PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS
Faculdade de Psicologia
Catharina Dias Giorgini Araújo
Laís Couto Miranda
Laura Veloso Abdala
Maria Cecília Ferreira
Samuel Andrade Guerra Pinheiro Rodrigues
POLÍTICAS PÚBLICAS SETORIAIS: CAPS AD E POLÍTICAS BRASILEIRAS
ACERCA DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS
Belo Horizonte
2024
1 EMBASAMENTO TEÓRICO
1.1 Contexto das drogas
O problema das drogas no mundo atual é compartilhado pelas mais diversas
nações que em conjunto lutam através da busca de uma solução para esse desafio
global. Entretanto nem sempre foi assim, o contexto das drogas no Brasil passou por
diversas alterações nas etapas de desenvolvimento do país, sendo de 1900 a 1950
uma época onde houve um aumento da circulação e do uso de substâncias
psicoativas, o que ainda não era visto como um fator a se dar importância já que não
atingiam altas proporções e não possuíam a mesma significância socioeconômica
dentro da sociedade. Além disso, a denominação de drogas aceitas e não aceitas
pelo país eram determinadas através da normalização da comunidade sobre a
substância, sendo o consumo do álcool frequente e tolerado. Em meio a 1950 o país
passa por crises de epidemias e com isso surge a necessidade da criação do
Ministério da Saúde, que neste momento funciona apenas como um órgão que atua
no controle de epidemias e vigilância sanitária, enfatizando a não visibilidade do
problema de drogas no território brasileiro mesmo com a popularização das
substâncias.
Com o desenvolvimento mundial inicia-se a globalização que permite que o
Brasil tenha contato com as consequências do uso das substâncias por países que
devido ao avanço acelerado do consumo estava sendo mais intensamente afetado
pela popularização das drogas, o que resultou na exportação das leis anti-drogas
dos Estados Unidos para o Brasil. Outro fator que incentivou nas leis instituídas da
época foram as três convenções da ONU que trouxeram o problema das drogas em
pauta e reafirmaram a idéia universal do combate de uso e tráfico de drogas por
meio da repressão, trazendo o usuário como responsabilidade do sistema judiciário
ou de instituições psiquiátricas (na época predominavam os manicômios).
Diante desse cenário, o Brasil aderiu a esse termo e propôs no ano de 1971, a
Lei 5726, que propõe medidas repressivas ao tráfico e uso de substâncias
entorpecentes ou que determinem dependência física ou psíquica. Essa lei traz a
internação compulsória para os infratores viciados em hospitais psiquiátricos até sua
recuperação.
Em 1976 essa Lei foi substituída pela Lei 6.368, que ampliou o uso de ações
preventivas, destinando ações para os dependentes de entorpecentes e não apenas
para os infratores viciados, o usuário de drogas passou a ser considerado um
doente.
1.2 CONAD
Com a popularização desse desafio na sociedade foi criado em 1980 o
Conselho Nacional de Entorpecentes (CONFEN), que era responsável pela
formulação de políticas públicas para o enfrentamento das drogas e criou iniciativas
para um desenvolvimento das práticas de atenção ao usuário de álcool e outras
drogas, como: apoio aos centros de referência em tratamento e prevenção, uso de
comunidades terapêuticas e programas de redução de danos. Entretanto, em 1998 a
CONFEN foi substituída pela CONAD (Conselho Nacional de Políticas Antidrogas)
que foi nomeada como um órgão de coordenação da política sobre drogas com foco
no enfrentamento das drogas, sendo considerado o tema “drogas” como assunto de
segurança nacional. A CONAD traz políticas antidrogas de forma explícita, sendo a
primeira a Política Nacional Antidrogas que retrata as drogas como ameaças à
humanidade e à vida em sociedade, explorando uma busca incessante pelo fim das
substâncias psicoativas no país.
Apesar da abordagem repressiva utilizada pelas políticas da época, em 2001
foram necessárias mudanças que condiziam com a Reforma Psiquiátrica, que
reafirmou as diretrizes básicas do SUS como: Políticas Públicas em Saúde Mental
que fugissem da lógica manicomial, além do maior uso de programas de redução de
danos aos usuários. Em consequência a essas mudanças forçadas pela Reforma a
CONAD altera o nome de Conselho Nacional de Políticas Antidrogas para Conselho
Nacional de Políticas Sobre Drogas e em 2005, aprova a “Política Nacional sobre
Drogas”, que trata do uso abusivo de drogas como um problema de saúde pública e
admite a necessidade do tratamento, recuperação e reinserção social do usuário de
álcool e outras drogas, além do enfoque para a redução de danos.
1. 3 REFORMA PSIQUIÁTRICA
A reforma psiquiátrica é um movimento que busca transformar o modelo de
assistência em saúde mental, priorizando a atenção integral ao paciente, o respeito
aos seus direitos e a sua reinserção social. Essa reforma é fundamentada em
princípios como a desinstitucionalização, a humanização do cuidado, a promoção da
autonomia e a valorização do convívio comunitário.
No contexto brasileiro, a reforma psiquiátrica está diretamente relacionada ao
Sistema Único de Saúde (SUS). O SUS é o principal sistema de saúde do Brasil,
que tem como princípios fundamentais a universalidade, a integralidade e a
equidade no acesso aos serviços de saúde. Dentro desse contexto, a reforma
psiquiátrica se alinha aos princípios do SUS ao buscar uma atenção integral à saúde
mental, garantindo o acesso da população a tratamentos adequados e promovendo
a inclusão social das pessoas com transtornos mentais.
