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Copyright © 2022 by unafemm

Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou


reproduzida sob quaisquer meios existentes sem
autorização das autoras. A violação dos direitos
autorais é crime estabelecido na lei nº 9.610/98 do
Código Penal.
AQUI ESTAMOS NÓS NOVAMENTE.
Fico muito feliz de você estar comigo em
mais um trabalho, trabalho no qual faço sem-
pre por um único motivo: para vocês e por
vocês, mulheres.
Gosto de pensar neste livro como uma con-
tinuação do meu livro: “Por que os homens
mentem? As mentiras que os homens contam”.
Sim, lá temos, LITERALMENTE um dossiê
com TODAS AS MENTIRAS que os homens
contam.
Temos em meu Instagram também, um po-
dcast de vídeos, em que eles sempre falam os
motivos das traições, o porque enganam, quais
as motivações deles.
Aqui, faremos um pouco diferente: o porque
eles mentem eu já sei, você já sabe, porque
com certeza você já leu o livro.
E se caso não leu, fica aqui a dica: leia o
mais rápido possível. Todos os dias recebo
mensagens de mulheres dizendo que, ao lerem
o livro, tiveram umas ideias.
E essas ideias, nada mais, nada menos são
que: elas viram que os namorados, maridos,
apresentavam os mesmos “sintomas” que al-
guns dos homens entrevistados em nosso li-
vro.
Então, como é de se esperar, elas questio-
nam a eles, e eles sempre acabam cedendo e
contando as verdades.
E dessa maneira, ela se livra de um cara otá-
rio, escroto, alguém, que não está adicionando
NADA de importante e válido na vida dela,
e passa a ter uma autoridade maior sobre si
mesma.
Aqui não falaremos os motivos de eles men-
tirem.
Não, eu vou contar histórias, e em CADA
história, teremos uma base certeira para
VOCÊ DETECTAR essas mentiras.
São pequenas coisas que eles fazem, peque-
nas coisas mesmo, que, para eles, não faz di-
ferença nenhuma, mas para olhos treinados...
a gente consegue saber que é mentira.
Sou um estudioso dos humanos e das men-
tes humanas, e detectar mentiras... é algo que
faço muito bem.
No começo tive um certo receio em com-
partilhar todas as informações que possuo,
mas logo depois parei e pensei:
- Poxa, eu tenho guardado em mim, apenas
para mim e para pessoas mais chegadas, to-
das essas informações, todas essas maneiras
de detectar mentiras, más intenções, traições,
manipulações... isso pode e vai ajudar muito
elas. Para que guardar só para mim se eu pos-
so ajudá-las com isso?
E então decidi escrever esse pequeno livro
para vocês, com todas as dicas que vou con-
seguir passar para a frente.
Meu medo no começo foi: e se os homens
lerem meu livro e começarem a aplicar isso
nas mulheres?
Então me dei conta do quão bobo eu esta-
va sendo, pois, vocês não possuem nada para
esconder.
Se tem alguém que tem algo para esconder...
são eles.
Olha só minha cabeça...
Como fiz em outros livros, nesse aqui não
será diferente: não vou chegar aqui e escrever
aquele dossiê de: faça isso, faça aquilo, olhe
nos olhos, veja se a boca dele mexeu, se a res-
piração mudou, o jeito que ele fala...
Não é algo TÃO SIMPLES como os vídeos
do Youtube costumam mostrar. Não, não é
não.
Antes fosse, estaríamos livres de tanta coi-
sa, de tantas pessoas que tem intenções ruins
conosco.
Eu falo sobre a vida real. Eu vivo a vida real
e sei que cada uma de vocês vivem a mesma
vida também. Sem tempos para cortes de You-
Tube, sem tempo para ficar procurando pistas.
Pois é no dia a dia, esse é o segredo que
ninguém nunca conta para vocês: é no dia a
dia, que você consegue pegar um movimen-
to e outro. E quando você os junta e soma...
você verá que, em certos momentos e ocasiões,
sim: o olhar muda, a maneira de se comportar
muda, muita coisa muda.
Isso é algo muito inclusivo para relaciona-
mentos, certo? Isso aqui, as dicas e histórias
que contarei, são de coisas que realmente
aconteceram, eu vi acontecer ao meu redor.
Algumas dessas coisas, leitoras e amigas me
deixaram saber, e deram a total liberdade de
terem suas histórias contadas. Não pediram
nem para esconder o nome. Mas eu sempre
vou trocar o nome, é uma questão minha, de
respeito meu para com vocês mesmo.
Então gosto de ver esse livro como um tri-
buto gigante a vocês, a minhas amigas, a todas
as pessoas que já chegaram até a mim (ho-
mens também, por que motivos não? Homens
gays também se relacionam com o pior tipo de
ser humano: outro homem, só imagina? Acha
que é diferente? Não, não é. Alguns homens
chegaram até a mim e contaram suas histórias
também), e me contaram.
Me disseram que, o livro Por que os homens
mentem: as mentiras que os homens contam,
foi essencial para isso.
E aqui vou dividir em 4 partes: Como de-
tectar mentiras, manipulações, traições e más
intenções.
- Mas Emanuel, todos esses não são a mesma
coisa? Para mim parece a mesma coisa os quatro.
Não, posso te falar com propriedade que não
são a mesma coisa.
Más intenções não chega a ser manipulação,
ah não ser que a pessoa leve até o próximo
nível.
É a mesma coisa de alguém que pensa,
PENSA em matar alguém:
- Poxa, eu gostaria tanto de matar essa pes-
soa.
Isso é uma má intenção, com toda a certe-
za. Mas ela não chegou na fase de parar de
pensar nessa má intenção e seguir em frente
com o plano.
Caso isso ocorra, essa pessoa começará a
manipular a outra, e até outras pessoas, para
conseguir se sujar o menos possível, e quando
pensamos nisso, temos uma boa imagem de
alguém que fez isso ocorrer no Brasil.
Portanto, quando uma pessoa apenas pensa
na situação, ainda não é uma manipulação
em si.
Passa a ser manipulação, quando a pessoa
começa a fazer todas as artimanhas para que
isso ocorra.
Portanto, traição e mentiras uma segue a
outra. Isso é um fato. Quando ocorre isso, a
pessoa começa a mentir, para depois começar
a trair.
Ou vice versa: começa a trair primeiro e
depois começa a mentir para encobrir as trai-
ções.
Mas tem gente que mente primeiro para
depois trair, para construir uma base sólida
de álibis para esse comportamento.
Portanto, o que seguiremos nas próximas
páginas, é a história de um leitor meu, que se
tornou um grande amigo com o tempo, e eu
vi tudo isso ocorrer com ele.
Ele me contou os detalhes, obviamente, pois
ele sempre me pedia por ajuda, por dicas.
Quando conversei com ele, e disse que faria
um livro com as dicas, ele implorou para fazer
parte do livro.
- Não sei se isso é ético.
- Não seja por isso, eu te dou total liberdade
para contar minha história.
- Não sei.
- Eu assino um documento, te dando total
liberdade, e não quero nada em troca.
- Mas por que você iria querer isso?
- Porque eu quero contar isso para as pes-
soas, sem elas saberem que sou eu. Pois tenho
vergonha. Mas sei que ajudará muitas das suas
leitoras, e isso para mim será mágico.
- Sério?
- Sim, se ajudar a nenhuma delas a cair nes-
sas coisas sujas, para mim já valeu muito a
pena.
- Não vou utilizar seu nome, nada verdadei-
ro seu. Tem certeza?
- Absoluta.
Pedro é o nome dele. Obviamente trocado,
assim como todas as outras informações que
são referentes a ele.
Ele possui hoje 32 anos, mas na época em
que conheceu esse que viria a ser seu namo-
rado, ele tinha 25 anos.
Passaram dois anos juntos.
Dois anos inteiros juntos, vivendo de amor.
Ou assim foi o que ele pensou.
- Quando eu o conheci, eu era traine naque-
le local que você sabe, você conhece lá. E eu
ganhava mal, para um traine, aquele salário
não era algo grande não. Na realidade eram
800 reais. Eu sei, deveria ficar feliz e grato
por ele, e fiquei mesmo, mas quando você tem
800 reais para você, sua mãe e seu pai... acaba
se tornando algo muito raso.
Ele estava como trainer em uma multina-
cional brasileira, algo de muito padrão, alto
mesmo.
E eu cansei de dizer para ele procurar outra
coisa, pois ele tinha conhecimento, ele merecia
mais do que aquilo.
Mas, moramos em cidades diferentes, e na
cidade que ele mora, ele tinha que fazer uma
viagem de 30 km para chegar no local.
Então não é como se na cidade dele tivesse
coisas tão boas não.
Ele se acomodou com aquilo ali, porque
realmente, não tinha como ele ir para uma
cidade maior: sem dinheiro, sendo o único da
casa que pagava todas as contas (o pai tinha
uma aposentadoria, mas gastava com bebidas
quase 90%, e sua mãe era aposentada também,
mas por pegar empréstimos para ajudar o ou-
tro filho, o irmão dele, ela ficava com 70% da
aposentadoria comprometida).
Então ali estava ele, com 800 reais, tendo
que fazer milagres para colocar o que comer
dentro de casa, e ainda pagar energia, água,
internet.
- Foi um tempo bem difícil, porque eu que-
ria que eles usassem o dinheiro deles, com
eles. A casa é deles, e se eu saísse de lá, eles
teriam sempre que deixar alguma conta sem
pagar. E eu não queria isso para meus pais.
Eles me criaram, me deram tudo que estava
no alcance deles, as vezes deixavam de comer
para que eu e meu irmão comesse, então não
teria como eu fazer isso, por mais que exis-
tisse uma vontade grande em mim, não tinha
como, não tinha chances, não tinha coragem.
E ele não está mentindo: seu irmão casou-se
cedo, teve um filho e se mudou para a casa da
sogra, onde também não fazia nada, apenas
ficava coçando o dia todo.
Ele não.
Ele sempre trabalhou, mesmo quando era
garçom, nunca quis deixar nada faltar para os
pais, mesmo com os pais sendo irresponsáveis,
ele sentia que tinha uma divida com eles. E
os pais, de vez em quando, SUTILMENTE o
lembravam disso.
- Eu tive certeza de que seria o que iria
apanhar mais na vida, porque eles sempre me
falavam: nós aceitamos você como você é, e
te amamos mesmo assim. Mesmo você demo-
rando um pouco para pegar no tranco, mesmo
quando eu queria fazer de você um homem
de verdade. Mas sabíamos que você era assim,
desse seu jeitinho, gay, e aceitamos.
E era verdade.
Para um pessoal mais de idade, eles tinham
a cabeça bem aberta nessa questão.
Sempre apoioaram ele, mesmo quando no
ensino médio os outros meninos pegavam no
pé dele.
Tinham com eles que, o filho sobreviveu
no parto, coisa que o médico falou que não
ia ocorrer.
O viam como um milagre, e prometeram
amar ele, independente do que ocorresse em
um futuro que com certeza viria.
E ele é um rapaz integro. Trabalhador, fa-
mília, preocupado.
E eu sempre tive a certeza, que a bondade
dele, se fosse direcionada para boas pessoas...
faria ele subir na vida.
Mas ele é bondoso com todos (hoje em dia
ele é MUITO MAIS SELETIVO, ainda bem),
mas mesmo assim, ele é bondoso.
E isso o colocou em enrascadas.
Mas os pais o aceitaram, e ficaram aliviados
do filho não ser o esteriótuipo do gay que
todos viam e falavam: voz fina, trejeitos femi-
ninos, vontade de ser uma mulher.
Palabras do prpoprio pai.
E ele sempre gostou de ser homem, da figura
masculina e viril que ele realmente é, e ele não
força isso, ele somente é.
Alto, com 1,90, moreno, barba sempre bem
feita, um boné na cabeça o tempo todo quan-
do não trabalha. Pernas com pelos, pelos no
corpo, nunca ligou para isso de ser um gay
padrão.
Ele se cuidava, era obvio, mas nunca em
uma academia. Ele nadava na piscina que a
prefeitura disponibilizava, lutava judô no mes-
mo local, e praticava ciclismo, coisa que ele
sempre adorou.
Então essas atividades, fizeram com que,
somado a altura dele, ele desenvolvesse um
corpo bonito, mas nunca super musculoso,
tudo no ponto.
E ele nunca se sentiu superior por isso.
Ele nunca teve apoio dos “amigos” gays que
tentou ter também.
Pois não o respeitavam. Dizia que ele força-
va tudo: a voz, o corpo, as roupas, até mesmo
o boné e as coisas que ele gostava de fazer:
beber cerveja todo final de semana, jogar vi-
deogame, fumar um cigarro quando saia, e
arrotar.
Ele nunca viu problemas nessas coisas, pois
assim... é o que ele era.
Mas a comunidade gay que ele tentou se
inserir, não gostava nenhum pouco.
- Eles achavam que eu forçava. Mas não
tem como. Não tem como você forçar ser
alto. Não tem como forçar gostar de esportes.
Não tem como forçar eu gostar de beber cer-
veja ao invés de drinks. Isso é quem eu sou.
E sabe a coisa mais assustadora? Quando eu
sai uma vez, sozinho, isso com meus 19 anos,
encontrei uma turma do ensino médio, mas
não minha turma, mas de um namorado que
tive aos 18 anos.
Eu e ele terminamos, mas os amigos dele,
que eram todos heteros, sempre foram super
de boa comigo.
Eu creio que é por ser mais másculo mesmo.
Isso é uma coisa que tenho em minha mente:
homem gosta de homem. Homem só gosta de
mulher se for para transar.
Sério mesmo: transam com elas, depois as
tratam mal, e sai com os amigos. É com os
amigos que eles riem, conversam, que sempre
são eles mesmos. Isso é doideira para mim.
Pois eu sempre vi as mulheres como seres
superiores.
- Mesmo quando você saia com algumas?
- Lógico. Teve uma mulher que sai, aquela
mais velha, que, eu não sei até hoje o que
aconteceu. É porque ela era muito gente fina
MESMO. Lembra como eu a conheci?
Eu lembrava, pois ele falou para mim essa
história uma vez já, mas, como ele está falando
sobre ser enganado, essa mulher faz toda a
diferença, principalmente agora que ele sabe
como funciona as coisas.
- Eu a conheci no último ano do ensino
médio. Foi logo quando eu tinha terminado
o meu namoro com o cara que os amigos
eram legais. Ah, deixa eu falar deles primeiro,
para não ficar uma história sem final. Eles
gostavam de mim mesmo. E quando eu sai
sozinho naquela noite, porque os caras gays
não iam com a minha cara, eu entrei naquela
lanchonete e sentei sozinho lá.
