— Dezoito anos atrás —
Um estranho vem até nós
S irenes ecoavam por todo o laboratório. Algo muito grande havia caído perto
deles, mas era impossível que fosse um meteoro. Se fosse, a estratosfera teria sido rompida, e
provavelmente toda a costa oeste dos Estados Unidos teria sido devastada. O México teria
perdido toda sua parte norte. Não, não era um meteoro. De alguma forma, o que caiu teve
algum controle sobre a queda. O que seria?
Sheila e Maxwell saíram correndo o quanto antes. Disseram aos cientistas que iriam
averiguar, e que apenas os guardas os acompanhassem. O medo era evidente entre os dois: e
se aquilo fosse obra dos Achaia novamente? E se novos aliens tivessem chegado?
Eles tinham alarmes prontos para essas ocasiões. Radiotransmissores para avisar que
uma nova invasão estava começando. Uma bomba atômica adormecida que poderia lançar
toda a Califórnia na escuridão.
Por sorte, o que encontraram foi outra coisa. Uma cratera se encontrava a meio
quilômetro do laboratório, no meio da floresta, e algumas árvores em volta estavam em
chamas, outras haviam sido derrubadas, e as mais próximas da cratera, incineradas por
completo. E então, olhando lá dentro, Sheila e Max se surpreenderam com o que viram: um
homem caído… Não, uma figura humanoide, envolta por um brilho cósmico. Ao lado dela,
repousava uma prancha.
De repente, a figura, e então entenderam que se assemelhava mesmo a um homem,
seja lá o que de fato aquele ser fosse, ergueu as mãos em direção ao céu, e disse apenas três
palavras antes de mergulhar no berço da inconsciência:
— Ele está vindo!
E desmaiou por completo.
Sheila e Max levaram o homem e seu artefato, que se assemelhava a uma prancha,
para dentro do laboratório. Perceberam, com uma surpresa aterradora, que o toque na pele
dele era frio. Apesar de ter caído neste planeta a uma velocidade aterradora, a pele do homem
estava fria. Ele não parecia ter muitos ferimentos visíveis. Em realidade, ele parecia muito
humano, agora que todo o brilho cósmico havia sumido: sua pele tinha tons de oliva,
amarelada e cansada. Seus olhos eram comicamente maiores do que os de um humano, mas
ele possuía pelos faciais como sobrancelha e traços de barba. Quando trouxeram ele para
dentro do laboratório com a ajuda de macas — a prancha precisou ser levada por cinco dos
homens do laboratório, tamanho o peso —, fizeram exames e viram que ele tinha três
corações. Que o sistema digestivo dele era todo um aparato complexo. Apesar de sua
semelhança com um humano, entenderam que era, de fato, um alienígena.
Demorou semanas para que ele voltasse a acordar. Felizmente, o que é que estivesse
de fato vindo, não apareceu.
Sheila e Max continuaram com sua vida. No laboratório, faziam testes com radiação
cósmica. Não como os trogloditas de Nova York, que focavam em Inteligência Artificial e
em roubar recursos transdimensionais. Assim como faziam há quase cem anos, o
Ultradimensional Force Lab. focava em usar a radiação cósmica como um recurso limpo:
buscavam captá-la para não exaurir os combustíveis fósseis, ainda mais em um mundo em
caos como o que tinham agora; usavam-na para combater o câncer, se irradiada das maneiras
corretas. Usavam para forçar mutações a surgirem mais rapidamente, para que as crianças
mutantes que nascessem pudessem domar os poderes o quanto antes.
O que os líderes atuais da Ultradimensional Force Lab. não esperavam é que fossem
ter um bebê.
Foi com o início da gestação que Sheila percebeu que algo horrível estava
acontecendo com ela. Ela, que não era uma mutante, havia sido exposta a radiação demais ao
longo dos anos. E o bebê dela era um mutante. E a radiação, que ao impregnar o corpo
humano, desaparecia comumente em questão de dias, agora estava sendo retida pelo bebê
mutante.
Sheila adoeceu. Tinha dias em que ficava por completo na cama, levantando com a
ajuda de Max para que pudesse banhar-se e fazer suas necessidades fisiológicas.
E então, o homem que caiu dos céus acordou na oitava semana de gravidez de Sheila.
