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1

(RE)ELABORANDO SENTIDOS SOBRE A POLIATRAÇÃO: OS EFEITOS DA


HETERONORMATIVIDADE NA CONSTRUÇÃO DAS IDENTIDADES DE
MULHERES BISSEXUAIS CISGÊNERO1

Laís Gonçalves de Andrade2


Daniel Kerry dos Santos3

RESUMO: Neste artigo são analisados os efeitos da heteronormatividade e do monossexismo


na construção das identidades bissexuais de mulheres cisgênero. Trata-se de uma pesquisa
qualitativa, da qual participaram duas mulheres bissexuais cisgênero, brancas, com nível
superior completo, com idade entre 25 e 30 anos e residentes na Grande Florianópolis (SC).
Como procedimento de escuta das narrativas, foram realizadas entrevistas semiestruturadas
individuais, a partir das quais se solicitou às participantes que narrassem suas experiências e
vivências bissexuais. As entrevistas foram observadas tendo como base a referência teórico-
metodológica da análise de práticas discursivas e de produção de sentidos, tal como proposta
por Spink e Medrado (2013). A partir das narrativas escutadas, elencaram-se duas categorias
temáticas: 1) compreender-se bissexual; e 2) experiências de bifobia. As análises indicaram a
presença não só da heteronormatividade nas construções das identidades bissexuais, como
também do monossexismo, do machismo, do sexismo e da fetichização da relação entre
mulheres. Considera-se que a heteronormatividade e o monossexismo dificultam o processo de
compreender-se como bissexual e que as redes de apoio se fazem importantes para os processos
de identificação e de reconhecimento de si.

Palavras-chave: Mulheres Bissexuais. Monossexismo. Heteronormatividade

1 INTRODUÇÃO

Começo esse texto questionando a tradição acadêmica de acreditar no pesquisador


imparcial, que defende que aquele que pesquisa deve ser neutro, separado dos afetos possíveis
durante a imersão na pesquisa. Questiono que ideal de imparcialidade é esse que busca retirar
nossas condições humanas do sentir. Os afetos fazem parte de nossa condição humana e podem
ser nossa grande potência. Deixo a dúvida: se o afeto é aquilo que nos mobiliza, que nos prende,
nos movimenta e instiga, qual o tamanho da imensidão de coisas que estamos deixando de lado
ao procurar uma pesquisa na qual tudo isso é ignorado? Citando Said (1990 p.22):

1
Artigo apresentado como requisito parcial para a conclusão do curso de Graduação em Psicologia da
Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), em 2020.
2
Acadêmica do curso de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul). E-mail:
[email protected].
3
Doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professor na Universidade do Sul
de Santa Catarina (Unisul).
2

[...] o consenso [...] de que o "verdadeiro" conhecimento é fundamentalmente


apolítico (e de que, ao contrário, o conhecimento abertamente político não é
conhecimento "verdadeiro") obscurece as circunstâncias políticas [...] que
predominam quando o conhecimento é produzido.

Em uma perspectiva semelhante, Costa (2002 p.86) enfatiza que “a consciência quanto
ao lugar de enunciação surge do reconhecimento de que a experiência concreta se torna um
momento teórico-crítico para estratégias que buscam interrogar categorias analíticas juntamente
com seus usos hegemônicos”. Ou seja, colocar-se como sujeito posicionada em determinado
lugar, demarcada pela sua vivência, é reconhecer que a experiência pode ser também uma crítica
ao modelo dominante da pesquisa neutra.
Frente a esses tensionamentos, aproveito para falar um pouco sobre o lugar de onde falo.
Sou mulher cisgênero4, branca, bissexual. Compreendi-me como lésbica aos meus doze anos,
acreditando não sentir atração nenhuma por homens. Ao longo da minha vida, o caminho para
a compreensão da minha sexualidade foi turbulento e confuso, apesar de ter sido bem aceito
pela minha família, considerando as histórias e estatísticas de pessoas LGBT em relação as suas
orientações sexuais e identidades de gênero. Também já me questionei ser um homem trans
heterossexual, em uma época em que eu saia de casa, escondida da minha mãe, somente dentro
dos estereótipos de gênero masculino, faixa para esconder os seios e com o nome de Vinicius.
Perpassei diversos caminhos até compreender minha bissexualidade e identidade de gênero.
Diversas possibilidades, vivenciadas com diversos afetos, passaram por mim antes de me
identificar como bissexual. Ainda assim, ao me reconhecer na letra B da sigla LGBT, namorei,
de forma assumida e duradoura, somente homens cisgêneros, apesar de, desde criança, nos
momentos de descoberta da sexualidade, me atrair mais por mulheres. Hoje, depois de adulta,
me pergunto o porquê de a bissexualidade ter sido minha última alternativa para compreender
a mim mesma; e o porquê depois de me identificar como bissexual só me relacionei
afetivamente com o gênero que sinto menos atração. Cabe aqui destacar as problemáticas da
heteronormatividade - uma forma de poder que me mobilizou a fazer esta pesquisa e questionar
sobre “os efeitos da heteronormatividade na construção das identidades de mulheres
bissexuais”. Conforme já anunciado brevemente acima, tais questões atravessam as afecções
das minhas próprias vivências e experiências, constituindo, assim, esse projeto de pesquisa.

4
Segundo Bagagli (2018, p.13) o termo: “cisgênero” é utilizado para designar aquelas pessoas que não são
transgêneros, ou seja, aquelas cujo gênero auto identificado está na “posição aquém” daquele atribuído
compulsoriamente ao nascimento em virtude da morfologia genital externa. Ou seja, cisgênero é a palavra
utilizada para nominar as pessoas que se identificam com o gênero compulsoriamente atribuído no seu nascimento
por conta da sua genitália.
3

Dessa forma, reforço aquilo que coloquei no primeiro parágrafo e retorno a perguntar: o que
seria dessa, dentre tantas outras pesquisas feitas por diversas pessoas, se fossem construídas
sobre a premissa de um sujeito supostamente neutro e não situado?
Segundo Louro (2009), a heteronormatividade pode ser definida como uma produção
compulsória da norma heterossexual, que supõe que todas as pessoas devem ser heterossexuais.
A heteronormatividade somente confere legitimidade e inteligibilidade às relações sociais
estabelecidas dentro dos quadros e moldes pressupostos pela heterossexualidade. Nas
dinâmicas sociais heteronormativas, os sistemas de saúde, de educação, de justiça e midiático
são construídos na imagem e semelhança do heterossexual, de modo que a heterossexualidade
seria uma das chaves de acesso ao usufruto de direitos, benefícios e privilégios. De acordo com
Cohen (1997), a heteronormatividade se constitui e se mantém através de práticas localizadas
e instituições centralizadas que privilegiam a heterossexualidade e as relações heterossexuais
como fundamentais e naturais na sociedade5.
Podemos pensar a heteronormatividade como um conjunto de normas que
institucionalizam uma orientação sexual supostamente “normal” (heterossexual) em detrimento
de outras expressões da sexualidade que passam a ser alocadas no campo do desvio (como as
homossexualidades, as bissexualidades e as assexualidades). A heteronormatividade
sobrevaloriza e confere privilégios aos heterossexuais, considerando a heterossexualidade a
única orientação sexual correta e desejada.
Expressões da heteronormatividade podem ser observadas na mídia, por exemplo. É
possível pensar nas inúmeras histórias da Disney e em tantos outros desenhos que, desde a
infância, nos impõem um modelo que valorizam apenas as relações heterossexuais,
qualificando-as como saudáveis, desejáveis e ideais. Novelas, filmes e séries também seguem
o mesmo pressuposto. É facilmente notável a quantidade massiva de roteiros nos quais há
sempre uma relação heterossexual que cumpre com os estereótipos de gênero, tanto para
homens como para mulheres. Dentro desse raciocínio, Gaard (2011, p.202) aponta que “[...]
fica claro que a heterossexualidade e as suas identidades de gênero associadas são tomadas
como padrão na cultura ocidental dominante e queers são definidas/os primariamente em
relação àquele padrão e à nossa incapacidade de cumprimento do mesmo”. Podemos
compreender queer como “aquilo que foge a norma” e como aquilo e/ou aqueles/as que, de
acordo com Lewis (2012, p.67) podem “[...] desconstruir e desestabilizar os binários, subverter