A relação entre a reforma psiquiátrica e o SUS pode ser observada em várias
frentes:
● Descentralização dos serviços de saúde mental: A reforma psiquiátrica
promove a descentralização dos serviços de saúde mental, buscando
oferecer atendimento mais próximo da comunidade, em unidades de saúde
de atenção básica e em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que são
unidades de referência em saúde mental no SUS
● Desinstitucionalização: A reforma psiquiátrica incentiva a redução do número
de leitos em hospitais psiquiátricos e a substituição desses por serviços
comunitários e de base territorial, garantindo o cuidado em liberdade e o
respeito aos direitos humanos das pessoas com transtornos mentais.
● Integração da saúde mental na atenção primária: O SUS promove a
integração da saúde mental na atenção primária, garantindo o diagnóstico
precoce e o tratamento adequado dos transtornos mentais em unidades
básicas de saúde, o que contribui para a prevenção e o controle desses
transtornos.
● Incentivo à participação social: Tanto a reforma psiquiátrica quanto o SUS
incentivam a participação social na formulação, implementação e avaliação
das políticas de saúde mental, garantindo o controle social e a promoção da
cidadania das pessoas com transtornos mentais.
Em suma, a reforma psiquiátrica e o SUS estão interligados na busca por uma
atenção integral e humanizada à saúde mental, promovendo a inclusão social e o
respeito aos direitos das pessoas com transtornos mentais.
1.4 POLÍTICA NACIONAL
O Decreto 4.345/2002 estabelece a Política Nacional Antidrogas no Brasil. Essa
política visa promover a redução da oferta e da demanda de drogas ilícitas, bem
como a prevenção do uso indevido, o tratamento, a recuperação, a reinserção social
de usuários e dependentes, e o enfrentamento do tráfico de drogas.
Entre os principais pontos abordados pelo decreto estão:
● Prevenção: A política visa promover ações preventivas nas áreas de saúde,
educação, assistência social, trabalho, segurança pública, esporte e lazer,
cultura, meio ambiente, e direitos humanos.
● Repressão ao tráfico: O decreto estabelece medidas para reprimir o tráfico de
drogas, incluindo ações de combate ao contrabando, ao tráfico internacional e
ao crime organizado.
● Tratamento e reinserção social: Prevê ações para tratamento, recuperação e
reinserção social de usuários e dependentes de drogas, incluindo o apoio à
criação de comunidades terapêuticas e o fortalecimento de políticas de saúde
mental.
Apoio a pesquisas e estudos: Incentiva o desenvolvimento de pesquisas e
estudos sobre drogas, visando a melhoria das políticas públicas e das
estratégias de prevenção e tratamento.
● Cooperação internacional: Estabelece a cooperação entre o Brasil e outros
países no combate ao tráfico de drogas, incluindo o intercâmbio de
informações e ações conjuntas.
É importante destacar que a política antidrogas é um tema complexo e que
envolve não apenas questões de segurança pública, mas também de saúde,
educação, direitos humanos e desenvolvimento social. Portanto, seu sucesso
depende da integração de diversas áreas e da adoção de abordagens
multidisciplinares.
1.5 CAPS
Devido às alterações no modo de abordagem ao usuário de drogas, no ano
de 2002 se fez necessária a criação de CAPS (Centros de Atenção Psicossocial)
serviços de saúde vinculados ao SUS, que abordava esse novo modelo de cuidado
a atenção por meio do acolhimento, atendimento integral, acompanhamento às
pessoas, reinserção social, integração familiar e o fortalecimento da autonomia. O
CAPS-ad em 2003 surge como uma extensão dessa rede de atenção que oferece o
cuidado integral de pessoas e articulam redução de danos, tratamento e reinserção
social de dependentes químicos, nesse serviço são promovidas atividades diversas,
como: atendimento individual, grupal ou oficinas terapêuticas e visitas domiciliares,
além de oferecer estratégias de desintoxicação para usuários que não necessitam
de atendimento clínico hospitalar. Dessa maneira, a redução de danos é um fator
importante.
O Outro marco importante da política de álcool e outras drogas ocorreu em
2011 com a criação da Portaria 3.088 que institui no Sistema Único de Saúde a
Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) para usuários com sofrimento ou transtorno
mental e/ou com problemas relacionados ao uso de álcool e drogas. A RAPS se
estrutura através dos pontos de atenção, como as Unidades Básicas de Saúde e os
Centros de Convivência, do qual o CAPS é integrante. Surge como medida para
promover os princípios da Reforma Psiquiátrica Brasileira, que defende uma
abordagem comunitária, integrada e centrada no usuário. Assim, fortalece o papel
da atenção primária, da assistência social.
O RAPS (Rede de Atenção Psicossocial) é um conjunto de diferentes
serviços disponíveis nas cidades que se articulam para formar uma rede que deve
ser capaz de cuidar das pessoas com transtornos mentais e com problemas em
decorrência do uso de drogas. Por meio dessa rede de atenção eles buscam ampliar
o acesso à atenção psicossocial da população, promover o acesso das pessoas com
transtornos mentais e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e
outras drogas e garantir a articulação e integração dos pontos de atenção das redes
de saúde no território.
1.6 PEAD
O Plano Emergencial de Ampliação do Acesso ao Tratamento e Prevenção
em Álcool e Outras Drogas (PEAD) foi implementado em resposta ao crescente
desafio do consumo de substâncias psicoativas, especialmente entre os jovens. O
sistema de saúde pública (SUS) reconheceu a necessidade de uma abordagem
mais abrangente e integrada para enfrentar esse problema. Observou-se um
aumento considerável do uso de drogas nessa faixa etária, o que levou à ampliação
do acesso ao tratamento e à prevenção em álcool e outras drogas, visando
proporcionar um atendimento mais eficaz e humanizado.
O PEAD foi um plano emergencial criado pelo Ministério da Saúde no ano de
2009 que objetiva ampliar o acesso ao tratamento e à prevenção em álcool e outras
drogas no SUS, diversificar as ações orientadas para a prevenção, promoção da
saúde, tratamento e redução dos riscos e danos associados ao consumo prejudicial
de substâncias psicoativas e construir respostas sensíveis ao ambiente cultural, aos
direitos humanos e às peculiaridades da clínica do álcool e outras drogas, sendo
capaz de compreender a situação de vulnerabilidade e exclusão social dos usuários.
