PENAL 2ª FASE XXXIV EXAME
Direito Penal
“Para o soco missioneiro!” (Aulas gravadas)
Professor Me. Nidal Ahmad
Olá, Alunos!
Espero que vocês tenham a melhor preparação para a prova do
Exame de Ordem. Este missioneiro preparou um material bem
completo para você dar aquele soco no dia da prova da OAB. Um
beijo carinhoso e respeitoso nas meninas e um abraço bem de
longe nos meninos!
Nidal Ahmad @[Link]
2ª FASE OAB | XXXIV EXAME
Direito Penal
Prof. Nidal Ahmad
SUMÁRIO
1. DA CONDUTA ................................................................................................................................ 5
[Link]ção ...................................................................................................................................... 5
[Link] ......................................................................................................................................... 5
[Link]ência de conduta..................................................................................................................... 6
[Link] crimes omissivos ................................................................................................................... 8
2. DA RELAÇÃO DE CAUSALIDADE........................................................................................... 14
2.1. Introdução.................................................................................................................................... 14
2.2. Causas absolutamente independentes .................................................................................... 14
2.3. Causas relativamente independentes....................................................................................... 16
2.4. Dúvida mais recorrente .............................................................................................................. 20
3. CONFLITO APARENTE DE NORMAS ..................................................................................... 26
3.1. Introdução.................................................................................................................................... 26
3.2. Conflito aparente de normas x concurso de crimes................................................................. 27
3.3. Princípios para dirimir o conflito aparente de normas .............................................................. 27
4. CONCURSO DE CRIMES ........................................................................................................... 38
4.1. Introdução.................................................................................................................................... 38
4.2. Concurso de crimes e a relação com outros institutos ............................................................ 38
[Link] material de crimes ...................................................................................................... 39
4.4. Concurso formal.......................................................................................................................... 41
4.5. Crime continuado........................................................................................................................ 46
5. CONCURSO DE PESSOAS ....................................................................................................... 55
5.1. Conceito de concurso de pessoas ............................................................................................ 55
5.2. Requisitos .................................................................................................................................... 55
[Link] de atuação no concurso de pessoas .................................................................. 58
5.4. Punibilidade do concurso de pessoas....................................................................................... 66
5.5. Comunicabilidade das elementares e circunstâncias do crime .............................................. 68
6. EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE ................................................................................................. 73
6.1 Introdução.................................................................................................................73
6.2 Causas de extinção da punibilidade.........................................................................73
7. DESCRIMINANTES PUTATIVAS............................................................................................... 84
7.1 Conceito ....................................................................................................................................... 84
7.2 Espécies ....................................................................................................................................... 84
7.3 Consequências ............................................................................................................................ 86
8. EFEITOS DA SENTENÇA CONDENATÓRIA .......................................................................... 89
8.1 Nota introdutória .......................................................................................................................... 89
8.2 Efeitos principais .......................................................................................................................... 89
8.3 Efeitos secundários ..................................................................................................................... 89
PADRÃO DE RESPOSTAS ............................................................................................................ 94
Olá, aluno(a). Este material de apoio foi organizado com base nas aulas do seu curso preparatório para a 2ª
Fase do XXXIV Exame da OAB e deve ser utilizado como um roteiro para as respectivas aulas. Além disso,
recomenda-se que o aluno assista as aulas acompanhado da legislação pertinente.
Bons estudos, Equipe Ceisc.
Atualizado em fevereiro de 2022.
Da conduta
Prof. Nidal Ahmad
@[Link]
1.1. Introdução
Fato típico é o que se amolda ao modelo legal da conduta proibida. É o fato que se
enquadra no conjunto de elementos descritivos do delito contidos na lei penal. Se não se
enquadrar rigorosamente na descrição que consta no tipo penal, o fato será atípico.
CONDUTA
ELEMENTOS DO
TIPICIDADE RESULTADO
FATO TÍPICO
NEXO DE
CAUSALIDADE
Ausente um dos elementos do fato típico a conduta passa a constituir um indiferente penal.
É um fato atípico
1.2. Conceito
Conduta é a ação ou omissão humana consciente e dirigida a determinada finalidade.
1.3. Ausência de conduta
Para a caracterização da conduta, sob qualquer aspecto, é indispensável a existência do
binômio vontade e consciência.
VONTADE é o querer ativo, apto a levar o ser humano a praticar um ato livremente. O ato
voluntário deve ser espontâneo, isto é, mediante um proceder por vontade própria; caso
contrário, será ato coagido e forçado, levando à exclusão do crime.
CONSCIÊNCIA é a possibilidade de o ser humano ter noção clara da diferença existente
entre realidade e ficção.
Ausente vontade ou consciência, não haverá conduta punível. Não havendo conduta
punível, o fato será atípico.
Pode-se dizer que há ausência de conduta nos seguintes casos, por exemplo:
a) Coação física irresistível (“vis absoluta”)
Ocorre quando o sujeito pratica o movimento em consequência de força corporal
exercida sobre ele. Quem atua obrigado por uma força irresistível não age voluntariamente.
Neste caso, o agente é mero instrumento realizador da vontade do coator.
Imaginemos alguém sendo fisicamente forçado a falsificar um documento. Nesse caso,
não haverá conduta punível, por ausência de vontade, sendo o fato atípico em relação ao agente
fisicamente coagido. Somente o coator responderia pelo delito.
Assim, não havendo vontade, não há conduta. Não havendo conduta, não há fato típico.
Não havendo fato típico, não há crime. Logo, o fato praticado pelo fisicamente coagido é atípico.
Não responde por nenhum crime.
Diversa é a situação, contudo, quando se tratar de coação moral.
Na coação moral, não há aplicação da força física, mas de ameaça ou intimidação, feita
através da promessa de um mal, para que se determine o coato à realização do fato criminoso.
O coagido poderá optar.
No caso da coação moral, o fato é revestido de tipicidade, mas não é culpável, em face
da inexigibilidade de conduta diversa.
Portanto, existe o fato típico, pois a ação é juridicamente relevante, mas não há que se
falar em culpabilidade, aplicando-se a regra do art. 22, 1ª parte, do Código Penal (causa de
exclusão da culpabilidade). A coação moral irresistível será estudada no tema culpabilidade.