5
Tradução livre a partir do original em inglês: “ By “heteronormativity” I mean both those localized practices and
those centralized institutions wich legitimize and privilege heterosexuality and heterossexual relationships as
fundamental and “natural” within society.
4

as normas, etc”. Nesse sentido, podemos pensar, concordando com Gaard que a
heterossexualidade se torna um centro, um ponto a ser seguido como natural e/ou normal. O
queer se constitui como tudo aquilo que não se configura dentro do quadro mais normativo da
heterossexualidade e/ou das cisgenereidade . Dessa forma, o heterossexual assume uma posição
de correto, de modo que tudo aquilo que se distingue do mesmo é tido como desviante.
Adrienne Rich (2010), ao teorizar sobre a existência lésbica, apresenta outro conceito
importante para compor esse debate: a heterossexualidade compulsória. A heterossexualidade
compulsória seria uma imposição da heterossexualidade como uma forma de assegurar o
suposto direito dos homens sobre as dimensões econômicas, físicas e emocionais das mulheres.
No campo de poder sustentado pela heterossexualidade compulsória, a possibilidade da
existência lésbica ficaria reduzida, anulada e invisibilizada. A heterossexualidade compulsória
faz com que nossa cultura incentive ainda mais a relação entre homens e mulheres (cisgêneros).
É através da mesma que se mantem a estrutura patriarcal e cisheteronormativa, e que se
naturaliza, dentro das relações heterossexuais, o exercício de poder e dominação dos homens
sobre as mulheres.
O dispositivo da heterossexualidade compulsória me faz pensar em como são afetadas
as identidades bissexuais, tanto de homens como de, sobretudo, mulheres (levando em
consideração a heterossexualidade compulsória como ferramenta de manutenção do
patriarcado). Torna-se crucial problematizar os processos de subjetivação atravessados pelo
poder heteronormativo e heterocompulsório. Questiono-me como ficam as escolhas de
parceiros afetivos e sexuais de pessoas bissexuais que, assim como todos, enfrentam uma
sociedade que além de privilegiar a heterossexualidade, também incentiva (de modo a tornar
compulsório) o relacionamento heterossexual como manutenção de poder. Ao mobilizar tais
questionamentos, percebi grande importância de adentrar no assunto das estruturas sociais
vigentes que sustentam a heterossexualidade como norma e de analisar os seus efeitos nas
experiências das bissexualidades.
Cabe aqui ressaltar que, como expressões estruturais de dispositivos de poder, a
heteronormatividade e a heterossexualidade compulsória não afetam somente pessoas
bissexuais e/ou quem se identifica como LGBT, mas sim a todos/as/es aqueles/as que são
atravessados/as/es pelo tecido social marcado por normas regulatórias de gênero e sexualidade.
Também cabe ressaltar que o termo bissexualidade é utilizado nessa pesquisa como termo
guarda-chuva, descrito por Flanders (2017) como nome comumente usado para descrever
identidades, comportamentos e formas de atração não-monossexuais. Isso inclui pessoas que se
5

identificam como bissexuais, pansexuais[...]6. Tal definição visa combater a visão transfóbica
que muitas vezes é criada sobre a bissexualidade, afirmando erroneamente que essa orientação
sexual se relaciona somente com homens e mulheres cisgêneros.

1.1 HETERONORMATIVIDADE, MONOSSEXISMO E A INVISIBILIZAÇÃO DA


EXPERIÊNCIA BISSEXUAL

Podemos pensar, de acordo com Lewis (2012, p.66), que “ [...] a bissexualidade pode
ser usada como uma posição epistemológica para desconstruir o binário
heterossexual/homossexual e a noção moderna de definir a sexualidade com base no
sexo/gênero do objeto do desejo”. Assumir-se bissexual não é um caminho fácil. Compreender-
se a partir de uma identidade que foge da monoatração “homem ou mulher”, em uma sociedade
heteronormativa e heterocompulsória, é estar exposto/a a uma séria de invisibilizações. Atrair-
se por mais de um gênero desafia diretamente a estrutura binária da sociedade, fazendo com
que a identidade bissexual seja vista como inválida, não existente, ilegítima e/ou ininteligível.
Segundo Jaeger (2018, p.20) “[...]as práticas bissexuais têm sido relatadas ao longo do tempo
de forma marginalizada, como práticas ilegítimas por não se enquadrarem nas categorias
binárias da sexualidade (heterossexual ou homossexual)”. Tais marginalizações ocorrem, em
partes, por causa dos efeitos do que alguns/mas autores/as têm chamado de monossexismo. De
acordo com Ross, Dobinson, e Eady (2010) o monossexismo é análogo ao heterossexismo.
Algumas pessoas compreendem como legítimas somente as orientações sexuais que se atraem
por um único gênero (heterossexuais e homossexuais). Decorrente dessa leitura sobre as
sexualidades, a bissexualidade passa a ser deslegitimada7. Cabe ressaltar que a palavra
“legítima” utilizada nesse texto se aproxima do sentido de “inteligível”. Não queremos dizer
com isso que a homossexualidade é tão legitimada quanto a heterossexualidade, mas apontar
para a questão de que, em alguns casos, a homossexualidade é compreendida como orientação
sexual possível – ainda que discriminada e exposta a diversos tipos de violência, diferente da
bissexualidade que, frequentemente, é vista como inexistente, impensável ou fantasiosa. Isso
não significa que toda homossexualidade é compreendida como possível e toda bissexualidade

6
Tradução livre a partir do original em inglês: “The ‘bisexual umbrella’ is a phrase that is most commonly used
to describe a range of nonmonosexual identities, behaviors, and forms of attraction. Although this includes people
who identify as bisexual, it has also been used to group together bisexuality with other nonmonosexual identities,
notably pansexual, queer, and fluid [...].”
7
Tradução livre a partir do original em inglês: “monosexism is analogous to heterosexism: some people view only
single-gender sexual orientations (heterosexuality and homosexuality) to be legitimate, and at the structural level,
bisexuality is dismissed or disallowed”.
6

é compreendida como inexistente. Existem diversas formas de vivenciar as orientações sexuais


