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Estudo sobre a Hamartiologia e o Pecado

Hamartiologia

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Mário Entrevero
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HAMARTIOLOGIA

INTRODUÇÃO__________________________________ 2
I - A FONTE DO PECADO ________________________ 4
II - PECADO PESSOAL _________________________ 17
III - A ORIGEM DO PECADO _____________________ 23
IV - A NATUREZA DO PECADO __________________ 33
V - O PECADO E SUAS CONSEQÜÊNCIAS _________ 39
VI - A UNIVERSALIDADE DO PECADO ____________ 42
VII - A GRAÇA E O PERDÃO DE DEUS ____________ 51
VIII - PECADO ORIGINAL E DEPRAVAÇÃO_________ 53
IX - A CULPA DO PECADO ______________________ 56
X - A PENALIDADE DO PECADO _________________ 59
XI - O PECADO ________________________________ 63
CONCLUSÃO _________________________________ 73
BIBLIOGRAFIA ________________________________ 74
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HAMARTIOLOGIA

INTRODUÇÃO

O pecado é o fator trágico em relação ao homem e suas


conseqüências. A Bíblia fala da sua origem, natureza e
informa-nos o que o pecado realmente é; melhor ainda,
apresenta-nos o remédio para o pecado.
A queda no Éden resumiu o homem a um ser
desqualificado espiritualmente, passando a conviver
diariamente com os males resultantes desta tragédia O
Homem perdeu a comunhão com o seu criador.
A atitude de Deus em resgatá-lo dessa queda era
expresso em cada tempo, por meios favorecidos como
custo de resgate, mas tudo foi substituído por um custo
maior e perfeito, a morte de Jesus Cristo. Ele foi a
substituição dos sacrifícios, o alto preço e o remédio para o
pecado, formando assim, uma nova aliança do homem com
Deus através de seu sangue.
1. Definições do Termo
A “Hamartiologia” (do grego: “hamartios”, pecado e
“logia”, estudo, ciência ou discurso racional), é a Ciência
ou Doutrina do Pecado, também conhecida pela Doutrina
ou Ciência da Queda. Na Teologia Sistemática, é a
abordagem do pecado e suas conseqüências para o
homem e a criação.
O pecado (do hebraico: “hattah”; do grego:
“hamartios”; do latim: “peccatum”) é a transgressão
deliberada e consciente das leis estabelecidas por Deus.
Pecar é “errar o alvo ou o caminho”. O pecado é ainda
o “não atingir o padrão divino”. Constitui-se também de
“ofensa” contra Deus.
O pecado teve origem no próprio satanás, quando
este, antes da fundação do mundo, quis ocupar o trono do
Deus Altíssimo. Porém, o homem que foi criado com o livre-
arbítrio, ou seja, livre para escolher entre a obediência a
Deus e a desobediência, incitado pela serpente, tomou a
decisão errada: desobedeceu. A desobediência trouxe as
conseqüência.
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HAMARTIOLOGIA

Nem Deus nem o homem são os autores do pecado,


pois este é algo que veio de fora, mediante a serpente.
Adão conhecia a ordem divina, sabia das penalidades, mas
desobedeceu de olhos abertos, de propósito, pois
despertou no seu íntimo o mesmo desejo de satanás
(Lúcifer, que na verdade foi o autor do pecado antes da
fundação do mundo), o desejo de ser igual ou maior que
Deus. Assim trouxe o pecado sobre toda a humanidade.
O homem Adão foi criado à imagem e a semelhança
de Deus; e foi criado como um ser inteligente, racional, com
uma natureza moral santa, porém o Senhor não fez de
Adão um “robô” ou um “computador”, que só faria aquilo
que era programado a fazer. Pelo contrário, Deus fez de
Adão um ser livre, com o desejo de saber escolher entre o
bem e o mal: ou seja, livre para decidir, livre para escolher,
livre para obedecer a Deus ou não.
Adão foi criado com a condição de “livre-arbítrio” (do
latim: “liberum arbitrium”) que é o instituto que nos faculta
escolher entre o bem e o mal. Do uso que fazemos deste
instrumento, prestaremos contas ao Supremo Juiz no último
dia. Sem o livre-arbítrio, o homem (Adão) jamais poderia
firmar-se como criatura racional e moralmente livre.
Romanos 5: 12: “Portanto, assim como por um só homem
entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim
também a morte passou a todos os homens, porque todos
pecaram”.
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HAMARTIOLOGIA

I - A FONTE DO PECADO

1. A Dificuldade de Discutir o Pecado

Por mais importante que seja, a doutrina do pecado


não é um tópico fácil em nossos dias. Há vários motivos
para isso. Os temas pecado e morte não são agradáveis.
Não gostamos de pensar em nós mesmos como pessoas
ruins ou más. Mas a doutrina do pecado nos ensina que é
isso que somos por natureza. Não só os indivíduos reagem
contra esse ensino negativo, como se difunde, em nossa
sociedade, uma ênfase na atitude mental positiva. Essa
ênfase quase tem se tornado um novo tipo de legalismo,
em que a proibição principal é: “Não dirás nada negativo”.
Outro motivo que dificulta a discussão do pecado é
que, para muitos, trata-se de um conceito estranho. Não só
os problemas da sociedade são atribuídos a um ambiente
pernicioso e não a homens pecadores, como também tem
havido uma correspondente perda do sentimento de culpa.
Temos em mente, aqui, o fato de que um sentimento de
culpa objetiva tem se tornado relativamente incomum em
certos círculos. Em parte pela influência do Freud, a culpa é
entendida como um sentimento irracional que a pessoa não
deve alimentar. Sem um ponto de referência transcendente,
teísta, não há nenhum outro ser, exceto nós mesmos e
outros seres humanos, a quem precisamos responder ou
prestar contas. Assim, se ninguém for prejudicado por
nossas ações, não há motivo para sentir culpa.
E mais, muitas pessoas são incapazes de
compreender o conceito de pecado. A idéia do pecado
como uma força interior, uma condição inerente, um poder
controlador, é em grande parte desconhecida. As pessoas
hoje pensam mais em pecados, ou seja, atos errados
isolados. Os pecados são algo externo e concreto; são
logicamente separados da pessoa. Baseando-se nisso,
pessoas que não fizeram nada de errado (geralmente
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HAMARTIOLOGIA

entendidos como atos externos) consideram-se boas; não


se pensa em pecado.

2. A Perspectiva Bíblica da Natureza do Pecado

Embora muitas pessoas desconheçam o tópico, ou


sintam-se incomodadas com ele, é imperativo discutirmos
essa doutrina. A Bíblia apresenta uma série de perspectivas
quanto à natureza do pecado
Pecado é uma inclinação interior. Pecado não é
simplesmente atos errados, mas também pecaminosidade.
É uma disposição interior inerente que nos inclina para atos
errados. Aqui, os motivos são praticamente tão importantes
quanto as ações. Assim, Jesus usou, para condenar a ira e
a cobiça, a mesma veemência que usou contra o homicídio
e adultério (Mt. 5.21,22,27,28). Não é simplesmente que
somos pecadores porque pecamos; pecamos porque
somos pecadores. Oferecemos, portanto, esta definição de
pecado: “Pecado é qualquer falta de conformidade, ativa ou
passiva, com a lei moral de Deus. Isso pode ser uma
questão de ato, de pensamento ou disposição ou estado
interior”. Pecado é incapacidade de viver de acordo com o
que Deus espera de nós, no que diz respeito ao que
fazemos, pensamos e somos.
Pecado é rebelião e desobediência. A Bíblia entende que
todas as pessoas estão em contato com a verdade de
Deus. Paulo nota que isso inclui até mesmo os gentios,
que, embora não tenham a revelação especial, têm a lei de
Deus escrita no coração (Rm. 2.14,15). A incapacidade de
crer na mensagem, particularmente quando ela é
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HAMARTIOLOGIA

apresentada de forma expressa e exclusiva, é


desobediência ou rebelião contra Deus. Um exemplo típico
é Adão e Eva. Embora lhes fosse permitido comer de todas
as árvores do Jardim do Édem, Deus ordenou que não
comessem da árvore do conhecimento do bem e do mal
(Gn. 2.16,17). Adão e Eva rejeitaram a prerrogativa de
Deus que seria a de lhe dizer o que era certo e o que era
errado. Eles se rebelaram contra a autoridade de Deus e,
assim, lhe desobedeceram.
Pecado implica incapacidade espiritual. Ele altera nossa
condição interior, nosso caráter. Ao pecar, tornamo-nos
como que deformados ou distorcidos. A imagem de Deus,
segundo a qual fomos criados, fica prejudicada. Em
Romanos 1, Paulo descreve esse processo. Tendo se
recusado a reconhecer Deus, os pecadores tornaram-se
fúteis em seus pensamentos, e a mente insensata deles
ficou obscurecida (v. 21). Deus os entregou a uma mente
reprovável (v. 28), na realidade uma mente não qualificada
ou desqualificada. Deixada a seu critério, a mente humana
não é adequada para informar corretamente e orientar
nossa conduta. As conseqüências dessa incapacidade
espiritual são os pecados alistados nos versículos 29-30.
Somente por meio de uma renovação da mente, promovida
por Deus, os indivíduos podem ser restaurados a uma
condição espiritual não distorcida, saudável (Rm. 12.2).
Pecado é o cumprimento incompleto dos padrões de Deus.
Um elemento comum que perpassa todas as
caracterizações bíblicas do pecado é a idéia de que o
pecador falhou no cumprimento da lei de Deus. Há várias
maneiras pelas quais deixamos de atingir seus padrões de
justiça. Podemos simplesmente ficar aquém da norma
estabelecida ou não, de modo nenhum, o que Deus ordena
e espera. Saul deixou de seguir a ordem divina de destruir
os amalequitas e todas as suas posses. Porque Saul
poupou o rei Agague e o melhor gado, Deus o rejeitou
como rei de Israel (Sl. 15.23). Às vezes, podemos fazer o
que é certo, mas pelo motivo errado, de modo a cumprir a
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HAMARTIOLOGIA

letra da lei, mas não seu espírito. Em Mateus 6, Jesus


condena os bons atos praticados com o desejo básico de
obter a aprovação dos outros, e não de agradar a Deus (v.
2,5,16).
Pecado é desalojar Deus. Colocar outra coisa, qualquer
coisa, no lugar supremo que pertence a Deus é pecado.
Preferir qualquer objeto finito acima de Deus é errado, por
mais altruísta que pareça tal escolha. Essa alegação é
sustentada por textos importantes tanto do Antigo como do
Novo Testamento. Os Dez Mandamentos começaram com
o mandamento de dar o devido lugar a Deus. “Não terás
outros deuses diante de mim” (Ex. 20.3) é a primeira
proibição na lei. De modo semelhante, Jesus afirmou que o
primeiro grande mandamento é “Amarás, pois o Senhor, teu
Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o
teu entendimento e de toda a tua força” (Mc. 12.30). O
devido reconhecimento de Deus é primário. A idolatria em
qualquer forma, não o orgulho, é a essência do pecado.

3. A Fonte do Pecado

Mencionamos várias perspectivas bíblicas do pecado.


Agora precisamos perguntar a respeito da fonte do pecado,
a causa ou a ocasião que conduz ao pecado. Isso é vital
porque a cura do pecado exigirá necessariamente a
identificação e a anulação da causa.
Frederick Tennant sustentou que a fonte do pecado é
nossa natureza animal. Pecado é simplesmente a
persistência dos instintos e dos padrões normais de
comportamento de nossos antepassados animais, no
período em que os homens adquiriram consciência moral.
Nesse caso, a cura não pode ser uma simples reversão
para um estágio anterior de inocência. Antes, será uma
questão de nos livrar completamente desses velhos
instintos ou de aprender a controlá-los e a dirigi-los da
maneira devida. Essa concepção da cura para o pecado
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HAMARTIOLOGIA

contém a crença otimista de que o processo evolutivo está


levando a raça humana na direção correta.
Na concepção de Reinhold Niebunh, a fonte do
pecado é a ansiedade causada pela finitude humana, a
tentativa de vencer, por esforço próprio, a tensão entre
nossas limitações e nossas aspirações. A cura exigirá a
aceitação de nossas limitações e a colocação de nossa
confiança em Deus. Mas essa cura é uma questão de
mudança de atitude, de conversão real.
Paul Tillich relacionou o pecado com a alienação
existencial do fundamento de todo o ser (definição de Deus,
para Tillich), de outros seres e de si mesmo, uma condição
que parece virtualmente uma decorrência natural do fato de
ser criatura. Aqui, também, a cura fundamental é uma
questão de mudança de atitude, de verdadeira conversão.
A solução implica tornar-se cada vez mais consciente do
fato de que se é parte do ser, ou que se participa do
fundamento do ser. A conseqüência será o fim da alienação
do fundamento do ser, de outros seres e de si mesmo.
De acordo com a teologia da libertação, a fonte do
pecado é a luta econômica. A solução é eliminar a opressão
e as desigualdades de posses e poder. Em vez de
evangelizar indivíduos, nosso intento principal deve ser a
acão econômica e política para modificar a estrutura da
sociedade.
Harrinson Sacket Elliott via a competitividade individualista
como a fonte do pecado. Uma vez que o pecado é
aprendido por meio da educação e do condicionamento
social, deve ser eliminado pela mesma via. O antídoto é
uma educação que destaque o empreendimento não-
competitivo em busca de alvos comuns.