1.7 Como ela trabalha (ou pode trabalhar) a questão da cidadania?
A questão da política contra o álcool e outras drogas no Brasil tem impactos
significativos na noção de cidadania. Em um sentido amplo, políticas relacionadas
ao álcool e outras drogas afetam os direitos e responsabilidades dos cidadãos, bem
como sua relação com o Estado e com a sociedade em geral. Esta questão é
complexa e multifacetada, pois a cidadania envolve não apenas direitos, mas
também responsabilidades e participação ativa na sociedade.
As principais políticas públicas que tratam desta questão são o SISNAD
(Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas) e o SINAP (Sistema Nacional
de Prevenção ao Uso de Álcool e Outras Drogas). Estes dois são importantes para
garantir ao cidadão a execução dos direitos de alguém que faz parte de uma nação.
O Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas (Sisnad) foi instituído pela
Lei n° 11.343, de 2006, alterada pela Lei n° 13.840, de 2019. Tem a finalidade de
organizar e coordenar as atividades relacionadas à redução da oferta e da demanda
de drogas, atuando em articulação com o SUS e com o SUAS. Assim, e em
consonância com a nova Política Nacional sobre Drogas, o Sisnad é compreendido
como um conjunto de regras, critérios e recursos materiais e humanos que envolvem
políticas, planos, programas, ações e projetos sobre drogas.
O SISNAD, visa prevenir o uso indevido de drogas, através de campanhas de
conscientização, educação sobre os riscos do uso de drogas e promoção de estilos
de vida saudáveis. Atender e reinserir socialmente usuários e dependentes de
drogas, oferecendo tratamento, acompanhamento psicossocial e apoio à reinserção
no mercado de trabalho e reprimir a produção não autorizada e o tráfico ilícito de
drogas, através de ações de inteligência, investigação e apreensão de drogas e
bens ilícitos. Esta política pública é composta de vários órgãos e entidades do
governo federal, estadual e municipal. Primeiramente temos o Conselho Nacional de
Políticas sobre Drogas (CNSP), que é um órgão colegiado de deliberação superior
do Sisnad, composto por representantes dos órgãos e entidades da sociedade civil e
das áreas de saúde, educação, segurança pública e assistência social. Depois, a
Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), que é o órgão do Ministério
da Justiça e Segurança Pública responsável pela articulação, coordenação e
execução das políticas públicas sobre drogas no âmbito federal. E por último,
Conselhos Estaduais e Municipais de Políticas sobre Drogas que são órgãos
colegiados de deliberação superior das políticas públicas sobre drogas nos estados
e municípios, respectivamente.
A política pública do SINAP (Sistema Nacional de Prevenção ao Uso de
Álcool e Outras Drogas) , foi reativada em junho de 2023, em uma parceria entre o
Ministério da Cidadania e o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime
(UNODC). O Sinap tem como objetivo agregar e promover a coordenação de um
conjunto integrado de intervenções e políticas públicas baseadas em evidências
científicas. Suas principais ações são de sistematizar o acesso à informação,
através da Plataforma Sinap, que reúne dados e indicadores sobre o uso de álcool e
outras drogas no Brasil, além de materiais informativos e de capacitação para
profissionais que atuam na área. Promover a articulação entre os diferentes atores,
como Governos federal, estadual e municipal, sociedade civil, setor privado e
academia. Também o ato de apoiar a implementação de ações de prevenção, com
base em boas práticas e evidências científicas, em diferentes áreas, na educação,
saúde, assistência social, segurança pública e comunicação. E por último monitorar
e avaliar os resultados das ações, para garantir a efetividade das políticas públicas
de prevenção.
Em relação à cidadania, estas políticas públicas possuem alguns desafios na
prática. A atual política de AOD no Brasil, baseada na Lei de Drogas (Lei nº
11.343/2006), é predominantemente proibicionista, o que significa que criminaliza a
produção, o porte e o consumo de diversas substâncias. Não que esteja errado a
proibição de certas substâncias cientificamente comprovadas serem maléficas para
o ser humano, mas desta forma acabamos entrando em discussões filosóficas,
morais e sociais, na qual não vamos focar no momento. Porém a criminalização
contribui para a estigmatização e marginalização de pessoas que usam drogas,
dificultando seu acesso a serviços de saúde, educação e trabalho, dificultando assim
o acesso destas pessoas a estas políticas públicas já citadas. Podemos também
evidenciar a falta de acesso ao tratamento adequado, pois, o Brasil ainda tem um
sistema de tratamento de usuários de drogas precário e insuficiente, o que dificulta o
acesso à atenção adequada e à reinserção social. Esta política proibicionista
contribui também para o encarceramento em massa, especialmente de jovens
negros e pobres, gerando custos elevados para o Estado e perpetuando ciclos de
exclusão social.
