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Após a neoliberalização?
N a esteira da crise econômica global de 2008-2009,
muitos comentaristas proeminentes têm defendido
que as ideologias e práticas do capitalismo de livre mercado, ou
“neoliberalismo”, estão desacreditadas, e que uma nova era de
reforma regulatória, baseada no intervencionismo agressivo do
Estado para restringir as forças do mercado, está se iniciando
(ALTVATER, 2009; STIGLITZ, 2008; WALLERSTEIN, 2008).
Entretanto, tais avaliações geralmente se baseiam em suposições
insustentavelmente monolíticas quanto ao sistema regulatório
que herdamos e que agora está supostamente em crise, levando a
interpretar a crise atual como um colapso sistêmico, análogo ao
desmantelamento do Muro de Berlim duas décadas atrás (PECK
et al., 2009). De maneira geral, qualquer que seja a interpretação
das tendências de crise contemporâneas, os principais relatos do
colapso financeiro de 2008-2009 dependem de suposições defi-
nidas, mas frequentemente não investigadas, sobre as formações
(ou a formação) regulatórias que existiam antes dessa última
série de reestruturações induzidas pela crise. Por essa razão, este
é um momento oportuno para se refletir sobre os processos de
reestruturação regulatória que vêm se desenvolvendo desde o
colapso do fordismo do Atlântico Norte, mais de 40 anos atrás.
Acreditamos que tal reflexão é essencial para as atuais tentativas
de decifrar padrões emergentes de formação de crise no capita-
lismo pós-2008. Além disso, tem implicações consideráveis para
a compreensão das paisagens urbanas contemporâneas, que vêm
sendo profundamente remodeladas através das transformações e
contestações regulatórias contemporâneas.
Debates sobre transformações regulatórias animam os
campos da economia política heterodoxa e dos estudos críticos
161
Após a neoliberalização?
urbanos e regionais há várias décadas, além de desempenhar
um papel importante nas literaturas sobre, entre outros tópicos,
pós-fordismo, globalização, triadização, governança multinível,
financialização, redimensionamento do Estado, o novo regiona-
lismo, empreendedorismo urbano e, mais recentemente, neoli-
beralismo/neoliberalização. Para os propósitos deste artigo,
baseamo-nos em discussões sobre a última questão – neolibe-
ralização – para conceituar processos de reestruturação regula-
tória no capitalismo pós-década de 1970 e pós-2008. Conforme
argumentamos em outra obra, o uso generalizado dos conceitos
de neoliberalismo e neoliberalização tem sido acompanhado de
imprecisão, confusão e controvérsia – com efeito, tais conceitos
se tornaram ‘rascal concepts’ (conceitos malandros) (BRENNER
et al., 2010). A despeito desses perigos, argumentamos que
um conceito de neoliberalização rigorosamente definido pode
iluminar as transformações regulatórias de nossa época.
Inicialmente, apresentamos uma série de explicações para
as definições que sustentam nossa conceituação de neoliberali-
zação. Distinguimos suas três principais dimensões – (i) experi-
mentação regulatória; (ii) transferência interjurisdicional de polí-
ticas; e (iii) formação de regimes de normas transnacionais. Tais
distinções formam a base para uma periodização esquemática de
como os processos de neoliberalização se estenderam e se arrai-
garam na economia mundial. Essas considerações geram uma
perspectiva analítica a partir da qual se podem explorar vários
cenários para formas contraneoliberalizadoras de reestruturação
regulatória em configurações contemporâneas e futuras do capi-
talismo. Para os propósitos dessa discussão, não oferecemos uma
descrição detalhada da crise econômica global contemporânea,
nem de suas implicações de médio ou longo prazo. Ao invés
disso, esta análise destina-se a servir a um propósito metateó-
rico – a saber, estimular debates sobre qual deve ser o arcabouço
analítico para se abordar tais questões.
Embora a nossa análise não considere os efeitos dessas
transformações regulatórias sobre paisagens urbanas específicas,
nossa abordagem possui implicações para os atuais esforços para
162
Após a neoliberalização?
decifrá-las. Conforme argumentamos abaixo, os processos de
neoliberalização assumem formas específicas de acordo com o
local dentro de cidades e cidades-regiões, mas isso tem ocorrido
cada vez mais em um contexto georregulatório definido por
tendências sistêmicas voltadas para reformas institucionais para
disciplinar o mercado, pela formação de teias transnacionais
de transferência de políticas orientadas para o mercado, por
padrões cada vez mais profundos de formação de crises e por
ciclos acelerados de experimentação de políticas, sendo que essa
experimentação é impulsionada pela crise. Contra esse pano
de fundo, a análise macroespacial apresentada aqui pode servir
como um ponto de referência útil não apenas para análises loca-
lizadas e sensíveis ao contexto, mas também para estratégias
políticas contraneoliberalizadoras emergentes, tanto em escala
urbana como supraurbana.
Neoliberalismo em questão
Desde o final da década de 1980, os debates sobre o neoli-
beralismo têm sido mencionados de maneira proeminente na
economia política heterodoxa. Inspirados por várias vertentes
do pensamento neomarxista, neogramsciano, neopolanyiano,
neoinstitucionalista e pós-estruturalista, esses conceitos têm sido
centrais para discussões sobre a crise da ordem capitalista no
pós-guerra – denominada fordismo do Atlântico Norte, libera-
lismo incrustado (embedded liberalism), ou desenvolvimentismo
nacional – e sobre os padrões pós-1970 de reorganização institu-
cional e espacial. Quaisquer que sejam as diferenças entre eles,
contudo, todos os usos prevalentes da noção de neoliberalismo
envolvem referências à ampliação tendencial da competição
baseada no mercado e de processos de comodificação em direção
a domínios previamente isolados de vida político-econômica. Os
usos erudito e prático-político do termo “neoliberalismo” pare-
ceriam, assim, fornecer uma base inicial comprovativa da propo-
sição de que processos de mercantilização e comodificação de
fato se ampliaram, se aceleraram e se intensificaram em décadas
163
Após a neoliberalização?
recentes, mais ou menos após a recessão global que ocorreu em
meados da década de 1970.
Não podemos proceder, aqui, a uma revisão das diversas
posições epistemológicas, metodológicas e políticas que têm sido
articuladas através dessas discussões sobre a reestruturação regu-
latória pós-1970 (mas cf. CLARKE, 2008; PECK, 2004; SAAD-
FILHO; JOHNSTON, 2005; assim como BRENNER et al., 2010).
Ao invés disso, passamos diretamente para um panorama de nossa
própria orientação teórica, que será, então, elaborada mais deta-
lhadamente em relação ao problema da periodização, com refe-
rência aos desafios de se decifrar os desenvolvimentos contempo-
râneos (para declarações anteriores, cf. BRENNER; THEODORE,
2002; PECK; THEODORE, 2007; PECK; TICKELL, 2002).
No nível mais geral, conceituamos neoliberalização como
uma dentre várias tendências de mudança regulatória que foram
desencadeadas no sistema capitalista global desde a década de
1970: prioriza respostas baseadas no mercado, orientadas para
o mercado ou disciplinadas pelo mercado para problemas regu-
latórios; esforça-se para intensificar a comodificação em todos
os domínios da vida social; e, frequentemente, mobiliza instru-
mentos financeiros especulativos para abrir novas arenas para
a realização capitalista de lucros. Em nosso trabalho anterior,
levantamos questões críticas sobre explicações estruturalistas
que veem a neoliberalização como um bloco hegemônico abran-
gente, e também os argumentos pós-estruturalistas que enfa-
tizam a particularidade contextual radical de práticas regulató-
rias e formas de subjetivação neoliberalizadoras. Em contraste,
consideramos a neoliberalização uma forma diversificada de
reestruturação regulatória: produz diferenciação geoinstitu-
cional em lugares, territórios e escalas; mas faz isso sistemica-
mente, como um aspecto penetrante, endêmico, de sua lógica
operacional básica. Concomitantemente, enfatizamos a profunda
dependência da trajetória dos processos de neoliberalização: na
medida em que necessariamente colidem com diversas paisagens
regulatórias herdadas de formações e contestações regulatórias
anteriores (incluindo o fordismo, o nacional-desenvolvimentismo
164
Após a neoliberalização?
e o socialismo de Estado), suas formas de articulação e institucio-
nalização são bastante heterogêneas. Assim, ao invés de esperar
alguma forma pura, prototípica, de neoliberalização prevalente
em contextos divergentes, consideramos a diversificação – dife-
renciação sistêmica geoinstitucional – como um de seus aspectos
essenciais e duradouros.
