Cap 7 Por Que Freud Hoje
Cap 7 Por Que Freud Hoje
PEDRO DE SANTI •
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pítulo, pretendo desenvolver a ideia de que ele é, sobretudo, um autor -
necessário para os nossos días, de uma perspectiva ética. •
Há séculos acompanhaI;110s e protagonizamos um embate a respei- . . • •
to de corno abordar a experiência humana e sobre ela produzir conheci- • .
mento. Freua sempre sustentou sua intenção de que a psicanálise fosse
reconhecida como ciência. Mas, claramente, não se pode pretender ser . .,--
uma ciência no sentido positivista um campo de estudo que tem o~ncons-
ciente corno seu objeto e que, além disso, tem como campo de experiência •
a singularidade ào encontro analítico, írreprodutíve1 em laboratórios ou .
congressos. Provavelmente sem se dar conta, Freud minou um dos pres-
supostos que sustentam o projeto científico moderno: o cientista, concebi-
do como alguém que se coloca como um sujeito racional e transcendente
ao campo da existência, capaz de observar seu objeto com obiE:tividade
e desinteresse. Desde a primazia da clínica, principal fonte e destino do
pensamento psicanalítico, Freud criou um paradigµ1a que o inclui entre
os criadores de outro modelo de se produzir conhecimento: o das ciências
humanas.
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Te mos ;icom p,m h~ cio . .
i . ' ·. ' o c1 esci men1 0 d ·. i r ,:- ,::s 0 n 1et a
Jr(ltva na m a neira d e lid ar co m o l1om el t~m a fo rma mais concreta e ~. f.. ld d e c•n1 a i 111,; .
i1 m nr t(' d o · • cm -ia q d. ,·el para tod os, e qua lquer va ried ade o u ui 1cu a ·
.. . · . 1-UJe ito m od e rno ou, ao rncno:; - ., u em iga que as~ishm os configu ra-se nu m ca mpo de pato logia. DiL R011din ~sc0 :
Ct ch, n o f1 11 ,1 I do século XI X C . - . '. d o homem psicológico" -
. · • onLepçoe~ b 1 . n,1s . l l ,- revnlu -
h"' r \·ps -1 , e .......
que ,•x 1~te m h.í sécu l0s l;:.m to d 1- to ugiza nt es e admin istrativ,c Emboré'I ndo curem nc· nhu n1a docn ç,1 ml~nta o u I d n<i\' O h '_
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1 ., m a o o u<- J• d b .. ,, OII T11
1Ul17 J llJS. A rcdnção da expc ri ên ci il . j ,';> ' as a ordagens das ciêncn;
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c1ona rarr1 3S re presentaco"...:~ do pc;1 qu 1sm o,
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vrd adc cerebra l res tr ing e co11s·1d . . e e o co mporta men to human o à ,d :- rn em, poli do e se m hum or, esgo ta d u pe 1il e, 1 ., ç,
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, , nror osio.