Estava terminando minha primeira caneca
de chopp, quando um deles me viu e gritou
meu nome.
Eu disse para ele esperar. Não podia dar o
gosto de falar: estou aqui sozinho pois a co-
munidade gay não me aceita. Eu falei: espera,
com a mão, e dei mais uns 10 minutos, entre
mexer no celular e bebendo.
Até que criei coragem e fui falar com eles.
Quando cheguei lá, eles já falaram:
- Levou um cano?
- O cara é foda, marcou e disse que não vem,
que está se sentindo mal.
- Eu não acredito até agora que você seja
gay, isso é loucura – disse a namorada de um
deles.
- A gente vive falando isso. Quando você
namorou o T, a gente tinha certeza que você
não era gay. Até ver vocês se beijando escon-
dido naquela festa.
- Eu vou levar como um elogio – disse rin-
do. – Vou cair fora, vou pra casa.
- Seu cu, se o cara te deu um cano é porque
ele é otário, senta aí com a gente.
E sentei. E passei a melhor noite da minha
vida, entre risadas, chopp, cigarros e arrotos.
NENHUM DELES ME JULGOU, MESMO
SABENDO QUE EU CHUPAVA A ROLA DO
AMIGO DELES.
- Mas voltando a ela, sim, até ela eu via
como superior. Mas não superior a mim, su-
perior por ser mulher. E quando ela me viu
saindo da piscina aquele dia, ela me elogiou, e
foi direto no recheio: você é um rapaz muito
bonito, que corpo fantástico.
E não vou mentir, todos gostamos de rece-
ber elogios. E meu corpo é um corpo normal,
mas acho que é isso que chama a atenção?
Tem um monte de caras bombados por aí,
mesmo corpo, sempre depilados, mesmo ca-
belo, mesma barba, mesmo risquinho na so-
brancelha. E lá estava eu: cabelo normal, corpo
com pelos – e ainda bem que não é muito,
mas confesso que dá um bom charme - , voz
grossa, e minhas coxas e braços, costas, são
tudo grande e grosso, porque eu nado desde
moleque.
Eu agradeci e fui para o vestiário.
Quando sai, ela ainda me esperava. E eu achei
que ela estava esperando por outra pessoa, sei
lá. Mas não, lá estava ela, me esperando.
NAQUELE MOMENTO, EU JÁ DEVERIA
TER SENTIDO QUE ALGUMA COISA NÃO
ESTAVA CERTO. NINGUÉM EM SÃ CONS-
CIÊNCIA FAZ ISSO. Mas eu fui com a maré:
de regata, shorts de futebol e chinelo, com
o boné virado para trás (meu cabelo estava
quase seco).
E ela me chamou para tomar algo, e eu fui.
As coisas em casa estavam um inferno, eu pre-
cisava dar uma espairecida das coisas, e eu
realmente não tinha visto maldade naquilo.
Fui, e foi uma tortura. Porque eu bebi para
poder transar com ela, não foi certo com ela
e nem comigo, mas ela não saia do pé depois,
nem mesmo quando eu comecei a namorar.
A minha sorte foi que ela parou de graça
quando eu revolvi cortar todos os tipos de
comunicação, porque antes ela me eserava na
frente do trabalho, na frente do clube, não
saia do pé, chorava, fazia escândalos.
Isso foi um tipo de karma, eu acho, para
mim.
Para eu não sair com mulheres, para eu fi-
car com o que eu quero e gosto mesmo. Mas,
naquele momento eu pensei que poderia ser
diferente a minha vida.
Poderia ser diferente estando com uma mu-
lher, que meus pais ficariam mais feliz, que eu
seria mais feliz... mas eu me enganei, e não a
mim mesmo, enganei ela em primeiro lugar.
Eu sei, disse a ela que eu era gay, mas ela fa-
lava que eu não parecia gay de jeito nenhum,
e que se eu experimentasse mulher, eu teria o
dobro de prazer, pois elas tinham um buraco
a mais.
Foi bem ruim, não foi legal não.
E quando comecei a namorar, eu te disse,
ele parecia perfeito, parecia perfeito mesmo.
- Todos parecem ser o homem certo no iní-
cio, minhas leitoras sabem isso melhor que
ninguém.
- Pois é, e eu não acredito até hoje que eu
cai nas mentiras dele, e não acredito o que eu
me tornei, pois quando descobri, comecei a
fazer igual.
- Quando o conheci, era verão. A última
coisa que eu queria era impressionar alguém
naquele calor todo. Nos conhecemos pelo Tin-
der. Ele aparentava ser gay sim, estava na cara,
mas eu queria sair com um cara, então não
me importei com isso, com nada disso. Então
coloquei uma camiseta branca, um shorts pre-
to e tênis no pé. Botei o boné na cabeça e fui.
Lembro que ele estava no carro dele. 1 ano
mais velho que eu só e ele já tinha um carro.
E eu ganhando 800 reais. Já comecei a me
sentir mal nesse momento, quando comecei
a me comparar.
Mas o papo foi legal, mas tivemos que correr
para o carro, porque aquela chuva forte de
verão comçou a vir do nada: vento forte, forte
mesmo, granizos caíram, lembro certinho.
E ali, no escuro do carro, porque ninguém
conseguia ver nada, a gente se beijou. E ele
beijava bem, não era nada demais, mas era
um beijo bom, ok até só. Tenho uma teoria
comigo: se o beijo não tira seu fôlego, todo o
resto será pela metade.
E foi assim que realmente foi.
Ficamos mais umas 4 vezes, até ele sugerir
namoro. Eu disse que não estava preparado,
não gostava muito da ideia, que eu tinha um
monte de problemas e não queria arrastar nin-
guém para o meio disso, dessas coisas. Mas
ele foi irredutível, falou que não se importava,
que iria me ajudar, que queria estar comigo.
Foi muito fofo no começo, muito mesmo.
Levei ele em casa e apresentei para meus pais.
Eles gostaram dele na mesma hora. Disseram
que era um rapaz bom, e que não tinha pro-
blema nenhum em a gente ficar em casa, que
preferia nós dois em casa do que na rua, onde
alguém pdoeria fazer uma maldade contra nós.
Eles sempre foram super de boa com isso,
sempre mesmo. E namoramos. Mas só nos
víamos duas vezes na semana, quando ele ti-
rava uma folga do escritório, da advocacia, e
eu tinha o final de semana livre por conta do
traine.
E durante a semana era aquela coisa bonita:
mensagens, aúdios, todas aquelas coisas que
casais fazem mesmo. Quando ele vinha final
de semana, para não transarmos em casa, por-
que eu não queria que meus pais opuvissem
nada. Eu sei que eles não ligavam, mas eu não
queria de maneira nenhuma. Então a gente
sempre ia para motéis, ficávamos lá coisa de
5 horas, transando sem parar.
E eu nunca liguei do fato de ele ser muito
sexual. Eu também era. Mas ele não dava fol-
ga: queria eu dentro dele de qualquer maneira
e em todos os momentos. Aquilo me cansava
tinha vezes. E quando eu cansava, ele pedia
para eu colocar um dildo nele e ficar brincan-
do com o dildo dentro dele enquanto ele se
masturbava.
Ele comprou um dildo de 18 centimetros,
grosso, demais, e lembro que naquela noite em
que eu estava super chateado por ter saído do
traine, ele nem se importou. Só pediu para eu
comer ele.
Eu não tinha cabeça nenhuma. Então ele
foi até uma sex shop, comprou uma daquelas
cintas caralho, trouxe. Pediu para eu colocar,
que ele queria sentir algo dentro dele, mas
ainda assim passar a mão pelo meu corpo,
meus pelos, sentir uns tapas na cara.
Ele nunca soube, mas naquela noite, sozinho
em casa, eu chorei. Porque me senti usado.
- Precisei me virar demais para manter di-
nheiro em casa: fui servir mesas. Entrava 8
da manhã, saia para uma hora de almoço e
ia até ás 17h30. Depois, eu sempre voltava
para o turno da noite, mesmo estando muito
cansado, mas eles pagavam melhor, era um
extra. Principalmente nos finais de semana.
Eu não tinha mais a noite de sexta e o dia
todo de sábado livre como antes. Saia as 3 da
manhã do sábado para o domingo, e tinha só
o domingo livre.
E ele começou a mudar. Foi aí que eu vi que
ele começou a mudar mesmo.
Eu não me importava, de 800 reais antes,
agora eu tirava 1.800. Era 1000 reais a mais.
Falei para meus pais que eu ganhava 1000,
para eu poder guardar o restante caso algu-
ma emergência surgisse. Não queria que eles
gastassem tudo com besteira, a gente tinha o
básico e isso já era ótimo por si só.
Mas eu andava quebrado, cansado. Nos do-
mingos eu só queria dormir. Tomava um re-
laxante muscular assim que saia do trabalho,
chegava em casa e só tomava um super banho.
Levantava no outro dia cedo, porque o corpo
acostuma. E ele estava lá, no portão de casa,
isso quando meus pais não o deixava entrar
direto e ele ia para o meu quarto.
Parando para pensar agora, eu sei quando
ele começou a me trair. Foi nesse exato do-
mingo. O domingo em que, pela manhã, eu
o avisei, por telefone, que não estava legal,
estava gripado. Tinha tomado remédio e só
queria dormir. Meu corpo pedia por descanso,
por cama. Eu gostyava muito dele, mas não
conseguia fazer tudo o que ele queria.
Nesse domingo, mesmo assim, ele me acor-
dou no quarto, com a cinta caralho nele, e
disse: trouxe para você usar em mim, já que
você está sem forças para me comer.
E foi a primeira vez que eu disse não. Eu
estava QUEIMANDO DE FEBRE. Quase 40
graus. Com frio, suando, a cama toda molha-
da, minha cabeça doendo que nem loucura, e
mesmo assim ele quis que eu o comesse. Disse
que a febre não será um fator impeditivo, que
seria mais gostoso passar a mão pelo meu cor-
po e sentir ele quente mesmo. Que só queria
o “macho peludo” dentro dele.
Eu disse que não, disse que eu não tinha
forças nem para levantar direito. Para me dar
o domingo de descanso, sair com as amigas
dele, ou ele mesmo descansar. Que no outro
dia eu estaria bem, nos veríamos pelo ma-
drugada, seria melhor, pois eu estaria melhor,
com mais energia, recuperado.
Ele recusou. Disse que não ia perder a via-
gem. E pela primeira vez, eu disse a ele que eu
não queria, e que se ele não pudesse respeitar
isso, eu ficaria muito chateado. Nem forças
para discutir eu tinha.
Ele deixou a nota da farmácia em cima da
cama (tinha pedido para entregarem mais tar-
de um monte de remédios caros para gripe,
termômetro, alguns lanchinhos, Gatorade),
mas que só ia pedir para entregassem se eu
colocasse a cinta e o comesse.
Foi quando eu comecei a chorar. Eu fico
doente e fico todo sensível. Ele se sentiu mal,
me pediu perdão e saiu de casa, foi embora.
Mas parando para ver hoje, foi naquele dia
que ele me traiu.
- No outro dia, quando liguei para ele (meu
chefe tinha me dado 4 dias de descanso – por-
que eu tinha alguns dias para tirar de qualquer
jeito, e disse que me queria saudável lá), ele foi
curto ao telefone, dizendo que não podia falar,
que estava no meio de uma coisa do trabalho.
ALERTA VERMELHO
Ele me conta isso, e eu, Emanuel, consigo
mostrar para vocês, pontos em que, além do
cara ter sido um COMPLETO ESCROTO
COM ELE, o cara começou as MENTIRAS
E TRAIÇÕES.
Como detectar isso nesses momentos?
Simples, os sinais SEMPRE ESTÃO ALI,
BASTA OLHAR ATENTAMENTE.
Sei que quando estamos apaixonados quase
ficamos cegos, mas os sinais estão ali, sempre
estão.
No caso dele, não foi diferente:
• Não “poder atender o telefonema” após ter
ouvido um não.
Vamos lá, sendo sinceros.
Ele sempre atendia, e mais do que isso, ele
era sempre O QUE LIGAVA. E isso pode
ocorrer facilmente com vocês. E não precisa
ser após um evento como esse que ocorreu.
Isso pode ocorrer em qualquer momento,
em qualquer situação com vocês.
Você liga e o namorado não pode atender.
Dá uma desculpa.
SE ATENTE MULHER, SE ATENTE.
Essa coisa da desculpa fiada, parece coisa
de adolescente, e nós sabemos MUITO BEM
quando a coisa está errada.
O SEXTO SENTIDO NUNCA MENTE.
Ainda mais o de vocês, mulheres. Portanto,
sentiu? LIGUE AS ANTENAS, POIS ALGO
TEM ALI.
Falar rápido, com voz que não é a de costu-
me: SE ATENTE, É OUTRO SINAL.
Por qual motivo ele teria que falar assim?
1 – Está com outra pessoa;
2 – Está com outra pessoa.
E não, não sou eu colocando coisas na ca-
beça de vocês, essa é a única explicação.
Não tem um motivo plausível para alguém
que sempre ligava, agora não poder nem mais
atender.
Porque por telefone, por voz, dizem que é
mais difícil de saber se algo está ocorrendo
ou não.
Não, pelo contrário, a voz diz tudo.
Quando você não consegue estar no olho
a olho, que é onde conseguimos a maior parte
de nossas informações para detectar mentiras,
conseguimos através da voz.
• A voz NUNCA PERMANECE A MESMA:
ou fica mais alta, ou fica mais fraca;
Isso é um fato. A voz do cara muda. Ele não
conversa normal com você: ou ele está com a
voz mais firme, ou ele está com a voz mais fraca.
E pare para perceber:
Se estiver mais firme: ele acha que está fazen-
do certo em te trair, e que ele está por cima.
Além disso, a voz firme, também indica que por
algum motivo que ele não vai compartilhar com
você (pois é um covarde de marca maior) ele
está bravo.
Na cabeça dele, isso é algo para ele estar
bravo, seja lá o que for isso.
• Ele fala de maneira não convencional com
você, como se você fosse um prestador de
serviços que estivesse cobrando-o;
Essa é a coisa mais triste que pode ocorrer,
mas ao mesmo tempo, a mais esclarecedora.
Perdeu aquele brilho, aquela emoção de fa-
lar. Ele se comunicará com você, como se
você fosse o pedreiro que está arrumando a
casa dele. Como se você realmente fosse um
problema. E não somente um problema, mas
O problema.
Pode notar.
Mas daí me dizem: mas as pessoas se can-
sam, tem dias ruins.
Poxa, e é lógico que tem, somos seres huma-
nos, todos nós somos. Mas sabemos quando a
pessoa começa a falar estranho com a gente,
e isso nunca é um bom sinal.