4. O Ensino Bíblico

Da perspectiva evangélica, o problema está no fato de


que os homens são pecadores por natureza, e vivem num
mundo em que forças poderosas os induzem a pecar. É
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HAMARTIOLOGIA

importante observar em primeiro lugar que o pecado não é


causado por Deus. Tiago descarta rapidamente essa idéia
que seria, provavelmente, muito atraente para alguns:
“Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus;
porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a
ninguém tenta” (Tg. 1.13). Também não há nenhum
incentivo à idéia de que o pecado resulta inevitavelmente
da própria estrutura da realidade. Antes, a responsabilidade
pelo pecado é colocada bem diante do indivíduo: “Cada um
é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e
seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz
o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte”
(Tg. 1.14,15). Pela análise dessa e de outras passagens,
tanto didáticas como narrativas, podemos determinar o que
a Bíblia ensina ser a base ou a causa do pecado.
Todos temos certos desejos. Esses desejos, a
princípio, são legítimos. Em muitos casos a satisfação deles
é indispensável para a sobrevivência do indivíduo ou da
raça. Por exemplo, a fome é o desejo de comer. Sem a
satisfação desse desejo ou impulso, morreríamos de fome.
De modo semelhante, o impulso sexual busca satisfação.
Caso ele permanecesse insatisfeito, não haveria
reprodução humana e, portanto, não haveria preservação
da raça humana. Sem tentar lidar aqui com a questão da
licitude de comer por deleite ou de sexo por prazer,
podemos asseverar que esses impulsos são dados por
Deus, e que há situações em que a satisfação deles não só
é permitida como até obrigatória.
Observamos, além disso, a capacidade humana. Os
homens são capazes de escolher entre alternativas; essas
alternativas podem incluir opções que não estejam
imediatamente presentes. Só os homens, entre todas as
criaturas, são capazes de transcender o lugar que ocupam
no tempo e no espaço. Por meio da memória, são capazes
de reviver o passado, aceitando-o ou repudiando-o. Por
meio da imaginação, são capazes de construir cenários do
futuro e escolher um deles. Podem se ver ocupando uma
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HAMARTIOLOGIA

posição diferente na sociedade, ou casados com outro


parceiro. Assim, podem desejar não apenas o que de fato
está ao seu dispor, mas também o que não é próprio ou
legítimo para eles. Essa capacidade expande em muito as
possibilidades de ações ou pensamentos pecaminosos.
Todo homem tem uma série de desejos naturais que,
embora bons em si e por si, são áreas potenciais para a
tentação e o pecado.

a) O Desejo de Desfrutar Coisas. Deus plantou certas


necessidades em cada um de nós. A satisfação dessas
necessidades não só é essencial, como também pode dar
prazer. Por exemplo, as necessidades de comida e de
bebida devem ser satisfeitas porque é impossível viver sem
elas. Ao mesmo tempo, a comida e a bebida podem ser
legitimamente desejadas como fonte de prazer. No entanto,
quando a comida e a bebida são procuradas apenas pelo
prazer do consumo e em excesso, com relação ao
necessário, comete-se o pecado da glutonaria. O impulso
sexual, embora desnecessário para a preservação da vida
do indivíduo, é essencial para a manutenção e continuidade
da raça humana. Podemos desejar legitimamente a
satisfação desse impulso porque ele é essencial e também
porque traz prazer. Quando, porém, o impulso é satisfeito
de maneiras que transcendem as limitações próprias e
naturais (i.e., quando é satisfeito fora do casamento), passa
a ser a base de pecado. Qualquer satisfação indevida de
um desejo natural é um caso de “concupiscência da carne”
(1 Jo. 2.16).
b) O Desejo de Obter Coisas. Há lugar para a obtenção de
posses na organização de Deus. Isso está implícito no
mandamento de dominar o mundo (Gn. 1.28) e nas
parábolas sobre mordomia (Mt. 25.14-30). Além disso, as
posses materiais são consideradas incentivos legítimos
para encorajar a diligência. Quando, no entanto, o desejo
de adquirir bens mundanos torna-se tão intenso que é
satisfeito a qualquer custo, mesmo que seja explorando ou
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HAMARTIOLOGIA

roubando os outros, degenera-se em “concupiscência dos


olhos”(1 Jo. 2.16).
c) O Desejo de Fazer Coisas. As parábolas sobre a
mordomia também retratam o desejo de realização como
algo bom e próprio. Isso faz parte daquilo que Deus espera
da humanidade. Quando, porém, essa ânsia transpõe as
devidas limitações, sendo perseguida à custa dos outros,
degenera-se “soberba da vida” (1 Jo. 2.16).
Há maneiras apropriadas de satisfazer cada um desses
desejos, e também há limites impostos por Deus. A
incapacidade de aceitar esses desejos conforme foram
constituídos por Deus e, portanto, de submetê-los ao
controle divino, é pecado. Nesses casos, os desejos não
são vistos pela perspectiva de sua origem e como um meio
de agradar a Deus, mas como fins em si.
Observe que, na tentação de Jesus, Satanás apelou para
desejos legítimos. Os desejos que Satanás desafiou Jesus
a cumprir não eram errados em si. Antes, o tempo e a
forma de cumprimento proposto constituíam o mal. Jesus
havia jejuado por quarenta dias e noites e, por conseguinte,
estava com fome. Era uma necessidade natural que teria
de ser satisfeita para preservar a vida. Era correto Jesus
alimentar-se, mas não por meio de uma previsão
miraculosa e, provavelmente, não antes de sua tentação
ser completada. Era conveniente que Jesus desejasse
descer em segurança do pináculo do templo, mas não
exigindo do Pai uma manifestação miraculosa de poder.
Era correto Jesus exigir a posse de todos os reinos do
mundo, pois são seus. Ele os criou (Jo. 1.3), e até agora os
sustenta (Cl. 1.17). Mas não era correto tentar estabelecer
essa posse adorando o chefe das forças do mal.
Muitas vezes a tentação envolve indução externa. Isso
aconteceu com Jesus. No caso de Adão e Eva, a serpente
não sugeriu diretamente que comessem da árvore proibida.
Antes, ela perguntou se a fruta de todas as árvores lhes
estavam franqueadas. Então afirmou: “É certo que não
morrereis [...] como Deus, sereis conhecedores do bem e
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HAMARTIOLOGIA

do mal” (Gn. 3.4,5). Embora o desejo de comer da árvore e


de ser como Deus estivessem naturalmente presente,
também houve uma indução externa de origem satânica.
Em alguns casos, um homem seduz o outro, fazendo-o
ultrapassar os limites que Deus impôs ao nosso
comportamento. Em última análise, porém, o pecado é a
escolha da pessoa que o comete. O desejo de fazer o que
se faz pode estar presente de forma natural e também pode
haver indução externa. Mas o indivíduo é basicamente
responsável. Adão e Eva escolheram agir de acordo com o
impulso e a sugestão. Jesus escolheu o caminho oposto.
Além do desejo e da tentação natural, deve, é claro, existir
uma ocasião para o pecado. Inicialmente, Adão não pode
ser tentado a ser infiel para com a esposa, e Eva não podia
ter ciúmes de outra mulher. Para nós, que vivemos após a
queda e não somos Jesus, há mais um fator complicador.
Existe algo chamado “carne” que exerce forte influência
sobre o que fazemos. Paulo fala dela em numerosas
passagens, por exemplo, Romanos 7.18: “Porque sei que
em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum,
pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo”.
Em Gálatas 5.16-24, ele fala de modo claro sobre a
oposição entre a carne e o Espírito, e sobre as obras da
carne, que constituem todo um catálogo de males. Por
“carne” Paulo não se refere à natureza física do ser
humano. Antes, o termo designa a vida egocêntrica, a
negação ou a rejeição de Deus. Isso é algo que se tornou
parte da natureza humana –uma inclinação, uma tendência,
uma predisposição para o pecado e para deixar de fazer a
vontade de Deus. Por conseguinte, somos hoje menos
capazes de escolher o certo que os humanos originais. É
até concebível que, em conseqüência da queda, os desejos
naturais, que são bons em si, tenham sofrido alterações.
Que conclusões acerca da cura podemos extrair do ensino
bíblico a respeito da fonte do pecado? A cura precisa vir por
meio de uma mudança produzida sobrenaturalmente na
natureza humana, e também por meio da ajuda divina para
13

HAMARTIOLOGIA

fazer frente à força da tentação. É a conversão e a


regeneração individual, que modificarão a pessoa, levando-
a a um relacionamento com Deus, tornando possível uma
vida cristã bem-sucedida.

5. As Conseqüências do Pecado

Uma ênfase que percorre ambos os Testamentos é a de


que o pecado é um problema muito sério com
conseqüências muito sérias. No próximo capítulo vamos
estudar os efeitos coletivos do pecado, ou seja, o impacto
do pecado de Adão sobre toda a sua posteridade. Neste
capítulo, porém, vamos nos preocupar com efeitos
individuais do pecado, conforme ilustram as Escrituras
(particularmente no relato sobre Adão e Eva), e são vistos
em nossa própria experiência.

6. Conseqüências que Afetam o


Relacionamento com Deus

O pecado produziu uma transformação imediata no


relacionamento que Adão e Eva tinham com Deus. É
evidente que eles tinham uma convivência próxima e
amigável com Deus. Confiavam nele e lhe obedeciam e,
tomando por base Gênesis 3.8, pode-se concluir que
costumavam ter comunhão com Deus. Agora, porém, tudo
isso mudara. Por terem violado a confiança e o
mandamento de Deus, o relacionamento ficou bem
diferente. Eles se colocaram em lado oposto de Deus, e
tornaram-se de fato seus inimigos. Não foi Deus que mudou
de atitude ou de lugar, mas, sim, Adão e Eva.

7. Desfavor Divino

É notável o modo pelo qual a Bíblia caracteriza o


relacionamento de Deus com o pecado e o pecador. Em
dois casos do Antigo Testamento, diz-se que Deus odeia
14

HAMARTIOLOGIA

Israel por seus pecados. Em Oséias 9.15, ele afirma: “ Toda


a sua malícia se acha em Gilgal, porque ali passei a
aborrecê-los; por causa da maldade das suas obras, os
lançarei fora de minha casa; já não os amarei; todos os
seus príncipes são rebeldes”. Trata-se de uma expressão
muito forte. Um sentimento semelhante é expresso em
Jeremias 12.8. Em duas outras ocasiões diz-se que Deus
odeia os iníquios (Sl. 5.5;11.5). Muito mais freqüentes, no
entanto, são as passagens em que se diz que ele odeia a
iniquidade (Pv. 6.16,17; Zc. 8.17). O ódio, porém, não é
unilateral, da parte de Deus, pois os iníquos são descritos
como os que odeiam a Deus (Ex. 20.5; Dt. 7.10) e, mais
usualmente, com os que odeiam os justos (Sl. 18.40;69.4;
Pv. 29.10). Naquelas poucas passagens em que se diz que
Deus odeia os iníquos, fica claro que Deus assim faz
porque eles o odeiam e já cometeram iniqüidade.
O fato de Deus olhar com favor para alguns e com desfavor
ou ira para outros, e o fato de ser ás vezes descrito como
alguém que ama Israel e, outras como alguém que o odeia,
não são indícios de mudança, incoerência ou capricho de
Deus. Antes, faz parte de sua natureza santa opor-se de
modo categórico a ações pecaminosas. Quando nos
engajamos em tais ações, passamos para o território do
desfavor de Deus. O Antigo Testamento descreve com
freqüência os que pecam e violam a lei divina como
inimigos de Deus. Mas são bem raras as vezes em que a
Bíblia fala de Deus como inimigo deles (Ex. 23.22; Is.
63.10; Lm. 2.4,5). Ryder Smith comenta: “No
AntigoTestamento,a ‘inimizade’, como o ódio, é rara em
Deus, mas comum nos homens”. Rebelando-se contra
Deus, é a humanidade, e não Deus, que quebra o
relacionamento.
No Novo Testamento, dá-se um destaque especial à
inimizade e ódio dos incrédulos e do mundo para com Deus
e seu povo. Pecar é fazer-se inimigo de Deus. Em
Romanos 8.7 e em Colossenses 1.21, Paulo descreve
como inimiga de Deus a mente que se fixa na carne. Em
15

HAMARTIOLOGIA

Tiago 4.4, lemos que “quem quiser ser amigo do mundo


constitui-se inimigo de Deus”. Deus, porém, não é inimigo
de ninguém; ele ama a todos e não odeia ninguém. Ele
amou o suficiente para enviar seu Filho a fim de que
morresse por nós enquanto ainda éramos pecadores e seus
inimigos (Rm. 5.8-10). Ele é o exemplo vivo naquilo o que
ordena. Ele ama seus inimigos.
Embora Deus não seja inimigo dos pecadores nem os
odeie, também está bem claro que Deus fica irado com o
pecado. A Escritura não apenas se refere às reações
presentes de Deus diante do pecado, mas também afirma
que virão certas ações divinas. Em João 3.36, por
exemplo, Jesus diz: “Quem crê no Filho tem a vida eterna;
o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a
vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus”. Várias
passagens ensinam que, embora no presente a ira de Deus
repouse sobre o pecado e os que a praticam, essa ira será
convertida em ação em algum tempo futuro. Romanos 1.18
ensina que “ a ira de Deus se revela do céu contra toda
impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade
pela injustiça”. Romanos 2.5 fala de “acumular a ira” para o
dia do julgamento. A ira de Deus é uma questão muito real
e presente, mas não será plenamente revelada, ou
manifesta em ação, até algum ponto mais adiante.
Pelo que já consideramos, é evidente que Deus olha o
pecado com desfavor; aliás, que o pecado lhe causa ira,
indignação ou desprazer. Devem-se acrescentar, contudo,
mais dois comentários. O primeiro é que a ira não é algo
que Deus resolve sentir. A desaprovação do pecado não é
uma questão arbitrária, pois sua própria natureza é de
santidade; essa santidade rejeita o pecado
automaticamente. O segundo comentário é que precisamos
rejeitar a idéia de que a ira de Deus é excessivamente
emocional. Não é como se estivesse fervendo de ira, com
uma irritação praticamente descontrolada. Ele é capaz de
exercer paciência e longanimidade, e o faz. Também não
se deve pensar que Deus esteja de algum modo frustrado
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HAMARTIOLOGIA

com nosso pecado. Desapontamento talvez seja o modo


mais exato de caracterizar sua reação.

8. Culpa

Outra conseqüência de nossos pecados que afeta nosso


relacionamento com Deus é a culpa. Essa palavra precisa
de alguma explicação minuciosa, pois no mundo de hoje o
significado usual do termo é sentimentos de culpa ou o
aspecto subjetivo da culpa. Esses sentimentos são muitas
vezes considerados irracionais e, de fato, às vezes são. Ou
seja, a pessoa pode não ter feito nada objetivamente errado
para merecer uma punição, apesar disso, pode abrigar
esses sentimentos. O ponto em questão aqui, no entanto, é
o estado objetivo de ter violado o propósito de Deus para a
humanidade e, assim, estar sujeito à punição. É esse
aspecto da culpa que merece nossa atenção especial.
Para esclarecer o que entendemos por “culpa”, será útil
fazermos um breve comentário sobre duas palavras que
podem ocorrer nas definições de pecado, a saber: “mau” e
“errado”. Por um lado, podemos definir o pecado como algo
intrinsecamente mau, em vez de bom. É impuro, repulsivo,
odiado por Deus, simplesmente porque é o oposto do bom.
Mas há um problema. A afirmação de que o pecado é mau
pode ser entendida apenas no campo estético –o pecado é
uma ação feia, distorcida, estragada, que está aquém do
padrão perfeito almejado por Deus.
Por outro lado, porém, podemos definir o pecado de modo a
envolver não apenas o que é mau, mas também errado. No
primeiro caso, o pecado pode ser comparado a uma doença
violenta da qual as pessoas saudáveis fogem de medo.
Mas, no segundo caso, estamos pensando no pecado, não
apenas como falta de integridade ou de perfeição, mas
como um erro moral, como uma violação consciente do que
Deus mandou; ato que, portanto, merece punição.
17

HAMARTIOLOGIA

II - PECADO PESSOAL

Com o termo pecado pessoal queremos dizer aquela forma


de pecado que se origina com a pessoa ou é cometido por
ela. A designação inclui os pecados dos anjos além dos
seres humanos.
Sob esta divisão da doutrina, consideramos aquele aspecto
do pecado que, por causa da consciência e experiência
humanas, parece aos homens ser o único fundamento para
a condenação divina da [Link] muita freqüência
presume-se que se o pecado for perdoado, mais há para
ser desejado, considerando que é racial e bíblico concluir
que resolver o problema da raiz da árvore é mais
importante do que lidar com seu fruto; pois, se a raiz ou
árvore não forem resolvidas, o fruto indesejável vai
aparecer e , no caso de uma natureza de pecado,
certamente vai aparecer.
Não obstante, a doutrina do pecado pessoal é de grande
importância, ocupando, como ocupa, uma porção maior das
Escrituras do que todas as outras fases da questão do
pecado juntas. Este é o tema que contempla toda a
experiência humana imediata e macula as páginas da
história com lágrimas e sangue. Além disto, a importância
deste aspecto do pecado se vê quando reconhecemos que
o primeiro pecado, do qual todas as outras formas de
pecado derivam, foi também um pecado pessoal. Destes
pecados pessoais, os homens devem ser salvos e, de
acordo com as suas obras más, os homens serão julgados
e condenados para sempre.

