1. Quais as tendências para o setor de saúde no Brasil?
Nos últimos anos o setor de saúde vem se transformando com muita intensidade, no mundo
todo, e no Brasil não é diferente. Para falar sobre as tendências, é importante antes
entendermos um pouco do contexto. O acesso a saúde deveria ser universal, todos deveriam
ter o direito de receber tratamento adequado em caso de necessidade, mas, principalmente,
ter condições de cuidar da sua saúde de modo preventivo, pois sabemos que dessa forma
podemos evitar grande parte dos problemas e dos custos envolvidos em casos de doenças.
Infelizmente, nem sempre o sistema de saúde está orientado dessa forma. Muitas vezes, o
modelo em vigor privilegia o volume e frequências de procedimentos, ou linhas de cuidado
onerosas, pois é o que gera mais valor aos prestadores de saúde. Soma-se a isso o custo
crescente da medicina, muitas vezes impactado por novas tecnologias e opções de tratamento
– e todos querem o melhor tratamento disponível, é claro – e vemos um sistema quase
insustentável do ponto de vista financeiro e cada vez menos acessível, além de pouco
orientado ao bem-estar e experiência dos usuários.
Felizmente, esse contexto está mudando rapidamente, e muito por influência da tecnologia e
as possibilidades que ela traz.
As organizações de saúde cada vez mais preocupam-se com a eficiência, não apenas do ponto
de vista dos custos envolvidos em cada procedimento, mas também em relação à prevenção, à
jornada que os pacientes percorrem desde a necessidade de acesso ao sistema de saúde até
um desfecho clínico adequado.
Nesse sentido, a principal tendência é a mudança de comportamento do próprio usuário do
sistema de saúde. Ele quer serviços cada vez mais personalizados, mais integrados, facilidade
de acesso ao sistema, controle de seus próprios dados e de sua jornada.
Dessa forma, surgiram muitas empresas e aplicações que procuram atender essas expectativas
do consumidor, e as organizações mais tradicionais estão também correndo atrás de
incorporar soluções e tecnologias ao seu modelo de negócio e em suas ofertas para se
adaptar.
O que vemos, no entanto, é que ainda temos um bom caminho a percorrer nessa busca de
maior integração entre os elos desse sistema – fontes pagadoras, prestadores e sistema
público, para conseguirmos de fato ter maior eficiência em toda a jornada que o paciente
percorre, com foco na qualidade do desfecho assistencial e no custo da assistência.
2. Vai haver concentração do mercado a partir das diversas operações de fusões e
aquisições? O setor de saúde ainda tem espaço para consolidação? Onde, em que regiões?
Sim, temos visto movimento de consolidação no mercado de saúde, devido a fusões e
aquisições, com crescente intensidade. E ainda há muito espaço para consolidações, pois o
mercado é ainda bastante pulverizado. Esses movimentos ainda podem acontecer nos grandes
centros, e deve acelerar em capitais e cidades de médio porte. Nessas praças, temos
organizações de médio e pequeno porte que podem ser alvo dessas redes em expansão.
Afinal, essas grandes redes tem um modelo de operação e gestão eficiente, além de escala, e
percebem que aplicando suas práticas nesses negócios vão conseguir melhorar os resultados,
o que lá na frente compensa o investimento feito nas aquisições.
3. Em que segmentos essas operações devem ser mais presentes? Hospitais? Operadores de
Planos? Laboratórios? Por quê? Quais as consequências disso?
Essa tendência é mundial, e no Brasil vai avançar mais. Por exemplo, nos últimos anos notamos
interesse crescente de fundos de investimento em teses no mercado de saúde. Por isso, ao
nosso ver, esse movimento vai continuar a acontecer e impactar todos os elos da cadeia -
hospitais, operadoras de saúde, medicina diagnóstica e também clínicas especializadas.
As consequências devem ser avaliadas sob perspectivas distintas. Para quem investe, os ativos
estão cada vez mais caros, refletindo o interesse e a demanda crescente em empresas do
setor.
Com a consolidação, por exemplo, em algumas praças podemos sim ver as opções de planos
privados reduzida, mas não parece ser algo que impacte de modo substancial. A maior parte
da saúde privada é financiada pelas empresas, que oferecem o plano aos funcionários, e as
grandes operadoras nacionais têm custos (e preços) bastante competitivos. Isso pode,
inclusive, viabilizar maior acesso àquelas que não podem gastar muito, mas querem oferecer o
benefício.
Nesse contexto, os investimentos, avanço tecnológico e profissionalização da gestão podem
ainda ter impactos positivos no sistema privado de saúde, contribuindo para elevar a
qualidade da assistência, na média do país e viabilizar maior acesso a quem quer e pode pagar
pela saúde privada.