EM SÍNTESE:
Coação física irresistível: causa de exclusão da tipicidade
Coação moral irresistível: causa de exclusão da culpabilidade
Coação moral resistível: atenuante (art. 65, III, “c”, CP)
COAÇÃO FÍSICA IRRESISTÍVEL COAÇÃO MORAL IRRESISTÍVEL COAÇÃO MORAL RESISTÍVEL
Sujeito é forçado Sujeito é ameaçado ou
fisicamente a praticar o fato intimidado a praticar o fato Sujeito é ameaçado ou
típico típico intimidado a praticar o fato
típico, mas poderia resistir
CAUSA DE EXCLUSÃO CAUSA DE EXCLUSÃO DA
DA TIPICIDADE CULPABILIDADE ATENUANTE (ART. 65, III,
"C", CP)
b) Movimentos reflexos
Os atos reflexos não dependem da vontade, uma vez que são reações motoras,
secretórias ou fisiológicas, produzidas pela excitação de órgãos do corpo humano.
EXEMPLO
Tosse, espirro, etc.
c) Estados de inconsciência
Consciência “é o resultado da atividade das funções mentais. Não se trata de uma
faculdade do psiquismo humano, mas do resultado do funcionamento de todas elas”.
Quando essas funções mentais não funcionam adequadamente se diz que há estado de
inconsciência, que é incompatível com a vontade, e sem vontade não há ação.
EXEMPLO
Praticar determinada conduta em estado de sonambulismo.
1.4. Dos crimes omissivos
A conduta delitiva não se limita a uma atividade positiva, ou seja, a uma ação, podendo,
ainda, o agente praticar delito por meio de uma conduta omissiva, por um não fazer, por uma
abstenção de um movimento corpóreo.
Os crimes omissivos podem ser próprios ou impróprios (ou comissivos por omissão).
1.4.1. Crimes omissivos próprios
São os que se perfazem com a simples conduta negativa do sujeito,
independentemente da produção de qualquer consequência posterior.
Há um tipo penal específico descrevendo a conduta omissiva. O verbo nuclear do tipo
descreve uma conduta omissiva. Nesse caso, o crime consiste em o sujeito amoldar a sua
conduta ao tipo legal que descreve uma conduta omissiva. Em síntese, o agente será
responsabilizado por não cumprir o dever de agir contido implicitamente na norma
incriminadora.
Nos crimes omissivos próprios basta a abstenção, é suficiente a desobediência ao dever
de agir para que o delito se consume. A OBRIGAÇÃO DO AGENTE É DE AGIR E NÃO DE
EVITAR O RESULTADO. O resultado que eventualmente surgir dessa omissão será irrelevante
para a consumação do crime, podendo apenas configurar uma majorante ou uma qualificadora.
Exemplo: Omissão de socorro
Art. 135 do CP. Deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo sem risco
pessoal, à criança abandonada ou extraviada, ou à pessoa inválida ou ferida, ao
desamparo ou em grave e iminente perigo; ou não pedir, nesses casos, o socorro da
autoridade pública:
Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa.
Parágrafo único - A pena é aumentada de metade, se da omissão resulta lesão corporal
de natureza grave, e triplicada, se resulta a morte.
1.4.2. Crimes omissivos impróprios ou comissivos por omissão
CONDUTA
OMISSIVA ART. 13, §2º CP RESULTADO
Nos crimes omissivos impróprios ou comissivos por omissão são aqueles em que o tipo
penal descreve uma conduta ativa, ou seja, o verbo nuclear do tipo descreve uma ação. Nesse
caso, o agente será responsabilizado por ter deixado de agir quando estava juridicamente
obrigado a desenvolver uma conduta para evitar o resultado.
Nos crimes omissivos impróprios, o agente não tem simplesmente a obrigação de agir,
mas a OBRIGAÇÃO DE AGIR PARA EVITAR UM RESULTADO, isto é, deve agir com a
finalidade de impedir a ocorrência de determinado evento. Nos crimes comissivos por omissão
há, na verdade, um crime material, isto é, um crime de resultado.
Ou seja, se o agente que tinha o dever de agir para evitar o resultado mantém-se inerte,
omisso, responderá pelo resultado gerado.
Ressalta-se, no entanto, que somente será atribuído ao agente a responsabilidade por
sua conduta omissiva se, nas circunstâncias, era possível agir para evitar o resultado.
EXEMPLO
Se um médico plantonista deixa de atender um paciente que falece, porque estava
atendendo a outro enfermo em situação de emergência, à evidência, não poderá
ser responsabilizado pela morte do paciente que aguardava atendimento.
O Código Penal regulou expressamente as hipóteses em que o agente assume a condição
de garantidor.
De fato, para que alguém responda por crime comissivo por omissão é preciso que
tenha o dever jurídico de impedir o resultado, previsto no artigo 13, § 2º, do Código Penal:
a) Ter por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância
Nesse caso, por expressa imposição da lei, o agente estará obrigado a agir para evitar o
resultado. Assim, se o agente se omitir, ou seja, deixar de agir, quando lhe era possível,
responderá pelo resultado gerado.
Isso porque, se o sujeito, em virtude de sua abstenção, descumprindo o dever de agir,
não busca evitar o resultado é considerado, pelo Direito Penal, como se o tivesse causado.
É o caso, por exemplo, dos pais em relação aos filhos (art. 1634 e 1566, IV, ambos do
Código Civil) e do dever de mútua assistência entre os cônjuges (art. 1566 do Código Civil).
EXEMPLO
Mãe que deixa de alimentar o filho, que, por conta da sua negligência, acaba
morrendo por inanição. Essa mãe deverá responder pelo resultado gerado, qual
seja, homicídio culposo. Se, de outro lado, a mãe desejou a morte do filho ou
assumiu o risco de produzi-la, responderá por homicídio doloso.
b) De outra forma, assumir a responsabilidade de impedir o resultado
A doutrina não fala mais em dever contratual, uma vez que a posição de garantidor pode
advir de situações em que não existe relação jurídica entre as partes. O importante é que o
sujeito se coloque em posição de garante no sentido de que o resultado não ocorrerá.
