Letramento Emergente e Alfabetização Infantil
Tópicos abordados
Letramento Emergente e Alfabetização Infantil
Tópicos abordados
RIBEIRÃO PRETO - SP
2017
DANIELLE ANDRADE SILVA DE CASTRO
Versão Original
Catalogação na publicação
Serviço de Biblioteca e Documentação
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto/ USP
Aprovado em:
Banca Examinadora
À Prof.ª Dr.ª Sylvia Domingos Barrera, que com muita gentileza me acolheu e orientou de
forma competente ao longo de todo o percurso deste estudo, o meu eterno carinho e gratidão
por ter me dado a oportunidade de crescer profissionalmente ao seu lado.
À Prof.ª Dr.ª Márcia Maria Peruzzi Elia da Mota, pelos ensinamentos desde a graduação, pelo
incentivo para a realização do mestrado e pelas contribuições no exame de qualificação deste
estudo.
Ao Prof. Dr. Antônio dos Santos Andrade, pelos conhecimentos transmitidos através do estágio
do Programa de Aperfeiçoamento de Ensino e pelas contribuições no exame de qualificação.
A todos que estiveram comigo, pela amizade, carinho ou pelo simples convívio ao longo deste
tempo, que colaboraram direta e indiretamente para a realização deste estudo, o meu “muito
obrigada! ”
“...para trilhar um caminho, é necessário conhecer
seu curso, seus meandros, as dificuldades que se
interpõem, alfabetizadores (as) dependem do
conhecimento dos caminhos da criança – dos
processos cognitivos e linguísticos de
desenvolvimento e aprendizagem da língua escrita
– para orientar seus próprios passos e os passos
das crianças”
(Soares, 2016, p.352).
RESUMO
A análise da literatura científica evidencia intenso esforço para se obter melhor entendimento
de como ocorre a aprendizagem da leitura e da escrita e como é possível colaborar para essa
aprendizagem, a partir da identificação das habilidades cognitivas e linguísticas subjacentes a
ela. A perspectiva do letramento emergente considera a importância de um conjunto de
habilidades linguísticas e de conhecimentos sobre a língua escrita, adquiridos pela criança no
período compreendido entre o nascimento e o início do processo formal de alfabetização, os
quais seriam precursores da aprendizagem da leitura e da escrita, destacando o papel da
Educação Infantil no desenvolvimento destas habilidades e conhecimentos. Diante disto, o
presente trabalho teve como objetivo principal investigar se e quais habilidades de letramento
emergente, apresentadas pelas crianças ao final da Ed. Infantil, contribuem significativamente
e de modo independente para a aquisição da leitura e escrita durante o primeiro ano escolar. A
metodologia utilizada seguiu um delineamento correlacional de caráter longitudinal. Para tanto,
na primeira etapa da pesquisa, foram avaliadas as habilidades de letramento emergente de uma
amostra de 41 crianças de duas turmas do último ano da Ed. Infantil (idade média de 5,84 anos).
Os instrumentos utilizados foram testes padronizados de consciência fonológica, nomeação
(vocabulário) e compreensão oral, além de uma prova de conhecimento de letras. Ao final do
primeiro ano do Ensino Fundamental, foram reavaliadas 34 crianças da amostra anterior (idade
média de 6,68 anos), através de testes padronizados de leitura de palavras e pseudopalavras,
escrita de palavras e compreensão em leitura. Os dados foram analisados através de técnicas
correlacionais e de análise de regressão, visando identificar a relação entre as variáveis
estudadas e a contribuição das habilidades de letramento emergente para as habilidades de
leitura, escrita e compreensão da amostra estudada. Os resultados obtidos indicaram que todas
as habilidades de letramento emergente (consciência fonológica, conhecimento de letras,
nomeação e compreensão oral) estavam correlacionadas e que estas também estavam
correlacionadas com as variáveis dependentes (escrita, leitura de palavras e compreensão em
leitura). As análises de regressão mostraram maior contribuição da consciência fonológica e
conhecimento de letras para o desempenho em escrita e da consciência fonológica para o
desempenho em leitura de palavras e para a compreensão em leitura. Conclui-se que os
resultados obtidos permitem dar suporte à hipótese da importância do desenvolvimento das
habilidades de letramento emergente na Ed. Infantil, a fim de favorecer a aprendizagem da
leitura e da escrita no Ensino Fundamental.
Castro, Danielle Andrade Silva (2017). The contribution of emergent literacy skills to early
reading and writing performance. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP.
The analysis of the scientific literature shows intense effort to obtain a better understanding of
how reading and writing learning occurs and how it is possible to collaborate for this learning
by identification of the cognitive and linguistic abilities underlying it. The emergent literacy
perspective considers the importance of a set of linguistic skills and knowledges about press
acquired by the child in the period between birth and the beginning of the formal literacy
process, whose could promote literacy, highlighting the role of Early Childhood Education in
the development of these skills and knowledges. In view of this, the main objective of this
study was to investigate whether and what emergent literacy skills presented by the children at
the end of the kindergarten contribute significantly and independently to the acquisition of
reading and writing during the 1st grade of elementary school. The methodology used followed
a correlational design of longitudinal features. To do so, in the first stage of the research, the
emergent literacy skills were evaluated in a sample of 41 kindergarteners (mean age 5.84
years). The instruments used were standardized tests of phonological awareness, naming
(vocabulary) and oral comprehension, as well as a proof of letter knowledge. At the end of the
first year of elementary school, 34 children from the previous sample (mean age 6.68 years)
were reassessed, through standardized tests of reading of words and pseudowords, writing of
words and comprehension in reading. Data were analyzed using correlation and regression
analysis techniques to identify the relationship between the variables studied and the
contribution of emergent literacy skills to the reading, writing and comprehension performance
of the sample studied. The results indicated that all emergent literacy skills (phonological
awareness, letter knowledge, naming and oral comprehension) were correlated and that these
were also correlated with the dependent variables (writing, reading of words and
comprehension in reading). The results of the regression analysis showed a greater contribution
of phonological awareness and letter knowledge to the performance of writing. Phonological
awareness was also the most important predictor for the performance of reading words and
reading comprehension. The obtained results allow us to support the hypothesis of the
importance of the development of emergent literacy skills in kindergarten, in order to benefit
the reading and writing learning in 1st grade of Elementary School.
Figura 1 - Normalidade dos resíduos padronizada (A) e normal P-P Plot residual padronizada
(B) para a variável dependente escrita ....................................................................................54
Figura 2 - Normalidade dos resíduos padronizada (A) e normal P-P Plot residual padronizada
(B) para a variável dependente leitura de palavras..................................................................55
Figura 3 - Normalidade dos resíduos padronizada (A) e normal P-P Plot residual padronizada
(B) para a variável dependente compreensão em leitura..........................................................55
TABELAS
1. INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 12
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ....................................................................... 15
2.1. Alfabetização e Letramento .................................................................................... 15
2.2. Letramento Emergente ............................................................................................ 16
2.3. Consciência Fonológica .......................................................................................... 21
2.4. Conhecimento de letras ........................................................................................... 24
2.5. Vocabulário ............................................................................................................. 27
2.6. Compreensão Oral ................................................................................................... 30
2.7. Modelos cognitivos da aprendizagem da leitura e escrita de palavras .................... 32
2.8. Modelos cognitivos da Compreensão Leitora ......................................................... 36
3. OBJETIVOS .......................................................................................................... 39
3.1. Objetivo Geral ......................................................................................................... 39
3.2. Objetivos Específicos .............................................................................................. 39
3.3. Hipóteses ................................................................................................................. 40
4. MÉTODO............................................................................................................... 40
4.1. Participantes ............................................................................................................ 40
4.2. Procedimentos Éticos .............................................................................................. 42
4.3. Instrumentos ............................................................................................................ 42
4.3.1. Teste das Matrizes Progressivas Coloridas de Raven .............................................. 42
4.3.2. Teste Infantil de Nomeação..................................................................................... 43
4.3.3. CONFIAS - Teste de Consciência Fonológica: Avaliação Sequencial ................... 44
4.3.4. Teste Contrastivo de Compreensão Auditiva e de Leitura – (TCCAL)...................45
4.3.5. Sondagem do Nome ou Som das Letras.................................................................. 45
4.3.6. Prova de Escrita Sob Ditado ................................................................................... 46
4.3.7. Tarefa de Leitura de Palavras/Pseudopalavras Isoladas – LPI................................ 47
4.4. Procedimentos de Coleta de Dados ......................................................................... 48
4.4.1. Primeira etapa de coleta de dados: final da Educação Infantil ................................ 48
4.4.2. Segunda etapa de coleta de dados: 1º ano do Ensino Fundamental ........................ 49
4.5. Análise de Dados ..................................................................................................... 49
5. RESULTADOS ...................................................................................................... 49
5.1. Dados descritivos das variáveis avaliadas no último ano da Educação Infantil ..... 50
5.2. Correlação das variáveis avaliadas na Educação Infantil........................................ 51
5.3. Dados descritivos das variáveis avaliadas no 1º Ano do Ensino Fundamental ...... 52
5.3. Análises de regressão ............................................................................................... 53
5.3.1. Análises relativa à variável Escrita .......................................................................... 56
5.3.2. Análises relativa à variável Leitura de palavras ...................................................... 58
5.3.3. Análises relativa à variável Compreensão em leitura .............................................. 61
6. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS..................................................................... 64
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................... 68
8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................ 69
ANEXO A - Parecer do Comite de Ética em Pesquisa da FFCLRP - USP ........................... 82
ANEXO B - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (1ª. Etapa da pesquisa) ............ 83
ANEXO C - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (2ª. Etapa da pesquisa) ............ 85
ANEXO D - Teste Infantil de Nomeção (versão reduzida) (ex. de itens) ............................. 87
ANEXO E - Teste de Consciência Fonológica (CONFIAS) ................................................ 89
ANEXO F - Teste Constrastivo de Compreensão Auditiva e de Leitura (ex. de itens) ........ 95
ANEXO G - Sondagem do Nome ou Som das Letras ........................................................... 97
ANEXO H - Prova de Escrita sob Ditado .............................................................................. 98
ANEXO I - Tarefa de Leitura de Palavras Isoladas (LPI) .................................................... 99
12
1. INTRODUÇÃO
Ler e escrever são habilidades essenciais para o exercício de uma cidadania plena. Para
tanto, a alfabetização é um processo indispensável para a apropriação do sistema de escrita e
para a sua utilização eficiente nas práticas sociais que demandam a leitura e a escrita. A partir
das últimas décadas, esse conceito foi ampliado em razão das necessidades sociais. Hoje se
considera alfabetizado aquele que aprendeu a ler e escrever, que sabe expressar ideias e
apropriar-se dos sentidos inscritos no texto (Soares & Maciel, 2000). É para melhor definir essa
nova dimensão da entrada do alfabetizado no universo da cultura escrita, que se cunhou uma
nova palavra - “letramento”. De acordo com Soares e Batista (2005), letramento é o conjunto
de conhecimentos, atitudes e capacidades envolvidos no uso da língua escrita em práticas
sociais e necessários para uma participação ativa e competente na cultura escrita.