e não é possível resumir todas elas num breve parágrafo. A bissexualidade feminina, por
exemplo, por vezes é interpretada, sob óticas machistas e heteronormativas, como como fetiche
de homens heterossexuais.
Cabe aqui algumas considerações acerca dos termos utilizadas nesse projeto.
monoatração é a atração por somente um gênero; a poliatração é a atração por mais de um
gênero; e o monossexismo é a expressão usada para designar a estrutura social que legitima
orientações monossexuais e deslegitima orientações não-monossexuais, como a bissexualidade.
Como efeito do monossexismo, naturaliza-se o apagamento bissexual, que é justamente
desconsiderar a bissexualidade como orientação sexual possível, reforçando a norma de que
não é possível sentir atração por mais de um gênero. Eisner (2013 apud JAEGER, 2018, p.65)
aponta que “[...] a expressão “apagamento bissexual” tem sido usada para se referir à falta de
reconhecimento das bissexualidades e a negação sistemática de sua existência nas sociedades
ocidentais”. O apagamento bissexual, sendo uma prática monossexista, favorece a lógica
binária societária e reforça a crença social da impossibilidade da poliatração.
Consequentemente, se mantém a pouca produção de conteúdo e conhecimento sobre a
bissexualidade que, sendo desconsiderada, fica nas sombras do reconhecimento. Retroalimenta-
se, assim, a invisibilização bissexual, uma vez que, quando não se produz conteúdo sobre
determinado assunto, este cai no desconhecimento. Gaard (2011) vai ao encontro dessa ideia
ao retratar que “as tentativas de naturalizar uma forma de sexualidade têm a função de tentar
encerrar a investigação sobre a diversidade sexual e práticas sexuais e de ganhar o controle do
discurso sobre a sexualidade”. Ou seja, é desejado que a bissexualidade seja apagada, para
queassim se mantenha o controle sobre a sexualidade das pessoas e continue vigorando a
heteronormatividade, heterossexualidade compulsória e o monossexismo.
O apagamento bissexual acontece através das lógicas do monossexismo. Dentro desse
raciocínio, cabe ressaltar que o monossexismo não acontece somente por parte das pessoas
heterossexuais para com as bissexuais. A ideia de que é necessário “escolher um lado” ocorre
também dentro da comunidade LGT. Yoshino (2000) ressalta o contrato epistêmico do
apagamento bissexual que, para o autor, ocorre entre heterossexuais e homossexuais no formato
de norma social que se cria de forma inconsciente, produzindo como efeito uma concordância
tácita para o apagamento da bissexualidade8. Isto é, apesar da heteronormatividade e
heterossexualidade compulsória vigente, dentro do próprio meio homossexual também há

8
Tradução livre a partir do original em inglês
7

deslegitimação da bissexualidade, que parece concordar com o meio heterossexual que a


bissexualidade é inválida e inexistente. O que ocorre, segundo Jaeger (2018, p.115), é que,
assim como na heterossexualidade, na homossexualidade existe “[...] uma matriz [...] que
estabelece o que seria uma “verdadeira homossexualidade” e que marginaliza sujeitos que não
estejam de acordo com suas normas, como no caso das mulheres bissexuais”. Ou seja, apesar
da letra B estar na sigla LGBT, pessoas bissexuais ainda podem sofrer com apagamento
bissexual tanto entre heterossexuais como entre homossexuais. Tudo isso pode ser
compreendido a partir das colocações de Lewis (2012, p. 70):

[...] as pessoas identificando-se como bissexuais tendem a experimentar problemas


duplos de discriminação, preconceitos, hostilidade e estigmatização da parte de
pessoas que se identificam como heterossexuais e da parte de pessoas que se
identificam como homossexuais – um fenômeno chamado de “bifobia.

De acordo com a autora supracitada, o termo bifobia significa “preconceitos e


discriminações contra performances identitárias bissexuais” (2012, p. 22) incluindo o
monossexismo – a crença de que a bissexualidade não existe. Jaeger (2018) afirma que:

Nesse sentido, as bissexualidades [...] parecem, de certa forma, desestabilizar as


normas de sexo-gênero-sexualidade de ambas as matrizes (hétero e homo),
perturbando pressupostos monossexistas e desnaturalizando as certezas da
heterossexualidade hegemônica [...]

Nessa perspectiva de análise, Lewis (2012) contribui ao apontar que quem se identifica
como bissexual sente pressão não somente da heterossexualidade compulsória como também
de uma “homossexualidade compulsória”, que acontece com certa frequência vindo de pessoas
que se identificam como homossexuais. A bissexualidade se encontra, então, de acordo com
Garber ([1995] 1999 p.138), numa posição que

[...] abala as certezas: hétero, gay, lésbica. Tem afinidade com todas essas categorias,
mas não é delimitada por nenhuma. É, então, uma identidade que também não é uma
identidade, um símbolo da certeza da ambiguidade, a estabilidade da instabilidade,
uma categoria que desafia a categorização.9

Outro exemplo de bifobia que ocorre dentro do meio LGT é o caso de lésbicas que
acreditam ser hierarquicamente superiores a mulheres bissexuais por não se relacionarem com

9
Tradução do original em inglês: “Bisexuality unsettles certainties: straight, gay, lesbian. It has affinities with all
of these, and is delimited by none. It is, then, an identity that is also not an identity, a sign of the certainty of
ambiguity, the stability of instability, a category that defies and defeats categorization.”
8

homens, deslegitimando a bissexualidade como alternativa desejante e acreditando que


mulheres bissexuais podem ser, por exemplo, vetores de IST. Jaeger (2018) aponta este
fenômeno ao destacar que parece haver, por parte de mulheres lésbicas, uma suposição de que
mulheres bissexuais relacionam-se sexualmente com “pênis sem proteção” e que, por isso,
mulheres lésbicas só correriam riscos de se infectarem com alguma IST caso se relacionassem
com mulheres bissexuais. Cabe ressaltar que esse discurso bifóbico existente não ocorre por
parte de todas as mulheres que se identificam como lésbicas, mas por uma parcela dessas
mulheres que, segundo a autora, deixam:

[...] possível observar a crença de que a lesbianidade seria uma sexualidade melhor e
politicamente superior a outras, demonstrando uma posição colonizadora por parte de
algumas mulheres lésbicas em relação às interlocutoras bissexuais (JAEGER, 2018,
p. 102).

Acredito que cabe aqui voltar para a minha experiência. Apesar de não ter sofrido
bifobia por parte de mulheres lésbicas (o que não tira o fato de outras mulheres bissexuais
sofrerem), de fato percebo e vivencio o monossexismo e o apagamento bissexual ao longo da
minha história. Recordo-me de um amigo gay, num dia em que conversávamos sobre assuntos
triviais, quando ele interrompe nossa conversa e me pergunta se eu já havia “me decidido”,
afirmando que, para ele, “não existia a possibilidade de gostar de mais de um gênero e que eu
estava somente confusa”, alegando que eu “precisava tomar uma decisão e sair de cima do
muro”. Também me lembro de um colega de trabalho, heterossexual, quando eu defendia a
existência da bissexualidade, ele me respondeu ao dizer que, para ele, o que eu descrevia era
“putaria, gostar do que viesse sem fazer distinção, tanto fez, tanto faz, somente aceitação para
sexo”. Essas situações são representativas das ideias apresentadas por Eisner (2013 apud
JAEGER, 2018, p.67) que analisa o monossexismo como “[...] uma estrutura social que
presume que todas as pessoas sejam monossexuais, e que trata como desvio as bissexualidades,
as pansexualidades e as sexualidades fluidas”. Dessa forma, percebe-se que além do controle
sobre a bissexualidade, o monossexismo, de maneira análoga a heteronormatividade e ao
heterossexismo, regula, também, várias outras expressões da sexualidade.
Ao pensarmos especificamente nas experiências de mulheres bissexuais, quando se fala
de apagamento bissexual, monossexismo e heteronormatividade, outro ponto importante
apontado por Jaeger (2018) é a questão das escolhas afetivas dessas mulheres. A autora salienta
que, ao entrar em um relacionamento monogâmico, a mulher bissexual acaba por ser
considerada heterossexual ou lésbica dependendo do gênero do/a seu/sua parceiro/a. O início
de relacionamento é compreendido como uma tomada de decisão, sendo assim inviabilizada a
9

possibilidade de ser bissexual. Com isso, é possível perceber a existência do apagamento


bissexual, do monossexismo e da heteronormatividade quando se acredita primeiro numa
“tomada de decisão” antes de se considerar bissexualidade como orientação sexual possível.
Nesse quadro, seria mais fácil acreditar que a mulher bissexual “escolheu um lado”
(homossexual ou heterossexual) e legitimar uma relação tida como heterossexual (mulher
bissexual e homem), ao invés de legitimar a bissexualidade. Assim, omite-se a legitimidade da
bissexualidade, uma vez que ela é incompreendida e substituída pelo binário hétero ou
homossexual.
Quando se legitima a bissexualidade feminina, é importante ressaltar a maneira pela
qual se representada a identidade da mulher bissexual em contextos midiáticos. Segundo Eisner
(2013 apud JAEGER, 2018 p. 75):

[...] a bissexualidade feminina tem estado presente na pornografia escrita, desenhada,


fotografada ou filmada como objeto de desejo do homem cisgênero heterossexual. De
modo geral, as mulheres bissexuais são apresentadas de maneira hipersexualizada,
como um objeto sexual para o espectador homem e geralmente dispostas a realizar a
fantasia masculina do ménage à trois na companhia de outra mulher.