1. A Origem do Pecado

A classificação familiar entre os teólogos das teorias que


tratam da origem do pecado inclui as seguintes: a ) a
necessidade, b) a filosofia maniqueísta da dualidade, c) que
Deus é o autor do pecado, e d) que o pecado surge do
abuso da liberdade moral.
18

HAMARTIOLOGIA

A teoria da necessidade propõe que o pecado é uma coisa


sobre a qual Deus não tem autoridade, e é sem
fundamentos. A doutrina maniqueísta, apresentada por
Mani, que nasceu em cerca de 215 d.C., diz que há duas
divindades: uma boa e outra má, e que devido à influência
destas, dois princípios opostos sempre estiveram
presentes no universo, que explica a luz e as trevas, a alma
e corpo, o bem e o mal. Esta teoria também falha por falta
de fundamentos.
O conceito de que Deus é o autor do pecado é uma
enfatização imprudente da doutrina do decreto divino.
Contra ela se apresenta a verdade que declara, por toda a
Bíblia, que os homens são responsáveis pela sua má
conduta, seja qual for a antecipação divina que tenha
havido com respeito a tudo o que existe no universo. Está
claro, portanto, que no reino evangélico como no humano, o
pecado aparece pelo abuso da liberdade moral.
Além desta classificação temos o aspecto mais externo e
complexo da hamartiologia que reconhece três origens ou
começos distintos do pecado. São os seguintes: a ) sua
antecipação eterna na presciência de Deus, b ) seu primeiro
desempenho concreto no céu por um anjo perfeito, e c) seu
primeiro desempenho na terra por um ser humano perfeito.

2. A Antecipação Eterna do Pecado na Consciência de


Deus

Embora a verdade que Deus soubesse de antemão a


realidade inevitável do pecado não constitua um começo
desse pecado, no sentido de que não representa a
decretação dele, a sua presciência participa especialmente
desta fase da doutrina do [Link] forma de Dualismo,
que defende que dois princípios opostos, o bem e o mal,
existiam desde a eternidade e que eles são elementares e
essenciais, um tanto quanto outro, não pode ser aceita.
Uma divagação, à esta altura, pelas filosofias dualistas
antigas ou mais modernas torna-se desnecessá[Link]
19

HAMARTIOLOGIA

dizer que, embora na vontade permissiva de Deus tenha


surgido um reino das trevas, no qual se reuniram os anjos
caídos, os seres humanos caídos, e que se opõe a Deus ,
esse reino não existiu sempre; e o seu fim foi claramente
predito quando tiver realizado aquilo que estava em vista
quando foi divinamente permitido que seguisse o seu curso.
Em outras palavras, a Bíblia concede ao mal um caráter
transitório, registrando o seu começo, o seu curso e o seu
fim. O pecado, em antecipação e em ação, são duas idéias
extensamente diferentes, e nada mais pode ser afirmado
com relação ao aspecto eterno do mal do que o fato de
Deus tê-lo conhecido e permitido de antemão . Em um
plano vasto demais para o entendimento humano,
envolvendo as esferas angélicas como também as esferas
humanas, que poderia ser chamado de o princípio do mal,
recebeu a garantia de sua demonstração experimental,
para quem pudesse ser julgado com essa finalidade que vai
silenciar toda a voz entre os seres criados, e colocar em
completa harmonia com seu Criador essas hostes que não
existiram sempre e que ainda não conhece o valor da
santidade divina, a não ser que sejam, realmente, banidas
da sua presença para sempre por causa de seu repúdio
dele.
A revelação referente ao caráter santo de Deus
impossibilita qualquer pensamento de que qualquer forma
de pecado tenha sido uma realidade ativa antes que seres
finitos fossem criados e quando só a Divindade existia. A
criação de anjos e, mais tarde, de seres humanos, gerou
imediatamente a possibilidade do mal se tornar um fato
existente; e tal ele se tornou por meio de queda dos anjos e
da queda da humanidade. Em tal eventualidade, Deus não
foi surpreendido nem derrotado. Sua determinação de lhes
dar existência por uma eternidade futura incluía, também, o
propósito de testar e julgar as vastas questões morais, cuja
consumação vai demonstrar a sua santidade infinita como
também a sua glória e graça.
20

HAMARTIOLOGIA

Ele que, em cada exemplificação, ficou comprovado ser


santo, justo e bom, pode ser implicitamente alvo da
confiança nos reinos que fazem além da compreensão
humana.
Não só a razão corrobora que já sabia e tinha planejado o
programa que a criação está agora executando, como
também da mesma forma explícita afirma que Deus já
conhecia de antemão cada forma do mal desde toda a
eternidade. Nesse sentido, e só nesse, o mal existiu antes
da consumação da criação. Que o mal existia na
presciência de Deus ficou comprovado por aquelas
passagens bíblicas que indicam que a redenção já estava
eternamente na mente e no propósito de Deus, e nenhuma
delas tem mais força do que Apocalipse 13.8, onde se
declara que Cristo foi o cordeiro morto desde a fundação
do cosmo.
Quando o cosmos teve o seu começo, mesmo na forma de
uma antecipação divina, um Cordeiro redentor foi um
aspecto importante da intenção divina. Não seria melhor
dizer que, à parte das realizações do Cordeiro redentor,
nenhum cosmos teria sido permitido? Não é verdade que
este universo, tão vasto realmente, é redentocêntrico? Não
está em consideração uma redação que tenha em vista
meramente o salvamento de infelizes seres caídos no
pecado para o seu próprio bem. Se isso fosse tudo, o
motivo de sua queda seria difícil de entender. A sua
redenção é por amor a ele. Deus tem propósito eterno, e
para a sua glória, podemos dizer que o seu propósito tem
em vista a felicidade eterna de todos aqueles que aceitam a
sua graça. Tal benefício, por mais vasto que seja, não
exaure tudo o que está no propósito eterno de Deus.
Sob a divisão geral deste tema, que contempla a
presciência divina do mal, é lógico que se considerem as
realidades comparativas do bem e do mal. Ninguém
examinou de maneiras mais exaustiva ou esclarecedora
este tema do que o Dr. Julius Muller em the Christian
Doctrine of sin ( A Doutrina Cristã do Pecado ) (I, 412-17).
21

HAMARTIOLOGIA

Embora esta citação seja bastante extensa , é muito valiosa


para que não seja apresentada aqui:
“Devemos dar atenção especial à suposta
independência do princípio do mal, segundo o qual o
Dualismo permanece de pé ou cai. O bem... é totalmente
independente do mal; a natureza do bem revela-se em
contraste ao mal, desde que o mal fez sua aparição no
mundo. Mas o bem não tem necessidade do mal para a sua
auto-realização; o amor seria eternamente o mesmo, e
sempre consciente de sua própria natureza, embora não
houvesse ódio. O mal, por outro lado, é tão dependente do
bem que veio a existir apenas como um contraste do bem..
Como a oposição implica em algo à que se oponha, o mal
pressupõe o bem, e só é concebível como um afastamento
ou queda deste. Se o mal fosse considerado como
totalmente primário e original, não poderia em nenhum
sentido real ser chamado de mal ou “aquilo que não deveria
existir”. Esta dependência do bem ainda se torna mais
aparente quando nos lembramos que o mal como antítese
não é nada mais que a abstração ou separação pervertida
de um elemento essencial em nosso conceito do bem
moral, a elevação do amor próprio em princípio de ação.
Portanto, não apenas o bem moral é perfeitamente
inteligível por si mesmo e através de si mesmo,como
também o mal, por outro lado, só pode ser entendido por
meio do bem.
“Ninguém pode ridicularizar-nos aqui admitindo
tacitamente aquele conceito metafísico do bem que nossa
anterior investigação nos levou a rejeitar: Que o bem, a
negação positiva daquilo que faz o mal ser o mal, não é de
maneira nenhuma uma “realidade” vazia, mas é a essência
mais profunda do bem moral, o amor. Não podemos
reconhecer o mal como o sentimos nas profundezas de
nossa consciência moral, não apenas como uma coisa
irracional, vã e sem valor, mas como uma fonte contínua,
terrível e odiosa, de males inumeráveis, enquanto
observamos o ser eterno do qual o homem no mal se afasta
22

HAMARTIOLOGIA

como se fosse simplesmente uma “substância absoluta”,


uma “existência real” e assim por diante. O próprio centro
da doutrina do Cristianismo referente a Deus é que Ele, que
é a existência absoluta e que contém em si mesmo a fonte
de toda a realidade, é ao mesmo tempo PERSONALIDADE
E AMOR. Reconhecendo assim eu o mal, o homem se põe
ao mais santo amor pela alienação e inimizade de sua
vontade, a clareza peculiar de nossa consciência moral em
relação ao mal, o nosso profundo horror na contemplação
dele (que é deficiente apenas onde a consciência foi
cauterizada) fica adequadamente explicada: agora
finalmente o sentimento de vergonha, de arrependimento e
o remorso da consciência, encontram a sua solução
adequada. Se Deus não fosse Amor, haveria realmente
maldade e indignidade, mas não haveria o MAL”.
23

HAMARTIOLOGIA

III - A ORIGEM DO PECADO


Qualquer pessoa que se dá a meditar na doutrina do
pecado, procurando compreendê-la mesmo à luz das
Escrituras, inevitavelmente há de se defrontar com a
seguinte indagação: Qual a origem do pecado? Esta
indagação, se a encararmos no contexto da Igreja ou da
Teologia, amplia-se numa indagação sobre a origem do mal
em todo o mundo. As perturbações da vida e a consciência
de algo anormal atuando decisivamente no mundo,
conduzem o homem pensante a essa questão; e inúmeras
são as respostas formuladas através da história; respostas
nem sempre harmônicas entre si.
Conceitos Históricos e Teorias sobre a Origem do
Pecado
São os mais diversos os conceitos que ao longo da história
surgiram acerca do pecado. Irineu, bispo de Lyon, na Ásia
Menor (130-208 d.C.), foi, talvez, o primeiro dos Pais da
Igreja Antiga, a assegurar que o pecado no mundo se
originou na transgressão voluntária do homem no Éden.
O conceito de Irineu logo tomou conta do pensamento e da
teologia da Igreja, especialmente como arma no combate
ao gnosticismo, pois este ensinava que o mal é inerente à
matéria.
2. Do Gnosticismo a Orígenes
O gnosticismo ensinava que o contato da alma
humana com a matéria era que a tornava imediatamente
pecadora. Esta teoria naturalmente despojou o pecado do
seu caráter voluntário como é apresentado na Bíblia.
Orígenes (185-254 d.C.) sustentou este mesmo ponto
de vista por meio de sua teoria chamada “preexistencismo”.
Segundo ele, as almas dos homens pecaram
voluntariamente em existência prévia, e, portanto, todas
entraram no mundo numa condição pecaminosa. Este
conceito de Orígenes sofreu forte oposição mesmo nos
seus dias.
3. Os Pais da Igreja Grega
24

HAMARTIOLOGIA

Em geral os Pais da Igreja grega dos séculos III e IV


se mostraram inclinados a negar a relação direta entre o
pecado de Adão e seus descendentes. Em contraposição,
os Pais da Igreja latina ensinaram, com bastante clareza,
que a presente condição pecaminosa do homem encontra
sua explicação na primeira transgressão de Adão no Éden.
4. De Agostinho à Reforma
O ensino da Igreja do Ocidente, quanto à origem do
pecado, teve seu ponto mais elevado na pessoa de
Agostinho. Ele insistiu no ensino de que em Adão toda a
humanidade se acha culpada e maculada. Já os teólogos
semipelagianos admitiam que a mancha do pecado, e não o
pecado mesmo, é que era causada pelo relacionamento
humanidade – Adão. Durante a Idade Média, o que se cria
a respeito do assunto era uma mistura de agostinismo e
pelagianismo. Os Reformadores, particularmente,
comungaram do ensino de Agostinho.
5. Do Racionalismo a Karl Barth
Sob a influência do racionalismo e da teoria
evolucionista, a doutrina da queda do homem e de seus
efeitos fatais sobre a raça humana, foi descartando-se
gradualmente. Começou a se difundir a idéia de que, se
realmente houve o que a Bíblia chama “queda” do homem,
essa queda foi para o alto. A idéia do pecado odioso aos
olhos santos de Deus foi substituída pelo mal, e este mal
se aplicou de diferentes maneiras. Por exemplo, Emanuel
Kant o considerou como parte inseparável do que há de
mais profundo no ser humano, e que não se pode explicar.
O evolucionismo chama esse “mal” de oposição das baixas
inclinações ao desenvolvimento gradual da consciência
moral. Karl Barth, teólogo suíço (1886-1968), fala da origem
do pecado como um mistério da predestinação.
Em suma: O que muitas correntes da teologia
racionalista erradamente ensinam é que Adão foi na
verdade o primeiro pecador, porém sua desobediência não
pode ser considerada como causa do pecado no mundo. O
pecado do homem estaria relacionado de alguma forma
25

HAMARTIOLOGIA

com a sua condição de criatura. A história do Paraíso nada


mais proporciona ao homem do que a simples informação
de que ele necessariamente não precisa ser pecador.
6. O que a Bíblia Ensina sobre a Origem do Pecado
Na Bíblia, o mal moral que assola o mundo,
normalmente chamado pelos homens de fraqueza,
equívoco, deslize, queda para o alto, se define claramente
como pecado, fracasso, erro, iniqüidade, transgressão,
contravenção e injustiça. A Bíblia apresenta o homem como
transgressor por natureza. Mas, como adquiriu o homem
essa natureza pecaminosa? O que a Bíblia nos diz acerca
disso? Para termos respondidas estas indagações, são
interessantes e indispensáveis considerar o seguinte:

a) Deus Não é o Autor do Pecado


Evidentemente Deus, na sua onisciência, já vira a
entrada do pecado no mundo, bem antes da criação do
homem. Porém, deve-se ter o cuidado para que ao se fazer
esta interpretação, não fazer de Deus a causa ou o autor do
pecado. “Longe de Deus o praticar ele a perversidade, e do
Todo-poderoso o cometer injustiça” (Jó 34.10).
Deus é santo e não há nele nenhuma injustiça.
“Ninguém ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus;
porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e ele mesmo a
ninguém tenta”. Deus odeia o pecado, e como prova disto
enviou Jesus Cristo como provisão salvadora para o
homem. Assim sendo, as Escrituras rechaçam todas
aquelas idéias deterministas, segundo as quais Deus é
autor e responsável pela entrada do pecado no mundo. Tais
idéias são contrárias às Escrituras e também à voz da
consciência, que dá testemunho da responsabilidade do
homem perante Deus, cuja santidade foi ultrajada.
b) O Pecado teve Origem no Mundo Angélico
Se quisermos conhecer a origem do pecado, teremos
de ir além da queda do homem, descrita no capítulo 3 de
Gênesis, e pôr a nossa atenção em algo que aconteceu no
mundo dos anjos.
26

HAMARTIOLOGIA

Deus criou os anjos dotados de perfeição, porém


Lúcifer e legiões deles se rebelaram contra Deus, pelo que
caíram em terrível condenação. O tempo exato dessa
queda não é dado a conhecer na Bíblia. Jesus fala acerca
do Diabo, dizendo ser ele homicida desde o princípio. O
apóstolo João diz que o Diabo peca desde o princípio.
Pouco se diz a respeito do pecado que ocasionou a queda
dos anjos; porém, quando Paulo adverte a Timóteo no
sentido de que nenhum neófito seja designado bispo sobre
a casa de Deus, diz o apóstolo porque: “...para não suceder
que se ensoberbeça e caia na condenação do Diabo”. Daí
se concluir que o pecado do Diabo foi a soberba e o desejo
de sobrepujar a Deus.
c) Origem do Pecado na Raça Humana
“Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado
o mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte
passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm. 5.
12).