Aqui a obrigação de agir para evitar o resultado não decorre de lei, mas do fato de o agente
ter assumido a responsabilidade de impedi-lo.
EXEMPLO
Babá que, por negligência, deixa de cumprir corretamente sua obrigação de cuidar
da criança, que acaba caindo na piscina e, por isso, morre afogada. Nesse caso,
responderá pelo resultado gerado, qual seja, homicídio culposo. Se, de outro lado,
desejou a morte da criança ou assumiu o risco de produzi-la, responderá por
homicídio doloso.
EXEMPLO
Salva-vidas Carlos que presta em clube social, que, com várias crianças brincando
na piscina, fica observando a beleza física da mãe de uma das crianças e, ao
mesmo tempo, falando no celular com um amigo, ficando de costas para a piscina.
Se, nesse momento, uma criança vem a falecer por afogamento, o salva-vidas
responderá por homicídio culposo, diante da sua omissão culposa, já que violou
o seu dever de garantidor.
c) Com o comportamento anterior, criar o risco da ocorrência do resultado
Nesta hipótese, o sujeito, com o comportamento anterior, cria situação de perigo para
bens jurídicos alheios penalmente tutelados, de sorte que, tendo criado o risco, fica obrigado
a evitar que ele se degenere ou desenvolva para o dano ou lesão.
Não importa que o tenha feito voluntariamente ou involuntariamente, dolosa ou
culposamente; importa é que com sua ação ou omissão originou uma situação de risco ou
agravou uma situação já existente.
EXEMPLO
Aluno veterano, por ocasião de um trote acadêmico, sabendo que a vítima não
sabe nadar, joga o incauto calouro na piscina. Nesse caso, contrai o dever jurídico
de agir para evitar o resultado, sob pena de responder por homicídio.
1) (QUESTÃO 2 - V EXAME)
Joaquina, ao chegar à casa de sua filha, Esmeralda, deparou-se com seu genro, Adaílton,
mantendo relações sexuais com sua neta, a menor F.M., de 12 anos de idade, fato ocorrido no
dia 2 de janeiro de 2011. Transtornada com a situação, Joaquina foi à delegacia de polícia, onde
registrou ocorrência do fato criminoso. Ao término do Inquérito Policial instaurado para apurar os
fatos narrados, descobriu-se que Adaílton vinha mantendo relações sexuais com a referida
menor desde novembro de 2010. Apurou-se, ainda, que Esmeralda, mãe de F.M., sabia de toda
a situação e, apesar de ficar enojada, não comunicava o fato à polícia com receio de perder o
marido que muito amava.
Na condição de advogado(a) consultado(a) por Joaquina, avó da menor, responda aos
itens a seguir, empregando os argumentos jurídicos apropriados e a fundamentação legal
pertinente ao caso.
A) Adaílton praticou crime? Em caso afirmativo, qual? (Valor: 0,3)
B) Esmeralda praticou crime? Em caso afirmativo, qual? (Valor: 0,5)
C) Considerando que o Inquérito Policial já foi finalizado, deve a avó da menor oferecer
queixa-crime? (Valor: 0,45)
2) (QUESTÃO 04 – X EXAME)
Erika e Ana Paula, jovens universitárias, resolvem passar o dia em uma praia paradisíaca e, de
difícil acesso (feito através de uma trilha), bastante deserta e isolada, tão isolada que não há
qualquer estabelecimento comercial no local e nem mesmo sinal de telefonia celular. As jovens
chegam bastante cedo e, ao chegarem, percebem que além delas há somente um salva-vidas
na praia. Ana Paula decide dar um mergulho no mar, que estava bastante calmo naquele dia.
Erika, por sua vez, sem saber nadar, decide puxar assunto com o salva-vidas, Wilson, pois o
achou muito bonito. Durante a conversa, Erika e Wilson percebem que têm vários interesses em
comum e ficam encantados um pelo outro. Ocorre que, nesse intervalo de tempo, Wilson percebe
que Ana Paula está se afogando. Instigado por Erika, Wilson decide não efetuar o salvamento,
que era perfeitamente possível. Ana Paula, então, acaba morrendo afogada.
Nesse sentido, atento(a) apenas ao caso narrado, indique a responsabilidade jurídico-
penal de Erika e Wilson. (Valor: 1,25)
O examinando deve fundamentar corretamente sua resposta. A simples menção ou transcrição
do dispositivo legal não pontua.
Da relação de causalidade
Prof. Nidal Ahmad
@[Link]
2.1. Introdução
Pela própria denominação (nexo causal) é possível perceber que consiste no vínculo ou
liame de causa e efeito entre a ação e o resultado do crime.
Via de regra, a conduta do agente produz o resultado criminoso de forma direta. Trata-se
de relação de causa (conduta) e efeito (resultado): Nexo de causalidade.
Todavia, pode ocorrer que, aliada à conduta do agente, outra causa contribua para o
resultado. É a chamada concausa.
Esta “concausa” pode ser absolutamente independente ou relativamente independente,
dependendo se teve ou não origem na conduta do agente.
2.2. Causas absolutamente independentes
2.2.1. Conceito
São aquelas que não tem origem na conduta do agente. A expressão “absolutamente”
serve para designar que a outra causa independente por si só produziu o resultado. São causas
que não se inserem na linha do desdobramento natural da conduta do agente, ou seja, causas
inusitadas, desvinculadas da ação do agente, surgindo de fonte distinta.
Em síntese, por serem independentes, tais causas atuam como se tivessem por si sós
produzido o resultado, situando-se fora da linha de desdobramento causal da conduta.
Há, na verdade, uma quebra do nexo causal.
2.2.2. Espécies de causas absolutamente independentes
a) Preexistentes
Trata-se de causa que existia antes da conduta do agente e produzem o resultado
independentemente da sua atuação. Ou seja, com ou sem a ação do agente o resultado ocorreria
do mesmo modo.
EXEMPLO
O agente desfere um disparo de arma de fogo contra a vítima, que, no entanto, vem
a falecer pouco depois, não em consequência dos ferimentos recebidos, mas
porque antes ingerira veneno com a intenção de suicidar.
