Ernest Hemingway
PA R IS
É U M A F ESTA
impressões da vida do autor em paris,
por alturas da segunda década do século xx
tradução de
Virgínia Motta
LI V RO S D O B RA S I L
UM B OM C AF É
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N A PLAC E D E SAI NT- MICHE L
Vinha então o mau tempo, que chegava, um dia, no fim do outono.
O remédio era fechar as janelas à noite, por causa da chuva, enquanto o
vento arrancava as folhas às árvores da Place Contrescarpe. As folhas ja-
ziam ensopadas no solo e o vento atirava com a chuva de encontro aos
grandes autocarros verdes na estação terminal. O Café des Amateurs en-
chia-se de gente e as janelas embaciavam-se todas, com o calor e o fumo
que lá dentro reinavam. Era um café triste e mal orientado, onde os bêbe-
dos do sítio se apinhavam, e que eu evitava, devido ao cheiro a corpos su-
jos e ao azedo da embriaguez. Os homens e as mulheres que frequenta-
vam o Amateurs andavam permanentemente embriagados ou, pelo
menos, sempre que tinham dinheiro para isso, e a maior parte das vezes
faziam-no com vinho que compravam aos litros e aos meios litros. Anun-
ciavam-se lá aperitivos de nomes muito esquisitos, mas poucos eram os
clientes que se podiam dar ao luxo de os tomar, a não ser que deles neces-
sitassem para assentar o estômago, à laia de preparação para os copos de
vinho que se seguiriam. As mulheres que se embriagavam eram conheci-
das pelo nome de poivrottes, o que quer dizer borrachonas.
O Café des Amateurs era a cloaca da Rue Mouffetard, essa maravi-
lhosa rua estreita, sempre coalhada de gente, por via do seu mercado, que
desembocava na Place Contrescarpe. As retretes de agachar das velhas ca-
sas de apartamentos — havia uma em cada andar, ao princípio das esca-
das — com os seus relevos de cimento estriado em forma de sapato
de cada lado da abertura, para evitar que algum locataire escorregasse —
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Em toda a tradução se mantém em francês o que Ernest Hemingway entendeu conservar
nessa língua, com exceção das formas já absolutamente consagradas na nossa. (N. da T.)
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davam para fossas que à noite eram esvaziadas por meio de uma bomba,
para o interior de carros-tanque puxados por cavalos. No verão, o barulho
da bomba entrava pelas janelas abertas, acompanhado de fortes emana-
ções. Os carros-tanque eram pintados de amarelo e de cor de açafrão, e
quando, à luz da Lua, eles trabalhavam na Rue Cardinal Lemoire, os cilin-
dros puxados pelos cavalos faziam pensar nos quadros de Braque.
Mas a cloaca do Café des Amateurs é que ninguém esvaziava, e o
seu cartaz amarelecido, onde se liam os termos e as penalidades impos-
tas pela lei contra a embriaguez pública, era tão desprezado e estava tão
sujo das moscas como os clientes eram assíduos e mal-cheirosos.
A tristeza imensa da cidade surgiu de repente, com as primeiras
chuvas geladas de inverno. Os cimos das casas altas e brancas deixaram
de se ver; tudo o que se enxergava era o negrume molhado da rua, as
portas fechadas das lojecas, os vendedores de legumes, a papelaria, os
quiosques dos jornais, a tabuleta da porteira — 2.ª classe — e o hotel
onde Verlaine morreu e onde eu, no último andar, mantinha um quarto
que me servia de gabinete de trabalho. Para chegar lá acima, via-me for-
çado a trepar uns seis ou oito andares. Fazia um frio danado e eu sabia
quanto teria de pagar por um feixe de pauzitos, por três molhos de ma-
deira de pinheiro, atados com arames, do tamanho de meio lápis cada
um, para pegar o lume aos pauzitos, e, finalmente, pelo feixe de madeira
dura e meio seca que teria de comprar se porventura quisesse alimentar
uma fogueira capaz de me aquecer o quarto. Por isso, continuei até ao
outro extremo da rua, para observar o telhado à chuva, e ver se as chami-
nés estavam a trabalhar e de que modo saía o fumo. Não vi fumo ne-
nhum e pus-me então a pensar que a chaminé devia estar fria, que podia
estar com má tiragem e que o quarto ficaria possivelmente cheio de
fumo. Teria então gasto o meu combustível e com ele o meu dinheiro.
