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A modernização que abriu o século XX, lograda sob a reprodução do padrão social e
territorial de desigualdade, semeou em sua estrutura contradições urbanas que rearranjaram
dinâmicas conflituais e lutas sociais. A grande massa de trabalhadores urbanos desprovidos
de moradia induziu o surgimento de ocupações gradativas e espontâneas de áreas ociosas ou
irregulares como forma de provimento imediato de moradias individuais e familiares.
1
Pesquisa financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
Este texto apresenta parte dos resultados de uma pesquisa cujo objetivo geral centrou-
se em investigar os posicionamento, a participação e a prática política de trabalhadores sem-
teto, com fim a localizá-los no bojo das lutas de classes contemporâneas. Para tanto, nos
baseamos em dados construídos no trabalho de campo realizado em torno de duas áreas
ocupadas por movimentos sem-teto na periferia da cidade de Uberlândia, em Minas Gerais.
Partindo do conceito de Nun (1969), Quijano (1978) contribui para o debate sobre a
inserção marginal no mundo do trabalho ao definir como “polo marginal” o conjunto de
ocupações ou atividades estabelecidas geralmente em torno do uso de recursos residuais, ou
desligadas da produção, de caráter disfuncional ao sistema de acumulação capitalista. Por
esta via, Quijano (1978) ampliou a discussão da tese de massa marginal ao problematizar a
realidade de carências crescente no tecido social urbano:
Como, precisamente, esses povoamentos se levantaram, em regra geral,
nas bordas ou margens do corpo urbano tradicional das cidades, o mais
fácil era denominá-los “bairros marginais” e seus habitantes, “populações
marginais”... O problema que estes grupamentos encerravam se constituiu
no problema das “populações marginais” (QUIJANO, 1978, p. 18).
2
Ou no que Bourdieu (2013) denomina como relações de oposição constitutivas do sistema de marcas
distintivas que caracterizam a formação social.
e direita e, respectivamente, aliados e inimigos, sobretudo, dentre representantes políticos.
Visto, ainda, que a repressão é fortemente personificada nos agentes do judiciário e das
forças policiais, estes são, em geral, amplamente identificados como inimigos diretos do
movimento. Esta identificação não nos parece tão genérica, mas calcada também em uma
noção de distinção, de lugares diferentes que determinam condições diferentes e, portanto,
interesses diferentes.
Nesse entrecho, notamos como as fundamentações que levam à ação direta coletiva
articulam-se em uma linguagem comum, que mobiliza, direciona e confere sentidos que
definem a legitimidade daquela luta coletiva (DE SORDI, 2014). O que conforma e confere
identidade a esta coletividade não se limita, pois, às características econômicas comuns aos
acampados, mas compreende estilos de vida, representações e habitus compartilhados
(BOURDIEU, 1990) por esses trabalhadores marginalizados. Estamos falando, então, de
sistemas de práticas e valores comuns, que dinamizam-se dialeticamente na luta coletiva,
instituindo os esquemas de ações políticas.
A esse respeito, concordamos com Tilly (2010) que os repertórios incluem criações
culturais aprendidas, mas não se originam de abstrações filosóficas ou são resultado
matemático da propaganda política; eles emergem nos processos de luta. Consideramos
plausível acrescentar, ainda, que o processo de plenificação dessas coletividades passa por
uma luta que se desenvolve, de modo heterogêneo e contraditório, em diversos planos das
relações sociais: no econômico, no político e no ideológico (ALMEIDA, 2005).
No campo específico do político, Bensaid (1999, p. 159) ressalta que “as relações de
classes adquirem um grau de complexidade irredutível ao antagonismo bipolar que,
entretanto, as determina”. A partir desse entendimento podemos nos referir à constituição da
classe como um processo dialético e relacional, que informa, sobretudo, a “expressão social
coletiva do fato da exploração e, naturalmente, da resistência a esse fato” (SAINTE-CROIX,
apud BENSAÏD, 1995, p.111, grifo nosso).
Os sem-teto reconhecem-se como classe social – ainda que nem sempre utilizem esta
categoria no cotidiano – à medida que se localizam dentro das situações e posições que
estruturam o espaço social urbano desigual e que identificam o lugar social que ocupam,
situando seus interesses e demandas dentro das dinâmicas e conflitos políticos. Posto isso, é
plausível pontuar que as classes sociais:
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Lúcio Flávio Rodrigues de. Lutas sociais, direitos e políticas públicas. Revista
Políticas Públicas, São Luís, v. 20, n 1, p.232-236, jan./jun. 2005.
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Paris: Les Êditions dela Passion, 1995.
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Brasiliense, 1990.
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Campinas: Papirus, 1996.
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SADER, E. Quando novos personagens entram em cena. 3. ed., Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1995.
TILLY, Charles. Movimentos sociais como política. Revista Brasileira de Ciência Política,
Brasília, janeiro-julho, n. 3, p. 133-160, mês, 2010.
Trabalhadores e sindicatos na construção da prática sindical
revolucionária na Primeira República: questões historiográficas
Resumo: O presente texto tem por objetivo apresentar o debate conceitual sobre a
prática sindical revolucionária no Rio de Janeiro, no início do século XX, ao mesmo
tempo em que formula novas questões com o objetivo de aprimorar a análise da relação
entre os trabalhadores e os sindicatos na formação do sindicalismo revolucionário.
Abstract: The purpose of this paper is to present the conceptual debate on revolutionary
union practice in Rio de Janeiro at the beginning of the 20th century, while formulating
new questions with the aim of improving the analysis of the relationship between
workers and trade unions in Formation of revolutionary syndicalism.
*
Doutorando em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Juiz
de Fora (UFJF). E-mail: [Link]@[Link]
Apresentação do problema
O quadro mais geral em que tal debate conceitual foi forjado desenvolveu-se a
partir dos anos 2000, em um período de retomada dos estudos sobre os mundos do
trabalho na historiografia brasileira. Novos trabalhos, sob novas abordagens,
começaram a ser produzidos. Segundo Batalha:
As conquistas da história do trabalho foram muitas e muito significativas desde fins dos
anos 1990. Houve ganhos no volume e na qualidade da pesquisa produzida, com
reflexos evidentes nas publicações, na variedade dos temas abordados, na construção de
espaços institucionais e acadêmicos para a história do trabalho. Sem está última,
dificilmente esse campo de estudos teria o espaço que hoje tem nos periódicos
especializados e nos encontros científicos da disciplina (BATALHA, 2006a, p. 88).
Referências Bibliográficas
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LONER, Beatriz Ana. Construção de classe: operários de Pelotas e Rio Grande (1880-
1930). Pelotas, Unitrabalho/Ed. UFPel, 2001.
SCHMIDT, Michael; WALT, Lucien van der. Black flame: The Revolutionary Class
Politics pf Anarchism and Syndicalism. Oakland, CA & Edinburgh: AK Press, 2009.
Introdução
METODOLOGIA:
RESULTADOS E CONCLUSÕES:
(...) por causa da idade (...) eu pensava, às vezes não vai mais compensar,
eles (empregadores) não vão deixar de pegar uma menina de vinte para pegar
uma de trinta né? Nossa, quando eu resolver estudar, eu nem vou ter mais
chance no mercado de trabalho (...) porque era muito tarde (Téc./Aux.2).
Sim (...) acho diferente, o pessoal até faz uma pressão diferente
em cima das mulheres, porque sabe que vai ceder fácil pela
própria característica das mulheres, da enfermagem que é uma
categoria desgastante, submissa, né? As pessoas mandam e a
gente obedece.
Em que pese o entendimento dos envolvidos, consideramos essa posição
respaldada mais no machismo da sociedade do que propriamente na ação prática dos
sujeitos, porque no exemplo da greve do hospital público, a maioria dos grevistas e,
principalmente, das lideranças, eram mulheres. A questão do vínculo empregatício tem
maior relevância do que a predominância de mulheres, pois qualquer tentativa de
2
Utilizamos o termo cordialidade, no sentido apresentado por Sérgio Buarque de Holanda, cordial é aquilo
oriundo do coração, logo, o homem cordial tem sentimentos que oscilam do amor ao ódio, e isso torna-se
um obstáculo para a construção da coisa pública e da sociedade civil (HOLANDA, 1997).
mobilização nos hospitais privados e terceirizados, seja de mulheres ou de homens, é
fortemente coibida pelas direções. Por exemplo, o auxiliar entrevistado do hospital
privado fora demitido quando era membro da Comissão Interna de Prevenção de
Acidentes (CIPA) por não ser considerado cooperativo3.
3
O auxiliar foi readmitido após decisão judicial.
Referências Bibliográficas
HOLANDA, S. B., Raízes do Brasil, Cia. das Letras, São Paulo, 1997
IBGE. Síntese de Indicadores Sociais. Uma análise das condições de vida da população
brasileira 2013. 2014. Disponível em:
[Link]
[Link] > Acesso em: 07/05/2014.
LOPES, JRB. Sociedade Industrial no Brasil. Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, Rio
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MARX, K.. O Capital - Crítica da Economia Política. São Paulo: Abril Cultural, volume
2, 1985.
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review of cases from large manufacturing plants in China, South Korea and Taiwan. Work
Employment & Society, Dec 2004, Volume: 18 Issue: 4 pp.663-685.
Introdução
A chegada ao poder executivo do Partido dos Trabalhadores (PT) no Brasil e a melhora nos
indicadores econômicos e sociais suscitou um intenso debate a respeito da capacidade de influência
do movimento sindical nesses governos (2003-2016).
Além de leituras baseadas na passividade e acomodação política (GALVÃO, 2006, 2010;
ARAÚJO; VÉRAS DE OLIVEIRA, 2014), na recuperação (BOITO JR; MARCELINO, 2010;
CARDOSO, 2013), ou mesmo na cooptação (DRUCK, 2006; BRAGA, 2012) do movimento
sindical durante os anos 2000, mais recentemente surgiu o debate em torno da existência ou não de
um processo de revitalização sindical (GALVÃO, 2014; DIAS; KREIN, 2015). Essas análises,
entretanto, têm demonstrado um certo subdesenvolvimento conceitual, pois os termos
“recuperação”, “revitalização”, “cooptação” e “passividade” dizem pouco sobre os repertórios
adotados e a natureza das demandas disputadas pelo sindicalismo brasileiro nos anos 2000. Por
vezes os autores chegam a distintas conclusões mesmo quando a dimensão econômica da ação
coletiva é destacada como a mais promissora. Além disso, as dimensões econômica, política e
social da atuação sindical por vezes se confundem sem evidenciar perspectiva teórica da análise.
Considerando o debate em torno das dimensões da ação coletiva à luz da teoria da
revitalização sindical é uma elaboração eminentemente anglo-saxã e levando em consideração que
os sindicatos, conforme Hyman (2001), possuem ideologias e identidades específicas e se inserem
em sistemas de relações laborais (nacionais) com trajetórias históricas singulares que produzem,
por sua vez, estruturas de oportunidades políticas diferenciadas, qual seria, então, a relevância
desse debate para analisar o caso brasileiro?
0
Responder essa questão implica dois movimentos. Na primeira seção investiga-se as
formulações em torno dos estudos das relações industriais (industrial relations) a fim de relacioná-
las com as dimensões de análise da ação coletiva que perfazem a abordagem da revitalização
sindical. Na segunda segunda seção problematiza-se a apropriação das dimensões da ação coletiva
para analisar o caso brasileiro à luz da teoria da revitalização sindical. A hipótese é que a teoria da
revitalização sindical só pode ser usada para o caso brasileiro se for redefinida à luz das identidades
do movimento sindical no país. Neste sentido, ao final, apresenta-se uma metodologia de análise
baseada na teoria da revitalização sindical, mas cuja definição das dimensões econômica e política
da ação sindical expresse as identidades que informam a trajetória sindical no Brasil.
Apesar de não ser possível falar em um único campo de teorização dentro das relações
industriais, prevaleceu no debate anglo-saxão uma concepção dos sindicatos como atores que
deveriam atuar no campo econômico, priorizando melhores condições salariais e de trabalho.
Segundo Hyman (2001):
2
processo de revitalização significa que: i. dentro da dimensão da filiação (membership dimension),
as instituições sindicais têm juntado esforços para aumentar o número de membros; ii. que, dentro
da dimensão econômica (economic dimension), têm buscado desenvolver novas formas de
negociação coletiva; iii. que, dentro da dimensão política (political dimension), têm buscado novas
formas de envolvimento eleitoral e juntado esforços para influenciar a legislação e os processos de
elaboração das políticas públicas, e por fim, iv. que, na dimensão organizacional (organizational
dimension), as instituições têm buscado reformar as estruturas organizacionais para atender as
demandas dos trabalhadores e aumentar o grau democracia interna (BEHRENS; HAMANN;
HURD, 2004).
Na medida em que os sindicatos traçam e realizam estratégias de revitalização em resposta
à referida crise, seus modelos de atuação – historicamente constituídos – vão sofrendo alterações
(GUMBRELL-MCCORMICK; HYMAN, 2013). E, é possível acrescentar, a interação entre as
dimensões da ação coletiva e a definição que é atribuída a cada uma delas também vão se
transformando. É importante salientar, entretanto, que as dimensões de análise da teoria da
revitalização sindical estão informadas pelas identidades que marcam o contexto europeu e este
parece ser o ponto fundamental de discussão quando busca-se o exercício de apropriação desse
quadro metodológico para a análise do sindicalismo brasileiro.
Em primeiro lugar, as dimensões econômica e política da ação sindical são conceituadas,
respectivamente, no campo da negociação coletiva e no campo da disputa, na arena estatal, em
torno da legislação trabalhista. É justamente o caráter nacional dessas disputas que atribui uma
dimensão social à luta sindical, como já havia sido pontuado por Flanders (1970) e Hyman (1971,
1975). Além disso, a separação das esferas econômica e política expressa, como analisado
anteriormente, a realidade inglesa em que a arena política da atuação sindical é mobilizada como
suporte à negociação coletiva, dimensão considerada a mais importante do ponto de vista das
funções do ator sindical.
As dimensões da atuação sindical, entretanto, ganharam novos contornos no contexto
brasileiro em que as lutas por democracia, desenvolvimento econômico e igualdade social
marcaram a identidade do movimento sindical na sociedade brasileira.
3
2. As dimensões da ação sindical no sindicalismo brasileiro: limites da teoria da
revitalização sindical.
5
difundir um projeto de transformação da mesma, tende a revelar-se cada vez mais poroso à ordem
ideológica neoliberal (BÉROUD, 2014)1.
A trajetória do sindicalismo brasileiro no século XX demonstra que suas identidades
dominantes são marcadas menos pela contraposição entre a ação política versus a atuação
econômica do que pela forma como essas duas esferas interagem e se expressam vis-à-vis as
transformações no contexto nacional. A dimensão econômica da ação coletiva tomou forma,
historicamente, na defesa do emprego e na luta salarial, aspectos que num regime autoritário ou
fora dele, não podem ser descolados da dimensão política em um país cuja desigualdade social e
cidadania limitada são elementos fundantes da nação. Neste sentido, divorciar as demandas
econômicas de seus atributos sociais e políticos no Brasil parece ser um exercício que desconsidera
as características estruturais do capitalismo e a trajetória de luta e formação do sindicalismo no
país.
A teoria da revitalização sindical está fundamentada, entretanto, na separação – ao menos
no plano analítico – das dimensões de atuação, uma vez que inspirada nas experiências nacionais
em que a ação sindical de natureza economicista preponderou, como nos casos americano e inglês.
Senão nesses casos, esta abordagem inspira-se em países, como Alemanha e França, em que o
Estado cumpriu um papel fundamental na formação de um Estado de Bem Estar Social, confiando
ao sindicalismo as disputas em torno das relações de trabalho. Assim, lançar mão da teoria da
revitalização sindical para o caso brasileiro, separando as dimensões da ação coletiva, oculta o
processo histórico sobre o qual se fundou o sindicalismo no Brasil.
Além disso, no caso brasileiro, a atuação coletiva e os desdobramentos em torno da
contestação ou compactuação em torno da estrutura sindical corporativa são fortemente
influenciadas pelo contexto. Neste sentido, a relação entre o poder de agência da classe
trabalhadora e os condicionantes estruturais adquirem maior complexidade, uma vez que o
processo de industrialização e a criação de um grupo de operários nos setores industriais não foram
as únicas condições para o fortalecimento e a mobilização da classe trabalhadora. Nesse sentido,
colocar a capacidade de resposta e de escolha estratégica do ator sindical como premissa da
1
Essa transformação ganha expressão não somente nas mudanças do sindicalismo CUT, mas na criação de outra
central sindical: a Força Sindical (FS) em 1991 (TRÓPIA, 2009).
6
abordagem sob a qual analisa-se a questão, como faz a teoria da revitalização sindical, subtrairia a
importância da dinâmica política em influenciar o movimento sindical no Brasil. Conforme
ressaltam Frege e Kelly (2004), uma das contribuições da abordagem da revitalização sindical é
trazer a estratégia sindical para o primeiro plano da análise. Entretanto, ao trazer a estratégia
sindical para o centro do debate, ao menos no caso brasileiro, a teoria da revitalização poderia
subestimar a importância dos movimentos políticos e também econômicos em moldar a escolha da
estratégia sindical. Isso não quer dizer que não há margem de escolha dentro das instituições
sindicais, quer dizer, apenas, que tais escolhas demonstram uma interação complexa e não linear
com o contexto político e que é esta interação que precisa ser levada ao primeiro plano do debate.
Essas ponderações não estão aqui sendo articuladas para descartar a teoria da revitalização
sindical como ferramenta metodológica para a análise do caso brasileiro. Busca-se, ao contrário,
estabelecer as diferenciações nacionais necessárias para que a teoria tenha aplicabilidade nos
estudos sobre o sindicalismo do país. Para tanto, requer-se que as definições do que venha a ser o
político e o econômico partam, mas não se restrinjam, às atribuições estabelecidas no bojo da teoria
da revitalização sindical. Propõe-se, neste sentido, o alargamento dos conceitos, conforme o quadro
abaixo, levando-se em consideração as especificidades de caso brasileiro:
7
- as disputas mais gerais que busquem - a articulação das demandas da classe
influenciar a política econômica dos trabalhadora com as disputas em torno do
governos projeto de desenvolvimento nacional
- como se dá o reforço ou esvaziamento da
Nesse quadro, as instituições sindicais ideia de cidadania
mobilizam o poder de barganha coletiva e de - a interação com os demais movimentos
mobilização para lograr novas conquistas sociais que expressem movimentos de
(poder estrutural). Mas também se utilizam do resistência e contestação à lógica neoliberal
poder institucional a fim de que possam
influenciar nos aspectos nacionais da Nesse quadro, as instituições sindicais
economia, com destaque para as políticas mobilizam o poder de participação na esfera
públicas que impactam diretamente os político-nacional, isto é o poder institucional.
trabalhadores. Mobilizam, também o poder social,
entendido como a capacidade de cooperação
do movimento sindical com outros grupos e
organizações sociais e como a capacidade de
obter o apoio da sociedade na legitimação
das pautas sindicais. Se trata de ter
capacidade de generalizar a luta política,
vislumbrando um projeto de sociedade.
Fonte: Elaboração própria.
O quadro explicita elementos que fazem parte das dimensões da ação coletiva, mas que são
tratados de forma mais restrita na teoria da revitalização sindical. Além disso, não localiza a priori
os temas de investigação em uma ou outra dimensão, mas permite identificar a manifestação das
mesmas ao longo dos movimentos de disputa e da análise das manifestações, lutas e repertórios
utilizados para a veiculação nacional das reivindicações.
Considerações Finais
Referências Bibliográficas
10
KREIN, J. D. As relações de trabalho na era do neoliberalismo no brasil. Campinas: Editora
LTr, 2013.
MOISÉS, J. Á. Lições de liberdade e de opressão: os trabalhadores e a luta pela democracia.
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Civitas, v. 15, n. 4, p. 703–722, 2015.
TRÓPIA, P. V. Força sindical: política e ideologia no sindicalismo brasileiro. Saõ Paulo:
Expressaõ Popular, 2009.
VÉRAS DE OLIVEIRA, R. Sindicalismo e democracia no brasil: do novo sindicalismo ao
sindicato cidadão. São Paulo: Annablume Editora, 2011.
11
Sindicatos e Fundos de Pensão no Governo Lula
mateus.santana89@[Link]
fracalan@[Link]
liciocr@[Link]
Introdução
O presente artigo tem como principal objetivo analisar a relação entre sindicatos
e fundos de pensão no Brasil, sobretudo durante o governo Lula (2003-2010), buscando
identificar os discursos e práticas da instituição sindical e de seus membros em torno da
poupança previdenciária dos trabalhadores.
Opondo-se, no plano discursivo, ao modelo norte-americano de fundos de pensão,
nos quais a participação sindical possui um grau mínimo de influência sobre suas decisões
de investimento, no Brasil as organizações sindicais e o PT defendiam a ampliação da
atuação dos sindicatos na gestão dos fundos a partir da mobilização de argumentos
legitimadores. A justificativa central repousava na ideia de que enquanto representantes
da classe trabalhadora, os gestores de origem sindical poderiam redirecionar os
investimentos dos fundos a atividades produtivas, capazes de gerar crescimento
econômico e emprego privilegiando assim os interesses dos trabalhadores.
Diversos estudiosos, porém, criticam os resultados da gestão sindical nos fundos
de pensão, afirmando que esse processo deu origem a uma elite sindical gestora de fundos
de pensão, que tende a ter uma representação cada vez mais distante dos interesses dos
1
trabalhadores, sinalizando para uma profissionalização das entidades e maior
estreitamento com as práticas financeiras e rentistas.
Portanto, nos limites deste artigo, propõe-se, num primeiro, momento revelar os
contornos mais gerais do movimento de financeirização e da atuação dos fundos de
pensão nos países desenvolvidos. Em seguida, busca-se investigar os discursos, as crenças
e práticas dos sindicatos no Brasil, sobretudo na administração Lula, que justificam sua
imersão nos fundos de pensão, com vistas a explorar as contradições que envolvem a
prática do sindicalismo brasileiro dos anos 2000 e o discurso legitimador de suas escolhas
políticas.
1
Investidores institucionais incluem bancos, companhias de seguro, fundos de pensão, fundos mútuos e
fundos soberanos, que, devido à grande soma de recursos acumulados, passaram a atuar nos mercados
financeiros globais, tornando-se importantes e poderosos atores no cenário econômico internacional.
2
Segundo Sauviat (2005), entre os investidores institucionais, os fundos de pensão
e os fundos mútuos merecem destaque por representarem os atores mais importantes e
dinâmicos do mercado financeiro mundial. Sua importância se justifica, em primeiro
lugar, pelo tamanho e força que adquiriram ao centralizar a poupança coletiva dos
trabalhadores e pelas suas atuações como vetores transformadores da relação capital-
trabalho.
Em países anglo-saxões, os ativos dos fundos de pensão chegam a patamares
correspondentes a 70% do PIB, revelando a nítida centralidade que esses agentes
alcançaram no cenário internacional dominado pelas finanças. Enquanto acionistas de
grandes corporações, os fundos de pensão dos países centrais revelam-se capazes de
influenciar diretamente as decisões de gestão da empresa, como, por exemplo, a forma e
o grau de endividamento, a política de investimento, as deslocalizações de plantas
produtivas, as estratégias de externalização de atividades produtivas, as técnicas de
reestruturação e as práticas em geral que orientam a gestão corporativa, com vistas à
maior eficiência na alocação de seus recursos. Frequentemente, essas práticas implicam
prejuízos aos trabalhadores, já que se traduzem em corte de custos com pessoal,
achatamento de salários, demissões, utilização de mão de obra terceirizada e precarização
das condições de trabalho em geral.
Assim, os fundos de pensão, ao lado dos demais investidores institucionais, se
apresentam como importantes artífices das transformações nas formas da governança
corporativa, sobretudo nos Estados Unidos. Assiste-se em todo o mundo, mas
principalmente neste país, a substituição da lógica de reter e investir – característica do
modelo fordista e do modelo da firma gerencial, em que os lucros retidos pela corporação
eram reinvestidos para seu crescimento – pela estratégia de diminuir e distribuir, sob a
égide do que se convencionou denominar de maximizing shareholder value, quando passa
a prevalecer a lógica de valorização de curto prazo dos ativos financeiros2. Tal
transformação está intimamente associada à distribuição dos lucros gerados, quer sob a
forma de dividendos e recompras de ações aos acionistas, quer na ampliação das políticas
de salários diretos e bonificações aos executivos corporativos.
2
Lazonik e O’Sullivan (2000).
3
O fato desses fundos serem formados pela poupança previdenciária de
trabalhadores e se consubstanciarem em grandes investidores institucionais que buscam
valorizar seus ativos nos mercados financeiros globais representa por si só uma
contradição, uma vez que, reunindo recursos dos trabalhadores, eles se configuram em
atores financeiros, com capacidade de influir diretamente nos fluxos de capitais mundiais.
Essa contradição é levada ao paroxismo na medida em que, na posição de acionistas de
grandes corporações e estando presentes em seus Conselhos Administrativo e Fiscal,
esses fundos impõem a lógica da financeirização e práticas relacionadas às práticas de
reestruturação produtiva, que levam à precarização do próprio trabalho.
Desde a década de 1980, os sindicatos americanos despertaram interesse para a
poupança acumulada dos trabalhadores, reivindicando sua gestão a partir da justificativa
de representação dos participantes e de atuarem como agentes de governança corporativa.
No entanto, Sauviat (2005) e Lordon (2000) compartilham da visão de que as
organizações sindicais americanas estão mais sintonizadas com a prática ortodoxa e
rentista dos investimentos e subordinados à lógica financeira de valorização do capital do
que com uma gestão responsável, voltada aos interesses e à segurança dos trabalhadores.
3
A lei 108/2001, permitiu a maior “democratização” da participação dos trabalhadores nos fundos ao
assegurar que seus representantes ocupassem, pelo menos, 1/3 das vagas nos seus Conselhos Deliberativos
e Fiscais, no caso de fundos de pensão patrocinados por empresas privadas ou instituídas por sindicatos e
órgãos representativos de classe. Por sua vez, a lei complementar 109/2001 passou autorizar a criação dos
fundos de pensão por intermédio do instituidor profissional, classista ou setorial.
4
acerca dos fundos de pensão. Isso porque, entre suas medidas encontrava-se a imposição
de um teto de benefícios previdenciários aos servidores públicos e, simultaneamente, a
criação de um sistema de previdência complementar (privado), de caráter voluntário, que
fornecesse planos de Contribuição Definida aos seus participantes.
A presença de membros ligados a sindicatos na gestão dos grandes fundos de
pensão brasileiros, cujos principais patrocinadores são empresas públicas, como Previ
(Banco do Brasil), Petros (Petrobras) e Funcef (Caixa Econômica Federal), revelou-se
bastante expressiva durante o governo Lula. O estudo de Maria Celina d’Araújo (2009)
aponta que, enquanto no governo FHC (1999-2002: 76), a porcentagem de gestores
ligados a sindicatos era de 41% nesses três principais fundos, no primeiro governo Lula
(2003-2006), essa participação aumentou para 51%, até alcançar o patamar de 66% no
segundo mandato de Lula (2007-2010)4.
Desde a década de 1990, os fundos de pensão estavam na agenda dos sindicatos e
do próprio PT. Embora, em um primeiro momento, os membros sindicais estivessem mais
arredios em participar de uma atividade tida como “engrenagem do capitalismo financeiro
global”, eles começaram a mudar de ideia e a defender a ampliação dos fundos via
ampliação da previdência complementar e maior participação sindical em sua gestão.
Em 2011, Lula já enfatizava a importância estratégica dos fundos na economia
brasileira, afirmando que “se não aumentarmos a poupança, não haverá recursos para
investimentos; se não houver investimentos, não haverá crescimento econômico; se não
houver crescimento, não haverá criação de emprego” (ZIBECHI, 2011: 76). Os fundos
de pensão, assim, passavam a ser vistos como um instrumento de funding, com
capacidade de financiar o crescimento e o desenvolvimento econômico do país.
Até o governo Lula, os fundos de pensão eram associados à ideia de corrupção e
ilegitimidade em função das grandes somas que acumulavam e da ausência de
mecanismos de fiscalização e transparência, além da permanente preocupação com sua
possível insolvência ou falência, em um contexto marcado pela instabilidade econômica,
característico dos anos 1980 e 1990. Contudo, como mostra Jardim (2009), a partir de um
4
Alguns nomes importantes podem ser destacados, como: Wagner Pinheiros, que, após ser dirigente de
sindicatos bancários, dirigiu a Petros e a Postalis; Guilherme Lacerda, que participou da fundação da CUT
e presidiu a Funcef; Sérgio Rosa, que ocupou a presidência da Confederação Nacional dos Bancários e da
Previ; José Sasseron que foi dirigente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Diretor de Seguridade da
Previ e presidente da Anapar.