Nesse caso, há a conduta do agente (efetuar o disparo), mas o que gerou o resultado
morte foi outra causa (o veneno). Essa outra causa é independente da conduta do agente
(porque por si só produziu o resultado). É absolutamente independente (porque não teve origem
na conduta do agente, pois tendo ou não efetuado o disparo o resultado ainda assim se
produziria). É preexistente porque essa outra causa (veneno) já existia antes da ação do agente.
b) Concomitantes
São as causas que não têm nenhuma relação com a conduta e produzem o resultado
independentemente desta, no entanto, por coincidência, atuam exatamente no instante em que
a ação é realizada.
EXEMPLO
“A” desfere golpe de faca contra “B” no exato momento em que este vem a falecer
exclusivamente por força de uma queda de um lustre sobre sua cabeça.
Nesse caso, há a conduta do agente (desferir o golpe de faca), mas o que gerou o
resultado morte foi outra causa (lustre na cabeça). O lustre na cabeça se trata de causa
independente da conduta do agente (porque por si só produziu o resultado). É absolutamente
independente (porque não teve origem na conduta do agente, pois tendo ou não efetuado
desferido o golpe o resultado ainda assim se produziria). É concomitante porque essa outra
causa (queda do lustre na cabeça) ocorreu exatamente no momento da ação do agente.
c) Supervenientes
São causas que atuam após a conduta. Ou seja, que surgem depois da conduta
desenvolvida pelo agente.
EXEMPLO
“A” ministra veneno na alimentação de “B”. Antes do veneno produzir efeitos, mas
minutos depois de ser ministrado, cai um lustre na cabeça da vítima, matando-a.
Nesse caso, há a conduta do agente (ministrar veneno), mas o que gerou o resultado
morte foi outra causa (lustre na cabeça). O lustre na cabeça é uma causa independente da
conduta do agente (porque por si só produziu o resultado). É absolutamente independente
(porque não teve origem na conduta do agente, pois tendo ou não ministrado o veneno o
resultado ainda assim se produziria). É superveniente porque essa outra causa (queda do lustre
na cabeça) ocorreu depois da conduta do agente.
2.2.3. Consequências das causas absolutamente independentes
Quando a causa é absolutamente independente da conduta do sujeito, o problema é
resolvido pelo art. 13, caput, do CP: Há exclusão da causalidade decorrente da conduta. Ou seja,
o agente responde somente por aquilo que deu causa.
Nos exemplos, a causa da morte não tem ligação alguma com o comportamento do
agente. Em face disso, ele não responde pelo resultado morte, mas sim pelos atos praticados
antes de sua produção. Isso porque ocorreu quebra do nexo causal. Assim, se o dolo era de
matar, o agente responderia por tentativa de homicídio.
CUIDADO: Se o enunciado apontar dolo de lesão corporal, por exemplo, o agente
responderá por aquilo que deu causa: lesão corporal (leve, grave ou gravíssima).
2.3. Causas relativamente independentes
2.3.1. Conceito
Causas relativamente independentes são aquelas que tiveram origem na conduta do
agente. Ou seja, essas causas somente surgiram porque o agente desenvolveu uma conduta.
Como são causas independentes, produzem por si sós o resultado, não se situando dentro
da linha de desdobramento causal da conduta. Por serem, no entanto, apenas relativamente
independentes, encontram sua origem na própria conduta praticada pelo agente.
Aqui não há, de regra, uma quebra do nexo causal, mas uma soma entre as causas, que,
ao final, conduzem ao resultado lesivo.
2.3.2. Espécies de causas relativamente independentes
a) Preexistentes
A causa que efetivamente gerou o resultado já existia ao tempo da conduta do agente,
que concorreu para a sua produção.
EXEMPLO
“A”, com a intenção de matar, desfere um golpe de faca na vítima, que é hemofílica
e vem a morrer em face da conduta, somada à contribuição de seu peculiar estado
fisiológico. No caso, o golpe isoladamente seria insuficiente para produzir o
resultado fatal, de modo que a hemofilia atuou de forma independente, produzindo
por si só o resultado.
Nesse caso, há a conduta do agente (golpe de faca), mas o que desencadeou
efetivamente o resultado morte foi outra causa (hemofilia). Essa outra causa é independente da
conduta do agente (porque por si só produziu o resultado). É relativamente independente
(porque teve origem na conduta do agente, pois, se não tivesse desferido a facada, essa outra
causa não seria desencadeada e o resultado não ocorreria). É preexistente porque essa outra
causa (hemofilia) já existia ao tempo da ação do agente.
Nesse caso, como há uma soma de causas e não quebra do nexo causal, o agente
responde pelo resultado pretendido. No caso, homicídio consumado, a menos que não tenha
concorrido para ele com dolo ou culpa.
Isso, porque, segundo doutrina majoritária, a imputação do resultado ao agente exige que
ele tenha conhecimento do estado de saúde do agente (que denota dolo) ou que, pelo menos,
que lhe fosse previsível (indicativo de culpa).
Assim, se, por exemplo, o agente não sabia do estado de saúde da vítima ou não lhe era
previsível, não poderia lhe ser atribuído o resultado morte, responderia, pois, pelo delito de
tentativa de homicídio (se agiu com a intenção de matar).
Se, no entanto, pretendia ferir a vítima, agredindo-a com um soco e, esta em razão da
hemofilia, desconhecida pelo agente, vem a falecer em razão da eclosão de uma hemorragia, o
agente somente será responsabilizado pelo delito de lesão corporal.
b) Concomitantes
A causa que efetivamente produziu o resultado surge no exato momento da conduta do
agente.
EXEMPLO
Considera-se o ataque à vítima, por meio de disparo de arma de fogo, que, no exato
momento da agressão, sofre ataque cardíaco, vindo a falecer, apurando-se que a
soma desses fatores (causas) produziu a morte, já que a agressão e o ataque
cardíaco, considerados isoladamente, não teriam o condão do produzir o resultado
morte.
Nesse caso, há a conduta do agente (disparo de arma de fogo), mas o que desencadeou
efetivamente o resultado morte foi outra causa (ataque cardíaco). Essa outra causa é
independente da conduta do agente (porque por si só produziu o resultado). É relativamente
independente (porque teve origem na conduta do agente, pois, se não tivesse desferido a facada,
essa outra causa não seria desencadeada e o resultado não ocorreria). É concomitante porque
essa outra causa (ataque cardíaco) foi potencializada no exato momento da conduta do agente.