Soares (2006) afirma que, para viver no mundo do conhecimento, o educando necessita
dos dois tipos de competências: o domínio do sistema de escrita em seus aspectos alfabético e
ortográfico, que se obtém através da alfabetização, e o domínio de competências relacionadas
ao uso desse sistema, ou seja, saber ler e escrever em diferentes contextos e situações, que se
obtém através do letramento. Embora reconhecendo a especificidade dos dois conceitos, a
autora considera um equívoco dissociar alfabetização de letramento, já que, nas concepções
psicológicas, psicolinguísticas e linguísticas de leitura e escrita, a entrada no mundo da escrita
ocorre simultaneamente através desses dois processos, ou seja, através da aprendizagem do
sistema convencional de escrita - alfabetização - e pelo desenvolvimento das habilidades
adquiridas nas práticas sociais que envolvem leitura e escrita, o letramento (Soares, 2004).
No Brasil, diante do desafio de tornar alfabetizados todas as crianças e jovens, há muito
que melhorar. A pesquisa feita em 2012 pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos,
o Pisa, desenvolvido e coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE) e aplicado, no Brasil, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais Anísio Teixeira (INEP), mostrou que, dos 65 países analisados, o Brasil obteve
o 55º lugar no que se refere à competência em leitura. Da mesma forma, em avaliações como
a realizada em 2013 pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) e o Exame
Nacional do Ensino Médio (ENEM), o desempenho dos estudantes revela um dado
preocupante: os baixos índices de compreensão de leitura. Levando em consideração que esses
exames requerem que os jovens demonstrem capacidade de raciocínio e reflexão, e não de
citação de informações memorizadas, pode-se perceber que a dificuldade encontrada pelos
alunos para responder às questões de leitura põe em evidência a qualidade do ensino básico no
13
país, fato que preocupa e requer empenho e pesquisas para apontar possíveis soluções para o
problema.
Em 2011, o Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do estado de São Paulo
(SARESP) avaliou o desempenho em língua portuguesa de estudantes no 3º ano do ensino
fundamental das redes municipal e particular. Os resultados apontaram uma discrepância, com
desempenhos insuficiente ou regular (escrever sem respeitar as correspondências do código
ortográfico) em 29,3% dos alunos da rede pública e apenas 6,1% dos alunos da rede particular,
mostrando uma fragilidade perto de 5 vezes maior da rede pública de ensino em comparação
com a rede privada.
Na tentativa de reverter este quadro, foi instituído pelo Ministério da Educação, por
meio da Portaria nº 867, de 4 de julho de 2012, o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade
Certa (PNAIC). O Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa é um compromisso formal
assumido entre Governo Federal, Distrito Federal, Estados, Municípios e sociedade a fim de
assegurar que todas as crianças estejam alfabetizadas até, no máximo, os 8 anos de idade, ao
final do 3º ano do Ensino Fundamental na rede pública de ensino (Brasil, 2012). No entanto, a
Avaliação Nacional da Alfabetização (2014), que avalia os alunos no 3º do Ensino
Fundamental, aos 8 anos de idade, mostrou que 22,21% dos alunos apresentam desempenho
inadequado para a leitura e 34,46% para a escrita.
O PNAIC chama a alfabetização até os 8 anos de “idade certa”. No entanto, de acordo
com Morais (2014), não existe fundamento científico para se definir uma idade certa para a
alfabetização. A idade para se iniciar a alfabetização se altera de acordo com os países e estas
diferenças são frutos de uma tradição histórica e/ou reformas por reações políticas em
observação aos resultados escolares. Logo, segundo o autor, a consequência do mito da “idade
certa” pelo PNAIC é garantir a reprodução da divisão da população entre elite e massa. Na rede
particular de ensino, a maioria das crianças entram no 1º ano dominando os fundamentos da
escrita e já estão alfabetizadas ao término deste ano, e com este pacto, se estabelece que as
crianças da rede pública precisam de três anos para aprender o que as outras aprendem em um
ano. Contudo, se o objetivo político é alfabetizar todas as crianças, nas melhores condições
para cada uma, deve-se tomar a decisão de prepará-las para a leitura no último ano da pré-
escola e alfabetizar durante o 1º ano (Morais, 2014).
A Educação Infantil no Brasil, etapa de ensino que atualmente compreende a creche (0-
3 anos) e a pré-escola (4-5 anos), tem registrado avanços no campo de conhecimento e nas
políticas públicas nos últimos vinte anos. No entanto, verificamos uma discrepância entre estes
avanços e as práticas e os procedimentos nestas instituições. Em relação aos avanços, é
14
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
se na sociedade, para atingir suas metas pessoais e desenvolver seu conhecimento e potencial”
(Kirsch & Jungeblut, 1990 apud Soares, 2004).
Colello (2010) defende a ideia de que é nas práticas sociais que a linguagem ganha
sentido, assume valores e é reconhecida, colocando em evidência as estruturas de poder da
sociedade. Nessa perspectiva, o conceito de letramento carrega um importante caráter
ideológico, que merece ser considerado nas práticas sociais e escolares. Desta forma, o
letramento está intrinsicamente ligado à possibilidade do indivíduo atuar criticamente na
sociedade. Para tanto, é preciso que professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental
desenvolvam esta prática ao longo dos anos de escolarização dos alunos (Soares, 2010).
Segundo (Kleiman, 2005, p.11), “O letramento não é alfabetização, mas a inclui!”. Para
a autora, o letramento é um processo que envolve, além de habilidades e competências
específicas por parte do leitor, múltiplas capacidades e conhecimentos que não tem
obrigatoriamente relação com a leitura escolar como, por exemplo, a leitura de mundo. Defende
também uma relação de continuidade entre o oral e o escrito. Assim, o letramento tem início
antes da alfabetização, quando a pessoa começa a interagir socialmente com as práticas
relacionadas à leitura e a escrita.
A promoção do letramento deve ocorrer desde muito cedo na vida, desde a idade pré-
escolar (Gillen & Hall, 2013). Surge assim, um novo conceito de letramento - o letramento
emergente - um processo baseado no desenvolvimento de competências linguísticas, bem como
de conhecimentos a respeito da leitura e da escrita em idade pré-escolar.
“Emergent Literacy” é atribuída a Marie Clay (1966). Contudo, foi através da publicação do
livro de Teale e Sulzby intitulado “Emergent Literacy: Reading and Writing”, publicado em
1986, que este campo de estudo foi formalizado. Em Portugal, por outro lado, usa-se o termo
literacia precoce ou emergente, enquanto que os países latino-americanos, de língua espanhola,
optam por alfabetización temprana (Kishimoto, 2010).
Nesta perspectiva, o termo letramento emergente é utilizado para designar a
aprendizagem da língua escrita como um processo de desenvolvimento contínuo, com suas
origens no início da vida de uma criança. Esta nova conceituação questiona as perspectivas
sobre alfabetização que defendem a “prontidão para leitura” como resultado de uma maturação
biológica, estabelecendo uma fronteira entre as habilidades consideradas precursoras da leitura
e escrita e sua instrução formal (Whitehurst & Lonigan, 1998). Na perspectiva maturacionista,
as experiências individuais das crianças com a leitura e a escrita não eram vistas como
importantes, pois os educadores não privilegiavam o desenvolvimento da linguagem oral ou o
contato com material impresso pelas crianças (Viana & Teixeira, 2002).
Desta forma, na perspectiva do letramento emergente, o conceito de “prontidão” ou de
“pré-requisitos” para a aprendizagem é substituído pelo conceito de “competências
facilitadoras” da leitura e escrita. De acordo com Viana et al. (no prelo), esta mudança
conceitual é importante porque a leitura e a escrita são aprendizagens de ordem cultural. A
linguagem escrita tem de ser ensinada e aprendida, necessitando, portanto, de instrução formal,
ao contrário da linguagem oral, cujo aprendizado é adquirido naturalmente através da
exposição. Sendo assim, o conceito de letramento emergente traz a ideia de que, no seu
desenvolvimento, a partir do contato com material impresso e situações envolvendo a língua
escrita, as crianças aprendem, mudam e vão refinando seus conhecimentos e suas estratégias
na abordagem da leitura e escrita (Sulzby & Teale, 1991).