·ct , J , u e Jn e e r·
'1 1 . , . , e1a,•elme11t" a ~1 - • envergonh ado por nao se r d e acordo ao 1 ~a 1
' 11 .sto n a da p essoa IJ • " 'Cn rao a subjeti vidade e
,, , , . m a,ez qu c 0sensoco , , (1999, p . ~IJ
U lll a .s ubs tan cia natura l" rle term · · rnu_.n toina o cerebro corr.o
Os ..iv,m ços d a n e:t1r~a•eAn .'_ 1· , 1~1-ad a exclu siva mente pela 0<'enétic.:i. . . . . . • .- ton1,H o h o rnem
" era u 1 s s , ·t , Ass nn . o projeto mod erno de se produz tr c1cnc1,,, ao ' ... ,
s urg e qua ndo E-e , ro ~o i"" d '.-· .. ' ·, • '·0 mu , 0 ocrn-vindo, . A dificuldade ,. · f a se u or>1e,o
1- '- ,'1 e. 11 "' ar d cto·Je!n · · como OL'J eto de conhecimento como qu alquer outro, con ·o r·m · _ _ _
n esse· m o m e nto a ! . .. ,' - .. conneci.me.n to u ma psicologi~ : . -
a suas co n d 1çocs .. . . . d . ,,,nso es pio
. , go rnu1to rasrJ e ,-om : ,._; .. - , de producao, exclu indo, com isto, Gé, .in "·
' 175· 1 •-1açao o_e auto a1 ua a cos h1 ma
. •
= 1rnp0r-sc.- Ao se - bo 1·d · . ·-
priamente subjeti vas: desej~, sofrimen to, ideologia, et.c . Este reS t nao e
_ ,
º
• <1 ili o 11O11wm ·om n 0 b ··t · ··
seguida um.:i solu . - t , . .· ) '-' ·o crcnt1fü:c,, clen,·íl·se rm
. i,.ac., e cmca parn lid ar com ele. pou co, conforme Roudinescn:
.
.;,
. l' Quando se lê esse · tipo d l't
e l eratura em seu usual simplismo e m o- A morte, as paixões, a sexualidad e, a lou cura, o inconscien te e '' r,,Ja-
.., ~cl ismo~ _volta mos a n os d a r cont a d a complexidade da abord ~gem freu-
ção com o outro moldam a subjetividade d e cada um, e n en hum a ci ê n ··
. iana. E Jlls l"imiente n este contexto que pretendo revis itar a psicanálise de eia digna desse nome jamais conseguirá oôr termo a isto, fehzmen te.
l·reud, seu sentido e sua atu alidad e. ·
-"' (1999, p. 9) '
Tomo como referência inicial duas psicanalistas gue têm trabalha-
~º es pecificamente em como certo paradigma científico tem se imposto Reencontramo-nos desde já com o modelo, com o primeiro modelo
z
ª. n_ossa compreensão do homem contempof<'lneo e os custos d esta impo- freudiano de esrnta da histeri a: o que é reprimiclo..re.to i:.n<L..U .'1. a.to. E a <
.,.
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s 1çao . falta de lugar de representação para nossos afetos e conflitos já s e reflete :,
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Em Por que a psicamilise? (1999), Elizabeth Roudinesco traz um dos te- numa grande tónica sintomática do século XXI, o recrudescimento da in- e
ma s recorrentes de sua obra: o mundo contemporâneo tem representado tolerância: ""'.,,
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'-· a d errota do s ujeito. Parndoxalm ente, a imposição do discurso científico
na co mpreensão d o homem fari a pa rte de um movimen to obscuran tis- Há uma concepção da norma e dd patologia que repousa n um prin-
cípio intangível: tod o indivíduo tE-m o direito e. porta nt o, o d,,ver de
ta, no qual o mundo psicológico e a história do sujeito d esa parecem s ob
V)
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:s não mais manifestar seu sofrimento, de nã o mais se enhtsiasm,:n com 0
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2:
a tendência de se reduzir a experiência lmmana à atividade cerebral. E
x menor ideal que não seja o do pacifismo ou da mor.:il humanitária. Em
r_; ainda há outra distinção a ser feita: discursos propriamente cien tíficos e
consequência disto, o ódio ao outTo tomou-se sub-re ptício, perverso
outros que, ·embora também s e intitulem assim, s ão formas grosseiras de e ai..,da mais terrível, pcir assumir a máscara da dedicação ;i vítima .