Cabe aqui nos questionarmos sobre a influência dessa fetichização na construção das
identidades bissexuais de mulheres. Suas identidades são, através da mídia, hipersexualizadas
e postas à mercê do olhar masculino heterossexual cisgênero. Isso reforça diretamente a ideia
de que os corpos femininos (nesse caso, bissexuais) são feitos para agradar e satisfazer aos
homens. Esse fato, ancorado nas lógicas heteronormativas e heterossexistas, reforça a ideia de
que a bissexualidade é fantasiosa, pois coloca a relação entre mulheres apenas como fetiche.
Essas dinâmicas de poder têm como base a manutenção da heterossexualidade como única
sexualidade legitima, subordinando mulheres, como já dito anteriormente, ao poder masculino
de dominação, situação que é nitidamente posta na pornografia. Por atingir um nível estrutural,
não é necessário que mulheres bissexuais consumam conteúdo pornográfico para que as
mensagens passadas por ele tenham influência em suas subjetividades. Até porque a
pornografia é somente um dos diversos meios de reforçar as estruturas vigentes em nossa
sociedade. Volto a questionar aqui qual a influência que o fenômeno midiático da pornografia,
junto a outras diversas maneiras de manutenção de poder que corroboram com a
heterossexualidade compulsória e a heteronormatividade, tem sobre a escolha de parceiros
afetivos e sexuais de mulheres bissexuais, assim como na construção de suas identidades
bissexuais.
10

Considerando o que foi discutido até o esse ponto, retomo assim a importância da
pergunta de pesquisa: “quais os efeitos da heteronormatividade na construção das identidades
de mulheres bissexuais”, uma vez que faz-se necessário tensionar todos os questionamentos
apontados nos parágrafos acima para uma melhor compreensão dos atravessamentos dessas
estruturas na construção de nossas identidades. A pesquisa teve como objetivo geral analisar os
efeitos da heteronormatividade nas construções das identidades bissexuais de mulheres
cisgêneras. Os objetivos específicos foram: problematizar como as normas sexuais e de gênero
afetam mulheres bissexuais cisgênero; analisar as estratégias que mulheres bissexuais
cisgêneras encontram para lidar com as regulações de gênero e sexuais sobre suas experiências;
compreender as estratégias de enfrentamento de mulheres cisgênero bissexuais em relação a
bifobia da comunidade LGT e pessoas heterossexuais; e conhecer os sentidos atribuídos a
bissexualidade por mulheres bissexuais cisgênero.

2 METODOLOGIA

2.1 DELINEAMENTO E PARTICIPANTES

A presente pesquisa possuí caráter qualitativo, exploratório e transversal. Foram


realizadas entrevistas individuais com duas mulheres que se autodeclaram bissexuais e
cisgênero, com idade mínima de dezoito anos e que são residentes na região da Grande
Florianópolis. A procura e o contato com as participantes foi feito através de divulgação pela
minha rede de contatos e a seleção foi feita através da compatibilidade com os critérios
necessários para a entrevista. Foi solicitado a uma das participantes que indicasse outra mulher
se disponibilizasse a participar da pesquisa, técnica conhecida como “bola de neve” (snow ball),
segundo Freitas et al. (2000).

2.2 PROCEDIMENTOS DE ESCUTA DAS NARRATIVAS

Para a escuta das narrativas foram realizadas entrevistas individuais e semiestruturadas


que viabilizassem “toda a flexibilidade necessária em cada caso particular” (BLEGER, 2003,
p.3). De acordo com Bleger (2003), a entrevista é uma técnica que é ponto de interação entre
as necessidades práticas e a ciência, possibilitando levar a vida diária ao nível do campo
cientifico. Trata-se de um instrumento fundamental de trabalho para o psicólogo e outros
profissionais. Por conta do contexto atual de enfrentamento a pandemia de Covid-19, os
11

convites e as entrevistas ocorreram de maneira virtual. Neste caso, foram utilizadas plataformas
online gratuitas de comunicação por vídeo da preferência das entrevistadas. As entrevistas
foram realizadas com a garantia de que as participantes estivessem em local sigiloso e com
acesso à internet. O dia e horário da entrevista foram previamente combinados com cada
participante, prezando um momento em que entrevistadas e entrevistadora se encontrassem
sozinhas e confortáveis para a interação, garantindo, dessa forma, o sigilo das informações.

2.3 PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE DE DADOS

Para realizar a análise das narrativas, foi utilizada a perspectiva teórico-metodológica


da “análise das práticas discursivas e de produção de sentido”, tal como proposta por Spink e
Medrado (2013b). Spink e Medrado (2013b) apontam que as construções de sentidos são
fenômenos sociais e interativos a partir dos quais as pessoas, dentro das dinâmicas das relações
sociais culturalmente localizadas e historicamente datadas, constroem os termos, os repertórios
linguísticos e a própria linguagem. A produção de sentindo é dialógica e implica a linguagem
em uso, sendo, portanto, um fenômeno sociolinguístico. Essa proposta é definida a partir de três
dimensões: linguagem, história e pessoa.
Spink e Medrado (2013b) referem-se à linguagem como algo que “se faz uso”, ou seja,
uma “linguagem em uso” que opera nas relações como uma forma de prática social. Nessa
linha, as autoras introduzem o conceito de “práticas discursivas”, que seriam as ocasiões de
produção de sentido e ressignificações no momento ativo da linguagem, ou seja, a forma pela
qual as pessoas produzem sentidos a partir das relações sociais. As unidades de construção das
práticas discursivas são os repertórios interpretativos, os quais demarcam as inúmeras
possibilidades de construções discursivas que tem como base o contexto em que essas práticas
são produzidas (SPINK; MEDRADO; 2013b). Segundo as autoras:
Esse conceito é particularmente útil para entendermos a variabilidade usualmente
encontrada nas comunicações cotidianas, quando repertórios próprios de discursos
diversos são combinados de formas pouco usuais, obedecendo a uma linha de
argumentação, mas gerando, frequentemente, contradições.

Apesar de compreenderem as diversas possibilidades singulares de construções e


práticas discursivas, Spink e Medrado (2013b) salientam que nossos repertórios interpretativos
foram e são histórica e culturalmente construídos. Quando analisamos os discursos a partir da
perspectiva da análise de práticas discursivas e de produção de sentido, faz-se fundamental
considerarmos a história, os contextos, as relações de poder e as possibilidades de agência dos
12

sujeitos situados, para, assim, compreendermos os modos socialmente construídos de dar


sentido ao mundo.
Em relação à história, Spink e Medrado (2013b) enfatizam a necessidade de um olhar
que considere o tempo como uma categoria fundamental para análise das práticas discursivas e
das produções de sentidos. A aproximação com a temporalidade em relação aos repertórios
interpretativos vem da “problemática dos contextos de sentidos”, ou seja, o sentido
contextualizado dialoga continuamente entre sentidos antigos e novos. Para as autoras, o tempo
dos repertórios é dividido em três momentos “o tempo longo, que marca os conteúdos culturais,
definidos ao longo da história [...]; o tempo vivido, das linguagens sociais aprendidas pelos
processos de socialização pelas trajetórias de vida; e o tempo curto, marcado pelos processos
dialógicos das interações face a face” (SPINK; MEDRADO; 2013b, p.31).
Em relação à pessoa, Spink e Medrado (2013b) enfatizam o foco sobre a dialogia ao
invés de privilegiar a individualidade e a condição de sujeito. Este último é ressignificado, à luz
do construcionismo social, para o termo pessoa. Isso acontece pois, de acordo com as autoras,
o conceito indivíduo/sujeito remetem a dicotomias como individuo-sociedade, pressupondo
cisões absolutas, enquanto a pessoa “está inserida num constante processo de negociação,
desenvolvendo trocas simbólicas, num espaço de intersubjetividade ou, mais precisamente, de
interpessoalidade” (SPINK; MEDRADO; 2013b p.36).