De acordo com Mittelman (2000, p. 4), a globalização repre-
senta “não um fenômeno único, unificado, mas uma síndrome
de processos e atividades”. Sugerimos que é possível conceituar
a neoliberalização de maneira análoga: ela também é mais bem
entendida como uma síndrome do que como uma entidade,
essência ou totalidade singular. Desse ponto de vista, uma tarefa-
chave para qualquer analista da neoliberalização é especificar
o “padrão de atividades relacionadas [...] dentro da economia
política global” (MITTELMAN, 2000, p. 4) que constituem e
reproduzem essa síndrome em lugares, locais, territórios e escalas
que são, de outro modo, diversos.
Definindo a neoliberalização
Como uma primeira abordagem a esta tarefa, propomos a
seguinte formulação: a neoliberalização representa uma tendência
historicamente específica, desenvolvida de maneira desigual,
híbrida e padronizada de reestruturação regulatória disciplinada
pelo mercado. Cada elemento dessa afirmação necessita ser espe-
cificado de maneira mais precisa.
l Reestruturação regulatória disciplinada pelo mercado. Como
Polanyi (1944, pp. 140-141) muito ironicamente observou,
“a estrada para um mercado livre foi aberta e mantida
aberta por um enorme aumento no intervencionismo
contínuo, centralmente organizado e controlado”. Analo-
gamente, acreditamos que os processos de mercantilização
e comodificação no capitalismo (esforços para ampliar a
“disciplina de mercado”) são sempre mediados através de
instituições do Estado em uma variedade de arenas polí-
165
Após a neoliberalização?
ticas (por exemplo, trabalho, dinheiro, capital, proteção
social, educação, moradia, terra, meio ambiente e assim
por diante). Por essa razão, concebemos a neoliberalização
como uma forma particular de reorganização regulatória:
envolve a recalibração de modos de governança institucio-
nalizados, que obrigam coletivamente e, de modo mais
geral, das relações Estado-economia, para impor, ampliar
ou consolidar formas mercantilizadas e comodificadas de
vida social. Como tal, a neoliberalização pode ser anali-
ticamente oposta aos processos regulatórios que contra-
riam a mercantilização e a comodificação, ou àqueles que
envolvem agendas diferentes em termos qualitativos –
por exemplo, formas normativas de alocação coletiva de
recursos e coordenação socioinstitucional.
l Historicamente específica. As raízes ideológicas e doutrinais
da neoliberalização podem ser encontradas no projeto
liberal clássico de construir mercados “autorregulados”
durante a belle époque do imperialismo britânico do final
do século XIX e início do século XX (POLANYI, 1944),
assim como nas intervenções subsequentes realizadas
no pós-guerra por economistas do livre mercado que
eram renegados naquela época, como Hayek e Friedman
(PECK, 2010a). O processo de neoliberalização começou
a se desenvolver no início dos anos 1970, após uma fase
relativamente longue durée de liberalismo incrustado,
na qual processos de mercantilização e comodificação
haviam sido tendencialmente reprimidos através de vários
arranjos regulatórios globais e nacionais – por exemplo,
o sistema Bretton Woods e vários tipos de intervenção
estatal nacional-desenvolvimentista e assistencialista.
Assim entendidas, formas especificamente neoliberali-
zadoras de reestruturação regulatória começaram a se
desenvolver juntamente com o que alguns chamaram de a
“segunda grande transformação”, o processo de reestru-
turação capitalista mundial que vem acontecendo desde
o colapso da ordem geoeconômica pós-Segunda Guerra
166
Após a neoliberalização?
Mundial (McMICHAEL, 1996). Como resultado daquela
crise, a neoliberalização surgiu como um processo domi-
nante, senão hegemônico, de reestruturação regulatória
na economia mundial. Não seria inteiramente inade-
quado referir-se a esse processo de mudança regulatória
orientada para o mercado simplesmente como “mercanti-
lização” ou “comodificação”, uma vez que, como já suge-
rimos, uma de suas características é o projeto de ampliar
as relações sociais baseadas no mercado e comodificadas.
Contudo, optamos pelo termo neoliberalização para
sublinhar as homologias entre padrões pós-1970 de rees-
truturação regulatória e o projeto anterior de liberali-
zação clássica que estava associado ao imperialismo britâ-
nico do século XIX e início do XX. Entretanto, paralelos
com aquela época não devem ser empregados exagerada-
mente. O processo de neoliberalização não representa um
“retorno” a um arcabouço anterior de desenvolvimento
capitalista, ou uma reinvenção contemporânea de formas
institucionais, arranjos regulatórios ou compromissos
políticos liberais clássicos (SILVER; ARRIGHI, 2003).
A neoliberalização surgiu sob condições geopolíticas e
geoeconômicas qualitativamente diferentes, em resposta
a fracassos regulatórios e lutas políticas historicamente
específicos, e em paisagens institucionais arraigadas.
l Desenvolvida de maneira desigual. A neoliberalização é
geralmente associada a certos experimentos regulatórios
paradigmáticos – por exemplo, privatização, desregula-
mentação, liberalização do comércio, financeirização,
ajuste estrutural, reforma da previdência e tratamento de
choque monetarista. Porém, por mais que esses projetos
de reorganização regulatória tenham se tornado proto-
típicos, sua proliferação no capitalismo pós-1970 não
pode ser compreendida através de simples modelos de
“difusão”. Pois, ao invés de envolver a construção de
um Estado de neoliberalismo totalmente formado, que
funcione coerentemente, “semelhante a um regime”, e
167
Após a neoliberalização?
que tenha se expandido progressivamente para abranger
o espaço regulatório global, o processo de neoliberali-
zação tem sido articulado de maneira desigual em lugares,
territórios e escalas. O desenvolvimento desigual da
neoliberalização resulta, por um lado, da contínua colisão
entre projetos de neoliberalização contextualmente espe-
cíficos e em constante evolução, e de arranjos político-ins-
titucionais herdados, em escala global, nacional ou local.
Ao mesmo tempo, através dessa colisão, os processos de
neoliberalização retrabalham formas herdadas de orga-
nização regulatória e espacial, incluindo aquelas das
próprias instituições estatais, para produzir novas formas
de diferenciação geoinstitucional. Consequentemente, a
cada estágio de sua evolução, o “mapa em movimento”
dos processos de neoliberalização (HARVEY, 2005, p. 88)
tem sido diversificado e continuamente rediferenciado
através de uma rápida sucessão de projetos e contrapro-
jetos regulatórios, neoliberalizadores ou não. O desen-
volvimento desigual da neoliberalização não é, portanto,
uma condição temporária, um produto de sua institu-
cionalização “incompleta”, mas uma de suas caracterís-
ticas constitutivas. A diferenciação geoinstitucional é, ao
mesmo tempo, um meio e um produto dos processos de
neoliberalização.
l Tendência. Embora os processos de neoliberalização
retrabalhem sistematicamente as paisagens regulatórias
herdadas, não devem ser vistos como representando uma
totalidade que abarque todos os aspectos da reestrutu-
ração regulatória em qualquer contexto, local ou escala.
Ao invés disso, a neoliberalização é um dentre vários
processos concorrentes de reestruturação regulatória que
têm sido articulados no capitalismo pós-1970 (JESSOP,
2002; STREECK; THELEN, 2005) — embora seja um
processo que venha tendo consequências político-institu-
cionais particularmente duradouras e multiescalares.
168
Após a neoliberalização?
l Híbrida. A neoliberalização nunca se manifesta em uma
forma pura, como um todo regulatório abrangente. As
tendências de neoliberalização só podem ser articuladas
em modalidades incompletas, híbridas, que podem se
cristalizar em certas formações regulatórias, mas que
são, não obstante, contínua e ecleticamente retrabalhadas
de maneiras contextualmente específicas. Consequente-
mente, as evidências empíricas que ressaltam o caráter
paralisado, incompleto, descontínuo ou diferenciado de
projetos para impor as regras do mercado, ou sua coexis-
tência ao lado de projetos potencialmente antagonísticos
(por exemplo, a democracia social), não fornecem base
suficiente para se questionar suas dimensões neoliberali-
zadas e neoliberalizadoras.
l Padronizada. Os processos de neoliberalização inicial-
mente ganharam impulso e momentum em resposta a uma
gama de tendências de crise herdadas da ordem políti-
co-econômica do pós-guerra. Durante a década de 1970,
os processos de neoliberalização retrabalharam paisa-
gens keynesianas nacionais-desenvolvimentistas através
de uma série de colisões entre arcabouços institucionais
herdados e projetos de reorganização regulatória recen-
temente mobilizados. Tais colisões, e suas consequências
político-institucionais duradouras, embora imprevisíveis,
há muito tempo animam o desenvolvimento desigual
dos processos de neoliberalização. No entanto, é crucial
perceber que, embora os processos de neoliberalização
tenham sido articulados de maneira desigual, não envol-
veram um “acúmulo” fortuito de experimentos regula-
tórios desconectados, contidos em contextos. Ao invés
disso, os processos de neoliberalização geraram efeitos
significativos, marcadamente padronizados e cumulativos
sobre a configuração georregulatória do capitalismo.