7. O Conceito de Pecado no Antigo e Novo Testamento


O Antigo Testamento descreve o pecado nas seguintes
esferas:

a) Na Esfera Moral
A palavra mais usada para o pecado significa “errar o alvo”.
- errar o alvo: Dá idéia de como um arqueiro que atira, mas
erra, do mesmo modo, o pecador erra o alvo no final da
vida.
- tortuosidade ou perversidade: o contrário da retidão; errar
o caminho, como um viajante que sai do caminho certo.
- falta: ser achado em falta ao ser pesado na balança de
Deus.
- mal: “violência” ou “infração”
b) Na Esfera da Conduta Fraternal
27

HAMARTIOLOGIA

A palavra usada para determinar o pecado nesta esfera


significa violência ou conduta injuriosa (Gn. 6.11; Ez. 7.23;
Pv. 16.29); ao excluir a restrição da lei, o homem maltrata e
oprime seus semelhantes.
c) Na Esfera da Santidade
As palavras empregadas eram: “profano”, “imundo”,
“contaminado” e “transgressor”. Estes termos empregados
nesta esfera implicam que o ofensor já usufruiu a relação
com Deus. Entendemos que os Israelitas, como povo
escolhido, deveriam ser santos, pois pelas leis, em toda as
atividades e esferas de suas vidas, estavam reguladas pela
Lei da Santidade. E o que fosse contrário a isso se tornava
imundo (Lv. 11.24, 27, 31, 33, 39).
c) Na Esfera da Verdade
“Engano”, “Mentira”. As palavras que descrevem o pecado
nesta esfera dão ênfase ao inútil e fraudulento elemento do
pecado. Os pecadores falam e tratam falsamente (Sl. 58.3;
Is. 28.15; Ex.20.16; Sl. 119.128).
O primeiro pecador foi um mentiroso (Jo. 8.44); o primeiro
pecado começou com uma mentira (Gn. 3.4); e todo o
pecado contém o elemento do engano (Hb. 3.13).
d) Na Esfera da Sabedoria
Os homens se portam ímpiamente porque não pensam ou
não querem pensar corretamente; não dirigem suas vidas
de acordo com a vontade de Deus, seja por descuido ou
por deliberada ignorância.
O homem precisa crescer na sabedoria para firmeza e
fundamento moral, o que de palavras de sabedoria, ensino,
exortação, fora escrito para ele não esquecer; para não ser
facilmente conduzido ao pecado (Mt. 7.26; Pv. 7.7; 9.4).

8. No Novo Testamento

Palavras que expressam o Pecado no Antigo e Novo


Testamento:
a) Errar o alvo; i) Fermento;
b) Tortuosidade; j) Desordem;
28

HAMARTIOLOGIA

c) Perversidade; k) Iniqüidade;
d) Lepra; l) Desobediência;
e) Violência; m) Queda;
f) Profano; n) Derrota;
g) Imundo; o) Impiedade;
h) Transgressor; p) Erro.

Errar o Alvo: expressa a mesma idéia que a conhecida


palavra do Antigo Testamento.
Dívida: (Mt. 6.12). O homem deve a Deus a guarda dos
seus mandamentos; todo pecado cometido é contração de
uma dívida. Incapaz de pagá-la, a única Esperança do
homem é ser perdoado ou obter remissão da dívida.
Desordem: O pecado é iniqüidade (1 Jo. 3.4), o homem
escolheu a sua própria vontade, isto é rebeldia.
Transgressão: literalmente “ir além do limite”(Rm. 4.15).
Os mandamentos de Deus são cercas, por assim dizer, que
impedem ao homem entrar em território perigoso, e dessa
maneira sofrer o prejuízo para sua alma.
Queda: Cair para um lado (Ef. 1.7). Pecar é cair de um
padrão de conduta.
Derrota: é o significado literal da palavra “queda” em Rm.
11.12. Ao rejeitar Cristo, a nação judaica sofreu uma
derrota e perdeu o propósito de Deus.
Impiedade: de uma palavra, sem adoração ou reverência
(Rm. 1.18; 2 Tm. 2.16). O homem ímpio é o que dá pouca
ou nenhuma importância a Deus e às coisas sagradas, pois
não há temor ou reverência, porque está sem Deus e não
quer saber de Deus.
Erro: (Hb. 9.7). Descreve aqueles pecados cometidos
como fruto da ignorância, e dessa maneira diferenciam
daqueles pecados cometidos presunçosamente, apesar da
luz esclarecedora. O homem que desafiadoramente decide
fazer o mal incorre em maior grau de culpa do que aquele
que apanhado em falta, levado por sua debilidade.
O pecado tanto no Antigo Testamento como no Novo
Testamento é considerado uma “brecha” ou “rompimento”
29

HAMARTIOLOGIA

de relações entre o pecador e o Deus pessoal. É o desvio


do pecado da vontade de Jeová, ou seja, a quebra da lei,
sendo que Jeová é a própria lei.

9. Teorias Acerca do Pecado

a) A Teoria Pelagiana do Pecado


O “Pelagianismo’’ (do latim: “pelagianismus”) é a Doutrina
fomentada por Pelágio, clérigo britânico do século IV. Entre
outras coisas, ele negava o livre-arbítrio e a influência da
graça divina. É semelhante ao “Determinismo”, que nega o
livre-arbítrio e que o pecado é algo natural do homem.
b) A Teoria Católica Romana do Pecado
Pecado Capital: expressão com que a Igreja Católica
romana designa diversos pecados: orgulho, ódio, inveja,
impureza, gula, preguiça e a avareza.

c) A Teoria Evolucionista do Pecado


Baseada e fundamentada na Teoria de Darwin, o
Evolucionismo considera o pecado como herança do
animalismo primitivo do homem, ou seja, na fase evolutiva
do homem, erros e falhas são comuns, até que um dia o
homem chegará ao ponto de perfeição.

d) O Ateísmo
Nega a Deus, nega também o pecado; porque estritamente
falando, todo pecado é contra Deus, e se não há Deus, não
há pecado.
e) O Determinismo
Essa teoria filosófica afirma ser o livre-arbítrio uma ilusão, e
não uma realidade. Uma conseqüência prática do
Determinismo é tratar o pecado como se fosse uma
enfermidade por cuja causa o pecador merece pena,
compaixão ou misericórdia (dó), ao invés de ser castigado.
f) O Hedonismo
O Hedonismo (do grego: “hedoné” e do latim:
“hedonismus”; prazer) é a teoria que sustenta que o
30

HAMARTIOLOGIA

melhor ou mais proveitoso que existe na vida é a conquista


do prazer e a fuga da dor. Eles desculpam o pecado com
expressões como estas: “Errar é humano”; “o que é natural
é belo e o que é belo é direito”.
A consciência testifica inequivocadamente da
realidade do pecado. Todos sabem que são pecadores.
Ninguém, que tenha idade de responsabilidade, tem vivido
livre do senso de culpa pessoal e contaminação moral. O
remorso da consciência, por causa do mal praticado,
persegue a todos os filhos e filhas de Adão; ao passo que
as conseqüências entristecedoras e terríveis do pecado são
vistas através da deterioração e degeneração física, mental
e moral da raça.

10. A Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal

A árvore proibida, ou a “árvore do conhecimento do bem e


do mal”, foi colocada no jardim para prover um teste pela
qual o homem pudesse, amorosa e livremente, escolher
servir a Deus e dessa maneira desenvolver seu caráter.
Sem vontade livre, o homem seria meramente uma
máquina.
A árvore da ciência do bem e do mal, fosse o que
fosse a natureza exata desta árvore, literal, figurada ou
simbólica, o pecado de Adão e Eva, em parte, foi
essencialmente este: a transferência da direção das suas
vidas, de Deus para eles mesmos. Deus lhes dissera em
substância que podiam fazer tudo que quisessem, EXCETO
aquilo só. Foi um teste de obediência para eles. Para
concluir, a “árvore proibida” era a fonte para o homem ser
conhecedor de todas as coisas, o bem e o mal.
A culpa não tem sido descrita como ponto onde a
religião e a psicologia se encontram com mais freqüência.
Não existe provavelmente outro tópico que atraia do
mesmo modo o interesse dos psicólogos e conselheiros
profissionais, e talvez nenhum outro assunto esteja tão
consistentemente disseminado em todas as áreas de
31

HAMARTIOLOGIA

problemas discutidas neste livro. Converse com pessoas


deprimidas, solitárias, lutando com conflitos no casamento,
homossexuais, alcoólatras, sofredoras enfrentando a meia-
idade, ou tratando de qualquer outro, e descobrirá
indivíduos que experimentam culpa como parte de suas
dificuldades. Certo escritor disse que a culpa acha-se de
alguma forma envolvida em todos os problemas
psicológicos. A culpa predomina de tal modo em nossa
sociedade que vários tipos foram identificados, podendo ser
divididos em duas categorias: culpa objetiva e culpa
subjetiva.
A culpa objetiva existe em separado de nossos
sentimentos. Ela ocorre quando uma lei foi violada e o
transgressor é culpado, embora ele ou ela não se sinta
culpado. A culpa subjetiva está associada aos sentimentos
íntimos de remorso e auto-condenação, resultantes de
nossos atos.
Os tipos de culpa objetiva são quatro. Primeiro, a culpa
legal, referente a violação das leis sociais. A pessoa que
ultrapassa o sinal vermelho ou comete roubo numa loja é
culpada perante a lei, quer ele seja ou não apanhada, quer
sinta ou não remorso. A culpa social surge quando
quebramos uma norma não-escrita, mas socialmente
esperada. Se a pessoa comporta-se com grosseria, faz
comentários maliciosos, críticas ferinas ou ignora alguém
necessitado, nenhuma lei foi quebrada, e talvez não
persista qualquer sentimento de remorso. Não obstante, o
culpado não correspondeu às expectativas sociais dos
outros componentes de sua sociedade. Um terceiro tipo de
culpa objetiva é a culpa pessoal. O indivíduo neste caso
viola os seus padrões pessoais ou resiste aos apelos da
consciência. Se o pai decide passar todos os domingos
com a família, por exemplo: ele sente-se culpado quando
os negócios o impedem de ficar em casa num final de
semana. Desde que os padrões pessoais são geralmente
comparáveis aos de nossos vizinhos, a culpa social e
pessoal freqüentemente é semelhante. A culpa teológica,
32

HAMARTIOLOGIA

muitas vezes chamada de culpa verdadeira, envolve a


violação das leis de Deus. A Bíblia descreve os padrões
divinos para o comportamento humano, e quando
transgredimos essas normas mediante pensamentos ou
obras, somos culpados diante de Deus quer sintamos ou
não remorso. A Bíblia chama esta condição de pecado e
como todos os pecadores, somos também todos culpados
diante de Deus.
33

HAMARTIOLOGIA

IV - A NATUREZA DO PECADO

O caráter santo de Deus é a norma única e final,


mediante a qual podemos julgar com exatidão os
valores morais. Para aqueles que não levam Deus em
conta, não existem normas morais fora dos costumes
sociais e dos ditames duma consciência pervertida,
dominada pela mal.
O mal, conforme Agostinho, é essencialmente
negativo: é o “deixar” de seguir a orientação divina; é a não-
obediência diante do aviso que esclarece a vontade de
Deus. Desse ponto de vista, o mal não tem “origem” no
sentido normal do termo. O homem, tentado a “deixar” de
obedecer a Deus, seguindo o bem (que é positivo),
simplesmente tomou a decisão de abandonar sua lealdade
ao Criador. De acordo com a definição bíblica (I João 3. 4),
o pecado é indisciplina, insujeição ou insubordinação; é o
inconformismo com a vontade conhecida (lei) de Deus. A
transgressão da lei, resultante desse inconformismo, é a
conseqüência.
Herdamos a tendência para o pecado já desde Adão e de
todas as gerações intermediárias (Rm 5. 12-21),
transmitimos à nossa posteridade a mesma peçonha que
herdamos, acrescida da nossa parcela de vaidade e
materialismo, de desregramento ou devassidão, no caso de
nos entregarmos ao mal.
Romanos 5. 12: “Portanto, assim como por um só homem
entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim
também a morte passou a todos os homens porque todos
pecaram”.
O Pecado é uma Classe específica de Mal
Tudo que vemos de mal é pecado? É bom
entendermos que nem tudo que consideramos mal é
pecado. O pecado não deve ser confundido com o mal
físico que produz prejuízos e calamidades. O pecado é a
causa do mal, enquanto que o mal é o efeito do pecado.
34

HAMARTIOLOGIA

O Pecado tem um Caráter absoluto


O contraste entre o bem e o mal é absoluto, e não há
neutralidade alguma entre ambos; tanto que a transição
entre um e outro não é de caráter quantitativo, mas
qualitativo. Um ser moral, que não é bom, não se torna mal
só por diminuir a sua bondade, mas por uma mudança
radical que o leva a envolver-se com o pecado.
Jesus disse: “Quem não é por mim, é contra mim; e
quem comigo não ajunta, espalha” (Mt. 12.30). O homem
tem de estar ou do lado do bem e da justiça, ou do mal. Em
assuntos espirituais, a Bíblia não conhece uma posição de
neutralidade.
O Pecado é sempre Dirigido contra Deus
É impossível se ter um conceito correto do pecado sem
vê-lo em relação com a pessoa e a vontade de Deus. É
compreendendo assim que o pecado pode ser interpretado
como “falta de conformidade com a lei de Deus”. Esta é a
definição formal mais correta de pecado (Rm. 1.32; Tg. 2.9;
1 Jo. 3.4).
O Pecado inclui tanto a Culpa como a Corrupção
A culpa é um estado em que se sente merecer o
castigo pela violação de uma lei moral. Ela expressa
também a relação que o pecado tem com a justiça e com o
castigo da lei. Porém, por ser uma palavra de significado
duplo, a culpa tanto denota a qualidade própria do pecado,
como denota a culpabilidade que nos faz dignos do juízo e
do castigo divino. A culpa atual pode ser removida por meio
de um substituto, mediante a satisfação das exigências da
lei (Mt. 6.12; Rm. 3.19; 5.18; Ef. 2.3).
Corrupção é a contaminação inerente a cada pecador, e
é uma realidade na vida de todo indivíduo. Todo aquele que
é nascido de Adão tem em si a natureza manchada pelo
pecado (Jo. 14.4; Jr. 17.9; Mt. 7.15-20; Rm. 8.5-8; Ef. 4.17-
19).
O Pecado tem Lugar no Coração
O pecado não reside em nenhuma faculdade da alma,
mas sim no coração, o âmago da alma, de onde flui a vida.
35

HAMARTIOLOGIA

Ele é o centro das influências que põe em operação o


intelecto, a vontade e os afetos. Em seu estado
pecaminoso, o coração torna o homem objeto do desagrado
de Deus (Jr. 17.9; Pv. 4.23; Mt. 15.19,20; Lc. 6.45; Hb.
3.12).
O Pecado corrompe
Um dos efeitos do pecado é a escravidão moral.
O pecado escraviza o homem; não se trata de uma simples
questão de pensamentos e atos pecaminosos isolados, e
sim, de uma força maléfica que toma conta dos homens,
manietando-o e tornando-o cada vez menos capaz de
praticar o bem (Rm 7.18-20).
Os maus hábitos são formados mediante a repetição
de prática do mal, devido à inclinação ao pecado.
O pecado corrompeu e iludiu a todos os homens
afetando sua personalidade, seu caráter e sua alma,
incentivando o ser humano a ceder às tentações e
obedecer a vontade da carne.
Romanos 7. 19-20: “Porque não faço o bem que prefiro,
mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que
não quero, já não sou eu quem o faz, e sim, o pecado que
habita em mim”.
Efésios 6.12: “... porque a nossa luta não é contra a carne
e o sangue, e sim contra os principados e potestades,
contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as
forças espirituais do mal, nas regiões celestes”.
Eclesiastes 7.20: “Não há homem justo sobre a terra, que
faça o bem e que não peque”.
Romanos 3. 23: “...pois todos pecaram e carecem da glória
de Deus”.
O Pecado Imperdoável
O pecado imperdoável é a blasfêmia contra o Espírito
Santo, ou seja:
a) Rejeitar as mais claras provas de que as obras de Jesus,
que revelam a aproximação do Reino de Deus, foram feitas
pelo poder do Espírito Santo;
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HAMARTIOLOGIA

b) Alegar que pertencem ao diabo. É sinal de


endurecimento tão completo, no ponto de não existir
nenhuma esperança de arrependimento e conversão
sincera;
c) O pecador torna-se incapaz de reconhecer ou distinguir
entre o divino e o diabólico.
Mateus 12. 31,32: “Por isso vos declaro: todo o pecado e
blasfêmia serão perdoados aos homens; mas a blasfêmia
contra o Espírito Santo, não lhe será isso perdoado. Se
alguém proferir alguma palavra contra o Filho do homem
ser-lhe-á isso perdoado, mas se falar contra o Espírito
Santo, não lhe será isso perdoado, nem neste mundo nem
no porvir”.
Ao negar que Jesus é o Cristo, se revela como um
anticristo. Este pecado corresponde ao “pecado eterno”
contra o Espírito Santo.
Marcos 3.29: “Mas aquele que blasfemar contra o Espírito
Santo não tem perdão para sempre, visto que é réu de
pecado eterno”.