Nesse caso, como há uma soma de causas e não quebra do nexo causal, o agente
responde pelo resultado pretendido. No caso, homicídio consumado, a menos que não tenha
concorrido para ele com dolo ou culpa.
c) Supervenientes
A causa que efetivamente produziu o resultado ocorre depois da conduta praticada pelo
agente.
EXEMPLO
O agente desfere um golpe de faca contra a vítima, com a intenção de matá-la.
Ferida, a vítima é levada ao hospital e sofre acidente no trajeto, vindo, por esse
motivo, a falecer. A causa é independente, porque a morte foi provocada pelo
acidente e não pela facada, mas essa independência é relativa, já que, se não
fosse o ataque, a vítima não estaria na ambulância acidentada e não morreria.
Tendo atuado posteriormente à conduta, denomina-se causa superveniente.
Nesse caso, há a conduta do agente (golpe de faca), mas o que desencadeou
efetivamente o resultado morte foi outra causa (traumatismo decorrente do acidente). Essa outra
causa é independente da conduta do agente (porque por si só produziu o resultado). É
relativamente independente (porque teve origem na conduta do agente, pois, se não tivesse
desferido a facada, a vítima não estaria na ambulância e, portanto, não teria falecido por conta
do acidente). É superveniente porque essa outra causa (traumatismo pelo acidente) surgiu
depois da conduta do agente
Na hipótese das causas supervenientes, embora exista nexo físico-naturalístico, a
lei, por expressa disposição do art. 13, § 1º, CP, que excepcionou a regra geral,
exclui a imputação do resultado ao agente, devendo, no entanto, responder pelos
atos anteriormente efetivamente praticados.
Assim, o agente não responde pelo resultado ocorrido, mas somente pelos atos
anteriores, que, no caso, foi tentativa de homicídio.
CUIDADO
Se o enunciado apontar dolo de lesão corporal, por exemplo, o agente responderá
pelos atos anteriores praticados, no caso, lesão corporal (leve, grave ou
gravíssima).
2.4. Dúvida mais recorrente
E se o agente não sabia e não tinha condições de saber da existência da causa
preexistente ou concomitante, como fica?
No contexto do nexo causal, notadamente nas causas relativamente independentes
preexistentes e concomitantes, a responsabilização do agente depende do elemento psicológico
(dolo) ou normativo (culpa). Assim, o agente somente responderá pelo resultado se tiver agido
com dolo ou culpa em relação à morte, sob pena de responsabilidade objetiva.
Assim, para que o agente responda pelo resultado morte e, portanto, a concausa
relativamente independente preexistente e concomitante deve ser conhecida do agente ou ao
menos existir possibilidade de conhecimento, sob pena de responsabilidade penal objetiva. Foi
o que caiu no XXI exame da OAB. O agente não foi responsabilizado pela morte, porque não
tinha conhecimento da causa preexistente, nem lhe era previsível. Responderia apenas por lesão
corporal.
Exemplo de questão
Paulo e Júlio, colegas de faculdade, comemoravam juntos, na cidade de São Gonçalo,
o título obtido pelo clube de futebol para o qual o primeiro torce. Não obstante o clima de
confraternização, em determinado momento, surgiu um entrevero entre eles, tendo Júlio
desferido um tapa no rosto de Paulo. Apesar da pouca intensidade do golpe, Paulo vem
a falecer no hospital da cidade, tendo a perícia constatado que a morte decorreu de uma
fatalidade, porquanto, sem que fosse do conhecimento de qualquer pessoa, Paulo tinha
uma lesão pretérita em uma artéria, que foi violada com aquele tapa desferido por Júlio
e causou sua morte. O órgão do Ministério Público, em atuação exclusivamente perante
o Tribunal do Júri da Comarca de São Gonçalo, denunciou Júlio pelo crime de lesão
corporal seguida de morte (Art. 129,§ 3º, do CP). Considerando a situação narrada e não
havendo dúvidas em relação à questão fática, responda, na condição de advogado(a)
de Júlio:
A) É competente o juízo perante o qual Júlio foi denunciado? Justifique. (Valor: 0,65)
B) Qual tese de direito material poderia ser alegada em favor de Júlio? Justifique. (Valor:
0.60)
Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar as respostas. A mera citação do dispositivo
legal não confere pontuação.
GABARITO COMENTADO
A) O(A) examinando(a) deve concluir pela incompetência do Juízo, tendo em vista que
o crime praticado não é doloso contra a vida. Nos termos do Art. 74, § 1º, do Código de
Processo Penal (ou Art. 5º, inciso XXXVIII, alínea d, da CRFB), ao Tribunal do Júri cabe
apenas o julgamento dos crimes dolosos contra a vida e os conexos. No caso, mesmo
de acordo com a imputação contida na denúncia, o resultado de morte foi culposo; logo,
a competência é do juízo singular.
B) O(A) examinando(a) deve defender que não poderia Júlio responder pelo crime de
lesão corporal seguida de morte, porque aquele resultado não foi causado a título de
dolo nem culpa. O crime de lesão corporal seguida de morte é chamado de preterdoloso.
A ação é dirigida à produção de lesão corporal, sendo o resultado morte produzido a
título de culpa. Costuma-se dizer que há dolo no antecedente e culpa no consequente.
Um dos elementos da culpa é a previsibilidade objetiva, somente devendo alguém ser
punido na forma culposa quando o resultado não querido pudesse ser previsto por um
homem médio, sendo que a ausência de previsibilidade subjetiva, capacidade do agente,
no caso concreto, de prever o resultado, repercute na culpabilidade. Na hipótese, não
havia previsibilidade objetiva, o que impede a tipificação do delito de lesão corporal
seguida de morte. Também poderia o candidato responder que havia uma concausa
preexistente, relativamente independente, desconhecida, impedindo Júlio de responder
pelo resultado causado. Em princípio, a concausa relativamente independente
preexistente não impede a punição do agente pelo crime consumado. Contudo, deve ela
ser conhecida do agente ou ao menos existir possibilidade de conhecimento, sob pena
de responsabilidade penal objetiva.