Quais seriam então as oportunidades para fortalecer a cidadania através da
política de AOD? O investimento em serviços de saúde abrangentes e de qualidade
para usuários de drogas é crucial para garantir o acesso à atenção adequada e à
reinserção social. Isso inclui o reforço de programas de redução de danos,
acompanhamento psicológico e psiquiátrico, e comunidades terapêuticas. E o mais
importante de todos, as ações de educação preventiva sobre o uso de substâncias
psicoativas, que devem ser implementadas nas escolas e comunidades, com foco
na informação, na redução de riscos e no desenvolvimento de habilidades de vida,
de preferência sendo introduzida desde a infância, para diminuição de riscos. Abaixo
apresenta-se uma citação da cartilha do Conselho Federal de Psicologia na qual
decorre sobre esta questão em relação à proibição vs cidadania:
“Não, nós não podemos varrer a droga do planeta. O ideal de uma sociedade sem drogas
não corresponde a uma decisão individual – ou coletiva – por uma vida sem drogas, a não ser
que queiramos impor aos outros – por qualquer “boa” razão, nossa sempre boa razão, na
melhor das intenções de espalhar o bem e não deixar perder as almas, seja por motivos de
ordem médica, filosófica, religiosa, jurídica – nossa convicção pessoal de não tomar vinho ou
uísque, de não fumar tabaco nem maconha, de não usar Viagra e Lexotan, de não comer
chocolate, não cheirar lança-perfume ou não aspirar cocaína... Não é porque o uso abusivo
do álcool produz efeitos nocivos à saúde das pessoas que vamos proibir sua produção e
circulação – ou, mais ainda, não é por isso que vamos incriminar as diversas ações que vão
do plantio da cana-de-açúcar, passando pela produção de bebidas alcoólicas, até o
armazenamento, transporte e comércio dos produtos. reduzir os problemas relacionados ao
abuso de drogas em geral é algo que tem de passar pela informação – ampla e qualificada,
além de acessível ao maior número de pessoas sobre sua natureza e seus efeitos.” -Antônio
Lancetti, Arthur Chioro, Beatriz Vargas, Carol Zaparoli, Dênis Roberto da Silva Petuco, Ela Wiecko V. de
Castilho, Emerson Merhy, Lumena Almeida Castro Furtado, Marcus Vinícius de Oliveira, Suzana
Robortela. Drogas e Cidadania em debate,, Conselho Federal de Psicologia, 2011-2013.
A construção de uma política de AOD mais cidadã no Brasil exige um
compromisso com a defesa dos direitos humanos, a redução de danos, a promoção
da saúde e a reinserção social. Através de medidas que combatam as causas
estruturais do problema, como a pobreza, a desigualdade e a falta de oportunidades,
é possível construir um futuro mais justo e digno de cidadania para as pessoas.
1.8 O que ela fala sobre a participação popular?
A política relacionada ao álcool e outras drogas pode variar em relação à sua
abordagem à participação popular. Em alguns casos, as políticas podem ser
desenvolvidas e implementadas de cima para baixo, com pouca ou nenhuma
participação direta da população. Isso pode ocorrer em sistemas onde as decisões
políticas são centralizadas e onde há uma falta de mecanismos formais para a
participação popular. No entanto, há uma tendência crescente em muitos países,
incluindo o Brasil, para uma abordagem mais inclusiva e participativa no
desenvolvimento de políticas relacionadas ao álcool e outras drogas. Isso envolve a
consulta direta aos cidadãos, comunidades afetadas e partes interessadas
relevantes durante o processo de formulação de políticas.
A Política Nacional sobre Drogas (PNAD), instituída pela Lei nº 11.343/2006,
dedica um capítulo inteiro à participação social, reconhecendo seu papel
fundamental na construção de uma sociedade livre do uso abusivo de substâncias
psicoativas. Existem então alguns mecanismos de participação popular previstos na
PNAD: Conselhos de Políticas sobre Drogas, que em cada esfera de governo
(federal, estadual e municipal), deve haver um Conselho de Políticas sobre Drogas,
com participação da sociedade civil. Conferências Nacionais, Estaduais e Municipais
sobre Drogas, ou seja, conferências devem ser realizadas periodicamente para
debater e formular propostas para a política de drogas. Audiências públicas, que
devem ser realizadas para dar voz à população sobre temas específicos da política
de drogas. Comissões temáticas que são criadas para aprofundar debates sobre
temas específicos da política de drogas. E os fóruns permanentes que são criados
para promover o diálogo entre o governo e a sociedade civil sobre a política de
drogas.
Esta participação, porém, possui alguns desafios, pois grande parte da
população desconhece os mecanismos de participação popular previstos na PNAD,
o governo também nem sempre disponibiliza canais de comunicação eficazes para a
participação da sociedade civil. No entanto, apesar dos desafios, a participação
popular é fundamental para a construção de uma política de drogas mais justa,
eficaz e humana. É importante que o governo e a sociedade civil trabalhem juntos
para fortalecer os mecanismos de participação e garantir que a voz da população
seja ouvida, afinal, quem sofre com os desafios cotidianos das questões de drogas e
álcool todos os dias e vê de perto as dificuldades humanas impostas, são os civis,
que devem relatar suas histórias, para que os programas políticos sejam cada vez
mais certeiros em suas intervenções.
1.9 Sobre as comunidades terapêuticas
As comunidades terapêuticas (CTs) são um tipo de modalidade de tratamento
para dependência de álcool e outras drogas (SAD) no Brasil que se baseia em um
modelo de residência em um ambiente estruturado e supervisionado, com a
participação ativa dos usuários no processo de recuperação. Os principais objetivos
das CTs é de oferecer um ambiente acolhedor e seguro, livre de drogas e álcool,
onde os usuários possam se concentrar na recuperação. A duração do tratamento
nas CTs varia de acordo com a instituição e a necessidade individual do usuário,
mas geralmente dura entre 6 meses e 2 anos. A participação da família no processo
de recuperação é incentivada, através de grupos familiares, visitas e
acompanhamento psicológico. As CTs oferecem diversas atividades terapêuticas,
como grupos de terapia, terapia individual, workshops, palestras, atividades físicas e
práticas de espiritualidade (Aquelas que possuem caráter religioso, possuem estas
atividades relacionadas ao espiritual religioso).
Existem CTs que são focadas na desintoxicação física e psicológica, na
psicoeducação e na motivação para a mudança de comportamento, que possuem
uma característica de uma curta duração de tratamento. Existem também aquelas
comunidades de duração média de tratamento, que oferecem um tratamento mais
abrangente. E as CTs de longa duração, que são destinadas a usuários com
dependência grave e histórico de recaídas, oferecendo um tratamento intensivo e
suporte contínuo.