2.4 QUESTÕES ÉTICAS

Spink e Menegon (2013c), referente a relação entre pesquisadores e participantes, citam


três cuidados éticos essenciais: os consentimentos informados, a proteção do anonimato e o
resguardo do uso abusivo do poder na relação pesquisadora/participante. Sobre o
consentimento informado, compreende-se que é o acordo inicial que sela a colaboração e que
pode ser revisto em qualquer momento, tendo em vista que o processo de participação traz
diferente possibilidades de interpretação sobre a pesquisa. Seu princípio básico é a
transparência quanto aos procedimentos, direitos e deveres de todos os envolvidos na pesquisa.
Sobre o resguardo do uso abusivo do poder na relação pesquisadora/participante, entende-se
que a postura ética implica em estabelecer uma relação que assegura às participantes o direito
de não revelar informações, ou revelar com o gravador desligado. Por parte da pesquisadora, a
postura ética implica em reconhecer os limites apropriados da revelação, controlando a
curiosidade pelo princípio do respeito à intimidade das participantes (SPINK; MENEGON,
2013c). Sobre a proteção do anonimato, conclui-se que “é um mecanismo de proteção que
13

implica a não revelação de informações que possibilitem a identificação dos participantes. É


frequentemente entendido como confidencialidade [...]” (SPINK; MENEGON, 2013c p.70).
A ida a campo dessa pesquisa somente aconteceu após a submissão para avaliação e
aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) através da plataforma Brasil. Todas as
participantes foram informadas de que a participação na pesquisa ocorreria de forma voluntária
e que não havia obrigatoriedade de responder às perguntas caso alguma causasse desconforto.
Além disso, também foi informado que era possível desistir de participar a qualquer momento
em caso de sentir-se prejudicada. Foi garantido o sigilo total das informações das participantes,
preservando o anonimato de todas. Todas as dúvidas sobre os procedimentos de participação
foram sanadas assim que foram dirigidas às pesquisadoras envolvidas. Para um melhor
esclarecimento de toda a pesquisa, foi apresentado Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido (TCLE), documento que foi assinado pelas partes envolvidas para fins de
declaração de ciência das condições de participação e para autorizar a participação na pesquisa
e de gravação de áudio para fins de facilitar a transcrição posterior a entrevista.
Essa pesquisa encarrega-se do benefício de acréscimo na pesquisa brasileira. Dessa
forma, produzindo mais conteúdo acerca do tema, contribuindo com esse debate que é tão
invisibilizado. Tendo em vista as entrevistas com mulheres bissexuais, os riscos dessas pesquisa
puderam ser compreendidos como o contato mobilizador que pode acontecer de forma negativa
ao tocar em determinados temas, sensibilizando as pessoas ao acessar memórias que podem não
ser confortáveis. Frente a esses riscos, cabe ressaltar que as entrevistadas possuíram liberdade
para não responderem perguntas que causassem desconforto ou constrangimento. A entrevista
teve a possibilidade de ser cancelada caso a participante não estivesse sentindo-se confortável
em dar continuidade a mesma, porém não foi necessário.

3 DISCUSSÃO

Para uma melhor compreensão em relação às entrevistadas, a |Tabela 1 apresenta os


seguintes dados das participantes: nome, idade, autodeclaração racial e escolaridade. Os nomes
utilizados nesse texto são fictícios para manter a garantia de sigilo. Para a elaboração da análise
das narrativas, foram elaboradas as seguintes categorias de análise: “compreender-se bissexual”
e “experiências de bifobia”.

Tabela 1 – Caracterização das entrevistadas


Nome Idade Autodeclaração Escolaridade
racial
14

Morgana 30 anos Branca Superior completo


Bruna 29 anos Branca Superior completo

3.1 COMPREENDER-SE BISSEXUAL


Através das entrevistas realizadas foi possível perceber os efeitos do monossexismo em
relação à bissexualidade e ao conhecimento da possibilidade de existência da mesma. Ambas
as entrevistadas apontaram que demoraram para descobrir a existência do termo bissexualidade
(e, por consequência, da experiência bissexual) até se reconhecerem e se identificarem como
bissexuais. Tanto Morgana quanto Bruna relataram que não conheciam o termo “bissexual” e
acreditavam não existir a possibilidade de se sentirem atraídas por mais de um gênero. Morgana
contou sua experiência a esse respeito:
Na verdade, é um termo assim, que eu não conhecia né? [...] É... A minha vivência, o
que eu conhecia das pessoas [...], ou eram pessoas hétero em sua esmagadora maioria,
ou então gays ou lésbicas” [...] E talvez tenha sido um dos problemas maiores assim
pra eu conseguir entender que é possível tu sentir atração por outras mulheres e por
outros homens e isso ser ok e natural.” (Morgana).

Uma situação semelhante também aparece na narrativa de Bruna: “Eu achava que era...
Que não existia. Eu achava que ou era gay ou uma mulher gay, assim, sapatão né?” (Bruna).
A partir desses relatos, foi possível perceber que o processo de se reconhecer bissexual é um
processo dificultado pelo monossexismo e, consequentemente, pelo apagamento da experiência
bissexual. Segundo Eisner (2013 apud JAEGER 2018 p.65), é possível considerar que o
apagamento bissexual acontece quando a bissexualidade é omitida de alguma discussão
relevante ou é nomeada de outra forma na esfera pública, cultural, social, comunitária e privada.
Através da narrativas escutadas percebe-se como a bissexualidade é socialmente omitida e
pouco falada, pois apesar de ambas as entrevistadas se reconhecerem como bissexuais, as duas
demoraram para entrar em contato com o termo bissexual, assim como demoraram para se
compreenderem como tal. De acordo com Lewis (2012 p.72):
Embora haja mais trabalhos sobre a bissexualidade do que é geralmente reconhecido,
isso não muda o fato de que em comparação com a quantidade enorme de trabalhos
sobre gays e lésbicas, e mais recentemente também sobre transexuais e travestis, o
número de trabalhos sobre pessoas identificando-se como bissexuais é minúsculo.