"' (1999, p. 16)
'-' autoajuda absoiutamenfu d istarites das ciências. Roudinesco é basta nte
prov ocativa ao alinhar o discurso rie11tifícó contemporâneo à irraciona-
:::,
lidílde. O usô'cie nwdic~ões como panaceia no combate de toda dor p s íqui-
Com base na perspectiva biologizante científica, os tratamentos para ca é o sintoma do homem que_ab.dica_d c.sua..libe.rdade: e dos~p_Lf;:ços_\:.il,1ts
toda forma de sofrimento humano passam a ser químicos e medicamen to- que ela cu~st;i. El,~ st.p~oupa;-ma·s,10 m esmo aro se privei d2.s ,mg--.lstia" ci0
sos; todos os comportamentos passam a ser compreendidos de uma p ers- munc:lu da~ relacões"e conflitos. Ao m esmo tempo, sob o domínio dos
pectíva normativa. Com a ênfase dada à biologia ou à genética, a at(inção discursos positivos e politicamente corretos, vivemos concomitante m e nte
à história do s ujeito se dilui. Os manuais de psiquiatria multi plicam . a cisões sociais violentas: o s connitos ~e m pre existentes aflo r am coin u m
ca da e dição, a quantidade d,:., tr.nnstomo::: jdcntfücados por conjun tos rp- grau dobrado d e intolerância. Este seria jus tamente o retorno d os impul-
gulares de sintomas. Ainda ,1ue não.,~ iden.tifigu_e,un:iA causa especifi ca; sos que o d iscurs<, da psírologia f'O sitiv ,\ pretendia aniquilar.
cada comportamento que se désv:,! do meio da cu rva m,rnrill p assa a s e r Maria Rita Kehl também se dedica a mostrar o qu anto a med icali -
tomado com o um distúrbio ~-r se-r'1 :-af,1°tto rc:m ·mf:dica metil0.s. Qu ando se zação da vida é, e m vez de um re médio contra i'l gTandc dPpress ão c:cm-
soma a isto um discurso humanista sobre a liberdade hum ana, a norm ali- temporânea,- seu sintoma mais ec:1racteristico. Em O tempo e ll âio (2011).
da de passa a ser concebida como a conquista de uma felicidad e disponí- ela tnbalh a o quanto a depressão passo u a ocupar um lu gar cL: gran de
124 125
1/ -
s into ni a social E l
. · e a se refe re ·
renttna a a s ua cond· ., JUs l;i menre ao efeitn .
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li.ti
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IÇao d csejan1 e. 1)iz l<eh l: sofrid o pelo su jeito que
a
Do direi:º saúde e it ale ria . .. . . A emergência da linguagem ._ tn1bal h CJ
l~1stez~ e _visla corno urn; def~;:~n10s a obrigação de ser felizes(...). A p a n :>, 0
tc)( tO
çaodqu,m,ca é confiad ª ao medico. . nuade, . Cha rcot e rTl fran cés o -
ao um.., defeito mora l, "cui·a redu- Em 1893 - entre o aprendi za d o coJTI
Breuer e seus próprios avanços - F·•r·cud
_ veu c!ll ·
es._rc
tri ze5 ,.,r
per e-se um importante b
b l b ' psi · Ao patologizar tristeza, .
com · . das porall.t' 11·1s rn o arv1ar a
a a o de llma mo sa er so re a do r d e, vi.ver.
·
Aos que sofrera m A lgumas co11sidcrações para 11m est11 do com1 iara tmo · demos acomP . l]rn
· r te importante
· d d
a medicalização da 1.115 . 1. ' e um a oença, de um acidente grave, 0
gtinicas e histéricas. Este é um dos textos nos qu~is Paºp ara a psicologia-
sário para su eza ou do luto rouba do sujeito o tempo neces- modulação do pensamento de Freud da neuro ogi t.
outras no pedrar? abalo _e con5truir
rn1as e vida mais t' novas
. referências, e até mesmo para d 1gma
. específico está em gestaçao.- . nto estn·tarDen- e
-w
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tu a J incap~c1taçao.
. • _ (2011, ' p. compa
31 )
1ve1s com a perda ou com a even-
neuro 1.ogico•
. . . o texto com um longo d e~,envo!V1mepecíficos de
Freud m1c1a
sobre tipos de paralisias • · s·· tipos es · di s(ingu e dol.S
orgamca
· \esao .
