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TRABALHADORES MARGINAIS E CONTESTAÇÃO: classe social e ação coletiva

nos movimentos sem-teto1

Flávia Gabriella Franco Mariano

Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU)


Email: [Link]@ufu,br

A modernização que abriu o século XX, lograda sob a reprodução do padrão social e
territorial de desigualdade, semeou em sua estrutura contradições urbanas que rearranjaram
dinâmicas conflituais e lutas sociais. A grande massa de trabalhadores urbanos desprovidos
de moradia induziu o surgimento de ocupações gradativas e espontâneas de áreas ociosas ou
irregulares como forma de provimento imediato de moradias individuais e familiares.

Uma vez que o processo de urbanização da sociedade brasileira condicionou a


relação direta da reprodução da força de trabalho vinculada à industrialização com a
formação de favelas e assentamentos precários em áreas periféricas das cidades, a realização
de ocupações ilegais por parcelas de trabalhadores “é estrutural e institucionalizada pelo
mercado imobiliário excludente e pela ausência de políticas sociais” (MARICATO, 2012, p.
152).

Os movimentos sociais centralmente organizados pela reivindicação de acesso à


moradia demarcam-se a partir da ocorrência de ocupações coletivas e organizadas de terras
rurais e urbanas no contexto das mudanças socioeconômicas engendradas após a crise na
década de 1970. A reestruturação socioeconômica e política que incidiu na sociedade
brasileira a partir desta década acirrou contradições socioeconômicas ao tempo que abriu
possibilidades políticas para que estas ações de resistência tenham ganhado um sentido
massivo e organizado pelo viés contestatório e reivindicativo.

1
Pesquisa financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
Este texto apresenta parte dos resultados de uma pesquisa cujo objetivo geral centrou-
se em investigar os posicionamento, a participação e a prática política de trabalhadores sem-
teto, com fim a localizá-los no bojo das lutas de classes contemporâneas. Para tanto, nos
baseamos em dados construídos no trabalho de campo realizado em torno de duas áreas
ocupadas por movimentos sem-teto na periferia da cidade de Uberlândia, em Minas Gerais.

1. A marginalidade das bases sociais sem-teto

Nas ocupações sem-teto acompanhadas, observamos uma base social internamente


diversificada, mas que apresenta um caráter de similaridade quando comparada no conjunto
de outros movimentos. Assimilamos que os sem-teto compreendem uma fração de classe
trabalhadora que podemos denominar como massa marginal. Trata-se de uma camada
superexplorada e pauperizada, desempregada ou empregada em trabalhos muito precários,
que, em nossa análise, encaixa-se nesta categoria cunhada por José Luis Nun (1969).

O conceito de massa marginal se inscreve no conjunto de interpretações histórico-


estruturais sobre as configurações da marginalidade no capitalismo dependente
contemporâneo. Estamos falando de marginalidade entendida nos termos das relações
produtivas engendradas pelo capital – em relação aos meios de produção, e não os meios de
subsistência. Nesse sentido, nos remetemos à trabalhadores localizados à margem das
relações de produção dominantes no capitalismo contemporâneo, denotando a relação
combinada entre acumulação capitalista e miséria.
A relação entre desigualdade e segmentação é o núcleo da reflexão sobre a massa
marginal, sob direta relação com as configurações dos mercados de trabalho e sua correlação
com a formação das classes trabalhadoras. Nun (1978) parte da relação estrutural entre os
processos de acumulação capitalista prevalecentes na América Latina e os fenômenos da
pobreza e da desigualdade social. Para tanto, propõe evidenciar a heterogeneidade e a
crescente fragmentação da estrutura ocupacional e suas consequências sobre as identidades
de classe.
Segundo os escritos de Nun (1978), se o contexto histórico implicou Marx (2001) a
pensar exclusivamente na parcela funcional da superpopulação relativa (o exército industrial
de reserva), analisar as relações presentes no tipo dominante de organização produtiva
referente a esta formação social, mais precisamente o capitalismo monopolista e suas
reverberações na periferia dependente, requer mirar a população excedente ao sistema
produtivo do ponto de vista de uma disfuncionalidade.
Em Nun (1987), regime social de acumulação é concebido como uma matriz de
configuração mutável, no qual se entrelaçam diferentes estratégias específicas de
acumulação e táticas diversas para implementá-las, de modo que a acumulação de capital
aparece sempre como "o resultado contingente de uma dialética de estruturas e de
estratégias" (JESSOP, 1983, p. 98).
Reside aqui a chave da dialética presente na interpretação deste autor: entende-se
que, no constante desenvolvimento dos meios de produção correspondentes ao capitalismo
monopolista, é maior a especialização e a qualificação da força de trabalho, de modo que
declinam as probabilidades de transferência de trabalhadores de um ramo a outro, e “perde
sustentação a ideia anterior de uma reabsorção possível de operários afastados pela máquina:
a demanda industrial de trabalho tende a contrair-se ou, no melhor dos casos, a estancar-se”
(NUN, 1978, p. 97).
Tem-se, nessa perspectiva, que os processos quanto à industrialização dependente,
como ocorridos no Brasil, iniciam um aumento de apropriação do excedente pelas grandes
empresas monopolistas, associado à restrição na difusão de tecnologias, ao avanço da
mecanização e da demanda por trabalho qualificado e ao estancamento da demanda
industrial de trabalho, que resultaram na criação de uma barreira permanente entre os
desempregados e os ocupados, de modo que a massa dos não qualificados não apenas se
tornou estancada, mas perdeu sua funcionalidade sistêmica (DUARTE, 2014).
Entende-se que o capital monopolista demanda por força de trabalho de forma
diversa ao capitalismo industrial competitivo, não centralizando no desemprego a reserva de
força de trabalho (exército de reserva), bem como urde a centralidade da manutenção do
nível dos salários e da intensidade do trabalho em outros mecanismos de exploração, com
contornos próprios nas relações de dependência. A perda da funcionalidade desta parcela de
trabalhadores, que vivencia relações sistêmicas marginais, se refere, assim, às relações que
se estabelecem entre a superpopulação relativa e o setor produtivo hegemônico, ou seja, às
funcionalidades, respectivamente direta e indireta, da superpopulação relativa,
caracterizadas por Marx (2001) quanto ao exército de reserva.
A predominância primária no conteúdo das economias dependentes, mediada pela
mecanização dos setores primário e secundário e pela tendência à desvinculação de serviços,
acarreta, além do direcionamento da massa de trabalhadores para o setor terciário, a
incorporação de grande parte da força de trabalho nos trabalhos informais e autônomos. As
formas de trabalho marginais, estando fora dos esquemas hegemônicos de produção ou
desenvolvendo-se ao seu redor, fazem-se mecanismos de absorção de uma fração de
trabalhadores marginais às relações capital-trabalho formais e hegemônicas.
É a respeito deste conjunto da população, que perderia sua funcionalidade social no
esquema produtivo central do capital, que surge o que a teoria da marginalidade conceitua
como "massa marginal", categoria que implica uma dupla referência ao sistema que, ao
mesmo tempo que gera este excedente, não necessariamente precisa dele para seu
funcionamento (NUN, 1969). Nesse entendimento, a massa marginal se refere tanto a
camadas de desempregados, quanto a camadas de ocupados precarizados, que se encontram
fora do circuito das grandes corporações monopolistas.
Destaca-se que, apesar de a massa marginal constituir um elemento central para a
análise do capitalismo monopolista, as empresas hegemônicas monopolistas coexistem com
pequenas e médias empresas que operam de maneira mais próxima ao estado competitivo
(NUM, 1969). Não se trata de uma condição estática e homogênea, mas de diferentes tipos
de marginalidades e marginalizados – incluindo uma parcela da classe trabalhadora que
transita entre uma e outra categoria – (NUM, 1969) que se categorizam no conceito de massa
marginal e tipificam a generalidade destes sujeitos. Assim, segundo o autor, na fase presente:
[...] se sobrepõe e se combinam dois processos de acumulação
qualitativamente distintos, que introduzem uma crescente diferenciação no
mercado de trabalho e nos quais varia a funcionalidade da população
excedente. De esta maneira, os desempregados podem ser, ao mesmo
tempo, um exército industrial de reserva para o setor competitivo e uma
marginal para o setor monopolístico. Entretanto, a força de trabalho
excedente em relação a este último não necessariamente figura-se
desempregada, já que pode estar ocupada no outro setor (NUM, 1969, p.
202, tradução nossa).

Partindo do conceito de Nun (1969), Quijano (1978) contribui para o debate sobre a
inserção marginal no mundo do trabalho ao definir como “polo marginal” o conjunto de
ocupações ou atividades estabelecidas geralmente em torno do uso de recursos residuais, ou
desligadas da produção, de caráter disfuncional ao sistema de acumulação capitalista. Por
esta via, Quijano (1978) ampliou a discussão da tese de massa marginal ao problematizar a
realidade de carências crescente no tecido social urbano:
Como, precisamente, esses povoamentos se levantaram, em regra geral,
nas bordas ou margens do corpo urbano tradicional das cidades, o mais
fácil era denominá-los “bairros marginais” e seus habitantes, “populações
marginais”... O problema que estes grupamentos encerravam se constituiu
no problema das “populações marginais” (QUIJANO, 1978, p. 18).

Em geral, os sem-teto são trabalhadores pauperizados, sejam desempregados ou


empregados em ocupações extremamente precarizadas, em maioria informais ou autônomas.
Esta posição marginal no mercado de trabalho é condicionante fundamental para que estas
camadas de trabalhadores não tenham acesso ao mercado habitacional formal, bem como à
garantia de grande parte dos meios de subsistência. Denotamos a intima relação deste
sistema de exclusões, advindos da marginalidade, com a segregação urbana em suas mais
variáveis materialidades. Estamos falando não só de local de habitação, mas de acessos
objetivos e subjetivos a serviços e equipamentos que conformam a cidade.
Kowarick (1985) aborda a marginalidade urbana destacando em sua constituição o
pauperismo e o cenário de favelização, relacionando-os, ainda, com a estratificação
econômico-ocupacional marginal e as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores pobres
nos grandes centros urbanos. Além de evidenciar um fenômeno migratório gerador de uma
perversa marginalidade cultural, os estudos de Kowarick (1975) inferem que a maioria dos
trabalhadores marginais no Brasil se encontra no mercado informal.
Deste modo, é fundamental articular de modo estrutural, como propõe Kowarick
(1979), a ideia de uma força de trabalho submetida a formas de extorsão que extrapolam os
domínios do local de trabalho. O autor atenta para que as condições de vida dependem de
uma série de fatores, dos quais a dinâmica das relações de trabalho é o ponto primordial.
Quando as favelas, casas precárias da periferias e ocupações urbanas abrigam parte
significativa da classe trabalhadora, cujas condições de alojamento expressam a precariedade
dos salários, a questão habitacional só pode ser entendida dentro da compreensão dos
processos socioeconômicos e políticos mais amplos.
A carência de moradia existe, neste contexto, inseparável de outras carências
paralelas ou mesmo decorrentes dela. Às menores oportunidades de profissionalização e ao
condicionamento aos empregos mais precarizados, somam-se a dificuldade de acesso aos
serviços e infraestrutura urbanos (transporte precário, saneamento deficiente, drenagem
inexistente, dificuldade de abastecimento, difícil acesso aos serviços de saúde, educação e
creches, maior exposição à ocorrência de enchentes e desmoronamentos etc.), maior
exposição à violência (marginal ou policial), discriminação racial, discriminação contra
mulheres e crianças, difícil acesso à justiça oficial, difícil acesso ao lazer. Conforme
relaciona Maricato (1996, p. 56), a lista é interminável.
A precariedade na moradia, bem como no acesso a bens coletivos de consumo, à qual
são submetidas as parcelas populares que constituem a base social dos sem-teto, explicitam
a fórmula de reprodução da força de trabalho nas cidades conformadas pelo desenvolvimento
econômico dependente. Ao somatório destas extorsões, que se operam por meio da
“inexistência ou precariedade de serviços de consumo coletivo que se apresentam como
socialmente necessários em relação aos níveis de subsistência e que agudizam ainda mais a
dilapidação que se realiza no âmbito das relações de trabalho”, Kowarick (1979, p. 59)
refere-se como espoliação urbana.

2. Constituição da classe na práxis da luta pela moradia

A situação de classe, ou as condições materiais que conformam a massa marginal,


nos apareceram como a determinação primordial para a ação reivindicativa em torno da
moradia. Entretanto, ao pesquisar os processos de politização das demandas de urgência,
apresentamos a compreensão de que, entre a privação e a mobilização, há um processo de
reconhecimento de um sistema de distinções (BOURDIEU, 2013), precisamente, de que a
privação de moradia e de outros bens e serviços urbanos, não advém de efeitos isolados ou
individualizados, mas integrados a um sistema combinado de desigualdades, em que a
existência desta massa de trabalhadores espoliados se relaciona conflitivamente com a
existência de agentes que acumulam.

No processo de organização e luta por acesso à moradia e à bens/serviços coletivos,


identifica-se o “outro” (os agentes identificados como responsáveis pelas mazelas vividas)
e, a partir da figuração das relações de confronto de interesses, constrói-se uma identidade
coletiva. Entendemos que esse processo que transforma esses trabalhadores em sem-tetos –
sujeito político coletivo – compreende uma percepção de pertencimento e localização em
relações sociais e políticas que conformam a estrutura urbana desigual2.

A identificação dos agentes do capital imobiliário como antípoda do movimento é


marcadamente constante nas falas dos moradores das ocupações. A despeito das
contradições internalizadas por esses sujeitos – que em muitos casos manifestam o pesar de
estar fazendo algo errado por ser ilegal –, a compreensão da especulação imobiliária como
uma injustiça e como representação da desigualdade social é um dos principais elementos
de legitimação da luta e das ocupações contido nesses repertórios. Não é menos frequente,
ainda, a identificação destes ‘inimigos’ com o poder ou com o que confere poder – nesse
caso, a propriedade.

Percebemos, ainda, que embora os sem-teto se reconheçam como “injustiçados”, e


que suas privações não são responsabilidade individual, é por vezes difuso o entendimento
sobre a responsabilidade direta sobre sua condição. Em geral, a ocupação é entendida como
legítima, mas comumente se reconhece o direito genérico à propriedade e, nesse sentido, se
incorpora a defesa de que os proprietários não sejam prejudicados, sob argumentos que
possivelmente remetam a uma fundamentação moral e meritocrática da propriedade. Em
todos os relatos e conversas que participamos ou presenciamos, percebemos uma
necessidade constante de reforçar o desejo de pagar pela posse dos lotes.

É um enredo constante no discurso dos acampados a conotação de legitimação da


posse por meio do pagamento de mensalidades – o pagamento torna legal e, não menos,
moralmente legítima a posse. Em alguns momentos, esse entendimento se alia à ideia de que
os proprietários não deveriam especular, mas têm o direito de acumular as áreas se fizerem
uso delas. Obviamente, não é possível precisar a extensão desse entendimento, e nos é certo
que não se trata de uma posição política dos movimentos. De toda forma, chama-nos atenção
para o quanto não é possível tratar de forma homogênea e linear a construção política no
todo das bases sociais dos movimentos.

É menos difusa a identificação dos agentes do Estado – gestores, judiciário e força


policial. Salvo exceções, geralmente há uma forte distinção entre o que se considera esquerda

2
Ou no que Bourdieu (2013) denomina como relações de oposição constitutivas do sistema de marcas
distintivas que caracterizam a formação social.
e direita e, respectivamente, aliados e inimigos, sobretudo, dentre representantes políticos.
Visto, ainda, que a repressão é fortemente personificada nos agentes do judiciário e das
forças policiais, estes são, em geral, amplamente identificados como inimigos diretos do
movimento. Esta identificação não nos parece tão genérica, mas calcada também em uma
noção de distinção, de lugares diferentes que determinam condições diferentes e, portanto,
interesses diferentes.

Em todos esses momentos relatados, percebemos a constituição de contradiscursos


(CHAUÍ, 2014), de desconstrução de discursos e argumentos dominantes a partir do
repertório instituído – e multideterminado – na experiência social e na organização política
dos sem-teto. Interessa-nos destacar, porém, que no embate e nos processos de resistência
os sem-teto reconhecem-se como coletivo por meio da construção de uma identidade
coletiva que unifica esses trabalhadores em torno de um projeto comum de luta e
transformação.

Nesse entrecho, notamos como as fundamentações que levam à ação direta coletiva
articulam-se em uma linguagem comum, que mobiliza, direciona e confere sentidos que
definem a legitimidade daquela luta coletiva (DE SORDI, 2014). O que conforma e confere
identidade a esta coletividade não se limita, pois, às características econômicas comuns aos
acampados, mas compreende estilos de vida, representações e habitus compartilhados
(BOURDIEU, 1990) por esses trabalhadores marginalizados. Estamos falando, então, de
sistemas de práticas e valores comuns, que dinamizam-se dialeticamente na luta coletiva,
instituindo os esquemas de ações políticas.

A esse respeito, concordamos com Tilly (2010) que os repertórios incluem criações
culturais aprendidas, mas não se originam de abstrações filosóficas ou são resultado
matemático da propaganda política; eles emergem nos processos de luta. Consideramos
plausível acrescentar, ainda, que o processo de plenificação dessas coletividades passa por
uma luta que se desenvolve, de modo heterogêneo e contraditório, em diversos planos das
relações sociais: no econômico, no político e no ideológico (ALMEIDA, 2005).

No campo específico do político, Bensaid (1999, p. 159) ressalta que “as relações de
classes adquirem um grau de complexidade irredutível ao antagonismo bipolar que,
entretanto, as determina”. A partir desse entendimento podemos nos referir à constituição da
classe como um processo dialético e relacional, que informa, sobretudo, a “expressão social
coletiva do fato da exploração e, naturalmente, da resistência a esse fato” (SAINTE-CROIX,
apud BENSAÏD, 1995, p.111, grifo nosso).

Os sem-teto reconhecem-se como classe social – ainda que nem sempre utilizem esta
categoria no cotidiano – à medida que se localizam dentro das situações e posições que
estruturam o espaço social urbano desigual e que identificam o lugar social que ocupam,
situando seus interesses e demandas dentro das dinâmicas e conflitos políticos. Posto isso, é
plausível pontuar que as classes sociais:

[...] não podem se tornar classes mobilizadas e atuantes, no sentido da


tradição marxista, a não ser por meio de um trabalho propriamente político
de construção, de fabricação – no sentido de E.P. Thompson fala em The
making of the English working class - cujo êxito pode ser favorecido, mas
não determinado, pela pertinência à mesma classe sociológica.)
(BOURDIEU, 1996, p. 29).

Bem como define Pinheiro (2010), os movimentos sociais sem-teto engendram


formas organizativas e bandeiras em um quadro interpretativo que articula a crítica do lugar
que sua base social ocupa nas relações sociais de produção, com a crítica da experiência
imediata e dos diferentes lugares de subordinação ocupados em outras esferas da vida social.
Nesse sentido, as visões de mundo instituídas na luta coletiva compõem um processo social
em que:

[...] se no plano imediato os movimentos são manifestações concretas que


emergem na cena pública como efeito do descontentamento resultante das
condições próprias desses lugares funcionais e, a partir deles, elaboram
quadros interpretativos com vistas a legitimar suas demandas, o trabalho
de elaboração desses quadros, como estratégia de interpelação social [...]
necessariamente remete às estruturas sociais em seu conjunto e por elas é
condicionado (PINHEIRO, 2010, p. 112)

A elaboração prática e teórica mediada pelos movimentos sociais (implícita e


explícita) dos antagonismos, divergências e contradições manifestam, assim, formas pelas
quais a cultura dominante é interiorizada, reproduzida e transformada, tanto quanto as
formas pelas quais é recusada, negada e afastada (CHAUÍ, 2014). Sob este prisma,
compreendemos as expressões de luta e resistência contidas nas ações que coletivizam os
sem-teto como elaborações das condições de classe e, ao mesmo tempo, instâncias vivas,
fundamentalmente constitutivas desta classe social.

REFERÊNCIAS

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Trabalhadores e sindicatos na construção da prática sindical
revolucionária na Primeira República: questões historiográficas

Kaio César Goulart Alves*

Resumo: O presente texto tem por objetivo apresentar o debate conceitual sobre a
prática sindical revolucionária no Rio de Janeiro, no início do século XX, ao mesmo
tempo em que formula novas questões com o objetivo de aprimorar a análise da relação
entre os trabalhadores e os sindicatos na formação do sindicalismo revolucionário.

Palavras-chave: Trabalhadores; Sindicalismo; Ação direta.

Abstract: The purpose of this paper is to present the conceptual debate on revolutionary
union practice in Rio de Janeiro at the beginning of the 20th century, while formulating
new questions with the aim of improving the analysis of the relationship between
workers and trade unions in Formation of revolutionary syndicalism.

Keywords: Workers; Sindicalism; Direct Action.

*
Doutorando em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Juiz
de Fora (UFJF). E-mail: [Link]@[Link]
Apresentação do problema

Segundo Eric Hobsbawm, o avanço geral da organização sindical e política dos


trabalhadores no Ocidente se deu em duas fases. A primeira, entre 1880 e 1890,
caracterizou-se pelo protagonismo dos militantes socialistas que haviam conquistado
pelo voto democrático o direito de ocupar as cadeiras dos parlamentos espalhados pela
Europa. Esse foi o contexto de criação e desenvolvimento dos partidos operários de
massa, a exemplo do Partido Social-Democrata Alemão (SPD). Nesse período foi criada
a II Internacional, e o Primeiro de Maio tornou-se um símbolo de esperança e confiança
dos trabalhadores. A segunda fase desse avanço desenvolveu-se entre 1905 e 1914, num
intervalo em que a greve geral mostrou-se um instrumento de luta poderoso, a exemplo
de sua importância na Revolução de Fevereiro de 1905, na Rússia. Também buscou-se,
nesse contexto, a conquista do sufrágio universal masculino. Ao mesmo tempo, o
“sindicalismo revolucionário” - uma concepção de como os sindicatos devem atuar,
influenciada pelo anarquismo -, passou por uma importante expansão, especialmente na
Rússia, no “mundo ibérico” (Portugal e Espanha), e nos países latinos, incluindo o
Brasil. Nas palavras de Hobsbawm, a consciência de classe vivenciada pelos
trabalhadores pautou-se na identificação eleitoral dos mesmos com o Partido Social-
Democrata (SPD), para o caso da Alemanha. Na Grã-Bretanha, por sua vez, a
consciência de classe dos trabalhadores foi expressa na criação de uma “cultura
operária”, simbolicamente notável no “proverbial boné operário de viseira”, nos jogos
de azar, e no lazer proporcionado pelo bar operário (HOBSBAWM, 1988, p. 187-188).

No Brasil, pode-se afirmar que o processo de formação das classes trabalhadoras


inicia na segunda metade do século XIX, em virtude da transição do trabalho escravo
para o livre, bem como do começo de nossa industrialização, fatores estruturais que
permitiram a ampliação da força de trabalho assalariada urbana. Estudando o caso do
Rio do Janeiro, Marcelo Badaró Mattos observou que as experiências compartilhadas
pelos trabalhadores escravizados e livres, no âmbito das suas condições de vida, de
trabalho, e dos movimentos sociais resultaram na formação de instituições de classe,
como as associações de ajuda mútua, os grêmios recreativos, as associações
carnavalescas, os partidos políticos e os sindicatos, ao mesmo tempo em que forjavam-
se formas de consciência coletiva (MATTOS, 2009).
O movimento operário e sindical da Primeira República, objeto dessa presente
reflexão escrita, não foi uma simples expressão do anarquismo, uma vez que o
sindicalismo reformista constituiu uma prática sindical igualmente influente no meio
operário daquele período, fator esse que contrariava as teses de uma historiografia que
via naquele momento importante das lutas sociais apenas a atuação de homens brancos,
italianos e anarquistas (BATALHA, 1990).
Na Primeira República havia, precisamente, duas tradições de luta sindical,
concorrentes entre si, uma reformista, que caracterizava-se pela defesa da “greve como
o ‘último recurso’, e por buscar consolidar as conquistas trabalhistas através de medidas
legais”, (BATALHA, 1990: 121), e uma de ação direta, que, em termos gerais,
“significava organização sem delegação de poder, sem representação de corte liberal, o
que se aplicaria ao campo da política e da economia”, nesse modo, “os trabalhadores
lutariam diretamente contra as autoridades públicas e contra os patrões, desenvolvendo
vários procedimentos, desde os mais pacíficos até aqueles em que teriam de recorrer à
força (GOMES, 1988, p. 96).
É notável que a historiografia sobre o movimento operário no Brasil, marcada
pelo grande número de pesquisas sobre o tema específico da luta sindical no começo do
século XX, construiu categorias explicativas voltadas para a análise do sindicalismo de
ação direta que, até certo ponto, são conflitivas, embora o objeto de pesquisa fosse o
mesmo: a ação direta dos trabalhadores. “Anarco-sindicalismo” (PINHEIRO; HALL,
1979), “sindicalismo revolucionário” (BATALHA, 2000), “corrente autônoma”
(TOLEDO, 2004) e “método de ação” (OLIVEIRA, 2009) são algumas das categorias
explicativas forjadas pelos estudiosos da ação direta dos trabalhadores.

Historiografia e debate conceitual

O quadro mais geral em que tal debate conceitual foi forjado desenvolveu-se a
partir dos anos 2000, em um período de retomada dos estudos sobre os mundos do
trabalho na historiografia brasileira. Novos trabalhos, sob novas abordagens,
começaram a ser produzidos. Segundo Batalha:

As conquistas da história do trabalho foram muitas e muito significativas desde fins dos
anos 1990. Houve ganhos no volume e na qualidade da pesquisa produzida, com
reflexos evidentes nas publicações, na variedade dos temas abordados, na construção de
espaços institucionais e acadêmicos para a história do trabalho. Sem está última,
dificilmente esse campo de estudos teria o espaço que hoje tem nos periódicos
especializados e nos encontros científicos da disciplina (BATALHA, 2006a, p. 88).

Em linhas gerais, tentou-se superar a separação que existia entre as experiências


dos escravizados e dos livres (CHALHOUB; SILVA, 2009), bem como levantar outras
perspectivas de análise, como a de gênero e a étnico-racial (CRUZ, 2010), conservando,
em alguns trabalhos, a perspectiva de classe (LONER, 2001; MATTOS, 2008). Em
síntese:

A história do trabalho tradicional preocupava-se essencialmente com os aspectos que


unificavam os trabalhadores; sem abandonar essa dimensão essencial para a
compreensão da ação classista, está cada vez mais atenta àquilo que os divide (origens
étnicas, diferenças de ganhos e de status social, crenças, etc.). Certas dicotomias que
prevaleceram durante algum tempo neste campo, opondo, por exemplo: trabalho e lazer,
organização e cotidiano, militância e trabalhadores não organizados; agora têm pouco
espaço (BATALHA, 2006a, p. 89).

Em tal movimento de mudanças no campo da história do trabalho, o movimento


abolicionista, por exemplo, foi avaliado a partir do apoio dado pelos trabalhadores à
causa dos escravos, de modo que escravidão e liberdade passaram a ser compreendidas
como partes integrantes do processo de formação da classe trabalhadora (MATTOS,
2004). Uma contribuição importante a ser considerada, a respeito da formação da classe
trabalhadora carioca, é a que resultou da pesquisa realizada por Marcelo Badaró Mattos,
sobre as experiências comuns de escravizados, libertos e livres no Brasil durante a
segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Isto porque
Mattos ressalta que o processo de formação da classe foi marcado por experiências de
exploração, trabalho, organização e movimentos sociais compartilhadas por escravos,
ex-escravos e livres. Havendo, além disso, paralisações de escravos ao mesmo tempo
em que ocorriam paredes de assalariados livres e formavam-se solidariedades entre os
movimentos sociais populares - como no caso do “apoio à causa abolicionista por parte
de organizações de escravos e libertos (como irmandades negras) e mesmo de
trabalhadores organizados” (MATTOS, 2008, p. 156). De acordo com Mattos, a nova
consciência de classe, em formação na cidade do Rio de Janeiro, nas primeiras décadas
do século XX reintegrou em seus movimentos sociais e discursos a importância das
lutas dos escravos pela liberdade, e também a valorização do ofício e a dignidade de ser
artista (MATTOS, 2008, p. 222-224).

Outra questão importante foi o deslocamento temporal, da década de 1910 para


os primeiros anos do século XX, feito por trabalhos como o de Marcela Goldmacher
(2009), que avaliou greves conduzidas desde a década de 1890, e estudou a primeira
“greve geral” do Rio de Janeiro, promulgada em 1903 pelos trabalhadores da Fábrica de
Tecidos Cruzeiro. Da mesma forma que pesquisas sobre o anarquismo e o
“sindicalismo revolucionário”, como as de Edilene Toledo (2004), e Tiago Bernardon
de Oliveira (2009) lançaram sugestões e questionamentos sobre qual a delimitação mais
adequada dessas experiências.

Edilene Toledo, analisando o caso de São Paulo, afirma que o “sindicalismo


revolucionário” era uma “corrente autônoma” que defendia a luta de classes, e que por
ser neutra em termos ideológicos permitia a atuação de militantes de correntes políticas
variadas, como socialistas, sindicalistas puros e anarquistas (TOLEDO, 2004, p. 53).
Toledo também observa que se haveria espaço para a pluralidade ideológica nas
organizações “sindicalistas revolucionárias”, não haveria a predominância de militantes
anarquistas, uma vez que “o critério para a participação no sindicato era ser trabalhador,
e não anarquista, socialista ou de outra tendência semelhante” (TOLEDO, 2004, p. 70).
Nesse sentido, a luta reformista, “visando conquistas dentro do sistema existente”, seria
uma característica importante das organizações “sindicalistas revolucionárias”
(TOLEDO, 2004, p. 53).
A respeito do anarquismo, Tiago Bernardon de Oliveira aponta que mesmo
tendo em vista “as múltiplas correntes internas”, e muitas delas “conflitantes entre si”,
pode-se afirmar que “a aversão ao Estado, a defesa intransigente da liberdade
individual, e a ação direta são elementos presentes, pelo o menos em teorias e discursos,
dos que se diziam anarquistas no Brasil (OLIVEIRA, 2009, p. 58). Oliveira destaca, ao
mesmo tempo, que a relação entre “sindicalismo revolucionário” e anarquismo é
complexa (OLIVEIRA, 2009, p. 64). Pensando distintamente de Toledo, Oliveira afirma
que o “sindicalismo revolucionário” não foi uma “corrente autônoma”, mas sim um
“método de ação”, cuja projeção atingida foi aumentada, sobretudo, pela intensa
militância anarquista (OLIVEIRA, 2009, p. 66).

Marcelo Badaró Mattos acrescenta, nesse sentido, que mesmo havendo a


possibilidade das diretrizes sindicalistas serem adotadas por diferentes correntes
políticas, predominava, no âmbito de entidades “sindicalistas revolucionárias” como a
Confederação Operária Brasileira (COB), a combinação da concepção sindical com o
ideário político anarquista, “como se observa pelos artigos doutrinários de fundo
anarquista publicados no jornal A Voz do Trabalhador, porta-voz da COB, entidade
máxima de orientação sindicalista revolucionária no país” (MATTOS, 2008, p. 128).

Em tal movimento historiográfico, nota-se, atualmente, um esforço internacional


no campo da historiografia do trabalho voltado para a análise da assimilação das
culturas militantes de esquerda (especialmente o anarquismo e o socialismo) pelos
sindicatos de trabalhadores no início do século XX, seja na África, na Europa ou nas
Américas (DARLINGTON, 2009; MCKAY, 2012; CARUSO, 2012; WALT, 2010;
SAMIS, 2009; BELKIN, 2006; RODRIGUES, 2004; TOLEDO, 2004; SAMIS,
RAMOS, 2002; GABRIEL, 1991).

Lucien van der Walt, em trabalho recente, avalia o surgimento do anarquismo e


do “sindicalismo revolucionário” na África do Sul, tendo em vista identificar, entre
outras questões, a presença de “pessoas de cor” nas associações dos trabalhadores que
se orientavam pela prática “sindicalista revolucionária”. Walt também apresenta uma
interpretação alternativa à imposta pelo Partido Comunista da África do Sul, que
afirmava-se como a única tradição de esquerda na história das lutas trabalhistas daquele
país (WALT, 2010).

Claudio Batalha caracterizou, recentemente, o “sindicalismo revolucionário” em


relação ao anarquismo quando observou que “a posição de [Neno] Vasco, que
prevaleceu na COB, propunha uma adoção ‘tática’ do sindicalismo revolucionário pelos
anarquistas atuando nos sindicatos” (BATALHA, 2013, p. 87).

É possível observar, desse modo, que as pesquisas atuais no campo da História


Social do Trabalho têm conferido tratamento variado ao caracterizar a experiência
“sindicalista revolucionária” no Brasil, especialmente em relação ao anarquismo e ao
socialismo, considerando que há categorias distintas e interpretações divergentes sobre
essa experiência.

Questões para o debate

Nossas primeiras consultas às fontes primárias do acervo do II Congresso


Operário Brasileiro (realizado entre 8 e 13 de setembro no Rio de Janeiro) alimentam a
formulação de novas questões voltadas para a compreensão de como seu deu a
construção da prática sindical revolucionária no Rio de Janeiro. Quais ofícios adotaram
essa prática sindical? Quais etnias eram mais atuantes? Havia espaço para mulheres e
negros nesses sindicatos? Qual o peso das culturas militantes anarquista e socialista na
elaboração dos princípios que nortearam essa prática sindical? Esses são alguns dos
questionamentos que apresentamos, tendo em vista aprimorar a compreensão do
sindicalismo de ação direta no início do século XX.

O relatório, escrito em forma de histórico, produzido por lideranças do Centro


Cosmopolita (uma associação que representava trabalhadores dos hotéis, cafés e
estabelecimentos congêneres, fundada em 1903 no Rio de Janeiro, então Distrito
Federal) apresenta-nos o seguinte: a data de fundação desse sindicato e seu número
inicial de membros; a orientação expressamente contrária à luta político-partidária; a
adoção da “luta direta como a única eficaz”; a promoção da greve geral da classe dos
trabalhadores em hotéis, cafés e estabelecimentos congêneres, proclamada em 1912; o
número de trabalhadores que aderiram à greve e o modo em que ela foi conduzida; e,
por fim, a publicação de um jornal, de nome A Verdade, financiado pelo Centro
Cosmopolita (Relatório nº 82, COB, 82, Microfilme nº 546, Arquivo Geral da Cidade
do Rio de Janeiro). Esse documento revela um número considerável de informações
quantitativas e qualitativas, que apontam para a existência de um material de pesquisa
promissor acerca da formação do sindicalismo de ação direta no Rio de Janeiro.

Também enviado para a comissão organizadora do Segundo Congresso Operário


Brasileiro, o relatório produzido pelo Sindicato dos Trabalhadores em Fábricas de
Tecidos do Rio de Janeiro contém informações igualmente instigantes, citamos:
“podemos dizer mesmo que foi a agremiação [Sindicato dos Trabalhadores em Fábricas
de Tecidos] que trouxe para o Rio o método da resistência, ou do Sindicalismo Francês,
se assim quiserem”. A greve geral da categoria também é descrita no relatório.
Proclamada em 15 e agosto de 1903, seu interesse consistia na conquista do “dia normal
de 8 horas e 40 por cento de aumento sobre os salários existentes”. Explicando o porquê
do fracasso da greve, o relatório menciona detalhes sobre a espionagem promovida pelo
aparato repressivo do Estado, por meio de Francisco Fernandes, um agente especial do
corpo de segurança pública, junto ao “ministro da justiça”, que se infiltrou no comando
da greve, e agiu em seu prejuízo. (Relatório n. 97, COB, 97, Microfilme n. 546,
AGCRJ).

O debate historiográfico conduzido até o momento, cujo interesse é identificar


qual conceito é mais adequado para delimitar a experiência sindical de ação direta, deve
considerar, a priori, os discursos e as práticas produzidas pelos trabalhadores e suas
lideranças no âmbito da organização e da luta sindical. Um estudo de perspectiva mais
totalizante é complexo exatamente na proporção em que é necessário, se trabalhamos
com a ideia de que a compreensão desse sindicalismo, em suas múltiplas capilaridades,
pode nos dar ferramentas para entender melhor a história das esquerdas no Brasil.
Em função disso, e à luz do que foi dito acima, a documentação organizada no
acervo do II Congresso Operário Brasileiro, composta de ofícios, telegramas, cartas,
históricos e relatórios das associações enviados à comissão organizadora do congresso,
juntamente com a rica imprensa operária do período, certamente lançam novas questões
para o entendimento do sindicalismo, como aquelas acerca de peso da influência
anarquista ou socialista na construção da prática sindical revolucionária.

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O trabalhador da enfermagem: Entre a conquista da formalização e a
dureza do regime de trabalho: dilemas para ação coletiva

Helton Saragor De Souza

Mestre em Ciências- Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.


heltonsaragor@[Link]

Prof. Dr. Áquilas Nogueira Mendes

Professor Doutor; Livre-Docente de Economia da Saúde,


Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo, USP e do
Faculdade de Economia e Administração da PUC-SP
aquilasn@[Link]

Introdução

O objeto da investigação é o regime e ação coletiva das categorias de enfermagem


(enfermeiros, técnicos e auxiliares), após a década de 1990, em três hospitais da Região
Metropolitana de São Paulo (RMSP) sob diferentes formas de gestão (administração
direta, terceirizada sob gestão de Organizações Sociais de Saúde (OSS) e da iniciativa
privada no contexto do capitalismo financeirizado e da organização do trabalho pós-
fordista. Nessa pesquisa, a análise da origem social dos profissionais através da análise
das atividades laborais pregressas correlacionada à abordagem da influência do tipo de
vínculo empregatício na conformação de regimes de trabalho diferenciados nas diferentes
formas foram centrais para reflexão a ação coletiva das categorias da enfermagem nos
três hospitais investigados.

METODOLOGIA:

Trabalhamos sob duas perspectivas para a exposição do objeto. Na dimensão


teórica, relacionamos a literatura sobre regimes fabris e vínculo empregatícios com a
literatura clássica acerca dos trabalhadores e a relação com o sindicato no Brasil. Na
pesquisa empírica, os meios de pesquisa consistiram nas técnicas etnográficas, nas
entrevistas semiestruturadas e conversas informais. A pesquisa ocorreu durante o
primeiro semestre do ano de 2014. No roteiro de entrevista, abordamos a formação
educacional; trajetória e perspectiva profissional; mercado de trabalho; remuneração;
qualificação profissional; processo de trabalho; a relação com a tecnologia; aspectos da
terceirização; conflitos no local de trabalho; mercado interno de trabalho; ação coletiva;
subjetividade envolvida no trabalho e saúde do trabalhador.

RESULTADOS E CONCLUSÕES:

Em síntese, o contexto social e histórico dos serviços de saúde é fundamental para


entender a realidade da ação política dos trabalhadores de enfermagem. Em nossa visão,
as tendências econômicas submetem o regime e o processo de trabalho das categorias da
enfermagem na medida em que, para a diminuição de custos, constrangem a contratação
do número adequado de profissionais. Nesse sentido, todas as formas de gestão da força
de trabalho da enfermagem (pública, terceirizada e privada) instituem a relação
desproporcional que se baseia na inequação entre demanda do número de pacientes e
quantidade incipiente de profissionais, ou seja, à moda do trabalho em cuidado, institui-
se sistema análogo ao just-in-time consagrado no toyotismo e “emprestado” para diversas
atividades de serviços (GOUNET, 1999). Do ponto de vista técnico, essa relação é
demonstrada pelo não atendimento dos estabelecimentos de saúde dos parâmetros fixados
do dimensionamento do quadro de profissionais da enfermagem, conforme resolução do
COFEN 293/2004. Sendo assim, a dinâmica do fluxo tensionado (DURAND,2003) é
fundamental para a compreensão da organização do trabalho em enfermagem. Temos
uma configuração de cobrança desproporcional sobre os profissionais que devem realizar
seus procedimentos mesmo sem as condições básicas muitas vezes. Portanto, o modo de
produzir e o regime de trabalho das categorias de enfermagem são submetidos pelo
capitalismo financeirizado, representado na pressão para a redução de custos da força de
trabalho e aumento da produtividade advindos da conversão dos serviços de saúde e do
orçamento estatal em áreas de valorização do capital sob predominância financeira.
Destacamos como a peculiaridade subjetiva do trabalho em enfermagem gera
tamanha pressão sobre os trabalhadores. A intensificação e a sobrecarga de trabalho sob
o fluxo tensionado parte do contexto de que o objeto de trabalho são os usuários, logo, a
não realização de um procedimento ou um erro implica em prejuízo gradativo a depender
da condição do paciente. A tendência observada nos profissionais da enfermagem é de se
guiar pelo fluxo, porém, o cotidiano de trabalho sob essas condições desembocam em
sérias consequências sobre a sua saúde. Temos uma representação concreta no contexto
do trabalho em cuidado do caráter contraditório do trabalho sob o capitalismo, enquanto
o profissional oferece sua capacidade para o benefício da saúde de outrem, exauri a sua
própria saúde.

Em paralelo à caracterização da racionalização do processo de trabalho e as


peculiaridades do trabalho na atividade de cuidado, respectivamente, a intensificação e
a pressão subjetiva, a tendência do mercado de trabalho após a década de 1990 expõe o
movimento do capital, a articulação entre as estratégias de capitalização a partir dos ativos
financeiros e dos empréstimos bancários e a atividade econômica das seguradoras e
operadoras no cenário de ampliação do mercado consumidor dos planos privados. O
processo de aquisição e fusão das operadoras está em curso resultando em verticalização.
No período de 2003 a setembro de 2013, as operadoras privadas reduziram de 1.814 para
1.274, correspondendo a cerca de 30% de redução do número de operadoras de planos
privados de saúde no Brasil5. Essa dinâmica é mundializada como apontado por Chesnais
(1996). No país, a ampliação do mercado consumidor de serviços de saúde motivou, por
exemplo, em 2012, a aquisição por parte da empresa líder de mercado nos Estados
Unidos, United Health, do grupo empresarial nacional de planos de saúde AMIL -
Assistência Médica Internacional. Esse processo foi associado com o aumento do
faturamento do setor, de acordo com Ocké-Reis no período de 2003 a 2011: “o
faturamento do mercado quase dobrou e seu lucro líquido cresceu mais de duas vezes e
meia acima da inflação” (OCKÉ-REIS, 2013, p.10). Do ponto de vista do trabalho, esse
movimento ampliou consideravelmente a oferta de emprego nas ocupações da
enfermagem, categoria majoritárias nas estruturas hospitalares e em outros serviços
assistenciais. Não temos acesso às estatísticas específicas sobre o emprego das categorias
da enfermagem. Os dados acerca do emprego cedidos pelo IBGE referem- se aos
trabalhadores dos hospitais e da administração pública sem distinção (IBGE, 2014, p.55).
Não obstante, os dados de inscritos cedidos pelo COREN-SP (Conselho Regional de
Enfermagem do Estado de São Paulo) podem nos servir como espelho dos postos de
emprego, pois não é esperado que a progressão de profissionais inscritos crescesse
consideravelmente sem o aumento de postos de emprego de forma correlacional. Segundo
dados do Conselho, o número de inscritos cresceu de 73.360 inscritos no ano de 1993
para 445.693 em julho de 2014 (GRÁFICO I). Esse crescimento do número de
profissionais de aproximadamente 600% deve-se à composição predominantemente
relacional do processo de trabalho na enfermagem e a expansão econômica da oferta de
serviços.

Na realidade brasileira, a origem social da força de trabalho da enfermagem que


sustentou esse ciclo de valorização do capital é pressuposto para a compreensão das
formas de ação coletiva e a relação com os sindicatos. De forma implícita, o relato dos
profissionais corrobora a decisão de ingresso na enfermagem motivado, principalmente,
pela formalização obtida por duas vias: 1) garantia do emprego respaldado pela CLT(
Consolidação das Leis de Trabalho); 2) ingresso por concurso nos serviços públicos. Do
ponto de vista dos futuros profissionais, realizar o curso técnico é a certeza do emprego,
apesar da consideração do trabalho como desgastante e mal remunerado. Para esses
trabalhadores, estar empregado com vínculo formal é um avanço em comparação com as
atividades laborais anteriores.

A respeito da primeira forma, a formalização pela carteira assinada tem


significativa relevância, embora isso ocorra junto com o aumento do emprego formal no
país nos últimos anos. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística),
a informalização ainda representa 43% da população economicamente ativa em 2012
(IBGE, 2014). Constatamos nas entrevistas que as atividades pregressas dos profissionais
são permeadas pela informalização, como por exemplo: pintor sem carteira assinada;
trabalhadora do lar; cozinheira e babá. Em outras palavras, os profissionais da
enfermagem têm, muitas vezes, o primeiro acesso aos direitos trabalhistas, tais como,
férias, décimo terceiro salário, depósito de Fundo de Garantia por Tempo de Serviço
(FGTS), rescisão em caso de demissão e seguro-desemprego quando estão ocupados na
área. A única trabalhadora formal foi auxiliar de produção metalúrgica por dezesseis anos,
mas ficou desempregada após os quarenta anos. Ela relata do seguinte modo o seu
ingresso na enfermagem:

(...) por causa da idade (...) eu pensava, às vezes não vai mais compensar,
eles (empregadores) não vão deixar de pegar uma menina de vinte para pegar
uma de trinta né? Nossa, quando eu resolver estudar, eu nem vou ter mais
chance no mercado de trabalho (...) porque era muito tarde (Téc./Aux.2).

Posteriormente, confirma ter conseguido emprego logo após o término do curso.

Estritamente, sobre os enfermeiros: a profissional do hospital terceirizado


trabalhava no setor de comunicação e migrou posteriormente; já os demais ingressaram
na área como atendente e secretária de médico. Chamamos a atenção para a trajetória
profissional do enfermeiro do hospital público. Sua história de vida condicionará sua
postura nas relações de trabalho e a valorização da profissão de enfermeiro. Ele trabalhou
em olaria aos nove anos de idade no interior de Minas Gerais; posteriormente, em São
Paulo, foi vendedor informal. A sua transição para a área de saúde ocorreu quando era
office-boy de um hospital. Esse tipo de transição interna foi relatada como comum,
segundo a enfermeira do hospital terceirizado: ― Tem gente que era da limpeza aqui e
que hoje é técnico, tem gente que era recepcionista e hoje é técnico‖ (Enf. 2). A técnica
do hospital público era cozinheira de uma instituição filantrópica que também prestava
serviços de saúde e realizou essa transição. Coerentemente, todos entrevistados declaram
serem oriundos de famílias pobres. A centralidade do vínculo formal pela maioria dos
entrevistados é confirmada com a informação de não conhecerem o desemprego após a
formação como técnico de enfermagem, embora, contraditoriamente, os graduados
relatarem momentos de desemprego. Somente um profissional de nível médio trabalhou
como home-care (cuidador) informalmente.

Ainda sobre o tema, na bibliografia encontramos muitas semelhanças entre os


relatos dos trabalhadores no artigo de Aguiar e Soares (2004) que analisa a categoria dos
atendentes de enfermagem (categoria extinta) e nos relatos dessa investigação. Os
depoimentos das trabalhadoras acerca de sua origem social, vida profissional e o ingresso
na área de enfermagem por cursos de formação têm conteúdo muito próximo ao expresso
pelos trabalhadores entrevistados dessa pesquisa. As autoras demonstram como os
processos de qualificação profissional formaram atendentes em auxiliares e garantiram
empregos direitos trabalhistas, assim como, alterações progressivas na condição de vida
dessas trabalhadoras. A descrição da situação anterior à formação profissional das
trabalhadoras também converge com a situação de informalização observada na
investigação dessa pesquisa, inclusive com a citação de algumas ocupações informais
idênticas. Aguiar e Soares (2004) demonstram como a formação profissional e o emprego
tornam-se um acesso aos direitos da cidadania, anteriormente negados. Nos exemplos do
artigo, a transição interna das atendentes foi atingida através da realização de programa
de formação técnica provido pela secretaria municipal de São Paulo. A garantia do
emprego formal tanto pelo vínculo celetista ou ingresso no serviço público também foi
demonstrada

Referenciamo-nos nas categorias de superpopulação relativa que tem a


desqualificação como característica e está submetida às oscilações do desemprego
sistêmico. Marx realiza quatro distinções dessa superpopulação, o primeiro grupo seria a
reserva móvel da força de trabalho, trabalhadores que transitariam entre os setores
produtivos com desemprego momentâneo; o segundo grupo é marcado pela característica
“latente” na qual as populações ficariam disponíveis ao mercado pelo desenvolvimento
capitalista, exemplo dos trabalhadores rurais em direção à cidade; o terceiro grupo é o
mais relevante para a nossa caracterização, nas palavras de Marx: “A terceira categoria
da superpopulação relativa, a estagnada, constitui parte do exército ativo de trabalhadores,
mas com ocupação completamente irregular. Ela proporciona, assim, ao capital, um
reservatório inesgotável de força de trabalho disponível. Sua condição de vida cai abaixo
do nível normal médio da classe trabalhadora, e exatamente isso faz dela uma base ampla
para certos ramos de exploração do capital”(MARX,1985, p.208). O quarto grupo refere-
se ao “lumpemproletariado” como segmento mais pauperizado. Sinteticamente,
caracterizamos esses profissionais como oriundos da superpopulação relativa, isto é, não
estavam inseridos no mercado de trabalho, pois o trabalho doméstico, as atividades
informais ou os variados tipos de “bicos” eram sua referência. Desse modo, configuraram
setor da força de trabalho com raízes na precarização de direitos e na informalização.

A trajetória profissional e origem nos setores pauperizados influenciam


consideravelmente as relações trabalhistas, caracterizamos como distintas nos três
hospitais investigados. Fundamentamo-nos na adaptação dos regimes fabris de Burawoy
(1990), guardadas as peculiaridades da proposta original e de nossa aplicação e na
influência do vínculo empregatício nos regimes de trabalho (NICHOLS et al, 2004). Em
nossa visão, o tipo de vínculo empregatício é determinante nos contrastes das relações
laborais e do funcionamento das unidades hospitalares estudadas. A diferença de vínculo
é o aspecto mais importante para os trabalhadores da enfermagem em relação aos tipos
de gestão. Sinteticamente, os servidores públicos inserem-se em regimes estatutários. O
cargo efetivo tem mais direitos em comparação aos empregados celetistas, por exemplo:
a previsão de abonos de faltas, licença prêmio por assiduidade e, principalmente,
estabilidade na qual só existirá sanção ou exoneração após definição de processo
administrativo disciplinar com direito de ampla defesa do trabalhador.

A instabilidade do regime celetista sustenta a gestão da força de trabalho baseada


na insegurança e influencia o cotidiano dos profissionais. Nas unidades hospitalares
privada e terceirizada, a assimetria de poder entre trabalhadores e direção da empresa
conduz ao despotismo permeado por relações arbitrárias. A autonomia do trabalhador é
maior no setor público, sendo que o alicerce é a estabilidade advinda do regime
estatutário.

Em todos os hospitais, os profissionais apresentaram a noção difusa de que as


categorias de enfermagem são submissas aos médicos e às direções dos hospitais. Esse
entendimento dos entrevistados em relação à enfermagem é apontado como fator inibidor
da ação coletiva e a capacidade de resistência. Nos três estabelecimentos hospitalares, há
pouca referência aos sindicatos ou formas de mobilização organizada1.

No hospital público, existe fragmentação de representação sindical, três


entidades disputam a representação dos profissionais de nível médio (sindicato dos
servidores municipais, reconhecido pela administração municipal; sindicato específico
dos servidores da saúde, e associação dos servidores da saúde), todavia, nenhuma das
entidades tem peso significativo nas relações laborais. Há cerca de três anos, houve um
hiato de mobilização nesse hospital, o sindicato dos servidores da saúde organizou greve
na rede municipal por questões salariais e melhores condições de trabalho. A
administração não negociou com os grevistas e a mobilização não teve resultados
imediatos; posteriormente, a administração cedeu em aspectos salariais, alterou chefias
combatidas, reverteu os descontos de dias parados dos grevistas e as sanções
administrativas das lideranças, porém, não reconheceu o sindicato grevista, que perdeu a
relevância momentânea e não teve continuidade.

Os trabalhadores do hospital privado e terceirizado são representados pelo


mesmo sindicato. No primeiro, a referência é negativa e citada pelo auxiliar entrevistado,
que é diretor sindical; esse caracteriza o sindicato como pouco atuante e afastado dos
trabalhadores. Contraditoriamente, alguns de seus colegas têm referência positiva no
sindicato, justamente, por conta da atuação desse diretor. No hospital terceirizado, as
referências são positivas por conta da intervenção sindical na recorrência dos atrasos
salariais. Nas palavras da técnica do estabelecimento: “Olha, eu não botava fé no
sindicato, mas depois de agora, de janeiro, que eu saí de férias e minhas férias (depósito)
nunca caia, quem resolveu foi o sindicato”. Em relação ao sindicato dos enfermeiros, os
graduados desconhecem sua atuação.

Entendemos a pessoalidade presente como obstáculo da atuação conjunta.


Dificilmente, os trabalhadores encaram sua relação de trabalho coletivamente, mas
individualmente, portanto não como relação contratual hierárquica entre empregado e
empregador. Os conflitos pessoais predominam sobre conflitos próprios das relações
laborais. As referências dos profissionais sempre são cordiais 2. Citamos três exemplos
sobre a relação entre pessoalidade e ação coletiva, no exemplo mencionado da greve, os
grevistas não mobilizaram alguns colegas, pois esses “deviam favores” à supervisora de
enfermagem que os indicou para empregos na iniciativa privada; a referência aos
proprietários do hospital privado sempre em tom pessoal; a enfermeira do hospital
terceirizado entrevistada relata ter sofrido assédio moral, mas em outro setor e sob uma
chefia distinta, contudo, a profissional não vê responsabilidade da organização social,
pois essa lhe deu a primeira oportunidade de emprego.