Segundo Smith e Dickinson (2002) o letramento emergente é pautado num conjunto de
pressupostos: (i) é um processo de desenvolvimento contínuo, que se inicia nos primeiros anos
de vida e na ausência de instrução formal; (ii) as habilidades da fala, leitura e escrita se
desenvolvem de forma gradual e estão intimamente ligadas; (iii) o letramento emergente se
desenvolve à medida que a criança faz uso da fala, leitura e escrita em qualquer situação de
interação; (iv) os conhecimentos, atitudes e capacidades do letramento emergente
desenvolvidos em idade pré-escolar favorecem a aprendizagem da leitura e escrita, bem como
o seu desenvolvimento a longo prazo.
É importante considerar que a pesquisa sobre letramento emergente tem se
desenvolvido a partir de diferentes referenciais teórico-metodológicos. Inicialmente esteve
18
das palavras através das orientações do adulto, relativas aos aspectos fonológicos, bem como a
experiência de articular vocabulário desconhecido, estimulando a percepção das normas
gramaticais e o desenvolvimento das competências narrativas. A criança começa assim a tomar
consciência do material impresso, podendo desenvolver comportamentos de leitor e escritor, a
refletir sobre a linguagem escrita e a sua associação com a linguagem oral e a compreender a
linguagem como um meio de comunicação (Commission Scolaire Marie-Victorin, 2004 apud
Gomes & Santos, 2005).
Hilbert e Ellis (2013) descrevem os resultados de uma intervenção em letramento
emergente com crianças pré-escolares de baixa renda. Tratou-se de um delineamento quase-
experimental, com uma amostra composta por 154 crianças. Para tanto foi usado o “Read It
Again Pre-K! (RIA) ”, programa de intervenção com foco no desenvolvimento das habilidades
de narrativa, vocabulário, conhecimentos sobre a escrita e consciência fonológica. De acordo
com o NELP (2008), o RIA é um dos programas de intervenção mais importantes, que visa
preparar as crianças para o sucesso na leitura. Este estudo revelou a eficácia da intervenção em
comparação com o grupo controle, com diferenças estatísticas significativas para habilidades
de vocabulário, consciência fonológica e conhecimento sobre a escrita. O estudo sugere
também a possibilidade de impedir atrasos no processo de alfabetização através de intervenção
pré-escolar.
Discutindo a contribuição de fatores sociais para o letramento emergente, Phillips e
Lonigan (2010) se concentraram em fatores extrínsecos à criança que afetam o processo de
aprendizagem. Os autores concluíram que a falta de determinadas experiências relacionadas à
linguagem oral e escrita pode interferir no desempenho em habilidades consideradas
importantes para a aprendizagem da leitura, como o conhecimento das letras e vocabulário.
A qualidade das experiências das crianças com materiais e práticas de leitura e escrita
relaciona-se inegavelmente com o nível socioeconômico de sua família (Chiu & Mcbride-
Chang, 2006). O nível socioeconômico é um fator que permite a identificação de outros
aspectos que interferem no desenvolvimento da alfabetização, como por exemplo, o nível de
letramento do ambiente familiar (Kirby & Hogan, 2008). Um estudo detalhado que
acompanhou a exposição das crianças à leitura em casa, e o desenvolvimento da linguagem a
cada mês, de 12 a 36 meses, revelou que o tamanho médio dos enunciados das crianças e a
diversidade de palavras utilizadas por elas (uma avaliação do vocabulário produtivo) aos três
anos de idade estão relacionados com o desempenho dessas crianças na pré-escola e nas
avaliações de nível geral da linguagem, ortografia e leitura (Walker et al., 1994).
21
2.4.Conhecimento de letras
fonéticas em seus nomes (letra-som); no número de sons aos quais estão associadas; e na
similaridade visual entre suas formas maiúscula e minúscula. Estas diferenças, entre o
repertório inicial das crianças e entre as características das letras, representam um desafio aos
educadores para uma instrução efetiva. Para tanto, os professores devem utilizar uma avaliação
para planejar uma instrução do alfabeto que atenda as diferentes necessidades das crianças na
sala de aula (Piasta, 2014).
De acordo com o National Early Literacy Panel (2008), o conhecimento das letras é
um dos melhores preditores para a alfabetização, apresentando correlações significativas com
leitura e escrita. A correspondência letra-som é a construção básica das escritas alfabéticas.
Crianças que compreendem o “princípio alfabético”, onde as palavras consistem de letras, e
que as letras servem para mapear (representar) sons, alcançam um passo importante para ler e
escrever (Piasta, 2014).
O conhecimento do nome das letras parece influenciar o desenvolvimento da
consciência fonológica provavelmente porque, na maior parte dos casos, os nomes das letras
contêm pistas fonéticas sobre os sons que elas representam, induzindo a reflexão sobre as
propriedades sonoras da fala. No entanto, ensinar apenas o nome das letras não produz
benefícios significativos na leitura, sendo necessário combinar o treino fonológico com o
ensino das letras (Adams, 1998).
Em um estudo brasileiro, Cardoso-Martins e Batista (2005) buscaram investigar se as
crianças usavam o seu conhecimento do nome das letras em suas primeiras tentativas de
conectar a fala à escrita. Participaram desta pesquisa 25 crianças, de ambos os sexos, com idade
entre 4 e 5 anos e média de idade de 66,32 meses. Foi solicitado às crianças que escrevessem
pares de palavras com a mesma letra e o mesmo som consonantal. Para cada par de palavras, o
nome da primeira letra podia ser pronunciado em apenas uma das palavras (ex.: telefone), mas
na outra não (ex.: tartaruga). As crianças escreveram corretamente a primeira letra com maior
frequência para palavras como telefone do que para tartaruga. Isto indicou que as crianças
utilizam o seu conhecimento do nome das letras para a escrita de palavras, pelo menos quando
o nome inteiro da letra pode ser detectado na pronuncia da palavra.
Em um estudo longitudinal recente, Lerner e Lonigan (2016) buscaram examinar a
relação entre o conhecimento das letras e a emergência da consciência fonológica durante a
pré-escola. Participaram deste estudo 358 crianças, com idade média de 48,6 meses. Modelos
estatísticos foram usados para quantificar as relações entre o nível inicial de cada habilidade e
o crescimento na outra habilidade durante o ano na pré-escola. Os resultados deste estudo
demonstraram relação no crescimento das duas habilidades. Ou seja, as crianças que
26
2.5.Vocabulário
voltado para crianças pequenas (isto é, antes da leitura convencional) (Marulis & Neuman,
2013).
O vocabulário tem um papel importante no desenvolvimento da linguagem oral,
facilitando posteriormente a compreensão leitora. No entanto, pesquisas mostram diferenças
na extensão e profundidade do vocabulário entre crianças de diferentes níveis socioeconômicos
e sua consequência para a alfabetização. Torna-se importante evitar que estas dificuldades se
agravem, buscando intervir, desde a pré-escola, para aprimorar o vocabulário, considerado
habilidade de letramento emergente, potencializando assim o desenvolvimento da linguagem e
prevenindo futuras dificuldades na leitura.
A compreensão oral é uma habilidade fundamental não só para a interação social, mas
também para a alfabetização (Snow et al., 1998) e pode ser definida como a capacidade de
ouvir, entender e interpretar um discurso falado (Gondim, 2008). Logo, a compreensão oral
está relacionada àquilo que a criança se lembra da comunicação feita ou à aplicação das
informações a partir do que ouviu, ou ainda ligada às relações causais estabelecidas entre os
elementos na comunicação, a fim de lhes atribuir sentido (Paris & Stahl, 2005). A compreensão
oral exige atenção focada para processar uma grande quantidade de informação linguística.
Exige ir além do significado das palavras e frases individuais, para fazer uma conexão entre as
ideias (Kim & Phillips, 2014).
De acordo com a teoria da “Simple View of Reading” ou visão simples da leitura, a
compreensão oral junto com a leitura de palavras (decodificação) é uma das duas habilidades
necessárias para a compreensão da leitura. Nessa teoria, a compreensão de leitura é concebida
como o resultado da multiplicação da habilidade de compreensão oral pela habilidade de
identificação de palavras escritas (Gough & Tunmer, 1986). Neste modelo, ambos os
componentes são necessários para a compreensão em leitura, mas nenhum é suficiente. As
correlações entre o desempenho na compreensão leitora e o resultado dos desempenhos em
testes de compreensão oral e identificação de palavras são fortes, iguais ou superiores a 0,85
nos três primeiros anos de ensino (Hoover & Gouch, 1990). Segundo alguns estudos, a
habilidade de compreensão oral na pré-escola prevê a habilidade em compreensão de leitura
nas séries posteriores (Storch & Whitehurst, 2002).
31
De acordo com Hirsch (2003), a instrução em compreensão oral deve começar antes
que a criança possa ler por conta própria. A instrução em compreensão oral deve se concentrar
na construção de competências linguísticas nas crianças, as quais são consideradas precursoras
da compreensão de leitura, como por exemplo o vocabulário. Segundo Lepola et al. (2012),
uma boa compreensão oral leva a maiores oportunidades para aprender vocabulário, e o
aumento do tamanho do vocabulário, por sua vez resulta em melhor compreensão oral.
A leitura partilhada de histórias constitui uma ótima atividade para promoção da
compreensão oral, favorecendo a produção de inferências em crianças pré-escolares (Zucker et
al., 2010). A compreensão oral das histórias é um processo complexo de construção de
significado que requer o uso simultâneo de diferentes competências, como a análise da
estrutura da história, das relações entre os elementos e da compreensão dos pensamentos e
sentimentos das personagens (Wenner, 2004).