. _
....
;,.v
causam formas específicas de paralisia. . . Inioa• · !mente' Freubral A pnrn . ·- e-rra .. ,:·.\f-
Aqui não se trata, portanto, do combate ou da fuga da depressão, \_' V.
.,::, . mas de ~ua pr?~ução. Est·e é o ponto estratégico 110 qual a clínica e o di s-
l_ipos de paralisia orgânica: a peri'fé rico-cs_pi.nhal e a ce re rn ,n· d a abr.ange
·li:! :
:.:... ! curso ps1canalit::icos mostram sua relevância. :'lge em detalhe sobreJi:br.as e-mt'1sm los espea 'fi co s·' a se_b t_ na estrutu _ - ;.,
.
., . uma area, espalhada. Esta distinção se baseia, · na turalmen . _ das e, paralls1a- . · ., -1 - '"'\
:,
!
o , Caminhar com as psicanalistas Roudinesco e Kehl nos proporciona ra anatômica do sistema nervoso. Ao inici ar a descnçao d b erva que
~
"' :. uma resposta sobre o porquê de Jer Freud hoje. Um autor que nos ajuda hi stencas,
·· sua linguagem se transforma. Ja, d e 1mcio, · · · Freu ,- o__5 -, ., ,;-a s.
.. . . -c:--afecço~s-.rtt.:
\-.a r ª·' 0 0
a emergir do pensamento dominante e nos permite perceber a dimen- se recooh ec.e.;;_na..h1ste_ria a c-apacid ade de s1mu · . _ t nde a
são obscurantista e mortífera dos discursos científicos e positivos atuais Sorna-se a isto• outra dimensão: ela tem mam'festaçoes - excessiva" . d e • eFreud
, . sintomas
. , 1· A partir a1,
não é pouca coisa. Com isto, elas mostram que dois dos mais severos pro d uz1r com a maior intensidade poss1ve to-
<
!
.
sintomas contemporâneos: a depressão e o ódio intolerante de grupos
identitários, seriam produzidos justamente pela imposição de uma nor-
l t orna ev1·ctente
mia
- que as paralisias
• cerebral. Simulação
.
.. h1stencas
• • · sao
e exagero na expressao
- ·mcompa h'veis· co n1 a ana
_ smtoma.
.d •
'ti'cal·á são 1 eias
z
..,,--
:;~;
..., ma que ignora a história e as dimensões não objetiváveis da experiência
humana.
í que deslocam o eixo da anatomia para uma dimensão relaaonal. "'e
e
t
-<:
:>: ' A compreensão dos sintomas histéricos requer o trânsito do conhe- "'o
-<
~ -:' cimento anatômico para o psicológico. Estabelecendo-se como autor de
e:., : Da neurologia à psicanálise
f, uma concepção original, diz Freud:
ci: _; r
~·j Eu afirmo (.. .) que a lesão das paralisias histéri cas deve ser absoluta-
f n1ente independente da anatomia do sistema nervoso, urna vez qu e ª
-t: ~
~=
r..:;·., Na recente biografia que publicou: Freud em sua époC!I e em 1zosso tem-
histeria se comporta nas paralisias e outras manifestações co~o se a
~ -; po, Roudinesco (2016) nos chama a atenção uma vez mais para aquele
anatomia não existisse, ou como se não tivesse nenl1um conhecimento
..,,.,. ,.
o,., :
momento mítico da origem da psicanálise, no qual o neurologista Freud dela. (... )
St se defronta com o sofrimento histérico e cria um método para entendê-lo
e atendê-lo. Um mesmo movimento de transcendência do universo da pa- Ela toma os órgãos no sentido vulgar, popular no nome que levam: ü
perna é a perna até a inserção do quadril, o braço é a extremidade su -
tologia e da neurologia se repete na formulação teórica da representa~'.ão
perior corno se desenha sob as roupas. (1893, p. 50-1)
) afetiva e do inconsciente; no abandono da teoria da sedução, na formula-
ção de sua concepção de sexualidade.