Outro aspecto de entendimento sobre a própria categoria é a falsa consciência de


que o fato do setor ser composto majoritariamente por mulheres significa que a categoria
é submissa e dócil. Questionado sobre o perfil político da enfermagem, o auxiliar do
hospital privado e diretor sindical considerou:

Sim (...) acho diferente, o pessoal até faz uma pressão diferente
em cima das mulheres, porque sabe que vai ceder fácil pela
própria característica das mulheres, da enfermagem que é uma
categoria desgastante, submissa, né? As pessoas mandam e a
gente obedece.
Em que pese o entendimento dos envolvidos, consideramos essa posição
respaldada mais no machismo da sociedade do que propriamente na ação prática dos
sujeitos, porque no exemplo da greve do hospital público, a maioria dos grevistas e,
principalmente, das lideranças, eram mulheres. A questão do vínculo empregatício tem
maior relevância do que a predominância de mulheres, pois qualquer tentativa de

2
Utilizamos o termo cordialidade, no sentido apresentado por Sérgio Buarque de Holanda, cordial é aquilo
oriundo do coração, logo, o homem cordial tem sentimentos que oscilam do amor ao ódio, e isso torna-se
um obstáculo para a construção da coisa pública e da sociedade civil (HOLANDA, 1997).
mobilização nos hospitais privados e terceirizados, seja de mulheres ou de homens, é
fortemente coibida pelas direções. Por exemplo, o auxiliar entrevistado do hospital
privado fora demitido quando era membro da Comissão Interna de Prevenção de
Acidentes (CIPA) por não ser considerado cooperativo3.

Outro aspecto observado é a comoção resignada dos trabalhadores acerca da


reverberação dos erros procedimentais em tom de responsabilização individual, mas que
não se canaliza em ações efetivas de solidariedade, a maioria tem empatia aos
profissionais envolvidos, pois todos profissionais relatam ter presenciado situações de
erro.

Por fim, consideramos que o histórico profissional dos trabalhadores, no qual


não vivenciaram ações de resistência ou tiveram representação sindical associado à
pessoalidade constroem a ausência de ações organizadas, além de interpretarem o
sindicato como algo alheio à sua condição de trabalhador analogamente a posição dos
operários na década de 1950 de origem rural que viam o sindicato como algo externo a
sua condição (LOPES, 2008). Especificamente sobre a enfermagem, a pré-noção de
submissão profissional e a instabilidade dos contratos celetistas configuram regimes de
trabalho assimétricos que dificultam a ação coletiva.

3
O auxiliar foi readmitido após decisão judicial.
Referências Bibliográficas

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transformações no trabalho e na vida. Revista Latino-americana de Enfermagem 2004
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para o dimensionamento do quadro de profissionais de enfermagem nas unidades
assistenciais das instituições de saúde e assemelhados. Disponível
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2013

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HOLANDA, S. B., Raízes do Brasil, Cia. das Letras, São Paulo, 1997

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[Link] > Acesso em: 07/05/2014.

LOPES, JRB. Sociedade Industrial no Brasil. Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, Rio
de Janeiro, 2008.

MARX, K.. O Capital - Crítica da Economia Política. São Paulo: Abril Cultural, volume
2, 1985.
NICHOLS T et al. Factory regimes and the dismantling of established labor in Asia: a
review of cases from large manufacturing plants in China, South Korea and Taiwan. Work
Employment & Society, Dec 2004, Volume: 18 Issue: 4 pp.663-685.

OCKÉ-REIS, C. Mensuração dos Gastos Tributários: O Caso dos Planos de Saúde –


2003-2011. Nota Técnica IPEA. Maio/2013.
Teoria da revitalização sindical: contribuições e limites para analisar o
sindicalismo brasileiro.

Ana Paula Fregnani Colombi


Doutoranda em Desenvolvimento Econômico pelo IE/UNICAMP
pesquisadora do CESIT, bolsista FAPESP
Email: anafcolombi@[Link]

Introdução

A chegada ao poder executivo do Partido dos Trabalhadores (PT) no Brasil e a melhora nos
indicadores econômicos e sociais suscitou um intenso debate a respeito da capacidade de influência
do movimento sindical nesses governos (2003-2016).
Além de leituras baseadas na passividade e acomodação política (GALVÃO, 2006, 2010;
ARAÚJO; VÉRAS DE OLIVEIRA, 2014), na recuperação (BOITO JR; MARCELINO, 2010;
CARDOSO, 2013), ou mesmo na cooptação (DRUCK, 2006; BRAGA, 2012) do movimento
sindical durante os anos 2000, mais recentemente surgiu o debate em torno da existência ou não de
um processo de revitalização sindical (GALVÃO, 2014; DIAS; KREIN, 2015). Essas análises,
entretanto, têm demonstrado um certo subdesenvolvimento conceitual, pois os termos
“recuperação”, “revitalização”, “cooptação” e “passividade” dizem pouco sobre os repertórios
adotados e a natureza das demandas disputadas pelo sindicalismo brasileiro nos anos 2000. Por
vezes os autores chegam a distintas conclusões mesmo quando a dimensão econômica da ação
coletiva é destacada como a mais promissora. Além disso, as dimensões econômica, política e
social da atuação sindical por vezes se confundem sem evidenciar perspectiva teórica da análise.
Considerando o debate em torno das dimensões da ação coletiva à luz da teoria da
revitalização sindical é uma elaboração eminentemente anglo-saxã e levando em consideração que
os sindicatos, conforme Hyman (2001), possuem ideologias e identidades específicas e se inserem
em sistemas de relações laborais (nacionais) com trajetórias históricas singulares que produzem,
por sua vez, estruturas de oportunidades políticas diferenciadas, qual seria, então, a relevância
desse debate para analisar o caso brasileiro?

0
Responder essa questão implica dois movimentos. Na primeira seção investiga-se as
formulações em torno dos estudos das relações industriais (industrial relations) a fim de relacioná-
las com as dimensões de análise da ação coletiva que perfazem a abordagem da revitalização
sindical. Na segunda segunda seção problematiza-se a apropriação das dimensões da ação coletiva
para analisar o caso brasileiro à luz da teoria da revitalização sindical. A hipótese é que a teoria da
revitalização sindical só pode ser usada para o caso brasileiro se for redefinida à luz das identidades
do movimento sindical no país. Neste sentido, ao final, apresenta-se uma metodologia de análise
baseada na teoria da revitalização sindical, mas cuja definição das dimensões econômica e política
da ação sindical expresse as identidades que informam a trajetória sindical no Brasil.

1. As dimensões da ação coletiva no debate anglo-saxão: das relações industriais à teoria


da revitalização sindical.

Apesar de não ser possível falar em um único campo de teorização dentro das relações
industriais, prevaleceu no debate anglo-saxão uma concepção dos sindicatos como atores que
deveriam atuar no campo econômico, priorizando melhores condições salariais e de trabalho.
Segundo Hyman (2001):

In most English-speaking countries, trade unions have traditionally been viewed as


organizations the primary purpose of which is to secure economic benefits for their
members; in particular, by advancing their ‘terms and conditions of employment’ through
collective bargaining. From such a perspective, broader social and political objectives are
of dubious legitimacy, or at best ancillary to unions’ economic functions (HYMAN, 2001,
p. 6).

No caso americano, a negociação coletiva é entendida como o núcleo das relações


trabalhistas (FREGE, 2008) e a função sindical prioriza a busca por melhores condições salariais e
de trabalho, caracterizando um pure-and-simple sindicalismo ou, como é mais conhecido, um
sindicalismo de negócios (business unionism) (HYMAN, 2001).
Do Reino Unido proveio o conceito collective bargaining segundo o qual a melhora nas
condições de trabalho deveria ser buscada através de um canal de negociação entre empregados e
empregadores, via suas instituições de representação (WEBB e WEBB, 1897). Apesar da leitura
dos Webb também privilegiar a esfera econômica, o debate europeu tende a aceitar a atuação
sindical junto ao Estado como uma ação complementar à negociação coletiva. Esta é uma
característica que os distancia da experiência americana onde a tradicional falta de interesse no
1
Estado ou na parceria social “pode ser explicada pela ausência do Estado e da democracia no local
de trabalho no contexto das relações industriais nos Estados Unidos” (FREGE, 2008, p. 44).
Seria mesmo muito restrito, na visão de Flanders (1970) e Hyman (1975), considerar que a
finalidade principal dos sindicatos é a negociação coletiva. Para Flanders, atuar na esfera estatal
significa adentrar na esfera política da ação sindical. O objetivo dessa atuação é estabelecer direitos
e participação política, buscando na regulação a criação de uma ordem social embutida em um
código de direitos trabalhistas. Para Hyman, por sua vez, as relações industriais tratam sobre as
questões que são negociadas no bojo do contrato de trabalho, englobando a questão salarial, mas
também tratam dos limites que podem ser impostos ao poder do empregador.
É possível notar que, mesmo por caminhos diferentes, tanto Flanders quanto Hyman
reconhecem que o sindicato possui a função econômica tanto quanto a função política. No seu
primeiro sentido, os sindicatos buscam regular e melhorar os termos em que os trabalhadores são
obrigados a dispor de sua força de trabalho. Ainda assim, o sindicalismo – dialeticamente – levanta
questões de poder e controle e é isso que compõe a base para a ação política dos sindicatos.
Em suma, o debate europeu explicita que os sindicatos fazem parte da sociedade – não
podendo, portanto, ignorar o contexto em que atuam. Nenhuma instituição negligencia, ao fim e ao
cabo, o contexto social e político que permeia as relações de mercado, assim como nenhuma delas
deixa de pensar nos interesses materiais e imediatos da classe trabalhadora (HYMAN, 2001). Nesse
sentido, os sindicatos que definem sua função, primeiramente, em termos de negociação com
empregadores estão, também, compelidos a buscar maneiras de influenciar as políticas públicas,
sendo – mesmo que em diferentes graduações – atores econômicos, mas também políticos. Mais
do que isso, a relação entre estes dois papeis é complexa e contraditória, e a prioridade atribuída a
cada um varia ao longo do tempo e em relação aos contextos nacionais (GUMBRELL-
MCCORMICK; HYMAN, 2013, p. 134).
Com a crise sindical que despontou nas duas últimas décadas do século XX, o debate em
torno dessas dimensões da ação coletiva tem sido revisitado, a exemplo da teoria da revitalização.
Esta abordagem busca analisar “as várias dimensões que capturam as principais orientações ou
esferas da atividade sindical (BEHRENS; HAMANN; HURD, 2004, p. 20) por meio das quais os
sindicatos buscam recuperar os recursos de poder que consideram estratégicos para a permanência
de sua capacidade de mobilização e representação dos trabalhadores. Isso implica dizer que o

2
processo de revitalização significa que: i. dentro da dimensão da filiação (membership dimension),
as instituições sindicais têm juntado esforços para aumentar o número de membros; ii. que, dentro
da dimensão econômica (economic dimension), têm buscado desenvolver novas formas de
negociação coletiva; iii. que, dentro da dimensão política (political dimension), têm buscado novas
formas de envolvimento eleitoral e juntado esforços para influenciar a legislação e os processos de
elaboração das políticas públicas, e por fim, iv. que, na dimensão organizacional (organizational
dimension), as instituições têm buscado reformar as estruturas organizacionais para atender as
demandas dos trabalhadores e aumentar o grau democracia interna (BEHRENS; HAMANN;
HURD, 2004).
Na medida em que os sindicatos traçam e realizam estratégias de revitalização em resposta
à referida crise, seus modelos de atuação – historicamente constituídos – vão sofrendo alterações
(GUMBRELL-MCCORMICK; HYMAN, 2013). E, é possível acrescentar, a interação entre as
dimensões da ação coletiva e a definição que é atribuída a cada uma delas também vão se
transformando. É importante salientar, entretanto, que as dimensões de análise da teoria da
revitalização sindical estão informadas pelas identidades que marcam o contexto europeu e este
parece ser o ponto fundamental de discussão quando busca-se o exercício de apropriação desse
quadro metodológico para a análise do sindicalismo brasileiro.
Em primeiro lugar, as dimensões econômica e política da ação sindical são conceituadas,
respectivamente, no campo da negociação coletiva e no campo da disputa, na arena estatal, em
torno da legislação trabalhista. É justamente o caráter nacional dessas disputas que atribui uma
dimensão social à luta sindical, como já havia sido pontuado por Flanders (1970) e Hyman (1971,
1975). Além disso, a separação das esferas econômica e política expressa, como analisado
anteriormente, a realidade inglesa em que a arena política da atuação sindical é mobilizada como
suporte à negociação coletiva, dimensão considerada a mais importante do ponto de vista das
funções do ator sindical.
As dimensões da atuação sindical, entretanto, ganharam novos contornos no contexto
brasileiro em que as lutas por democracia, desenvolvimento econômico e igualdade social
marcaram a identidade do movimento sindical na sociedade brasileira.

3
2. As dimensões da ação sindical no sindicalismo brasileiro: limites da teoria da
revitalização sindical.

Enquanto o desenvolvimento capitalista na Europa Ocidental e nos Estados Unidos foi


acompanhado pela introdução dos direitos sociais mediante a redução das desigualdades e a
melhoria das condições de vida da população (CASTEL, 1998), no Brasil o desenvolvimento
capitalista não implicou a formação de um Estado de Bem Estar Social (SILVA, 2015).
A realidade brasileira de cidadania fluida e de curta duração (CARDOSO, 2016), de grande
desigualdade social vis-a-vis um crescimento econômico e industrial pujante impulsionou, todavia,
a emergência de um movimento sindical combativo, a despeito do corporativismo sindical:

Na situação política de desenvolvimento acelerado no início dos anos 60, o sistema


corporativo de organização do trabalho conservou sua estrutura formal, mas sua ação foi
transformada pelo uso que se fez dele. Com relação a isso, as forças nacionalistas de
esquerda no movimento sindical alteraram fundamentalmente o equilíbrio político do poder,
fazendo dos sindicatos uma força política independente (...). (HUMPHREY, 1982, p. 28).

Embora parte da literatura tenha tratado a emergência da classe trabalhadora no setor


industrial enquanto o surgimento de uma “aristocracia do trabalho” baseada em um sindicalismo
de negócios (RODRIGUES, 1966; ALMEIDA, 1996), a luta contra o baixo nível salarial, a busca
por melhores condições de trabalho e a preocupação com os temas mais gerais da sociedade, como
a reforma agrária, evidenciavam o reavivamento político da classe trabalhadora (HUMPHREY,
1982). Esse processo, que intensificou-se com as distenções políticas e a crise econômica do
governo militar, viria a ser chamado de “novo sindicalismo”: “uma ousada aposta na mobilização,
nas lutas de massa, na organização de base, na politização da agenda sindical” (VÉRAS DE
OLIVEIRA, 2011, p. 72). Tal politização encontrava-se na luta contra a contenção salarial, mas
também na luta pela cidadania (RODRIGUES, 2011) e pelo regime democrático (MOISÉS, 1982).
Nos países europeus, a luta do movimento sindical no século XIX em diante também esteve
atrelada à extensão do conceito de cidadania a fim de incluir o direito da negociação coletiva, de
acesso aos direitos sociais e à participação política. No caso brasileiro, entretento, o Estado adquiriu
outro papel: o Estado autoritário teve um importante papel na reprodução das desigualdade sociais,
no controle do movimento sindical e na limitação de suas demandas e suas funções (SEIDMAN,
1994). Neste sentido, parece não fazer sentido a separação entre um sindicalismo economicista e
outro de caráter político no cenário brasileiro. O surgimento do movimento sindical na arena
4
política extrapolou o espaço interno da fábrica e a esfera da produção não somente pelo papel que
desempenhou na luta pela democracia, mas também pela cidadania. Como se tratavam de questões
nacionais, os líderes sindicais foram levados à cena nacional, confirmando a legitimidade da luta
dos trabalhadores na arena política.
Desde então, a ação sindical no país não tem se limitado ao campo das relações de trabalho
e tem desempenhado uma função que vai muito além da esfera econômica (GALVÃO, 2016). Nos
anos 1990, num cenário de desestruturação do mercado de trabalho (BALTAR, 2003) e de
flexibilização nas relações laborais (KREIN, 2013), o sindicalismo CUT uniu uma postura
defensiva em nome da manutenção dos postos de trabalho a uma estratégia de resistência
propositiva ao neoliberalismo, estabelecendo uma agenda sindical “cidadã” (VÉRAS DE
OLIVEIRA, 2011). Essa conformação prático-discursiva objetivava fortalecer e ampliar a presença
do sindicalismo CUT nos espaços institucionais por meio de alianças com outros movimentos
sociais, buscando ocupar os espaços de disputa do poder e projetar-se como um campo de
proposição alternativa de políticas públicas. Mas, ao mesmo tempo, ela significou o reforço da
ideia do “público não-estatal” como condição de exercício de uma cidadania ativa, discurso que
encontrava lugar para uma atuação mais assertiva da central na criação de espaços de criação e
promoção da cidadania (promovendo, por exemplo, qualificação profissional e alargando a oferta
de serviços aos sócios) e que se contrapunha à natureza privatista do Estado brasileiro. Tratava-se,
portanto, de um “sindicalismo cidadão” que por vezes atuava no campo da parceria, situado entre
o serviço aos sócios, a filantropia e o negócio e que nem sempre se contrapunha à ressiginificação
que lhes impunha a razão neoliberal (VÉRAS DE OLIVEIRA, 2011).
A transição de um sindicalismo combativo para um sindicalismo que aposta na participação
institucional sugere que a evolução do sindicalismo brasileiro não corresponde a um processo de
anulação da esfera política da ação coletiva mas, como indicado por Galvão (2016), a um processo
de transformação da atuação sindical e da relação que vem se estabelecendo entre essas instituições
e os governos frente às modificações nas conjunturas econômica, política e ideológica. Trata-se
assim, não da ausência de uma ação política, mas da modificação dessa atuação por parte do ator
sindical que, ao apresentar dificuldades para pensar um projeto alternativo de sociedade e para

5
difundir um projeto de transformação da mesma, tende a revelar-se cada vez mais poroso à ordem
ideológica neoliberal (BÉROUD, 2014)1.
A trajetória do sindicalismo brasileiro no século XX demonstra que suas identidades
dominantes são marcadas menos pela contraposição entre a ação política versus a atuação
econômica do que pela forma como essas duas esferas interagem e se expressam vis-à-vis as
transformações no contexto nacional. A dimensão econômica da ação coletiva tomou forma,
historicamente, na defesa do emprego e na luta salarial, aspectos que num regime autoritário ou
fora dele, não podem ser descolados da dimensão política em um país cuja desigualdade social e
cidadania limitada são elementos fundantes da nação. Neste sentido, divorciar as demandas
econômicas de seus atributos sociais e políticos no Brasil parece ser um exercício que desconsidera
as características estruturais do capitalismo e a trajetória de luta e formação do sindicalismo no
país.
A teoria da revitalização sindical está fundamentada, entretanto, na separação – ao menos
no plano analítico – das dimensões de atuação, uma vez que inspirada nas experiências nacionais
em que a ação sindical de natureza economicista preponderou, como nos casos americano e inglês.
Senão nesses casos, esta abordagem inspira-se em países, como Alemanha e França, em que o
Estado cumpriu um papel fundamental na formação de um Estado de Bem Estar Social, confiando
ao sindicalismo as disputas em torno das relações de trabalho. Assim, lançar mão da teoria da
revitalização sindical para o caso brasileiro, separando as dimensões da ação coletiva, oculta o
processo histórico sobre o qual se fundou o sindicalismo no Brasil.
Além disso, no caso brasileiro, a atuação coletiva e os desdobramentos em torno da
contestação ou compactuação em torno da estrutura sindical corporativa são fortemente
influenciadas pelo contexto. Neste sentido, a relação entre o poder de agência da classe
trabalhadora e os condicionantes estruturais adquirem maior complexidade, uma vez que o
processo de industrialização e a criação de um grupo de operários nos setores industriais não foram
as únicas condições para o fortalecimento e a mobilização da classe trabalhadora. Nesse sentido,
colocar a capacidade de resposta e de escolha estratégica do ator sindical como premissa da

1
Essa transformação ganha expressão não somente nas mudanças do sindicalismo CUT, mas na criação de outra
central sindical: a Força Sindical (FS) em 1991 (TRÓPIA, 2009).

6
abordagem sob a qual analisa-se a questão, como faz a teoria da revitalização sindical, subtrairia a
importância da dinâmica política em influenciar o movimento sindical no Brasil. Conforme
ressaltam Frege e Kelly (2004), uma das contribuições da abordagem da revitalização sindical é
trazer a estratégia sindical para o primeiro plano da análise. Entretanto, ao trazer a estratégia
sindical para o centro do debate, ao menos no caso brasileiro, a teoria da revitalização poderia
subestimar a importância dos movimentos políticos e também econômicos em moldar a escolha da
estratégia sindical. Isso não quer dizer que não há margem de escolha dentro das instituições
sindicais, quer dizer, apenas, que tais escolhas demonstram uma interação complexa e não linear
com o contexto político e que é esta interação que precisa ser levada ao primeiro plano do debate.
Essas ponderações não estão aqui sendo articuladas para descartar a teoria da revitalização
sindical como ferramenta metodológica para a análise do caso brasileiro. Busca-se, ao contrário,
estabelecer as diferenciações nacionais necessárias para que a teoria tenha aplicabilidade nos
estudos sobre o sindicalismo do país. Para tanto, requer-se que as definições do que venha a ser o
político e o econômico partam, mas não se restrinjam, às atribuições estabelecidas no bojo da teoria
da revitalização sindical. Propõe-se, neste sentido, o alargamento dos conceitos, conforme o quadro
abaixo, levando-se em consideração as especificidades de caso brasileiro:

Quadro 1: Dimensões da teoria da revitalização sindical aplicadas ao caso brasileiro.


Abordagem Dimensão Econômica Dimensão Política

- Obtenção de melhorias salariais e de - Interação com atores nos diversos níveis de


Teoria da benefícios e impacto mais geral na governo e em três arenas de atividade
Revitalização distribuição da riqueza, incluindo novas (eleitoral, legislação e implementação das
Sindical: técnicas de negociação e redefinição do papel normas) resultando em uma regulamentação
do sindicato no processo negocial. do trabalho mais favorável.
A diferença fundamental é que a dimensão A diferença fundamental é que a atuação
econômica da atuação sindical não se refere política não se restringe à atuação na esfera
apenas à melhora das condições salariais dos eleitoral-institucional. Ela também se dá
trabalhadores, mas à forma como o nessa esfera, mas abrange outros aspectos
Teoria da movimento sindical articula essas demandas como a disputa por um discurso de
Revitalização no contexto nacional e, principalmente, à resistência, a articulação das bandeiras da
Sindical com forma como disputa as políticas econômicas e classe trabalhadora com o acesso à cidadania
base no caso seus impactos sobre os trabalhadores. Neste e a parceria com outros movimentos sociais.
brasileiro: sentido, é pertinente analisar: Neste sentido, é pertinente analisar:

- a obtenção de melhorias salariais no plano - a interação das instituições sindicais com


da remuneração fixa ou variável atores nos diversos níveis de governo e em
- as disputas mais gerais que impactem na três arenas de atividade, visando melhorias
distribuição da riqueza na regulamentação do trabalho

7
- as disputas mais gerais que busquem - a articulação das demandas da classe
influenciar a política econômica dos trabalhadora com as disputas em torno do
governos projeto de desenvolvimento nacional
- como se dá o reforço ou esvaziamento da
Nesse quadro, as instituições sindicais ideia de cidadania
mobilizam o poder de barganha coletiva e de - a interação com os demais movimentos
mobilização para lograr novas conquistas sociais que expressem movimentos de
(poder estrutural). Mas também se utilizam do resistência e contestação à lógica neoliberal
poder institucional a fim de que possam
influenciar nos aspectos nacionais da Nesse quadro, as instituições sindicais
economia, com destaque para as políticas mobilizam o poder de participação na esfera
públicas que impactam diretamente os político-nacional, isto é o poder institucional.
trabalhadores. Mobilizam, também o poder social,
entendido como a capacidade de cooperação
do movimento sindical com outros grupos e
organizações sociais e como a capacidade de
obter o apoio da sociedade na legitimação
das pautas sindicais. Se trata de ter
capacidade de generalizar a luta política,
vislumbrando um projeto de sociedade.
Fonte: Elaboração própria.

O quadro explicita elementos que fazem parte das dimensões da ação coletiva, mas que são
tratados de forma mais restrita na teoria da revitalização sindical. Além disso, não localiza a priori
os temas de investigação em uma ou outra dimensão, mas permite identificar a manifestação das
mesmas ao longo dos movimentos de disputa e da análise das manifestações, lutas e repertórios
utilizados para a veiculação nacional das reivindicações.

Considerações Finais

O campo de investigação em relações industriais demonstra que os sindicatos, como


representantes dos trabalhadores, atuam para melhorar as condições de venda da força de trabalho,
mas também para tensionar o poder do empregador em determinar as relações de trabalho. Essas
funções do ator sindical aparecem visivelmente nas dimensões da ação coletiva presentes na teoria
da revitalização sindical, sendo respectivamente entendidas como as esferas econômica e política
da atuação deste ator.
As trajetórias históricas singulares e as estruturas de oportunidades políticas presentes nos
diferentes sistemas nacionais de relações laborais alteram, entretanto, a definição e a interação entre
as dimensões da ação coletiva. No caso brasileiro, a ação sindical raramente deteve-se ao campo
das relações de trabalho. Além disso, o entrelaçamento das dimensões política e econômica da ação
sindical remete a um processo tardio de industrialização que não logrou construir a condições de
8
cidadania presentes nos países centrais – justamente aqueles sobre os quais se assenta a teoria da
revitalização sindical. Em um país em que a desigualdade social e a luta pela democracia são
elementos constitutivos da nação, entender o político tão somente enquanto a luta pela
regulamentação das relações de trabalho é subtrair a complexidade da trajetória da formação das
identidades do movimento sindical brasileiro.
O esforço na construção de perspectiva de análise baseada na teoria da revitalização sindical
é, portanto, perceber todos os aspectos da ação coletiva em que os elementos econômico e político
de sua atuação podem se manifestar. O fazendo, mais relevante do que responder se há um processo
de revitalização em curso ou não, ou mesmo pré-definir quais repertórios de ação se enquandrariam
– à priori – em uma ou outra dimensão, é utilizar o arcabouço teórico metodológico desta teoria
para refletir acerca das transformações na definição do que vem sendo atribuído a cada uma das
dimensões da ação coletiva ao longo da trajetória sindical.

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11
Sindicatos e Fundos de Pensão no Governo Lula

Mateus Ubirajara Silva Santana – IE, Unicamp

mateus.santana89@[Link]

Paulo Sérgio Fracalanza – IE, Unicamp

fracalan@[Link]

Lício da Costa Raimundo – Facamp

liciocr@[Link]

Introdução
O presente artigo tem como principal objetivo analisar a relação entre sindicatos
e fundos de pensão no Brasil, sobretudo durante o governo Lula (2003-2010), buscando
identificar os discursos e práticas da instituição sindical e de seus membros em torno da
poupança previdenciária dos trabalhadores.
Opondo-se, no plano discursivo, ao modelo norte-americano de fundos de pensão,
nos quais a participação sindical possui um grau mínimo de influência sobre suas decisões
de investimento, no Brasil as organizações sindicais e o PT defendiam a ampliação da
atuação dos sindicatos na gestão dos fundos a partir da mobilização de argumentos
legitimadores. A justificativa central repousava na ideia de que enquanto representantes
da classe trabalhadora, os gestores de origem sindical poderiam redirecionar os
investimentos dos fundos a atividades produtivas, capazes de gerar crescimento
econômico e emprego privilegiando assim os interesses dos trabalhadores.
Diversos estudiosos, porém, criticam os resultados da gestão sindical nos fundos
de pensão, afirmando que esse processo deu origem a uma elite sindical gestora de fundos
de pensão, que tende a ter uma representação cada vez mais distante dos interesses dos

1
trabalhadores, sinalizando para uma profissionalização das entidades e maior
estreitamento com as práticas financeiras e rentistas.
Portanto, nos limites deste artigo, propõe-se, num primeiro, momento revelar os
contornos mais gerais do movimento de financeirização e da atuação dos fundos de
pensão nos países desenvolvidos. Em seguida, busca-se investigar os discursos, as crenças
e práticas dos sindicatos no Brasil, sobretudo na administração Lula, que justificam sua
imersão nos fundos de pensão, com vistas a explorar as contradições que envolvem a
prática do sindicalismo brasileiro dos anos 2000 e o discurso legitimador de suas escolhas
políticas.

Fundos de pensão no cenário internacional


No plano internacional, sobretudo nos países onde os mercados financeiros
encontram-se altamente desenvolvidos, como Estados Unidos e Inglaterra, os fundos de
pensão têm se mostrado, desde a década de 1980, uma força social determinante na
moldagem da forma de organização e gestão da corporação capitalista, provocando assim
profundos impactos nas relações de trabalho e na própria forma de atuação e organização
sindical. Por concentrarem um grande volume de recursos, originário da poupança de
trabalhadores, esses grandes fundos de pensão, juntamente com outros investidores
institucionais1, tornaram-se acionistas de diversos grupos econômicos em todo mundo,
chegando a participar ativamente em seus Conselhos Administrativo e Fiscal e fazendo
valer, dessa forma, seus interesses enquanto proprietários da riqueza mobiliária.
Além de acionistas, os fundos de pensão tornaram-se relevantes também por seus
maciços investimentos de portfólio, em grande parte voltados a aplicações em ativos
financeiros do mundo inteiro. Seus investimentos possuem destinos diversos, abarcando
desde ativos de maior liquidez e segurança (como os títulos públicos de países centrais),
até ativos de rentabilidade mais volátil, como os títulos privados (bonds corporativos,
cotas de fundos de investimento, cotas de ativos securitizados e participações em
mercados de derivativos).

1
Investidores institucionais incluem bancos, companhias de seguro, fundos de pensão, fundos mútuos e
fundos soberanos, que, devido à grande soma de recursos acumulados, passaram a atuar nos mercados
financeiros globais, tornando-se importantes e poderosos atores no cenário econômico internacional.

2
Segundo Sauviat (2005), entre os investidores institucionais, os fundos de pensão
e os fundos mútuos merecem destaque por representarem os atores mais importantes e
dinâmicos do mercado financeiro mundial. Sua importância se justifica, em primeiro
lugar, pelo tamanho e força que adquiriram ao centralizar a poupança coletiva dos
trabalhadores e pelas suas atuações como vetores transformadores da relação capital-
trabalho.
Em países anglo-saxões, os ativos dos fundos de pensão chegam a patamares
correspondentes a 70% do PIB, revelando a nítida centralidade que esses agentes
alcançaram no cenário internacional dominado pelas finanças. Enquanto acionistas de
grandes corporações, os fundos de pensão dos países centrais revelam-se capazes de
influenciar diretamente as decisões de gestão da empresa, como, por exemplo, a forma e
o grau de endividamento, a política de investimento, as deslocalizações de plantas
produtivas, as estratégias de externalização de atividades produtivas, as técnicas de
reestruturação e as práticas em geral que orientam a gestão corporativa, com vistas à
maior eficiência na alocação de seus recursos. Frequentemente, essas práticas implicam
prejuízos aos trabalhadores, já que se traduzem em corte de custos com pessoal,
achatamento de salários, demissões, utilização de mão de obra terceirizada e precarização
das condições de trabalho em geral.
Assim, os fundos de pensão, ao lado dos demais investidores institucionais, se
apresentam como importantes artífices das transformações nas formas da governança
corporativa, sobretudo nos Estados Unidos. Assiste-se em todo o mundo, mas
principalmente neste país, a substituição da lógica de reter e investir – característica do
modelo fordista e do modelo da firma gerencial, em que os lucros retidos pela corporação
eram reinvestidos para seu crescimento – pela estratégia de diminuir e distribuir, sob a
égide do que se convencionou denominar de maximizing shareholder value, quando passa
a prevalecer a lógica de valorização de curto prazo dos ativos financeiros2. Tal
transformação está intimamente associada à distribuição dos lucros gerados, quer sob a
forma de dividendos e recompras de ações aos acionistas, quer na ampliação das políticas
de salários diretos e bonificações aos executivos corporativos.

2
Lazonik e O’Sullivan (2000).

3
O fato desses fundos serem formados pela poupança previdenciária de
trabalhadores e se consubstanciarem em grandes investidores institucionais que buscam
valorizar seus ativos nos mercados financeiros globais representa por si só uma
contradição, uma vez que, reunindo recursos dos trabalhadores, eles se configuram em
atores financeiros, com capacidade de influir diretamente nos fluxos de capitais mundiais.
Essa contradição é levada ao paroxismo na medida em que, na posição de acionistas de
grandes corporações e estando presentes em seus Conselhos Administrativo e Fiscal,
esses fundos impõem a lógica da financeirização e práticas relacionadas às práticas de
reestruturação produtiva, que levam à precarização do próprio trabalho.
Desde a década de 1980, os sindicatos americanos despertaram interesse para a
poupança acumulada dos trabalhadores, reivindicando sua gestão a partir da justificativa
de representação dos participantes e de atuarem como agentes de governança corporativa.
No entanto, Sauviat (2005) e Lordon (2000) compartilham da visão de que as
organizações sindicais americanas estão mais sintonizadas com a prática ortodoxa e
rentista dos investimentos e subordinados à lógica financeira de valorização do capital do
que com uma gestão responsável, voltada aos interesses e à segurança dos trabalhadores.

Fundos de pensão e sindicatos no governo Lula


Segundo Raimundo (2002: 146-147), a introdução das leis complementares 108 e
109 de 20013, ao substituírem a lei 6.435 de 1977 como organizadora do sistema de
previdência complementar, abriram um espaço inédito aos seus participantes na medida
em que determinaram que os Conselhos Fiscal e Deliberativo dos fundos de pensão
incorporassem maior representação da classe trabalhadora. Tratou-se de marco
regulatório fundamental que veio a permitir a maior atuação dos sindicatos de
trabalhadores na gestão dos fundos, criando maior possibilidade de direcionamento dos
investimentos conforme seus interesses.
A reforma previdenciária de 2003, implementada no governo Lula, com apoio de
centrais e organizações sindicais, também representou um importante marco na legislação

3
A lei 108/2001, permitiu a maior “democratização” da participação dos trabalhadores nos fundos ao
assegurar que seus representantes ocupassem, pelo menos, 1/3 das vagas nos seus Conselhos Deliberativos
e Fiscais, no caso de fundos de pensão patrocinados por empresas privadas ou instituídas por sindicatos e
órgãos representativos de classe. Por sua vez, a lei complementar 109/2001 passou autorizar a criação dos
fundos de pensão por intermédio do instituidor profissional, classista ou setorial.

4
acerca dos fundos de pensão. Isso porque, entre suas medidas encontrava-se a imposição
de um teto de benefícios previdenciários aos servidores públicos e, simultaneamente, a
criação de um sistema de previdência complementar (privado), de caráter voluntário, que
fornecesse planos de Contribuição Definida aos seus participantes.
A presença de membros ligados a sindicatos na gestão dos grandes fundos de
pensão brasileiros, cujos principais patrocinadores são empresas públicas, como Previ
(Banco do Brasil), Petros (Petrobras) e Funcef (Caixa Econômica Federal), revelou-se
bastante expressiva durante o governo Lula. O estudo de Maria Celina d’Araújo (2009)
aponta que, enquanto no governo FHC (1999-2002: 76), a porcentagem de gestores
ligados a sindicatos era de 41% nesses três principais fundos, no primeiro governo Lula
(2003-2006), essa participação aumentou para 51%, até alcançar o patamar de 66% no
segundo mandato de Lula (2007-2010)4.
Desde a década de 1990, os fundos de pensão estavam na agenda dos sindicatos e
do próprio PT. Embora, em um primeiro momento, os membros sindicais estivessem mais
arredios em participar de uma atividade tida como “engrenagem do capitalismo financeiro
global”, eles começaram a mudar de ideia e a defender a ampliação dos fundos via
ampliação da previdência complementar e maior participação sindical em sua gestão.
Em 2011, Lula já enfatizava a importância estratégica dos fundos na economia
brasileira, afirmando que “se não aumentarmos a poupança, não haverá recursos para
investimentos; se não houver investimentos, não haverá crescimento econômico; se não
houver crescimento, não haverá criação de emprego” (ZIBECHI, 2011: 76). Os fundos
de pensão, assim, passavam a ser vistos como um instrumento de funding, com
capacidade de financiar o crescimento e o desenvolvimento econômico do país.
Até o governo Lula, os fundos de pensão eram associados à ideia de corrupção e
ilegitimidade em função das grandes somas que acumulavam e da ausência de
mecanismos de fiscalização e transparência, além da permanente preocupação com sua
possível insolvência ou falência, em um contexto marcado pela instabilidade econômica,
característico dos anos 1980 e 1990. Contudo, como mostra Jardim (2009), a partir de um

4
Alguns nomes importantes podem ser destacados, como: Wagner Pinheiros, que, após ser dirigente de
sindicatos bancários, dirigiu a Petros e a Postalis; Guilherme Lacerda, que participou da fundação da CUT
e presidiu a Funcef; Sérgio Rosa, que ocupou a presidência da Confederação Nacional dos Bancários e da
Previ; José Sasseron que foi dirigente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Diretor de Seguridade da
Previ e presidente da Anapar.

5
discurso de inclusão social via fundos de pensão, de desenvolvimento da “cultura
previdenciária” e da coletivização dos riscos, o governo Lula iniciou uma campanha que
buscou trazer o conceito de solidariedade aos fundos de pensão, até então presentes
apenas no modelo previdenciário de repartição e não no de capitalização.
Ainda segundo a autora, a ideia inicial era tornar os fundos de pensão instrumentos
de inclusão social, através da crescente participação de representantes dos trabalhadores
em sua gestão e da difusão dos princípios de solidariedade e seguridade, partindo da
premissa de que é possível moralizar e humanizar o capitalismo, desde que os interesses
dos trabalhadores prevaleçam sobre os do capital.
Além disso, acreditava-se que os fundos de pensão poderiam servir como
instrumento de luta contra o processo de financeirização da economia. Por mais
contraditória que possa parecer essa possibilidade, seus defensores argumentavam que os
investimentos deveriam se direcionar a atividades produtivas e “éticas”, contribuindo,
dessa forma, para frear as práticas rentistas e especulativas e, ao mesmo tempo, estimular
o nível de atividade econômica, gerando emprego e renda, a partir de investimentos em
infraestrutura.
As organizações e centrais sindicais conferiram respaldo político a essa estratégia
do governo petista por meio de seus discursos e práticas de defesa dos fundos de pensão
enquanto alternativa à previdência pública e, ao mesmo tempo, como espaço de atuação
sindical, no qual os representantes da classe trabalhadora poderiam influir nas decisões
de investimento. Aderindo ao discurso de que essas entidades poderiam ser um
instrumento na luta contra o processo de financeirização da economia, o movimento
sindical, em sua maior parte, defendeu que a poupança dos trabalhadores deveria ser
utilizada em proveito deles, e seus investimentos deveriam ser voltados a atividades
produtivas e “éticas”, que garantissem a rentabilidade e a segurança dos aposentados e,
ao mesmo tempo, o nível de atividade da economia real.

Fundos de pensão e financeirização da alta burocracia sindical


A imersão de sindicatos no mundo das finanças, particularmente na gestão de
fundos de pensão, suscitou um debate importante no meio acadêmico: esse processo não
representaria uma transformação radical nas crenças e práticas da instituição sindical? Os
sindicalistas não conformariam uma nova elite sindical, distanciando-se assim de sua base

6
social, a classe trabalhadora? As discussões em torno dessa questão estão associadas, em
primeiro lugar, às transformações pelas quais passaram as organizações sindicais ao longo
da década de 1990, no contexto da reestruturação produtiva e da acumulação capitalista
sob predomínio das finanças e, em um segundo momento, na relação que o sindicalismo
estabeleceu com o governo Lula.
Segundo Marco Antonio de Oliveira (2003), a preocupação dos sindicatos se
alterou a partir da década 1990: pautas ligadas a questões econômicas e sociais, como
aumento salarial e ampliação de direitos trabalhistas – que caracterizavam as lutas do
período anterior – perderam cada vez mais espaço para a temática da garantia do emprego
e do combate às demissões. Devido à nova realidade do mercado de trabalho, marcada
pelo processo de reestruturação, flexibilização e precarização, a agenda sindical foi se
alterando, tendendo a se concentrar na defesa do emprego, na participação nos resultados
da empresa, na discussão sobre a gestão e organização do trabalho, nos efeitos da
flexibilização da jornada de trabalho etc. Em suma, a pauta sindical tendeu a reduzir-se à
sobrevivência no emprego e à tentativa de amenizar os efeitos deletérios provocados pelo
processo de reestruturação produtiva e precarização das condições de trabalho.
A nova gestão laboral passou a exigir do trabalhador – ou do colaborador, como
se convencionou denominá-lo no mundo corporativo – maior participação e envolvimento
com os projetos da empresa, trazendo elementos que inexistiam na fábrica fordista, como
a jornada de trabalho flexível, os deslocamentos, a necessidade de reciclagem contínua
do profissional, a discussão em equipe – visando os melhores resultados para a empresa
– as metas a serem batidas, a busca pelos prêmios e bônus por competência, o processo
de individualização das responsabilidades e o aumento generalizado da concorrência no
ambiente de trabalho.
Todos esses novos elementos trouxeram uma profunda mudança na relação
capital-trabalho, impondo novos desafios ao sindicalismo, que teve de se adaptar a essa
nova realidade. O fato é que se mostrou muito mais difícil aos sindicatos mobilizar a
classe trabalhadora e, portanto, manter seu papel tradicional de representante de interesses
amplos e de agente de barganha frente ao patronato. É nesse sentido que Oliveira (2003a)
aponta para o surgimento de um novo caráter sindical a partir dos anos 1990: o
sindicalismo de conciliação, que tem de negociar e realizar mais concessões para fazer

7
valer seus interesses em um ambiente onde seu poder de influência e ação diminuiu
drasticamente em decorrência da reestruturação produtiva e da nova gestão laboral.
Nesse cenário desfavorável à ação sindical tradicional, a agenda de participação
pelas vias institucionais ganhou força e temas como políticas compensatórias e parcerias
passaram a ser mobilizados. É nesse contexto que emerge o discurso que busca legitimar
a aproximação dos sindicatos com os fundos de pensão.
Druck (2006) argumenta que ao longo dos anos 1990 teria ocorrido um processo
de crescente despolitização dos sindicatos, traduzido em sua incapacidade de levar
adiante propostas políticas mais assertivas e de apontar um projeto alternativo ao
neoliberalismo. Galvão (2009), por sua vez, argumenta que já no início dos anos 1990, a
direção majoritária da CUT sinalizava uma aproximação com o sindicalismo de
resultados, assim como ficou associada a Força Sindical, buscando ocupar espaços
institucionais e oferecer aos membros dos sindicatos um número crescente de serviços.
Como afirma Ramos (2013), embora esse processo tenha começado em
administrações anteriores, durante o governo Lula, a conversão de (ex-) sindicalistas em
gestores de fundos de pensão assumiu maior relevância. João Bernardo e Luciano Pereira
(2008) buscam explorar as contradições de uma entidade de classe tradicionalmente
voltada à representação dos trabalhadores na negociação de compra e venda da força de
trabalho e que passa a administrar e investir vultosos recursos. Segundo os autores, na
posição de controladores de fundos financeiros, os dirigentes sindicais se aproximariam
da figura do investidor capitalista, distanciando da representação dos interesses da classe
trabalhadora. Observando o movimento de aproximação e penetração da alta cúpula
sindical com os fundos de pensão no caso brasileiro Ruy Braga & Álvaro Bianchi (2011)
defendem a ideia de que teria se iniciado, ao longo dos anos 1990, um processo de
financeirização da alta burocracia sindical no Brasil, que se consolida no governo Lula, a
partir da presença de sindicalistas na gestão e conselhos dos maiores fundos de pensão
brasileiros, em um contexto marcado pelo regime global de acumulação financeira.
Segundo os autores, o vínculo orgânico “transformista” da alta burocracia sindical com
os fundos de pensão pavimenta um caminho sem volta do novo sindicalismo rumo ao
regime de acumulação financeira globalizado (BRAGA, 2012: 141).
Antunes (2003) também analisou de forma maneira crítica esse movimento dos
sindicatos a partir dos anos 2000, principalmente a conivência da CUT com a reforma

8
previdenciária de 2003 e sua política de adesão e reivindicação pela gestão dos fundos.
Segundo ele, as centrais sindicais no Brasil caminham para um sindicalismo negocial,
cujo interesse passa a se centrar na gestão das grandes somas de aposentadoria e nas
práticas rentistas em detrimento de um comprometimento com as lutas sociais da classe
trabalhadora. No mesmo sentido, Francisco de Oliveira (2003a, 2003b) é também crítico
à inserção dos sindicatos no universo dos fundos de pensão. Observando o movimento de
desestruturação do trabalho organizado ao longo da década de 1990 e a consequente perda
da capacidade do poder político sindical, o autor apontava, no início dos anos 2000, para
uma crescente dissociação entre as organizações de representação dos trabalhadores e sua
base, afirmando que muitos dos antigos líderes sindicais, sobretudo aqueles ligados ao
setor bancário, haviam se convertido em uma nova classe de elite sindical, defensora e/ou
gestora de fundos de pensão.

Conclusão
A partir do que foi exposto é possível concluir que a busca dos sindicatos pela
gestão dos fundos de pensão se insere no contexto nacional e internacional de
reestruturação produtiva e de reorganização do capital produtivo pela lógica financeira.
As formas institucionais de organização e representação dos trabalhadores, frente a tais
gigantescas transformações históricas, optaram por se aproximar do movimento de
valorização capitalista e construir um discurso legitimador dessa sua opção. Nesse
sentido, a transformação dos sindicatos, sua paulatina aproximação com o mercado
financeiro e sua reivindicação pela gestão dos fundos de pensão devem ser entendidas a
partir do processo de reorganização e acumulação do capital e da busca por novos espaços
de atuação, como aqueles oferecidos pelos fundos de pensão.
No caso específico do Brasil, verificou-se que ao longo do governo Lula diversas
lideranças sindicais, sobretudo aquelas ligadas ao setor bancário, passaram a reivindicar
a gestão de fundos de pensão sob a justificativa de reorientar os investimentos para
atividades produtivas, objetivando representar os interesses dos trabalhadores. Tenha tido
ou não aderência à realidade, tal discurso sacramentou uma nova forma de organização
do sindicalismo brasileiro, inserindo-o definitivamente nos contornos de um processo de
financeirização da alta burocracia sindical e no estreitamento de sua relação com o
mercado financeiro.

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10
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São Paulo: Boitempo, 2005.
ZIBECHI, Raúl. Brasil potência: entre a integração regional e um novo imperialismo.
Rio de Janeiro: Consequência, 2012.

11
O SINDICATO DOS METALÚRGICOS DE JOINVILLE EM DISPUTA
DURANTE O PRIMEIRO GOVERNO DILMA ROUSSEFF1

Ana Paula Nascimento


Instituto de Ciências Sociais – Universidade Federal de Uberlândia
[Link]@[Link]

Introdução

No final dos anos de 1970, o Brasil era sacudido pela maior onda grevista de sua
história. No topo desta onda, liderando as greves, dando o tom das reivindicações,
rompendo o silêncio e o isolamento do movimento sindical, encontram-se os
metalúrgicos do ABC Paulista, região que, desde 1950, havia se tornado polo da
moderna indústria automobilística, onde se situavam as principais montadoras e
indústrias de autopeças. Foi o protagonismo dos metalúrgicos no chamado “novo
sindicalismo”, ao criticar a estrutura sindical oficial, realizar greves de massa e enfrentar
a intervenção dos governos militares, que levou à construção da Central Única dos
Trabalhares (CUT), à formação do Partido dos Trabalhadores (PT) e à campanha
histórica das Diretas Já, no final do período de ditadura civil-militar no Brasil. A força
do sindicalismo metalúrgico também pode ser medida pela emergência da principal
liderança popular no período recente, Luiz Inácio Lula da Silva, que seria eleito
presidente da República em 2002.
As lideranças atuantes no “novo sindicalismo” buscavam articular os
movimentos sociais e populares e defendiam a democratização nos locais de trabalho e
1
Este trabalho é resultado de uma pesquisa de Iniciação Científica que conta com o financiamento da
Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais, e com a orientação da Profª Patrícia Vieira Trópia, a
quem a autora agradece pelos comentários neste texto.
do próprio sindicalismo. As experiências iniciadas no ABC Paulista provocam uma
espécie de efeito dominó. Diretorias de entidades pelegas são rechaçadas e o movimento
das oposições sindicais passa a organizar os trabalhadores nas fábricas e a disputar as
eleições. No início da década de 1980, o movimento sindical no sul do Brasil se
articulava ao novo sindicalismo. Lideranças transitam de um estado ao outro, levando e
trazendo experiências. Segundo Gastão Cassel, o movimento sindical se fortaleceu
muito através do trabalho junto às oposições: “o pessoal ia organizar aqui, nos
metalúrgicos de Joinville, ia disputar Sindicato, vinha o pessoal dos metalúrgicos do
ABC trazer sua experiência de oposição... e junto com isso vinha toda a discussão
política de forma de organização” (VOZES DA DEMOCRACIA, 2006, grifos nossos).
A CUT buscava organizar e apoiar as oposições sindicais visando conquistar a
direção dos sindicatos e implementar um modelo de sindicalismo de contestação e
confronto.
Embora a atuação da CUT em Joinville remonte ao início da década de 1980,
apenas em 1994 uma chapa de oposição cutista vence as eleições sindicais no Sindicato
dos Metalúrgicos, precedidos pelo Sindicato dos Mecânicos e pelo Sindicato dos
Plásticos, em 1989.
A despeito de o Sindicato dos Metalúrgicos de Joinville (SMJ) ter se filiado à
CUT com a vitória de 1994, a partir de 1982 iniciou-se um processo de contínua
mudança: o velho peleguismo foi somado as transformações que estavam ocorrendo na
década. A principal figura para o início do processo de mudança do SMJ, foi Luis
Carvalho, eleito em 1982 vice-presidente, ao romper com a tradição da cidade “não
grevista” com a histórica greve de 1985 na Fundição Tupy S.A., ocasião em que
participaram 7.200 metalúrgicos, de um total de 9 mil funcionários da empresa
(SAG/DIEESE, s/d).
O processo de mudança em curso nos anos 1980 foi decisivo para a entrada das
ideias do novo sindicalismo em Joinville. Proclamadores da mudança, ativistas da Igreja
Católica, ligados a Teologia da Libertação, que no início da década organizaram o
Partido dos Trabalhadores da cidade, articulados em oposições sindicais, tinham no
SMJ a maior número de trabalhadores.
Desde 1994, a chapa da situação se mantém a frente do SMJ, mas em 2012
ocorreu a primeira disputa pela entidade sindical desde a filiação à CUT. Esta disputa
ocorreu entre duas chapas cutistas, cada qual partidária, ainda que não explicitamente
durante as campanhas, de uma corrente do PT.
O objetivo deste artigo é analisar a disputa ocorrida em 2012 pela diretoria do
SMJ, suas motivações e natureza. Para tanto, o texto será divido em duas partes. Na
primeira, apresentaremos a trajetória histórica do SMJ e em seguida, analisaremos a
disputa ocorrida em 2012.

O Sindicato dos Metalúrgicos de Joinville

O Sindicato dos Metalúrgicos de Joinville representa os trabalhadores da


indústria metalúrgica2, de fundição, da siderurgia e da indústria de material elétrico.
Somados estes ramos encontramos cerca de 600 estabelecimentos e aproximadamente
18 mil trabalhadores, em 2015. O número de filiados ao Sindicato era, em 2012, de
4.926 metalúrgicos. Já em 2016, 6.0913 trabalhadores são sindicalizados do total de
18.500 trabalhadores.

Tabela 1. Número de trabalhadores de categorias representadas pelo Sindicato dos


Metalúrgicos de Joinville, no período 2006-2015

2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015
Indústria
Metalúrgica 15.928 16.710 17.920 16.735 18.817 20.099 16.762 17.774 17.138 15.947
Elétrico e
Comunicação 688 901 962 1.123 1.505 2.291 2.708 3.044 2.925 2.101
Total 16.616 17.611 18.882 17.858 20.322 22.390 19.470 20.818 20.063 18.048

Fonte: RAIS/MTE. DardoWeb. Elaboração própria.