Agora, se, por exemplo, a intenção fosse de lesionar e resultou morte, tendo ciência da
hemofilia, responde por lesão corporal seguida de morte. Isso já caiu na prova da OAB.
Exemplo de questão
Wallace, hemofílico, foi atingido por um golpe de faca em uma região não letal do
corpo. Júlio, autor da facada, que não tinha dolo de matar, mas sabia da condição de
saúde específica de Wallace, sai da cena do crime sem desferir outros golpes, estando
Wallace ainda vivo. No entanto, algumas horas depois, Wallace morre, pois, apesar de
a lesão ser em local não letal, sua condição fisiológica agravou o seu estado de saúde.
Acerca do estudo da relação de causalidade, assinale a opção correta.
A) O fato de Wallace ser hemofílico é uma causa relativamente independente
preexistente, e Júlio não deve responder por homicídio culposo, mas, sim, por
lesão corporal seguida de morte.
B) O fato de Wallace ser hemofílico é uma causa absolutamente independente
preexistente, e Júlio não deve responder por homicídio culposo, mas, sim, por lesão
corporal seguida de morte.
C) O fato de Wallace ser hemofílico é uma causa absolutamente independente
concomitante, e Júlio deve responder por homicídio culposo.
D) O fato de Wallace ser hemofílico é uma causa relativamente independente
concomitante, e Júlio não deve responder pela lesão corporal seguida de morte, mas,
sim, por homicídio culposo.
Em relação à causa concomitante relativamente independente, a FGV já considerou que
o agente, no contexto do roubo por meio de ameaça, não responderia pelo resultado morte de
um rapaz jovem e de boa saúde, já que não era previsível que a vítima viesse a falecer. Ou seja,
não basta que haja um nexo naturalístico entre a conduta e o resultado. Para imputar ao agente
o resultado, é necessário que tenha agido com dolo ou culpa em relação à morte.
Em síntese, além de não incidir o latrocínio em decorrência da ameaça, já que o artigo
157, § 3º, II, do CP, prevê que o roubo será qualificado quando da violência resulta morte, se
não tinha como prever eventual resultado morte, ou seja, não agiu nem com dolo ou culpa em
relação ao resultado morte, não responderá pela morte, mas por roubo consumado ou tentado,
conforme o caso. Isso já caiu na 1ª fase da OAB, no IX Exame. Note que o enunciado traz a
informação de que a vítima se trata de um rapaz jovem e de boa saúde, sem histórico de doença
cardiovascular.
Exemplo de questão
José subtrai o carro de um jovem que lhe era totalmente desconhecido, chamado João.
Tal subtração deu-se mediante o emprego de grave ameaça exercida pela utilização de
arma de fogo. João, entretanto, rapaz jovem e de boa saúde, sem qualquer histórico de
doença cardiovascular, assusta-se de tal forma com a arma, que vem a óbito em virtude
de ataque cardíaco. Com base no cenário acima, assinale a afirmativa correta.
A) José responde por latrocínio.
B) José não responde pela morte de João.
C) José responde em concurso material pelos crimes de roubo e de homicídio culposo.
D) José praticou crime preterdoloso.
3) (QUESTÃO 03 – EXAME 2010-02)
Pedro, almejando a morte de José, contra ele efetua disparo de arma de fogo, acertando-o na
região toráxica. José vem a falecer, entretanto, não em razão do disparo recebido, mas porque,
com intenção suicida, havia ingerido dose letal de veneno momentos antes de sofrer a agressão,
o que foi comprovado durante instrução processual. Ainda assim, Pedro foi pronunciado nos
termos do previsto no artigo 121, caput, do Código Penal.
Na condição de Advogado de Pedro:
I. Indique o recurso cabível;
II. O prazo de interposição;
III. A argumentação visando à melhoria da situação jurídica do defendido.
Indique, ainda, para todas as respostas, os respectivos dispositivos legais.
4) (QUESTÃO 1 – XXI EXAME)
Paulo e Júlio, colegas de faculdade, comemoravam juntos, na cidade de São Gonçalo, o título
obtido pelo clube de futebol para o qual o primeiro torce. Não obstante o clima de
confraternização, em determinado momento, surgiu um entrevero entre eles, tendo Júlio
desferido um tapa no rosto de Paulo. Apesar da pouca intensidade do golpe, Paulo vem a falecer
no hospital da cidade, tendo a perícia constatado que a morte decorreu de uma fatalidade,
porquanto, sem que fosse do conhecimento de qualquer pessoa, Paulo tinha uma lesão pretérita
em uma artéria, que foi violada com aquele tapa desferido por Júlio e causou sua morte. O órgão
do Ministério Público, em atuação exclusivamente perante o Tribunal do Júri da Comarca de São
Gonçalo, denunciou Júlio pelo crime de lesão corporal seguida de morte (Art. 129, § 3º, do CP).
Considerando a situação narrada e não havendo dúvidas em relação à questão fática,
responda, na condição de advogado(a) de Júlio:
A) É competente o juízo perante o qual Júlio foi denunciado? Justifique. (Valor: 0,65)
B) Qual tese de direito material poderia ser alegada em favor de Júlio? Justifique. (Valor:
0.60)
Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar as respostas. A mera citação do dispositivo legal
não confere pontuação.
5) Durante uma grave discussão, ocorrida no serviço, Licurgo Moicano agrediu Coitinho Lelo com
uma paulada na cabeça, com a intenção de matá-lo. Atendido com rapidez, Coitinho Lelo foi
colocado dentro de uma ambulância que rumou para o Pronto Socorro Municipal. No trajeto, a
ambulância capotou, vindo Coitinho Lelo a falecer em razão do acidente. Diante do fato e à luz
do ordenamento jurídico penal, responda se Licurgo Moicano deve ser responsabilizado
penalmente? Em caso afirmativo, indique qual o crime, empregando os argumentos
jurídicos apropriados e a fundamentação legal pertinente ao caso.