Desse ponto de vista, a trajetória dos processos de neoli-
beralização desde a década de 1970 pode ser mais bem
entendida como um processo de articulação relacional
169
Após a neoliberalização?
semelhante a uma onda, no qual cada série sucessiva de
projetos neoliberalizadores transforma as configurações
institucionais e ideológicas nas quais séries subsequentes
de reestruturação regulatória se desenvolvem.
Quatro implicações metodológicas
Essa conceituação de neoliberalização possui várias impli-
cações metodológicas que contrastam fortemente com certas
pressuposições e orientações interpretativas que têm permeado
discussões acadêmicas recentes (cf. BRENNER et al., 2010):
Ao contrário de acadêmicos que igualam a neoliberalização
a uma homogeneização mundial de sistemas regulatórios, preten-
demos que nossa conceituação ilumine as maneiras pelas quais
as formas disciplinadas pelo mercado de reestruturação regu-
latória na verdade intensificaram a diferença geoinstitucional.
Segue-se a isso que nem mesmo as expressões político-institu-
cionais de neoliberalização mais hipertrofiadas – como aquelas
exploradas na análise de Naomi Klein (2007) sobre a “doutrina
de choque” neoliberal no Chile pós-golpe e no Iraque ocupado
– deveriam ser igualadas a expectativas de simples convergência
em uma ordem de mercado unificada e singular, à maneira da
formulação jornalística de Thomas Friedman (2005) a respeito
da globalização da terra plana.
A conceituação de neoliberalização aqui proposta fornece
uma base a partir da qual é possível compreender as trajetórias
evolucionárias de médio e longo prazo dos próprios projetos
regulatórios disciplinados pelo mercado, com referência parti-
cular aos impactos cumulativos erráticos e frequentemente
contraditórios que produzem sobre as paisagens políticas, insti-
tucionais e discursivas que aspiram reorganizar. Os processos de
neoliberalização derivam muito de seu ímpeto e de sua lógica
precisamente das paisagens regulatórias desiguais que comba-
tivamente encontram, e subsequentemente refazem, de uma
maneira dependente da trajetória, embora experimental. Isso
significa, por sua vez, que a diferenciação espacial e os caminhos
170
Após a neoliberalização?
evolucionários dos processos de neoliberalização não podem ser
compreendidos como uma simples difusão territorial na qual um
modelo pré-fornecido é instalado, ampliado e/ou replicado em
uma área cada vez maior.
Dada a nossa ênfase na dependência da trajetória dos
processos de neoliberalização, nossa abordagem sublinha a neces-
sidade de investigações de padrões de experimentação regula-
tória que sejam sensíveis ao contexto. Contudo, nossa concei-
tuação pode ser distinguida das abordagens puramente “de baixo
para cima”, indutivas ou conscientemente “rasas” a estudos de
neoliberalização que são, às vezes, associados a modos pós-es-
truturalistas de análise. Conforme entendido aqui, os espaços
de mudança regulatória – unidades jurisdicionais que abarcam
bairros, cidades, regiões, Estados nacionais e zonas multinacio-
nais – são relacionalmente interconectados dentro de um sistema
de governança transnacional, senão global. Os processos de
neoliberalização assumem, necessariamente, formas contextual-
mente específicas e dependentes da trajetória, mas raramente se
originam de um único local; suas consequências político-institu-
cionais geralmente transcendem qualquer contexto, e há seme-
lhanças de família significativas entre eles.
Finalmente, concebemos os processos de neoliberali-
zação como sendo intrinsecamente contraditórios – isto é,
envolvem estratégias regulatórias que frequentemente minam
as próprias condições socioinstitucionais e político-econô-
micas necessárias para sua implementação bem-sucedida
(GILL, 2003; HARVEY, 1995). Consequentemente, a falha das
políticas não é apenas central para o modus operandi explora-
tório dos processos de neoliberalização; fornece um ímpeto
adicional e poderoso para sua proliferação acelerada e rein-
venção contínua em locais e escalas. Assim, é crucial notar que
a falha endêmica das políticas na verdade tende a estimular
outras séries de reformas dentro de parâmetros políticos e
institucionais amplamente neoliberalizados: desencadeia a
reinvenção contínua dos repertórios de políticas neoliberais,
ao invés de seu abandono (PECK, 2010a).
171
Após a neoliberalização?
Em direção a um “mapa em movimento” da neoliberalização
Harvey (2005, p. 87) ressaltou as dificuldades de se cons-
truir um “mapa em movimento do progresso da neoliberalização
no cenário mundial desde 1970”. O autor enfatiza especialmente
o caráter parcial e desigual dos realinhamentos das políticas
neoliberais nos Estados nacionais individuais; a frequência de
“inversões lentas” e mobilizações políticas contrárias em resposta
a investidas neoliberais iniciais, mais radicais e induzidas pela
crise; e as vicissitudes das lutas pelo poder político que se desen-
rolam juntamente com mudanças de políticas neoliberalizadoras
e transformações institucionais, além das tendências de crise
associadas. O desafio, propõe Harvey (2005, p. 87), é “entender
como as transformações locais se relacionam a tendências mais
amplas”, localizando as “correntes turbulentas do desenvol-
vimento geográfico desigual” que são produzidas através dos
processos de neoliberalização.
Como enfrentar esse desafio? Como seria um mapa em movi-
mento dos processos de neoliberalização que ocorreram durante
os últimos 30 anos? Com algumas exceções dignas de nota, as
literaturas existentes sobre neoliberalização têm produzido não
mais do que respostas parciais a esse desafio, principalmente
devido a suas conceituações inadequadas de desenvolvimento
regulatório desigual (BRENNER et al., 2010). Embora tenham
identificado as características-chave das paisagens perpetua-
mente mutantes da mudança regulatória pós-1970 disciplinada
pelo mercado, a maioria das explicações não se preocupa muito
em relacionar esses elementos uns aos outros, nem às “correntes
mais amplas de desenvolvimento geográfico desigual” às quais
Harvey se refere.
Por exemplo, a maior parte da literatura sobre neolibera-
lização ainda focaliza os realinhamentos de políticas em nível
nacional. Tais relatos frequentemente aludem a contextos
geoeconômicos e geopolíticos, mas tendem a pressupor a
suposição metodologicamente nacionalista de que os Estados
nacionais representam a unidade natural ou primária da trans-
formação regulatória (para críticas, cf. BRENNER, 2004; PECK;
172
Após a neoliberalização?
THEODORE, 2007). Tais tendências metodologicamente nacio-
nalistas têm sido neutralizadas com sucesso quando a neolibera-
lização é tratada como um bloco globalmente hegemônico, assim
como em trabalhos mais recentes sobre a neoliberalização da
governança urbana e regional. No entanto, por mais valiosos que
sejam tais engajamentos, nenhuma vertente da discussão abordou
plenamente o caráter constitutivamente desigual dos processos
de neoliberalização, conforme delineado acima. Embora descri-
ções globalistas tenham enfatizado produtivamente a capacidade
de atores e instituições hegemônicos de impor parâmetros disci-
plinados pelo mercado sobre instituições subordinadas e confi-
gurações regulatórias, relatos sintonizados localmente e regional-
mente têm focado, em geral, as transformações regulatórias que
parecem ser circunscritas a territórios subnacionais particulares
ou nichos escalares. O conceito de neoliberalização propiciou
que pesquisadores em ambas as vertentes dessa discussão vincu-
lassem suas análises a metanarrativas mais amplas sobre formas
pós-1970 de reestruturação e reorganização regulatória indu-
zidas pela crise. Contudo, esse conceito é frequentemente empre-
gado imprecisamente ou sem a devida reflexão, como se fosse um
explanans autoevidente, ao passo que os próprios processos aos
quais se refere requerem interrogação e explanação continuadas.