2
O Sindicato representa trabalhadores, entre outras, das seguintes empresas: Wetzel S.A – unidade Ferro
–, Fundição Tupy S.A, Schulz S.A, Docol Metais Sanitários, Ciser Parafusos e Porcas, Franke Sistemas
de Cozinhas, Nova Motores, Grupo Prysmiam, PPE Fios Esmaltados S.A, General Motors (GM), e
Ibrame Indústria Brasileira de Metais. A indústria metalúrgica em Joinville é responsável pela produção
de aparelhos de ar condicionado, motores para embarcações, bombas centrífugas, chapas de aço, motores
e moto bombas, ferro e aço, torneiras de cobre, metais sanitários, moto compressores, motores para o
setor automobilístico.
3
Sócios ativos 5.055 e 1.036 sócios aposentados, segundo dados da própria entidade.
A entidade foi fundada em 17 de novembro de 1931 e reconhecida pelo
Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio em 12 de fevereiro de 1942, por meio da
Carta Sindical emitida pelo órgão federal. Expressão do modelo de Sindicalismo de
Estado implementando durante o governo Vargas, o Sindicato dos Metalúrgicos de
Joinville “[...] nasceu [...] para a manutenção e o disciplinamento do trabalhador ao
Estado, ao capital, ao interesse condicional e irrestrito da indústria” (SOUZA, 2008,
p.80).
O SMJ é um dos mais antigos da cidade e originalmente representava também os
trabalhadores dos setores mecânico e térmico. Porém na década de 1950, a entidade foi
dividia em três novos sindicatos, resultando um sindicato para a categoria dos
mecânicos, outro sindicato para o setor térmico e outro sindicato para os trabalhadores
metalúrgicos.
Sobre a atuação dos dirigentes antes da década de 1980, Aires Zacarias
(SINDICALISMO, 1980, s/p) denuncia o peleguismo dos sindicatos joinvilenses, “O
sindicalismo joinvilense até muito àquem (sic) da realidade brasileira limitando-se a
conceder assistência médica-odontológica, se constituindo mais como um mini-posto do
INAMPS, do que efetivamente um órgão de assistência sindical.”. Diz ainda que o
Sindicato dos Metalúrgicos à época comandado “[...] por um pelego de nome Orlando
Silva, [ele] não admite concorrência que o ameace a sua tranquilidade neste
empreendimento.”.
Em 1977, quase toda a chapa oposicionista foi sumariamente demitida. Segundo
Zacarias,
[...] empregados que tiveram a ousadia de formar oposição estão
sendo demitidos covardemente, com o apoio de pelegos cretinos, que
utilizam-se de cargos para pisotearem seus companheiros de trabalho,
vilipendiando-os [...] aceitando as imposições patronais covardemente,
recebendo altas somas em dinheiro para aceitarem aprovação de
acordos coletivos de trabalho espúrios, indignos. (SINDICALISMO,
1980, s/p).4

A partir de 1985 inicia-se um processo de mudança política no movimento


sindical em Joinville, sob influência da CUT, que conquista em 1989 a direção do

4
SINDICALISMO. Hora H. Joinville, s/p, 14 fev. 1980.
Sindicato dos Mecânicos. Neste mesmo ano o Sindicato dos Trabalhadores das
Indústrias do Material Plástico de Joinville, também, elege uma chapa cutista para a
direção da entidade.
Este clima, segundo nossa hipótese, terá repercussão entre os metalúrgicos de tal
forma que a partir de 1985 ocorrem as primeiras greves desta categoria na cidade. Mais
precisamente, neste ano, os metalúrgicos deflagraram uma greve, na Fundição Tupy
S.A., com a participação de 7.200 trabalhadores, de um total de 9 mil (SAG/DIEESE,
s/d).
Esta greve ocorreu quando o sindicato procurou a gerência da Fundição Tupy
S.A. para negociar um aumento salarial (fora do período da data-base) levando em conta
a inflação do período. Na reunião de negociação, para além da diretoria do sindicato,
compareceram duzentos trabalhadores que, por difundirem a ideologia de parceria,
acreditavam que a gerência concederia um aumento salarial. Entretanto quando a
gerência se negou a negociar, diante do grande número de trabalhadores no recinto, o
sindicato deflagrou a primeira greve da categoria. O processo de negociação se
desenrolou com interferência do Tribunal Regional do Trabalho e, segundo dados do
Dieese, os metalúrgicos retornaram ao trabalho mediante acordo com a empresa.
Em 1989, ocorrem, ainda segundo o Dieese, quatro greves de metalúrgicos no
período da data-base. Em abril de 1990, os metalúrgicos deflagraram uma greve na
empresa MARTRIC e, em junho, realizaram a primeira greve de categoria, envolvendo
8.000 trabalhadores de várias empresas e unificada com os trabalhadores filiados ao
Sindicato dos Mecânicos (CUT).
O processo de mudança política no movimento sindical joinvilense resulta,
também, da ação política do PT na cidade. A vitória de uma chapa cutista, em 1989, no
Sindicato dos Mecânicos retrata a ligação do PT com as disputas por diretorias de
entidades sindicais.
A esmagadora votação (55%) na chapa apoiada pelo PT no Sindicato
dos Mecânicos foi confirmadora [do aumento de inserção e trabalho
do PT na cidade], Luis Álvaro de Freitas (filiado ao PFL), que está no
cargo [de presidente dos mecânicos] e concorreu à reeleição pela
chapa 1, sentiu que a chapa apoiada pela CUT iria vencer a eleição.
‘Se este pessoal do PT fizer um bom trabalho, vai acabar pegando os
outros Sindicatos. Caso contrário, eles não vão conseguir conquistar
mais nenhum Sindicato’, afirmou.5

A experiência acumulada ao longo das greves, a atuação conjunta com os


mecânicos e a crescente influência da CUT e do PT na cidade permitiram o movimento
de ruptura dos metalúrgicos com o velho sindicalismo e o surgimento, em 1994, de uma
chapa cutista, de oposição.
O Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Joinville filiou-se à CUT em
1994, após disputada eleição em que venceria a chapa 2, de oposição, tornando-se
presidente o trabalhador Adolfo Constâncio, da fábrica Ciser. O processo eleitoral teve
apoio de lideranças da própria CUT e do PT do estado de São Paulo, da cidade Curitiba
(PR) e da capital catarinense.
Nos dezoito anos seguintes ocorrem eleições regulares para a diretoria, a cada
quatro anos, com chapa única cutista. No ano de 2008, a eleição para diretoria ocorreu
no mês de setembro e a chapa 1, única concorrente, denominada “Unidade na luta, a
nossa força é a nossa união”, liderada pelo então presidente, Genivaldo Marcos Ferreira,
foi reconduzida. Houve uma renovação de 45% da diretoria, totalizando dez novos
diretores à frente do Sindicato. Mas durante o mandato a diretoria “rachou”, um grupo
de diretores se afastou e se tornou oposição6.

O Sindicato dos Metalúrgicos de Joinville em disputa

Nas eleições seguintes, em 2012, ocorreu uma nova disputa pela diretoria da
entidade. Duas chapas da CUT concorreram à direção do Sindicato, sendo a Chapa 1 da
situação, composta por membros da direção, e a chapa 2, intitulada “Resistência
Metalúrgica”, composta por membros dissidentes da gestão 2008, bem como por
antigos diretores que haviam participado do Sindicato nos anos 1990, entre eles Adolfo

5
MECÂNICOS elegem petista. Diário Catarinense. Joinville, p. 13. 28 jan. 1989.
6
Segundo nos foi relatado pelo presidente do sindicato, Sebastião de Souza Alves, em entrevista, a cisão
ocorreu após parte da diretoria solicitar que a ajuda de custo oferecida a três membros da diretoria fosse
ampliada para vinte e quatro membros da diretoria de base.
Constâncio7, e por trabalhadores afastados e aposentados de três grandes empresas da
cidade: Fundição Tupy S.A., Shultz S.A e Wetzel8. Ademais, tiveram o apoio do
Sindicato dos Servidores Públicos de Joinville, do Sindicato dos Mecânicos de Joinville,
principalmente da figura de Adilson Mariano, aliado destes sindicatos e vereador pelo
Partido dos Trabalhadores a época.
O resultado desta eleição foi a vitória da chapa 1, presidida por Sebastião de
Souza Alves. Dos 4.926 eleitores aptos a votar, 3.533 comparecem, sendo 2.486
(71,7%) dos votos para a chapa 1 e 982 (28,3%) dos votos para a chapa 2, 27 votos
brancos e 38 votos nulos9.
Longe de representar uma disputa entre lideranças, as eleições de 2012
expressam conflitos de ordem política entre correntes internas da CUT do PT. Conflitos
estes que diziam respeito sobre o posicionamento do partido em relação ao governo
Dilma Rousseff e no âmbito local, o prefeito Carlito Merss.

Em 2009, pela primeira vez foi eleito um prefeito pelo Partido dos
Trabalhadores em Joinville, Carlito Merss, filiado à corrente “Construindo um Novo
Brasil” (CNB). Tal corrente é oposicionista a chamada “Esquerda Marxista”, cujos
membros eram a época participantes do Sindicados dos Servidores Públicos Municipais
e do Sindicato dos Mecânicos, ambos filiados à CUT.
A relação histórica entre sindicatos e o PT apareceu, em Joinville, durante o
mandato de Merss, quando divergências político-partidárias se configuraram como uma
reverberação, para o plano sindical, daquelas já existentes entre correntes do PT na
cidade. A cisão ocorrida dentro da diretoria do SMJ representa esta reverberação.

7
Ver: [Link]/2012/08/sinsej-e-chapa-2-juntos-um-ganho-para-a-luta-sindical/
8
A crítica que a chapa 2 fazia à atual gestão dizia respeito ao afastamento da gestão sindical do cotidiano
do trabalhador operário. Tal chapa se intitulava como “verdadeiramente cutista” e tinha como objetivo a
unificação dos trabalhadores na cidade como um todo buscando negociações para toda a categoria,
também um Sindicato independente e autônomo em relação às empresas e uma data-base igual para todos
os metalúrgicos da cidade de Joinville.
9
Entretanto, ao se analisar os votos em zonas de votação, na empresa de maior número de filiados ao
Sindicato (metade dos filiados) a votação da chapa 2 chegou a 45% dos votos.
Em entrevista, Adolfo Constâncio afirmou que as divergências estavam ligadas a
esfera político partidária e que a chapa de situação apoiava a gestão do prefeito Carlito
Merss:
As diferenças eram políticas. A ala [corrente] do Adilson Mariano [...]
é da extrema radical [Esquerda Marxista]. E os caras da outra chapa
eram do PT, do Carlito [Merss], era a ala mais sossegada [Construindo
um Novo Brasil]. Era esse pessoal, eles eram de alas diferentes, eles
tinham diferenças políticas.
Teve [apoio ao prefeito Carlito Merss], tanto teve que eles colocavam
apoio ao prefeito Carlito, porque estava no auge. [...] A questão da
disputa [entre chapas, de 2012], era mais questão política, não era
interesse da categoria não, não foi pensando na categoria não, foi
pensando no partido político, e na relação deles com o partido.10

Em 2011, o Sindicato dos Servidores Públicos de Joinville realizou uma greve,


durante 40 dias. Tal greve, por ser liderada pelo sindicato cujas lideranças eram filiadas
ao PT, repercutiu dentro do partido, ocasião que a corrente “Construindo um Novo
Brasil” passou a solicitar a expulsão dos membros da corrente “Esquerda Marxista” do
partido. Em 2015, tal corrente se retirou, migrando para o PSOL.
Com a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da República, pelo
PT, o movimento sindical sofre algumas mudanças. A CUT torna-se força apoio deste
governo. A Força Sindical se aproxima da CUT nas principais questões econômicas e
trabalhistas: reforma da previdência, reforma sindical e reforma trabalhista, e tornam-se
força de apoio deste governo (BOITO JR., GALVÃO, MARCELINO, 2009; SOUZA,
TRÓPIA, 2016). A pressão que este governo recebeu partiu dos movimentos sociais,
que não tiveram suas reinvindicações garantidas nas décadas anteriores (ARAÚJO;
OLIVEIRA, 2014), e de setores dissidentes que formaram novas centrais sindicais
(GALVÃO, MARCELINO, TRÓPIA, 2015).
De acordo com Galvão (2009, p.179), nos governos Lula a aproximação acrítica
de parcela do sindicalismo e do governo “[...] ao invés de fortalecer a capacidade de
organização e resistência dos trabalhadores e de seus organismos de representação, tem
evidenciado suas debilidades.”. Tais debilidades são o posicionamento de acomodação
da CUT, a opção da Força Sindical em não se tornar opositora ao governo, a

10
Entrevista realizada com Adolfo Constâncio, em Joinville (SC), em abr. 2016.
fragmentação do movimento sindical, a criação de novas centrais sindicais, e, também, a
fusão de correntes sindicais por orientação não político-ideológica, mas pragmática.
Quanto à CUT, esta se manteve acrítica aos governos Lula mesmo diante das
perdas de direitos dos trabalhadores.
A retomada da discussão acerca da Reforma Trabalhista, que ocorreu no
primeiro ano do governo Lula, segundo Araújo e Oliveira (2014, p.10) “[...] situou-se,
contraditoriamente, entre os compromissos históricos do seu núcleo petista e sindicalista
e os compromissos do programa que construiu com sua base aliada”.
O posicionamento acrítico da CUT em relação aos governos do PT é reflexo de
“[...] um processo de conversão ideológica [...]” vivido por ambos, pois “[...]a
proximidade entre a central e o partido afastou a CUT de manifestações e críticas ao
governo, mesmo quando este ameaça direitos dos trabalhadores.” (GALVÃO, 2009,
p.181-182).
Segundo Soares (2013) e Druck (2006), embora o governo Lula tivesse uma
base popular, ele combinou medidas assistencialistas, desenvolvimentistas e neoliberais,
posto que embora tenha investido no setor produtivo (PAC, aumento de recursos para o
BNDES, política de isenção fiscal durante a crise econômica), reduziu os direitos
trabalhistas com a reforma da previdência e criou de novas modalidades de contratos
precários (Pessoa Jurídica (PJ), menor aprendiz) (SOUZA, TRÓPIA, 2016).
Base de apoio dos governos petistas, a CUT manteve o apoio ao governo Dilma
Rousseff em seu primeiro mandato (2011-2014). Segundo Soares (2013, p.560) as
centrais sindicais brasileiras se ajustaram e “[...] adaptaram à estrutura sindical e à
política transformista, bem como deixaram de lutar por uma organização sindical livre e
autônoma dos trabalhadores, política essa que se aprofundou no governo Lula e segue a
mesma linha no governo Dilma.”.
Desde a filiação à CUT, os membros das diretorias do Sindicato dos
Metalúrgicos de Joinville passam a ter vínculos com o Partido dos Trabalhadores.
O posicionamento acrítico referido acima é visível, também, no posicionamento
da diretoria do SMJ em relação aos governos Merss e Dilma Rousseff. Quanto as greves
do período, segundo dados do Dieese, o SMJ realizou quatro greves.
No ano de 2011 ocorreu uma greve na empresa Wetzel Metalúrgica que
mobilizou 700 trabalhadores durante 40 horas. As reivindicações incluíam melhorias no
ambiente de trabalho, nos planos de saúde, nas instalações de vestuário e Participação
nos Lucros e Resultados. As reivindicações foram parcialmente atendidas. No ano de
2012, a greve na empresa Tupy S.A. envolveu 4.000 trabalhadores durante 16 horas e o
resultado foi um aumento salarial de 8%, abono de R$ 500,00, extensão da licença
maternidade para 180 dias e reajuste no piso da categoria. Duas greves ocorreram em
2013 na Metalúrgica Duque S.A., ambas motivadas por atraso nos salários e
descumprimento do pagamento do FGTS.
As greves, ainda que deflagradas em determinadas empresas, resultaram em
ganhos para a categoria metalúrgica, pois os acordos firmados entre o SMJ e o Sindicato
Laboral, por meio de Convenções Coletivas de Trabalho, foram, exceto em 2011,
superiores à inflação (Tabela 2).

Tabela 2. Inflação anual, reajuste salarial e piso dos Metalúrgicos de Joinville

Reajuste salarial
Ano Inflação anual (IPCA) via Convenção Piso salarial
Coletiva de Trabalho
2011 6,50% 6,00% R$ 682,00
2012 5,83% 7,50% R$ 750,00
2013 5,91% 8,00% R$ 831,00
2014 6,41% 8,25% R$ 935,00

Fonte: Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Convenções Coletivas de


Trabalho do Sindicato dos Metalúrgicos de Joinville. Elaboração própria.

Além disso, no ano de 2012 o tempo de licença maternidade foi ampliado de 120
para 180 dias e instituiu-se o auxílio-creche de R$ 140,00 por mês e por filho, durante
vinte e quatro meses.
Outro acordo firmado nas Convenções Coletivas de Trabalho no período foi a
instituição da proteção à gestante durante cinco meses após o parto em 2011 e seis
meses a partir de 2012.
A análise das greves e das Convenções Coletivas de Trabalho evidencia que os
trabalhadores metalúrgicos de Joinville tiveram, exceto em 2011, ganhos reais de
salário, além de conquistas trabalhistas importantes.
Embora os vínculos políticos e ideológicos entre o SMJ, a CUT e o PT mostram
o sindicato como base social de apoio dos governos petistas, os ganhos materiais
conquistados com as greves ajudam a entender porque o SMJ teve um posicionamento
favorável ao governo Dilma Rousseff.

Considerações finais

A disputa ocorrida no Sindicato dos Metalúrgicos de Joinville, em 2012, pela


diretoria expressa a relação existente entre os membros das chapas concorrentes e as
correntes dentro do Partido dos Trabalhadores. Relação esta que é histórica e remonta a
criação do partido e a articulação de oposições sindicais na cidade.
Em Joinville, o grupo de trabalhadores que se tornou oposição em 2012, ainda
que somente durante um pleito, o fez para expressar seu descontentamento com o
posicionamento acrítico da entidade sindical para com as ações do Partido dos
Trabalhadores em nível nacional, com a presidente Dilma Rousseff e em nível local,
com o prefeito Carlito Merss, alegando um distanciamento da base. Evidência disto foi
a realização de uma greve capitaneada por um sindicato cutista contra o prefeito do PT.

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Revista Sociedade e Estado, Brasília, v.28, n.3, p.541-564. Set/dez 2013.
O sindicalismo na corda bamba:
um balanço da ação sindical nos anos PT

José Luiz Soares


PPGSA/UFRJ, bolsista de pós-doutorado pelo CNPq
E-mail: zeluizdos@[Link]

A apresentação tem como tema a situação do sindicalismo trabalhista no Brasil


durante os governos do Partido dos Trabalhadores (PT) na esfera federal (2003-2014)1.
Miramos três vieses de análise: 1) a mobilização sindical, com foco nas principais
agendas e formas de ação desenvolvidas no período; 2) os resultados gerais das
mobilizações coletivas; e 3) as mudanças na estrutura e na organização sindical.

O tema é tratado por meio de um quadro de análise que busca conciliar as relações
de força e a gramática moral dos atores sociais. Por um lado, partimos das noções de
repertório e performance (Tilly, 2006 e 2008), de modo a enfatizar o conjunto de formas
de ação que os atores sociais lançam mão quando se engajam em situações de confronto.
Por outro, seguimos a concepção de que a mobilização é algo que envolve uma
“comunidade moral”, isto é, um conjunto de atores sociais que compartilham sensos de
justiça, sentidos, ideias e imagens (Honneth, 2003; Cefaï, 2009).

A pesquisa, ainda em curso, foi realizada a partir da análise de sites e jornais de


sindicatos, entrevistas com sindicalistas, materiais de campanha, contratos coletivos,
documentos da Justiça do Trabalho e do DIEESE e material bibliográfico.

1
O recorte, deixando de lado o segundo governo Dilma Rousseff, se deve ao fato desse período
corresponder a uma conjuntura muito específica, cuja análise merece um trabalho à parte.
1) Mobilização sindical

Alguns trabalhos acadêmicos recentes sugerem, cada qual ao seu modo, que os
sindicatos no Brasil foram atores políticos relevantes no período em questão. Eles teriam
recuperado parte de sua capacidade de ação, que havia diminuído ao longo da década de
1990, ainda que passando por diversos e graves problemas (Cardoso, 2015; Ladosky et
al, 2014; Krein & Teixeira, 2014; Boito et al, 2009; Soares, 2013; Ramalho & Rodrigues,
2013).

A retomada da capacidade de ação pode ser constatada, por exemplo, pelo


aumento do número de greves a partir de 2008 (GRÁFICO 1). Em 2013, o DIEESE
(2015) registrou um total de 2.050 greves (o maior número da série histórica) e 111 mil
horas paradas (o maior volume desde 1990). Além disso, 80% das greves foram
“vitoriosas”, já que tiveram suas reivindicações atendidas no todo ou em parte.

GRÁFICO 1 – Total Anual de Greves (Brasil, 1984-2013)

Fonte: DIEESE.

Mesmo antes de 2008, quando as greves ocorriam em menor número, já se


notavam sinais de recuperação da capacidade das atividades grevistas. Lúcio (2008)
chamou a atenção para o fato de que, desde 2003, as greves saíram de um padrão
preponderantemente defensivo para outro, preponderantemente propositivo. Boito et al
(2009) ressaltaram a amplitude das greves e os métodos de luta mais agressivos
verificados já entre 2004 e 2007.

Para além das greves, o restante do repertório de ação coletiva também denotou a
vitalidade do sindicalismo. Os sindicatos lançaram mão de um conjunto de formas de
ação que incluiu: ações de protesto; negociação direta com os patrões;
procedimentalização do direito via Ministério Público e/ou Justiça do Trabalho; ações em
âmbito internacional; participação em conselhos de políticas públicas etc. (Soares, 2013;
Pessanha et al, 2009; Pereira, 2014; Bridi, 2009; Rombaldi, 2013).

No sindicalismo brasileiro há uma divisão de tarefas entre organizações sindicais


de base e de cúpula (em especial as centrais sindicais). Os sindicais de base voltam-se
para suas categorias e têm como principais atividades a negociação de contratos coletivos
com os patrões. As centrais sindicais não negociam diretamente com os patrões e possuem
uma natureza mais política. Elas podem coordenar ou auxiliar as ações dos sindicatos
filiados, mas também organizam ações “próprias”, no sentido de promover uma agenda
mais ampla, que diz respeito ao conjunto dos trabalhadores: “agenda pelo
desenvolvimento”, “agenda pelo trabalho decente”...

Nos sindicatos de base, as diferentes formas de ação que identificamos


(negociação direta, greve e ação judicial, por exemplo) não foram excludentes entre si.
Ao contrário, se complementaram e se compensaram estrategicamente diante dos desafios
da negociação coletiva (Pessanha et al, 2014). A primeira alternativa de ação dos
trabalhadores em geral foi a busca pela negociação direta. Porém, diante das resistências
encontradas nos processos de negociação, lançaram mão de outras performances, como
a greve, o acionamento do MPT e, em situações limites, depois de esgotadas as tentativas
de superar os conflitos por outros meios, ativaram a Justiça do Trabalho. As decisões
basearam-se em um conjunto de avaliações compartilhadas a respeito das oportunidades
de ação disponíveis, da correlação de forças entre patrões e empregados, da conjuntura
política e econômica e da jurisprudência dos juízes do trabalho.
As centrais sindicais, por sua vez, realizaram várias ações conjuntas ao longo dos
governos petistas (Ladosky et al, 2014), pressionando empregadores e governos. A
conjuntura político-econômica – com o arco de alianças reunido nos governos petistas, o
crescimento econômico, a criação de empregos etc. – favoreceu esse tipo de atuação
conjunta, que não se verificou da mesma forma antes de 2003 e nem após 2014.

No que diz respeito às agendas de reivindicações trabalhistas, o horizonte dos


desejos no movimento sindical brasileiro, grosso modo, transitou em torno daquilo a que
Cardoso (2010) chamou “utopia do trabalho assalariado regulado”, ou seja, “o sonho de
inclusão na dinâmica do capitalismo via o mundo dos direitos do trabalho”, secundando
outras utopias (como a socialista).

As agendas de reivindicações também devem ser compreendidas como reações às


formas assumidas pelas relações de trabalho em um contexto histórico marcado pela
globalização, financeirização da economia, acumulação flexível e crise do
neoliberalismo, de um lado, e de um governo capitaneado por um partido dito “dos
trabalhadores”, de outro.

Tendo isso posto, cumpre dizer que as reivindicações econômicas (salários diretos
e indiretos) foram, como sempre, as mais centrais para os trabalhadores. Nos setores
sindicais mais dinâmicos, duas concepções rivalizaram quanto à forma que as lutas por
melhor remuneração deveriam assumir. Uns tinham como horizonte a recuperação das
perdas salariais ocorridas em governos anteriores aos do PT. Os demais, mais contidos,
defendiam como mais realista a busca por “ganhos reais”, isto é, reajustes salariais acima
da inflação, ainda que pequenos.

Outros tipos de agendas também receberam atenção significativa: ampliação do


emprego, redução da jornada de trabalho, saúde do trabalhador, segurança e meio
ambiente do trabalho, assédio moral, metas de produtividade, fim do fator previdenciário
etc. (cf. Ladosky et al, 2014; Soares, 2013; Medeiros, 2014). Algumas delas voltaram-se
especificamente para setores mais frágeis do mercado de trabalho, como as ações em
favor da ampliação dos direitos das trabalhadoras domésticas, contra o trabalho escravo
ou mesmo as buscas pela valorização da agricultura familiar.
Nesse ínterim, “novas” linguagens de direitos foram evocadas, com termos como
“trabalho decente”, assédio moral e “metas abusivas”, dando novas formas jurídico-
políticas às lutas contra as más condições de trabalho. Outros temas, ainda que não fossem
propriamente novidades, se desenvolveram ou se consolidaram. Foi o caso, por exemplo,
da consolidação da agenda de igualdade de oportunidades de gênero (Soares, 2016b); do
desenvolvimento das demandas por regulação da terceirização e
“desterceirização”/“primarização da força de trabalho” (Dias & Oliveira, 2011); ou ainda,
do maior destaque assumido pelas reivindicações relacionados à segurança e ao meio
ambiente do trabalho (Soares, 2013; Ramalho et al, 2013; Araújo et al, 2006).

Outras agendas tiveram perfis mais propriamente políticos, como a defesa da


valorização do salário mínimo, a “Agenda pelo Desenvolvimento”, a regulação do
sistema financeiro, a reforma política e a reforma agrária (Conferência Nacional da Classe
Trabalhadora, 2010; Ladosky et al, 2014; Ramalho et al, 2013; Ramalho & Rodrigues,
2013; Soares, 2013).

2) Resultados das mobilizações coletivas

Os resultados das mobilizações sindicais no período 2003-2014 foram


ambivalentes. Em termos gerais, os trabalhadores obtiveram algumas conquistas dignas
de nota, sobretudo econômicas; porém, não conseguiram reagir a contento em outros
temas. No mais, movimentos de regulamentação coexistiram com movimentos de
desregulamentação e de precarização das relações de trabalho (Krein & Teixeira, 2014;
Krein et al, 2012).
TABELA 1 - Reajustes Salariais Anuais x Inflação (INPC-IBGE), de 1996 a 2016

Fonte: DIEESE.

Os sindicatos trabalhistas se aproveitaram de conjunturas político-econômicas


relativamente mais favoráveis, conseguiram realizar greves mais fortes e, com isso, os
termos das negociações coletivas com o patronato tornaram-se mais favoráveis que em
anos anteriores. Por exemplo: dados do DIEESE (2016) demonstram que aumentou
significativamente o percentual de negociações coletivas com reajustes salariais acima da
inflação (ganho real). O ano de 2012 foi o mais positivo, havendo ganhos reais em 93,6%
dos casos acompanhados (TABELA 1). Some-se a isso os ganhos com os seguidos
aumentos do salário mínimo no país. É fato notório que as centrais sindicais foram parte
ativa na formulação das regras de reajuste anual do salário mínimo, acordada com o
governo federal em 2006. Aliás, a política de valorização do salário mínimo (que resultou
em ganhos de 77,18% acima da inflação entre 2003 e 20152) e o crescimento do emprego

2
“Mínimo subiu 77% acima da inflação”, O DIA, 30/04/2016.
formal verificado no período contribuíram para os resultados das negociações coletivas
entre capital e trabalho.

Nesse cenário mais favorável, os sindicatos mais organizados conquistaram outros


tipos de cláusulas, para além das econômicas, referentes à saúde ocupacional, segurança
do trabalho, meio ambiente do trabalho, igualdade de oportunidades etc. O número de
cláusulas dos contratos coletivos aumentou em diversas categorias, como pudemos
constatar em nossas pesquisas a respeito dos bancários e dos petroleiros. No meio rural,
ganharam vulto as políticas creditícias para a agricultura familiar e a compra institucional
de alimentos da agricultura familiar (Medeiros, 2014).

Por outro lado, esse conjunto de ganhos encontrou claros limites.

No que tange a amplitude dos reajustes salariais, é interessante observar que boa
parte das bases sindicais os considerou pouco significativos ou imperceptíveis. Temos
por hipótese que isso se deveu: 1) ao ritmo lento dos ganhos reais3; e 2) ao aumento do
custo de vida para os setores médios, com suas cestas de consumo específicas.

Quanto aos demais direitos do trabalho, os resultados também ficaram distantes


do desejado. Quando Lula foi eleito presidente em 2002, muitos imaginavam que o
sindicalismo seria capaz de conquistar melhores condições de trabalho, com menos
assédio moral e metas de produtividade. As terceirizações, acreditava-se, diminuiriam,
assim como as demissões imotivadas no setor privado. A reforma agrária deveria pôr o
país em um novo padrão de desenvolvimento. Mas pouco disso aconteceu a contento. As
condições de trabalho continuaram a se deteriorar, com assédio moral e metas de
produtividade cada vez maiores. O número de afastados do trabalho por adoecimento
físico e/ou psíquico foi altíssimo. As terceirizações aumentaram muito e se tornaram mais
diversificadas. As demissões imotivadas se mantiveram em níveis massivos, ainda que o
número de contratações as tenha superado, fazendo crescer o contingente total de
empregados formais. Os ganhos relativos à questão da terra – assentamentos, demarcação
de territórios indígenas e quilombolas etc. – também ficaram aquém do esperado.

3
Entre 2003 e 2014, os aumentos médios anuais variaram entre 0,61% acima da inflação, em 2004, e 1,90%,
em 2012 (DIEESE, 2016); e isso num cenário em que os trabalhadores tinham grandes expectativas, como
a recomposição de perdas salariais.
3) Mudanças na estrutura e na organização sindical

Nos governos do PT, dirigentes sindicais vieram a ocupar postos no sistema


burocrático do governo federal, inclusive postos de primeiro escalão (em ministérios,
empresas públicas etc.). O sindicalismo que até então fazia oposição aos governos
federais tornou-se situação, chegando mesmo a disputar seus rumos “por dentro”. E,
desde cedo, a participação e o apoio ao governo despertaram dúvidas quanto à autonomia
com que os sindicatos atuariam dali em diante.

Além disso, houve todo um reordenamento político-organizacional. O que se


deveu, primeiramente, às controvérsias quanto a quais posicionamentos tomar diante do
governo do PT, levando a um aumento sensível nas tensões entre os grupos político-
sindicais. Deveu-se igualmente à minirreforma sindical aprovada nos anos Lula, que
reconheceu formalmente as centrais sindicais e lhes concedeu a possibilidade de receber
uma parcela do imposto sindical. Em conjunto, estes dois fatores resultaram numa
rearticulação das organizações sindicais brasileiras, com a criação de novas centrais,
confederações e federações, aumentando a pluralidade nas organizações de cúpula
(Radermacher & Melleiro, 2007; Ladosky et al, 2014).

Do mesmo modo, houve um grande crescimento no número de sindicatos de base.


Em sua maioria, não por motivos propriamente políticos, mas pelo mero apetite em
gerenciar o imposto sindical compulsório destinado a cada entidade. A pulverização
sindical não é recente; vem ocorrendo ao menos desde a promulgação da Constituição de
1988 (Filgueiras, 2008). De todo modo, é fato notório que foram criados cerca de 3 mil
sindicatos ao longo dos governos petistas. Justamente num período em que o número de
sindiccalizados reduziu-se à metade.

A pulverização sindical teve seus efeitos. Um número cada vez maior de


sindicatos de base (já são mais de 10 mil) está dividindo 60% dos valores arrecadados a
título de imposto sindical, ao passo que, desde a reforma sindical do governo Lula, 10%
do mesmo imposto vem sendo destinado às poucas centrais sindicais existentes (menos
de 10). Tudo somado, segundo Cardoso (2015), isso vem contribuindo para uma
“oligarquização” no sindicalismo brasileiro, já que as centrais concentraram recursos e
tiveram mais força na condução das eleições sindicais. Em suma, concentraram poder.
Argumentamos em estudo anterior (Soares, 2016a) que a compreensão das
relações sindicais no Brasil contemporâneo requer atenção aos processos de
burocratização e concentração de poder. À inserção de sindicalistas na burocracia
governamental e à participação nas disputas dentro dos governos do PT corresponderam
um aumento na competição interna por poder. As relações assumiram formas mais
verticalizadas. As decisões se tornaram (ainda) mais concentradas.

Nesse cenário, as ações sindicais se assentaram muito no funcionamento da


máquina sindical e pouco na dinamização e mobilização das bases. Estas, em geral,
participaram pouco das mobilizações e na definição das estratégias – salvo nas greves
construídas por fora e à revelia das estruturas sindicais oficiais. Os processos de
burocratização inclusive alimentaram o distanciamento entre sindicalistas e suas bases.
Um sindicalismo tão burocratizado reúne uma minoria que se ocupa de atividades
políticas em tempo integral e concentra o poder de decisão e uma maioria cuja relação
com a política é muito circunstancial. Naturalmente, entre ambas se desenvolveram
concepções muito diferentes a respeito da política. Isso tornou mais difícil a renovação
do quadro de ativistas.

As mudanças no sindicalismo brasileiro também se manifestaram nos padrões de


atuação sindical. Na Central Única dos Trabalhadores (CUT), a maior central sindical do
país, verificou-se um enfraquecimento dos ímpetos utópicos, movimentistas e conflitivos
e um reforço das tendências de atuação pragmáticas, institucionalizadas e negociadoras.
O avanço das orientações políticas pragmáticas/negociadoras – que vinha ganhando força
já desde meados dos anos 1980 (Rodrigues, 1997), vale dizer –, somado ao apoio aberto
ao governo federal e à inserção de sindicalistas na burocracia governamental, resultou em
uma série de rachas, com os grupos políticos mais radicais se retirando da organização.

A leitura feita pelo sindicalismo-CUT à época foi que a eleição de Lula


representou a chegada ao poder de um projeto político trabalhista, ainda que imerso nas
disputas de um governo de coalizão (Radermacher & Melleiro, 2007; Ladosky et al, 2014;
Araújo & Oliveira, 2014). Diante disso, o sindicalismo-CUT adotou um padrão de
política ambíguo, tensionado entre preservar um governo politicamente próximo e manter
a combatividade em situações que o chocava contra o governo (Soares, 2013). É
interessante observar que as situações de conflito aumentaram quando tornou-se mais
difícil ser ouvido pelo governo, já predido por Dilma. Os grupos políticos mais à esquerda
fizeram leitura distinta. Defenderam que os governos petistas representaram uma
continuidade das políticas neoliberais dos anos 1990, comprometidas em flexibilizar
direitos e precarizar as condições de trabalho. As entidades sindicais mais próximas ao
governo foram consideradas cooptadas e, senão traidoras dos interesses dos
trabalhadores, ao menos “conciliadoras” ou “amortecedoras de conflitos”.

Os demais grupos, como a Força Sindical, também tiveram sua rota alterada, com
suas propostas se revestindo de um sentido mais desenvolvimentista (cf. Conferência
Nacional da Classe Trabalhadora, 2010) e menos de uma defesa aberta ao neoliberalismo,
como verificado nos anos 1990.

4) Considerações Finais

Aproveitando-se de conjunturas político-econômicas relativamente favoráveis, os


sindicatos conseguiram realizar greves mais fortes e obter alguns resultados dignos de
nota durante os governos do PT. É possível dizer que o sindicalismo foi um vetor de
mobilização. Porém, esbarrou em constrangimentos de diversas ordens, alguns dos quais
oriundos de suas próprias escolhas e da relação com o governo. Diante deles, os resultados
obtidos com as mobilizações ficaram aquém dos desafios postos nas relações de trabalho
contemporâneas e aquém do esperado pelos trabalhadores.

De maneira geral, os setores dominantes do sindicalismo brasileiro


desenvolveram uma política ambivalente. Primeiro porque suas relações com o governo
variaram da condescendência ao conflito. Depois por adotarem um repertório de ações
coletivas nas relações com o patronato que variaram desde a negociação até a
confrontação por meio de fortes greves. Por fim, foram igualmente ambivalentes os
resultados das negociações coletivas, com pontos positivos e negativos, conquistas lado
a lado a dificuldades expressas em dar respostas aos dilemas do mundo do trabalho;
movimentos de regulação do trabalho se sucedendo a desregulamentação e flexibilização.
O sindicalismo também foi um vetor de burocratização. O poder de decisão
tornou-se ainda mais concentrado e as ações se assentaram mais no funcionamento de
uma organização muito bem estruturada do que na dinamização das bases.

Parte das críticas públicas comumente feitas ao sindicalismo brasileiro


contemporâneo pode ser explicada por meio disso. As mobilizações não deixaram de
ocorrer, nem os sindicatos foram propriamente cooptados (Cardoso, 2015), mas os setores
dominantes na categoria conseguiram imprimir um tipo de sindicalismo pragmático que
muitos consideram inválido. A força da burocracia comandada por este grupo e, bem ou
mal, os ganhos obtidos foram tais que não permitiram a ascensão de propostas de
sindicalismo mais utópicas e conflitivas.

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[Link]@[Link].

Introdução

O contexto de transformações que marcaram o fim do século XX e o início do


século XXI com a globalização econômica e ajustes macro e microeconômicos refletiram
efeitos sobre o mundo do trabalho. Faz-se necessário o debate para compreender um
enfraquecimento da identificação, dentro da categoria de “classe”; na representação dos
trabalhadores (Ramalho, Santana, 2003), seja em partidos, seja em sindicatos. Ocorreu
uma maior “flexibilização” da produção e dos mercados: contratação flexível e
desemprego constante passam a se tornarem regras.
Questão que envolve um quadro geral de desigualdades: pobreza global e ampliação
de vulnerabilidade social e econômica das sociedades capitalistas e expande a analise
sociológica para além do chão-de-fábrica. Esta é a tematica do presente artigo, que
resgata nossa pesquisa de monografia do curso de ciencias sociais, que também refletiu a
mobilização coletiva do Sindicato dos Trabalhadores da Industria metalúrgica de
Açailandia-STIMA durante a crise econômica mundial do subprime dos EUA de 2008,
pelos efeitos do desemprego e do aumento da precarização do trabalho, pois, as medidas
tomadas pelas empresas atingiram duramente os trabalhadores siderúrgicos: diminuição
dos salários, redução das atividades produtivas (diminuição da jornada de trabalho de 8
horas para 6 horas diárias , redução de direitos conquistados (adicional noturno , hora
extra), o fim da cesta básica mensal e da alimentação nos refeitórios (café, almoço, e
jantar).
Para explicar a união do STIMA com outras entidades no período referido, na
primeira pseção a configuração teorica sobre o sindicalismo do “tipo movimento social”,
como “novos formatos” da representação sindical. A seção seguinte discorre a
contextualização em que ocorreu a mobilização coletiva e suas causas. A ultima seção
destaca o processo de articulação política deste sindicato com outros movimentos sociais,
no que tange a uma unificação de vários discursos em 2008, bem como na relação atual.
1 – Ação sindical e a chamada “questão social”.

Ramalho e Santana (2003), falam de uma mudança de perspectiva deste processo:


perspectiva de proteção, substituída pela perspectiva de competição, que vê na lógica do
Estado mínimo, e com desigualdade social a condição de que os indivíduos se engajem
na sociedade: “A problemática da coesão social não é a do mercado, a solidariedade não
se constrói em termos de competitividade e de rentabilidade” (Castel, 1997 apud Ramalho
e Santana, 2003). Há um processo de “decomposição do social”, que produz uma
“decadência do coletivo”, que é prejudicial aos instrumentos tradicionais de
representação. Recorre-se agora diretamente ao Estado, perdendo-se a expressão das
reivindicações “unificadas e canalizadas” nos sindicatos.(Fitoussi e Rosanvallon, 1997:
57, Apud Ramalho e Santana 2003).
Ocorreu primeiro nas regiões mais desenvolvidas onde as ideias de proteção social
do “welfare state” são destituídas em favor da “doutrina neoliberal.” Isto pode explicar
os problemas do sindicato, enquanto movimento e instituição e os riscos a sua pratica, e
as ações e conquistas desenvolvidas no século XX, dificuldades trazidas por uma
“sociabilidade” segundo os mesmos, oposta ao “coletivo”e “publico”. Este período de
flexibilização das relações de trabalho e de mudanças nas ações do Estado que
caracterizam o processo que se expandiu a nível global, conhecido como Reestruturação
Produtiva.
Contudo, neste contexto de baixa proteção, de desregulamentação e de
flexibilização do sistema social, indicam um ressurgimento do movimento organizado
dos trabalhadores. O desenvolvimento de novos formatos de organização e orientação
sindical: articulação de atividades tradicionais de mobilização com outras atividades
(externas); o debate e a participação (intervenções) em projetos de políticas publicas e
sociais. A inclusão da “questão social” ao ideário sindical.
A mobilização coletiva dos trabalhadores metalúrgicos do STIMA com sua
ampliação, participação e debate nas questões sociais de desigualdade com outros
movimentos; ocorridas em Açailandia no período de crise econômica de 2008, é um
exemplo deste “novo formato” sindical. Sobretudo quando se utiliza o conceito de
“precarização” do trabalho, o qual, sociologicamente se opõe (Ramalho, Santana, 2003)
ao processo anteriormente explicado. Situação a que aqueles trabalhadores foram
submetidos desde a origem das relações de trabalho da indústria siderúrgica naquela
localidade.
Esta discussão problematiza o padrão flexível deste contexto de reestruturação:
novos aspectos da divisão social do trabalho, novos tipos de contrato, trabalho informal,
etc. que ajudam na interpretação do movimento sindical na atualidade. E para isto os
necessário que se coloque a “questão social”, em primeiro plano através da associação de
precarização, pobreza e exclusão feita por Robert Castel. Esta percepção parece destacar
a “função integradora” do trabalho na sociedade num ambiente de desemprego e novas
formas de pobreza:
“Além disso reconhece-se ‘uma forte correlação entre o lugar ocupado na divisão social do
trabalho e a participação nas redes de sociabilidade e nos sistemas de proteção que ‘amparam’
um indivíduo diante dos acasos da existência, possibilitando ‘zonas de coesão social’.” p. 21.
(Castel, 1998; apud Ramalho e Santana, 2003)
O contato com outros movimentos sociais, não é algo novo na história do
sindicalismo, surgi a partir dos anos 1980, como resultado de um processo de insegurança
social refletindo em desemprego. Existe uma atitude de apoio e alianças, segundo Andre
Gorz (apud Beynon, 2003). O apoio dos sindicatos aos outros movimentos sociais era
decisivo para os próprios sindicatos e que o movimento sindical era a força mais forte
dentro de movimentos progressistas:
“A definição de se esses outros elementos serão parte da esquerda ou romperão com ela, se
estarão engajados em ações coletivas ou permanecerão como minorias tentadas ao recurso da
violência, depende de se o movimento sindical se opuser a eles ou buscar alianças ou ações
conjuntas.” p.62

Beynon (2003) ressalta que os sindicatos no século passado eram uma realidade
“estranha” aos movimentos sociais, no entanto uma mudança se projetava, cita o exemplo
do Reino Unido e Estados Unidos, em que Campanhas para o cancelamento da divina
externa, espalharam-se através da reunião de grupos religiosos, sindicatos e ONGs.
Também no Reino Unido a associação de sindicalistas de minas com ativistas ambientais,
utilizando-se da experiência de uma greve de um ano desenvolveram protestos contra o
trabalho em minas a “céu aberto” por serem poluentes ao meio ambiente. Os estudos
sobre desenvolvimento sindical (Hyman, Mispelblom, apud Ramalho e Santana, 2003)
destacam o mesmo como instituição que surgi na maioria dos países industrializados
como representantes de interesses setoriais, frequentemente locais e coletivos, mas que
se tornam mais amplos gradativamente.
2 – Crise econômica de 2008 e seus efeitos para os metalúrgicos de Açailandia.
No Brasil a crise do subprime norte-americana teve uma repercussão menos intensa
que nos países desenvolvidos(Silva e Fonseca Neto, 2012), elas duraram em torno de 5
meses, tendo sido restabelecida as taxas de emprego. “Setorialmente, as demissões
concentraram-se na industria, sobretudo nos segmentos de metalurgia básica, produtos de
metalurgia básica, produtos de metal e fabricação de equipamentos, que perderam 10%
de seus postos de trabalho.” p 104.
Com a retração do mercado consumidor externo, as empresas exportadoras de
commodities, justamente o caso das siderúrgicas instaladas em Açailandia, que perdem
no valor de preço dos produtos exportados. Houve o grande crescimento do desemprego
deste setor que somando todas as empresas da cadeia produtiva da siderurgia na região,
chegou a 20 mil pessoas. (CARNEIRO e RAMALHO, 2009) As demissões foram
justificadas pelas empresas siderúrgicas pelo fato de que o comercio do seu produto estava
vinculado exclusivamente para as exportações, e principalmente para os EUA, país
“gerador” e em recessão econômica devido à crise.
Os trabalhadores se articularam através da mobilização de diferentes movimentos
e atores sociais com greves e “novos repertórios” de contestações (CARNEIRO e
RAMALHO,2013), tais como as audiências públicas (inclusive com os poderes
legislativos estadual e federal), movimentos de protestos nas ruas, conseguiram reverter
esta situação, ainda que com muitas perdas de benefícios já conquistados.
Nos países emergentes as taxas recuam já no mesmo ano: “No Brasil, ao final de
2009, a taxa de desemprego havia recuperado o patamar de 8,0% verificado antes dos
efeitos da crise”. (Fernandes, Araújo, e Targino, 2012) Estes dados são explicados mesmo
sob o efeito negativo na economia, segundo os autores acima citados, devido ao
desempenho do setor industrial na economia nacional em particular o crescimento do
setor no Nordeste entre os anos de 2003 e 2009. Período que as empresas guseiras do
Polo siderúrgico de Açailandia viveram o melhor momento em termos das exportações
do ferro-gusa (toneladas), chegando a exportar 1,581 bilhão de dólares (Ramalho,
Carneiro, 2013).
“... as empresas continuaram exportando e lucrando com a venda do ferro gusa estocado mas
de forma oportunista aproveitaram o cenário da crise econômica para demitir trabalhadores.
Os dados comprovam que as demissões poderiam ter sido retardadas enquanto se
confirmavam reduções nas exportações de ferro gusa.” (Ramalho; Carneiro apud Mancini,
2015)

Os trabalhadores metalúrgicos não aceitaram a continuação da retirada dos seus


benefícios e direitos e, principalmente, a redução drástica dos postos de trabalho (1.033
demissões apenas em Açailandia), articularam a mobilização com outras instituições
sociais. Primeiramente com a Igreja Católica local que lidera o “Movimento Popular em
favor da justiça e da dignidade humana” com promoção de audiências publicas para
discussão dos impactos da crise para os trabalhadores metalúrgicos não apenas o
desemprego; mas todos os direitos e conquistas suprimidos.
A empresa VALE, a partir desse movimento passa a se tornar o foco principal destas
contestações, se tornando “o foco central da crítica dos diferentes movimentos sociais”
da região. (Carneiro; Ramalho, 2013). Devido ao seu monopólio do fornecimento do
minério de ferro, que em 2010 aumentou o preço repassado às siderúrgicas de US$ 48,00
para US$ 137,00. Possibilitou uma aproximação entre trabalhadores e as empresas.
Pelo International Labour Conference de 2010 (apud Silva e Fonseca Neto 2012),
três foram os principais fatores que orientaram as diferentes consequências da crise, no
mercado de trabalho mundial: Situação do sistema financeiro doméstico antes da crise,
Solidez fiscal, e a intensidade do impacto externo. Especificamente podemos situar os
efeitos da crise econômica de 2008 na siderurgia desta região da Amazônia oriental e a
mobilização coletiva que desencadeia, no item impacto externo, problematizando não
apenas a situação dos desempregados do mercado de trabalho de Açailândia, mas de
forma mais ampla construir uma crítica as fragilidades econômicas desta atividade no
município cujo produto (ferro-gusa) é destinado à exportação, e continua “suscetível” ao
mercado internacional.
A união de vários outros movimentos sociais que, a seu modo particular, já
possuíam suas contestações aos efeitos prejudiciais observados nos projetos de
desenvolvimento relacionados ao Polo Siderúrgico de Açailândia, como no caso dos
moradores do Piquiá de Baixo. onde se situa o Distrito Industrial de Açailândia, a
reivindicação dos moradores do bairro Pequiá, , estava relacionada com a necessidade de
combater a poluição do ar causada pelas siderúrgicas, e implicava na necessidade da
construção de um novo assentamento urbano. Por outro lado, entidades de defesa de
causas ambientais, de defesa dos direitos humanos, contestavam o “trabalho escravo” na
cadeia de produção da siderurgia a carvão vegetal, como o Centro de Defesa da Vida e
dos Direitos Humanos de Açailandia Carmém Bascarán (CDVDH) que tem
historicamente atuado nessas questões. Também atuaram movimentos extralocais como
a ONG Federação Internacional dos Direitos Humanos (FIDH) e a Justiça Global, que,
junto com a Campanha Justiça nos trilhos produziu um Relatório sobre o conjunto de
violações ambientais e sociais provocadas pelas empresas siderúrgicas: “Quanto valem
os direitos humanos?” (CARNEIRO; RAMALHO, 2013).
3 - Atuação e relação do sindicato com os movimentos sociais locais na atualidade.
Hoje o sindicato ainda mantém comunicação importante com estes movimentos que
consolidaram a ação coletiva local. Segundo o STIMA foi justamente pela união de
diferentes forças que pode-se vir a enfrentar as situações sociais de crise atual na
siderúrgia local, como na época da grave crise econômica de 2008.
Além dos moradores do Bairro Piquiá de Baixo, o sindicato teve em 2008 e mantém
ainda relação com o CDVDH- Carmém Báscaran,que surgiu por iniciativa do movimeno
da PJ- Pastoral da Juventude da Igreja Católica, que se articuaram para criar o centro de
defesa. Tambem com o apoio dos Padres combonianos e de Carmém Bascaran,
missionária e uma das fundadoras. Não é uma entidade vinculada a Igreja Católica, mas
mantem parceria com a CPT-Comissão Pastoral da Terra. Nasceu da necessidade de
combater as violações de direitos humanos na região , bem como combate a corrupção
eleitoral, através de ações que provoquem o Estado e as autoridades compententes para
coibir e punir estes crimes. gestores O centro recebe todos os tipos de denuncias de
violações aos direitos humanos.
Segundo pesquisamos historicamente os moviementos sociais de Açailandia
sempre estiveram muito bem articulados, hoje perdeu-se mais essa articulação, estando
mais fragmentado. Para Fabrícia, secretaria da entidade foi a união dos movimentos da
cidade que sempre fizeram a diferença “de forma muito atuante”. E conseguem interferir
em pautas polliticas por exemplo, ou questões das necessidades de melhorias urbanas, no
caso o desempenho das associações de bairro. Ela confirmou que no periodo de crise
econmica de 2008, os impactos reais foram muito mais de perda de ganho de capital dos
empresários do que um impacto econômico definitivo para o setor. Segundo ela foi um
momento em que os moviemntos todos estavam com um mesmo objetivo, e a crise havia
chegado a um nível em que todos sentiram a necessidade de se unir. Ela não atribui
liderança ao sindicato, mas citou que o Sindicato dos trabalhadores rurais e o STIMA
estavam muito empenhados, juntamente com os Padres combonianos e do MST.
Ela relatou que em quase todas as mobilizações da história do Centro, o STIMA
estava presente. O Centro sempre manteve proximidade com este sindicato. Segundo a
mesma é uma parceria importante para combater o trabalho escravao que ela afirma ainda
existir em Açailandia, pois o município ainda figura entre os locais onde são resgatados
pessoas nestas condiçoes de trabalho em fazendas que não são de propriedade das
siderurgicas, mas que fazem parte da cadeia produtiva desta ativiade, como já afirmado
anteriormente.
A união com o sindicato possibilitou a ampliação da parceria com os outros
moviementos por “tonar a luta coletiva”, e trazer resultados para todos. Em 2011, o
sindicato contou com o apoio da entidade durante a maior greve já realizada, e estiveram
juntos também mais recentemente nas mobilizações dos moradores do Piquiá de Baixo
contra a poluição causada pela atividade siderúrgica.
Foi interessante verificar essa relação de articulação quando questionávamos os
trabalhadores sobre a questão do trabalho escravo na atividade do carvoejamento. Foi
comentada por todos os trabalhadores entrevistados, contudo segundo eles ouvia-se entre
os metalúrgicos, mas somente há alguns anos antes do período da crise econômica de
2008. Hoje não mais tinham conhecimento da ocorrencia. Mas era uma questão que
chegava ao conhecimento de quem atuava na siderurgia. Tinham conhecimento do
trabalho de conscientização de entidades sociais de luta contra o trabalho escravo, do
CDVDH, bem como da associação que o STIMA fez no periodo da crise de 2008 tanto
com esta instituição como com a Associação de moradores de bairro e sobre eventos ou
reuniões com outros movimentos.
O STIMA participou da mobilização pelo reassentamentos dos moradores do Piquiá
de Baixo. O reassentamento da população foi uma das reivindicações das mobilizações
de contestação social em 2008. O processo de entrega oficial do terreno para a construção
de moradias para as famílias foi formalizado no ano de 2015.
Em entrevista com um morador/fundador da Associação de moradores do bairro,
ouvimos que a chegada das indutrias guseiras a implantaçao da VALE marcou o começo
da poluição da região, e consequentemente os problemas de saúde para os moradores. O
mesmo considera uma “grande vitória” ter esta entidade como parceira. E que sem o
auxílio de todos os movimentos, seria impossivel a luta contra os prejuízos causados pelas
Indústrias no Piquiá de Baixo. No caso do STIMA, a relação sempre foi muito próxima,
porque muitos trabalahdores residiam no bairro (os trabalhdores reivindicaram melhores
condições de vida para as próprias famílias). Hoje o Sr William diz que a maioria não
traballha diretamente nas siderurgicas. Mas em empresas terceirizadas no “traballho
pesado, braçal”. Ele entende que só com as manifestações dos trabalhadores a empresas
“empurravam com a barriga” e não surtia efeitos concretos para os metalúrgicos, atribui
a participação conjunta na reivindicação o exito das pautas dos trabalhadores.
Portanto houve uma relação de reciprocidade entre trabalhadores metalúrgicos e a
associação de bairro. O movimento de protestos da associação de moradores do Piquiá
de Baixo, não tinha o apoio dos trabalhadores no inicio. Estes consideravam prejudicial
as manifestações dos moradores porque impediam o seu acesso aos locais de trabalho.
No entanto a partir do posicionamento de apoio dos moradores aos metalúrgicos nas
greves em 2008; estes se sentiram obrigados a somar forças nas revindicações sociais dos
primeiros.
A mobilização coletiva do sindicato com outras entidades civis do município, não
se restringe aos moradores do Bairro. O STIMA continuou com a proximidade daquelas
entidades civis, sejam outros sindicatos, entidades de classe, ONGs-organizções não
governamentais de proteção ao meio ambiente, sejam ONGs internacionais e locais
ligadas aos direitos humanos, instituições religiosas, a associação de bairo, o CDVDH, e
outras que se uniram no período da crise de 2008 e que hoje formam o Grupo Rede de
Cidadania, com o objetivo de dar continuidade ao debate sobre os problemas da siderurgia
no município: poluição, degradação do meio ambiente, direitos dos trabalhadores, e a
atual crise do setor e sua consequência no aumento do desemprego em Açailandia.
Realizou-se em 2015, debate sobre a crise da siderurgia na cidade, com participação
de vários atores sociais locais e extra-locais, como estudantes, professores, os
trabalahdores metalúrgicos, outros sindicalistas, religiosos, defensores de direitos
humanos, etc. Uma dos temas foi a questão da dependência da atividade siderúrgica local,
do mercado consumidor norte-americano, que ainda passa por crises econômicas reflexos
de 2008. Uma das ideias defendidas foi que as empresas já passaram pelo período de
maior crise econômica internacional, entre 2007 e 2008. O STIMA com o apoio daqueles
movimentos também buscou na atualida de fazer uso das audiências com as esferas do
poder público tanto a nível local como em nível nacional, foram também instrumentos
ultilizados em 2008 e 2010. Ocorreu audiência publica em Açailandia e contou com
participação do sindicato patronal, sindicato dos metalúrgicos, sindicatos de outras
entidades de classe, e desta vez com as empresas envolvidas na produção do ferro gusa e
de aço, constatando-se segundo o STIMA a época as dificuldades das empresas. A partir
deste momento o sindicato em parceria com a comissão formada pelas entidades solicitou
uma negociação com o Governo do Estado, como já explicado anteriormente, para uso de
créditos de ICMS pelas siderúrgicas e manutenção dos postos de trabalho em Açailandia.
Em 2015, junto com outras entidades, o STIMA participou do movimento pela
cassação do mandato da prefeita Gleide Santos. A participação nesse episódio e nos
conselhos municipais mostra, que além da pauta interna, relacionada com a defesa dos
direitos dos metalúrgicos, o STIMA atua junto a outros atores sociais, em ações que
envolvem a gestão do município. Atualmente o sindicato tem participação no Conselho
Municipal de Açailândia, Conselho dos deficientes físicos aqui de Açailândia, além de
parceria com CEREST - Centro de recuperação e tratamento dos trabalhadores do
município de Imperatriz, porque em Açailândia não existe unidade do CEREST.