Fique atenta, muita atenta para esse sinal
em si.
• O uso das expressões: “sim, não, uhum,
hum, sei, é” são as que os entregam sem-
pre;
Pense comigo: ele sempre falou normalmen-
te com você, sempre, nunca teve nenhum pro-
blema de comunicação.
Pelo contrário: vocês se falavam por mais
de 20 minutos, as vezes horas, E DO NADA,
você está falando com ele, e ele só responde
com essas expressões.
Se o assunto em si for chato, ou se for algo
que você sempre reclama, e reclama MUITO,
SEMPRE, E VOCÊ NUNCA MUDA, SÓ RE-
CLAMA... essa é a única exclusão legítima que
temos.
Pois ninguém aguenta mesmo algo nesse ní-
vel, nem mesmo amigos.
Mas, se está tudo bem, e ele começa com
isso... então você pode ficar esperta e começar
a procurar.
• Não poder atender, sendo que SEMPRE
podia antes, e até mesmo ligava para você;
Por qual algum outro motivo a pessoa para-
ria de atender seu telefonema, receber men-
sagens, responder mensagens, sendo que an-
tigamente isso era algo rotineiro?
E não existem motivos reais em cima disso:
estar doente, alguma pessoa do trabalho que
deixou coisas não finalizadas e ele teve que
terminar, problemas pessoais...
Vocês namoram, ele poderia contar essas
coisas para você, para que você auxiliasse ele
em algo.
Mas não.
Não é mais isso que ocorre nesse momento.
Só existe coisas mal esclarecidas e ligações
não atendidas.
E quando isso ocorre, o que vem em sua
mente?
• Pigarrear, sempre que você fala uma coisa
ou outra, ele dá alguns pigarros;
O pigarro só é uma justificativa se ele fumar.
Caso contrário, pode ter certeza de que ele
está encobrindo algo.
Geralmente, pelo telefone, isso ocorreu com
esse meu amigo, vou deixar o relato completo
dele logo abaixo quando ele juntou todas as di-
cas e DETECTOU A MENTIRA, A TRAIÇÃO.
Quando ele ligava e o namorado pigarrea-
va, era para falar para o outro, o amante, não
fazer barulho, não fazer QUALQUER TIPO
DE MOVIMENTO que desse para ele ouvir
do outro lado da linha.
Porque ele trabalhava sozinho, e nunca tinha
ninguém lá, as reuniões, muito mesmo antes
da pandemia, eram feitas somente de maneira
online, então não tinha desculpa para outra
pessoa estar lá.
Ele não fumava e não itnha nenhum proble-
ma respiratório que indicasse isso.
E ele pensou a mesma coisa que você está
pensando agora: será que estou ficando louco,
maluco, neurótico?
Porque não é normal eu estar juntando essas
peças e imaginando coisas.
E não era coisa da cabeça dele.
• Dizer Eu te amo, quando ele não tem a
tendencia de dizer isso.
Após o fatídico domingo da febre e gripe, ele
ficou uma semana estranho com meu amigo.
Depois de uma semana, no final de QUAL-
QUER TELEFONEMA, no final de CADA
MENSAGEM, ele mandava: eu te amo. Te
amo muito.
Ok, pode ser que seja um sentimento ver-
dadeiro, mas após uma semana de silêncio, de
estar se sentindo o maior e ignorando, voltar
falando eu te amo no final de cada interação?
Não parece altamente genuíno, correto?
Pois é, não parece porque realmente não é.
Após a pessoa trair, mesmo que ela esteja
gostando da traição, de comer a outra pessoa,
ela passa por um momento, após o gozo, de
se sentir pesarosa.
ISSO OCORRE COM TODOS OS CARAS.
Eu sei, não é desculpa, e eu nem quero que
seja. Essa é a última coisa que quero que seja,
acredite. Não vou inventar desculpas para
gente mentirosa aqui não.
Ah não ser que você namore um sociopa-
ta, então ele não terá sentimento nenhum de
remorso.
Mas para os mortais, sempre, SEMPRE apa-
rece esse medo de perder.
Esse medo de: e se ela/ele descobrir? O que
eu faço? Foi algo de momento.
Sim, muito bonito, chamar um pau na bunda
de um momento.
Mas eles falam sempre: eu te amo, como
quem para assegurar, a si mesmos, que amam
aquela pessoa, que não conseguiriam ficar sem
ela.
Porque na hora do bem bom, não pensa no
fim que pode ter.
Não pensa não.
Na hora do bem bom é só sexo, é só chu-
pada, é só meteção.
Quando isso passa, a pessoa, no caso o cara,
fica com medo, e um pouco de remorso.
Não muito remorso, porque ele sempre volta
a fazer, continua fazendo, acaba se tornando
algo automático para ele.
“Já fiz uma, então que eu faça outra.”
“Já estou fazendo há 4 meses (que é o caso
do meu amigo), então vou fazer até onde der.”
Mas o eu te amo vem, porque na cabeça de-
les, eles amam mesmo, e aquilo ali é só sexo...
... não é assim que funciona não.
- Como você acabou descobrindo o que ele
estava fazendo? Você juntou todos os pontos?
- Sim, juntei todos, e foi algo muito fácil de
ser feito.
- Acabou sendo incrivelmente fácil que ele
estava mentindo e traindo, porque ele seguiu
todos os passos que fazem a gente DETEC-
TAR mentiras e traições.
• Não “poder atender o telefonema” após ter
ouvido um não.
Começou com esse.
- Como eu tinha alguns dias de folga, e no
segundo dia eu já estava bem recuperado, pen-
sei: quero passar um tempo com ele, né? Va-
mos aproveitar que agora ambos temos tempo,
ainda mais durante a semana, que não era algo
comum para mim.
Eu liguei 2x.
Nada de atender.
Tudo bem, ele poderia estar ocupado, isso
acontece com todo mundo, comigo, com você,
com ele, com os outros.
Então, no período da tarde, liguei mais uma
vez.
NADA DE ATENDER.
Já fiquei preocupado, porque a gente nun-
ca sabe o que pode ter ocorrido, mas toda a
preocupação passou quando, ele deixou um
outro ponto em aberto:
ELE ESTAVA ON-LINE NO WHATSAPP.
Sim, o status estava como online e ele não
atendia minhas ligações.
Acabei ficando na minha.
Gosto dele, mas não a ponto de ficar cor-
rendo atrás igual uma cadela sarnenta pedindo
alimento.
Pensei: quando ele puder, ele vai ligar.
E ele não ligou por 2 dias.
E foram justos os 2 últimos dias que eu ti-
nha de “folga e atestado”.
No final de semana, sexta-feira, eu ia voltar
a trabalhar, e consequentemente também tra-
balharia no sábado, até as 3 horas da manhã.
Deixei apenas uma mensagem desejando um
feliz final de semana para ele, que ele se cui-
dasse.
Nenhuma resposta também.
Qual é, não somos idiotas. Naquele momen-
to eu senti que ele estava fazendo esse jogo.
E no começo do namoro eu disse: SEMPRE
que algo te INCOMODAR, VOCÊ ME AVI-
SA. NÃO SE FECHA, ME AVISA, ME FALA.
A GENTE CONVERSA SOBRE. SOMOS
ADULTOS.
Mas não, não foi assim que se sucedeu o
que houve.
Ele foi me ligar apenas na sexta-feira pela
noite.
- Confesso que fiquei tentado a não aten-
der, a pagar na mesma moeda. Mas pensei:
que tipo de homem estaria sendo eu entrando
nesses joguinhos? Joguinhos que eu odeio.
Não valia a pena.
• A voz NUNCA PERMANECE A MESMA:
ou fica mais alta, ou fica mais fraca;
E atendi no meu horário de jantar.
- Alô?
- Alô – a voz dele estava muito forte (ape-
sar de fina, o que dizia que ele ainda estava
irritado, não permaneceu a mesma).
- Tudo certo?
- Sim, vi que você me ligou, mas não pude
responder na hora.
- Certo, e respondeu quatro dias depois. Está
tudo ótimo, perfeito, na realidade.
- Você estava doente.
- Eu já havia melhorado.
- Como eu saberia disso?
- Se você atendesse o telefone você saberia...
- É verdade. Mas, eu precisava de um tempo
para mim, para eu colocar uns pensamentos
em dia na cabeça.
- Saquei, sem problemas irmão, está tudo
certo. Você está bem e é isso que importa.
- Irmão?
- Ué, como eu te chamo?
- Sou seu namorado, não um de seus amigos
heteros que você bebe quando está bem.
- Não sei se o conceito de namorado se
aplica quando um deles está doente e o outro
quer sexo de qualquer maneira. Além disso,
deixar passar quatro dias e só depois ligar?
Irmão, qual é, você acha que eu nasci ontem?
- Acha que eu te trai?
- Não importa. O que importa é que não
houve reciprocidade irmão, e quando não há,
não há namoro.
- Mas, você está terminando comigo então?
Só porque eu fiquei quatro dias sem te ligar?
- Fica frio, não estou terminando com nin-
guém.
- Isso não é jeito de falar com seu namorado.
Eu realmente queria saber em que momento
desse namoro, eu, o ativo que comia o rabo
dele, tinha que ser visto como o histérico,
sendo que EU fiquei doente e tentei contato
por quatro dias e não tive resposta nenhuma.
Ele estava agindo como se fosse um homem
bonito, e ele não era. O que ele tinha na ca-
beça?

'
• O uso das expressões: “sim, não, uhum,
hum, sei, é” são as que os entregam sem-
pre;
- Bora lá, se a gente quiser continuar isso
que se chama de namoro, a gente tem que
colocar uns pingos nos is.
- Hum.
- Eu estava mal, doente no domingo. Você
queria que eu te comesse de qualquer jeito,
mesmo eu estando com quase 40 graus de
febre. Você nem ao menos se importou com
isso.
- Hum.
- Saiu de casa puto, fez uma cena ridícula
em relação a medicações que eu nunca te pedi.
Eu trabalho, eu tenho meu próprio dinheiro,
minha renda. Posso não ter um monte igual
a você, mas eu tenho. E tenho convênio em
uma farmácia aqui. Eu mesmo pedi minhas
medicações, tudo o que você enviou, com um
preço de eu te comer para eu ter aquilo ali,
foi mandado de volta.
- Hum, sei.
- Mandei de volta mesmo. Porque eu não
sou um puto não, irmão. Eu sei que eu sou o
macho da relação, mas em nenhum momen-
to você vai subir em cima de mim só porque
você tem mais dinheiro. Se você me desse
uma casa, carro, aí a história era diferente, eu
poderia até pensar em me deixar comprar.
Mas quando eu estou doente?
- Você não quis me comer, eu estava com
muito tesão.
- EU ESTAVA DOENTE. QUAL PARTE
DISSO VOCÊ NÃO ENTENDEU?
- Uhum.
- Fica sem atender e sem retornar 4 dias,
nem ao menos para saber se estou bem, e está
lá você, todo bonito no WhatsApp, online, e
eu preocupado contigo.
- Sim.
- Então acho que é melhor a gente não ter
mais nada. O melhor é a gente se afastar. Eu
vou agradecer a você pela oportunidade e
chance que me deu de te conhecer, e cada
um segue seu caminho, irmão, cada um na
sua e fazendo o nosso melhor, porque nós
dois juntos, desse jeito, com essa sua linha de
pensamento e raciocínio, não vão rolar não.
- Hum.
- Eu já tenho dois pais que eu cuido em casa.
Eu não preciso de um filho, de um moleque
para criar não. Você tem 26 anos, você tem
idade suficiente para saber se portar como ho-
mem. Se eu estivesse bem, eu te comeria. Não
enfiei o pau em você quantas vezes? Não fiz
você gozar? Quando você queria algo maior,
eu não coloquei aquela cinta cvaralho de 22
centimetros, com a largura de uma lata de
coca cola, não soquei no teu rabo até o ultimo
centímetro?
- Uhum.
- E quando estou doente você basicamente
ME OBRIGA a te comer? Com quase 40 graus
de febre? Você acha que eu sou idiota?
• Dizer Eu te amo, quando ele não tem a
tendencia de dizer isso.
Ele pulou a fase de pigarrear.
Era óbvio, era de se esperar. Naquele mo-
mento ele não estava com ninguém ali, tinha
estado durante os quatro dias anterior.
- Então você vai terminar comigo? – A voz
dele MAGICAMENTE MUDOU. Daquela voz
decidida que ele estava, nesse momento ficou
baixinha, como se ele fosse alguém em uma
situação de muito perigo ou ter sido pego de
surpresa.
- A gente não tem o porque estar juntos
não. Acabamos sim. Eu não quero isso para a
minha vida não. Estou trabalhando feito louco,
cuidando daquela casa, cuidando dos meus
pais que amo, amo memso, mas são irrespon-
sáveis, caindo de cansado, sem conseguir estu-
dar para o concurso que eu quero, e quando
eu fico com alguém, que no começo parece
ser sensacional, parece que não me julga por
eu ser mais masculino, peludo, ativo, moleque,
por beber... Temos sexo que são maneiros,
saímos e é de boa, e em um final de semana,
em que pego uma puta de uma gripe, coisa
que eu NUNCA pego, mas quando pego... me
derruba.
Nesse específico final de semana, ao invés
de me deixar descansar, porque nem levantar
direito eu estava conseguindo, você aparece na
minha casa, mesmo eu tendo te avisado antes
para não ir, porque o idiota aqui estava com
medo de você pegar algo de mim. Você apare-
ce na minha casa, entra no meu quarto, nem
pergunta como estou e só quer ser comido.
Levou aquela cinta caralho, e me disse um
monte de absurdos, enquanto eu queimava
de febre. Agora você me diz: eu dei uma
chance para você, porque pensei: porra, ele
não é bonito, mas ele parece ter um coração
bom, dá uma chance para o feinho, pode
ser que ele se mostre uma pessoa boa, sem
afetações de mundo gay, sem picuinhas.
E daí você aparece e me faz isso. Me dê
um excelente motivo pelo qual eu não deva
terminar com você nesse exato momento?
Então, com 4 meses de namoro, ele usou
aquela frase que ninguém usa se não tem
certeza do que é ou do que quer.
E ambos não tínhamos certeza, eu pelo me-
nos tinha certeza de que não o amava.
Gostava?
Sim, até antes daquele domingo. Mas após
aquilo, de jeito nenhum. Eu não queria um
trabalho desses na minha mão.
Não queria drama, eu já tinha saído do en-
sino médio há anos, não ia reviver tudo isso
não.
- Mas eu te amo.
E quando ele soltou essa, eu tive a certeza.