5
discurso de inclusão social via fundos de pensão, de desenvolvimento da “cultura
previdenciária” e da coletivização dos riscos, o governo Lula iniciou uma campanha que
buscou trazer o conceito de solidariedade aos fundos de pensão, até então presentes
apenas no modelo previdenciário de repartição e não no de capitalização.
Ainda segundo a autora, a ideia inicial era tornar os fundos de pensão instrumentos
de inclusão social, através da crescente participação de representantes dos trabalhadores
em sua gestão e da difusão dos princípios de solidariedade e seguridade, partindo da
premissa de que é possível moralizar e humanizar o capitalismo, desde que os interesses
dos trabalhadores prevaleçam sobre os do capital.
Além disso, acreditava-se que os fundos de pensão poderiam servir como
instrumento de luta contra o processo de financeirização da economia. Por mais
contraditória que possa parecer essa possibilidade, seus defensores argumentavam que os
investimentos deveriam se direcionar a atividades produtivas e “éticas”, contribuindo,
dessa forma, para frear as práticas rentistas e especulativas e, ao mesmo tempo, estimular
o nível de atividade econômica, gerando emprego e renda, a partir de investimentos em
infraestrutura.
As organizações e centrais sindicais conferiram respaldo político a essa estratégia
do governo petista por meio de seus discursos e práticas de defesa dos fundos de pensão
enquanto alternativa à previdência pública e, ao mesmo tempo, como espaço de atuação
sindical, no qual os representantes da classe trabalhadora poderiam influir nas decisões
de investimento. Aderindo ao discurso de que essas entidades poderiam ser um
instrumento na luta contra o processo de financeirização da economia, o movimento
sindical, em sua maior parte, defendeu que a poupança dos trabalhadores deveria ser
utilizada em proveito deles, e seus investimentos deveriam ser voltados a atividades
produtivas e “éticas”, que garantissem a rentabilidade e a segurança dos aposentados e,
ao mesmo tempo, o nível de atividade da economia real.
6
social, a classe trabalhadora? As discussões em torno dessa questão estão associadas, em
primeiro lugar, às transformações pelas quais passaram as organizações sindicais ao longo
da década de 1990, no contexto da reestruturação produtiva e da acumulação capitalista
sob predomínio das finanças e, em um segundo momento, na relação que o sindicalismo
estabeleceu com o governo Lula.
Segundo Marco Antonio de Oliveira (2003), a preocupação dos sindicatos se
alterou a partir da década 1990: pautas ligadas a questões econômicas e sociais, como
aumento salarial e ampliação de direitos trabalhistas – que caracterizavam as lutas do
período anterior – perderam cada vez mais espaço para a temática da garantia do emprego
e do combate às demissões. Devido à nova realidade do mercado de trabalho, marcada
pelo processo de reestruturação, flexibilização e precarização, a agenda sindical foi se
alterando, tendendo a se concentrar na defesa do emprego, na participação nos resultados
da empresa, na discussão sobre a gestão e organização do trabalho, nos efeitos da
flexibilização da jornada de trabalho etc. Em suma, a pauta sindical tendeu a reduzir-se à
sobrevivência no emprego e à tentativa de amenizar os efeitos deletérios provocados pelo
processo de reestruturação produtiva e precarização das condições de trabalho.
A nova gestão laboral passou a exigir do trabalhador – ou do colaborador, como
se convencionou denominá-lo no mundo corporativo – maior participação e envolvimento
com os projetos da empresa, trazendo elementos que inexistiam na fábrica fordista, como
a jornada de trabalho flexível, os deslocamentos, a necessidade de reciclagem contínua
do profissional, a discussão em equipe – visando os melhores resultados para a empresa
– as metas a serem batidas, a busca pelos prêmios e bônus por competência, o processo
de individualização das responsabilidades e o aumento generalizado da concorrência no
ambiente de trabalho.
Todos esses novos elementos trouxeram uma profunda mudança na relação
capital-trabalho, impondo novos desafios ao sindicalismo, que teve de se adaptar a essa
nova realidade. O fato é que se mostrou muito mais difícil aos sindicatos mobilizar a
classe trabalhadora e, portanto, manter seu papel tradicional de representante de interesses
amplos e de agente de barganha frente ao patronato. É nesse sentido que Oliveira (2003a)
aponta para o surgimento de um novo caráter sindical a partir dos anos 1990: o
sindicalismo de conciliação, que tem de negociar e realizar mais concessões para fazer
7
valer seus interesses em um ambiente onde seu poder de influência e ação diminuiu
drasticamente em decorrência da reestruturação produtiva e da nova gestão laboral.
Nesse cenário desfavorável à ação sindical tradicional, a agenda de participação
pelas vias institucionais ganhou força e temas como políticas compensatórias e parcerias
passaram a ser mobilizados. É nesse contexto que emerge o discurso que busca legitimar
a aproximação dos sindicatos com os fundos de pensão.
Druck (2006) argumenta que ao longo dos anos 1990 teria ocorrido um processo
de crescente despolitização dos sindicatos, traduzido em sua incapacidade de levar
adiante propostas políticas mais assertivas e de apontar um projeto alternativo ao
neoliberalismo. Galvão (2009), por sua vez, argumenta que já no início dos anos 1990, a
direção majoritária da CUT sinalizava uma aproximação com o sindicalismo de
resultados, assim como ficou associada a Força Sindical, buscando ocupar espaços
institucionais e oferecer aos membros dos sindicatos um número crescente de serviços.
Como afirma Ramos (2013), embora esse processo tenha começado em
administrações anteriores, durante o governo Lula, a conversão de (ex-) sindicalistas em
gestores de fundos de pensão assumiu maior relevância. João Bernardo e Luciano Pereira
(2008) buscam explorar as contradições de uma entidade de classe tradicionalmente
voltada à representação dos trabalhadores na negociação de compra e venda da força de
trabalho e que passa a administrar e investir vultosos recursos. Segundo os autores, na
posição de controladores de fundos financeiros, os dirigentes sindicais se aproximariam
da figura do investidor capitalista, distanciando da representação dos interesses da classe
trabalhadora. Observando o movimento de aproximação e penetração da alta cúpula
sindical com os fundos de pensão no caso brasileiro Ruy Braga & Álvaro Bianchi (2011)
defendem a ideia de que teria se iniciado, ao longo dos anos 1990, um processo de
financeirização da alta burocracia sindical no Brasil, que se consolida no governo Lula, a
partir da presença de sindicalistas na gestão e conselhos dos maiores fundos de pensão
brasileiros, em um contexto marcado pelo regime global de acumulação financeira.
Segundo os autores, o vínculo orgânico “transformista” da alta burocracia sindical com
os fundos de pensão pavimenta um caminho sem volta do novo sindicalismo rumo ao
regime de acumulação financeira globalizado (BRAGA, 2012: 141).
Antunes (2003) também analisou de forma maneira crítica esse movimento dos
sindicatos a partir dos anos 2000, principalmente a conivência da CUT com a reforma
8
previdenciária de 2003 e sua política de adesão e reivindicação pela gestão dos fundos.
Segundo ele, as centrais sindicais no Brasil caminham para um sindicalismo negocial,
cujo interesse passa a se centrar na gestão das grandes somas de aposentadoria e nas
práticas rentistas em detrimento de um comprometimento com as lutas sociais da classe
trabalhadora. No mesmo sentido, Francisco de Oliveira (2003a, 2003b) é também crítico
à inserção dos sindicatos no universo dos fundos de pensão. Observando o movimento de
desestruturação do trabalho organizado ao longo da década de 1990 e a consequente perda
da capacidade do poder político sindical, o autor apontava, no início dos anos 2000, para
uma crescente dissociação entre as organizações de representação dos trabalhadores e sua
base, afirmando que muitos dos antigos líderes sindicais, sobretudo aqueles ligados ao
setor bancário, haviam se convertido em uma nova classe de elite sindical, defensora e/ou
gestora de fundos de pensão.
Conclusão
A partir do que foi exposto é possível concluir que a busca dos sindicatos pela
gestão dos fundos de pensão se insere no contexto nacional e internacional de
reestruturação produtiva e de reorganização do capital produtivo pela lógica financeira.
As formas institucionais de organização e representação dos trabalhadores, frente a tais
gigantescas transformações históricas, optaram por se aproximar do movimento de
valorização capitalista e construir um discurso legitimador dessa sua opção. Nesse
sentido, a transformação dos sindicatos, sua paulatina aproximação com o mercado
financeiro e sua reivindicação pela gestão dos fundos de pensão devem ser entendidas a
partir do processo de reorganização e acumulação do capital e da busca por novos espaços
de atuação, como aqueles oferecidos pelos fundos de pensão.
No caso específico do Brasil, verificou-se que ao longo do governo Lula diversas
lideranças sindicais, sobretudo aquelas ligadas ao setor bancário, passaram a reivindicar
a gestão de fundos de pensão sob a justificativa de reorientar os investimentos para
atividades produtivas, objetivando representar os interesses dos trabalhadores. Tenha tido
ou não aderência à realidade, tal discurso sacramentou uma nova forma de organização
do sindicalismo brasileiro, inserindo-o definitivamente nos contornos de um processo de
financeirização da alta burocracia sindical e no estreitamento de sua relação com o
mercado financeiro.
9
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11
O SINDICATO DOS METALÚRGICOS DE JOINVILLE EM DISPUTA
DURANTE O PRIMEIRO GOVERNO DILMA ROUSSEFF1
Introdução
No final dos anos de 1970, o Brasil era sacudido pela maior onda grevista de sua
história. No topo desta onda, liderando as greves, dando o tom das reivindicações,
rompendo o silêncio e o isolamento do movimento sindical, encontram-se os
metalúrgicos do ABC Paulista, região que, desde 1950, havia se tornado polo da
moderna indústria automobilística, onde se situavam as principais montadoras e
indústrias de autopeças. Foi o protagonismo dos metalúrgicos no chamado “novo
sindicalismo”, ao criticar a estrutura sindical oficial, realizar greves de massa e enfrentar
a intervenção dos governos militares, que levou à construção da Central Única dos
Trabalhares (CUT), à formação do Partido dos Trabalhadores (PT) e à campanha
histórica das Diretas Já, no final do período de ditadura civil-militar no Brasil. A força
do sindicalismo metalúrgico também pode ser medida pela emergência da principal
liderança popular no período recente, Luiz Inácio Lula da Silva, que seria eleito
presidente da República em 2002.
As lideranças atuantes no “novo sindicalismo” buscavam articular os
movimentos sociais e populares e defendiam a democratização nos locais de trabalho e
1
Este trabalho é resultado de uma pesquisa de Iniciação Científica que conta com o financiamento da
Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais, e com a orientação da Profª Patrícia Vieira Trópia, a
quem a autora agradece pelos comentários neste texto.
do próprio sindicalismo. As experiências iniciadas no ABC Paulista provocam uma
espécie de efeito dominó. Diretorias de entidades pelegas são rechaçadas e o movimento
das oposições sindicais passa a organizar os trabalhadores nas fábricas e a disputar as
eleições. No início da década de 1980, o movimento sindical no sul do Brasil se
articulava ao novo sindicalismo. Lideranças transitam de um estado ao outro, levando e
trazendo experiências. Segundo Gastão Cassel, o movimento sindical se fortaleceu
muito através do trabalho junto às oposições: “o pessoal ia organizar aqui, nos
metalúrgicos de Joinville, ia disputar Sindicato, vinha o pessoal dos metalúrgicos do
ABC trazer sua experiência de oposição... e junto com isso vinha toda a discussão
política de forma de organização” (VOZES DA DEMOCRACIA, 2006, grifos nossos).
A CUT buscava organizar e apoiar as oposições sindicais visando conquistar a
direção dos sindicatos e implementar um modelo de sindicalismo de contestação e
confronto.
Embora a atuação da CUT em Joinville remonte ao início da década de 1980,
apenas em 1994 uma chapa de oposição cutista vence as eleições sindicais no Sindicato
dos Metalúrgicos, precedidos pelo Sindicato dos Mecânicos e pelo Sindicato dos
Plásticos, em 1989.
A despeito de o Sindicato dos Metalúrgicos de Joinville (SMJ) ter se filiado à
CUT com a vitória de 1994, a partir de 1982 iniciou-se um processo de contínua
mudança: o velho peleguismo foi somado as transformações que estavam ocorrendo na
década. A principal figura para o início do processo de mudança do SMJ, foi Luis
Carvalho, eleito em 1982 vice-presidente, ao romper com a tradição da cidade “não
grevista” com a histórica greve de 1985 na Fundição Tupy S.A., ocasião em que
participaram 7.200 metalúrgicos, de um total de 9 mil funcionários da empresa
(SAG/DIEESE, s/d).
O processo de mudança em curso nos anos 1980 foi decisivo para a entrada das
ideias do novo sindicalismo em Joinville. Proclamadores da mudança, ativistas da Igreja
Católica, ligados a Teologia da Libertação, que no início da década organizaram o
Partido dos Trabalhadores da cidade, articulados em oposições sindicais, tinham no
SMJ a maior número de trabalhadores.
Desde 1994, a chapa da situação se mantém a frente do SMJ, mas em 2012
ocorreu a primeira disputa pela entidade sindical desde a filiação à CUT. Esta disputa
ocorreu entre duas chapas cutistas, cada qual partidária, ainda que não explicitamente
durante as campanhas, de uma corrente do PT.
O objetivo deste artigo é analisar a disputa ocorrida em 2012 pela diretoria do
SMJ, suas motivações e natureza. Para tanto, o texto será divido em duas partes. Na
primeira, apresentaremos a trajetória histórica do SMJ e em seguida, analisaremos a
disputa ocorrida em 2012.
2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015
Indústria
Metalúrgica 15.928 16.710 17.920 16.735 18.817 20.099 16.762 17.774 17.138 15.947
Elétrico e
Comunicação 688 901 962 1.123 1.505 2.291 2.708 3.044 2.925 2.101
Total 16.616 17.611 18.882 17.858 20.322 22.390 19.470 20.818 20.063 18.048
2
O Sindicato representa trabalhadores, entre outras, das seguintes empresas: Wetzel S.A – unidade Ferro
–, Fundição Tupy S.A, Schulz S.A, Docol Metais Sanitários, Ciser Parafusos e Porcas, Franke Sistemas
de Cozinhas, Nova Motores, Grupo Prysmiam, PPE Fios Esmaltados S.A, General Motors (GM), e
Ibrame Indústria Brasileira de Metais. A indústria metalúrgica em Joinville é responsável pela produção
de aparelhos de ar condicionado, motores para embarcações, bombas centrífugas, chapas de aço, motores
e moto bombas, ferro e aço, torneiras de cobre, metais sanitários, moto compressores, motores para o
setor automobilístico.
3
Sócios ativos 5.055 e 1.036 sócios aposentados, segundo dados da própria entidade.
A entidade foi fundada em 17 de novembro de 1931 e reconhecida pelo
Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio em 12 de fevereiro de 1942, por meio da
Carta Sindical emitida pelo órgão federal. Expressão do modelo de Sindicalismo de
Estado implementando durante o governo Vargas, o Sindicato dos Metalúrgicos de
Joinville “[...] nasceu [...] para a manutenção e o disciplinamento do trabalhador ao
Estado, ao capital, ao interesse condicional e irrestrito da indústria” (SOUZA, 2008,
p.80).
O SMJ é um dos mais antigos da cidade e originalmente representava também os
trabalhadores dos setores mecânico e térmico. Porém na década de 1950, a entidade foi
dividia em três novos sindicatos, resultando um sindicato para a categoria dos
mecânicos, outro sindicato para o setor térmico e outro sindicato para os trabalhadores
metalúrgicos.
Sobre a atuação dos dirigentes antes da década de 1980, Aires Zacarias
(SINDICALISMO, 1980, s/p) denuncia o peleguismo dos sindicatos joinvilenses, “O
sindicalismo joinvilense até muito àquem (sic) da realidade brasileira limitando-se a
conceder assistência médica-odontológica, se constituindo mais como um mini-posto do
INAMPS, do que efetivamente um órgão de assistência sindical.”. Diz ainda que o
Sindicato dos Metalúrgicos à época comandado “[...] por um pelego de nome Orlando
Silva, [ele] não admite concorrência que o ameace a sua tranquilidade neste
empreendimento.”.
Em 1977, quase toda a chapa oposicionista foi sumariamente demitida. Segundo
Zacarias,
[...] empregados que tiveram a ousadia de formar oposição estão
sendo demitidos covardemente, com o apoio de pelegos cretinos, que
utilizam-se de cargos para pisotearem seus companheiros de trabalho,
vilipendiando-os [...] aceitando as imposições patronais covardemente,
recebendo altas somas em dinheiro para aceitarem aprovação de
acordos coletivos de trabalho espúrios, indignos. (SINDICALISMO,
1980, s/p).4
4
SINDICALISMO. Hora H. Joinville, s/p, 14 fev. 1980.
Sindicato dos Mecânicos. Neste mesmo ano o Sindicato dos Trabalhadores das
Indústrias do Material Plástico de Joinville, também, elege uma chapa cutista para a
direção da entidade.
Este clima, segundo nossa hipótese, terá repercussão entre os metalúrgicos de tal
forma que a partir de 1985 ocorrem as primeiras greves desta categoria na cidade. Mais
precisamente, neste ano, os metalúrgicos deflagraram uma greve, na Fundição Tupy
S.A., com a participação de 7.200 trabalhadores, de um total de 9 mil (SAG/DIEESE,
s/d).
Esta greve ocorreu quando o sindicato procurou a gerência da Fundição Tupy
S.A. para negociar um aumento salarial (fora do período da data-base) levando em conta
a inflação do período. Na reunião de negociação, para além da diretoria do sindicato,
compareceram duzentos trabalhadores que, por difundirem a ideologia de parceria,
acreditavam que a gerência concederia um aumento salarial. Entretanto quando a
gerência se negou a negociar, diante do grande número de trabalhadores no recinto, o
sindicato deflagrou a primeira greve da categoria. O processo de negociação se
desenrolou com interferência do Tribunal Regional do Trabalho e, segundo dados do
Dieese, os metalúrgicos retornaram ao trabalho mediante acordo com a empresa.
Em 1989, ocorrem, ainda segundo o Dieese, quatro greves de metalúrgicos no
período da data-base. Em abril de 1990, os metalúrgicos deflagraram uma greve na
empresa MARTRIC e, em junho, realizaram a primeira greve de categoria, envolvendo
8.000 trabalhadores de várias empresas e unificada com os trabalhadores filiados ao
Sindicato dos Mecânicos (CUT).
O processo de mudança política no movimento sindical joinvilense resulta,
também, da ação política do PT na cidade. A vitória de uma chapa cutista, em 1989, no
Sindicato dos Mecânicos retrata a ligação do PT com as disputas por diretorias de
entidades sindicais.
A esmagadora votação (55%) na chapa apoiada pelo PT no Sindicato
dos Mecânicos foi confirmadora [do aumento de inserção e trabalho
do PT na cidade], Luis Álvaro de Freitas (filiado ao PFL), que está no
cargo [de presidente dos mecânicos] e concorreu à reeleição pela
chapa 1, sentiu que a chapa apoiada pela CUT iria vencer a eleição.
‘Se este pessoal do PT fizer um bom trabalho, vai acabar pegando os
outros Sindicatos. Caso contrário, eles não vão conseguir conquistar
mais nenhum Sindicato’, afirmou.5
Nas eleições seguintes, em 2012, ocorreu uma nova disputa pela diretoria da
entidade. Duas chapas da CUT concorreram à direção do Sindicato, sendo a Chapa 1 da
situação, composta por membros da direção, e a chapa 2, intitulada “Resistência
Metalúrgica”, composta por membros dissidentes da gestão 2008, bem como por
antigos diretores que haviam participado do Sindicato nos anos 1990, entre eles Adolfo
5
MECÂNICOS elegem petista. Diário Catarinense. Joinville, p. 13. 28 jan. 1989.
6
Segundo nos foi relatado pelo presidente do sindicato, Sebastião de Souza Alves, em entrevista, a cisão
ocorreu após parte da diretoria solicitar que a ajuda de custo oferecida a três membros da diretoria fosse
ampliada para vinte e quatro membros da diretoria de base.
Constâncio7, e por trabalhadores afastados e aposentados de três grandes empresas da
cidade: Fundição Tupy S.A., Shultz S.A e Wetzel8. Ademais, tiveram o apoio do
Sindicato dos Servidores Públicos de Joinville, do Sindicato dos Mecânicos de Joinville,
principalmente da figura de Adilson Mariano, aliado destes sindicatos e vereador pelo
Partido dos Trabalhadores a época.
O resultado desta eleição foi a vitória da chapa 1, presidida por Sebastião de
Souza Alves. Dos 4.926 eleitores aptos a votar, 3.533 comparecem, sendo 2.486
(71,7%) dos votos para a chapa 1 e 982 (28,3%) dos votos para a chapa 2, 27 votos
brancos e 38 votos nulos9.
Longe de representar uma disputa entre lideranças, as eleições de 2012
expressam conflitos de ordem política entre correntes internas da CUT do PT. Conflitos
estes que diziam respeito sobre o posicionamento do partido em relação ao governo
Dilma Rousseff e no âmbito local, o prefeito Carlito Merss.
Em 2009, pela primeira vez foi eleito um prefeito pelo Partido dos
Trabalhadores em Joinville, Carlito Merss, filiado à corrente “Construindo um Novo
Brasil” (CNB). Tal corrente é oposicionista a chamada “Esquerda Marxista”, cujos
membros eram a época participantes do Sindicados dos Servidores Públicos Municipais
e do Sindicato dos Mecânicos, ambos filiados à CUT.
A relação histórica entre sindicatos e o PT apareceu, em Joinville, durante o
mandato de Merss, quando divergências político-partidárias se configuraram como uma
reverberação, para o plano sindical, daquelas já existentes entre correntes do PT na
cidade. A cisão ocorrida dentro da diretoria do SMJ representa esta reverberação.
7
Ver: [Link]/2012/08/sinsej-e-chapa-2-juntos-um-ganho-para-a-luta-sindical/
8
A crítica que a chapa 2 fazia à atual gestão dizia respeito ao afastamento da gestão sindical do cotidiano
do trabalhador operário. Tal chapa se intitulava como “verdadeiramente cutista” e tinha como objetivo a
unificação dos trabalhadores na cidade como um todo buscando negociações para toda a categoria,
também um Sindicato independente e autônomo em relação às empresas e uma data-base igual para todos
os metalúrgicos da cidade de Joinville.
9
Entretanto, ao se analisar os votos em zonas de votação, na empresa de maior número de filiados ao
Sindicato (metade dos filiados) a votação da chapa 2 chegou a 45% dos votos.
Em entrevista, Adolfo Constâncio afirmou que as divergências estavam ligadas a
esfera político partidária e que a chapa de situação apoiava a gestão do prefeito Carlito
Merss:
As diferenças eram políticas. A ala [corrente] do Adilson Mariano [...]
é da extrema radical [Esquerda Marxista]. E os caras da outra chapa
eram do PT, do Carlito [Merss], era a ala mais sossegada [Construindo
um Novo Brasil]. Era esse pessoal, eles eram de alas diferentes, eles
tinham diferenças políticas.
Teve [apoio ao prefeito Carlito Merss], tanto teve que eles colocavam
apoio ao prefeito Carlito, porque estava no auge. [...] A questão da
disputa [entre chapas, de 2012], era mais questão política, não era
interesse da categoria não, não foi pensando na categoria não, foi
pensando no partido político, e na relação deles com o partido.10
10
Entrevista realizada com Adolfo Constâncio, em Joinville (SC), em abr. 2016.
fragmentação do movimento sindical, a criação de novas centrais sindicais, e, também, a
fusão de correntes sindicais por orientação não político-ideológica, mas pragmática.
Quanto à CUT, esta se manteve acrítica aos governos Lula mesmo diante das
perdas de direitos dos trabalhadores.
A retomada da discussão acerca da Reforma Trabalhista, que ocorreu no
primeiro ano do governo Lula, segundo Araújo e Oliveira (2014, p.10) “[...] situou-se,
contraditoriamente, entre os compromissos históricos do seu núcleo petista e sindicalista
e os compromissos do programa que construiu com sua base aliada”.
O posicionamento acrítico da CUT em relação aos governos do PT é reflexo de
“[...] um processo de conversão ideológica [...]” vivido por ambos, pois “[...]a
proximidade entre a central e o partido afastou a CUT de manifestações e críticas ao
governo, mesmo quando este ameaça direitos dos trabalhadores.” (GALVÃO, 2009,
p.181-182).
Segundo Soares (2013) e Druck (2006), embora o governo Lula tivesse uma
base popular, ele combinou medidas assistencialistas, desenvolvimentistas e neoliberais,
posto que embora tenha investido no setor produtivo (PAC, aumento de recursos para o
BNDES, política de isenção fiscal durante a crise econômica), reduziu os direitos
trabalhistas com a reforma da previdência e criou de novas modalidades de contratos
precários (Pessoa Jurídica (PJ), menor aprendiz) (SOUZA, TRÓPIA, 2016).
Base de apoio dos governos petistas, a CUT manteve o apoio ao governo Dilma
Rousseff em seu primeiro mandato (2011-2014). Segundo Soares (2013, p.560) as
centrais sindicais brasileiras se ajustaram e “[...] adaptaram à estrutura sindical e à
política transformista, bem como deixaram de lutar por uma organização sindical livre e
autônoma dos trabalhadores, política essa que se aprofundou no governo Lula e segue a
mesma linha no governo Dilma.”.
Desde a filiação à CUT, os membros das diretorias do Sindicato dos
Metalúrgicos de Joinville passam a ter vínculos com o Partido dos Trabalhadores.
O posicionamento acrítico referido acima é visível, também, no posicionamento
da diretoria do SMJ em relação aos governos Merss e Dilma Rousseff. Quanto as greves
do período, segundo dados do Dieese, o SMJ realizou quatro greves.
No ano de 2011 ocorreu uma greve na empresa Wetzel Metalúrgica que
mobilizou 700 trabalhadores durante 40 horas. As reivindicações incluíam melhorias no
ambiente de trabalho, nos planos de saúde, nas instalações de vestuário e Participação
nos Lucros e Resultados. As reivindicações foram parcialmente atendidas. No ano de
2012, a greve na empresa Tupy S.A. envolveu 4.000 trabalhadores durante 16 horas e o
resultado foi um aumento salarial de 8%, abono de R$ 500,00, extensão da licença
maternidade para 180 dias e reajuste no piso da categoria. Duas greves ocorreram em
2013 na Metalúrgica Duque S.A., ambas motivadas por atraso nos salários e
descumprimento do pagamento do FGTS.
As greves, ainda que deflagradas em determinadas empresas, resultaram em
ganhos para a categoria metalúrgica, pois os acordos firmados entre o SMJ e o Sindicato
Laboral, por meio de Convenções Coletivas de Trabalho, foram, exceto em 2011,
superiores à inflação (Tabela 2).
Reajuste salarial
Ano Inflação anual (IPCA) via Convenção Piso salarial
Coletiva de Trabalho
2011 6,50% 6,00% R$ 682,00
2012 5,83% 7,50% R$ 750,00
2013 5,91% 8,00% R$ 831,00
2014 6,41% 8,25% R$ 935,00
Além disso, no ano de 2012 o tempo de licença maternidade foi ampliado de 120
para 180 dias e instituiu-se o auxílio-creche de R$ 140,00 por mês e por filho, durante
vinte e quatro meses.
Outro acordo firmado nas Convenções Coletivas de Trabalho no período foi a
instituição da proteção à gestante durante cinco meses após o parto em 2011 e seis
meses a partir de 2012.
A análise das greves e das Convenções Coletivas de Trabalho evidencia que os
trabalhadores metalúrgicos de Joinville tiveram, exceto em 2011, ganhos reais de
salário, além de conquistas trabalhistas importantes.
Embora os vínculos políticos e ideológicos entre o SMJ, a CUT e o PT mostram
o sindicato como base social de apoio dos governos petistas, os ganhos materiais
conquistados com as greves ajudam a entender porque o SMJ teve um posicionamento
favorável ao governo Dilma Rousseff.
Considerações finais
Referências:
GALVAO, A., MARCELINO, P., TRÓPIA, P. As bases sociais das novas centrais
sindicais brasileiras, Curitiba, Appris, 2015.
O tema é tratado por meio de um quadro de análise que busca conciliar as relações
de força e a gramática moral dos atores sociais. Por um lado, partimos das noções de
repertório e performance (Tilly, 2006 e 2008), de modo a enfatizar o conjunto de formas
de ação que os atores sociais lançam mão quando se engajam em situações de confronto.
Por outro, seguimos a concepção de que a mobilização é algo que envolve uma
“comunidade moral”, isto é, um conjunto de atores sociais que compartilham sensos de
justiça, sentidos, ideias e imagens (Honneth, 2003; Cefaï, 2009).