O trabalho recente de Simmons, Dobbin e Garrett (2008)
aborda muito mais explicitamente a questão de como os processos
de neoliberalização evoluíram ao longo do tempo e do espaço.
Sua análise examina os diferentes impactos de quatro mecanismos
causais distintos – coerção, competição, aprendizado e emulação
– ao explicarem o que os autores caracterizam como a “difusão”
do liberalismo econômico no final do século XX (SIMMONS et
al., 2008, p. 2, passim). Entretanto, a preocupação dos autores
em adjudicar entre esses mecanismos causais é acompanhada
de uma teorização pouco desenvolvida do próprio processo de
neoliberalização, que é retratado como uma “disseminação” de
protótipos de políticas orientadas para o mercado em territórios
nacionais, dentro de um sistema internacional interdependente
(para uma crítica bem-argumentada, cf. PECK, 2010b). Além das
173
Após a neoliberalização?
tendências metodologicamente nacionalistas dessa abordagem,
a metáfora da difusão contém sérias limitações como base para
se compreender as geografias desiguais dos processos de neoli-
beralização durante os últimos 40 anos. A neoliberalização não
foi simplesmente inventada em um local (nacional) e depois
projetada – por coerção, competição, aprendizado, imitação
ou qualquer outro mecanismo – em círculos progressivamente
maiores de influência territorial. Ao invés disso, “assemelha-se
mais a um regime multipolar de (re)mobilização contínua, que é
animado e reanimado tanto pelas falhas das ondas anteriores de
intervenção e regulação inadequadas, como por visões estraté-
gicas inovadoras” (PECK, 2010b, p. 29).
Assim compreendidas, as geografias da neoliberalização não
emanam para fora a partir de um ponto de origem para “preen-
cher” outras zonas de regulação geograficamente dispersas. Ao
invés disso, como enfatizamos em nosso esboço, estamos lidando
com um processo multicêntrico e dependente da trajetória, cuja
dinâmica evolucionária e consequências político-institucionais
transformam continuamente as condições globais, nacionais e
locais sob as quais as estratégias subsequentes de reestruturação
regulatória emergem e se desenvolvem em todas as escalas espa-
ciais. Também é crucial perceber que os processos de neoliberali-
zação são espacialmente desiguais, temporalmente descontínuos
e permeados por tendências experimentais, híbridas e frequen-
temente autoenfraquecedoras. Acreditamos que tais considera-
ções devem estar no centro de qualquer esforço para se construir
o “mapa em movimento” da neoliberalização visualizado por
Harvey (2005)1.
1
As análises empíricas apresentadas por Simmons, Dobbin e Garret (2008) são, na
verdade, muito mais complexas institucionalmente e matizadas geograficamente do que
seu próprio uso da metáfora de “difusão” dá a entender. É interessante notar que, em suas
discussões mais concretas sobre cada um dos quatro mecanismos de difusão, os autores
sinalizam uma conceituação alternativa da neoliberalização que enfatiza a reorganização
regulatória multinível e multicêntrica, a heterogeneidade institucional, a contestação
de políticas e a dependência da trajetória. Dessa forma, seu relato na verdade rompe
substancialmente com a literatura difusionista ao redor da qual constroem sua narrativa.
174
Após a neoliberalização?
Três dimensões analíticas
Para abordar essas tarefas, distinguimos três dimensões
analíticas centrais dos processos de neoliberalização2:
l Experimentos regulatórios: projetos específicos de
locais, territórios e escalas, elaborados para impor,
intensificar ou reproduzir modalidades de governança
disciplinadas pelo mercado. Tais projetos são necessaria-
mente dependentes da trajetória, e geralmente envolvem
tanto um momento destrutivo (esforços para reverter
arranjos regulatórios não mercado, antimercado, ou que
restringem o mercado) como um momento criativo (estra-
tégias para promover uma nova infraestrutura político
-institucional para formas regulatórias mercantilizadas)
(BRENNER; THEODORE, 2002; PECK; TICKELL,
2002). Esse aspecto da neoliberalização tem sido investi-
gado de forma abrangente pela vasta literatura baseada
em estudos de caso sobre exemplos nacionais, regionais e
locais da forma regulatória neoliberal.
l Sistemas de transferência interjurisdicional de políticas:
mecanismos institucionais e redes de compartilhamento
de conhecimentos através dos quais protótipos de políticas
neoliberais circulam por locais, territórios e escalas, geral-
mente transnacionalmente, para serem reempregados em
outro local. Ao estabelecer certos tipos de estratégias regu-
latórias como “prototípicas”, tais redes aumentam a legiti-
midade ideológica dos modelos de políticas neoliberais, ao
mesmo tempo em que ampliam sua disponibilidade como
“soluções” prontamente acessíveis para qualquer problema e
crise regulatórios contextualmente específicos. Contudo, até
mesmo as formas mais aparentemente “prototípicas” de polí-
2
Esse conjunto de distinções pode ser aplicável a outras formações de reestruturação
regulatória – e.g. ao “liberalismo incrustado” (RUGGIE, 1982) ou “constitucionalismo
progressivo” (GILL, 2000) no capitalismo fordista-keynesiano do pós-guerra, ou ao
liberalismo clássico do final do século XIX (SILVER; ARRIGHI, 2003). Para os nossos
propósitos neste artigo, contudo, são entendidas como dimensões da reestruturação
regulatória associadas à neoliberalização transnacional.
175
Após a neoliberalização?
ticas neoliberais são transformadas qualitativamente através
de sua circulação por essas redes. Embora pareçam estar
prontamente disponíveis para uma transferência suave em
uma rede circulatória que se move rapidamente e, portanto,
pareçam ser capazes de promover uma homogeneização do
espaço regulatório, tais mobilidades das políticas perma-
necem incrustadas em contextos político-institucionais que
modelam sua forma, conteúdo, recepção e evolução, geral-
mente levando a resultados imprevisíveis, não intencionais
e intensamente diversificados (PECK, 2010b). Assim, no
contexto dos processos de neoliberalização, a transferência
interjurisdicional de políticas é um mecanismo importante,
não apenas de consolidação espacial, mas também de dife-
renciação institucional. Uma das primeiras investigações
sobre as formas neoliberalizadoras da transferência de
políticas foi o estudo clássico de Tabb (1982) sobre as polí-
ticas de austeridade fiscal na cidade de Nova York durante
a década de 1970, que esboça paradigmaticamente como
uma resposta localmente específica a uma crise administra-
tiva foi transformada em um modelo de reforma mais geral,
subsequentemente “exportada” para outros municípios atin-
gidos pela crise nos EUA. O estudo de Peck (2001) esboça
uma narrativa formalmente análoga, mas transnacional,
com referência às geografias da transferência de políticas
rápidas de assistência ao trabalho em regiões e Estados
nacionais desde a década de 1980. Em escalas nacionais e
transnacionais, esse aspecto da neoliberalização também
foi investigado por Bockman e Eyal (2002) no contexto da
Europa Oriental, por Dezalay e Garth (2002) no contexto
latino-americano e, em um nível mais geral, pela literatura
sobre transferência de “políticas rápidas” (PECK, 2010B;
PECK; THEODORE 2001; 2010).
l Regimes de normas transnacionais: arranjos institucionais
em larga escala, arcabouços regulatórios, sistemas legais e
revezamentos de políticas que impõem as “regras do jogo”
em formas contextualmente específicas de experimentação
176
Após a neoliberalização?
de políticas e reorganização regulatória, enquadrando,
assim, as atividades de atores e instituições em parâmetros
político-institucionais específicos. Esse aspecto “parametri-
zante” da neoliberalização foi analisado por Gill (2003) em
sua descrição do novo constitucionalismo. Para Gill, o novo
constitucionalismo representa um projeto para institucio-
nalizar preceitos de políticas neoliberais em longo prazo,
e globalmente, através de vários dispositivos legais supra-
nacionais. Trabalha para obrigar os Estados nacionais e
todas as outras instituições políticas subordinadas a adotar
preceitos de políticas neoliberalizadas em esferas regula-
tórias importantes (por exemplo, comércio, investimento
de capitais, trabalho, direitos de propriedade). Trabalhos
recentes de Holman (2004) e Harmes (2006), juntamente
com o estudo de Peet et al. (2003) sobre a Organização
Mundial do Comércio (OMC), o Fundo Monetário Inter-
nacional (FMI) e o Banco Mundial, também ressaltaram o
papel dos arranjos de governança multiníveis na construção,
imposição e reprodução de arranjos regulatórios neolibera-
lizados e disciplinados pelo mercado em arenas nacionais
e subnacionais. Tais regimes de normas multiníveis servem
para promover “mecanismos institucionais circunscritivos
para separar o econômico e o político sob condições de
democracia” (HARMES, 2006, p. 732). Dessa forma, servem
para criar e manter parâmetros precisos e disciplinados pelo
mercado ao redor de formas subordinadas de contestação
de políticas e desenvolvimento institucional.