O SUS e as CTs possuem uma relação direta, na qual o SUS pode financiar
CTs através de diferentes mecanismos, através de repasses diretos, com convênios
com entidades sem fins lucrativos que administram CTs. Leitos em CTs, o qual existe
um custeio de leitos em CTs de instituições públicas ou privadas. E também serviços
ambulatoriais, que oferecem apoio à reinserção social de pessoas egressas de CTs.
Usuários do SUS podem ser encaminhados para CTs por meio de unidades básicas
de saúde (UBSs), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ou outros serviços da
rede.
As CTs podem ser eficazes no tratamento da SAD, com resultados positivos
na redução do uso de drogas, na melhora da saúde mental e na qualidade de vida
dos usuários. No entanto, a efetividade das CTs depende de diversos fatores, como
a qualidade do programa, a adesão do usuário ao tratamento e o suporte social após
a alta.
Alguns exemplos de comunidades que atuam em Minas Gerais: Comunidade
terapêutica reviver localizada na região metropolitana de Belo Horizonte e
Comunidade Terapêutica Fazenda da Esperança, localizada em Nova Lima. No
Brasil, diversas instituições religiosas também oferecem apoio e acompanhamento
para pessoas com dependência química de álcool e outras drogas, como por
exemplo a Pastoral da Caridade, que está presente em todo o Brasil, oferecendo
acolhimento, apoio social, encaminhamento para tratamento e grupos de apoio para
pessoas com dependência química e seus familiares. A Igreja Universal do Reino de
Deus (IURD) também oferece um programa de recuperação para pessoas com
dependência química chamado "Fogo Santo", no qual ocorre cultos,
acompanhamento individualizado, grupos de apoio e atividades de reintegração
social.
Sobre comunidade terapêutica, as entrevistadas para essa pesquisa se
mostraram bem contra a ativação de CTs. Explicam que nesses locais não têm,
necessariamente, profissionais de saúde qualificados e os procedimentos não são
baseados em questões científicas. O relato é de que normalmente a pessoa
vulnerável costuma ficar em abstinência e assim que sai, ocorre uma regressão, por
não ter tido um trabalho efetivo para mudar o que a substância significa para aquela
pessoa. Com essa questão em evidência podemos então diferenciar a clínica da
comunidade. As clínicas são instituições de saúde mental da rede privada, ou seja,
profissionalizadas e regulamentadas, então os procedimentos não costumam ser
sem fundamentos científicos, criando assim um ambiente mais seguro para o
indivíduo tratar de seu vício.
O Conselho Federal de Psicologia (CFP) reconhece as Comunidades
Terapêuticas (CTs) como um dos modelos de tratamento para dependência química,
mas destaca que sua efetividade depende de diversos fatores, como a qualidade do
programa terapêutico, a qualificação dos profissionais e a adesão do usuário ao
tratamento. O CFP defende os seguintes princípios para as CTs:
● Voluntariedade: O ingresso na CT deve ser voluntário e o usuário deve ter
liberdade para sair a qualquer momento.
● Humanização: O atendimento nas CTs deve ser humanizado, com respeito
aos direitos dos usuários.
● Qualidade: As CTs devem oferecer um serviço de qualidade, com
profissionais qualificados e infraestrutura adequada.
● Descentralização: As CTs devem estar distribuídas por todo o país, para que
os usuários tenham acesso ao serviço em sua região.
● Acompanhamento psicológico: As CTs devem oferecer acompanhamento
psicológico individual e em grupo para os usuários.
● Integração com outros serviços: As CTs devem estar integradas à rede de
saúde e assistência social, para que os usuários possam ter acesso a outros
serviços necessários, como tratamento médico, acompanhamento social e
reinserção social.
As comunidades terapêuticas (CTs) no Brasil são regularizadas por leis e
normas. A principal legislação que rege o funcionamento das CTs é a Lei nº 11.343,
de 23 de dezembro de 2006, que institui a Política Nacional sobre Drogas e define
as CTs como serviços residenciais de acolhimento e atenção à saúde para usuários
de drogas. Além da Lei nº 11.343, outras leis e normas também regulamentam as
CTs, como a Resolução da Diretoria Colegiada da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) nº 29, de 26 de maio de 2011: Esta resolução define os requisitos
mínimos de infraestrutura, equipe e serviços que as CTs devem oferecer e a outra,
Portaria nº 1.864, de 30 de setembro de 2010, do Ministério da Saúde: Esta portaria
estabelece os critérios para o credenciamento e a certificação das CTs.
2 PRÁTICA INVESTIGATIVA
A profissional que nos recebeu no CAPS é conhecida de um dos integrantes
do grupo, então o contato foi feito por WhatsApp e, após uma conversa, foi marcada
uma visita do grupo ao local. Uma dupla foi, presencialmente, no dia 10 de maio de
2024, conversar com a profissional no CAPS AD de Itabira. Chegando lá, a estrutura
do local foi apresentada e depois 3 psicólogas foram entrevistadas, em conjunto.
Parte da entrevista pôde ser gravada e posteriormente a transcrição foi
disponibilizada para o resto do grupo, mas a parte final da visita foi registrada
somente por meio de notas feitas por um integrante do grupo.
O CAPS AD de Itabira está localizado em uma casa alugada, no andar térreo
estão localizados a sala de espera e os consultórios e na parte debaixo da casa há
um ambiente agradável, com um jardim e um espaço onde ocorrem oficinas,
atendimentos em grupo e outras atividades, além de ser onde ficam as pessoas que
estão em “Permanência Dia”.
A trajetória acadêmica e profissional das psicólogas entrevistadas é
semelhante. Após a faculdade de psicologia, todas fizeram duas pós, sendo elas em
psicologia do desenvolvimento e aprendizagem, saúde mental, saúde pública ou
avaliação neuropsicológica.