EU DETECTEI A MENTIRA, DETECTEI A
MANIPULAÇÃO, DETECTEI A TRAIÇÃO.
Ele nunca havia dito isso, NUNCA.
E agora, com medo de perder, ele me fala?
- Confesso que aquilo mexeu um pouco co-
migo, mas logo me dei conta de que eu não
era otário.
- E o que você fez?
- Eu disse que o amava também.
- Sério?
- Sim, mas com um excelente motivo.
- Me diz qual foi o excelente motivo que
fez você “acreditar” nele, e também dizer que
o amava.
- Eu precisava deixar ele acreditar que eu
acreditava nele. Eu precisava deixar ele acre-
ditar que ele estava no comando, mesmo que
eu sabia que quem estava era eu.
- Estranho, isso me parece familiar...
- Exato, aprendi com você, Emanuel. Dei-
xei-o imaginar que eu o amava, que eu acre-
ditava nele. Que nada do passado importava.
Pedi desculpas pela gripe, coloquei a culpa de
eu estar sensível no fato de eu nunca ficart
doente e que quando eu fico eu fico sensível.
- Você disse isso a ele?
- Sim. Disse assim:
- Desculpa, eu nunca fico doente. Quando
eu ficava, ninguém em casa se iomportava, era
sempre com meu irmão que se importavam
(o que não deixa de ser verdade), e daí eu
fiquei com saudades de você, saudades da sua
bundinha, saudades de tudo. Eu só queria um
cafuné (eu ODEIO cafuné), eu só queria es-
tar abraçadinho (detesto também, quando eu
gozo, eu saio fora, tomo um banho, bebo uma
cerveja, pego o videogame, falo para sairmos,
mas eu ODEIO ficar juntinho), e que tudo
aquilo era por conta da minha doença de final
de semana.
Que ele era muito importante para mim, que
eu não queria perder ele também, que o que
passou não importava, isso ia nos manter for-
tes, ia ser aquele ponto do osso onde quebra
e depois que regenera se torna a parte mais
forte do osso. Pois superamos.
Que eu mal podia esperar para ver ele na-
quele final de semana, que eu ia pular meu
horário de lanche, que ia fazer as 12 horas
direto para conseguir sair meia noite.
- Ele comprou essa?
- Não só comprou como disse: sai direto, e
vamos em um lugar especial, estou morrendo
de saudades desse seu corpo peludo em cima
de mim.
- Sim, saímos de lá e vamos direto, nem para
acsa eu vou. Eu te amo, como te amo, mal vejo
a hora de te ver daqui alguns dias.
- Você tem sangue frio.
- Eu segui suas dicas, Emanuel. Adaptei com
algumas minhas, mas fui comendo pelas bei-
radas, pelos cantos, eu estava decidido a des-
cobrir tudo o que ele havia feito, com quem
havia feito, há quanto tempo estava fazendo.
Estávamos juntos há 4 meses, eu precisava
sair dessa por cima, não havia outra maneira.
E vou te falar uma coisa: eu o deixei pagar
TUDO o que ele queria pagar para mim.
Parece coisa de gente safada, não é? Mas eu
liguei o foda-se. Já que se exibia com dinheiro
e queria me dar coisas para que eu esquecesse,
então eu ia entrar no jogo dele. Sem ele nem
ao menos saber.
- E você descobriu coisas nesse final de se-
mana?
- Na primeira madrugada eu já descobri, e
depois fiz a pior coisa, a única que me arre-
pendo.
- O que? Isso você não havia me falado.
- Pois vou falar, Emanuel, e você pode publi-
car: eu joguei o jogo bem demais, eu comecei
a trair ele.
- Naquela sexta-feira, fomos para o motel
mais caro da cidade. Ele queria tudo do bom
e do melhor.
Eu, estava pouco ligando. Por dentro, porque
por fora, eu estava do jeito que ele gostava:
camiseta lisa branca, um pouco justa para dei-
xar o muque bem marcado, shorts de moletom
sem cueca para o pau ficar marcando, e um
tênis de 900 reais, branco, coisa fina mesmo.
- Você comprou isso para impressionar ele?
- Não, Emanuel, irmão, de onde eu tiratia
dinheirto para isso? Não, foi tudo presente
dele.
- Você aceitou?
- COM CERTEZA. EU COM CERTEZA
ACEITEI. Se ele queria se fazer de bonzinho
e arrependido, eu iria usufruir disso.
- Caramba.
- Ele tem fixação por pés, então me deu
esse tênis, um tênis que ele mexeu nos meus
favoritos e achou. Além dele, me comprou 5
pares de meias: Vans, Adidas, Nike, tudo bran-
ca, tudo branca. Até cueca bem da hora ele
me comprou: 10 daquelas originais da Calvin
Klein. E ele sabe que eu só curto a boxer, mas
sem aquela faixa prateada em cima, gosto da
sem costura.
E ele comprou. Pagou 90 reais em cada.
- Como você sabe disso?
-Nessa noite do motel, eu estava com o
maior gás, queria da rum bom trato nele. Es-
tava com raiva, então iria descontar minha
raiva ali nele.
Só que, após a segunda, ele já dormiu. E ele
desmaiava. Então como eu já havia dectado
todas as mentiras...
- ... você não mexeu no celular não, não é?
- Emanuel, sei que você acha isso ruim, mas
eu já sabia que tinha sido traído, enganado. A
única coisa que eu precisava, era de confirma-
ção. E naquela época, o seu livro do Porque
os homens mentem e como detectar mentiras,
não tinha saído ainda. Ele não ia simplesmente
confessar. Então sim, eu mexi no celular dele
- E achou algo?
- Nada de mensagens, nada no WhatsApp,
apenas uma pasta fechada, que só abria com
uma senha.
- E aí?
- Daí que usei a data mais importante para
ele: quando ele ganhou o cachorro dele de
presente de aniversário. Foi dito e feito, a pas-
ta abriu, e eu nunca imaginei que eu pudesse
estar tão certo.
Não me entenda mal, eu sabia que eu estava
certo, tinha captado todos os sinais de trai-
ções, de mentiras, mas aquilo que estava lá,
de maneira nenhuma, nem em um milhão de
anos eu imaginaria que estaria ali.
- O que você encontrou? Estou nervoso e
nem foi comigo que aconteceu.
- Está preparado mesmo? Porque foi isso
que fez com que eu começasse a trair ele. Eu
devia ter terminado, mas a raiva foi maior. Eu
devia ter processado ele.
- CARAMBA, O QUE TINHA LÁ?
- Quando a pasta se abriu, tinham dois
aplicativos: Grindr e Hornet. Eu vi que uma
mulher em um de seus livros, não lembro qual
agora, achou os mesmos no celular do marido
e descobriu que ele era gay. E eu os achei lá.
Mutei o celular, e abri os aplicativos.
PIPOCOU DE MENSAGENS.
SEM FALAR NAS MENSAGENS QUE
NÃO ERAM NOVAS, QUE JÁ TINHAM
SIDO TROCADAS.
Ele não se deu ao trabalho nem de apagar.
- O que as mensagens diziam?
• - Estou com saudades;
• - Ontem foi muito bom, vamos repetir a
dose logo logo;
• - Sua bunda foi uma das melhores que
comi;
• - Você é safado mesmo, puta;
• - Ele está doente e recusou te dar pau?
Vem aqui que eu te dou.
E foi essa acima que mais me chamou a
atenção. Porque a data, era a do dia que eu ti-
nha ficado doente. E não acabou só nisso não.
Eu vi todas as mensagens que ele trocou
com esse cara.
- Poxa, larga ele aí e vem aqui. Putinha não
pode ficar sem pica não, se ele não pode te dar,
eu dou.
- Eu não sei, tenho medo de ele descobrir.
- Ele não vai descobrir. Corno nunca descobre.
Vem pra cá, tenho local, vou te dar pica até você
cansar, e quando você cansar, eu vou dar mais
pica, queira você ou não.
- Nossa, assim que eu gosto. Seu pau é grande?
- Sim, e grosso, louco para arrebentar buceta de
viado puta igual você é. Para de frescura e cola
logo aqui, quanto mais você demora mais bravo
eu fico. E quanto mais bravo eu fico, mais forte
eu vou meter.
- Isso, assim mesmo.
- E se sair correndo, eu vou pegar a força. Não
adianta gritar. Se gritar, vou encher sua cara de
tapa, vagabunda.
- Me passa o endereço, estou no carro já, ele
está com febre, mas vai dormir. Não posso deixar
meu rabinho sem os cuidados de um macho alfa
de verdade.
- Sério?
- Sério, Emanuel. Sério. Me senti enojado.
Queria acordar ele naquele mesmo momento
e encher ele de socos.
Mas engoli a seco.
- Você não fez nada?
- Nada. Só esperei ele acordar, e disse que
precisava do celular emprestado, porque o
meu havia sumido.
- Tinha mesmo?
- Pior que tinha.
- Antes de sairmos do motel pela manhã, eu
peguei o dele emprestado (ele emprestou) e
fiquei ligando, ligando e nada. Ele me ajudou
a procurar, era um celular velho, mas mesmo
assim, era meu. Ele disse que ia colocar a mala
no carro – íamos passar o dia em casa, por-
que naquele sábado eu já tinha uma folga há
tempos, então teríamos o sábado e domingo.
- E seu celular?
- Pedi para ele olhar debaixo dos bancos do
carro, podia ter caído na hora que ele literal-
mente se jogou em cima de mim no caminho,
para me beijar, para me chupar no meio da
rua dentro do carro como ele queria.
Mas nada de achar. Pedi para ele olhar no
chão do estacionamento, era um estaciona-
mento super pequeno o daquele quarto de
motel, era onde o carro ficava protegido.
Ele disse que não ia olhar, que era impos-
sível estar ali.
- Não é impossível, você abaixou minhas
calças assim que sai do carro, pode ter caído
lá. Dá uma olhada para mim, fazendo favor.
Ele só concordou em olhar se eu dedasse
ele um pouco antes. Como eu estava bravo já,
e com as malas para fazer (o bonito odiava
fazer as malas), eu dedei e ele saiu procurar.
- Nada, em lugar nenhum.
Ok. Me dei por vencido e falei que ia pedir
para alguém do motel dar uma geral e achar,
não podia sair dali sem o celular. Óbvio que
todas as coisas importantes estavam na minha
nuvem lá da Samsung, e eu não me importa-
va de ser um celular de 5 anos já, pois se eu
quebrasse opu perdesse ou mesmo ele parasse
de funcionar (o que eu esperava há qualquer
momento), eu podia baixar meus dados de
novo.
Quando ele foi tirar o carro, eu ouvi o ba-
rulho de CRACK.
Ele também ouviu.
E quando eu sai, com as malas na mão, ele
havia passado com a roda do carro em cima
do celular. Onde ele falou que já tinha procu-
rado. Mas não havia procurado, eu sabia que
não havia.
Naquele momento ali eu quase fiquei ma-
luco. Sim, eu estava guardando dinheiro, mas
um celular novo? Não estava em meus planos
de maneira nenhuma. Eu nem cartão de cré-
dito tinha para parcelar, para fazer uma nova
dívida.
- Ele pediu desculpas?
- Nossa, ele desceu do carro e ajoelhou no
chão, com as mãos no ar pedindo perdão: -
perdão, eu falei que tinha procurado, mas não
olhei com atenção, só queria que a gente fosse
para o shopping almoçar logo. Você fez todas
as malas, não tinha como você procurar, eu te
pedi para me dedar e nem fiz a minha parte,
me desculpa, me perdoa mesmo. Meu Pai, eu
não dou uma dentro.
E chorou. Fez a cena dele e chorou.
- E você?
- Eu fiquei sem reação. Eu não respondi
nada. Apenas coloquei as malas no banco de
trás e fui pagar o motel. Fui a pé até o guichê,
e só depois voltei para o carro.
- No meio do trajeto, ele ainda chorando,
porque o celular tinha ficado TODO ESMA-
GADO, eu ainda fiquei com ele nas mãos, todo
arrebentado.
- Não tem motivo para você ficar com ele,
isso não tem conserto de jeito nenhum.
- Eu vou tentar pelo menos – falei, grosso,
incomodado. Não queria estar com ele de jeito
nenhum mais.
O silêncio ficou no carro por uns 5 minutos.
- Vamos almoçar e eu vou dar um jeito nis-
so, eu te prometo.
- Relaxa, eu estou guardando um dinheiro.
Vou pedir o cartão do meu pai emprestado, e
eu assumo a dívida de um semi novo, perto de
casa tem um rapaz que vende, pode ficar sussa.
- Não, eu sou o culpado. Eu sei que sou. Eu
vou resolver isso para você, só preciso que
você me desculpe, me perdoe.
- Não tem o que eu te perdoar. Já foi.
- Mas a culpa é minha, eu deveria ter olha-
do, e por egoísmo meu não olhei.
- É, e agora o seu egoísmo vai me custar,
mas está tudo bem.
- Fomos até o shopping e almoçamos. Aque-
le almoço demorou para descer. Não ia por
nada. Eu estava super puto da vida, com ele,
comigo, com o que eu tinha lido na madru-
gada, com o que ele tinha feito. Então, ele foi
pagar a conta e sumiu.
Na minha cabeça, já imaginei ele indo no ba-
nheiro público para chupar homens (coisa que
ocorreu quando eu terminei com ele, mas não
antes – pelo menos não que eu saiba, porque
né, vai saber... melhor nem saber, na verdade.
Mas ele voltou em menos de 10 minutos, e
me falou:
- É uma cor que não tem erro, tem capinhas
para você usar caso queira modificar, ele tem
muitas funcionalidades que o seu não tinha, e
você só precisa trazer ele amanhã para o rapaz
passar as coisas da sua nuvem para ele, pois
são sistemas operacionais diferentes.
- O que? Não estou entendendo nada do
que você está falando, nada faz sentido. Va-
mos embora? Eu quero ir pra casa, te comer
até minha raiva passar, e amanhã eu vejo do
celular lá perto de casa, vamos embora.
E sai caminhando.
Nem tinha olhado para as mãos dele, sói
para o rosto, as mãos deles estavam para trás.
Eu estava com tanta raiva, mas tanta raiva,
principalmente dele, e do celular em si, porque
agora seria mais uma coisa que ele fez merda
e eu teria que pagar.
E meu plano era simples: transar, e quando
ele fosse embora, eu compraria um celular
novo e nunca mais entraria em contato.
Mas notei que quando eu entrei no carro, o
meu celular não estava mais lá.
- Você o viu? Preciso pelo menos do chip,
o chip eu vi que não estourou.
Então ele colocou uma sacola da Apple no
meu colo, e quando eu mexi nela, estava a cai-
xa lacrada, com uma nota fiscal. Na caixinha
dizia: iPhone 7 Plus.