Conclusão
Nossa pesquisa buscava entender como a conjuntura de crise econômica e
social de 2008, possibilitou ao STIMA, uma oportunidade de constituir reivindicações
por intermédio de associações, tornando-se uma ação sindical mais ampla. Assim,
visualiza-se na organização coletiva do STIMA, a partir do que se verificou na conjuntura
de crise econômica internacional e pós crise 2008 em seus reflexos atuais, uma
incorporação das demandas tanto do movimento sindical, relacionadas as garantias
trabalhistas quanto com a articulação em rede com outras formas de representação, as
quais já possuíam suas contestações aos efeitos prejudiciais observados nos projetos de
desenvolvimento relacionados ao Polo Siderúrgico de Açailândia:
É possível encontrar uma correlação da mobilização coletiva do STIMA na crise de
2008 e no cenário atual, a tendência de um “sindicalismo mais comunitário” que se une a
outros movimentos sociais para reivindicar os interesses dos excluídos do mercado de
trabalho. Seria o que Moody (apud Ramalho; Santana, 2003) defende: um sindicalismo
mais aberto às novas demandas, e em medida internacional, “um sindicalismo tipo
movimento social”. Os entrevistados direcionam a participação sindical não a vantagens
pessoais, mas enfatizaram que os benefícios e as conquistas através da ação sindical era
de cunho coletiva, que para eles são importantes no conjunto dos metalúrgicos.
Pode-se interpretar o sindicato estudado, portanto, como um ator social que procura
desenvolver novas perspectivas tanto organizativas, quanto políticas, ultrapassando os
espaços das relações industriais, para um alargamento do campo de intervenção social.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
BEYNON, Huw. O sindicalismo tem futuro no século XXI? In: RAMALHO, J. Ricardo;
SANTANA, MARCO A. (orgs). Trad. Marco Aurélio Santana. Além da Fábrica:
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complexos mínero-siderúrgicos: experiências na Amazônia e no Sudeste brasileiro.
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sobre o setor siderúrgico maranhense: relações entre o desempenho recente das empresas
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FERNANDES, Maria de Fátima D; ARAÚJO, Sabrina M. de. TARGINO, Ivan.


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OLIVEIRA, Roberto V. de (orgs) Cenários da crise e do trabalho no Brasil.. Editora
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MANCINI, Roberto Martins. Siderurgia e mercado de trabalho na Amazônia
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RAMALHO, José R.; SANTANA, Marco A. Trabalhadores, sindicatos e a nova questão


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RAMALHO, José. R.; CARNEIRO, Marcelo S. Ação sindical, contestação política e


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OLIVEIRA, Roberto V. de. (orgs). Cenários da crise e do trabalho no Brasil. Editora
Universitária da UFPB; João Pessoa, 2012.
O sindicalismo nas categorias de trabalhadores terceirizados e temporários:
uma análise das Convenções Coletivas de Trabalho do SINDEEPRES-SP
(pôster)

Maísa Santos Calazans Silva


[Link]@[Link]

Resumo:

O processo de desregulamentação do trabalho no Brasil tem progredido desde os anos 1990


com a implementação das políticas neoliberais no país. Com o recente golpe de Estado (2016-
atual) o Congresso brasileiro tem avançado pautas de desregulamentação do trabalho que
flexibilizam e precarizam as relações trabalhistas no país. Vale ressaltar ainda que todas essas
alterações reduz o poder de barganha dos trabalhadores e de suas organizações e entidades.
Essas mudanças alteram as características dos postos de trabalho, como o tipo de contrato
firmado, o conteúdo das atividades realizadas, as formas e níveis de remuneração, a rotatividade
da mão de obra e as possibilidades de ascensão da carreira, todos esses pontos com a marca da
precarização das relações de trabalho. Frente a este movimento se faz urgente o estudo das
condições de organização e representação política dos trabalhadores terceirizados e
temporários. Essa apresentação se dedicará à análise das Convenções Coletivas de Trabalho do
SINDEEPRES-SP (que abrangem os trabalhadores das empresas de prestação de serviços a
terceiros; trabalho temporário; colocação e administração de mão de obra e demais categorias
que estejam na intersecção com o registro da entidade) no período 2006-2016 (observando os
anos pares).
Palavras Chave: Sindicalismo, Terceirização, Representação.
O sindicalismo brasileiro diante do golpe

Andréia Galvão

Professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas -


agalvao@[Link]

Paula Marcelino

Professora do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo -


prpmarcelino@[Link]

Introdução

O Brasil vive hoje em meio a uma dupla crise, econômica e política, que
repercute negativamente sobre as condições de trabalho e de vida das classes populares.
A crise econômica está relacionada ao processo desencadeado em nível internacional a
partir de 2008, cujos efeitos impactaram, ainda que de modo tardio, a economia
nacional. A crise política, por sua vez, expressa-se no desmonte da base de sustentação
do governo de Dilma Rousseff, na perda de apoio popular e no processo de ruptura
institucional que culminou com o impeachment da presidenta em agosto de 2016.

Essa dupla crise evidencia as contradições acumuladas ao longo dos governos


petistas, governos esses sustentados por uma ampla, porém heterogênea, coalizão
político-partidária e social. Essa coalizão incluía, de um lado, partidos de centro e de
direita, bem como setores da burguesia e, de outro, partidos de esquerda, sindicatos e
movimentos sociais. As divergências no interior da "frente política
neodesenvolvimentista" [Boito, 2012; Boito e Saad-Filho, 2016, p. 190] e o acirramento
do conflito distributivo fortaleceram a oposição ao governo e as críticas às políticas
socialmente progressistas por ele implementadas. A alteração na correlação de forças
sociais propiciou a retomada a agenda neoliberal dos anos 1990 já no início do segundo
mandato de Dilma Rousseff. Os movimentos sociais à direita, com forte presença da
classe média alta [Cavalcante, 2015], ganharam as ruas e o conservadorismo político se
intensificou [Velasco e Cruz, Kaysel e Codas, 2015; Saad-Filho e Boito, 2016]. A
"coalizão produtivista", fundada na defesa da intervenção do Estado para promover a
industrialização, o crescimento econômico e a distribuição de renda se dissolveu, dando
lugar à uma "frente única burguesa antidesenvolvimentista" [Singer, 2015, p. 67] ou ao
que Magalhães [2015] identificou como o domínio de um bloco social e um pacto
“antidistributivista”. Mudam, assim, as condições em que atua o sindicalismo brasileiro.

Como os sindicatos se inserem nessa conjuntura? De que maneira são afetados e


intervêm na crise? Quais as diferenças em relação ao período em que o governo esteve
sob o comando do PT? Defendemos a hipótese de que num contexto de crescimento
econômico, como o verificado até 2014, a proximidade entre a cúpula do movimento
sindical e o governo inibiu o confronto sistemático dos interesses das organizações
sindicais e dos trabalhadores por elas representados. Porém, num contexto de
deterioração econômica e de acirramento do combate aos direitos já conquistados, a
agenda neoliberal dos anos 1990 voltou com força à cena política, o que altera as condições
de luta e provoca o rearranjo das forças sindicais.

Para discutir essas as questões recuperaremos, na primeira parte do texto, as


principais características da atuação do sindicalismo sob os governos petistas, tanto no
que se refere à ação institucional junto ao Estado brasileiro e ao patronato quanto à
mobilização coletiva. Na segunda parte, indicaremos as mudanças mais gerais na
conjuntura político-econômica, discutindo de que maneira o sindicalismo reage às
políticas de austeridade e ao avanço da direita.
1. O movimento sindical nos governos do PT

A atuação do movimento sindical entre 2003 e 2014 foi por nós denominada de
uma "nova fase" [Boito, Galvão e Marcelino, 2016]. Essa nova fase foi marcada pelo
apoio da grande maioria do movimento sindical aos governos petistas; pela crescente
participação das centrais sindicais nas instituições estatais; por conquistas obtidas no
plano econômico e pela retomada do ativismo grevista. As seis centrais sindicais
oficialmente reconhecidas, dentre as quais as mais importantes são CUT e Força
Sindical (FS), apoiaram, até 2013, o governo de Dilma Rousseff [Galvão, Marcelino e
Trópia, 2015]. Esse apoio não garantia o atendimento das demandas sindicais,
tampouco impedia a implementação de políticas desfavoráveis aos trabalhadores, mas
tornava o quadro sindical mais complexo. Algumas conquistas pontuais, como a
valorização do salário mínimo, associada aos indicadores positivos do mercado de
trabalho e aos resultados obtidos pela via da negociação coletiva e das greves
explicavam, na nossa avaliação, a posição sindical diante dos governos do PT.

No que se refere aos direitos sociais e trabalhistas, os governos do PT, tanto nos
dois mandatos de Lula quanto no primeiro mandato de Dilma, fizeram “movimentos
contraditórios em relação à regulação social” [Krein e Biavaschi, 2015, p. 47],
introduzindo certos direitos e reduzindo outros por meio do reconhecimento de
contratos precários de trabalho. Demandas históricas do movimento sindical e de
alcance mais geral, como a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas
semanais, o fim da demissão imotivada, a assinatura da convenção 151 da OIT de modo
a instituir a obrigatoriedade da negociação coletiva no setor público, não avançaram no
processo de negociação.

A despeito desses limites, a maior parte do movimento sindical assumiu uma


posição política de apoio aos governos de Lula e Dilma, o que, a nosso ver, levou a uma
moderação da luta política. Essa moderação reside no fato de que as centrais sindicais
não questionavam o modelo de desenvolvimento adotado pelos governos, mas, antes,
buscavam seu aperfeiçoamento. Assim, restringiam-se a lutar por crescimento
econômico e distribuição de renda no interior desse projeto, aceitando o reformismo
fraco e sem confronto com o capital que caracterizou os governos petistas [Singer,
2012]. Uma exceção a esse posicionamento foi a estratégia adotada pelas minoritárias
CSP-Conlutas e Intersindical, organizações de esquerda que surgiram de uma cisão da
CUT e que não cumprem os requisitos de representatividade para serem oficialmente
reconhecidas como centrais sindicais.

O debate bibliográfico sobre o sindicalismo brasileiro envolve questões como a


capacidade de influência sindical no processo decisório; os resultados obtidos por
intermédio das greves e negociações coletivas; a relação entre participação institucional,
mobilização e contestação. Essas questões são frequentemente tratadas de uma
perspectiva dicotômica, que desconsidera a complexidade do contexto político-
ideológico e simplifica as disputas entre diferentes lógicas e estratégias sindicais.
Alguns autores consideram que a tendência à burocratização decorrente da estrutura
sindical corporativista se intensifica sob governos de esquerda, que buscariam integrar
de modo mais orgânico os sindicatos ao Estado. Desse modo, contrapõem a
burocratização à autonomia sindical, sustentando teses acerca da cooptação do
sindicalismo pelo Estado [Druck, 2006; Antunes, 2011], do transformismo da alta
burocracia sindical [Coutinho, 2010, Bianchi e Braga, 2011; Braga, 2012, Soares, 2013]
e do apassivamento das direções [Mattos, 2014]. De nossa parte, identificamos uma
recuperação da atividade sindical no Brasil [Marcelino e Boito, 2010] e sustentamos a
coexistência entre uma forte e vitoriosa atividade no plano da luta reivindicativa e uma
orientação política moderada na cúpula do movimento sindical [Boito, Galvão e
Marcelino, 2016].

O sindicalismo brasileiro continuou, ao longo dos governos do PT, marcado pelo


corporativismo estatal, sendo um sindicalismo de dirigentes, pouco enraizado no local
de trabalho. Ainda assim, os sindicatos protagonizaram importantes conflitos
motivados, sobretudo, por questões de natureza salarial. O crescimento das greves, que
já vinha ocorrendo desde 2004, se acentua a partir de 2008. Importantes mobilizações
ocorreram em setores como educação, correio, bancos públicos e privados, petróleo,
metrô e diferentes categorias de funcionários públicos, sendo que várias greves foram
deflagradas à margem dos sindicatos e, às vezes, contra seus dirigentes [Mattos, 2014;
Veras, 2014 ; Linhares, 2015; Campos, 2016].

A eficácia do sindicalismo em mobilizar os trabalhadores em nome de demandas


econômico-corporativas contrasta, porém, com sua baixa capacidade de mobilizar em
torno de reivindicações mais amplas, que exigiam mudanças na legislação e nas
políticas públicas. Isso fica evidente quando comparamos as marchas nacionais “da
classe trabalhadora”, realizadas entre 2004 e 2014 em defesa do aumento do salário
mínimo e de direitos sociais, com as manifestações de junho de 2013, deflagradas pelo
Movimento do Passe Livre (MPL) e que reuniram milhões nas ruas das grandes e
médias cidades brasileiras.

Embora, como afirme Cardoso (2014), não seja prudente e nem justo comparar
dois movimentos diferentes, parece ser possível dizer que a convocação, pelas centrais,
de duas jornadas nacionais unitárias de lutas e paralisações, em julho e agosto de 2013,
com o objetivo declarado de “fazer avançar a pauta dos trabalhadores no congresso”,
não alcançou a mesma dimensão das manifestações de junho em termos do número de
participantes, a despeito da ampla pauta de reivindicações apresentada e do fato de ter
sido mais efetiva na paralisação temporária de ramos produtivos importantes.

2. O sindicalismo e as ruas, de 2013 a 2016

As manifestações de junho foram heterogêneas, tanto em termos das demandas


apresentadas quanto dos atores envolvidos. Setores de esquerda e de direita, que
criticavam os governos do PT por razões distintas, se encontraram nas ruas.

Os críticos à direita buscaram deslocar o sentido das manifestações, inicialmente


contrárias ao aumento das tarifas e à má qualidade do transporte público, para eleger
como alvo o governo federal, acusando-o de ineficiente, mau gestor e corrupto. Esses
segmentos compreendem os descontentes com as políticas sociais de redistribuição de
renda e de ação afirmativa, bem como com o gasto público destinado a financiar aquelas
políticas [Saad-Filho e Boito, 2016].
Em 2015, esses segmentos se aproveitaram das denúncias de corrupção
envolvendo empresas estatais e políticos do PT para convocar manifestações pelo
impeachment de Dilma, manifestações essas que tinham um perfil de classe média
[Cavalcante, 2015]. Setores populares também participaram das manifestações pelo
impeachment, mas não constituíam sua maioria [Datafolha, 2015; Fundação Perseu
Abramo, 2016].

Os sindicatos não tiveram uma participação de peso nas manifestações pelo


impeachment. Porém, a Força Sindical, a despeito da posição contrária de alguns de
seus dirigentes, aderiu ao movimento pela destituição de Dilma, responsabilizando-a
pela crise econômica e alegando a perda de condições de governabilidade. Convém
destacar que o presidente dessa central sindical, o deputado federal Paulinho,
desempenhou um papel de destaque na frente parlamentar que viabilizou esse processo.
Mas o apoio da Força Sindical à deposição de Dilma não significou mobilização de seus
sindicatos nas ruas para isso.

Os críticos à esquerda, por sua vez, denunciavam, desde o governo Lula, a


ausência de reformas estruturais e a manutenção de uma política econômica
conservadora, baseada em uma taxa de juros elevada, uma taxa de câmbio
excessivamente valorizada e em uma política fiscal que limitava os recursos destinados
às políticas sociais comparativamente ao montante destinado ao pagamento da dívida
pública. No plano sindical, essa posição era vocalizada pela CSP-Conlutas e pela
Intersindical, cuja capacidade de mobilização é pequena.

Com exceção da Força Sindical, que apoiou o candidato do PSDB, as centrais


oficialmente reconhecidas (a despeito de algumas dissidências internas) e os mais
importantes movimentos sociais apoiaram Dilma nas eleições presidenciais de 2014.
Apesar desse apoio ter sido decisivo para assegurar sua reeleição, Dilma optou por
enfrentar a crise econômica e política por meio do ajuste fiscal e de um programa
centrado na austeridade, contrariando o compromisso assumido no discurso de posse de
seu segundo mandato: "nenhum direito a menos". Essa opção abalou a relação dos
movimentos sociais com o governo e lhe custou a perda de uma parcela significativa de
apoio popular.

A austeridade não trouxe, porém, qualquer melhora no cenário econômico: a


informalidade, que vinha numa trajetória de queda até 2013, aumentou; o desemprego
saltou de 4,8% em 2014 (último ano do primeiro mandato de Dilma Rousseff e de sua
reeleição) para 6,8% em 2015 e 11,8% em 2016 [cf. IBGE, 2016] enquanto o PIB, no
acumulado de doze meses até setembro de 2016, caiu 4,4% em relação ao mesmo
período de 2015 [Drummond, 2016, p. 26]. Além do claro momento de recessão e
desemprego, uma onda conservadora trouxe consigo o descrédito nos “políticos” e na
“política” [Velasco e Cruz, Kaysel e Codas, 2015], onda essa que afeta a legitimidade
da atuação sindical.

Assim, aumentaram as dificuldades para as centrais vocalizarem suas demandas


no plano institucional, já que a oposição ao reconhecimento e conquista de novos
direitos aumenta e uma parte do sindicalismo admite até mesmo negociar alguns dos
direitos existentes. As mobilizações ofensivas no plano econômico-corporativo, por
aumento salarial e inclusão de novos benefícios nos acordos coletivos, dão lugar a
mobilizações defensivas (pela manutenção do emprego e contra a perda de direitos).

Desde 2015 vimos aumentar o número de manifestações conjuntas dos


movimentos sociais e sindicais contra o retrocesso nos direitos trabalhistas. Apenas
contra o projeto de regulamentação da terceirização do trabalho, foram convocadas
cinco jornadas, com manifestações massivas e paralisações de algumas categorias
(como metalúrgicos e trabalhadores de transportes públicos) em todas elas. Desde
agosto de 2016, quando Michel Temer foi confirmado na presidência, multiplicaram-se
as manifestações contra a reforma da previdência e, principalmente, contra a emenda
constitucional que congelará os gastos públicos por 20 anos, reajustando-os apenas de
acordo com a inflação.

Apesar da ampliação da presença de reivindicações de tipo defensivas nas greves


de 2013, ainda não era possível falar, naquele momento, que o sindicalismo estava em
uma fase mais defensiva. Os reajustes salarais acima do índice oficial da inflação no
país apontavam que continuava alta a capacidade de conquistas econômicas dos
sindicatos. Desde o ano de 2006, o índice de negociações salariais que estabeleciam
ganhos acima da inflação situava-se acima dos 80% [Dieese, 2015].

Ainda não temos dados consolidados das greves que ocorreram nos anos de
2014, 2015 e 2016. Mas os balanços das negociações coletivas de 2015 e 2016 mostram
claramente a deterioração das conquistas econômicas obtidas por parte dos
trabalhadores sindicalmente organizados. Segundo o Dieese [2016, p. 2], desde 2004
não se observava um resultado tão desfavorável para os trabalhadores quanto o de 2015,
quando apenas 52% dos trabalhadores tiveram algum ganho real acima da inflação; 30%
conseguiram apenas a reposição da inflação e 18% amargaram perdas salariais. No
primeiro semestre do ano de 2016 todos esses indicadores pioraram ainda mais.

Como as centrais sindicais reagiram a esse cenário de perdas? Antes mesmo


desta piora geral ser percebida, a CUT havia retomado certas proposições controversas,
apresentando-as diretamente ao governo, sem a mediação das instituições tripartites.
Formuladas pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, essas proposições promovem a
flexibilização das relações de trabalho, como o Plano de Proteção ao Emprego (PPE,
proposto em 2014), que estabelece a redução da jornada em troca de redução salarial.

Por outro lado, a despeito das críticas sindicais ao governo Dilma, a iminência
do golpe levou a um realinhamento das posições sustentadas pelas centrais, o que
constituiu uma novidade do cenário político pós-eleitoral. Com o agravamento da crise
política em 2015, uma parte da oposição de esquerda se reaproximou dos movimentos
mais próximos do PT em nome da defesa da democracia. Em setembro e outubro de
2015, duas iniciativas foram criadas: a Frente Brasil Popular, integrada por CUT,
Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Movimento dos Sem Terra
(MST), entre outros, e a Frente Povo sem medo, composta por CUT, CTB, Intersindical,
Movimento dos Sem Teto (MTST). A CSP-Conlutas não integra nenhuma dessas
frentes, considerando que a defesa das instituições democráticas não passava de pretexto
para a defesa do governo Dilma. Assim, ela organizou suas próprias manifestações,
pronunciando-se ao mesmo tempo contra o governo e contra a oposição de direita,
assumindo a bandeira do "fora todos".

No que se refere especificamente aos direitos dos trabalhadores, uma série de


ameaças vem sendo anunciadas. O governo de Michel Temer pretende promover a
derrogação da lei pela negociação coletiva e a ampliação da terceirização para todos os
tipos de atividade. É certo que, como afirmamos, muitas das medidas ora propostas
foram colocadas em discussão já no governo Dilma, de modo que não são fruto do
golpe, mas das contradições e tensões que marcaram os governos do PT.

Se CUT, CTB e Intersindical tiveram um papel importante na articulação da


resistência contra o golpe, o movimento sindical pouco mobilizou suas bases em torno
das palavras de ordem "Não vai ter golpe" e "Fora Temer". O grosso dos manifestantes
provinha de outros movimentos sociais, como o MST, o MTST e movimentos de
mulheres, de quem Dilma se aproximou nos meses em que procurou defender seu
mandato. Havia, também, muitos manifestantes avulsos, não organizados em partidos
ou movimentos.

A despeito das manifestações recorrentes e da constituição de duas frentes de


resistência, a ausência de uma estratégia unificada dificulta as possibilidades de luta. O
recente envio do projeto de reforma da previdência (PEC 287/2016) e trabalhista (PL
6.787/2016) ao Congresso abrem novas frentes de batalha e podem promover uma
maior aproximação entre as duas frentes de resistência.

Considerações finais

O sindicalismo brasileiro integrava uma frente política de sustentação dos


governos do PT, frente essa na qual ocupava posição política subordinada e que era
hegemonizada por uma determinada fração burguesa: a grande burguesia interna. A
crise política que vem desde a eleição presidencial de 2014, passou pelo golpe
parlamentar de agosto de 2016 e chega ao final desse mesmo ano já sob o governo de
Michel Temer coloca em cheque essa frente política que vigorou pelo menos entre 2005
e 2014. Tudo indica que esse ciclo neodesenvolvimentista chegou ao fim. Não sabemos
se o governo Temer vai durar até as eleições gerais previstas para outubro de 2018,
tendo em vista as suas muitas debilidades em termos de apoio popular, mas,
principalmente, as disputas intra-burguesas pela hegemonia no governo.

De qualquer forma, o que temos condições de avaliar com os dados de que


dispomos é que o movimento sindical se encontra num claro momento defensivo. Na
base, verifica-se uma tendência ao aprofundamento da presença de motivações
defensivas nas greves; isso ainda que o número de greves possa vir a aumentar ou a se
estabilizar. Na cúpula, entendemos que pode haver um realinhamento das centrais para
o enfrentamento das medidas de ataque aos direitos conquistados pelos trabalhadores.
Mas, mantidas as condições conjunturais de recessão, desemprego e ameaça aos
direitos, essa luta deverá se manter no que tem sido a tônica sob a hegemonia do
capitalismo neoliberal: muita luta para continuar no mesmo lugar.

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Por onde anda o movimento dos trabalhadores?

Uma análise das transformações sociais no Brasil e seus impactos sobre a


mobilização dos trabalhadores no lulismo

Bruno Moreno Carneiro Freitas1

Resumo:

Este artigo tem como objeto a relação das transformações sociais ocorridas no Brasil com o
movimento dos trabalhadores, partindo desde a análise da sociedade de classes sob o
capitalismo dependente de Florestan Fernandes e a eclosão do movimento do “novo
sindicalismo”, até as transformações sociais ocorridas nas décadas 1990 e 2000, tais como a
reestruturação produtiva e o advento do lulismo com a formação de uma “nova classe
trabalhadora”. Buscando com isso compreender os resultados de tais transformações sobre a
mobilização dos trabalhadores.

Palavras-chave: Classes sociais, lulismo, movimentos sociais, nova classe trabalhadora.

1 INTRODUÇÃO

Este trabalho tem por objetivo contribuir com a discussão das classes sociais e
organização do movimento dos trabalhadores no Brasil atual adotando como metodologia a
revisão bibliográfica.
A primeira parte tem como escopo traçar uma discussão acerca do conceito de classe

1
Aluno de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito da Universidade Federal
Fluminense (e-mail: bruno_mcf@[Link])
trabalhadora sob o capitalismo dependente desenvolvido na obra de Florestan Fernandes
(FERNANDES, 1981, p. 60). Neste sentido, analisa-se inicialmente o conceito de
capitalismo dependente, bem como o papel das classes sociais neste modelo de capitalismo.
Analisa-se em sequência, como se organizava a luta sindical antes das transformações
havidas no mundo do trabalho na década de 1990, especialmente com o advento do "Novo
Sindicalismo".
Na segunda parte, passa-se assim a traçar um paralelo entre os conceitos
desenvolvidos por Fernandes com a fração de classe denominada por Paul Singer como
subproletariado. Busca-se, uma breve análise das transformações do mundo do trabalho no
Brasil durante a década de 1990, advindas do processo de reestruturação produtiva e políticas
neoliberais e os seus impactos para a classe trabalhadora, o movimento sindical e também o
subproletariado. Analisa-se, por fim, o que ocorreu com a classe trabalhadora durante o
período do lulismo (2003-2014), que contou não só com a continuidade da terceirização e
terciarização, mas teve uma forte geração de emprego e crescimento de renda na base da
pirâmide salarial, procurando entender como as transformações havidas tanto nos anos 1990
e neste período apresentam novos desafios para a organização coletiva dos trabalhadores.

2 A SOCIEDADE DE CLASSES E O CAPITALISMO DEPENDENTE

2.1 As classes sociais sob o Capitalismo Dependente

A Teoria da Dependência foi desenvolvida por vários grupos de cientistas sociais


latino-americanos e teve seu apogeu nas décadas de 1960 e 1970, sendo que muitos analistas
subdividem a teoria da dependência em várias versões (VIEIRA, 2011, p. 46).
Fernandes (1981) chama a atenção para o fato de que a formação de um Estado
nacional independente no Brasil desenrolou-se sem que se processassem alterações
anteriores ou concomitantes na organização da economia e da sociedade, construindo-se sem
que o regime de estamentos sofresse abalo, transformando senhores rurais em aristocracia
agrária. A construção do capitalismo desta forma explica porque a sociedade nacional
emergente não era economicamente independente (FERNANDES, 1981, p. 21-23).
Para Fernandes (1981), entender sociologicamente o subdesenvolvimento exige
compreender como as classes sociais se organizam e interagem entre si para preservar,
fortalecer e aperfeiçoar, ou mesmo extinguir, o regime social de produção com fundamento
na ordem social competitiva. Isto em virtude da superação da relação de dependência trazida
pela modernização depender do modo pelo qual as sociedades subdesenvolvidas respondem
à absorção do capitalismo. Quando as estruturas coloniais forem absolutamente suplantadas
pela ordem social emergente, originam-se economias auto-suficientes e economicamente
autônomas; quando forem tão somente parcialmente superadas, tem-se o capitalismo
dependente, originando economias incapazes de expandir as forças modernizadoras para o
conjunto da sociedade.
Esse panorama, de acordo com Fernandes (1981), possibilita explicar como se
constitui, funciona e evolui o regime de classes no capitalismo dependente. Para tanto, o
autor utiliza a distinção entre “possuidores de bens” e “não-possuidores de bens”, realizando
com tais conceitos uma caracterização geral da sociedade brasileira.
Os “não possuidores de bens” dividem-se em duas categorias: 1) assalariados e os que
estão em vias de proletarização ou se proletarizaram; e 2) os imersos na economia de
subsistência ou em estruturas arcaicas do sistema econômico, tanto no meio rural, quanto no
meio urbano, que não se caracterizaria sequer enquanto um “exército industrial de reserva”.
Um dos pontos fundamentais a se considerar é que os “possuidores de bens”, no
sistema econômico do capitalismo dependente, possuem os mesmos interesses de classe e a
mesma "situação de classe", ao passo que os “não possuidores de bens” são distribuídos por
categorias distintas, sendo que uma parte, no Brasil a maior dela, não chega a ter interesse de
classe e "situação de classe", enquanto outra parte, inserida no setor moderno, possui ambas
as condições, podendo valorizar-se por intermédio da venda da força de trabalho como
mercadoria.
Neste sentido, Fernandes (1981) entende que no Brasil apenas as classes altas têm
consciência clara de seus interesses de classe e de sua "situação de classe". No entanto, a
dependência externa atua no sentido de impedir o processo de conscientização das classes
altas, acabando por eternizar a condição de dependência e de dualidade estrutural.
Quanto às demais classes, dois movimentos acabam sendo apontados como evidentes
pelo autor, vejamos:
1) as formas de consciência e de atuação da classe média são condicionadas pela associação
com os “interesses do capital” (nacional ou estrangeiro), convertendo-as em “puritanas do
capitalismo dependente”; e 2) a classe baixa urbana, a classe dependente urbana e o
campesinato sofrem profundamente os efeitos perturbadores da maneira pela qual se
objetivam, positiva ou negativamente, seus interessens e situações de classe na ordem
inerente ao capitalismo dependente. A classe baixa urbana não se metamorfoseia no
equivalente a algo como "a vanguarda consciente do proletariado", ao contrário, compartilha,
aceita e valoriza o privilegiamento do mundo urbano.

2.3 O "novo sindicalismo" na sociedade de classes sob o capitalismo dependente


brasileiro

Sob um cenário desta sociedade de classes apresentada por Fernandes, ressurge o


movimento sindical no final dos anos 1970.
A ditadura militar cortara parte substancial dos laços de integração corporativa dos
sindicatos nas políticas de Estado. No entanto, manteve os mecanismos de controle sobre as
entidades sindicais e com a política de restrição salarial e proibição de negociação salarial
livre, impediu o crescimento do peso da massa salarial no conjunto da economia (SILVA,
2008, p. 211). Num segundo momento foram necessárias reformas legais com o intuito de
consolidar o redirecionamento das funções sindicais, esvaizar as entidades de seu sentido de
resistência e de polo aglutinador tendo como objetivo impedir a afirmação da classe no
cenário nacional e perante os seus empregados. Além disto, uma nova legalidade foi sendo
construída para impedir ainda mais o exercício do direito de greve (SILVA, 2008, p. 204).
O papel de regulação das relações entre as classes do Direito do Trabalho era
depurado de alguns de seus elementos fordistas no Brasil, concentrando renda nas classes
compradoras de força de trabalho, sendo que a precarização das políticas compensatórias
traria maior contestação por parte dos setores de classe que vivem da força de trabalho
(RAMOS FILHO, 2012, p. 237).
Por outro lado, houve crescimento ininterrupto da indústria automobilística no Brasil
até a década de 1980. Entre 1975-1985, as exportações de veículos aumentaram 305% e as de
motores quintuplicaram, ampliando a participação das firmas de autopeças na exportação da
cadeia automotiva de 3,1% do total, em 1977, para 12,7%, em 1985 (PINTO, 2006, p. 78).
É neste cenário que eclode a greve de 1978 do ABC paulista. No dia 12 de maio de
1978 os trabalhadores da Scania paralisaram suas atividades, dando início a uma onda
grevista, forte, espontânea e desordenada (SILVA, 2008, p. 207). É a partir da organização
dos metalúrgicos de São Bernardo que um movimento com caráter cultural e político "novo"
surge. Aponta-se como orientações deste novo sindicalismo: a) autonomia sindical frente ao
Estado; b) independência em relação aos partidos políticos e liberdade de escolha partidária
de seus participantes; c) negociações diretas entre empregados e patrões, sem intervenção
governamental; d) movimentação pelas bases e criação de uma democracia interna ao
movimento; e) nova forma de organização, trazendo o sindicato ao próprio local de trabalho
e a criação de comissões de fábrica (SCHERER-WARREN, 1987, p. 43-44)
Comparando o processo histórico da reorganização do movimento sindical a partir do
final dos anos 1970 no “novo sindicalismo”, pode-se concluir que se tratava da organização
da fração de classe pertencente ao grupo dos “não possuidores” referidos por Fernandes
como detentotra de interesse de classe e “situação” de classe.
Ou seja, tratava-se de uma minoria da classe trabalhadora, que apesar de se situar no
grupo de “não possuidores”, estava inserida dentro do setor moderno da sociedade de classes
sob o subdesenvolvimento, ao passo que a maioria estava alijada deste processo. A
formulação de Fernandes de que a classe baixa urbana não se metamorfoseia no equivalente à
"a vanguarda consciente do proletariado", ao contrário, compartilha, aceita e valoriza o
privilegiamento do mundo urbano parece ter sofrido um ponto de inflexão no momento em
que o movimento do “novo sindicalismo” se organizou junto ao movimento popular e
ampliou as suas demandas. Assim, o “novo sindicalismo” teria partido de reivindicações bem
precisas e concretas, especificas do terreno sindical e evoluído para demandas políticas que
não são toleradas pelo Estado (SANTANA, 1999, p. 108). Para tanto, este “novo
sindicalismo” conjugou forças com outros movimento, tais como as CEBs – Comunidades
Eclesiais de Base (SCHERER-WARREN, 1987, p. 44).

3 OS "NÃO POSSUIDORES DE BENS" E O SUBPROLETARIADO

3.1 O subproletariado e o quadro que antecede o lulismo

André Singer (2012) menciona que apesar das transformações pelas quais passaram o
Brasil e o mundo, permanecia a contradição fundamental quando o ex-presidente Lula da
Silva tomou posse em 1º de janeiro de 2003: a mesma constatada por Paul Singer em 1981
quando mencionou que a fração de classe subproletariado (sobrepopulação trabalhadora
superempobrecida permanente) constituía 48% da PEA, contra 28% de proletários e que pelo
seu tamanho influenciava decisivamente a luta de classes (SINGER, A., 2012, p. 19-20).
Ora, o subproletariado parece pertencer à fração de classe que constitui os "não
possuidores de bens", caracterizada por Fernandes (1981) como os imersos na economia de
subsistência ou em estruturas arcaicas do sistema econômico, no meio rural e urbano
(FERNANDES, 1981), percebido por ambos como majoritários na classe trabalhadora no
Brasil.
No entanto, o quadro social de 2003 não se limitava ao analisado por Paul Singer ou
Florestan Fernandes. As décadas de 1980 e 1990 trouxeram novos elementos à realidade
social brasileira.

3.2 As transformações na realidade do trabalho no Brasil na década de 1990 e os


impactos na organização sindical

Segundo André Singer, tal processo repôs com vigor o problema do subproletariado,
pois a estagnação da economia e o combate à inflação por meio das importações produziram
explosão de desemprego, ampliando o subproletariado (SINGER, A., 2012, p. 20). Ou seja,
André Singer considera que tais fatores tenham, no mínimo, mantido a proporção de
subproletários na sociedade em comparação com o período pesquisado por Paul Singer. Com
base em texto de Francisco Oliveira, de 2003, aponta que entre o desemprego e o trabalho
sem-formas, transitava 60% da força de trabalho brasileira. (SINGER, 2012, p. 78). Nos anos
1980, estimava-se que a informalidade antigia 24% da PEA e em 1990, 29%. Já no ínicio
deste século, com base nos dados da PNAD 2002-2003, constatava-se 39% de trabalhadores
sem contrato de trabalho formal e que somados aos trabalhadores "por conta própria",
chegavam a 53% dos ocupados (SILVA, 2008, p. 260).
Sobre as relações coletivas de trabalho, com o governo Fernando Henrique, são
apontados por Silva (2008) movimentos de restrição da autonomia coletiva com o objetivo de
inverter a lógica clássica concessivo-aquisitiva do Direito do Trabalho (SILVA, 2008, p.
276).
O desenvolvimento da política neoliberal contribuiu para que as negociações
coletivas tivessem maior descentralização, muitas vezes se restringindo ao âmbito da
empresa, tais como as relativas à PLR e banco de horas. Outros mecanismos, tais como a
contratação por tempo determinado (MP nº 1.726/98) e a suspensão temporária do contrato
de trabalho (Lei nº 9.601/98) dificultaram também as iniciativas coletivas. A fragmentação
do processo de negociação coletiva implicou em precarização da força de trabalho (ALVES,
2006, p. 468).
Portanto, o quadro encontrado em 2003 é o do subproletariado como maioria da
classe trabalhadora, mas a realidade do mundo do trabalho é diversa da vivida em décadas
anteriores, com implicações diretas na capacidade de organização coletiva dos trabalhadores.
Vejamos que no ano de 1990 haviam sido registradas 1.956 greves, contando com a
participação de 9.084.672 grevistas, ao passo que em 1999 foram registradas tão somente
552 greves, bem como apenas 1.378.668 grevistas (ALVES, 2006, p. 466-467).
3.3 O subproletariado e a nova classe trabalhadora no lulismo

André Singer traz o histórico dos dados no lulismo (SINGER, A., 2012), dizendo
inicialmente que a população que vive abaixo da linha absoluta de pobreza reduziu-se de
36% para 23%.
Assim como na década de 1990, quando se intensificou o processo de reestruturação
produtiva no Brasil (CARDOSO, 2003; POCHMANN, 2014; RAMOS FILHO, 2012;
BRAGA, 2012), na década de 2000 se observou o crescimento das terceirizações e do setor
terciário, sendo este último o responsável pela maioria dos postos de trabalhos no país
(POCHMANN, 2012; BRAGA, 2012). Entretanto, ao contrário dos anos 1990, os últimos
anos contaram com a forte geração de postos de trabalho na base da pirâmide salarial, ou seja,
postos de trabalho com baixa renda (POCHMANN, 2012). Há diversas teorizações que
analisam este fenômeno e este trabalho se atem às análises que apontam as principais
características desta nova classe trabalhadora, tomando esta nomenclatura como a melhor
para demonstrar que estes trabalhadores vivem uma realidade distinta dos assalariados antes
das transformações ocorridas no mundo do trabalho na década de 1990.
Marilena Chauí (2013) assim aponta que o novo na classe trabalhadora seria não
somente os efeitos das políticas sociais e econômicas do lulismo, mas também os elementos
trazidos pelo neoliberalismo: fragmentação, terceirização e precarização do trabalho; e
incorporação de segmentos sociais que antes pertenceriam à classe média (CHAUÍ, 2013).
Ou seja, tomando como referência a classificação dada por Fernandes (1981),
aceita-se, de acordo com a narrativa de Chauí (2013), assumir que o grupo dos "não
possuidores de bens" pode ser mais subfracionado diante desta nova realidade do mundo do
trabalho.
Também é central a análise do destino do subproletariado traçado por Alves:
"Deste modo, podemos dizer que, sob o neodesenvolvimentismo, ocorreu
uma mobilidade social intraclasse, com uma parte do subproletariado
tornando-se beneficiária dos programas sociais como o Bolsa-Família e
outra parte do subproletariado ascendendo à condição de nova classe
trabalhadora que cresceu com a formalização contratual e a valorização do
salário-mínimo." (ALVES, 2013)
Mesmo com a ascenção de parte do subproletariado à condição de nova classe
trabalhadora, o movimento sindical não voltou a ser o centro de mobilizações que se
espraiaram para o conjunto da sociedade como havia sido no desenvolvimento do "novo
sindicalismo", sendo que a taxa de sindicalização que naquele momento chegou a atingir
mais de 30% dos trabalhadores ocupados, passa a variar em torno de 15% e 20% entre os
anos de 2003 e 2014 (POCHMANN, 2014, p. 65).
Entretanto, os trabalhadores terceirizados tem grande crescimento na taxa de
sindicalização, como em São Paulo, cuja taxa de sindicalização varia de 0,2% em 1993 a
cerca de 20% em 2003, passando a 1/3 dos terceirizados ocupados em 2010 (POCHMANN,
2012, p. 121-122). Surpreende ainda que em 2012, segundo o Departamento Intersindical de
Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), o número de horas paradas só tenha sido
inferior aos picos históricos dos anos de 1989 e 1990 e 75% superior a 2011 (BRAGA, 2013,
p. 81); e que em 2013 o número de greves tenha chegado a 2.050, 134% maior do que em
2012 (BRAGA, 2016, p. 56).
Mesmo com grande e crescente número de greves, o movimento sindical não
conseguiu se espraiar para o conjunto da sociedade. Seria o efeito das políticas de
descentralização das negociações coletivas e enfraquecimento da autonomia coletiva além
das demais que alteraram o mundo do trabalho nos anos 1990?
Mais curioso ainda é ver que neste cenário se deram as manifestações de junho de
2013 nas quais os manifestantes atuavam em coletivos que não eram hierarquizados (GOHN,
2014, p. 09), ao contrário do movimento sindical. No entanto, parte da nova classe
trabalhadora foi às ruas naquela ocasião e/ou também fez greve naquele ano. Pesquisa
realizada no Rio de Janeiro durante a manifestação de 20 de junho de 2013 pela empresa Plus
Marketing mostrou que 70,4% dos manifestantes estavam empregados, 34,3% percebiam até
1 salário mínimo e 30,3% ganhavam entre dois e três salários mínimos. A idade média era de
28 anos (BRAGA, 2013, p.82). Cabe lembrar ainda que o movimento sindical convocou
manifestações posteriores (no Dia Nacional de Mobilização) que não tiveram a mesma
capacidade de mobilização (GOHN, 2014, p. 10).
4 CONCLUSÃO

As conclusões do presente trabalho são as de que o Brasil se organiza socialmente sob


a vigência de um capitalismo dependente, forjado em razão de nossa estrutura social. Neste
sentido, a sociedade de classes no Brasil se constituiu preservando as arcaicas estruturas
sociais que vigiam no país. A análise feita sobre esta sociedade fundada sob o capitalismo
dependente permite apontar na divisão de classes inserida em dois grandes grupos: os
"possuidores de bens" e os "não possuidores de bens". Sendo que dentro do grupo dos "não
possuidores de bens", a maior fração de classe foi, ao menos até 2003, formada de
trabalhadores imersos na economia de subsistência ou em estruturas arcaicas do sistema
econômico, no meio rural e urbano, também denominada subproletariado. Ainda assim, um
forte e irradiador movimento sindical se deu com o advento do “novo sindicalismo”.
Analisando-se as transformações ocorridas na realidade brasileira desde a década de
1990 e levando em consideração as transformações sociais promovidas no período do
lulismo, conclui-se que parcela do subproletariado teve suas condições de vida melhoradas,
mas permaneceu podendo ser classificada como subproletariado e parte ascendeu ao que se
denomina “nova classe trabalhadora”, sendo que tal “classe” se diferencia do trabalhador
assalariado existente antes do processo de introdução do neoliberalismo no Brasil, sendo
mais fragmentada, precarizada e normalmente terceirizada. E, por outro lado, mesmo após o
reaquecimento do mercado de trabalho, baixos índices de desemprego e a inclusão no
mercado formal de trabalho desses “novos trabalhadores”, o movimento sindical não
retomou o espaço central na mobilização das lutas nacionais para além das pautas
corporativas. Mesmo com aumento da taxa de sindicalização desses “novos trabalhadores” e
aumento expressivo do número de greves, não foi o movimento sindical que retomou com
força a agenda de mobilizações como a que culminou em junho de 2013, embora membros
dessa “nova classe trabalhadora” tenham muito provavelmente participado tanto dos
movimentos de greve de 2013 quanto das manifestações ocorridas em junho/julho.
Neste sentido, duas das possibilidades são que o processo de reestruturação
produtiva, precarização das relações de trabalho e descentralização das negociações coletivas
com enfraquecimento da autonomia coletiva contribuíram para um quadro de fragmentação
sindical que impede que a simples incorporação de novos agentes, como ocorreu durante o
lulismo, seja suficiente para recolocar o movimento sindical como centro de mobilização da
sociedade e dos trabalhadores para além de pautas corporativas. E que o movimento sindical
talvez precise tentar retomar uma rede de organização popular para além das atividades
corporativas e sindicais, tal como estabelecido entre o “novo sindicalismo” e as CEBs por
exemplo.

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Nuestra Lucha es en Contra del Sindicato
Una Etnografía del Antagonismo Obrero al Sindicalismo de Protección
Patronal en México. El Caso de la Industria Automotriz.

Paolo Marinaro
Facultad de Ciencias Políticas y Sociales
Universidad Nacional Autónoma de México
Doctorado en Sociología
[Link]@[Link]

El Sector Automotriz en México.

En los últimos diez años en México el sector automotriz ha crecido de forma extraordinaria. La
República Mexicana hoy es la séptima productora global de autos, primer socio comercial de
Estados Unidos y tercer exportador mundial. Esto significa que cinco de cada cien autos vendidas
en el mundo son ensambladas o producidas enteramente en México (Carrillo, 2015a).
El facturado del sector automotive a nivel nacional representa el 20% del PIB de la industria
manufacturera y el 30% del volumen total de exportaciones. Desde 1981 hasta 2015 los trabajadores
del sector han crecido hasta cubrir el 55% de los empleados de la industria manufacturera (Carrillo,
2015b).
Por otro lado, el excepcional crecimiento de la industria del automóvil no se ha traducido en un
mejoramiento de las condiciones laborales de los trabajadores, al contrario, el salario real ha
disminuido constantemente desde la década de los ochenta, hasta clasificarse entre los cinco más
bajos del mundo (Quintero, 2015). Al centro de esta contradicción, el sindicato juega un papel
fundamental.

El Sindicalismo de Protección Patronal

Diferentes estudios han demostrado que, a partir de final de los años sesenta, las condiciones
laborales han empeorado conforme a la progresiva sindicalización de las plantas manufacturera, a

1
través de la firma de contratos colectivos que han establecido condiciones por debajo de la Ley
Federal del Trabajo (Carrillo, 1989; Gambrill, 1989; Quintero, 1990).

PERIODO NÚMERO DE NÚMERO DE PORCENTAJE DE NÚMERO DE PROMEDIO DE


CONTRATOS CONTRATOS CONTRATOS CLÁUSULAS CLAÚSULAS
COLECTIVOS SUPERIORES SUPERIORES LEONINAS LEONINAS POR
CONTRATO

1968 - 1969 11 4 36.4 1 .09

1970 - 1971 18 4 22.2 2 .1

1972 - 1973 15 5 33.3 4 .2

1974 - 1975 7 0 0 13 1.8

1976 - 1977 6 2 33.3 9 1.5

1978 - 1979 14 3 21.4 24 1.7

1980 - 1981 24 3 12.5 60 2.5

1982 - 1983 36 1 2.8 70 1.9

Un Contrato “superior” tiene prestaciones por encima de las mínimas legales. Una Cláusula “leonina” establece
condiciones de trabajo por debajo del mínimo legal (Gambrill, 1989).

El crecimiento de la tasa de sindicalización ha sido el resultado de una adaptación de las


organizaciones sindicales a las exigencias de flexibilidad de las empresas. “Flexibilidad” en este
sentido significa el tránsito hacia un modelo de regulación de las relaciones industriales cuyo
objetivo es incrementar el margen de acción de las empresas respecto a cuestiones como el uso de
la fuerza de trabajo, el proceso productivo, el salario y la ocupación, a través de contratos laborales
ad hoc (Covarrubias, 1993).
El “sindicato tradicional”, cuyo objetivo es el mejoramiento de las condiciones salariales y laborales
de los obreros, a través del instrumento del contrato colectivo, ha sido sustituido por sindicatos de
protección patronal (Bouzas y Riveros, 2001). Los estudiosos mexicanos con esta categoría se
refieren a organizaciones vinculadas a las empresas por una relación de colaboración incondicionada
y por la prevaricación de los derechos de los trabajadores, institucionalizada por contratos colectivos
de protección patronal, firmados entre la empresa, el sindicato y la Junta de Conciliación y Arbitraje
(JCyA), sin el consentimiento de los trabajadores, típicamente antes de la inauguración de la planta.
(Quintero, 2006, p. 18).

2
El Antagonismo Obrero

La experiencia obrera de la contradicción entre el éxito global de la producción de autos en México


y el deterioro de las condiciones laborales, es un fenómeno poco atendido por las ciencias sociales.
Los estudios laborales, en las últimas tres décadas, con pocas excepciones, se han concentrado en
aspectos económicos y de innovación tecnológica, limitando la posibilidad de apreciar la dimensión
socio-cultural de este modelo de desarrollo industrial (De La Garza, 2012; Quintero, 2013). La
experiencia de las condiciones laborales de los obreros de la industria transnacional, la peculiar
vivencia de las relaciones sindicales y de los conflictos laborales han sido cuestiones poco
estudiadas (Carrillo, 1985; Peña, 1986; De La Garza, 2010; Quintero, 2016).
“Se ha olvidado el devenir concreto de los trabajadores, la forma en que se relacionan con el proceso
de producción, su manera de pensar, de organizarse y de actuar.” (Reygadas, 1988, p. 20).
Estas investigaciones, a lo largo de los años, han alimentado “un mito: que si bien hay una gran
explotación de los trabajadores, no existen luchas significativas.” (Carrillo, 1985, p. 32).
En esta coyuntura, según estos estudios, no habría condiciones para la conformación de un
“nosotros”, que permitiría el desarrollo de respuestas colectivas a las condiciones de trabajo
(Méndez 2003; Solís, 2009).
Los discursos institucionales en los últimos años han adoptado estos argumentos para celebrar la
paz laboral:

“Treinta y dos meses sin conflictos laborales, un hecho sin precedentes desde hace
veinticinco años.” (Alfonso Navarrete Prida - STPS, Junio 2016)

“Sin embargo, no obstante ha existido una historia oficial, propagada por el gobierno y las
estructuras laborales, empeñadas en señalar la ausencia del conflicto, esto nunca ha dejado de
existir” (Quintero, 2006, p. 23). Aunque las estrategias, los objetivos y los actores involucrados en
los conflictos laborales han cambiado, “la idea de un trabajador apático, dócil y sumiso (…) es por
demás cuestionable” (Quintero, 1999, p. 176). La hipótesis de la servidumbre voluntaria carece de
información empírica (De La Garza, 2002).

3
La Ponencia

Esta ponencia se enfoca en las recientes luchas para la democratización de las relaciones sindicales,
estalladas en los últimos tres años en la industria automotriz en México. Se trata de conflictos
surgidos de forma autónoma desde la base trabajadora, con el objetivo de romper con las políticas
del sindicalismo de protección patronal. El instrumento privilegiado de estas luchas es el paro
laboral, ya que diversamente de la huelga se sustrae al protocolo institucional, que prevé la
mediación del conflicto por el sindicato titular del contrato colectivo y el respeto de los términos
impuestos por la JLCyA1. Sin embargo, la ausencia de un registro estadístico de los paros
invisibiliza estos conflictos, forzando los movimientos obreros en clandestinidad y poniendo las
condiciones para su represión ilegal por parte del sistema de protección patronal, a través de
despidos masivos, intimidaciones, falsificaciones de documentos, sobornos, arrestos arbitrarios,
agresiones y torturas.
La ponencia se enfoca en la experiencia obrera de estos conflictos, el objetivo es presentar el
sindicalismo de protección patronal como condición y resultado de un proceso subjetivo, destacando
las formas de acción colectiva que articula.
La presentación al congreso ABET se desarrolla a lo largo de los siguientes ejes (E):
[E1] Definir el papel del sindicalismo de protección patronal en la restructuración de las relaciones
de producción en México.
[E2] Describir las prácticas, los discursos y las emociones que caracterizan la experiencia obrera del
sindicalismo de protección patronal.
[E3] Describir las estrategias, los significados y los recursos afectivos a través de los cuales los
trabajadores se constituyen en un sujeto político antagonista.
[E4] Describir el papel del sindicalismo de protección patronal en el contexto de las relaciones
industriales transnacionales, con particular atención a la industria automotriz.

1 En México se distingue entre huelga y paro laboral. Ambos términos se refieren a una forma de protesta de los
trabajadores que se manifiesta con la interrupción voluntaria de las labores. La diferencia entre estas
categorías reside en el hecho que la huelga es coordinada por el sindicato e impone el respeto de un protocolo
institucional, que prevé la negociación de las condiciones de la protesta con la empresa y la JLCyA, mientras el
paro es una reacción espontánea y autónoma de los trabajadores.