E em relação a como elas chegaram até o trabalho no CAPS AD, uma é
concursada e as outras duas são contratadas da prefeitura. As 3 trabalham no
CAPS AD e em mais algum outro lugar, fazendo atendimentos clínicos particulares,
dando consultoria para empresas ou aula de projeto de vida, comportamento
humano ou recursos humanos em escolas.
Em CAPS AD são atendidos adultos que têm quaisquer complicações e
prejuízos advindas do uso abusivo de álcool e/ou outras drogas. Entretanto, o
público mais presente neste CAPS AD são homens alcoolistas entre 40 e 50 anos
de idade. Durante a conversa foi ressaltado que 90% dos óbitos dos usuários deste
CAPS são em função do uso do álcool, pois além de esse público beber o que
estiver disponível e contenha a substância, seja perfume, álcool em gel ou até
etanol, é a droga mais difícil de o usuário parar de usar, talvez por ser lícito e não
popularmente visto como uma droga, assim não sendo tão estigmatizado. Como
exemplo foram citados casos de pacientes que chegam como usuários de múltiplas
drogas, descontinuam o uso de todas, menos do álcool e afirmam que não usam
mais droga, só bebem. Foi relatado que destes óbitos alguns são por overdose, mas
a maior parte é em função de prejuízos clínicos relativo ao abuso da substância ao
longo da vida, como violência doméstica e urbana, direção agressiva ou desleixada
no trânsito, doenças ou questões físicas e abstinência não acompanhada, que no
caso do álcool é extremamente perigosa. Ademais, observam o uso muito precoce
do álcool e, com isso, muitos prejuízos no desenvolvimento, para além do vício.
Nesse quesito é Importante sempre pensar na regionalidade do serviço, pois os
problemas de um território não são iguais aos de outro, como exemplo foi citada a
frequência na qual chegam pacientes vindos da zona rural que começaram a beber
cachaça com 9 anos porque era normal, ao contrário da concepção predominante
em grandes metrópoles, então esta pessoa chega aos 30 anos e já é alcoolista há
muito tempo e carrega consigo as consequências do excesso de álcool por décadas,
o que reflete diretamente na saúde, qualidade de vida e relações interpessoais.
Ainda sobre o público do CAPS AD de Itabira, nos foram fornecidos alguns
dados quantitativos para que essa quantidade de alcoolistas fosse ilustrada. De
todos os 236 usuários do serviço entre o dia 01 de janeiro e o dia 10 de maio de
2024, 158 estão lá em função do uso de álcool, 31 pela cocaína, 40 pelo crack e 13
pela maconha.
A equipe que trabalha nesta instalação é multidisciplinar, sendo composta por
psicólogas, um médico clínico responsável por acompanhar as intercorrências, um
psiquiatra, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, enfermeiros e técnicos de
enfermagem, como prevê o Ministério da Saúde. Com toda essa rede de
profissionais trabalhando em conjunto, fica a cargo das psicólogas principalmente
atividades como acolhimento, atendimentos individuais e em grupo, auxílio aos
familiares, atendimento hospitalar ou visita domiciliar caso necessário. Com todas
essas frentes necessárias, elas se organizam da seguinte forma:
● Escalas de plantão nas quais o plantonista do turno é sempre algum
profissional de nível superior que irá acolher qualquer pessoa que chegar no
serviço, seja porque o remédio acabou, quer começar algum tratamento ou é
um familiar querendo conversar, então esse profissional fará os
encaminhamentos necessários. Além disso, caso chegue um paciente novo,
este plantonista se tornará o técnico de referência dessa pessoa, pois foi o
primeiro profissional que o atendeu, assim tendo como responsabilidade gerir
junto junto ao usuário o processo terapêutico dele, consultando sempre a
equipe multiprofissional e fazendo os devidos encaminhamentos quando
necessário.
● A Permanência Dia é um espaço onde os pacientes que estão mais
vulneráveis e precisam de um acompanhamento mais de perto passam o dia,
chegam às 7h da manhã e vão embora por volta das 17h. Neste espaço os
pacientes tomam as medicações, se alimentam, cuidam de sua higiene e
saúde e fazem oficinas com profissionais que propõem atividades artísticas e
de trabalhos manuais. Sendo essa uma importante frente do serviço, sempre
há uma psicóloga designada para acompanhar, auxiliar quando necessário e
propor atividades mais voltadas para atividades em grupo, como rodas de
conversa.
● Uma das psicólogas também sempre está responsável pela agenda dos
atendimentos daqueles que fazem acompanhamento sistemático no CAPS
AD.
Para além das funções supracitadas também ocorrem as visitas a locais
específicos e reuniões de matriciamento nas quais a saúde mental vai até o PSF
para debater os casos, levantar as altas e necessidades visando que o tratamento
dos pacientes não esteja restrito apenas aos serviços de saúde mental, mas sim em
todos os dispositivos e espaços da cidade. Ademais, uma vez na semana ocorre a
reunião de equipe, na qual os profissionais da manhã e da tarde participam e são
discutidas as questões relativas aos casos da Permanência Dia, questões
burocráticas do serviço ou de projetos.
Vale ressaltar que para além das reuniões entre serviços, visando uma
integração mais rápida da rede, foi feito um grupo de WhatsApp com representantes
de todos os CAPS da cidade e outros dispositivos da saúde, principalmente mental,
para que quando um paciente chegar, se for um caso mais complexo, os
profissionais se comunicarem de forma ágil para saber se aquela pessoa já passou
por ou frequenta algum outro serviço.