- Pera, ele te comprou o iPhone da época?
- Sim, ele comprou.
- Nossa, ele deve ter ficado muito triste, ou
se sentindo culpado mesmo com o que ele fez
com o celular. Pois se pararmos para ver, a
culpa foi dele mesmo.
- É, eu acho que isso foi um adicional.
- Como assim?
- No porta malas, ele tinha 6 sacolas de
roupas, que não eram minhas e nem dele.
- Ele te comprou mais roupas?
- Sim, mais roupas, mas eu fiquei sabendo
só quando ele foi embora, que ele disse que
queria me ver bem vestido.
- E qual era o problema com suas roupas
antigas?
- Nenhum, mas você entendeu o ponto,
não entendeu? A culpa estava comendo-o
por dentro. Isso é DETECTAR MENTIRA E
TRAIÇÃO: ELES PASSAM A TE DAR PRE-
SENTES. Eles se sentem culpados, sentem que
fizeram coisa errada, e fizeram mesmo, e daí,
para aliviar a cabeça deles, creio que funcio-
na igual quando você é criança e seus pais te
batem sem motivo: sempre vem acompanhado
de alguma surpresa ou um presente depois.
Pelo mesmo motivo: peso na consciência.
- Sim, você está certo. Algumas de minhas
leitoras me falaram isso: que quando elas des-
cobriam, mas não contavam para os maridos,
quando o peso na mente deles ficava quase
insuportável, eles compravam as coisas para
elas: joias, roupas, levava para almoçar e jan-
tar em restaurantes caros, ficavam de cha-
mego.
- Exatamente. Porque eles tentam aliviar a
cabeça...
- Sim, esse é um exemplo clássico. Eu, você
sabe, sou escritor, mas antes de ser escri-
tor, eu, Emanuel Hallef, sou um estudioso
do comportamento humano e da mente hu-
mana. E eles fazem isso mesmo: para tentar
aliviar um pouco a consciência, eles fazem es-
sas coisas. Pois na mente deles, eles pensam:
bom, trai, a carne foi fraca, eu não presto,
não tem como desfazer isso que eu já fiz.
Mas ela merece tanto, então eu vou parcelar
minha culpa, vou comprar o perdão dela, e
não só o perdão dela, vou comprar um alívio
para minha própria mente, pois ao eu gastar
meu dinheiro com ela, significa que eu não
sou uma pessoa tão má assim. Posso ter agido
errado ao trair, enganar, mentir, armar contra
ela, mas pelo menos eu dei aquele anel que
ela queria, levei ela naquela viagem, naquele
restaurante que ela gosta, dei meu cartão na
mão dela e falei para ela ir naquele loja de
roupas e sapatos que ela tanto gosta...
- Exatamente, Emanuel.
- Só que eles não se dão conta, de que elas
sabem. De que elas já detectaram que ali exis-
te uma traição. O mesmo ocorreu com você:
eles usam e abusam da situação de poder que
eles têm, e para aliviar a mente e continuar
fazendo, eles compram presentes. Esse é um
sinal CLÁSSICO para ficar de olho. Se detecta
no mesmo instante, porque, por mais que a
pessoa goste de você, ela não sai dando pre-
sentes assim.
- Bingo.
- Fico feliz que você tenha me ouvido e
aprendido algumas coisas.
- Emanuel, sério, você não sabe a diferença
que você faz. Você deve ouvir isso todos os
dias de suas leitoras, mas é sério: você as aju-
da, e alguns homens gays também.
- Fico feliz por isso. É meu trabalho, mas
como você reagiu a isso? Essa é minha curio-
sidade.
- Por que esse celular? – Perguntei a ele.
- É para você. Eu, eu me sinto muito mal
por ter falado mentiras para você.
- Mentiras?
- Sim.
- Que mentiras?
- Mentira.
- Você tinha dito mentiras, no plural.
SE ATENTEM. ELES SE ENTREGAM AS
VEZES SEM QUERER. PRESTE MUITA
ATENÇÃO NO QUE ELES DIZEM, PRES-
TE ATENÇÃO MESMO. DISSE UMA VEZ
E VOU REPETIR: TUDO ESTÁ NOS DETA-
LHES, NAS ENTRELINHAS.
- Me expressei errado. Pela mentira.
- Qual mentira?
- Que eu tinha olhado debaixo do carro pelo
seu celular. Eu não olhei. Estava com fome e
queria que fossemos comer logo. A culpa foi
minha.
- Mas eu te disse que ia comprar outro, não
é para você gastar seu dinheiro comigo. Isso
aqui é caro, olha só o valor na nota fiscal:
5.400 reais. Eu nunca vou conseguir te pagar
por isso aqui. Vou ter que trabalhar muito.
- Ei, é um presente. É minha obrigação para
com você.
- Um celular de 5.400 reais, um presente?
- Eu quero estar com você, e te fazer feliz.
Não me importa quanto isso vai custar.
- Mas eu não custo. Eu te amo (aff, eu nem
acredito que falei isso para ele, mas no fundo,
Emanuel, eu sou igual suas leitoras: me faço
de forte, sou o cara bonito da relação, assim
como elas são as bonitas das relações delas,
e gosto de me fazer de forte, mas eu gostava
mesmo dele, que inferno, por que seus livros
não chegaram quando eu precisava deles?), e
meu amor não custa nada, nem mesmo um
real.
- Mas, eu não quero parecer pedante, mas
você sabe que eu sou sócio na firma de advo-
cacia. Eu estou tirando mais de 50 mil reais
por mês. Para mim, isso não é nada. Você
trabalha todos os dias, dá duro, e eu fui um
babaca com você quando você ficou doente.
Me fechei na minha. Tive sorte de você me
perdoar e estar comigo, então, por qual mo-
tivo eu não posso te dar presentes?
- Porque esse relacionamento não é algo de
interesse. Só por isso. Meu interesse nesse
relacionamento é só você, única e exclusiva-
mente em você. Poderiamos estar sentados em
uma praça, dividindo um picolé, e para mim
seria a mesma coisa.
- Fico feliz por isso, mas não é nossa rea-
lidade. Aceite o celular como um pedido de
desculpas, porque eu pisei na bola com o seu
celular, eu REALMENTE PISEI. E, eu te com-
prei mais algumas coisas...
- ... que coisas?
- Inscrevi seu e-mail naquele site de Con-
cursos, uma assinatura vitalícia.
- No Estra...
- Sim, lá.
- Isso é caro, isso é quase 5 mil reais, ainda
mais essa assinatura. Por que você está fazen-
do isso? Eu não gosto, me sinto mal.
- Olhe para mim, eu vou ser verdadeiro com
você. Se quiser me achar pedante, ache. Eu
levo a bronca por isso: você é um cara que
NINGUÉM diz que é gay. Eu não sou um
cara bonito, eu tenho ciência disso. E tenho
ciência da sorte que eu tenho de te ter ao meu
lado, mesmo eu tendo te tratado mal, aquilo é
imperdoável, mas em seu coração, você achou
maneiras de me perdoar.
Tendo dito isso: você é o homem dos so-
nhos: alto, corpo na medida, transa bem pra
caramba, eu me satisfaço única e exclusiva-
mente com você (como ele podia ter cora-
gem de mentir dessa maneira quando eu havia
visto com MEUS OLHOS os papos dele e ele
tendo transado com outro?), e você merece
mais do que seus pais te dão.

ALERTA VERMELHO

Eles fazem essa coisa LINDA DE MANI-


PULAÇÃO. Sim, eles não dão ponto sem nó.
Quando perguntei ao meu amigo: sabe, achei
que gays fossem mais... de boa, que não exis-
tisse tudo isso igual em relacionamentos he-
terossexuais.
Ele me disse que eu estava terrivelmente
enganado.
Que dentro da comunidade gay, o veneno é
puro. Disse que desde que cresceu e se tornou
um homem que ninguém diria que é gay, os
outros gays o destratavam.
E que ALGUNS, importante frisar: AL-
GUNS GAYS, são assim como os heteros:
veem a oportunidade e usam dela.
No caso dele, seu namorado usava de seu
status social, do poder do dinheiro.
Mas usava para com ele e contra ele ao mes-
mo tempo. Pois sabia que tinha um puta de
um homem na sua frente, que qualquer outro
cara bonito teria sorte de ter.
E quando pisava na bola, usava do dinheiro.
Só que dessa vez, ele tinha ido um pouco
longe demais, pois estava usando das relações
da casa dele, do seio da família, para o MA-
NIPULAR.
Alguns homens fazem isso, minhas amigas
e leitoras.
Me fale lá no privado do Instagram (eu não
postarei), mas me falem se NUNCA um ho-
mem já não usou sua relação ruim com sua
família para te manipular?
Porque eles sabem onde dói. Eles sabem
onde está o nervo, onde está a ferida emo-
cional. E se isso os ajuda a se livrarem de algo,
alguma culpa, algum remorso, eles usaram sem
nem pensar duas vezes.
É nojento, mas é assim que eles fazem.
Voltando a eles...
- Então, sei que sua família te aceita, o que
é ótimo, mas eles jogam tudo nas suas cos-
tas. Você merece o mundo, você é um macho
alfa, eu sou sua puta, fico feliz de lhe servir.
Mas alfas merecem o mundo, merecem ser
endeusados. Sua família, com todo o respeito,
te aceitam apenas pelo fato de você colocar
dinheiro em casa. Desculpa, mas é a verdade.
Caso contrário nãoi aceitariam. Você não me-
rece isso. Sua mãe defende seu irmçao com
unhas e dentes, e quando você precisa de algo,
você precisa se virar, pegar trabalhos de servir
mesas. OLHE PARA MIM: VOCÊ É BONITO
E GOSTOSO DEMAIS PARA ISSO. Não im-
porta quanto te dão de caixinha ou colocam
no seu bolso, eu já vi algumas notas de 5, 10
reais caindo dele quando você chegava na sua
casa de madrugada e tirava a calça para me
comer.
E isso não é certo. Você merece mais que
isso. Não vou mentir, uma parte de mim adora
a ideia de um comunista, que está dando duro
na vida, um homem do povo igual você, pegar
um capitalista de direita como eu e fazer de
sua puta. É seu papel e meu papel.
É errado talvez dizer isso, mas, quando eu
vejo você, um trabalhador braçal, que cresceu
sendo explorado, e é peludo, é gostoso, é
bonito... eu só imagino o quão certo é você
em cima de mim, sendo meu dono naquele
momento, e eu sendo sua dona também. O
cheiro de suor que você tem, mesmo que as
vezes seja ruim, sempre me faz ficar piscando,
porque é cheiro de macho, de trabalho. Eu
fico no escritório pensando: ele está lá, suando,
como um macho de verdade faz, enquanto eu
sou o príncipe: no ar condicionado, roupas
caras e finas, e ele lá, de camiseta branca básica
e o jeans dele, todo surrado.
- Não, eu não aceito.
- Estou te falando.
- Para, isso não aconteceu.
- Emanuel, pra que eu ia mentir para você,
irmão?
- Não.
- Emanuel.
- Não, eu me recuso a acreditar nisso.
- Emanuel HAHAHAHAHA.
- Sério, eu me recuso a acreditar que ele lhe
falou tudo isso.
- Mas você me interrompeu.
- AINDA TEM MAIS? O QUE VOCÊ ES-
TAVA FAZENDO COM ESSE CARA AINDA?
- Eu sei, depois que larguei dele me fiz a
mesma pergunta: o que eu estava pensando,
onde eu estava com minha cabeça.
- Não que eu duvide de você, eu VI vo-
cês juntos, eu o conheço, sei que realmente é
real, mas mesmo eu conhecendo os homens,
as mentiras que eles contam...
- É de se assustar com um discurso igual
esse dele, não é?
- DEMAIS. E você já imaginou o pior?
- Emanuel, sabe em quem eu pensava em
TODO O MOMENTO?
- Em quem?
- EM VOCÊ.
- Por que?
- Porque eu imaginava a sua reação quando
eu te contasse. Eu pensei em você, nas suas
leitoras, pensei quantas não passam por isso
em segredo. Pensei na quantidade de homens
com poder, grana, não colocam mulheres de-
baixo das asas deles, e faz esse discurso.
- MUITOS, MUITOS FAZEM ISSO COM
AS MULHERES. ESSE É O MEU PONTO.
- Exato, e elas muitas vezes não tem para
onde correr. Porque depois falam: mas você
podia ter saído desse relacionamento. NÃO.
Não quando existe uma pressão e poder tão
grande em cima delas. Não quando eles fazem
isso para que elas se tornem quase escravas
deles. Eles fazem uma lavagem cerebral sem
tamanho nelas.
- É o que eu vivo falando para minhas leito-
ras. Para tomarem cuidado, para saírem dessa
quando ver que a situação está assim. Não
vale a pena.
- Eu sei Emanuel, acredite, eu sei muito bem.
- E você ainda é homem, branco, bonito,
quase um heterossexual. Você tem privilégios,
querendo ou não. O que as mulheres tem?
Estigmas em cima delas, responsabilidades,
nomes ruins atrelados a elas, muitas nem con-
seguem um trabalho. Entende o por que de eu
lutar por elas através da escrita?
- Lógico que entendo, você as ajuda mais do
que você pensa.
- Eu fico grato por isso, de verdade, mas
ainda estou meio puto com essas coisas que
esse cara lhe falou.
- É porque você não ouviu o restante.
- Meu Pai... manda bala, aff.
- Então ele me mostrou as roupas. E eu
realmente não sabia o que fazer ou o que
pensar. Sabe, todas aquelas roupas, estranha-
mente... eram conhecidas.
- Como assim?
- Eu já tinha as visto em algum lugar, eu sói
não me lembrava onde.
- Você ainda faz aquele negócio dos favo-
ritos?
- EU TE CONTEI DISSO?
- HAHAHAHA, contou.
- Caramba, Emanuel, que memória boa a
sua. Sim, eu faço. E teve um dia que ele mexeu
no meu computador, para ver um vídeo, e eu
nem me liguei. Mas é isso mesmo: todas as 10
camisetas brancas que eu queria, ele comprou.
Calças, shorts, chinelo, mais tênis, pelo menos
3 perfumes...
- Ele tem tanto dinheiro assim mesmo?
- Pior que tinha.
- Tinha?
- Sim, na época ele tinha, agora ele tem mais
ainda.
- Caramba, então está explicado o porque
ele continuava fazendo o que fazia, porque
ele sabia que “podia te comprar”. Porque você
estava em uma situação um pouco mais vul-
nerável, financeiramente.