1
O recorte, deixando de lado o segundo governo Dilma Rousseff, se deve ao fato desse período
corresponder a uma conjuntura muito específica, cuja análise merece um trabalho à parte.
1) Mobilização sindical
Alguns trabalhos acadêmicos recentes sugerem, cada qual ao seu modo, que os
sindicatos no Brasil foram atores políticos relevantes no período em questão. Eles teriam
recuperado parte de sua capacidade de ação, que havia diminuído ao longo da década de
1990, ainda que passando por diversos e graves problemas (Cardoso, 2015; Ladosky et
al, 2014; Krein & Teixeira, 2014; Boito et al, 2009; Soares, 2013; Ramalho & Rodrigues,
2013).
Fonte: DIEESE.
Para além das greves, o restante do repertório de ação coletiva também denotou a
vitalidade do sindicalismo. Os sindicatos lançaram mão de um conjunto de formas de
ação que incluiu: ações de protesto; negociação direta com os patrões;
procedimentalização do direito via Ministério Público e/ou Justiça do Trabalho; ações em
âmbito internacional; participação em conselhos de políticas públicas etc. (Soares, 2013;
Pessanha et al, 2009; Pereira, 2014; Bridi, 2009; Rombaldi, 2013).
Tendo isso posto, cumpre dizer que as reivindicações econômicas (salários diretos
e indiretos) foram, como sempre, as mais centrais para os trabalhadores. Nos setores
sindicais mais dinâmicos, duas concepções rivalizaram quanto à forma que as lutas por
melhor remuneração deveriam assumir. Uns tinham como horizonte a recuperação das
perdas salariais ocorridas em governos anteriores aos do PT. Os demais, mais contidos,
defendiam como mais realista a busca por “ganhos reais”, isto é, reajustes salariais acima
da inflação, ainda que pequenos.
Fonte: DIEESE.
2
“Mínimo subiu 77% acima da inflação”, O DIA, 30/04/2016.
formal verificado no período contribuíram para os resultados das negociações coletivas
entre capital e trabalho.
No que tange a amplitude dos reajustes salariais, é interessante observar que boa
parte das bases sindicais os considerou pouco significativos ou imperceptíveis. Temos
por hipótese que isso se deveu: 1) ao ritmo lento dos ganhos reais3; e 2) ao aumento do
custo de vida para os setores médios, com suas cestas de consumo específicas.
3
Entre 2003 e 2014, os aumentos médios anuais variaram entre 0,61% acima da inflação, em 2004, e 1,90%,
em 2012 (DIEESE, 2016); e isso num cenário em que os trabalhadores tinham grandes expectativas, como
a recomposição de perdas salariais.
3) Mudanças na estrutura e na organização sindical
Os demais grupos, como a Força Sindical, também tiveram sua rota alterada, com
suas propostas se revestindo de um sentido mais desenvolvimentista (cf. Conferência
Nacional da Classe Trabalhadora, 2010) e menos de uma defesa aberta ao neoliberalismo,
como verificado nos anos 1990.
4) Considerações Finais
Bibliografia
ARAÚJO, Adriane et al. Ações Civis Públicas no TST: Atuação do Ministério Público
do Trabalho e dos Sindicatos em Perspectiva Comparada. Cadernos CEDES, 2006, n. 06.
ARAÚJO, Ângela & OLIVEIRA, Roberto Véras. “O sindicalismo na era Lula: entre
paradoxos e novas perspectivas”. In: Oliveira, Roberto Véras et al (orgs.). O sindicalismo
na era Lula. Belo Horizonte: Fino Traço, 2014, p. 29-59.
BRIDI, Maria Aparecida. Trabalhadores dos Anos 2000: o sentido da ação coletiva na
fábrica de nova geração. São Paulo: LTr, 2009.
PESSANHA, Elina et al. “TST, Dissídios Coletivos, Demissão Massiva: Novos Desafios
para a Justiça do Trabalho”. In: Coutinho, Grijalbo et al (orgs.), O Mundo do Trabalho –
Vol. 1. Leituras Críticas da Jurisprudência do TST. São Paulo: LTr, 2009, p. 77-94.
Introdução
Beynon (2003) ressalta que os sindicatos no século passado eram uma realidade
“estranha” aos movimentos sociais, no entanto uma mudança se projetava, cita o exemplo
do Reino Unido e Estados Unidos, em que Campanhas para o cancelamento da divina
externa, espalharam-se através da reunião de grupos religiosos, sindicatos e ONGs.
Também no Reino Unido a associação de sindicalistas de minas com ativistas ambientais,
utilizando-se da experiência de uma greve de um ano desenvolveram protestos contra o
trabalho em minas a “céu aberto” por serem poluentes ao meio ambiente. Os estudos
sobre desenvolvimento sindical (Hyman, Mispelblom, apud Ramalho e Santana, 2003)
destacam o mesmo como instituição que surgi na maioria dos países industrializados
como representantes de interesses setoriais, frequentemente locais e coletivos, mas que
se tornam mais amplos gradativamente.
2 – Crise econômica de 2008 e seus efeitos para os metalúrgicos de Açailandia.
No Brasil a crise do subprime norte-americana teve uma repercussão menos intensa
que nos países desenvolvidos(Silva e Fonseca Neto, 2012), elas duraram em torno de 5
meses, tendo sido restabelecida as taxas de emprego. “Setorialmente, as demissões
concentraram-se na industria, sobretudo nos segmentos de metalurgia básica, produtos de
metalurgia básica, produtos de metal e fabricação de equipamentos, que perderam 10%
de seus postos de trabalho.” p 104.
Com a retração do mercado consumidor externo, as empresas exportadoras de
commodities, justamente o caso das siderúrgicas instaladas em Açailandia, que perdem
no valor de preço dos produtos exportados. Houve o grande crescimento do desemprego
deste setor que somando todas as empresas da cadeia produtiva da siderurgia na região,
chegou a 20 mil pessoas. (CARNEIRO e RAMALHO, 2009) As demissões foram
justificadas pelas empresas siderúrgicas pelo fato de que o comercio do seu produto estava
vinculado exclusivamente para as exportações, e principalmente para os EUA, país
“gerador” e em recessão econômica devido à crise.
Os trabalhadores se articularam através da mobilização de diferentes movimentos
e atores sociais com greves e “novos repertórios” de contestações (CARNEIRO e
RAMALHO,2013), tais como as audiências públicas (inclusive com os poderes
legislativos estadual e federal), movimentos de protestos nas ruas, conseguiram reverter
esta situação, ainda que com muitas perdas de benefícios já conquistados.
Nos países emergentes as taxas recuam já no mesmo ano: “No Brasil, ao final de
2009, a taxa de desemprego havia recuperado o patamar de 8,0% verificado antes dos
efeitos da crise”. (Fernandes, Araújo, e Targino, 2012) Estes dados são explicados mesmo
sob o efeito negativo na economia, segundo os autores acima citados, devido ao
desempenho do setor industrial na economia nacional em particular o crescimento do
setor no Nordeste entre os anos de 2003 e 2009. Período que as empresas guseiras do
Polo siderúrgico de Açailandia viveram o melhor momento em termos das exportações
do ferro-gusa (toneladas), chegando a exportar 1,581 bilhão de dólares (Ramalho,
Carneiro, 2013).
“... as empresas continuaram exportando e lucrando com a venda do ferro gusa estocado mas
de forma oportunista aproveitaram o cenário da crise econômica para demitir trabalhadores.
Os dados comprovam que as demissões poderiam ter sido retardadas enquanto se
confirmavam reduções nas exportações de ferro gusa.” (Ramalho; Carneiro apud Mancini,
2015)
Conclusão
Nossa pesquisa buscava entender como a conjuntura de crise econômica e
social de 2008, possibilitou ao STIMA, uma oportunidade de constituir reivindicações
por intermédio de associações, tornando-se uma ação sindical mais ampla. Assim,
visualiza-se na organização coletiva do STIMA, a partir do que se verificou na conjuntura
de crise econômica internacional e pós crise 2008 em seus reflexos atuais, uma
incorporação das demandas tanto do movimento sindical, relacionadas as garantias
trabalhistas quanto com a articulação em rede com outras formas de representação, as
quais já possuíam suas contestações aos efeitos prejudiciais observados nos projetos de
desenvolvimento relacionados ao Polo Siderúrgico de Açailândia:
É possível encontrar uma correlação da mobilização coletiva do STIMA na crise de
2008 e no cenário atual, a tendência de um “sindicalismo mais comunitário” que se une a
outros movimentos sociais para reivindicar os interesses dos excluídos do mercado de
trabalho. Seria o que Moody (apud Ramalho; Santana, 2003) defende: um sindicalismo
mais aberto às novas demandas, e em medida internacional, “um sindicalismo tipo
movimento social”. Os entrevistados direcionam a participação sindical não a vantagens
pessoais, mas enfatizaram que os benefícios e as conquistas através da ação sindical era
de cunho coletiva, que para eles são importantes no conjunto dos metalúrgicos.
Pode-se interpretar o sindicato estudado, portanto, como um ator social que procura
desenvolver novas perspectivas tanto organizativas, quanto políticas, ultrapassando os
espaços das relações industriais, para um alargamento do campo de intervenção social.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
BEYNON, Huw. O sindicalismo tem futuro no século XXI? In: RAMALHO, J. Ricardo;
SANTANA, MARCO A. (orgs). Trad. Marco Aurélio Santana. Além da Fábrica:
Trabalhadores, sindicatos e a nova questão social. Boitempo; São Paulo, 2003.
SILVA, Fábio José F. da; FONSECA NETO, Fernando de A. A crise do subprime alcança
o Brasil: canais de transmissão e efeitos sobre o desemprego. In: TARGINO, Ivan;
OLIVEIRA, Roberto V. de. (orgs). Cenários da crise e do trabalho no Brasil. Editora
Universitária da UFPB; João Pessoa, 2012.
O sindicalismo nas categorias de trabalhadores terceirizados e temporários:
uma análise das Convenções Coletivas de Trabalho do SINDEEPRES-SP
(pôster)
Resumo:
Andréia Galvão
Paula Marcelino
Introdução
O Brasil vive hoje em meio a uma dupla crise, econômica e política, que
repercute negativamente sobre as condições de trabalho e de vida das classes populares.
A crise econômica está relacionada ao processo desencadeado em nível internacional a
partir de 2008, cujos efeitos impactaram, ainda que de modo tardio, a economia
nacional. A crise política, por sua vez, expressa-se no desmonte da base de sustentação
do governo de Dilma Rousseff, na perda de apoio popular e no processo de ruptura
institucional que culminou com o impeachment da presidenta em agosto de 2016.
A atuação do movimento sindical entre 2003 e 2014 foi por nós denominada de
uma "nova fase" [Boito, Galvão e Marcelino, 2016]. Essa nova fase foi marcada pelo
apoio da grande maioria do movimento sindical aos governos petistas; pela crescente
participação das centrais sindicais nas instituições estatais; por conquistas obtidas no
plano econômico e pela retomada do ativismo grevista. As seis centrais sindicais
oficialmente reconhecidas, dentre as quais as mais importantes são CUT e Força
Sindical (FS), apoiaram, até 2013, o governo de Dilma Rousseff [Galvão, Marcelino e
Trópia, 2015]. Esse apoio não garantia o atendimento das demandas sindicais,
tampouco impedia a implementação de políticas desfavoráveis aos trabalhadores, mas
tornava o quadro sindical mais complexo. Algumas conquistas pontuais, como a
valorização do salário mínimo, associada aos indicadores positivos do mercado de
trabalho e aos resultados obtidos pela via da negociação coletiva e das greves
explicavam, na nossa avaliação, a posição sindical diante dos governos do PT.
No que se refere aos direitos sociais e trabalhistas, os governos do PT, tanto nos
dois mandatos de Lula quanto no primeiro mandato de Dilma, fizeram “movimentos
contraditórios em relação à regulação social” [Krein e Biavaschi, 2015, p. 47],
introduzindo certos direitos e reduzindo outros por meio do reconhecimento de
contratos precários de trabalho. Demandas históricas do movimento sindical e de
alcance mais geral, como a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas
semanais, o fim da demissão imotivada, a assinatura da convenção 151 da OIT de modo
a instituir a obrigatoriedade da negociação coletiva no setor público, não avançaram no
processo de negociação.
Embora, como afirme Cardoso (2014), não seja prudente e nem justo comparar
dois movimentos diferentes, parece ser possível dizer que a convocação, pelas centrais,
de duas jornadas nacionais unitárias de lutas e paralisações, em julho e agosto de 2013,
com o objetivo declarado de “fazer avançar a pauta dos trabalhadores no congresso”,
não alcançou a mesma dimensão das manifestações de junho em termos do número de
participantes, a despeito da ampla pauta de reivindicações apresentada e do fato de ter
sido mais efetiva na paralisação temporária de ramos produtivos importantes.
Ainda não temos dados consolidados das greves que ocorreram nos anos de
2014, 2015 e 2016. Mas os balanços das negociações coletivas de 2015 e 2016 mostram
claramente a deterioração das conquistas econômicas obtidas por parte dos
trabalhadores sindicalmente organizados. Segundo o Dieese [2016, p. 2], desde 2004
não se observava um resultado tão desfavorável para os trabalhadores quanto o de 2015,
quando apenas 52% dos trabalhadores tiveram algum ganho real acima da inflação; 30%
conseguiram apenas a reposição da inflação e 18% amargaram perdas salariais. No
primeiro semestre do ano de 2016 todos esses indicadores pioraram ainda mais.
Por outro lado, a despeito das críticas sindicais ao governo Dilma, a iminência
do golpe levou a um realinhamento das posições sustentadas pelas centrais, o que
constituiu uma novidade do cenário político pós-eleitoral. Com o agravamento da crise
política em 2015, uma parte da oposição de esquerda se reaproximou dos movimentos
mais próximos do PT em nome da defesa da democracia. Em setembro e outubro de
2015, duas iniciativas foram criadas: a Frente Brasil Popular, integrada por CUT,
Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Movimento dos Sem Terra
(MST), entre outros, e a Frente Povo sem medo, composta por CUT, CTB, Intersindical,
Movimento dos Sem Teto (MTST). A CSP-Conlutas não integra nenhuma dessas
frentes, considerando que a defesa das instituições democráticas não passava de pretexto
para a defesa do governo Dilma. Assim, ela organizou suas próprias manifestações,
pronunciando-se ao mesmo tempo contra o governo e contra a oposição de direita,
assumindo a bandeira do "fora todos".
Considerações finais
Bibliografia
CAMPOS Cauê Vieira, Conflitos trabalhistas nas obras do PAC: o caso das Usinas
Hidrelétricas de Jirau, Santo Antônio e Belo Monte. Dissertação (Mestrado em
Ciência Política; Unicamp), 220 p, 2016.
DIEESE, Estudos e Pesquisas, no 79: Balanço das greves em 2013, 2015 [consultado
em 07/07/2016] Disponível em:
[Link]
f.
DRUMMOND Carlos, « O abismo que nos separa », Revista Carta Capital, ano XXII,
nº 930, 2016, p. 26-29.
SAAD-FILHO Alfredo; BOITO Armando, « Brazil: the failure of the PT and the rise of
the 'New Right'. Socialist Register, London: Merlin Press, 2016, p. 213-230.
Resumo:
Este artigo tem como objeto a relação das transformações sociais ocorridas no Brasil com o
movimento dos trabalhadores, partindo desde a análise da sociedade de classes sob o
capitalismo dependente de Florestan Fernandes e a eclosão do movimento do “novo
sindicalismo”, até as transformações sociais ocorridas nas décadas 1990 e 2000, tais como a
reestruturação produtiva e o advento do lulismo com a formação de uma “nova classe
trabalhadora”. Buscando com isso compreender os resultados de tais transformações sobre a
mobilização dos trabalhadores.
1 INTRODUÇÃO
Este trabalho tem por objetivo contribuir com a discussão das classes sociais e
organização do movimento dos trabalhadores no Brasil atual adotando como metodologia a
revisão bibliográfica.
A primeira parte tem como escopo traçar uma discussão acerca do conceito de classe
1
Aluno de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito da Universidade Federal
Fluminense (e-mail: bruno_mcf@[Link])
trabalhadora sob o capitalismo dependente desenvolvido na obra de Florestan Fernandes
(FERNANDES, 1981, p. 60). Neste sentido, analisa-se inicialmente o conceito de
capitalismo dependente, bem como o papel das classes sociais neste modelo de capitalismo.
Analisa-se em sequência, como se organizava a luta sindical antes das transformações
havidas no mundo do trabalho na década de 1990, especialmente com o advento do "Novo
Sindicalismo".
Na segunda parte, passa-se assim a traçar um paralelo entre os conceitos
desenvolvidos por Fernandes com a fração de classe denominada por Paul Singer como
subproletariado. Busca-se, uma breve análise das transformações do mundo do trabalho no
Brasil durante a década de 1990, advindas do processo de reestruturação produtiva e políticas
neoliberais e os seus impactos para a classe trabalhadora, o movimento sindical e também o
subproletariado. Analisa-se, por fim, o que ocorreu com a classe trabalhadora durante o
período do lulismo (2003-2014), que contou não só com a continuidade da terceirização e
terciarização, mas teve uma forte geração de emprego e crescimento de renda na base da
pirâmide salarial, procurando entender como as transformações havidas tanto nos anos 1990
e neste período apresentam novos desafios para a organização coletiva dos trabalhadores.
André Singer (2012) menciona que apesar das transformações pelas quais passaram o
Brasil e o mundo, permanecia a contradição fundamental quando o ex-presidente Lula da
Silva tomou posse em 1º de janeiro de 2003: a mesma constatada por Paul Singer em 1981
quando mencionou que a fração de classe subproletariado (sobrepopulação trabalhadora
superempobrecida permanente) constituía 48% da PEA, contra 28% de proletários e que pelo
seu tamanho influenciava decisivamente a luta de classes (SINGER, A., 2012, p. 19-20).
Ora, o subproletariado parece pertencer à fração de classe que constitui os "não
possuidores de bens", caracterizada por Fernandes (1981) como os imersos na economia de
subsistência ou em estruturas arcaicas do sistema econômico, no meio rural e urbano
(FERNANDES, 1981), percebido por ambos como majoritários na classe trabalhadora no
Brasil.
No entanto, o quadro social de 2003 não se limitava ao analisado por Paul Singer ou
Florestan Fernandes. As décadas de 1980 e 1990 trouxeram novos elementos à realidade
social brasileira.
Segundo André Singer, tal processo repôs com vigor o problema do subproletariado,
pois a estagnação da economia e o combate à inflação por meio das importações produziram
explosão de desemprego, ampliando o subproletariado (SINGER, A., 2012, p. 20). Ou seja,
André Singer considera que tais fatores tenham, no mínimo, mantido a proporção de
subproletários na sociedade em comparação com o período pesquisado por Paul Singer. Com
base em texto de Francisco Oliveira, de 2003, aponta que entre o desemprego e o trabalho
sem-formas, transitava 60% da força de trabalho brasileira. (SINGER, 2012, p. 78). Nos anos
1980, estimava-se que a informalidade antigia 24% da PEA e em 1990, 29%. Já no ínicio
deste século, com base nos dados da PNAD 2002-2003, constatava-se 39% de trabalhadores
sem contrato de trabalho formal e que somados aos trabalhadores "por conta própria",
chegavam a 53% dos ocupados (SILVA, 2008, p. 260).
Sobre as relações coletivas de trabalho, com o governo Fernando Henrique, são
apontados por Silva (2008) movimentos de restrição da autonomia coletiva com o objetivo de
inverter a lógica clássica concessivo-aquisitiva do Direito do Trabalho (SILVA, 2008, p.
276).
O desenvolvimento da política neoliberal contribuiu para que as negociações
coletivas tivessem maior descentralização, muitas vezes se restringindo ao âmbito da
empresa, tais como as relativas à PLR e banco de horas. Outros mecanismos, tais como a
contratação por tempo determinado (MP nº 1.726/98) e a suspensão temporária do contrato
de trabalho (Lei nº 9.601/98) dificultaram também as iniciativas coletivas. A fragmentação
do processo de negociação coletiva implicou em precarização da força de trabalho (ALVES,
2006, p. 468).
Portanto, o quadro encontrado em 2003 é o do subproletariado como maioria da
classe trabalhadora, mas a realidade do mundo do trabalho é diversa da vivida em décadas
anteriores, com implicações diretas na capacidade de organização coletiva dos trabalhadores.
Vejamos que no ano de 1990 haviam sido registradas 1.956 greves, contando com a
participação de 9.084.672 grevistas, ao passo que em 1999 foram registradas tão somente
552 greves, bem como apenas 1.378.668 grevistas (ALVES, 2006, p. 466-467).
3.3 O subproletariado e a nova classe trabalhadora no lulismo
André Singer traz o histórico dos dados no lulismo (SINGER, A., 2012), dizendo
inicialmente que a população que vive abaixo da linha absoluta de pobreza reduziu-se de
36% para 23%.
Assim como na década de 1990, quando se intensificou o processo de reestruturação
produtiva no Brasil (CARDOSO, 2003; POCHMANN, 2014; RAMOS FILHO, 2012;
BRAGA, 2012), na década de 2000 se observou o crescimento das terceirizações e do setor
terciário, sendo este último o responsável pela maioria dos postos de trabalhos no país
(POCHMANN, 2012; BRAGA, 2012). Entretanto, ao contrário dos anos 1990, os últimos
anos contaram com a forte geração de postos de trabalho na base da pirâmide salarial, ou seja,
postos de trabalho com baixa renda (POCHMANN, 2012). Há diversas teorizações que
analisam este fenômeno e este trabalho se atem às análises que apontam as principais
características desta nova classe trabalhadora, tomando esta nomenclatura como a melhor
para demonstrar que estes trabalhadores vivem uma realidade distinta dos assalariados antes
das transformações ocorridas no mundo do trabalho na década de 1990.
Marilena Chauí (2013) assim aponta que o novo na classe trabalhadora seria não
somente os efeitos das políticas sociais e econômicas do lulismo, mas também os elementos
trazidos pelo neoliberalismo: fragmentação, terceirização e precarização do trabalho; e
incorporação de segmentos sociais que antes pertenceriam à classe média (CHAUÍ, 2013).
Ou seja, tomando como referência a classificação dada por Fernandes (1981),
aceita-se, de acordo com a narrativa de Chauí (2013), assumir que o grupo dos "não
possuidores de bens" pode ser mais subfracionado diante desta nova realidade do mundo do
trabalho.
Também é central a análise do destino do subproletariado traçado por Alves:
"Deste modo, podemos dizer que, sob o neodesenvolvimentismo, ocorreu
uma mobilidade social intraclasse, com uma parte do subproletariado
tornando-se beneficiária dos programas sociais como o Bolsa-Família e
outra parte do subproletariado ascendendo à condição de nova classe
trabalhadora que cresceu com a formalização contratual e a valorização do
salário-mínimo." (ALVES, 2013)
Mesmo com a ascenção de parte do subproletariado à condição de nova classe
trabalhadora, o movimento sindical não voltou a ser o centro de mobilizações que se
espraiaram para o conjunto da sociedade como havia sido no desenvolvimento do "novo
sindicalismo", sendo que a taxa de sindicalização que naquele momento chegou a atingir
mais de 30% dos trabalhadores ocupados, passa a variar em torno de 15% e 20% entre os
anos de 2003 e 2014 (POCHMANN, 2014, p. 65).
Entretanto, os trabalhadores terceirizados tem grande crescimento na taxa de
sindicalização, como em São Paulo, cuja taxa de sindicalização varia de 0,2% em 1993 a
cerca de 20% em 2003, passando a 1/3 dos terceirizados ocupados em 2010 (POCHMANN,
2012, p. 121-122). Surpreende ainda que em 2012, segundo o Departamento Intersindical de
Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), o número de horas paradas só tenha sido
inferior aos picos históricos dos anos de 1989 e 1990 e 75% superior a 2011 (BRAGA, 2013,
p. 81); e que em 2013 o número de greves tenha chegado a 2.050, 134% maior do que em
2012 (BRAGA, 2016, p. 56).
Mesmo com grande e crescente número de greves, o movimento sindical não
conseguiu se espraiar para o conjunto da sociedade. Seria o efeito das políticas de
descentralização das negociações coletivas e enfraquecimento da autonomia coletiva além
das demais que alteraram o mundo do trabalho nos anos 1990?
Mais curioso ainda é ver que neste cenário se deram as manifestações de junho de
2013 nas quais os manifestantes atuavam em coletivos que não eram hierarquizados (GOHN,
2014, p. 09), ao contrário do movimento sindical. No entanto, parte da nova classe
trabalhadora foi às ruas naquela ocasião e/ou também fez greve naquele ano. Pesquisa
realizada no Rio de Janeiro durante a manifestação de 20 de junho de 2013 pela empresa Plus
Marketing mostrou que 70,4% dos manifestantes estavam empregados, 34,3% percebiam até
1 salário mínimo e 30,3% ganhavam entre dois e três salários mínimos. A idade média era de
28 anos (BRAGA, 2013, p.82). Cabe lembrar ainda que o movimento sindical convocou
manifestações posteriores (no Dia Nacional de Mobilização) que não tiveram a mesma
capacidade de mobilização (GOHN, 2014, p. 10).
4 CONCLUSÃO
REFERÊNCIAS
Paolo Marinaro
Facultad de Ciencias Políticas y Sociales
Universidad Nacional Autónoma de México
Doctorado en Sociología
[Link]@[Link]
En los últimos diez años en México el sector automotriz ha crecido de forma extraordinaria. La
República Mexicana hoy es la séptima productora global de autos, primer socio comercial de
Estados Unidos y tercer exportador mundial. Esto significa que cinco de cada cien autos vendidas
en el mundo son ensambladas o producidas enteramente en México (Carrillo, 2015a).
El facturado del sector automotive a nivel nacional representa el 20% del PIB de la industria
manufacturera y el 30% del volumen total de exportaciones. Desde 1981 hasta 2015 los trabajadores
del sector han crecido hasta cubrir el 55% de los empleados de la industria manufacturera (Carrillo,
2015b).
Por otro lado, el excepcional crecimiento de la industria del automóvil no se ha traducido en un
mejoramiento de las condiciones laborales de los trabajadores, al contrario, el salario real ha
disminuido constantemente desde la década de los ochenta, hasta clasificarse entre los cinco más
bajos del mundo (Quintero, 2015). Al centro de esta contradicción, el sindicato juega un papel
fundamental.
Diferentes estudios han demostrado que, a partir de final de los años sesenta, las condiciones
laborales han empeorado conforme a la progresiva sindicalización de las plantas manufacturera, a
1
través de la firma de contratos colectivos que han establecido condiciones por debajo de la Ley
Federal del Trabajo (Carrillo, 1989; Gambrill, 1989; Quintero, 1990).
Un Contrato “superior” tiene prestaciones por encima de las mínimas legales. Una Cláusula “leonina” establece
condiciones de trabajo por debajo del mínimo legal (Gambrill, 1989).
2
El Antagonismo Obrero
“Treinta y dos meses sin conflictos laborales, un hecho sin precedentes desde hace
veinticinco años.” (Alfonso Navarrete Prida - STPS, Junio 2016)
“Sin embargo, no obstante ha existido una historia oficial, propagada por el gobierno y las
estructuras laborales, empeñadas en señalar la ausencia del conflicto, esto nunca ha dejado de
existir” (Quintero, 2006, p. 23). Aunque las estrategias, los objetivos y los actores involucrados en
los conflictos laborales han cambiado, “la idea de un trabajador apático, dócil y sumiso (…) es por
demás cuestionable” (Quintero, 1999, p. 176). La hipótesis de la servidumbre voluntaria carece de
información empírica (De La Garza, 2002).
3
La Ponencia
Esta ponencia se enfoca en las recientes luchas para la democratización de las relaciones sindicales,
estalladas en los últimos tres años en la industria automotriz en México. Se trata de conflictos
surgidos de forma autónoma desde la base trabajadora, con el objetivo de romper con las políticas
del sindicalismo de protección patronal. El instrumento privilegiado de estas luchas es el paro
laboral, ya que diversamente de la huelga se sustrae al protocolo institucional, que prevé la
mediación del conflicto por el sindicato titular del contrato colectivo y el respeto de los términos
impuestos por la JLCyA1. Sin embargo, la ausencia de un registro estadístico de los paros
invisibiliza estos conflictos, forzando los movimientos obreros en clandestinidad y poniendo las
condiciones para su represión ilegal por parte del sistema de protección patronal, a través de
despidos masivos, intimidaciones, falsificaciones de documentos, sobornos, arrestos arbitrarios,
agresiones y torturas.
La ponencia se enfoca en la experiencia obrera de estos conflictos, el objetivo es presentar el
sindicalismo de protección patronal como condición y resultado de un proceso subjetivo, destacando
las formas de acción colectiva que articula.
La presentación al congreso ABET se desarrolla a lo largo de los siguientes ejes (E):
[E1] Definir el papel del sindicalismo de protección patronal en la restructuración de las relaciones
de producción en México.