Bianco et al. (2010), em um estudo longitudinal, buscaram investigar os efeitos do
treinamento em compreensão oral para crianças pré-escolares. Participaram desta pesquisa
1.273 crianças, com 4 anos de idade (m= 4 anos e 5 meses). As crianças foram divididas em
três grupos (dois experimentais e um controle). Para o grupo (A), o treinamento envolvia
apenas a leitura de um conto de fadas. Para o grupo (B) o programa de treinamento envolvia
instrução explicita em compreensão e foi trabalhada a detecção de inconsistências no texto,
inferências e estrutura do texto. Os resultados mostraram que para o grupo (A) não foi obtida
diferença significativa entre o grupo experimental e controle. No entanto, para o grupo (B), foi
obtida diferença significativa entre os grupos controle e experimental. Os resultados deste
estudo mostraram que é possível melhorar a compreensão oral das crianças com um
treinamento cuja duração seja maior do que dois meses e que tenha como objetivo a instrução
explícita de habilidades de compressão. Quando foram satisfeitas estas condições, os efeitos
do treinamento persistiam após nove meses do término do programa.
Estima-se que 10% a 15% dos Transtornos de Leitura sejam caracterizados pelo quadro
de Transtorno de Compreensão. Nesta perspectiva, subjacentes a esse tipo de transtorno
poderiam estar os déficits em habilidades de linguagem oral, como a compreensão oral,
vocabulário e sintaxe ou alterações nos processos mais específicos à leitura, como a
sensibilidade à estrutura do texto e capacidade de realizar inferências (Dias & Oliveira, 2013)
Dado que a compreensão oral é fundamental para a posterior compreensão da leitura e
que prejuízos nesta habilidade podem acarretar em transtornos de compreensão, é necessário
reconhecer a importância da promoção da compreensão oral nos anos pré-escolares, bem como
estratégias eficazes para o seu desenvolvimento.
32
apresentam dificuldades importantes para este processo. Para tanto, os termos “dislexia” e
“transtorno específico da leitura” são usados para caracterizar este padrão sintomático. Estima-
se que o transtorno de leitura ocorra em 10% a 15% da população de crianças em idade escolar
(Fletcher & Barnes, 2002 apud Vellutino & Fletcher, 2013).
Nos últimos 30 anos, a literatura tem apontado que a Dislexia está relacionada a um
déficit na aquisição das habilidades fonológicas, como a consciência fonológica e a
decodificação fonológica (letra-som). De acordo com Dehaene (2012), as crianças disléxicas
sofrem de uma representação imperfeita dos sons da sua língua (fonemas), acarretando em uma
imprecisão na representação das palavras faladas e consequentemente, dificultando a
correspondência com os signos escritos. Desta forma, uma decodificação fonológica fraca,
pode acarretar em outros problemas que contribuem para aumentar as dificuldades na aquisição
da leitura. As falhas nas habilidades fonológicas parecem resultar em dificuldade para
estabelecer o vínculo associativo entre a fala e a forma escrita de uma palavra. Em
contrapartida, uma dificuldade na identificação de palavras, levaria a uma dificuldade na
fluência leitora, prejudicando assim, a compreensão do material lido (Vellutino & Fletcher,
2013).
No entanto, as pesquisas têm demostrado um efeito positivo do treinamento das
habilidades fonológicas sobre o desempenho da leitura em crianças disléxicas. Por exemplo,
os estudos de Raschotte et al (2001) e Torgesen et al (2003), realizaram intervenções com
crianças que apresentavam dificuldades de leitura, no nível da palavra, de moderadas a severas.
Os métodos consistiram em instrução explícita em habilidades de consciência fonêmica e
decodificação fonêmica. Os resultados destes estudos mostraram uma consistência notável nas
taxas de crescimento para as habilidades de decodificação fonêmica, precisão na leitura de
palavras e compreensão de texto.
Ehri (2005) acrescenta que a leitura não se restringe ao reconhecimento de palavras
isoladas. Seu objetivo principal é a compreensão do material lido. Para isso, a identificação de
palavras é uma condição necessária, mas não suficiente. Assim, considerar uma criança como
alfabetizada vai muito além da capacidade de reconhecer palavras isoladas, envolvendo a
competência em compreender o conteúdo lido.
36
A compreensão é o objetivo final da leitura (Nation, 2013). Dada a sua importância para
o contexto educacional, a compreensão leitora tem despertado interesse de pesquisadores e
educadores pela sua complexidade e relevância para a aprendizagem, desde a educação infantil
até os níveis mais altos de ensino (Spinillo & Hodge, 2012).
No entanto, pesquisadores concordam que a compreensão da leitura não se trata de uma
simples tarefa de reconhecer ou entender o que cada palavra individual significa. Todos os
modelos de compreensão apontam para a necessidade da construção de uma representação
mental do material lido. Este processo envolve a integração de várias fontes de informações,
desde características lexicais ao conhecimento de mundo do leitor (Nation, 2013).
A partir da década de 1980, modelos teóricos têm tentado esclarecer o processo de
compreensão da leitura. O modelo da “Simple View of Reading” ou Visão Simples da leitura
de Gough e Tunmer (1986) trata a compreensão da leitura como resultado da interação entre
as habilidades de reconhecimento de palavras e compreensão oral. Neste modelo, o
reconhecimento de palavras (decodificação) é uma habilidade específica aos processos de
leitura, enquanto a compreensão se refere a uma habilidade global, que compreende tanto o
material escrito quanto os conteúdos oralmente transmitidos. De acordo com esta teoria, a
contribuição de cada uma destas habilidades para a compreensão de leitura varia em função da
competência dos leitores. Para os leitores iniciantes, o reconhecimento de palavras contribui
mais fortemente para a compreensão e, ao passo que eles automatizam as relações grafema-
fonema, a compreensão oral se torna mais importante para este processo. Com efeito, a
influência da habilidade de reconhecimento de palavras diminui conforme as crianças avançam
no ensino fundamental. A partir do 3º. ano de escolarização formal, a leitura de palavras tende
a se automatizar, havendo pequena variação entre a maior parte dos alunos no que diz respeito
a essa competência básica, por outro lado, a importância da compreensão oral tende a aumentar
(Tilstra et al., 2009). Um estudo longitudinal realizado por Adlof et al. (2006), onde 604 alunos
foram acompanhados desde a segunda até a oitava série, também apoia esta mudança do poder
relativo das competências relacionadas com a compreensão da leitura. Este estudo também
revelou a importância das habilidades de reconhecimento de palavras para a leitura inicial das
crianças, sendo que a habilidade de compreensão oral continua a aumentar junto com a
escolaridade.
O modelo de compreensão de leitura proposto por Kintsch (1998), foi denominado
Construção-Integração (CI). Neste modelo, a compreensão do texto ocorre pela integração das
37
informações fornecidas pelo texto com o conhecimento de mundo do leitor. Desta forma, este
modelo pressupõe duas instâncias: a base textual, que compreende o significado que está
explícito no texto (processos lexicais, sintáticos e textuais) e o modelo situacional, onde o leitor
constrói sentidos, integrando novas informações àquelas que já estão postas no texto,
elaborando um modelo mental da situação descrita no texto. Neste modelo, as inferências
assumem um papel primordial na compreensão de textos, pois desempenham papel
fundamental na formação do modelo situacional.
A capacidade para fazer inferências representa o nível mais complexo de compreensão.
A compreensão inferencial implica a análise do conteúdo implícito e constitui, para alguns
autores, a verdadeira essência da compreensão. Pesquisadores descobriram uma relação entre
a habilidade para fazer inferência e a compreensão oral em crianças pré-leitoras (Kendeou et
al., 2008). A capacidade para estabelecer inferências é uma das características que diferencia
os bons dos maus leitores. O estabelecimento de inferências parte do pressuposto de que nem
tudo está explícito no texto e que o leitor terá que preencher as lacunas deixadas pelo autor. As
inferências são estabelecidas a partir da integração do texto com os conhecimentos prévios do
leitor (ou conhecimento de mundo) (Spinillo & Hodges, 2012). O conhecimento prévio resulta
das informações acumuladas ao longo da história de vida do leitor, adquiridas através de
aprendizagens formais ou informais (Coscarelli, 2003).
De acordo com estes modelos teóricos, a compreensão de leitura inclui vários processos
cognitivos que estão relacionados. Para uma boa compreensão leitora, é necessário o
desenvolvimento dos processos básicos de leitura, como a decodificação e extração do
significado das palavras (vocabulário), aliados aos processos cognitivos considerados mais
complexos, como por exemplo, as inferências. Desta maneira, transpor a barreira da
decodificação, passando para a automatização da identificação das palavras se constitui numa
habilidade indispensável para a compreensão.
Crianças em processo de alfabetização tendem a ter sua compreensão de leitura
prejudicada, pois neste momento grande parte da sua atenção está focada na conversão
grafema-fonema. Ao passo que vão se tornando decodificadores fluentes e se familiarizando
com a forma visual das palavras, é constituído um léxico mental ortográfico. Esta condição vai
possibilitar o reconhecimento visual direto das palavras, sem necessidade de decodificação
grafo-fonêmica, automatizando este processo, o que vai favorecer o deslocamento da atenção
da decodificação para a compreensão do texto (Morais et al, 2013).
A relação entre a fluência e a compreensão leitora, revela que o processamento lento da
palavra vai interferir na automaticidade da leitura e consequentemente na compreensão. Logo,
38
o leitor que possui fluência em leitura, terá melhor habilidade de compreensão (Perfeti, 1985).