I Um pouco adiante, aparece a ideia de que a "lesão" que o.p:er_a->:n:a.his-
Nesse sentido, ao revisitar a aparentemente já tão repisada origem
teria o faz no campo psicológico, sobre a r_ep_resen tação do---corp o::re pn~-
i~
da psicanálise encontraremos um meio para pensar o embate ao qual nos
sentações táteis, mas, sobretudo, visuais. Este é o campo representativo
referimos acima. Acompanhemos como a origem da psicanálise está liga- de cada pessoa.
da especificamente à transcendêncía da abordagem biológica e psicopato-
O salto aqui é enorme: estamos lidando com uma dimensão de lin-
lógíca do sofrimento humano.
guagem, que atinge o nome dado ao órgão por um sujeito específico. Te-
Retomemos brevemente o percurso de Freud da neurologia ao cam- mos assim já uma teoria da representação. Mais do que isto, na realidade,
po psicológico, do abuso sexual ao desejo, da patologia sexual à consti- uma teoria das.representações afehvas que compõem, a princípio, o Eu.
tu.ição subjetiva. Os sintomas ganham agora o sentido de ser a expressão do isolamento
6
'27
e da inacessibilidade d d É então q F " fl' ouh''
dela~ com relação ao E:. eterminada representação (ou de um conjunto cena" E ue reud recorre à ideia de que o so.nhO acontece e
es a cena requer recursos de outra natJ.JreZ ·
. o :exto, há entao um novo . · o acesso a t a
ca entao substituída por metáf~a lto narr_ativo. linguagem neurológi-
camsmo de associação d . ~as dn vida soaal: Freud ilustra o me- A realidade psíquica _ os seus
a história do sujeito e u_ma ideia com determinado valor afetivo com ' . relaçao a 1
· analise corn 3 recen
tocada Por ums 1.. - q. ue nao quer mais lavar a mão depois que ela foi A transcendência do discurso da psic no entanto, p, ern
• · Ouerano. . pontos que, - , passag ·
contemporâneos passa por d,versos . orn relaçao ª do--
i
O Estmio compal'atiuo f . . . . ue vimos e do aba.n
·, ca doficn6m¼110 h' ,•. --'f ... 01 ~cn todepmsdoart1goOmccn11ismopsíqui- guardar movimentos semelhantes ao q . 1do ,.harna ·
is 1m e..,-- Freud JÓ t · - . . 1 . O mento cruaa
c,·• <;>, tações são invest:id . . ra_na a concepçao de que as represen- da neurologia para a ps1co ogia. mo. . fl - importante.
de m exa0
.
' . \ inco .
r, , , , " nsc1ente em-deto • . d
as de tm10 mtensidade que, caso pa:,sem a um pfano
. _ com uma vivenda
_
no da teoria da sedução como um pont ° F eud a conce
ber q-ue o "
cofri·
. f \-
,l
, fi _ r:rencm a assoaaçao traumática Os relatos de seus pacientes levaram r a sofrido n a 1rt ar ~/
~ - 1i fucarao 1 as ao campo represe11tativo consciente, .o que gera adis-'
_ exdu'd
"- :: · \ nçao no uso do órgão.
mente neurótico derivava regularmente de um tr_au:m por parte de uni '\,. .. _,,.;~ .
eia; trauma que consistia no abuso sexual da criança vou a compre· .,.ti
~: __ .,., Toda impressão ps~qulca tem uma quantidade de afeto que deve ser •- , · ·s Esta teona O Ie
\•
adulto proximo, em geral, os propnos pai · . habitada pela perver· .,
,:: 1 descarre~a~o .~elos meios de que o Eu djspõe. Na linguagem daquela ender que a neurose nascia no seio de uma fanulia . .. b e a forma d e
_ neur_olog1a 'lruaal: todo .estímulo requer uma resposta. Quando a descar- são pedófila. Mas a própria compreensão progressrv~ so dr i ,ções e ,
......