- Exato, é isso que esses homens fazem. E
Emanuel, eu gostava dele, eu realmente gosta-
va dele, antes mesmo de ele fazer todas essas
coisas, antes de todos os presentes.
O que me deixou muito, muito chateado
mesmo, foi eu o ver mudando. Foi eu ver que
ele disse algo, e depois mentiu.
Me senti mal deixado ali de lado, e ele sair
dando para pelo menos 3 caras, ESSES SÃO
OS QUE EU SEI, imagina os que eu não sei
a respeito.
- Mas mesmo assim, você continuou com
ele? Mesmo após detectar todas as mentiras
e traições?
- Sim.
- Você se incomoda de eu perguntar o por-
quê?
- Lógico que não me incomodo, Emanuel.
Isso vai ajudar você a entender, as suas leitoras
a entenderem, e até eu mesmo a me enten-
der, até porque, eu fui entender só depois que
realmente terminei com ele.
- Ok, então me diga, por qual motivo você
continuou sendo que você já sabia das menti-
ras e das traições, e além disso, você já estava
expert em detectar tudo isso. Por que?
- Porque eu me sentia terrivelmente sozinho
naquela época. EU SEI, EMANUEL, EU SEI,
eu li seus livros depois e fiz as pazes comigo.
EU SEI que a gente tem que curtir nossa
solitude, transformar a solidão em solitude.
Mas naquela época eu não sabia disso.
Eu tinha vergonha de lhe perguntar, porque
eu realmente sentia que eu precisava mui-
to dos outros, apesar de eu gostar muito de
mim mesmo, eu precisava muito dos outros,
mas nunca deixava isso escancarado para eles
verem, apenas sentia aquilo dentro de mim.
- Eu entendo, não precisa se desculpar. Mas
hoje, isso passou?
- Sim, passou, hoje curto muito ficar na mi-
nha e aproveitar minha própria companhia.
- Ótimo, mas me conta, qual foi a reação sua
e dele com a história das roupas e do celular?
- Espera aí, celular, roupas? O que isso sig-
nifica? Eu não pedi nada disso.
- Eu sei que você não pediu, eu sei, mas eu
quis te dar.
- Por que?
- Porque eu te amo.
- Posso te fazer uma pergunta? Sério mes-
mo.
- Pode.
- Você está para morrer?
- Lógico que não. O que te faz achar isso?
- Ou você está para morrer, ou você apron-
tou alguma coisa...
E eu nem tive tempo de terminar a frase,
porque ele olhou RAPIDAMENTE PARA BAI-
XO E LOGO PARA CIMA.
E esse é um ponto que prova as coisas, pois
ele vai olhar e se sentir um pouco desconfor-
tável naquele momento. O que é algo natural
da biologia deles.
Por mais que eles não se arrependam, acre-
dite, eles não se arrependem, mas o biológico
deles, isso é biologia mesmo, acaba os entre-
gando.
Porque ou ele vai fixar o olhar em um pon-
to e falar algo depois, ou eles vão ter algum
tique: coçar a cabeça, passar a mão no rosto,
na barba, molhar os lábios com a língua...
- Com quem você aprendeu essas coisas?
De identificar os sinais de mentira após você
afirmar para ele que sabe que ele não fez isso?
- Ué, com você, Emanuel.
- Ah é?
- Lógico, eu me lembro de como você con-
versou isso comigo lá no começo da nossa
amizade.
- E você se lembrou?
- Lógico, lembrei de você falando: dê a en-
tender que ele possa ter traído, mas depois
fale: porque eu sei que você não traiu, então
o que está acontecendo? Eu me lembro dis-
so certinho, porque você falou para as suas
leitoras, em um livro ou um post, agora de
cabeça eu não vou conseguir lembrar, você
disse para elas “deixarem eles acreditar que
elas não sabem de nada”.
Deixe-os acreditar que elas são bobas, dei-
xe-os acreditar que eles estão com o jogo na
mão. Deixe, só deixe. De corda para eles se en-
forcarem, porque com o tempo, é exatamente
isso que ocorre: eles se enforcam e confessam.
- Exato, é isso mesmo que ocorre: vocês os
deixam acharem que vocês são bobos/bobas.
Porque não tem coisa que homem gosta mais
do que se sentir bonitão, bonzão, o manda
chuva da situação. Eu disse isso para você, em
um livro e em um post do Instagram. Você
lembra certinho.
Deixá-los imaginar que vocês não sabem
de nada, enquanto vocês correm por fora sa-
bendo de tudo. MAS NUNCA FALEI PARA
FICAR COM ELES E TRAIR.
- Eu sei, Emanuel, você nunca falaria isso.
- E por que você traiu então? Era só largar.
- Vou te explicar.
- E eu sei que você não fez nada, porque
eu te conheço, sei que você é uma boa pes-
soa, um homem bom, então porque tudo isso
de presente? Essas roupas estavam todas nos
meus favoritos.
Você viu uma por uma? Por que? Eu não
preciso disso, eu agradeço, é lógico, que Deus
o abençoe, mas eu não preciso disso.
Você gosta de mim do jeito que eu sou, e eu
gosto de você do jeito que você é, e namora-
mos, não é isso? Pelo menos para mim é isso.
- Olha, vamos pelo começo: para mim não
é isso.
- O quê?
- Deixa eu falar tudo, e depois você fala. Ok?
- ...
- Ok?
- Estou quieto para você falar, ok.
- Ok, eu fiz cagada com seu celular hoje
de manhã. Nisso eu tenho toda a culpa do
mundo. Você não merecia, você fez o que eu
queria, e eu nem me abaixei lá para ver se
estava mesmo.
Como disse, sei que você trabalha pra ca-
ramba, que seria complicado para você com-
prar um celular agora. E se a culpa foi minha,
nada mais natural e certo do que eu comprar
um novo para você.
Eu sei que é um celular caro, mas é o me-
lhor que tem, e se eu posso te dar do melhor,
porque eu não faria isso? Sei muito bem da
minha posição de conforto e privilégio, afinal
de contas, o escritório que sou sócio, só con-
segui por causa do meu pai.
Ele advogou durante quase 40 anos, e isso
me ajudou, eu sei disso. Então só aceite, como
um pedido de desculpas mesmo, porque eu dei
mancada nessa questão do seu celular.
E cá entre nós: olhe só para você. Você tem
que ser um cara que tem tudo do melhor só,
combina com você. Um iPhone combina com
você, não aquele celular ruim, com câmera
ruim.
Se for achar mal de mim por te dar tudo do
melhor, então eu sou culpado nisso.
Quanto as roupas: eu não ligo do jeito que
você se veste quando estamos só nos dois,
mas eu vou ser sincero com você: eu tenho
vergonha as vezes de andar com você na rua
e passar algum conhecido e ver.
Porque eu sei que não é sua culpa, sei muito
bem disso, mas, eu ando muito bem vestido, e
você, não é falando mal, mas você anda com
algumas roupas com furos as vezes, já gastas.
Eu sei que não é sua culpa, entendo isso,
sei que você não tem dinheiro para comprar,
então que mal faz eu te dar roupas legais?
E nem eram as roupas que eu queria te dar,
porque você gosta tudo de uma cor só: você só
usa camisetas brancas durante um mês todo.
Depois só camisetas pretas, depois só cami-
setas cinzas.
E se for pra você andar assim, tudo bem,
mas que seja com camisetas que possuam qua-
lidade, que sejam boas. Por isso eu peguei
essas que não tem nada escrito, que só tem o
símbolo ali no peito bem pequeno, porque sei
que você não gosta de ostentar marca.
E eu respeito isso. As calças mesmo, quase
não te vejo de calça. E você está certo, olha
o tamanho e grossura da sua perna. Peluda.
É um tesão, tem que mostrar mesmo, mas só
para mim, não para os outros gays. E comprei
essas roupas de esporte para você praticar suas
coisas.
Sei que é meio difícil ouvir isso, mas eu
quero estar com alguém do meu nível ou su-
perior a mim, nunca inferior. Não me importo
com o que a sociedade diz, no fim das contas
todos querem isso, todos queriam estar no
meu lugar.
Sobre as outras roupas, as dali de trás, o
outro tênis, os perfumes: estavam nos seus
favoritos, eu o copiei e comprei tudo semana
passada, tudo pela internet lá em casa.
Juntei e trouxe.
Porque sei que você queria, mas que demo-
raria para comprar.
Eu comprei as 33 camisetas que estavam
lá, os 3 perfumes, as 4 calças da Levis... sabe
quanto tempo ia levar para você comprar isso
sozinho?
Anos.
Porque você é um garçom. E porque seus
pais abusam de você, e eu não gosto disso. Se
eles forem abusar, então eu vou te dar o me-
lhor que eu puder, goste você ou não.
O negócio do curso para os concursos é a
mesma coisa: não quero um namorado ser-
vindo para o resto da vida, quero que você
seja servido.
Tem que ter ambição, tem que querer subir
na vida, estar no meu patamar. E última coisa,
fique bravo, mas, eu conversei com meu pai, e
ele conhece a maioria dos empresários daqui.
Você fez um curso de, do que era mesmo?
Design, ilustração, não é?
Então, eu falei para ele arrumar alguns con-
tatos, mexer um pauzinho aqui, outro ali, e
semana que vem você tem duas entrevistas.
Leve seus desenhos, eles são ótimos, qualquer
um te contrataria, mas você não pode ir lá
parecendo um ninguém, você é indicação do
meu pai, então tem que ir com roupa boa,
porque se você conseguir, e eu sei que você
vai, você vai viver outro estilo de vida.
Poder alugar aquele apartamento que eu vi
nos seus favoritos.
Já imaginou isso?
Pensa comigo: eu pesquisei quanto eles pa-
gam para ilustradores como você: 7 mil por
mês. Para um começo, isso está ótimo.
O aluguel daquele apartamento é 2.500, e
você ainda terá um pouco de dinheiro depois
que pagar o aluguel.
Eu quero estar em um lugar SEU, com SUA
cara, com SEU cheiro, com SUAS coisas. Eu
quero te dar essas coisas.
Assim que você conseguir o trabalho, meu
pai entra como seu fiador sem problemas, já
falei com ele. Você só me avisa que conseguiu
o trabalho, eu o aviso.
Eu tenho a tv do meu irmão que ele ia doar,
aquela nova que você viu na foto do quarto
dele, tem mesa de computador, tem uma ca-
deira do escritório que comprei lá e ninguém
nunca nem tirou da caixa.
Eu quero te dar uma cama de gente, uma
cama em que você possa me comer, uma cama
que é digna de um macho alfa. Eu tenho tudo
para fazer você crescer, basta você dizer sim.
Basta você querer e dizer apenas sim. Você
será 10 vezes mais lindo com o cabelo sempre
cortado, não só quando sobra dinheiro, mas
todos os meses. Será ainda mais gostoso com
essas camisetas, calças e tênis que vão mostrar
o corpo lindo que você tem. Você terá seu
próprio apartamento para comer sua puta, sua
putinha aqui.
O mundo está na sua mão, basta você me
dizer sim.
- Caramba, ele queria te controlar total-
mente.
- Sim, Emanuel, queria, foi a primeira coisa
que eu pensei.
- Só por ter dinheiro.
- Só por ter dinheiro. Mas Emanuel, veja se
eu estou certo ou errado, porque aprendi com
você, a ler nas entrelinhas.
- Certo.
- Quando ele me disse: depende só de você,
é só você falar que sim. Eu nunca estudei psi-
cologia, nada dessas coisas, mas aprendi con-
tigo a ler nas entrelinhas. Quando ele disse:
está nas suas mãos, bata você dizer SIM, eu
entendi que: ele poderia me ajudar com tudo
aquilo que ele disse. Para alguém que tira 50
mil por mês, mobiliar um apartamento, é fi-
chinha. Mas quando ele disse: BASTA DIZER
SIM, na minha mente veio: se eu disser sim,
estou dando o sim que ele precisa para con-
tinuar traindo e traindo, enganando e enga-
nando. Foi pelo menos o que eu entendi. Isso
é certo ou eu estava doido?
- Está completamente certo. Ele te apresen-
tou um mundo de oportunidades que sabia
que você não teria tão facilmente, e pegou
em locais sensíveis seus: problemas com seus
pais, o fato de eles abusarem financeiramente
de você, o fato de você querer seguir com
uma carreira que você nunca achou que fosse
possível, e uma vida melhor, que é o que todos
sonham. E ele podia investir nisso, a única
coisa em troca que ele sempre queria, era: seu
corpo, seu sexo, e a sua “permissão” para ele
sair com outros caras.
- Exatamente.
- Você aceitou?
- Não.
- Não. Não logo de cara, sabe o que eu per-
guntei para ele? Depois de ele ter me oferecido
tudo isso e mais um pouco, eu virei para ele
e disse: é do seu interesse a gente abrir nosso
relacionamento?
- Sério que você perguntou?
- Te juro Emanuel, te juro. Porque eu não
queria ser alguém que se aproveita dos outros.
Eu queria essas oportunidades? É LÓGICO
QUE EU QUERIA. Quem não iria querer?
Apenas um louco. Mas eu GOSTAVA DELE.
Eu queria ser sacana e deixar ele dar para
outros enquanto eu subia na vida. Eu podia
fazer isso: ele dá para outros, eu comeria ou-
tros, teria meu apartamento, ficaria “livre” dos
meus pais, podendo mandar um dinheiro por
mês, e mesmo assim tendo minha liberdade,
conseguindo ter a vida que eu sempre quis.
- O que ele respondeu?
- Ele ficou SUPER OFENDIDO.
- Que cara de pau....
- Emanuel, você não viu NADA. NADA. Ele
ficou super ofendido, disse que ele não era de
esquerda, que não era progressista assim, que
com ele era coisa de um home só.
- Mesmo você vendo que não era.
- Mesmo assim.
- E depois?
- Ele me disse que essa não era a praia dele,
e perguntou por qual motivo eu faria essa
pergunta.
- Se fazendo de bobo.
- Sim, Emanuel, se fazendo de bobo.
- Você não deixou ele saber não, certo?
- De maneira nenhuma, eu disse a ele que,
ele tinha se afastado, e mesmo eu sendo todo
esse cara gostoso como ele dizia, talvez ele
tivesse outras vontades, de outros caras. E isso
é normal, porque eu também via outros caras
na rua, no clube, e sentia vontade de transar
com eles, só que eu nunca cheguei ao ponto
de fazer mesmo. E por mais que eu seja um
monogâmico de carteirinha, eu não acredito
que sexo com outra pessoa é uma traição. Se
me falar que tem vontades, eu entendo. Só use
proteção e a gente se diverte. Mas ele disse
que nem assim ele queria, que queria somente
a mim. Me perguntou se tinha algum outro
cara que eu estava de olho, alguém que eu qui-
sesse comer. Disse que não, porque realmente
não tinha. E continuou dizendo, que para ele
isso era promiscuidade, que ele não consegui-
ria isso, que ele é puta de um homem só, que
ficou ofendido com o que eu perguntei, e que
era para eu ser honesto com ele.