Por isso, fui continuando à chuva o meu caminho. Passei o Lycée Henri IV,
a antiga igreja de Saint-Étienne-du-Mont e a Place du Panthéon, nessa
altura varrida pelo vento; cortei à direita, à procura de abrigo, desembo-
cando finalmente no lado mais abrigado do Boulevard Saint-Michel.
Continuei a descer, passei pelo Cluny e pelo Boulevard Saint-Germain,
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até que me encontrei diante de um bom café que eu conhecia na Place
Saint-Michel.
Era um café agradável, quente, asseado e de ambiente acolhedor.
Pendurei o meu velho impermeável no cabide, a fim de secar; o meu
chapéu de feltro, já gasto e desbotado, no cabide que ficava por cima do
banco e mandei vir um café au lait. Quando o criado mo trouxe, saquei
do bolso um caderno de apontamentos e um lápis e comecei a escrever.
Andava a escrever uma coisa que se passava a montante do Michigan e,
uma vez que estava um dia péssimo, frio e ventoso, seria um dia assim
que eu iria descrever. Eu já tivera ocasião de observar o fim do outono
na minha infância, na adolescência e na primeira mocidade, e há sítios
em que essa época do ano se pode descrever melhor do que noutros. Es-
tava a fazer aquilo a que eu chamava transplantação e isso tanto podia
tornar-se necessário para as pessoas como para toda a espécie de coisas
que crescem. Mas, no meu conto, os rapazes estavam a beber, o que me
provocou sede e me levou a pedir um rum St. James que me soube mara-
vilhosamente naquele dia de frio intenso. Continuei a escrever, sen-
tindo-me muito bem disposto com aquele esplêndido rum da Martinica
a aquecer-me tanto o corpo como o espírito.
Uma rapariga entrou no café e foi sentar-se a uma mesa perto da ja-
nela. Era muito bonita. Possuía um rosto fresco como uma moeda aca-
bada de cunhar — se acaso fosse possível cunhar moeda em carne macia
e húmida da chuva. O cabelo, muito curto e negro como a asa de um
corvo, emoldurava-lhe a face em diagonal.
Ao olhá-la, senti-me perturbado e num estado de grande excitação.
Apeteceu-me metê-la no meu conto, ou em qualquer parte, mas a rapa-
riga colocara-se de maneira a poder observar a rua e a entrada do café.
Percebi que estava à espera de alguém. Por isso, continuei a escrever.
O conto ia-se escrevendo por si próprio e eu via-me aflito para o
acompanhar. Mandei vir outro rum e ia observando a rapariga sempre
que levantava os olhos ou que aparava o lápis com um apara-lápis, en-
quanto as aparas de madeira se iam encaracolando no pires que tinha
debaixo do cálice.
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«Eu vi-te, ó formosura, e tu agora pertences-me embora estejas à
espera de alguém e eu não torne possivelmente a ver-te em toda a minha
vida», pensei. «Pertences-me e toda a cidade de Paris me pertence
como eu pertenço a este caderno e a este lápis.»
