvolvimento subseqüente de sua argumentação, que segundo
me parece visa “amalgamar” proposições de Marx sobre a grande-indústria e sobre a “sociedade
emancipada”, apresentando-as como se se tratassem de considerações sobre a “pós-grande
indústria”. De fato, em grande medida Ruy Fausto logra desenvolver uma análise coerente e
rigorosa; entretanto, tal análise não é fiel às concepções e proposições de Marx. Restringir-me-ei
a sintetizar e a criticar os principais argumentos de Ruy Fausto.

Depois de apontar para o “prolongamento do sistema” e para sua “quase-ruptura


estrutural”, Ruy Fausto assevera que “se a grande indústria aparece como a negação do processo
de trabalho, a pós-grande indústria seria a segunda negação do processo de trabalho, e na

799
Cf. o segundo capítulo desta dissertação, sobretudo no que tange à produção da mais-valia relativa.
800
Idem, ibidem, p.129.
172
realidade a negação da negação. Mas se a grande indústria representa a posição (material)
adequada do capital no processo produtivo, poder-se-ia dizer também que a pós-grande indústria
representa a segunda posição material...”801. Compreender essa “terceira forma” do processo de
produção capitalista significa entender esses dois movimentos.

Como é exposto em O Capital - e como o próprio Ruy Fausto reitera em outros


momentos do texto que estamos analisando -, na manufatura o sujeito do processo de produção é
o “trabalhador coletivo”, o conjunto de trabalhadores parciais que dominam a produção. Com o
advento da grande indústria, o próprio sistema de máquinas se torna o sujeito da produção, e
desse modo deixa de existir o “processo de trabalho”, já que os trabalhadores mobilizados na
produção imediata perdem todo o controle sobre ela, sendo reduzidos à condição de meros
apêndices das máquinas. Essa é a primeira negação do processo de trabalho; a segunda
consistiria no fim da subsunção material, decorrente do alijamento dos trabalhadores de dentro
da produção imediata, que seriam progressivamente substituídos por máquinas, e passariam a se
postar “ao lado da produção, em vez de ser seu agente principal” 802 . Esse processo só se
desencadeia em função da subordinação da ciência ao processo produtivo, fundamento da
“segunda posição material”. Esta consistiria no fato de que na pós-grande indústria a ciência “é
posta na matéria”; “a compreensão [científica] da natureza está objetivada nas novas máquinas”;
“a ciência se objetiva enquanto ciência”; e “a forma material [a ciência] passa a servir a si
própria em vez de servir à forma formal [o capital]”803.

Para analisar essas proposições, convém lembrar um trecho dos Grundrisse, comentado
na página 150 deste texto. Lá Marx assevera que uma das principais características da grande
indústria é o fato de o capital passa a açambarcar a ciência, reduzindo-a à condição de mero
negócio. É justamente esse processo que torna o capital, a “forma formal”, plenamente adequada
à matéria, acarretando um avanço da subsunção material do trabalho ao capital. No entanto,
Marx ressalva que isso só se consolida num “estágio mais elevado” da grande indústria. Antes
disso (desde a manufatura), o processo de desenvolvimento das forças produtivas se desenvolveu
principalmente mediante uma análise e aprofundamento da divisão de trabalho, no sentido de
simplificar ou mecanizar as atividades realizadas pelos trabalhadores.

Não é só nos Grundrisse que encontramos reflexões nesse sentido; em O Capital também
aparecem em abundância como busquei demonstrar no decorrer do primeiro item deste

801
Idem, ibidem, p.129.
802
Idem, ibidem, p.135.

173
capítulo804. Logo, trata-se de um impulso do capital, patente desde os primórdios do modo de
produção capitalista, em busca por uma adequação à matéria e pelo domínio pleno do processo
produtivo, em oposição ao domínio dos trabalhadores. Poder-se-ia dizer que a grande indústria
só surge efetivamente quando o capital se apropria plenamente do processo de produção da
ciência, tornando o próprio processo de produção uma “objetivação da ciência”. Tal processo
não seria uma característica da pós-grande indústria, como quer Ruy Fausto, mas da própria
grande indústria. Não se desenrola no “momento atual do desenvolvimento capitalista”, como à
sua época acreditava Rosdolsky805, e parece acreditar Ruy Fausto, mas já era uma “realidade
palpável” na época de Marx (apesar dele ter se desenvolvido imensamente no decorrer do
período que nos separa da época dos Grundrisse). Convém lembrar ainda que aquela adequação
entre forma e matéria não significa que o capital deixou de ser contraditório; é justamente isso
que Marx não se cansa de reiterar em diversas passagens (muitas delas já transcritas e analisadas)
nas quais enfatiza que “o capital é a contradição em processo” e seu movimento redunda em
crises de superacumulação; na criação de imensas desproporções (qualitativas e quantitativas)
entre a riqueza efetiva criada e o trabalho que é mobilizado nesse processo; etc.

Marx faz questão de repetir, exaustiva e enfaticamente, que esse processo de


desenvolvimento material por si só não implica, de modo algum, num ganho de liberdade, ou
numa nova subjetivação do processo produtivo, apesar de ser um pressuposto para isso. Tendo
isso em vista, algumas asserções de Ruy Fausto não deixam de causar estranheza, sobretudo por
sua ambição de se apresentar como reflexões de Marx acerca da pós-grande indústria. Por
exemplo, comentando a passagem na qual Marx afirma que “... o homem se relaciona como
guardião e regulador do processo de produção”, Ruy Fausto afirma que “agora [na “terceira
forma”] o termo Wächter [guardião] não denota mais uma função de suporte (portador), mas
uma função de sujeito, e isto porque se alterou a natureza da maquinaria”806.

Em outra passagem, com base no seguinte trecho dos Grundrisse: “[O trabalho] entra ao
lado do processo de produção em vez de ser o seu agente principal”; Ruy Fausto comenta que

803
Idem, ibidem, p.135, e para as 3 citações anteriores, p.134.
804
“[No modo de produção capitalista] As potências intelectuais da produção ampliam sua escala por um lado, porque
desaparecem por muitos lados. O que os trabalhadores parciais perdem, concentra-se no capital com que se confrontam. É um
produto da divisão manufatureira do trabalho opor-lhes as forças intelectuais do processo material de produção como propriedade
alheia e poder que os domina. Esse processo de dissociação começa na cooperação simples, em que o capitalista representa em
face dos trabalhadores individuais a unidade e a vontade do corpo social de trabalho. O processo desenvolve-se na manufatura,
que mutila do trabalhador, convertendo-o em trabalhador parcial. Ele se completa na grande indústria, que separa do trabalho a
ciência como potência autônoma de produção e a força a servir ao capital" (Marx, K. O Capital: crítica da economia política.
Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988, p.283-284).
805
Cf. Rosdolsky, R. Gênese e estrutura do Capital de Karl Marx. Rio de Janeiro, Contraponto, 2001, p.356.

174
“[Na pós-grande indústria] o homem é de certo modo ‘posto para fora’, liberado do processo,
mas é assim mesmo que ele passa a dominar o processo”807. Além disso, ele nos informa que: “o
importante é que [na pós-grande indústria] a pressuposição riqueza se subjetiviza e se interverte
em liberdade”808,809.
É o caso de chamar a atenção sobre esse último ponto. A primeira passagem dos
Grundrisse à qual Ruy Fausto recorre para descrever a pós-grande indústria, diz que a “produção
que repousa sobre o valor” pressupõe “o quantum de trabalho utilizado como fator decisivo da
produção de riqueza”, mas que o desenvolvimento das forças produtivas cria um “descompasso”
entre a “criação da riqueza efetiva” e o quantum de trabalho utilizado nessa produção.

O significado que Ruy Fausto concede à “criação de riqueza efetiva” é a valorização do


valor, criação de capital; ou seja, riqueza efetiva significaria valor, ao passo que considero mais
adequado que riqueza efetiva se refira aos valores de uso e que o termo riqueza, sem a
determinação “efetiva”, refira-se à criação de novo valor, quando se trata do capitalismo; e ao
“cultivo do espírito”, quando se trata de uma sociedade emancipada. Fausto sustenta a idéia de
que a pós-grande indústria seria caracterizada pela mudança na própria substância do valor, o
qual “não é mais a cristalização de um tempo posto”810, mas que “se dá no tempo”811, deixando
assim de ser tempo de trabalho abstrato objetivado no processo de produção imediata. O valor
passa a ser algo qualitativo, relacionado à “força dos agentes que são postos em movimento
durante o tempo de trabalho”, que por sua vez dependeria “da situação geral da ciência, do
progresso da tecnologia, ou da utilização da ciência na produção”. Dessa maneira, não se poderia
mais falar em valor (e, portanto, nem em valorização), mas em “valor negado”812.

A confusão entre riqueza e riqueza efetiva também pode ser observada no seguinte trecho:
“Com a pós-grande indústria (...) [a] riqueza não é mais produzida pelo trabalho, mas pelo não-
trabalho. Isto num duplo sentido. Em primeiro lugar, a riqueza material já não depende
essencialmente do trabalho. Em segundo lugar, a riqueza passa a ser essencialmente a ciência (a

806
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo:
Editora 34, 2002, p.130.
807
Idem, ibidem, p.131.
808
Idem, ibidem, p.138.
809
Talvez seja completamente desnecessário repetir, mas nos Grundrisse Marx propugna que o próprio movimento contraditório
do capital na grande indústria revela o absurdo da situação em que tal movimento cria a possibilidade da posição do homem
enquanto sujeito, ao mesmo tempo em que a impede de se realizar. Assim, o homem é progressivamente ‘posto para fora’ do
processo de criação da riqueza efetiva, mas é impossibilitado de dominar esse processo; é criada uma riqueza efetiva num
montante sem precedentes, mas a produção da riqueza continua a ser fundada na pobreza, no despojamento dos trabalhadores, na
sua subsunção material ao capital; na sua prisão à uma atividade parcial, e assim por diante.
810
Idem, ibidem, p. 129.
811
Idem, ibidem, p.129.
812
Idem, ibidem, p.130.
175
arte, etc.), e esta é produzida no tempo de não-trabalho. Assim, a substância da riqueza não é
mais o trabalho, mas é o não-trabalho”813. Ora, temos aí um verdadeiro qüiproquó. A afirmação
de que “a riqueza material [ou riqueza efetiva] já não depende essencialmente do trabalho”
assenta-se numa leitura de trechos dos Grundrisse, que abordam tanto o momento da grande
indústria, em função do enorme desenvolvimento da maquinaria que progressivamente dispensa
os trabalhadores das funções que eles outrora realizavam, quanto a sociedade pós-capitalista, já
que esta pressupõe aquele desenvolvimento, e não se propõe a revertê-lo, mas a “humanizá-lo”.
A afirmação de que a “substância da riqueza não é mais o trabalho, mas é o não-trabalho”
também se apóia em passagens dos Grundrisse, mas concerne a uma sociedade emancipada, na
qual a riqueza passa a ser o “desenvolvimento do indivíduo social”, “sua formação artística,
científica, etc.”, que se dá no tempo que não é diretamente despendido na produção, mas que
interfere na produção, já que o mesmo indivíduo que passa por esse processo formativo planeja,
controla e atua nesse processo de produção, o qual depende cada vez mais dos conhecimentos
produzidos socialmente. Ruy Fausto confunde os momentos; ele quer que, segundo Marx, a
substância da riqueza como desenvolvimento do indivíduo social seja posta dentro dos domínios
do capital; ou que o trabalho científico (artístico, etc.) seja a substância da riqueza no momento
em que essa substância ainda é o trabalho abstrato. Daí sua tentativa de fazer Marx afirmar, por
exemplo, que o trabalho cientifico é não-trabalho, quando na verdade ele diz explicitamente que
“a ciência se tornou um negócio”, sendo subordinada ao capital.

Ruy Fausto desenvolve suas análises em nome de Marx, como se fosse uma simples
apresentação de idéias presentes nos Grundrisse. Ele chega a dizer que vai deixar para outro
momento o desenvolvimento de uma interpretação crítica de tais idéias. Entretanto, como se viu,
no momento em que ele apresenta a tese de que Marx teria previsto o fim da subsunção real, na
pós-grande indústria, ele foge a essa proposta, e propugna que longe do modelo “subordinação
formal, subordinação real, subordinação formal novamente”814, que teria sido proposto por Marx
tendo em mente o “modelo que poderia ser o do engenheiro que pilota um avião supersônico”815,
o que teria se verificado efetivamente, por meio do modelo do trabalhador que passa o dia em
frente a um computador, é que se manteria certo tipo de subsunção material do trabalho ao
capital.

813
Idem, ibidem, p.137.
814
Idem, ibidem, p.136.
815
Idem, ibidem, p.136, grifos meus.
176
Com isso em vista, Fausto cunha o conceito de subsunção intelectual do trabalho ao
capital, trabalho esse que produziria o valor negado, ou o valor desmedido. Para demonstrar o
equívoco dessa teorização convém retomar a definição de trabalho abstrato e produtivo. Marx
não diferencia o lado intelectual ou mental do trabalho, de seu lado manual, dizendo que o
trabalho abstrato é dispêndio de nervos, cérebro, músculos, mãos, etc. Ademais, ainda no
capítulo I ele afirma que o fato do trabalho ser mais complexo, e daí evidentemente se inclui o
mais intelectualizado, não impede que ele seja diariamente reduzido à trabalho simples. Fora isso,
Marx aponta que no bojo do processo de negação do trabalho pelo capital, expressão da
contradição entre capital e trabalho que constitui a sociedade capitalista, o trabalho é
progressivamente expulso da produção direta, perdendo parte de seu conteúdo braçal, e na
medida em que passa a consistir na vigília e supervisão da máquina, ganha em certo sentido um
caráter mais “intelectual”. Não obstante, ao mesmo tempo se verifica uma tendência
generalizada à simplificação e à desqualificação de todos os trabalhos, sejam eles mais braçais
ou mais intelectuais, em função do avanço da subsunção real do trabalho ao capital.

No que tange ao conceito de trabalho produtivo, cabe lembrar que no capítulo XIV do
primeiro livro de O Capital, aquele processo de trabalho que foi abstratamente considerado no
capítulo V como algo individual, cujas funções eram reunidas em um único trabalhador que
controlava a si mesmo e a todo o processo de trabalho - o qual existia para satisfazer suas
necessidades -; e que se caracterizava pela interligação entre trabalho intelectual e manual; torna-
se um processo social, no qual o trabalhador primeiramente se converte em uma anomalia, em
um simples órgão parcial do trabalho816. Progressivamente, com o surgimento e desenvolvimento
do sistema de máquinas, é reduzido à condição de mero apêndice delas817, as quais passam a
presidir o processo, a ditar o ritmo e a maneira de se produzir. Dessa forma, extingue-se o
processo de trabalho propriamente dito, que se torna processo de produção, ou um organismo de
produção inteiramente objetivo818. Com isso, há uma separação radical entre mãos e cérebro, que
passam a se “oporem como inimigos”, o trabalhador perde qualquer controle sobre a produção,
que também se aparta radicalmente de suas necessidades.

No bojo desse processo, o conceito de trabalho produtivo se amplia por um lado, já que
deixa de se relacionar somente aos trabalhadores diretamente ligados à produção, e passa a valer

816
Marx, K. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II,
1988, p.256.
817
Idem, Miséria da Filosofia. São Paulo: Global, 1985, p.43.
818
Idem, ibidem, p.17.
177
para qualquer “órgão do trabalhador coletivo” 819 , seja o “alimentador” da máquina, seja o
“engenheiro” mais qualificado. Assim, ambos os trabalhos participam da produção do valor,
independentemente de serem mais ou menos intelectualizados.

Marx não deixa de reconhecer que algumas atividades laborais resistem à subordinar-se
realmente ao capital, mas isso não impede sua exploração capitalista, e é fato que o processo de
subsunção real avançou enormemente, para todo tipo de atividade.

Da perspectiva de Marx, em cuja época já haviam diferenças significativas entre os


diversos tipos de trabalho, talvez de maneira muito mais acentuada do que hoje em dia, é
contraproducente cunhar um conceito como o de subsunção intelectual, tendo em vista seus
efeitos mistificadores.

Não custa salientar que uma análise adequada do conceito de subsunção real do trabalho
ao capital torna evidente os equívocos de Ruy Fausto e de Eleutério Prado em sua consideração,
numa abordagem bastante analítica, de que a subordinação formal corresponde à manufatura, e a
subordinação real, à grande indústria. Ao contrário, vimos que a subsunção formal corresponde à
produção de mais-valia absoluta, e portanto a uma fase de transição para a produção capitalista;
ao passo que a subsunção real corresponde à produção de mais-valia relativa. Marx apresenta
n’O Capital e sobretudo no Capítulo Sexto Inédito a divisão manufatureira do trabalho e o
sistema de máquina como métodos especificamente capitalistas de extração de mais-valia
relativa. Com isso, cai por terra um elemento central da interpretação de Fausto e Prado acerca
da manufatura e da grande indústria, a qual está profundamente ligada à apresentação da pós-
grande indústria. De todo modo, é surpreendente como escapou à atenção e à memória de
leitores tão rigorosos como Ruy Fausto e Eleutério Prado um texto tão importante como o
Capítulo Sexto Inédito de O Capital, e o fato da análise sobre a cooperação simples, a
manufatura e a grande-indústria fazerem parte da seção IV de O Capital, denominada “A
Produção da Mais-Valia Relativa”.

Cabe analisar, por fim, mais um trecho no qual se tornam evidentes as diferenças entre a
interpretação de Ruy Fausto e a apresentada aqui. Em certa altura do seu texto, Ruy Fausto diz
que “a pós-grande indústria revela a base primeira do sistema. Essa base se revela miserável,
quando o trabalho deixa de ser a fonte da riqueza. Isso ocorre quando o processo material de

819
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo II, 1988,
p.105.
178
produção já se modificou”820. Julgo que, ao contrário, da perspectiva dos Grundrisse, a “base do
sistema” não é revelada depois que o “trabalho deixou de ser a fonte de riqueza” em decorrência
de uma “mudança do processo material de produção”; mas essa revelação acontece como
conseqüência do movimento contraditório da fase da grande-indústria, que ao mesmo tempo em
que necessita pôr o trabalho como fonte da riqueza, cria enormes barreiras para fazê-lo. A
modificação material da produção que faria com que o valor fosse negado, e conseqüentemente
que o trabalho deixasse de ser a fonte de riqueza seria na verdade uma conseqüência daquela
revelação, e não sua causa; e só poderia advir no bojo de um processo revolucionário.

Espero ter deixado claro que em nenhum momento Marx vislumbrou a possibilidade de
mudança da substância do valor no interior do capitalismo821, nem postulou a possibilidade do
correlato advento de uma outra forma de produção dentro dos limites do modo de produção
capitalista.

820
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo III, São Paulo:
Editora 34, 2002, p.131.
821
Cujo pressuposto, vale repetir, “é – e permanece – a massa de tempo de trabalho direto, a quantidade de trabalho empregado,
como o fator determinante na produção de riqueza”.
179
Conclusão

Nessa dissertação optei por concentrar esforços na apreensão e crítica do que julguei
fundamental em duas respostas teóricas às recentes transformações do capitalismo, construídas
sobre os conceitos de trabalho imaterial e de pós-grande indústria, respectivamente. Grosso
modo, ambos os conceitos concernem imediatamente à análise da produção imediata capitalista,
a qual, em função do desenvolvimento das forças produtivas e da crescente importância da
ciência para a reprodução do capital, estaria sofrendo mudanças radicais: eliminando fortemente
o trabalho direto nela empregado, por um lado; e por outro, conferindo novo caráter ao trabalho
que se manteria como base da produção, o qual progressivamente estaria se “intelectualizando”,
e exigindo a mobilização da criatividade e da subjetividade dos trabalhadores. Esse novo
trabalho, cada vez mais hegemônico, resistiria à redução a trabalho abstrato, e com isso, para
Negri e Gorz, a teoria do valor teria sido colocada em xeque, e se tornado obsoleta; para Fausto e
Prado, a substância do valor teria mudado, tendo se tornado a “ciência”, para o primeiro, e o
“trabalho científico”, para o último.

Em todo caso, os autores percebem a necessidade de se proceder a um rigoroso e


abrangente esforço de teorização buscando superar ou atualizar a teoria marxiana de modo a dar
conta de todos os desdobramentos que adviriam daquela fundamental transformação ocorrida no
âmbito da produção imediata; desde seus impactos na constituição da subjetividade dos
trabalhadores, até as novas formas de concorrência entre as empresas, passando pela extensão de
atividades de caráter rentista, pelas mundanças nas formas de controle do trabalho pelo capital,
etc.

De modo a apresentar as noções de trabalho imaterial e de pós-grande indústria atentei


não apenas para suas estruturas e consistência interna, mas também busquei mobilizar alguns
conceitos marxianos, no geral empregados pelos autores analisados, de modo a mostrar os
problemas nas interpretrações da obra de Marx realizadas por tais autores, e a importância
teórica de suas formulações originais, encontradas sobretudo em O Capital, nos Grundrisse, na
Contribuição para a crítica da Economia Política, e nas Teorias sobre a Mais-valia.

Como resultados gerais, poder-se-ia destacar sumariamente os seguintes. No que tange à


importância atribuída ao conceito de trabalho imaterial por Gorz e Negri, como já havia feito

180
Eleutério Prado822, chamei a atenção para o fato de que além de confundirem os conceitos de
serviços e de trabalho imaterial propriamente dito, os autores ancoram sua interpretação do
capitalismo no conteúdo concreto das atividades laborais, perdendo sua especificidade histórica,
e com ela o significado da abstração do trabalho, do seu caráter produtivo ou improdutivo, do
que consiste a subsunção do trabalho ao capital, etc. Por conseguinte, os autores acabam
passando ao largo do cerne da acumulação capitalista e de seu movimento histórico. Da
perspectiva de Marx, parece-me, a conceituação de trabalho imaterial de Negri e Gorz é
fetichista, e nisso reside o fundamento dos problemas de suas proposições acerca do capitalismo
contemporâneo.