Haviam mantido-no em um quarto refrigerado. A pulsação dele — ou pulsações —
pareciam ficar em melhor estado em temperaturas mais frias. A cama em que ele ficava era
confortável, mas ele ficava imóvel. Durante as quase quinze semanas em que ele esteve nos
braços de Orfeu, nada pareceu mudar muito: o cabelo escuro que o homem carregava, liso e
longo, não cresceu um centímetro sequer; suas unhas não se alteraram; ele não evacuou ou
urinou. Não precisou se alimentar. E, agora que estava de pé, cambaleando para longe da
cama e seguindo para a porta de vidro transparente que fechava seu quarto, parecia um pobre
homem que estava vagando há dias sem encontrar uma gota d’água: caminhava com a boca
aberta, a língua meio pendendo para fora, esbaforido e tentando dizer algo, mas as palavras
não vinham.
Depois de tratá-lo, descobriram que o homem tinha habilidades especiais (claro). Ele
conseguia se comunicar na língua deles devido ao fato de que suas sinapses funcionavam a
uma velocidade quinze vezes maior que as dos humanos. Absorver línguas era fácil desde
que fosse exposto ao mínimo possível — e, com mínimo, significava a mente humana, já que
ele parecia sensível à telepatia.
A origem dele e o que vinha por trás também foi relatado, ainda que isso não fosse
importante agora. O que importava era quem estava por vir: Robin, o garoto espacial.
O homem intergalático se chamava Koh’Dar. Ele dormia mais do que permanecia
acordado. A atmosfera terrestre o cansava e o corpo dele se adaptaria, de acordo com o
próprio homem, mas demoraria um tempo. A gravidez de Sheila ia de mal a pior. Ela, tal qual
Koh’Dar, também preferia passar mais tempo na cama do que no laboratório — contra sua
vontade, porque tudo que queria fazer era estudar e estudar.
Certo dia, enquanto Koh’Dar fazia os seus relatos a Sheila, ele pediu para tocar na
barriga dela. Ele sentia que ela estava mal, muito mal. E achava que podia ajudá-la. Sheila,
receosa, mas esperançosa no mesmo nível, permitiu. De repente, a mão de Koh’Dar ficou
envolta em um brilho multicolorido. O mesmo brilho do qual estava envolto quando
encontrado na cratera: ele estava exalando energia cósmica. A energia mergulhou na barriga
de Sheila, e em pouco tempo ela estava melhor. Parecia mais forte do que quando ainda não
estava gestando um bebê.
E, assim, se estabeleceu toda a gravidez da mulher. Koh’Dar a ajudava com tudo que
estava mal. Logo, ele foi se mesclando ao ecossistema da Ultradimensional Force Lab. E,
felizmente, para Sheila e Max, tinham um aliado daquele ao lado: ele poderia servir radiação
cósmica quase de modo infinito com os próprios poderes. Mas Koh’Dar avisava com
severidade: deveriam se preparar. Alguma ameaça estava vindo em direção à terra. Ele sabia
disso, tinha a lembrança do pavor que sentiu e que isso o motivou a vir para cá. Contudo, não
se lembrava por agora. O impacto havia enevoado tudo.
Contudo, em alguns meses, uma preocupação maior surgiu: o nascimento de Robin
havia chegado.
— Dezoito anos depois —
O pássaro deixa o seu ninho
A
mutação de Robin, a princípio, teria que ver apenas com velocidade. Ele
era um velocista habilidoso. Desde cedo, quando deu seus primeiros passos, aprendeu a
correr. Sheila e Max ficavam orgulhosos de ver o garoto, depois, passando a primeira
infância, correndo pelos campos verdejantes até encontrar o deserto, e depois retornar
correndo novamente, empolgado para correr ainda mais.
Mas a interferência de Koh’Dar mudou tudo.
O garoto, vez ou outra, brilhava como Koh’Dar brilhava também. Sheila e Max
perceberam, ao analisar o garoto, que a pupila dele não retraía diante das súbitas exposições
de luz. Ele parecia imune a isso.
Koh’Dar era um cosmocinético e um velocista. Um mutante habilidoso e primoroso.
Quando fez 21 anos, estava claro que não era em um laboratório que ele deveria estar.
Apesar de muito habilidoso, ainda não tinha conseguido chegar ao máximo de seus poderes
— talvez isso só acontecesse quando ele finalmente colocasse as mãos em prática. O que quer
que fosse que Koh’Dar tivesse dito que chegaria, ainda estava longe de chegar.
Mal sabia Robin que um dia ele teria que enfrentar essa desgraça que estava por vir.
Mas isso não rolaria agora.
Por isso, ele parte em direção ao Instituto Legrand, em Nova York. Lá, poderia zelar
pela segurança do Instituto. E, por fim, poderia desenvolver os seus poderes para tornar o
mundo um lugar melhor.