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CENTRO UNIVERSITÁRIO SÃO LUCAS

CURSO DE PSICOLOGIA

SANDOR FERENCZI E A CONFUSÃO DE LÍNGUAS ENTRE ADULTOS E

CRIANÇAS

Bianca de Pinho Rocha

Porto Velho 2023


Em primeiro plano, Sandor Ferenczi foi um psicanalista húngaro do início do

século XX, nascido em 1873 e faleceu em 1933, sendo filho de migrantes que se

estabeleceram na Hungria, onde o seu pai faleceu em contexto de guerras. Ferenczi torna-

se um psicanalista contemporâneo a Sigmund Freud que realizou contribuições

significativas para a psicanálise, atendendo pessoas em situações de rua, prostitutas e entre

outros sujeitos que estavam a margem da sociedade.

Uma dessas contribuições aborda acerca da confusão de línguas entre adultos e

crianças e que essa confusão pode, de alguma forma, acarretar certos traumas para as

crianças que a sofrem. Segundo Ferenczi (1928), “o que escapa precisamente aos pais é o

que para as crianças é o óbvio; e o que as crianças não percebem é claro como o dia para os

pais” (p.8). A afirmativa acima trata a respeito da confusão de línguas, que pode ser

definida como uma diferenciação entre o que é dito (comunicação verbal) e o que é

expressado (comunicação não verbal) entre os adultos e as crianças.

Outrossim, os adultos possuem uma melhor compreensão da linguagem da paixão

que se refere às expressões emocionais não verbais e que possui um entendimento sobre

sexualidade e abusos, ou seja, a linguagem da sedução. Já as crianças compreendem a

linguagem da ternura ou a língua do lúdico, vista como uma forma de comunicação mais

afetiva e acolhedora, ou seja, é o brincar da criança. É importante estar ciente que a

“ternura” não deve ser entendida como a ausência da sexualidade, mas sim como algo que

ocorre anteriormente ao desenvolvimento sexual. De acordo com Ferenczi (1930), “o que a

criança deseja, de fato, mesmo no que diz respeito às coisas sexuais, é somente o jogo e a

ternura, e não a manifestação violenta da paixão” (p. 64). Com base nisso, nota-se um

imbróglio na comunicação entre adultos e crianças que, por diversas vezes, não se

comunicam na mesma língua, tornando-se estrangeiros entre si.


De acordo com Ferenczi (1933), “os adultos confundem as brincadeiras infantis

com os desejos de uma pessoa que atingiu a maturidade sexual, e deixam-se arrastar para a

prática de atos sexuais sem pensar nas consequências.”. Ou seja, a confusão encontra-se na

linguagem dos adultos que sexualizam certos comportamentos da criança. Para Ferenczi

(1985), “as crianças nada mais pedem do que serem tratadas delicadamente, com ternura e

doçura”. A partir disso, as crianças expressam curiosidades sobre o próprio corpo e o corpo

dos adultos, elas irão abraçar, beijar, tocar as partes intimas e entre outros

comportamentos. Com isso, os adultos devem emitir um papel de civilizador na vida da

criança, impondo limites, explicando o certo e o errado para a criança e fazendo uma

contenção da sexualidade infantil.

Ademais, a confusão de línguas entre adultos e crianças pode, de certa forma,

acarretar eventos traumáticos para as crianças. Crianças que, inocentemente, emitem

comportamentos considerados inofensivos para os adultos e são punidas severamente por

eles, trazendo sentimento de culpa e processos traumáticos a partir da linguagem, que pode

perdurar-se pelo resto de sua vida. Como citado anteriormente, o problema não está na

linguagem da ternura, mas sim na linguagem da paixão, a língua do adulto abusador. Este

adulto abusador confunde a brincadeira da criança como uma sedução efetiva, como se a

criança tivesse um entendimento pleno sobre os próprios desejos. Este comportamento e

pensamento do adulto abusador fazem com que as crianças se sintam frágeis, além de

ficarem fisicamente e moralmente sem defesas.

Acerca dos eventos traumáticos, Ferenczi destaca que o trauma patogênico ocorre

em dois momentos: o primeiro momento é o choque e o segundo momento é o desmentido.

No primeiro momento do choque, ocorrem situações de grande comoção psíquica que age

de forma esmagadora sobre o sujeito que não estava psicologicamente preparado para tal

rompimento. Antes de explicar o segundo momento, o desmentido, é preciso compreender


que os traumas podem ser considerados estruturantes e/ou patogênico. O trauma

estruturante em crianças acontece quando o choque vivido é acolhido com tato pelos pais,

onde as crianças conseguem superar tal trauma com o apoio e suporte da família. Já o

trauma patogênico é sempre referido ao desmentido, ou seja, quando os adultos não

auxiliam as crianças a superarem o trauma vivenciado com tato. Já no segundo momento

de evento traumático proposto por Ferenczi é chamado de desmentido, que significa a

desresponsabilização dos adultos nas suas atitudes que geram violência e trauma para as

crianças.

Além disso, Ferenczi (1933), afirma que “a mudança significativa provocada no

espirito da criança pela identificação ansiosa com o parceiro adulto, é a introjeção do

sentimento de culpa do adulto.” Com base nisso, quando o adulto agressor se sente culpado

ou envergonhado de suas atitudes e tem consciência que suas atitudes podem ter

consequências negativas e, a partir disso, exige que a criança mantenha sigilo e não

exponha a situação à público pode piorar os processos traumáticos para a criança

violentada. Logo, além da criança se identificar e submeter-se a agressão, a criança

também se identifica com a culpa e começa a se culpar pelo o que aconteceu.

Infere-se, portanto, que a importância de Sandor Ferenczi para a psicologia é

inegável, pois seus estudos e trabalhos trouxe para uma nova maneira de compreender os

pensamentos humanos na prática terapêutica. É importante relembrar que Ferenczi

desafiou certos pensamentos propostos da psicanálise de sua época e, por muito tempo, a

sociedade era impedida de ter acesso a forma como Ferenczi entendia o mundo e a

psicanálise. Por fim, Ferenczi contribuiu para a expansão da psicologia, promovendo uma

compreensão dos processos mentais e das interações humanas.

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