Vale acrescentar que as psicólogas trabalham com as normativas do
ministério da saúde com foco na RAPS e na redução de danos e que todos os
profissionais que trabalham no CAPS são responsáveis pelo acolhimento incluindo
assistentes sociais e médicos psiquiatras, mas caso haja algum caso mais grave
envolvendo saúde mental os usuários do serviço são encaminhados para
atendimentos com a psicologia. Os atendimentos são feitos de maneira mais
aleatória pois não são agendados como em um consultório, pois qualquer pessoa
que chegar lá é atendida enquanto o serviço estiver aberto. Ademais, também
existem atendimentos em grupo e atividades “extra caps” que levam os usuários do
serviço a explorarem e ocuparem os espaços de cultura da cidade além do contato
realizado pela equipe com os demais serviços da rede como PSFS e hospitais pois o
serviço também busca a reinserção social dessas pessoas.
Outrossim, também vale acrescentar que o serviço é de portas abertas e tem
uma lógica diferente da manicomial, pois a pessoa pode transitar livremente e
qualquer um que chegar no serviço é atendido sem necessidade de
encaminhamento.
2.1 DESAFIOS EXPERIENCIADOS NO SERVIÇO
Quando perguntadas sobre os desafios na prestação do serviço as
profissionais destacaram que quase nunca ocorrem situações de violência
direcionada a elas e as agressões que já sofreram não foram relacionadas a elas e
sim ao mundo exterior em geral, pois foram durante um surto que elas precisaram
conter, sendo o risco muito maior para a pessoa em crise do que para com o
profissional. Ademais, os usuários do serviço veem os funcionários do serviço como
profissionais da área de saúde e entendem que essas pessoas estão ali pra ajudar e
não para trancar e punir, sendo destacado que nunca foi necessário o auxilio da
policia no serviço pois a fala e o manejo clínico são suficientes.
Também foi destacado que um dos principais desafios é o desejo dos
pacientes para realização do tratamento pois muitos chegam ao serviço a pedido da
família, sendo necessário que seja realizado um trabalho com essas pessoas para
proporcionar maior adesão ao tratamento. Um outro desafio destacado foi que há
muito preconceito e estigma em relação às pessoas que estão em tratamento no
serviço, reduzindo esses indivíduos a apenas “drogados” e por a cidade ser pequena
as informações correm com facilidade, sendo que muitas vezes outras pessoas
querem informações sobre os tratamentos que estão ocorrendo. Além disso, outros
serviços da rede também são responsáveis por aumentar esse preconceito como
aconteceu em um caso de um alcoolista que teve um infarto e os médicos da rede
de saúde não o trataram adequadamente pois não confiaram em sua palavra e
acreditaram que ele estava tendo uma overdose por uso de substâncias.
“É necessário desconstruir a ideia de internação também pois a sociedade
sempre quer aprisionar as pessoas diferentes e o outro problema principal é a
medicalização pois muitas pessoas já chegam requisitando medicamentos.”
2.2 QUESTÕES ÉTICAS
É necessário haver sigilo em todas as instâncias do serviço e todos os
profissionais desde o porteiro até o psicólogo devem manter sigilo sobre
absolutamente tudo que acontece no local, é necessário tomar muito cuidado para
que as informações a respeito dos pacientes não sejam vazadas pois devido ao fato
de ser uma cidade pequena as pessoas são mais conhecidas e as informações
correm de maneira mais rápida. Ademais, também é necessário evitar atender
pessoas conhecidas para não prejudicar o tratamento. Muitas vezes também
existem problemas com as famílias dos pacientes que exigem informações sobre o
tratamento da pessoa, porém o direito à informação a respeito de seu tratamento é
do indivíduo e não da família. Caso o paciente queira um laudo esse é fornecido
somente a ele e não a família, pois além da privacidade muitas famílias buscam
esses laudos para internação do indivíduo em comunidades terapêuticas que muitas
vezes não contam com psicólogos além de trabalharem com uma lógica manicomial.
Outrossim, em alguns momentos, por desconhecimento, a justiça pede que o
serviço emita laudos periciais, porém esses laudos são todos negados juridicamente
pois isso não é função do serviço. Ademais, também é necessário estar sempre
atento ao código de ética do psicólogo.
2.3 OUTRAS QUESTÕES
As profissionais fizeram questão de destacar que o problema não é a
substância, mas sim a função dela na vida do indivíduo. Tratar o sintoma não ajuda
muito pois muitas vezes é muito comum a transferência de vícios como por exemplo
em pessoas que passam por cirurgia bariátrica sem a devida avaliação ou com um
laudo adquirido ilegalmente e depois acabam incorrendo em alcoolismo pois o vício
se transferiu da comida para a bebida.
É necessário tomar cuidado com as posturas em ambiente público também,
pois o profissionalismo e o sigilo se estende a todos os ambientes e inclusive a vida
pessoal da pessoa.
3 CONCLUSÃO
A partir do que foi exposto acima, fica evidente que as iniciativas, programas
e políticas supracitadas são uma tentativa de implementar políticas públicas que
atendam a população que necessita de acompanhamento/tratamento por vício ou
abuso de álcool e outras drogas. Nesse sentido, é essencial conhecer como essas
políticas funcionam, quais leis se aplicam, quais tipos de droga se enquadram no
atendimento, qual público é atendido, quem atende e como essas iniciativas
impactam a sociedade e os próprios usuários. Dessa forma, o psicólogo, como um
profissional que atua na área da saúde (especificamente saúde mental), deve
conhecer, além desses fatores, quais fatores atravessam as vivências dos diferentes
indivíduos envolvidos e afetados pela realidade do vício e abuso de substâncias.