Isso demonstra que, apesar da existência bissexual, os conhecimentos acerca das


bissexualidades não são tão disseminados e debatidos, o que faz com que pessoas bissexuais
tenham mais dificuldade de se posicionar em relação a sua orientação sexual. Cabe aqui
ressaltar que utilizo o termo “existência bissexual” inspirado no termo “existência lésbica”, de
Adrienne Rich. Segundo a autora, a “existência lésbica sugere tanto o fato da presença histórica
15

de lésbicas quanto da nossa criação contínua do significado dessa mesma existência” (RICH,
2010, p.35). Dessa forma, o termo existência bissexual também visa sugerir a presença histórica
de bissexuais e sua continua existência, a despeito dos processos que as/os invisibilizam.
Durante a entrevista, Morgana disse que: “não conhecia o termo bi, então pra mim era uma
confusão, assim tipo, será que [...] eu acho mulheres bonitas só por... Me sinto atraída por elas
só por uma admiração ou eu gosto delas é... a ponto de um relacionamento e tal?” (Morgana).
Bruna, por sua vez, relata uma dificuldade ainda atual sobre compreender-se bissexual: “[...]
ainda é um trabalho né? Tipo, bater no peito e falar não, sou bissexual mesmo.” (Bruna). Bruna
relata:
[...] ainda muitas vezes ainda questiono. Porque eu sou uma pessoa que [...] Eu gosto
mais de homens, mas eu gosto de mulheres também. Então, acabo ficando... “ah, então
não sou tão bissexual assim, sabe?” Se eu não sou 50/50, sabe? Porque eu não fico
sempre com garotas, tipo, eu fico me questionando: “tá, então eu sou uma hetera que
gosta de curtir meninas”; Mas não, eu gosto de meninas, sabe? Daí fica essa confusão.
[...] (Bruna).

Esse trecho demonstra o impacto do monossexismo na construção da identidade


bissexual, uma vez que o fato de se atrair mais pelo gênero masculino faz com que Bruna duvide
de sua própria orientação sexual, sendo mais fácil acreditar ser heterossexual do que
compreender a bissexualidade como um desejo inteligível. Segundo Jaeger (2018, p.93) “[...] o
fato de as pessoas bissexuais serem frequentemente questionadas sobre a veracidade da sua
sexualidade, faz com que elas mesmas comecem a se auto questionar e buscar elementos para
comprovar a própria sexualidade”. Com isso, podemos pensar que as dúvidas que surgem para
Bruna não necessariamente são relacionadas a questões internas, como alguma dúvida sobre a
sua atração por homens ou mulheres. Questiono se, na realidade, as dúvidas que emergem para
ela não são fruto da nossa sociedade monossexista que tenta manter em vigor uma binariedade
da sexualidade como forma de controle social.
Uma vez que a bissexualidade coloca em xeque a binariedade socialmente instituída,
reconhecer-se como bissexual e aceitar-se como tal torna-se um ato de resistência que se
contrapõe a um sistema monossexista que está sempre tentando invalidar a poliatração e,
principalmente no caso das mulheres, fetichizá-las. De acordo com Lewis (2012 p.66) podemos
entender a bissexualidade como “[...] uma posição híbrida e fluida a partir da qual se pode
repensar a diversidade sexual, além do binário heterossexual/homossexual e do uso do
sexo/gênero do parceiro/a desejado/a para definir a sexualidade". Com isso, podemos pensar
que resistir dentro da bissexualidade é também entender que ser bissexual não é uma conta
matemática na qual se soma cinquenta por cento heterossexual e cinquenta por cento
homossexual. Somos, na realidade, uma sexualidade cem por cento bissexual, válida em suas
16

múltiplas formas de existir. É importante ressaltar que a vivência da bissexualidade não é única,
mas sim fluída, podendo ser experienciada de formas diferentes para cada pessoa. Ou seja, nem
toda pessoa bissexual terá preferência por algum gênero específico, assim como não
necessariamente terá preferência por qualquer gênero. Por exemplo, Bruna relata sentir mais
atração por homens; já Morgana Morgana destaca uma vivência diferente da de Bruna em
relação à bissexualidade: “Olha, eu acho que isso é bem de fase assim sabe? Tem épocas que
[...] me sinto mais atraída por homens e tem épocas que eu me sinto mais atraída por mulheres
e é bem fluído [...]” (Morgana).
Faz-se importante ressaltar que apesar de Morgana utiliza o termo “fase” para falar sobre
a fluidez de sua atração, não havia, em sua narrativa, uma pactuação com o pensamento
dominante de que a bissexualidade é uma “fase que passará”. Há momentos em que ela pode
atrair-se mais por homens e momentos que pode atrair-se mais por mulheres, mas sua
bissexualidade não deixa de existir por conta da sua preferência fluída por algum dos gêneros.
Em relação a afirmar-se bissexual, ambas as entrevistadas pontuaram que inicialmente
sentiram-se mais confortáveis para assumir suas bissexualidades para os amigos. Em relação à
comunicação com a família, somente Morgana assumiu-se mais tardiamente para a família;
Bruna, por sua vez, atualmente ainda não se assumiu para seus familiares. Morgana afirmou
que não há uma fase específica em sua vida que se compreendeu como bissexual, mas que sua
orientação sexual foi algo que aconteceu naturalmente e faz parte da sua vida. A entrevistada
falou que quando conheceu o termo “bissexual” já sabia que se interessava por homens e
mulheres, por isso se familiarizou com a expressão. Em sua narrativa, Morgana relatou que
antigamente um relacionamento heterossexual era mais confortável para ela e que, somente
hoje, em 2020, se assumiu para seus pais por ter entrado em um relacionamento sério com outra
mulher. A entrevistada reconhece que não havia se assumido antes por considerar que sua
sexualidade seria um “assunto pessoal seu” e que também não costumava comentar com sua
família sobre os homens que se relacionava. Aqui podemos problematizar o sentido “da
necessidade de contar para a família ao entrar em um relacionamento com uma mulher”.
Consideramos pertinente questionar: por que Morgana sentiu necessidade de assumir-se
bissexual ao relacionar-se com uma mulher, porém nunca sentiu necessidade de assumir-se
como heterossexual quando se relacionava com homens? Por que ela se viu diante do
imperativo de falar sobre sua sexualidade quando ela começou a ficar com uma mulher? É
importante, a partir desse relato, atentarmos aos efeitos da heteronormatividade e da
heterossexualidade compulsória. Frente às normas instituídas da heterossexualidade
compulsória, observa-se a presunção de que todas as pessoas seriam heterossexuais. A
17

heterossexualidade, vista como a sexualidade “natural do ser humano”, não precisa ser
assumida, pois ela já seria um imperativo pressuposto. Percebe-se que ninguém da família
questionou a orientação sexual de Morgana quando ela não havia se assumido, demonstrando
uma provável certeza de que a mesma era heterossexual, mesmo sem nunca ter dito nada sobre
o tema. A heteronormatividade, de certa forma, também é um elemento presente nessa
experiência. Um dos efeitos da heteronormatividade é a imposição da “necessidade de se
assumir”. Uma vez que a heterossexualidade se constituiu como a orientação sexual
correspondente à norma vigente, toda sexualidade às margens dessa norma precisaria
“confessar a si mesma”.
Morgana relata que vêm de uma cidade pequena e conservadora e que mudar-se para
Florianópolis foi importante para o seu processo de reconhecimento. Apesar de atualmente
acreditar que ter amizades bissexuais não faz tanta diferença (pois há outros aspectos mais
importantes para se aproximar de uma pessoa), a entrevistada fala que, ao se mudar, conheceu
pessoas de “mente mais aberta” e que lidavam bem com suas orientações sexuais bissexuais.
Morgana pontuou que estabelecer relações de proximidade com essas pessoas foi importante
para o seu processo de reconhecimento, pois dessa forma ela identificou-se com esses sujeitos,
o que facilitou o reconhecimento da sua bissexualidade. Tanto Morgana como Bruna convivem
com amigos bissexuais. Durante as entrevistas, foi percebida a importância de ter contato com
outras pessoas bissexuais e/ou manter em seu ciclo de amizades pessoas com a mesma
orientação sexual. Essas práticas de sociabilidade favorecem políticas de identificação e a
construção de redes de apoio e solidariedade, a partir das quais se pode encontrar espaços
seguros de compartilhamento de experiências. Nesse sentido, conviver com pessoas que
vivenciam a bissexualidade adquire importância no processo de reconhecer-se bissexual, como
é explicitado na fala de Bruna:
Ah, eu acho importante até pra conseguir conversar sobre alguma angústia, alguma
coisa que aconteça sobre isso assim, algum caso e não me sentir pré-julgada, não me
sentir inibida de ser quem eu sou e falar sobre isso sabe? Tipo, tem mais entendimento
sobre a minha vida assim. (Bruna)

Podemos perceber que tanto para Morgana como para Bruna, ter contato com outras
pessoas bissexuais se fez importante, de alguma forma, em seus processos de descoberta e
reconhecimento. Isso demonstra o quanto as redes de apoio são importantes no processo de se
identificar como bissexual, assim como no processo de reconhecer-se num semelhante, ou seja,
de sentir-se representada. Podemos pensar sobre o quanto a representatividade é importante
para a construção das nossas identidades, neste caso especificamente, das identidades
bissexuais. Dentro de uma sociedade binária, monossexista e heteronormativa, encontrar
18

referências nas quais vemos um pouco de nós é importantíssimo para melhor nos
compreendermos e nos aceitarmos, criando assim, um grupo de resistência frente ao binarismo
social.