Depois, enfronhei-me mais uma vez no que estava a escrever. Avan-
cei pela história dentro, acabando por me perder nela. Agora era eu que
escrevia e não o conto que se escrevia a si próprio, de forma que não tor-
nei a levantar a cabeça. Esqueci-me do tempo, do lugar em que me en-
contrava e nem sequer mandei vir mais rum St. James. Fartara-me dele
embora nem sequer nele pensasse. Por fim, acabei o conto. Sentia-me
cansadíssimo. Li o último parágrafo e, quando levantei os olhos à pro-
cura da rapariga, já ela tinha saído. «Oxalá tenha ido com um homem
decente», pensei. Mas senti-me triste.
Fechei o caderno; meti-o na algibeira de dentro e pedi ao criado
uma dúzia de portugaises e meia garrafa de vinho branco, seco, da casa.
Depois de escrever uma história, sentia-me sempre vazio e simultanea-
mente triste e feliz como se tivesse acabado de me entregar ao amor fí-
sico e ficava, nessa altura, com a certeza de que escrevera uma história
muito boa, embora não soubesse ao certo qual o seu verdadeiro valor se-
não quando, no dia seguinte, a lia de ponta a ponta.
Comi as ostras, que possuíam um forte sabor a água do mar e um
leve travo metálico que o vinho branco e fresco ia neutralizando para
lhes deixar somente o gosto próprio da sua massa suculenta, e, à medida
que ia bebendo o líquido frio de cada concha e o fazia descer com o vi-
nho fresco e bem apaladado, ia deixando de sentir a tal impressão de va-
zio. Comecei a sentir-me feliz e a fazer planos.
Nessa altura, que o mau tempo chegara, poderíamos deixar Paris
por uns tempos e irmos para qualquer sítio onde, em vez de chuva, hou-
vesse neve a descer por entre pinheiros e a cobrir as estradas e as encos-
tas das altas montanhas, a uma altitude a que a sentíssemos ranger
quando à noite regressássemos a casa. Abaixo de Les Avants havia um
chalet, onde a pensão era esplêndida e onde poderíamos estar juntos, ter
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os nossos livros e sentirmo-nos quentes à noite, bem juntos, na cama,
com as janelas abertas e as estrelas a luzir no céu. Eis para onde iríamos.
As viagens de comboio em terceira classe não eram caras. Com a pen-
são, pouco mais gastaríamos do que em Paris.
Deixaria o quarto de hotel onde escrevia e ficaria apenas com a
renda do n.º 74 da Rue Cardinal Lemoire, que era nominal. Escrevera
umas coisas para um jornal de Toronto e já tinha recebido os cheques
respeitantes ao meu trabalho. E artigos de jornal era coisa que eu pode-
ria escrever em qualquer parte e em quaisquer circunstâncias e, assim,
dispúnhamos de dinheiro para a viagem.
Talvez longe de Paris eu pudesse escrever coisas a respeito de Paris,
como em Paris conseguia escrever acerca do Michigan. Nessa altura, ig-
norava que era cedo de mais para isso, pois ainda não conhecia Paris su-
ficientemente bem. Mas eventualmente era assim que as coisas se passa-
vam. De qualquer maneira, iríamos se a minha mulher tivesse vontade
de ir. Acabei as ostras e o vinho; paguei a conta e regressei pelo caminho
mais curto, pela Montagne Sainte-Geneviève, debaixo de chuva, a qual
nesse tempo era simples estado de tempo local e não algo suscetível de
transformar a nossa vida, à nossa casa do cimo da colina.
— Acho que vai ser maravilhoso, Tatie — disse a minha mulher.
Ela possuía um rosto suavemente modelado e tanto os olhos como a
boca se lhe riam ante qualquer decisão como se se tratasse de ricos pre-
sentes que eu lhe oferecesse. — Quando é que partimos?
— Quando quiseres.
— Ai, quero ir já! Não sabes isso?
— Talvez, quando regressarmos, o tempo já esteja bonito e lím-
pido. Desde que esteja límpido, embora faça frio, o tempo pode ser
ótimo.
— Com certeza — respondeu ela. — Que boa lembrança, essa que
tiveste, de irmos viajar!
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