6) (QUESTÃO 4 – XXV EXAME – REAPLICAÇÃO PORTO ALEGRE)
Vitor efetuou disparos de arma de fogo contra José, com a intenção de causar sua morte. Ocorre
que, por erro durante a execução, os disparos atingiram a perna de seu inimigo e não o peito,
como pretendido. Esgotada a munição disponível, Vitor empreendeu fuga, enquanto José
solicitou a ajuda de populares e compareceu, de imediato, ao hospital para atendimento médico.
Após o atendimento médico, já no quarto com curativos, enquanto dormia, José vem a ser picado
por um escorpião, vindo a falecer no dia seguinte em razão do veneno do animal,
exclusivamente. Descobertos os fatos, considerando que José somente estava no hospital em
razão do comportamento de Vitor, o Ministério Público oferece denúncia em face do autor dos
disparos pela prática do crime de homicídio consumado, previsto no Art. 121, caput, do Código
Penal. Após regular prosseguimento do feito, na audiência de instrução e julgamento da primeira
fase do procedimento do Tribunal do Júri, quando da oitiva das testemunhas, o magistrado em
atuação optou por iniciar a oitiva das testemunhas formulando diretamente suas perguntas, sem
permitir às partes complementação. Após alegações finais orais das partes, o magistrado proferiu
decisão de pronúncia. Apesar da impugnação da defesa quanto à formulação das perguntas pelo
juiz, o magistrado esclareceu que não importaria quem fez a pergunta, pois as respostas seriam
as mesmas. Com base apenas nas informações narradas, na condição de advogado(a) de
Vitor, responda aos itens a seguir.
A) Qual o recurso cabível da decisão proferida pelo magistrado e qual argumento de
direito processual pode ser apresentado em busca da desconstituição de tal decisão?
Justifique. (Valor: 0,65)
B) Existe argumento de direito material a ser apresentado, em momento oportuno, para
questionar a capitulação jurídica apresentada pelo Ministério Público? Justifique. (Valor:
0,60) Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar as respostas. A mera citação do
dispositivo legal não confere pontuação.
Conflito aparente de normas
Prof. Nidal Ahmad
@[Link]
3.1. Introdução
O conflito aparente de normas se revela quando se tem a percepção da incidência, em
tese, de duas ou mais normas em vigor sobre determinado fato. Neste caso, surge o que se
denomina conflito aparente de normas penais, também chamado concurso aparente de normas,
concurso aparente de normas coexistentes, concurso ideal impróprio e concurso impróprio de
normas.
Há um fato, em tese, punível, mas que sobre ele podem incidir, aparentemente, duas ou
mais normas penais. Todavia, tendo em vista ser vedada a incidência de mais de uma norma
penal sobre fato único, apenas uma das normas possíveis deverá ser aplicada ao caso concreto.
Assim, no conflito aparente de normas, há a presença dos seguintes elementos: a)
unidade do fato (há somente uma infração penal); b) pluralidade de normas (duas ou mais
normas pretendendo regulá-lo); c) todas as normas em vigor, com a incidência de apenas uma
delas sobre o fato.
Imaginemos o caso de uma mãe matar, sob influência do estado puerperal, o próprio filho,
logo após o parto. Há um único fato sobre o qual, aparentemente, pode incidir o crime de
homicídio, previsto no art. 121 do CP, ou infanticídio, previsto no art. 123 do CP. Eis o conflito de
normas estabelecido, já que apenas uma delas deverá incidir sobre o fato.
A solução do conflito aparente de normas ganha especial importância sobretudo para
evitar o bis in idem, já que não se admite no nosso ordenamento jurídico dupla punição pelo
mesmo fato. Ou seja, não se mostra possível punir a mãe pelo crime de homicídio e de
infanticídio, devendo, no caso, incidir apenas uma dessas normas.
O conflito de normas é aparente, pois será sanado com a aplicação do princípio adequado
ao caso. Em outras palavras, o conflito que se estabelece entre as normas é apenas aparente,
porque, na realidade, somente uma delas acaba regulamentando o fato, ficando afastadas as
demais.
3.2. Conflito aparente de normas x concurso de crimes
No conflito aparente de normas há um único fato, retratado por única conduta, devendo
sobre ela incidir apenas uma das normas vigentes. No concurso de crimes há pluralidade de
condutas, ensejando a incidência de dois ou mais fatos delituosos. Nesse caso de pluralidade
de crimes, evidentemente será possível a aplicação de mais de uma norma penal, uma para
cada fato praticado, resultando na soma ou exasperação da pena final.
O conflito aparente de normas não encontra previsão expressa no ordenamento jurídico,
sendo suas bases construídas pela doutrina e jurisprudência. Já as regras do concurso de crimes
estão expressamente previstas no Código Penal, mais especificamente nos arts. 69 a 72 do
referido diploma legal.
3.3. Princípios para dirimir o conflito aparente de normas
Diante da ausência de expressa previsão legal de regras voltadas a dirimir o conflito
aparente de normas, a doutrina aponta quatro princípios para solucionar tal conflito: a)
especialidade; b) subsidiariedade; c) consunção; e d) alternatividade.
3.3.1. Princípio da especialidade
Trata-se da aplicação da regra de que a lei especial afasta a aplicação da lei geral.
A lei especial, ou específica, caracteriza-se por se revestir de sentido diferenciado,
individualizado, que a particulariza em relação às demais normas. Dito de outro modo, além de
reunir todos os elementos que integram a lei geral, a lei especial contém outros que a torna
específica, que a particulariza, chamados elementos especializantes.
E, nos termos do art. 12 do CP, a lei especial prevalece sobre a lei geral.
Tomemos, novamente, como exemplo o caso de uma mãe matar, sob influência do estado
puerperal, o próprio filho, durante ou logo após o parto. Há um único fato sobre o qual,
aparentemente, pode incidir o crime de homicídio, previsto no art. 121 do CP, ou infanticídio,
previsto no art. 123 do CP. O crime de infanticídio possui núcleo idêntico ao do crime de
homicídio, ou seja, reúne todos os elementos descritos no art. 121 do CP, consistentes em “matar
alguém”. Todavia, além dos elementos da norma geral, prevista no art. 121 do CP, o art. 123 do
CP contém elementos que o especializa e o diferencia do crime de homicídio, quais sejam: autora
do fato ser a própria genitora da vítima; vítima nascente ou neonato; crime praticado sob
influência do estado puerperal.