Vários Tipos de Pecados

O pecado mortal é o pecado “para a morte”, ou seja,


deliberação consciente e intencional de se resistir a vontade
de Deus. Não se trata de um simples pecado, é uma
rebeldia movida pelo orgulho e pelo não reconhecimento da
soberania divina.
Hebreus 10.27: “Porque se vivermos deliberadamente em
pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento
da verdade, já não nos resta sacrifício pelos pecados; pelo
contrário: certa expectação horrível de juízo e fogo vingador
prestes a consumir os adversários”.
O efeito da queda arraigou-se tão profundamente na
natureza humana, que Adão, como pai da raça, transmitiu a
seus descendentes a tendência ou inclinação para pecar.
37

HAMARTIOLOGIA

Esse impedimento espiritual e moral é conhecido como


“pecado original”.
Todos os homens são por natureza totalmente depravados
ou corrompidos. Visto que cada indivíduo de nossa raça
nasce de pais depravados; trazendo ao mundo a sua
depravação (natureza adâmica), somos levados a pensar
que a depravação se transmite de pai para filho, ou seja,
hereditário.
O homem possui em si mesmo uma natureza para o
pecado, uma tendência ao erro, herdado de Adão; porém, o
homem é apto a cooperar com o Espírito Santo, pois se não
fosse assim, nenhum homem se salvaria.
Todo pecador, que é tocado pela graça de Deus, reconhece
a sua condição de miséria, e se quiser este se voltará para
Deus ou continuará no pecado. Deus fez o homem com o
livre-arbítrio, podendo escolher entre o bem e o mal. Se
este escolher o mal, é porque não deseja por livre e
espontânea vontade a sua redenção. Se este escolher o
bem, ou seja, arrepender-se dos seus erros e voltar-se para
Deus, é porque deseja ser restaurado e transformado pelo
Espírito de Deus. Para concluir, o homem possui uma
natureza depravada ou corrompida, mas se quiser, pode
ser mudado por Deus.
Romanos 7.19: “Pois não faço o bem que quero, mas o
mal que não quero, esse faço”.
Salmo 51.5: “Certamente em iniquidade fui formado, e em
pecado me concebeu a minha mãe”.
O pecado de imputação, ou o pecado original, foi devido à
transgressão de Adão que recaiu sobre seus descendentes.
O “pecado voluntário”, conhecido também por “pecado
atual”, são atos pecaminosos que se seguem durante a
idade de plena responsabilidade do homem.
O pecado de omissão é aquele pecado ou ato de não
realizar aquilo que moral ou justamente se devia fazer, ou
seja, uma pessoa que conhece a verdade, sabe o que é
certo e o que é errado, mas age erroneamente,
38

HAMARTIOLOGIA

transgredindo um mandamento ou preceito divino, comete o


chamado “pecado de omissão”.
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HAMARTIOLOGIA

V - O PECADO E SUAS CONSEQÜÊNCIAS


As Conseqüências do Pecado
O pecado trouxe conseqüências desastrosas para a
criação, tanto os céus como a terra sofrem por causa da
desobediência de Adão. Os céus estão infestados de seres
caídos que constantemente fazem guerra contra os crentes.
Os reinos da terra: os reinos vegetal e animal também
sofreram devido ao pecado, tanto o reino vegetal como o
reino animal tem sofrido conseqüências do pecado do
homem. No reino vegetal, são as pragas e os espinhos; no
reino animal, são as pragas e os espinhos; no reino animal,
são os animais que se tornaram ferozes e hostis.
Romanos 8.20,21: “Pois a criação está sujeita a vaidade
não voluntariamente, mas por causa daquele que a
sujeitou, na esperança de que a própria criação será
redimida do cativeiro da corrupção para a liberdade da
glória dos filhos de Deus”.
Devido a queda de Adão, o pecado original foi
imputado a toda raça humana, ou seja, todos os homens
são considerados culpados perante Deus. Enquanto os
homens estão separados de Cristo são “filhos da ira” e,
conseqüentemente, afastados de Deus. São escravizados
pelo pecado identificados com seu adversário, e por isso
condenados à morte física, também a morte eterna.
Os resultados da queda: (a) para Adão e Eva, em
particular; e (b) para a raça humana em geral.
a) Para Adão e Eva
Evidente perda de aparência pessoal apropriada,
acompanhada da consciência de nudez e senso de
vergonha;
Medo de Deus;
Expulsão do Jardim.
b) Para a Raça Humana em Geral
A terra foi amaldiçoada para não produzir apenas o que é
bom, exigindo trabalho laborioso por parte do homem;
Resultou em tristeza e dor para mulher no parto bem como
sua sujeição ao homem;
40

HAMARTIOLOGIA

Todos os homens são pecadores e estão debaixo da


condenação;
Resultou na morte física e espiritual dentro do tempo, e na
penalidade ameaçada da morte eterna;
Os homens não-redimidos acham-se em impotente
cativeiro ao pecado e a satanás, e são considerados filhos
do diabo.
c) Os Efeitos do Pecado Sobre a Raça Humana
Todos pecaram;
Todos são culpados diante de Deus;
Os homens são filhos da ira;
Afastados de Deus;
Corruptos e enganosos quanto à sua natureza;
Escravizados pelo pecado e mortos no pecado;
Antagônicos para com Deus e identificados com Seu
adversário;
Seus corpos debilitados e condenados à morte;
Aviltados em seu caráter e conduta.
2. Reinos que foram Afetados pelo Pecado
a) O Reino Vegetal. O Reino Vegetal foi amaldiçoado por
causa do pecado do homem, mas será finalmente redimido
dessa maldição por ocasião da volta de Cristo.
Gênesis 3. 17,18: “E a Adão disse: Visto que atendeste a
voz de tua mulher, e comeste da árvore que eu te ordenara
não comesses: maldita é a terra por tua causa: em fadigas
obterá dela o sustento durante os dias de tua vida. Ela
produzirá também cardos e abrolhos, e tu comerás a erva
do campo”.
b) O Reino Animal. O Reino Animal tem sofrido as
conseqüências do pecado do homem; tanto a natureza do
homem como a dos animais foi afetada; porém, esse reino
também compartilhará da paz e da glória do milênio.
Isaías 11.6: “O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo
se deitará junto ao cabrito; o bezerro, o leão novo e o
animal cevado andarão juntos, e um pequenino os guiará”.
41

HAMARTIOLOGIA

As Escrituras Sagradas ensinam que o pecado tem


afetado os céus, a terra, seus habitantes, como por
exemplo:
c) Os Céus. O pecado e a queda de satanás afetaram os
céus, infestando as regiões celestiais com seres caídos.
Efésios 6.12: “... porque a nossa luta não é contra a carne
e o sangue, e, sim contra os principados e potestades,
contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as
forças espirituais do mal, nas regiões celeste”.
d) A Terra
- O reino vegetal;
- O reino animal.
Tanto o reino vegetal como o reino animal foi
amaldiçoado, e tem sofrido com as conseqüências do
pecado do homem.
Romanos 8.20,21: “Pois a criação está sujeita a vaidade,
não voluntariamente, mas por causa daquele que a
sujeitou, na esperança de que a própria criação será
redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade dos
filhos de Deus”.
e) A Raça Humana
- Todos pecaram;
- Todos são culpados perante Deus;
- Os homens são filhos da ira;
- Afastados de Deus;
- Corruptos e enganosos quanto à natureza;
- Escravizados pelo pecado e mortos no pecado;
- Antagônicos para com Deus e identificados com seu
adversário;
- Seus corpos debilitados e condenados à morte;
- Aviltados em seu caráter e conduta;

Eclesiastes 7.20: “Não há homem justo sobre a terra, que


faça o bem e que não peque”.
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HAMARTIOLOGIA

VI - A UNIVERSALIDADE DO PECADO

O pecado é um estado mau da alma e cujo princípio


fundamental desse estado é o egoísmo. Esse estado é
mau, universal, isto é, todos nascem neste estado mau da
alma, tendo o egoísmo como parte componente e imperiosa
na sua natureza. Jesus Cristo foi a única pessoa que
nasceu fora desse estado e livre desse princípio
fundamental.
Todos quantos nascem hoje já nascem debaixo
desse princípio, e por isso mesmo condenados à morte, se
não forem salvos pela graça de Deus. Todos nascem
mortos espiritualmente e precisam ser ressuscitados,
ressuscitados com Cristo, como diz o apóstolo Paulo:
“Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos
vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e
nos ressuscitou juntamente, e nos fez assentar juntamente
nos céus, em Cristo Jesus” (Ef. 2.5).
As Escrituras que ensinam a Universalidade do Pecado
podem Dividir-se em Duas Classes, a saber:
Cada pessoa, chegando à idade da
responsabilidade, pratica atos contrários à vontade de
Deus. “E não entres em juízo com teu servo, porque à tua
vista não se achará justo nenhum vivente” (Sl. 143.2). “Pois
se vós, sendo maus, sabeis das boas dádivas aos vossos
filhos...” (Lc. 11.13). “Como está escrito: Não há justo, nem
ainda um” (Rm. 3.10). “Se dissermos que não temos
pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade
em nós” (1Jo. 1.8).
Referências que ensinam que esses atos são
manifestações do pecado. “Porque não há boa árvore que
dê mau fruto, nem má árvore que dê bom fruto. Porque
cada árvore se conhece pelo seu próprio fruto; pois não se
colhem figos dos espinheiros, nem se vindimam uvas dos
abrolhos” (Lc. 6.43-45). “Raça de víboras, como podeis vós
dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em
abundância no coração fala a boca” (Mt. 12.34). “Eis que
43

HAMARTIOLOGIA

em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu


minha mãe. Eis que amas a verdade no íntimo, e no oculto
me fazes saber a sabedoria. Purifica-me com hissôpo, e
ficarei puro: lava-me, e ficarei mais branco do que a neve”
(Sl. 51.5-7).
Além das referências, há duas classes de pontos
bíblicos que abonam fortemente a idéia da universalidade
do pecado, os que ensinam a necessidade de uma
salvação universal, e os que mostram a condenação de
todo aquele que não crê em Jesus Cristo.
Algumas referências sobre a salvação universal: (Mc.
16.16; Jo. 3.3; Jo. 3.16); E referências que mostram a
condenação de todo que não crê em Jesus Cristo e assim a
universalidade do pecado (Jo. 3.18; Jo. 3.36; 1 Jo. 5.19).
O homem tem sempre diante de si dois caminhos a
escolher: o do bem e do mal. Tem sempre duas vontades: a
própria e a de Deus. Adão escolheu a vontade própria, em
vez de escolher a de Deus. Fez uma escolha egoísta, em
vez de uma escolha altruísta. Escolheu a morte, em vez da
vida. Tudo quanto lhe acontecera a ele próprio e à raça são
conseqüências justíssimas da decisão que tomou no Éden.
Nenhum homem pode escolher o princípio do egoísmo, e
queixar-se depois dos resultados. Não pode escolher o
caminho da perdição, e queixar-se por não chegar ao céu.
Uma vez compreendida a decisão tomada por Adão quando
foi tentado, a pena torna-se perfeitamente explicável.
Entendemos então que o pecado acha-se num ato
voluntário do homem. Também achamos que este ato
praticado por Adão era a expressão do estado mau da sua
alma. A queda não consiste tanto num ato como num
estado, e deste estado proveio o ato ou a desobediência.
Adão escolheu de si mesmo, quando devera ter feito de
Deus, o centro de sua vida. E morte é a conseqüência
natural de tal princípio.

2. O Reino do Pecado
44

HAMARTIOLOGIA

O pecado é manifesto por toda a parte é manifesto. Basta


ver com os próprios olhos as operações arruinadas,
maléficas, brutalizantes e bestiais do pecado, no mundo da
vida humana. Um único exemplo de jornal, uma única visita
às instituições públicas de uma grande cidade, um simples
passeio a pé por suas populares avenidas, é suficiente para
revelar as formas hediondas que o pecado assume, e
convence a qualquer pessoa de sua realidade.
Para acrescentar, o reino do pecado é o que está
proliferando nas variadas camadas da sociedade, tanto nas
misérias das favelas como nos postos de altos executivos.
A corrupção, a mentira, os vícios, a imoralidade etc., ou
seja, o reino do pecado está implantado no seio da
humanidade. O evangelista João escreveu em sua epístola
que : “o mundo jaz no maligno”.
A natureza carnal do homem é atribuída à fraqueza (Rm
8.3), o que significa simplesmente sua incapacidade para
atingir o padrão divino. O declínio espiritual ocorre quando
nossa alma se distancia de Deus, distância essa
identificada como pecado e/ou iniqüidade (Isaías 59. 1,2). O
pecado é a atitude errada para com Deus, através do
orgulho e da arrogância dos homens, a murmuração contra
Deus e pela blasfêmia contra o Espírito Santo. O pecado é
sempre contra Deus, pois é a “ação errônea” em relação à
vontade divina; é a rebeldia , a desobediência e
transgressão às leis e preceitos de Deus.
Romanos 3.23: “Pois todos pecaram e carecem da glória
de Deus”.
I João 3.4: “Todo aquele que pratica o pecado, também
transgride a lei, porque o pecado é a transgressão da lei”.

3. Jesus Cristo e o Pecado


A incredulidade é raiz da qual se originam todos os
demais pecados. Foi depois da queda que Eva permitiu a
incredulidade penetrar em seu coração, que ela respondeu
favoravelmente ao tríplice apelo da tentação. A
incredulidade continua sendo um pecado básico, do qual se
45

HAMARTIOLOGIA

reproduz uma colheita multiforme, especialmente quando é


a incredulidade para com Cristo. É o pecado que exclui
Deus da alma, e que, caso o indivíduo persista nele,
excluirá a alma eternamente de Deus.
João 16.8,9: “Quando ele vier convencerá o mundo do
pecado, da justiça e do juízo: do pecado, porque não crêem
em mim”.
É impossível mantermos comunhão real com Deus e
com os irmãos se estivermos praticando o pecado. Note os
três erros por negação em I João 1.6 ,7.
a) a negação de que o pecado quebra a comunhão com
Deus;
b) que o pecado existe em nós;
c) que o pecado se manifesta na conduta.
Para concluir, o termo: “andar na luz” é manifestar o caráter
de Deus na vida do crente.