A fluência na leitura oral é medida pelo número de palavras lidas corretamente dividido pelo
tempo total de leitura, portanto, constitui-se numa estimativa da precisão e da rapidez. Se não
é alcançado um determinado nível de velocidade de leitura, a compreensão do texto fica então
prejudicada (Morais et al, 2013).
De acordo com Kuhn et al. (2010), a fluência de leitura oral combina precisão,
automaticidade e prosódia, que juntos, facilitam a construção de significado pelo leitor. Os
aspectos prosódicos da comunicação se dão por meio de: intensidade, ênfase, velocidade, ritmo
frasal e tempo, desempenhando a função de organizar as mensagens verbais. A aplicação da
prosódia correta de um texto é um componente da fluência de leitura, visto que ela colabora
para a compreensão do texto lido (Ravid & Mashraki, 2007).
O termo compreensão de leitura caracteriza a leitura competente, ou seja, o produto
final da interação entre reconhecimento de palavras e a compreensão da linguagem oral, como
proposta por Gough e Tunmer (1986). No entanto, termo “dificuldade de compreensão”
frequentemente é usado para fazer referência às crianças que, apesar de lerem palavras isoladas
com precisão apropriada para sua idade, apresentam dificuldades de compreensão de leitura
(Nation & Norbury, 2005). Tal padrão de desempenho indica que, nesses casos, as dificuldades
de compreensão da leitura são uma manifestação da dificuldade de compreensão da linguagem
oral (Deacon & Tong, 2013), o que pressupõem o envolvimento de outras habilidades como
vocabulário receptivo e expressivo, compreensão auditiva, consciência sintática, entre outras
competências comuns à linguagem oral (Seabra, 2012).
Estudos realizados com crianças que apresentam dificuldades específicas de
compreensão possibilitam a identificação dos sistemas cognitivos que podem ser fundamentais
para o desenvolvimento da compreensão da leitura, e que sejam relativamente independentes
dos processos envolvidos na decodificação (Nation, 2013). Em um estudo longitudinal, Catts
et al. (2006) buscaram analisar o perfil das habilidades linguísticas de crianças com
dificuldades de compreensão em relação às crianças com desenvolvimento típico. Participaram
desta pesquisa, 182 crianças que foram acompanhadas da Educação Infantil até a 8ª série. Os
resultados mostraram que as crianças com dificuldades de compreensão em leitura
apresentaram dificuldades na compreensão oral, compreensão gramatical e no vocabulário
receptivo ao longo de todo o estudo.
Em um estudo de caráter experimental, Clarke et al. (2010), buscaram avaliar a eficácia
de três programas de intervenção que tinham como objetivo melhorar a compreensão de leitura
das crianças. Os programas incluíram: (1) treinamento em compreensão de textos; (2)
39
3. OBJETIVOS
3.2.Objetivos Específicos
3.3.Hipóteses
4. MÉTODO
4.1.Participantes
A escola está situada em um bairro residencial, que atende a uma clientela composta
predominantemente por famílias de nível socioeconômico médio e baixo.
A referida escola, no ano letivo de 2015, apresentava duas classes no último ano da
Educação Infantil, uma no período matutino e outra no vespertino. Das 47 crianças
matriculadas no último ano da Educação Infantil, 41 participaram da primeira etapa de coleta
de dados. As perdas ocorreram antes do início da coleta de dados e foram ocasionados por não
devolução do TCLE. Os participantes tinham idade entre 5 e 6 anos, com média de idade de 5
anos e 10 meses. Informações mais detalhadas dos participantes da primeira etapa da pesquisa
encontram-se na tabela 1, apresentada a seguir.
No segundo semestre de 2016, foi realizada a segunda etapa da coleta de dados, quando
os alunos já cursavam o 1º ano do Ensino Fundamental. Participaram desta etapa da pesquisa,
34 crianças. As sete perdas foram ocasionadas por transferência escolar, cujos alunos não foram
localizados. A idade média dos alunos na segunda etapa da pesquisa foi de 6 anos e 8 meses.
Informações mais detalhadas dos participantes da segunda etapa encontram-se na tabela 2. Das
34 crianças que participaram da segunda etapa da pesquisa, 26 permaneceram na mesma escola
e oito crianças foram transferidas e localizadas em quatro escolas diferentes, no mesmo
município.
Como critério de participação na pesquisa, as crianças deveriam ter frequência regular
à escola e não apresentar déficits perceptivos ou cognitivos. O caráter de participação
voluntária das crianças na pesquisa e a autorização prévia dos pais ou responsável foram
garantidos.
Idade-meses
Sexo n Média DP
Masculino 11 70,82 4,750
Idade-meses
Sexo n Média DP
Masculino 9 80,67 3,742
4.2.Procedimentos Éticos
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras de Ribeirão Preto – USP, número CAAE: 49081315.3.00005407 (Anexo A),
respeitando todas as diretrizes que regulamentam a pesquisa envolvendo seres humanos,
contidas na Resolução CNS 466/12 do Conselho Nacional de Saúde (Brasil, 2012).
Os pais ou responsáveis legais por todos os participantes assinaram os Termos de
Consentimento Livre e Esclarecido (Anexos B e C), sendo que também foi levada em
consideração a concordância das crianças em participarem voluntariamente da pesquisa.
De acordo com os princípios éticos, a pesquisa não prevê riscos ou danos aos seus
participantes. Além disso, após o término da pesquisa, poderá ser encaminhado à escola e aos
professores um feedback com os resultados do estudo.
4.3.Instrumentos
4.3.1. Teste das Matrizes Progressivas Coloridas de Raven (Angelini et al., 1999)
4.3.2. Teste Infantil de Nomeação (Versão Reduzida) (Seabra, Trevisan & Capovilla,
2012)
Este teste foi desenvolvido a partir do Teste de Nomeção de Boston (Kaplan, Goodglass
& Weintraub, 1983, apud Dias, Tortella & Seabra, 2012) e tem por objetivo avaliar a habilidade
do indivíduo em nomear verbalmente figuras que lhe são apresentadas. O teste possibilita a
avaliação da linguagem expressiva e acesso à memória de longo prazo, que armazena o nome
dos objetos. Pesquisas mostram que esta habilidade está altamente correlacionada com os
escores em testes de vocabulário (Thompson & Goulet, 1989 apud Seabra et al, 2012) e,
portanto, nesta pesquisa será utilizado como um indicador do vocabulário expressivo da
amostra estudada.
44
Essa prova foi desenvolvida especificamente para este estudo. O objetivo foi verificar
o conhecimento da criança em nomear as letras ou dizer seus sons. Cada letra, incluindo vogais
e consoantes, foi apresentada no formato de imprensa maiúscula, em fonte Arial preta, tamanho
72, sobre fundo branco. A ordem de apresentação foi aleatória e a mesma sequência foi mantida
para todas as crianças.
A pontuação pode variar de 0 a 26 pontos, considerando-se acertos tanto a verbalização
dos nomes quanto dos sons das letras. Nos sons, é considerado correto quando a criança diz
que a letra H não tem som, Y tem o som de I e W tem som de V ou U. Destaca-se que, como
esta prova foi desenvolvida especificamente para o presente estudo, não há padrões esperados
para o nível da educação infantil. A estrutura desta prova pode ser encontrada no Anexo G.
46
4.3.6. Prova de Escrita Sob Ditado (versão reduzida) - (Seabra et al., 2013)
Esta prova avalia a escrita na condição de ditado e pode ser aplicada para a faixa etária
de 6 a 11 anos. A prova é composta por 36 palavras que pertencem à lista de Pinheiro (1994,
apud Seabra, 2013) e variam na lexicalidade, na regularidade das correspondências
grafofonêmicas, na frequência de ocorrência no português brasileiro e no seu comprimento.
Quanto à lexicalidade, os itens podem ser palavras e pseudopalavras, que consistem em
palavras inventadas, com estrutura aceitável na língua, porém sem nenhum significado. Em
relação à regularidade das correspondências grafofonêmicas, considera-se que os itens podem
ser regulares, quando se pode aplicar regras unívocas de correspondência grafema-fonema, ou
irregulares, quando não se pode aplicar estas regras. O grau de ocorrência da palavra na língua
apresenta duas categorias: palavras de alta frequência (exemplo: casa) e palavras de baixa
frequência (exemplo: marca). Outra possibilidade de variação se dá em relação ao comprimento
do item, ou seja, seu número de letras ou de sílabas. Dos 36 itens da prova, 24 são palavras (12
de alta frequência e 12 de baixa frequência) e 12 são pseudopalavras, sendo18 dissílabos e 18
trissílabos.
O resultado do teste é obtido por meio da frequência de erros. É ainda possível pontuar
a frequência de erros separadamente para palavras e pseudopalavras. Para a classificação dos
sujeitos, a frequência de erros é convertida em pontuação-padrão por idade. Para tanto, é
computado um erro para cada um dos seguintes casos:
- desrespeito às regras básicas de correspondência grafema-fonema com a troca
de grafemas (e.g., para /empada/ escrever espada, para /palavra/ escrever
palabra);
- desrespeito às regras de posição (e.g., para /pássaro/ escrever pásaro, para
/empada/ escrever enpada);
- desrespeito, no caso de palavras, à escrita correta determinada pela ortografia
(e.g., para /texto/ escrever testo);
- acréscimo de grafema (e.g., para /folhas/ escrever folhias);
- omissão de grafemas (e.g., para /duas/ escrever dua);
- erro de acentuação tônica (e.g., para /vejam/ escrever vejão).