Paisagens inquietas de neoliberalização
Qualquer mapeamento dos processos de neoliberalização
derivado dessas distinções contrastaria fortemente com os modelos
difusionistas que prevalecem na literatura ortodoxa, os quais são
estreitamente alinhados à antecipação da convergência de políticas
e a várias formas de nacionalismo metodológico. Mas tal mapea-
mento não poderia, por si só, iluminar cada aspecto concreto das
177
Após a neoliberalização?
paisagens da neoliberalização, em diferentes contextos espaciais e
temporais. No entanto, em um nível mais abstrato, tal abordagem
pode servir como uma base analítica a partir da qual interpretar as
trajetórias criativamente destrutivas e o desenvolvimento desigual
dos processos de neoliberalização desde o início da década de
1970. E, como sugerimos abaixo, também tem implicações úteis
para se decifrar possíveis alternativas às formas regulatórias neoli-
beralizadas na esteira da crise econômica global de 2008-2009.
Aqui, esboçamos essas manobras interpretativas com pinceladas
relativamente grossas; sua elaboração e refinamento concretos
aguardam pesquisa e análise mais detalhadas.
O Diagrama 7.1 apresenta uma periodização estilizada dos
processos de neoliberalização que deriva das distinções introdu-
zidas acima. Nessa figura, as três dimensões da reestruturação
regulatória não mais servem como categorias ideais-típicas,
mas são agora mobilizadas para iluminar a evolução histórico-
geográfica dos próprios processos de neoliberalização. A linha
superior da figura apresenta cada uma das três distinções espe-
cificadas acima, entendidas como dimensões interligadas da
reestruturação regulatória sob condições de neoliberalização
em andamento. A primeira coluna especifica uma linha do
tempo genérica, baseada em décadas, de 1970 até a década de
2000. As células sombreadas denotam as dimensões da reestru-
turação regulatória nas quais, segundo a nossa leitura, a neoli-
beralização tem sido mais pronunciada desde sua elaboração
institucional inicial na década de 1970. Concomitantemente, as
células brancas nos quadrantes superiores da figura denotam
zonas de atividade regulatória que, durante a(s) década(s)
correspondente(s) especificadas na primeira coluna, foram
largamente configuradas de acordo com princípios de restrição
de mercado (keynesianismo, “constitucionalismo progressi-
vo”)3. A cada década sucessiva, as zonas sombreadas na figura
3
Essa representação não se destina a negar a presença de projetos regulatórios que
restringem o mercado dentro das zonas sombreadas da figura, nem tampouco sugerir
que os processos de neoliberalização não figuraram de maneira alguma dentro dos
quadrantes brancos. O objetivo, ao invés disso, é demarcar analiticamente a trajetória
geral da reestruturação regulatória disciplinada pelo mercado.
178
Após a neoliberalização?
são alargadas para incluir uma coluna adicional. Isso denota
o que consideramos uma mudança tendencial, macroespacial,
de formas desarticuladas a formas aprofundadas de neolibera-
lização4. Para simplificar, delineamos essa série de transforma-
ções década a década, mas aqui, também, uma especificação
mais precisa é necessária.
Conforme retratado na segunda linha do Diagrama 7.1, a
neoliberalização desarticulada cristalizou-se durante a década
de 1970, e se baseou predominantemente em formas de experi-
mentação regulatória disciplinada pelo mercado específicas de
locais, territórios e escalas. Obviamente, a doutrina neoliberal
havia surgido durante as décadas de 1930 e 1940, quando foi
mobilizada predominantemente como uma crítica à ordem polí-
tico-econômica keynesiana, que estava se consolidando (PECK,
2010a). Contudo, foi apenas no início da década de 1970 que
os experimentos de neoliberalização em tempo real foram
elaborados, embora em um contexto geoeconômico larga-
mente hostil, definido por arranjos regulatórios keynesianos
posteriores e estratégias de gerenciamento de crise. Embora
baseadas em redes intelectuais transnacionais (derivadas da
economia austríaca, do Ordoliberalismo, Manchesterismo e
da economia da Escola de Chicago), as paisagens institucionais
com as quais colidiram haviam sido moldadas por agendas regu-
latórias opostas, intervencionistas de Estado e redistributivas –
incluindo, principalmente, o keynesianismo e o nacional-desen-
volvimentismo. “Locais” conjunturalmente específicos para
esses experimentos regulatórios neoliberalizadores incluíram o
Chile pós-nacionalização de Pinochet, a Grã-Bretanha pós-res-
gate do FMI, os EUA em processo de desindustrialização de
Reagan e várias cidades e regiões atingidas pela crise no mundo
capitalista mais antigo, que estavam tentando atrair investi-
mento de capital transnacional “livre” através de várias formas
de arbitragem regulatória.
4
Em um artigo relacionado, analisamos esses processos transformativos como uma
mudança do desenvolvimento desigual da neoliberalização para a neoliberalização do
desenvolvimento regulatório desigual (BRENNER et al., 2010).
179
Após a neoliberalização?
Diagrama 7.1
Da neoliberalização desarticulada à neoliberalização profunda/aprofun-
dada: um esboço estilizado
DIMENSÕES DA REESTRUTURAÇÃO REGULATÓRIA
FORMAS CONTEX-
TUALMENTE SISTEMAS DE TRANSFE- REGIMES DE NORMAS E
ESPECÍFICAS DE RÊNCIA INTERJURISDI- PROCESSOS DE PARAME-
EXPERIMENTAÇÃO CIONAL DE POLÍTICAS TRIZAÇÃO
REGULATÓRIA
NEOLIBERALI- Intensificação de formas neokeynesianas de transferência
1970 ZAÇÃO DESARTI- transjurisdicional de políticas em resposta à volatilidade
CULADA geoeconômica penetrante, especialmente na zona da Orga-
Os projetos de neoli- nização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico
beralização assumem (OCDE)
formas específicas de
lugares, territórios Tendência de surgimento de formas neoliberalizadoras de
e escalas em um transferência de políticas em vetores geopolíticos intersti-
contexto geoeconô- ciais (e.g. de Chicago para Santiago)
mico “hostil”, ainda
definido por arranjos Aceleração das críticas ideológicas às doutrinas econô-
regulatórios keyne- micas keynesianas: sinais cada vez mais evidentes de crise
sianos e tendências sistêmica no regime de normas internacional do libera-
emergentes de crises lismo incrustado do pós-guerra
1980 Intensificação contínua das formas impulsionadas pelo
mercado de experimentação regulatória e reforma insti- Tendência à destruição
tucional em várias escalas espaciais e em zonas estraté- do
gicas (e.g. EUA, Reino Unido, América Latina) “constitucionalismo
Tendência de enfraquecimento/exaustão das redes progressivo” em escalas
neokeynesianas de transferência de políticas, em globais, supranacionais e
conjunto com buscas intensamente contestadas por nacionais
novas “correções institucionais” para resolver crises
georregulatórias persistentes Tendência à consoli-
Tendência ao adensamento, transnacionalização, dação de um “novo
recursão mútua, integração programática e coevolução constitucionalismo” pela
de redes de políticas orientadas para experimentos regu- redefinição impulsionada
latórios e reformas institucionais impulsionados pelo pelo mercado de várias
mercado (e.g. monetarismo, liberalização, privatização, instituições regulatórias
empreendedorismo urbano, governança reinventada) globais, supranacionais e
nacionais
NEOLIBERALIZAÇÃO PROFUNDA/APROFUNDADA
1990 Sendo ou não explicitamente impulsionadas pelo mercado ou restritoras do
mercado, as formas contextualmente específicas da experimentação regulatória e
da reforma institucional são cada vez mais moldadas dentro de parâmetros ampla-
mente neoliberalizados ou das “regras do jogo”
Sistemas neoliberalizados de transferência de políticas são cada vez mais mobili-
zados para abordar as tendências de crise e as contradições engendradas através de
séries anteriores de reestruturação regulatória impulsionada pelo mercado
Arcabouços institucionais macroespaciais passam a ser remodelados em termos
neoliberalizados – parâmetros baseados no mercado são, assim, cada vez mais
impostos a escalas subordinadas de experimentação regulatória
180
Após a neoliberalização?