[E2] Describir las prácticas, los discursos y las emociones que caracterizan la experiencia obrera del
sindicalismo de protección patronal.
[E3] Describir las estrategias, los significados y los recursos afectivos a través de los cuales los
trabajadores se constituyen en un sujeto político antagonista.
[E4] Describir el papel del sindicalismo de protección patronal en el contexto de las relaciones
industriales transnacionales, con particular atención a la industria automotriz.
1 En México se distingue entre huelga y paro laboral. Ambos términos se refieren a una forma de protesta de los
trabajadores que se manifiesta con la interrupción voluntaria de las labores. La diferencia entre estas
categorías reside en el hecho que la huelga es coordinada por el sindicato e impone el respeto de un protocolo
institucional, que prevé la negociación de las condiciones de la protesta con la empresa y la JLCyA, mientras el
paro es una reacción espontánea y autónoma de los trabajadores.
4
LA INVESTIGACIÓN
5
sindicales, las dinámicas que presiden a la negociación colectiva y a la definición de los contratos
colectivos [E1; E4]. Asimismo las entrevistas semi-estructuradas me ofrecieron la posibilidad de
destacar las peculiaridades de la memoria y de la cultura sindical del territorio objeto de estudio,
vislumbrando las trayectorias laborales de los entrevistados y de sus familias [E2; E3]. La
participación en las actividades cotidianas del movimiento me ha dado la oportunidad de estudiar
las prácticas, los discursos y los procesos afectivos que presiden a la construcción de un sujeto
político, destacando las formas de politización, así como las técnicas de organización y las
estrategias de movilización [E3]. Por otro lado la convivencia prolongada con las familias de los
trabajadores me ha permitido enfocar en las relaciones y las prácticas de género, señalando la
dialéctica que se establece entre estas, el trabajo en la fábrica y las políticas sindicales [E2; E3].
En el transcurso de los últimos dos años he tenido la posibilidad de observar el desencadenamiento
global de los procesos que estuve estudiando a nivel local con los trabajadores mexicanos,
entrevistando los responsables globales de recursos humanos de FCA y representantes sindicales en
Italia y Estados Unidos. Con el mismo objetivo he participado en congresos internacionales entorno
al sector automotriz, en asambleas sindicales transnacionales organizadas para desarrollar
estrategias políticas en respuesta al sindicalismo de protección patronal y en la red sindical global
de FCA [E4].
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9
MOVIMENTO SINDICAL E JUVENTUDE: UMA INVESTIGAÇÃO
DA JUVENTUDE DA CUT
[Link]@[Link]
Introdução:
1
Disponível no diário oficial da união, seção 1, nº62, 1 de abril de 2016, pág. 132.
foi criado o Coletivo Nacional de Juventude da CUT, e o tema reaparece timidamente na
agenda da central na década de 2000. Na 12ª Plenária Estatutária da CUT (2008), foi
aprovada a criação da Secretaria da Juventude e, no ano de 2009, na ocasião do 10º
CONCUT (Congresso Nacional da Central Única dos Trabalhadores), os representantes
da secretaria de juventude da CUT nacional e das Estaduais da CUT foram eleitos.
2
Compreendemos classe social enquanto um fenômeno que é ao mesmo tempo econômico, político,
cultural, objetivo e subjetivo, econômico porque assumimos que a divisão entre proprietários e não-
proprietários é uma divisão fundamental que possibilita a formação de coletivos com interesses opostos,
porém, para que essa potencialidade se realize faz-se necessário levar em consideração fatores político-
ideológicos, que farão com que essa existência latente de classes que se colocam em oposição uma a outra,
se torne manifesta (Boito Jr. 2007).
convencionamos chamar de juventude, mas que não é vivenciada igualmente pelos
individuos de uma mesma faixa etária. A condição juvenil é histórica, cultural e social.
Ela varia ao longo da história, varia de uma cultura para a outra, varia de acordo com a
origem rural ou urbana desses indivíduos, varia de acordo com distinções sociais de
classe, raça e gênero, etc.
Metodologia:
Resultados de pesquisa:
3
A lei 11.648/2008 trouxe o reconhecimento formal das centrais na estrutura sindical, enquanto entidades
associativas de direito privado de representação geral dos trabalhadores, constituídas em âmbito nacional.
Antes disso, as centrais sindicais não podiam participar formalmente de negociações entre a classe
trabalhadora e o patronato, pois se tratavam apenas de associações civis. Portanto, esta lei concedeu às
centrais a prerrogativa de coordenar e participar de negociações em espaços de diálogo social que possuam
composição tripartite. Além disso, com a legalização as centrais passaram a ter acesso a 10% da
contribuição sindical dos sindicatos filiados, no ano de 2010, por exemplo, a CUT recebeu R$27,3 milhões,
segundo dados do MTE. (Soares, 2013).
indícios da importância desse setor no interior da Secretaria de Juventude.
Em nossa análise foi possível notar que o debate sobre juventude de fato só
ganhou maior expressão nacional no interior da entidade recentemente. De modo geral a
juventude aparece em todos os documentos da entidade enquanto setor amplamente
afetado pela precarização do trabalho e pelo desemprego e, por conta disso, também
aparece como um setor que necessita de políticas sociais especificas. Ao mesmo tempo,
todos os documentos abordam de forma genérica que existe uma grande dificuldade em
aproximar a juventude do movimento sindical.
A cartilha “Juventude da CUT e as negociações sindicais no campo e na
cidade” (2014) traz alguns dados de uma pesquisa que a CUT Nacional encomendou ao
DIEESE de caracterização dos dirigentes sindicais, a pesquisa foi uma deliberação do XI
Congresso nacional da CUT (2012) sobre a necessidade de conhecer o perfil dos
dirigentes da central. Através dos dados da pesquisa, é possível constatar que 89,1% dos
dirigentes da CUT possuem mais de 35 anos, e deste percentual, 44% possuem 50 anos
ou mais, mostrando que a central possui baixa participação de jovens nos seus cargos de
direção, situação que se acentua mais ainda quando observamos apenas a Executiva
Nacional, apenas 8% dos dirigentes possuem até 35 anos.
Conclusão:
Nesse sentido, cabe discutir quais as respostas que os sindicatos têm dado
para a juventude, que tem protagonizado diversos movimentos sociais, seja discutindo
questões raciais (vide marcha do empoderamento crespo que ocorreu em Salvador em
20154 e as marchas do orgulho crespo que ocorreram em São Paulo5), questões de gênero
(protestos contra a cultura do estupro que ocorreram em diversas cidades em 20166), ou
as jornadas de junho de 2013. De forma que a juventude não se encontra desmobilizada
ou fora do cenário político nacional. Braga e Santana (2015) observam que é necessário
4
Para mais informações: <[Link]
crespo-reune-cerca-de-tres-mil-pessoas-em-salvador/> último acesso: 29 ago. 2016.
5
Para mais informações: <[Link]
[Link]> último acesso: 29 ago. 2016.
6
Para mais informações: <[Link]
do-estupro> último acesso: 29 ago. 2016.
pensar o lugar tradicional dos sindicatos como canal de organização frente a uma
reconfiguração das classes sociais no Brasil contemporâneo.
Por mais que o discurso da CUT tenha sido renovado a partir da Secretaria de
Juventude, as práticas não são muito inovadoras, a Secretaria de Juventude trilha o mesmo
caminho que o restante da central já traçou, o de pautar construção de políticas públicas
e ações coletivas, mesmo que o escopo destas tenha sido ampliado. Falta uma renovação
no que diz respeito as práticas, além de que caberia a central tentar se aproximar dos
debates de questões mais caras as juventudes, como questões de raça e de gênero. Dessa
forma, a análise dos documentos evidencia que a Secretaria de Juventude da CUT, assim
como demonstra o histórico da própria central nas últimas décadas, tem buscado se
relacionar muito mais com o estado do que com a sociedade civil e os movimentos sociais.
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Joint-ventures, deslocamentos e ações coletivas
Introdução
Por volta de 2011 entrevistas com altos quadros da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta
Redonda apontavam a criação de uma nova empresa como saída às críticas, ações e investigações,
bem como à perda de eficiência que a terceirização vinha ocasionando na usina. A nova empresa seria
uma joint venture controlada pela CSN e por uma de suas prestadoras de serviços – a antiga Cikel. A
nova empresa ficaria responsável pela incorporação de grandes contratos de prestação de serviços
dentro da Usina Presidente Vargas (UPV). No início do ano seguinte surgiu a Companhia Brasileira
de Serviços de Infraestrutura (CBSI), empreendimento com 50% de capital da CSN e 50% de capital
da CKLS Serviços Ltda.
A joint venture incorporou na mesma época os contratos da CKLS, predominantemente
ligados às obras de construção civil, embalagem e manutenção de estruturas metálicas da usina, e da
Verzani Sandrini, especializada em limpeza industrial. É possível que já neste mesmo ano o novo
empreendimento tenha se tornado a empresa com maior número de funcionários dentro da UPV. Afora
estes grandes contratos, a empresa também incorporou outros serviços subcontratados às terceirizadas
Enesa, Rip e Citrino. Assim como em outras mudanças e deslocamentos previamente ocorridos na
produção, pouca ou nenhuma explicação foi oferecida a sindicalistas e trabalhadores sobre as causas
e os objetivos por detrás do surgimento da CBSI. Algumas notícias atribuíam a criação da CBSI ao
desejo da CSN de incorporar e gerir os contratos de manutenção industrial. Uma matéria online
publicada pela imprensa local, o Jornal Aqui, mencionou a abertura da nova empreiteira da CSN e o
ambiente de dúvidas e incertezas acerca de seu surgimento:
Esta semana, o aQui recebeu uma denúncia curiosa. A de que a CSN e a Cikel
(uma antiga fornecedora de embalagens de madeira para a Usina Presidente
Vargas) teriam se unido para criar uma terceira empresa para assumir os
serviços de manutenção na UPV. A nova empresa, apelidada pela Rádio Peão
de Companhia Benjamin Steinbruch (CBS) se chama na verdade Companhia
Brasileira de Serviços de Infraestrutura (CBSI). O problema é que mal foi
criada e ela já começa a provocar dor de cabeça no presidente do Sindicato da
Construção Civil, Dejair Martins. Há pelo menos dois bons motivos pra isso:
primeiro, porque o sindicalista precisou se impor para impedir que as
pendências trabalhistas da Cikel fossem deixadas de lado, prejudicando quase
mil operários que trabalhavam para ela. E segundo, porque a Cikel teria se
recusado a pagar a PPR (Programa de Participação dos Resultados) de 2011,
alegando que não teria dinheiro em caixa. Em entrevista ao aQui na quinta, 2,
Dejair confirmou que a CSN e a Cikel se uniram e criaram a CBSI e que esta
nova empresa passou a existir, de fato, no dia 1º de janeiro de 2012. “Eu não
sei por que eles montaram esta nova empresa. A Cikel tinha um contrato com
a CSN de mais de 10 anos, não sei se vinha pedindo algum aditivo para
continuar com a manutenção das obras na usina. O que eu sei é que elas se
uniram e criaram a nova empresa. Dois diretores da CSN e dois da Cikel
respondem pela CBSI”, contou Dejair, acrescentando que as pendências
trabalhistas até o dia 31 de dezembro de 2011 ficaram a cargo da Cikel – o que
incluía o pagamento da PPR de 2011, que deveria ter sido paga até 31 de janeiro
de 2012. (Jornal aqui de 31 de janeiro de 2012)1
Em 2011 antes mesmo da criação da CBSI, um dos entrevistados afirmou que o objetivo da
futura empresa era ampliar o controle da CSN sobre os serviços prestados dentro da UPV. Estima-se
que no início de suas operações, a nova empresa tenha incorporado parte dos ex-funcionários da
italiana Comau, responsável por contratos de manutenção industrial. De acordo com as entrevistas, a
CBSI era responsável além das atividades de limpeza, embalagem e construção de estruturas
metálicas, pela manutenção eletromecânica na recém-inaugurada fábrica de aços longos. O
desempenho de atividades de manutenção na fábrica de cimentos funcionaria como uma prévia da
incorporação pela joint venture de outros contratos deste tipo da UPV. Os objetivos da empresa
segundo relatório da CSN eram “a prestação de serviços para controladas, coligadas, controladora
e outras empresas terceiras, podendo explorar atividades relacionadas à recuperação e manutenção
de máquinas e equipamentos industriais, manutenção civil, limpeza industrial, preparação logística
de produtos, entre outros” (CSN, Demonstrações Financeiras 2011). Entre as atividades
incorporadas pela empresa estava a manutenção de máquinas e equipamentos. As funções de
manutenção de máquinas equipamentos são aquelas que oferecem maior risco de fragmentação da
base do Sindicato dos Metalúrgicos o Sul Fluminense (Sindmetal-SF). Isto porque a despeito da
ampliação da terceirização da manutenção de equipamentos nos anos 1990 e 2000, a representação
destes trabalhadores e funções permaneceu majoritariamente a cargo dos metalúrgicos. Como nos
1
Disponível em: [Link] (Acesso em 04/011/2014).
casos de terceirização dos serviços, os prejuízos causados por estes novos enquadramentos já são de
longa data conhecidos: fragmentação da base sindical das categorias preponderantes e convenções e
acordos coletivos em geral inferiores àqueles conquistados junto à categoria preponderante (DRUCK,
2007; SANTOS, 2009; MARCELINO, 2013).
A nova empresa “nasceu” suscitando polêmicas e disputas. Em princípio, criou divergências
em função de agregar trabalhadores das ex-subcontratadas Cikel e Verzani Sandrini, com atividades
respectivamente enquadradas nas categorias da construção civil e do asseio e conservação. Pouco
antes de se tornar CBSI, a Cikel, que estava enquadrada no Sindicato da Construção Civil, alterou
seu nome para CKLS e, nesta época, assinou acordos coletivos com o Sindicato do Asseio e
Conservação. No entanto, ao integrar a joint venture CBSI, os trabalhadores da CKLS voltaram a ser
enquadrados no Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil do Sul Fluminense ou
Sintraconsmonpes2. A estratégia de criar uma joint venture para prestação de serviços nos complexos
da CSN não se restringe a unidade de Volta Redonda (RJ). Em Congonhas (MG), a CSN criou em
2012 a CGPAR Construção Pesada S.A., fruto de sua associação com a contratada GPA Construção
Pesada e Mineração Ltda, para incorporar contratos de logística e de manutenção na mineradora de
Casa de Pedra3. Com a criação da joint venture trabalhadores de manutenção da mina contratados
pela CGPAR passaram a ser enquadrados na categoria da construção civil em lugar da mineração. A
empresa foi criada na mesma época em que tramitava na justiça uma Ação Civil Pública contra a
terceirização ilegal na mineradora da CSN. Segundo uma procuradora do trabalho de Belo Horizonte,
em uma das tentativas de acordo com a CSN, a empresa apresentou a joint venture CGPAR como
alternativa à terceirização, ou ainda, como uma forma de “primarização” da força de trabalho da mina.
A empresa, com um capital de 50% da CSN incorporaria justamente as funções terceirizadas que
haviam sido definidas como atividades-fim pelo MPT e pela justiça do trabalho de Minas Gerais.
Segundo a procuradora entrevistada, as motivações para a criação da nova empresa pela CSN
teriam sido: evitar as greves realizadas pelos funcionários da GPA e “regularizar” a situação dos
terceirizados, afastando o risco de condenação pela justiça por terceirização ilegal. Em sua visão, no
entanto, a nova empresa não representaria mais do que um “aperfeiçoamento” da terceirização, já que
os trabalhadores continuariam em uma condição de subcategoria, sem acessar os benefícios e direitos
dos funcionários CSN. Assim como no caso da CBSI, os funcionários da CGPAR não desfrutam dos
2
Sindicato dos Trabalhadores da Conservação Civil, Montagem e Construção Pesada de Volta Redonda.
3
A empresa tem como principais atividades: “a prestação de serviços relacionados ao apoio à extração de minério de
ferro, terraplanagem, movimentação de terras e construção de barragens.”
direitos e benefícios conquistados pelas categorias preponderantes (respectivamente dos metalúrgicos
e dos mineradores).
Embora seja difícil determinar as razões que levaram a CSN a criar a CBSI, alguns
entrevistados especularam sobre as causas da montagem da nova empresa:
(…) Então a CBSI é uma empresa que visa lucro, mas no entanto ela tem uma
margem pequena deste lucro em razão de que, de que ele a medida que ele pega
o contrato diretamente ele já tem um valor específico (…) Mas hoje eu acredito
que a margem de lucro dela não seja tão grande (...) Porque quando o sócio
principal dela [a CSN] montou ela pensando em não gastar. É meio
contraditório isso né. Mas na minha opinião a ideia do Benjamin quando
associou a esta empresa [CKLS] foi para que a CSN não gastasse tanto, gastasse
menos. Então no entanto, essa empresa não vai trabalhar com uma margem de
lucro tão elevada quanto outras certamente ao ganhar um contrato estariam
trabalhando com aquela margem de lucro maior. (L)
Se do prisma das relações de trabalho estabelecidas a CBSI não se distanciava de outros tipos
de terceirização, do ponto de vista da relação entre as empresas é difícil classificar a joint venture
como terceirização, ou ao menos como uma terceirização no sentido clássico. Na CBSI está ausente
parte do conflito de interesses inerente à relação entre contratada e contratante. A prestadora de
serviços não possui autonomia para barganhar os contratos, pois a CSN é ao mesmo tempo contratante
e contratada. A CBSI beneficiaria a CSN ao reduzir os custos com os serviços, e também ao permitir
o aumento do controle sobre os contratos e sobre os funcionários contratados. Nas palavras de outro
trabalhador:
O maior controle exercido pela CSN sobre os contratos e sobre os funcionários da CGPAR e
da CBSI não foi suficiente para evitar greves e paralisações destes trabalhadores nos anos
subsequentes à criação das joint ventures. Na UPV, os trabalhadores da CBSI fizeram paralisações
nos anos de 2012 e de 2013. Em 2012, a causa da parada foi a decisão da empresa de negociar um
Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) separado com o Sintraconsmonpes depois que a entidade havia
conquistado um aumento salarial significativo4 na negociação com o sindicato patronal Sinduscon5
na Convenção Coletiva da categoria6. Embora tivesse inicialmente acatado a continuidade da
vinculação dos funcionários da CBSI à Convenção Coletiva da Construção Civil, tal como na época
da Cikel, a empresa recuou da decisão ao perceber que o Sinduscon ofereceria aumento salarial
superior àquele que ela estava disposta a pagar. No princípio da Campanha Salarial de 2012, o
4
De até 13%, frente aos 5,9% oferecidos posteriormente pela CBSI.
5
Sindicato das Indústrias da Construção do Sul Fluminense.
6
Disponível em [Link]
[Link]#axzz3SbnFuw5L (Acesso em 07/10/2013).
Sindicato da Construção Civil aventou a possibilidade de realizar um ACT separado com a CBSI.
Enquanto os sindicalistas enxergavam o ACT como a possibilidade de estabelecer vantagens
superiores àquelas firmadas pela CCT da Construção Civil, tendo em vista o tamanho da CBSI e a
sua vinculação à CSN, a nova empresa pretendia através deste acordo oferecer condições inferiores
àquelas firmadas na Convenção Coletiva da Construção Civil. De acordo com o sindicalista, além de
conseguir manter a CCT e o reajuste salarial da Construção Civil para os trabalhadores da CBSI, o
Sintraconsmonpes ainda conquistou para estes trabalhadores o enquadramento como categoria
diferenciada. Segundo o sindicalista a Cikel atuava primordialmente nas atividades de construção
civil, no entanto, a CBSI já tinha um número importante de funcionários alocados nas atividades de
estrutura. Isto possibilitou o enquadramento destes trabalhadores em categoria especial, e permitiu o
percebimento de salários superiores àqueles dos pedreiros da Construção Civil, embora inferiores
àqueles pagos à categoria da montagem7.
Em 2013 os funcionários da CBSI novamente paralisaram suas atividades, desta vez, por uma
semana. O objetivo da greve era pressionar a empresa pela elevação dos reajustes salariais e dos
benefícios dos trabalhadores8. Embora a greve tenha contado com a participação de funcionários de
diferentes empresas de toda a base do Sintraconsmonpes, a participação dos trabalhadores da CBSI
foi determinante para o desencadeamento do movimento paredista. Com cerca de 2.000 funcionários,
a CBSI concentra o maior conjunto de trabalhadores da base sindical do Sintraconsmonpes e
possivelmente o maior número de prestadores de serviços da UPV àquela época. Este dado é
particularmente relevante tendo em vista o perfil dos Sindicatos da Construção Civil como um todo,
marcado pela fragmentação dos trabalhadores em diversas pequenas e médias empresas. Neste
quadro, os efetivos da CBSI são “chamados” a exercer um papel de vanguarda dentro da empresa, e
no Sindicato da Construção Civil. O sindicalista da Construção Civil aponta o papel de destaque da
CBSI na greve da construção civil no Sul Fluminense em 2013:
(...) A gente sempre teve uma resistência na Cikel, ela sempre segurou o
acordo. Então os trabalhadores da Cikel sempre jogou o acordo para cima. Não
7
Por ser um setor onde há grande diversificação das atividades dos trabalhadores, o Sindicato da Construção Civil possui
quatro CCTs diferentes. As Convenções Coletivas do sindicato abrangem as categorias: da construção civil, da construção
pesada, da montagem industrial, do setor de mármore e granito. O setor de montagem industrial é aquele em que os
benefícios e direitos são superiores aos do resto da categoria.
8
Jornal Foco Regional de 4 de setembro de 2013. Disponível em:
[Link]
+greve&idnoticia=104293 (Acesso em 22/08/2013).
seria diferente com os trabalhadores da CBSI, entendeu. Então os
trabalhadores da CBSI, se não fosse a CBSI não teria greve, a verdade é essa.
Porque a gente não conseguiria parar as empresas, as empresas públicas lá
também se você não tivesse piquete. (...) Porque o que que acontece, a CSBI
tava com 2.000 trabalhadores. Então assim, na praça tinha uns 700/800, dos
quais mais de 50% era da CBSI. Se (...), digamos assim a CBSI não quer fazer
greve, como é que eu vou identificar esses trabalhadores na portaria para mim
fazer greve sem que haja um piquete, entendeu? Então quando a CBSI resolveu
fazer a greve, as outras vem a reboque. “Ah, tá todo mundo de greve, nós
vamos de greve.”
(…) pelo fato de hoje ter uma empresa com um número grande de trabalhadores
e que tem a CSN como referência. Embora a CSN, se você pegar no setor
siderúrgico, a CSN é a que tem o menor salário, é a que paga menos. Mas ela
ainda assim é uma referência para os trabalhadores da região. Então se a
empresa principal ela tem uma parceria com uma outra empresa e esses
trabalhadores não têm nem de perto os mesmos benefícios da atividades
principal da empresa principal que é a CSN isso te dá uma angústia, né. Te dá
um desejo de transformar, de mudar, de peitar, de brigar. Então a gente usa isso
como um motivador também, não tenha dúvida. Isso é a nossa gasolina.
(Sindicalista do Sintraconsmonpes)
Assim como quando do processo mais intenso de terceirização dentro das empresas, a criação
das joint ventures CBSI e da CGPAR confunde as fronteiras identitárias dos trabalhadores e dificulta
a leitura e enquadramento dos novos empreendimentos pelos atores. Ao mesmo tempo em que a CSN
buscou classificar a emergência das empresas como resultado de um processo de primarização, os
atores se dividem entre considerá-las uma nova terceirização, ou uma desterceirização das atividades.
As estratégias das empresas perpassam um constante deslocamento das identidades e dos
pertencimentos: quando da intensificação da terceirização, há uma separação aguda entre o local onde
se desempenha o trabalho e o empregador; com a “suposta” desterceirização, no caso da CBSI, houve
uma retomada do controle dos efetivos pela CSN – agora simultaneamente contratante e contratada
– sem que isto se refletisse na conquista de garantias e direitos que caracterizam o estatuto dos
funcionários “diretos”. Talvez tenhamos que fazer agora uma diferenciação entre funcionários “100%
CSN”, e os outros.
Em Congonhas, de acordo com o site da Conlutas, os funcionários da CGPAR fizeram uma
greve espontânea em 2013 e uma paralisação ao final de 2014. Em 2013 a greve foi deflagrada em
função da demanda por melhores condições de trabalho, elevação dos benefícios e salários,
reconhecimento dos atestados médicos, fim do assédio moral das chefias, entre outros9. Em 2014, a
paralisação tinha por objetivo o reenquadramento destes funcionários na categoria preponderante dos
mineradores, no sindicato Metabase-Inconfidentes:
Em Congonhas assim como em Volta Redonda a CSN, a partir das críticas à terceirização
Referências Bibliográficas
Resumo:
Esse trabalha apresenta os resultados finais do projeto de pesquisa "A influência das
manifestações de junho de 2013 nas lutas e greves de trabalhadores sindicalizados de São
Paulo (SP)". Esse projeto se propôs a analisar as possíveis relações entre as manifestações
ocorridas em junho de 2013 e as mobilizações dos trabalhadores sindicalizados de São
Paulo no período subsequente. Para isso, foi realizada uma revisão bibliográfica sobre
essas manifestações e sobre o sindicalismo brasileiro e também uma pesquisa de campo
qualitativa em três importantes sindicatos paulistas, ligados a centrais sindicais diferentes,
sobre suas mobilizações: o Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, o
Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e o Sindicato dos Metroviários de São Paulo.
Trata-se, portanto, de um estudo na área da sociologia do sindicalismo que buscou,
através de um acontecimento histórico, investigar a relação entre a conjuntura política e
ideológica e a mobilização sindical. Com isso, pretende-se discutir a pertinência das teses
que afirmam que o sindicalismo, em alguma medida, se recupera da crise vivida na década
de 1990. Além disso, apesar de não ser um estudo sobre as manifestações de junho, se
propôs a também contribuir para o debate sobre esses acontecimentos ao buscar investigar
um dos possíveis efeitos sociais desse fenômeno e ao fazer uma sistematização dos dados,
pesquisas e teses sobre o assunto publicados até então.
A INFLUÊNCIA DA PARTICIPAÇÃO SINDICAL NOS CRITÉRIOS DE
JUSTIÇA DISTRIBUTIVA DE TRABALHADORES DO COMÉRCIO
Tiago Magaldi
tmgranato@[Link]
Introdução
Nossa proposta atual teve origem no debate acerca da chamada “nova classe
média”, tema de nossa monografia de graduação. Quem eram esses indivíduos,
sociologicamente falando? Quais visões de mundo adotavam e quais rejeitavam? A
disputa pela primazia explicativa evidenciou as grandes diferenças entre os intelectuais
1
Defendida em 20 de abril do corrente ano, com o título: “Comerciários, sindicato e desigualdades
sociais: contribuição para uma sociologia dos sentimentos de justiça”.
que se apresentaram com maior visibilidade, e isso tanto entre economistas (como
Marcelo Neri (2011), Márcio Pochmann (2012, 2014), Waldir Quadros (2013)) quanto
entre sociólogos e cientistas políticos (como André Salata e Celi Scalon (2012), Jessé
Souza (2012), Bolívar Lamounier e Amaury Souza (2010), André Singer (2012), dentre
muitos outros).
2
“De cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades!” (Marx, 2012)
capacidade de cada indivíduo em sua atuação no mercado. Trata-se de um critério não
igualitário porque, sendo o mercado um mecanismo indiferente às desigualdades, a
retribuição de renda por esse critério engendraria uma desigualdade estrutural. É por
este motivo que, para Marx, na sociedade comunista as capacidades deveriam ser um
critério para a alocação de indivíduos na produção, e não de recompensa pelo trabalho.
Do lado das “necessidades” também há variação. Mas o critério distributivo das
necessidades é equitativo porque pretende colocar todos num mesmo patamar de não-
necessidade. Portanto, as desigualdades variariam, mas o objetivo do critério, o
resultado de sua aplicação, não.
Metodologia
A análise do tema foi realizada pelos autores brasileiros que tomamos como
referência quase exclusivamente através de técnicas quantitativas de pesquisa. A
pequena bibliografia que foi produzida sobre o tema parecia depender excessivamente
da utilização teórica de “grupos sociais” que só existem estatisticamente. Grupos como
“povo brasileiro” (Reis, 2004; Scalon, 2004), ou mesmo “40% mais pobres” (Cardoso,
2004; 2010), construídos para fins de análise de dados, embora auxiliem no
desenvolvimento do argumento em geral, não apenas são pouco sensíveis a construções
ideológicas mais complexas, como ignoram a distribuição desigual de construções
simbólicas no espaço social. Realizam, assim, uma homogeneização artificial do
contexto social específico dos indivíduos que compõem os grupos sobre os quais
constroem suas análises. Dentre o “povo brasileiro” encontramos de trabalhadores
extremamente precarizados a capitalistas milionários; dentre os “40% mais pobres”
encontramos desde trabalhadores do comércio de luxo sindicalizados a indivíduos em
situação de indigência.