4
LA INVESTIGACIÓN

La ponencia prevé la presentación de los resultados de un trabajo de investigación etnográfica que


he llevado a cabo a lo largo de dos años con los trabajadores de Teksid Hierro de México, una
empresa italiana controlada por el grupo Fiat Chrysler Automobile (FCA). Al centro de esta
propuesta analítica se sitúa la experiencia de los trabajadores de un cierto modelo sindical, del
sistema de movilización de la mano de obra y de gestión de las relaciones laborales vigente en
México. El énfasis, aquí, está en la definición construida por los trabajadores del sistema de actores
e interacciones, mediado por estructuras normativas, que provee a la organización y al control de la
relación entre capital y fuerza de trabajo.
La herramienta etnográfica, en esta perspectiva, constituye una técnica de investigación
particularmente eficaz, en cuanto es capaz de penetrar la dimensión subjetiva de las relaciones
sindicales, centrando el análisis en el punto de articulación entre la cultura y la praxis, las relaciones
socio-culturales y la dinámica histórica (Bertaux, 1999).
Este tipo de acercamiento a las relaciones sindicales, más allá de la presentación de los mecanismos
formales y de las infraestructuras institucionales, permite describir los significados y las emociones
que los trabajadores les atribuyen, junto con las prácticas que desempeñan conforme a ese horizonte
simbólico y emotivo, es decir, la apropiación subjetiva de un peculiar modelo de producción y de
política sindical.
He llevado a cabo el trabajo de campo implementando las siguientes técnicas de investigación
cualitativa: entrevistas semi-estructuradas, historias de vida, grupos focales y observación
participante.
Durante dos años he vivido en casa de los trabajadores, junto con sus familias, participando en sus
actividades cotidianas: estuve presente en las asambleas, en las sesiones de formación sindical, en
las juntas para la construcción y la distribución de volantes y finalmente asistí a las audiencias en la
Junta de Conciliación y Arbitraje [E2; E3].
He impartido 30 entrevistas semi-estructuradas [E1; E2; E3; E4], he recolectado 10 historias de vida
[E2; E3] y he dirigido 8 grupos focales para la discusión de los contratos colectivos [E1; E2; E3].
Las entrevistas y los grupos focales me han permitido reconstruir los procesos que regulan el acceso
al empleo, la capacitación al trabajo, la organización y el control del proceso productivo, los
protocolos de seguridad, las prácticas de afiliación sindical, la elección de los representantes

5
sindicales, las dinámicas que presiden a la negociación colectiva y a la definición de los contratos
colectivos [E1; E4]. Asimismo las entrevistas semi-estructuradas me ofrecieron la posibilidad de
destacar las peculiaridades de la memoria y de la cultura sindical del territorio objeto de estudio,
vislumbrando las trayectorias laborales de los entrevistados y de sus familias [E2; E3]. La
participación en las actividades cotidianas del movimiento me ha dado la oportunidad de estudiar
las prácticas, los discursos y los procesos afectivos que presiden a la construcción de un sujeto
político, destacando las formas de politización, así como las técnicas de organización y las
estrategias de movilización [E3]. Por otro lado la convivencia prolongada con las familias de los
trabajadores me ha permitido enfocar en las relaciones y las prácticas de género, señalando la
dialéctica que se establece entre estas, el trabajo en la fábrica y las políticas sindicales [E2; E3].
En el transcurso de los últimos dos años he tenido la posibilidad de observar el desencadenamiento
global de los procesos que estuve estudiando a nivel local con los trabajadores mexicanos,
entrevistando los responsables globales de recursos humanos de FCA y representantes sindicales en
Italia y Estados Unidos. Con el mismo objetivo he participado en congresos internacionales entorno
al sector automotriz, en asambleas sindicales transnacionales organizadas para desarrollar
estrategias políticas en respuesta al sindicalismo de protección patronal y en la red sindical global
de FCA [E4].

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9
MOVIMENTO SINDICAL E JUVENTUDE: UMA INVESTIGAÇÃO
DA JUVENTUDE DA CUT

Leise Helena Xavier Filgueiras

[Link]@[Link]

Introdução:

O sindicalismo brasileiro passou/passa por profundas transformações nas


últimas décadas, tanto no que diz respeito a sua atuação, quanto na sua composição,
posicionamentos e capacidade. Desde a emergência do “novo sindicalismo” no final da
década de 1970, a intensa atividade grevista da década de 1980, o refluxo sindical e as
dificuldades da década de 1990 frente à ofensiva neoliberal, até a sua fase atual, que teve
como marco a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, ex-sindicalista e uma das principais
lideranças operárias, para a presidência da república.

Com efeito, os sindicatos e seus agentes se constituíram em força social capaz


de participar e intervir nas decisões e na configuração do poder político, especialmente
no processo de abertura democrática que culminou no movimento por eleições diretas no
Brasil. A trajetória da CUT (Central Única dos trabalhadores) é exemplo disso, resultado
de um longo processo de organização da classe trabalhadora no Brasil, ela se constituiu e
permanece sendo a maior central sindical do país. Segundo dados do Ministério do
Trabalho publicados no diário oficial da união (2015)1, a CUT atualmente representa
30,40% dos trabalhadores sindicalizados.

O tema da juventude aparece nas resoluções da CUT desde o final da década


de 1980, porém, apenas enquanto setor atingido pela precarização do mercado de trabalho
e pelo desemprego, o qual deveria ser estimulado em sua participação sindical. Em 1997,

1
Disponível no diário oficial da união, seção 1, nº62, 1 de abril de 2016, pág. 132.
foi criado o Coletivo Nacional de Juventude da CUT, e o tema reaparece timidamente na
agenda da central na década de 2000. Na 12ª Plenária Estatutária da CUT (2008), foi
aprovada a criação da Secretaria da Juventude e, no ano de 2009, na ocasião do 10º
CONCUT (Congresso Nacional da Central Única dos Trabalhadores), os representantes
da secretaria de juventude da CUT nacional e das Estaduais da CUT foram eleitos.

Esse trabalho tem por objetivo investigar a problemática da juventude no


sindicalismo brasileiro. Por esta razão se orienta pela seguinte questão: como e de que
forma a Central Única dos Trabalhadores (CUT) trata os problemas referentes à
juventude? Em outros termos, qual o lugar que as questões relativas à juventude têm nas
práticas sindicais desta central? Para isto, buscamos investigar a Secretaria de Juventude
da CUT, instância nacional fundada em 2008 que formula as políticas e posições desta
central acerca desta problemática.

Na representação predominante da condição juvenil da metade do século XX


até a atualidade, os jovens aparecem ou pela ótica do “problema social” (afetados pelas
drogas, delinquência, desemprego, etc.) ou como “promessa” para o amanhã
(OLIVEIRA, 2013). Na maior parte das abordagens parece haver uma dificuldade em
considerar os jovens enquanto sujeitos políticos capazes de formular questões
significativas e de propor ações relevantes, contribuindo para a solução dos problemas
sociais para além de sofrê-los ou ignorá-los (ABRAMO, 1997).

Para os fins dessa pesquisa, adotamos o pressuposto metodológico de que a


categoria juventude não pode ser compreendida enquanto socialmente homogênea, pois
a condição de classe2, as trajetórias, as experiências e as oportunidades não são as mesmas
para os indivíduos com idades cronológicas semelhantes. A ideia de juventude é uma
construção social, seu significado surge da produção de uma sociedade específica a partir
das diversas formas que ela enxerga os jovens, das referências, dos estereótipos, dentre
outros fatores que aparecem enquanto característicos dessa fase da vida a que

2
Compreendemos classe social enquanto um fenômeno que é ao mesmo tempo econômico, político,
cultural, objetivo e subjetivo, econômico porque assumimos que a divisão entre proprietários e não-
proprietários é uma divisão fundamental que possibilita a formação de coletivos com interesses opostos,
porém, para que essa potencialidade se realize faz-se necessário levar em consideração fatores político-
ideológicos, que farão com que essa existência latente de classes que se colocam em oposição uma a outra,
se torne manifesta (Boito Jr. 2007).
convencionamos chamar de juventude, mas que não é vivenciada igualmente pelos
individuos de uma mesma faixa etária. A condição juvenil é histórica, cultural e social.
Ela varia ao longo da história, varia de uma cultura para a outra, varia de acordo com a
origem rural ou urbana desses indivíduos, varia de acordo com distinções sociais de
classe, raça e gênero, etc.

Metodologia:

Para a realização dessa pesquisa utilizamos todos os documentos que foram


lançados até o momento pela Secretaria Nacional de Juventude da CUT, a saber: a revista
em quadrinhos chamada “A Aventura da Organização Sindical”, lançada no ano de 2011;
“15 anos de organização da juventude da CUT: por uma política de Estado contra o
desemprego e a precarização do trabalho juvenil”, lançada no ano de 2012; o caderno de
formação sindical “Juventude, mercado de trabalho e sindicalismo”, do ano de 2013; e a
cartilha “Juventude da CUT e as negociações sindicais no campo e na cidade”, lançada
no ano de 2014. Além disso, buscamos examinar os discursos desses documentos
utilizando outras fontes, tais como as resoluções dos Congressos Nacionais da CUT
(CONCUT) e as Plenárias Nacionais da entidade.

Compreendemos que as fontes e os documentos que investigamos são


resultado de lutas políticas e expressam as relações de forças dentro da entidade, sejam
os elaborados pela Secretaria de Juventude, sejam os elaborados pela Executiva Nacional
da entidade, ou ainda as resoluções de congressos de maior abrangência. Portanto, o
resultado final das resoluções e demais documentos da central sindical é fruto da visão
hegemônica de uma ou mais correntes e reflete a posição política daquelas que possuem
maior força no seu interior.

O recorte temporal escolhido para a realização desse trabalho abrange os anos


de 2006 a 2014, justificamos essa escolha por este ter sido o período em que os debates
sobre juventude começaram a acontecer de forma mais sistemática no interior da central,
culminando na criação da Secretaria de Juventude no ano de 2008. Além disso, se trata
de um período marcante para o movimento sindical, sobretudo no interior da CUT,
abrangendo o período dos governos Lula e Dilma no executivo nacional, dos quais a CUT
se manteve aliada, e a regulamentação legal das Centrais Sindicais no Brasil com a Lei
11.648/20083.

Resultados de pesquisa:

A Secretaria de juventude da CUT afirma tomar como desafio a construção


de uma nova geração sindical no Brasil, nova em sua forma de construir política sindical
e em seu potencial criativo para organizar a classe trabalhadora e romper com as formas
autoritárias, burocráticas e opressoras que ainda estariam arraigadas na estrutura sindical
brasileira. Observamos que há um esforço por parte da Secretaria de Juventude, para a
inclusão dessa juventude submetida ao emprego precário, que não goza das mesmas
capacidades de se organizar sindicalmente nos locais de trabalho. Esse esforço aparece
quando a Secretaria de Juventude afirma que a CUT não pode se limitar aos que possuem
carteira de trabalho assinada e também na defesa da criação de coletivos de juventude nas
entidades de base da central.

Ademais, é evidente o importante papel estratégico da questão da juventude


para a interlocução da central com os movimentos sociais do campo, desde o primeiro
projeto da entidade com relação à temática até a última cartilha lançada no ano de 2014.
A sensibilidade da Secretaria de Juventude para essa questão pode ser explicada em larga
medida pelo fato de que a Secretaria não é formada somente por militantes formalmente
sindicalizados, o que incluiria de forma mais abrangente a juventude do campo no interior
da central. A atual representante da Secretaria Nacional de Juventude na Direção
Executiva Nacional da CUT (2015-2019) é oriunda do setor rural, do Sindicato dos
Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Ouro Branco – Alagoas, tendo sido também
Secretaria de Políticas para Mulheres Trabalhadoras da FETAG – Alagoas, o que dá

3
A lei 11.648/2008 trouxe o reconhecimento formal das centrais na estrutura sindical, enquanto entidades
associativas de direito privado de representação geral dos trabalhadores, constituídas em âmbito nacional.
Antes disso, as centrais sindicais não podiam participar formalmente de negociações entre a classe
trabalhadora e o patronato, pois se tratavam apenas de associações civis. Portanto, esta lei concedeu às
centrais a prerrogativa de coordenar e participar de negociações em espaços de diálogo social que possuam
composição tripartite. Além disso, com a legalização as centrais passaram a ter acesso a 10% da
contribuição sindical dos sindicatos filiados, no ano de 2010, por exemplo, a CUT recebeu R$27,3 milhões,
segundo dados do MTE. (Soares, 2013).
indícios da importância desse setor no interior da Secretaria de Juventude.

Destacamos também que a questão das políticas públicas adquire bastante


centralidade nos documentos da Secretaria de Juventude desde a sua fundação, assim
como também nas resoluções dos Congressos e Plenárias da CUT quando são
mencionadas as questões da juventude, como se elas sempre desembocassem na
necessidade de políticas públicas para esse setor. Ademais, essa questão também vem
acompanhada de um discurso de “fortalecimento do estado”, que aparece na cartilha da
Secretaria de Juventude do ano de 2012 e aparece também com o mesmo texto na
resolução da 14ª Plenária Nacional da CUT.

De certa forma, esse argumento de que é imprescindível fortalecer o estado e


criar políticas sociais se configura em um certo fetichismo do estado. Essa tendência é da
central como um todo, já que a CUT fez esse movimento de se voltar mais para a
construção de políticas públicas, para um sindicalismo cidadão e para a participação nas
negociações coletivas. Esse tipo de ideário se destaca pela contraposição ao sindicalismo
combativo mais característico da central nos seus primeiros anos.

Mesmo com o aumento de políticas públicas para a juventude a partir do


governo Lula, em geral elas priorizavam o mercado de trabalho e focavam na ideia da
profissionalização enquanto saída para o desemprego da juventude, conforme aparecem
nos documentos do Conselho Nacional de Juventude (CONJUVE) criado em 2005, na
Agenda nacional de Trabalho Decente para a Juventude do Brasil (2010), na conferência
Rio+20 (2012). Promovidos pelo Governo Federal, todos os documentos contêm uma
perspectiva de formação cidadã e educação para o trabalho, nos quais a Secretaria da
Juventude da CUT participou da elaboração enquanto representante da juventude.

Em nossa análise foi possível notar que o debate sobre juventude de fato só
ganhou maior expressão nacional no interior da entidade recentemente. De modo geral a
juventude aparece em todos os documentos da entidade enquanto setor amplamente
afetado pela precarização do trabalho e pelo desemprego e, por conta disso, também
aparece como um setor que necessita de políticas sociais especificas. Ao mesmo tempo,
todos os documentos abordam de forma genérica que existe uma grande dificuldade em
aproximar a juventude do movimento sindical.
A cartilha “Juventude da CUT e as negociações sindicais no campo e na
cidade” (2014) traz alguns dados de uma pesquisa que a CUT Nacional encomendou ao
DIEESE de caracterização dos dirigentes sindicais, a pesquisa foi uma deliberação do XI
Congresso nacional da CUT (2012) sobre a necessidade de conhecer o perfil dos
dirigentes da central. Através dos dados da pesquisa, é possível constatar que 89,1% dos
dirigentes da CUT possuem mais de 35 anos, e deste percentual, 44% possuem 50 anos
ou mais, mostrando que a central possui baixa participação de jovens nos seus cargos de
direção, situação que se acentua mais ainda quando observamos apenas a Executiva
Nacional, apenas 8% dos dirigentes possuem até 35 anos.

No que diz respeito às secretarias de juventude, 77,8% dos secretários


estavam na faixa etária de menos de 35 anos, o que significa que 22,2% dos secretários
de juventude da CUT não se encontravam na faixa etária que a central utilizou para
caracterizar os “jovens”, fato que deve se alterar nos próximos anos dada a deliberação
da 14ª Plenária Nacional da entidade, que estabelece idade máxima de 35 anos no ato da
posse para que o dirigente assuma a secretaria de juventude tanto em âmbito nacional
quanto em âmbito estadual. Mesmo com a faixa etária que abrange a juventude tendo sido
ampliada pela CUT para até os 35 anos, salta aos olhos a baixa participação dos jovens
na direção dos ramos e estruturas da CUT.

Com relação as diferenças regionais destaca-se que enquanto nas regiões


Nordeste, Norte, Sul e Centro-Oeste do país, os percentuais de dirigentes com menos de
35 anos eram 14,3%, 12,7%, 13,3%, e 8,2%, respectivamente, na região sudeste, região
que sempre concentrou um grande número de sindicatos e que foram, em grande medida,
importantes para a construção da CUT nacional, a exemplo do sindicato dos metalúrgicos
do ABC, apenas 2,5% dos dirigentes possuem menos de 35 anos. Portanto, na região que
concentra os maiores e mais importantes sindicatos cutistas, o percentual de jovens na
direção é bem menor do que nas outras regiões do país, um indicador da dificuldade de
renovação nos cargos de direção dos sindicatos dessa região.

Além disso, dentre os dirigentes entrevistados somente 11% afirmaram que a


sua entidade de base estabelece cotas para jovens e 21% que elas possuem coletivos de
jovens. Quando perguntados com a relação as maiores dificuldades em implementar ações
especificas voltadas para a juventude 42% dos dirigentes afirmam que o principal
problema é a falta de interesse dos jovens em participar do sindicato, 35% assinalam que
a falta de interesse é da entidade ou da diretoria do sindicato, 16,8% que a juventude não
é representativa no interior da categoria, 9,1% que os jovens priorizam os estudos e por
isso não possuem tempo para participar dos sindicatos e 6,8% que o jovem é despreparado
para exercer representação no interior da central. Sobre essas questões a Secretaria da
Juventude pondera:

Uma avaliação recorrente é a de falta de interesse dos jovens em participar dos


sindicatos, de apatia sobre a política, o que cria dificuldades para que as
entidades sindicais se aproximem dos jovens e tragam--no para dentro da vida
sindical. Mas como temos visto, em especial no último ano, ainda que se possa
apontar divergências de avaliações sobre formas de organização e pauta dos
movimentos, a juventude está mobilizada e participando ativamente da vida
política do país. Sendo assim, cabe uma avaliação profunda sobre o porquê da
juventude não estar se organizando nas entidades sindicais, considerando ainda
que o contingente de jovens no mercado de trabalho é significativo, o porquê
de não se ver atraída a participar desse espaço de atuação política, deve ser
fruto de uma avaliação que inclua diversos aspectos, para além do comumente
dito - que é uma questão de linguagem para atrair os jovens -, talvez, seja mais
uma questão de políticas, e não de linguagem. (Secretaria da Juventude, 2014,
p.14)

As mobilizações as quais a Secretaria de Juventude está se referindo são as


do ano de 2013, que começaram em São Paulo motivadas pelo aumento das passagens de
ônibus e rapidamente tomaram o Brasil, organizadas pela juventude através das redes
sociais. Braga e Santana (2015) observam que diante das manifestações de junho de 2013,
nas quais os jovens deram a tônica, os sindicatos não contavam entre as forças motoras,
inclusive com uma greve geral tendo sido convocada pelas redes sociais sem que eles
protagonizassem a convocação, quando os sindicatos apareceram, no dia nacional de
lutas, pareciam estar fora do contexto e em descompasso qualitativo e quantitativo com
as manifestações.

A baixa inserção da juventude nos cargos de direção no interior da central


demonstra que há resistência por parte dos sindicalistas mais antigos, resistência que
transparece nos argumentos de que o jovem não possui interesse em participar dos
sindicatos, prioriza os estudos e por isso não participa, ou ainda de que os jovens estão
despreparados para exercer representação. Esses argumentos, somados a questão de que
a juventude em sua maioria não estaria formalmente sindicalizada, contribuindo
financeiramente com os sindicatos, podem ser as razões que fazem com que as questões
pertinentes a juventude permaneçam sendo questões menores, vide a dificuldade em ter
Secretarias da Juventude com jovens nos cargos de dirigentes, e também a tímida adoção
da política de cotas para jovens.

Conclusão:

As juventudes brasileiras são muitas, frutos de muitas clivagens


multicombinadas, e faz-se necessário incorporar essas diferenciações, ao mesmo tempo
em que é difícil representar um contingente tão heterogêneo. As publicações da Secretaria
de Juventude se restringem em discutir trabalho e mercado de trabalho, que embora sejam
questões fundamentais para o movimento sindical e para a juventude brasileira em geral,
poderiam ser ampliadas, visto que a central se propõe a um nível de abrangência e de
representação que visa ultrapassar a esfera das categorias profissionais.

Dessa forma, embora a CUT tenha tratado os problemas referentes à


juventude em seus congressos e plenárias ao longo da sua história, eles não adquirem
centralidade nas práticas sindicais da central, se tratando muito mais de uma emulação
discursiva do que de fato uma ideia de juventude e de política pública para a juventude
que seja definida e que tenha lugar e resultados nas ações da central.

Nesse sentido, cabe discutir quais as respostas que os sindicatos têm dado
para a juventude, que tem protagonizado diversos movimentos sociais, seja discutindo
questões raciais (vide marcha do empoderamento crespo que ocorreu em Salvador em
20154 e as marchas do orgulho crespo que ocorreram em São Paulo5), questões de gênero
(protestos contra a cultura do estupro que ocorreram em diversas cidades em 20166), ou
as jornadas de junho de 2013. De forma que a juventude não se encontra desmobilizada
ou fora do cenário político nacional. Braga e Santana (2015) observam que é necessário

4
Para mais informações: <[Link]
crespo-reune-cerca-de-tres-mil-pessoas-em-salvador/> último acesso: 29 ago. 2016.
5
Para mais informações: <[Link]
[Link]> último acesso: 29 ago. 2016.
6
Para mais informações: <[Link]
do-estupro> último acesso: 29 ago. 2016.
pensar o lugar tradicional dos sindicatos como canal de organização frente a uma
reconfiguração das classes sociais no Brasil contemporâneo.

O argumento de Braga e Santana (2015) é de que o “precariado” - juventude


trabalhadora em condições precárias de vida e de trabalho, despojada de garantias
trabalhistas e submetida a rendimentos incertos - está carente de uma identidade coletiva
e os sindicatos representariam os privilégios dos que possuem alguma proteção social
garantida pelas formas tradicionais de negociação coletiva, o que explicaria a hostilidade
frente aos movimentos trabalhistas tradicionais (BRAGA, SANTANA, 2015). Entretanto,
não acreditamos que essa hostilidade da juventude trabalhadora em relação aos sindicatos
seja apenas uma expressão do ressentimento dos despossuídos, ela pode estar carregada
de sentidos, que podem perpassar a própria decepção com as formas tradicionais, a ideia
de burocratização e engessamento oriunda da própria estrutura sindical, a relação do
movimento sindical com o estado, ou ainda ao sindicalismo de cúpula praticado pelas
lideranças.

Por mais que o discurso da CUT tenha sido renovado a partir da Secretaria de
Juventude, as práticas não são muito inovadoras, a Secretaria de Juventude trilha o mesmo
caminho que o restante da central já traçou, o de pautar construção de políticas públicas
e ações coletivas, mesmo que o escopo destas tenha sido ampliado. Falta uma renovação
no que diz respeito as práticas, além de que caberia a central tentar se aproximar dos
debates de questões mais caras as juventudes, como questões de raça e de gênero. Dessa
forma, a análise dos documentos evidencia que a Secretaria de Juventude da CUT, assim
como demonstra o histórico da própria central nas últimas décadas, tem buscado se
relacionar muito mais com o estado do que com a sociedade civil e os movimentos sociais.

Referências:
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sindicalismo de confronto ao sindicalismo negocial. Caderno CRH, v.28, n.75. Salvador:
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BRAGA, Ruy. SANTANA, Marco Aurélio. Dinâmicas da ação coletiva no brasil
contemporâneo: encontros e desencontros entre o sindicalismo e a juventude
trabalhadora. Caderno CRH, v.28, n.75. Salvador: UFBA, 2015, p. 529-544.
BOITO JR, Armando. Estado, política e classes sociais. São Paulo: UNESP, 2007.
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SOARES, J. L. As centrais sindicais e o fenômeno do transformismo no governo Lula.
Revista Sociedade e Estado, v. 28, n.3, 2013.
Joint-ventures, deslocamentos e ações coletivas

Sabrina de Oliveira Moura Dias


Email: sabrinamouradias@[Link]

Introdução

A terceirização é um tipo de organização da produção e do trabalho que tem se expandido no


Brasil nos últimos anos (CARELLI, 2007; POCHMANN, 2008; DAU, 2009). No entanto, também
não foi incomum nos últimos anos a retomada de atividades previamente terceirizadas por grandes
empresas em diferentes setores produtivos. Parte destas desterceirizações resultou tanto de razões
operacionais e estratégicas das empresas como também emergiram como resultado da crítica social
em torno da precarização do trabalho que estas práticas de maneira recorrente ensejavam e da atuação
de instituições e entidades que combateram/combatem ativamente estas práticas.
Neste texto buscaremos compreender a estratégia da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN)
- grande empresa do ramo siderúrgico e minerário – de substituir contratos com prestadoras de
serviços por contratos com joint ventures. Embora reproduzam condições de trabalho e formas de
contratação similares àquelas produzidas pela terceirização, a utilização de joint ventures com ex-
prestadoras de serviços para contratação de trabalhadores foi divulgada pela empresa como
“alternativa à terceirização”. A criação das joint ventures CGPAR em Congonhas (mineração) e CBSI
em Volta Redonda (complexo siderúrgico) contribuiu para a criação de novos enquadramentos
sindicais de trabalhadores anteriormente vinculados aos sindicatos das categorias preponderantes. A
pesquisa para a elaboração do texto contou com entrevistas de trabalhadores e sindicalistas, bem como
com a consulta à boletins sindicais e jornais locais.
A criação de joint-ventures em “substituição” à terceirização

Por volta de 2011 entrevistas com altos quadros da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta
Redonda apontavam a criação de uma nova empresa como saída às críticas, ações e investigações,
bem como à perda de eficiência que a terceirização vinha ocasionando na usina. A nova empresa seria
uma joint venture controlada pela CSN e por uma de suas prestadoras de serviços – a antiga Cikel. A
nova empresa ficaria responsável pela incorporação de grandes contratos de prestação de serviços
dentro da Usina Presidente Vargas (UPV). No início do ano seguinte surgiu a Companhia Brasileira
de Serviços de Infraestrutura (CBSI), empreendimento com 50% de capital da CSN e 50% de capital
da CKLS Serviços Ltda.
A joint venture incorporou na mesma época os contratos da CKLS, predominantemente
ligados às obras de construção civil, embalagem e manutenção de estruturas metálicas da usina, e da
Verzani Sandrini, especializada em limpeza industrial. É possível que já neste mesmo ano o novo
empreendimento tenha se tornado a empresa com maior número de funcionários dentro da UPV. Afora
estes grandes contratos, a empresa também incorporou outros serviços subcontratados às terceirizadas
Enesa, Rip e Citrino. Assim como em outras mudanças e deslocamentos previamente ocorridos na
produção, pouca ou nenhuma explicação foi oferecida a sindicalistas e trabalhadores sobre as causas
e os objetivos por detrás do surgimento da CBSI. Algumas notícias atribuíam a criação da CBSI ao
desejo da CSN de incorporar e gerir os contratos de manutenção industrial. Uma matéria online
publicada pela imprensa local, o Jornal Aqui, mencionou a abertura da nova empreiteira da CSN e o
ambiente de dúvidas e incertezas acerca de seu surgimento:

Esta semana, o aQui recebeu uma denúncia curiosa. A de que a CSN e a Cikel
(uma antiga fornecedora de embalagens de madeira para a Usina Presidente
Vargas) teriam se unido para criar uma terceira empresa para assumir os
serviços de manutenção na UPV. A nova empresa, apelidada pela Rádio Peão
de Companhia Benjamin Steinbruch (CBS) se chama na verdade Companhia
Brasileira de Serviços de Infraestrutura (CBSI). O problema é que mal foi
criada e ela já começa a provocar dor de cabeça no presidente do Sindicato da
Construção Civil, Dejair Martins. Há pelo menos dois bons motivos pra isso:
primeiro, porque o sindicalista precisou se impor para impedir que as
pendências trabalhistas da Cikel fossem deixadas de lado, prejudicando quase
mil operários que trabalhavam para ela. E segundo, porque a Cikel teria se
recusado a pagar a PPR (Programa de Participação dos Resultados) de 2011,
alegando que não teria dinheiro em caixa. Em entrevista ao aQui na quinta, 2,
Dejair confirmou que a CSN e a Cikel se uniram e criaram a CBSI e que esta
nova empresa passou a existir, de fato, no dia 1º de janeiro de 2012. “Eu não
sei por que eles montaram esta nova empresa. A Cikel tinha um contrato com
a CSN de mais de 10 anos, não sei se vinha pedindo algum aditivo para
continuar com a manutenção das obras na usina. O que eu sei é que elas se
uniram e criaram a nova empresa. Dois diretores da CSN e dois da Cikel
respondem pela CBSI”, contou Dejair, acrescentando que as pendências
trabalhistas até o dia 31 de dezembro de 2011 ficaram a cargo da Cikel – o que
incluía o pagamento da PPR de 2011, que deveria ter sido paga até 31 de janeiro
de 2012. (Jornal aqui de 31 de janeiro de 2012)1

Em 2011 antes mesmo da criação da CBSI, um dos entrevistados afirmou que o objetivo da
futura empresa era ampliar o controle da CSN sobre os serviços prestados dentro da UPV. Estima-se
que no início de suas operações, a nova empresa tenha incorporado parte dos ex-funcionários da
italiana Comau, responsável por contratos de manutenção industrial. De acordo com as entrevistas, a
CBSI era responsável além das atividades de limpeza, embalagem e construção de estruturas
metálicas, pela manutenção eletromecânica na recém-inaugurada fábrica de aços longos. O
desempenho de atividades de manutenção na fábrica de cimentos funcionaria como uma prévia da
incorporação pela joint venture de outros contratos deste tipo da UPV. Os objetivos da empresa
segundo relatório da CSN eram “a prestação de serviços para controladas, coligadas, controladora
e outras empresas terceiras, podendo explorar atividades relacionadas à recuperação e manutenção
de máquinas e equipamentos industriais, manutenção civil, limpeza industrial, preparação logística
de produtos, entre outros” (CSN, Demonstrações Financeiras 2011). Entre as atividades
incorporadas pela empresa estava a manutenção de máquinas e equipamentos. As funções de
manutenção de máquinas equipamentos são aquelas que oferecem maior risco de fragmentação da
base do Sindicato dos Metalúrgicos o Sul Fluminense (Sindmetal-SF). Isto porque a despeito da
ampliação da terceirização da manutenção de equipamentos nos anos 1990 e 2000, a representação
destes trabalhadores e funções permaneceu majoritariamente a cargo dos metalúrgicos. Como nos

1
Disponível em: [Link] (Acesso em 04/011/2014).
casos de terceirização dos serviços, os prejuízos causados por estes novos enquadramentos já são de
longa data conhecidos: fragmentação da base sindical das categorias preponderantes e convenções e
acordos coletivos em geral inferiores àqueles conquistados junto à categoria preponderante (DRUCK,
2007; SANTOS, 2009; MARCELINO, 2013).
A nova empresa “nasceu” suscitando polêmicas e disputas. Em princípio, criou divergências
em função de agregar trabalhadores das ex-subcontratadas Cikel e Verzani Sandrini, com atividades
respectivamente enquadradas nas categorias da construção civil e do asseio e conservação. Pouco
antes de se tornar CBSI, a Cikel, que estava enquadrada no Sindicato da Construção Civil, alterou
seu nome para CKLS e, nesta época, assinou acordos coletivos com o Sindicato do Asseio e
Conservação. No entanto, ao integrar a joint venture CBSI, os trabalhadores da CKLS voltaram a ser
enquadrados no Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil do Sul Fluminense ou
Sintraconsmonpes2. A estratégia de criar uma joint venture para prestação de serviços nos complexos
da CSN não se restringe a unidade de Volta Redonda (RJ). Em Congonhas (MG), a CSN criou em
2012 a CGPAR Construção Pesada S.A., fruto de sua associação com a contratada GPA Construção
Pesada e Mineração Ltda, para incorporar contratos de logística e de manutenção na mineradora de
Casa de Pedra3. Com a criação da joint venture trabalhadores de manutenção da mina contratados
pela CGPAR passaram a ser enquadrados na categoria da construção civil em lugar da mineração. A
empresa foi criada na mesma época em que tramitava na justiça uma Ação Civil Pública contra a
terceirização ilegal na mineradora da CSN. Segundo uma procuradora do trabalho de Belo Horizonte,
em uma das tentativas de acordo com a CSN, a empresa apresentou a joint venture CGPAR como
alternativa à terceirização, ou ainda, como uma forma de “primarização” da força de trabalho da mina.
A empresa, com um capital de 50% da CSN incorporaria justamente as funções terceirizadas que
haviam sido definidas como atividades-fim pelo MPT e pela justiça do trabalho de Minas Gerais.
Segundo a procuradora entrevistada, as motivações para a criação da nova empresa pela CSN
teriam sido: evitar as greves realizadas pelos funcionários da GPA e “regularizar” a situação dos
terceirizados, afastando o risco de condenação pela justiça por terceirização ilegal. Em sua visão, no
entanto, a nova empresa não representaria mais do que um “aperfeiçoamento” da terceirização, já que
os trabalhadores continuariam em uma condição de subcategoria, sem acessar os benefícios e direitos
dos funcionários CSN. Assim como no caso da CBSI, os funcionários da CGPAR não desfrutam dos

2
Sindicato dos Trabalhadores da Conservação Civil, Montagem e Construção Pesada de Volta Redonda.
3
A empresa tem como principais atividades: “a prestação de serviços relacionados ao apoio à extração de minério de
ferro, terraplanagem, movimentação de terras e construção de barragens.”
direitos e benefícios conquistados pelas categorias preponderantes (respectivamente dos metalúrgicos
e dos mineradores).
Embora seja difícil determinar as razões que levaram a CSN a criar a CBSI, alguns
entrevistados especularam sobre as causas da montagem da nova empresa:

(…) Então a CBSI é uma empresa que visa lucro, mas no entanto ela tem uma
margem pequena deste lucro em razão de que, de que ele a medida que ele pega
o contrato diretamente ele já tem um valor específico (…) Mas hoje eu acredito
que a margem de lucro dela não seja tão grande (...) Porque quando o sócio
principal dela [a CSN] montou ela pensando em não gastar. É meio
contraditório isso né. Mas na minha opinião a ideia do Benjamin quando
associou a esta empresa [CKLS] foi para que a CSN não gastasse tanto, gastasse
menos. Então no entanto, essa empresa não vai trabalhar com uma margem de
lucro tão elevada quanto outras certamente ao ganhar um contrato estariam
trabalhando com aquela margem de lucro maior. (L)

Se do prisma das relações de trabalho estabelecidas a CBSI não se distanciava de outros tipos
de terceirização, do ponto de vista da relação entre as empresas é difícil classificar a joint venture
como terceirização, ou ao menos como uma terceirização no sentido clássico. Na CBSI está ausente
parte do conflito de interesses inerente à relação entre contratada e contratante. A prestadora de
serviços não possui autonomia para barganhar os contratos, pois a CSN é ao mesmo tempo contratante
e contratada. A CBSI beneficiaria a CSN ao reduzir os custos com os serviços, e também ao permitir
o aumento do controle sobre os contratos e sobre os funcionários contratados. Nas palavras de outro
trabalhador:

(…) Na verdade é o seguinte, a visão que o pessoal tem é a seguinte, é se eu


tirar a Sankyu e botar a CBSI, a CSN vai estar pagando um dinheiro que é
muito alto com manutenção. E ali gasta muito, você vê muita gente
trabalhando. Só que quando a CSN pagar este valor, vai cair na mão do mesmo
dono, o Benjamin vai tirar do bolso esquerdo e vai botar no direito. Por que ele
vai ganhar com a CBSI, então a CSN, antes era o quê? Era só siderurgia. A
CSN hoje é siderurgia, a CSN é logística, a CSN é energia, a CSN é cimento,
a CSN é (...) mineração. Então o cara entendeu que só produzindo aço ele não
ganha dinheiro, porque a receita dele caiu muito. Fazendo manutenção tem uma
receita muito grande. Então ele falou assim: eu vou botar os caras [da
manutenção] no aços longos que é um equipamento novo, não vai demandar
muita capacitação, pessoal tanto da parte gerencial quanto da parte do chão de
fabrica vai adquirindo bagagem. E depois a gente tira a Sankyu e bota a CBSI
ali. Então o dinheiro que eu vou pagar para a Sankyu que vai para outro dono,
eu vou pagar para a CBSI que vai para o meu bolso (…) (L)

Desde 2012, a CBSI e a CGPAR integram a “CSN serviços” e representam a diversificação


das atividades econômicas da empresa. Se num plano mais imediato as prestadoras de serviços visam
atender às necessidades da CSN em seus complexos produtivos, as novas joint ventures também
podem oferecer serviços em outras plantas industriais. Com a CBSI a empresa cria modalidades
mistas de integração e desintegração vertical: funcionários 50% CSN, sem as garantias e direitos dos
funcionários CSN. Ela contribui para dificultar a definição das identidades nas relações de trabalho,
e para obliterar os limites entre ser e não ser um funcionário CSN.

Reestruturação dos quadros, deslocamentos e novas dinâmicos em antigos sindicatos

O maior controle exercido pela CSN sobre os contratos e sobre os funcionários da CGPAR e
da CBSI não foi suficiente para evitar greves e paralisações destes trabalhadores nos anos
subsequentes à criação das joint ventures. Na UPV, os trabalhadores da CBSI fizeram paralisações
nos anos de 2012 e de 2013. Em 2012, a causa da parada foi a decisão da empresa de negociar um
Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) separado com o Sintraconsmonpes depois que a entidade havia
conquistado um aumento salarial significativo4 na negociação com o sindicato patronal Sinduscon5
na Convenção Coletiva da categoria6. Embora tivesse inicialmente acatado a continuidade da
vinculação dos funcionários da CBSI à Convenção Coletiva da Construção Civil, tal como na época
da Cikel, a empresa recuou da decisão ao perceber que o Sinduscon ofereceria aumento salarial
superior àquele que ela estava disposta a pagar. No princípio da Campanha Salarial de 2012, o

4
De até 13%, frente aos 5,9% oferecidos posteriormente pela CBSI.
5
Sindicato das Indústrias da Construção do Sul Fluminense.
6
Disponível em [Link]
[Link]#axzz3SbnFuw5L (Acesso em 07/10/2013).
Sindicato da Construção Civil aventou a possibilidade de realizar um ACT separado com a CBSI.
Enquanto os sindicalistas enxergavam o ACT como a possibilidade de estabelecer vantagens
superiores àquelas firmadas pela CCT da Construção Civil, tendo em vista o tamanho da CBSI e a
sua vinculação à CSN, a nova empresa pretendia através deste acordo oferecer condições inferiores
àquelas firmadas na Convenção Coletiva da Construção Civil. De acordo com o sindicalista, além de
conseguir manter a CCT e o reajuste salarial da Construção Civil para os trabalhadores da CBSI, o
Sintraconsmonpes ainda conquistou para estes trabalhadores o enquadramento como categoria
diferenciada. Segundo o sindicalista a Cikel atuava primordialmente nas atividades de construção
civil, no entanto, a CBSI já tinha um número importante de funcionários alocados nas atividades de
estrutura. Isto possibilitou o enquadramento destes trabalhadores em categoria especial, e permitiu o
percebimento de salários superiores àqueles dos pedreiros da Construção Civil, embora inferiores
àqueles pagos à categoria da montagem7.
Em 2013 os funcionários da CBSI novamente paralisaram suas atividades, desta vez, por uma
semana. O objetivo da greve era pressionar a empresa pela elevação dos reajustes salariais e dos
benefícios dos trabalhadores8. Embora a greve tenha contado com a participação de funcionários de
diferentes empresas de toda a base do Sintraconsmonpes, a participação dos trabalhadores da CBSI
foi determinante para o desencadeamento do movimento paredista. Com cerca de 2.000 funcionários,
a CBSI concentra o maior conjunto de trabalhadores da base sindical do Sintraconsmonpes e
possivelmente o maior número de prestadores de serviços da UPV àquela época. Este dado é
particularmente relevante tendo em vista o perfil dos Sindicatos da Construção Civil como um todo,
marcado pela fragmentação dos trabalhadores em diversas pequenas e médias empresas. Neste
quadro, os efetivos da CBSI são “chamados” a exercer um papel de vanguarda dentro da empresa, e
no Sindicato da Construção Civil. O sindicalista da Construção Civil aponta o papel de destaque da
CBSI na greve da construção civil no Sul Fluminense em 2013:

(...) A gente sempre teve uma resistência na Cikel, ela sempre segurou o
acordo. Então os trabalhadores da Cikel sempre jogou o acordo para cima. Não

7
Por ser um setor onde há grande diversificação das atividades dos trabalhadores, o Sindicato da Construção Civil possui
quatro CCTs diferentes. As Convenções Coletivas do sindicato abrangem as categorias: da construção civil, da construção
pesada, da montagem industrial, do setor de mármore e granito. O setor de montagem industrial é aquele em que os
benefícios e direitos são superiores aos do resto da categoria.
8
Jornal Foco Regional de 4 de setembro de 2013. Disponível em:
[Link]
+greve&idnoticia=104293 (Acesso em 22/08/2013).
seria diferente com os trabalhadores da CBSI, entendeu. Então os
trabalhadores da CBSI, se não fosse a CBSI não teria greve, a verdade é essa.
Porque a gente não conseguiria parar as empresas, as empresas públicas lá
também se você não tivesse piquete. (...) Porque o que que acontece, a CSBI
tava com 2.000 trabalhadores. Então assim, na praça tinha uns 700/800, dos
quais mais de 50% era da CBSI. Se (...), digamos assim a CBSI não quer fazer
greve, como é que eu vou identificar esses trabalhadores na portaria para mim
fazer greve sem que haja um piquete, entendeu? Então quando a CBSI resolveu
fazer a greve, as outras vem a reboque. “Ah, tá todo mundo de greve, nós
vamos de greve.”

Entrevistadora: As outras empresas da construção civil?

Vieram juntas. Igual eu falei Reframon, Reframax, só não veio a Harsco, o


resto todo mundo veio.

O peso aglutinador da nova empresa na dinâmica do Sindicato da Construção Civil se fez


sentir de maneira importante durante o movimento de 2013. Os trabalhadores da CBSI agora são
capazes de reunir uma série de trabalhadores dispersos nos canteiros de obras civis, que o sindicato
dificilmente conseguiria engajar em um mesmo movimento. A greve demonstra também que novas
insatisfações podem emergir da nova condição de funcionários “50% CSN”:

(…) pelo fato de hoje ter uma empresa com um número grande de trabalhadores
e que tem a CSN como referência. Embora a CSN, se você pegar no setor
siderúrgico, a CSN é a que tem o menor salário, é a que paga menos. Mas ela
ainda assim é uma referência para os trabalhadores da região. Então se a
empresa principal ela tem uma parceria com uma outra empresa e esses
trabalhadores não têm nem de perto os mesmos benefícios da atividades
principal da empresa principal que é a CSN isso te dá uma angústia, né. Te dá
um desejo de transformar, de mudar, de peitar, de brigar. Então a gente usa isso
como um motivador também, não tenha dúvida. Isso é a nossa gasolina.
(Sindicalista do Sintraconsmonpes)
Assim como quando do processo mais intenso de terceirização dentro das empresas, a criação
das joint ventures CBSI e da CGPAR confunde as fronteiras identitárias dos trabalhadores e dificulta
a leitura e enquadramento dos novos empreendimentos pelos atores. Ao mesmo tempo em que a CSN
buscou classificar a emergência das empresas como resultado de um processo de primarização, os
atores se dividem entre considerá-las uma nova terceirização, ou uma desterceirização das atividades.
As estratégias das empresas perpassam um constante deslocamento das identidades e dos
pertencimentos: quando da intensificação da terceirização, há uma separação aguda entre o local onde
se desempenha o trabalho e o empregador; com a “suposta” desterceirização, no caso da CBSI, houve
uma retomada do controle dos efetivos pela CSN – agora simultaneamente contratante e contratada
– sem que isto se refletisse na conquista de garantias e direitos que caracterizam o estatuto dos
funcionários “diretos”. Talvez tenhamos que fazer agora uma diferenciação entre funcionários “100%
CSN”, e os outros.
Em Congonhas, de acordo com o site da Conlutas, os funcionários da CGPAR fizeram uma
greve espontânea em 2013 e uma paralisação ao final de 2014. Em 2013 a greve foi deflagrada em
função da demanda por melhores condições de trabalho, elevação dos benefícios e salários,
reconhecimento dos atestados médicos, fim do assédio moral das chefias, entre outros9. Em 2014, a
paralisação tinha por objetivo o reenquadramento destes funcionários na categoria preponderante dos
mineradores, no sindicato Metabase-Inconfidentes:

“Atualmente os trabalhadores da CGPAR são representados pelo Sitcop. A


reivindicação da categoria é ser representada pelo Metabase Inconfidentes,
entidade filiada à CSP-Conlutas e que representa os trabalhadores da CSN na
mineração. Apesar de a CGPAR exercer atividades ligadas à mineração, ela é
tida como prestadora de serviços para a CSN e seus funcionários são
representados pelo sindicato da construção pesada (Sintcop)”10.

Em Congonhas assim como em Volta Redonda a CSN, a partir das críticas à terceirização

9Disponível em: [Link] (Acesso


em 17/01/2015)
10 “Trabalhadores da CGPAR, terceirizada da CSN, realizam paralisação na mina Casa de Pedra”. Disponível em:
[Link]
pedra/) (Acesso em 18/01/2015)
buscou elaborar novas estratégias de contratação da força de trabalho que pudessem amenizar as
“falhas” da terceirização, ou da terceirização em sua faceta clássica. As joint ventures introduziram
novas incertezas nas condições de trabalho e de contratação dos trabalhadores, mas também lograram
produzir novas formas de luta que ora se opunham às perdas ocasionadas pela fragmentação da base
sindical (em Congonhas), ora reivindicavam melhores benefícios e salários tendo por base os
trabalhadores diretos da empresa. Neste sentido, elas produziram também novas dinâmicas no
sindicato da construção civil, ao concentrar e reunir um grande número de trabalhadores, antes
dispersos em diferentes empresas e sindicatos, em torno de um mesmo acordo coletivo. A abertura
das empresas Companhia Brasileira de Serviços de Infraestrutura (CBSI) e da CGPAR – Construção
Pesada S.A. com 50% de capital CSN inauguram a entrada da empresa no ramo dos serviços e
apontam para continuidades e rupturas nas formas de subcontratação por ela utilizadas.

Referências Bibliográficas

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Graça; FRANCO, Tânia (orgs.). A perda da razão social do trabalho: terceirização e precarização.
São Paulo: Boitempo, 2007.
DAU, Denise Motta. A expansão da terceirização no Brasil e estratégia da CUT de
enfrentamento à precarização do trabalho. In: DAU, Denise Motta; RODRIGUES, Iram Jácome;
CONCEIÇÃO, Jefferson José (orgs). Terceirização no Brasil: do discurso da inovação à precarização
do trabalho. São Paulo: Annablume, 2009.
DIAS, Sabrina de O. Moura. Quando a terceirização retrocede: resistências e desterceirização do
trabalho na CSN. 2015. 335 f. Tese (Mestrado em Sociologia e Antropologia) – Instituto de Filosofia
e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2015.
DIAS, Sabrina de O. Moura; OLIVEIRA, Ricardo Gonçalves. Novas e velhas práticas do mundo
do trabalho: desterceirização e flexibilização das relações de trabalho. Revista Pós Ciências Sociais,
v. 9, nº 18, 181-206, 2012.
DRUCK, Graça; FRANCO, Tânia. Terceirização e precarização: o binômio anti-social em
indústrias. In: DRUCK, Graça; FRANCO, Tânia (orgs.) A perda da razão social do trabalho:
terceirização e precarização. São Paulo: Boitempo, 2007.
MARCELINO, Paula R.. Trabalhadores terceirizados e luta sindical. 1ª ed. Curitiba, Ed Appris,
2013.
POCHMANN, Márcio. A superterceirização do trabalho. São Paulo: Ltr, 2008.
SANTOS, A. H. da S. Prefácio. In: DAU, D. M.; RODRIGUES, I. J.; CONCEIÇÃO, J. J. (orgs).
Terceirização no Brasil: do discurso da inovação à precarização do trabalho. São Paulo: Annablume,
2009.
A influência das manifestações de junho de 2013 nas lutas e greves de
trabalhadores sindicalizados de São Paulo (SP)

Mateus Alves de Mendonça


[Link]ça@[Link]

Orientadora: Dra. Paula Regina Pereira Marcelino

Resumo:

Esse trabalha apresenta os resultados finais do projeto de pesquisa "A influência das
manifestações de junho de 2013 nas lutas e greves de trabalhadores sindicalizados de São
Paulo (SP)". Esse projeto se propôs a analisar as possíveis relações entre as manifestações
ocorridas em junho de 2013 e as mobilizações dos trabalhadores sindicalizados de São
Paulo no período subsequente. Para isso, foi realizada uma revisão bibliográfica sobre
essas manifestações e sobre o sindicalismo brasileiro e também uma pesquisa de campo
qualitativa em três importantes sindicatos paulistas, ligados a centrais sindicais diferentes,
sobre suas mobilizações: o Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, o
Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e o Sindicato dos Metroviários de São Paulo.
Trata-se, portanto, de um estudo na área da sociologia do sindicalismo que buscou,
através de um acontecimento histórico, investigar a relação entre a conjuntura política e
ideológica e a mobilização sindical. Com isso, pretende-se discutir a pertinência das teses
que afirmam que o sindicalismo, em alguma medida, se recupera da crise vivida na década
de 1990. Além disso, apesar de não ser um estudo sobre as manifestações de junho, se
propôs a também contribuir para o debate sobre esses acontecimentos ao buscar investigar
um dos possíveis efeitos sociais desse fenômeno e ao fazer uma sistematização dos dados,
pesquisas e teses sobre o assunto publicados até então.
A INFLUÊNCIA DA PARTICIPAÇÃO SINDICAL NOS CRITÉRIOS DE
JUSTIÇA DISTRIBUTIVA DE TRABALHADORES DO COMÉRCIO

Tiago Magaldi

Mestrando em Ciências Sociais – PPCIS/UERJ

tmgranato@[Link]

Introdução

Este trabalho procura condensar os principais resultados a que chegamos com a


pesquisa que subsidiou nossa dissertação de mestrado1. Nela procuramos compreender
os efeitos que a participação sindical teve sobre a percepção de desigualdades e a
adoção de critérios de justiça distributiva dentre trabalhadores do comércio então
neófitos na militância. Para tanto, recorremos a autores recentes que abordaram ambas
as dimensões de forma relativamente independente das considerações normativas típicas
da abordagem da teoria política sobre a questão da justiça social. A pesquisa empírica
nos permitiu delinear em largas pinceladas a visão de mundo geral que orienta as
percepções de sindicalistas e não sindicalistas, bem como vislumbrar suas nuances
dentre trabalhadores de diferentes setores do comércio varejista.

Linhas gerais da pesquisa

Nossa proposta atual teve origem no debate acerca da chamada “nova classe
média”, tema de nossa monografia de graduação. Quem eram esses indivíduos,
sociologicamente falando? Quais visões de mundo adotavam e quais rejeitavam? A
disputa pela primazia explicativa evidenciou as grandes diferenças entre os intelectuais

1
Defendida em 20 de abril do corrente ano, com o título: “Comerciários, sindicato e desigualdades
sociais: contribuição para uma sociologia dos sentimentos de justiça”.
que se apresentaram com maior visibilidade, e isso tanto entre economistas (como
Marcelo Neri (2011), Márcio Pochmann (2012, 2014), Waldir Quadros (2013)) quanto
entre sociólogos e cientistas políticos (como André Salata e Celi Scalon (2012), Jessé
Souza (2012), Bolívar Lamounier e Amaury Souza (2010), André Singer (2012), dentre
muitos outros).

A leitura do artigo de Scalon e Oliveira (2012) sobre as percepções de jovens de


classe média e baixa sobre desigualdade assentou definitivamente a direção de nossos
esforços de pesquisa. Nele, os autores procuravam compreender particularmente como
esses jovens explicavam a existência de vários tipos de desigualdade; delineavam as
suas “teorias” sobre o assunto. Pensamos então que a dimensão da explicação e
justificação de uma sociedade tão desigual como a brasileira oferecia um interessante
recorte do que poderia ser considerado como “opinião política”. Tratava-se de uma
dimensão difusa, mas ainda assim bastante concreta em termos de relevância social. A
leitura, em seguida, da coletânea organizada também por Scalon (2004) com artigos
dedicados a analisar os resultados de um survey sobre percepção de desigualdades
assentou definitivamente essa impressão. Tomamos como nossa principal referência o
artigo de Adalberto Cardoso presente nesta coletânea, cujo argumento tomou forma
definitiva na segunda parte do livro publicado pelo autor em 2010. Trata-se de uma
pesquisa sobre as percepções de desigualdade e os critérios de justiça distributiva
adotados pelos indivíduos. Partindo da famosa formulação de Marx sobre justiça
distributiva2, Cardoso trabalha com dois critérios distributivos, um baseado nas
“capacidades” e outro baseado nas “necessidades” das pessoas. A escolha normativa por
trás de cada um desses critérios dar-se-ia por referência, respectivamente, ao mercado
ou ao Estado como mecanismos distributivos.

Referenciar no mercado e no Estado os critérios de justiça significa dizer que


adotam resultados distributivos completamente diferentes. A escolha pelo critério das
“capacidades” significa afirmar que deve haver recompensa diferencial segundo a

2
“De cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades!” (Marx, 2012)
capacidade de cada indivíduo em sua atuação no mercado. Trata-se de um critério não
igualitário porque, sendo o mercado um mecanismo indiferente às desigualdades, a
retribuição de renda por esse critério engendraria uma desigualdade estrutural. É por
este motivo que, para Marx, na sociedade comunista as capacidades deveriam ser um
critério para a alocação de indivíduos na produção, e não de recompensa pelo trabalho.
Do lado das “necessidades” também há variação. Mas o critério distributivo das
necessidades é equitativo porque pretende colocar todos num mesmo patamar de não-
necessidade. Portanto, as desigualdades variariam, mas o objetivo do critério, o
resultado de sua aplicação, não.

A “classe”, cuja opinião política gostaríamos de compreender, no entanto,


continuava um problema. Seguindo as melhores intervenções que analisamos, havíamos
já abandonado a “nova classe média” como expressão de qualquer relevância
sociológica. Foi quando tivemos contato com o Sindicato dos Empregados no Comércio
do Rio de Janeiro (SEC-RJ). Na mesma época, o sindicato terminava de passar por um
conturbado processo eleitoral, que havia culminado com a derrota da situação, a família
Mata-Roma. A nova gestão parecia bastante aberta ao diálogo. Já havíamos então lido
as curtas obras, destinadas ao debate público sobre a chamada “nova classe média”, de
Pochmann (2012, 2014), nas quais havíamos constatado que boa parte da ascensão
social ocorrida durante os governos petistas havia ocorrido via emprego formal neste
setor. Decidimos, então, tomar a categoria dos comerciários como parte de nosso objeto,
procurando compreender como o sindicato da categoria influenciava os trabalhadores
que representavam nas dimensões que privilegiamos: a percepção de desigualdades e a
adoção de critérios de justiça distributiva.

Metodologia

A análise do tema foi realizada pelos autores brasileiros que tomamos como
referência quase exclusivamente através de técnicas quantitativas de pesquisa. A
pequena bibliografia que foi produzida sobre o tema parecia depender excessivamente
da utilização teórica de “grupos sociais” que só existem estatisticamente. Grupos como
“povo brasileiro” (Reis, 2004; Scalon, 2004), ou mesmo “40% mais pobres” (Cardoso,
2004; 2010), construídos para fins de análise de dados, embora auxiliem no
desenvolvimento do argumento em geral, não apenas são pouco sensíveis a construções
ideológicas mais complexas, como ignoram a distribuição desigual de construções
simbólicas no espaço social. Realizam, assim, uma homogeneização artificial do
contexto social específico dos indivíduos que compõem os grupos sobre os quais
constroem suas análises. Dentre o “povo brasileiro” encontramos de trabalhadores
extremamente precarizados a capitalistas milionários; dentre os “40% mais pobres”
encontramos desde trabalhadores do comércio de luxo sindicalizados a indivíduos em
situação de indigência.