4. O Cristão e o Pecado

Quando o cristão peca, acontece o remorso, vindo


após o arrependimento. O remorso é a tristeza em vista das
conseqüências do pecado. O arrependimento pode ser
definido como mudança de pensamento para com o pecado
e para com a vontade de Deus, o que conduz a uma
transformação de sentimentos e de propósito a seu
respeito. O arrependimento abrange dois elementos:
a) Ódio ao pecado;
b) Tristeza por causa do pecado.
Provérbios 28.13: “O que encobre as suas transgressões
jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa,
alcançará misericórdia”.
Resistir ao Espírito Santo é um pecado imperdoável,
ou seja, é pura “rebeldia”. O termo “resistir” ao Espírito
Santo tem a ver com a obra regeneradora do Espírito.
Resistir ao Espírito de Deus é um estado permanente
e contumaz de rebeldia contra Deus. Para acrescentar, é
quando um pecador reconhece o seu estado lastimável e
46

HAMARTIOLOGIA

tem convicção que já está condenado se continuar a


resistir, mas, mesmo assim, prefere permanecer no pecado,
rejeitando sua salvação, e conseqüentemente rejeitando a
Cristo e ao Espírito Santo de Deus.
Marcos 3. 29: “Mas aquele que blasfemar contra o Espírito
Santo não tem perdão para sempre, visto que é réu de
pecado eterno”.
A palavra “blasfêmia” significa propriamente “detração
ou calúnia”. No Novo Testamento, é aplicado a
vituperações dirigidas tanto contra Deus como contra os
homens; nesse sentido, devemos compreender que se
refere a uma forma agravada de pecado.
Marcos 3. 29: “Mas aquele que blasfemar contra o Espírito
Santo não tem perdão para sempre, visto que é réu de
pecado eterno”.
Mateus 12. 31,32: “Portanto, eu vos digo: todo o
pecado e blasfêmia se perdoará aos homens; mas a
blasfêmia contra o Espírito não será perdoada aos homens.
E, se qualquer disser alguma palavra contra o Filho do
homem, ser-lhe-á perdoado; mas, se alguém falar contra o
Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século
nem no futuro”.
Em nós habita o Espírito de Deus, e podemos
entristecê-lo com os nossos pecados; ou seja, ao
pecarmos, quebramos a comunhão com Ele, que é tão
santo e não pode contemplar o pecado, até que sejamos
restaurados depois da confissão e perdão.
Os pecados dos cristãos contra o Espírito Santo são:
entristecê-lo, dando abrigo ao mal na vida ou no coração, e
apagá-lo pela desobediência.
Habacuque 1.13 (a): “...tu és tão puro de olhos, que não
podes ver o mal, e a opressão não pode contemplar...”
I João 1.9: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel
e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda
injustiça”.
As benévolas operações do Espírito trazem bênçãos,
mas essas inferem responsabilidades correspondentes.
47

HAMARTIOLOGIA

Falando de modo geral, os crentes podem entristecer,


mentir à Pessoa do Espírito e extinguir o Seu poder. Os
incrédulos podem blasfemar contra a Pessoa do Espírito e
resistir ao seu poder. Em cada caso o contexto explicará a
natureza do pecado. O Dr. Willian Evans assinala que :
“resistir tem a ver com a obra regeneradora do Espírito; o
entristecer tem a ver com a habitação do Espírito Santo,
enquanto o extinguir tem a ver com o derramamento para
servir”.
Marcos 3.29: “Mas aquele que blasfemar contra o
Espírito Santo não tem perdão para sempre, visto que é réu
do pecado eterno”.
Mateus 12. 31,32: “Portanto, eu vos digo: Todo o
pecado e blasfêmia se perdoará aos homens; mas a
blasfêmia contra o Espírito não será perdoada aos homens.
E, se qualquer disser alguma palavra contra o Filho do
homem, ser-lhe-á perdoado; mas, se alguém falar contra o
Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século
nem no futuro”.

5. O Homem e o Pecado

Satanás, por meio da serpente, foi o tentador. A


origem da queda deu-se no interior de Satanás, vindo da
iniciativa do nosso adversário. Assim nasceu o “orgulho” em
seu íntimo antes da criação do mundo. Portanto, se viesse
do interior e iniciativa do homem, jamais poderia ser salvo,
mas veio a tentação do exterior para o homem.”.
6. Já a Tentação Ele Descreve

a) Primeiro passo (dado pela mulher);


b) Segundo passo (dado pela serpente);
c) Lançou uma dúvida na ordem dada por Deus
anteriormente.
d)Terceiro passo (dado pela mulher);
A mulher discutiu com o tentador;
e) Quarto passo (dado pela mulher);
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HAMARTIOLOGIA

Ele falsificou (deturpou) a Palavra de Deus.


f) Quinto passo (dado pela serpente);
Colocou Deus como sendo mentiroso e egoísta.
g) Sexto passo (dado pela mulher);
Ela acredita na palavra da serpente.
h) Sétimo passo (dado pela mulher);
A mulher cedeu, sendo enganada.
i) Oitavo passo (dado pela mulher).
Como tentadora deu o fruto ao marido e este
conscientemente desobedeceu a Deus, ao invés de colocar
a casa em ordem. Pois ele (Adão) é o cabeça da raça, e
para ele as ordens e advertências foram dadas pelo
Senhor.

7. O Pecado tem a sua Sede no Homem por Completo,


segundo a Doutrina do Tricotomismo

a) No Corpo (Soma)
O homem traz no seu corpo, através da “genética”, a
depravação, ou seja, a natureza adâmica devido à queda
de Adão, que trouxe conseqüências até os dias de hoje
para todos os homens.
b) Na Alma (Psychê)
Devido a culpa, a acusação, as feridas e a falta de paz
pela ausência do Senhor Jesus Cristo em seus corações.
c) No Espírito (Pneuma)
Quando o homem está longe de Deus, seu espírito está
vazio, ou como muitos está possuído por espíritos
malignos. Quando o homem volta-se para Deus, a
regeneração ou o novo nascimento produz uma
transformação em sua vida por completo, e o Espírito Santo
de Deus passa a habitar no espírito do homem agora
regenerado.
Todos os homens são por natureza totalmente depravados
ou corrompidos. Visto que cada indivíduo de nossa raça
nasce de pais depravados; trazendo ao mundo a sua
depravação (natureza adâmica), somos levados a pensar
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HAMARTIOLOGIA

que a depravação se transmite de pai para filho, ou seja,


hereditário.
O homem possui em si mesmo uma natureza para o
pecado, uma tendência ao erro, herdado de Adão; porém, o
homem é apto a cooperar com o Espírito Santo, pois se não
fosse assim nenhum homem se salvaria.
Todo pecador é tocado pela graça de Deus, reconhece
a sua condição de miséria e se quiser se voltará para Deus
ou continuará no pecado. Deus fez o homem com o livre-
arbítrio, podendo escolher entre o bem e o mal. Se escolher
o mal, é porque não deseja por livre e espontânea vontade
a sua redenção. Se escolher o bem, ou seja, arrepender-se
dos seus erros e voltar-se para Deus, é porque deseja ser
restaurado e transformado pelo Espírito de Deus. Para
concluir, o homem possui uma natureza depravada ou
corrompida, mas se quiser, ele pode ser mudado por Deus.
Romanos 7.19: “Pois não faço o bem que quero, mas o
mal que não quero, esse faço”.
Salmo 51.5: “Certamente em iniqüidade fui formado, e em
pecado me concebeu a minha mãe”.
A palavra de Deus nos afirma que: “...pois todos pecaram e
destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23); “Eu nasci
na iniqüidade” (Sl 51.5); “Pelo que, como por um homem
entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim
também a morte passou a todos os homens, porque todos
pecaram” (Rm 5.12).
A universalidade do pecado é também conhecida por
“Pecado Universal”. Os teólogos ensinam que o pecado
teve uma conseqüência de grandes proporções, ou seja,
afetou toda a criação (céus, terra, reino animal, vegetal e
mineral), e toda a raça humana. A humanidade sofre com a
conseqüência do pecado original, levando os homens a
serem todos culpados diante de Deus, tornando-os todos
conseqüentemente condenados. Todos os homens trazem
sobre si, durante as gerações, a natureza “adâmica” e as
maldições hereditárias. A criação, os animais, a natureza,
enfim, sofre por causa do pecado e como afirma Romanos
50

HAMARTIOLOGIA

8.21: “...na esperança de que também a própria criação


será liberta do cativeiro da corrupção, para liberdade da
glória dos filhos de Deus”.
Para concluir, o pecado universal necessitou de um plano
divino de redenção, que foi executado em Jesus Cristo, que
pagou o alto preço pelos homens para resgatar toda a sua
criação do cativeiro.
O falso culto (seita), conhecido como “Ciência
Cristã”, afirma que o pecado é uma negação - que o mal é
a ausência do bem, e que o pecado é a ausência da
retidão.
Lucas 5.8: “Vendo isto, Simão Pedro prostrou-se aos pés
de Jesus, dizendo: Senhor, retira-te de mim, porque sou
pecador”.
I Timóteo 1.15: “Fiel é a palavra e digna de toda aceitação
que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores,
dos quais eu sou o principal”.
51

HAMARTIOLOGIA

VII - A GRAÇA E O PERDÃO DE DEUS

1. A Graça de Deus
Todos os que se arrependem do pecado obtêm perdão
por meio da graça, isto é, por meio de Jesus Cristo. O
perdão implica no livramento da penalidade devida ao
pecado. Todo perdão é concedido através de Jesus Cristo.
É ele quem nos livra da ira vindoura (I Ts. 1.10). Nele temos
“a redenção, pelo seu sangue a remissão dos pecados,
segundo a riqueza da sua graça” (Ef 1.7).
O Espírito Santo opera uma grande transformação
em todos os que finalmente são salvos, pela qual tornam-se
inclinados à santidade. A graça não se limita a uma simples
mudança de condição, mas também opera uma
transformação no caráter, sem a qual a pessoa não poderia
desfrutar das bênçãos celestiais, nem estaria a participar da
comunhão dos santos.
A graça “efetiva” capacita os homens a viverem justamente,
a resistirem o seu dever. Por isso pedimos graça ao Senhor
para cumprir uma determinada tarefa. A graça “habitual” é o
efeito da morada do Espírito Santo que resulta em uma vida
plena do fruto do Espírito (Gálatas 5:22,23).

2. O Perdão de Deus

A “Soteriologia” ou a “Doutrina da Salvação”


exemplifica o processo do perdão dos pecados da seguinte
maneira:
a) Através da regeneração, ou seja, do novo nascimento;
b) Através do arrependimento, ou seja, tristeza causada
pela violação de uma ordem divina;
c) Através da fé: ou seja, pela fé ele se volta para Cristo;
d) Através da justificação, ou seja, é o ato do pecador ser
declarado justo, quando aceita a Cristo como Único e
Suficiente Salvador;
52

HAMARTIOLOGIA

e) Através da santificação, ou seja, a justificação é aquilo


que Deus faz por nós, enquanto a santificação é quase
exclusivamente aquilo que Deus fez em nós.
53

HAMARTIOLOGIA

VIII - PECADO ORIGINAL E DEPRAVAÇÃO

1. Significado de Depravação

Duas coisas são indicadas pela expressão “pecado


original”: o primeiro pecado de Adão e a natureza
pecaminosa possuída por todo homem desde Adão, devido
à primeira transgressão. Esta natureza pecaminosa é
chamada de depravação. A depravação consiste em quatro
coisas que se aplicam a cada indivíduo ao nascer:
Ele é completamente despido da justiça original. “Eu nasci
na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl.
51.5).
Ele não possui qualquer sentimento santo em relação a
Deus. “...pois eles mudaram a verdade de Deus em
mentira, adorando e servindo a criatura, em lugar do
Criador, o qual é bendito eternamente. Amém” (Rm. 1.25).
“...Pois os homens serão egoístas... traidores, atrevidos,
enfatuados, antes amigos dos prazeres que amigos de
Deus...” (2 Tm. 3.2-4).
“Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa
contaminar; mas, o que sai do homem é o que contamina.”
“Porque de dentro do coração dos homens é que procedem
os maus desígnios, a prostituição, os frutos, os homicídios,
os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a
inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura: Ora, todos estes
males vêm de dentro e contaminam o homem” (Mc. 7.15;
21-23).
Ele tem uma tendência para continuar o mal: “Viu que a
maldade do homem se havia multiplicado na terra, e que
era continuamente mau todo desígnio do seu coração” (Gn.
6.5).
A fim de que o termo “depravação” não seja entendido
erradamente, é bom notar o seguinte, citando na obra
Lectures in Systematic Theology, de Thiessen:
“Do ponto de vista negativo, ela não significa que todo
pecado é despido de todas as qualidades agradáveis aos
54

HAMARTIOLOGIA

homens; que ele comete ou tende a cometer toda forma de


pecado; que é tão amargamente oposto a Deus quanto lhe
é possível... Jesus reconheceu a existência de qualidades
agradáveis em alguns indivíduos (Mc. 10.21; Mt. 23.23). Do
ponto de vista positivo, significa que todo pecador é
completamente destistuído daquele amor a Deus que é a
exigência fundamental da lei: ‘Ouve, Israel, o Senhor nosso
Deus é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor teu Deus
de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de toda a tua
força’ (Dt. 6.4.5, veja também Mt. 22.35.38); que ele se
rende supremamente a uma preferência de si mesmo em
vez de a Deus (2 Tm. 3.2.4); que ele tem uma aversão a
Deus que ocasionalmente se transforma em inimizade ativa
contra ele: ‘Por isso o pendor da carne é inimizade contra
Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode
estar’ (Rm. 8.7); que cada uma de suas faculdades é
desordenada e corrupta: ‘...obscurecidos de entendimento,
alheios à vista de Deus por causa da ignorância em que
vivem, pela dureza dos seus corações’ (Ef. 4.18); que ele
não tem pensamento, sentimento ou ato que Deus possa
aprovar plenamente: ‘Porque eu sei que em mim, isto é, na
minha carne, não habita bem nenhum: pois o querer o bem
está em mim; não, porém, o efetuá-lo’ (Rm. 7.18); e que
num plano de progresso constante na depravação, do qual
não consegue desviar-se por esforço próprio” (Rm 7.18).