Durante a década de 1980, uma nova fronteira de neolibera-
lização foi aberta quando um repertório de modelos de políticas
neoliberais começou a circular transnacionalmente e a adquirir
o status de soluções “milagrosas” para qualquer problema regula-
tório e tendência de crise (Diagrama 7.1, fileira 2).
Embora isso tenha ocorrido em parte através de uma “colo-
nização” de redes existentes e neokeynesianas de transferência
de políticas (por exemplo, na OCDE, Banco Mundial e FMI),
também envolveu a construção de novos circuitos interjurisdi-
cionais para a promoção, legitimação e entrega dos modelos
de políticas neoliberais, mediadas por um quadro cada vez
mais influente de peritos e líderes políticos com habilidades
técnicas, como os infames Chicago Boys. Através de uma série de
manobras, manipulações, negociações e lutas do tipo tentativa e
erro, muitos dos principais experimentos regulatórios neolibe-
ralizadores da década de 1970 – como privatização, financeiri-
zação, liberalização, assistência ao trabalho e empreendedorismo
urbano – adquiriram, subsequentemente, algo próximo ao status
“prototípico”, e se tornaram pontos de referência importantes
para projetos posteriores de neoliberalização. Formas neolibe-
ralizadoras de reestruturação regulatória foram, assim, mobili-
zadas em diversas arenas de políticas por instituições nacionais,
regionais e locais, não apenas na América do Norte e na Europa
Ocidental, mas também em um patchwork desigual e global-
mente disperso de Estados pós-desenvolvimentais e zonas pós-
comunistas da América Latina, sul da Ásia e África Subsaariana,
incluindo Europa Oriental e Ásia. Para facilitar a circulação,
imposição e legitimação de estratégias de reforma baseadas
no mercado, novos revezamentos políticos e extrajurisdicionais
foram construídos. Tais redes de políticas rápidas foram refor-
çadas no final da década de 1980, logo após a crise da dívida
latino-americana e, subsequentemente, o colapso do Bloco Sovié-
tico. A formação da neoliberalização desarticulada foi, assim,
transformada em uma formação organizada em rede e orques-
trada transnacionalmente de estratégias de reformas de polí-
ticas mutuamente recursivas e inter-referenciais. Nessas circuns-
181
Após a neoliberalização?
tâncias, os projetos de neoliberalização não mais surgiam como
exemplos relativamente isolados de experimentação regulatória
disciplinada pelo mercado, alojados em um ambiente político-e-
conômico hostil. Ao invés disso, padrões de influência, coorde-
nação e troca recíprocas foram estabelecidos entre programas de
reforma neoliberalizadores em contextos e escalas jurisdicionais
diversos. Cada vez mais, tais programas foram interconectados
recursivamente para acelerar, aprofundar e intensificar sua circu-
lação e implementação transnacionais.
Esse aprofundamento da formação da neoliberalização
consolidou-se ainda mais durante a década de 1990, quando
as agendas de reformas disciplinadas pelo mercado foram
institucionalizadas em escala mundial através de uma série de
reformas e rearranjos jurídico-institucionais mundiais, multila-
terais, multiníveis e supranacionais. Essa tendência é retratada
na linha inferior, totalmente sombreada, do Diagrama 7.1, que
delineia as tendências de aprofundamento da neoliberalização
dentro de cada uma das três principais dimensões da reestru-
turação regulatória, agora incluindo aquela dos regimes de
normas e processos de parametrização. Antes desse período,
instituições regulatórias do pós-guerra, como o FMI, o Banco
Mundial, o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT) e,
até o início da década de 1970, o acordo de Bretton Woods,
haviam estabelecido um arcabouço amplamente keynesiano
para a produção e o comércio mundiais, um regime de
normas que tem sido descrito como “liberalismo incrustado”
(RUGGIE, 1982) ou “constitucionalismo progressivo” (GILL,
2003). Embora tais arranjos tenham sido desestabilizados
durante as décadas de 1970 e 1980, somente na década de
1990 um regime de normas pós-keynesiano, neoliberalizado
e global foi consolidado. Através da construção do redesenho
disciplinado pelo mercado dos arranjos institucionais globais e
supranacionais, incluindo-se desde a OCDE, o Banco Mundial
e o FMI até a OMC, a CE pós-Maastricht e o NAFTA, entre
outros, os processos de neoliberalização passaram a impactar
e reestruturar os próprios arcabouços geoinstitucionais que
182
Após a neoliberalização?
governam as formas nacionais e subnacionais de experimen-
tação regulatória. Essa configuração geoinstitucional tenden-
cialmente neoliberalizada é frequentemente referida como
o “Consenso de Washington”, mas seus elementos regula-
tórios e suas geografias político-econômicas não podem ser
reduzidos a um projeto hegemônico puramente baseado nos
EUA. Ao invés disso, o “novo constitucionalismo” associado
ao regime de normas global, neoliberalizado e ascendente
também depende de acordos de condicionalidade impostos
pela OMC; órgãos regulatórios supranacionais e zonas regio-
nais de livre comércio, como a CE, NAFTA, CAFTA, APEC e
ASEAN; organizações multinacionais como o G8 e a OCDE;
assim como órgãos econômicos globais quase independentes,
como o Banco de Compensações Internacionais (GILL, 2003).
A consolidação desses regimes de normas neoliberalizados
globais e supranacionais, que são projetados para impor parâ-
metros disciplinados pelo mercado a instituições e formações
políticas nacionais e subnacionais, talvez possa ser conside-
rada uma das consequências de maior alcance das últimas três
décadas de reforma político-econômica neoliberalizadora.
As cartografias dinâmicas da neoliberalização aqui esbo-
çadas envolvem rastrear sistematicamente o desenvolvimento
desigual e a circulação transnacional dos modelos de políticas
neoliberalizadas, além de seus impactos diversificados, depen-
dentes da trajetória e contextualmente específicos, em locais,
territórios e escalas diversos. Contudo, embora esse desenvol-
vimento desigual dos processos de neoliberalização tenha sido
claramente essencial para a paisagem global da reestruturação
regulatória pós-1970, representa apenas uma camada dentro de
um processo multidimensional de destruição criativa institu-
cional e espacial. Pois, como indica a linha inferior do Diagrama
7.1, os processos de neoliberalização também transformaram os
próprios arcabouços geoinstitucionais dentro dos quais o desen-
volvimento regulatório desigual se desenrola, fazendo com que
formas contextualmente específicas de experimentação regula-
tória e transferência interjurisdicional de políticas sejam canali-
183
Após a neoliberalização?
zadas ao longo de caminhos com tendência a serem disciplinados
pelo mercado. Esse regime de normas certamente não diminuiu
nem dissolveu a dependência endêmica da trajetória e a especi-
ficidade contextual dos projetos de reforma neoliberalizadores.
Porém, transformou qualitativamente o que poderia ser chamado
o “contexto do contexto”, isto é, o terreno político, institucional e
jurídico dentro do qual os caminhos localmente, regionalmente
e nacionalmente específicos da reestruturação regulatória são
forjados. Acreditamos que nenhum mapa em movimento da
neoliberalização pode ser completo se não der atenção a esses
arcabouços macroespaciais e parâmetros político-institucionais,
pois têm implicações cruciais para os processos contextualmente
situados de experimentação regulatória, sejam eles disciplinados
pelo mercado ou controladores do mercado.
Cenários de contraneoliberalização
As trajetórias de médio e longo prazo dos padrões contem-
porâneos da reestruturação regulatória são inerentemente
imprevisíveis; necessitam ser iniciadas através de lutas incrus-
tadas em conjunturas específicas, provocadas pelas contradições
das primeiras ocorrências de neoliberalização. Todavia, as consi-
derações acima sugerem uma abordagem para confrontar tais
questões – uma abordagem que dê atenção, simultaneamente,
a choques regulatórios globais e suas ramificações em locais,
territórios e escalas específicos, e que, ao mesmo tempo, evite
modelos dualísticos de transição e declarações a respeito da
morte do neoliberalismo. Esboçamos aqui vários cenários possí-
veis para as trajetórias futuras da reestruturação regulatória. Eles
estão resumidos no Diagrama 7.2.