Mesmo cientes desse risco, acreditamos que o resultado a que chegamos não
pode ser atribuído exclusivamente à necessidade histórica de encontrar bodes
expiatórios para as derrotas. De fato, é claramente saliente nas entrevistas a importância
atribuída à ação individual pelo conjunto dos entrevistados. Vejamos a questão mais de
perto.
3
Agradeço aos professores Paulo Fontes e José Ricardo Ramalho pela acurada observação histórico-
crítica deste ponto na ocasião de nossa defesa de dissertação.
entrevistados: deveriam ter suas necessidades levadas em conta em sua remuneração na
exata medida em que permitiriam ao indivíduo livrar-se das obrigações mais básicas da
reprodução de sua própria vida. As respostas “variam” de alimentação a moradia, nunca
chegando, por exemplo, ao lazer, ou mesmo ao financiamento de qualificação
educacional, saúde, consumo, filhos, etc.
Assim colocada a questão das causas da desigualdade, parece que os
entrevistados minimizam a existência de múltiplos interesses dentro daquilo que
pensam ser a sociedade brasileira. Estendendo o raciocínio, seria como se os
mecanismos de retribuição de bens fossem “neutros” em relação ao interesse particular
de indivíduos e grupos (o que não significa afirmar que estes não existam), a crítica
devendo ser realizada apenas em relação aos “gargalos” existentes em seu
funcionamento. Liberando esses gargalos, isto é, oferecendo mais oportunidades a
todos, o “sistema” funcionaria corretamente, premiando indivíduos esforçados e
qualificados com ascensão social, e punindo aqueles preguiçosos ou simplesmente sem
desejo de ascensão no trabalho. Este, aliás, é o fundamento “sociológico” da negação da
separação política entre “esquerda” e “direita”.
Uma vez presentes as condições de exercício da atividade individual, isto é, em
um emprego determinado, uma posição que permite ação, em um “trabalho”, sobre
quais critérios deveria estar assentada a remuneração dos indivíduos? Ambos os grupos
(sindicalistas e não-sindicalistas) afirmam majoritariamente serem as “capacidades” o
critério normativo mais importante para a determinação da remuneração. Mas é possível
ainda analisar a expressão, de modo a nos aproximarmos mais das respostas empíricas
que obtivemos. Para tanto, decompomos o termo em outros, surgidos nas entrevistas.
São eles: 1) produtividade; 2) esforço; 3) qualificação; e 4) propriedade. Embora na fala
dos entrevistados apareçam sempre entrelaçados, é possível distinguir essas quatro
acepções empíricas diferentes daquilo que chamamos “capacidade”.
Entrevistado: - Por exemplo, eu acho... É, vou falar sobre mim, deixa eu falar
sobre mim. Um salário fixo mais comissão, o salário fixo não é um salário
fixo que vai te manter, é o salário que vai te deixar numa zona de conforto
para que você possa atingir mais para viver bem. Viver bem é o que? Olha
ter dinheiro pra pagar um plano de saúde que a empresa não dá. Ter
dinheiro pra você poder levar seu filho no MC Donald ou qualquer outro
lugar, entendeu?
Entrevistador: - E abaixo disso seria? Você só de manter assim, comer,
morar...
Entrevistado: - No limite. No limite. No limite. Entendeu? Então é tipo assim,
a pessoa vai ganhar mil e quinhentos reais, mas a pessoa pode chegar a
ganhar quatro mil, depende dela.
4
Como de praxe, trata-se de um nome fictício, para garantir o anonimato do entrevistado.
necessidade, ambos os grupos afirmariam a injustiça da distribuição; o grupo dos
dirigentes, no entanto, diferentemente dos não sindicalizados, tendem a perceber um
rebaixamento injusto do que é considerado como “mínimo necessário”. Parte do que
declaram ser sua luta é justamente aumentar a importância do piso recebido. Mas, a
nosso ver, o fazem para “restabelecer” a justiça da distribuição diferenciada pelas
capacidades, e não para superá-la.
As entrevistas nos permitiram destacar três razões para essa diferença. Em
primeiro lugar, a incorporação de uma visão sobre a própria existência da “categoria”
dos comerciários. Em regra, os sindicalistas entrevistados afirmam só ter passado a se
sentir parte de uma categoria com sua entrada para o sindicato. Em segundo lugar, a
participação nas negociações com os representantes dos patrões. Naquele momento os
entrevistados sentem que, de fato, o interesse dos empregadores não está em produzir a
maneira mais justa de remunerar seus trabalhadores, mas sim em remunerá-los o menos
possível. Isso aumenta a indignação entre os sindicalistas na medida em que a dimensão
dos interesses estruturais – isto é, não individuais e, portanto, ilegítimos a seus olhos –
se sobrepõe à da justiça. Por fim, há a participação política no Partido Comunista do
Brasil (PCdoB), que se inclina discursivamente para a valorização das necessidades
como critério último de justiça distributiva5.
5
Pelo menos foi isso que pudemos observar empiricamente nas entrevistas que realizamos com
militantes partidários atuando como dirigentes do SEC-RJ.
calvário desse trabalhador. A conclusão que tiramos das entrevistas é que o sentimento
de justiça desses trabalhadores é fortemente determinado por um componente ético
baseado especificamente no esforço individual. Para eles, a justiça da remuneração está
ligada a um princípio fundamental, que estabelece a obrigatoriedade da recompensa
àquele que se esforça. Não se trata exatamente daquilo que Souza (2012) qualificou
como “ética do trabalho duro”, característica de seus “batalhadores”, porque não
percebemos entre essas entrevistadas uma percepção normativa positiva do trabalho,
pelo contrário. A elevação do esforço como ética parece ser antes uma maneira de dar
um sentido legítimo ao duro cotidiano de trabalho que têm de enfrentar.
Em segundo lugar, temos os trabalhadores de lojas de vestuário. As entrevistas
revelaram que estes trabalhadores foram os que aderiram de maneira mais cristalina às
capacidades individuais como critérios justos de remuneração, mas sob um viés
específico: o da produtividade. Todos concordaram que esse critério era justo para
determinar a remuneração. Mas isso não parece ocorrer apenas por uma simples
“inculcação” desse critério na sua consciência. Ele se objetiva muito concretamente na
forma de salário e, principalmente, prestígio profissional. Dentre todos os entrevistados,
esses trabalhadores foram os únicos que se mostraram orgulhosos de seu trabalho não
apenas pelo dinheiro que conseguiram, mas também por motivos estritamente
vinculados à função que exerciam. Nesse ponto, nossa pesquisa confirma o encontrado
por Trópia (1994).
Considerações finais
6
Criticada em detalhe no primeiro capítulo de nossa dissertação – a partir do destaque da problemática
da exploração dentro do marxismo realizada por Erik Olin Wright (2015) em recente livro –, para a qual
remetemos o leitor.
antes, que apresentavam visões de mundo estreitamente relacionadas com os horizontes
de recompensas existentes em seus respectivos trabalhos.
Referências bibliográficas
MILLER, David. Distributive justice: what the people think. In: Ethics, vol. 102, nº3,
pp. 555-593. Chicago: The University of Chicago Press, 1992.
NERI, Marcelo. A nova classe média: o lado brilhante da base da pirâmide. São Paulo:
Saraiva, 2011.
REIS, Elisa. Percepções da elite sobre pobreza e desigualdade. In: Revista Brasileira de
Ciências Sociais, São Paulo, Vol. 15, nº 42, 2000.
SALATA, André; SCALON, Maria Celi. Uma nova classe média no Brasil na última
década? O debate a partir da perspectiva sociológica. In: Revista Sociedade e Estado,
Brasília, vol. 27, nº 2, 2012.
__________; OLIVEIRA, Pedro Paulo de. A percepção dos jovens sobre desigualdades
e justiça social no Brasil. In: Interseções, v. 14, nº2, p. 408-437. Rio de Janeiro, 2012.
WRIGHT, Erik Olin. Understanding Class. Londres: New Left Books, 2015.
A INEXISTÊNCIA DE AUTONOMIA DA VONTADE COLETIVA FRENTE À
GLOBALIZAÇÃO ECONÔMICA E O NEOLIBERALISMO1
INTRODUÇÃO
1
O presente artigo tem por base um artigo apresentado no XIII Encontro Luso-Brasileiro de juristas do trabalho e
outro publicado na Revista da ABET, v. 15, n. 2, Julho a Dezembro de 2016.
2
Mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Pelotas (2016) e doutorando em Políticas Sociais, Programa
de Pós Graduação em Políticas Sociais da Universidade Católica de Pelotas.
Desde então, os ataques aos direitos trabalhistas não cessam, conforme se verifica nos Projetos
de Lei 5.483/20013, 1.463/20114, 4.193/20125, 8.294/146, 4.962/20167 e 6.787/20168 e decisões
judiciais por parte do STF9 e TST10. No mesmo sentido são os documentos da CNI, “As 101
Propostas”11 e da Fundação Ulysses Guimarães vinculada ao PMDB “Uma ponte para o
futuro”12. Segundo alguns juristas e sociólogos, todas essas hipóteses objetivam precarizar
direitos trabalhistas mediante negociação coletiva, assegurando a prevalência do negociado
sobre o legislado. Porque para alguns a possiblidade de prevalecer o negociado sobre o legislado
permite a adaptação dos direitos trabalhistas a conjuntura socioeconômica, através das
denominadas cláusulas de ajuste de setor. Contudo para outros, qualquer hipótese que permita
prevalecer o negociado sobre o legislado será sinônimo de precarização ou desregulamentação
dos direitos trabalhistas. Portanto o debate sobre o que significa “modernizar” a legislação
trabalhista se reflete numa luta político-cognitiva pela definição do real, em que as partes
envolvidas: governo, campo jurídico, sindicatos de trabalhadores e entidades empresariais
disputam suas posições em defesa da regulação pública das relações de trabalho ou na defesa
da regulação privada.
A metodologia empregada lançou mão de pesquisa bibliográfica da literatura jurídica
e sociológica relacionada aos estudos do mundo do trabalho e de pesquisa documental de
declarações e manifestações dos mais diversos grupos de interesse a respeito do tema no
3
Altera o art. 618 da CLT permitindo a flexibilização de direitos trabalhistas mediante negociação coletiva.
4
Institui o Código do Trabalho, prevendo a adoção da prevalência do negociado sobre o legislado.
5
Altera o art. 611 da CLT permitindo a flexibilização de direitos trabalhistas mediante negociação coletiva.
6
Acrescenta parágrafo único ao art. 444 da CLT assegurando a livre estipulação das relações contratuais de
trabalho, desde que “I – o empregado for portador de diploma de nível superior e perceber salário mensal igual ou
superior a duas vezes o limite máximo do salário-de-contribuição da previdência social; ou II – o empregado,
independentemente do nível de escolaridade, perceber salário mensal igual ou superior a três vezes o limite
máximo do salário-de-contribuição da previdência social”.
7
Altera o art. 618 da CLT. Disponível em: <[Link]
proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2081782>. Acesso em: 12 abr. 2016.
8
Altera diversos dispositivos da CLT como o trabalho em tempo parcial e em destaque o artigo 611. Disponível
em:
<[Link]
>. Acesso em: 22 mar. 2017.
9
Repercussão geral no Recurso Extraordinário, Agravo nº 647.651/SP, reconhecendo a necessidade de negociação
coletiva no caso de demissão coletiva. Disponível em:
<[Link]
e%20o%[Link]>. Acesso em: 16 set. 2016.
10
Acórdão da Seção Especializada em Dissídios Coletivos do TST no ED-RODC-30900-12.2009.5.15.0000, em
04/09/2009, determinando a necessidade de negociação coletiva no caso de demissão coletiva.
11
Discute e apresenta sugestões de como diminuir ou eliminar a rigidez da legislação trabalhista, o excesso de
burocracia e de obrigações e a insegurança jurídica.
12
Propõe a prevalência das convenções coletivas sobre a lei, salvo quanto aos direitos básicos.
seminário13 referente ao PL 5.483/2001 e na audiência pública14 referente ao PL 4.193/2012 na
Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados.
Também foram consideradas doze entrevistas semiestruturadas com dirigentes sindicais
vinculados a CUT e a FS, advogados trabalhistas e um juiz do trabalho, das quais foi feita
análise de conteúdo, procurando identificar termos recorrentes nas falas dos atores sociais que
permitissem constatar pontos de divergência de convergência.
13
Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados. Evento: Seminário n°:
001328/01 Data: 13/11/01. Disponível em: <[Link]
legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/ctasp/documentos/notas-taquigraficas/[Link]>. Acesso
em: 05 mar. 2016.
14
Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados. Evento: Audiência
Pública. Reunião nº: 2.140/2013. Data: 3/12/2013. Disponível em:
<[Link] Acesso em:
11 mar. 2015.
15
Art. 7º, incisos VI, XIII e XIV.
16
Referidas pelo art. 5º, § 2º, CF/88 expressando um patamar civilizatório no próprio mundo ocidental em que se
integra o Brasil.
17
Relativos à saúde e segurança no trabalho, normas relativas à base salarial mínima, normas de identificação
profissional, dispositivos antidiscriminatórios, etc.
Segundo Reis (2010) este patamar mínimo é anteparo contra qualquer tipo de retrocesso social
como a precarização ou desregulamentação das relações de trabalho, Dessa forma, o limite da
subordinação do trabalhador ao seu empregador (jus variandi) está no direito de resistência (jus
resistae) porque ambos têm direitos e obrigações recíprocos (VIANA, 1996).
Não se pode esquecer que nos primeiros momentos do século XX o que vincula o
indivíduo ao trabalho é o salário recebido pelo serviço prestado como resposta a fratura social
do século XIX. É função do Estado impedir que os trabalhadores se sintam vulneráveis e os
sindicatos se sintam fragilizados, compatibilizando a promoção do desenvolvimento econômico
do país e a competividade as empresas e o valor social do trabalho e a livre iniciativa. Por isso,
Supiot (2006) observa que a OIT, em 1998, na “Declaration on Fundamental Principles and
Rights at Work”, sustentou a necessária convivência de um controle limitado do mercado
financeiro e da assistência social pelo Estado:
[...] as normas internacionais do trabalho a partir do ponto de vista da concorrência
econômica” com a seguinte declaração “Nos países em vias de desenvolvimento, os
empregadores devem entender que uma dieta saudável ajuda a construir uma força de
trabalho mais forte e isto, a longo prazo, fará sua empresa ou país mais competitivo,
portanto, mais atrativo para os investidores.
18
Composto pelo Estado, entidades empresariais e entidades sindicais, este compromisso firmado garantiu aos
trabalhadores uma rede de direitos sociais.
Todavia na segunda metade do século XX, o economicismo vira ordem do dia com a
ideia de menos Estado e a economia e o individualismo ganham espaço de preponderância e
conforme Bourdieu (1998) o Estado se afasta do seu papel de assistir aos mais necessitados em
favor “dos privilégios materiais ou simbólicos” (Ibid, p. 13). Nessa luta simbólica, a visão de
mundo de um grupo é imposta a outro grupo, conforme seu interesse de dominação, tornando
como verdade aquilo que o grupo compreende como legítimo, correto, justo e necessário. Será
o discurso institucional reconhecido e acatado por aqueles que o legitimam, por isso Bauman
(1999) sustenta que a globalização “é o destino irremediável do mundo, um processo
irreversível; é também um processo que nos afeta a todos na mesma medida e da mesma
maneira” (Ibid, p. 7). Inclusive Ramírez (In RAMÍREZ; SALVADOR, 2012, p. 15-19) sustenta
que a globalização econômica acarreta “profundas tensões no mundo laboral” (Ibid, p. 16)
fazendo com que o receituário neoliberal “coisifique” as relações de trabalho.
Com a incerteza e a instabilidade decorrentes da flexibilização e/ou da desregulamentação das
relações de trabalho, instala-se uma situação de vulnerabilidade social na qual a desesperança,
para usarmos um termo de Sennett (2010), promove a corrosão do caráter e com a redução do
Estado. O Estado “como depositário de todos os valores universais associados à ideia de
público” (Ibid, p. 145) vai mirrando até o seu limite mínimo de atuação. Nesse processo de
aviltamento das relações sociais, resultado do ideário neoliberal e da globalização, o princípio
de solidariedade é mitigado “parece conduzir à destruição das condições do coletivo e, por
consequência, ao enfraquecimento da capacidade de agir contra o neoliberalismo (DARDOT;
LAVAL, 2016, p. 9).
A política de austeridade surge como única salvação contra a crise econômica via nova
política monetarista e a adoção de medidas amargas ditadas pelo FMI e o Banco Mundial
demarcam a financeirização da economia dano mais poder ao mercado e colocando em xeque
o Estado Social. Para estes autores o neoliberalismo é muito mais uma racionalidade do que
uma ideologia que molda a “conduta dos governados” (Ibid, p. 17).
No Brasil verificamos algumas alterações tópicas feitas na CLT, como forma de
adequá-la as novas formas de trabalho necessárias19. O que se testemunha é uma forte
mobilização de entidades empresariais no sentido de superar o que elas entendem como
hermetismo da legislação trabalhista e sindical brasileira. A falta de unidade coletiva resulta na
19
Por exemplo: trabalho em regime de tempo parcial (artigo 58-A) e a Lei Complementar 150/2015 que estendeu
ao trabalhador doméstico todos os direitos trabalhistas previstos no artigo 7º da Constituição.
“ambiguidade paralisante dos novos dispositivos” (Ibid, p. 300) empresariais que afetam a
atuação sindical. O retrocesso social é nutrido pelo medo do desemprego e fator de docilidade
dos trabalhadores que juntamente com a falta de atuação sindical participam “em certa medida
daquilo que se poderia descrever como sua própria exploração” (BOLTANSKI; CHIAPELLO,
2009, p. 284).
As empresas buscam mercados com menores custos de produção a fim de aumentarem
a lucratividade, por isso, Robortella (1994) e Romita (2002) defendem que o Direito do
Trabalho de hoje não guarda qualquer relação com aquele existente nos primeiros 50 anos do
século XX. Os autores defendem a maior flexibilidade dos direitos trabalhistas e a possibilidade
de empregadores e trabalhadores, sem a participação do Estado, estabelecerem relações de
trabalho de forma diversa ao estratificado em lei. Ou seja, a saída está na viragem ontológica
do Direito do Trabalho, não mais importando a defesa do trabalhador (caráter protetivo da
legislação trabalhista) e sim do emprego.
A CUT, uma das principais centrais sindicais do país20, já experimentou a
possibilidade de dar novo enfoque a negociação coletiva, permitindo a adoção da flexibilização
de direitos dos trabalhadores com a experiência das câmaras setoriais nos anos 1990. Essa
estratégia retrata a postura adotada pela CUT no seu 3º Congresso Nacional de construir um
projeto social e econômico possível para os trabalhadores, o que Jácome Rodrigues (1995)
denomina como “cooperação conflitiva”. A OIT tem demonstrado preocupação sistemática
com a defesa dos direitos e princípios fundamentais no trabalho e com a liberdade e autonomia
sindical (KAUFMANN, 2005). Destaque-se a Convenção 154 que defende a negociação
coletiva de trabalho, livre e voluntária como objetivo impedir a submissão do trabalhador ao
seu empregador, além de humanizar a relação capital e trabalho.
Portanto, a luta sindical deve ser revigorada, considerando-se o cenário em que estão
presentes novas questões, novas exigências e expectativas nas relações de trabalho. Mesmo não
havendo unanimidade e unidade entre as lideranças sindicais, resistir à voracidade dos
interesses econômicos e do mercado é muito importante para garantir ao trabalhador sua
dignidade e não submissão aos interesses dos empresários.
20
Disponível em: < [Link] Acesso em: 16 jan.
2017.
A metodologia empregada até aqui, conta com a análise das notas taquigráficas
referentes às falas dos diversos atores sociais (sindicalistas, empresários, juristas, dentre outros)
presentes no seminário sobre o PL 5.483/200121 e na audiência pública sobre o PL 4.193/201222
ambos realizados na CTASP da Câmara dos Deputados. Além do conteúdo dessas notas
taquigráficas, também serão aqui consideradas as falas de 12 entrevistas semiestruturadas
realizadas com dirigentes sindicais, advogados trabalhistas e um desembargador do trabalho.
Trata-se de procedimento qualitativo (GOBO, 2005; PIRES, 2010) por meio da técnica de
entrevista demandou o esforço de conferir sentido sociológico aos posicionamentos nos
depoimentos prestados tendo em vista a ênfase dada pelos entrevistados sobre determinados
pontos abordados.
Esta análise permitirá verificar a existência de posições antagônicas em função das
suas visões de mundo, de como concebem o fenômeno social sobre o qual estão debruçados e
dentro do próprio campo sindical. Ou seja, como os entrevistados ou os declarantes enxergam
as relações de trabalho no Brasil, as formas de regulação e o espaço reservado ao papel da
negociação coletiva. Por isso foi adotado o método analítico de abordagem como forma de
separar o tema em partes para melhor analisar e delinear uma nova forma de olhar o objeto
pesquisado (RICHARDSON, 2010; BARDIN, 2011).
Verificaram-se divergências dentro dos campos jurídico e sindical em contraponto a
posição unitária do campo empresarial. Os empresários entendem que a prevalência do
negociado sobre o legislado dá segurança jurídica as relações de trabalho porque respeita a
autonomia da vontade das partes envolvidas na negociação. Da mesma forma, os empresários
e parte do campo jurídico enxergam o modelo hermético de regulação das relações de trabalho,
como um modelo inadequado ao contexto socioeconômico. Em contrapartida, o campo sindical
defende que a segurança jurídica nas relações de trabalho está garantida pela regulação estatal
e pelo caráter protetivo dos direitos trabalhistas. O campo sindical defende a importância da
negociação coletiva desde que ela não contrarie a lei trabalhista, mas alguns dirigentes sindicais
vinculados à CUT defendem a possiblidade de flexibilização de direitos trabalhistas com as
denominadas cláusulas de ajuste de setor nos em casos conjunturais. Mas há unanimidade do
21
Requerimento 83/2001 CTASP encaminhado pela Deputada Federal Vanessa Grazziotin (PCdoB/AM).
22
Requerimento 4193/2012 CTASP encaminhado pelo Deputado Federal Roberto Santiago PSD/SP.
campo sindical de que num cenário de recessão econômica e de austeridade ditada pelo
receituário neoliberal não há como se expressar com liberdade a autonomia da vontade coletiva.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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RICHARDSON, Roberto Jarry. Pesquisa Social: Métodos e Técnicas. São Paulo: Átlas, 2007.
ROBORTELLA, Luiz Carlos Amorim. O moderno direito do trabalho. São Paulo: LTr, 1994.
Resumo
O artigo em questão, tem como objetivo apresentar os primeiros apontamentos obtidos a partir
da interlocução com os autores de referência, acerca das características fundamentais do
movimento sindical a nível mundial, e, em particular, o brasileiro, durante a quadra histórica
que se inicia a partir dos anos 1970 do século XX. O artigo está organizado em cinco itens,
quais sejam, Introdução, onde apresentamos de maneira breve a pesquisa da qual faz parte o
presente artigo; Nos limites da sociabilidade burguesa, onde colocamos em evidência os limites
apontados por I. Mészáros para as organizações dos trabalhadores na quadra histórica referida
acima; Os sindicatos e a crise estrutural do capital, onde procuramos perceber as relações entre
a crise, a conformação dos sindicatos e sua atuação em geral; Os governos do PT:
apaziguamento ou aceleração da dinâmica das greves Brasil? Seção na qual buscamos
apresentar os resultados parciais a que chegamos no estágio em que nos encontramos na análise
dos balanços das greves produzidos pelo DIEESE e, por fim, À guisa de conclusão, onde
explicitamos as conexões entre o debate apresentado e a nossa hipótese de trabalho atual.
Como aponta José Paulo Netto (2001), a partir de meados dos anos 1970 chegava ao
fim o fenômeno conhecido como boom do pós guerra, e com ele a era do welfare state, assim
entramos em uma quadra histórica marcada por uma crise estrutural do capital (MÉSZÁROS,
2011), que evidencia a aproximação do modo de produção capitalista dos limites inerentes a
dinâmica do capital e coloca na ordem do dia a necessidade de uma ofensiva socialista, porém,
a classe trabalhadora na contramão da exigência histórica, tem em suas mãos organizações
defensivas forjadas a partir das exigências históricas do momento anterior, nas palavras de
Mészáros (2011, p. 79)
[...] a atualidade histórica da ofensiva socialista, sob a nova fase histórica da crise
estrutural do capital[...]” afirma-se como 1. Crescente dificuldade e, por fim,
impossibilidade de obter ganhos defensivos [...] por meio das instituições defensivas
existentes (e, em consequência, o fim do consenso político, trazendo com isso uma
notória postura mais agressiva das forças dominantes do capital vis-à-vis ao trabalho).
2. A pressão objetiva pela reestruturação radical das instituições de luta socialistas
existentes, para ser capaz de ir ao encontro do novo desafio histórico, numa base
organizacional que se evidencie adequada à necessidade crescente de uma estratégia
ofensiva.
Como aponta Mészáros (2011, p. 79), o que está em jogo é “[...] a constituição de uma
estrutura organizativa capaz não só de negar a ordem dominante [...]”, mas também, “[...]
simultaneamente, de exercer as funções vitais positivas de controle, na nova forma de
autoatividade e autogestão[...]”. Em tal contexto, de acordo com Mészáros (2011, p. 75), “[...]
não somente os riscos estão aumentando e as confrontações se aprofundando [...]”, mas “[...]
também as possibilidades para um resultado positivo estão postas numa nova perspectiva
histórica. ”, pois “[...] os riscos estão crescendo e tornando-se potencialmente mais explosivos;
o repositório de compromissos, que formalmente tem servido tão bem as forças do ‘consenso
político’, está cada vez mais vazio [...]”, levando a que certos caminhos sejam bloqueados
enquanto outros são abertos, o que, frente a ofensiva do capital sedento pela recomposição de
sua taxa de lucro as custas do trabalho, demanda dos movimentos sociais da classe trabalhadora,
incluídos aqui os sindicatos, a criação de novas estratégias para a luta contra o capital. Deste
modo, “A transição para o socialismo em escala global, visualizada por Marx, adquiriu uma
atualidade histórica nova e mais urgente, em vista da intensidade e da severidade da crise. ”
(MÉSZÁROS, 2011, p. 75-76).
De acordo com nossos autores (ANTUNES e SILVA, 2015; ALVES, 2010; MATTOS,
2007; NETTO, 2001), ao fim da década de 1980, dada a necessidade do capital de buscar
mecanismos para combater sua crise estrutural e a consequente queda da taxa de lucros, já
despontavam as principais tendências econômicas e ideológicas que condicionariam a
passagem da ação sindical no Brasil de um sindicalismo de classe para o sindicalismo cidadão
dos anos mais recentes (COIMBRA, 2006), do ponto de vista econômico tivemos o
aprofundamento da reestruturação produtiva em escala mundial e a emergência do capital
financeiro como poder hegemônico, processo que se expressa no campo ideológico e político
por meio do neoliberalismo. Como nos informam os autores (ANTUNES e SILVA, 2015, p.
516; MATTOS, 2015), do ponto de vista das condições de trabalho, podemos considerar como
marca do período que se inicia a partir dos anos 1970 no mundo e 1990 no Brasil o avanço da
“Informalidade, flexibilização e terceirização” que “passam a ser imperativos empresariais”
(ANTUNES e SILVA, 2015, p. 515-516). Segundo Antunes (2002), tal movimento do capital,
como não poderia deixar de ser, teve um forte impacto sobre o mundo do trabalho, tendo
implicações diretas para os organismos representativos da classe trabalhadora. Nesse sentido,
qual tem sido os efeitos das mudanças citadas acima sobre a classe trabalhadora e os sindicatos?
Como apontam nossos autores (ANTUNES e ALVES, 2004), as mudanças apontadas
acima na dinâmica do modo de produção capitalista afetaram diretamente a classe trabalhadora,
dotando-a de uma nova morfologia do trabalho, tal mudança caracteriza-se pelo crescimento
das exigências de qualificação das trabalhadoras e trabalhadores, degradação do trabalho,
aumento da intensidade e extensão das jornadas de trabalho, aprofundando o padrão já
característico da superexploração do trabalho no país (MARINI, 2005; LUCE, 2012),
ampliação da utilização de trabalho infantil e do trabalho análogo a escravidão, ampliação do
emprego de mulheres nos mesmos cargos que os homens, porém com salários mais baixos,
avanço da terceirização, do trabalho informal, dos contratos de trabalho temporários e em tempo
parcial, além da presença constante de um crescente desemprego estrutural. Em suma, ocorreu
uma diversificação da classe trabalhadora acompanhada da corrosão do trabalho pelas velhas
novas estratégias de exploração capitalista potencializadas pelas condições de crise estrutural
do capital em que se inserem. Tais transformações podem ser percebidas claramente quando
observamos a expansão do setor de serviços na economia mundial no último quarto do século
XX, suas formas de exploração do trabalho e a presença majoritária do trabalho feminino no
telemarketing (ANTUNES, 2012; BRAGA, 2013). Os sindicatos não poderiam passar ilesos
por um processo de transformações de tal magnitude. Como aponta Mattos (2007, p. 51), “tudo
isso se refletiu em fragmentação das organizações e diminuição da filiação sindical, em várias
partes do mundo. ”. E no Brasil? Qual foi a particularidade da atuação sindical no período?