A partir da Cartilha “11 perguntas para você conhecer a legislação sobre
drogas no Brasil”, há um esclarecimento e explicações essenciais a respeito dessa
temática. Primeiro, o que é considerado como droga no Brasil foi definido pela
Portaria SVS/MS no 344, de 12 de maio de 1998 do Ministério da Saúde. O texto em
questão define como droga ou entorpecente toda “substância que pode determinar
dependência física ou psíquica relacionada como tal, nas listas aprovadas pela
Convenção Única sobre Entorpecentes, reproduzidas nos anexos deste
Regulamento Técnico”. Tal documento explicita quais substâncias e drogas são
consideradas nocivas (ex: drogas sintéticas, como MDMA). Logo, há um
entendimento que o uso e abuso dessas substâncias trazem riscos à saúde, tanto
física quanto mental, do indivíduo e que, além disso, podem prejudicar seu convívio
social e familiar. Dessa forma, algumas as diretrizes são estabelecidas para
fundamentar a necessidade das leis e do tratamento no que se refere à temática
abordada. Das principais, destacam-se as seguintes: reconhecimento do uso de
drogas como fator de interferência na qualidade de vida do indivíduo e da
comunidade a que pertence; compartilhamento de responsabilidades e colaboração
mútua com instituições do setor privado (estabelecimento de parcerias, inclusive
com a família); estratégias preventivas diferencia e adequadas às
demandas/especificidades do indivíduo e contexto.
Em relação à prevenção ao uso e abuso de substâncias, tem-se um cenário
difícil visto que, no país, há vários facilitadores para o acesso às drogas como o
grande fluxo de drogas em vários lugares do país, grande extensão territorial com
difícil acesso para fiscalização, produção de drogas sintéticas crescente, rodovias
que interligam diferentes estados e permitem o acesso para cidades consumidoras,
fronteira com muitos países que são rota de tráfico internacional, medicamentos sem
prescrição podem ser comprados apesar dos danos potenciais, plantação ilícita de
maconha, coca e outras plantas, acesso à mão de obra e matéria prima para
produção facilitada. Sob essa perspectiva, fica evidente que o combate ao tráfico e
ao uso e abuso de álcool e outras substâncias são problemas complexos que
demandam esforço, tempo e dedicação de diversos grupos sociais, bem como de
diversas instituições além da esfera estatal.
No tocante ao abuso de drogas e substâncias, é imprescindível que, no
atendimento, o indivíduo seja enxergado para além da dimensão do vício. É
necessário que o atendimento seja integral, levando em consideração o contexto,
fatores sociais, realidade econômica e familiar, histórico pregresso, envolvimento
com crimes, por exemplo. Nesse sentido, há dois esquemas que resumem os fatores
que podem ser utilizados para ajudar nessa avaliação integral. Primeiro, o tripé do
indivíduo, que consiste em três esferas: 1. contexto social, político e econômico; 2.
Substância; 3. Indivíduo. O segundo se refere ao Mapa Multidimensional da Vida
que elenca as seguintes esferas: infância, escolarização, doença, trabalho, relações
afetivas e cidade. Esses fatores devem ser analisados uma vez que cada indivíduo é
único e possui demandas específicas. Além disso, o Brasil, como um país desigual,
enfrenta desafios para atender pessoas que estão à margem da sociedade.
Comunidades periféricas, vilas, zonas rurais e indígenas vivenciam a questão do
uso e abuso de drogas de maneiras diferentes do que indivíduos que residem em
centros urbanos maiores. Por consequência, a desassistência a esses indivíduos
corrobora para o aumento dos fatores de risco e a diminuição dos fatores de
proteção em relação ao uso de drogas e substâncias.
Dentro dessa temática, é válido pontuar também as questões de gênero que
perpassam esses atendimentos. As mulheres brasileiras sofrem com uma grande
pressão social, uma expectativa de proteção e cuidado, além de serem responsáveis
pelo sustento da casa. Em outras palavras, muitas delas enfrentam um contexto de
solidão e muita invisibilidade, sendo vulneráveis ao uso de substâncias em situações
de cobrança social excessiva, perda de parentes e abusos familiares. A busca por
substâncias pode ser uma forma de vazão dos sentimentos conflitantes das
situações vividas, uma forma de lidar ou espaçar da própria realidade e contexto em
que muitas violências são experimentadas em diversas áreas da vida dessas
mulheres.
Além do contexto, há muitas dificuldades no tratamento dessas mulheres uma
vez que estas necessitam de trabalhar para sustentar a casa, os filhos e até outros
familiares. Como resultado, muitas têm a piora do vício, e a acabam perdendo as
fontes de renda familiar e se veem num contexto de prostituição, com alto risco de
gravidez e outras doenças. Nesse sentido, mesmo que o tratamento seja realizado,
há uma grande dificuldade de reinserção social e de reabsorção no mercado de
trabalho, o que perpetua as inseguranças e violências já vividas.
Por último, no que se refere ao tema abordado no presente trabalho, o papel
da mídia é de extrema importância uma vez que esta é responsável pelas narrativas
que o público consome, o que molda o imaginário social em relação a todo contexto
que o Brasil se encontra. Portanto, a estigmatização dos usuários e adictos pode ser
reforçada a depender do modo como as informações são entregues em jornais,
programas de TV e produções cinematográficas (filmes, novelas, documentários,
etc). De tal modo, é necessário que se considere a importância da atuação dos
serviços de segurança, como a polícia, no combate ao tráfico, mas não há
possibilidade de delimitar um “mocinho” ou um “vilão”. A responsabilidade das
instituições e da sociedade é compartilhada (co-participantes) e depende do papel
desempenhado na sociedade. Por isso, deve-se considerar que a aplicabilidade da
lei, a importância e existência desta se devem a uma necessidade de ambas as
partes (Governo e sociedade). Assim também, o indivíduo com problemas e vícios
em substâncias também deve ser cuidado por profissionais que entendem tais
estruturas sociais e contexto, visto que há uma história, uma biografia, uma pessoa
que já passou por muitas violências e não deve ser retratada apenas como um
número pela mídia, de forma vilanizada. O problema com as drogas não deve ser
atrelado a uma classe, uma raça, uma etnia, uma condição social ou uma religião
específica, mas, sim, percebido como uma questão complexa e multifatorial. Logo, a
generalização, em qualquer grau, traz prejuízos como a diminuição do repertório de
estratégias de atendimento a estas pessoas.
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