Quanto à tese da pós-grande indústria, tentei demonstrar que ela se sustenta sobre uma
interpretação problemática de passagens dos Grundrisse, as quais, segundo a leitura que sugeri,
estão longe de amparar a idéia de que seria possível a consolidação de uma fase do
desenvolvimento do capital em que a ciência ou o trabalho científico se torna a substância do
valor. Também busquei chamar a atenção para a forte extração hegeliana da tese da pós-grande
indústria, através de uma breve análise do conceito de desmedida, segundo Hegel e Marx. Dessa
maneira, indiquei que a idéia de pós-grande indústria teria pouco esteio na obra marxiana, e
entraria em conflito com alguns aspectos fundamentais dela.

Ademais, tanto o conceito de trabalho imaterial quanto o de pós-grande indústria apontam


para importantes limites históricos do capitalismo, o qual se encontraria numa luta encarniçada
para manter a base de sua existência, a exploração do trabalho, posto que o caráter do trabalho
agora dominante, complexo e rico em determinações, tenderia por sua natureza a escapar ao
controle despótico do capital. Retomando a análise marxiana da acumulação, sobretudo com
base nos conceitos de mais-valia relativa e de grande indústria, busquei mostrar que a
contradição entre capital e trabalho se expressa de distintas maneiras nos diferentes momentos do
conceito de capital, sendo que um dos mais fundamentais é a substituição do capital variável
pelo capital constante através do progressivo desenvolvimento das forças produtivas -
imprescindível para a acumulação do capital e ao mesmo tempo contrária a ela, por comprimir a
base da valorização. Dessa maneira, o capital sempre se encontraria às voltas com esse duplo
movimento de tornar redundante a força de trabalho, sem conseguir libertar-se dela como sua
fonte de existência. E persistiria a tendência de simplificar, homogeneizar e eliminar o trabalho,

822
CF. Prado, E. F. S. Trabalho imaterial e fetichismo. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande indústria. São Paulo:
Xamã, 2005, e Crítica à economia política do imaterial. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande indústria. São Paulo:
Xamã, 2005.
181
relativamente ao montante de capital corporificado nos meios de produção; a novidade residiria
talvez na intensidade e extensão em que atualmente se dá essa eliminação do trabalho, mas isso
não é alvo de análise dos autores em questão.

Por fim, convém reiterar que a presente dissertação teve como importante objetivo
chamar a atenção para a importância da obra de Marx, cuja análise teve preponderância no
conjunto do texto. Nesse processo, procurei tratar direta ou indiretamente - e sem pretensões de
esgotá-las – de algumas tradicionais discussões acerca da obra de Marx, no que tange, por
exemplo, ao estatuto do conceito de trabalho abstrato, ao papel da ciência na produção, à questão
da tendência à simplificação do trabalho, dentre outras. Implicitamente está posta a percepção de
que a obra de Marx, apesar do contexto histórico em que foi produzida, ainda fornece importante
subsídio para a compreensão do hodierno movimento do capital. Procurei demonstrá-lo através
do confronto indireto entre aspectos de sua obra e as recentes tentativas de compreensão crítica
do capitalismo contemporâneo, feitas por Negri, Gorz, Prado, Paulani, entre outras.

182
Anexos

183
Esboço de uma análise marxiana do Estado

Uma forma de se iniciar a abordagem da perspectiva marxiana do Estado é remeter à sua


noção de totalidade, a qual pode ser apreendida em diversas passagens das obras de Marx. A
despeito das diferenças, seja na Introdução de 1857, onde é exposta a relação entre produção,
distribuição, troca e consumo, seja na apresentação do processo global da produção capitalista,
no terceiro volume de O Capital, onde vemos a relação entre os capitais particulares e o capital
global, seja mesmo na análise sobre o “mero” processo de compra e venda, no terceiro capítulo
do primeiro livro de O Capital, a totalidade é sempre vista como um processo, como um
movimento rigorosamente dialético de autonomização de momentos copertinentes823.

No primeiro caso, na referida Introdução, vê-se, em primeiro lugar que a produção é


sempre um ramo particular e, ao mesmo tempo, uma totalidade, o que se pode interpretar da
seguinte forma: a produção deve ser produção de algo, de algum bem ou mercadoria particular,
logo, uma produção particular. Ao mesmo tempo, ela não pode existir apenas como um ramo
particular, isolado, mas sim como uma multiplicidade de ramos de produção, profundamente
articulados, e que constituem uma totalidade, mas uma totalidade que não é um mero agregado
de diversos elementos particulares, mas em certo sentido comanda suas próprias partes. Ou seja,
a produção deve necessariamente se particularizar em ramos de produção diversos, e nesse
processo, ao mesmo tempo, esses ramos constituem uma totalidade, a totalidade da produção.

Ademais, Marx demonstra que a distribuição, a troca e o consumo são formas de


diferenciação da produção, uma totalidade que as põe enquanto momentos de sua própria
constituição. Mas isso não significa que aqueles são meros reflexos - na acepção usual do termo -
da produção, os quais responderiam mecanicamente aos movimentos daquela. Ao contrário, a
produção só existe e se constitui enquanto totalidade através dessa diferenciação/particularização,
de tal forma que existe a um tempo uma determinação recíproca entre produção, distribuição,
troca e consumo, bem como sua diferenciação, ou seja, a autonomização desses momentos. Não
obstante, isso não quer dizer que a produção, a troca, a distribuição e o consumo tenham
exatamente o mesmo papel na unidade que compõe; ao contrário, a produção, ponto de partida e
de chegada do processo, exerce função predominante824.

823
Marx, L. Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. 3 vols. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1980, vol. II, p.936.
824
“A conclusão a que chegamos não é que a produção, a distribuição, a troca e o consumo são idênticos, mas que eles são
elementos de uma totalidade, diferenças dentro de uma unidade. A produção não só predomina sobre si própria, na definição
antitética da produção, mas também sobre os outros momentos. O processo sempre retorna a ela para recomeçar, renovado. A não
predominância da troca e do consumo é auto-evidente. O mesmo acontece com a distribuição enquanto distribuição de produtos,
184
Do mesmo modo, no caso da relação entre capitais individuais e capital global, o capital
se constitui enquanto uma totalidade que só existe por meio de suas diversas partes825; ou seja, o
processo de totalização deve forçosamente ser acompanhado por um processo de particularização,
e de autonomia em relação ao todo e entre si, até o ponto dessas partes se constituírem enquanto
indivíduos, ou capitais individuais 826 . Nas palavras de Grespan, “Cada capital individual
constitui, entretanto, apenas uma fração autonomizada do capital social total, dotada, por assim
dizer, de vida individual, assim como cada capitalista individual constitui apenas um elemento
individual da classe capitalista. O movimento do capital social consiste na totalidade dos
movimentos de suas frações autonomizadas, das rotações dos capitais individuais” 827 . Não
obstante, através desse processo de autonomização dos capitais, estes agem como se não
houvesse um elemento totalizador, como se a finalidade geral de valorização do valor fosse
apenas sua finalidade particular. Assim, buscando realizar seu próprio interesse o capitalista
individual faz valer a finalidade do todo, mas isso geralmente contra os demais capitalistas
individuais. E não obstante, em muitos momentos ele inclusive atenta contra o todo, o que se
revela, por exemplo, na tendência à queda da taxa de lucro828.

No último caso, a compra e a venda, momentos evidentemente complementares que


existem um em função do outro, dissociam-se no tempo e no espaço, adquirem uma aparente
autonomia e se autonomizam até parecerem indiferentes entre si, mas isso apenas até certo ponto,
além do qual “a unidade se faz valer violentamente através de uma – crise829”830,831.

já que a distribuição dos agentes da produção é ela própria um momento da produção. Uma [forma] determinada [da] produção
determina [formas] determinadas de consumo, distribuição, troca assim como relações determinadas entre estes diferentes
momentos” (idem, Introdução aos Esboços de uma Crítica da Economia Política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Abril,
1982, p.38). Entretanto, não custa insistir que “Reconhecidamente, entretanto, em sua forma unilateral, a produção é ela própria
determinada pelos outros momentos (...). Uma reciprocidade de ação ocorre entre os diferentes momentos. Este é o caso para
qualquer todo orgânico” (idem, ibidem, p.38-39).
825
“... como o valor forma a base do capital, [como] existe, portanto, necessariamente só através da troca por um contra-valor, ele
necessariamente se repele a si mesmo. Um capital universal, sem capitais estranhos diante de si com os quais ele troque (...) é,
por isso, um absurdo. A repulsão dos capitais uns dos outros já está nele enquanto valor-de-troca realizado” (Marx citado por
Grespan, J. L. O negativo do Capital. São Paulo, Hucitec, 1998, p.193).
826
“Ou seja, o capital social não é concebido como uma universalidade homogeneizante em que a individualidade se dissolve e
se transforma em mero caso singular, e sim como um todo que institui a diferença para dela se constituir enquanto relação, que
precisa da diferença também enquanto diferença, permitindo uma ‘autonomização’ que confere a seus termos ‘vida individual’”
(idem, ibidem, p. 172).
827
Idem, ibidem, p.261.
828
“A concorrência (...) realiza e condena, na repulsão e negação dos ‘muitos capitais’ uns dos outros, os vários momentos em
que a autonegação do capital se desenvolveu. Ela mesma é uma forma mais rica e plena do desenvolvimento desta última, é a
forma em que a ‘tendência interna’ à autodeterminação e autonegação do capital em geral, se efetiva como ‘necessidade externa’
de mútua determinação e negação dos singulares” (idem, ibidem, p.198).
829
“Se, por exemplo, compra e venda – ou o momento da metamorfose da mercadoria – apresenta a unidade de dois processos,
ou melhor, o percurso de um processo através de duas fases opostas, sendo essencialmente, portanto, a unidade de ambas as fases,
igualmente é a separação das mesmas e sua autonomização uma face à outra. Como elas, então, se co-pertencem, a
autonomização dos momentos co-pertinentes só pode aparecer violentamente, como processo destrutivo. É a crise, precisamente,
na qual a unidade se efetua, a unidade dos diferentes. A autonomia, que os momentos pertencentes um ao outro e
complementares adotam reciprocamente é anulada violentamente. A crise manifesta, assim, a unidade dos momentos
185
Nessas diferentes passagens, pinçadas quase que ao acaso, e que expressam diferentes
níveis de abstração, trata-se da constituição de unidades contraditórias, unidades na e pela
diferença, desenvolvimentos da contradição fundamental da sociedade capitalista, a contradição
entre capital e trabalho, constitutiva do capital em sua forma mais elementar de desenvolvimento.
Com isso, tem-se alguma idéia da noção de totalidade (contraditória), importante para se
compreender a relação entre a economia e o Estado, forma de diferenciação do capital.

Apesar das inúmeras referências e proposições de Marx acerca do Estado e da política


que podem ser encontradas em diversas de suas obras, e ignorando aqui as diferenças e
similitudes entre os diferentes momentos de sua trajetória intelectual, deve-se constatar, como
faz Ruy Fausto832, que uma rigorosa teoria do Estado se encontra pressuposta em Marx, ou seja,
em nenhum momento de sua obra é feita uma apresentação do Estado, em sentido rigoroso. Não
obstante, “... as categorias de O Capital contêm implicitamente, isto é, pressupõem (no sentido
em que o posto se opõe ao pressuposto como o explícito ao implícito, qualquer que seja o lugar
desse último na ordem da apresentação) uma teoria do Estado. Com efeito, se pode ‘tirar’, da
apresentação de O Capital – não das ‘idéias’ de O Capital – uma teoria do Estado”833.

Nesse sentido, a apreensão, ou melhor, a posição de uma teoria do Estado marxiana


impõe o desenvolvimento de uma análise no plano das formas, que se baseie na apresentação
d’O Capital; o que foi ignorado por muitos teóricos marxistas, que buscaram analisar o Estado
“a partir do conteúdo representado, sobretudo pelas oposições de classes, oposições concebidas
como oposições de interesses. E isto, mesmo quando a análise se pretendia ‘estrutural’”834,835.

reciprocamente autonomizados. Não ocorreria nenhuma crise sem esta unidade interior dos aparentemente indiferentes um ao
outro” (Marx, K. Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. 3 vols. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1980, p.936, tradução modificada com base em Grespan , J. L. O negativo do Capital. São Paulo, Hucitec, 1998, p.
88).
830
Idem, O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.99.
831
“Na medida que compra e venda, os dois momentos essenciais da circulação, são reciprocamente indiferentes, separados no
espaço e no tempo, não precisam de modo algum coincidir. Sua indiferença pode progredir até a consolidação e a aparente
autonomia de um face ao outro. Na medida, porém, que eles forma momentos essenciais de um todo, deve sobrevir um momento
em que a figura autônoma é rompida violentamente e a unidade interior é produzida exteriormente através de uma explosão
violenta” (Marx citado por Grespan, J. L. O negativo do Capital. São Paulo, Hucitec, 1998, p.87).
832
No texto Sobre o Estado, que faz parte do Tomo II da obra Marx: Lógica e Política; Fausto, R. Marx: Lógica e Política –
Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo II. São Paulo: Brasiliense, 1987.
833
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo II. São Paulo:
Brasiliense,1987, p.286.
834
Idem, ibidem, p.286.
835
Segundo Ruy Fausto, a obra de E. Pashukanis, A Teoria Geral do Direito e o Marxismo, constitui a única exceção a esse
quadro, fora alguns trabalhos que estavam sendo produzidos sobretudo na Alemanha, nas décadas de 1970 e 1980, ou seja, na
mesma época em que o próprio Ruy Fausto estava a elaborar o texto que nos serve de referência. Alguns desses trabalhos foram
compilados no livro Estado e Capital, um debate marxista; organizado por J. Holloway e S. Picciotto (cf.1978).
186
Vejamos como Fausto aborda o tema. Segundo ele, deve-se de início desenvolver o
Estado “em sua forma clássica pura”836. Para tanto, o ponto de partida é a contradição existente
entre a aparência e a essência do modo de produção capitalista. Isso remete às primeiras três
seções de O Capital, que tratam respectivamente da “mercadoria e dinheiro”; da “transformação
do dinheiro em capital”; e da “produção da mais-valia absoluta”.

Nos três capítulos iniciais dessa obra, que compõe a sua primeira seção, é apresentada a
aparência do modo de produção capitalista, a esfera da circulação simples, na qual existem
apenas indivíduos iguais, que livremente trocam suas mercadorias, pautados pelo princípio da
equivalência. Nas palavras de Marx, a esfera da circulação é o “verdadeiro éden dos direitos
naturais do homem. O que reina é unicamente Liberdade, Igualdade, Propriedade e Bentham”837.

Na segunda seção de O Capital, que corresponde ao capítulo IV da obra, a esfera da


aparência sofre uma primeira negação. O surgimento do capital impõe que se deixe a esfera da
circulação simples, e se adentre a da produção, na qual é feita a distinção dos agentes
econômicos em trabalhadores e capitalistas, ou entre aqueles que dispõem dos meios de
produção e de capital em forma dinheiro, e aqueles que possuem apenas sua força de trabalho, e
que devem aliená-la como mercadoria para subsistir. Entretanto, como não se esgota a
apresentação do processo de valorização do valor, não se tratando do movimento de reprodução
do capital, este é posto apenas “como pressuposição externa”.

Já nos capítulos que compõem a terceira seção da obra, o movimento do capital se


enriquece em determinações, e se mostra como a relação entre trabalho e capital é
essencialmente desigual, nada restando do princípio de equivalência que vigora no plano da
circulação. Não me deterei neste momento; entretanto, deve-se chamar a atenção para algo que
julgo relevante. Nas palavras de Grespan:

Tal como na realidade do sistema capitalista, as formas mais abstratas sempre se


integram como momento das mais concretas, apresentadas depois e a partir delas, embora ambas
oponham-se dialeticamente. E mesmo com esta oposição, o nível mais abstrato não chega a
configurar uma totalidade da mesma envergadura que o mais concreto, o que constituiria uma
contradição ‘para si’ e fundaria um quadro categorial novo. Apesar de, dialeticamente, a
exposição ter uma forma recursivo-progressiva, com o que vem depois sendo pressuposto do que
vem antes, tanto quando este é daquele, há um domínio das formas mais ricas e complexas, nas
quais as mais abstratas e iniciais não são eliminadas, mas redefinidas em seu papel. Daí que o

836
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo II. São Paulo:
Brasiliense,1987, p.290.
837
Marx, K. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988,
p.145.
187
caminho da exposição categorial seja o da concreção, no sentido do ‘concreto como síntese de
múltiplas determinações’ contraditórias, como diz a Introdução de 1857838.

Dessa maneira, ao passarmos da esfera da aparência para a esfera da essência, a primeira,


apesar de negada, não é suprimida; ao contrário, a esfera da produção põe e pressupõe a esfera da
circulação, mas a relação entre as duas não é de equivalência: a esfera da essência em certo
sentido prepondera sobre a esfera da aparência.

Segundo Ruy Fausto, a apresentação do Estado deve partir justamente dessa contradição
entre aparência e essência, e não da contradição de classe, como já foi dito; mesmo porque na
esfera da circulação nem mesmo há classes ou contradição, e na esfera da produção simples “a
contradição não é suficiente para uma apresentação rigorosa do Estado”839.

Assim, em primeiro lugar, deve-se constatar que aquela relação de troca de equivalentes
entre indivíduos iguais, que existe na esfera da circulação simples, não é meramente uma relação
econômica, na qual os indivíduos são suportes: ela é também uma relação jurídica, que existe
nesse momento independentemente do Estado. Nos dizeres de Marx,

As mercadorias não podem por si mesmas ir ao mercado e se trocar. Devemos, portanto,


voltar os olhos para seus guardiões, os possuidores de mercadorias. As mercadorias são coisas e,
conseqüentemente, não opõem resistência ao homem. Se elas não se submetem a ele de boa
vontade, ele pode usar de violência, por outras palavras, tomá-las. Para que essas coisas se
ponham em relação umas com as outras como mercadorias, é necessário que os seus guardiões se
relacionam entre si como pessoas, cuja vontade reside nessas coisas, de tam modo que um,
somente com a vontade do outro, portanto cada um apenas mediante um ato de vontade comum a
ambos, se aproprie da mercadoria alheia enquanto aliena a própria. Eles devem, portanto,
reconhecer-se reciprocamente como proprietários privados. Essa relação jurídica, cuja forma é o
contrato, desenvolvida legalmente ou não, é uma relação de vontade, em que se reflete a relação
econômica. O conteúdo dessa relação jurídica ou de vontade é dado por meio da relação
econômica ela mesma (...). As pessoas só existem, reciprocamente, como representantes de
mercadorias e, por isso, como possuidores de mercadorias. Veremos no curso do
desenvolvimento, em geral, que os personagens econômicos encarnados pelas pessoas nada mais
são do que personificações das relações econômicas, e é como portadores destas que elas se
defrontam840,841.

838
Grespan, J.L. A Dialética do Avesso. In: Marxismo e Ciências Humanas. São Paulo: Xamã/CEMARX/IFCH, 2003, pp.41-42,
grifos meus.
839
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo II. São Paulo:
Brasiliense,1987a, p.294.
840
Marx, K. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro I, Tomo I, 1988
p.79, tradução modificada com base em Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido
da Dialética. Tomo II. São Paulo: Brasiliense,1987a, p.295.
841
Dessa passagem, como aponta Ruy Fausto, pode-se depreender a refutação das usuais concepções acerca da relação entre infra
e superestrutura, já que a “relação jurídica (...) se acha no próprio nível da relação econômica” (Fausto, R. Marx: Lógica e
Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo II. São Paulo: Brasiliense, 1987, p.296). Para o
autor, as noções de infra-estrutura e superestrutura podem ser mantidas, conquanto elas sejam tomadas como ‘níveis’ [“termo que
por si só já não é bom”] justapostos e isto, mesmo se se supuser que há não só condicionamento mas também causalidade
recíproca, etc.” (idem, ibidem, p.298).
188
A tarefa agora é se passar dessa relação jurídica, que aparece como plenamente
circunscrita à sociedade civil, ao Estado. Isso se faz de maneira simples, na medida em que a
relação jurídica pressupõe a lei, a qual é posta pelo Estado: “A lei enquanto lei é posta pelo
Estado, O direito se torna [assim] direito positivo”842. No entanto, é necessário agora explicar por
que ocorre a posição da lei pelo Estado.

Para começar a responder essa questão, Ruy Fausto remete ao conceito de ideologia, que
cumpriria papel semelhante à posição da lei pelo Estado, nesse momento da apresentação. Assim,
quando o Estado estabelece a mencionada relação jurídica como lei, ou seja, quando ele através
da legislação nega o momento essencial, marcado pela desigualdade entre os diferentes
indivíduos, ele busca afastar a contradição que existe entre as esferas da aparência e da essência.
Entretanto, é somente com isso que pode se dar a inversão da aparência em essência. Em outras
palavras, ao negar a essência pondo legalmente a aparência de igualdade entre contratantes, o
Estado permite a existência ou a posição da desigualdade essencial que por sua vez nega a
aparência843. Por isso, “a negação é posição e a posição negação”844, e “o negado se apresenta
como posto e o posto como negado”845.