Conforme Alves (2010), Antunes e Silva (2015) , a partir do surgimento do novo
sindicalismo ao fim da década de 1970, inaugurou-se uma nova fase do sindicalismo brasileiro,
onde a incompatibilidade entre os interesses da classe trabalhadora e da burguesia era colocada
em evidência na atuação sindical, nesse sentido, o confronto era colocado em primeiro plano.
Porém, passadas três décadas, o que vimos foi o abandono sistemático do confronto de classes
em prol de uma perspectiva negocial e conciliadora dos interesses de classe. Como apontam
Antunes e Silva (2015, p. 512), “ O desdobramento desta mutação vem consolidando entre nós
uma prática sindical que, para além de fetichizar a negociação transforma os dirigentes em
novos gestores [...]”, estes, “ […] encontram na estrutura sindical mecanismos e espaços de
realização, tais como operar com fundos de pensão, planos de pensão e de saúde [...]”, além das
vantagens próprias do “ […] aparato burocrático típico do sindicalismo de estado vigente no
Brasil desde a década de 1930. ”. Segundo nossos autores (ANTUNES e SILVA, 2015), tais
mudanças além de alterarem o perfil das lideranças sindicais e das práticas sindicais adotadas
também levaram a um redirecionamento do discurso sindical que, a partir de então colocou de
lado o sindicalismo de classe e trouxe ao primeiro plano o sindicalismo cidadão, para o qual
chamam a nossa atenção Boito Jr (1999) e Coimbra (2006).
Como apontam Arbia (2010), Antunes e Silva (2015), já a partir do III Congresso da
CUT (III CONCUT) em 1988, como efeito da mudança de conjuntura a partir do início da
implementação da perspectiva neoliberal no Brasil ao fim dos anos 1980, é importante
observarmos que a CUT também mudou, passando a ganhar espaço nas resoluções da central
uma concepção etapista na qual a solução das “[...] questões relativas ‘às políticas sociais, ao
crescimento econômico e à distribuição de renda’ aparecem como base para construção de uma
'sociedade democrática rumo ao socialismo'” (ARBIA, 2010, p. 115). Nessa concepção a luta
pelo socialismo é legada a um futuro mais ou menos distante. Tal mudança tem seu corolário
com a ascensão do PT ao governo em 2002 e a cooptação da CUT pelo mesmo, tornando-a um
instrumento da ordem, a favor da conciliação e do apaziguamento da luta de classes
(FILGUEIRAS e GONÇALVES, 2007).
5. À GUISA DE CONCLUSÃO
Com base na bibliografia consultada, verificamos que, a partir dos anos 1970, o
capitalismo entrou em uma crise estrutural que tem colocado em evidência os limites inerentes
ao processo de acumulação capitalista (MÉSZÁROS, 2011), deste modo, tal situação
reatualizou a perspectiva marxiana da conformação da classe trabalhadora como classe
dominante, ou como aponta Mészáros (2011), colocou na ordem do dia a necessidade de uma
ofensiva socialista, porém, a classe trabalhadora mundial dispõe apenas de organizações
defensivas forjadas em um momento anterior da luta de classes, onde as exigências eram outras,
incapazes de levar a ofensiva à frente. Na particularidade brasileira, a situação não é diferente,
como vimos o novo sindicalismo que nasce nos anos 1980 com verniz classista, logo se
enveredou pelo caminho da conciliação de classes abrindo mão da perspectiva da independência
de classe e da construção de um novo horizonte societário. Como afirmam Antunes e Silva
(2015), passadas três décadas, o que vimos foi o abandono sistemático do confronto de classes
em prol de uma perspectiva negocial e conciliadora dos interesses de classe.
Por fim, como procuramos demonstrar a partir da análise dos dados do DIEESE, há
indícios de que durante os governos PT ocorreu um importante ciclo de greves da classe
trabalhadora brasileira, com potencial para abalar a tentativa de apaziguamento levada a frente
pelo PT e pela CUT, o que corrobora com a primeira parte de nossa hipótese de trabalho, qual
seja, apesar da cooptação da CUT pelo governo PT, longe de ocorrer um processo de
apaziguamento da luta de classes no Brasil, no que tange ao movimento grevista brasileiro,
ocorreu pelo contrário, um processo de aceleração da dinâmica das greves, que significa como
apontamos acima a intensificação da ocorrência de espaços de educação e luta genuinamente
da classe trabalhadora, em outras palavras, uma retomada pelas trabalhadoras e trabalhadores
daquilo que os revolucionários chamaram de escola de guerra (Lenin, 2008).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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NETTO, J. P.; “Cinco notas a propósito da questão social”. Temporalis. ABEPSS, Brasília, n.3,
p.41-49, Janeiro/Junho. 2001.
vetriani@[Link]
1
Considera-se que 2013 foi um ano marcante no cenário brasileiro, mas compreendendo que as mobilizações
são fruto de processos políticos que vinham se desenvolvendo não apenas no país, mas internacionalmente.
carioca. Foi instaurado dissídio coletivo de greve2 e concedida decisão liminar3 no mesmo dia
determinando a suspensão da greve, sob pena de multa diária. Em 03 de março, foi realizada
nova rodada das negociações e, mesmo os trabalhadores tendo rejeitado a proposta do
empregador, foi assinado Acordo Coletivo entre os sindicatos profissional e patronal e foi
formalmente declarado o fim da greve. Contudo, os trabalhadores não reconheceram o Acordo
e mantiveram a greve, passando a convocar reuniões em locais públicos de grande circulação,
como a Central do Brasil e a Cinelândia e as atividades permaneceram paralisadas.
Diante da adesão crescente, dos efeitos da ausência de recolhimento de lixo na cidade
– piorados pelas fortes chuvas do mês de março – e sendo 2014 ano de realização da Copa do
Mundo na cidade do Rio de Janeiro, o movimento alcançou repercussão internacional. No
cenário de irredutibilidade, o movimento teve sua representatividade e legitimidade
reconhecidas pelas instituições jurídicas e passou a integrar a negociação coletiva, através de
uma comissão eleita. Dentre os resultados da negociação, reajuste salarial de 37% e aumento
do ticket alimentação em 66%, além de adicional de insalubridade de 40%. Após o término da
greve, foram recolhidos cerca de 30 mil toneladas de lixo.
Segundo relato de trabalhadores, em entrevista concedida à pesquisadora, não
esperavam a tamanha repercussão:
Nós não imaginávamos a proporção do que ia acontecer. Nós nem queríamos fazer
greve todos aqueles dias, mas a ideia era buscar nossos direitos. Não era para ser o
caos, mas eles foram os culpados. Eles não cediam, diziam que não iam dar o
aumento e pronto4.
Outro trabalhador relata que as convocações eram feitas maciçamente pelas redes
sociais e pelo “boca a boca” nas gerências5.
Embora tenha constado do acordo compromisso de que não haveria demissões nem
represálias por parte da empresa, passados alguns meses da greve de 2014, cerca de
quatrocentos empregados foram demitidos, quase na integralidade trabalhadores mobilizados
na greve daquele ano. Segundo relatos, até mesmo as avaliações passaram a ser muito mais
2
Dissídio coletivo de greve é o mecanismo processual cabível quando se requer a declaração de ilegalidade de
um movimento grevista. O dissídio instaurado no caso em questão foi distribuído sob o nº 0010201-
14.2014.5.01.0000.
3
Conceito utilizado pelo Supremo Tribunal Federal: “Ordem judicial emitida de imediato pelo juiz em caso de
tutela de urgência, concedida antes da discussão do mérito da ação. Visa resguardar direito do requerente
(impetrante), em face da evidência de suas alegações (fumus boni iuris) e da iminência de um dano irreparável
(periculum in mora). Possui caráter precário, tendo em vista que o direito sob análise pode ser mantido ou
revogado no julgamento do feito”. Disponível em:
<[Link] Acesso em 10/03/2017. No caso em
questão, a decisão foi proferida pela Desembargadora do Trabalho Rosana Salim Villela Travesedo.
4
Entrevista realizada em 11 de março de 2017, com trabalhadora gari desde 2010.
5
Entrevista realizada em 11 de março de 2017, com trabalhador gari demitido em 2014, após a greve.
rigorosas: “Os gerentes falavam aos garis: _Vocês não querem aumento? Então vai ter
cobrança!”6.
No ano de 2015, foi tentada uma nova greve, seguida de mais centenas de demissões.
Segundo um dos trabalhadores, a soma ultrapassa mil demitidos por represália7. Em 8 de
março de 2015, os trabalhadores demitidos se reuniram e fundaram o movimento Círculo
Laranja 8 . O objetivo inicial era reintegração dos demitidos, mas atualmente as pautas
englobam desde questões sobre condições de trabalho e dignidade, até questões ambientais.
Na fala de um trabalhador, se externa o tratamento recebido na gerência da Ilha: “No
meu primeiro dia de trabalho, fui recebido com a fala: _ Bem-vindo ao inferno” 9 . Na
sequência, outra fala: “A primeira instrução do gari é: _ Não pode dar bom dia e boa tarde ao
gerente geral”10. E seguem: “O encarregado me chamava de paraíba e, quando eu questionava,
dizia que eu queria saber demais”11. Um dos trabalhadores apontados pela COMLURB como
responsável pelas ações de 2014, narra que as manifestações de 2013 foram determinantes
para a greve: “Se todo o povo podia ir às ruas, por que os trabalhadores não podiam
também?”12.
Na atualidade, o movimento Círculo Laranja é formado por cerca de setecentos
integrantes, tendo representação em todas as gerências13 da COMLURB, além de cinquenta e
quatro garis demitidos que ainda buscam a reintegração. Apresentam-se como “um movimento
autônomo, sem partido, nem de direita e nem de esquerda. O círculo nasceu para romper com
a política de esquerda, quer unir as diferenças. Pessoas são diferentes e nessa multiplicidade
que se quer construir”. Também declaram ser uma organização horizontal, na qual todos os
integrantes possuem o mesmo poder e lugar de fala, relacionando a ausência de hierarquia à
própria forma de círculo, o que daria o nome ao movimento. Declaram não acreditar no
formato dos sindicatos atuais14.
O movimento se utiliza de ações diretas, como paralisações, passeatas, ocupações –
seja âmbito da empresa ou de pautas mais abrangentes da sociedade civil – e também ações
6
Entrevista realizada em 11 de março de 2017, com trabalhadora gari desde 2010.
7
Entrevista realizada em 28 de fevereiro de 2017, com trabalhador gari, demitido em 2014.
8
A formação do movimento envolve diversos elementos que não estão abordados no presente momento.
9
Fala de um trabalhador gari desde 2009, em reunião do movimento Círculo Laranja realizada em 28 de
fevereiro de 2017.
10
Fala de trabalhador gari, demitido em 2014, antes lotado na gerência de Queimados, em reunião do
movimento Círculo Laranja realizada em 28 de fevereiro de 2017.
11
Fala de trabalhador agente de preparo de alimentos, demitido em 2015, em reunião do movimento Círculo
Laranja realizada em 28 de fevereiro de 2017.
12
Entrevista realizada em 28 de fevereiro de 2017, com trabalhador gari, demitido em 2014.
13
As gerências são unidades operacionais da COMLURB, organizadas por região da cidade.
14
Fala de integrante do movimento, em reunião realizada no dia 28 de fevereiro de 2017.
institucionais, como participação na comissão de negociação do dissídio anual e busca de
parlamentares para apresentação de projetos, como “A COMLURB que queremos”, de autoria
coletiva dos trabalhadores.
O movimento também faz parcerias com inúmeros outros segmentos da sociedade,
sendo identificadas em campo parcerias desde com a rede Universidade Nômade Brasil, com
parlamentares dos partidos Rede Sustentabilidade – REDE, Partido dos Trabalhadores – PT,
Partido Socialismo e Liberdade – PSOL, Partido da República – PR, com representantes de
outros movimentos de trabalhadores previdenciários, vigilantes sanitários, bombeiros
militares do Rio de Janeiro, dos policiais militares do Rio de Janeiro, além do movimento de
negros, de professores universitários, artistas musicais, poetas, cinegrafistas.
Reflexões parciais
A partir dos dados até então coletados, pode-se dizer que o movimento grevista dos
garis cariocas, em 2014, trouxe novidade ao cenário institucional.
No âmbito jurídico, a representação dos trabalhadores se dá por sindicatos, com
categorias e delimitação geográfica previamente estipuladas, além de obrigatoriamente
registrados perante o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Não há previsão legal para
representação dos trabalhadores por outras organizações.
Pelos parâmetros legais, portanto, o movimento dos garis não teria as prerrogativas
sindicais, como o poder de negociação em nome da categoria profissional. Contudo, resta
verificável que, diante da repercussão do repertório de ações adotado pelo movimento, foram
flexibilizados os critérios da lei, admitindo-se a participação dos trabalhadores organizados
por fora do sindicato nas mesas de negociação e reconhecendo-se a legitimidade para
representação em negociação que alcançou o maior reajuste salarial dos últimos vinte anos.
A repercussão social da paralisação, deixando aproximadamente trinta mil toneladas
de lixo acumuladas, em meio ao Carnaval carioca, com efeitos aprofundados pelas fortes
chuvas do mês de março, e em ano de realização da Copa do Mundo na cidade, exerceu papel
impulsionador das negociações. Foram fator de pressão também as passeatas e protestos
realizados em locais de grande circulação, com participação da sociedade civil.
O movimento Círculo Laranja e seu formato também apresentam pontos peculiares na
estrutura de organizações de trabalhadores, iniciando-se pela reunião de empregados
demitidos e ativos, não permitida na estrutura sindical oficial. A proposta de estrutura
horizontal, sem hierarquia entre os membros, a incorporação de discussões das opressões de
gênero e de raça, a pauta de reconhecimento e dignidade, e os diálogos com mais diversos
setores da sociedade, de todas as orientações políticas, também são fatores identificados como
incomuns, comparando-se os sindicatos tradicionais.
As especificidades do caso objeto de análise remetem aos estudos dos movimentos
sindicais, pois, se é certo que parte da doutrina veio diagnosticando ao longo dos anos um
cenário de crise do sindicalismo, outras correntes têm proposições no sentido de que a ‘crise’
não é da instituição de representação dos trabalhadores, mas de um tipo de sindicato atingido
duramente pelas transformações na produção” (RAMALHO; SANTANA, 2003).
Sobre o tema, a contribuição de Richard Hyman (1996), apontando que não há crise
do sindicalismo, mas crise do estilo e da orientação tradicionais do sindicalismo. Para o autor,
“o que certamente se requer é uma nova lógica, um novo vocabulário de motivos para a
solidariedade dos trabalhadores” (HYMAN, 1994, p. 112-115).
Larangeira (1998, p. 181-183) enfatiza uma perspectiva de mudança nas atividades
mais tradicionais, sugerindo a ampliação das mesmas, para incluir a representação de
trabalhadores desempregados, “precarizados” ou excluídos do núcleo central de produção, até
mesmo de um “sindicalismo comunitário que, juntamente com outros movimentos sociais,
voltar-se-ia para atender as necessidades dos que se encontram excluídos do mundo do
trabalho”.
Tais ideias são avançadas por Moody (1997), na proposta de um “sindicalismo tipo
movimento social”, que seria mais dinâmico, mais aberto às novas demandas, democrático,
militante, lutando pela organização nos locais de trabalho e político, agindo
independentemente de partidos, mas multiplicando seu “poder político e social na articulação
com outros sindicatos, organizações de bairro ou outros movimentos sociais”. O “sindicalismo
do futuro” deveria assumir feição de “redes ampliadas” (OSTERMAN et all, 2001, p. 96). O
consenso é “de que os sindicatos devem adaptar sua organização, sua estrutura e sua ação à
heterogeneidade do mundo do trabalho” (RAMALHO; SANTANA, 2003).
Partindo de tais reflexões, é possível verificar que as ações utilizadas pelo movimento
dos garis grevistas em 2014 são reforçadas pelo formato do Círculo Laranja e se inserem nas
propostas de análise sobre as transformações e sobre o futuro do sindicalismo, que apontam
para uma dinâmica diferenciada das organizações tradicionais, com nova composição, nova
forma de aglutinação, até mesmo novas formas de ação, inclusive utilizando maciçamente as
redes sociais e as mídias eletrônicas.
Referências Bibliográficas
ARANTES, Paulo. O novo tempo do mundo. São Paulo: Boitempo, 2013.
BRINGEL, Breno M.; TEIXEIRA, Marco Antônio dos Santos Teixeira. In: SCHERER-
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Engajamento Político: trajetórias e tendências analíticas. Florianópolis: Cortez, 2015.
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impactos e reconfiguração do ativismo no Brasil, Nueva Sociedad, Buenos Aires, p.4-17,
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políticos e sociais. Caderno CRH, Salvador, v. 27, n. 71, p. 431-441, ago/2014.
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Paulo: CEDEC, n.17, p.49-66, jun/1989.
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Maria. C. S (Org.). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes, 2001.
MOODY, Kim. Workers in a Lean World: Unions in the Internacional Economy.
Londres/Nova Iorque: Verso, 1997.
OSTERMAN, Paul et all. Working in America: A Blueprint for the New Labor Market.
Londres: MIT Press, 2001.
SADER, Eder Sader. Quando novos personagens entraram em cena. São Paulo: Paz e
Terra, 1988.
Davide Bubbico
Dipartimento di Scienze Economiche e Statistiche,
Università di Salerno (ITALIA)
e-mail: dbubbico@[Link]
1. Introdução
Este artigo pode ser concebido como um estudo das condições de trabalho e da ação sindical
na mesma trajetória ilustrada de Castro e Leite na descrição da nova sociologia de trabalho
industrial brasileira no final dos anos 70. Em outras palavras “a maneira pela qual o capital
organiza o consumo produtivo da força de trabalho” (Sorj, 1983, p. 3) e “as formas políticas de
resistência cotidianamente desenvolvidas pelos trabalhadores no curso da atividade produtiva”
(Castro e Leite, 1994, p. 41). Em acordo com Ramalho os estudos sociológicos dos anos 90
vem revelando a pressão da reestruturação industrial sobre o sindicalismo: “A avaliação é que
a introdução de novas formas de gestão da força de trabalho, sobretudo nas empresas associadas
a cadeias produtivas globais, em conjunto com transformações na organização da produção e
na estrutura de emprego, colocam novas questões, exigindo novas posturas e pondo em xeque
a força de barganha acumulada anteriormente” (2000, p. 6).
Neste contexto a nossa atenção fica sobre uma das mais importantes empresas do setor
eletroeletrônico do mundo, a taiwanesa Foxconn, que desde a metade da primeira década dos
anos 2000 está localizada no Brasil com vários estabelecimentos principalmente para responder
ao incremento das vendas no mercado brasileiro de produtos eletrônicos para as mais
importantes marcas do setor, incluída a Apple que tem na Foxconn a principal produtora dos
seus equipamentos.
As questões que entendemos enfrentar neste trabalho são principalmente as seguintes: qual
é o modelo de relações laborais que a Foxconn tem implementado no Brasil comparativamente
com a China e com outros países onde está localizada (Republica Checa, México e outros
1
países); qual é a capacidade de barganha do sindicato sobre o tema da organização do trabalho
e das condições de trabalho.
Conforme a literatura sobre as mais recentes mudanças na organização do trabalho industrial
a começar da introdução do padrão japonês na indústria automotiva, os novos padrões
produtivos na indústria ficam caraterizados pela ampla utilização da flexibilidade e pelo
envolvimento dos trabalhadores em programas de sugestões e no compartilhamento das metas
de produção (Mello e Silva, 2015). Do outro lado, esta mudança no modo de produção tem
determinado um comportamento empresarial finalizado a reduzir ainda mais o papel do
sindicato, consolidando a autonomia das firmas sobre o tema da organização do trabalho, mas
de qualquer maneira também na perspectiva do envolvimento do sindicato nas estratégias das
empresas. Neste caso, por exemplo na Europa desde os anos 90 a tendência é de falar mais de
“diálogo social” em vez que simplesmente de negociação (Hyman, 2010). Numa ótica
comparativa pelas relações sindicais precisa, todavia, levar em consideração o contexto
institucional e normativo que cada país tem sobre este tema. Neste sentido se as formas de
organização do trabalho podem ser as mesmas, indiferentemente dos país em que a empresa
está presente, as relações sindicais mudam em relação às leis trabalhistas do país, o modelo
sindical, o tipo de contratação coletiva, o poder da Justiça do Trabalho, o papel do Estado e da
mesma tradição sindical. A nossa hipótese é que a Foxconn tem tentado aplicar nas fábricas do
Brasil o mesmo padrão produtivo utilizado na China, conseguindo por uma parte isso, mas não
imaginando também uma capacidade de intervenção do sindicato e do judiciário sobre as
questões da relação de trabalho. Em definitivo, nós pensamos é que se no chão da fábrica a
capacidade de intervenção do sindicato sobre a organização do trabalho e na prevenção das
doenças profissionais é muito fraca, como no resto dos países onde a Foxconn está localizada,
diferentemente dos demais países onde ela produz (China, Republica Checa, etc.) a intervenção
indireta por meio da Justiça do Trabalho e da fiscalização estadual no Brasil oferecem uma
melhor proteção, embora sempre parcial de alguns direitos, mas contribuem também a
configurar um específico papel do sindicato se pensamos, por exemplo, a atividade realizada
para o departamento jurídico do mesmo sindicato. Neste contexto, todavia, o sindicato risca de
ser percebido, como é na realidade muitas vezes, um organismo de defesa externo a fábrica,
que cobre mais um papel de “cobrador” do reajuste salarial e da CLT na relação laboral. Nesta
diretriz, é preciso também se levar em conta que se os limites de intervenção do sindicato sobre
2
a organização do trabalho são generalizados (como demonstra a ausência desta questão na pauta
reivindicativa), também se isso pode se diversificar na base do perfil politico da entidade
sindical, como parece mostrar, por exemplo, a comparação (que precisa de mais
aprofundamento) das avaliações sobre este tema dos sindicatos metalúrgicos de Jundiaí e
Campinas.
Este trabalho é baseado em uma pesquisa de campo ainda em curso sobre o caso de dois
estabelecimentos da Foxconn em Jundiaí (Estado de São Paulo). Até agora foram realizadas 15
entrevistas entres trabalhadores, ex-funcionários, diretores de base do sindicato, dirigentes
sindicais e funcionários da prefeitura de Jundiaí e Campinas. As entrevistas foram feitas em
julho de 2015, abril-maio de 2016 e em março-abril de 2017. No geral o nosso trabalho se
coloca no âmbito de um grupo internacional de pesquisa que tem como objetivo descrever as
condições de trabalho da Foxconn nas diversas fábricas onde ela está localizada no mundo.
3
produtiva das empresas do país (Sarti e Hiratuka, 2011). Entre 2001 e 2010 o número de
empresas exportadores no Brasil tem ficado praticamente estagnado. Neste sentido a industria
brasileira, ainda que com algumas exceções, tem continuado a ocupar uma posição periférica
na economia global como já no passado com a sua inserção no “fordismo periférico” (Braga,
2016).
Assim, o incentivo pelos IED estrangeiros tem determinado no setor da informática uma
queda da produção nacional. Neste sentido, como afirmam Lima e Barbosa, “A Lei de
Informática é um grande incentivo para a montagem final de eletroeletrônicos no país, porém
o valor agregado localmente por esse setor tem caído, à medida que as empresas se concentram
em importar kits pré-prontos e somente finalizá-los, perdendo o conhecimento da tecnologia e
engenharia embarcadas no equipamento” (2014, p. 68). Em acordo com os autores, se essa
legislação tem permitido o desenvolvimento de um relevante ecossistema de montagem de
produtos eletrônicos, ainda que não se perceba um adensamento no domínio da tecnologia e em
maior valor agregado na maioria dos produtos abarcados por esse incentivo. Uma confirmação
indireta disso se encontra na ausência de empresas locais que são fornecedores da Foxconn de
Jundiaí, como no resto das empresas asiáticas da região de Campinas. Como evidencia uma
recente pesquisa sobre o desenvolvimento deste setor no Brasil e as condições de trabalho
associadas a ele, a avaliação dos efeitos dos incentivos a fim de gerar uma ocupação mais
qualificada e investimentos em R&D, destaca que até agora estes resultados não foram
alcançados (Wetering et al., 2015).
4
No complexo a Foxconn tem no Brasil 5 fábricas: a primeira criada em Manaus em 2005
(celular, componentes para PC, câmeras fotográficas), duas unidade em Jundiaí (Fox 1 em 2007
e Fox 2 em 2010, esta ultima dedicada especificamente aos produtos da Apple); Indaiatuba
(Estado de São Paulo) criada em 2006 mas recentemente fechada (final de 2016) (celular da
Sony-Ericsson) e Santa Rita de Sapucaí (Minas Gerais) onde se produzem placas para
notebooks. O total dos funcionários da Foxconn hoje são menos de 7 mil, dos quais cerca de 5
mil estão empregados nas duas fábricas de Jundiaí, com uma forte prevalência de mão-de obra
feminina como é típico deste setor.
A maioria dos empregados que trabalham na Foxconn de Jundiaí são jovens, mulheres, com
baixa qualificação e com experiência de trabalho em telemarketing ou ainda como a primeira
experiência de trabalho. Há alguns anos o papel de intermediação com a empresa é assegurado
pelo PAT de Jundiaí (Posto de Atendimento dos Trabalhadores), um serviço da prefeitura de
Jundiaí. A responsável pelo PAT afirmou que as características preferidas da empresa pelo
candidato que deseja trabalhar na Foxconn é ter concluído o ensino médio completo, faixa etária
entre 18 e 45 anos no máximo, sem preferência de gênero, residência nos municípios de Jundiaí
e de Várzea Paulista. Há também a proibição em contratar ex-funcionários, mas isso nem
sempre é obedecido.
O início da produção é convulso porque a Foxconn precisa produzir para HP no inicio um
número elevado de computadores mesmo com a instalação da fábrica sendo recente. O primeiro
contato dos funcionários da Foxconn com o sindicato é através dos contratados que denunciam
não receber o justo salário. Em 2009 a Foxconn começa a ficar mais atrativa na comparação
com outras fabricas de Jundiaí porque o nível do salário para operador de produção chega a
mais de R$ 2 mil. Fica evidenciado que neste período não está ainda em atividade o galpão da
Fox 2 para os produtos da Apple. O crescimento do salário depende unicamente do reajuste
salarial obtido pelo sindicato (falta de planos de cargos), mas também da necessidade da
empresa ficar mais atrativa para a mão de obra, que começa a perceber que a Foxconn é uma
empresa que emprega muito mas que também despede com muita facilidade.
5
A produção da Foxconn é organizada por linha de produto. Na Foxconn 1 tem produção de
desktop e notebooks (DELL) de computador (ASUS), mas outras marcas foram produzidas no
passado (HP, LENOVO, SONY-ERICSSON, etc.). Na Foxconn 2 ficam as produções da
Apple: IPhones e IPads (embora se o final de março 2017 a produção de IPads estava
terminada). A produção da Foxconn em Jundiaí consiste principalmente na atividade de
montagem e por isso o problema mais relevante está na repetitividade das operações em linha.
A falta de mais de uma pausa de trabalho, que não seja para exigência fisiológica, confirma um
regime de produção com elevada intensidade. Também a falta de aplicação do rodizio entre as
estações representa ainda um dos maiores problemas, que contribui para o surgimento de
doenças profissionais. Mais em geral vale lembrar que os ritmos de trabalho ficam muito
elevados também com um nível de produção mais baixo, isso porque a menor produção se
acompanha periodicamente com demissões. A elevada rotatividade do trabalho, como no resto
do mercado do trabalho no Brasil, é causada também pelas demissões voluntárias. Essas
acontecem especificamente na Foxconn em função de um trabalho instável e da falta de
oportunidades no avanço profissional.
É importante evidenciar que na fábrica não está desenvolvido um modelo especifico de
organização do trabalho. A importância da meta de produção faz que o melhor método de
trabalho seja aquele que garante a meta. Neste sentido algumas diferenças podem acontecer em
relação as diversas experiências profissionais dos gerentes. Por exemplo, quem chega do setor
automotivo pode implementar formas de organizações que são típicas do setor como o Total
Quality Management.