...
. . ili çoe~ e, on ..
' ga nao pode ser-realizada, a repres-enta.ç.ão torna-se traumátic?., causando funcwnamento da memória - com suas ressign ca _ ... . bancion ar
e:: ; síntornas e_pe.r:manecendo subconsàente. A representação dotada de um ausência de signo de realidade - acaban1 por levar freuct a.ª , 1. ·e ce
. , d da ps1cana 1 ~ "
grande valor afetivo, ao ser afastada, vê-se impossibilltada-de er1trar em sua teona da sedução. Neste abandono, to o o camp O ...-;--
associação com.as demais,,A .representação de.braço, por exemplo, eslãria formula definitivamente. Diz Roudinesco: f;
<
associada-à recordpção de uma cena tr.ç1umática. Iodo .o primeiro modelo
...< ,·. causal desenvolvido na primeira tópica já está começando a operar. Ao abm. mao . de sua neurot1cn,
. Freu d afastav.a-se tan to a·a' neuro lo,Tia
0 ,
o
o
... : É possível que Freud tenha procurado estabelecer uma continuida- e da fisiologia, como da sexologia, disciplina ligada à psiquiatria ª "'
:2 --'
biologia cujo objetivo é estudar o comportamento sexual humanoª hm
..
.., í
i ,: de entre as dimensões neurológicas e representativas; isto é sugerido por de prescrever nonnas e patologias. (... )
,:, - trabalhos como As afasias (1891) e o Projeto de uma psicologia para neurólogos
o.. . (1895, inacabado e só publicado postumamente). Mas quando chegamos Ao renunciar à ideia de que a ordem familiar burguesa fundara-se
... : à obra que inaugura oficialmente a psicanálise, A interpretação dos sonhos na aliança entre um parente perverso e uma criança abusada, Freud
"'Q '.
(1900), o modelo psicológico adquiriu autonomia. Com ele, estabelece-se deslocava a questão da causalidade sexual das neuroses para um te r·
""
u" ., definitivamente a necessidade de recorrer a metáforas para tomar tan- reno que não era mais o da sexologia, nem, aliás, da psiqui atria ou da
;, gíveis os processos teorizados: a mão do soberano, a passagem de uma _p,sicologia, Trocava o domínio da descrição dos comportamen tos pelo
.<;
u,
carga elétrica e'.a°$i!I\po:r-diante.
â.a@erjiretaçã<!)_dos discursos, considerando que as famosas cenas
sexuais í:les_crila$ pelos ~adiam derivar de um fantasi, isto
u" No famoso.Caoitu:lo VII de A interpretação dos sonhos, logo antes de é, de urri~'subjetívrciãéfe ou _r e p r e S ê ! ~ ( ...)' a mesma
apresenta.r ~ua ·teo;ia s',ôbre o psiquismo, pens_ado es~~cialmente, Freud fom1a, à~tava simµlt~~amente a e.xisténci<.1 da fantasia e do trauma.
,, adverte que está lançando mão de representaçoes auxiliares: (2016, p. 92) .
i
A ideia assim colocada à nossa disposição é a de um lugar psíquico. Que·
remos deixar inteiramente de lado que o aparelho psíquico de que aqui Acompanhemos mais de perto a passagem do abandono da teoria da
se trata também nos é conhecido sob a forma de preparado anatômico, sedução e a emergência da concepção freudiana de realidade psíquica e
e queremos evitar com cuidado a tentação de determinar o lugar psí- sexualidade.
quico anatomícamente. Permanecemos em terreno psicológico. (1900, O abandono da teoria da sedução, anunciado em carta ao amigo
p.564) Fliess em 21/9/1897, não foi repentino. O terreno já estava minado pe-
í
los conteúdos surgidos na clínica e pela impossibilidade, essencial, de se
diferenciar entre representações de fantasia e de recordaçôes. O ewnto
--~
., ... ..... ' ......"" .. ..