- Que ótimo, a pessoa mais desonesta que
eu conheço, pedindo honestidade para os ou-
tros. Isso é mesmo uma piada. Incrível como
eles tentam virar a situação para outra pessoa,
não é?
- Demais, são nojentos.
- E você fez o que com as palavras dele?
- Me senti tão ofendido pelo que ele tinha
falado das roupas, e por ter pego em pontos
tão sensíveis como o de família. E ele foi bom,
ele foi esperto. Um sacana, mas esperto. Tocou
no ponto do apartamento, tocou no ponto de
eu ter uma carreira com o que sempre quis...
tudo isso para poder ter a liberdade de dar
a bunda para outros. Não era mais fácil me
deixar ali, no nada mesmo que eu tinha, e dar
a bunda por fora? Porque eu tinha oferecido
isso para ele, era simples. Mas não, não foi
isso que ele quis.
- Ele queria te trair. Armar, te enganar.
Creio que o sexo tenha uma grande parte nis-
so, disso eu não tenho dúvida nenhuma, mas
o prazer maior dele, era o de trair, se sentir
o que engana, que ele pode. Se ele aceitasse
o que você disse, perderia a graça para ele.
Perderia a sua graça, a graça de ele dar para
outros, tudo isso. Porque o prazer dele está
em enganar.
- Exatamente, Emanuel, exatamente. Como
pode isso?
- Mas ele não contava que você sabia detec-
tar mentiras e traições. Ele achava que você
era, na cabeça dele: um cara bonito, mas ainda
assim um cara bonito e burro, um garçom
estúpido.
- Exato.
- Você aceitou então?
- Fiquei com tanta raiva, mas com tanta
raiva, que aceitei. E não peço desculpas por
isso. Não estou aqui dizendo: me desculpe por
ter feito isso. Não, eu não me sinto culpado,
não me sinto errado. Sinto que eu não pre-
cisava trair ele, mas quis dar o troco quando
eu comecei a descobrir mais e mais. Eu me
tornei igual a ele. Eu poderia simplesmente ter
terminado, ter sido o adulto, a pessoa maior,
mas não foi isso que aconteceu. Eu me tornei
igualzinho a ele.
- Você aceitou tudo nos termos dele?
- Tudo. Aceitei os presentes, aceitei as en-
trevistas, as roupas, tudo. Porque na minha
mente, o idiota aqui achava que ele podia fi-
car na boa ainda. Não me trair mais. EU SEI,
NEGAÇÃO. Li que na psicanálise isso é cha-
mado de negação, mas por um momento eu
me auto enganei e achei sim que isso pudesse
acontecer.
- E deu tudo certo?
- Tudo perfeito. Aceitei no domingo, e na
quarta-feira eu já estava empregado.
- Sério?
- Sério, Emanuel. Eu vou te contar.
- Cheguei na empresa, e era um local muito
grande, bonito mesmo. Fui todo arrumado,
mas não arrumado demais. Vi de longe en-
quanto esperava o dono vir falar comigo, vi o
pessoal sentado, conversando e trabalhando,
e pensei: sabe, eu mereço estar aqui. Se meu
trabalho for bom, eu mereço. Caso não seja,
não vão me contratar. Simples assim. Coitado
de mim, acreditando em meritocracia.
- Você é o...?
- Sim, sou eu.
- O indicado do Dr...?
- Isso sou eu mesmo, boa tarde. Prazer.
- Prazer, me siga até minha sala, por favor.
E fomos por aqueles corredores, o pessoal
me olhando, me cumprimentando, como se eu
já fosse um deles. Eu sei que por mais pobre
que eu fosse, eu sabia como me portar em
um lugar. Nunca tive vergonha de entrar em
lugar nenhum, eu sempre entrei e sai de qual-
quer lugar, mesmo se eu estivesse de camiseta,
shorts e chinelo.
Mas ali, naquele dia, eu ainda não tinha cor-
tado o cabelo, estava com ele um pouco ba-
gunçado, mas um bagunçado arrumado, sabe?
E meu cabelo fica nesse estilo meio surfista, e
eu tenho preguiça de arrumar sempre.
Estava com uma boa camiseta (dinheiro
faz diferença mesmo, puta que pariu, ela caiu
certinha em mim – apertadinha nos braços,
modelando tudo, pela primeira vez, eu me
senti aquele cara gostoso que eles falavam que
eu era), com uma calça legal também, um tê-
nis bom nos pés, perfume na medida certa...
eu realmente senti que eu pertencia a aquele
lugar.
Sentei de frente para ele na mesa dele, e ele
avaliou meus desenhos. Disse que tinha um
cliente novo na agência, que estava pedindo
esse tipo de desenho mesmo, para uma co-
leção de 7 livros que lançaria. Disse que eu
teria muito trabalho, mas que era só eu estar
preparado, pois talento eu tinha.
- Você SEMPRE teve talento. Te disse isso
daquela vez que vi um caderno de desenhos
seus.
- Ah, Emanuel, uma coisa é amigos fala-
rem, mas, outra coisa é a gente acreditar que
AQUILO ALI vai dar dinheiro, um futuro.
Quer dizer, eu não sou o Maurício.
- Que Maurício?
- O que fez a Turma da Mônica.
- Ah sim.
- Então, eu não sou ele, sei que não inventei
a roda, mas é difícil acreditar que isso daria
certo.
- Ele te ligou depois?
- Quem?
- O DONO.
- AH, HAHAHA, calma, não, ele não ligou.
Ele pediu para eu acompanhar ele, e me per-
guntou se eu era um cara mais brincalhão ou
mais na minha. Eu disse que era uma mistura
dos dois, mas que para trabalho eu preferia
ficar sozinho. Então ele andou comigo até uma
sala, não era grande, era média, e tinha um
rapaz lá, trabalhando sozinho. Me apresentou
para ele, eu apertei a mão dele, e ele pediu
para ver meus desenhos.
Gostou demais, e daí me perguntou:
- É você meu companheiro de sala?
- Não sei... acho que ele me trouxe só para
te conhecer.
- Você gostou da sala? – O chefe me per-
guntou.
- Lógico, é demais.
- Então seja bem-vindo. Você começa agora.
Se tiver que avisar alguém, avise. Não restrin-
gimos uso de celulares, internet, nada aqui
dentro. Mas o trabalho em primeiro lugar.
Tem uma área de alimentação e uma máquina
de café. Bom, ele vai te explicar e te apresen-
tar tudo depois. Vamos ao RH, e logo depois
você volta aqui com seu novo companheiro
de trabalho.
- Assim, na lata?
- Assim. Como uma indicação muda as coi-
sas, não é? Antes eles não me deixariam nem
entrar naquele lugar. Mas com a indicação, eu
estava lá: dividindo uma sala com esse rapaz
nerd super de boa, usando um computador
iMac que eu nem fazia ideia de como fun-
cionava – o amigo nerd me ensinou a mexer
em tudo – e até uma mesa digital para dar
os acabamentos no desenho. Tudo isso, de
segunda á sexta, por 8 mil reais.
- É muita coisa.
- Sim, 8 mil reais para quem ganhava 1.800.
Foi isso que me estragou: as chances que ele
me deu por ter me traído. Tinha até uma parte
em mim que pensava: está tudo bem, ele pa-
gou bem pela traição, ele me deu a chance de
eu decolar minha carreira, de ter uma vida que
eu só sonhava. Aliás, eu nem sonhava, achava
que era impossível.
- E como começou as suas traições? Porque
você vai falar de sua própria boca, portanto
minhas leitoras saberão como evitar e os si-
nais.
- Pode ter certeza que elas saberão.
- Após eu entrar na agência, eu fiquei um
bom mês ainda em casa, tentando digerir tudo
aquilo. Para meus pais, eu disse que estava em
experiência e me pagariam o mesmo valor que
pagavam na çanchonete. Porque eu sabia que
minha mão ia querer que eu liquidasse as divi-
das do meu irmão, que ela pegou empréstimo.
E aquilo, para mim, não era certo. Porque eu
queria ajuda-la, mas sabia que assim que ela
estivesse com limite de novo, ele ia aparecer,
pedir para ela, e ela faria. Então eu nunca fiz
isso.
Após o primeiro mês, quando aqueles 8 mil
caíram em minha conta, eu nem sabia o que
fazer. Só recebi uma mensagem dele dizendo:
meu pai assinou o papel da imobiliária.
Isso foi em uma terça-feira. No dia seguinte,
a mulher da imobiliária me ligou e disse que
eu poderia me mudar.
Sentei com meus pais e conversei.
MENTI.
Eu sei, menti, mas era o necessário.
Eu disse que ia dividir o apartamento com
dois amigos, que estavam me pagando 1.500
por mês, que eu precisava de um lugar meu,
com um pouco mais de liberdade e dar essa
liberdade para eles também.
Sabe qual foi a ÚNICA dúvida dos meus
pais?
- Você vai continuar pagando as contas da-
qui, certo?
Como podia? Eu teria outros gastos, ficaria
sem nada. Mas na cabeça deles, eu tinha a
OBRIGAÇÃO de pagar.
- Posso ajudar com uma quantia, mas seja-
mos sinceros, eu não estarei mais aqui, não
vejo necessidade de eu pagar tudo. Sem falar,
mãe, que o dinheiro seu e do pai é suficiente.
Só não dá para o mês todo, porque a senhora
sempre salva o Breno.
- Ele precisa mais que você, não vire alguém
egoísta.
- Eu sempre te disse que ele era egoísta,
Márcia. Sempre te disse. Gay e egoísta, que
desgosto.
É, eles falaram isso.
- Deixa, não precisa mandar nada. Vou falar
para o Breno vir para cá com a Claudia, eles
ajudam. Eles não são egoístas.
- Mãe, eu ajudei sempre que eu pude, e vou
continuar, só não vejo necessidade de ser o
mesmo valor. Vocês precisam deixar o Breno
crescer. Ele tem 31 anos, casado, com filho, e
não trabalha. Não quer nada com nada. En-
quanto vocês continuarem a estender a mão
para ele, ele nunca vai achar que tem obri-
gação de trabalhar, porque vocês sempre o
salvam. E daí tem que sair do meu bolso para
dar pra ele? Isso não me parece correto. Des-
culpe, mas não parece correto e não é, pode
perguntar para qualquer pessoa.
- Vai para sua casa nova, não precisa mandar
mais nada. Não precisa aparecer mais aqui.
- Mãe, pelo amor de Deus...
- Vai, só vai. Ingrato.
- Nossa, sério que ela mandou essa?
- Sério Emanuel, sério. Eu fiquei tão cha-
teado.
- Porra, também pudera.
- E só me passava UMA coisa pela cabeça...
- Que ele estava certo no final das contas.
- Sim, de que ele estava certo no final das
contas, que ele conseguiu ler meu pai e minha
mãe direitinho.
- Mas, isso, qualquer pessoa mais próxima
de você conseguiria ver. Eu só não imaginava
que ficaria assim.
- Eu também nunca imaginei. E fiquei cha-
teado. Cheguei naquele puta apartamento, só
com o colchão que EU mesmo comprei para
mim, no chão. Comprei uma pizza, uma garra-
fa de 2 litros de água, e fiquei lá, sozinho. Tris-
te. No final das contas, nem a pizza eu comi.
Começou a chover, eu triste, eu chorando...
e eu não deveria me sentir daquela maneira.
Eu sabia que quem estava errado eram eles,
eu sabia disso, sabia que qualquer pessoa que
estivesse no meu lugar, só ia comemorar. Mas
eu estava muito triste, pesaroso, sabe?
- Não é pra menos, qualquer um ficaria as-
sim. Por mais que se faz de feliz, por dentro
está miserável. Isso é algo muito difícil de di-
gerir, muito difícil mesmo. Traição de família...
deve ser a pior coisa que tem. Ainda mais dos
próprios pais.
- É. Desci o prédio, comprei um cigarro (eu
voltei a fumar, me julgue a vontade), e voltei.
O chuveiro já estava instalado, já tinha a parte
da cozinha toda mobiliada. Parecia um sonho.
E eu queria dividir aquilo ali com alguém, com
ele, que me ajudou a tornar isso verdade.
Liguei para ele.
Chamou e nada.
Liguei mais 2 vezes e nada.
Na quarta chamada, ele atendeu.
- Alô?
- Sou eu, está tudo bem?
- Sim, eu estava dormindo, foi mal.
- Dormindo as 7 da noite? Vem aqui pra
casa. Para o apartamento, não minha casa, não
a antiga, você entendeu.
- Amanhã chegam os móveis: sofá, TV, as
coisas do seu quarto: cadeira de escritório,
aquela mesa que você viu na internet, a sua
cama, já que o bonito comprou o colchão an-
tes de mim...
- Eu precisava dormir em algum lugar.
- E amanhã vamos pegar coisas de casa mes-
mo: panos, utensílios, todas essas coisas.
- Vem aqui, eu quero comemorar contigo.
Comprei pizza, a gente pode ficar na varanda,
vendo a chuva cair, conversando, comendo.
- Você vai me comer?
- Hoje eu não estou muito legal, pode rolar
sim, mas queria você aqui.
- Você havia dito sim, lembra?
- Lembro.
- Então eu vou amanhã, vou voltar a dormir.
Se cuida e aproveite.

Antes de eu desligar eu ouvi do outro lado


da linha outra voz: eu que vou te comer.
- Alô?
- Opa, firmeza? Quanto tempo não ouço
falar de você, e você ligou do nada, que sur-
presa.
- E aí Bruno, tudo bem?
- Tudo, e você cara?
- Tudo firmeza. Quais as boas? Você sumiu
da piscina.
- É, algumas coisas mudaram, e eu não ando
com muito tempo mais não.
- Porra, que pena. Pessoal sente falta de você
lá.
- Porra, sinto falta também, mas paciência.
- Qual a boa nesse dia de chuva?
- Mudei para um lugar novo. Tá deserto, só
tem geladeira e um colchão. E uma pizza que
chegou não tem nem 5 minutos. Cola aqui,
você está com tempo?
- Claro, estou saindo do trabalho agora, mas
passo sim, onde é?
- No centro.
- Eu estou no centro. Estou na frente da
praça central. Preciso ir de carro?
- É do lado lateral da praça central. Sabe o
prédio cinza com as sacadas brancas?
- Sim, do outro lado da rua aqui.
- É aqui.
- Qual andar?