Para pseudopalavras, diferentes escritas são consideradas certas, desde que a pronuncia
resultante esteja de acordo com a forma fonológica ditada pelo aplicador (e.g., para /ezal/ são
consideradas certas as escritas ezal, esal, ezau e esau).
47
Esta tarefa avalia a precisão na leitura oral de palavras isoladas, que variam em suas
características psicolinguísticas de regularidade (estímulos regulares e irregulares),
lexicalidade (palavras reais e pseudopalavras), extensão (estímulos curtos e longos) e
frequência de ocorrência na língua (palavras frequentes e não frequentes). A tarefa pode ser
aplicada para crianças do 1º ano ao 7º ano do Ensino Fundamental.
O teste consiste de 60 estímulos, sendo 20 de cada categoria (palavras regulares,
irregulares e pseudopalavras). São consideradas palavras regulares para leitura aquelas em que
o som das letras, na conversão grafema-fonema, possui apenas uma correspondência unívoca.
Portanto, de acordo com as regras ortográficas, existe somente uma maneira de ler tais palavras.
Quando as relações grafema-fonema são ambíguas, consideram-se tais palavras como
irregulares, como no caso das palavras que apresentam o grafema <x>, que poder ser
pronunciado corretamente por [∫], [ks], [s] ou [z]. As pseudopalavras são palavras inventadas
que não possuem nenhum significado, porém mantêm a estrutura ortográfica de palavras
aceitas no português, permitindo a decodificação fonológica (Salles & Parente, 2007). As
palavras reais variam quanto à frequência, segundo a lista de frequência de ocorrência de
palavras expostas a crianças na faixa de pré-escola e séries iniciais, desenvolvida por Pinheiro
(1996, apud Salles et al., 2013).
A instrução é que os participantes leiam em voz alta todos os estímulos, logo após sua
apresentação. As respostas são gravadas para posterior transcrição. Os estímulos são
apresentados individualmente, em fonte Arial preta, minúscula, tamanho 24, sobre fundo
branco. A tarefa possui seis itens-treino, cujo desempenho não é computado. Inicialmente
apresenta-se a lista com as 40 palavras reais (20 regulares e 20 irregulares) e depois as 20
pseudopalavras, também precedidas de dois itens treino.
Para a pontuação, são somados os acertos totais (máximo = 60 pontos) e nas categorias
palavras reais regulares (máximo = 20 pontos) e irregulares (máximo = 20 pontos) e
48
A coleta de dados aconteceu em duas etapas, uma ao final da Educação Infantil e outra
no 1º ano do Ensino Fundamental, com intervalo de 10 meses entre as coletas.
Em cada uma das etapas da pesquisa, os testes foram administrados em sessões
individuais, com duração de aproximadamente 30 minutos cada, com exceção da Prova de
escrita sob ditado, cuja aplicação ocorreu em grupos de quatro a seis crianças.
As sessões de coleta de dados foram realizadas no ambiente escolar, durante o período
letivo e em sala silenciosa, que foi disponibilizada para a pesquisadora. Antes de iniciar as
sessões, a pesquisadora se dirigia até a sala de aula dos alunos participantes da pesquisa e
explicava que eles sairiam da sala de aula quando a professora pedisse para eles participarem
de uma outra atividade, numa sala mais tranquila. Desta forma, as professoras indicavam as
crianças que podiam sair da sala, em função do término das suas atividades. Uma criança saia
da sala e quando voltava, a professora encaminhava outra. A aplicação dos testes aconteceu de
forma tranquila.
A primeira coleta de dados ocorreu durante todo o mês de novembro de 2015 e foram
realizadas três sessões de avaliação individual com cada criança. Nesta primeira etapa, foram
aplicados os seguintes instrumentos:
1ª Sessão: Matrizes Progressivas Coloridas de Raven e Teste Infantil de Nomeação;
49
5. RESULTADOS
Tabela 4. Dados descritivos das variáveis avaliadas no último ano da Educação Infantil.
Shapiro-Wilk
N = 41 Mínimo Máximo Média DP
Statist. Sig.
Raven (bruto) (0-36) 12 28 18,12 3,429 0,948 0,059
C. Fonológica (0-70) 15 54 34,37 9,853 0,979 0,622
Conhecimento de letras (0-26) 3 26 17,76 7,777 0,870 0,000*
Nomeação (0-60) 17 43 31,54 6,972 0,965 0,231
Compreensão Oral (0-40) 19 39 30,93 4,344 0,955 0,107
*p < 0,001
A partir dos resultados obtidos com a aplicação dos instrumentos, foram realizadas
comparações em função das turmas (matutino e vespertino). Para a comparação dos resultados
das variáveis de potencial cognitivo, consciência fonológica, nomeação (vocabulário) e
compreensão oral, cujos resultados apresentaram distribuição normal, aplicou-se o Teste t para
amostras independentes (paramétrico). Para a variável conhecimento de letras, cujos resultados
se afastam da normalidade, foi utilizado o teste de Mann Whitney, técnica não paramétrica que
permite a comparação de duas amostras independentes. Não foram observadas diferenças
estatisticamente significativas para nenhuma das variáveis estudadas, sugerindo um
desempenho equivalente dos participantes independentemente da turma, o que nos permitiu
trabalhar com os participantes das duas turmas como uma única amostra.
A análise dos resultados da amostra, composta por 41 crianças de ambos os sexos,
pertencentes ao último ano da educação infantil, alunos de duas turmas, indicou que nenhuma
51
Tabela 5. Classificação no Teste das Matrizes Progressivas Coloridas de Raven (percentis) das crianças
do último ano da Educação Infantil.
Nesta primeira etapa da pesquisa, também foi possível realizar uma análise da relação
entre as competências de letramento emergente avaliadas, através do cálculo de correlação de
Spearman (rho), teste não-paramétrico, que possibilita medir a direção e intensidade da relação
entre variáveis. Deste modo, aplicou-se o teste para medir o grau de associação entre as
variáveis consideradas preditoras do desempenho em leitura e escrita (consciência fonológica,
conhecimento de letras, nomeação e compreensão oral). Na tabela 6 encontram-se os resultados
do cálculo das correlações de Spearman.
Nesta análise, foi encontrada uma correlação positiva forte1 entre consciência
fonológica e conhecimento de letras (rho = 0,77; p = 0,001). Correlações positivas moderadas
foram encontradas entre nomeação e compreensão oral (rho = 0,64, p = 0,001), nomeação e
consciência fonológica (rho = 0,65; p = 0,001), compreensão oral e consciência fonológica
(rho = 0,57; p = 0,001) e nomeação e conhecimento de letras (rho = 0,40, p = 0,009). Por fim
foi encontrada fraca correlação entre compreensão oral e conhecimento de letras (rho = 0,33;
p = 0,034). Estes dados apontam que as habilidades de consciência fonológica se relacionam
mais fortemente com o conhecimento de letras.
Shapiro-Wilk
N = 34 Mínimo Máximo Média DP
Statist. Sig.
Escrita - total (FME)
0,19 5,8 2,92 1,78 0,931 0,034*
(0-5,8)
Leitura - palavras
0 54 14,88 20,13 0,728 <0,001***
(0-60)
Compreensão - leitura
0 38 11,56 15,99 0,680 <0,001***
(0-40)
*** p<0,001 **p<0,01 *p<0,05 FME = Frequência média de erros
1
Foram consideradas correlações fortes os valores entre 0,7 e 0,99, correlações moderadas valores entre
0,4 e 0,69 e correlações fracas, entre 0 e 0,39 (Reidy & Dancey, 2006).
53
A partir dos resultados obtidos com a aplicação dos instrumentos, foram realizadas
comparações em função das escolas dos participantes (inicial e transferidas). Para a
comparação do resultado das variáveis de leitura, escrita e compreensão, cujos dados se
afastaram da normalidade, foi utilizado o teste não paramétrico de Mann Whitney, técnica que
permite a comparação de duas amostras independentes. Não foram observadas diferenças
estatisticamente significativas, sugerindo um desempenho equivalente dos participantes
independentemente de continuarem ou não na mesma escola, o que nos permitiu também
considerá-los como uma amostra relativamente homogênea. A seguir são apresentadas as
análises de regressão efetuadas de acordo com cada uma das variáveis estudadas.
Para a condução das análises, inicialmente será apresentada a tabela de correlação entre
as variáveis preditoras e as variáveis dependentes. Foi utilizado o teste não paramétrico de
Sperman (rho) para calcular as correlações, visto que os dados das variáveis de leitura, escrita
e compreensão leitora, se afastam da distribuição normal.
As análises de regressão foram realizadas a fim de verificar a contribuição das variáveis
independentes ou preditoras (consciência fonológica, conhecimento das letras, nomeação e
compreensão oral), avaliadas no final da Ed. Infantil, sobre os desempenhos em leitura e escrita
de palavras, bem como em compreensão na leitura de sentenças, avaliados 10 meses após,
quando as crianças estavam no segundo semestre do 1º ano do Ensino Fundamental.
Com relação ao tamanho relativamente pequeno da amostra, seguimos o que foi
definido por Hair et al. (2005) como “regra geral”, onde a razão entre participantes e variáveis
pesquisadas jamais deve ficar abaixo de 5 para 1. O que significa dizer que deve haver, no
mínimo, cinco participantes para cada variável independente a ser incluída no modelo de
regressão múltipla, para que a análise possa ser realizada.
Além disso, foram verificados também os pressupostos para a realização da análise de
regressão múltipla, a saber: (1) Linearidade do fenômeno medido, observada por meio do
gráfico dos resíduos2, que indica se o modelo foi corretamente determinado e representa o grau
em que a variação da variável dependente se relaciona com as variáveis preditoras; (2)
Ausência de Multicolinearidade dos resíduos, ou seja, se há independência dos valores dos
2
Diferença entre os valores observados e previstos para a variável dependente.