3.2 EXPERIÊNCIAS DE BIFOBIA

Em relação à bifobia, pôde-se perceber na narrativa de Bruna a resistência de sua família


em compreender sua bissexualidade. Isso aparece em sua fala no momento em que é perguntado
para a mesma se ela reconhece algum preconceito que viveu: “[...] a minha família, assim, do
tipo, é... ‘ai, não vai virar lésbica agora nessa altura da vida’ [...] ‘Ai, a Bruna gosta de ficar
doida e beijar todo mundo, tipo’... Não. Eu gosto de beijar as pessoas que eu gosto de beijar
sabe?” (Bruna), “Eles acham que tipo, ‘ah, a Bruna fica com pessoas porque é doidinha’”
(Bruna). Através desse relato, pôde-se perceber novamente como a bissexualidade, além de
estar exposta aos efeitos do monossexismo, recebe um lugar de apagamento, pois a família de
Bruna acredita que ela irá tornar-se lésbica ou que é “doida”, ao invés de aceitarem a
bissexualidade como uma orientação sexual possível. Percebe-se que ao nomear a
bissexualidade como lesbianidade, sua família está agindo dentro dos conformes do
apagamento bissexual. No relato de Bruna sobre a concepção da sua família, a bissexualidade
também é vista como uma experiência “lúdica”, esvaziada de legitimidade e de possibilidade
de reconhecimento. Além disso, observa-se, por meio das falas da família de Bruna, como a
mulher bissexual é vista dentro de um processo de “tomada de decisão” quando relaciona-se
com um dos gêneros. Conforme conta Bruna, relacionar-se com mulheres a faria,
imediatamente, lésbica, por exemplo. Frente a esses relatos, destaca-se que os sentidos
comunicados pela família de Bruna expressam bifobia e monossexismo.
Morgana, por outro lado, afirma que sofreu poucos preconceitos durante a sua vida, mas
reconhece que esta não é uma condição comum:
eu sei que tipo, não é assim pra todas as pessoas, sabe? Eu acho que eu às vezes... Eu
olho e vivo na bolha perfeita, sabe? Tipo, de família, de amigos... Então... Talvez
outras pessoas... Eu sei reconhecer que pra várias outras pessoas é uma luta maior pela
aceitação dos amigos e familiares... é... coisa que não acontece comigo porque... E eu
sei que é pela bolha sabe? (Morgana)

Cabe aqui fazer uma reflexão a partir da fala da entrevistada. É importante ressaltar que
as vivências em relação ao preconceito são muito diversas e dependem de fatores distintos.
Ponderamos que apesar de não ter aparecido na fala das entrevistadas o preconceito por parte
da comunidade LGT com a bissexualidade, por exemplo, isso não significa que o mesmo não
19

aconteça. Durante o processo de pesquisa foram feitas apenas duas entrevistas e estas não são
suficientes para demonstrar totalidade da realidade bifóbica existente.
Outro preconceito que surge é a visão que se tem sobre a comunidade LGBT como
pessoas vetores de doenças, quando a entrevistada relata que não pode doar sangue por
relacionar-se com pessoas do mesmo gênero:
[...] Quando estavam fazendo as perguntas da triagem, não sei se era enfermeira,
quem que era que estava fazendo as perguntas, tipo, falou que não poderia porque eu
fico com pessoas do mesmo sexo assim... Eu tentei umas três vezes eu acho e não
pude. (Bruna)

Esse acontecimento demonstra como a bissexualidade (assim como todas as orientações


sexuais não-heterossexuais e todas as identidades de gênero não-cisgênero), ainda hoje, é vista
como uma forma de sexualidade que porta um risco em si mesma e que opera como vetor de
Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Percebe-se, nesses casos, exemplos de
LGBTfobia, pois todas as orientações sexuais não-heterossexuais e todas as identidades de
gênero não-cisgênero são vistas como promíscuas e não cuidadosas, sendo impedidas de
doarem sangue por se relacionarem com pessoas do mesmo gênero. No caso de mulheres
bissexuais, além do preconceito das pessoas heterossexuais, observa-se também a bifobia de
algumas mulheres lésbicas. Segundo Jaeger (2018, p.104), “nesse caso, o pênis parece ser
considerado como fonte de doença e a mulher bissexual como transmissora”. É importante
destacar que o risco presumido nos envolvimentos de mulheres bissexuais com pessoas com
pênis denota não apenas bifobia (quando pensamos nos relacionamentos de mulheres bissexuais
com homens cisgêneros), mas também transfobia (quando pensamos que mulheres bissexuais -
cis ou trans - podem se relacionar com mulheres trans ou travestis). É necessário problematizar
esse pensamento, tanto da comunidade heterossexual como da comunidade lésbica, de que
mulheres bissexuais tem maiores chances de transmitir IST. Essa visão distorcida parece estar
interligada ao pensamento de que mulheres bissexuais são “promíscuas” e não cuidam da sua
saúde ou não aderem a monogamia quando se relacionam. Faz-se importante lembrar que
orientação sexual fala exclusivamente sobre a atração que sentimos em relação a determinados
gêneros e não serve como cartilha para descrever de uma forma generalizada a maneira pela
qual as pessoas se relacionam (sem proteção ou não, monogamicamente ou não). Tomo como
exemplo minha própria vivência. Sou uma mulher bissexual que está se relacionando de forma
monogâmica e sempre protegida. Porém, já passei por diversas situações nas quais quem
desejava relacionar-se sem proteção eram, na verdade, os homens cisgênero e heterossexuais,
que acabam por não levar nenhuma culpa no processo de disseminação de IST e não são
comumente barrados quando desejam doar sangue.
20