Mas com tudo isso ainda não se respondeu à questão do por que o Estado põe a lei. Isso
acontece, segundo Ruy Fausto, pela própria inversão (que ele chama “interversão”), ou porque a
lei “contém em si o princípio do seu contrário”846, ou, “como diz Marx, é uma lei que não se
efetiva, que não obedece a si mesma e a que não se obedece senão pela sua transgressão”847.
Pensemos na relação entre um trabalhador e um capitalista. Caso eles estabeleçam uma relação
de troca, ou caso o trabalhador aceite vender sua força-de-trabalho a um preço que o capitalista
está disposto a lhe pagar, a lei foi ao mesmo tempo obedecida e negada, já que na fábrica o
trabalhador será reduzido à condição de capital variável e produzirá uma mais-valia que será

842
Idem, ibidem, p.297.
843
O que remete, entre outras obras, à Questão Judaica: “Mas a supressão política da propriedade privada não abole unicamente
a propriedade privada; pressupõe de fato a sua existência. O Estado elimina, à sua maneira, as distinções estabelecidas por
nascimento, posição social, educação e profissão, ao decretar que o nascimento, a posição social, a educação e a profissão são
distinções não políticas, ao proclamar, sem olhar a tais distinções, que todo o membro do povo é igual parceiro na soberania
popular, e ao tratar do ponto de vista do Estado todos os elementos que compõem a vida real da nação. No entanto, o Estado
permite que a propriedade privada, a educação e a profissão atuem à sua maneira, a saber: como propriedade privada, como
educação e profissão (...) Longe de abolir estas diferenças efetivas, ele só existe na medida em que as pressupõe; apreende-se
como Estado político e revela a sua universalidade apenas em oposição a tais elementos” (Marx, K. Grundrisse: foundations of
the critique of political economy. London; New York Penguin Books associada à New Left Review, 1993, p.44).
844
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo II. São Paulo:
Brasiliense,1987a, p.299.
845
Idem, ibidem, p.300.
846
Idem, ibidem, p.300.
847
Idem, ibidem, p.301.
189
apropriada pelo capitalista, reproduzindo na esfera da essência a profunda desigualdade essencial
que existe entre ambos os “agentes econômicos”.

Ou seja, ao ser obedecida, a lei da troca de equivalentes é transgredida, e da mesma forma,


caso seja transgredida (caso se questione a desigualdade presente na esfera da produção), ela é
obedecida. De todo modo, “se a possibilidade real da transgressão está dada, se compreende
porque a ideologia e o Estado são necessários”848.

No entanto, o Estado também age de uma outra maneira, diferente da ideologia, a saber,
“na forma da força material e da violência”849, seja da forma preventiva ou repressiva. Em ambos
os casos ele é violência, o que leva Marx a dizer que o poder do Estado é a “violência
concentrada (...) da sociedade”850. De um lado, essa violência está ligada à aparência, fazendo
com que os contratos se efetivem e sejam respeitados. De outro, através da violência do Estado,
“a violência que se encontra na essência da sociedade civil, se manifesta”851 - assim, a violência
do Estado só pode ser explicada caso seja relacionada à aparência e à essência da sociedade.

Vimos, então, que a violência do Estado pôs (fez aparecer) a violência da sociedade civil;
entrementes, enquanto esta última violência nega a aparência da sociedade civil, a violência do
Estado tanto nega o momento da igualdade, quanto o realiza. Mas a forma de manifestação da
violência do Estado difere daquilo que ela realmente é, ou seja, sendo a essência dessa violência
contraditória, sua aparência nega a essência. A lei que garante a equivalência das trocas entre
agentes iguais nega e é negada pela essência da sociedade civil, constituída por capitalistas e
trabalhadores, e caracterizada, portanto, vale repetir, pela desigualdade. No entanto, como o que
aparece é a igualdade, a contestação desta em contraposição à desigualdade essencial surge como
violência. Assim, a violência do Estado, posta contra a transgressão da lei que garante a
equivalência das trocas entre agentes iguais (uma transgressão da transgressão), aparece como
reação ou contra-violência da transgressão (aparentemente violenta). O que é violência aparece
como contra-violência, e o que é contra-violência aparece como violência.

Em outras palavras, existe uma violência essencial, que consiste na desigualdade que
prepondera na esfera da produção; no entanto tal esfera põe como sua aparência a plena
igualdade entre os indivíduos da sociedade civil, a qual por sua vez é garantida por lei, posta pelo
Estado. Ao se questionar aquela desigualdade essencial, o que forçosamente atenta contra a

848
Idem, ibidem, p.301.
849
Idem, ibidem, p.301.
850
Marx citado por Fausto, R. ibidem, p.302.
851
Idem, ibidem, p.302.
190
aparência da sociedade civil onde todos são proprietários livres e iguais - e o que é o mesmo que
se transgredir a lei-, realiza-se aparentemente uma violência. E nesse sentido, o Estado, ao
empregar a violência contra o transgressor, parece realizar uma contra-violência.

Nas palavras de Ruy Fausto, resumindo os resultados alcançados até o momento,

A sociedade civil é não-violência e violência, igualdade e desigualdade, já que os


primeiros termos das dualidades, os quais representam a aparência, se intervertem nos últimos
que constituem a essência. O Estado põe o primeiro momento – que já remete tanto ao econômico
como ao jurídico – enquanto lei. Através disso, o primeiro momento é separado do segundo, mas
serve por isso mesmo a interversão do primeiro no segundo. O momento da não-violência e da
igualdade é assim posto no nível do Estado. Mas pelo próprio fato de que não é posto
isoladamente senão para que ele se interverta, a violência e a desigualdade que constituem o
segundo momento devem também aparecer e aparecem enquanto violência do Estado. Entretanto,
porque o primeiro momento da sociedade civil é posto isoladamente, a violência do Estado
aparece como contraviolência. Há uma ilusão da sociedade civil que consiste em apresentar a
violência e a desigualdade como não-violência e igualdade. Esta ilusão é posta no nível do
primeiro momento do Estado. O Estado configura a ilusão da sociedade civil. Em segundo lugar,
há desmistificação, a essência aparece enquanto violência do Estado. Mas pelo fato de que a
aparência enquanto aparência é posta no nível do Estado, este desvelamento da ilusão não é
revelação da essência mas nova transfiguração. Se na posição do primeiro momento, a violência
(que ele contém ‘em si’) aparecia como não-violência (pelo fato de que o segundo momento era
bloqueado), na posição da violência, a violência, reposta, aparece como contraviolência852.

Mas é possível fazer um desenvolvimento do Estado num outro sentido. O Estado não
apenas põe através da lei a “universalidade abstrata” da sociedade civil, composta por “átomos
iguais ligados apenas pelo laço ‘externo’ do contrato”853; ele também contém um outro momento,
no qual os membros do sociedade aparecem como cidadãos. Ruy Fausto chama esse momento de
universalidade concreta, no qual não se trata de um agregado de átomos, mas de uma
comunidade, uma “totalidade anterior às partes”. A passagem a esse momento já está inscrita na
própria posição da universalidade abstrata, na medida em que “é necessário que os átomos
tenham sido postos enquanto não-átomos para que a posição da sua totalidade enquanto
totalidade de átomos seja possível”854. Assim, “o direito posto supõe a comunidade”855.

Quando se passa, por meio da inversão, da aparência para a essência da sociedade civil,
tem-se não só a passagem da não-violência à violência, mas a passagem do abstrato ao concreto,
ou de uma relação entre iguais contratantes para uma relação entre capitalistas e trabalhadores.
Assim, no próprio movimento de interversão da sociedade civil está dado o movimento de
concreção; mas esse movimento também aparece de maneira ilusória, pois o concreto surge

852
Idem, ibidem, p.304-305.
853
Idem, ibidem, p.305.
854
Idem, ibidem, p.306.
855
Idem, ibidem, p.306.
191
como universal, escamoteando a profunda clivagem social que existe, a própria existência de
classes. Ou seja, enquanto na sociedade civil “o concreto é o concreto da particularidade de
classe”, no Estado enquanto comunidade ilusória, o concreto aparece como universal.
Novamente nas palavras de Fausto, “o desdobramento do Estado em universal abstrato e
universal concreto repõe o desdobramento da sociedade civil em universal e particular, e esse
movimento da sociedade civil é já em si passagem ao universal concreto (à comunidade), mas, se
se poderia dizer, universal concreto particular, ‘comunidade de particulares’”856.

Antes de prosseguirmos, deve-se, assim como faz Ruy Fausto, chamar novamente a
atenção para o fato de que a expressão “comunidade ilusória” não suprime o termo
“comunidade”, mas “o nega no sentido da Aufhebung 857 ” 858 . Assim, a comunidade é um
pressuposto do Estado, e a ilusão advém da posição da comunidade como posta, e não
pressuposta859 . Isso implica em circunscrever essa teoria do Estado nos limites históricos do
capitalismo, ao mesmo tempo em que não a corta “de todo o discurso geral”860.

Toda essa apresentação do Estado no nível das formas, como se pode perceber, foi feita
“num tempo categorial de contemporaneidade”, ou seja, os diferentes momentos lógicos que
foram expostos ocorrem simultaneamente. A partir desse momento, e como parte final de seu
texto, Ruy Fausto busca tecer algumas considerações e análises acerca do Estado contemporâneo,
e para tanto, ele parte das leis de desenvolvimento da sociedade civil.

Como ele havia mostrado, o Estado exerce uma função de “guardião da identidade” do
sistema, atuando no sentido de garantir a existência da sociedade civil, na medida em que busca
impedir que suas contradições a conduzam ao colapso. Segundo o autor, Marx teria subestimado
a capacidade do Estado no sentido de “equilibrar” o modo de produção capitalista, um erro que

856
Idem, ibidem, p.308.
857
Na Lógica, Hegel nos conta que “Aufhebung tem sentido duplificado na língua, de modo que significa tanto como conservar,
preservar, fazer cessar, dar um fim” (passagem da Lógica de Hegel em Meneses, p. 11). A essa explicação, Marcelo Backes em
suas notas à tradução da Sagrada família acrescenta que “lingüisticamente, ele [o verbo aufheben] significa ‘levantar’ (qualquer
coisa do chão), ‘guardar’ (no sentido de ‘conservar’ um objeto, por exemplo), e ‘suspender’ (a revogação da vigência de uma lei,
por exemplo)...” (Marx, K. A Sagrada Família. São Paulo: Boitempo Editorial, 2005, p. 12). Desse modo, nota-se como é difícil
encontrar um termo na língua portuguesa que dê conta dessa multiplicidade de sentidos de Aufhebung, o que justifica as diversas
tentativas que já foram feitas. Aqui se opta por traduzi-lo por superação.
858
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo II. São Paulo:
Brasiliense,1987a, p.309.
859
Vale a pena chamar atenção, como faz Ruy Fausto, para o fato de que a questão das pressuposições do Estado nos remetem ao
caráter essencialmente histórico da análise de Marx. Em primeiro lugar, a condição de pressuposição ou posição da comunidade
corresponde à divisão marxiana entre pré-história e história da humanidade (sobre a qual falaremos mais adiante). Além disso, a
maneira como se dá a posição da pressuposição muda em diferentes épocas. Além disso, diga-se de passagem que, como Marx já
havia desenvolvido na Questão Judaica, e como reitera na Crítica ao Programa de Gotha (p. 239), deve-se ter claro ao se falar
do Estado que este assume diferentes feições nas diferentes realidades históricas de cada país. Desse modo, falar-se do Estado de
maneira genérica, sem se levar em conta as especificidades nacionais, só se faz possível num elevado grau de abstração.

192
deve ser sanado por qualquer tentativa de se atualizar a teoria marxiana do Estado,
principalmente tendo-se em vista a atuação do Estado durante boa parte do século XX (seja o
Estado Desenvolvimentista que existiu em diversos países periféricos, seja o chamado Estado de
Bem-Estar Social, nos países centrais).

Trabalhando ainda num nível bastante abstrato, Ruy Fausto busca analisar as formas de
intervenção do Estado, que mudam, sobretudo de intensidade, em diferentes momentos do
capitalismo, e desse modo, existem inclusive nos períodos de vigência do “Estado clássico”.
Assim, ele distingue entre a ação do Estado no sentido de regulamentar a concorrência, da sua
atuação no sentido de intervir nas relações entre capitalistas e trabalhadores, e essas duas da
intervenção do Estado como agente econômico, principalmente através das empresas estatais.

Aquela primeira forma de intervenção, segundo Ruy Fausto, busca reduzir os riscos e
assegurar “uma racionalidade menos irracional ao modo de produção” 861 , pois através da
concorrência é que “se efetivam as leis do sistema”, ao mesmo tempo em que “irrompem as
[suas] contradições”862. Logo, quando o Estado, mediante a sua atuação, busca garantir as leis do
sistema, mas contendo as crises, ele acaba por substituir, em certo sentido, a própria
concorrência. “É, assim, como se a essência do modo de produção abrisse caminho se libertando
da sua aparência”863.

A segunda forma de intervenção do Estado consiste no reconhecimento jurídico da


assimetria que existe entre as partes contratantes quando se relacionam juridicamente os patrões
e os empregados. Essa mudança do direito positivo, ocorrida algumas décadas após a morte de
Marx, e que se relaciona à luta entre trabalho e capital, dá cabo da aparência de igualdade entre
as partes contratantes, e tem implicações sobre a própria forma do contrato de trabalho, que
passa a ser em muitos casos coletivo, e não mais individual. Entretanto, mesmo significando uma
desmistificação da aparência do sistema, essa mudança não implica na revelação da essência e
das suas contradições, na medida em que não se reconhece o próprio contrato como aparente; ao
contrário, substitui-se uma aparência por outra, agora marcada pela diferença, e não mais pela
igualdade. Nas palavras de Ruy Fausto, “No capitalismo contemporâneo não é mais a identidade
mas a diferença que oculta a contradição (...). A diferença (...) revela a contradição, no sentido,

860
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo II. São Paulo:
Brasiliense,1987a, p.310.
861
Idem, ibidem, p.316.
862
Idem, ibidem, p.315.
863
Idem, ibidem, p.316.
193
negativo, de que questiona a identidade, mas ao mesmo tempo a mistifica. A diferença enquanto
categoria objetiva (não enquanto fim) é talvez a categoria fundamental do reformismo”864.

Assim, a desigualdade essencial do sistema aparece, mas tal qual a violência e o concreto,
ela o faz de maneira mistificada: no caso, não como contradição, mas como diferença. Não
obstante, essa aparição, que se dá apenas com a análise das leis do desenvolvimento da sociedade
civil, acaba por suprir uma “carência” da análise feita “no nível da pura contemporaneidade do
sistema”, pois “Na oposição das determinações correspondentes à dualidade aparência/essência
da sociedade, oposição que separa a igualdade (identidade)-abstração-não-violência – da
desigualdade (contradição)-concretização-não-violência, faltava precisamente a aparição da
desigualdade”865.

Mas a aparição da desigualdade como diferença produz outros desdobramentos, na


medida em que obriga o Estado a se “preocupar” com as diferenças que existem entre os
diferentes membros da sociedade, tendo inclusive que garantir o bem-estar da população como
um todo. Assim, o Estado passa a aparecer também como comunidade econômica, que é ilusória
da mesma maneira que a comunidade política. Ora, assim como esta última, agora o Estado
pressupõe uma comunidade econômica, mas a sua forma de manifestação também é mistificada
e mistificadora. “Dizer que o Estado pressupõe uma comunidade significa que o Estado assume a
realização de certas tarefas, mas que ele as realiza no interior das exigências formais do sistema,
sistema que se baseia na exploração e na dominação de classe”866.

Em outras palavras, ao reconhecer as diferenças, o Estado acaba por “instituir” uma nova
pressuposição – a comunidade econômica -, que possui desdobramentos práticos, de modo que o
Estado é levado a atuar no sentido de garantir um certo nível de bem-estar à população. Ao fazê-
lo, aquilo que está pressuposto aparece como posto, uma ilusão, já que o Estado evidentemente
não pode realizar transformações no sentido de acabar com as desigualdades essenciais do
sistema, o que seria o mesmo que se destruir a si próprio867.

864
Idem, ibidem, p.319.
865
Idem, ibidem, p.320.
866
Idem, ibidem, p.321.
867
Essa questão também já foi tratada por Marx em algumas de suas obras, principalmente nas Glosas Marginais..., na qual é
dito que “Se o Estado moderno tentar superar a impotência da administração [resolvendo as mazelas características da sociedade
civil], ele terá que acabar com a atual vida privada. Se ele tentar abolir a vida privada, ele terá que abolir a si próprio, já que ele
existe apenas em oposição com a vida privada” (Marx, K. Notas Marginais Críticas sobre o Artigo: “O Rei da Prússia e a
Reforma Social. por um Prussiano”. In: Early Political Writings. Cambrigde (USA): Cambrigde University Press, 1995, p. 106-
107). Mas Marx constata que “suicídio é contra a natureza”.
194
Passemos agora à terceira forma de intervenção do Estado. De acordo com Ruy Fausto,
quando o Estado atua como agente econômico, ele busca “preencher uma espécie de vazio” que
redunda da incapacidade dos diversos capitalistas individuais em suprir todas as necessidades do
sistema. Assim, por si só a sociedade civil não consegue se manter, não só em função de suas
contradições, mas também por ter uma atuação “limitada”.

Segundo Ruy Fausto, o Estado tenta resolver essa incompletude da sociedade agindo
sobretudo como um proprietário-capitalista, adquirindo ou criando empresas. Com isso, “tem-se
uma espécie de repetição da pretensa acumulação primitiva, que é na realidade uma expropriação
primitiva: a separação ente os proprietários dos meios de produção e alguns desses meios – mas
isto no interior do sistema”868. Em outras palavras, ocorre a “expropriação dos expropriadores,
no interior do capitalismo”869.

Feita essa apresentação, Ruy Fausto assevera que é a partir do desenvolvimento do


Estado no nível das formas que se pode analisar a questão das relações entre os diferentes
governos e as classes sociais, ou a relação entre os governos e os interesses de classe. Assim,
sobre essa base as diferentes proposições de Marx acerca do Estado e da política, que surgem ao
longo de sua extensa obra, ganham maior interesse e inteligibilidade, e servem de subsídio para a
continuação da apresentação iniciada por Ruy Fausto, com base n’O Capital. Longe de termos a
pretensão de realizarmos essa tarefa, é o caso de procedermos a um pequeno resgate da crítica de
Marx ao Estado e à política. Mas antes é o caso apenas de constatar algumas limitações da
abordagem de Fausto; em primeiro lugar, este autor não busca dar cabo do assunto, mas
sobretudo indicar um caminho para a apresentação do Estado, a qual evidentemente pressupõe
uma análise mais detida sobre a sua origem histórica, e sobre seu desenvolvimento, mediante
uma pesquisa histórica de maior fôlego. Além disso, faz-se necessário levar em consideração não
só a relação entre os governos e as classes sociais, mas também as especificidades nacionais, o
desenvolvimento do comércio exterior e do mercado mundial, entre vários outros fatores. De
todo modo, salta à vista o fato de Ruy Fausto deter suas considerações sobre o desenvolvimento
histórico da forma-Estado em elementos característicos do chamado Estado de Bem-Estar Social,
em um momento em que seus limites já se tornavam evidentes, e se construía o chamado Estado
Neoliberal.

868
Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da Dialética. Tomo II. São Paulo:
Brasiliense,1987a, pp.326-327.
869
Idem, ibidem, p.327.
195
Voltando à tarefa de resgatar brevemente algumas considerações de Marx acerca do
Estado e da política, deve-se deixar claro, antes de mais nada, que a crítica da política é
inextricável das demais críticas marxianas (que incidem fundamentalmente sobre a filosofia e a
economia política), de modo a alertar para as limitações desse procedimento e os riscos que
correrei em diversos momentos do presente texto ao isolar a crítica da política e do Estado do
conjunto que perfaz o pensamento de Marx

Acredito não ser o caso de remeter fartamente aqui ao período que antecede à entrada de
Marx na Universidade de Berlin, e, portanto, anterior ao seu contato com o pensamento de Hegel,
apesar da evidente importância do meio familiar, do tipo de educação que ele recebera nesse
período e de todo o contexto histórico em que Marx começara sua vida; e apesar da perspicácia,
da dedicação e das preocupações com questões sociais que ele já demonstrara desde a sua
adolescência. Isso porque foi justamente o brusco e intenso diálogo que Marx se viu forçado a
estabelecer com Hegel, em função da hegemonia do hegelianismo em Berlin, que o levou a
adentrar um turbulento período de superação de sua antiga base filosófica, o idealismo subjetivo
ou idealismo “romântico” de inspiração kantiana e fichteana, e começar o árduo processo de
assimilação crítica da dialética de Hegel e de construção de seu próprio pensamento, que se
estenderia por muitos anos.

A fase que compreende a primeira metade da década de 1840 constitui para Marx um
momento de intensa atividade intelectual, repleto de vicissitudes e radicais transformações, que
teve como resultado uma esplêndida produção teórica, cheia de continuidades e rupturas - das
quais irei apontar algumas, na seqüência, atribuindo-lhes a importância que lhes é devida; e
dessa forma, tomando muito cuidado para não incorrer no erro de apresentar um Marx como que
amadurecendo intelectualmente de maneira linear e homogênea, e tampouco cometer o erro
oposto, e enfatizar exageradamente nas descontinuidades e no caráter “não-sistemático” desse
processo.