" Escrito em coautoria com Breuer e que viria a se tornar a Comunicação Preliminar em dilui-se em sucessivos desvios e parece cada vez mais inalcançável.
t~
128 Estudos Sobre o Histeria, de 1895 .
~
r,-
129
ili.
11ri-
- co111º r
·d e:nta 0 . dos
A teoria da sedu - . n a co11ceb1 a or parte .
quantidad d çao levava a supor
ser ao . . e . perv~rsos e neuróticos A uma r~lação inverossímil entre a
que a perpetrava, e pré-sexual para • ª coa ç '. u a sedução P
fantasio J1 ª na
qllal os
. menos igual a de neurólic . qu~ntidade de perver;os deveria vada de sexualidade. Mas se a cnança . .to des ei •. da ce
. ·a.-.te ot\l' c . ·do5
,__,,e1
1
sexual deve ser outra. Aqu· f os,~ que nao se verifica . A fonte da cena pais,
.
ela passa a ser vista agora..,.;-~ern
como su1e de1xare..-
• ..,, de ser rec
ocupa I i, a antasia e a se l' d d . . pa1s comparecem agora como ~ .v " · . . b an-
r uin ugar essencial . xua 1 a e mfantil passarão a
v erac1 'd ade da cena d ' no pcnsament 0 de F·reu d . Com a descrença na
d _ concomitantemente como desejantes. . .
ri ncararn I;rcud pelO d O haorro r
d.1.ferentes são apo tesed
uçao duas d
'
• · · •
econenCias imediatas, em direções Ao longo dos últimos cem anos, muitos e_ · ado diante 35 _
' n a as por el e: dono da teoria da sedução; alega-se que ele teria ll1Pº reCU d a"'-',~,,tasi a- M' n ao de
real com o qual se defrontara, recuado para O ~a _
(... ) Por consem,;,..,tl!
. . .
. _
o~ • -, restana a soluçao de que a fantasia sexual prende- 1 parece ter sido assim: Freud não _diz que _ os pais nao que dcs.
c·arn e abusarn .
l .,_. 9
ele 1n" -l , , 7 _ é a ideia,
- ~. l {- /
se invanavelmente ao tema dos pais . (... ) Mais
. urna vez., parece d1scuh-
. . seus fill10s e que a cena de seduça o nao ocorre, 0 , ,'d sejat Jc:1que a
ve1 que · _somente as expenenoas
· ·• · postenores · d eem 1mpeto
· às fanlasias,
· ainda mais perturbadora,. de que a criança possa ini_n~e~â ~ ídade.
que entao remontariam à infância. (CFF, p. 266) cena.. O que realmente
, sê'aflrma é o pdtenáal traurnatico
d - levou-o a• ror , n:··. ,u.-b - • _;
_ D~,to~a forma, o aban~ · da se uça_o , . mo 0 ::r,a fo,- ;
A inexistência de um índice de realidade no inconsciente que permi-
ta distinguir uma recordação de uma fantasia é fundamental , pois levará
\ çao.dndeia . de que
ma. 9' d..e comptotnisso
•.
•
, há umaIJealidade psíquic ; constituida
u .u = rea
entrem,-.~
.
. .
ade matena e°'"
1
....,.c~
.
·
3 111 consct= • ,,, ,
, •
•"n te •
si:.'S· \
à const.ução da concepção de realidade psíquica. Mas Freud nunca aban- · anib.B;s.ir\acessív,~is diret~1ente. Trata:-se de um campo fenornénlCO, ·
danará a crença de que as fanta sias são ancoradas em vivências. tenta~o pelo desejo e por aq~il~ que a ele se opõe.