O cumprimento das metas de produção determina uma pressão muito forte sobre os
trabalhadores, muitas vezes sob a forma de assédio moral, como confirmam também outras
pesquisas no mesmo setor e na mesma área territorial investigada, em particular em relação a
mão de obra feminina (Lapa 2016; Leite e Guimarães, 2015).
O início da produção da fábrica tem tido convulso como afirmamos antes. Isso tem uma
consequência sobre a organização do regime horário e da carga horaria individual. Ao mesmo
tempo o comportamento assumido pela empresa parece revelar um desconhecimento das
normas trabalhistas, a falta de previsão da ação sindical assim como das atividades de controle
dos organismos públicos. Neste período a possibilidade de fazer muitas horas extras é alta e a
empresa não tem observância dos limites legais. O excesso de horas de trabalho é um fator que
6
tem contribuído para a doença profissional (casos de tendinite e bursite causadas por lesões por
estresse repetitivo, ou distúrbios musculoesqueléticos) e os acidentes de trabalho. Relacionado
com tudo isso está também o indicador do absenteísmo, que foi elevado no início, quando a
utilização das horas extras era maior, enquanto agora está na média.
A chegada da Foxconn tem representado para o sindicato de Jundiaí algo totalmente novo,
também porque é a primeira vez que uma empresa deste tamanho se localiza na área e também
porque a empresa começa a contratar com urgência, sem respeito da CLT, fazendo trabalhar
sem folga os primeiros funcionários. A Foxconn representa também a vinda da primeira
empresa chinesa em Jundiaí. Até agora a presença das empresas estrangeiras era sobretudo de
empresas europeias, alemãs em particular, e dos Estados Unidos. A presença mais significativa
de uma empresa asiática é a japonesa OKI. Neste sentido a Foxconn traz um padrão
organizativo e de relação trabalhista diferente da tradição metalúrgica da área. O sindicato
metalúrgico de Jundiaí tem construído a partir dos anos 90 um padrão sindical com boas
relações com o conjunto das empresas da área. Neste contexto a Foxconn tem representado uma
novidade nas dinâmicas sindical que em um primeiro momento encontra o sindicato
despreparado.
E um primeiro nível de análise podemos afirmar que as relações sindicas ficam marcadas
principalmente de uma primeira fase onde a empresa atua sem levar em conta o papel da CLT
e do sindicato. O mesmo sindicato nesta fase (2007-2008) parece sem condições de negociar as
condições de trabalho (o primeiro contato do sindicato com a situação na empresa vem de
empregados com irregularidades e outras violações). Na segunda fase (2008-2010),
caracterizada pelo temor da empresa de ser comparada às fabricas chinesas determina uma
maior disponibilidade da Foxconn a negociar com o sindicato. Na terceira fase (2011 até a hoje)
a relação parece mais evoluída mesmo com os conflitos na ocasião das campanhas salariais,
onde o sindicato consegue um maior reconhecimento. Na nossa interpretação esta terceira fase
da relação empresa e sindicato consolida também a exclusividade das negociações sobre as
questões econômicas e de defesa do emprego, considerado que as questões dos cargos e das
7
condições de trabalho parecem desaparecer da pauta reivindicativa. No caso da tutela das
condições de saúde, as providências parecem ficar a cargo, principalmente, se não
exclusivamente, do departamento jurídico do sindicato. Ainda sobre este tema, a ginástica
laboral parece ser a única coisa que o sindicato tem conseguido e só na Foxconn 1.
Em referência às hipóteses descritas no início os resultados da pesquisa obtidos até agora
confirmam algumas questões típicas da prática sindical brasileira e que se podem fixar pelo
menos em três âmbitos: a) o modelo de participação dos trabalhadores; b) a prevalência do tema
salarial nas reivindicações; c) a dificuldade do sindicato na iniciativa sobre o melhoramento das
condições de trabalho. O primeiro tema investe diretamente no aspecto da representatividade,
que depende seja da ausência da pluralidade sindical no local de trabalho, mas também das
modalidades de seleção dos diretores de base na fábrica. Ao mesmo tempo a falta de diálogo
com a base dos trabalhadores confirma uma tendência mais geral presente no sindicato
brasileiro, que parece cada vez menos uma exceção no panorama internacional. O segundo
assunto, a prevalência do reajuste salarial, se por um lado reflete as preocupações legítimas de
reajuste do salário num contexto de alta inflação reflete também a dificuldade de iniciativa
sobre outros temas apesar da cobertura assegurada pela lei sobre alguns assuntos. O terceiro
assunto constitui a questão mais problemática. Neste horizonte precisa considerar a existência
de vínculos que ficam na relação entre o sindicato e a empresa (o número limitado de horas
para os diretores de base atuarem na fábrica, a falta de um local sindical na empresa), na
previsão que faz a lei sobre este assunto e na falta desta problemática nas convenções coletivas.
Na conclusão deste trabalho desejamos chamar a atenção para duas questões comparativas
que se referem às condições de trabalho nas outras fábricas eletrônicas estrangeiras no Brasil e
a comparação destas condições com outras fábricas da Foxconn no mundo e por ultimo a
questão do tipo de ação sindical que a Foxconn encontra nas suas diferentes plantas no mundo.
No primeiro caso, segundo a pesquisa realizada da Wetering et al. (2015) sobre a indústria
eletrônica brasileira, o caso da Foxconn confirma os problemas nas condições de trabalho
levantadas (elevada quantidade de horas extras, formas irregulares de terceirização e mais em
geral condições de trabalho ruim, doenças profissionais, etc.). Todavia a comparação com
outras fábricas eletroeletrônicas de Jundiaí mostram uma avaliação diferente das condições de
fábrica que podem depender, por exemplo, da ergonomia do trabalho. Existe também uma outra
questão que parece comum e que fica relativa aos casos de assédio moral que dependem das
8
relações entre o management estrangeiro e os trabalhadores. No específico este tipo de conflito
classificado como “cultural” parece bastante difundido no resto da indústria estrangeira no
Brasil como mostram outras pesquisas sobretudo nas áreas de recente industrialização
(Carvalho e Garcia, 2011).
O segundo nível de comparação apresenta uma maior complexidade pela especificidade de
cada contexto nacional. Também se a comparação com as fábricas chinesas seja difícil pela
diversidade do contexto político-normativo e industrial (dimensão das fábrica e número de
empregados na China), a ilustração da situação das fábricas na China como na Europa Oriental
mostra que há elementos que são recorrentes também no caso do Brasil. As pesquisas
conduzidas da Pung Ngai e o seu grupo (2015) mostram que nas fábricas chinesas da Foxconn
os problemas mais recorrentes são também a elevada rotatividade da força de trabalho, horas
extras, elevada intensidade do desempenho no trabalho, assédio moral, doenças profissionais,
exploração da capacidade física do trabalhador até a sua demissão ou pedido de demissão. Estes
elementos são igualmente relevantes na análise de Sacchetto e Andriajasevic (2015) sobre as
duas fábricas da Foxconn na República Tcheca. Em relação à avaliação da ação sindical, seja
na China, como na República Tcheca, esta ação é muito fraca: no caso da China, o sindicato
oficial exerce sobretudo um papel de controle da mão de obra (especialmente de prevenção do
conflito), na República Tcheca o nível de sindicalização é muito baixo e não está garantida aos
sindicatos a liberdade de movimentos na fábrica. No caso do Brasil, a cobertura da ação sindical
é diferente porque o sindicato, além de ser previsto por lei, pode atuar por ocasião da eleição
da CIPA, nas eleições dos diretores de bases e pelas periódicas campanhas salariais. Em geral
na nossa provisória hipótese é que se o diferente papel do sindicato no Brasil, como evidenciado
pelo controlo na aplicação da CLT (também se não houver modificação na legislação,
pretendida pelo projeto de reforma trabalhista em curso no Brasil) e pela promoção da
intervenção do Ministério do Trabalho, permitam uma capacidade de inciativa mais elevada em
comparação com outros países onde a Foxconn está localizada, o sindicato aparece fraco sobre
as mudanças das condições de fabrica, sobretudo por quanto atinge a prevenção das doenças
ocupacionais que investem o trabalhador por conta de uma forma de organização do trabalho
que ainda se mantém muito taylorista.
9
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11
A dimensão tecnológica do capitalismo contemporâneo e a
revitalização sindical: o caso da categoria bancária no Brasil
Introdução
O presente artigo tem o objetivo de indicar os desafios para ação coletiva e
organização sindical dos bancários, a partir das categorias de análise da revitalização,
considerando as profundas mudanças em curso no setor, a partir da globalização
financeira e das inovações tecnológicas . A hipótese é que as inovações na base técnica
do setor financeiro transformam de forma relevante as relações de trabalho nos bancos,
colocando novos desafios para a organização sindical dos bancários que passa por
importantes reconfigurações em suas estratégias de mobilização, organização e atuação a
fim de manter sua capacidade de regular as relações de trabalho, no contexto da chamada
“4ª revolução industrial.
Além desta introdução, o artigo está dividido em três seções, e considerações
finais. A primeira seção traça as características do regime de acumulação flexível; a
segunda seção trata das principais transformações tecnológicas observadas no setor
financeiro nos últimos anos e a terceira seção apresenta alguns elementos da literatura
acerca da revitalização sindical e como este referencial pode ajudar a compreender a
forma como as organizações sindicais de bancários no Brasil têm buscado se adaptar ao
novo contexto a fim de preservar sua representatividade e capacidade de ação. As
considerações finais destinam-se a apontar desafios futuros para o sindicalismo bancário
com base nas discussões apresentadas ao longo do texto, notadamente a partir da
importância do debate da revitalização sindical.
1
Harvey (2004); (Freyssinet, 2009) e Hyman (2015)
salários, inclusive muitas ligadas aos serviços pessoais e domésticos, dependentes da
renda de famílias ricas. Além da internacionalização da produção de bens e serviços, há
que se considerar o impacto da reestruturação produtiva, que afetaram o nível de
empregos tanto na manufatura quando nas áreas de serviços e administrativas, além de
vendas, compras, distribuição, etc. (Antunes, 2011)
Nos últimos anos alguns estudos2 passaram a utilizar o termo “4ª Revolução
Industrial” para descrever uma série de novos processos de inovação tecnológica
aplicados a produção de bens e serviços. Schwab (2016) destaca que esta nova revolução
teve início na virada do século XX para o século XXI, baseia-se na revolução digital e
caracteriza-se por uma internet mais onipresente e móvel, sensores menores, mais
potentes e mais baratos e pela inteligência artificial e aprendizagem automática das
máquinas. O autor destaca algumas tecnologias características desse contexto:
“inteligência artificial (IA), robótica, a internet das coisas (IoT, na sigla em inglês),
veículos autônomos, impressão em 3D, nanotecnologia, biotecnologia, ciência dos
materiais, armazenamento de energia e computação quântica, para citar apenas alguns.”
(Schwab, 2016 , pg. 11)
De acordo com Belluzzo e Galípolo (2016)3, este movimento ganha força a partir
da tentativa de reindustrialização de países europeus e também dos EUA, como resposta
à relocalização da indústria para regiões de baixos salários observada desde a década de
1970. Se com a 4ª revolução industrial é possível produzir com a utilização de
pouquíssima mão de obra, então não seria mais necessário o deslocamento da produção
para países asiáticos, por exemplo.
Em publicação recente do Fórum Econômico Mundial intitulada “The Future of
Jobs” o organismo analisa os impactos da nova revolução industrial sobre os empregos e
aponta que uma série de profundas mudanças nos modelos de negócios nos mais diversos
setores de atividade econômica, impulsionadas por novas tecnologias causarão a extinção
de 5,1 milhões de empregos em escala global até 2020. 4 O conjunto de transformações
afeta também o setor financeiro, centro da análise deste artigo, de forma bastante
2
Ver, por exemplo, Schwab (2016)
3
Belluzzo e Galípolo (2016)
4
World Economic Forum (2016)
relevante. Outros estudos mostram que as inovações tecnológicas criam outras ocupações
e demandas (AUTOR, 2014).
5
FEBRABAN (2015)
bancos realizam, cada vez mais, suas operações nos canais digitais, plataformas com
necessidade quase nula de interação humana.
6
Vallejos e Cavarzan, (2015)
de caixa e escriturário, ocupações tradicionalmente próximas e leais ao movimento
sindical bancário. 7
7
Dados da RAIS.
8
É um estudo em curso, como parte da tese de doutoramento de Gustavo Machado Cavarzan.
9
Krein e Dias (2015) acrescentam uma quinta dimensão, a societal, que não será considerada no presente
texto.
em 2015 (40%)10. Esse movimento tem implicações para a legitimidade,
representatividade e poder de barganha da categoria. O desafio, na perspectiva da
revitalização deve contemplar, portanto, um aumento tanto da filiação como da densidade
sindical, e também mudanças apropriadas na composição dos sócios. (Behren; Hamann e
Hurd, 2004)
A dimensão econômica inclui o poder de barganha, a capacidade de alcançar
melhorias nos salários e benefícios, e mais amplamente o impacto do trabalho na
distribuição da riqueza. Desse ponto de vista é fundamental avaliar os métodos e
estratégias que estão ao alcance do sindicato para obter ganhos econômicos para a
categoria que representam. Entre 2004 e 2016, as greves na categoria foram bastante
constantes e volumosas. No entanto, as greves afetam cada vez menos o funcionamento
do sistema bancário, diante da digitalização do atendimento bancário e da possibilidade
de trabalho a distancia através de dispositivos eletrônicos. (SANCHES, 2012)
A greve, enquanto estratégia caminha para um impasse visto que a possibilidade
de sucesso da mesma concentra-se nas paralisações em agências e call centers, que juntos
respondem por apenas 11% das transações financeiras nos bancos no Brasil. Os sindicatos
já têm ampliado suas estratégias para fazer frente a tal cenário através de movimentos de
paralisação focados cada vez mais nos centros administrativos e centros tecnológicos das
instituições financeiras. (SANCHES, 2012). Mesmo com tais adversidades os resultados
econômicos das negociações no período foram bastante satisfatórios, com ganhos reais
de salário de 19% desde 2004, elevação substantiva do valor da remuneração variável,
especialmente, por meio da PLR, a ampliação de outros benefícios sociais e de combate
à discriminação (COLOMBI, KREIN, 2016). No entanto, o avanço tecnológico exigirá
cada vez mais criatividade para que a mobilização continue resultando em ganhos para a
categoria.
A dimensão política consiste na capacidade de os sindicatos influenciarem o
processo político através do apoio a partidos e candidatos, ou a influencia no âmbito da
atividade legislativa. Apesar da expressiva participação política dos bancários na
ocupação de espaços institucionais de definição de políticas públicas, o marco regulatório
não conseguiu colocar limites e nem contrapartidas para o avanço das inovações
10
Dados da PNAD.
tecnológicas e reconfiguração do sistema financeiro. A única exceção foi a ampliação dos
serviços dos bancos públicos, o que explica, entre outras razões, a elevação do emprego
bancário, entre 2004 e 2012.
A dimensão institucional aborda as estruturas organizacionais dos sindicatos, bem
como suas dinâmicas internas. Compreende a capacidade de adaptação dos sindicatos a
novos contextos e o entusiasmo interno por adotar novas estratégias. Na questão
organizativa, houve um esforço de ampliar a organização sindical para representar os
terceirizados e os trabalhadores do sistema financeiro não bancários, como pode ser
observado com a criação da CONTRAF (Confederação Nacional dos Trabalhadores do
Ramos Financeiro). Apesar de ações coletivas com terceirizados e de abrir os estatutos
aos trabalhadores do ramo financeiro, não se avançou na sua representação, devido aos
limites da estrutura sindical oficial. Os avanços foram em criar espaços para segmentos
historicamente com pouco participação sindical, como as mulheres, assim como os com
identidades culturais, de raça e etnia e jovens. Ainda que esta dimensão seja difícil de ser
mensurada, pode-se observar iniciativas como a parceria com outras instituições como o
IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) e movimentos sociais, a criação da
Faculdade e do Centro de Pesquisa 28 de Agosto, a aproximação com a academia para a
formulação de subsídios à ação sindical..11 Tais aspectos são destacados por Frege, Heery
e Turner (2004) que argumentam que a revitalização sindical coloca a necessidade de os
sindicatos ampliarem seus objetivos para além de questões imediatas e atuarem em frentes
mais amplas de progresso social. Além disso, argumentam os autores que os sindicatos
devem ser capazes de agir em conjunto com outras forças sociais progressistas.
A revitalização sindical é considerada como um processo contínuo, em que uma
dimensão pode ser mais destacada em determinado período, mas sempre abarca todas ao
longo do tempo. O sindicalismo bancário enfrenta adversidades nas dimensões, mas
também há iniciativas em curso em cada uma delas, que demonstram a possibilidade de
utiliza-las para analisar a ação sindical nos anos recentes.
A título ilustrativo, algumas formulações recentes que surgem na minuta de
reivindicações dos bancários sobre o enfrentamento das inovações tecnológicas
contribuem para ilustrar a análise. Em 2015, a minuta da categoria incluiu entre suas
11
[Link]
[Link]
reivindicações salário de ingresso para técnico de Tecnologia da Informação. É possível
observar ainda no documento uma série de outros artigos que tratam do tema da
tecnologia e seus impactos no emprego como o Artigo 40 que trata de garantias contra
dispensa imotivada e o artigo 47 que reivindica a constituição de uma comissão bipartite
sobre mudanças tecnológicas.
O artigo 53 incorporou em 2014 a reivindicação para que sejam contemplados
como tempo de trabalho a utilização de celular corporativo ou outros meios telemáticos
e informatizados. O artigo 55 busca garantir que os funcionários recebam o treinamento
e formação adequada em diversas situações, inclusive “por motivos de introdução de
novas tecnologias”. O artigo 56 trata do horário de atendimento dos bancos e em 2015
foi complementado com os termos “agências digitais, de negócios e quaisquer outros
modelos de atendimento”. Tal alteração justifica-se pela criação de modelos de agências
digitais. Por exemplo, o Banco Itaú, no relatório aponta que já são 135 agências digitais
com atendimento das 07:00 as 24:00 exclusivamente por meios remotos (e-mail, telefone,
SMS, chat ou videoconferência).12
O artigo 71 da minuta que trata do fim das metas abusivas ganhou novo parágrafo
em 2012 para garantir que “os bancos não efetuarão cobrança de metas por meio de
correio eletrônico, SMS ou quaisquer outros meios tecnológicos, inclusive, grupos de
redes sociais (WhatsApp, facebook, etc.)”.
Por fim em 2016, a minuta da categoria incluiu um extenso artigo (48) que visa
regular diversos aspectos das condições de trabalho nas chamadas “agências digitais”,
desde remuneração, emprego, jornada e ritmo de trabalho, até acesso de dirigentes
sindicais aos locais de trabalho. Como resposta ao novo artigo da minuta d reivindicações
dos bancários, a Fenaban propôs a criação de um grupo de trabalho para analisar critérios
de realocação e requalificação, cujas regras ainda estão por ser estabelecidas .
Ainda que o tema das mudanças tecnológicas esteja presente nas minutas de
reivindicações desde os anos 90 com atualizações constantes, os avanços concretos nas
campanhas salariais com inclusão de cláusulas na Convenção Coletiva de Trabalho sobre
este tema ainda são tímidos. Em 2013, por exemplo, a categoria conquistou cláusula que
proíbe que os gestores façam cobrança de metas por mensagens no telefone particular dos
12
Demonstrações Financeiras do Banco Itaú Unibanco, 4º trimestre de 2016.
trabalhadores(as) . Nenhuma das outras cláusulas sobre tecnologia, no entanto, foi
convencionada. Trata-se de um desafio para o sindicalismo bancário nos próximos anos,
especialmente sobre os impactos no emprego e nas condições de trabalho, inclusive na
saúde em função da intensificação da cobrança de metas e resultados e alterações na
jornada.
Considerações Finais
. Os sindicatos continuam tendo importante papel na definição das condições de
vida dos trabalhadores no trabalho e na sociedade. Eles estão ou precisam estar em
processo de renovação de suas estratégias para enfrentar as mudanças em curso. A
observação das ações coletivas a partir da teoria da revitalização contribui para observar
o que ocorre no sindicalismo, mesmo ainda não sendo possível apresentar uma conclusão
mais precisa sobre os resultados no atual estágio do estudo. Assim, no presente artigo
procurou-se trazer elementos concretos que ilustrem o cenário adverso para os
trabalhadores e a tendência de aprofundamento deste cenário, mas ainda assim percebe-
se que o movimento sindical bancário tem dado mostras de sua capacidade de renovação
e de criação de novas estratégias e, nesse sentido, mostra-se como um ator importante do
debate e da construção do fortalecimento do movimento sindical brasileiro como um todo.
As entidades sindicais bancárias estão desafiadas a traçar novas estratégias de
aproximação com sua base, de mobilização e organização, notadamente porque os
bancários mais próximos do sindicato são justamente os trabalhadores de agências, cujas
funções tendem a se esvaziar no novo contexto tecnológico aqui apresentado.
Os desafios colocados para a categoria são imensos. Passam pelo debate acerca
da configuração do sistema bancário, do marco regulatório do setor, do desemprego
tecnológico, das formas de distribuir os ganhos de produtividade provenientes da
tecnologia entre os trabalhadores, seja através de remuneração, seja através da redução
da jornada de trabalho, pela requalificação profissional de bancários e bancárias que terão
suas funções suprimidas pela automação, por novos problemas nas condições de trabalho
e na saúde da categoria, pelas alterações na pirâmide cargos e salários, pela representação
das novas ocupações que ganham importância nos bancos e, por fim pelos próprios
métodos de mobilização, paralisação e negociação, diante de um cenário de automação
extrema dos processos de trabalho.
Referências Bibliográficas
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[Link]
Características y determinantes de las huelgas laborales (in)eficaces en el
sector privado de la economía en el Chile Actual (2006-2016)
Nicolás Ratto
Licenciado en Sociología
Universidad de Chile
Estudiante de Magister en Ciencias Sociales,
Mención Sociología de la Modernización
Universidad de Chile
Nicolás Selamé
Licenciado Sociología
Universidad de Chile
Correo de contacto:
nicolasrattor@[Link]
Introducción
Los últimos diez años han sido caracterizados por variados analistas y fuentes de información
como años de resurgimiento de las movilizaciones de trabajadores en Chile (Gaudichaud,
2015; Urrutia, 2015; Ruiz & Boccardo, 2014; Aravena & Núñez, 2009; OHL, 2016). Así
mismo ha habido una politización de la sociedad chilena (PNUD, 2015) y una emergencia de
distintos movimientos sociales (Garretón, 2014; 2016; Barozet, 2016; De la Maza, 2016;
Boccardo & Ruiz, 2014). En conjunto, estos movimientos han comenzado a tensionar y
agrietar la hegemonía neoliberal que imperó en relativa paz social durante la dictadura militar
chilena (1973-1989) y durante gran parte de los gobierno de la Concertación de Partidos por
la Democracia (1990-2010).
1
Estos movimientos sociales se han topado con una institucionalidad que si procesa sus
demandas lo hace de manera degenerada, después de fuertes presiones sociales, intentando
armonizar los cambios con la base socio económica neoliberal (Gaudichaud, 2015). Se trata
de una democracia restringida (Garretón, 1995; Moulian, 2002) que blinda al modelo
neoliberal, por la cual la mayoría de estos movimientos sociales no han podido conseguir sus
objetivos refundacionales, limitándose a conseguir irritaciones en el sistema político
(conformación de la coalición política Nueva Mayoría), y reformas parciales y limitadas al
modelo (Barozet, 2016). Es decir, han sido parcialmente ineficaces, hasta el momento.
Respecto a los éxitos de las acciones colectivas de los trabajadores en Chile no se ha dicho
casi nada desde las ciencias sociales, en especial cuando la acción colectiva tiene que ver con
cuestiones a nivel de empresa, tipo de huelga que prima ampliamente en Chile (Armstrong
& Águila, 2006; OHL, 2016). Por un lado, han tomado relevancia los análisis políticos y
legales respecto al fracaso que significó para los trabajadores la discusión y aprobación de la
Reforma Laboral los años 2015-2016 (Fundación Sol, 2015; Ugarte, 2016), y por el otro, casi
todas las investigaciones sobre trabajo y/o sindicalismo, que se posicionan desde una
perspectiva crítica, concuerdan en que los trabajadores en Chile tienen un bajo poder de
negociación, debido a las reestructuraciones productivas de los últimos 40 años y el Plan
Laboral implementado en la dictadura militar (López, 2004; Salinero, 2006; Gaudichaud,
2015; Urrutia, 2015; Julián, 2015). Lo anterior se expresaría en la baja tasa de sindicalización
y en la escasa incidencia que tiene la negociación colectiva en Chile para disminuir la
desigualdad de ingresos (Durán, 2009; Reinecke & Valenzuela, 2012).
Entonces, no existe ningún dato o estudio que intente observar empíricamente, más allá de
las comentadas tasas de sindicalización y negociación colectiva, como se expresa esta
determinación estructural pro empresa en Chile en los resultados de los diversos conflictos
colectivos en los que participan los trabajadores1. En esta investigación pretendo aportar en
remediar esta situación, realizando un paso previo a cualquier medición objetiva de la
1
Una excepción puntual es la investigación de Stillerman (2017) que estudia las determinantes de los resultados
de las diversas huelgas laborales en la historia de la empresa MADECO en Chile, pero es un estudio de caso,
que no logra dar una perspectiva más general de la cuestión.
2
eficacia de la huelga laboral en Chile: ver qué factores influyen en que una huelga laboral
sea eficaz (Burchielli, 2004), y como son las huelgas eficaces.
Antecedentes
Pese a la creciente movilización y conflictividad social en Chile hay una serie de elementos,
particularmente en el mundo laboral, que siguen estando presentes y que se configuran como
factores comunes que todos los trabajadores que se movilizan deben enfrentar de alguna
forma. Estos elementos, siendo esquemáticos, serían: (1) una institucionalidad restringida
que intenta limitar la acción sindical (Aguilar, 2017), (2) un movimiento sindical débil,
dividido, fruto de la institucionalidad comentada pero también por una serie de derrotas
políticas desde 1973 a la fecha, de despolitización de las bases y de varios dirigentes
sindicales, entre otros elementos (Julián, 2015), y (3) las formas de organizar el trabajo y de
acumular el capital presentes en Chile que se inician desde 1975 con el shock neoliberal, con
una serie de políticas posteriores y con grandes cambios económicos y culturales a nivel
mundial (Aguilar, 2017).
Todas estas transformaciones llevan a que en Chile los sindicatos sean una realidad
excepcional al interior de las empresas, así como también los trabajadores que se encuentren
sindicalizados, que no han superado el 15% del total de la fuerza de trabajo ocupada en más
de 20 años (Dirección del Trabajo, 2014). Dentro de esta realidad excepcional del sindicato
en Chile, se ubica el fenómeno aún más excepcional de la huelga laboral, que involucró el
año 2015, en el sector privado de la economía, a menos del 2% de los trabajadores ocupados
en el país (OHL, 2016).
Enfoque teórico
Por huelga nos referimos a la negación colectiva (Ermida, 1996) del proceso de trabajo
capitalista por parte de los trabajadores, para generar daño económico a la contraparte
(Álvarez, 2006) en el marco de una negociación –en sentido amplio- entre sujetos con
antagonismos estructurados y con poderes de negociaciones diferenciales (Edwards, 1990;
Womack, 2007). En ese marco de negociación, el objetivo último de las partes no es generar
daño a la contraparte necesariamente, si no que lograr imponer sus términos, o la mayor parte
3
de ellos. Por lo mismo, para llegar a ese fin, los trabajadores pueden ocupar un repertorio
casi ilimitado de acciones junto a la huelga (Hyman, 1981; Bourdieu, 1990). En la presente
ponencia nos centramos en conocer las características y determinantes de las huelgas
eficaces.
La eficacia para un sindicato tiene que ver con el grado en el que alcanza sus objetivos cuando
realiza determinadas acciones: un sindicato sería eficaz cuando aplica con éxito las palancas
o tácticas adecuadas de poder para lograr sus metas (Gall & Friorito, 2014). En este caso, la
huelga. Los autores dirán que cualesquiera que sean los objetivos decididos, es necesario
tener claridad de cuales objetivos están siendo o no evaluados a la hora de conocer la eficacia
sindical, como también importa quién está haciendo la evaluación. Los sindicatos tendrán
objetivos sindicales básicos relacionados con el bienestar de sus miembros (Bryson, 2009),
es decir, con la defensa de sus intereses, pero estos se expresan en diversas arenas y
dimensiones. Habría que preguntarse, entonces, por qué vías o indicadores será medida la
eficacia de una huelga (Burchielli, 2004). Para hacer la evaluación de la eficacia de cada
huelga que he estudiado consideré los aumentos de salario, los aumentos de beneficios, el
recibo de bonos y el aumento de la afiliación sindical (o más bien su no disminución) que
esta genera para los trabajadores involucrados en la huelga. Es decir, consideré elementos de
corto plazo, fácilmente objetivables, y altamente materiales, lo que choca con las sugerencias
que hacen, por ejemplo, Molina & Barranco (2016) de ver la huelga más allá de sus logros
inmediatos y materiales.