É sabido que, após um curto período de completa negação da filosofia de Hegel, Marx
passa a abraçá-la com não menos fervor, apesar das grandes restrições que ele levantava em
relação ao conservadorismo de Hegel, principalmente no que tange à sua filosofia política,
entendida como uma apologia ao estado prussiano. Sabe-se também que esta postura aproximou
Marx dos “jovens hegelianos”, ou “hegelianos de esquerda”, e da filosofia da autoconsciência,
que impunha a submissão de todo o existente à razão, ou melhor, que considerava que o
existente devia necessariamente ser transformado até se encontrar em conformidade com a razão.

196
Nesse sentido, obviamente, os jovens hegelianos se afastavam de Hegel, para o qual o existente
já havia sido transformado e já era em-si, por-si e para-si racional.

No entanto, apesar da pretensão de manter uma postura radicalmente crítica, os jovens


hegelianos simplesmente atribuíam as limitações e o conservadorismo do sistema filosófico de
Hegel ao seu comprometimento com a monarquia prussiana, ou seja, a um fator externo ao seu
pensamento, rechaçando seu sistema filosófico, mas se apropriando de seu método870. E esse
ponto marcava a separação de Marx em relação a esses pensadores, que só viria a aumentar com
o passar do tempo, pois já nesse momento, começam a despontar traços da sua postura crítica,
que se tornam mais evidentes em sua tese doutoral, escrita entre 1839 e 1841871. Isso porque nela
ele prefere investigar a validade e as limitações de Hegel de maneira imanente, penetrando nas
entranhas dessa filosofia – o que seria o único modo de ir além dela, como pretendiam todos os
membros da esquerda hegeliana.

Não obstante, pouco depois da redação de sua tese, a concepção de Marx sobre a crítica
sofre uma mudança radical. Após terem sido frustradas as suas veleidades de ingressar na
carreira acadêmica em função do recrudescimento do autoritarismo do governo prussiano, que
depois da ascensão de Frederico Guilherme IV ao trono declarou guerra contra o “hegelianismo
de esquerda”, Marx entrou na Gazeta Renana – um periódico criado pela burguesia liberal renana
-, em meio a um processo de radicalização dos ataques neo-hegelianos ao absolutismo alemão.
Durante esse período, Marx, entre outras coisas, toma contato com os “interesses materiais”872,
percebendo na prática os defeitos de seu entendimento acerca da política e do Estado, que ele
então considerava como um elevado produto da razão; conhece o pensamento de Feuerbach; e
ouve os ecos do comunismo e do socialismo que vinham da França e da Inglaterra.

Esses fatos foram determinantes para o rumo que Marx passaria a tomar a partir daí.
Sufocado pela estreiteza da filosofia da autoconsciência; afligido pela discrepância entre seu

870
Desnecessário dizer o absurdo que é, de uma perspectiva dialética, a separação entre método e sistema, forma e conteúdo;
entretanto, vale lembrar que, na Ideologia Alemã, Marx e Engels esclarecem o procedimento adotado por todos os jovens
hegelianos, que consiste em isolar e criticar um aspecto do sistema hegeliano - as suas representações religiosas -, e voltá-lo
contra todo o restante do seu pensamento. Como o sistema de Hegel era muito mais do que uma mera teologia, o conjunto dos
neo-hegelianos não conseguiam mais do que realizar uma critica deveras parcial, deixando todo o restante do edifício teórico
hegeliano intacto, e pior do que isso, assimilando-o acriticamente, e portanto, reproduzindo-o inconscientemente e de maneira
deturpada, piorada.
871
De título As Diferenças das Filosofias da Natureza entre Demócrito e Epicuro.
872
Como diz Marx no célebre Prefácio à Contribuição para a Crítica da Economia Política, no qual ele faz um sucinto relato de
sua trajetória intelectual, na GR ele se vê “em apuros por ter que tomar parte na discussão sobre os chamados interesses
materiais” (Marx, K. Prefácio de 1859 (à obra Para a Crítica da Economia Política). Coleção Os Economistas. São Paulo:
Abril, 1982, p.50): como o antagonismo entre os proprietários dos bosques e os coletores de lenha; a questão do parcelamento da
propriedade fundiária; a situação dos camponeses do vale do Mosela, que redundou na abertura de uma “polêmica oficial” por

197
entendimento acerca do Estado e aquilo que de fato o Estado se lhe aparecia diariamente;
oprimido pelo autoritarismo e pelo atraso da monarquia prussiana; seduzido pela crítica
feuerbachiana à especulação idealista; e interessado pelas novas doutrinas que vinham do centro
dinâmico do capitalismo; Marx deixa a Gazeta Renana e durante alguns meses se dedica aos
estudos, tendo como principal objeto a filosofia hegeliana (mormente a sua filosofia política) e a
crítica dessa filosofia por Feuerbach.

Esse importante e original filósofo partia da crítica à religião (pois essa consistia num
importante alicerce da monarquia prussiana), demonstrando que esta era uma forma de
usurpação da essência humana, ou de alienação dessa essência, que redunda do sofrimento e da
opressão que afligem os homens, os quais, em reação, buscavam alento através da duplicação de
sua existência num plano ideal, perfeito. Em função dessa constatação, Feuerbach acabou por
perceber que essa mesma crítica servia para a filosofia especulativa, pois esta, de maneira geral,
substituía Deus pelo Espírito Absoluto, pela Razão. Em contraposição a isso, Feuerbach propõe
o resgate dos homens efetivos, reais, sensíveis, que formavam a base material sobre a qual se
estruturavam os mundos alienados da religião e da especulação; ou seja, em lugar da hegemonia
do pensado, Feuerbach propugnava a hegemonia do sensível.

É sobre esse fundamento que Feuerbach denuncia a inversão sujeito-predicado


característica da filosofia hegeliana, e todo o seu misticismo. Segundo a crítica de Feuerbach,
Hegel fazia das idéias - os produtos ou os predicados dos homens reais -, os sujeitos onipotentes,
ao mesmo tempo em que fazia dos homens - os verdadeiros sujeitos -, meros produtos ou
predicados. Em conformidade com isso, Feuerbach considera tudo aquilo que foge ao sensível,
ao imediato, como uma “fantasmagoria”, uma alienação; e assim, ele critica duramente as
mediações hegelianas e seu recurso ao método abstrativo. Deslumbrado com esse novo universo
teórico construído por Feuerbach, Marx se apropria de seus pontos fundamentais para realizar
sua própria critica à filosofia do Estado de Hegel.

Desse modo, logo de saída já fica evidente o profundo imbricamento entre a crítica à
religião, a crítica à filosofia, e a crítica à política: nesse momento, Marx considera que, com
Feuerbach, “a crítica da religião foi em grande parte completada e a crítica da religião é o
pressuposto de toda a crítica”873,874. No entanto, Marx percebe problemas no pensamento de

parte do governador da província renana; e as discussões sobre o livre-comércio (idem, Prefácio de 1859 (à obra Para a Crítica
da Economia Política). Coleção Os Economistas. São Paulo: Abril, 1982, p.50).
873
Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, in: Marx, K. Manuscritos Econômico-Filosóficos e outros textos
escolhidos. Lisboa: Edições 70, 1993, p. 77.
198
Feuerbach, pois este se preocupava demais com a natureza, e descuidava da política, como
podemos ler em uma carta de Marx a Ruge, de 13 de março de 1843. Nessa mesma carta,
também é dito que “Esta [a aliança entre filosofia e política] é a única aliança pela qual a
moderna filosofia pode transformar-se numa verdade”875, o que demonstra a importância que
Marx atribui à política, nesse momento. No sentido de ultrapassar aquela limitação do
pensamento de Feuerbach, ele se debruça sobre Hegel, ou seja, realiza uma crítica da política
através da crítica, nos moldes feuerbachianos, do que havia de melhor na filosofia política.

Como resultado dessa empreitada, nosso autor percebe que o Estado, longe de ser a
encarnação da razão, ou um produto da autoconsciência humana – o que ele afirmava
peremptoriamente ainda no período da Gazeta Renana876, é na verdade uma forma de alienação
ou uma expropriação brutal das forças sociais. E mais do que isto, Marx percebe que não é
possível compreender o Estado por ele mesmo, na medida em que ele não é uma espécie de
entidade autônoma, mas sim que ele possui suas bases na sociedade civil.

Segundo J. Chasin, através dessa crítica a Hegel, totalmente esteada em Feuerbach, Marx
descobre a “determinação onto-negativa da politicidade”877, ou seja, percebe que a politicidade
não faz parte da essência humana, sendo um predicado do ser social, ao contrário, apenas ao
longo de sua pré-história, ou seja, antes da emancipação humana.

Na Crítica à Filosofia do Direito de Hegel, escrita entre maio e setembro de 1843, o tema
da inversão sujeito-predicado possui papel central. Assim, sabe-se que na sua Filosofia do
Direito, Hegel propugna que o Estado é a verdade da sociedade civil, assim como a sociedade
civil é a verdade da família. A isso, Marx responde que “... o Estado político não pode existir
sem a base natural da família e a base artificial da sociedade civil; ambas constituem a sua
condittio sine qua non, mas esta condição é formulada como sendo o determinado, o
determinante como sendo o determinado”878. Além disso, Marx enfatiza o profundo antagonismo
entre a sociedade civil e o Estado, este último sendo visto como um expurgo das forças sociais,
uma alienação, a qual deveria ser eliminada através da supressão do Estado político, como

874
Isso porque, segundo ele, a crítica da religião logra dois avanços fundamentais: torna conhecido o imperativo de se realizar a
plena emancipação do homem, como pressuposto para o seu livre desenvolvimento e para a sua felicidade; e constata que a
consciência e a realidade efetiva são indissociáveis.
875
Marx citado por Netto, J. P. A Crítica de 1843. Revista Escrita/Ensaio no 11/12. São Paulo, 1983, p. 189.
876
Por exemplo, “um Estado que não é a realização da liberdade racional é um mal Estado” (Marx em Barsotti, p. 55); e “... o
Estado como um grande organismo no qual a liberdade jurídica, ética e política devem alcançar sua própria realização, e no qual
o cidadão singular, obedecendo às leis do Estado, obedece somente às leis naturais da sua própria razão, da razão humana” (Marx
em Enderle, 2000, p. 20).
877
Chasin, J. Marx – Estatuto Ontológico e Resolução Metodológica. Posfácio ao livro Pensando com Marx, de Teixeira, F. J. S.
São Paulo, Editora Ensaio, 1995, p.367.

199
resultado da efetivação daquilo que Marx chamou de “verdadeira democracia”. Entretanto, vale
dizer, o autor não consegue analisar corretamente as contradições que existem entre o Estado e
sua base material, já que nesse momento, sob influência de Feuerbach, ele freqüentemente nega
as mediações hegelianas e a objetividade das abstrações, negando assim a própria dialética.

Ora, em linhas gerais, essa concepção negativa do Estado e da política e o imperativo de


se abolir a ambos, se mantém no decorrer da obra de Marx, enriquecendo-se em determinações.
Assim, podemos ler na Guerra Civil na França, escrita em 1871, que “Todas as revoluções
anteriores só haviam transferido o poder organizado – essa forma organizada da escravidão do
trabalho – uma mão para outra. A Comuna não foi uma revolução contra esta ou aquela forma de
poder de estado – legitimista, constitucional, republicana ou imperial. Foi uma revolução contra
o próprio estado, esse aborto prodigioso da sociedade; foi a retomada pelo povo, para o povo, de
sua própria vida social”879, 880, 881.

Tão logo Marx percebe que o fundamento, a base material do Estado e de todo o conjunto
que compõe a totalidade concreta, é a sociedade civil, o conjunto das relações sociais de
produção ou o conjunto do intercâmbio material dos indivíduos numa determinada sociedade, ele
passa a perscrutar seu funcionamento, e isso o conduz à economia política, cujo campo de
estudos é justamente essa sociedade. Assim, a crítica da política, realizada através da crítica da
filosofia política de Hegel, conduz Marx à crítica social882.

878
Marx, K. Crítica da filosofia do Direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2005, p.13.
879
Marx citado por Chasin, J. Marx – Estatuto Ontológico e Resolução Metodológica. Posfácio ao livro Pensando com Marx, de
Teixeira, F. J. S. São Paulo, Editora Ensaio, 1995, p.370.
880
Em outro trecho dessa obra, reiterando que a Comuna se tratava da reapropriação pelos operários organizados das forças
sociais que haviam sido concentradas pelo Estado, Marx diz que “O regime comunal teria devolvido ao organismo social todas as
forças que até então vinham sendo absorvidas pelo Estado parasitário, que se nutre às custas da sociedade e freia seu livre
desenvolvimento” (Marx, K. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural: Livro
III, tomo IV. 1986, p.75), e teria instituído o “auto-governo dos produtores. Não é, pois, à toa que Marx identificava a experiência
da Comuna ao comunismo: “A Comuna aspirava à expropriação dos expropriadores. Queria fazer da propriedade individual uma
realidade, transformando os meios de produção, a terra e o capital, que hoje são fundamentalmente meios de escravização e
exploração do trabalho, em simples instrumentos de trabalho livre e associado. Mas isso é o comunismo, o ‘irrealizável’
comunismo! (...) Se a produção cooperativa for algo mais que uma impostura e um ardil; se há de substituir o sistema capitalista,
se as sociedades cooperativas unidas regularem a produção nacional segundo um pleno comum, tomando-a sob seu controle e
pondo fim à anarquia constante e às convulsões periódicas, conseqüências inevitáveis da produção capitalista – que será isso,
cavalheiros, senão o comunismo, comunismo ‘realizável’?” (idem, Guerra civil na França. In: Karl Marx e Friedrich Engels:
Textos 1. São Paulo: Alfa-Ômega, 1977, p.77).
881
Vide até mesmo o Manifesto Comunista texto que recorrentemente é apontado como francamente contraditório em relação à
Guerra Civil na França. Na p.28, podemos ver que a conquista do Estado pelo proletariado significa o uso de alguns de seus
instrumentos contra a ordem social vigente, no sentido de transformá-la radicalmente e suprimir o próprio Estado e a própria
estrutura de classes.
882
Mas não se pode ignorar a importância do Esboço de uma Crítica da Economia Política, de Engels, para esse processo. Nessa
obra de 1843, Engels visa denunciar a economia política como uma ciência que fala a linguagem do sistema econômico,
reproduzindo e potencializando a lógica da luta desenfreada por lucros. Ao fazer sua análise da economia política, Engels
revitaliza a crítica feuerbachiana à religião e à especulação, direcionando-a a essa ciência (ver Engels, F. Esboço de uma crítica
da economia política, in Engels. São Paulo: Ática, 1981, p. 64).
200
Deve-se também destacar algo fundamental: aquilo que motivou Marx na elaboração de
suas críticas foi a sua revolta contra o próprio metabolismo social capitalista, foi seu
inconformismo em relação às abjetas condições de vida da maior parte das pessoas, foi sua
ojeriza a uma sociedade que existe em função do aumento das riquezas, negligenciando
completamente as verdadeiras necessidades humanas. Assim, as críticas desenvolvidas por Marx
sempre se relacionaram com a transformação completa da ordem vigente, e em todas as obras
que ele produziu nessa fase de sua vida encontramos, formulado de maneiras diversas, um
projeto de radical transformação social.

Como não se pode tratar aqui, uma por uma, das principais obras desse período, em que
Marx formula pela primeira vez alguns elementos essenciais de sua concepção de política e de
Estado, façamos um breve resumo. Entre meados de 1843 (quando é elaborada a Crítica à
Filosofia do Direito de Hegel) e meados de 1844 (quando são produzidos os Manuscritos
Econômico-Filosóficos), ocorreu uma notável evolução no entendimento de Marx sobre o Estado,
o qual de início surge como a realização da autoconsciência, depois como mera fantasmagoria,
ou mera forma alienada, e progressivamente ganha conteúdo material, que primeiro é atribuído
ao morgadio, e logo é encontrado nas próprias relações sociais de produção, ou na dinâmica
capitalista mesma, e se encontra de tal maneira subordinado a tais relações ou à tal dinâmica, que
atentar contra elas significaria atentar contra si próprio. Junto com a concepção de Estado,
obviamente transforma-se a concepção política, que de saída é considerada como um atributo
essencial da humanidade, e logo passa a ser encarada como uma negação do homem, uma
alienação, um expurgo social. Além disso, a compreensão acerca da sociedade civil se altera
profundamente, antes consistindo num conjunto quase que homogêneo de indivíduos isolados,
para pouco depois ser compreendida como o espaço em que se travam as lutas de classes. Ao
mesmo tempo, a saída para a alienação política e para a subordinação à propriedade privada, tal
qual é apontada na Crítica de 43, é a democracia radical, direta, que extrapola a mera forma
política, sendo ao contrário a reapropriação das forças sociais absorvidas pela esfera política,
uma esfera alienada da vida social. Poucos meses depois a democracia redentora é substituída
pela emancipação humana (na Questão Judaica), que na concepção de Marx superaria a limitada
emancipação política; e em ainda menos tempo, a emancipação dá lugar à revolução social (na
Introdução à Crítica da Filosofia do Direito), resultado da união entre a filosofia e a sua base
material, o proletariado. Por fim, e por sua vez, essa concepção é logo substituída pela idéia da

201
revolução socialista, conduzida conscientemente pelo próprio proletariado (nos Manuscritos
Econômico-Filosóficos)883.

É o caso de se chamar a atenção para o fato de que, não obstante a crítica de Marx à
política, que conclui com o imperativo de sua superação, ele reitera desde 1844 - e reafirma até
na Crítica ao Programa de Gotha, de 1875 -, que a revolução é necessariamente um ato político,
na medida em que ela impõe, de uma maneira ou de outra, a remissão ao Estado existente, que
constitui uma força material para a manutenção da ordem. Por exemplo, nas Notas Marginais...,
Marx realiza uma feroz crítica à “compreensão política” afirmando que “Quanto mais
desenvolvida e geral é a compreensão política de um povo, mais o proletariado – ao menos no
começo do movimento – gasta suas forças em estúpidos, e inúteis, derramamentos de sangue.
Por pensar politicamente, ele vê a base de todos os males na vontade todos os meios de resolvê-
los no poder e na superação de uma forma particular de Estado”884. Não obstante, ele diz que a
“Revolução em geral (...) é um ato político. O Socialismo, entretanto, não pode ser realizado sem
uma revolução. Isto requer um ato político na medida em que necessita superar e dissolver”885,886.

Além disso, devemos chamar a atenção para o fato de que a investigação das bases
materiais do Estado levam Marx a desenvolver o chamado “materialismo histórico”, tão mal
compreendido pela maioria dos autores marxistas e pelos críticos de Marx. Na Ideologia Alemã,
na qual é exposta essa concepção acerca da história de maneira um tanto desenvolvida, reitera-se
em diversos momentos que a compreensão da sociedade deve partir da análise das formas de
produção e reprodução material da vida social, a partir da qual é criada a estrutura social, jurídica,
e cultural. Segundo Marx e Engels,

Determinados indivíduos que são ativos produtivamente de modo determinado entram


nessas relações políticas e sociais determinadas (...) A estrutura social e o Estado emergem
constantemente do processo da vida de indivíduos determinados; mas desses indivíduos não
possam aparecer na representação própria ou alheia, e sim como efetivamente são, quer dizer,

883
E todo esse processo de amadurecimento intelectual só pode ser compreendido quando se leva em conta o decisivo contato de
Marx com o movimento proletário socialista e comunista francês e inglês, que além de uma rica produção teórica, ainda
promoviam intensas revoltas e sublevações, como a ocorrida na Silésia, que abalavam a ordem da sociedade burguesa. Foi
justamente essa experiência de Marx que o possibilitou perceber que o proletariado é o elemento ativo de sua emancipação, e
apreender a prática social como a verdadeira mediação ativa, elevando a categoria da práxis a um novo patamar. Ao reabilitar as
mediações, Marx acaba por romper definitivamente com Feuerbach e com o idealismo, ao mesmo tempo em que se reaproxima
criticamente da dialética hegeliana.
884
Marx, K. Notas Marginais Críticas sobre o Artigo: “O Rei da Prússia e a Reforma Social. por um Prussiano”, in Early
Political Writings, Cambrigde (USA), Cambrigde University Press, 1995, p. 112.
885
Idem, ibidem, p. 114.
886
No Manifesto Comunista, como outro exemplo, Marx afirma que “Toda luta de classes é (...) uma luta política” (Marx, K.,
Engels, F. Manifesto Comunista. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo; Rio de Janeiro: Contraponto, 2001, p.17)
202
como atuam, produzem materialmente, portanto como são ativos sob determinados limites,
pressupostos e condições materiais que independem do seu arbítrio887,888.

É com base nisso que Marx irá associar em diversas passagens de sua obra o
desenvolvimento do Estado ao desenvolvimento da grande indústria889.

Na Ideologia Alemã, no bojo de uma análise que busca historicizar a origem do Estado,
Marx e Engels partem da divisão do trabalho, a qual ao mesmo tempo em que torna os
indivíduos cada vez mais dependentes entre si, opõe-nos transformando-os em mônadas que
buscam seus interesses particulares, de tal forma que surge a necessidade do Estado como um
universal ilusório, um elemento agregador e um instrumento de conservação da sociedade. Nas
palavras de Marx,

Essa autofixação da atividade social, esta consolidação do nosso próprio produto num
poder objetivo sobre nós, que escapa do nosso controle, que contraria nossas expectativas, reduz a
nada nossos cálculos é um dos momentos capitais do desenvolvimento histórico [que ocorreu] até
aqui, e precisamente a partir desta contradição entre o interesse particular e o interesse
comunitário, o interesse comunitário toma enquanto Estado uma configuração própria, separada
dos interesses efetivos dos indivíduos e do todo e ao mesmo tempo como comunidade ilusória,
mas sempre sobre a base real dos laços existentes em cada conglomerado de família e de tribo,
tais como [laços de] sangue, linguagem, divisão do trabalho em maior escala e demais interesses
– e particularmente, como desenvolveremos mais adiante, [sobre a base] das classes já
condicionadas pela divisão do trabalho, que se separam em cada aglomerado humano desse tipo,
e das quais uma domina as outras890.