54
resíduos; (3) Homocedasticidade dos resíduos, que verifica se os resíduos possuem variâncias
iguais; e (4) Normalidade dos resíduos, que refere-se a forma da distribuição dos termos dos
erros das variáveis da equação de regressão (Hair et al, 2005).
Todos os pressupostos para análise de regressão foram atendidos. Antes de serem
realizadas as análises de regressão foi verificada a hipótese da existência de multicolinearidade,
o que indicaria correlação muito elevada entre as variáveis preditoras. Os resultados dessa
análise preliminar indicaram não haver problemas com a multicolinearidade, pois todos os
valores de VIF (Variance-Inflation Factor) foram menores do que 5 e todos os valores de T
(Tolerance) foram maiores do que 0,2 (Hair et al., 2005).
Ainda de acordo com Hair et al. (2005), a normalidade dos resíduos é a violação de
suposição mais encontrada em cálculos de análise de regressão, sendo assim, seguem abaixo,
os gráficos da normalidade dos resíduos para as variáveis dependentes escrita (Figura 1), leitura
(Figura 2) e compreensão (Figura 3).
Figura 1. Normalidade dos resíduos padronizada (A) e normal P-P Plot residual padronizada (B) para a
variável dependente escrita.
55
Figura 2. Normalidade dos resíduos padronizada (A) e normal P-P Plot residual padronizada (B) para
a variável dependente leitura de palavras.
Figura 3. Normalidade dos resíduos padronizada (A) e normal P-P Plot residual padronizada (B) para
a variável dependente compreensão em leitura.
Foi analisada a correlação da variável escrita (frequência média de erros) com as demais
variáveis avaliadas: consciência fonológica, conhecimento de letras, nomeação e compreensão
oral. Foram encontradas correlações negativas fortes entre a avaliação da escrita e consciência
fonológica (rho = - 0,89, p = <0,001) e entre escrita e conhecimento de letras (rho = - 0,86, p
= <0,001). Correlações negativas moderadas foram encontradas entre escrita e nomeação (rho
= - 0,54, p = 0,001) e escrita e compreensão oral (rho = - 0,51, p = 0,002).
Para a realização da análise de regressão, visando identificar quais habilidades
cognitivas mais contribuem para explicar a variabilidade no desempenho em escrita, incluímos
no modelo multivariado, todas as variáveis preditoras, visto que todas possuíam correlação
significativa com a escrita (p<0,05). Os resultados obtidos podem ser observados nas Tabelas
9 e 10.
57
Unstandardized Standardized
Coefficients Coefficient
Tabela 11. Resultado da Análise de Regressão para a escrita considerando as variáveis preditoras:
consciência fonológica e conhecimento de letras.
Unstandardized Standardized
Coefficients Coefficients
Modelo B Std. Error Beta t Sig
Consciência
-0,113 0,021 -0,596 -5,36 <0,001
Fonológica
Conhecimento de
-0,088 0,026 -0,375 -3,374 0,002
Letras
Tabela 13. Resultados do teste de correlação de Spearman entre a variável leitura de palavras e as
variáveis preditoras pesquisadas.
Leitura de palavras
Tabela 14. Resultado da Análise de Regressão para a leitura de palavras, considerando as variáveis
preditoras: consciência fonológica, conhecimento de letras, nomeação e compreensão oral.
Unstandardized Standardized
Coefficients Coefficient
Modelo B Std. Error Beta t Sig.
Tabela 16. Resultado da Análise de Regressão para a leitura de palavras, considerando a variável
preditora: consciência fonológica.
Unstandardized Standardized
Coefficients Coefficient
Modelo B Std. Error Beta t Sig.
De acordo com o resultado apresentado na tabela 17, somente com a variável preditora
consciência fonológica, foi obtido um coeficiente de explicação (R²) ajustado de 0,564.
Concluímos então que este modelo apresentou maior poder explicativo, quando comparado
com o modelo anterior (modelo 1), visto que apenas uma variável (consciência fonológica)
conseguiu explicar 56,4% da variabilidade no desempenho da leitura.
Estes resultados mostram que o melhor valor de R² ajustado ocorreu no modelo com
apenas uma variável (modelo 2). A partir deste resultado é possível produzir uma equação de
regressão para “prever “o desempenho em leitura de palavras, a partir da variável consciência
fonológica: Leitura = - 43,613 + 1,621 x consciência fonológica
Tabela 18. Resultados do teste de correlação de Spearman entre a variável compreensão em leitura e as
variáveis preditoras pesquisadas.
Tabela 19. Resultado da Análise de Regressão para compreensão em leitura, considerando as variáveis
preditoras: consciência fonológica, conhecimento de letras, nomeação e compreensão oral.
Unstandardized Standardized
Coefficients Coefficient
Tabela 21. Resultado da Análise de Regressão para compreensão em leitura, considerando a variável
preditora: consciência fonológica.
Unstandardized Standardized
Coefficients Coefficient
Modelo B Std. Error Beta t Sig
2 (Constant) -36,584 6,886 -5,313 0
Consciência
1,334 0,185 0,787 7,22 0
Fonológica
De acordo com o resultado apresentado na tabela 22, somente com a variável preditora
de consciência fonológica, foi obtido um coeficiente de explicação (R²) ajustado de 0,608.
Concluímos então que este modelo apresentou maior poder explicativo, quando comparado
com o modelo anterior (modelo 1), visto que apenas uma variável (consciência fonológica)
conseguiu explicar 60,8% da variabilidade no desempenho da compreensão em leitura.
Estes resultados mostram que o melhor valor de R² ajustado ocorreu no modelo com
apenas uma variável (modelo 2). A partir deste resultado é possível produzir uma equação de
64
com as variáveis preditoras variaram de - 0,89 à - 0,51. Foi possível observar também que as
correlações do desempenho em escrita com as variáveis consciência fonológica e conhecimento
de letras foram bem mais fortes do que com as demais variáveis analisadas (nomeação e
compreensão oral), o que corresponde ao padrão esperado.
Para as variáveis dependentes “leitura de palavras” e “compreensão em leitura”, todas
as variáveis preditoras apresentaram correlações significativas positivas, indicando que quanto
maior a pontuação nos testes de consciência fonológica, conhecimento de letras, nomeação e
compreensão oral, melhor será o desempenho em leitura e compreensão em leitura. As
correlações obtidas para leitura de palavras variaram de 0,79 à 0,47 e para compreensão em
leitura variaram de 0,82 à 0,49. No caso dessas duas variáveis dependentes, entretanto, as
correlações foram maiores com as variáveis preditoras consciência fonológica e conhecimento
de letras do que com as variáveis nomeação e compreensão oral. Esse padrão, embora
corresponda ao esperado para o desempenho em leitura de palavras, foge um pouco do esperado
para o desempenho em compreensão em leitura, onde se esperava maiores correlações com as
habilidades linguísticas, sobretudo de compreensão oral, considerada um dos fatores
determinantes da compreensão em leitura, segundo o modelo da Simple View of Reading,
proposto por Gough e Tunmer (1986). É importante destacar ainda que apenas a consciência
fonológica mostrou-se fortemente correlacionada com os desempenhos em leitura, tanto de
palavras quanto de compreensão de frases.
De acordo com as análises de regressão múltipla efetuadas para a escrita, pode-se
concluir que o modelo que melhor explica a variação da escrita, é aquele que inclui a
consciência fonológica e o conhecimento de letras como variáveis preditoras, o qual mostrou
ser capaz de explicar 82,3% da variabilidade do desempenho dos participantes. Portanto, as
variáveis que melhor predizem o desempenho em escrita são a consciência fonológica e o
conhecimento de letras, novamente corroborando os resultados obtidos por Whitehurst e
Lonigan (2001).
As análises de regressão múltipla para a leitura de palavras, demostraram que o melhor
modelo explicativo foi o que inclui apenas a variável preditora da consciência fonológica, o
qual mostrou ser capaz de explicar 56,4% da variabilidade do desempenho da leitura. As
demais variáveis, embora também correlacionadas com a leitura de palavras, não possuem
poder de explicação adicional para explicar as habilidades de leitura da presente amostra.
De acordo com as análises de regressão múltipla efetuadas para a compreensão de
leitura, o modelo com o melhor poder explicativo foi o que inclui apenas a consciência
66
Bryant (1979) já haviam observado que crianças em períodos iniciais de aquisição da leitura e
escrita, eram capazes de inventar grafias semifonéticas de palavras, mas incapazes de ler suas
próprias grafias, o que indica que elas não usavam as mesmas vias para ler e escrever.
Em um outro estudo Cardoso-Martins et al. (2003) investigaram o conhecimento e as
estratégias que os adultos iletrados usam para identificar a grafia das palavras e a capacidade
de inventar grafias fonéticas. Participaram desta pesquisa 20 adultos brasileiros, com idades
entre 20 a 74 anos, que conheciam alguns nomes e sons das letras. Os resultados mostraram
uma clara dissociação entre a escrita e a leitura. Os adultos foram capazes de produzir grafias
parcialmente fonéticas das palavras, no entanto, não foram capazes de usar os seus
conhecimentos sobre as letras para lerem rótulos e símbolos em seu meio. De acordo com os
autores, os adultos não foram capazes de perceber erros, por exemplo, LOCA-COLA para
COCA-COLA, mesmo quando orientados a procurar pelos erros. Desta forma, este estudo
corrobora a ideia de que a escrita pode se tornar alfabética antes da leitura.