Menos de;um mês depois, Freud já escreve de outra perspectiva, 1 Eª iS to que se referia Roudinesco ao dizer que 1:reud sai do emba te
das hiS tÓrias patológicas e mórbidas e cria um campo no qual há sujeitos ...z
marcada pelo inicio .da pesquisa sobre a sexual~dade infantil, sua repres-
são e:pelas primeiràs aproximações ao mito de Edipo. Todos os elementos
l desejantes, traumatizáveis pela própria potência da sexualidade e in ter- .,,
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aparecem associados na carta de 15/10/1897: pretantes. Este movimento se desdobra na discussão sobre a sexualidade, ""e
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como veremos a seguir. ::,
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",.. Descobri, também em meu próprio caso, o fenômeno de me apaixo- ..,
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nar por mamãe e ter ciúme de papai, e agora o considero um acon- A potência do sexual
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tecimento universal do início da infância, mesmo que não ocorra tão
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e; cedo quanto rias,crianças que se tomam histéricas. (...) Se assim for, í Tomemos agora como a concepção a respeito da sexualidade de
'"e. podemos entend~r ()-pod~r de atTação do Oedipus Rex (...), mas a len- ! Freud o distancia dos discursos médicos e patologizantes de sua época ,
da grega capta uma·compulsão que todos reconhecem, pois cada um
::, tal como observou Roudinesco:
>; pre~te-.sqa existénci;i em si mesmo. Cada pessoa na plateia foi, um
"' dia, um Édi'po em potencial·nil fantasia,. e cada uma recua, horrorizada,
.) Longe de se ater a descrever ad nauseam estupros, pato1ogi as sexuais,
o diant~ da reaiiz.açã.o d.e sonho ali tr;ansplantada para a realidade. com
práticas eróticas ou comportamentos instintuais, ou elabora; pranch_as
.,.-: toda a carga de recal camento gue S-'.?par11 seu estado infarilil do estado
'" anatômicas, perdendo-se em mensurações, cálculos diversos ou avahd-
';)
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atual. (CFF, p. 273) ções, ou ainda ditarnormas ou r~gi ~tálogo de todas a5 aberrações
sexuais, ele estendeu a noção de'.sex_ualida~ y~ 1a disposição psíquica
Da referência ao mito de Édipo até a íormulação da expressão "com- universal, tomando-a a própria êssê.ricGdã ativid.ã,:Tênümãn~. Lc., go,
plexo de Édipo" passaram-se 13 anos foi menos a sexualidade em si mes1na que v e.10 a ser primar<lia\ e m sua
Como sabemos, o aban dono da teoria da sedução criou o campo doutrina do que um conjunto conceitua\ capaz de represe ntá -, a: a pu\ -
específico da psicanálise. Da crença na conespondência do discurso de são, fonte do funcionamento psíquico inconsciente, a libido, termo ge-
seus pacientes com a verdad e histórica, nasceu a concepção de realidade nérico designando a energia st!xua1, o "apoio", ou processo relacion al.
a bissexualidade, disposição típica da fo rma de sexualidade humana, e,
psíquica. Isto não significa abandonar o conceito de trauma ou mesmo a
por fim. o desejo, tendência, realização, busca infinita, rd ação amb ígu a
existência de abusos sexuais no ambiente familiar, mas ampliar a noção com o outro. (2016, p. 96)
de sexualidade ao ponto de poder incluir a própria criança com o sujeito
de desejo. Se a cena de sedução pode ter sido fantasiada, o sujeito da cena
Boa parte~o que é indicado acima jáestá presente n a primeira gtandi'
muda, ou ainda, é expandido ao outro personagem da cena. No modelo
obra de Freud sobre a sexualidad e: Três cnsaios sobre n rcorfr, dn St!.tt1111i:/nd1'
da teoria da sedução a cena era sexual/pré-sexual: sexual para ,) adulto n,
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