Por isso, além da observação não participante nas manifestações e cotidiano do


sindicato, durante o ano de 2016 realizamos entrevistas semi-estruturadas com um
conjunto de trabalhadores do comércio, cuja análise, em nossa dissertação, foi realizada
em dois eixos: i) dirigentes sindicais e trabalhadores não sindicalizados; ii) três
diferentes “tipos” de trabalho no comércio varejista: ii.1) lojistas de shopping; ii.2)
trabalhadores de supermercados. No total, foram realizadas dezesseis entrevistas.

Resultado da análise das entrevistas

Pouco depois de havermos entregado nossa dissertação de mestrado para a


análise da banca foi publicada a já famosa pesquisa da Fundação Perseu Abramo
intitulada “Percepções e valores políticos na periferia de São Paulo” (2017). Em suas
conclusões, a pesquisa afirma a existência de um “liberalismo popular” na região
pesquisada, que toma o Estado como “ineficaz e incompetente”, sendo o “sucesso”
individual percebido como fruto exclusivo da força de vontade dos indivíduos. Embora
sigamos uma linha de argumentação que procura complexificar certo “individualismo”
que os trabalhadores do comércio apresentam como sua visão de mundo particular, é
forçoso admitir que a nossa é uma argumentação semelhante, o que talvez seja um sinal
do “espírito intelectual” do momento histórico no qual vivemos: quando em situações
de defensiva dos movimentos que defendem os interesses dos trabalhadores, os
intelectuais se apressam a culpar os próprios trabalhadores...3

Mesmo cientes desse risco, acreditamos que o resultado a que chegamos não
pode ser atribuído exclusivamente à necessidade histórica de encontrar bodes
expiatórios para as derrotas. De fato, é claramente saliente nas entrevistas a importância
atribuída à ação individual pelo conjunto dos entrevistados. Vejamos a questão mais de
perto.

Em busca de um sistema geral de pensamento: a importância do indivíduo.

Em primeiro lugar é preciso destacar do conjunto das entrevistas a importância


da ação individual. Com uma única exceção, todos os entrevistados fizeram questão de
ressaltar a importância da vontade individual como justo determinante não apenas para a
obtenção de renda através do trabalho, mas também de qualificação, prestígio
profissional, e bens em geral. O indivíduo e sua capacidade de ação e “superação” é o
elemento central do “sistema de pensamento” que podemos derivar das entrevistas.
A existência de poucas oportunidades para a obtenção de renda e bens via
trabalho seria o principal obstáculo imposto ao indivíduo para o seu “sucesso” na vida.
Para o conjunto dos entrevistados, sindicalistas ou não, se houvessem mais
oportunidades para os indivíduos demonstrarem suas capacidades, certamente a
sociedade brasileira seria menos desigual.
A centralidade do “indivíduo capaz” produz também uma base de identificação
geral com os outros indivíduos. Isso porque alinha todos a um mesmo “ponto de
partida”: se há desigualdades sociais, isso não ocorre, a rigor, por conta de diferenças
“essenciais” entre os indivíduos (de cor, “raça”, “sangue”, etc.). Esse alinhamento
produziria também uma solidariedade àqueles que se encontram impossibilitados de
realizar suas capacidades de uma forma satisfatória. É aqui que a questão da
remuneração das necessidades encontra seu encaixe na “filosofia social” da maioria dos

3
Agradeço aos professores Paulo Fontes e José Ricardo Ramalho pela acurada observação histórico-
crítica deste ponto na ocasião de nossa defesa de dissertação.
entrevistados: deveriam ter suas necessidades levadas em conta em sua remuneração na
exata medida em que permitiriam ao indivíduo livrar-se das obrigações mais básicas da
reprodução de sua própria vida. As respostas “variam” de alimentação a moradia, nunca
chegando, por exemplo, ao lazer, ou mesmo ao financiamento de qualificação
educacional, saúde, consumo, filhos, etc.
Assim colocada a questão das causas da desigualdade, parece que os
entrevistados minimizam a existência de múltiplos interesses dentro daquilo que
pensam ser a sociedade brasileira. Estendendo o raciocínio, seria como se os
mecanismos de retribuição de bens fossem “neutros” em relação ao interesse particular
de indivíduos e grupos (o que não significa afirmar que estes não existam), a crítica
devendo ser realizada apenas em relação aos “gargalos” existentes em seu
funcionamento. Liberando esses gargalos, isto é, oferecendo mais oportunidades a
todos, o “sistema” funcionaria corretamente, premiando indivíduos esforçados e
qualificados com ascensão social, e punindo aqueles preguiçosos ou simplesmente sem
desejo de ascensão no trabalho. Este, aliás, é o fundamento “sociológico” da negação da
separação política entre “esquerda” e “direita”.
Uma vez presentes as condições de exercício da atividade individual, isto é, em
um emprego determinado, uma posição que permite ação, em um “trabalho”, sobre
quais critérios deveria estar assentada a remuneração dos indivíduos? Ambos os grupos
(sindicalistas e não-sindicalistas) afirmam majoritariamente serem as “capacidades” o
critério normativo mais importante para a determinação da remuneração. Mas é possível
ainda analisar a expressão, de modo a nos aproximarmos mais das respostas empíricas
que obtivemos. Para tanto, decompomos o termo em outros, surgidos nas entrevistas.
São eles: 1) produtividade; 2) esforço; 3) qualificação; e 4) propriedade. Embora na fala
dos entrevistados apareçam sempre entrelaçados, é possível distinguir essas quatro
acepções empíricas diferentes daquilo que chamamos “capacidade”.

A importância subordinada das necessidades


O foco nas capacidades como critérios mais legítimos de remuneração não
reduzem a importância das necessidades a zero. Em geral, os entrevistados reconhecem
a importância de se atentar para elas para definir remuneração. No entanto, em geral
restringe-se essa importância à determinação do que consideram o mínimo para a
sobrevivência. Temos abaixo um trecho bastante cristalino desse pensamento, com o
sindicalista Henrique4:

Entrevistado: - Por exemplo, eu acho... É, vou falar sobre mim, deixa eu falar
sobre mim. Um salário fixo mais comissão, o salário fixo não é um salário
fixo que vai te manter, é o salário que vai te deixar numa zona de conforto
para que você possa atingir mais para viver bem. Viver bem é o que? Olha
ter dinheiro pra pagar um plano de saúde que a empresa não dá. Ter
dinheiro pra você poder levar seu filho no MC Donald ou qualquer outro
lugar, entendeu?
Entrevistador: - E abaixo disso seria? Você só de manter assim, comer,
morar...
Entrevistado: - No limite. No limite. No limite. Entendeu? Então é tipo assim,
a pessoa vai ganhar mil e quinhentos reais, mas a pessoa pode chegar a
ganhar quatro mil, depende dela.

É como se os entrevistados lutassem para manter esse critério “sob controle”, de


modo a não invadir o terreno dos critérios “verdadeiramente legítimos”, fundamentados
na agência do indivíduo.

As diferenças no pensamento sobre a justiça entre os trabalhadores: consequências


da experiência sindical

Existiria alguma diferença entre sindicalistas e não-sindicalistas dentro do


modelo teórico que construímos? Acreditamos que sim. Embora ambas as dimensões
apresentem variações, a principal diferença entre comerciários que possuem atividade
sindical e aqueles que não possuem não está nos critérios de justiça que adotam, mas na
sensação de injustiça que sentem.
O critério das necessidades é sem dúvida mais relevante dentre os sindicalistas.
Se a remuneração geral do trabalho se desse em função apenas de critérios de

4
Como de praxe, trata-se de um nome fictício, para garantir o anonimato do entrevistado.
necessidade, ambos os grupos afirmariam a injustiça da distribuição; o grupo dos
dirigentes, no entanto, diferentemente dos não sindicalizados, tendem a perceber um
rebaixamento injusto do que é considerado como “mínimo necessário”. Parte do que
declaram ser sua luta é justamente aumentar a importância do piso recebido. Mas, a
nosso ver, o fazem para “restabelecer” a justiça da distribuição diferenciada pelas
capacidades, e não para superá-la.
As entrevistas nos permitiram destacar três razões para essa diferença. Em
primeiro lugar, a incorporação de uma visão sobre a própria existência da “categoria”
dos comerciários. Em regra, os sindicalistas entrevistados afirmam só ter passado a se
sentir parte de uma categoria com sua entrada para o sindicato. Em segundo lugar, a
participação nas negociações com os representantes dos patrões. Naquele momento os
entrevistados sentem que, de fato, o interesse dos empregadores não está em produzir a
maneira mais justa de remunerar seus trabalhadores, mas sim em remunerá-los o menos
possível. Isso aumenta a indignação entre os sindicalistas na medida em que a dimensão
dos interesses estruturais – isto é, não individuais e, portanto, ilegítimos a seus olhos –
se sobrepõe à da justiça. Por fim, há a participação política no Partido Comunista do
Brasil (PCdoB), que se inclina discursivamente para a valorização das necessidades
como critério último de justiça distributiva5.

A influência do trabalho nos diferentes ramos do comércio

Além da distinção sindicalistas versus não sindicalistas, procuramos observar se


a atividade de trabalho em diferentes ramos do comércio está correlacionada com
determinadas maneiras de pensar a justiça de sua remuneração. Separamos os
entrevistados em dois “ramos” – supermercados e lojistas de vestuário –, e procuramos
analisar suas respostas.
Em primeiro lugar, temos os trabalhadores dos supermercados. Extensas
jornadas e atividades agressivas ao corpo somam-se aos baixos salários para compor o

5
Pelo menos foi isso que pudemos observar empiricamente nas entrevistas que realizamos com
militantes partidários atuando como dirigentes do SEC-RJ.
calvário desse trabalhador. A conclusão que tiramos das entrevistas é que o sentimento
de justiça desses trabalhadores é fortemente determinado por um componente ético
baseado especificamente no esforço individual. Para eles, a justiça da remuneração está
ligada a um princípio fundamental, que estabelece a obrigatoriedade da recompensa
àquele que se esforça. Não se trata exatamente daquilo que Souza (2012) qualificou
como “ética do trabalho duro”, característica de seus “batalhadores”, porque não
percebemos entre essas entrevistadas uma percepção normativa positiva do trabalho,
pelo contrário. A elevação do esforço como ética parece ser antes uma maneira de dar
um sentido legítimo ao duro cotidiano de trabalho que têm de enfrentar.
Em segundo lugar, temos os trabalhadores de lojas de vestuário. As entrevistas
revelaram que estes trabalhadores foram os que aderiram de maneira mais cristalina às
capacidades individuais como critérios justos de remuneração, mas sob um viés
específico: o da produtividade. Todos concordaram que esse critério era justo para
determinar a remuneração. Mas isso não parece ocorrer apenas por uma simples
“inculcação” desse critério na sua consciência. Ele se objetiva muito concretamente na
forma de salário e, principalmente, prestígio profissional. Dentre todos os entrevistados,
esses trabalhadores foram os únicos que se mostraram orgulhosos de seu trabalho não
apenas pelo dinheiro que conseguiram, mas também por motivos estritamente
vinculados à função que exerciam. Nesse ponto, nossa pesquisa confirma o encontrado
por Trópia (1994).

Considerações finais

Analisamos as entrevistas realizadas sob dois pontos de vista. O primeiro, e


principal, tratou de observar semelhanças e diferenças entre sindicalistas e não
sindicalizados quanto aos critérios de justiça aplicados à remuneração dos
trabalhadores. O segundo procurou, subsidiariamente, observar se e como essas duas
dimensões variaram conforme o ramo de comércio no qual o trabalhador estava
inserido, buscando refinar a análise das percepções e critérios gerais delineados na
primeira seção.
Chegamos à conclusão de que há sim uma forte diferença entre sindicalistas e
não sindicalistas, mas ela está centrada antes no que estamos chamando de sentimento
de injustiça do que nos critérios de justiça: os sindicalistas percebem a ordem social
como mais injusta que seus colegas não sindicalizados, mas isso acontece porque esta
ordem que percebem aplica pouco os critérios de justiça meritocráticos, e não porque
aplica critérios errados. Além disso, embora compartilhem uma forte crença na
remuneração por mérito pessoal, apontamos também uma maior presença das
necessidades dentre a visão de mundo dos sindicalistas, sendo o seu não
reconhecimento pelos empresários uma das fontes de suas críticas. Por outro lado, essa
influência da vida sindical não teve o condão de desfazer as características ideológicas
meritocráticas mais profundas.

A análise dos entrevistados por ramo do comércio varejista confirma essa


conclusão, e permite ir além. Ao final de nossa pesquisa, essa segunda “socialização”
surgiu como extremamente importante. Um dos argumentos de Trópia (1994) para
explicar o “conservadorismo” do Sindicato dos Empregados do Comércio de São Paulo
(SEC-SP) foi a atuação da entidade para selecionar os associados, admitindo em geral
lojistas, e dificultando a associação de trabalhadores de supermercado. Como esses
últimos seriam os mais explorados e precarizados em suas relações de trabalho, seriam
também, para a autora, os mais predispostos a radicalizar as pautas políticas. Há
claramente no argumento da autora o elemento de “naturalização da consciência anti-
exploratória pelos explorados”, típico da tradição marxista6. O que encontramos em
nossas entrevistas não parece permitir essa afirmação. O fato de trabalharem sob
péssimas condições, recebendo baixos salários, não impede posições bastante
resignadas. O elemento decisivo parece ser antes a interação entre essa posição e o
estabelecimento de novas maneiras de ver a própria posição – o que, a nosso ver, ocorre
quando esses trabalhadores passam pela instituição sindical. Mas isso não significa
dizer esses trabalhadores eram indiferentes, ou que possuíam uma “falsa consciência”;

6
Criticada em detalhe no primeiro capítulo de nossa dissertação – a partir do destaque da problemática
da exploração dentro do marxismo realizada por Erik Olin Wright (2015) em recente livro –, para a qual
remetemos o leitor.
antes, que apresentavam visões de mundo estreitamente relacionadas com os horizontes
de recompensas existentes em seus respectivos trabalhos.

Nesse sentido, a fórmula de composição salarial “piso fixo + comissão”, típica


do trabalho no comércio lojista, reflete, externamente ao trabalhador, suas convicções
mais profundas de justiça. Por isso parece ser universalmente aceita e defendida com
vigor – à exceção dos trabalhadores longamente socializados por critérios de
necessidade via vida político-partidária. Mesmo no caso dos trabalhadores de
supermercado, que possuem salário fixo, se porventura fosse oferecida a esses
trabalhadores essa forma de assalariamento, acreditamos que a aceitariam de bom
grado: diferenciar os “esforçados” dos “preguiçosos” é algo levado muito a sério:
significa dar sentido concreto à visão de mundo que legitima seu imenso esforço
cotidiano.

Referências bibliográficas

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A INEXISTÊNCIA DE AUTONOMIA DA VONTADE COLETIVA FRENTE À
GLOBALIZAÇÃO ECONÔMICA E O NEOLIBERALISMO1

Rubens Soares Vellinho2


PPGPS da UCPEL
E-mail [Link]@[Link].

INTRODUÇÃO

A partir da reestruturação produtiva nos anos 1980 aliada ao receituário neoliberal e a


globalização econômica nos anos 1990, se intensifica o debate sobre a necessidade de
“modernizar” as relações de trabalho e a legislação trabalhista no Brasil. O modelo estático e
inflexível de regulação trabalhista traduzido na CLT e na Constituição Federal é confrontado
com a proposta de um modelo flexível mediante a preponderância da negociação coletiva entre
sindicatos e entidades empresariais sobre a legislação trabalhista. A ideia central deste modelo
flexível é afastar ou mitigar a intervenção do Estado na regulação dos direitos trabalhistas,
deixando que os sindicatos negociem com as entidades empresariais de forma diversa ao que
está previsto em lei. O debate na ordem do dia é discutir a possibilidade de prevalecer o
negociado sobre o legislado, como forma de dar uma resposta mais rápida às necessidades do
mercado. O lema é garantir da competitividade das empresas e a empregabilidade, mesmo que
isso signifique subverter o caráter protetivo dos direitos trabalhistas que de certa maneira seriam
de ordem pública, irrenunciáveis e indisponíveis.

1
O presente artigo tem por base um artigo apresentado no XIII Encontro Luso-Brasileiro de juristas do trabalho e
outro publicado na Revista da ABET, v. 15, n. 2, Julho a Dezembro de 2016.
2
Mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Pelotas (2016) e doutorando em Políticas Sociais, Programa
de Pós Graduação em Políticas Sociais da Universidade Católica de Pelotas.
Desde então, os ataques aos direitos trabalhistas não cessam, conforme se verifica nos Projetos
de Lei 5.483/20013, 1.463/20114, 4.193/20125, 8.294/146, 4.962/20167 e 6.787/20168 e decisões
judiciais por parte do STF9 e TST10. No mesmo sentido são os documentos da CNI, “As 101
Propostas”11 e da Fundação Ulysses Guimarães vinculada ao PMDB “Uma ponte para o
futuro”12. Segundo alguns juristas e sociólogos, todas essas hipóteses objetivam precarizar
direitos trabalhistas mediante negociação coletiva, assegurando a prevalência do negociado
sobre o legislado. Porque para alguns a possiblidade de prevalecer o negociado sobre o legislado
permite a adaptação dos direitos trabalhistas a conjuntura socioeconômica, através das
denominadas cláusulas de ajuste de setor. Contudo para outros, qualquer hipótese que permita
prevalecer o negociado sobre o legislado será sinônimo de precarização ou desregulamentação
dos direitos trabalhistas. Portanto o debate sobre o que significa “modernizar” a legislação
trabalhista se reflete numa luta político-cognitiva pela definição do real, em que as partes
envolvidas: governo, campo jurídico, sindicatos de trabalhadores e entidades empresariais
disputam suas posições em defesa da regulação pública das relações de trabalho ou na defesa
da regulação privada.
A metodologia empregada lançou mão de pesquisa bibliográfica da literatura jurídica
e sociológica relacionada aos estudos do mundo do trabalho e de pesquisa documental de
declarações e manifestações dos mais diversos grupos de interesse a respeito do tema no

3
Altera o art. 618 da CLT permitindo a flexibilização de direitos trabalhistas mediante negociação coletiva.
4
Institui o Código do Trabalho, prevendo a adoção da prevalência do negociado sobre o legislado.
5
Altera o art. 611 da CLT permitindo a flexibilização de direitos trabalhistas mediante negociação coletiva.
6
Acrescenta parágrafo único ao art. 444 da CLT assegurando a livre estipulação das relações contratuais de
trabalho, desde que “I – o empregado for portador de diploma de nível superior e perceber salário mensal igual ou
superior a duas vezes o limite máximo do salário-de-contribuição da previdência social; ou II – o empregado,
independentemente do nível de escolaridade, perceber salário mensal igual ou superior a três vezes o limite
máximo do salário-de-contribuição da previdência social”.
7
Altera o art. 618 da CLT. Disponível em: <[Link]
proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2081782>. Acesso em: 12 abr. 2016.
8
Altera diversos dispositivos da CLT como o trabalho em tempo parcial e em destaque o artigo 611. Disponível
em:
<[Link]
>. Acesso em: 22 mar. 2017.
9
Repercussão geral no Recurso Extraordinário, Agravo nº 647.651/SP, reconhecendo a necessidade de negociação
coletiva no caso de demissão coletiva. Disponível em:
<[Link]
e%20o%[Link]>. Acesso em: 16 set. 2016.
10
Acórdão da Seção Especializada em Dissídios Coletivos do TST no ED-RODC-30900-12.2009.5.15.0000, em
04/09/2009, determinando a necessidade de negociação coletiva no caso de demissão coletiva.
11
Discute e apresenta sugestões de como diminuir ou eliminar a rigidez da legislação trabalhista, o excesso de
burocracia e de obrigações e a insegurança jurídica.
12
Propõe a prevalência das convenções coletivas sobre a lei, salvo quanto aos direitos básicos.
seminário13 referente ao PL 5.483/2001 e na audiência pública14 referente ao PL 4.193/2012 na
Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados.
Também foram consideradas doze entrevistas semiestruturadas com dirigentes sindicais
vinculados a CUT e a FS, advogados trabalhistas e um juiz do trabalho, das quais foi feita
análise de conteúdo, procurando identificar termos recorrentes nas falas dos atores sociais que
permitissem constatar pontos de divergência de convergência.

AS RELAÇÕES DE TRABALHO NO CONTEXTO ATUAL: estabilidade social vs.


flexibilidade social e a crise da sociedade salarial

No Brasil os direitos trabalhistas, em regra, são regulados em lei, dando-se pouco


espaço à negociação coletiva e por isso as relações de classe são juridificadas e judicializadas
(CARDOSO e LAGE, 2007). O que é reforçado por Noronha (2000) ao afirmar que o Estado
assume a regulação das relações de trabalho e de suas conflitualidades. Nesta perspectiva, as
relações de trabalho e suas decorrências em caso de conflito são resolvidas perante a Justiça do
Trabalho. A negociação coletiva como a forma fundamental de relação entre trabalhadores e
empresários é colocada em segunda ordem, mais como uma regulação residual das relações de
trabalho do que a regulação mais condizente com a realidade de cada setor produtivo.
Delgado (2008) sustenta que o patamar mínimo civilizatório ampara as relações de trabalho no
Brasil através de três grupos de normas trabalhistas heterônomas: 1) as normas constitucionais
em geral, com as ressalvas expressas na própria Constituição15; 2) nas normas de tratados e
convenções internacionais vigorantes no plano interno brasileiro16 e 3) nas normas legais
infraconstitucionais que asseguram patamares de cidadania ao indivíduo que labora17. Duarte
(In RAMÍREZ; SALVADOR, 2012, p. 37-48) reforça a ideia de que a regulação estatal das
relações de trabalho procura sanar a assimetria entre a relação de trabalho e a produção.

13
Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados. Evento: Seminário n°:
001328/01 Data: 13/11/01. Disponível em: <[Link]
legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/ctasp/documentos/notas-taquigraficas/[Link]>. Acesso
em: 05 mar. 2016.
14
Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados. Evento: Audiência
Pública. Reunião nº: 2.140/2013. Data: 3/12/2013. Disponível em:
<[Link] Acesso em:
11 mar. 2015.
15
Art. 7º, incisos VI, XIII e XIV.
16
Referidas pelo art. 5º, § 2º, CF/88 expressando um patamar civilizatório no próprio mundo ocidental em que se
integra o Brasil.
17
Relativos à saúde e segurança no trabalho, normas relativas à base salarial mínima, normas de identificação
profissional, dispositivos antidiscriminatórios, etc.
Segundo Reis (2010) este patamar mínimo é anteparo contra qualquer tipo de retrocesso social
como a precarização ou desregulamentação das relações de trabalho, Dessa forma, o limite da
subordinação do trabalhador ao seu empregador (jus variandi) está no direito de resistência (jus
resistae) porque ambos têm direitos e obrigações recíprocos (VIANA, 1996).
Não se pode esquecer que nos primeiros momentos do século XX o que vincula o
indivíduo ao trabalho é o salário recebido pelo serviço prestado como resposta a fratura social
do século XIX. É função do Estado impedir que os trabalhadores se sintam vulneráveis e os
sindicatos se sintam fragilizados, compatibilizando a promoção do desenvolvimento econômico
do país e a competividade as empresas e o valor social do trabalho e a livre iniciativa. Por isso,
Supiot (2006) observa que a OIT, em 1998, na “Declaration on Fundamental Principles and
Rights at Work”, sustentou a necessária convivência de um controle limitado do mercado
financeiro e da assistência social pelo Estado:
[...] as normas internacionais do trabalho a partir do ponto de vista da concorrência
econômica” com a seguinte declaração “Nos países em vias de desenvolvimento, os
empregadores devem entender que uma dieta saudável ajuda a construir uma força de
trabalho mais forte e isto, a longo prazo, fará sua empresa ou país mais competitivo,
portanto, mais atrativo para os investidores.

Para Maurício e Gabriela Delgado (2015) a “vida econômica, social e institucional”


(Ibid,p. 53) está condicionada a aquele status constitucional ao assegurar a prevalência da
dignidade da pessoa humana. Ao determinar a coesão social (CASTEL, 1998) a nova relação
salarial é decorrência do processo de industrialização em face de um novo perfil de trabalhador
o qual passa a ter garantida “uma renda mínima que assegura apenas a reprodução do
trabalhador e de sua família” (Ibid, p. 419). Ou seja, a sociedade salarial, como resultado do
processo de industrialização e consequente crescimento econômico faz com que o Welfare state
se desenvolva e regule socialmente as relações de trabalho, garantindo direitos e cidadania aos
trabalhadores. Por isso para Bihr (2010) o Estado moderno reproduz o capitalismo na medida
em que gerencia as relações de trabalho, mesmo quando incentiva o diálogo social para dirimir
alguma contenda que coloque em risco o compromisso fordista18. Esse compromisso, segundo
o autor, pode ser concebido como uma forma de garantir ao proletariado alguns direitos
trabalhistas e sociais, além de permitir a burguesia “o direito de negociar as condições de sua
dominação” (Ibid, p. 39).

18
Composto pelo Estado, entidades empresariais e entidades sindicais, este compromisso firmado garantiu aos
trabalhadores uma rede de direitos sociais.
Todavia na segunda metade do século XX, o economicismo vira ordem do dia com a
ideia de menos Estado e a economia e o individualismo ganham espaço de preponderância e
conforme Bourdieu (1998) o Estado se afasta do seu papel de assistir aos mais necessitados em
favor “dos privilégios materiais ou simbólicos” (Ibid, p. 13). Nessa luta simbólica, a visão de
mundo de um grupo é imposta a outro grupo, conforme seu interesse de dominação, tornando
como verdade aquilo que o grupo compreende como legítimo, correto, justo e necessário. Será
o discurso institucional reconhecido e acatado por aqueles que o legitimam, por isso Bauman
(1999) sustenta que a globalização “é o destino irremediável do mundo, um processo
irreversível; é também um processo que nos afeta a todos na mesma medida e da mesma
maneira” (Ibid, p. 7). Inclusive Ramírez (In RAMÍREZ; SALVADOR, 2012, p. 15-19) sustenta
que a globalização econômica acarreta “profundas tensões no mundo laboral” (Ibid, p. 16)
fazendo com que o receituário neoliberal “coisifique” as relações de trabalho.
Com a incerteza e a instabilidade decorrentes da flexibilização e/ou da desregulamentação das
relações de trabalho, instala-se uma situação de vulnerabilidade social na qual a desesperança,
para usarmos um termo de Sennett (2010), promove a corrosão do caráter e com a redução do
Estado. O Estado “como depositário de todos os valores universais associados à ideia de
público” (Ibid, p. 145) vai mirrando até o seu limite mínimo de atuação. Nesse processo de
aviltamento das relações sociais, resultado do ideário neoliberal e da globalização, o princípio
de solidariedade é mitigado “parece conduzir à destruição das condições do coletivo e, por
consequência, ao enfraquecimento da capacidade de agir contra o neoliberalismo (DARDOT;
LAVAL, 2016, p. 9).
A política de austeridade surge como única salvação contra a crise econômica via nova
política monetarista e a adoção de medidas amargas ditadas pelo FMI e o Banco Mundial
demarcam a financeirização da economia dano mais poder ao mercado e colocando em xeque
o Estado Social. Para estes autores o neoliberalismo é muito mais uma racionalidade do que
uma ideologia que molda a “conduta dos governados” (Ibid, p. 17).
No Brasil verificamos algumas alterações tópicas feitas na CLT, como forma de
adequá-la as novas formas de trabalho necessárias19. O que se testemunha é uma forte
mobilização de entidades empresariais no sentido de superar o que elas entendem como
hermetismo da legislação trabalhista e sindical brasileira. A falta de unidade coletiva resulta na

19
Por exemplo: trabalho em regime de tempo parcial (artigo 58-A) e a Lei Complementar 150/2015 que estendeu
ao trabalhador doméstico todos os direitos trabalhistas previstos no artigo 7º da Constituição.
“ambiguidade paralisante dos novos dispositivos” (Ibid, p. 300) empresariais que afetam a
atuação sindical. O retrocesso social é nutrido pelo medo do desemprego e fator de docilidade
dos trabalhadores que juntamente com a falta de atuação sindical participam “em certa medida
daquilo que se poderia descrever como sua própria exploração” (BOLTANSKI; CHIAPELLO,
2009, p. 284).
As empresas buscam mercados com menores custos de produção a fim de aumentarem
a lucratividade, por isso, Robortella (1994) e Romita (2002) defendem que o Direito do
Trabalho de hoje não guarda qualquer relação com aquele existente nos primeiros 50 anos do
século XX. Os autores defendem a maior flexibilidade dos direitos trabalhistas e a possibilidade
de empregadores e trabalhadores, sem a participação do Estado, estabelecerem relações de
trabalho de forma diversa ao estratificado em lei. Ou seja, a saída está na viragem ontológica
do Direito do Trabalho, não mais importando a defesa do trabalhador (caráter protetivo da
legislação trabalhista) e sim do emprego.
A CUT, uma das principais centrais sindicais do país20, já experimentou a
possibilidade de dar novo enfoque a negociação coletiva, permitindo a adoção da flexibilização
de direitos dos trabalhadores com a experiência das câmaras setoriais nos anos 1990. Essa
estratégia retrata a postura adotada pela CUT no seu 3º Congresso Nacional de construir um
projeto social e econômico possível para os trabalhadores, o que Jácome Rodrigues (1995)
denomina como “cooperação conflitiva”. A OIT tem demonstrado preocupação sistemática
com a defesa dos direitos e princípios fundamentais no trabalho e com a liberdade e autonomia
sindical (KAUFMANN, 2005). Destaque-se a Convenção 154 que defende a negociação
coletiva de trabalho, livre e voluntária como objetivo impedir a submissão do trabalhador ao
seu empregador, além de humanizar a relação capital e trabalho.
Portanto, a luta sindical deve ser revigorada, considerando-se o cenário em que estão
presentes novas questões, novas exigências e expectativas nas relações de trabalho. Mesmo não
havendo unanimidade e unidade entre as lideranças sindicais, resistir à voracidade dos
interesses econômicos e do mercado é muito importante para garantir ao trabalhador sua
dignidade e não submissão aos interesses dos empresários.

AS PERCEPÇÕES DOS ATORES SOCIAIS SOBRE AS PROPOSTAS QUE


FORTALECEM A NEGOCIAÇÃO COLETIVA DE TRABALHO

20
Disponível em: < [Link] Acesso em: 16 jan.
2017.
A metodologia empregada até aqui, conta com a análise das notas taquigráficas
referentes às falas dos diversos atores sociais (sindicalistas, empresários, juristas, dentre outros)
presentes no seminário sobre o PL 5.483/200121 e na audiência pública sobre o PL 4.193/201222
ambos realizados na CTASP da Câmara dos Deputados. Além do conteúdo dessas notas
taquigráficas, também serão aqui consideradas as falas de 12 entrevistas semiestruturadas
realizadas com dirigentes sindicais, advogados trabalhistas e um desembargador do trabalho.
Trata-se de procedimento qualitativo (GOBO, 2005; PIRES, 2010) por meio da técnica de
entrevista demandou o esforço de conferir sentido sociológico aos posicionamentos nos
depoimentos prestados tendo em vista a ênfase dada pelos entrevistados sobre determinados
pontos abordados.
Esta análise permitirá verificar a existência de posições antagônicas em função das
suas visões de mundo, de como concebem o fenômeno social sobre o qual estão debruçados e
dentro do próprio campo sindical. Ou seja, como os entrevistados ou os declarantes enxergam
as relações de trabalho no Brasil, as formas de regulação e o espaço reservado ao papel da
negociação coletiva. Por isso foi adotado o método analítico de abordagem como forma de
separar o tema em partes para melhor analisar e delinear uma nova forma de olhar o objeto
pesquisado (RICHARDSON, 2010; BARDIN, 2011).
Verificaram-se divergências dentro dos campos jurídico e sindical em contraponto a
posição unitária do campo empresarial. Os empresários entendem que a prevalência do
negociado sobre o legislado dá segurança jurídica as relações de trabalho porque respeita a
autonomia da vontade das partes envolvidas na negociação. Da mesma forma, os empresários
e parte do campo jurídico enxergam o modelo hermético de regulação das relações de trabalho,
como um modelo inadequado ao contexto socioeconômico. Em contrapartida, o campo sindical
defende que a segurança jurídica nas relações de trabalho está garantida pela regulação estatal
e pelo caráter protetivo dos direitos trabalhistas. O campo sindical defende a importância da
negociação coletiva desde que ela não contrarie a lei trabalhista, mas alguns dirigentes sindicais
vinculados à CUT defendem a possiblidade de flexibilização de direitos trabalhistas com as
denominadas cláusulas de ajuste de setor nos em casos conjunturais. Mas há unanimidade do

21
Requerimento 83/2001 CTASP encaminhado pela Deputada Federal Vanessa Grazziotin (PCdoB/AM).
22
Requerimento 4193/2012 CTASP encaminhado pelo Deputado Federal Roberto Santiago PSD/SP.
campo sindical de que num cenário de recessão econômica e de austeridade ditada pelo
receituário neoliberal não há como se expressar com liberdade a autonomia da vontade coletiva.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Portanto, as mudanças ocorridas nas relações de trabalho resultantes da intensificação


da reestruturação produtiva, do processo de globalização econômica e do projeto neoliberal
colocaram os trabalhadores em condições vulneráveis e de insegurança. Mesmo que haja a
necessidade de alguns ajustes na legislação trabalhista e de fortalecer a negociação coletiva
entre sindicato de trabalhadores e entidades empresariais, as adaptações devem respeitar ao
patamar mínimo de direitos.
Se o neoliberalismo e a globalização econômica vieram para ficar, a forma de combater
os excessos e evitar retrocessos depende da intervenção do Estado na ordem econômica e na
garantia constitucional dos direitos trabalhistas e sociais. Somente assim será possível aos
trabalhadores expressarem coletivamente sua autonomia da vontade ainda que dentro dos
limites protetivos assegurados pela regulação estatal. Caso contrário, a regulação pública ficará
como a única forma de assegurar aos trabalhadores da sanha dos interesses empresariais. Não
há espaço para retrocessos sociais que se traduzam em precarização ou desregulamentação das
relações de trabalho, mesmo que isso signifique pouco espaço institucional a negociação
coletiva.

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OS GOVERNOS DO PT E O MOVIMENTO SINDICAL:

Apaziguamento ou aceleração da dinâmica das greves no Brasil?

Anderson Martins Silva

mestrando no Programa de Pós-Graduação em


Serviço Social – UFJF, bolsista CAPES. E-
mail: [Link]@[Link].

Resumo

O artigo em questão, tem como objetivo apresentar os primeiros apontamentos obtidos a partir
da interlocução com os autores de referência, acerca das características fundamentais do
movimento sindical a nível mundial, e, em particular, o brasileiro, durante a quadra histórica
que se inicia a partir dos anos 1970 do século XX. O artigo está organizado em cinco itens,
quais sejam, Introdução, onde apresentamos de maneira breve a pesquisa da qual faz parte o
presente artigo; Nos limites da sociabilidade burguesa, onde colocamos em evidência os limites
apontados por I. Mészáros para as organizações dos trabalhadores na quadra histórica referida
acima; Os sindicatos e a crise estrutural do capital, onde procuramos perceber as relações entre
a crise, a conformação dos sindicatos e sua atuação em geral; Os governos do PT:
apaziguamento ou aceleração da dinâmica das greves Brasil? Seção na qual buscamos
apresentar os resultados parciais a que chegamos no estágio em que nos encontramos na análise
dos balanços das greves produzidos pelo DIEESE e, por fim, À guisa de conclusão, onde
explicitamos as conexões entre o debate apresentado e a nossa hipótese de trabalho atual.

Palavras-chave: Movimento grevista, Sindicatos, Crise estrutural, Partido dos Trabalhadores.


1. INTRODUÇÃO

O presente artigo tem sua origem na pesquisa intitulada Sindicalismo em Tempos de


Crise: uma análise do movimento grevista brasileiro durante os governos do Partido dos
Trabalhadores (PT), em desenvolvimento no âmbito do Programa de Pós-graduação em
Serviço Social – Mestrado da Universidade Federal de Juiz de Fora, com o apoio e
financiamento da CAPES-CNPQ. Em tal pesquisa, partimos da seguinte questão: qual foi o
perfil do movimento grevista brasileiro durante os governos do Partido dos Trabalhadores?
Adotamos como hipótese de trabalho que, o movimento grevista da classe trabalhadora
brasileira durante os governos do PT caracterizou-se, por um lado, pela intensificação das
greves, o que possibilitou a um número expressivo de categorias a obtenção de aumentos acima
da inflação durante a maior parte do período, por outro lado, apesar de apresentar elementos
germinais de ruptura com as direções conciliadoras da Central Única dos Trabalhadores (CUT)
e do PT exemplificados pela fundação da Conlutas, da Intersindical, da Central dos
Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (TROPIA et al, 2013), pela rebelião das bases
sindicais contra as direções sindicais historicamente estabelecidas protagonizadas pelos
trabalhadores nas greves do PAC, dos estaleiros de Niterói (LIMA e MATIAS, 2016) , de Suape
(DE OLIVEIRA e DA SILVA, 2015), na greve dos garis no Rio de Janeiro em 2014, se
aprofunda a perspectiva defensiva-corporativa-estatal das centrais sindicais, por meio da
conformação de um “sindicalismo negocial de estado”, marcado pela conciliação de classes e
pela incapacidade de proposição de um novo horizonte societário (ANTUNES e SILVA, 2015).
Com o objetivo de verificar a validade de nossa hipótese de trabalho, estruturamos a
pesquisa em torno de três procedimentos: 1) Interlocução teórica direta com a produção de
autores que abordam a questão sindical em geral e, em específico a brasileira, durante a quadra
histórica que tem como característica a crise estrutural do capital; 2) Análise dos balanços das
greves produzidos pelo DIEESE (DIEESE, 2005a; 2006; 2008a; 2009a; 2012a; 2012b; 2013a;
2015) e dos balanços das negociações dos reajustes salariais produzidos pelo mesmo instituto;
3) Análise do documento Síntese de Indicadores Sociais: Uma Análise das Condições de Vida
da População Brasileira (2015) produzido pelo IBGE.
Neste artigo, traremos à tona os primeiros apontamentos obtidos, a partir da interlocução
com os autores de referência, acerca das características fundamentais do movimento sindical a
nível mundial, e em particular o brasileiro durante a quadra histórica que se inicia a partir dos
anos 1970 do século XX, além de apresentarmos os resultados parciais a que chegamos no
estágio em que nos encontramos de nossa análise dos Balanços das Greves do DIEESE.

2. NOS LIMITES DA SOCIABILIDADE BURGUESA

Como aponta José Paulo Netto (2001), a partir de meados dos anos 1970 chegava ao
fim o fenômeno conhecido como boom do pós guerra, e com ele a era do welfare state, assim
entramos em uma quadra histórica marcada por uma crise estrutural do capital (MÉSZÁROS,
2011), que evidencia a aproximação do modo de produção capitalista dos limites inerentes a
dinâmica do capital e coloca na ordem do dia a necessidade de uma ofensiva socialista, porém,
a classe trabalhadora na contramão da exigência histórica, tem em suas mãos organizações
defensivas forjadas a partir das exigências históricas do momento anterior, nas palavras de
Mészáros (2011, p. 79)

[...] a atualidade histórica da ofensiva socialista, sob a nova fase histórica da crise
estrutural do capital[...]” afirma-se como 1. Crescente dificuldade e, por fim,
impossibilidade de obter ganhos defensivos [...] por meio das instituições defensivas
existentes (e, em consequência, o fim do consenso político, trazendo com isso uma
notória postura mais agressiva das forças dominantes do capital vis-à-vis ao trabalho).
2. A pressão objetiva pela reestruturação radical das instituições de luta socialistas
existentes, para ser capaz de ir ao encontro do novo desafio histórico, numa base
organizacional que se evidencie adequada à necessidade crescente de uma estratégia
ofensiva.

Como aponta Mészáros (2011, p. 79), o que está em jogo é “[...] a constituição de uma
estrutura organizativa capaz não só de negar a ordem dominante [...]”, mas também, “[...]
simultaneamente, de exercer as funções vitais positivas de controle, na nova forma de
autoatividade e autogestão[...]”. Em tal contexto, de acordo com Mészáros (2011, p. 75), “[...]
não somente os riscos estão aumentando e as confrontações se aprofundando [...]”, mas “[...]
também as possibilidades para um resultado positivo estão postas numa nova perspectiva
histórica. ”, pois “[...] os riscos estão crescendo e tornando-se potencialmente mais explosivos;
o repositório de compromissos, que formalmente tem servido tão bem as forças do ‘consenso
político’, está cada vez mais vazio [...]”, levando a que certos caminhos sejam bloqueados
enquanto outros são abertos, o que, frente a ofensiva do capital sedento pela recomposição de
sua taxa de lucro as custas do trabalho, demanda dos movimentos sociais da classe trabalhadora,
incluídos aqui os sindicatos, a criação de novas estratégias para a luta contra o capital. Deste
modo, “A transição para o socialismo em escala global, visualizada por Marx, adquiriu uma
atualidade histórica nova e mais urgente, em vista da intensidade e da severidade da crise. ”
(MÉSZÁROS, 2011, p. 75-76).

3. OS SINDICATOS E A CRISE ESTRUTURAL DO CAPITAL

De acordo com nossos autores (ANTUNES e SILVA, 2015; ALVES, 2010; MATTOS,
2007; NETTO, 2001), ao fim da década de 1980, dada a necessidade do capital de buscar
mecanismos para combater sua crise estrutural e a consequente queda da taxa de lucros, já
despontavam as principais tendências econômicas e ideológicas que condicionariam a
passagem da ação sindical no Brasil de um sindicalismo de classe para o sindicalismo cidadão
dos anos mais recentes (COIMBRA, 2006), do ponto de vista econômico tivemos o
aprofundamento da reestruturação produtiva em escala mundial e a emergência do capital
financeiro como poder hegemônico, processo que se expressa no campo ideológico e político
por meio do neoliberalismo. Como nos informam os autores (ANTUNES e SILVA, 2015, p.
516; MATTOS, 2015), do ponto de vista das condições de trabalho, podemos considerar como
marca do período que se inicia a partir dos anos 1970 no mundo e 1990 no Brasil o avanço da
“Informalidade, flexibilização e terceirização” que “passam a ser imperativos empresariais”
(ANTUNES e SILVA, 2015, p. 515-516). Segundo Antunes (2002), tal movimento do capital,
como não poderia deixar de ser, teve um forte impacto sobre o mundo do trabalho, tendo
implicações diretas para os organismos representativos da classe trabalhadora. Nesse sentido,
qual tem sido os efeitos das mudanças citadas acima sobre a classe trabalhadora e os sindicatos?
Como apontam nossos autores (ANTUNES e ALVES, 2004), as mudanças apontadas
acima na dinâmica do modo de produção capitalista afetaram diretamente a classe trabalhadora,
dotando-a de uma nova morfologia do trabalho, tal mudança caracteriza-se pelo crescimento
das exigências de qualificação das trabalhadoras e trabalhadores, degradação do trabalho,
aumento da intensidade e extensão das jornadas de trabalho, aprofundando o padrão já
característico da superexploração do trabalho no país (MARINI, 2005; LUCE, 2012),
ampliação da utilização de trabalho infantil e do trabalho análogo a escravidão, ampliação do
emprego de mulheres nos mesmos cargos que os homens, porém com salários mais baixos,
avanço da terceirização, do trabalho informal, dos contratos de trabalho temporários e em tempo
parcial, além da presença constante de um crescente desemprego estrutural. Em suma, ocorreu
uma diversificação da classe trabalhadora acompanhada da corrosão do trabalho pelas velhas
novas estratégias de exploração capitalista potencializadas pelas condições de crise estrutural
do capital em que se inserem. Tais transformações podem ser percebidas claramente quando
observamos a expansão do setor de serviços na economia mundial no último quarto do século
XX, suas formas de exploração do trabalho e a presença majoritária do trabalho feminino no
telemarketing (ANTUNES, 2012; BRAGA, 2013). Os sindicatos não poderiam passar ilesos
por um processo de transformações de tal magnitude. Como aponta Mattos (2007, p. 51), “tudo
isso se refletiu em fragmentação das organizações e diminuição da filiação sindical, em várias
partes do mundo. ”. E no Brasil? Qual foi a particularidade da atuação sindical no período?
Conforme Alves (2010), Antunes e Silva (2015) , a partir do surgimento do novo
sindicalismo ao fim da década de 1970, inaugurou-se uma nova fase do sindicalismo brasileiro,
onde a incompatibilidade entre os interesses da classe trabalhadora e da burguesia era colocada
em evidência na atuação sindical, nesse sentido, o confronto era colocado em primeiro plano.
Porém, passadas três décadas, o que vimos foi o abandono sistemático do confronto de classes
em prol de uma perspectiva negocial e conciliadora dos interesses de classe. Como apontam
Antunes e Silva (2015, p. 512), “ O desdobramento desta mutação vem consolidando entre nós
uma prática sindical que, para além de fetichizar a negociação transforma os dirigentes em
novos gestores [...]”, estes, “ […] encontram na estrutura sindical mecanismos e espaços de
realização, tais como operar com fundos de pensão, planos de pensão e de saúde [...]”, além das
vantagens próprias do “ […] aparato burocrático típico do sindicalismo de estado vigente no
Brasil desde a década de 1930. ”. Segundo nossos autores (ANTUNES e SILVA, 2015), tais
mudanças além de alterarem o perfil das lideranças sindicais e das práticas sindicais adotadas
também levaram a um redirecionamento do discurso sindical que, a partir de então colocou de
lado o sindicalismo de classe e trouxe ao primeiro plano o sindicalismo cidadão, para o qual
chamam a nossa atenção Boito Jr (1999) e Coimbra (2006).
Como apontam Arbia (2010), Antunes e Silva (2015), já a partir do III Congresso da
CUT (III CONCUT) em 1988, como efeito da mudança de conjuntura a partir do início da
implementação da perspectiva neoliberal no Brasil ao fim dos anos 1980, é importante
observarmos que a CUT também mudou, passando a ganhar espaço nas resoluções da central
uma concepção etapista na qual a solução das “[...] questões relativas ‘às políticas sociais, ao
crescimento econômico e à distribuição de renda’ aparecem como base para construção de uma
'sociedade democrática rumo ao socialismo'” (ARBIA, 2010, p. 115). Nessa concepção a luta
pelo socialismo é legada a um futuro mais ou menos distante. Tal mudança tem seu corolário
com a ascensão do PT ao governo em 2002 e a cooptação da CUT pelo mesmo, tornando-a um
instrumento da ordem, a favor da conciliação e do apaziguamento da luta de classes
(FILGUEIRAS e GONÇALVES, 2007).

4. OS GOVERNOS DO PT: APAZIGUAMENTO OU ACELARAÇÃO DA DINÂMICA


DAS GREVES NO BRASIL?

A bibliografia consultada, nos sugere que os governos PT, longe de se contraporem a


herança neoliberal deixada pelos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, contribuíram
para consolidar o modelo liberal periférico no Brasil caracterizado pela liberalização,
privatização, desregulação das relações de trabalho, subordinação, vulnerabilidade externa
estrutural e dominância do capital financeiro (FILGUEIRAS e GONÇALVES, 2007), além de
levar a frente um processo de desarme da classe trabalhadora (IASI,2013), o qual, tem como
uma de suas características a cooptação das principais centrais sindicais brasileiras (ANTUNES
e SILVA, 2015).
Como aponta Mattos (2015), tanto o governo Lula quanto o governo Dilma levaram a
frente os ataques exigidos pelo bloco dominante hegemonizado pelo capital financeiro em meio
à crise estrutural do capital e seu aprofundamento em 2008, temos alguns exemplos da ligação
direta entre os governos PT e o bloco dominante hegemonizado pelo setor financeiro, na
composição ministerial de ambos os governos, onde o grande empresariado sempre esteve
representado nos ministérios da Indústria e Comércio, no ministério da Agricultura e no Banco
Central com Meirelles sob Lula e Tombini no governo Dilma (MATTOS, 2015). Além deste
elemento, Lula “recolocou na ordem do dia a continuação do modelo liberal ao implementar a
reforma da Previdência dos servidores públicos, iniciar o processo de reforma sindical e
sinalizar a reforma das leis trabalhistas.” (FILGUEIRAS; GONÇALVES, 2007, p. 24).
Porém, frente a crise econômica, aos ataques perpetrados pelos governos do PT contra
a classe trabalhadora brasileira e aos indícios de cooptação das centrais sindicais apontados na
literatura atual (MATTOS, 2015; ANTUNES e SILVA, 2015; FILGUEIRAS e GONÇALVES,
2007)), sustentamos que tais condições contribuíram para a aceleração da dinâmica grevista,
um processo silencioso, mas de metabolismo vigoroso quando observado mais de perto a luz
dos dados disponíveis.
O estágio atual de nossa análise dos balanços das greves (DIEESE, 2005a; 2006b;
2008a; 2009a; 2012a; 2012b; 2013a; 2015) produzidos pelo DIEESE nos permite constatar que,
no período de 2004 a 2013 ocorreu um aumento exponencial do número de greves e horas
paradas no país, principalmente no biênio 2012-2013 onde a variação do número de greves de
um ano para o outro alcançou o patamar de 134%, as greves que eram 877 em 2012 saltaram
para 2050 greves em 2013. Tal pico de greves, do ponto de vista do número de horas paradas,
é o maior desde 1990 onde foram alcançadas 117.027 horas paradas. Constatação a partir da
qual, podemos afirmar que vivenciamos o segundo maior pico de greves da história do Brasil
neste início de segunda década do século XXI. Em 2004 observamos a ocorrência de 302 greves
e 23 mil horas paradas, enquanto, em 2013 tais números se elevam a 2050 greves culminando
com um total de horas paradas de 111.342 horas. Cremos que tais dados confirmam a ocorrência
de um importante ciclo de greves no período em questão, o que significa, a intensificação da
ocorrência de espaços de construção da luta coletiva genuínos da classe trabalhadora, e que
hipoteticamente tem potencial para abalar o domínio da conciliação de classes imposta pelo
PT/CUT no último período. O ciclo de greves em questão tem como uma de suas características
marcantes, um forte aumento das greves no funcionalismo público e na esfera privada.

5. À GUISA DE CONCLUSÃO

Com base na bibliografia consultada, verificamos que, a partir dos anos 1970, o
capitalismo entrou em uma crise estrutural que tem colocado em evidência os limites inerentes
ao processo de acumulação capitalista (MÉSZÁROS, 2011), deste modo, tal situação
reatualizou a perspectiva marxiana da conformação da classe trabalhadora como classe
dominante, ou como aponta Mészáros (2011), colocou na ordem do dia a necessidade de uma
ofensiva socialista, porém, a classe trabalhadora mundial dispõe apenas de organizações
defensivas forjadas em um momento anterior da luta de classes, onde as exigências eram outras,
incapazes de levar a ofensiva à frente. Na particularidade brasileira, a situação não é diferente,
como vimos o novo sindicalismo que nasce nos anos 1980 com verniz classista, logo se
enveredou pelo caminho da conciliação de classes abrindo mão da perspectiva da independência
de classe e da construção de um novo horizonte societário. Como afirmam Antunes e Silva
(2015), passadas três décadas, o que vimos foi o abandono sistemático do confronto de classes
em prol de uma perspectiva negocial e conciliadora dos interesses de classe.
Por fim, como procuramos demonstrar a partir da análise dos dados do DIEESE, há
indícios de que durante os governos PT ocorreu um importante ciclo de greves da classe
trabalhadora brasileira, com potencial para abalar a tentativa de apaziguamento levada a frente
pelo PT e pela CUT, o que corrobora com a primeira parte de nossa hipótese de trabalho, qual
seja, apesar da cooptação da CUT pelo governo PT, longe de ocorrer um processo de
apaziguamento da luta de classes no Brasil, no que tange ao movimento grevista brasileiro,
ocorreu pelo contrário, um processo de aceleração da dinâmica das greves, que significa como
apontamos acima a intensificação da ocorrência de espaços de educação e luta genuinamente
da classe trabalhadora, em outras palavras, uma retomada pelas trabalhadoras e trabalhadores
daquilo que os revolucionários chamaram de escola de guerra (Lenin, 2008).

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GARIS EM MOVIMENTO:
a greve de 2014 e o Círculo Laranja

Veronica de Araujo Triani

Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense –


PPGSD/UFF

Membro do Grupo de Pesquisa Configurações Institucionais e Relações de Trabalho – CIRT/UFRJ

vetriani@[Link]

O ponto de partida e as escolhas metodológicas

A investigação proposta partiu da realização de estudo de caso-referência, pretendendo


identificar os principais fatores envolvidos no processo da greve realizada pelos garis do
Estado do Rio de Janeiro, em meio ao carnaval de 2014, organizada e deflagrada por
movimento dissidente do sindicato juridicamente reconhecido.
Tal caso, em particular, demonstrou-se relevante, pois a greve foi impulsionada por
fora do sindicato e resultou na reabertura da negociação da data-base da categoria, com
participação do movimento. Chamou especial atenção, ainda, a conquista de um reajuste
salarial de 37% (maior dos últimos 20 anos), do auxílio alimentação em 66%, além da
fundação de um movimento nomeado Círculo Laranja um ano depois.
Para a realização do estudo, foram coletados dados a partir das publicações na mídia
online, análise do processo de dissídio coletivo de greve instaurado perante o Tribunal
Regional do Trabalho do Rio de Janeiro e dos Acordos Coletivos assinados desde 1990. Foram
realizadas também, visitas na sede do movimento Círculo Laranja para entrevistas de tipo
qualitativo com os atores envolvidos no processo de mobilização direta ou indiretamente, as
quais se deram utilizando método de entrevista não dirigida, a partir do qual a pesquisadora
deu instrução inicial sobre o tema e conferiu liberdade aos entrevistados no tocante à maneira
de tratar o assunto (POUPART, 2008).
Por fim, foi realizado levantamento bibliográfico, visando tanto à operacionalização
dos conceitos quanto à delimitação progressiva do objeto de pesquisa (DESLARIERS e
KÉRISIT, 2008), simultaneamente ao levantamento de dados para o estudo de caso.
Diversas questões perpassam o processo de organização do movimento objeto de
análise, tais como: Como se deu o processo de formação desse movimento? Houve um fator
determinante para a aglutinação dos trabalhadores? Havia pauta de reivindicações unificada?
Havia presença de forças politicamente organizadas e/ou partidárias na formação do
movimento? Há histórico de tentativa de formação de organização dissidente do sindicato
registrado? Nas greves anteriores da categoria, houve tentativas de formação de um
movimento como o ocorrido em 2014? O fato de 2014 ser ano de realização de Copa do Mundo
na cidade do Rio de Janeiro interferiu no processo de mobilização e no processo de
negociação? O fenômeno das manifestações ocorridas no ano de 2013 exerceu influência sobre
esse movimento?
Tais questões estiveram presentes desde a realização do plano de trabalho e
permanecem principalmente na inserção em campo. Contudo, não se tem delineado
exaustivamente todos os pontos da pesquisa, por partir de uma compreensão de que a
construção do objeto não recai apenas sobre a intenção individual do pesquisador. O estudo
preocupa-se, pois, em incorporar materiais encontrados a partir da interação com o campo,
buscando preservar o caráter da pesquisa qualitativa, ancorada “na dialética das repercussões,
ações e interpretações dos atores sociais em relação ao seu meio” (DESLARIERS e KÉRISIT,
2008).
Os resultados parciais objeto desta pesquisa se deram a partir da análise qualitativa dos
dados até então levantados, por se considerar que tal análise é capaz de incorporar os
significados inerentes aos atos e às relações sociais (MINAYO, 2001).