887
Marx, K., Engels, F. A Ideologia Alemã (excertos). In: Karl Marx. Coleção Grandes Cientistas Sociais. São Paulo: Ática,
1989, p.192.
888
Passagens como essa, que podem ser abundantemente extraídas da Ideologia Alemã, e também da Miséria da Filosofia, têm
enormes similitudes com um famoso trecho do já referido Prefácio de 1859, no qual Marx afirma que: “O resultado geral a que
cheguei [através do estudo crítica da Economia Política] e que, uma vez obtido, serviu-me de fio condutor aos meus estudos,
pode ser formulado em poucas palavras: na produção social da própria vida, os homens contraem relações determinadas,
necessárias e independentes da sua vontade, relações de produção estas que correspondem a etapa determinada de
desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção forma a estrutura econômica da
sociedade, a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais
determinadas de consciência. O modo de produção material condiciona o processo em geral da vida social, político e espiritual.
Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência888.
Em uma certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações
sociais de produção existentes ou, o que nada mais é que a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das
quais aquelas até então tinham se movido. De formas de desenvolvimento das forças produtivas essas relações se transformam
em seus grilhões. Sobrevém então uma época de revolução social” (Marx, K. Introdução aos Esboços de uma Crítica da
Economia Política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Abril, 1982b, págs. 51-52). Entretanto, não trataremos aqui dos
problemas dessas proposições, que abriram brechas para leituras extremamente mecanistas e deterministas.
889
Na Guerra Civil na França, Marx afirma que “À medida que os progressos da moderna indústria desenvolviam, ampliavam e
aprofundavam o antagonismo de classe entre o capital e o trabalho, o poder nacional do capital sobre o trabalho, de força pública
organizada para a escravização social, de máquina do despotismo de classe. Depois de cada revolução, que assinala um passo
adiante na luta de classes, revela-se com traços cada vez mais nítidos o caráter puramente repressivo do poder do Estado” (idem,
Guerra civil na França. In: Karl Marx e Friedrich Engels: Textos 1. São Paulo: Alfa-Ômega, 1977, p.70). Da mesma forma, vide
O Manifesto Comunista, 2001, p.10.
890
Marx, K., Engels, F. A Ideologia Alemã (excertos). In: Karl Marx. Coleção Grandes Cientistas Sociais. São Paulo: Ática,
1989, p.199, tradução modificada com base em Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do
Sentido da Dialética. Tomo I. São Paulo: Brasiliense,1987, p.297.
203
Com isso, explicita-se que o Estado exerce uma importante função na manutenção da
ordem existente, dando vazão em forma política e controlando, até certo pondo, os conflitos que
surgem no seio da sociedade, em função das contradições de classe891. “Segue-se disto que todas
as lutas dentro do Estado, a luta entre democracia, aristocracia e monarquia, a luta pelo direito ao
voto, etc., etc., nada mais são do que as formas ilusórias nas quais são conduzidas as lutas
efetivas entre as diversas classes”892,893.

Nesse sentido, Marx e Engels põe o Estado como a “expressão idealista-prática” da


dominação burguesa894. De maneira similar, Marx afirma no Manifesto Comunista que “O poder
do Estado moderno não passa de um comitê que administra os negócios comuns da classe
burguesa como um todo”895. Entretanto, apesar de reiterar em diversos momentos a relação entre
o Estado e os interesses da classe dominante, de modo nenhum essa relação é direta e reflexa,
como fica claro nas análises de Marx acerca dos processos revolucionários de 1848, sobretudo na
França, analisados nas obras As Lutas de Classe na França e o 18 Brumário. Aqui, contrastando
claramente com as proposições de que “Nossa época – a época da burguesia – caracteriza-se,
contudo, por ter simplificado os antagonismos de classe” 896 , e de que o Estado é o comitê
executivo da burguesia, presentes no Manifesto, Marx expõe os ferozes conflitos que existem no
seio da burguesia francesa, dividida entre burgueses democratas, burgueses republicanos,
aristocracia industrial e comercial, aristocracia financeira, etc, que inclusive levam à perda do
poder político, através do golpe de Luis Bonaparte897.

Como anteriormente tratou-se da teoria política pressuposta em O Capital, não tratarei


aqui das obras de “madura” crítica da economia política (os Grundrisse, a Contribuição à Crítica
da Economia Política e O Capital), apesar de serem encontradas nelas diversas e importantes
passagens referentes ao Estado, como a que segue:

891
“... a luta prática desses interesses particulares [das diferentes classes] que sempre vão constante e efetivamente contra os
interesses comunitários e os comunitários ilusórios torna necessária a intervenção e o refreamento práticos pelo interesse
‘universal’ ilusório como Estado” (Marx, K. e Engels, F. A Ideologia Alemã (excertos). In: Karl Marx. Coleção Grandes
Cientistas Sociais. São Paulo: Ática, 1989, p.200).
892
Idem, ibidem, p.199.
893
Diga-se de passagem que essa idéia já havia sido formulada por Marx em meados de 1843, como fica claro numa carta que ele
envia a Ruge, em setembro de 1843: “Tal como a religião é o resumo dos combates teóricos da humanidade, o Estado político é o
resumo de seus combates práticos. O Estado político exprime, pois, dentro de sua forma sub rei publicae, todas as lutas,
necessidades e verdades sociais” (Marx citado por Chasin, no prefácio à Burguesia e Contra-Revolução, p.17).
894
Marx, K. La Ideologia Alemana, Barcelona: Ed. Grijalbo. 1970, p.81.
895
Marx, K., Engels, F. Manifesto Comunista. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo; Rio de Janeiro: Contraponto, 2001,
p.10.
896
Idem, ibidem, p.8
897
“... constituição real da sociedade, que de maneira nenhuma consiste apenas nas classes dos trabalhadores e dos capitalistas
industriais” (Marx, K. Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. 3 vols. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1980, p.928).
204
A forma econômica específica na qual trabalho não-pago se extorque dos produtores
imediatos exige a relação de domínio e sujeição tal como nasce diretamente da própria produção,
ao mesmo tempo em que a determina. Aí se fundamenta toda a estrutura da comunidade
econômica – oriunda das próprias relações de produção, e, por conseguinte, a estrutura política
que lhe é própria. É sempre na relação direta entre os proprietários dos meios de produção e os
produtores imediatos (...) que encontramos o recôndito segredo, a base oculta da construção social
toda e, por isso, da forma política do Estado numa dada época898.

Fiquemos por aqui com esse (tão incompleto) resgate de algumas das proposições de
Marx acerca da política e do Estado, com a esperança de ter fornecido alguns elementos para a
abordagem dessa importante questão que é a concepção marxiana desses momentos tão
fundamentais do modo de produção capitalista.

898
Marx, K. O Capital: crítica da economia política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974, p.907. 205
Biopolítica e biopoder em Negri e Foucault.

Logo no início de Império, Negri e Hardt fazem questão de dizer que as duas referências
fundamentais do livro são a obra O Capital, de Marx, e a A Thousand Plateaus, de Deleuze e
Guattari899. Entretanto, parece-nos que Foucault recebe uma atenção muito maior do que os dois
últimos autores, não só pelo número de referências feitas a ele e o número de páginas em que seu
pensamento é discutido – segundo uma rápida contagem, ele só perde em citações para Marx,
Spinoza e Maquiavel, indo do mais para o menos citado -, mas pela importância de alguns de
seus conceitos para a estrutura do Império. Isso fica claro quando se lê que: “Em muitos sentidos,
a obra de Michael Foucault preparou o terreno para essa investigação do funcionamento material
do mando imperial” 900 , que Foucault também demonstra “a natureza biopolítica do novo
paradigma de poder”901; e quando se leva em conta, por exemplo, que existe uma seção inteira
do livro sobre a questão da biopolítica, e que este conceito, assim como o de biopoder, de
sociedade disciplinar, de sociedade de controle, de governamentalidade, etc., perpassam todo o
livro, recebendo também atenção especial em 5 lições sobre Império.

Neste texto, tentarei analisar o tipo de apropriação que Negri e Hardt fazem do
pensamento de Foucault. Para tanto, retornarei a algumas obras do último, e com isso buscarei
apresentar interpretações diferentes das que fazem os primeiros acerca de conceitos-chave
daquele e da sua trajetória intelectual.

Comecemos pela interpretação que Negri e Hardt dão a algumas noções foucaultianas,
sobretudo às de sociedade disciplinar, sociedade de controle, biopolítica e biopoder (e aqui farei
uso de algumas passagens de Império e de 5 lições sobre Império já citadas anteriormente, no
terceiro capítulo da dissertação). Nas palavras dos autores, “Em primeiro lugar, a obra de
Foucault nos permite reconhecer uma transição histórica, de época, nas formas sociais da
sociedade disciplinar para a sociedade de controle” 902 ; segundo a interpretação deles,
“Sociedade disciplinar é aquela na qual o comando social é construído mediante uma rede difusa
de dispositivos ou aparelhos que produzem e regulam os costumes, os hábitos e as práticas
produtivas. Consegue-se pôr para funcionar essa sociedade, e assegurar obediência a suas regras
e mecanismo de inclusão e/ou de exclusão, por meio de instituições disciplinares (a prisão, a
fábrica, o asilo, o hospital, a universidade, a escola e assim por diante) que estruturam o terreno

899
Cf. Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p.439, nota 4.
900
Idem, ibidem, p.42.
901
Idem, ibidem, p.43.
902
Idem, ibidem, p.42.
206
social e fornecem aplicações lógicas adequadas para a ‘razão’ da disciplina”903. Já a sociedade de
controle deve ser entendida, “em contraste, como aquela (que se desenvolve nos limites da
modernidade e se abre para a pós-modernidade) na qual mecanismos de comando se tornam cada
vez mais ‘democráticos’, cada vez mais imanentes ao campo social, distribuídos por corpos e
cérebros dos cidadãos. Os comportamentos de integração social e de exclusão próprios do mando
são, assim, cada vez mais interiorizados nos próprios súditos. O poder agora é exercido mediante
máquinas que organizam diretamente o cérebro (em sistemas de comunicação, redes de
informação etc.) e os corpos (em sistemas de bem-estar, atividades monitoradas etc.) no objetivo
de um estado de alienação independente do sentido da vida e do desejo da criatividade”904.

Vê-se que a sociedade disciplinar e a sociedade de controle correspondem a duas formas


predominantes de poder, ambas com pretensões totalizantes de domínio sobre múltiplas
instâncias da vida social pelas quais se espraiam. O primeiro tipo de poder, o disciplinar, incide
sobretudo sobre os corpos individuais, e se “encarna” em instituições, seu principal mecanismo
de difusão e consolidação. Já o poder próprio da sociedade de controle visa principalmente ao
“corpo social”, às populações como um todo, e acaba por penetrar fundo na subjetividade
individual de maneira mais sutil, silenciosa e generalizada905.

Para apreender com maior precisão a historicidade dessas formas sociais, recorramos a
outras passagens de Negri. Segundo ele, “Para atualizar a definição [de sociedade disciplinar]
poderíamos dizer que é disciplina aquela que cobre, em uma época contemporânea, todo o tecido
social por meio da taylorização do trabalho, as formas fordistas de solicitação para o controle e
de controle salarial do consumo, até organizar-se nas formas macroeconômicas das políticas
keynesianas906”907, e aqui o espaço da fábrica é paradigmático, pois como diz Negri e Hardt, “...
a produção disciplinar e a sociedade disciplinar tendem a coincidir completamente”908, e “Uma
sociedade disciplinar é, portanto, uma sociedade-fábrica” 909 . Já “Por ‘controle’, no entanto,
entende-se o governo das populações por meio de dispositivos que abarcam coletivamente o
trabalho, o imaginário, a vida. Também a este propósito, dizendo-o em termos atuais, podemos

903
Idem, ibidem, p.42.
904
Idem, ibidem, p.42.
905
“Isto é precisamente onde o salto qualitativo mais importantes precisa ser reconhecido: do paradigma disciplinar para o
paradigma de controle do governo. O mando é exercido diretamente sobre os movimentos de subjetividades produtivas e
cooperantes; instituições são formadas e continuamente redefinidas, ao ritmo desse movimentos; e a topografia do poder já nada
tem a ver basicamente com relações espaciais mas é inscrita, em vez disso, nos deslocamento temporais de subjetividades” (idem,
ibidem, p.340).
906
“O New Deal produziu a mais alta forma de governo disciplinar” (idem, ibidem, p.264).
907
Negri, A. 5 lições sobre Império. Rio de Janeiro, DP&A, 2003, p.104.
908
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p.264.
909
Idem, ibidem, p.264.
207
afirmar que a passagem da disciplina ao controle é hoje representada pela passagem do fordismo
ao pós-fordismo”910.

Portanto, segundo a periodização e caracterização apresentada por Negri em 5 lições


sobre Império911, a sociedade disciplinar corresponderia às “duas fases” da grande indústria,
sobretudo à segunda, onde predomina o “trabalhador de massa”, o “fordismo” como padrão
dominante de consumo, o “keynesianismo” e o “Estado intervencionista”. Já a sociedade de
controle corresponderia à fase subseqüente, onde se tem a hegemonia do trabalho imaterial, do
operário social, do consumo individualizado e do poder imperial.

Diga-se de passagem que às noções de sociedade de disciplina e sociedade de controle de


certa forma corresponderiam, segundo Negri e Hardt, as análises de Foucault acerca das formas
de governo, especificamente a transição da “soberania” para a “governamentalidade”.
Novamente nas palavras dos autores, “Foucault segue esse movimento em sua análise da
passagem no governo europeu entre os séculos XVII e XVIII de ‘soberania’ (uma forma absoluta
de soberania centralizada na vontade e na pessoa do príncipe) e ‘governamentalidade’ (uma
forma de soberania expressa mediante uma economia descentralizada de governo e
administração de bens e populações)”912. E noutro lugar, “Foucault se refere a essa transição do
paradigma de soberania para o de governamentalidade; por soberania ele quer dizer a
transcendência do ponto único de comando acima do campo social, e por governamentalidade
refere-se à economia geral de disciplina que perpassa a sociedade. Preferimos concebê-la como
uma passagem dentro da noção de soberania, como uma transição para uma nova forma de
transcendência”913.

Por fim, cabe apresentar a apropriação que Negri e Hardt fazem dos conceitos de
biopoder e biopolítica, os quais se relacionam diretamente ao de sociedade de controle. Segundo
eles, Foucault demonstra “a natureza biopolítica do novo paradigma de poder” 914 . O termo
biopolítica “designa a maneira pela qual o poder tende a governar indivíduos entre o final do
século XVIII e o começo do século XIX, não somente alguns indivíduos por meio de um certo
número de processo disciplinares, mas o conjunto dos seres que assim constituem a
população” 915 . Mais adiante, pode-se ler que “... a biopolítica marca, pois, a passagem da

910
Negri, A. 5 lições sobre Império. Rio de Janeiro, DP&A, 2003, p.105.
911
Cf. p.76-77 desta dissertação.
912
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p.349-350.
913
Idem, ibidem, p.106.
914
Idem, ibidem, p.43.
915
Negri, A. 5 lições sobre Império. Rio de Janeiro, DP&A, 2003, p.102-103.
208
disciplina, isto é, o controle dos corpos dos indivíduos para o controle como tecnologia de poder
dirigida às populações”916.

Dessa maneira, a biopolítica é a designação da prática do poder na sociedade de controle,


e o biopoder, por seu turno, designa o próprio poder característico desse momento histórico.
Citando os autores, “Biopoder é a forma de poder que regula a vida social por dentro,
acompanhando-a, interpretando-a, absorvendo-a e a rearticulando. O poder só pode adquirir
comando efetivo sobre a vida total da população quando se torna função integral, vital, que todos
os indivíduos abraçam e reativam por sua própria vontade”917, e “O biopoder, portanto, se refere
a uma situação na qual o que está diretamente em jogo no poder é a produção e a reprodução da
própria vida”918.

Logo, é compreensível a centralidade que tais conceitos adquirem em algumas obras de


Negri e Hardt. Como se viu no primeiro e terceiro capítulos deste texto, através da análise que
fazem da atual fase do desenvolvimento capitalista, aqueles autores entendem que se generalizou
um tipo de trabalho, o trabalho imaterial, que é inerentemente autônomo, essencialmente
dependente de dimensões da subjetividade humana que não podem ser subornadas materialmente
ao capital (a criatividade, o afeto, a comunicação, etc.), de tal maneira que a dominação
capitalista adquire caráter político e passa a se dar do exterior do processo produtivo, buscando
açambarcar todos os espaços da sociedade. Assim, faz-se necessário modificar a base de análise
desse modo de produção, cujo desenvolvimento histórico passa a ser visto à luz das
transformações das formas de poder.

Antes de avançarmos vale mencionar também que segundo Negri haveria uma
“contradição” “no próprio Foucault”, em relação ao conceito de biopolítica. Essa noção estaria,
nos primeiros textos em que aparece, “amarrada àquela ‘ciência da polícia’”919, e nos últimos
textos (imagino que Negri se refere aqui aos textos do início da década de 1980, sobretudo ao
terceiro volume do História da Sexualidade), “a biopolítica representaria a passagem do político
ao ético, ou ainda, uma perspectiva de construção ética do corpo, da vida dos prazeres e da vida
920
do trabalho” . Para se livrar das dificuldades, Negri, apoiando-se em “estudiosos
foucaultianos” – que ele não nomeia - diferencia biopoder e biopolítica: “Denomina-se
‘biopoder’ identificando, no caso, as grandes estruturas e funções do poder; fala-se em contexto

916
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p.105.
917
Idem, ibidem, p.43.
918
Idem, ibidem, p.43.
919
Negri, A. 5 lições sobre Império. Rio de Janeiro, DP&A, 2003, p.105.

209
biopolítico ou de ‘biopolítica’ quando, pelo contrário, se alude a espaços nos quais se
desenvolvem relações, lutas e produções de poder”921.

Essas variações no conceito de biopolítica estariam, portanto, relacionadas às distinções


entre momentos da trajetória intelectual de Foucault. Sobre isso, vale aludir a outras duas
passagens de Negri, a primeira na qual ele identifica o “desenvolvimento” das idéias de Foucault
e dos operaístas, dizendo que ambos passaram do “conhecimento à moral e da moral à ética”922.
A outra fala de uma certa transição do pensamento de Foucault do estruturalismo à genealogia,
ou da política à ética: “A passagem desconstrutiva do estruturalismo transforma-se aqui em
passagem genealógica, e se trata da genealogia de nossa existência, e portanto de uma expressão
de potência, ou seja, de uma ética da existência”923.

Passemos à obra de Foucault, a princípio tratando de alguns aspectos de sua trajetória


intelectual. Depois de abrir a Introdução ao segundo volume da obra História da Sexualidade: O
uso dos prazeres constatando que esta obra fora elaborada mais tarde do que o previsto e
assumira uma forma bastante diferente da inicialmente imaginada, Foucault expõe sucintamente
qual era seu projeto de análise, tanto no que tange à “sexualidade”, quanto em termos mais gerais;
fazendo-o, ele acaba por fornecer uma importante base para a reconstituição de alguns
importantes momentos de sua trajetória intelectual. Irei tratar brevemente deles com base na
supracitada Introdução e em diversos outros textos, tentando não incorrer no erro de esvaziá-la,
ignorando e obscurecendo a sua riqueza e complexidade.

Nas palavras de Foucault,

... aquilo a que me atenho – a que me ative desde muitos anos – é a tarefa de evidenciar
alguns elementos que possam servir para uma história da verdade. Uma história que não seria
aquela do que poderia haver de verdadeiro nos conhecimentos; mas uma análise dos ‘jogos de
verdade’, dos jogos entre o verdadeiro e o falso, através dos quais o ser se constitui
historicamente como experiência, isto é, como podendo e devendo ser pensado924.
Na busca por construir essa história da verdade, até o final da década de 1970 ou início da
década de 1980, o esforço de Foucault consistiu sobretudo em analisar “as problematizações
através das quais o ser se dá como podendo e devendo ser pensado”925, e “as práticas a partir das
quais essas problematizações se formam”926. A “arqueologia” daria conta do primeiro objeto de

920
Idem, ibidem, p.106.
921
Idem, ibidem, p.107.
922
Idem, ibidem, p.183.
923
Idem, ibidem, p.181.
924
Foucault, M. História da sexualidade 2: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal, 1984, p.12.
925
Idem, ibidem, p.15.
926
Idem, ibidem, p.15.
210
análise, as problematizações; já a “genealogia” daria conta do segundo, as práticas. De maneira
sintética, Foucault apresenta seu empreendimento da seguinte forma: “Problematização da
loucura e da doença a partir de práticas sociais e médicas, definindo um certo perfil de
‘normalização’; problematização da vida, da linguagem e do trabalho em práticas discursivas
obedecendo a regras ‘epistêmicas’; problematização do crime e do comportamento criminoso a
partir de certas práticas punitivas obedecendo a um modelo ‘disciplinar’”927.

Essa clareza de Foucault em relação aos projetos desenvolvidos e aos resultados obtidos
é acompanhada pela clareza em relação ao fato de que ambos os procedimentos, o
“arqueológico” e o “genealógico”, pressupõem e constituem importantes deslocamentos em
relação a algumas formas usuais ou canônicas de pesquisa. Entretanto, ele assevera a necessidade
de promover “... um terceiro deslocamento a fim de analisar o que é designado como ‘o sujeito’;
convinha pesquisar quais são as formas e as modalidades da relação consigo através das quais o
indivíduo se constitui e se reconhece como sujeito”928.