O Diagrama 7.2 está organizado em paralelo ao Diagrama
7.1, com exceção de que a posição das células sombreadas
que retratam as três dimensões da neoliberalização foi inver-
tida. A linha superior apresenta cada uma das três dimensões
da neoliberalização; a coluna mais à esquerda lista quatro
cenários distintos para os futuros caminhos da reestruturação
184
Após a neoliberalização?
regulatória. Conforme indicado pelo padrão sombreado na
figura, cada um dos quatro cenários envolve um grau diferente
de neoliberalização, definido, em cada caso, com referência
a uma combinação entre as três dimensões listadas na linha
superior.
O cenário da neoliberalização zumbi é retratado na
primeira linha. Nesse cenário, apesar de suas consequências
disruptivas e destrutivas, a crise econômica global de 2008-
2009 não mina significativamente as tendências de neolibera-
lização das últimas três décadas (PECK, 2009). O regime de
normas neoliberalizado que havia sido consolidado durante a
década de 1990 e o início da década de 2000 pode ser recali-
brado ou reconstituído para restringir certas formas de espe-
culação financeira, mas sua orientação básica em direção à
imposição de parâmetros disciplinados pelo mercado sobre
economias supranacionais, nacionais, regionais e locais
permanece dominante. A ideologia neoliberal ortodoxa vem
sendo cada vez mais questionada, mas a maquinaria política
da disciplina de mercado imposta pelo Estado permanece
essencialmente intacta; as agendas de políticas sociais e
econômicas continuam a ser subordinadas à prioridade de
manter a confiança do investidor e uma atmosfera boa para
os negócios; e as agendas de políticas como livre comércio,
privatização, mercados de trabalho f lexíveis e competitivi-
dade territorial urbana continuam a ser tidas como certas.
Nesse cenário, como propõe Bond (2009, p. 193), o resul-
tado mais provável da atual crise geoeconômica é um “neoli-
beralismo e um imperialismo relegitimados”. Consequente-
mente, há um maior arraigamento dos arranjos regulatórios
disciplinados pelo mercado, maior lubrificação e aceleração
dos sistemas neoliberalizados de transferência interjuris-
dicional de políticas e um arraigamento ainda maior das
formas neoliberalizadas de experimentação regulatória em
diferentes contextos.
185
Após a neoliberalização?
Diagrama 7.2
Contraneoliberalização: caminhos e cenários futuros
DIMENSÕES DA REESTRUTURAÇÃO REGULATÓRIA
REGULATÓRIA POLÍTICA PARAMETRIZAÇÃO
Cenário A ideologia neoliberal ortodoxa é gravemente abalada, mas há uma
1: neolib- neoliberalização contínua de cada uma das três dimensões da reestrutu-
eralização ração regulatória, frequentemente por meios tecnocráticos.
zumbi As tendências de crise e as falhas dos arranjos regulatórios impulsio-
nados pelo mercado contribuem para um arraigamento ainda maior dos
projetos de neoliberalização como “soluções” putativas a dilemas regu-
latórios persistentes em escalas, territórios e contextos
Cenário 2: Tendência à mobi- Neoliberalização contínua de sistemas de trans-
contralibe- lização de experi- ferência de políticas e regimes de normas trans-
ralização mentos regulató- nacionais
desarticu- rios redistributivos, Os projetos de contraliberalização permanecem
lada restritores relativamente fragmentados, desconectados e
do mercado e/ insuficientemente coordenados – não se infil-
ou regressivos em traram significativamente em arenas institucio-
contextos dispersos nais multilaterais, supranacionais ou globais
e desarticulados, em Regimes de normas macroespaciais continuam a
escalas locais, regio- ser dominados pela lógica do mercado, apesar de
nais e nacionais críticas persistentes realizadas a partir de locais
extrainstitucionais e de “instâncias inferiores”
(e.g. o movimento de justiça global)
Cenário 3: Intensificação da orquestração, recursão Neoliberalização conti-
contralibe- mútua e coevolução tendencial de expe- nuada dos regimes de
ralização rimentos regulatórios redistributivos e normas: os projetos de
orquestrada restritores do mercado em contextos cada contraliberalização podem
vez mais interligados começar a se infiltrar em
Adensamento, intensificação e ampliação instituições macroespaciais
das redes de transferência de políticas que estabelecem as regras
com base em alternativas (progressivas ou (e.g. Banco Mundial,
regressivas) ao regime de mercado União Europeia), mas não
conseguem reorientar suas
tendências básicas voltadas
ao mercado
Cenário 4: Intensificação continuada de (formas progressivas ou reacionárias de)
socialização experimentação regulatória redistributiva, socializadora, reinscrusta-
profunda dora e restritora do mercado
Elaboração contínua e consolidação transnacional de formas de trans-
ferência transjurisdicional de políticas que são redistributivas, socializa-
doras e restritoras do mercado
Desestabilização/desmantelamento de regimes de normas neoliberais:
construção de arcabouços alternativos, restritores do mercado, redistri-
butivos e socializadores para a organização regulatória macroespacial
186
Após a neoliberalização?
Em um segundo cenário, a contraneoliberalização desarti-
culada, um regime de normas neoliberalizado e os sistemas asso-
ciados de transferência de políticas neoliberais persistem, mas,
nesse meio tempo, a crise econômica global oferece novas opor-
tunidades estratégicas, embora dentro de arenas político-insti-
tucionais relativamente dispersas, para forças sociais e alianças
políticas preocupadas em promover estratégias regulatórias que
restrinjam ou que transcendam o mercado. Mesmo antes da crise
financeira global mais recente, havia muita oposição organizada
às políticas neoliberais, realizada pelos movimentos de trabalha-
dores, movimentos de camponeses, movimentos urbanos, por
várias vertentes do movimento antiglobalização e, em alguns
casos, por partidos políticos oficiais social-democráticos, comu-
nistas e populistas (AMOORE, 2005; LEITNER et al., 2007). Na
esteira da crise econômica atual, pode haver novas aberturas
estratégicas para tais movimentos sociais e organizações políticas
perseguirem essas agendas que restringem o mercado, enquanto
disseminam críticas mais amplamente produtivas ao capitalismo
neoliberalizado. Nesse cenário, contudo, esses projetos contra-
neoliberalizadores permanecem relativamente desarticulados –
isto é, são confinados a parâmetros localizados, regionalizados
ou, em alguns casos, nacionalizados e, ao mesmo tempo, ainda
permanecem incrustados em contextos geoinstitucionais domi-
nados por arranjos regulatórios disciplinados pelo mercado e por
redes de transferência de políticas. Claramente, os experimentos
regulatórios contextualmente específicos associados a formas
desarticuladas de contraneoliberalização são uma fronteira
estrategicamente essencial para explorar alternativas a uma
ordem geoeconômica neoliberalizada. Mas, a menos que estejam
interconectadas em lugares, territórios e escalas, e ligadas a reca-
librações institucionais, essas iniciativas confrontam restrições
sistêmicas que podem minar sua reprodutibilidade em médio e
longo prazo, circunscrevendo sua capacidade de generalização
interespacial.
Em um terceiro cenário, as formas orquestradas de expe-
rimentação regulatória contraneoliberalização e restritoras do
187
Após a neoliberalização?
mercado não mais ocorrem isoladamente, como “postos avan-
çados” de dissidência relativamente fechados em si mesmos,
mas são recursivamente interconectadas em lugares, territórios
e escalas. Nessas condições, há esforços sustentados para criar
redes antissistêmicas de compartilhamento de conhecimentos,
transferência de políticas e construção de instituições entre os
diversos locais e escalas de mobilização contraneoliberal. Esse
cenário pode assumir uma forma relativamente estatista – por
exemplo, uma coalizão de governos nacionais, regionais ou
locais neokeynesianos, social-democratas ou ecossocialistas,
talvez dentro ou entre regiões globais importantes. Tal cenário
também pode assumir uma forma baseada em movimento – por
exemplo, aquela do Fórum Social Mundial, com seu projeto de
criar uma rede alternativa de transferência progressiva de polí-
ticas, vinculando ativistas e formuladores de políticas de diversas
instituições, setores e contextos no sistema mundial (MARCUSE,
2005). Impulsionadas pelo Estado ou levadas pelos movimentos,
tais redes ganham significado e se tornam cada vez mais coorde-
nadas nesse cenário, levando, possivelmente, ao desenvolvimento
de novas visões, solidárias e ecologicamente sãs, para a regulação
econômica global e para as relações interespaciais. Como argu-
mentamos acima, a criação de redes transnacionais para a trans-
ferência de conhecimentos e políticas foi essencial para a conso-
lidação, reprodução e evolução dos processos neoliberalizadores
durante as três últimas décadas, e tais redes certamente serão
igualmente essenciais para qualquer projeto que aspire a desesta-
bilizar os arranjos georregulatórios disciplinados pelo mercado.