Esta diferença no processo inicial da aquisição entre a leitura e escrita, ajuda a entender
porque, no presente estudo, a habilidade de consciência fonológica junto com o conhecimento
de letras, se mostraram mais relevantes para o desempenho da escrita e porque somente a
consciência fonológica se mostrou importante para o desempenho em leitura. Tais resultados,
podem sinalizar que, para fase em que se encontra o grupo estudado, a habilidade para escrita
estaria mais desenvolvida em comparação com a habilidade de leitura e que na leitura pré-
alfabética as crianças não utilizam o conhecimento de letras como afirmou Ehri (2013).
Resultados semelhantes foram encontrados nos estudos de Souza e Maluf (2004), onde
as autoras buscaram investigar como se apresenta a relação entre as habilidades de leitura e
escrita em um grupo de crianças brasileiras no início da escolarização (1ª e 2ª séries do Ensino
Fundamental). O resultado da comparação entre leitura e escrita para o primeiro ano de
escolarização, mostrou uma diferença estatisticamente significativa, com vantagem para a
escrita. Ao passo que entre as crianças com níveis mais avançados da alfabetização, foi
encontrada uma diferença estatisticamente significativa com vantagem para leitura. Sendo
assim, este estudo também aponta para uma certa discrepância para o desenvolvimento da
leitura e da escrita nos estágios iniciais desta aprendizagem, sendo que estas diferenças são
favoráveis à escrita no início e favoráveis a leitura nos estágios mais avançados da
alfabetização.
Para o desempenho em “compreensão em leitura” esperávamos encontrar maiores
contribuições das habilidades linguísticas de nomeação e compreensão oral. No entanto, nossa
hipótese não foi confirmada, pois o modelo de regressão que melhor explicou a variabilidade
68
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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julgar necessário, entrando em contato por telefone ou e-mail com a pesquisadora ou com a
orientadora do projeto. Você também poderá retirar seu consentimento a qualquer momento,
deixando seu (sua) filho (a) de participar da pesquisa, sem que haja qualquer penalidade por
esse motivo.
Não haverá qualquer tipo de gasto ou remuneração para os participantes da pesquisa e
os dados obtidos durante o estudo serão utilizados pela pesquisadora apenas para publicações
científicas, garantindo-se o sigilo com relação à identidade de todas as crianças participantes.
Dúvidas sobre os aspectos éticos da pesquisa poderão ser solucionadas entrando em
contato com o Comitê de Ética da FFCLRP-USP – SP, localizado à Av. Bandeirantes, 3900 -
Ribeirão Preto – SP, pelo telefone (16) 3315-4811 ou pelo E-mail: [email protected].
No final do ano seguinte voltaremos a entrar em contato com você para confirmar seu
consentimento para que seu filho (a) possa participar da segunda etapa da pesquisa.
____________________________________
Assinatura do responsável
R.G:
______________________________________
Assinatura da pesquisadora
RG:
85
deixando seu (sua) filho (a) de participar da pesquisa, sem que haja qualquer penalidade por
esse motivo.
Não haverá qualquer tipo de gasto ou remuneração para os participantes da pesquisa e
os dados obtidos durante o estudo serão utilizados pela pesquisadora apenas para publicações
científicas, garantindo-se o sigilo com relação à identidade de todas as crianças participantes.
Dúvidas sobre os aspectos éticos da pesquisa poderão ser solucionadas entrando em
contato com o Comitê de Ética da FFCLRP-USP – SP, localizado à Av. Bandeirantes, 3900 -
Ribeirão Preto – SP, ou pelo telefone (16) 3315-4811 ou pelo E-mail: [email protected].
____________________________________
Assinatura do responsável
R.G:
______________________________________
Assinatura da pesquisadora
RG:
87
S 1 - Síntese
“ Nós vamos brincar com os sons das palavras. Eu vou dizer uma Palavras - alvo
palavra separada em pedaços: so – pa. Que palavra eu disse? ”
Pronuncie a palavra `sopa` com um breve intervalo entre cada sílaba: so – bi – co
pa.
“E agora pi – ja – ma. Que palavra eu disse? ” sor – ve – te
Exemplos: má – gi – co
so – pa = sopa
pi – ja – ma = pijama e – le – fan - te
S 2 - Segmentação
“Agora eu vou dizer uma palavra e quero que você separe em pedaços: Palavras - alvo
sala”.
“E esta outra: urubu” gato
abacaxi
Exemplos:
sala = sa - la cachorro
urubu = u – ru - bu
escova
S 4 – Identificação de rima
“Que desenho é este? (mão). Agora eu vou dizer Desenhos Alternativas
3 palavras e quero que você me diga qual delas flor pão – dor – trem
termina (ou rima) como mão”
martelo morango – tapete – castelo
Exemplo: abelha relógio – orelha – vestido
mão sal – cão – luz
coração armazém – carnaval - injeção
aranha montanha – umbigo – carrinho
Exemplos: ca
pa = papai, pacote
ba
ja = jarra, japão
pi
so
Exemplo:
girafa pirata – panela – dinheiro
camelo colega – vermelho – bolacha
S 7 – Produção de rima
“Que desenho é este? (chapéu). Que outra palavra termina (ou rima) Palavras - alvo
como chapéu? ”
balão
Exemplos:
café
chapéu = céu, véu (dependendo da região, estarão corretas respostas
como `hotel`, `pastel`) rato
pente = quente, dente
bola
91
S 8 - Exclusão
“Se eu tirar `so` de socorro fica? ” (corro) Palavras - alvo
“Se eu tirar `be`de cabelo fica? ” (calo)
“ci” de cipó
“pi” de piolho
Exemplos: “ es” de escola
socorro = corro
“ té” de pateta
cabelo = calo
“ve” de gaveta
“le” de pele
“to” de gasto
“cól” de caracol
S 9 - Transposição
“Eu vou dizer uma palavra que não existe. Esta palavra tem dois Palavras - alvo
pedaços (ou sílabas) e você vai trocar os pedaços: diga primeiro o
pedaço do fim e depois o pedaço do começo. Você vai descobrie uma tapór
palavra que existe. Assim : darró fica? (roda). Chobí fica (bicho)”
lhomí
cafó
Aguarde a resposta da criança para ter certeza de que ela entendeu a tarefa
valú
de transposição.
Exemplos:
darró = roda
chobí = bicho
92
F 4 - Exclusão
“Se eu tirar o som [ʃ] da palavra ´chama´ fica? ” (ama) Palavras - alvo
“Se eu tirar o som [r] da palavra `barba` fica? ” (baba)
Som de [r] de mar
Som de [Ʒ] de jaula
Exemplos:
som [ʃ] de chama = ama Som de [v] de vida
som [r] de barba = baba
Som de [s] de pasta
Som de [a] de peça
Som de [u] de viúva
F 5 - Síntese
“A palavra Eva tem estes sons: E – V – A. Eu vou dizer uns sons, e você Palavras - alvo
vai descobrir que palavra eles formam. ”
g–i-z
Pronuncie os sons com um breve intervalo entre cada um deles. A
u–v–a
pronuncia deve ser curta para que não se tornem sílabas. Por exemplo, o
som de [z] deve ser produzido como `zzz` e não como `zã`. a–s-a
m–a–l-a
Na palavra “giz” o “z” tem som de [s].
Exemplos:
E – v – a = Eva
m – e – s – a = mesa
F 6 - Segmentação
“Agora você vai falar os sons das palavras. ” Palavras - alvo
chá
Exemplos:
osso
Vó = v - ó
lua = l – u - a lixo
mola
94
F 7 - Transposição
Neste item, devido à sua complexidade, gera dificuldade tanto na aplicação Palavras - alvo
quanto no entendimento da ordem por parte da criança. Sugere-se o uso de
fichas durante toda a aplicação, conforme o seguinte procedimento: alé (ela
1º) diga as palavras inventadas, deslizando o dedo sobre as fichas;
óva (avó)
2º) diga os sons isoladamente, apontando uma ficha por vez;
3º) solicite que a criança diga os sons de trás para diante, juntando-os para ôla (alô)
formar uma palavra que exista.
ias (sai)
“Agora nós vamos falar de trás para diante. Eu vou dizer uma palavra
esquisita como `amú`. Ela tem três sons: a – m – u. Se você disser os
sons de trás para diante nós vamos achar uma palavra que existe:
`uma`. E a palavra esquisita `ica`- se dissermos os sons desta palavra
de trás para diante, que palavra formaríamos? (`aqui`). ”
Exemplos:
amú = uma
ica = aqui
95
S E R N
T A C L
U P V H
W Q K Z
O J X M
I G B Y
F D
98
ANEXO H – PROVA DE ESCRITA SOB DITADO (versão reduzida) (Dias, Trevisan &
Seabra, 2013)
TREINO
TESTE
Regular Irregular Pseudopalavra
1. sala 21. táxi 41. tapi
2. fada 22. belo 42. lobe
3. campo 23. bosque 43. cusbe
4. carro 24. velho 44. jolha
5. livro 25. prova 45. prina
6. operação 26. alfabeto 46. beltofa
7. presente 27. resposta 47. paresta
8. parágrafo 28. exercício 48. azercico
9. importante 29. transporte 49. prantorca
10. dinheiro 30. exemplo 50. asprona
11. grade 31. lebre 51. brele
12. jóia 32. ônix 52. unas
13. prata 33. bloco 53. clobo
14. surdo 34. sorte 54. turse
15. vaga 35. fixo 55. cifo
16. orfanato 36. saxofone 56. nefoxosa
17. caramujo 37. aquarela 57. erequela
18. margarida 38. crucifixo 58. crafissoca
19. gelatina 39. cotonete 59. tonecote
20. crocodilo 40. berinjela 60. laberinja