Tratando especificamente de sua “história da sexualidade”, Foucault esclarece que

Meu projeto era (...) o de uma história da sexualidade enquanto experiência – se


entendemos por experiência a correlação, numa cultura, entre campos de saber [“campos de
conhecimento diversos que cobriram tanto os mecanismos biológicos de reprodução como as
variantes individuais ou sociais do comportamento”929, levando-se em consideração o processo de
formação dos saberes - GM], tipos de normatividade [“conjunto de leis e normas, em parte
tradicionais e em parte novas, e que se apóiam em instituições religiosas, judiciárias, pedagógicas
e médicas” 930 ] e formas de subjetividade [“modo pelo qual os indivíduos são levados a dar
sentido e valor à sua conduta, seus deveres, sentimentos, sensações e sonhos”931, ou ainda as
“formas como os indivíduos podem e devem se reconhecer como sujeitos dessa sexualidade]”932.
No segundo volume de sua História da sexualidade, Foucault decide por levar a cabo a
análise sobre as formas de subjetividade, promovendo o supracitado “terceiro deslocamento”.
Nesse sentido, a tarefa tornou-se “... analisar as práticas pelas quais os indivíduos foram levados
a prestar atenção a eles próprios, a se decifrar, a se reconhecer e se confessar como sujeitos de
desejo, estabelecendo para si e para consigo uma certa relação que lhes permite descobrir, no
desejo, a verdade de seu ser, seja ele natural ou decaído”933.

Em outras palavras;

927
Idem, ibidem, p.15-16.
928
Idem, ibidem, p.11.
929
Idem, ibidem, p.9.
930
Idem, ibidem, p.9.
931
Idem, ibidem, p.9.
932
Idem, ibidem, p.10.
933
Idem, ibidem, p.11.
211
... a idéia era de pesquisar, nessa genealogia, de que maneira os indivíduos foram levados
a exercer, sobre eles mesmos e sobre os outros, uma hermenêutica do desejo à qual o
comportamento sexual destes indivíduos sem dúvida deu ocasião, sem no entanto constituir seu
domínio exclusivo”; ou de que maneira “... o homem ocidental fora levado a se reconhecer como
sujeito do desejo934.
E tal projeto de investigação não é totalmente novo, para Foucault. Num texto de 1982,
ele diz que o propósito de seus esforços teóricos até então foi produzir “uma história dos
diferentes modos de subjetivação do ser humano em nossa cultura”. Nesse mesmo texto, pode-se
ler que “O poder, no fundo, é menos da ordem do enfrentamento entre dois adversários, ou do
compromisso de um com o outro, do que da ordem do ‘governo’”935, o que também denota uma
aproximação da problemática do governo de si, ou das “relações de si para consigo”, que
caracteriza o momento da hermenêutica.

Mas mesmo antes disso, no texto “O que é Esclarecimento?”, de 1978, Foucault afirma
como tarefa a realização da “ontologia histórica de nós mesmos”, a qual “tem que responder uma
série aberta de questões; ela tem que fazer um número indefinido de inquéritos que podem ser
multiplicados e especificados tanto quanto quisermos, mas que vão todos se endereçar às
questões sistematizadas como segue: Como somos constituídos como sujeitos de nosso próprio
conhecimento? Como somos constituídos como sujeitos que exercem ou se submetem a relações
de poder? Como somos constituídos como sujeitos morais de nossas próprias ações?”936,937.

É flagrante a semelhança entre essa sistematização, e àquela que vimos caracterizar o


projeto da história da sexualidade. E em ambos os projetos aparece a necessidade da investigação
do “eixo da ética”, que corresponde ao que foi chamado de “hermenêutica”938. Entretanto, é o
caso de frisar que essa hermenêutica não se trata de um certo “retorno do sujeito”; ao contrário,
como constata Foucault, uma exigência para se apreender a “sexualidade como experiência” é “...

934
Idem, ibidem, p.11.
935
Idem, Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 1999, p.342.
936
Idem, What is Enlightenment? In: Rabinow, P. (ed) The Foucault reader. Londres: Peguin Books, 1984, p.49.
937
Nesse texto, Foucault defende um projeto crítico, o de realizar “a ontologia histórica de nós mesmos” (idem, ibidem, p.49),
que tem como ponto fundamental saber como se pode dissociar o “crescimento das capacidades” da “intensificação das relações
de poder” (idem, ibidem, p.48), o que conduz ao estudo dos “sistemas práticos”, “das formas de racionalidade que organiza suas
maneiras de fazer coisas (...) e a liberdade na qual eles agem dentro desses sistemas práticos, reagindo ao que os outros fazem,
modificando as regras do jogo, até certo ponto” (idem, ibidem, p.48). E esses sistemas práticos devem ser analisados em três
grandes áreas: as “relações de controle sobre coisas”, as “relações de ação sobre outros”, e as “relações consigo mesmo”; as quais
correspondem a três eixos, “o eixo do conhecimento, o eixo do poder, e o eixo da ética” (idem, ibidem, p.48), que se pode dizer,
esquemático e analiticamente, estarem relacionados à arqueologia, à genealogia, e à hermenêutica, respectivamente.
938
Relacionada à “subjetivação da experiência, dos prazeres e do cuidado moral. Trata-se agora de refletir poder, dominação,
sujeição a partir das relações que os indivíduos estabelecem entre si mediados pela substância ética que regula seus corpos, sua
sexualidade, seu regime de verdade” (Adorno, S., 2005).
212
colocar fora do campo histórico o desejo e o sujeito do desejo, e fazer com que a forma geral da
interdição dê conta do que pode haver de histórico na ‘sexualidade’”939.

Com base em todas essas passagens, pode-se compreender uma usual divisão da trajetória
de Foucault - a qual forçosamente conduz a perigosas simplificações - em três momentos: o da
análise dos campos de saber, o da análise das modalidades de poder, e o da análise das formas de
subjetividade. De modo a não comprometer o entendimento da obra foucaultiana, deve-se ter em
mente que cada um desses momentos guarda grande relação com os demais, e convive com eles.
Além disso, apesar de não haver uma linha pré-determinada, ou uma grande coerência entre
todas as pesquisas de Foucault940, cada momento do desenvolvimento destas fornecia subsídio e
impelia para o momento subseqüente. E não se trata de abandono, mas de acúmulo e, novamente,
de deslocamento do foco, o qual exige importantes mudanças metodológicas. Por isso, no
primeiro, Foucault desenvolve pesquisas arqueológicas; no segundo, genealógicas; e no terceiro,
realiza um tipo peculiar de hermenêutica, a qual para Foucault continua a se tratar de uma
genealogia.

É o caso de se deter mais sobre essas diferentes posturas metodológicas, sobretudo na


segunda, em função da tratativa menos cuidadosa que ela aqui recebeu até o momento. Segundo
o próprio Foucault, pode-se dizer que a arqueologia visa a apreender como se dava a formação e
as diversas transformações dos saberes, concentrando-se na análise das relações que se
estabeleciam entre os diferentes saberes, e entre estes e as diversas instituições; já a genealogia
centrava-se no porquê, buscando compreender a emergência dos saberes. Na obra Em defesa da
sociedade, curso ministrado no início de 1976, Foucault propugna que “a arqueologia seria o
método próprio da análise das discursividades locais, e a genealogia, a tática dessas
discursividades locais assim descritas, os saberes dessujeitados que daí se depreendem”941,942.

Na análise de Sergio Adorno,

A história arqueológica não tem por horizonte o futuro ou o passado, mas o próprio
presente, a contemporaneidade. Não se trata de uma história evolutiva, retrospectiva ou recorrente;
não postula um progresso contínuo. É epistêmica, pensa a descontinuidade neutralizando o
progresso, o que é possível porque abole a atualidade da ciência como critério de julgamento de
um saber passado. Tal não significa que a história arqueológica seja uma análise factual ou
simplesmente descritiva. A diferença essencial reside no conceito de episteme, que está na origem
de sua normatividade. A arqueologia abandona os critérios de verdade definidos por uma ciência,

939
Foucault, M. What is Enlightenment? In: Rabinow, P. (ed) The Foucault reader. Londres: Peguin Books, 1984, p.10.
940
Longe disso, na entrevista intitulada “Não ao sexo-rei”, Foucault confessa que “meu problema é a política do verdadeiro. Mas
eu custei a perceber” (idem, Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2003, p.237).
941
Idem, Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 1999, p.16.
942
Cf. também Foucault, What is Enlightenment? In: Rabinow, P. (ed) The Foucault reader. Londres: Peguin Books, 1984, p.46.
213
mediante duplo deslocamento: da ciência para o saber, do passado para a atualidade. Não
neutraliza a questão da verdade, porém não parte dela como critério para avaliação do passado de
uma ciência; procura avaliar a verdade no interior do próprio saber da época estudada para
estabelecer possibilidade de discurso enquanto saberes e não suas condições de validade (como
faz a epistemologia)943.
Nessa passagem são enfatizados aspectos importantes da análise arqueológica: o fato dela
se ater à atualidade944, rompendo com a noção de progresso do conhecimento e dessacralizando a
verdade, que passa a ser concebida como um “regime” histórico associado a determinado tipo de
saber. Com sua arqueologia, Foucault visa compreender o processo de produção, acumulação,
circulação e funcionamento dos discursos verdadeiros 945 , e os seus efeitos no processo de
“assujeitamento” dos indivíduos, ou de produção histórica dos sujeitos.

Para uma apresentação um pouco mais detalhada da noção de genealogia, vale a pena a
remissão ao texto “Nietzsche, a genealogia e a história”, de 1977, no qual Foucault interpreta a
concepção de história de Nietzsche 946 , no bojo da qual constrói sua própria concepção da
genealogia.

Logo de saída, ao falar dos procedimentos da genealogia, Foucault propugna que ela deve
“marcar a singularidade dos acontecimentos, longe de toda finalidade monótona; espreitá-los lá
onde menos se os esperava e naquilo que é tido como não possuindo história – os sentimentos, o
amor, a consciência, os instintos; apreender seu retorno não para traçar a curva lenta de uma
evolução, mas para reencontrar as diferentes cenas onde eles desempenharam papéis distintos. E
até definir o ponto de sua lacuna, o momento em que eles não aconteceram” 947 . Logo a
genealogia deve cuidar dos interstícios, das margens, do detalhe; deve dirigir sua lanterna para a
sombra, e romper com a visão evolucionista e harmônica da história.

Além disso, “A genealogia não se opõe à história como a visão altiva e profunda do
filósofo ao olhar de toupeira do cientista; ela se opõe, ao contrário, ao desdobramento meta-
histórico das significações ideais e das indefinidas teleologias. Ela se opõe à pesquisa da
‘origem’”948. A pesquisa da origem, segundo Foucault,

943
Adorno, S. Sujeito, história e poder. A presença de Michel Foucault na pesquisa brasileira em Ciências Sociais. São Paulo:
FFLCH-USP, 1991. (Série de Textos – Estudos em Sociologia, 2), p.6.
944
Em Vigiar e punir Foucault anuncia que, para ele, a tarefa é “fazer a história do passado nos termos do presente” (Foucault, M.
Vigiar e Punir. história da violência das prisões. Petrópolis: Vozes, 1977, p.32).
945
Idem, Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 1999, p.28.
946
Que para Foucault é “... aquele que ofereceu como algo essencial, digamos ao discurso filosófico, a relação de poder (...).
Nietzsche é o filósofo do poder, mas que chegou a pensar o poder sem se fechar no interior de uma teoria política” (idem,
Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2003, p.143).
947
Idem, ibidem, p.15.
948
Idem, ibidem, p.16.
214
... se esforça para recolher nela a essência exata da coisa, sua mais pura possibilidade, sua
identidade cuidadosamente recolhida em si mesma, sua forma imóvel e anterior a tudo o que é
externo, acidental, sucessivo. Procurar uma tal origem é tentar reencontrar ‘o que era
imediatamente’, o ‘aquilo mesmo’ de uma imagem exatamente adequada a si; é tomar por
acidental todas as peripécias que puderam ter acontecido, todas as astúcias, todos os disfarces; é
querer tirar todas as máscaras para desvelar enfim uma identidade primeira949.
Ao contrário dessa busca pela origem, o genealogista descobre que as coisas são “sem
essência, ou que sua essência foi construída peça por peça a partir de figuras que lhe eram
estranhas”950,951; que elas surgem do acaso; que a busca por sua verdade advém das veleidades
dos cientistas, e da competição na qual se encontram imersos; que a liberdade não é um elemento
imanente ao homem, “que o liga ao ser e à verdade”, mas “apenas uma invenção das classes
dominantes”952. Do que Foucault conclui: “O que se encontra no começo histórico das coisas não
é a identidade ainda preservada da origem – é a discórdia entre as coisas, o disparate”953.

Além disso, a “quimera da origem”954 teria como postulado ser o local da perfeição e da
verdade955. Ao contrário, o genealogista descobre que o “começo histórico é baixo”956, e que “A
verdade e seu reino originário tiveram sua história na história”957.

Em outro texto, “Verdade e poder”, também de 1977, Foucault afirma que

É preciso livrar-se do sujeito constituinte, livrar-se do próprio sujeito, isto é, chegar a


uma análise que possa dar conta da constituição do sujeito na trama histórica. É isto que eu
chamaria de genealogia, isto é, uma forma de história que dê conta da constituição dos saberes,
dos discursos, dos domínios de objeto, etc., sem ter que se referir a um sujeito, seja ele
transcendente com relação ao campo de acontecimentos, seja perseguindo sua identidade vazia ao
longo da história958.
O objeto próprio da genealogia é a proveniência [Herkunft] e a emergência [Entestehung].
A análise da primeira “permite dissociar o Eu e fazer pulular nos lugares e recantos de sua
síntese vazia, mil acontecimentos agora perdidos”959, ou seja, permite dar cabo das identidades
que os indivíduos imaginam para si próprios, e mostrar que eles se constituem a partir do diverso
e do conflito, o qual não pode ser harmonizado. Com isso, a análise da proveniência liquida com
a visão “continuísta” da história, sustentando a dispersão que lhe é própria960. E, vale frisar, o

949
Idem, ibidem, p.17.
950
Idem, ibidem, p.18.
951
A genealogia “... reintroduz no devir tudo aquilo que se tinha acreditado imortal no homem” (idem, ibidem, p.27).
952
Idem, ibidem, p.18.
953
Idem, ibidem, p.18.
954
Idem, ibidem, p.19.
955
Idem, ibidem, p.18.
956
Idem, ibidem, p.18.
957
Idem, ibidem, p.19.
958
Idem, ibidem, p.7, grifos meus.
959
Idem, ibidem, p.20.
960
Idem, ibidem, p.21.
215
lugar da proveniência é o corpo: é nele que se inscrevem os acontecimentos, e nele que os
acontecimentos se exprimem961.

Já a emergência é o “ponto de surgimento”, “o princípio e a lei singular de um


aparecimento” 962 , a um tempo o momento em que “as forças entram em cena” e o local de
afrontamento963. Em outras palavras, é quando o incessante conflito no qual os indivíduos se
encontram imersos entra em ebulição, assumindo novas configurações. Desse modo, não existe
tal e qual indivíduo ou grupo que possa ser responsabilizado pela emergência, mas ela antes “se
produz no interstício”964.

Ainda segundo Foucault, “A genealogia restabelece os diversos sistemas de submissão:


não a potência antecipadora de um sentido, mas o jogo casual das dominações”965; ela permite
perceber que, “Em certo sentido, a peça representada nesse teatro sem lugar é sempre a mesma: é
aquela que repetem indefinidamente os dominadores e os dominados”966, e que “A humanidade
não progride lentamente, de combate em combate, até uma reciprocidade universal, em que as
regras substituiriam para sempre a guerra; ela instala cada uma de suas violências em um sistema
de regras, e prossegue assim de dominação em dominação967”968. Daí depreende-se o profundo
sentido da máxima de Nietzsche, segundo o qual “... tudo que é grande sobre a terra foi banhado
de sangue”969.

Além disso, o genealogista não teme construir um “saber perspectivo”; ao contrário, ele
“olha de um determinado ângulo, com o propósito deliberado de apreciar, de dizer sim ou não,
de seguir todos os traços do veneno, de encontrar o melhor antídoto”970,971. Daí a repugnância
que ele deve sentir em relação à pretensa ou propalada neutralidade ou objetividade do
pesquisador, que supostamente o apaga frente ao objeto. Em realidade, o genealogista
compreende a história como uma enorme batalha, e nela se posiciona estrategicamente, buscando
aniquilar os inimigos.

961
Idem, ibidem, p.22.
962
Idem, ibidem, p.23.
963
Idem, ibidem, p.24.
964
Idem, ibidem, p.24.
965
Idem, ibidem, p.23.
966
Idem, ibidem, p.24.
967
“Creio que aquilo que se deve ter como referência não é o grande modelo da língua e dos signos, mas sim da guerra e da
batalha” (idem, ibidem, p.5).
968
Idem, ibidem, p.25.
969
Nietzsche citado por Foucault, M. ibidem, p.25.
970
Idem, ibidem, p.30.
971
Sobre isso, ver também Foucault, M. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins
Fontes, 1999, p.61.
216
A história da qual se ocupa o genealogista, a “história efetiva”, comporta três usos: o
“paródico e destruidor da realidade que se opõe ao tema da história-reminiscência,
reconhecimento”; o “dissociativo e destruidor da identidade que se opõe à história-continuidade
ou tradição”; e o “sacrifical e destruidor da verdade que se opõe à história-conhecimento”972.
Como muito já foi dito acerca dos dois primeiros, vale ressaltar rapidamente apenas o terceiro.

Sobre esse uso da história, que também é apresentado como o sacrifício do sujeito do
conhecimento 973 , Foucault afirma que “A análise histórica deste grande querer-saber que
percorre a humanidade faz (...) aparecer tanto que todo o conhecimento repousa sobre a injustiça
(...) quanto que o instinto de conhecimento é mau”974. Longe de aproximar a humanidade da
verdade absoluta; longe de constituir uma progressiva construção do conhecimento na contramão
do fortalecimento e expansão das relações de poder, essa avidez pelo conhecimento “desfaz a
unidade do sujeito; libera nele tudo o que se obstina a dissociá-lo e a destruí-lo”975.

Outro momento privilegiado para a apreensão do método genealógico construído por


Foucault é um trecho do curso Em defesa da sociedade, no qual ele apresenta quatro “precauções
de método”, no que tange à análise do poder, ou da “microfísica” do poder. Em primeiro lugar,
ele diz que o poder deve inicialmente ser apreendido localmente, em suas formas regionais, e não
nas grandes estruturas ou instituições globais 976 . Em segundo lugar, a análise não deve se
circunscrever ao plano das intenções dos agentes, mas sim ao das práticas reais, que
objetivamente dispensam a intenção, ou a subsumem 977 . A terceira “precaução” consiste em
captar o poder em seu movimento complexo e heterogêneo, em constante circulação978, de modo
a perceber que “O indivíduo é um efeito do poder e é, ao mesmo tempo, na mesma medida em

972
Idem, Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2003, p.33.
973
Idem, ibidem, p.35.
974
Idem, ibidem, p.35.
975
Idem, ibidem, p.36.
976
Segundo Foucault, “não se trata de analisar as formas regulamentadas e legítimas do poder em seu centro, no que podem ser
seus mecanismos gerais ou seus efeitos de conjunto. Trata-se de apreender, ao contrário, o poder em suas extremidades, em seus
últimos lineamentos, onde ele se torna capilar” (idem, Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São
Paulo: Martins Fontes, 1999, p.32). Já na entrevista intitulada “Sobre a prisão”, Foucault confessa que “... quando penso na
mecânica do poder, penso em sua forma capilar de existir, no ponto em que o poder encontra o nível dos indivíduos, atinge seus
corpos, vem se inserir em seus gestos, suas atitudes, seus discursos, sua aprendizagem, sua vida cotidiana” (idem, Microfísica do
poder. Rio de Janeiro: Graal, 2003, p.131).
977
Nas palavras do autor, “tratava-se de não analisar o poder no nível da intenção ou da decisão, de não procurar considerá-lo do
lado de dentro (...). Mas sim de estudar o poder, ao contrário, ao lado em que sua intenção – se intenção houver - está
inteiramente concentrada no interior de práticas reais efetivas” (idem, Em defesa da sociedade: curso no Collège de France
(1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 1999, p.33).
978
Deve-se “não tomar o poder como fenômeno de dominação maciço e homogêneo (...). O poder, acho eu, deve ser analisado
como uma coisa que circula, ou melhor, uma coisa que só funciona em cadeia (...). Em outras palavras, o poder transita pelos
indivíduos, não se aplica a eles” (idem, ibidem, p.34-35). Na entrevista “Não ao sexo rei”, descobre-se que “O poder não existe.
Quero dizer o seguinte: a idéia de que existe, em determinado lugar, ou emanando de um determinado ponto, algo que é um
poder, me parece baseado em uma análise enganosa e que, em todo caso, não dá conta de um número considerável de fenômenos.

217
que é um efeito seu, seu intermediário: o poder transita pelo indivíduo que ele constituiu”979. Por
fim, a quarta instrução de método indica que é preciso “fazer uma análise ascendente do poder,
ou seja, a partir dos mecanismos infinitesimais, os quais têm sua própria história, seu próprio
trajeto, sua própria técnica e tática, e depois, ver como esses mecanismos de poder, que têm, pois,
sua solidez e, de certo modo, sua tecnologia própria, foram e ainda são investidos, colonizados,
utilizados, inflectidos, transformados, deslocados, estendidos, etc., por mecanismo cada vez mais
gerais e por formas de dominação global”980. Isso porque os grandes aparelhos de dominação
funcionam sempre sobre a base desses micro-dispositivos de dominação981.