2. O Resultado da Depravação do Homem

O pecado é a rebelião voluntária contra Deus. Essa atitude


não pode senão produzir maus resultados. Não é de
surpreender que possamos olhar à nossa volta e verificar
os terríveis resultados do pecado. Não é possível que os
homens continuem pecando e recebam outras coisas além
de uma colheita de sofrimento da pior espécie. Paulo afirma
em Gálatas 6.8: “ Porque o que semeia para a sua própria
carne, da carne colherá corrupção...” Oséias disse, em
referência a Israel: “Porque semeiam ventos, e segarão
55

HAMARTIOLOGIA

tormentas... (Os. 8.7). Ele também declarou: “ Arastes a


malícia, colhestes a perversidade; comeste s o fruto da
mentira...” (Os.10.13).
Seria preciso ser cego para não ver as conseqüências da
depravação pecaminosa na mente e no corpo da raça
humana hoje. Superstição, maldição e maior iniqüidade são
vistas em toda terra onde o evangelho não entrou. Onde a
mensagem da salvação do pecado foi pregada e rejeitada,
a condição é praticamente pior, pois acrescenta-se ainda a
condenação da luz não aceita.
Em nosso país, que é provavelmente o maior país cristão
do mundo, toda instituição disciplinar, toda a prisão, todo
hospital e asilo está transbordando com os resultados do
pecado. Tão devastadora é a influência do pecado sobre a
consciência humana que ele é agora revestido de uma aura
de fascínio, passando a ser reconhecido na sociedade
como procedimento certo. Um grande homem disse certa
vez: “Nossa maior defesa contra o pecado é escandalizar-
nos com ele”; quando essa atitude cessa, o pecado
alcançou seus medonhos resultados. Paulo, naquela
terrível lista de iniqüidade de Romanos 1.24-32, chegou ao
clímax de toda uma triste situação quando disse: “Ora,
conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis
de morte os que tais cousas praticam, não somente as
fazem, mas também aprovam os que assim procedem”
(v.32). Quando o pecado perde seu aspecto de
pecaminosidade, os homens se comprazem nas práticas
mais vis, e resta então pouca esperança.
56

HAMARTIOLOGIA

IX - A CULPA DO PECADO

1. Pecado em Relação a Deus

A culpa é o castigo merecido pela violação voluntária da lei,


ou falha em conformar-se com essa lei. É conseqüência do
pecado em relação à ira de Deus. Existem resultados
naturais do pecado no próprio pecador, mas a ira introduz
Deus em cena. Todo pecado é uma ofensa contra Deus e é
sujeito à ira (Sl. 7.11; Jo. 3.18.36). O arrependimento de
Davi alcançou seu auge quando ele compreendeu não ter
pecado apenas contra Bateseba e seu marido Urias, mas
contra Deus. “Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que
é mal perante os teus olhos, de maneira que serás tido por
justo no teu falar e puro no teu julgar” (Sl. 51.4). O Filho
pródigo compreendeu a mesma coisa quando gritou:
“...pequei contra o céu” (Lc. 15.21). Romanos 3.19
apresenta bem o caso: “Ora, sabemos que tudo o que a lei
diz aos que vivem na lei o diz, para que se cale toda boca,
e todo o mundo seja culpável perante Deus...”
A santidade de Deus reage contra o pecado; a reação é “a
ira de Deus”. “A ira de Deus se revela do céu contra toda
impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade
pela injustiça” (Rm. 1.18). Segundo Strong: “Não só o
pecado envolve corrupção, opondo-se à pureza divina,
como também envolve culpa, na forma de antagonismo à
vontade santa de Deus.”
Embora a culpa seja primariamente uma reação contra
Deus, existe também uma reação secundária na
consciência do indivíduo. Strong relata: “O progresso no
pecado é marcado por uma diminuição sensível da
percepção moral e dos sentimentos. Como o maior dos
pecados é não ter consciência de pecar, a culpa pode ser
também grande, exatamente em proporção à ausência da
consciência da mesma (Sl. 19.12; Ef. 4.18.19).
Não existe, porém, evidência de que a voz da consciência
pode ser completa ou finalmente silenciada. A oportunidade
57

HAMARTIOLOGIA

do arrependimento pode passar, mas não a do remorso.”


Segundo o Dr. H. E. Robbins: “Para o pecador convicto, um
inferno meramente externo pareceria uma chama
refrescante, comparado à agonia de seu remorso”.

2. Graus de Culpa

As Escrituras tornam claro que existem graus de culpa,


portanto, graus de castigo, por haver diversidade de
pecado. Este princípio é reconhecido pela variedade de
sacrifício exigido pelos diferentes tipos de pecados (Lv. 4-
7). O Novo Testamento também sugere graus de culpa: Lc.
12.47-48; Jo. 19.11; Rm. 2.6; Hb. 2.2.3;-10.28-29. Existem:
a) Pecados da Natureza e Pecados de Transgressão
Pessoal
Os homens são pecadores por causa do princípio do
pecado inato – pecados de natureza. Mas existe uma culpa
maior, quando o pecador por natureza comete atos de
transgressão pessoal.
b) Pecados de Ignorância e Pecados de Conhecimento
Já vimos que há pecados de ignorância. Mas os pecados
com conhecimento seriam acompanhados de culpa maior.
Quanto maior o conhecimento, tanto maior a culpa: “Ai de ti,
Corazim! Ai de ti Betsaida! Porque se em Tiro e em Sidom
se tivessem operado os milagres quem em vós se fizeram,
há muito que elas se teriam arrependido, assentadas em
pano de saco e cinza. Contudo, no juízo, haverá menos
rigor para Tiro e Sidom, do que para vós outros” (Lc.
10.13.14). “Assim, pois, todos os que pecaram sem lei,
também sem lei perecerão; e todos os que com lei
pecaram, mediante lei serão julgados”(Rm. 2.12).
c) Pecados de Enfermidade e Pecados de Presunção
O salmista orou para ser guardado dos pecados de
presunção: “Também da soberba guarda o teu servo, que
ela não me domine...” (Sl. 19.13). Em contraste, Pedro
ilustra um pecado de enfermidade. Ele estava decidido a
ser fiel, mesmo que todos os outros negassem o Senhor;
58

HAMARTIOLOGIA

mas descobriu não possuir a força que julgava ter (Mt.


26.35).
Outra maneira de expressar esse contraste é notar a
diferença entre os pecados impulsivos e os deliberados. O
pecado de Davi contra Batseba foi de impulso, mas seu
pecados contra Urias foi deliberado, pois planejou
cuidadosamente a morte dele.
59

HAMARTIOLOGIA

X - A PENALIDADE DO PECADO

1. O Significado da Penalidade

a) Sobre os Não-Salvos
Penalidade é a dor ou perda diretamente infligida pelo
legislador em defesa da justiça, que foi ultrajada pela
violação da lei. O pecado tem conseqüências naturais
“porque o salário do pecado é a morte” (Rm. 6.23); “A alma
que pecar, essa morrerá” (Ez. 18.20 a); “E, assim como aos
homens está ordenado morrerem uma só vez e, depois
disto, o juízo...” (Hb. 9.27).
A morte física é um dos resultados naturais do pecados,
mas existe um “depois disto” que representa a penalidade
que se seguirá. Não duvidamos de que as conseqüências
naturais do pecado façam parte da penalidade. “Quanto ao
perverso, as suas iniqüidades o prenderão, e com as
cordas do seu pecado será detido”(Pv. 5.22). A imoralidade
cobra o seu preço do corpo humano. A impiedade resulta
em deterioração mental e espiritual. Mas esta é apenas
parte da penalidade. Em toda penalidade existe a ira santa
do legislador. Uma parte será aplicada agora, mas a outra
será experimentada no futuro. “A depravação e a culpa,
como conseqüências do pecado, acham-se entre os
homens agora, mas a penalidade em sua plenitude aguarda
um dia futuro”.

b) Diferença entre Castigo e Punição


É importante notar que existe uma enorme diferença entre
castigo e punição. O castigo, que é corretivo, jamais é
enviado como uma punição sobre os filhos do Senhor.
Cristo levou sobre si toda a punição do pecado do crente. A
correção sempre precede o amor. “Castiga-me, ó Senhor,
mas em justa medida, não na tua ira, para que não me
reduzas a nada” (Jr. 10.24). “...Porque o Senhor corrige a
quem ama, e açoita todo o filho a quem recebe”(Hb. 12.6).
60

HAMARTIOLOGIA

Por outro lado, o castigo procede da justiça: “...saberão que


eu sou o Senhor, quando nela executar juízos e nela me
santificar”(Ez. 28.22); “Assim diz o Senhor Deus: Não é por
amor de vós que eu faço isto, ó casa de Israel, mas pelo
meu santo nome, que profanastes entre as nações para
onde fostes”(Ez. 36.22); “Então ouvi o anjo das águas
dizendo: Tu és justo, tu que és e que eras, o Santo, pois
julgaste estas cousas”(Ap. 16.5); “...porquanto verdadeiros
e justos são os seus juízos, pois julgou a grande meretriz
que corrompia a terra com a sua prostituição, e das mãos
dela vingou o sangue dos seus servos” (Ap. 19.2).
O castigo tem portanto o intento de ser corretivo, mas a
penalidade ou punição não tem o propósito de reformar o
ofensor. Não é obviamente necessário dizer que não se
pode reformar um assassino executando-o.

c) A Natureza da Penalidade
A palavra que indica penalidade total para o pecado na
Escritura é “morte”. Esta é tripla: física, espiritual e externa.

2. Morte Física

O homem foi criado com capacidade para ser imortal; ele


não teria de morrer se obedecesse à lei de Deus. Mas Deus
disse a Adão: “...porque no dia em que dela comeres,
certamente morrerás” (Gn. 2.17), referindo-se à arvore do
conhecimento do bem e do mal. Adão não morreu
imediatamente; mas a partir desse dia, a morte passou a
operar em seu corpo físico. Cerca de 900 anos mais tarde
ela deu seu último golpe. “...Aos homens está ordenado
morrerem uma só vez” (Hb. 9.27). A morte não é a
cessação da personalidade, mas a separação da alma do
corpo, “inclusive todos aqueles males e sofrimentos
temporários que resultam da perturbação da harmonia
original entre o corpo e a alma, e que representam a obra
da morte”.
61

HAMARTIOLOGIA

Só através de um ato de redenção o homem poderia ter


novamente acesso à árvore da vida. Na ressurreição, a vida
física eterna será devolvida aos que receberam Cristo
Jesus como seu Salvador. Nessa ocasião, a alma e o
espírito se reunirão ao corpo e o homem voltará a ser um
ente completo. Assim sendo, para o cristão morte não é
mais a penalidade pelo seu pecado, uma vez que Cristo
recebeu a punição por ele. A morte se torna uma porta pela
qual a alma entra no gozo mais pleno de todos os
benefícios que Deus concedeu em Cristo (Ef. 2.7).

3. Morte Espiritual

Como morte espiritual queremos indicar a separação entre


a alma e Deus, “inclusive toda dor de consciência, perda de
paz e tristeza de espírito, que resultam da perturbação da
comunhão normal entre a alma e Deus”. A morte física não
é a de forma alguma a parte principal da morte como
penalidade pelo pecado. Embora Adão não morresse
fisicamente no momento em que desobedeceu a Deus, ele
morreu espiritualmente. Ele perdeu aquela comunhão com
Deus que é a fonte de toda vida. Ele se tornou morto “nos
seus delitos e pecados” (Ef. 2.1). I Timóteo 5.6 refere-se à
viúva, mas descreve perfeitamente a condição imediata de
Adão, assim como a de cada homem não remido: “...a que
se entrega aos prazeres, mesmo viva, está morta.” Quando
Jesus disse: “e todo o que vive e crê em mim, não morrerá,
eternamente” (Jo. 11.26 a), Ele estava falando da
restauração da vida espiritual através da sua graça
redentora.

4. Morte Eterna
62

HAMARTIOLOGIA

A morte eterna é a culminação e execução da morte


espiritual, representando a separação eterna da alma em
relação a Deus. Esta é a chamada “segunda morte”.
“Quanto, porém aos covardes, aos incrédulos, aos
abomináveis, aos assassinos, aos impuros, aos feiticeiros,
aos idólatras e a todos os mentirosos, a parte que lhes cabe
será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a
segunda morte” (Ap. 21.8). “Estes sofrerão penalidade de
eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do
seu poder...” (2 Ts. 1.9). “Então o Rei dirá também aos que
estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos,
para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos...”
(Mt. 25.41). “Não vos maravilheis disto, porque vem a hora
em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua
voz e sairão; os que tiverem feito bem, para a ressurreição
da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a
ressurreição do juízo” (Jo. 5.28.29). Chafer discute a
segunda morte:
“É verdade que a ‘segunda morte’, que é eterna, representa
uma separação de Deus, e essa condição eterna é uma
punição incomensurável, pois naturalmente a alma perdida
deve ter conhecimento do que a graça poderia ter realizado.
A penalidade é uma imposição definida sobre o curso
natural dos eventos – uma retribuição que corresponde à
punição exigida. De acordo com o caráter de Deus, é certo
que o que for imposto será justo e reto, sendo assim
reconhecido por todos. Nisto, como em qualquer outro
empreendimento, Deus não será autor do mal”.
63

HAMARTIOLOGIA

XI - O PECADO

A Natureza da Questão a Ser Analisada

Somos informados de que nossos primeiros pais saíram


do estado em que foram criados, quando pecaram contra
Deus. Isso apresenta uma das questões mais difíceis e
amplas, quer em moral, que em teologia. O que é pecado?
A existência do pecado é um fato inegável. Ninguém pode
examinar sua própria natureza, nem observar a conduta de
seus semelhantes, sem se ver dominado pela convicção de
que existe um mal chamado pecado. Não é uma questão
puramente moral ou teológica. Cai também dentro do
âmbito da filosofia, que tenta explicar todos os fenômenos
da natureza humana bem como do mundo externo.
Portanto, os filósofos de todos os tempos e de todas as
escolas se viram compelidos a discutir este tema.
As teorias filosóficas, no que diz respeito à natureza do
pecado, são tão numerosas quanto as diferentes escolas de
filosofia. Esta grande questão chega à consideração do
teólogo cristão com certas limitações. Ele pressupõe a
existência de um Deus pessoal de infinita perfeição, bem
como a responsabilidade do homem. Ele não pode aceitar
como certa nenhuma teoria da natureza ou da origem do
pecado que entre em conflito com algum desses princípios
fundamentais. Antes de assumir qualquer das teorias que
têm sido adotadas com maior ou menor extensão, é
importante determinar os dados com base na resposta à
pergunta: O que é pecado?; ou as premissas das quais se
deve deduzir a resposta. Essas são simplesmente as
declarações da palavra de Deus e os fatos de nossa própria
natureza moral. Ignorando total ou parcialmente essas duas
fontes de conhecimento, muitos filósofos, inclusive
teólogos, recorrem à razão, ou melhor, à especulação, para
decidir a questão Esse método, porém, é irracional, e com
toda certeza levará a falsas conclusões.
64

HAMARTIOLOGIA

Ao determinar a natureza da sensação, não podemos


adotar o método apriorístico e argumentar com base na
natureza de como uma coisa deveria afetar nossos órgãos
sensoriais. Temos de aceitar os fatos da consciência
sensorial como o fenômeno a ser explicado. Não podemos
dizer que a natureza da luz é tal que não pode ser causa do
fenômeno da visão; nem dos ácidos que não podem afetar
o órgão da degustação, nem que nossas sensações são
enganosas quando nos conduzem a atribuir-lhes tais
causas. Tampouco podemos determinar filosoficamente os
princípios da beleza, e dizer que os homens devem admirar
e o que eles devem repelir com aversão. Tudo o que a
filosofia pode fazer é tomar os fatos de nossa natureza
estética e deles deduzir as leis ou princípios da beleza. Da
mesma forma, os fatos de nossa consciência moral devem
ser aceitos como verdadeiros e fidedignos.
Não podemos argumentar dizendo que tal é a
constituição do universo, e que tal é a religião do indivíduo,
que não pode existir o pecado, que não há nada por que
devêssemos sentir remorso, ou por que devêssemos
receber castigo. Tampouco podemos adotar alguma teoria
de obrigação moral que nos impeça de reconhecer como
pecado aquilo que a consciência nos leva a condenar.
Qualquer pessoa que adotasse a teoria do sublime e do
belo, que demonstrasse que o Niágara e os Alpes não eram
sublimes objetos na natureza; ou que a Madona do Sisti ou
a transfiguração de Rafael não são belas produções de
arte; ou que a “Ilíada” e o “Paraíso Perdido” não são dignos
da admiração dos séculos, perderia sua razão. E assim a
pessoa que ignorar os fatos de nossa natureza moral, em
suas teorias de origem e natureza do homem, laboraria em
vão. Entretanto, isso se faz constantemente. Descobrir-se-á
que todos os pontos de vista antiteístas e anticristãos sobre
este tema são puramente especulações arbitrárias, em
guerra com os fatos mais simples e mais inegáveis da
consciência.
65

HAMARTIOLOGIA

Com respeito à natureza do pecado, há dois aspectos


nos quais o tema pode ser visualizado. O primeiro trata de
sua natureza metafísica, e o segundo, de sua natureza
moral. O que é aquilo chamado pecado? Trata-se de uma
substância, de um princípio ou de um ato? É privação,
negação ou defeito? É antagonismo entre mente e matéria,
entre alma e corpo? É egoísmo como sentimento ou como
propósito? Todas essas perguntas se ocupam da natureza
metafísica do pecado, do que ele é como um res in natura.
Perguntas como as seguintes tratam antes de sua
natureza moral, ou seja: O que dá ao pecado seu caráter
como mal moral? Como ele se relaciona com a lei? Com
que lei o pecado se relaciona? Qual é sua relação com a
justiça de Deus? Qual é sua relação com a santidade? Qual
é a relação que pecado tem ou pode ter com a lei; trata-se
só de atos deliberados, ou também de ações impulsivas e
de afeto, emoções e princípios, ou disposições? É óbvio
que essas são as questões mais morais do que metafísica.
Em algumas das teorias acerca da natureza do pecado este
é visualizado exclusivamente sob um desses aspectos; em
outras, exclusivamente sob outro; e em outras, os dois
pontos de vista combinados. Não se propõe tentar manter
esses pontos de vista distintos, pois ambos estão
necessariamente envolvidos na discussão teológica do
tema.