- Sétimo, apartamento 701. Vou falar para
o porteiro que você vai subir.
- Demorou, mas estou molhado e com a
mochila. Consigo tomar um banho aí, se der
é lógico, se não der, é sem problemas.
- Pode ficar sossegado, chuveiro com água
quente tem aqui, só colar.
- Estou indo então.
Em menos de 5 minutos, ele estava na por-
ta do apartamento, pingando de tanta chuva,
com a camisa ensopada.
- Entra.
- Vou molhar tudo.
- Eu passo uma toalha depois. Trouxe algu-
mas de casa, fica relaxado quanto a isso.
- Maneiro o lugar – ele disse já retirando a
camisa e ficando só de calça. – Seus amigos
estão aqui?
- Amigos?
- É, eu posso tirar a calça e ir tomar uma
ducha rápida para tirar essa água gelada, ou
eu corro o risco de eles me verem pelados?
Você eu não ligo, mas gente que não conheço,
é foda.
Fui até ele, ajoelhei e abaixei eu mesmo a
cueca dele.
- Pode ser aqui, eu moro sozinho.
- E você começou a trai ele nesse mesmo dia?
- Sim, naquela mesma noite eu já trai. Eu
sei, sei que eu talvez não tinha o direito, até
porque ele tinha sido “muit legal” comigo. Eu
sei disso, ficou parecendo que eu fui ingrato,
mas eu queria ele ali, comigo. E ele havia me
dito que não estaria com ninguém, porque ele
não queria, porque não era promiscuo e isso
e aquilo e toda aquela falcão dele, para depois
eu descobrir isso, dessa maneira ainda?
- Você devia ter terminado com ele há muito
tempo. É horrível ver e ouvir o que aconteceu:
ele tirou vantagem de você, seu corpo, seu
sexo, o status que você dava para ele. Depois
ele se sentiu pesaroso, e te deu uma chance
única na vida. E não estou te julgando, nunca
faria isso com ninguém, mas daí você foi e
fez o mesm que ele fez com você. Ele entrou
na sua mente de uma maneira tão doentia,
que você se tornou ele, você começou a agir
como ele.
- Sim, eu sei disso. Sei que deveria ter ter-
minado, mas, eu pensava: ele me prometeu
que não queria nada com mais ninguém, sei
que foi bobeira minha acreditar nele, negação,
e eu tinha detectado tudo lá atrás, mas não
havia detectado a manipulação logo de cara.
Sabe, Emanuel, a manipulação pode estar ali,
NA SUA CARA, pode estar sendo esfregada,
seus amigos podem te alertar, mas tem algo
que te deixa tão cego que você não vê.
- Sim, a paixão, a negação, a dependência.
- Exatamente. Eu gostava mesmo dele, mes-
mo quando ele fez isso, eu aindagostava. Não
queria acreditar que ele estava afzendo tudo
o que falou que não faria. E ainda por cima,
para onde eu iria? Não podia mais voltar para
a casa dos meus pais, tinha um bom trabalho,
esatava no céu, em coisa de menos de um mês
a minha vida deu uma reviravolta gigante.
E não é como se eu não tivesse pensando em
ficar quieto na minha e deixar ele aprontar.
Eu até pensei nessa possibilidade. Pensei
mesmo. Pensei que, o que ele proporcionou
para mim, era muito maior quer tudo aquiulo
que ele fazia, que era uma troca bem justa se
fosse ver por aí.
- Você se embananou todo, acabou em uma
teia de mentiras, de desgostosos, de ilusões, e
pior que isso: em uma teia de mentiras sem
fim. Porque você começou a fazer exatamente
a mesma coisa que ele, isso que é o pior. Nun-
ca, em todo o tempo que te conheço, imaginei
que você faria isso. Porque esse cara que fez
isso, não é o cara que eu conheço, o cara que
eu conheci.
Nunca foi e nunca será.
E quero que saiba que, eu também não julgo
o que você fez, de aceitar a ajuda. As vezes
seria a sua única oportunidade mesmo, disso
a gente tem que ter certeza as vezes, você
aceitou uma oportunidade de ouro, mas se
esqueceu que tudo vem com um preço.
Porque eu tenho certeza absoluta, absoluta,
que você chegaria lá, você chegaria, se con-
fiasse um pouco mais em você. Era isso que
te faltava: sair de perto dos seus pais, que te
sugavam.
- Eu sei.
- Era sair dali e você ia crescer, com ele
ou sem ele. Isso você tem que colocar na sua
cabeça: seu sucesso hoje, não dependeu dele,
mas sim do seu trabalho. Até porque, você foi
promovido por conta de outra coisa, não é?
- Sim, você lembrou disso.
- Eu sou Emanuel, eu lembro de tudo.
- Palhaço.
- Me conta como foi ele descobrindo.
- Ah, Emanuel, eu sou homem né? Então
eu comecei a fazer TODAS AS COISAS QUE
EU DETECTEI ANTES. Nem nisso eu tomei
cuidado. De tão besta que eu fui. E é assim
que homem é, e é por esse motivo que a gente
cai do cavalo:
Mandei uma mensagem para ele falando
que, na sexta feira, por conta do ar condicio-
nado, eu tinha pego outra gripe forte.
Ele acreditou. E ainda disse que também
não pdoeria ir, estava com a imunidade baixa
e não podia pegar nada. Mas que aquela gripe
era meu corpo de pobre se acostumando com
o novo, com o bom. E que iam instalar ar no
apartamento também.
E o que eu fiz o final de semana INTEIRO?
Isso mesmo, transei.
• Com aquele amigo;
• Com um amigo do meu irmão;
• Com o meu primeiro namorado...
Quando ele ligou no domingo pela tarde, o
que eu fiz?
• Não atendi o telefone até ás 22 horas. Dis-
se que o remédio tinha me derrubado.
Mas na verdade, eu tinha derrubado meu
primeiro namorado na cama e tinha passado
a tarde toda com ele.
Falei para ele ir em casa de noite, que estava
um pouco melhor.
Ele secamente disse que não.
Então eu me dei conta, de que, com o pouco
que eu fiz, ele já detectou.
Sabe qual foi meu maior erro?
Arrependido depois do que fiz (não estava
tão arrependido), eu disse que amava ele.
Ele só respondeu: Obrigado. E desligou.
Ele estava muito bravo.
Como o pai dele é conhecido na cidade, ele
não podia se dar ao luxo de mandar o porteiro
ficar de olho em quem subia e quem descia.
Porque não podiam saber que a gente na-
morava.
Quando ele ia lá, ele era sempre meu pri-
mo, e sempre chegava com um papo ensaia-
do falando que o pai dele e meu pai estavam
brigando e isso e aquilo...
Tudo para o porteiro não desconfiar.
Mas quem desconfiou fui eu.
Porque o porteiro sorriu para ele. De um
jeito que não era normal.
E isso me fez DETECTAR o que eu estava
imaginando: ele não ligava de o porteiro sa-
ber que ele me namorava, mas ele queria ser
mantido informado de quem subia e descia.
- Você conseguiu detectar até isso?
- Até isso, Emanuel. Aprendi com você, já
disse, a ler nas entrelinhas, o sorrisinho do
porteiro era algo do tipo: está de boa, finjo
que você é o primo, finjo que acredito nessa
baboseira, só me pague.
- O que você fez?
- Pela primeira vez eu fiz papel de homem.
Cheguei no porteiro e disse: Amigo, seguinte,
quanto ele te paga?
- O que foi?
- Sem graça amigo, bora lá, quanto ele te
paga para você falar para ele quem vem aqui,
quem sai, o horário.
- Não sei do que o Dr. está falando não.
- Amigo, seguinte: eu pareço gay?
- Não.
- Exato. E tem gente vindo o dia todo nessa
casa, inclusive quando não estou aqui, pessoa
de confiança para que terminem de mobiliar
a casa. Não é nada além disso. Mas ele acha
que é. E isso é errado, porque se eu falar com
o síndico, que você está sendo...
- Ele paga 300.
- Por semana?
- Por mês.
- Certo.
- Eu vou precisar falar com o síndico?
- Não, isso acabou. Eu não quero mais saber
disso não, vocês se resolvam.
- Ah sim, agora a gente que se resolva.
Quantos você falou para ele que subiu?
- Apenas coisas de trabalho, que foi verdade.
Você ficou doente e trabalhou de casa, você
me avisou pelo interfone. E chegava trabalho
aqui, subiam, desciam e pronto.
- Certeza?
- Absoluta. Não fale com o síndico.
- Vou pensar nisso. Se eu descobrir que é
mentira, eu falo com o síndico. Então já fale
de uma vez.
- Posso ser sincero?
- Por favor, seja.
- Minha ex esposa era assim. Ela não tinha
o dinheiro que vocês tinham, mas ela sempre
mandava alguém ficar na minha cola. E eu
odeio isso. Eu sei que subiu 3 caras diferen-
tes aqui, o mês todo. Passaram a noite, mas
nunca falei para ele. Porque acho que você é
o homem da relação, isso é bem fácil de ver.
- Pois não fale mais nada.
- Certo senhor. Desculpe, só não posso per-
der meu trabalho.
- Não farei isso, mas só faça seu trabalho, e
seremos grandes colegas, pode ser?
- Sim.
- Ótimo, a pizza chegou. Pedi duas. E olha
só quem veio junto: meu primo. Que timing
perfeito.
Ele entrou junto com o cara da pizza.
- É minha mesmo.
Acertei com o cobrador, e deixei uma pizza
para o porteiro. Subimos com outra, e nessa
noite, a gente falou tudo o que tinha para falar
com o outro.
- Você está me traindo?
Foi a primeira coisa que ele perguntou quan-
do entrou no apartamento.
- Não.
- Eu estou achando que sim.
- Por que você diz isso?
- Porque você sumiu essa semana.
- Essa semana eu fui promovido, juntou uma
tonelada de trabalhos para eu fazer.
- Meu pai me disse: o seu amigo foi promo-
vido. Quem diria que ele sabia falar Italiano?
O Gluco (dono da agência), tem 70% dos
clientes da agência na Itália, e sempre paga-
va por interpretes nas reuniões. Mas daí ele
ouviu seu amigo falando com um deles no
telefone para resolver sobre uma das entregar
e perguntou: Você fala Italiano? Sim. Fluente?
Sim.
-Se incomoda de fazermos um teste com
um interprete?
- De maneira nenhuma.
- Sim, foi isso que aconteceu. O interprete
falou que não era um Italiano perfeito, nunca
seria, não sou italiano, aprendi em um curso
quando adolescente o básico, e com o tempo,
eu fui estudando pela internet sozinho. Então
ele me falou: meio período como desenhista,
meio período como meu assistente? Para re-
solver minhas coisas. E é obvio que eu disse
sim, mas não imaginava que ele subiria meu
salário em 4 mil reais. Mas você provavelmen-
te sabe disso também.
- Sim, eu sei. Você me surpreendeu: eu achei
que você ia ser aceito lá pelo simples fato do
meu pai te indicar. E agora você mostrou que
tem talento para desenhar e também para ser
assistente dele. Então meus parabéns.
- Obrigado. Mas me diga, eu que pergunto
agora: VOCÊ está me traindo?
- Não.
- Não se faça de bobo. Eu tenho tudo aqui:
• Ligações que você não atendia;
• Não ter tempo para falar;
• Me comprou um monte de coisas;
• Começou a falar eu te amo;
• E semana passada, quando me mudei para
cá, seu outro alfa disse que quem iria co-
mer você era ele.
E olha que engraçado: entrei nesse aplica-
tivo, Grindr, Hornet, com uma foto de uma
paisagem. E quem diria, que é a mesma foto
que você usa.
E olha só isso: dezenas de mensagens me
chamando para me comerem de novo. Até
foto do meu próprio pau você mandou fazen-
do se passar pelo seu.
Foto que lhe enviei por confiar em você.
Não só isso: você manipulou minha men-
te com a história dos meus pais, E EU SEI,
ACABOU SENDO VERDADE, VOCÊ ESTA-
VA CERTO, mas você manipulou tudo isso.
Agora me diga: com qual ganho? Eu deixaria
você dar para quem quisesse, só não fizesse
eu fazer papel de tonto.
O que você me fala sobre isso?
- Desde quando você sabe?
- Desde a noite do motel.
- Por que não me disse?
- Porque estava tudo ali já. Eu fui tonto
de ficar contigo. Confesso, me deixei levar
por grandes oportunidades, mas, me enganar?
Usar fotos minhas como se fosse sua? Isso é
crime.
- Me desculpe, eu sou todo fudido, você
merece mais que eu.
- Não, bom, pode até quer que sim, mas sabe
o pior? Eu gosto pra caralho de você?
- Gosta?
- Gosto, ainda gosto. Então vamos chegar a
um acordo. O alfa aqui, libera a puta dele para
ser comida, aqui nesse apartamento, com ele
assistindo. E o alfa comerá outros caras para a
puta assistir. Não precisamos fingir mais nada.
Estou extremamente cansado de ficar detec-
tando mentiras:
• Não atende o telefone;
• Some;
• Te amo;
• Compra presentes;
• Fica indiferente;
• Usando manipulação mental.
- Chega. Vamos ser adultos, vamos fazer
nosso esquema e seguimos assim.
- Eu te tornei isso? Porque você não era
assim.
- Sim, você me tornou isso. Ou me aceita
assim agora, da mesma maneira que te acei-
to, ou não temos mais nada. Era o que você
sempre queria, não é?
Emanuel de volta aqui.
O desabafo e conversa com meu amigo, que
ficou com sua identidade totalmente segura,
trocando informações para não colidir com
a realidade, foi algo importante para vocês
lerem nas entrelinhas.
Deixei esse relato ocorrer, pelo simples fato
de: em dicas, nem sempre é possível DETEC-
TAR a mentira, a manipulação, a maldade.
Mas quando fazemos isso em um caso que
ocorreu, é muito mais fácil.
Ele está bem, o namorado também, está.
Eventualmente terminaram, pois meu amigo
achou que conseguiria fazer aquilo, mas não
conseguiu. Quem é de verdade não consegue
ser de mentira.
O emprego se mantém, o salário também, e
ele renovou o contrato do apartamento, dessa
vez no nome dele, dando uma caução.
Mas, minhas amigas, isso é para mostrar
que, mentiras, manipulações, traições e más
intenções, estão em todos os lugares, não ape-
nas em relacionamentos heteros.
E no dele, teve todos: mentiras, manipula-
ções, traições e más intenções.
E ele conseguiu detectar cada um.
Se necessário, releia. Preste atenção as dicas
que eu dei para ele e ele seguiu.
Espero que vocês não caiam em uma dessas.
De seu irmão mais velho, Emanuel Hallef.

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