Com isso se evidencia que não se trata de negar que existam grandes estruturas, ou que
existam formas de dominação global, mas de ter em conta que elas não constituem a única forma
de dominação, que elas não se explicam por si próprias, que sendo baseadas e tendo colonizado
as formas locais, estas não deixam de existir, de alterar as formas globais, e delas sofrer
alterações de diversas ordens. Ou seja, a análise deve levar em conta as especificidades dos
âmbitos regional e global e suas múltiplas articulações, sem postular a precedência do último
sobre o primeiro; no entanto, o processo de um certo tipo de totalização não é excluído. Numa
conversa com Foucault, que se encontra na Microfísica do poder, sob o título “Os intelectuais e o
poder”, Gilles Deleuze constata que “Se se considera a situação atual, o poder possui
forçosamente uma visão total ou global. Quero dizer que todas as formas atuais de repressão, que
são múltiplas, se totalizam facilmente do ponto de vista do poder”982. Nessa mesma direção,
Foucault constata que “... se o poder se exerce como ele se exerce, é para manter a exploração
capitalista”983,984.

À guisa de síntese dessas precauções e de exemplo, Foucault afirma que

Foram os mecanismos de exclusão, foi a aparelhagem de vigilância, foi a medicalização


da sexualidade, da loucura, da delinqüência, foi tudo isso, isto é, a micromecânica do poder, que
representou, constituído pela burguesia, a partir de certo momento, um interesse, e foi por isso
que a burguesia se interessou. (...) o que se deve ver é justamente que não houve a burguesia que
pensou que a loucura devia ser excluída ou que a sexualidade infantil deveria ser reprimida, mas
os mecanismos de exclusão da loucura, os mecanismos de vigilância da sexualidade infantil, a
partir de um certo momento, e por razões que é preciso estudar, produziram certo lucro

Na realidade, o poder é um feixe de relações mais ou menos organizado, mais ou menos piramidalizado, mais ou menos
coordenado” (idem, Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2003, p.248).
979
Idem, Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 1999, p.35.
980
Idem, ibidem, p.36.
981
Idem, ibidem, p.51.
982
Idem, Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2003, p.74.
983
Idem, ibidem, p.77.
984
Não obstante, o poder é “efeito do conjunto de suas [da classe dominante] posições estratégicas”, e não um “privilégio
adquirido” (Idem, Vigiar e Punir. história da violência das prisões. Petrópolis: Vozes, 1977, p.29).
218
econômico, certa utilidade política, e por essa razão, se viram naturalmente colonizados e
sustentados por mecanismo globais, e, finalmente, pelo sistema do Estado inteiro985,986.
Se fosse permitido, deveria se apresentar mais uma precaução, que se encontra implícita
nas demais, mas que Foucault não se cansa de enfatizar em outros momentos: a de que não se
deve analisar o poder como algo meramente repressivo. No texto “Verdade e poder”, ele assume
que “... a noção de repressão é totalmente inadequada para dar conta do que existe justamente de
produtor no poder (...). O que faz com que o poder se mantenha e seja aceito é simplesmente que
ele não pesa só como uma força que diz não, mas que de fato permeia, produz coisas, induz ao
prazer, forma saber, produz discurso. Deve-se considerá-lo como uma rede produtiva que
atravessa todo o corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função
reprimir”987,988. Dessa forma, o poder é eminentemente produtor: de prazer, de saber, de discurso,
e do próprio indivíduo assujeitado, como se verá melhor adiante.

Antes de se prosseguir, é o caso de esmiuçar alguns conceitos e noções que foram apenas
mencionados anteriormente ou que precisam de um tratamento mais adequado. Em primeiro
lugar, vale esclarecer melhor o significado Foucaultiano de “saber”, e sua relação com o “poder”,
já apresentado. Segundo o texto “O que é a crítica?”, saber é um termo “que se refere a todos os
procedimentos e a todos os efeitos de conhecimento aceitáveis em um momento dado e em um
domínio definido”; já a palavra poder “recobre todo uma série de mecanismo particulares,
definíveis e definidos, que parecem suscetíveis de induzir os comportamentos e os discursos”989.
E obviamente, ambos estão bastante imbricados, pois algo só pode se constituir enquanto um
saber se estiver de acordo com certo padrão de cientificidade, respeitando as regras e obrigações
que lhe são próprias, e se, nessa condição, for capaz de produzir os efeitos de coerção próprios
de um discurso tido como “científico” ou “verdadeiro”. Da mesma maneira, nas palavras de
Foucault, “nada pode funcionar como mecanismo de poder se não se dispuser segundo os
procedimentos, os instrumentos, os meios, os objetivos que possam ser validados em sistemas
mais ou menos coerentes de saber”990,991. Por fim, não é demais insistir que o poder produz saber,
e este forçosamente detém e gera efeitos de poder.

985
Idem, Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 1999, p.38-39.
986
Num sentido muito parecido e também bastante esclarecedor, ver os textos “O olho do poder” e “Sobre a história da
sexualidade”; mais especificamente Foucault, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2003, p.222 e p.253.
987
Idem, Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2003, p.8.
988
Na entrevista intitulada “Poder-corpo” - “Se ele [o poder] é forte, é porque produz efeitos positivos a nível do desejo – como
se começa a conhecer – e também a nível do saber” (idem, ibidem, p.148). Sobre a crítica à noção de repressão, ver também
Foucault, M. Vigiar e Punir. história da violência das prisões. Petrópolis: Vozes, 1977, p. 26.
989
Idem, O que é a crítica? In: Cadernos da F.F.C., v.9, n.1, p.169-189, 2000, p.183.
990
Idem, ibidem, p.184.
219
Tome-se agora outro conceito fundamental para o corpus teórico de Foucault: o de
“verdade”, bem como suas articulações com a noção de poder. Como foi visto, em oposição à
visão corrente, Foucault concebe a verdade como histórica, como possuindo uma “história na
história”. Assim, não se trata de um absoluto, imutável e perene, sempre aguardando seu
desvelamento; ao contrário, em cada sociedade predomina um certo regime de verdade, a qual é
produzida “graças a múltiplas coerções” e por sua vez “produz efeitos regulamentados de
poder” 992 , 993 . Cada sociedade “elege” em meio a uma rede de relações de poder e de
dominação994 aquilo que geralmente se aceita como verdadeiro e falso, as formas de obtenção da
verdade e de denúncia do que é falso, e mesmo os indivíduos autorizados a proferirem as
verdades.

Novamente nas palavras de Foucault,

Em nossas sociedades, a ‘economia política’ da verdade tem cinco características


historicamente importantes: a ‘verdade’ é centrada na forma do discurso científico e nas
instituições que o produzem; está submetida a uma constante incitação econômica e política
(necessidade de verdade tanto para a produção econômica, quanto para o poder político); é objeto,
de várias formas, de uma imensa difusão e de um imenso consumo (circula nos aparelhos de
educação ou de informação, cuja extensão no corpo social é relativamente grande, não obstante
algumas limitações rigorosas); é produzida e transmitida sob o controle, não exclusivo, mas
dominantes, de alguns grandes aparelhos políticos ou econômicos (universidade, exército,
escritura, meios de comunicação); enfim, é objeto de debate político e de confronto social (as
lutas ‘ideológicas’)995.
Desse modo, desnuda-se a proximidade entre o “saber” e a “verdade”, e de suas
articulações com o poder. O saber precisa ser validado enquanto tal, precisa estar imbricado num,
e de acordo com dado regime de verdade; é da verdade que ele retira seus efeitos de poder, já
que de certa forma a verdade é um produto do poder e o próprio poder em ato. Do mesmo modo
que ocorre com o saber, a “recíproca” também é “verdadeira”: segundo Foucault, “Não há
exercício de poder sem uma certa economia dos discursos de verdade que funcionam nesse poder,

991
No “Sobre a prisão”, ele fala da “... perpétua articulação do poder com o saber e do saber com o poder” (idem, Microfísica do
poder. Rio de Janeiro: Graal, 2003, p.141), posto que “... o poder cria objetos de saber, os faz emergir, acumula informação e as
utiliza” (idem, ibidem, p.142). “Eles [o saber e o poder] estão integrados e não se trata de sonhar com o momento em que o saber
não dependeria mais do poder, o que seria uma maneira de reproduzir, sob forma utópica o mesmo humanismo” (idem, ibidem,
p.142).
992
Idem, ibidem, p.12.
993
Em “A casa dos loucos”, lê-se que “A verdade aí não é aquilo que é, mas aquilo que se dá: acontecimento. Ela não é
encontrada, mas sim suscitada: produção em vez de apofântica. Ela não se dá por mediação de instrumentos, mas sim provocada
por rituais, atraída por meio de ardis, apanhada segundo ocasiões: estratégia e não método. Deste acontecimento que assim se
produz impressionando aquele que o buscava, a relação não é do objeto ao sujeito do conhecimento. É uma relação ambígua,
reversível, que luta belicosamente por controle, dominação e vitória: uma relação de poder” (idem, ibidem, p.114-115).
994
“... a verdade é um mais de força, assim como ela só se manifesta a partir de uma relação de força” (idem, Em defesa da
sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 1999, p.62).
995
Idem, Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2003, p.13.
220
a partir de através dele. Somos submetidos sob o poder à produção da verdade e só podemos
exercer o poder mediante à produção da verdade”996.

Com essa base, torna-se mais fácil apresentar em algum detalhe as principais
modalidades de poder passíveis de serem encontradas na sociedade contemporânea e suas
articulações.

No curso Em defesa da sociedade, logo de início Foucault analisa o surgimento de uma


mecânica de poder, sobretudo na primeira metade do século XVIII, que incide primeiro e
sobretudo sobre os corpos, e é levada a efeito todo o tempo, através da vigilância997, de modo a
extrair daqueles trabalho998; tendo muito pouco a ver, portanto, com o mecanismo de poder da
soberania, o qual pressupunha para seu exercício a presença física do soberano, e se efetivava
através dos tributos e dos diversos tipos de obrigação dos súditos999.

Evidentemente, algumas técnicas disciplinares já existiam anteriormente, entretanto,


principalmente a partir do século XVIII, elas sofrem uma ressignificação, uma reconfiguração, e
espraiam-se pelo tecido social 1000 . Esse processo, o advento do poder disciplinar, é um dos
principais objetos de Vigiar e punir, onde Foucault o analisa através do estudo minucioso de
instituições como o exército, a escola, a oficina, e principalmente a prisão, e com isso fornece
um ótimo exemplo de análise genealógica.

Com base nesses estudos, Foucault demonstra o surgimento de um novo regime de


verdade, que corresponde a uma nova maneira de constituição dos saberes1001, e de uma nova

996
Idem, Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 1999, p.28-29.
997
Em “O nascimento do hospital”, Foucault afirma que “A disciplina implica um registro contínuo. A notação do indivíduo e
transferência da informação de baixo para cima, de modo que, no cume da pirâmide disciplinar, nenhum detalhe, acontecimento
ou elemento disciplinar escape a esse saber” (idem, Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2003, p.106). “A disciplina é
uma técnica de poder que implica uma vigilância perpétua e constate dos indivíduos. Não basta olhá-los às vezes ou ver se o que
fizeram é conforma a regra. É preciso vigiá-los durante todo o tempo da atividade e submetê-los a uma perpétua pirâmide de
olhares” (idem, ibidem, p.106).
998
A disciplina consiste em uma “... nova maneira de gerir os homens, controlar suas multiplicidades, utilizá-las ao máximo e
majorar o efeito útil de seu trabalho e sua atividade, graças a um sistema de poder suscetível de controlá-los” (idem, ibidem,
p.105).
999
“Esse novo tipo de poder, que já não é, pois, de modo algum transcritível nos termos de soberania, é, acho eu, uma das
grandes invenções da sociedade burguesa. Ele foi um dos instrumentos fundamentais da implantação do capitalismo industrial e
do tipo de sociedade que lhe é correlativa” (idem, Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo:
Martins Fontes, 1999, p.43).
1000
Em “O nascimento do hospital”, Foucault afirma que “A disciplina é uma técnica de exercício de poder que foi, não
inteiramente inventada, mas elaborada em seus princípios fundamentais durante o século XVIII” (idem, Microfísica do poder.
Rio de Janeiro: Graal, 2003, p.105). Sobre isso, ver também Foucault, M. Vigiar e Punir. história da violência das prisões.
Petrópolis: Vozes, 1977, p. 126.
1001
“... sob aquilo que se denominou progresso da razão, o que se passava [sobretudo no século XVIII] era o disciplinamento de
saberes polimorfos e heterogênos” (idem, Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins
Fontes, 1999, p.218), processo no qual cada saber passou a possuir “critérios de seleção que permitem descartar o falso saber, o
não-saber, formas de normalização e de homogeneização dos conteúdos, formas de hierarquização e, enfim, uma organização
interna de centralização desses saberes em torno de um tipo de axiomatização de fato” (idem, ibidem, p.217).
221
maneira de produção da individualidade. Em suas palavras, “A disciplina ‘fabrica’ indivíduos;
ela é a técnica específica de um poder que toma os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e
como instrumentos de seu exercício”1002. E mais,

... pode-se dizer que a disciplina produz, a partir dos corpos que controla, quatro tipos de
individualidade, ou antes uma individualidade ditada de quatro características: é celular (pelo
jogo da repartição espacial), é orgânica (pela codificação das atividades), é genética (pela
acumulação do tempo), é combinatória (pela composição das forças). E para tanto, utiliza quatro
grandes técnicas: constrói quadros; prescreve manobras; impõe exercícios; enfim, para realizar a
combinação das forças organiza ‘táticas’. A tática, arte de construir, com os corpos localizados,
atividades codificadas e as aptidões formadas, aparelhos em que o produto das diferentes forças
se encontra majorado por sua combinação calculada é sem dúvida a forma mais elevada da prática
disciplinar1003.
É o caso de dar maior ênfase ao fato de que a disciplina, que é eminentemente material,
incide em primeiro lugar sobre os corpos1004. Em “O nascimento da medicina social”, Foucault
afirma que “Foi no biológico, no somático, no corporal, que, antes de tudo, investiu a sociedade
capitalista. O corpo é uma realidade biopolítica. A medicina é uma estratégia biopolítica”, e foi o
corpo ‘um primeiro objeto’ socializado ‘enquanto força de trabalho, força de produção’”1005. Já
em “O nascimento do hospital”, ele trata o surgimento do poder disciplinar inicialmente como o
desenvolvimento de “uma arte do corpo humano”1006,1007.

O poder disciplinar possui também sua própria regra, mas em oposição ao poder de
soberania, que tem como código a lei – que visa à generalização, à homogeneização, à
padronização dos procedimentos -, aquela é algo “natural”, a norma, que segundo Foucault se
refere a um horizonte teórico que não é o do direito, como no caso da soberania, mas o das

1002
Idem, Vigiar e Punir. história da violência das prisões. Petrópolis: Vozes, 1977, p.153.
1003
Idem, ibidem, p.150.
1004
Em “Poder-corpo”, diz-se que “Na verdade, nada é mais material, nada é mais física, mais corporal que o exercício do poder”
(idem, Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2003, p.147).
1005
Idem, ibidem, p.80.
1006
Idem, ibidem, p.106.
1007
Sobre o corpo e a microfísica do poder, vale a pena conferir na íntegra uma passagem de Vigiar e punir, apesar de sua
extensão: O corpo “está diretamente mergulhado num campo político; as relações de poder têm alcance imediato sobre ele; elas o
investem, o marcam, o dirigem, o supliciam, sujeitam-no a trabalhos, obrigam-no a cerimônias, exigem-lhe sinais. Este
investimento político do corpo está ligado, segundo relações complexas e recíprocas, à sua utilização econômica; é, numa boa
proporção, como força de produção que o corpo é investido por relações de poder e de dominação; mas em compensação sua
constituição como força de trabalho só é possível se ele está preso num sistema de sujeição (...); o corpo só se torna força útil se é
ao mesmo tempo corpo produtivo e corpo submisso. Essa sujeição não é obtida só pelos instrumentos da violência ou da
ideologia; pode muito bem ser direta, física, usar a força contra a força, agir sobre elementos materiais sem no entanto ser
violenta; pode ser calculada, organizada, tecnicamente pensada, pode ser sutil, não fazer uso de armas nem do terror, e no entanto
continuar a ser de ordem física. Quer dizer que pode haver um ‘saber’ do corpo que não é exatamente a ciência de seu
funcionamento, e um controle de suas forças que é mais que a capacidade de vencê-la; esse saber e esse controle constituem o
que se poderia chamar a tecnologia política do corpo (...). O mais das vezes, apesar da coerência de seus resultados, ela não passa
de uma instrumentação multiforme. Além disso seria impossível localizá-la, quer num tipo definido de instituição, quer num
aparelho do Estado. Estes recorrem a ela; utilizam-na, valorizam-na ou impõem algumas de suas maneiras de agir. Mas ela
mesma, em seus mecanismo e feitos, se situa num nível completamente diferente. Trata-se de alguma maneira de uma microfísica
do poder posta em jogo pelos aparelhos e instituições, mas cujo campo de validade se coloca de algum modo entre esses grandes

222
ciências humanas 1008 , e busca, com base em um conjunto de fenômenos observáveis,
individualizar, hierarquizar, partilhar1009.

Além disso, Foucault constata que esse poder se vale do “olhar hierárquico”, da “sanção
normalizadora” e do “exame” como instrumentos que garantem sua prevalência1010. Desses, o
exame deve ser destacado, pois ele “... está no centro dos processos que constituem o indivíduo
como efeito e objeto de poder, como efeitos e objeto de saber. É ele que, combinando vigilância
hierárquica e sanção normalizadora, realiza as grandes funções disciplinares de repartição e
classificatória, de extração máxima das forças e do tempo, de acumulação genética contínua, de
composição ótima das aptidões”1011,1012.

O advento e desenvolvimento do poder disciplinar, que têm como critério a diminuição


dos custos do exercício do poder e o preenchimento de todos os espaços da vida social, com o
máximo de eficiência, dá-se num contexto histórico muito específico, marcado pela existência de
dois processos: “a grande explosão demográfica do século XVIII”, e “o crescimento do aparelho
de produção, cada vez mais extenso e complexo, cada vez mais custoso também e cuja
1013
rentabilidade urge fazer crescer” . Evidentemente que ambos os fenômenos estão
profundamente imbricados, explicando-se e se auto-alimentando reciprocamente; e também é
evidente que falar deles é o mesmo que falar no desenvolvimento do capitalismo, que impõe e
pressupõe uma “modalidade específica do poder disciplinar”1014.

Não obstante, esse poder não possui um “predomínio” exclusivo. No final de Em defesa
da sociedade, Foucault constata o surgimento de uma nova tecnologia de poder durante a
segunda metade do século XVIII, “Uma tecnologia de poder que não exclui (...) a técnica
disciplinar, mas que a embute, a integra, que a modifica parcialmente e que, sobretudo, vai
utilizá-la implantando-se de certo modo nela, e incrustando-se efetivamente graças a essa técnica

funcionamentos e os próprios corpos com sua materialidade e suas forças” (idem, Vigiar e Punir. história da violência das
prisões. Petrópolis: Vozes, 1977, p.28-29).
1008
Idem, Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 1999, p.45.
1009
“A penalidade perpétua que atravessa todos os pontos e controla todos os instantes das instituições disciplinares compara,
diferencia, hierarquiza, homogeneiza, exclui. Em uma palavra, ela normaliza” (idem, Vigiar e Punir. história da violência das
prisões. Petrópolis: Vozes, 1977, p.163).
1010
Idem, ibidem, p.153.
1011
Idem, ibidem, p.171.
1012
“A disciplina é o conjunto de técnicas pelas quais os sistemas de poder vão ter por alvo e resultado os indivíduos em sua
singularidade. É o poder de individualização que tem o exame como instrumento fundamental. O exame é a vigilância
permanente, classificatória, que permite distribuir os indivíduos, julgá-los, medi-los, localizá-los e, por conseguinte, utilizá-los ao
máximo. Através do exame, a individualidade torna-se um elemento pertinente para o exercício do poder” (idem, Microfísica do
poder. Rio de Janeiro: Graal, 2003, p.106).
1013
Idem, Vigiar e Punir. história da violência das prisões. Petrópolis: Vozes, 1977, p.191-192.
1014
Idem, ibidem, p.192.
223
disciplinar prévia”1015, e que se “dirige não ao homem-corpo [como faz a disciplina – GM], mas
ao homem vivo, ao homem ser vivo”1016.

Em outras palavras, enquanto o poder disciplinar cuidava do detalhe, produzindo corpos


individuais disciplinados, esse novo tipo de poder, o “biopoder”, atua em um âmbito mais geral,
sobre o conjunto daqueles produtos da disciplina, os indivíduos, no sentido de massificá-los.
Sinteticamente, o biopoder ou a biopolítica se constitui de mecanismos globais que visam
regulamentar a sociedade, e se baseiam nos processos biológicos que a afetam. Seu objeto é a
“população”.