As transformações societárias e dos movimentos sociais


A observação das sociedades contemporâneas, segundo Daniel Camacho, sugere que
foram surgindo novas formas de agregação social em coexistência com as anteriores já
consolidadas, bem como novas formas de solidariedade conflitual foram abrindo novos canais
para agrupamento. Por sua vez, um controle de complexidade passou a se ocupar cada vez
mais com a relação aos sistemas institucionais de representação e tomada de decisão e novas
formas de ação (CAMACHO, 1987).
A partir dos conflitos dos anos 80, implicou-se a redefinição dos movimentos e suas
formas de ação, passando os movimentos a se concentrar nas necessidades de auto-realização,
contestação da lógica do sistema no campo cultural e na vida cotidiana. Os conflitos sociais
contemporâneos passam a afetar o sistema como um todo e a ação coletiva vai além de “trocar
bens em um mercado político”. A esfera de ação dos movimentos contemporâneos, tal qual a
nova esfera de conflitos das sociedades pós-industriais, se complexifica, chegando a haver
verdadeira alteração morfológica da ação coletiva (MELUCCI, 1989).
Ao longo dos anos 90, os movimentos sociais em geral tiveram que abandonar algumas
posturas e adotaram posições mais propositivas. Diferentemente de um passado onde se
utilizavam das vias paralelas para alterar as regras burocráticas e as prescrições jurídicas,
passaram a atuar em rede, em parceria com outros atores sociais e dentro dos marcos da
institucionalidade (GOHN, 2014).
Na atualidade, pode-se apontar um retorno dos movimentos sociais à cena, com a
enumeração de quatro pontos de destaque: (i) as lutas contra os efeitos devastadores da
globalização, ajudando a construir um novo padrão civilizatório, orientado para o ser humano
e não para o mercado; (ii) a reivindicação de ética na política, exercendo vigilância sobre a
atuação estatal; (iii) a cobertura de áreas do cotidiano de difícil penetração por outras
entidades/instituições e, neste ponto, aspectos da subjetividade como sexo, raça, crença têm
encontrado vias de manifestação; e (iv) a autonomia passou a ser ter projetos e a pensar os
interesses do grupo, tendo planejamento em termos de metas e programas, tendo crítica, sendo
flexível para incorporar os que desejam, dando universalidade à demandas particulares,
vencendo localismos, priorizando a cidadania (GOHN, 2014).

O encontro do sindicalismo com os movimentos sociais


No campo do sindicalismo, o debate sobre os movimentos sociais contemporâneos, ou
sobre “novos movimentos sociais”, introduziu um feixe de ruptura entre conceitos de
movimento sindical e movimento social, considerando aquele apenas as “velhas organizações
burocratizadas”, em antagonismo às práticas “renovadoras e democráticas” deste novo
insurgente (GALVÃO, 2014, p. 3-4).
Até a década de 80, no Brasil, pode-se dizer que alguns autores também apontavam
um cenário de apatia do movimento sindical, o que frequentemente levava a uma
caracterização de crise. Eder Sader chegou a caracterizar que, até então, havia uma
“humilhante insignificância” dos sindicatos para o governo, eis que sua principal função era
apenas figurar em dissídios coletivos por reajustes salariais (SADER, 1989).
Em uma literatura que considera a institucionalização dos sindicatos como responsável
por uma domesticação dos mesmos, autores passam a apontar a perda de autonomia e até
mesmo de conflituosidade do movimento sindical, indicando que o sindicato “teria deixado de
ser um movimento social para ser um ‘ator’ político, porque reconhecido legalmente e dotado
de recursos institucionais”. Segundo essas correntes, os sindicatos seriam ainda “incapazes de
se valer de táticas disruptivas e de agir para mudar aspectos da sociedade” (GALVÃO, 2014).
Após este período, contudo, verificou-se a emergência de uma corrente renovadora,
diante da qual a literatura passou a reconhecer como um “sindicalismo autêntico” ou mesmo
um “novo sindicalismo”, movimento este que buscava superar o esvaziamento, a perda de
representatividade e estimular/assumir lutas reivindicativas, quando o discurso da conciliação
foi se tornando um discurso de contestação, e as greves, por sua vez, foram passando a ser
uma afirmação da dignidade dos trabalhadores (SADER, 1989).
Em trabalho buscando refletir sobre o caráter dos novos movimentos, Ilse Scherer-
Warren reproduz a fala de sindicalistas publicada no Jornal “O Estado”, de Santa Catarina, dia
26/05/1984:
“é uma estrutura sindical diversa da atual, em pequenos grupos; engaja todos,
homens, mulheres e jovens; faz crescer a consciência de classe; e mais autêntica que
o próprio sindicato; é incompatível com a autopromoção; as decisões do trabalhador
é quem definem os rumos da luta” (SCHERER-WARREN, 1987, p. 44).
No bojo de uma literatura mais geral, e impulsionada a partir dos EUA, principalmente
a partir do final dos anos 1980, o sindicalismo passou a ser tomado enquanto movimento
social, observando-se o desenvolvimento de uma nova geração de ativistas sindicais, que
passaram a atuar junto de trabalhadores desorganizados, submetidos a contratos precários, das
minorias, promovendo então um “novo associativismo”, a partir da construção de redes de
solidariedade e da realização de campanhas baseadas em táticas não convencionais e
incorporando reivindicações políticas e sociais abrangentes, além de articularem o local de
trabalho com espaços externos e de estabelecerem alianças com outros movimentos sociais
(GALVÃO, 2014).
A mudança nos processos organizativos dos trabalhadores ocorre no contexto em que
o trabalho também assume novos formatos. A segurança do pleno emprego foi substituída pelo
"desemprego de tom perene", o processo organizativo dos trabalhadores tal como a relação
capital/trabalho foram impactados. A avaliação sobre a desigualdade social mudou de
perspectiva, trazendo novamente a questão social ao centro das preocupações, inclusive dos
trabalhadores. A "nova era das desigualdades", marcada "pela perda de institutos de proteção
social, pelo aumento das taxas de pobreza global, pelo aumento das disparidades sociais e pela
ampliação das margens de vulnerabilidade social e econômica" se insere em um processo que
produziria a "decadência do coletivo", a "decomposição do social", a partir dos quais surgiriam
"novas formas de expressão da demanda política" (RAMALHO; SANTANA, 2003, p. 12-23).

As jornadas de junho de 2013 e a nova abertura


O ano de 2013, diante da conjuntura local e pela influência do contexto internacional
foi marcado pela maior sequência de protestos no Brasil desde o Fora Collor em 1992 (GRIPP
apud GOHN, 2014). Entre junho e dezembro, foram realizadas diversas manifestações, tendo
como ápice a reunião de mais de um milhão de pessoas, em 75 cidades brasileiras.
A literatura se dividiu nas análises sobre tal ciclo de protestos, mas diversos autores
identificaram o surgimento de novas características nas manifestações de 20131, tanto pelos
sujeitos protagonistas quanto pelo repertório de ações utilizadas.
Paulo Arantes aponta considerações sobre as manifestações brasileiras de 2013 com
destaque para a preservação de uma autonomia libertária e para a ação direta. Segundo o autor,
surgiria um novo paradigma para as lutas sociais no Brasil, baseado em um modelo de ação
que combina política horizontalista e contracultural dos novos movimentos sociais e teria
caído o consenso de que as mudanças se dão pelas instituições, Estado ou eleições, tendo os
manifestantes trocado petições online e abaixo-assinados por marchas, pedras, pichações
(ARANTES, 2013).
Também indicando um cenário de novidades, Breno Bringel e Geoffrey Pleyers
argumentam: “as mobilizações massivas de junho de 2013 produziram uma abertura
societária”. E prosseguem concluindo: “Emergiram novos espaços e atores que levaram a um
aumento da conflitualidade no espaço público e a um questionamento dos códigos, sujeitos e
ações tradicionais que primaram no país durante as últimas duas décadas” (BRINGEL;
PLEYERS, 2015).

A greve de 2014 e o Círculo Laranja


Em 1 de março de 2014, diante da frustração das negociações iniciadas em fevereiro,
os trabalhadores se reuniram e deliberaram pela deflagração de greve em meio ao carnaval

1
Considera-se que 2013 foi um ano marcante no cenário brasileiro, mas compreendendo que as mobilizações
são fruto de processos políticos que vinham se desenvolvendo não apenas no país, mas internacionalmente.
carioca. Foi instaurado dissídio coletivo de greve2 e concedida decisão liminar3 no mesmo dia
determinando a suspensão da greve, sob pena de multa diária. Em 03 de março, foi realizada
nova rodada das negociações e, mesmo os trabalhadores tendo rejeitado a proposta do
empregador, foi assinado Acordo Coletivo entre os sindicatos profissional e patronal e foi
formalmente declarado o fim da greve. Contudo, os trabalhadores não reconheceram o Acordo
e mantiveram a greve, passando a convocar reuniões em locais públicos de grande circulação,
como a Central do Brasil e a Cinelândia e as atividades permaneceram paralisadas.
Diante da adesão crescente, dos efeitos da ausência de recolhimento de lixo na cidade
– piorados pelas fortes chuvas do mês de março – e sendo 2014 ano de realização da Copa do
Mundo na cidade do Rio de Janeiro, o movimento alcançou repercussão internacional. No
cenário de irredutibilidade, o movimento teve sua representatividade e legitimidade
reconhecidas pelas instituições jurídicas e passou a integrar a negociação coletiva, através de
uma comissão eleita. Dentre os resultados da negociação, reajuste salarial de 37% e aumento
do ticket alimentação em 66%, além de adicional de insalubridade de 40%. Após o término da
greve, foram recolhidos cerca de 30 mil toneladas de lixo.
Segundo relato de trabalhadores, em entrevista concedida à pesquisadora, não
esperavam a tamanha repercussão:
Nós não imaginávamos a proporção do que ia acontecer. Nós nem queríamos fazer
greve todos aqueles dias, mas a ideia era buscar nossos direitos. Não era para ser o
caos, mas eles foram os culpados. Eles não cediam, diziam que não iam dar o
aumento e pronto4.
Outro trabalhador relata que as convocações eram feitas maciçamente pelas redes
sociais e pelo “boca a boca” nas gerências5.
Embora tenha constado do acordo compromisso de que não haveria demissões nem
represálias por parte da empresa, passados alguns meses da greve de 2014, cerca de
quatrocentos empregados foram demitidos, quase na integralidade trabalhadores mobilizados
na greve daquele ano. Segundo relatos, até mesmo as avaliações passaram a ser muito mais

2
Dissídio coletivo de greve é o mecanismo processual cabível quando se requer a declaração de ilegalidade de
um movimento grevista. O dissídio instaurado no caso em questão foi distribuído sob o nº 0010201-
14.2014.5.01.0000.
3
Conceito utilizado pelo Supremo Tribunal Federal: “Ordem judicial emitida de imediato pelo juiz em caso de
tutela de urgência, concedida antes da discussão do mérito da ação. Visa resguardar direito do requerente
(impetrante), em face da evidência de suas alegações (fumus boni iuris) e da iminência de um dano irreparável
(periculum in mora). Possui caráter precário, tendo em vista que o direito sob análise pode ser mantido ou
revogado no julgamento do feito”. Disponível em:
<[Link] Acesso em 10/03/2017. No caso em
questão, a decisão foi proferida pela Desembargadora do Trabalho Rosana Salim Villela Travesedo.
4
Entrevista realizada em 11 de março de 2017, com trabalhadora gari desde 2010.
5
Entrevista realizada em 11 de março de 2017, com trabalhador gari demitido em 2014, após a greve.
rigorosas: “Os gerentes falavam aos garis: _Vocês não querem aumento? Então vai ter
cobrança!”6.
No ano de 2015, foi tentada uma nova greve, seguida de mais centenas de demissões.
Segundo um dos trabalhadores, a soma ultrapassa mil demitidos por represália7. Em 8 de
março de 2015, os trabalhadores demitidos se reuniram e fundaram o movimento Círculo
Laranja 8 . O objetivo inicial era reintegração dos demitidos, mas atualmente as pautas
englobam desde questões sobre condições de trabalho e dignidade, até questões ambientais.
Na fala de um trabalhador, se externa o tratamento recebido na gerência da Ilha: “No
meu primeiro dia de trabalho, fui recebido com a fala: _ Bem-vindo ao inferno” 9 . Na
sequência, outra fala: “A primeira instrução do gari é: _ Não pode dar bom dia e boa tarde ao
gerente geral”10. E seguem: “O encarregado me chamava de paraíba e, quando eu questionava,
dizia que eu queria saber demais”11. Um dos trabalhadores apontados pela COMLURB como
responsável pelas ações de 2014, narra que as manifestações de 2013 foram determinantes
para a greve: “Se todo o povo podia ir às ruas, por que os trabalhadores não podiam
também?”12.
Na atualidade, o movimento Círculo Laranja é formado por cerca de setecentos
integrantes, tendo representação em todas as gerências13 da COMLURB, além de cinquenta e
quatro garis demitidos que ainda buscam a reintegração. Apresentam-se como “um movimento
autônomo, sem partido, nem de direita e nem de esquerda. O círculo nasceu para romper com
a política de esquerda, quer unir as diferenças. Pessoas são diferentes e nessa multiplicidade
que se quer construir”. Também declaram ser uma organização horizontal, na qual todos os
integrantes possuem o mesmo poder e lugar de fala, relacionando a ausência de hierarquia à
própria forma de círculo, o que daria o nome ao movimento. Declaram não acreditar no
formato dos sindicatos atuais14.
O movimento se utiliza de ações diretas, como paralisações, passeatas, ocupações –
seja âmbito da empresa ou de pautas mais abrangentes da sociedade civil – e também ações

6
Entrevista realizada em 11 de março de 2017, com trabalhadora gari desde 2010.
7
Entrevista realizada em 28 de fevereiro de 2017, com trabalhador gari, demitido em 2014.
8
A formação do movimento envolve diversos elementos que não estão abordados no presente momento.
9
Fala de um trabalhador gari desde 2009, em reunião do movimento Círculo Laranja realizada em 28 de
fevereiro de 2017.
10
Fala de trabalhador gari, demitido em 2014, antes lotado na gerência de Queimados, em reunião do
movimento Círculo Laranja realizada em 28 de fevereiro de 2017.
11
Fala de trabalhador agente de preparo de alimentos, demitido em 2015, em reunião do movimento Círculo
Laranja realizada em 28 de fevereiro de 2017.
12
Entrevista realizada em 28 de fevereiro de 2017, com trabalhador gari, demitido em 2014.
13
As gerências são unidades operacionais da COMLURB, organizadas por região da cidade.
14
Fala de integrante do movimento, em reunião realizada no dia 28 de fevereiro de 2017.
institucionais, como participação na comissão de negociação do dissídio anual e busca de
parlamentares para apresentação de projetos, como “A COMLURB que queremos”, de autoria
coletiva dos trabalhadores.
O movimento também faz parcerias com inúmeros outros segmentos da sociedade,
sendo identificadas em campo parcerias desde com a rede Universidade Nômade Brasil, com
parlamentares dos partidos Rede Sustentabilidade – REDE, Partido dos Trabalhadores – PT,
Partido Socialismo e Liberdade – PSOL, Partido da República – PR, com representantes de
outros movimentos de trabalhadores previdenciários, vigilantes sanitários, bombeiros
militares do Rio de Janeiro, dos policiais militares do Rio de Janeiro, além do movimento de
negros, de professores universitários, artistas musicais, poetas, cinegrafistas.

Reflexões parciais
A partir dos dados até então coletados, pode-se dizer que o movimento grevista dos
garis cariocas, em 2014, trouxe novidade ao cenário institucional.
No âmbito jurídico, a representação dos trabalhadores se dá por sindicatos, com
categorias e delimitação geográfica previamente estipuladas, além de obrigatoriamente
registrados perante o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Não há previsão legal para
representação dos trabalhadores por outras organizações.
Pelos parâmetros legais, portanto, o movimento dos garis não teria as prerrogativas
sindicais, como o poder de negociação em nome da categoria profissional. Contudo, resta
verificável que, diante da repercussão do repertório de ações adotado pelo movimento, foram
flexibilizados os critérios da lei, admitindo-se a participação dos trabalhadores organizados
por fora do sindicato nas mesas de negociação e reconhecendo-se a legitimidade para
representação em negociação que alcançou o maior reajuste salarial dos últimos vinte anos.
A repercussão social da paralisação, deixando aproximadamente trinta mil toneladas
de lixo acumuladas, em meio ao Carnaval carioca, com efeitos aprofundados pelas fortes
chuvas do mês de março, e em ano de realização da Copa do Mundo na cidade, exerceu papel
impulsionador das negociações. Foram fator de pressão também as passeatas e protestos
realizados em locais de grande circulação, com participação da sociedade civil.
O movimento Círculo Laranja e seu formato também apresentam pontos peculiares na
estrutura de organizações de trabalhadores, iniciando-se pela reunião de empregados
demitidos e ativos, não permitida na estrutura sindical oficial. A proposta de estrutura
horizontal, sem hierarquia entre os membros, a incorporação de discussões das opressões de
gênero e de raça, a pauta de reconhecimento e dignidade, e os diálogos com mais diversos
setores da sociedade, de todas as orientações políticas, também são fatores identificados como
incomuns, comparando-se os sindicatos tradicionais.
As especificidades do caso objeto de análise remetem aos estudos dos movimentos
sindicais, pois, se é certo que parte da doutrina veio diagnosticando ao longo dos anos um
cenário de crise do sindicalismo, outras correntes têm proposições no sentido de que a ‘crise’
não é da instituição de representação dos trabalhadores, mas de um tipo de sindicato atingido
duramente pelas transformações na produção” (RAMALHO; SANTANA, 2003).
Sobre o tema, a contribuição de Richard Hyman (1996), apontando que não há crise
do sindicalismo, mas crise do estilo e da orientação tradicionais do sindicalismo. Para o autor,
“o que certamente se requer é uma nova lógica, um novo vocabulário de motivos para a
solidariedade dos trabalhadores” (HYMAN, 1994, p. 112-115).
Larangeira (1998, p. 181-183) enfatiza uma perspectiva de mudança nas atividades
mais tradicionais, sugerindo a ampliação das mesmas, para incluir a representação de
trabalhadores desempregados, “precarizados” ou excluídos do núcleo central de produção, até
mesmo de um “sindicalismo comunitário que, juntamente com outros movimentos sociais,
voltar-se-ia para atender as necessidades dos que se encontram excluídos do mundo do
trabalho”.
Tais ideias são avançadas por Moody (1997), na proposta de um “sindicalismo tipo
movimento social”, que seria mais dinâmico, mais aberto às novas demandas, democrático,
militante, lutando pela organização nos locais de trabalho e político, agindo
independentemente de partidos, mas multiplicando seu “poder político e social na articulação
com outros sindicatos, organizações de bairro ou outros movimentos sociais”. O “sindicalismo
do futuro” deveria assumir feição de “redes ampliadas” (OSTERMAN et all, 2001, p. 96). O
consenso é “de que os sindicatos devem adaptar sua organização, sua estrutura e sua ação à
heterogeneidade do mundo do trabalho” (RAMALHO; SANTANA, 2003).
Partindo de tais reflexões, é possível verificar que as ações utilizadas pelo movimento
dos garis grevistas em 2014 são reforçadas pelo formato do Círculo Laranja e se inserem nas
propostas de análise sobre as transformações e sobre o futuro do sindicalismo, que apontam
para uma dinâmica diferenciada das organizações tradicionais, com nova composição, nova
forma de aglutinação, até mesmo novas formas de ação, inclusive utilizando maciçamente as
redes sociais e as mídias eletrônicas.

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Davide Bubbico
Dipartimento di Scienze Economiche e Statistiche,
Università di Salerno (ITALIA)
e-mail: dbubbico@[Link]

1. Introdução

Este artigo pode ser concebido como um estudo das condições de trabalho e da ação sindical
na mesma trajetória ilustrada de Castro e Leite na descrição da nova sociologia de trabalho
industrial brasileira no final dos anos 70. Em outras palavras “a maneira pela qual o capital
organiza o consumo produtivo da força de trabalho” (Sorj, 1983, p. 3) e “as formas políticas de
resistência cotidianamente desenvolvidas pelos trabalhadores no curso da atividade produtiva”
(Castro e Leite, 1994, p. 41). Em acordo com Ramalho os estudos sociológicos dos anos 90
vem revelando a pressão da reestruturação industrial sobre o sindicalismo: “A avaliação é que
a introdução de novas formas de gestão da força de trabalho, sobretudo nas empresas associadas
a cadeias produtivas globais, em conjunto com transformações na organização da produção e
na estrutura de emprego, colocam novas questões, exigindo novas posturas e pondo em xeque
a força de barganha acumulada anteriormente” (2000, p. 6).
Neste contexto a nossa atenção fica sobre uma das mais importantes empresas do setor
eletroeletrônico do mundo, a taiwanesa Foxconn, que desde a metade da primeira década dos
anos 2000 está localizada no Brasil com vários estabelecimentos principalmente para responder
ao incremento das vendas no mercado brasileiro de produtos eletrônicos para as mais
importantes marcas do setor, incluída a Apple que tem na Foxconn a principal produtora dos
seus equipamentos.
As questões que entendemos enfrentar neste trabalho são principalmente as seguintes: qual
é o modelo de relações laborais que a Foxconn tem implementado no Brasil comparativamente
com a China e com outros países onde está localizada (Republica Checa, México e outros

1
países); qual é a capacidade de barganha do sindicato sobre o tema da organização do trabalho
e das condições de trabalho.
Conforme a literatura sobre as mais recentes mudanças na organização do trabalho industrial
a começar da introdução do padrão japonês na indústria automotiva, os novos padrões
produtivos na indústria ficam caraterizados pela ampla utilização da flexibilidade e pelo
envolvimento dos trabalhadores em programas de sugestões e no compartilhamento das metas
de produção (Mello e Silva, 2015). Do outro lado, esta mudança no modo de produção tem
determinado um comportamento empresarial finalizado a reduzir ainda mais o papel do
sindicato, consolidando a autonomia das firmas sobre o tema da organização do trabalho, mas
de qualquer maneira também na perspectiva do envolvimento do sindicato nas estratégias das
empresas. Neste caso, por exemplo na Europa desde os anos 90 a tendência é de falar mais de
“diálogo social” em vez que simplesmente de negociação (Hyman, 2010). Numa ótica
comparativa pelas relações sindicais precisa, todavia, levar em consideração o contexto
institucional e normativo que cada país tem sobre este tema. Neste sentido se as formas de
organização do trabalho podem ser as mesmas, indiferentemente dos país em que a empresa
está presente, as relações sindicais mudam em relação às leis trabalhistas do país, o modelo
sindical, o tipo de contratação coletiva, o poder da Justiça do Trabalho, o papel do Estado e da
mesma tradição sindical. A nossa hipótese é que a Foxconn tem tentado aplicar nas fábricas do
Brasil o mesmo padrão produtivo utilizado na China, conseguindo por uma parte isso, mas não
imaginando também uma capacidade de intervenção do sindicato e do judiciário sobre as
questões da relação de trabalho. Em definitivo, nós pensamos é que se no chão da fábrica a
capacidade de intervenção do sindicato sobre a organização do trabalho e na prevenção das
doenças profissionais é muito fraca, como no resto dos países onde a Foxconn está localizada,
diferentemente dos demais países onde ela produz (China, Republica Checa, etc.) a intervenção
indireta por meio da Justiça do Trabalho e da fiscalização estadual no Brasil oferecem uma
melhor proteção, embora sempre parcial de alguns direitos, mas contribuem também a
configurar um específico papel do sindicato se pensamos, por exemplo, a atividade realizada
para o departamento jurídico do mesmo sindicato. Neste contexto, todavia, o sindicato risca de
ser percebido, como é na realidade muitas vezes, um organismo de defesa externo a fábrica,
que cobre mais um papel de “cobrador” do reajuste salarial e da CLT na relação laboral. Nesta
diretriz, é preciso também se levar em conta que se os limites de intervenção do sindicato sobre

2
a organização do trabalho são generalizados (como demonstra a ausência desta questão na pauta
reivindicativa), também se isso pode se diversificar na base do perfil politico da entidade
sindical, como parece mostrar, por exemplo, a comparação (que precisa de mais
aprofundamento) das avaliações sobre este tema dos sindicatos metalúrgicos de Jundiaí e
Campinas.
Este trabalho é baseado em uma pesquisa de campo ainda em curso sobre o caso de dois
estabelecimentos da Foxconn em Jundiaí (Estado de São Paulo). Até agora foram realizadas 15
entrevistas entres trabalhadores, ex-funcionários, diretores de base do sindicato, dirigentes
sindicais e funcionários da prefeitura de Jundiaí e Campinas. As entrevistas foram feitas em
julho de 2015, abril-maio de 2016 e em março-abril de 2017. No geral o nosso trabalho se
coloca no âmbito de um grupo internacional de pesquisa que tem como objetivo descrever as
condições de trabalho da Foxconn nas diversas fábricas onde ela está localizada no mundo.

2. IED, multinacionais e relações sindicais no Brasil: o caso da indústria eletroeletrônica

Os investimentos estrangeiros tem tido sempre um papel importante na economia brasileira.


Eles têm alimentado um processo de “desnacionalização” do setor manufatureiro, determinado
pelo diferente tamanho das empresas nacionais no confronto com as estrangeiras (DIEESE,
1978). Nos anos mais recentes com os governos petistas, o afluxo de novos investimentos tem
se caraterizado pela possibilidade de receber incentivos fiscais e de outra natureza em troca da
realização de uma parte da produção com conteúdo local. Em outro o baixo custo da mão de
obra tem favorecido a implantação de industrias com elevada intensidade de trabalho (Singer,
2015). Neste modo, as empresas estrangeiras tem conseguido neste período dois objetivos:
acessar a um mercado de consumo em crescimento e fazer do Brasil uma plataforma global
pelas exportações, aspecto tem que tem se revelado até agora muito fraco.
Em relação aos investimentos realizados no Brasil se deve registrar também que “nas últimas
duas décadas, que sua parcela majoritária foi destinada à aquisição de empresas, não resultando
em mudança significativa na formação bruta de capital fixo” (Coelho e Olivera, 2012, p. 47),
sem uma melhor inserção internacional da indústria brasileira. Em outras palavras pois o
aumento de IED no Brasil, que eleva consideravelmente a presença de empresas estrangeiras
na estrutura produtiva nacional, vem acompanhado por uma baixa internacionalização

3
produtiva das empresas do país (Sarti e Hiratuka, 2011). Entre 2001 e 2010 o número de
empresas exportadores no Brasil tem ficado praticamente estagnado. Neste sentido a industria
brasileira, ainda que com algumas exceções, tem continuado a ocupar uma posição periférica
na economia global como já no passado com a sua inserção no “fordismo periférico” (Braga,
2016).
Assim, o incentivo pelos IED estrangeiros tem determinado no setor da informática uma
queda da produção nacional. Neste sentido, como afirmam Lima e Barbosa, “A Lei de
Informática é um grande incentivo para a montagem final de eletroeletrônicos no país, porém
o valor agregado localmente por esse setor tem caído, à medida que as empresas se concentram
em importar kits pré-prontos e somente finalizá-los, perdendo o conhecimento da tecnologia e
engenharia embarcadas no equipamento” (2014, p. 68). Em acordo com os autores, se essa
legislação tem permitido o desenvolvimento de um relevante ecossistema de montagem de
produtos eletrônicos, ainda que não se perceba um adensamento no domínio da tecnologia e em
maior valor agregado na maioria dos produtos abarcados por esse incentivo. Uma confirmação
indireta disso se encontra na ausência de empresas locais que são fornecedores da Foxconn de
Jundiaí, como no resto das empresas asiáticas da região de Campinas. Como evidencia uma
recente pesquisa sobre o desenvolvimento deste setor no Brasil e as condições de trabalho
associadas a ele, a avaliação dos efeitos dos incentivos a fim de gerar uma ocupação mais
qualificada e investimentos em R&D, destaca que até agora estes resultados não foram
alcançados (Wetering et al., 2015).

3. O caso da Foxconn Brasil

A chegada da Foxconn em Jundiaí em 2007 é motivada pela proximidade com os armazéns


da HP enquanto primeira cliente da empresa taiwanesa no Brasil. A cidade de Jundiaí, com
cerca de 400 mil moradores, é um centro industrial desenvolvido sobretudo na primeira metade
dos anos 50 com a produção do café, enquanto o desenvolvimento da indústria metalúrgica é
mais recente, especialmente o da indústria eletrônica. A chegada da Foxconn em Jundiaí
determinou a vinda para a cidade de outras empresa chinesas do mesmo setor concorrentes
diretas da Foxconn como a Compaled e a Arima.

4
No complexo a Foxconn tem no Brasil 5 fábricas: a primeira criada em Manaus em 2005
(celular, componentes para PC, câmeras fotográficas), duas unidade em Jundiaí (Fox 1 em 2007
e Fox 2 em 2010, esta ultima dedicada especificamente aos produtos da Apple); Indaiatuba
(Estado de São Paulo) criada em 2006 mas recentemente fechada (final de 2016) (celular da
Sony-Ericsson) e Santa Rita de Sapucaí (Minas Gerais) onde se produzem placas para
notebooks. O total dos funcionários da Foxconn hoje são menos de 7 mil, dos quais cerca de 5
mil estão empregados nas duas fábricas de Jundiaí, com uma forte prevalência de mão-de obra
feminina como é típico deste setor.

4. Organização de trabalho e condições de fábricas

A maioria dos empregados que trabalham na Foxconn de Jundiaí são jovens, mulheres, com
baixa qualificação e com experiência de trabalho em telemarketing ou ainda como a primeira
experiência de trabalho. Há alguns anos o papel de intermediação com a empresa é assegurado
pelo PAT de Jundiaí (Posto de Atendimento dos Trabalhadores), um serviço da prefeitura de
Jundiaí. A responsável pelo PAT afirmou que as características preferidas da empresa pelo
candidato que deseja trabalhar na Foxconn é ter concluído o ensino médio completo, faixa etária
entre 18 e 45 anos no máximo, sem preferência de gênero, residência nos municípios de Jundiaí
e de Várzea Paulista. Há também a proibição em contratar ex-funcionários, mas isso nem
sempre é obedecido.
O início da produção é convulso porque a Foxconn precisa produzir para HP no inicio um
número elevado de computadores mesmo com a instalação da fábrica sendo recente. O primeiro
contato dos funcionários da Foxconn com o sindicato é através dos contratados que denunciam
não receber o justo salário. Em 2009 a Foxconn começa a ficar mais atrativa na comparação
com outras fabricas de Jundiaí porque o nível do salário para operador de produção chega a
mais de R$ 2 mil. Fica evidenciado que neste período não está ainda em atividade o galpão da
Fox 2 para os produtos da Apple. O crescimento do salário depende unicamente do reajuste
salarial obtido pelo sindicato (falta de planos de cargos), mas também da necessidade da
empresa ficar mais atrativa para a mão de obra, que começa a perceber que a Foxconn é uma
empresa que emprega muito mas que também despede com muita facilidade.

5
A produção da Foxconn é organizada por linha de produto. Na Foxconn 1 tem produção de
desktop e notebooks (DELL) de computador (ASUS), mas outras marcas foram produzidas no
passado (HP, LENOVO, SONY-ERICSSON, etc.). Na Foxconn 2 ficam as produções da
Apple: IPhones e IPads (embora se o final de março 2017 a produção de IPads estava
terminada). A produção da Foxconn em Jundiaí consiste principalmente na atividade de
montagem e por isso o problema mais relevante está na repetitividade das operações em linha.
A falta de mais de uma pausa de trabalho, que não seja para exigência fisiológica, confirma um
regime de produção com elevada intensidade. Também a falta de aplicação do rodizio entre as
estações representa ainda um dos maiores problemas, que contribui para o surgimento de
doenças profissionais. Mais em geral vale lembrar que os ritmos de trabalho ficam muito
elevados também com um nível de produção mais baixo, isso porque a menor produção se
acompanha periodicamente com demissões. A elevada rotatividade do trabalho, como no resto
do mercado do trabalho no Brasil, é causada também pelas demissões voluntárias. Essas
acontecem especificamente na Foxconn em função de um trabalho instável e da falta de
oportunidades no avanço profissional.
É importante evidenciar que na fábrica não está desenvolvido um modelo especifico de
organização do trabalho. A importância da meta de produção faz que o melhor método de
trabalho seja aquele que garante a meta. Neste sentido algumas diferenças podem acontecer em
relação as diversas experiências profissionais dos gerentes. Por exemplo, quem chega do setor
automotivo pode implementar formas de organizações que são típicas do setor como o Total
Quality Management.
O cumprimento das metas de produção determina uma pressão muito forte sobre os
trabalhadores, muitas vezes sob a forma de assédio moral, como confirmam também outras
pesquisas no mesmo setor e na mesma área territorial investigada, em particular em relação a
mão de obra feminina (Lapa 2016; Leite e Guimarães, 2015).
O início da produção da fábrica tem tido convulso como afirmamos antes. Isso tem uma
consequência sobre a organização do regime horário e da carga horaria individual. Ao mesmo
tempo o comportamento assumido pela empresa parece revelar um desconhecimento das
normas trabalhistas, a falta de previsão da ação sindical assim como das atividades de controle
dos organismos públicos. Neste período a possibilidade de fazer muitas horas extras é alta e a
empresa não tem observância dos limites legais. O excesso de horas de trabalho é um fator que

6
tem contribuído para a doença profissional (casos de tendinite e bursite causadas por lesões por
estresse repetitivo, ou distúrbios musculoesqueléticos) e os acidentes de trabalho. Relacionado
com tudo isso está também o indicador do absenteísmo, que foi elevado no início, quando a
utilização das horas extras era maior, enquanto agora está na média.

5. Fábrica global e especificidade nacional das relações sindicais: algumas conclusões


provisórias

A chegada da Foxconn tem representado para o sindicato de Jundiaí algo totalmente novo,
também porque é a primeira vez que uma empresa deste tamanho se localiza na área e também
porque a empresa começa a contratar com urgência, sem respeito da CLT, fazendo trabalhar
sem folga os primeiros funcionários. A Foxconn representa também a vinda da primeira
empresa chinesa em Jundiaí. Até agora a presença das empresas estrangeiras era sobretudo de
empresas europeias, alemãs em particular, e dos Estados Unidos. A presença mais significativa
de uma empresa asiática é a japonesa OKI. Neste sentido a Foxconn traz um padrão
organizativo e de relação trabalhista diferente da tradição metalúrgica da área. O sindicato
metalúrgico de Jundiaí tem construído a partir dos anos 90 um padrão sindical com boas
relações com o conjunto das empresas da área. Neste contexto a Foxconn tem representado uma
novidade nas dinâmicas sindical que em um primeiro momento encontra o sindicato
despreparado.
E um primeiro nível de análise podemos afirmar que as relações sindicas ficam marcadas
principalmente de uma primeira fase onde a empresa atua sem levar em conta o papel da CLT
e do sindicato. O mesmo sindicato nesta fase (2007-2008) parece sem condições de negociar as
condições de trabalho (o primeiro contato do sindicato com a situação na empresa vem de
empregados com irregularidades e outras violações). Na segunda fase (2008-2010),
caracterizada pelo temor da empresa de ser comparada às fabricas chinesas determina uma
maior disponibilidade da Foxconn a negociar com o sindicato. Na terceira fase (2011 até a hoje)
a relação parece mais evoluída mesmo com os conflitos na ocasião das campanhas salariais,
onde o sindicato consegue um maior reconhecimento. Na nossa interpretação esta terceira fase
da relação empresa e sindicato consolida também a exclusividade das negociações sobre as
questões econômicas e de defesa do emprego, considerado que as questões dos cargos e das

7
condições de trabalho parecem desaparecer da pauta reivindicativa. No caso da tutela das
condições de saúde, as providências parecem ficar a cargo, principalmente, se não
exclusivamente, do departamento jurídico do sindicato. Ainda sobre este tema, a ginástica
laboral parece ser a única coisa que o sindicato tem conseguido e só na Foxconn 1.
Em referência às hipóteses descritas no início os resultados da pesquisa obtidos até agora
confirmam algumas questões típicas da prática sindical brasileira e que se podem fixar pelo
menos em três âmbitos: a) o modelo de participação dos trabalhadores; b) a prevalência do tema
salarial nas reivindicações; c) a dificuldade do sindicato na iniciativa sobre o melhoramento das
condições de trabalho. O primeiro tema investe diretamente no aspecto da representatividade,
que depende seja da ausência da pluralidade sindical no local de trabalho, mas também das
modalidades de seleção dos diretores de base na fábrica. Ao mesmo tempo a falta de diálogo
com a base dos trabalhadores confirma uma tendência mais geral presente no sindicato
brasileiro, que parece cada vez menos uma exceção no panorama internacional. O segundo
assunto, a prevalência do reajuste salarial, se por um lado reflete as preocupações legítimas de
reajuste do salário num contexto de alta inflação reflete também a dificuldade de iniciativa
sobre outros temas apesar da cobertura assegurada pela lei sobre alguns assuntos. O terceiro
assunto constitui a questão mais problemática. Neste horizonte precisa considerar a existência
de vínculos que ficam na relação entre o sindicato e a empresa (o número limitado de horas
para os diretores de base atuarem na fábrica, a falta de um local sindical na empresa), na
previsão que faz a lei sobre este assunto e na falta desta problemática nas convenções coletivas.
Na conclusão deste trabalho desejamos chamar a atenção para duas questões comparativas
que se referem às condições de trabalho nas outras fábricas eletrônicas estrangeiras no Brasil e
a comparação destas condições com outras fábricas da Foxconn no mundo e por ultimo a
questão do tipo de ação sindical que a Foxconn encontra nas suas diferentes plantas no mundo.
No primeiro caso, segundo a pesquisa realizada da Wetering et al. (2015) sobre a indústria
eletrônica brasileira, o caso da Foxconn confirma os problemas nas condições de trabalho
levantadas (elevada quantidade de horas extras, formas irregulares de terceirização e mais em
geral condições de trabalho ruim, doenças profissionais, etc.). Todavia a comparação com
outras fábricas eletroeletrônicas de Jundiaí mostram uma avaliação diferente das condições de
fábrica que podem depender, por exemplo, da ergonomia do trabalho. Existe também uma outra
questão que parece comum e que fica relativa aos casos de assédio moral que dependem das

8
relações entre o management estrangeiro e os trabalhadores. No específico este tipo de conflito
classificado como “cultural” parece bastante difundido no resto da indústria estrangeira no
Brasil como mostram outras pesquisas sobretudo nas áreas de recente industrialização
(Carvalho e Garcia, 2011).
O segundo nível de comparação apresenta uma maior complexidade pela especificidade de
cada contexto nacional. Também se a comparação com as fábricas chinesas seja difícil pela
diversidade do contexto político-normativo e industrial (dimensão das fábrica e número de
empregados na China), a ilustração da situação das fábricas na China como na Europa Oriental
mostra que há elementos que são recorrentes também no caso do Brasil. As pesquisas
conduzidas da Pung Ngai e o seu grupo (2015) mostram que nas fábricas chinesas da Foxconn
os problemas mais recorrentes são também a elevada rotatividade da força de trabalho, horas
extras, elevada intensidade do desempenho no trabalho, assédio moral, doenças profissionais,
exploração da capacidade física do trabalhador até a sua demissão ou pedido de demissão. Estes
elementos são igualmente relevantes na análise de Sacchetto e Andriajasevic (2015) sobre as
duas fábricas da Foxconn na República Tcheca. Em relação à avaliação da ação sindical, seja
na China, como na República Tcheca, esta ação é muito fraca: no caso da China, o sindicato
oficial exerce sobretudo um papel de controle da mão de obra (especialmente de prevenção do
conflito), na República Tcheca o nível de sindicalização é muito baixo e não está garantida aos
sindicatos a liberdade de movimentos na fábrica. No caso do Brasil, a cobertura da ação sindical
é diferente porque o sindicato, além de ser previsto por lei, pode atuar por ocasião da eleição
da CIPA, nas eleições dos diretores de bases e pelas periódicas campanhas salariais. Em geral
na nossa provisória hipótese é que se o diferente papel do sindicato no Brasil, como evidenciado
pelo controlo na aplicação da CLT (também se não houver modificação na legislação,
pretendida pelo projeto de reforma trabalhista em curso no Brasil) e pela promoção da
intervenção do Ministério do Trabalho, permitam uma capacidade de inciativa mais elevada em
comparação com outros países onde a Foxconn está localizada, o sindicato aparece fraco sobre
as mudanças das condições de fabrica, sobretudo por quanto atinge a prevenção das doenças
ocupacionais que investem o trabalhador por conta de uma forma de organização do trabalho
que ainda se mantém muito taylorista.

9
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10
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11
A dimensão tecnológica do capitalismo contemporâneo e a
revitalização sindical: o caso da categoria bancária no Brasil

Gustavo Machado Cavarzan


Doutorando do IE-UNICAMP
gmcavarzan@[Link]

José Dari Krein


Professor do IE-UNICAMP
dari@[Link]

Introdução
O presente artigo tem o objetivo de indicar os desafios para ação coletiva e
organização sindical dos bancários, a partir das categorias de análise da revitalização,
considerando as profundas mudanças em curso no setor, a partir da globalização
financeira e das inovações tecnológicas . A hipótese é que as inovações na base técnica
do setor financeiro transformam de forma relevante as relações de trabalho nos bancos,
colocando novos desafios para a organização sindical dos bancários que passa por
importantes reconfigurações em suas estratégias de mobilização, organização e atuação a
fim de manter sua capacidade de regular as relações de trabalho, no contexto da chamada
“4ª revolução industrial.
Além desta introdução, o artigo está dividido em três seções, e considerações
finais. A primeira seção traça as características do regime de acumulação flexível; a
segunda seção trata das principais transformações tecnológicas observadas no setor
financeiro nos últimos anos e a terceira seção apresenta alguns elementos da literatura
acerca da revitalização sindical e como este referencial pode ajudar a compreender a
forma como as organizações sindicais de bancários no Brasil têm buscado se adaptar ao
novo contexto a fim de preservar sua representatividade e capacidade de ação. As
considerações finais destinam-se a apontar desafios futuros para o sindicalismo bancário
com base nas discussões apresentadas ao longo do texto, notadamente a partir da
importância do debate da revitalização sindical.

1. Acumulação flexível e fragmentação da força de trabalho

De acordo com Streeck (2013) as transformações no capitalismo pós década de


1970 seriam decorrentes de uma revolta do capital contra a economia mista do pós-guerra.
Tratou-se de uma crise de legitimação, em que os detentores do capital atuaram na
perspectiva de promover a libertação da economia capitalista da intervenção
democrática. Visava-se, a partir de então, flexibilizar os mercados, inclusive do trabalho
e reduzir o papel do Estado providência.
A acumulação flexível implicava níveis altos de desemprego estrutural, rápida
destruição e reconstrução de habilidades, processos estes vinculados à intensa inovação
tecnológica, além de modestos ganhos de salários reais e o retrocesso do poder sindical,
uma das colunas do regime de acumulação do pós-guerra. Houve ainda uma redução de
emprego regular em favor do crescente uso do trabalho em tempo parcial, temporário ou
subcontratado. Formou-se assim um mercado de trabalho instável, fragmentado e
hierarquizado, sujeito a uma lógica cada vez mais mercantil. 1
A flexibilização não se deu apenas no mercado de trabalho, mas também nos
mercados de bens, serviços e capitais. Este capitalismo se caracteriza pela grande
concentração de capital fixo apoiada pela dominância dos agentes financeiros. A
concorrência sem limites leva a busca desenfreada de redução de custos e do aumento da
produtividade obtida através da inovação tecnológica e da terceirização. Deste
movimento surge uma nova divisão internacional do trabalho com o redirecionamento
dos fluxos de investimento e a deslocalização da indústria em direção as economias
asiáticas. (Belluzzo, 2009)
As transformações do capitalismo são acompanhadas por mudanças profundas na
estrutura social, com uma crescente polarização das ocupações, em que parte mais
expressiva delas concentram-se em atividades que exigem pequena qualificação e baixos

1
Harvey (2004); (Freyssinet, 2009) e Hyman (2015)
salários, inclusive muitas ligadas aos serviços pessoais e domésticos, dependentes da
renda de famílias ricas. Além da internacionalização da produção de bens e serviços, há
que se considerar o impacto da reestruturação produtiva, que afetaram o nível de
empregos tanto na manufatura quando nas áreas de serviços e administrativas, além de
vendas, compras, distribuição, etc. (Antunes, 2011)
Nos últimos anos alguns estudos2 passaram a utilizar o termo “4ª Revolução
Industrial” para descrever uma série de novos processos de inovação tecnológica
aplicados a produção de bens e serviços. Schwab (2016) destaca que esta nova revolução
teve início na virada do século XX para o século XXI, baseia-se na revolução digital e
caracteriza-se por uma internet mais onipresente e móvel, sensores menores, mais
potentes e mais baratos e pela inteligência artificial e aprendizagem automática das
máquinas. O autor destaca algumas tecnologias características desse contexto:
“inteligência artificial (IA), robótica, a internet das coisas (IoT, na sigla em inglês),
veículos autônomos, impressão em 3D, nanotecnologia, biotecnologia, ciência dos
materiais, armazenamento de energia e computação quântica, para citar apenas alguns.”
(Schwab, 2016 , pg. 11)
De acordo com Belluzzo e Galípolo (2016)3, este movimento ganha força a partir
da tentativa de reindustrialização de países europeus e também dos EUA, como resposta
à relocalização da indústria para regiões de baixos salários observada desde a década de
1970. Se com a 4ª revolução industrial é possível produzir com a utilização de
pouquíssima mão de obra, então não seria mais necessário o deslocamento da produção
para países asiáticos, por exemplo.
Em publicação recente do Fórum Econômico Mundial intitulada “The Future of
Jobs” o organismo analisa os impactos da nova revolução industrial sobre os empregos e
aponta que uma série de profundas mudanças nos modelos de negócios nos mais diversos
setores de atividade econômica, impulsionadas por novas tecnologias causarão a extinção
de 5,1 milhões de empregos em escala global até 2020. 4 O conjunto de transformações
afeta também o setor financeiro, centro da análise deste artigo, de forma bastante

2
Ver, por exemplo, Schwab (2016)
3
Belluzzo e Galípolo (2016)
4
World Economic Forum (2016)
relevante. Outros estudos mostram que as inovações tecnológicas criam outras ocupações
e demandas (AUTOR, 2014).

2. A recente onda de inovações tecnológicas no setor financeiro

É possível identificar dois vetores de transformações no setor financeiro oriundos


das inovações tecnológicas. Um vetor interno que consiste na travessia realizada pelos
bancos rumo ao chamado “Banco Digital”, que consiste na aplicação de várias das
inovações características da chamada 4ª revolução industrial nos serviços financeiros. Os
pilares do chamado Banco Digital foram definidos pela Federação Nacional dos Bancos
(FEBRABAN), entidade patronal dos bancos no Brasil: consolidação de internet e mobile
banking como principais canais bancários; evolução dos papéis das agências como canal
de serviços e relacionamento com os clientes; busca da automação e digitalização de
processos com alavanca de eficiência operacional; investimentos em segurança das
transações; diversificação dos meios de pagamento para novas plataformas eletrônicas.
(FEBRABAN, 2013)
O vetor externo, por sua vez, consiste no surgimento das Fintechs, startups de
serviços financeiros. Em suma são empresas não financeiras, sem nenhum tipo de
presença física para contato com clientes, altamente especializadas oferecendo serviços
financeiros em plataformas exclusivamente digitais, geralmente em aplicativos para
smartphones. A atuação das fintechs encontra-se ainda em fase inicial.
Os pilares da mudança referentes ao vetor interno, por outro lado, encontram-se
em fase avançada. O gráfico abaixo mostra a velocidade com que as transações bancárias
por meios digitais vêm crescendo. Em 2011 as transações por smartphone nem sequer
apareciam no gráfico, enquanto em 2015 já representaram 21% do total de transações
financeiras no Brasil. O principal canal de transações é a internet com participação de
33%. Por outro lado, os canais de atendimento que envolvem interação com trabalhadores
e trabalhadoras respondem por 3% (correspondentes bancários), 8% (agências bancárias)
e 3% (call center). 5 Em suma, as estatísticas disponíveis mostram que os clientes dos

5
FEBRABAN (2015)
bancos realizam, cada vez mais, suas operações nos canais digitais, plataformas com
necessidade quase nula de interação humana.

Gráfico 01: Transações Bancárias no Brasil por canal de atendimento - em


percentual de participação

Fonte: Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária 2015

Se para as instituições financeiras, a nova onda tecnológica representa expressiva


redução de custos operacionais com papéis, arquivos físicos, postagem, impressão,
transporte de valores e, principalmente, força de trabalho, do ponto de vista dos
trabalhadores da categoria bancária os efeitos negativos parecem se sobressair, com
redução do emprego, intensificação da jornada, fragmentação sindical e dificuldades de
organização. (SANCHES, 2012)
A análise do CAGED-MTE revela que desde o início de 2012 até março de 2017,
o saldo de empregos no setor bancário tem sido sistematicamente negativo, acumulando
43.386 postos de trabalho a menos nos bancos brasileiros neste período, o que permite
trabalhar com a hipótese de que se trata de uma mudança estrutural na configuração do
emprego no setor financeiro brasileiro, decorrente da externalização de parte do trabalho
e das inovações tecnológicas no setor. 6 Entre 2012 e 2015 os bancos privados fecharam
21.657 postos de trabalho, sendo que 78% da redução de empregos se deu nas ocupações

6
Vallejos e Cavarzan, (2015)
de caixa e escriturário, ocupações tradicionalmente próximas e leais ao movimento
sindical bancário. 7

3. A organização sindical bancária neste contexto

Na análise8 do cenário adverso para a organização sindical dos bancários serão


utilizadas as elaborações construídas no âmbito da teoria de revitalização sindical, que
nos ajuda a identificar diferentes dimensões de ação estratégica (FREGE, KELLY, 2004).
De acordo com Behrens; Hamann, e Hurd (2004), a revitalização sindical pode ser
conceituada como a retomada de poder ao longo de quatro dimensões que capturam as
principais esferas da atividade sindical: adesão dos sócios, econômica, política e
institucional. 9
Com relação à dimensão da adesão, há que se analisar a evolução do número de
sócios, a densidade sindical e a própria composição dos sócios. Nesse sentido, é
importante ressaltar inicialmente a tendência à redução do número de bancários e um
crescimento das ocupações geradas fora do sistema financeiro, especialmente com o
correspondente bancário e o desenvolvimento de outras categorias de trabalhadores no
setor, o que indica uma tendência à queda da base sindical.
Uma dificuldade adicional decorre do fato de a redução do emprego bancário
concentrar-se nas ocupações que são tradicionalmente a base das mobilizações,
assembleias e movimentos grevistas, ou seja, os bancários(as)de agências. As ocupações
que ganham importância nos bancos são de nível gerencial e não possuem relação
próxima aos sindicatos. Desse ponto de vista percebe-se que há necessidade de traçar
novas estratégias para que a composição dos sócios do sindicato reflita as transformações
na categoria.
As alterações também afetam a densidade sindical. Há uma queda da taxa de
sindicalização do setor financeiro entre 2002 (43%) e 2013 (35%), com retomada parcial

7
Dados da RAIS.
8
É um estudo em curso, como parte da tese de doutoramento de Gustavo Machado Cavarzan.
9
Krein e Dias (2015) acrescentam uma quinta dimensão, a societal, que não será considerada no presente
texto.
em 2015 (40%)10. Esse movimento tem implicações para a legitimidade,
representatividade e poder de barganha da categoria. O desafio, na perspectiva da
revitalização deve contemplar, portanto, um aumento tanto da filiação como da densidade
sindical, e também mudanças apropriadas na composição dos sócios. (Behren; Hamann e
Hurd, 2004)
A dimensão econômica inclui o poder de barganha, a capacidade de alcançar
melhorias nos salários e benefícios, e mais amplamente o impacto do trabalho na
distribuição da riqueza. Desse ponto de vista é fundamental avaliar os métodos e
estratégias que estão ao alcance do sindicato para obter ganhos econômicos para a
categoria que representam. Entre 2004 e 2016, as greves na categoria foram bastante
constantes e volumosas. No entanto, as greves afetam cada vez menos o funcionamento
do sistema bancário, diante da digitalização do atendimento bancário e da possibilidade
de trabalho a distancia através de dispositivos eletrônicos. (SANCHES, 2012)
A greve, enquanto estratégia caminha para um impasse visto que a possibilidade
de sucesso da mesma concentra-se nas paralisações em agências e call centers, que juntos
respondem por apenas 11% das transações financeiras nos bancos no Brasil. Os sindicatos
já têm ampliado suas estratégias para fazer frente a tal cenário através de movimentos de
paralisação focados cada vez mais nos centros administrativos e centros tecnológicos das
instituições financeiras. (SANCHES, 2012). Mesmo com tais adversidades os resultados
econômicos das negociações no período foram bastante satisfatórios, com ganhos reais
de salário de 19% desde 2004, elevação substantiva do valor da remuneração variável,
especialmente, por meio da PLR, a ampliação de outros benefícios sociais e de combate
à discriminação (COLOMBI, KREIN, 2016). No entanto, o avanço tecnológico exigirá
cada vez mais criatividade para que a mobilização continue resultando em ganhos para a
categoria.
A dimensão política consiste na capacidade de os sindicatos influenciarem o
processo político através do apoio a partidos e candidatos, ou a influencia no âmbito da
atividade legislativa. Apesar da expressiva participação política dos bancários na
ocupação de espaços institucionais de definição de políticas públicas, o marco regulatório
não conseguiu colocar limites e nem contrapartidas para o avanço das inovações

10
Dados da PNAD.
tecnológicas e reconfiguração do sistema financeiro. A única exceção foi a ampliação dos
serviços dos bancos públicos, o que explica, entre outras razões, a elevação do emprego
bancário, entre 2004 e 2012.
A dimensão institucional aborda as estruturas organizacionais dos sindicatos, bem
como suas dinâmicas internas. Compreende a capacidade de adaptação dos sindicatos a
novos contextos e o entusiasmo interno por adotar novas estratégias. Na questão
organizativa, houve um esforço de ampliar a organização sindical para representar os
terceirizados e os trabalhadores do sistema financeiro não bancários, como pode ser
observado com a criação da CONTRAF (Confederação Nacional dos Trabalhadores do
Ramos Financeiro). Apesar de ações coletivas com terceirizados e de abrir os estatutos
aos trabalhadores do ramo financeiro, não se avançou na sua representação, devido aos
limites da estrutura sindical oficial. Os avanços foram em criar espaços para segmentos
historicamente com pouco participação sindical, como as mulheres, assim como os com
identidades culturais, de raça e etnia e jovens. Ainda que esta dimensão seja difícil de ser
mensurada, pode-se observar iniciativas como a parceria com outras instituições como o
IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) e movimentos sociais, a criação da
Faculdade e do Centro de Pesquisa 28 de Agosto, a aproximação com a academia para a
formulação de subsídios à ação sindical..11 Tais aspectos são destacados por Frege, Heery
e Turner (2004) que argumentam que a revitalização sindical coloca a necessidade de os
sindicatos ampliarem seus objetivos para além de questões imediatas e atuarem em frentes
mais amplas de progresso social. Além disso, argumentam os autores que os sindicatos
devem ser capazes de agir em conjunto com outras forças sociais progressistas.
A revitalização sindical é considerada como um processo contínuo, em que uma
dimensão pode ser mais destacada em determinado período, mas sempre abarca todas ao
longo do tempo. O sindicalismo bancário enfrenta adversidades nas dimensões, mas
também há iniciativas em curso em cada uma delas, que demonstram a possibilidade de
utiliza-las para analisar a ação sindical nos anos recentes.
A título ilustrativo, algumas formulações recentes que surgem na minuta de
reivindicações dos bancários sobre o enfrentamento das inovações tecnológicas
contribuem para ilustrar a análise. Em 2015, a minuta da categoria incluiu entre suas

11
[Link]
[Link]
reivindicações salário de ingresso para técnico de Tecnologia da Informação. É possível
observar ainda no documento uma série de outros artigos que tratam do tema da
tecnologia e seus impactos no emprego como o Artigo 40 que trata de garantias contra
dispensa imotivada e o artigo 47 que reivindica a constituição de uma comissão bipartite
sobre mudanças tecnológicas.
O artigo 53 incorporou em 2014 a reivindicação para que sejam contemplados
como tempo de trabalho a utilização de celular corporativo ou outros meios telemáticos
e informatizados. O artigo 55 busca garantir que os funcionários recebam o treinamento
e formação adequada em diversas situações, inclusive “por motivos de introdução de
novas tecnologias”. O artigo 56 trata do horário de atendimento dos bancos e em 2015
foi complementado com os termos “agências digitais, de negócios e quaisquer outros
modelos de atendimento”. Tal alteração justifica-se pela criação de modelos de agências
digitais. Por exemplo, o Banco Itaú, no relatório aponta que já são 135 agências digitais
com atendimento das 07:00 as 24:00 exclusivamente por meios remotos (e-mail, telefone,
SMS, chat ou videoconferência).12
O artigo 71 da minuta que trata do fim das metas abusivas ganhou novo parágrafo
em 2012 para garantir que “os bancos não efetuarão cobrança de metas por meio de
correio eletrônico, SMS ou quaisquer outros meios tecnológicos, inclusive, grupos de
redes sociais (WhatsApp, facebook, etc.)”.
Por fim em 2016, a minuta da categoria incluiu um extenso artigo (48) que visa
regular diversos aspectos das condições de trabalho nas chamadas “agências digitais”,
desde remuneração, emprego, jornada e ritmo de trabalho, até acesso de dirigentes
sindicais aos locais de trabalho. Como resposta ao novo artigo da minuta d reivindicações
dos bancários, a Fenaban propôs a criação de um grupo de trabalho para analisar critérios
de realocação e requalificação, cujas regras ainda estão por ser estabelecidas .
Ainda que o tema das mudanças tecnológicas esteja presente nas minutas de
reivindicações desde os anos 90 com atualizações constantes, os avanços concretos nas
campanhas salariais com inclusão de cláusulas na Convenção Coletiva de Trabalho sobre
este tema ainda são tímidos. Em 2013, por exemplo, a categoria conquistou cláusula que
proíbe que os gestores façam cobrança de metas por mensagens no telefone particular dos

12
Demonstrações Financeiras do Banco Itaú Unibanco, 4º trimestre de 2016.
trabalhadores(as) . Nenhuma das outras cláusulas sobre tecnologia, no entanto, foi
convencionada. Trata-se de um desafio para o sindicalismo bancário nos próximos anos,
especialmente sobre os impactos no emprego e nas condições de trabalho, inclusive na
saúde em função da intensificação da cobrança de metas e resultados e alterações na
jornada.