Por fim, é importante ressaltar que esse movimento impacta uma parte do sistema de saúde,
pois apenas 1/4 da população tem acesso a planos de saúde privados. Seria muito benéfico se,
além da consolidação, estivéssemos vendo também iniciativas de maior integração do sistema
privado com o sistema público de saúde, com foco em maior eficiência no uso dos recursos
disponíveis em ambas as esferas. Os benefícios e impacto seriam bastantes relevantes.
4. As operadoras de planos vão cada vez mais focar em atenção básica para tentar baixar
custos e apostar na verticalização?
O cuidado com a atenção básica sempre foi uma premissa para uma boa assistência médica.
Entretanto, na prática, privilegia-se muito mais a atenção em outros níveis, seja porque o
modelo de remuneração ainda prioriza a doença, seja porque a própria população não foi
educada para valorizar e utilizar corretamente a atenção básica, seja porque nossos pontos de
atenção em saúde básica deixam muito a desejar em termos de capacidade resolutiva.
Esses pontos de atenção básica são a chave para a promoção, prevenção e resolução de
inúmeras questões de saúde em suas fases iniciais, e para controle de doenças crônicas,
evitando que se agravem e gerem internações. Dentro dessa lógica, é natural que as
operadoras de saúde façam movimentos cada vez mais nítidos no sentido de estimular seus
usuários a utilizar esses serviços, seja através da criação de centros de especialidades, da
criação de programas de monitoramento da saúde para o público em geral e para populações
com doenças crônicas específicas como diabetes e hipertensão arterial. Deve-se tornar mais
frequente também, dentro dessa mesma linha, o movimento que estimula o uso correto da
medicação, seja através do fornecimento do medicamento, ou de monitoramento à distância
do seu uso correto e orientações de rotina sobre eventuais dúvidas e efeitos colaterais, causas
frequentes de abandono de tratamento e agravamento de quadros.
5. O que significa para o mercado ter várias empresas abrindo capital ou fazendo operações
secundárias?
A abertura de capital pelas empresas de saúde é uma tendência recente, mas que tem
mostrado sua força, mesmo diante das incertezas do cenário econômico do país. As empresas
estão apostando que existe um mercado potencial de saúde privada no país, sendo favorável
às expansões e consolidações.
Para o mercado, este movimento tende a contribuir com o aumento da velocidade de
aquisições como estratégia de expansão das empresas, a partir do capital levantado nos IPO's,
de forma a proporcionar o crescimento inorgânico. Dessa forma, a concentração de mercado
em grandes players é uma tendência.
Este movimento e os ganhos de escala também acabam gerando maior disponibilidade de
recursos para investimentos em eficiência e tecnologia dos players, que podem se tornar cada
vez mais competitivos em seus mercados de atuação, gerando outra alavanca de crescimento,
nesse caso orgânico.
6. De que forma a pandemia e a consequente aceleração da telemedicina vão impactar no
setor?
A pandemia forçou a quebra de diversas resistências em relação à telemedicina. Trata-se de
um caminho sem volta, dentro das limitações que o tipo de atendimento impõe. À medida que
seu uso amadurecer, a tendência é de haver uma acomodação, um equilíbrio com o uso do
imprescindível atendimento presencial e o uso racional da telemedicina dentro das aplicações
que pode resolver. Entretanto, sem dúvida o seu uso tende a crescer, seja para dar vazão a
parte da demanda de atenção reprimida durante a pandemia, seja para novas aplicações às
quais possa atender de maneira eficiente.
É importante refletir também acerca do perfil do paciente. À medida que o tempo passa e que
o público em geral se familiariza com tecnologias em vários campos da sua vida pessoal –
comércio eletrônico, setor bancário, telefonia – vão diminuindo as resistências em relação ao
uso da telemedicina. É provável que seja mais difícil utilizar telemedicina em geriatria, por
exemplo, por uns bons anos por vir. Entretanto, pesquisas mostram que o paciente jovem,
urbano, tende a preferir agendamentos e atendimentos online para a maioria das suas
necessidades de saúde.
7. Teremos um setor cada vez mais digital? Que consequências isso trará? Como será essa
transformação digital? Consolidação da telemedicina? O setor vai deixar o modelo
hospitalocêntrico e partir concretamente para uma atenção mais básica, com apoio da
tecnologia? Como isso se dará?