No entanto, no cenário da contraneoliberalização orquestrada,
as redes de transferência de políticas contraneoliberalizadoras
recentemente estabelecidas e cada vez mais coordenadas ainda
não têm a capacidade de se infiltrar nos escalões do poder polí-
tico-econômico global, como as agências multilaterais, os blocos
de comércio supranacionais e governos nacionais poderosos.
Consequentemente, embora o regime de normas global neoli-
beralizado possa tender a ser desestabilizado, sobrevive intacto.
Será que um regime de normas global alternativo pode ser
188
Após a neoliberalização?
forjado? Em um quarto cenário, socialização profunda, o regime
de normas global neoliberalizado é sujeito a um maior escrutínio
público e à crítica popular. Subsequentemente, os arcabouços
institucionais da neoliberalização que foram herdados são infil-
trados em todas as escalas espaciais por forças sociais e alianças
políticas orientadas para agendas alternativas que restringem o
mercado. Estas poderiam incluir controles de capital e de trocas;
perdão de dívidas; regimes de impostos progressivos; esquemas
de crédito de base não lucrativa, governados por cooperativas
e desglobalizados; redistribuição global mais sistemática; inves-
timentos em obras públicas; e a descomodificação e desgloba-
lização das necessidades sociais básicas, como abrigo, água,
transporte, assistência à saúde e utilidades públicas. Das cinzas
do regime de normas global neoliberalizado surge um modelo
de regulamentação global alternativo, social-democrático, soli-
dário e/ou ecossocialista. O conteúdo político significativo de
tal regime de normas é – na verdade, tem sido há muito tempo
– uma questão de debate intenso dentro da Esquerda global (cf.,
por exemplo, AMIN, 2009; GORZ, 1988; HOLLOWAY, 2002).
Mas um de seus elementos principais seria uma democratização
radical das tomadas de decisões e capacidades de alocação em
todas as escalas espaciais – uma possibilidade que contrasta forte-
mente com os princípios da disciplina de mercado e regra corpo-
rativa nos quais a neoliberalização se baseia (HARVEY, 2008;
PURCELL, 2008).
Também deve ser enfatizado que nem todas as alternativas
a um regime de normas neoliberalizado envolvem essa visão
normativa progressiva, solidária e radicalmente democrática.
Como Brie (2009) indica, qualquer número de cenários regres-
sivos, até mesmo bárbaros, é possível, incluindo várias formas
de reação, hiperpolarização, neoimperialismo, remilitarização
e degradação ecológica neoconservadoras, neototalitárias e
neofundamentalistas. Questões básicas também podem ser colo-
cadas em relação à configuração geográfica de qualquer regime
de normas global futuro. Será cada vez mais China-cêntrico,
como prevê Arrighi (2007)? Será fundamentado em uma ordem
189
Após a neoliberalização?
mundial multipolar, como espera Amin (2009)? Envolverá um
arquipélago de redes interurbanas ou inter-regionais progressi-
vamente orientadas, em conjunto com novas formas de exclusão
socioespacial mundial, como Scott (1998) antecipa? Ou envol-
verá alguma outra formação ainda não visualizada de desenvolvi-
mento espacial desigual? Essas perguntas não podem ser respon-
didas aqui; destinam-se simplesmente a provocar reflexão e
debate sobre as possíveis consequências de médio e longo prazo
dos projetos de contraneoliberalização dentro de cada uma das
três dimensões da reestruturação regulatória.
Conclusões
Esta linha de análise é, reconhecidamente, especulativa, e
ainda há muito trabalho a ser feito em um nível mais concreto
para operacionalizar algumas das orientações metodológicas
aqui apresentadas, principalmente com referência às últimas
três décadas dos processos de neoliberalização e com referência
à conjuntura contemporânea da formação de crises, particu-
larmente em relação às transformações dos tipos de paisa-
gens urbanas que estão em discussão nessa questão. Em nossa
conceituação, a neoliberalização não é uma totalidade global
que abarca tudo, mas sim um padrão de reestruturação desen-
volvido de maneira desigual que tem sido produzido através
de uma sucessão de colisões dependentes da trajetória entre
projetos regulatórios emergentes, disciplinados pelo mercado e
paisagens institucionais herdadas em locais, territórios e escalas.
Consequentemente, para considerar as possibilidades contempo-
râneas de transcender ou inverter a influência dos processos de
neoliberalização, tanto dentro como entre cidades, é necessário
distinguir várias dimensões de sua articulação espacial-temporal,
incluindo a experimentação regulatória, os sistemas interjuris-
dicionais de transferência de políticas e os regimes de normas
globais.
Experimentos regulatórios contraneoliberalizadores perma-
necem estrategicamente cruciais, especialmente no contexto
190
Após a neoliberalização?
urbano, mas na ausência de redes orquestradas de transferência
de políticas contraneoliberalizadoras, provavelmente perma-
necerão confinados em locais, escalas e territórios específicos.
Também é importante notar que a construção de sistemas contra-
neoliberalizadores de transferência de políticas, tanto em meio a
movimentos sociais, como em cidades, regiões ou Estados, repre-
senta um grande passo à frente para os ativistas e os formula-
dores de políticas progressistas. Porém, na ausência de uma visão
plausível para um regime de normas global alternativo, tais redes
provavelmente permanecerão intersticiais, meros incômodos à
maquinaria global da neoliberalização, ao invés de ameaças que
poderiam transformar sua influência hegemônica.
Entretanto, nossa intenção aqui não é priorizar nenhum dos
três níveis de engajamento político – todos são estrategicamente
essenciais e possuem ramificações estruturais significativas.
Claramente, na ausência de experimentos regulatórios viáveis,
contextualmente específicos, nossa imaginação em relação a
como poderia ser uma alternativa global à neoliberalização
permanecerá seriamente limitada. Mas também é importante
notar que, se analistas urbanos e ativistas progressivos focali-
zarem seus esforços predominantemente sobre “economias alter-
nativas” localmente e regionalmente específicas, e vincularem
os sistemas mais amplos de transferência de políticas e os arca-
bouços geoinstitucionais que impõem as regras do jogo a tais
contextos, também estarão limitando seriamente sua habilidade
de imaginar – e perceber – um mundo em que os processos de
acumulação de capital não determinem as condições básicas
da existência humana. Portanto, em nosso ponto de vista, arca-
bouços interpretativos do “grande cenário” são mais essenciais
do que nunca, não apenas para analisar as origens, expressões
e consequências da crise financeira global contemporânea, mas
também como pontos de referência estruturais e estratégicos
para mobilizar alternativas contra-hegemônicas às práticas políti-
co-econômicas atualmente dominantes (para uma versão anterior
dessa argumentação, cf. PECK; TICKELL, 1994). É claro que os
experimentos locais têm importância, e devem ser encarados
191
Após a neoliberalização?
seriamente, mas o mesmo se aplica aos regimes de normas
institucionais mais amplos e aos revezamentos interlocalidades
de políticas que enquadram e constituem caminhos contextual-
mente específicos da reorganização regulatória. Essa é a razão da
ênfase que colocamos aqui nas dialéticas inter e extralocais da
transformação regulatória.
Assim, nossa análise aponta para duas conclusões gerais para
estudos de paisagens regulatórias urbanas e, de maneira mais
geral, para o estudo de transformações regulatórias supraurbanas.
Em primeiro lugar, podemos antecipar que as trajetórias da rees-
truturação regulatória pós-2008 serão moldadas poderosamente
pelas formas político-institucionais específicas de locais, territórios
e escalas nas quais as séries anteriores de neoliberalização foram
articuladas. Em segundo lugar, nossa discussão sugere que, na
ausência de estratégias contraneoliberalizadoras para fraturar,
desestabilizar, reconfigurar e finalmente suplantar os regimes de
normas disciplinados pelo mercado que têm prevalecido global-
mente desde o final da década de 1980, os parâmetros para formas
alternativas de experimentação regulatória nacional, regional e
local continuarão a ser intensamente circunscritos.
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