Teorias Filosóficas sobre a Natureza do Pecado

A primeira teoria na ordem de tempo, à parte da


doutrina primitiva da Bíblia, quanto à origem e natureza do
pecado,é a dualista, ou aquela que pressupõe a existência
de um eterno princípio do mal. Essa doutrina foi
amplamente disseminada por todo o Oriente, e em
diferentes formas parcialmente introduzida na igreja cristã.
66

HAMARTIOLOGIA

Segundo a doutrina dos Parsis, esse princípio original


era um ser pessoal. Segundo os gnósticos, marcionitas e
maniqueus, era uma substância, uma matéria eterna. Diz
Agostinho: “Este [Manes] duo principia inter se diversa
atque adversa, eademque aeterna et coaeterna, hoc est
semper fuisse, composuit: duasque naturas atque
substantias, boni scilicet et mali, sequens alios antiquos
haereticos, opinatus est”. Estes dois princípios estão em
perene conflito. No mundo real, eles se acham
entremeados. Ambos entram na constituição do homem.
Ele tem um espírito derivado do rei da luz; e um corpo com
sua vida animal derivado do reino das trevas. Pecado,
portanto, é um mal físico; a contaminação do espírito por
sua união com o corpo material; e deve ser vencido por
meios físicos, ou seja, por meios adaptados para destruir a
influência do corpo sobre a alma. Daí a eficácia da
abstinência e da austeridade.
Essa teoria é evidentemente inconsistente com o
teísmo, ao fazer com que algo fora de Deus seja eterno e
independente de sua vontade. Ele deixa de ser um Ser
infinito e um soberano absoluto. Em todas as suas partes, é
limitado por um poder coeterno que não pode controlar. Ela
destrói a natureza do pecado como um mal moral, ao fazer
uma substância e ao representá-lo como inseparável da
natureza do homem como criatura composta de matéria e
espírito.
Destrói, naturalmente, a responsabilidade humana, não
só fazendo necessário o mal moral com base na própria
constituição do homem, e atribuindo sua origem a uma
fonte eterna e necessariamente operante; mas também
fazendo dele uma substância que destrói sua natureza
como pecado. Esta teoria é tão absolutamente antiteísta e
anticristã que, embora tenha prevalecido muito tempo como
heresia na Igreja, nunca entrou em viva conexão com a
doutrina cristã.
67

HAMARTIOLOGIA

3. O Pecado considerado mera Limitação do Ser

A segunda teoria anticristã da natureza do pecado é a


que faz mera negação, ou limitação, do ser. O ser, a
substância. É bom. “Omme quod est, in quantum aliqua
substantia est, et bonum, diz Agostinho. Deus como a
substância absoluta é o bem supremo. O mal absoluto seria
nada. Portanto, quanto menos ser, menos bem; e toda
negação, ou limitação de ser, é má, ou pecado. Diz
Spinoza: “Quo magis unusquisque, suum utile quaerere,
hoc est suum esse conservare conatur et potest, eo magis
virtute praeditus est; conta quatenus unusquisque suum
utile, hoc est suum conservare negligit, eatnus est
impotens”.
Em sua demonstração dessa proposição, ele
considera o poder e a bondade idênticos, potentia e virtus
são a mesma coisa. Em decorrência, a carência de virtude,
ou mal, é debilidade ou limitação do ser. O prof. Baur, de
Tubingen, apresenta de maneira ainda mais taxativa esta
postura da natureza do pecado. Diz ele: “ Mal é aquilo que é
finito; pois o finito é negativo; a negação do infinito. Tudo o
que é finito é relativamente nada; uma negatividade que, na
constante distinção de plus e minus da realidade, aparece
em formas diferentes”. E prossegue: “Se a isenção de
pecado é a renovação de toda a limitação, então fica claro
que apenas uma série infinita de gradações pode levar-nos
ao ponto em que o pecado é reduzido a um mínimo
infinitesimal. Se este mínimo desaparecesse
completamente, então o ser, assim totalmente isento de
pecado, se tornaria um com Deus, pois só Deus é
absolutamente isento de pecado. Mas se devem existir
outros seres além de Deus, inevitavelmente há neles, até o
ponto em que não são infinitos como Deus, por essa
mesma razão, um mínimo de mal”.
A distinção entre bem e mal é, portanto, meramente
quantitativa, uma distinção entre mais ou menos. O ser é
bom; a limitação do ser é má. Essa idéia de pecado está na
68

HAMARTIOLOGIA

natureza do sistema panteísta. Se Deus é a única


substância, a única vida, o único agente, então Ele é a
soma de tudo quanto existe, ou melhor tudo quanto existe é
a manifestação de Deus; a forma de sua existência.
Conseqüentemente, se o mal existe, ele é uma forma da
existência de Deus, como o bem; e não pode ser outra
coisa senão um desenvolvimento imperfeito ou a mera
limitação do ser.
Esta teoria evidente ignora a diferença entre o mal
metafísico e o mal moral, entre o físico e o moral; entre uma
árvore raquítica e um homem perverso. Em vez de explicar
o pecado, nega sua existência. Portanto, entra em conflito
com a mais cristalina verdade intuitiva, e com a mais
poderosa de nossas convicções instintivas. Não há nada
que estejamos mais seguros, nem mesmo de nossa própria
existência, do que a respeito da diferença entre pecado e
limitação do ser, entre o que é moralmente errôneo e o que
é mera negação do poder. Esta teoria pressupõe a
veracidade do sistema panteísta do universo, e portanto
diverge de nossa natureza religiosa, a qual exige e
pressupõe a existência de um Deus pessoal.
Ao destruir a idéia de pecado, destrói todo sentimento
de dever moral, concedendo liberdade irrestrita a todas as
paixões pervertidas. Não só ensina que tudo o que existe é
bom; que tudo o que existe ou ocorre tem direito a ser, mas
que a única norma da virtude é o poder. Como diz Cousin, o
vencedor está sempre certo; a vítima é sempre errada. O
vencedor é sempre mais moral que o vencido. A virtude e a
prosperidade, a desgraça e o vício, diz ele, estão em
necessária harmonia.
A debilidade é um vício (isto é, o pecado), e portanto é
sempre castigada e derrotada. Este princípio é dotado por
escritores como Carlyle, para quem, em seu culto ao herói,
os fortes são sempre bons, e apresentam os assassinos, os
piratas e perseguidores como sempre mais morais e mais
dignos de admiração do que suas vítimas. Satanás é assim
muito mais digno de honra do que o melhor dos homens,
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porquanto nele há mais do ser e do poder, e ele é o sedutor


dos anjos e o sedutor dos homens. Jamais a mente
humana concebeu um sistema mais cabalmente demoníaco
do que este. Todavia, este não só tem proponentes
filosóficos, mas também impregna grande parte da nossa
literatura popular, tanto da Europa quanto da América.

4. A Teoria da Privação criada por Leibnitz

Quase nos mesmos termos, porém bem diferente no


espírito e propósito da doutrina de Spinoza e de seus
sucessores, está a teoria de Leibnitz, que também
transforma o pecado em privação e o atribui à necessária
limitação do ser. Leibnitz, contudo, era teísta, e seu
objetivo, em sua “Théodicée”, era vindicar a Deus
demonstrando que a existência do pecado é consistente
com suas perfeições divinas. Sua obra é religiosa em
espírito e propósito, por mais errônea e perigosa que se
apresente em alguns de seus princípios.
Ele pressupôs que este é o melhor mundo possível.
Como o pecado existe no mundo, então deve ser
necessário ou inevitável. Ele não deve ser atribuído à
agência de Deus. Mas, como na filosofia de Leibnitz Deus é
agente universal, o pecado deve ser uma simples negação
ou privação para a qual se necessita de uma causa
eficiente. Esses são dois pontos a serem estabelecidos.
Primeiro, que o pecado é inevitável; e, segundo, que ele
não deve ser atribuído à agência de Deus. É inevitável
porque emana da necessária limitação da criatura. A
criatura não pode ser absolutamente perfeita. Seu
conhecimento e poder devem ser limitados. Mas não são
limitados, então são tanto sujeitos ao erro como também o
erro, ou as ações errôneas são inevitáveis, ou teríamos
uma ação absolutamente perfeita de um agente menos que
absolutamente perfeito; o efeito transcenderia à capacidade
da causa. Portanto, segundo Leibnitz, o mal emana “par la
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suprême necessite dês vérités éternelles”. Lê franc-arbitre


va au bien, et s’il rencontre lê mal, c’est par accident, c’est
que le mal est cachê sous le bien et comme masqué”.
A origem do mal é de fato atribuída à vontade, mas a
vontade é inevitablemente, ou necesariamente, conducida
ao erro pelas limitações inseparáveis da natureza da
criatura. Portanto, se Deus realmente criou um mundo do
qual o pecado não poderia ser excluído. Sendo essa a
origem e natureza do pecado, segue-se que Deus não é
seu autor.
A providência, segundo Leibnitz, é uma criação
contínua (pelo menos esse é o ponto de vista apresentado
em algumas partes de sua “Théodicée”), portanto tudo o
que é possitivo e real se deve à sua agência. O pecado,
porém, sendo mera negação ou privação, nada é positivo, e
portanto não necessita de uma causa eficiente, mas
simplesmente de uma causa deficiente para explicar sua
existência. Salva à vista a similaridade entre o modo de
enunciar doutrina agostiniana, que faz do pecado um
defeito e concilia sua existência com a santidade de Deus,
baseada no mesmo princípio adotado por Leibnitz. Não
obstante, trata-se meramente de uma similaridade no modo
de expressão. As duas doutrinas são essencialmente
diferentes, como veremos quando considerarmos a teoria
de Agostinho. Para este, o defeito é a ausência de um bem
moral que a criatura deveria possuir; para Leibnitz, a
negação é necessária limitação dos poderes da criatura.
As objeções a esta teoria que faz do pecado mera
privação, atribuindo-a à natureza das criaturas como seres
finitos, são substancialmente as mesmas que aquelas já
mencionadas. Em primeiro lugar, ela faz do mal uma
necessidade. As criaturas são necessariamente imperfeitas
ou finitas; e, se o pecado é a conseqüência inevitável de tal
imperfeição ou limitação do ser, o pecado se torna também
um mal necessário. Ela faz de Deus, acima de tudo, o autor
do pecado no sentido em que lhe atribui a responsabilidade
de sua existência. Pois, mesmo admitindo-se ser ele mera
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negação, não exigindo nenhuma causa eficiente, Deus é o


autor da limitação da criatura, da qual surge
necessariamente o pecado. Ele constituiu de tal forma as
obras de suas mãos, que elas não podem fazer outra coisa
senão pecar, assim como a criança não pode fazer outra
coisa senão errar em suas considerações.
A razão é tão débil, mesmo na pessoa adulta, que se
equivoca quanto à natureza e às causas das coisas que
são absolutamente inevitáveis. E se o pecado é igualmente
inevitável à luz da constituição da criatura de Deus, que é o
autor dessa constituição, se torna responsável por sua
existência. Isso não é só uma detração do caráter de Deus,
mas também se põe diretamente em oposição aos
ensinamentos da sua Palavra. A Bíblia nunca atribuiu a
origem do pecado, quer nos anjos, quer nos homens, às
necessárias limitações de ser como criaturas, mas ao uso
indesculpavelmente pervertido de sua própria liberdade de
ação. Os anjos apóstatas não guardaram seu primeiro
estado; e o homem, deixado à liberdade de sua própria
vontade, caiu do estado em que fora criado. Essa teoria
tende a obliterar as distinções entre mal moral e mal físico.
Se o pecado é mera privação, ou se é necessária
conseqüência da debilidade da criatura, então é objetivo de
consideração mais que de aborrecimento. Nos escritos dos
proponentes desta teoria se entrelaçam e se confundem
constantemente os dois sentidos das palavras bem e mal, o
moral e o físico; visto que o mal, segundo seus pontos de
vista, é realmente pouco mais que um desditoso e
inevitável equívoco quanto ao que é realmente bom.
Entretanto, a distinção entre virtude e vício, santidade e
pecado, como revelados em nossa consciência e na
palavra de Deus é a absoluta e completa. Ambos são
simples idéias.
Sabemos o que é dor pela experiência; sabemos o que
é pecado pela mesma fonte. Sabemos que ambas as
coisas são tão diferentes como o dia e a noite, como a luz e
o som. Assim, toda a teoria que tende a confundir ambas as
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coisas tem de ser falsa. Por conseguinte, as Escrituras,


quando apresentam o mero sofrimento como objeto de
consideração, apresentam o pecado como objeto de
aversão e condenação. A ira e a maldição de Deus são
anunciadas contra todo pecado como justa conseqüência.
Portanto, a doutrina mencionada tende necessariamente
não só a amenizar nosso senso do mal ou poluição do
pecado, mas também a destruir o senso de culpa. Nossos
pecados são nossas desgraças, nossas enfermidades. Não
são o que nossa consciência pronuncia que são, crimes
que clamam por seu justo castigo. Contudo, o pecado se
revela a nossa consciência não como uma debilidade, mas
como um poder. Ele é maior nos mais fortes. Não são os
débeis mentais os piores entre os homens, mas os grandes
intelectos têm sido, em muitos casos, os mais avantajados
na prática da iniqüidade.
Satanás, o pior dos seres criados, é a mais poderosa
das criaturas. Se esta teoria estiver certa, então o pecado
tem de ser eterno. Visto que nunca podemos livrar-nos das
limitações de nosso ser, nunca podemos livrar-nos do
pecado que essas limitações inevitavelmente originam. A
alma, pois, se tem afirmado, é a assíntota de Deus,
perenemente aproximando-se. Porém, jamais atingindo o
estado de impecabilidade absoluta.
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CONCLUSÃO

O apóstolo João escreveu dizendo: “Filhinhos meus,


estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se,
todavia, alguém pecar, temos advogado junto ao Pai, Jesus
Cristo, o Justo”(1 Jo. 2.1).
Quanto à prática do pecado, há uma grande
diferença entre o ímpio e o homem perdoado, o crente.
Com o crente pode acontecer um desastre espiritual,
enquanto que o ímpio é um desastre procurando onde
acontecer. Ainda que haja diante do crente a possibilidade
de pecar, ele sabe que não vale a pena pecar. Ele sabe que
o salário do pecado é a morte, por essa razão o evita. O
pecado que antes lhe era regra, um hábito de vida, agora
lhe é uma exceção. Foi por isso que o apóstolo escreveu
dizendo: “... se, todavia, alguém pecar...”, entendemos que
estamos no período da graça de Deus, e os nossos
pecados são perdoados.
I João 1. 17: “Se confessarmos os nossos
pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados
e nos purificar de toda injustiça”.
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BIBLIOGRAFIA

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