Considerações Finais
. Os sindicatos continuam tendo importante papel na definição das condições de
vida dos trabalhadores no trabalho e na sociedade. Eles estão ou precisam estar em
processo de renovação de suas estratégias para enfrentar as mudanças em curso. A
observação das ações coletivas a partir da teoria da revitalização contribui para observar
o que ocorre no sindicalismo, mesmo ainda não sendo possível apresentar uma conclusão
mais precisa sobre os resultados no atual estágio do estudo. Assim, no presente artigo
procurou-se trazer elementos concretos que ilustrem o cenário adverso para os
trabalhadores e a tendência de aprofundamento deste cenário, mas ainda assim percebe-
se que o movimento sindical bancário tem dado mostras de sua capacidade de renovação
e de criação de novas estratégias e, nesse sentido, mostra-se como um ator importante do
debate e da construção do fortalecimento do movimento sindical brasileiro como um todo.
As entidades sindicais bancárias estão desafiadas a traçar novas estratégias de
aproximação com sua base, de mobilização e organização, notadamente porque os
bancários mais próximos do sindicato são justamente os trabalhadores de agências, cujas
funções tendem a se esvaziar no novo contexto tecnológico aqui apresentado.
Os desafios colocados para a categoria são imensos. Passam pelo debate acerca
da configuração do sistema bancário, do marco regulatório do setor, do desemprego
tecnológico, das formas de distribuir os ganhos de produtividade provenientes da
tecnologia entre os trabalhadores, seja através de remuneração, seja através da redução
da jornada de trabalho, pela requalificação profissional de bancários e bancárias que terão
suas funções suprimidas pela automação, por novos problemas nas condições de trabalho
e na saúde da categoria, pelas alterações na pirâmide cargos e salários, pela representação
das novas ocupações que ganham importância nos bancos e, por fim pelos próprios
métodos de mobilização, paralisação e negociação, diante de um cenário de automação
extrema dos processos de trabalho.
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Características y determinantes de las huelgas laborales (in)eficaces en el
sector privado de la economía en el Chile Actual (2006-2016)

Nicolás Ratto
Licenciado en Sociología
Universidad de Chile
Estudiante de Magister en Ciencias Sociales,
Mención Sociología de la Modernización
Universidad de Chile
Nicolás Selamé
Licenciado Sociología
Universidad de Chile
Correo de contacto:
nicolasrattor@[Link]

Introducción
Los últimos diez años han sido caracterizados por variados analistas y fuentes de información
como años de resurgimiento de las movilizaciones de trabajadores en Chile (Gaudichaud,
2015; Urrutia, 2015; Ruiz & Boccardo, 2014; Aravena & Núñez, 2009; OHL, 2016). Así
mismo ha habido una politización de la sociedad chilena (PNUD, 2015) y una emergencia de
distintos movimientos sociales (Garretón, 2014; 2016; Barozet, 2016; De la Maza, 2016;
Boccardo & Ruiz, 2014). En conjunto, estos movimientos han comenzado a tensionar y
agrietar la hegemonía neoliberal que imperó en relativa paz social durante la dictadura militar
chilena (1973-1989) y durante gran parte de los gobierno de la Concertación de Partidos por
la Democracia (1990-2010).

1
Estos movimientos sociales se han topado con una institucionalidad que si procesa sus
demandas lo hace de manera degenerada, después de fuertes presiones sociales, intentando
armonizar los cambios con la base socio económica neoliberal (Gaudichaud, 2015). Se trata
de una democracia restringida (Garretón, 1995; Moulian, 2002) que blinda al modelo
neoliberal, por la cual la mayoría de estos movimientos sociales no han podido conseguir sus
objetivos refundacionales, limitándose a conseguir irritaciones en el sistema político
(conformación de la coalición política Nueva Mayoría), y reformas parciales y limitadas al
modelo (Barozet, 2016). Es decir, han sido parcialmente ineficaces, hasta el momento.

Respecto a los éxitos de las acciones colectivas de los trabajadores en Chile no se ha dicho
casi nada desde las ciencias sociales, en especial cuando la acción colectiva tiene que ver con
cuestiones a nivel de empresa, tipo de huelga que prima ampliamente en Chile (Armstrong
& Águila, 2006; OHL, 2016). Por un lado, han tomado relevancia los análisis políticos y
legales respecto al fracaso que significó para los trabajadores la discusión y aprobación de la
Reforma Laboral los años 2015-2016 (Fundación Sol, 2015; Ugarte, 2016), y por el otro, casi
todas las investigaciones sobre trabajo y/o sindicalismo, que se posicionan desde una
perspectiva crítica, concuerdan en que los trabajadores en Chile tienen un bajo poder de
negociación, debido a las reestructuraciones productivas de los últimos 40 años y el Plan
Laboral implementado en la dictadura militar (López, 2004; Salinero, 2006; Gaudichaud,
2015; Urrutia, 2015; Julián, 2015). Lo anterior se expresaría en la baja tasa de sindicalización
y en la escasa incidencia que tiene la negociación colectiva en Chile para disminuir la
desigualdad de ingresos (Durán, 2009; Reinecke & Valenzuela, 2012).

Entonces, no existe ningún dato o estudio que intente observar empíricamente, más allá de
las comentadas tasas de sindicalización y negociación colectiva, como se expresa esta
determinación estructural pro empresa en Chile en los resultados de los diversos conflictos
colectivos en los que participan los trabajadores1. En esta investigación pretendo aportar en
remediar esta situación, realizando un paso previo a cualquier medición objetiva de la

1
Una excepción puntual es la investigación de Stillerman (2017) que estudia las determinantes de los resultados
de las diversas huelgas laborales en la historia de la empresa MADECO en Chile, pero es un estudio de caso,
que no logra dar una perspectiva más general de la cuestión.

2
eficacia de la huelga laboral en Chile: ver qué factores influyen en que una huelga laboral
sea eficaz (Burchielli, 2004), y como son las huelgas eficaces.

Antecedentes

Pese a la creciente movilización y conflictividad social en Chile hay una serie de elementos,
particularmente en el mundo laboral, que siguen estando presentes y que se configuran como
factores comunes que todos los trabajadores que se movilizan deben enfrentar de alguna
forma. Estos elementos, siendo esquemáticos, serían: (1) una institucionalidad restringida
que intenta limitar la acción sindical (Aguilar, 2017), (2) un movimiento sindical débil,
dividido, fruto de la institucionalidad comentada pero también por una serie de derrotas
políticas desde 1973 a la fecha, de despolitización de las bases y de varios dirigentes
sindicales, entre otros elementos (Julián, 2015), y (3) las formas de organizar el trabajo y de
acumular el capital presentes en Chile que se inician desde 1975 con el shock neoliberal, con
una serie de políticas posteriores y con grandes cambios económicos y culturales a nivel
mundial (Aguilar, 2017).

Todas estas transformaciones llevan a que en Chile los sindicatos sean una realidad
excepcional al interior de las empresas, así como también los trabajadores que se encuentren
sindicalizados, que no han superado el 15% del total de la fuerza de trabajo ocupada en más
de 20 años (Dirección del Trabajo, 2014). Dentro de esta realidad excepcional del sindicato
en Chile, se ubica el fenómeno aún más excepcional de la huelga laboral, que involucró el
año 2015, en el sector privado de la economía, a menos del 2% de los trabajadores ocupados
en el país (OHL, 2016).

Enfoque teórico

Por huelga nos referimos a la negación colectiva (Ermida, 1996) del proceso de trabajo
capitalista por parte de los trabajadores, para generar daño económico a la contraparte
(Álvarez, 2006) en el marco de una negociación –en sentido amplio- entre sujetos con
antagonismos estructurados y con poderes de negociaciones diferenciales (Edwards, 1990;
Womack, 2007). En ese marco de negociación, el objetivo último de las partes no es generar
daño a la contraparte necesariamente, si no que lograr imponer sus términos, o la mayor parte

3
de ellos. Por lo mismo, para llegar a ese fin, los trabajadores pueden ocupar un repertorio
casi ilimitado de acciones junto a la huelga (Hyman, 1981; Bourdieu, 1990). En la presente
ponencia nos centramos en conocer las características y determinantes de las huelgas
eficaces.

La eficacia para un sindicato tiene que ver con el grado en el que alcanza sus objetivos cuando
realiza determinadas acciones: un sindicato sería eficaz cuando aplica con éxito las palancas
o tácticas adecuadas de poder para lograr sus metas (Gall & Friorito, 2014). En este caso, la
huelga. Los autores dirán que cualesquiera que sean los objetivos decididos, es necesario
tener claridad de cuales objetivos están siendo o no evaluados a la hora de conocer la eficacia
sindical, como también importa quién está haciendo la evaluación. Los sindicatos tendrán
objetivos sindicales básicos relacionados con el bienestar de sus miembros (Bryson, 2009),
es decir, con la defensa de sus intereses, pero estos se expresan en diversas arenas y
dimensiones. Habría que preguntarse, entonces, por qué vías o indicadores será medida la
eficacia de una huelga (Burchielli, 2004). Para hacer la evaluación de la eficacia de cada
huelga que he estudiado consideré los aumentos de salario, los aumentos de beneficios, el
recibo de bonos y el aumento de la afiliación sindical (o más bien su no disminución) que
esta genera para los trabajadores involucrados en la huelga. Es decir, consideré elementos de
corto plazo, fácilmente objetivables, y altamente materiales, lo que choca con las sugerencias
que hacen, por ejemplo, Molina & Barranco (2016) de ver la huelga más allá de sus logros
inmediatos y materiales.

Metodología

Para producir la información que presentamos a continuación realizamos y analizamos 10


entrevistas semi-estructuradas a dirigentes sindicales que participaron de huelgas laborales
entre los años 2006 y 2016, y analizamos mediante el análisis de correspondencia simple una
base de datos de 42 huelgas laborales. La base fue generada utilizando a Armstrong-OHL
(2006-2015) y a [Link] (2016), y si bien no es representativa estadísticamente
comparte varias características generales con el universo de huelgas ocurridas en Chile entre
2006 y 2016, y con los resultados cualitativos.

4
Resultados

La efectividad de la huelga laboral es una importante determinante de su eficacia

La efectividad de la huelga laboral es una de las principales determinantes de la eficacia de


la huelga. En la mayoría de los casos el alcanzar una alta efectividad con la huelga laboral
implicó lograr una alta eficacia en la misma. Es decir, el generar daño económico a la
contraparte con la que negocian los trabajadores es una condición para que éstos alcancen
resultados positivos al terminar una negociación (Stillerman, 2017). Aunque también, en
sectores de trabajadores con alto poder de negociación, se utiliza bastante el “efecto-
demostración" de la huelga (Ermida, 1996), con diversas acciones de simulación que hacen
ver al oponente que la huelga tendrá mucha fuerza y/o con huelgas cortas pero altamente
efectivas, que dejan en el oponente la percepción de que la próxima paralización será más
fuerte sino acepta parte importante de lo demandado por los trabajadores.

5
Análisis de correspondencia entre eficacia y efectividad de la huelga laboral

Las huelgas eficaces son de corta duración y representativas


Hay cierta relación entre la eficacia de la huelga y el número de trabajadores comprometidos
(TC) en estas (su masividad): las huelgas con un alto número de trabajadores comprometidos
son eficaces. Por el otro lado, existe una asociación negativa entre la duración de las huelgas
laborales y sus niveles de eficacia. Es decir, a mayor duración, más ineficaz –e incluso
costosa- es la huelga.

6
Análisis de correspondencia entre eficacia y TC en la huelga

Análisis de correspondencia entre eficacia y duración de la huelga

7
Tradicionalmente la forma de ver el impacto e indirectamente la efectividad de la huelga es
mediante los “días hombre de trabajo perdido” (DHTP), es decir, a la multiplicación entre la
duración de una huelga laboral y los trabajadores comprometidos en ésta (Armstrong &
Águila, 2006). Pero la variable DHTP esconde la acción contraria de dos variables, oscurece
la realidad pues combina el efecto negativo sobre la eficacia de la variable duración, con el
efecto positivo de la variable trabajadores comprometidos en la huelga. Entonces, a la hora
de estudiar las características de las huelgas eficaces, conviene más usar las variables
duración y trabajadores comprometidos por separado.

Hay una segunda forma para medir la masividad de la huelga, que parece ser más exacta que
la variable TC en la huelga: la representatividad, es decir, el porcentaje de los trabajadores
en huelga con respecto al total de la empresa. Este, es un factor determinante de la eficacia
de la huelga, según el análisis cualitativo de las 10 entrevista (por la complejidad
metodológica de su construcción no abordamos cuantitativamente esta variable). Las huelgas
más eficaces, más que involucrar a muchos trabajadores en términos absolutos, involucran a
muchos en términos relativos: o son casi todos los de la empresa o son una mitad activa que
impide que todos los demás trabajadores puedan continuar con sus labores normales. Esta
relación puede darle esperanzas a los sindicatos pequeños por condicionamientos productivos
de la empresa (más no por incapacidad de sumar a la mayoría de los trabajadores): incluso
teniendo un sindicato pequeño, pero altamente representativo, se puede hacer una huelga
efectiva y eficaz. Pero así mismo, los sindicatos pequeños, poco representativos y con
huelgas de alta duración en casi todos los casos alcanzan malos resultados al finalizar la
huelga.

8
Duración, TC, efectividad y eficacia de las huelgas laborales cuyos dirigentes fueron
entrevistados

Empresa(s) Duración TC Representatividad Efectividad Eficacia


(días)

Empresa de bombeo 5 55 18% Baja efectividad Costosa


de hormigón

Empresas 1 34.000 95% Alta efectividad Alta eficacia


recolectoras de
basura de
Municipios

Empresa que 17 65 3,6% Baja efectividad Baja eficacia


produce y reparte
pizzas

Cerro Bayo 10 250 50% Alta efectividad Alta eficacia


Empresa minera de
extracción de oro

Contratista de 1 45 100% Alta efectividad Alta eficacia


recolección de
residuos mineros

Empresa que vende 27 8.300 55% Media efectividad Costosa


al por menor y
mayor insumos para
la construcción

Fundación que 7 225 23% Baja efectividad Media eficacia


vende seguros y
presta servicios de
salud

Empresa de 24 60 30% Baja efectividad Baja eficacia


Fabricación y
Mantención de
semáforos

Empresa que tiene 15 200 100% Alta efectividad Alta eficacia


la concesión de un
puerto del norte de
Chile

9
Contratista de 14 1.500 90% Media efectividad Media eficacia
transporte de
mercancías de Gran
Empresa de Bebidas

Fuente: elaboración propia en base al análisis las diez entrevistas semi-estructuradas

La huelga no existe en abstracto, para que sea eficaz hay que articularla a otras acciones
Los trabajadores, cuando se toman en serio el objetivo de afectar a la contraparte –económica
y más que económicamente-, para así poder tener una huelga eficaz, acoplan la huelga laboral
a una serie de otras acciones, y por lo general, siempre lo hacen (Bourdieu, 1990). Para los
sindicatos con bajo poder de negociación las acciones acopladas a la huelga no determinan
de forma importante los niveles de la eficacia de la huelga. Para los sindicatos con poder de
negociación medio, las acciones acopladas pueden hacer importantes diferencias en la
efectividad de la huelga, pero no en sus resultados necesariamente. Para los sindicatos con
poder de negociación alto –generalmente de sectores estratégicos de la economía- las
acciones acopladas a la huelga son excepcionales, pues importa más en estos casos la
posibilidad de la acción, que la acción misma. Pese a esto, en algunos momentos se hace
necesario, por diversas razones, ejecutar los acoples. Es aquí cuando las acciones acopladas
cobran su esencial determinación para la efectividad y eficacia de las huelgas en estos
sectores con alto poder de negociación.

Toda articulación con actores sociales y políticos termina siendo útil para los huelguistas

Por un lado están las articulaciones sociales orgánicas de los huelguistas, dentro de las cuales
las más comunes son las vinculaciones con otros sindicatos, federaciones y/o
confederaciones. Estos apoyos, al igual que lo excepcionales apoyos de estudiantes y
organizaciones política de la nueva izquierda, no hacen más efectiva (y aún menos más
eficaz) la huelga laboral, pero sí hacen más grato y digno el tiempo ocupado en la
movilización. Hay un tipo de apoyo sindical, hacia los sindicatos de empresa, que si termina
siendo eficaz. Este apoyo es la amenaza (como posibilidad real) de paro o huelga general de
parte de organizaciones sindicales supra empresa. Hay casos excepcionales en donde las
huelgas son apoyadas por las comunidades en donde se incrustan socialmente las empresas

10
y sus trabajadores. En estos casos los apoyos de la comunidad son claves para la eficacia de
las huelgas.

Por otro lado, están las articulaciones sociales inorgánicas de la huelga, es decir, el apoyo
más o menos favorable del público, clientes, terceros, de la ciudadanía o de la opinión
pública. Estos apoyos si bien no aumentan directamente la efectividad de la huelga si
moralizan a los trabajadores, como también difunden la problemática –y eventualmente
pueden aumentar la eficacia de la huelga presionando socialmente a la contraparte de los
trabajadores-. De parte de los trabajadores en huelga hay una preocupación constante por
informar y por conseguir adhesión de estos públicos. En general, en Chile las huelgas son
poco difundidas y conocidas por la opinión pública, por la alta concentración de los medios
de comunicación en Chile (Gonzalez & Saavedra, 2015). Y cuando excepcionalmente se dan
a conocer las huelgas, esto se hace de manera parcial. Cuando, aún más raramente, la
ciudadanía se pone del lado de los trabajadores -como sucedió con la huelga de 2016 de
Homecenter, cuando la empresa suspendió las actividades de navidad para los hijos de los
huelguistas-, las críticas públicas a la empresa hacen su efecto. Por esta presión social,
Homecenter tuvo que retirar su medida. En este caso el apoyo inorgánico aumentó de cierta
forma la eficacia de la huelga, al evitar una exclusión material y simbólica de las familias de
los huelguistas por el solo hecho de estar en huelga, pero la huelga termino siendo ineficaz e
incluso costosa para los trabajadores.

Por último, están las articulaciones con la política. Las huelgas más difundidas suelen tener
apoyo de personalidades importantes tanto del mundo de la política, los espectáculos e
incluso del mundo de la iglesia. Pero estos apoyos no aumentan ni la efectividad ni la eficacia
de las huelgas, pero les da esperanzas a los huelguistas y les aumenta la moral. Así también,
la presencia de instituciones o cargos públicos tampoco aumenta la eficacia de la huelga. Hay
una excepción con los cargos públicos, que se da cuando estos son controlados por los
mismos trabajadores en huelga (el CORE2 del sindicato de la Minera Cerro Bayo). Cuando
una función política como esta, está al servicio del sindicalismo, les permite a los huelguistas

2
Consejero Regional.

11
generar sus propias presiones políticas, conocer información más o menos confidencial, y
generar reuniones con autoridades sin mediaciones, y desde una posición no subordinada.

Pese a que en pocos casos las articulaciones aumentan la eficacia de las huelgas, todas las
articulaciones que los trabajadores consiguen en sus huelgas son útiles, en algún sentido, para
ellos. Especialmente en un país cuyos medios de comunicación en manos de grandes grupos
económicos privados, por vinculaciones económicas o solidaridad de clase, vetan de la
opinión pública a la mayoría de las huelgas laborales. Esto, sumado a la restrictiva legislación
laboral chilena hacia las movilizaciones de trabajadores, hace que los trabajadores
agradezcan y le saquen provecho a cada organización o personalidad que aparece en la
huelga.

Las acciones de la contraparte disminuyen la eficacia de la huelga

La empresa o la contraparte con la que negocian los trabajadores en huelga usa una serie de
acciones –y omisiones de acciones- para contrarrestar el poder de los huelguistas, y así
afirmar su poder puesto en duda por los mismos (Edwards, 1990). Son acciones que juegan
el papel de determinantes claves de la efectividad de la huelga, pues reducen el daño que esta
genera y/o le otorgan un sobre poder a la empresa en la negociación con los trabajadores. Los
reemplazos a los huelguistas y las amenazas de despido son una práctica común por parte de
las empresas en Chile. Así también juegan un rol importante, las “negaciones del dialogo”
por parte de las empresas, lo que potencia el conflicto en general, determinando que se
resuelva de forma negativa para los trabajadores con bajo poder de negociación, y de forma
positiva para los trabajadores con alto o medio poder de negociación.

Las huelgas eficaces suelen no reglamentarse bajo el Código del trabajo

En las hipótesis identificamos a la institucionalidad laboral existente desde la dictadura


militar como la gran expresión en la política de la dominación de una clase sobre otra en
Chile. Le dimos a esta expresión un carácter totalizante sobre las diversas expresiones del
conflicto colectivo laboral en el país, incluso sobre los conflictos no regidos bajo las normas
codificadas en el Código del Trabajo, como las huelgas no regladas. Identificamos a esta
superestructura política como el gran elemento determinante de la (baja) eficacia y (baja)

12
efectividad de la huelga en el Chile de los últimos 10 años. Pero al parecer, esta
institucionalidad laboral ha perdido parte (si es que alguna vez lo tuvo) de su carácter
totalizante sobre las expresiones conflictivas de los trabajadores. Hay una gran cantidad de
conflictos colectivos de trabajadores, que sin ser mayoritarios, ocurren por fuera de estas
normas. Lo interesante de estos conflictos, más allá de su carácter “ilegal” para algunos, es
que actualmente en Chile son el tipo de conflicto, particularmente el tipo de huelga, que está
siendo efectiva y eficaz.

Análisis de correspondencia entre la eficacia y legalidad de las huelgas

Los trabajadores que utilizan estas formas no regladas de huelgas laborales y de acciones
colectivas saben que el uso de estas acciones les da ventajas comparativas en las
negociaciones con sus contrapartes según lo expresan en las entrevistas. Hay una
racionalización, una lectura del escenario y posterior aplicación de tácticas y estrategias. El
gran problema es que nadie asegura que este punto de fuga se vaya a mantener en el tiempo
ni que se vaya a expandir alcanzando a todos los trabajadores chilenos. Por diversas razones,
hay una serie de trabajadores en Chile, posiblemente la mayoría de los que se movilizan, que

13
actualmente la única opción viable que ven para mejorar sus condiciones de trabajo y empleo,
es utilizando la negociación colectiva reglada, y la huelga “legal”, que no asegura ni está
asociada fuertemente a una huelga eficaz.

En la minería y en el transporte, y en las grandes empresas, se concentran las huelgas eficaces


Las huelgas muy eficaces ocurren principalmente en la minería, y parece ser que también en
los sectores del transporte (sin considerar comunicaciones y almacenamiento): puertos. En el
sector manufacturero y el comercio al por mayor y al por menor las huelgas son
principalmente poco eficaces.

Si bien la mayoría de las veces no hay una voluntad redistributiva por parte de las grandes
empresas, si son las huelgas ocurridas en estos lugares las que son más eficaces, en especial
cuando son empresas relevantes para el grupo económico. El diferencial de eficacia en las
huelgas de empresas de grandes grupos económicos parece ser provocado por la
representatividad y masividad de las huelgas.

Parece ser que la eficacia de las huelgas en empresas “formalmente estratégicas” (puerto,
minería, entre otras) se produce por razones bastante más complejas que por la paralización
de los altos aportes que hacen al Producto Interno Bruto Nacional. Su efectividad viene dada
porque interrumpe otras actividades económicas más allá de la empresa en huelga. Por lo que
terceros actores presionan a la contraparte a negociar y/o apoyan la movilización de los
trabajadores. Que estas huelgas sean efectivas y eficaces se da por su fuerte incrustación en
circuitos económicos y sociales. Y evidentemente, porque estas posiciones estratégicas,
incrustadas, son movilizadas con éxito: hay una organización capaz de movilizarse y de
movilizar una alta cantidad de trabajadores, como sugiere la siguiente proposición.

Para que la huelga sea eficaz los trabajadores deben tener una organización sólida y preparar
la huelga

La eficacia de la huelga está asociada a la experiencia en otras huelgas de los sindicatos que
la ejecutan, y a las experiencias en general del sindicato (a los más antiguos les va mejor).
Los sindicatos formados el año 2010 o después, suelen no tener experiencias en huelgas
laborales antes de realizar su primera huelga, la cual suele terminar siendo ineficaz. Los

14
sindicatos formados los primeros años del 2000 (con huelgas entre 2006 y 2016) suelen tener
más de una experiencias en huelgas o movilizaciones, siendo sus últimas huelgas eficaces
(pues hay cierto aprendizaje post huelga que es aprovechado). Con los sindicatos formados
en los 90 sucede algo similar. Pese a esto, uno de los sindicatos estudiados se sale de esta
forma, pues pese a tener más de 20 años de experiencias en negociaciones colectivas nunca
había tenido una huelga laboral. Su falta de experiencia, posiblemente, fue lo que se expresó
en los resultados ineficaces de su primera huelga el año 2016.

Las huelgas ineficaces varias veces no son previstas por el sindicato que se ve envuelto en
una, y por ende no la prepara ni planifica, como sostiene Juravich et al (2014). Así mismo,
estos sindicatos no juntan dinero para afrontar las huelgas (muchas veces no les alcanza,
aunque lo quieran), mientras que las empresas siempre tienen un capital del cual pueden
disponer para resistir y enfrentar la huelgas. Así también, en estas huelgas ineficaces hay
problemas orgánicos con el traspaso de las informaciones, con la comunicación entre bases
y dirigentes. De todas formas, el problema o la fortaleza no siempre la tienen los dirigentes.
Por ejemplo, también influye, en términos organizacionales, la actitud y disposición de las
bases sindicales en la huelga. Un dirigente comenta “sin bases alineadas, formadas y
dispuestas a movilizarse ni el mejor líder puede conducir y ganar una huelga”.

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17
Ação sindical e a questão de gênero: um estudo sobre a participação das
mulheres nas direções da Central Única dos Trabalhadores – CUT.

Élida Franco de Oliveira1

Introdução

Este trabalho busca apresentar algumas discussões preliminares sobre a pesquisa de mestrado
em andamento, cujo tema é a participação das mulheres nas direções da Central Única dos
Trabalhadores – CUT.
Ao escolher analisar a participação das mulheres nas direções sindicais, tendo a Central Única
dos Trabalhadores – CUT como objeto de análise, nossa pesquisa busca discutir um tema no
movimento sindical que é pouco explorado pela literatura do país. Buscamos compreender qual a
inserção das mulheres nas direções da CUT e quais as ações que a mesma promove para o aumento
da participação feminina na entidade. Dentre as razões para a escolha desta entidade como objeto de
análise está o fato dela ter sido uma das primeiras a inserir o debate de gênero nos seus espaços, e
também pela criação da cota de participação de 30% para as mulheres nas suas direções, em 1993,
sendo esse um importante avanço na luta pela inserção das mulheres nos espaços de poder no
movimento sindical.

Os estudos sobre o sindicalismo brasileiro, em sua maioria, têm enfatizado que a classe
trabalhadora é urbana, industrial e masculina. Eles analisam as ações e formas de organização dos
sindicatos e das centrais sindicais como as paralisações, as greves gerais, piquetes, negociações, suas
políticas, sua estrutura, etc. Portanto, desde a década de 1930 diversos estudos foram produzidos
sobre a classe trabalhadora e seus organismos de representação, seu processo de formação, seu ideário,

Mestranda no Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais, da Universidade Federal da Bahia.


1
o perfil dos seus dirigentes, etc. Além disso, um conjunto de pesquisas direcionam sua atenção para
o funcionamento do sindicalismo, a sua relação com o Estado, com o patronato e com os trabalhadores.
Muitas dessas pesquisas buscaram e buscam analisar, por exemplo, as formas de atuação da CUT,
maior central sindical brasileira, e as ações que esta promoveu e promove no país. Diversos autores,
a exemplo de Boito Jr. (1981; 1995; 2001), possuem estudos sobre a estrutura do sindicalismo
brasileiro, as suas consequências sobre as formas de organização e atuação, os efeitos políticos e
ideológicos sobre os trabalhadores, além de expor as posições dos sindicatos e sindicalistas sobre essa
estrutura. Apesar dessa diversidade de pesquisas sobre o movimento sindical, existem poucos estudos
sobre a participação das mulheres nesta forma de movimento como um todo, e um número menor
ainda de investigações que se debruçam sobre a participação das mulheres nas direções desses
movimentos.

As discussões sobre o sindicalismo, de acordo com Silva e Campos (2014) sempre foram de
grande importância nos estudos sobre o mundo do trabalho na sociedade contemporânea. Os
sindicatos são um instrumento de organização e mobilização dos trabalhadores, e seu surgimento se
confunde com o próprio desenvolvimento do capitalismo, ao ponto de podermos afirmar o sindicato
como resultado do desenvolvimento da própria sociedade burguesa, mas não sendo, vale ressaltar,
exclusivo desta formação social. A complexificação das relações econômicas, sociais e políticas, as
novas configurações das relações de classes e a feição do estado modificam as formas de organização
e atuação dos sindicatos, tornando igualmente complexas as suas contradições internas, suas formas
de atuação e instrumentos de mobilização e luta, isso possibilitou novas formas de investigação para
melhor entendimento dos seus fenômenos. Carvalhal (2001) reforça que as transformações na forma
de trabalho, com a fragmentação, heterogeneização e complexificação, criaram obstáculos no
aumento da sindicalização, pois as diferentes categorias de trabalhadores produzidas não possuem
estabilidade empregatícia, a exemplo dos trabalhadores em pequenos estabelecimentos, trabalhadores
em tempo parcial, imigrantes, jovens e mulheres.

Souza-Lobo (2011), afirma que o crescimento da força de trabalho feminina e o aumento da


sua taxa de sindicalização não foram suficientes para que as análises sobre o mercado de trabalho e
os sindicatos incorporassem a questão de gênero nas suas estratégias de luta. Para que isso ocorresse,
foi necessário que um movimento social, os movimentos de mulheres, fosse às ruas e abalasse a
produção sociológica para que a questão fosse levada em consideração e começasse a aparecer em
seminários, congressos, encontros, livros, artigos e, especialmente, na sociedade. É neste contexto
que estudos sobre as operárias foram desenvolvidos, como os de Heleieth Saffioti (1969; 1976).
Porém, a autora afirma que se criou um outro tipo de perversão sociológica, pois os estudos sobre as
operárias passaram a ser objeto específico de uma Sociologia, com temas e análises que não
incorporavam a categoria gênero aos estudos sobre a classe operária e o movimento operário.

São duas as razões, de acordo com a autora, para a resistência em articular as categorias classe
e gênero. A primeira delas refere-se à ideia de homogeneidade da classe operária, na qual não existiria
no interior da classe as clivagens de gênero, raça, geração, etc. Além disso, o conceito de
homogeneidade é construído a partir do lugar da produção. A classe operária seria vista como a
“personificação do trabalho” em oposição à burguesia como a “personificação do capital”. A segunda
razão diz respeito a assimilação feita entre heterogeneidade e fragmentação da classe, ao levar em
conta aspectos como as clivagens de gênero e raça, por exemplo. Está subjacente neste argumento
que a ideia de homogeneidade significaria força, enquanto a heterogeneidade e a fragmentação
significariam fraqueza. Logo, a força da classe trabalhadora não deveria ser quebrada por questões
que acentuassem suas diferenças internas.

Segundo Souza-Lobo (2011), essas ideias prejudicaram os estudos sobre o operariado


feminino, pois a separação entre trabalho produtivo e trabalho reprodutivo impossibilitava a
compreensão da inserção dupla das operárias em ambos os trabalhos. Dificultou também a
compreensão nas diferenças da qualificação feminina e qualificação masculina e na assimetria entre
o discurso sindical e o discurso das operárias. O esforço de estudo da autora foi criticar este tipo de
análise e argumentos que sustentaram a “natural assexualidade da classe operária”. (Souza-Lobo,
2011, p. 126).

Buscando compreender quais ações a CUT realiza para uma maior participação das mulheres
nas suas bases sindicais, e, como foco da nossa pesquisa, nas suas direções, apresentaremos nesse
texto alguns caminhos metodológicos utilizados no nosso estudo, porém nem todos poderão ser
discutidos neste momento. Primeiramente, nossa metodologia consistiu, na revisão da bibliografia
sobre sindicatos, com enfoque na participação das mulheres nessas entidades, ou seja, em análises
que versem sobre a inserção delas nos espaços de decisão do movimento sindical. Com isso foram
construídas tabelas sobre a posição na ocupação, rendimentos, anos de estudo, taxas de desemprego,
dentre outras. Para a construção dessas tabelas, utilizamos duas bases de dados, a primeira delas é a
´Pesquisa Nacional por Amostra e Domicílios – PNAD, realizada anualmente pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística – IBGE, exceto nos anos em que ocorrem o censo, desde 1967. A PNAD é
uma pesquisa de grande importância para analisar o mercado de trabalho brasileiro, pois através dela
é possível observar vários aspectos da dinâmica do mercado de trabalho, a exemplo dos citados acima.
Utilizamos o Statistical Package for the Social Sciences – SPSS, software de análise dos dados
estatísticos, para processar os micro dados da PNAD. A segunda base de dados é a Pesquisa de
Emprego e Desemprego – PED, realizada mensalmente, desde 1984, no Distrito Federal e nas regiões
metropolitanas de São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Belo Horizonte, Recife e Fortaleza, pelo
Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócioeconômicos – DIEESE.

Na segunda etapa da pesquisa, são analisados os documentos produzidos pela CUT, como
resoluções de congressos e plenárias, jornais, boletins e etc., material este disponível no site da
entidade, com o objetivo de identificar quais as ações que a central promove para aumentar a
participação feminina nas suas direções, além de quais os espaços que são ocupados por essas
mulheres nas instâncias de poder.

Por último, o prosseguimento da pesquisa é aplicar um questionário semi-estruturado com as


dirigentes sindicais da CUT-Bahia para, a partir das suas experiências na entidade, compreender quais
os desafios, as mudanças e as persistências para as mulheres no interior do movimento cutista.
Abordaremos aspectos como: 1. Quais são os fatores que levam as mulheres a reivindicarem maior
poder nos sindicatos. 2. Essas reivindicações partem da base ou das lideranças. 3. Há espaço de
discussão na CUT sobre essa questão. 4. Qual a importância da participação das mulheres no
movimento sindical. Além disso, o questionário também buscará traçar o perfil das lideranças
femininas, questões relativas ao nível de renda, nível de escolaridade, estado civil, tempo de
sindicalização, tempo de militância sindical, etc. Paralelo a realização de aplicação dos questionários,
estamos participando das reuniões do coletivo de mulheres da CUT-Bahia, que ocorrem uma vez por
mês, em horário e local definidos pela Secretaria de Mulheres da entidade.

1. A CUT e a representação das mulheres.

Buscando entender as possíveis modificações em relação à participação das mulheres no


mundo sindical, escolhemos a CUT para estudo, pois, além de ser a central com maior
representatividade no país, a central possui algumas ações em relação à participação das mulheres
nas direções da entidade e dos sindicatos filiados, a exemplo da criação da cota de 30% para mulheres
nas direções sindicais. A Central Única dos Trabalhadores é a maior central sindical que atua no país,
tendo atualmente 3. 806 entidades filiadas, 7.847.077 trabalhadoras e trabalhadores associados e
23.981.044 trabalhadoras e trabalhadores na base. Através do site do Ministério do Trabalho e
Emprego – MTE: [Link] verificamos os dados recentes das cinco centrais sindicais mais
representativas, o último dado divulgado é referente ao ano de 2012, tendo: A CUT com 36,7% de
representatividade; Força Sindical com 13,07 % ; União Geral dos Trabalhadores – UGT com 11,3%;
Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil – CTB com 9,2% e a Nova Central Sindical de
Trabalhadores – NCST com 8,1%.

Durante o III Congresso da CUT, realizado entre 31 de julho a 3 de agosto de 1986, no Rio
de Janeiro, houve um debate sistemático sobre as questões específicas da mulher trabalhadora, a
inserção destas na luta de classe e no movimento sindical. De acordo com Costa (1995) discutiu-se
nesse congresso a importância da participação feminina no movimento sindical. Constatou-se que
estas não participam de forma permanente, tendo como decorrência a dupla jornada de trabalho, a
hegemonia da ideologia burguesa e conservadora, que atribui à mulher o papel subalterno e, ao
próprio movimento sindical, que não possui uma política de estímulo a essa participação. Através da
resolução deste terceiro congresso, percebemos que a entidade afirma que deve haver uma
valorização e estímulo à militância sindical da mulher, dos trabalhadores negros e dos demais grupos
que são discriminados pela ideologia dominante. A central afirma ainda que a criação de creches é
essencial para essa participação das mulheres, pois o cuidado com as crianças é uma das dificuldades
dessa maior inserção das mulheres no movimento sindical e indica o dia 12 e outubro como um dia
nacional e luta por creches.

Para superação deste quadro, aprovou-se neste terceiro Congresso a criação de Comissões
sobre a Questão da Mulher trabalhadora, em níveis nacional e estadual. Estas Comissões eram
responsáveis por elaborar propostas e projetos que subsidiassem a ação da CUT e suas entidades
filiadas; desenvolver atividades de formação e publicação de material sobre o tema; propor a
realização de seminários e encontros; incentivar e prestar assessoria às entidades sindicais, com o
objetivo de ampliar a participação da mulher trabalhadora em suas atividades específicas e gerais,
etc. (Costa, 1995).
Para Araújo e Ferreira (2000), a criação da Comissão Nacional sobre a Questão da Mulher
Trabalhadora (CNMT), criada em 1986, representou um grande avanço na luta das mulheres
trabalhadoras nos anos 1980. A criação dessa comissão foi considerada pelas mulheres como o
primeiro passo para construir um espaço de atuação feminista no conjunto do movimento sindical
cutista.

Essa comissão, de acordo com as autoras, teve um importante papel no debate sobre a suposta
homogeneidade da classe trabalhadora, que esconde as diferenças e desigualdades entre homens e
mulheres. A reivindicação pela ampliação dos espaços de participação das mulheres na CUT e a
inclusão das demandas específicas destas na agenda sindical, contribuiu, segundo as autoras, para
aprofundar a democratização interna da central. A introdução de demandas especificamente
femininas nos debates dos congressos gerais de vários sindicatos é um exemplo dessa conquista.

A inclusão das demandas específicas das trabalhadoras na agenda sindical, não significa que
estas se tornem pauta de reivindicação para discutir nas negociações com o patronato. As limitações
para o atendimento dessas demandas estão relacionadas desde as lideranças que não assumem as
reivindicações como relevantes, e também pelo patronato que não as consideram como legítimas.
Araújo e Ferreira (2000) destacam o boletim especial, de 1998, do Sindicato dos Bancários da Bahia
como exemplo:

Nas diversas campanhas salariais, por diversos motivos, as reivindicações das mulheres têm
se diluído em meio às reivindicações mais gerais da categoria. Precisamos mudar isso. É
necessário que as mulheres bancárias assumam, junto com o sindicato, a sua importância na
luta dos bancários, afinal de contas, as mulheres são praticamente a metade dos bancários
da nossa base sindical. (ARAÚJO E FERREIRA, 2000, p. 323).

A busca por igualdade de participação das mulheres na CUT teve a política de cotas da central
a expressão de uma vitória para as sindicalistas. Em 1992 foi aprovada a proposta que direcionava
30% dos cargos de direção para as mulheres. Segundo Castro (1995) a política de cotas foi importante
para dar visibilidade à luta das mulheres nas organizações sindicais.

Outro momento importante para a melhoria das condições de trabalho das mulheres foi a
criação na central, em 2004, da Secretaria Nacional sobre a Mulher Trabalhadora (SNMT), tendo
como objetivo organizar as mulheres e sensibilizar trabalhadores e trabalhadoras, dirigentes sindicais
da central, para a superação das desigualdades entre homens e mulheres no mundo do trabalho e na
sociedade como um todo.

Através do site da CUT obtivemos acesso as resoluções dos congressos nacionais e das
plenárias da central. A partir das resoluções verificamos quais as ações que a entidade promoveu
sobre as questões referentes às demandas femininas.

2. As ações da CUT referentes às questões das mulheres e a participação nas suas direções.

As resoluções de congresso da CUT são utilizadas para analisarmos como está presente o
discurso sobre gênero nos congressos da central. Neste texto apresentaremos a análise sobre a
resolução do congresso realizado em 2003 e 2006.
A primeira resolução analisada foi sobre o oitavo congresso nacional da central, realizado
em 2003, em São Paulo. A partir da leitura da resolução do congresso de 2003, ano em que Lula foi
eleito Presidente pelo Partido dos Trabalhadores (PT), percebemos que a CUT discute esse novo
cenário na política brasileira. Afirma-se que a central segue com os princípios que nortearam a
criação da mesma e esta segue lutando pelos objetivos imediatos dos trabalhadores, portanto, busca,
pela via democrática, estabelecer uma sociedade justa, igualitária, fraterna e socialista, fundada pela
superação do capitalismo. Reitera-se na resolução que as mudanças ocorridas tanto no mercado de
trabalho quanto no sistema de representação sindical fazem com que a central enfrente a crise no
mundo do trabalho. Esse enfrentamento é feito com o capital, representado pelo empresariado
nacional e internacional; com as entidades sindicais que estão de acordo com o projeto neoliberal; e
com os governos federal, estadual e municipal.

As informações apresentadas na resolução são de extrema importância para o nosso estudo.


Aponta-se que dados da pesquisa sindical do IBGE, realizada em 2001 mostram que a participação
das mulheres como associadas nos sindicatos ainda está muito abaixo da sua participação no mercado
de trabalho. Quanto à participação das mesmas nas diretorias sindicais, a pesquisa do instituto
constata que a inserção das mulheres nesse espaço continua ocorrendo majoritariamente nos cargos
secundários, como secretarias sem grande visibilidade e poder deliberativo, mas não nos três cargos
mais importantes de uma direção sindical: presidente, secretário-geral e tesoureiro.
A CUT também faz uma discussão sobre a situação das mulheres no mercado de trabalho.
Compondo quase a metade do mercado de trabalho, as mulheres estão inseridas nos postos de
trabalho menos qualificados, com menor prestígio social e com menor remuneração. Elas também
possuem grande inserção no mercado de trabalho informal, ou seja, não possuem a proteção que o
mercado de trabalho formal fornece.

Além disso, debate-se na resolução que as mulheres continuam sendo as responsáveis pelo
trabalho doméstico, o que acarreta uma dupla jornada para as mesmas. Para a CUT é necessário que
o conceito de trabalho seja ampliado, sendo incorporado o trabalho reprodutivo e o trabalho
doméstico.
Para alterar essa situação, a CUT apresenta que a organização das mulheres na central deve
incorporar as diferentes categorias profissionais e a diversidade existente das instâncias e entidades
filiadas à central. Dessa forma, a organização das mulheres deve contribuir para intervenção na
realidade, apontando estratégias para serem incorporadas nas políticas sindicais e nas políticas
públicas.

Neste oitavo congresso foi eleita uma nova diretoria para a central, que a dirigiria entre 2003
e 2006. A executiva nacional foi composta por 13 membros, sendo oito homens e cinco mulheres,
tendo 38,46% da direção composta por mulheres, porcentagem um pouco acima da cota de 30%
estabelecida como política afirmativa pela central. Porém, o que a própria CUT discute na sua
resolução ocorreu nesta direção, os três cargos mais importantes: presidente, tesoureiro e secretário
geral são ocupados apenar por homens. Ou seja, percebemos que a cota de 30% estabelecida pela
central para as mulheres foi cumprida nesta eleição, porém, os cargos com maior destaque não foram
ocupados por mulheres, estas foram alocadas em cargos de menor destaque na diretoria, como a
secretaria de comunicação, secretaria de política sindical, dentre outras.

A segunda resolução analisada diz respeito ao nono congresso, realizado em 2006, na cidade
de São Paulo. Nesta resolução, a CUT também apresenta que apoia a reeleição do Presidente Lula
por acreditar que o seu primeiro mandato foi marcado por avanços, como a criação de
aproximadamente 4 milhões de empregos com carteira assinada; o estatuto do idoso; o combate ao
trabalho escravo; aumento real de 20% do salário mínimo, entre outros. Ademais, aponta-se que foram
abertos canais de diálogos com o governo que proporcionou uma melhora nas relações do Estado
com o movimento sindical.

A resolução novamente afirma a independência da central frente ao governo. Aponta que,


durante os anos do governo, a CUT, ao lado de outros movimentos sociais, construiu campanhas que
pressionaram a efetivação de mudanças para a superação da herança neoliberal e que fosse
consolidado um projeto democrático e popular.

Ao buscarmos uma discussão sobre a mulher nesta resolução, percebemos que a mesma não
deu muita atenção à questão. Apenas uma página é dedicada ao tema, e basicamente reafirma o que
foi dito no último congresso, como o compromisso em aumentar a participação das mulheres no
interior da central e dos seus sindicatos filiados. A resolução afirma que a Política Nacional de Gênero
da CUT será baseada pela articulação dos seguintes eixos:

a) o combate a todas as formas de discriminação;


b) a intervenção nas políticas públicas;
c) a organização das mulheres na CUT;
d) o fortalecimento da interface com as demais políticas e projetos da CUT;
e) a articulação com o movimento sindical internacional e com movimentos e organizações
não governamentais na defesa dos direitos das mulheres. (RESOLUÇÃO DO NONO
CONGRESSO DA CUT, 2006, p. 59).

As resoluções dos congressos da CUT nos permitiram analisar as discussões e planos de lutas
sobre as demandas femininas discutidas pela central, com foco na participação dessas nas direções da
entidade. Além disso, as resoluções apresentam a diretoria eleita para os três anos seguintes. As
tabelas 1 e 2 apresentam a participação das mulheres nos quatro congressos analisados e a
participação destas nas diretorias eleitas.

Tabela 1 – Participação nos congressos da CUT

Anos 2003 2006 2009 2012

Valores V.A % V.A % V.A % V.A %

Mulheres 871 32,12 804 32,28 873 37,97% 974 41,95%


% %
Homens 1.841 67,88 1687 67,72 1.426 62,03% 1.348 58,05%
% %
Total 2.712 100% 2.491 100% 2.299 100% 2.322 100%

Fonte: Resoluções de congressos da CUT.


A partir da tabela 1 podemos perceber que o número de mulheres que participaram dos
congressos da CUT aumentou ao longo do período. Enquanto em 2003, as mulheres representavam
32,12% dos presentes, em 2012 esta porcentagem passa para 41,95%, um crescimento bastante
expressivo.

Tabela 2 – Participação nas diretorias da CUT para as gestões entre 2003 e 2015.

Gestões 2003-2006 2006-2009 2009-2012 2012-2015

Valores V.A % V.A % V.A % V.A %


Mulheres 10 32,26% 9 28,13% 6 24,0% 9 29,4%
Homens 21 67,74% 23 71,87% 19 76,0% 22 70,96%

Total 31 100% 32 100% 25 100% 31 100%

Fonte: Resoluções de congressos da CUT.

A tabela 2 apresenta uma maior participação dos homens nas diretorias, assim como estes são
maioria nos congressos. Nestes dados é importante analisar a aplicação da política de cotas paras as
mulheres criada pela central em 1992, estipulando que 30% dos cargos da diretoria deveriam ser
ocupados por mulheres. Nas últimas quatro gestões percebemos que apenas na gestão de 2003-2006
esta cota foi respeitada. A gestão de 2009-2012 apresenta a menor representação das mulheres no
período, com apenas 24%. Ou seja, a entidade não conseguiu tirar do papel as suas normas, as
mulheres ainda não estão ocupando nem o mínimo dos cargos que lhe são garantidos nas direções da
central.

É importante discutir também que, além da cota de participação nas direções, há que se
analisar quais os cargos que estão sendo ocupados pelas mulheres. Dentre todos os cargos de direção,
os que mais possuem poder de deliberação são os cargos de presidência, secretaria-geral e tesouraria.
Nos quatro últimos congressos analisados em que houve a formação da diretoria da CUT, não há
nenhuma mulher ocupando quaisquer um dos três cargos. Estas ocupam cargos como a Secretaria de
mulheres, Secretaria de comunicação, Secretaria de igualdade racial, entre outras.

Até o momento da nossa pesquisa, podemos perceber, através dos canais de comunicação e
de mobilização da CUT, a exemplo das resoluções dos congressos, percebemos que a central não
discute muito sobre a participação das mulheres em suas diretorias, não possui ações efetivas para
atraí-las para o movimento. As resoluções de congresso apenas apontam que essa é uma questão
importante para a central, mas analisamos que não há grande mobilização por parte desta para uma
ocupação mais efetiva das mulheres nos cargos de direção da central. Ou seja, ainda há um longo
caminho a ser percorrido pelas mulheres para alcançar a igualdade de participação nas direções da
central em relação aos homens.

Referências

ARAÚJO, Angela M. Carneiro; FERREIRA, Verônica Clemente. Sindicalismo e relações de gênero


no contexto da reestruturação produtiva. In: Trabalho e gênero: mudanças, permanências e
desafios. São Paulo: Editora 34/CEDEPLAR/UFMG, 2000. p. 309-346.

CARVALHAL, Terezinha. A questão de gênero na perspectiva sindical. Revista Pegada. São Paulo,
v. 2, n° 1, 2001.

CASTRO, Mary. Gênero e poder no espaço sindical. Estudos feministas, Rio de Janeiro, v. 3, n. 1,
p.29-51, 1995.

COSTA, Sílvio. Central Única dos Trabalhadores. In: Tendências e Centrais Sindicais. São Paulo:
Anita Ltda, 1995.

SOUZA LOBO, Elisabeth. A classe operária tem dois sexos: trabalho, dominação e resistência.
São Paulo: Brasiliense, 1991

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