Nas palavras de Foucault, “A soberania fazia morrer e deixava viver. E eis que agora
aparece um poder que eu chamaria de regulamentação e que consiste, ao contrário, em fazer
viver e em deixar morrer”1017. Comparando-o com o poder disciplinar, ele diz que

... a disciplina tenta reger a multiplicidade dos homens na medida em que essa
multiplicidade pode e deve redundar em corpos individuais que devem ser vigiados, treinados,
utilizados, eventualmente punidos. E, depois, a nova tecnologia que se instala [a biopolítica] se
dirige à multiplicidade dos homens, não na medida em que eles se resumem em corpos, mas na
medida em que ela forma, ao contrário, uma massa global, afetada por processos de conjunto que
são próprios da vida, que são processos como o nascimento, a morte, a produção, a doença, [os
efeitos do meio, as incapacidades biológicas diversas], etc.1018.
Segundo Foucault, ambos os poderes, regulamentar e disciplinar, vêm a suprir as
deficiências do poder de soberania, o qual “deixava escapar muitas coisas”, “no nível do detalhe
e no nível da massa”1019. E o que explica a maior demora no advento do poder regulamentador é
o fato deste pressupor a constituição de complexos aparatos de coordenação e centralização. Não
obstante, ambos estão profundamente articulados, e são vinculados por um elemento comum: a
norma, que nesse momento da exposição é definida por Foucault da seguinte forma:

A norma é o que pode tanto se aplicar a um corpo que se quer disciplinar quanto a uma
população que se quer regulamentar. A sociedade de normalização não é, pois, nessas condições,
uma espécie de sociedade disciplinar generalizada cujas instituições disciplinares teriam se
alastrado e finalmente recoberto todo o espaço – essa não é, acho eu, senão uma primeira
interpretação, e insuficiente, da idéia de sociedade de normalização. A sociedade de normalização
é uma sociedade em que se cruzam, conforme uma articulação ortogonal, a norma da disciplina e
a norma da regulamentação1020. Dizer que o poder, no século XIX, tomou posse da vida, dizer

1015
Idem, Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 1999, p.288-289.
1016
Idem, ibidem, p.289.
1017
Idem, ibidem, p.294.
1018
Idem, ibidem, p.289.
1019
Idem, ibidem, p.298.
1020
“Que, atualmente, o poder se exerça ao mesmo tempo através desse direito e dessas técnicas, que essas técnicas da disciplina,
que esses discursos nascidos da disciplina invadam o direito, que os procedimentos da normalização colonizem cada vez mais os
procedimentos da lei, é isso, acho eu, que pode explicar o funcionamento global daquilo que eu chamaria uma ‘sociedade de
normalização’” (idem, ibidem, p.46). E constatando a difusão e adensamento dos mecanismos disciplinares, Foucault assevera
que “O problema atualmente está (...) no grande avanço desses dispositivos de normalização e em toda a extensão dos efeitos de
224
pelo menos que o poder, no século XIX, incumbiu-se da vida, é dizer que ele conseguiu cobrir
toda a superfície que se estende do orgânico ao biológico, do corpo à população, mediante o jogo
duplo das tecnologias de disciplina, de uma parte, e das tecnologias de regulamentação, de
outra1021.
Pouco tempo depois, em 1978, Foucault trata desse processo de surgimento da biopolítica
no bojo daquilo que ele chama de “governamentalização”, que por sua vez estaria inserido em
um processo de “explosão da arte de governar os homens1022”, que invadiu os mais diversos
domínios (governo da casa, das crianças, dos exércitos, das cidades, do corpo, etc.), e que se
inicia já no século XV.

A governamentalidade se refere ao “conjunto constituído pelas instituições,


procedimentos, análises e reflexões, cálculos e táticas”, que permitem regulamentar a população;
à tendência ao predomínio desse poder sobre suas demais modalidades, que acabou por produzir
a ciência política e todo um conjunto de saberes; e à constituição de um novo tipo de Estado.

Com isso, não se tem o desaparecimento do poder de soberania; muito pelo contrário, ele
ganha uma enorme importância, na medida em que responde à premência de se encontrar uma
forma jurídica, uma forma institucional a esse Estado que surge. Da mesma forma, o poder
disciplinar, longe de desaparecer ou se enfraquecer, ganha um papel fundamental, e não só como
base desse processo, mas também como resultado dele1023.

Junto com a governamentalização, intensificou-se a necessidade de desenvolvimento do


poder disciplinar e do fundamento da soberania, de modo que, como propugna Foucault, não se
deve compreender o surgimento dessas diferentes modalidades de poder como diferentes fases
de desenvolvimento da sociedade, no sentido de uma transição da sociedade de soberania para
uma sociedade disciplinar, e desta para uma sociedade de governo ou de regulação. Pelo
contrário, esses poderes coexistem e se articulam de múltiplas maneiras, tendo como resultado a
sociedade capitalista1024.

Deve-se enfatizar que apesar da mencionada coerência e lógica do conjunto da obra de


Foucault, do exposto fica patente que existem abundantes e importantes variações teóricas e

poder que eles trazem, através da colocação de novas objetividades” (idem, Vigiar e Punir. história da violência das prisões.
Petrópolis: Vozes, 1977, p.268).
1021
Idem, Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 1999, p.302.
1022
Sobre essa arte de governar, ver Foucault, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2003, p.277 e Foucault, M. O que
é a crítica? In: Cadernos da F.F.C., v.9, n.1, p.169-189, 2000, p.170-175.
1023
“A disciplina também não é eliminada; é certo que sua instauração – todas as instituições no interior da qual ela se
desenvolveu no século XVII e início do século XVIII, a escola, as oficinas, os exércitos, etc. – só se compreende a partir do
desenvolvimento da grande monarquia administrativa. Mas nunca a disciplina foi tão importante, tão valorizada, quanto a partir
do momento em que se procurou gerir a população” (idem, Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2003, p.291).
1024
Idem, ibidem, p.291.
225
metodológicas no decorrer de sua trajetória, muitas das quais em períodos muito curtos de tempo,
e que têm decisivas implicações analíticas e conceituais. Dessa maneira, pode-se identificar
conflitos em abordagens sobre o mesmo tema, diferenças em definições e conceitos, e oscilações
no que tange à historicidade de noções como de sociedade disciplinar, sociedade de
normalização, poder soberano, governamentalidade1025, etc. No entanto, sendo o objetivo aqui
entender a relação que Negri e Hardt estabelecem com a obra de Foucault, evidentemente não
cabe tratar das vicissitudes dessa obra, e tampouco proceder a uma crítica abrangente de
Foucault.

Vimos que existe um claro conflito entre o período de vigência histórica das sociedades
de disciplina e de normalização ou de controle segundo a análise de Negri e Hardt, e a de
Foucault. Para este, o poder disciplinar teria preponderado sobretudo entre início do século
XVIII e meados do século XIX, depois do que teria havido sua absorção e atualização pelo poder
normalizador. Para os primeiros, ao contrário, o poder disciplinar ou a sociedade disciplinar teve
seu ápice do final do século XIX até meados do século XX, quando suplantado pela sociedade de
controle. Essa diferença de interpretação significa nada menos que o seguinte: para Negri e Hardt
Foucault teria construído as referidas noções e diversos conceitos a elas relacionados com base
em um dado substrato histórico, o qual teria investigado metodicamente. Através desse esforço,
logrou produzir resultados teóricos corretos, mas errou justamente em ter tomado tal base
histórica para fazê-lo.

Talvez Negri e Hardt justificassem essa estranha divergência através da crítica ao


estruturalismo de Foucault, "um método que efetivamente sacrifica a dinâmica do sistema, a
temporalidade criativa de seus movimentos, e a substância ontológica de reprodução cultural e
política"1026. Assim, o último seria incapaz de apreender e explicar o surgimento e o efetivo
movimento histórico das formas de poder capitalistas. Entretanto, diga-se de passagem que se
essa crítica a Foucault é pertinente, ela também é válida para Negri e Hardt quanto estes tratam
dos conceitos de sociedade disciplinar e de controle de maneira tão estanque, contrariando
diversas proposições de Foucault que dão um caráter muito mais dinâmico e fluido a tais noções.
Isso porque segundo ele as formas de poder em questão não apenas coexistem historicamente,
mas se relacionam profundamente, de tal modo que o desenvolvimento do taylorismo-fordismo e

1025
Sendo o objetivo aqui entender a relação que Negri e Hardt estabelecem com a obra de Foucault, evidentemente não cabe
tratar das vicissitudes dessa obra, e tampouco proceder a uma crítica abrangente de Foucault.
1026
Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001, p. 47.
226
das técnicas disciplinares que lhe caracteriza, por exemplo, não contraria de maneira alguma a
periodização e a análise foucaultiana, como exposto.

Como forma de sanar as deficiências da perspectiva de Foucault e realizar uma efetiva


crítica da sociedade capitalista, Negri e Hardt centram suas análises na produção, entretanto
mantendo a centralidade da noção de sociedade de controle. Com isso, acabam por se distanciar
bastante da perspectiva marxiana, e produzir uma leitura fetichista do capital. Nas palavras de
Eleutério Prado,

Ao aderir à concepção de sociedade de controle de Foucault, Hardt e Negri passam a


considerar o capitalismo não mais como um modo de produção caracterizado pelas formas de
subsunção do trabalho ao capital, mas como meio de dominação política e de exercício de poder
que precisa controlar a produção e reprodução da vida como um todo, exatamente porque quer
controlar, em última análise, a produção, a produtividade da força de trabalho social e o trabalho
técnico e científico, afetivo, comunicativo, etc. Por isso, de um modo característico, eles
redefinem a exploração como centralização, extração e expropriação política dos produtos da
cooperação social. Em adição, redefinem também o conceito de subsunção real como
subordinação da sociedade à organização do capital e ao estado capitalista. Para eles, o corpo de
trabalho social produz valor e capital, sem ser forma do capital. (...). Donde se vê que a
concepção de sociedade do controle está também enraizada em fetichismo1027.
Como mencionado anteriormente, Negri também critica Foucault em função da
contradição na qual este cairia no que tange à conceituação de biopolítica e biopoder. Frente a
essa constatação, da mesma forma que Negri consegue entender o conceito de trabalho abstrato
de maneira positiva, não crítica1028, ele procede com o conceito de biopolítica, fazendo com que,
totalmente à revelia de Foucault, o biopoder concirna às grandes instituições e cristalizações do
poder, enquanto que a biopolítica teria a ver com as formas de produção de poder e às práticas de
contraposição a ele, às lutas de fuga do poder. E tal interpretação é sustentada com base em certo
entendimento da trajetória, que em seu momento final seria marcada por uma ruptura em relação
a diversas proposições anteriores, e caracterizado sobretudo por um “retorno ao sujeito”, com
traços positivadores. Nesse sentido, vimos que Negri fala de uma transição do estruturalismo à
genealogia, ou do político ao ético, enquanto que falei, com grande reservas, na passagem da
arqueologia à genealogia, e desta à hermenêutica, mas com a manutenção do projeto crítico,
nesse momento centrado na investigação sobre como o poder, ao ser internalizado pelo indivíduo,
determina sua própria conduta.

1027
Prado, E. F. S. Trabalho imaterial e fetichismo. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande indústria. São Paulo: Xamã,
2005, p.70.
1028
Cf. p.32 desta dissertação.
227
Referências bibliográficas:

Balakrishnan, G. e Aronowitz, S. Debating Empire (New Left Review Debates). Ed. Verso,
2003.
Braverman, H. Trabalho e Capital Monopolista. Rio de Janeiro: Zahar, 1980.

Chasin, J. Marx – Estatuto Ontológico e Resolução Metodológica. Posfácio do livro Pensando


com Marx, de Teixeira, F. J. S. São Paulo, Editora Ensaio.

Clarke, S. (org). The State Debate. Londres: Macmillan, 1991.

Cocco, G. Introdução. In: Trabalho imaterial: formas de vida e produção de subjetividade. Rio
de Janeiro: DP&A, 2001.

Duménil, G., Lévy, D. Superação da crise, ameaças de crises e novo capitalismo. In: Uma nova
fase do capitalismo?. São Paulo: Xamã, 2003.

Engels, F. Esboço de uma crítica da economia política. In: Engels. Coleção: Grandes Cientistas
Sociais. São Paulo: Ática, 1981.

Fausto, R. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da


Dialética. Tomo I. São Paulo: Brasiliense, 1987.

______. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da


Dialética. Tomo II. São Paulo: Brasiliense,1987.

______. Marx: Lógica e Política – Investigações para uma Reconstituição do Sentido da


Dialética. Tomo III, São Paulo: Editora 34, 2002.

Flickinger, H. G. Marx e Hegel – O porão de uma filosofia social. Porto Alegre, L&PM, 1986.

Foucault, M. Vigiar e Punir. história da violência das prisões. Petrópolis: Vozes, 1977.

______. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2003.


______. História da sexualidade 2: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal, 1984.
______. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins
Fontes, 1999.
______. What is Enlightenment? In: Rabinow, P. (ed) The Foucault reader. Londres: Peguin
Books, 1984.
______. O que é a crítica? In: Cadernos da F.F.C., v.9, n.1, p.169-189, 2000.

Garaudy, R. Para Conhecer o Pensamento de Hegel. Porto Alegre: L&PM, 1983.

Gorz, A. Prefácio à obra Crítica da divisão do trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1980.
228
______. O despotismo de fábrica e suas conseqüências. In: Crítica da divisão do trabalho. São
Paulo: Martins Fontes, 1980.

______. Técnica, técnicos e luta de classes. In: Crítica da divisão do trabalho. São Paulo:
Martins Fontes, 1980.

______. Adeus ao proletariado: para além do socialismo. Rio de Janeiro: Forense-Universitária,


1987.

______. Metamorfoses do trabalho: Crítica da razão econômica. São Paulo: Annablume, 2003.

______. Miséria do presente, riqueza do possível. São Paulo: Annablume, 2004.

______. O imaterial: conhecimento, valor e capital. São Paulo: Annablume, 2005.

Grespan, J. L. O negativo do Capital. São Paulo, Hucitec, 1998.

______. A Dialética do Avesso. In: Marxismo e Ciências Humanas. São Paulo:


Xamã/CEMARX/IFCH, 2003.

______. A crise na crítica da Economia Política. In: A Obra Teórica de Marx: Atualidade,
problemas e interpretações, São Paulo: Xamã Editora, 2001.

Harvey, D. A condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1992.

Hegel, G. W. F. Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio (1830). São Paulo: Loyola,
1995.
______. Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Epítome. Lisboa, Edições 70, 1988.
______. Razão na História - Introdução à Filosofia da História Universal, Lisboa: Edições 70,
1995a.

Holloway, J. e Picciotto, S. (orgs). State and Capital. Londres: Edward Arnold, 1978.

Lazzarato, M. Trabalho imaterial: formas de vida e produção de subjetividade. Rio de Janeiro:


DP&A, 2001.

Marcuse, H. Razão e Revolução, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

Marglin, S. Origem e funções do parcelamento das tarefas. Para que servem os patrões? In:
Crítica da divisão do trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1980.

Marx, K. Crítica da filosofia do Direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2005.

______. Manuscritos Econômico-Filosóficos e outros textos escolhidos. Lisboa: Edições 70,


1993.
229
______. Notas Marginais Críticas sobre o Artigo: “O Rei da Prússia e a Reforma Social. por um
Prussiano”. In: Early Political Writings. Cambrigde (USA): Cambrigde University Press, 1995.

______. Miséria da Filosofia. São Paulo: Global, 1985.

______. Trabalho assalariado e capital. In: Karl Marx e Friedrich Engels: Textos 3. São Paulo:
Alfa-Ômega, 1977d.

______. Formações Econômicas Pré-Capitalistas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

______. Grundrisse: foundations of the critique of political economy. London; New York
Penguin Books associada à New Left Review, 1993.

______. Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economia Política (borrador).


Argentina: Siglo Veintiuno, 1973.

______. Introdução aos Esboços de uma Crítica da Economia Política. Coleção Os Economistas.
São Paulo: Abril, 1982.

_______. Prefácio de 1859 (à obra Para a Crítica da Economia Política). Coleção Os


Economistas. São Paulo: Abril, 1982.

______. Contribuição à crítica da Economia Política. São Paulo: Martins Fontes, 1977.

______. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova
Cultural: Livro I, Tomo I, 1988.

______. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova
Cultural: Livro I, Tomo II, 1988.

______. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Victor
Civita: Livro II, 1984.

______. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Victor
Civita: Livro III, tomo IV. 1984.

______. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas. São Paulo: Nova
Cultural: Livro III, tomo V. 1986.

______. O Capital: crítica da economia política. 6 Vols. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1974.

______. Capítulo Sexto Inédito de O Capital: resultados do processo de produção imediata.


Porto: Publicações Escorpião, 1978.

230
______. Teorias da Mais-Valia: História Crítica do Pensamento Econômico. 3 vols. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.

______. Maquinaria e Trabalho Vivo (Os efeitos da mecanização sobre o trabalhador). In:
Crítica Marxista. Vol. I, no 1. Campinas: Brasiliense, 1994.

______. Salário, preço e lucro. In: O Capital: crítica da economia política. São Paulo: Abril
Cultural, 1996.

______. Crítica ao Programa de Gotha. In: Karl Marx e Friedrich Engels: Textos 1. São Paulo:
Alfa-Ômega, 1977.

______. Guerra civil na França. In: Karl Marx e Friedrich Engels: Textos 1. São Paulo: Alfa-
Ômega, 1977.

______. Glosas Marginales al ‘Tratado de Economia Política’ de Adolfo Wagner. In: El Capital:
Crítica da Economia Política. Vol. I. Buenos Aires – México: Fondo de Cultura Econômica,
1973.

Marx, K., Engels. F. La Ideologia Alemana, Barcelona: Ed. Grijalbo. 1970.

______. A Ideologia Alemã (excertos). In: Karl Marx. Coleção Grandes Cientistas Sociais. São
Paulo: Ática, 1989.

________. Manifesto Comunista. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo; Rio de Janeiro:
Contraponto, 2001.

______. Selected Correspondence. Moscou: Progress Publishers, 1965.

Mèszaros, I. Para Além do Capital, São Paulo: Boitempo, 2002.

Moraes Neto, B.R. Marx, Taylor, Ford: as forças produtivas em discussão. São Paulo:
Brasiliense, 1991.

______. Automação e trabalho: Marx igual a Adam Smith? Estudos Econômicos, IPE-FEA-USP,
São Paulo, vol.25, n. 1, 1995.

______. Fordismo e Ohnoísmo: trabalho e tecnologia na produção em massa. Estudos


Econômicos, São Paulo, vol.28, n.2, 1998.
______. Século XX e teoria marxista do processo de trabalho. Crítica Marxista, vol. 15, 2000.
______. Marx e o processo de trabalho no final do século. Pesquisa & Debate, PUC-SP, vol.11,
n.2, 2000.

231
______. Eficiência produtiva e divisão do trabalho: Smith, Marx e Stephen Marglin. Estudos
Econômicos, São Paulo, vol.32, n.2, abril-junho de 2002.
______. Observações sobre os Grundrisse e a História. In: IX Encontro Nacional de Economia
Política. Uberlândia - MG. Anais do IX Encontro Nacional de Economia Política, 2004.
Negri, A. Twenty Theses on Marx – Interpretation of Class-Situation Today. In: Marxism
beyond Marxism. Ed. S. Makdisi, C. Casarino e R. E. Karl. Londres: Routledge, 1996.
______. 5 lições sobre Império. Rio de Janeiro, DP&A, 2003.

Negri, A., Lazzarato, M. Trabalho imaterial e subjetividade. In: Trabalho imaterial: formas de
vida e produção de subjetividade. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.

Negri, A; Hardt, M. Império. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001.

Netto, J. P. A Crítica de 1843. Revista Escrita/Ensaio no 11/12. São Paulo, 1983.

Offe, C. Capitalismo Desorganizado. SP: Brasiliense, 1995.

Paulani, L. M. O papel da força viva de trabalho no processo capitalista de produção – Uma


análise dos dilemas contemporâneos. In: Estudos Econômicos, vol. 31 (4), 2001, pp. 695-721.

______. A atualidade da crítica da Economia Política. In: Boito Jr, A. et al. A obra teórica de
Marx: atualidade, problemas e interpretações. São Paulo: Xamã, 2002.

______. Modernidade e discurso econômico. São Paulo: Boitempo, 2005.

Pignon, D. e Querzola, J. Ditadura e democracia na produção. In: Crítica da divisão do


trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1980.

Prado, E. F. S. Equilíbrio e entropia: crítica da teoria neoclássica. Econômica, dez. 1999.

______. Marx e a experiência socialista. Artigo não publicado, que se encontra na página da
Internet, www.fea.usp.br., na seção “Professores”.

______. Pacificação do conflito de classes? In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande


indústria. São Paulo: Xamã, 2005.

______. Trabalho imaterial e fetichismo. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande


indústria. São Paulo: Xamã, 2005.

______. Crítica à economia política do imaterial. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande
indústria. São Paulo: Xamã, 2005.

232
______. Valor desmedido e desregramento do mundo. In: Desmedida do valor: crítica da pós-
grande indústria. São Paulo: Xamã, 2005.

______. Pós-grande indústria e neoliberalismo. In: Desmedida do valor: crítica da pós-grande


indústria. São Paulo: Xamã, 2005.

______. Uma formalização da Mão Invisível. Estudos Econômicos, Vol. 36, no 1, 2006.

Romero, D. Marx e a técnica: um estudo dos manuscritos de 1861-1863. São Paulo: Expressão
Popular, 2005.
Rosdolsky, R. Gênese e estrutura do Capital de Karl Marx. Rio de Janeiro: Contraponto, 2001.

Rubin, I. Teoria Marxista do Valor. São Paulo: Polis, 1987.

Silva, J. P. André Gorz: Trabalho e política. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2002.

Smith, A. A riqueza das nações – Investigação sobre sua natureza e suas causas. São Paulo:
Abril Cultural, 1983.

233

Você também pode gostar