Outro ponto a ser destacado que expressa bifobia é o fato de que ambas as entrevistadas
relataram o problema da fetichização da mulher bissexual. Tanto Bruna como Morgana, quando
perguntadas se já sofreram algum tipo de preconceito, falaram sobre a inconveniência dos
homens frente ao relacionamento delas com outras mulheres. Esse fato demonstra o machismo
e o sexismo que recaem sobre a bissexualidade, uma vez que muitos homens heterossexuais
cisgêneros enxergam o relacionamento entre duas mulheres como algo feito para seu prazer
pessoal e não como uma relação legítima. Bruna relata sobre essa questão ao falar sobre o
desrespeito expressado por homens: “[...] aquelas piadinhas tipo: ‘ai deixa um homem chegar,
deixa eu entrar junto’; ‘Ah... Ai duas mulheres é porque nunca experimentou o homem certo’”
(Bruna). Esse relato nos mostra também que, para além da fetichização, a bissexualidade
feminina, assim como a lesbianidade, é vista como a “falta de homem”, discurso que também
aponta para uma perspectiva heteronormativa, pois acredita-se que a mulher não é heterossexual
por não ter encontrado o “homem certo”. Volto a questionar os reforços que a mídia traz através
da pornografia para esses acontecimentos. Segundo Rich (2010) até mesmo as pornografias
compreendidas como “leves” demonstram mulheres como objetos de apetite sexual sem
conteúdo emocional e personalidade, sendo essencialmente uma mercadoria sexual a ser
consumida por homens. Isso faz com que seja reforçada a ideia de serventia feminina aos
homens cisgêneros, desvalorizando o erotismo entre as mulheres como forma de existir no
mundo, sendo essa experiência colocada somente no campo da invalidez ou da fetichização.
Quando observamos de forma crítica a elaboração das medidas formuladas para fins de manter
as mulheres dentro dos limites sexuais masculinos, percebemos que se deve tratar não só do
tabu contra a homossexualidade, mas também sobre o reforço da heterossexualidade como
forma de dominação masculina sobre as mulheres. Com isso, podemos pensar que a
fetichização (tanto da bissexualidade feminina quanto da lesbianidade) vai ao encontro do
patriarcado, que utiliza da heterossexualidade como forma de controle sobre os corpos
femininos, deslegitimando as relações entre duas (ou mais) mulheres e colocando o feminino
apenas como objeto passivo a ser dominado pelo homem cisgênero e heterossexual.
Durante a entrevista, quando perguntado para as participantes se elas acreditam existir
uma maior aceitação social e naturalização da relação quando se relacionam com o gênero
oposto (homem), tanto Bruna como Morgana afirmaram que sim. Isso reforça, novamente, a
heteronormatividade imposta a bissexualidade, que permite que as relações heterossexuais
(homem e mulher) sejam mais legitimadas do que as de duas mulheres. É importante ressaltar
que aqui também há um atravessamento da cisnormatividade, pois quando trata-se de
relacionar-se com pessoas transexuais, Bruna relata que não há a mesma aceitação. Ela conta
21

que quando se relacionou com homens trans sempre houve questionamento por parte das
pessoas que estavam a sua volta, por exemplo, de como ela seria bissexual se estava se
relacionando com alguém que “não é nem homem nem mulher”; enquanto quando se relacionou
com homens cis, nunca foi questionada. Lewis (2012) ao falar do conceito de “matriz
heteronormativa” tal como formulado por Judith Butler, aponta que socialmente se é esperado
das pessoas que elas alinhem seu sexo biológico de nascimento com um determinado gênero, e
tenham seu desejo afetivo e sexual direcionado a pessoas do sexo e gênero oposto. Aqueles que
não se identificam nessa regra imposta são marginalizados. Essa afirmação vai totalmente ao
encontro do que as entrevistadas relataram, uma vez que ambas sentem que são mais
socialmente aceitas numa relação cis-hetero-normativa em detrimento a outras formas de
relacionar-se. A partir do momento em que a matriz cis-hetero-normativa espera um
alinhamento entre sexo, gênero e desejo afetivo sexual, se espera também, de forma nítida, que
as mulheres atraiam-se sempre e somente por homens cigêneros. Dessa forma, a matriz cis-
hetero-normativa mostra-se consonante com a lógica patriarcal, colocando as mulheres aquém
do homem (cis) ao permitir e legitimar somente expressões de desejo pelo mesmo. Há uma
confirmação desse acontecimento quando ambas as entrevistadas relatam a maior aceitação ao
relacionarem-se com homens cisgêneros. Ou seja, a sociedade vê como legítimo somente o
desejo de uma mulher por um homem cisgênero, o que contribui para a manutenção de um
poder hierárquico sobre nós e marginalizando e deslegitimando outras formas de afeto e atração
sexual. Cabe ressaltar também a visão transfóbica alimentada pela matriz heteronormativa
tomando como exemplo o próprio questionamento direcionado a Bruna ao dizerem para ela que
um homem trans não é um homem de verdade, colocando a cisgeneridade como legitimadora
do que é ser um homem por conta do seu órgão genital. Além disso, neste mesmo discurso ainda
é possível problematizar a ideia de que pessoas bissexuais não se relacionam como pessoas
trans, quando, na verdade, essa fala representa somente mais um pensamento transfóbico que
acaba por segregar pessoas trans de pessoas cis.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Através dos relatos das interlocutoras, podemos perceber que a bissexualidade perpassa
por diversos atravessamentos sociais na construção das suas identidades e experiências. As
narrativas das entrevistadas denunciam que a bissexualidade ainda é vista como algo “infantil”
e “passageiro”. Essa visão está associada não só a falta de conhecimento sobre a orientação
sexual bissexual, mas também às normas vigentes de gênero e sexualidade sobre a
22

bissexualidade e também às diversas formas de invalidação da mesma. É importante ressaltar


que as normas de gênero e sexualidade, sendo estruturas sociais, atravessam a construção da
subjetividade não só das pessoas bissexuais, mas sim de todos que fazem parte da mesma
sociedade, ajudando a moldar, dessa forma, uma visão acarretada de estereótipos sobre a
orientação sexual bissexual, por exemplo. Também observam-se elementos de
cisnormatividade e da heteronormatividade (que valida somente relações cisheteronormativas)
e do monossexismo (que valida atrações por somente um gênero). O monossexismo, além de
fomentar a não legitimidade da bissexualidade, mostrou-se também dificultar o processo de
identificação das pessoas bissexuais com a sua orientação sexual, que muitas vezes é colocada
em dúvida, produzindo conflitos e dificultando o processo de autoaceitação da bissexualidade.
Além disso, observa-se também a fetichização, por parte de homens cisgêneros e
heterossexuais, das mulheres bissexuais. A fetichização se mantém e se reproduz através de
aparelhos midiáticos como o pornografia, afetando diretamente o imaginário social sobre essas
mulheres. Percebeu-se que todas essas estruturas sociais fazem parte de um sistema que visa
sustentar-se no patriarcado, pois tanto a cis-hetero-normatividade como a fetichização
trabalham em prol da crença de que as mulheres estão sempre a disposição de um masculino
bem específico, sendo esse cisgênero e heterossexual.
Também se identificou a importância da convivência com outras pessoas bissexuais
como forma de autorreconhecimento e formação de redes de apoio, assim como um processo
de resistência ao participar de uma comunidade que desafia o padrão assentado no binarismo
homossexual/heterossexual. Reconhecer-se como bissexual, portanto, é resistir a um sistema
que trabalha com a noção de binariedade. Como dito anteriormente, a pequena quantidade de
entrevistas feitas não resume a totalidade de acontecimentos bifóbicos que transpassam a
bissexualidade. Acredito que, mesmo com uma quantidade maior de entrevistas, ainda não seria
possível abarcar tudo que acontece diante desse fenômeno, pois as vivências, apesar de serem
atravessadas por diversas estruturas sociais, continuam sendo múltiplas e singulares. Podemos
tomar como exemplo a bifobia dentro da comunidade LGT que não apareceu durante as
narrativas, porém, esse fato não significa que a mesma não exista. Este estudo teve como
intenção demonstrar um pouco do caminho a ser seguido para a desmistificação da
bissexualidade, tentando auxiliar na elucidação de alguns pontos importantes para maior
compreensão desta orientação sexual, buscando reduzir os preconceitos acerca da mesma e
visando informar, dentro do possível, aqueles que se interessam pelo tema. A criação de
conteúdo sobre a bissexualidade mostra-se necessária e de grande importância para a
disseminação de informações sobre essa orientação sexual muitas vezes pouco compreendida.
23

REFERÊNCIAS

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defendida; tão atacada; tão pouco entendida". 2018. Tese (Letras – Língua Portuguesa) -
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