O setor de saúde vem se tornando cada vez mais digital nos últimos anos. Tecnologias como
big data, inteligência artificial, realidade virtual, IoT, telemedicina e biossensores são exemplos
que vieram para ficar. As abordagens direcionadas por dados já estão criando valor em todo
segmento como por exemplo na cadeia de suprimentos, no cuidado ao paciente e na
prevenção, potencializando a atuação na atenção primária de saúde e a gestão de saúde
populacional.
O setor de saúde pode se beneficiar ainda de maior digitalização, em problemas que
persistem, como a crescente pressão por redução de custos, tornando a saúde mais eficiente e
acessível. As análises podem dar às organizações insights valiosos para guiar as os próximos
passos e novas tecnologias podem permitir automatizar ações repetitivas, ganhando não só
em produtividade, mas também direcionando o foco das equipes para tarefas com maior
propósito e significado, trazendo maior engajamento para os colaboradores, valor para os
pacientes e, consequentemente, para as organizações.
Essa transformação se dará junto às discussões sobre cibersegurança, um tópico cada vez mais
relevante com a coleta e gerenciamento de dados pessoais e clínicos dos pacientes. Com o
crescente volume de dados relacionados diretamente à saúde de cada indivíduo é necessário
proteger essas informações que tem papel importante para garantir segurança dos pacientes e
ajudar as organizações a extrair o melhor possível dos dados. Para isso, as abordagens devem
atuar não só em tecnologia, com ferramentas de proteção dos dados, mas também em
processos e pessoas, em que estão as maiores causas de vulnerabilidades.
8. Que benefícios ao consumidor essas mudanças trarão?
A transformação digital traz para os pacientes oportunidades de diminuir as lacunas presentes
no atendimento de suas necessidades. Para os pacientes há a oportunidade de um
monitoramento mais efetivo da própria saúde, como por exemplo com dispositivos presentes
no mercado que monitoram batimentos cardíacos, pressão arterial, glicemia e
eletrocardiogramas, tudo atualizado em tempo real, podendo ser acompanhado por central de
monitoramento à distância e estimulando o autocuidado. Com isso, os pacientes ficam mais
engajados no processo e melhoram sua experiência. Além disso há benefícios na qualidade dos
serviços prestados: as operadoras e prestadores tem uma melhor interligação e coordenação
das linhas de cuidado, viabilizando um atendimento com insights preditivos e atuando de
maneira preventiva, mais eficaz e com menos atritos em toda jornada do paciente.
9. E a formação médica? Também está passando por transformações? Quais?
A formação médica evolui constantemente. Talvez o que tenhamos testemunhado nos últimos
anos seja um recorte da evolução da educação em si, com o uso cada vez mais difundido das
tecnologias de ensino. Até alguns anos atrás, todo o ensino da anatomia, por exemplo, era
baseado na dissecção de cadáveres e grandes atlas com imagens estáticas. Hoje, cada vez mais
a realidade virtual, os modelos 3D e animações preenchem esse lugar. Os laboratórios de
simulação conseguem reproduzir um grande número de parâmetros e situações, podendo
preparar os alunos sem depender da existência, durante sua formação, de casos reais desta ou
daquela doença.
Em contraponto a isso, existe o perigo de o médico se tornar cada vez mais dependente da
tecnologia para o diagnóstico e o tratamento. Se não houver cuidado, o raciocínio clínico se
atrofia e pode-se passar a depender apenas de exames sofisticados para o diagnóstico. Da
mesma maneira, a relação médico-paciente não pode deixar de ser central no atendimento.
Cabe às instituições de ensino e aos formadores de novos médicos estarem atentos para o fato
de que a escuta clínica, a empatia e o cuidado com os aspectos psicossociais do paciente e
seus familiares jamais serão substituídos pela tecnologia.
Luiz Carlos Lima Nogueira
Senior Advisor | Serviços de Saúde
Graduado em Medicina e especialista em Administração, atua a mais de 25 anos na Falconi
implementando e orientando as práticas de gestão na área de Saúde pública e privada. Possui
larga experiência em gerenciamento da rotina e reprojeto de processos, sendo autor do livro
“Gerenciando pela Qualidade Total na Saúde”, publicado pela Falconi Editora.
Alberto Lott
Sócio | Serviços de Saúde
Graduado em Administração de Empresas e Especialista em Marketing pela UFMG, com MBA
em Finanças Corporativas pelo IBMEC/SP e MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Dom
Cabral, atua a mais de 20 anos na Falconi implementando práticas de gestão, gente e
tecnologia em organizações públicas e privadas. Suas experiências em Saúde contemplam
Operadoras, empresas de Medicina Diagnóstica e Hospitais, além de Farmacêuticas e Redes de
Farmácia.