Metodología
4
Resultados
5
Análisis de correspondencia entre eficacia y efectividad de la huelga laboral
6
Análisis de correspondencia entre eficacia y TC en la huelga
7
Tradicionalmente la forma de ver el impacto e indirectamente la efectividad de la huelga es
mediante los “días hombre de trabajo perdido” (DHTP), es decir, a la multiplicación entre la
duración de una huelga laboral y los trabajadores comprometidos en ésta (Armstrong &
Águila, 2006). Pero la variable DHTP esconde la acción contraria de dos variables, oscurece
la realidad pues combina el efecto negativo sobre la eficacia de la variable duración, con el
efecto positivo de la variable trabajadores comprometidos en la huelga. Entonces, a la hora
de estudiar las características de las huelgas eficaces, conviene más usar las variables
duración y trabajadores comprometidos por separado.
Hay una segunda forma para medir la masividad de la huelga, que parece ser más exacta que
la variable TC en la huelga: la representatividad, es decir, el porcentaje de los trabajadores
en huelga con respecto al total de la empresa. Este, es un factor determinante de la eficacia
de la huelga, según el análisis cualitativo de las 10 entrevista (por la complejidad
metodológica de su construcción no abordamos cuantitativamente esta variable). Las huelgas
más eficaces, más que involucrar a muchos trabajadores en términos absolutos, involucran a
muchos en términos relativos: o son casi todos los de la empresa o son una mitad activa que
impide que todos los demás trabajadores puedan continuar con sus labores normales. Esta
relación puede darle esperanzas a los sindicatos pequeños por condicionamientos productivos
de la empresa (más no por incapacidad de sumar a la mayoría de los trabajadores): incluso
teniendo un sindicato pequeño, pero altamente representativo, se puede hacer una huelga
efectiva y eficaz. Pero así mismo, los sindicatos pequeños, poco representativos y con
huelgas de alta duración en casi todos los casos alcanzan malos resultados al finalizar la
huelga.
8
Duración, TC, efectividad y eficacia de las huelgas laborales cuyos dirigentes fueron
entrevistados
9
Contratista de 14 1.500 90% Media efectividad Media eficacia
transporte de
mercancías de Gran
Empresa de Bebidas
La huelga no existe en abstracto, para que sea eficaz hay que articularla a otras acciones
Los trabajadores, cuando se toman en serio el objetivo de afectar a la contraparte –económica
y más que económicamente-, para así poder tener una huelga eficaz, acoplan la huelga laboral
a una serie de otras acciones, y por lo general, siempre lo hacen (Bourdieu, 1990). Para los
sindicatos con bajo poder de negociación las acciones acopladas a la huelga no determinan
de forma importante los niveles de la eficacia de la huelga. Para los sindicatos con poder de
negociación medio, las acciones acopladas pueden hacer importantes diferencias en la
efectividad de la huelga, pero no en sus resultados necesariamente. Para los sindicatos con
poder de negociación alto –generalmente de sectores estratégicos de la economía- las
acciones acopladas a la huelga son excepcionales, pues importa más en estos casos la
posibilidad de la acción, que la acción misma. Pese a esto, en algunos momentos se hace
necesario, por diversas razones, ejecutar los acoples. Es aquí cuando las acciones acopladas
cobran su esencial determinación para la efectividad y eficacia de las huelgas en estos
sectores con alto poder de negociación.
Toda articulación con actores sociales y políticos termina siendo útil para los huelguistas
Por un lado están las articulaciones sociales orgánicas de los huelguistas, dentro de las cuales
las más comunes son las vinculaciones con otros sindicatos, federaciones y/o
confederaciones. Estos apoyos, al igual que lo excepcionales apoyos de estudiantes y
organizaciones política de la nueva izquierda, no hacen más efectiva (y aún menos más
eficaz) la huelga laboral, pero sí hacen más grato y digno el tiempo ocupado en la
movilización. Hay un tipo de apoyo sindical, hacia los sindicatos de empresa, que si termina
siendo eficaz. Este apoyo es la amenaza (como posibilidad real) de paro o huelga general de
parte de organizaciones sindicales supra empresa. Hay casos excepcionales en donde las
huelgas son apoyadas por las comunidades en donde se incrustan socialmente las empresas
10
y sus trabajadores. En estos casos los apoyos de la comunidad son claves para la eficacia de
las huelgas.
Por otro lado, están las articulaciones sociales inorgánicas de la huelga, es decir, el apoyo
más o menos favorable del público, clientes, terceros, de la ciudadanía o de la opinión
pública. Estos apoyos si bien no aumentan directamente la efectividad de la huelga si
moralizan a los trabajadores, como también difunden la problemática –y eventualmente
pueden aumentar la eficacia de la huelga presionando socialmente a la contraparte de los
trabajadores-. De parte de los trabajadores en huelga hay una preocupación constante por
informar y por conseguir adhesión de estos públicos. En general, en Chile las huelgas son
poco difundidas y conocidas por la opinión pública, por la alta concentración de los medios
de comunicación en Chile (Gonzalez & Saavedra, 2015). Y cuando excepcionalmente se dan
a conocer las huelgas, esto se hace de manera parcial. Cuando, aún más raramente, la
ciudadanía se pone del lado de los trabajadores -como sucedió con la huelga de 2016 de
Homecenter, cuando la empresa suspendió las actividades de navidad para los hijos de los
huelguistas-, las críticas públicas a la empresa hacen su efecto. Por esta presión social,
Homecenter tuvo que retirar su medida. En este caso el apoyo inorgánico aumentó de cierta
forma la eficacia de la huelga, al evitar una exclusión material y simbólica de las familias de
los huelguistas por el solo hecho de estar en huelga, pero la huelga termino siendo ineficaz e
incluso costosa para los trabajadores.
Por último, están las articulaciones con la política. Las huelgas más difundidas suelen tener
apoyo de personalidades importantes tanto del mundo de la política, los espectáculos e
incluso del mundo de la iglesia. Pero estos apoyos no aumentan ni la efectividad ni la eficacia
de las huelgas, pero les da esperanzas a los huelguistas y les aumenta la moral. Así también,
la presencia de instituciones o cargos públicos tampoco aumenta la eficacia de la huelga. Hay
una excepción con los cargos públicos, que se da cuando estos son controlados por los
mismos trabajadores en huelga (el CORE2 del sindicato de la Minera Cerro Bayo). Cuando
una función política como esta, está al servicio del sindicalismo, les permite a los huelguistas
2
Consejero Regional.
11
generar sus propias presiones políticas, conocer información más o menos confidencial, y
generar reuniones con autoridades sin mediaciones, y desde una posición no subordinada.
Pese a que en pocos casos las articulaciones aumentan la eficacia de las huelgas, todas las
articulaciones que los trabajadores consiguen en sus huelgas son útiles, en algún sentido, para
ellos. Especialmente en un país cuyos medios de comunicación en manos de grandes grupos
económicos privados, por vinculaciones económicas o solidaridad de clase, vetan de la
opinión pública a la mayoría de las huelgas laborales. Esto, sumado a la restrictiva legislación
laboral chilena hacia las movilizaciones de trabajadores, hace que los trabajadores
agradezcan y le saquen provecho a cada organización o personalidad que aparece en la
huelga.
La empresa o la contraparte con la que negocian los trabajadores en huelga usa una serie de
acciones –y omisiones de acciones- para contrarrestar el poder de los huelguistas, y así
afirmar su poder puesto en duda por los mismos (Edwards, 1990). Son acciones que juegan
el papel de determinantes claves de la efectividad de la huelga, pues reducen el daño que esta
genera y/o le otorgan un sobre poder a la empresa en la negociación con los trabajadores. Los
reemplazos a los huelguistas y las amenazas de despido son una práctica común por parte de
las empresas en Chile. Así también juegan un rol importante, las “negaciones del dialogo”
por parte de las empresas, lo que potencia el conflicto en general, determinando que se
resuelva de forma negativa para los trabajadores con bajo poder de negociación, y de forma
positiva para los trabajadores con alto o medio poder de negociación.
12
efectividad de la huelga en el Chile de los últimos 10 años. Pero al parecer, esta
institucionalidad laboral ha perdido parte (si es que alguna vez lo tuvo) de su carácter
totalizante sobre las expresiones conflictivas de los trabajadores. Hay una gran cantidad de
conflictos colectivos de trabajadores, que sin ser mayoritarios, ocurren por fuera de estas
normas. Lo interesante de estos conflictos, más allá de su carácter “ilegal” para algunos, es
que actualmente en Chile son el tipo de conflicto, particularmente el tipo de huelga, que está
siendo efectiva y eficaz.
Los trabajadores que utilizan estas formas no regladas de huelgas laborales y de acciones
colectivas saben que el uso de estas acciones les da ventajas comparativas en las
negociaciones con sus contrapartes según lo expresan en las entrevistas. Hay una
racionalización, una lectura del escenario y posterior aplicación de tácticas y estrategias. El
gran problema es que nadie asegura que este punto de fuga se vaya a mantener en el tiempo
ni que se vaya a expandir alcanzando a todos los trabajadores chilenos. Por diversas razones,
hay una serie de trabajadores en Chile, posiblemente la mayoría de los que se movilizan, que
13
actualmente la única opción viable que ven para mejorar sus condiciones de trabajo y empleo,
es utilizando la negociación colectiva reglada, y la huelga “legal”, que no asegura ni está
asociada fuertemente a una huelga eficaz.
Si bien la mayoría de las veces no hay una voluntad redistributiva por parte de las grandes
empresas, si son las huelgas ocurridas en estos lugares las que son más eficaces, en especial
cuando son empresas relevantes para el grupo económico. El diferencial de eficacia en las
huelgas de empresas de grandes grupos económicos parece ser provocado por la
representatividad y masividad de las huelgas.
Parece ser que la eficacia de las huelgas en empresas “formalmente estratégicas” (puerto,
minería, entre otras) se produce por razones bastante más complejas que por la paralización
de los altos aportes que hacen al Producto Interno Bruto Nacional. Su efectividad viene dada
porque interrumpe otras actividades económicas más allá de la empresa en huelga. Por lo que
terceros actores presionan a la contraparte a negociar y/o apoyan la movilización de los
trabajadores. Que estas huelgas sean efectivas y eficaces se da por su fuerte incrustación en
circuitos económicos y sociales. Y evidentemente, porque estas posiciones estratégicas,
incrustadas, son movilizadas con éxito: hay una organización capaz de movilizarse y de
movilizar una alta cantidad de trabajadores, como sugiere la siguiente proposición.
Para que la huelga sea eficaz los trabajadores deben tener una organización sólida y preparar
la huelga
La eficacia de la huelga está asociada a la experiencia en otras huelgas de los sindicatos que
la ejecutan, y a las experiencias en general del sindicato (a los más antiguos les va mejor).
Los sindicatos formados el año 2010 o después, suelen no tener experiencias en huelgas
laborales antes de realizar su primera huelga, la cual suele terminar siendo ineficaz. Los
14
sindicatos formados los primeros años del 2000 (con huelgas entre 2006 y 2016) suelen tener
más de una experiencias en huelgas o movilizaciones, siendo sus últimas huelgas eficaces
(pues hay cierto aprendizaje post huelga que es aprovechado). Con los sindicatos formados
en los 90 sucede algo similar. Pese a esto, uno de los sindicatos estudiados se sale de esta
forma, pues pese a tener más de 20 años de experiencias en negociaciones colectivas nunca
había tenido una huelga laboral. Su falta de experiencia, posiblemente, fue lo que se expresó
en los resultados ineficaces de su primera huelga el año 2016.
Las huelgas ineficaces varias veces no son previstas por el sindicato que se ve envuelto en
una, y por ende no la prepara ni planifica, como sostiene Juravich et al (2014). Así mismo,
estos sindicatos no juntan dinero para afrontar las huelgas (muchas veces no les alcanza,
aunque lo quieran), mientras que las empresas siempre tienen un capital del cual pueden
disponer para resistir y enfrentar la huelgas. Así también, en estas huelgas ineficaces hay
problemas orgánicos con el traspaso de las informaciones, con la comunicación entre bases
y dirigentes. De todas formas, el problema o la fortaleza no siempre la tienen los dirigentes.
Por ejemplo, también influye, en términos organizacionales, la actitud y disposición de las
bases sindicales en la huelga. Un dirigente comenta “sin bases alineadas, formadas y
dispuestas a movilizarse ni el mejor líder puede conducir y ganar una huelga”.
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s/r.
17
Ação sindical e a questão de gênero: um estudo sobre a participação das
mulheres nas direções da Central Única dos Trabalhadores – CUT.
Introdução
Este trabalho busca apresentar algumas discussões preliminares sobre a pesquisa de mestrado
em andamento, cujo tema é a participação das mulheres nas direções da Central Única dos
Trabalhadores – CUT.
Ao escolher analisar a participação das mulheres nas direções sindicais, tendo a Central Única
dos Trabalhadores – CUT como objeto de análise, nossa pesquisa busca discutir um tema no
movimento sindical que é pouco explorado pela literatura do país. Buscamos compreender qual a
inserção das mulheres nas direções da CUT e quais as ações que a mesma promove para o aumento
da participação feminina na entidade. Dentre as razões para a escolha desta entidade como objeto de
análise está o fato dela ter sido uma das primeiras a inserir o debate de gênero nos seus espaços, e
também pela criação da cota de participação de 30% para as mulheres nas suas direções, em 1993,
sendo esse um importante avanço na luta pela inserção das mulheres nos espaços de poder no
movimento sindical.
Os estudos sobre o sindicalismo brasileiro, em sua maioria, têm enfatizado que a classe
trabalhadora é urbana, industrial e masculina. Eles analisam as ações e formas de organização dos
sindicatos e das centrais sindicais como as paralisações, as greves gerais, piquetes, negociações, suas
políticas, sua estrutura, etc. Portanto, desde a década de 1930 diversos estudos foram produzidos
sobre a classe trabalhadora e seus organismos de representação, seu processo de formação, seu ideário,
As discussões sobre o sindicalismo, de acordo com Silva e Campos (2014) sempre foram de
grande importância nos estudos sobre o mundo do trabalho na sociedade contemporânea. Os
sindicatos são um instrumento de organização e mobilização dos trabalhadores, e seu surgimento se
confunde com o próprio desenvolvimento do capitalismo, ao ponto de podermos afirmar o sindicato
como resultado do desenvolvimento da própria sociedade burguesa, mas não sendo, vale ressaltar,
exclusivo desta formação social. A complexificação das relações econômicas, sociais e políticas, as
novas configurações das relações de classes e a feição do estado modificam as formas de organização
e atuação dos sindicatos, tornando igualmente complexas as suas contradições internas, suas formas
de atuação e instrumentos de mobilização e luta, isso possibilitou novas formas de investigação para
melhor entendimento dos seus fenômenos. Carvalhal (2001) reforça que as transformações na forma
de trabalho, com a fragmentação, heterogeneização e complexificação, criaram obstáculos no
aumento da sindicalização, pois as diferentes categorias de trabalhadores produzidas não possuem
estabilidade empregatícia, a exemplo dos trabalhadores em pequenos estabelecimentos, trabalhadores
em tempo parcial, imigrantes, jovens e mulheres.
São duas as razões, de acordo com a autora, para a resistência em articular as categorias classe
e gênero. A primeira delas refere-se à ideia de homogeneidade da classe operária, na qual não existiria
no interior da classe as clivagens de gênero, raça, geração, etc. Além disso, o conceito de
homogeneidade é construído a partir do lugar da produção. A classe operária seria vista como a
“personificação do trabalho” em oposição à burguesia como a “personificação do capital”. A segunda
razão diz respeito a assimilação feita entre heterogeneidade e fragmentação da classe, ao levar em
conta aspectos como as clivagens de gênero e raça, por exemplo. Está subjacente neste argumento
que a ideia de homogeneidade significaria força, enquanto a heterogeneidade e a fragmentação
significariam fraqueza. Logo, a força da classe trabalhadora não deveria ser quebrada por questões
que acentuassem suas diferenças internas.
Buscando compreender quais ações a CUT realiza para uma maior participação das mulheres
nas suas bases sindicais, e, como foco da nossa pesquisa, nas suas direções, apresentaremos nesse
texto alguns caminhos metodológicos utilizados no nosso estudo, porém nem todos poderão ser
discutidos neste momento. Primeiramente, nossa metodologia consistiu, na revisão da bibliografia
sobre sindicatos, com enfoque na participação das mulheres nessas entidades, ou seja, em análises
que versem sobre a inserção delas nos espaços de decisão do movimento sindical. Com isso foram
construídas tabelas sobre a posição na ocupação, rendimentos, anos de estudo, taxas de desemprego,
dentre outras. Para a construção dessas tabelas, utilizamos duas bases de dados, a primeira delas é a
´Pesquisa Nacional por Amostra e Domicílios – PNAD, realizada anualmente pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística – IBGE, exceto nos anos em que ocorrem o censo, desde 1967. A PNAD é
uma pesquisa de grande importância para analisar o mercado de trabalho brasileiro, pois através dela
é possível observar vários aspectos da dinâmica do mercado de trabalho, a exemplo dos citados acima.
Utilizamos o Statistical Package for the Social Sciences – SPSS, software de análise dos dados
estatísticos, para processar os micro dados da PNAD. A segunda base de dados é a Pesquisa de
Emprego e Desemprego – PED, realizada mensalmente, desde 1984, no Distrito Federal e nas regiões
metropolitanas de São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Belo Horizonte, Recife e Fortaleza, pelo
Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócioeconômicos – DIEESE.
Na segunda etapa da pesquisa, são analisados os documentos produzidos pela CUT, como
resoluções de congressos e plenárias, jornais, boletins e etc., material este disponível no site da
entidade, com o objetivo de identificar quais as ações que a central promove para aumentar a
participação feminina nas suas direções, além de quais os espaços que são ocupados por essas
mulheres nas instâncias de poder.
Durante o III Congresso da CUT, realizado entre 31 de julho a 3 de agosto de 1986, no Rio
de Janeiro, houve um debate sistemático sobre as questões específicas da mulher trabalhadora, a
inserção destas na luta de classe e no movimento sindical. De acordo com Costa (1995) discutiu-se
nesse congresso a importância da participação feminina no movimento sindical. Constatou-se que
estas não participam de forma permanente, tendo como decorrência a dupla jornada de trabalho, a
hegemonia da ideologia burguesa e conservadora, que atribui à mulher o papel subalterno e, ao
próprio movimento sindical, que não possui uma política de estímulo a essa participação. Através da
resolução deste terceiro congresso, percebemos que a entidade afirma que deve haver uma
valorização e estímulo à militância sindical da mulher, dos trabalhadores negros e dos demais grupos
que são discriminados pela ideologia dominante. A central afirma ainda que a criação de creches é
essencial para essa participação das mulheres, pois o cuidado com as crianças é uma das dificuldades
dessa maior inserção das mulheres no movimento sindical e indica o dia 12 e outubro como um dia
nacional e luta por creches.
Para superação deste quadro, aprovou-se neste terceiro Congresso a criação de Comissões
sobre a Questão da Mulher trabalhadora, em níveis nacional e estadual. Estas Comissões eram
responsáveis por elaborar propostas e projetos que subsidiassem a ação da CUT e suas entidades
filiadas; desenvolver atividades de formação e publicação de material sobre o tema; propor a
realização de seminários e encontros; incentivar e prestar assessoria às entidades sindicais, com o
objetivo de ampliar a participação da mulher trabalhadora em suas atividades específicas e gerais,
etc. (Costa, 1995).
Para Araújo e Ferreira (2000), a criação da Comissão Nacional sobre a Questão da Mulher
Trabalhadora (CNMT), criada em 1986, representou um grande avanço na luta das mulheres
trabalhadoras nos anos 1980. A criação dessa comissão foi considerada pelas mulheres como o
primeiro passo para construir um espaço de atuação feminista no conjunto do movimento sindical
cutista.
Essa comissão, de acordo com as autoras, teve um importante papel no debate sobre a suposta
homogeneidade da classe trabalhadora, que esconde as diferenças e desigualdades entre homens e
mulheres. A reivindicação pela ampliação dos espaços de participação das mulheres na CUT e a
inclusão das demandas específicas destas na agenda sindical, contribuiu, segundo as autoras, para
aprofundar a democratização interna da central. A introdução de demandas especificamente
femininas nos debates dos congressos gerais de vários sindicatos é um exemplo dessa conquista.
A inclusão das demandas específicas das trabalhadoras na agenda sindical, não significa que
estas se tornem pauta de reivindicação para discutir nas negociações com o patronato. As limitações
para o atendimento dessas demandas estão relacionadas desde as lideranças que não assumem as
reivindicações como relevantes, e também pelo patronato que não as consideram como legítimas.
Araújo e Ferreira (2000) destacam o boletim especial, de 1998, do Sindicato dos Bancários da Bahia
como exemplo:
Nas diversas campanhas salariais, por diversos motivos, as reivindicações das mulheres têm
se diluído em meio às reivindicações mais gerais da categoria. Precisamos mudar isso. É
necessário que as mulheres bancárias assumam, junto com o sindicato, a sua importância na
luta dos bancários, afinal de contas, as mulheres são praticamente a metade dos bancários
da nossa base sindical. (ARAÚJO E FERREIRA, 2000, p. 323).
A busca por igualdade de participação das mulheres na CUT teve a política de cotas da central
a expressão de uma vitória para as sindicalistas. Em 1992 foi aprovada a proposta que direcionava
30% dos cargos de direção para as mulheres. Segundo Castro (1995) a política de cotas foi importante
para dar visibilidade à luta das mulheres nas organizações sindicais.
Outro momento importante para a melhoria das condições de trabalho das mulheres foi a
criação na central, em 2004, da Secretaria Nacional sobre a Mulher Trabalhadora (SNMT), tendo
como objetivo organizar as mulheres e sensibilizar trabalhadores e trabalhadoras, dirigentes sindicais
da central, para a superação das desigualdades entre homens e mulheres no mundo do trabalho e na
sociedade como um todo.
Através do site da CUT obtivemos acesso as resoluções dos congressos nacionais e das
plenárias da central. A partir das resoluções verificamos quais as ações que a entidade promoveu
sobre as questões referentes às demandas femininas.
2. As ações da CUT referentes às questões das mulheres e a participação nas suas direções.
As resoluções de congresso da CUT são utilizadas para analisarmos como está presente o
discurso sobre gênero nos congressos da central. Neste texto apresentaremos a análise sobre a
resolução do congresso realizado em 2003 e 2006.
A primeira resolução analisada foi sobre o oitavo congresso nacional da central, realizado
em 2003, em São Paulo. A partir da leitura da resolução do congresso de 2003, ano em que Lula foi
eleito Presidente pelo Partido dos Trabalhadores (PT), percebemos que a CUT discute esse novo
cenário na política brasileira. Afirma-se que a central segue com os princípios que nortearam a
criação da mesma e esta segue lutando pelos objetivos imediatos dos trabalhadores, portanto, busca,
pela via democrática, estabelecer uma sociedade justa, igualitária, fraterna e socialista, fundada pela
superação do capitalismo. Reitera-se na resolução que as mudanças ocorridas tanto no mercado de
trabalho quanto no sistema de representação sindical fazem com que a central enfrente a crise no
mundo do trabalho. Esse enfrentamento é feito com o capital, representado pelo empresariado
nacional e internacional; com as entidades sindicais que estão de acordo com o projeto neoliberal; e
com os governos federal, estadual e municipal.
Além disso, debate-se na resolução que as mulheres continuam sendo as responsáveis pelo
trabalho doméstico, o que acarreta uma dupla jornada para as mesmas. Para a CUT é necessário que
o conceito de trabalho seja ampliado, sendo incorporado o trabalho reprodutivo e o trabalho
doméstico.
Para alterar essa situação, a CUT apresenta que a organização das mulheres na central deve
incorporar as diferentes categorias profissionais e a diversidade existente das instâncias e entidades
filiadas à central. Dessa forma, a organização das mulheres deve contribuir para intervenção na
realidade, apontando estratégias para serem incorporadas nas políticas sindicais e nas políticas
públicas.
Neste oitavo congresso foi eleita uma nova diretoria para a central, que a dirigiria entre 2003
e 2006. A executiva nacional foi composta por 13 membros, sendo oito homens e cinco mulheres,
tendo 38,46% da direção composta por mulheres, porcentagem um pouco acima da cota de 30%
estabelecida como política afirmativa pela central. Porém, o que a própria CUT discute na sua
resolução ocorreu nesta direção, os três cargos mais importantes: presidente, tesoureiro e secretário
geral são ocupados apenar por homens. Ou seja, percebemos que a cota de 30% estabelecida pela
central para as mulheres foi cumprida nesta eleição, porém, os cargos com maior destaque não foram
ocupados por mulheres, estas foram alocadas em cargos de menor destaque na diretoria, como a
secretaria de comunicação, secretaria de política sindical, dentre outras.
A segunda resolução analisada diz respeito ao nono congresso, realizado em 2006, na cidade
de São Paulo. Nesta resolução, a CUT também apresenta que apoia a reeleição do Presidente Lula
por acreditar que o seu primeiro mandato foi marcado por avanços, como a criação de
aproximadamente 4 milhões de empregos com carteira assinada; o estatuto do idoso; o combate ao
trabalho escravo; aumento real de 20% do salário mínimo, entre outros. Ademais, aponta-se que foram
abertos canais de diálogos com o governo que proporcionou uma melhora nas relações do Estado
com o movimento sindical.
Ao buscarmos uma discussão sobre a mulher nesta resolução, percebemos que a mesma não
deu muita atenção à questão. Apenas uma página é dedicada ao tema, e basicamente reafirma o que
foi dito no último congresso, como o compromisso em aumentar a participação das mulheres no
interior da central e dos seus sindicatos filiados. A resolução afirma que a Política Nacional de Gênero
da CUT será baseada pela articulação dos seguintes eixos:
As resoluções dos congressos da CUT nos permitiram analisar as discussões e planos de lutas
sobre as demandas femininas discutidas pela central, com foco na participação dessas nas direções da
entidade. Além disso, as resoluções apresentam a diretoria eleita para os três anos seguintes. As
tabelas 1 e 2 apresentam a participação das mulheres nos quatro congressos analisados e a
participação destas nas diretorias eleitas.
Tabela 2 – Participação nas diretorias da CUT para as gestões entre 2003 e 2015.
A tabela 2 apresenta uma maior participação dos homens nas diretorias, assim como estes são
maioria nos congressos. Nestes dados é importante analisar a aplicação da política de cotas paras as
mulheres criada pela central em 1992, estipulando que 30% dos cargos da diretoria deveriam ser
ocupados por mulheres. Nas últimas quatro gestões percebemos que apenas na gestão de 2003-2006
esta cota foi respeitada. A gestão de 2009-2012 apresenta a menor representação das mulheres no
período, com apenas 24%. Ou seja, a entidade não conseguiu tirar do papel as suas normas, as
mulheres ainda não estão ocupando nem o mínimo dos cargos que lhe são garantidos nas direções da
central.
É importante discutir também que, além da cota de participação nas direções, há que se
analisar quais os cargos que estão sendo ocupados pelas mulheres. Dentre todos os cargos de direção,
os que mais possuem poder de deliberação são os cargos de presidência, secretaria-geral e tesouraria.
Nos quatro últimos congressos analisados em que houve a formação da diretoria da CUT, não há
nenhuma mulher ocupando quaisquer um dos três cargos. Estas ocupam cargos como a Secretaria de
mulheres, Secretaria de comunicação, Secretaria de igualdade racial, entre outras.
Até o momento da nossa pesquisa, podemos perceber, através dos canais de comunicação e
de mobilização da CUT, a exemplo das resoluções dos congressos, percebemos que a central não
discute muito sobre a participação das mulheres em suas diretorias, não possui ações efetivas para
atraí-las para o movimento. As resoluções de congresso apenas apontam que essa é uma questão
importante para a central, mas analisamos que não há grande mobilização por parte desta para uma
ocupação mais efetiva das mulheres nos cargos de direção da central. Ou seja, ainda há um longo
caminho a ser percorrido pelas mulheres para alcançar a igualdade de participação nas direções da
central em relação aos homens.
Referências
CARVALHAL, Terezinha. A questão de gênero na perspectiva sindical. Revista Pegada. São Paulo,
v. 2, n° 1, 2001.
CASTRO, Mary. Gênero e poder no espaço sindical. Estudos feministas, Rio de Janeiro, v. 3, n. 1,
p.29-51, 1995.
COSTA, Sílvio. Central Única dos Trabalhadores. In: Tendências e Centrais Sindicais. São Paulo:
Anita Ltda, 1995.
SOUZA LOBO, Elisabeth. A classe operária tem dois sexos: trabalho, dominação e resistência.
São Paulo: Brasiliense, 1991