Note-se que se estabeleceu um conflito entre as normas dos arts. 121 e 123 do CP, mas
que é aparente, pois será solucionado pelo princípio da especialidade, prevalecendo, no caso, a
norma penal que define o crime de infanticídio, já que as elementares contidas neste crime o
torna especial em relação à norma geral que define o homicídio.
As normas genéricas e as específicas não exigem que estejam presentes no mesmo
diploma legal, podendo estar previstas em leis distintas. Ou seja, não se afigura necessário que
a norma geral e a especial estejam previstas no Código Penal, por exemplo. É possível, portanto,
que a norma geral esteja prevista no Código Penal e a especial em legislação extravagante.
É o que ocorre, por exemplo, entre os crimes de contrabando, previsto no art. 334-A do
CP, e o crime de tráfico de drogas, previsto no art. 33, caput, da Lei no 11.343/2006. Sobre a
conduta de importar cocaína pode, aparentemente, incidir duas normas: a que define o crime de
contrabando e a que prevê o crime de tráfico de drogas. Todavia, esse conflito é resolvido pelo
princípio da especialidade. O art. 33, caput, da Lei no 11.343/2006 reúne todos os elementos
contidos no tipo penal que descreve o crime de contrabando, acrescido de elementares que o
especializa, qual seja, importar droga, prevalecendo, assim, sobre a norma geral.
Convém destacar que a gravidade de um crime em relação a outro não é determinante
para se definir qual a norma especial. De fato, a comparação entre as leis não leva em conta a
gravidade dos crimes, mas o critério especializante, mediante o confronto dos elementos que
integram a definição abstrata das normas penais.
A comparação não recai sobre o fato, mas entre as normas penais que aparentemente
podem incidir sobre o delito praticado. Assim, deve-se buscar adequar o fato praticado às normas
possíveis. Se, além de se enquadrar na norma geral, o fato praticado apresentar algum elemento
que o especialize, que o destaque, que o especifique em relação à conduta descrita na norma
geral, prevalecerá a incidência da lei especial. Em outras palavras, se, além de abrigar todos os
elementos da lei geral, conter ainda elementos que a especifiquem, a lei especial prevalece sobre
a geral.
3.3.2. Princípio da subsidiariedade
Para melhor compreensão do princípio da subsidiariedade, convém, por primeiro,
estabelecer distinção entre norma primária e norma subsidiária.
A norma primária ou principal é aquela que descreve a conduta de forma mais abrangente,
contemplando, inclusive, aquela descrita na norma subsidiária. Trata-se, pois, de norma que
descreve conduta de forma mais abrangente, que atinge com maior gravidade determinado bem
jurídico.
Considera-se subsidiária a norma que descreve uma conduta que atinge em menor grau
um determinado bem jurídico, sendo, pois, menos grave do que a norma principal. A norma
subsidiária, portanto, além de ser menos grave, descreve conduta que representa parte da
execução do delito previsto na norma principal. A norma subsidiária está abarcada pela norma
principal.
Tomemos como exemplo o tipo penal que define o crime de constrangimento ilegal (CP,
art. 146) em consonância com o crime de estupro (CP, art. 213). O delito de constrangimento
ilegal é menos grave que o de estupro. Além disso, o tipo penal que define o crime de
constrangimento ilegal descreve uma parte da execução do crime de estupro, consistente em
“constranger”. Logo, a norma que define o crime de constrangimento ilegal é subsidiária,
enquanto a que define o crime de estupro é a principal.
Note-se que, ao contrário do que ocorre no princípio da especialidade, a comparação não
é meramente entre as normas (uma mais especial do que a outra), mas em relação ao fato. Ou
seja, para a aplicação do princípio da subsidiariedade, é imprescindível a análise do caso
concreto, sendo insuficiente a mera comparação abstrata dos tipos penais, devendo ser
verificado, por exemplo, a intenção do agente, os meios empregados para a prática do crime,
além de outras circunstâncias que envolvem o contexto fático, a fim de ser verificada a extensão
da gravidade do delito praticado.
Isso porque a norma principal ou primária absorve a norma subsidiária, que incidirá
somente na impossibilidade de aplicação da norma principal mais grave. Primeiro, verifica-se,
considerando as circunstâncias do caso concreto, se não incide a norma primária. Se a conduta
não se enquadrar perfeitamente no tipo penal mais grave, passa-se então a cogitar da incidência
da norma subsidiária. É como, perdoe-nos a analogia, se o jogador titular do grande grêmio
imortal não puder entrar em campo, jogará o reserva.
A subsidiariedade pode ser expressa ou tácita.
[Link]. Subsidiariedade expressa
A subsidiariedade expressa se caracteriza por estar formalmente declarada na norma. A
própria norma penal prevê expressamente que será aplicável somente quando outra norma de
maior gravidade não incidir. Em outras palavras, a própria lei faz expressa ressalva ao seu
caráter de subsidiariedade, admitindo incidir somente se o fato praticado não caracterizar crimes
mais grave.
O crime de expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente constitui exemplo
de subsidiariedade expressa, porquanto o próprio art. 132 do CP prevê que incidirá a pena de
detenção, de três meses a um ano pela prática de tal delito, “se o fato não constitui crime mais
grave”. Assim, se não restar caracterizada a prática, por exemplo, de tentativa de homicídio
(norma primária), poderá, conforme o caso, incidir o delito previsto no art. 132 do CP (norma
subsidiária).
O crime de lesão corporal seguido de morte também se reveste de caráter de
subsidiariedade, uma vez que, como expressamente consta no art. 129, § 3o, do CP, somente
incidirá se “as circunstâncias evidenciam que o agente não quis o resultado, nem assumiu o risco
de produzi-lo”. Logo, se não restar demonstrado que o agente quis a morte da vítima ou assumiu
o risco de causá-la, o que ensejaria a aplicação do art. 121 do CP (norma primária), incidirá o
crime previsto no art. 129, § 3o, do CP (norma subsidiária).
A norma subsidiária que define o crime de subtração de incapaz, previsto no art. 249 do
CP, somente incidirá “se o fato não constitui elemento de outro crime”. Assim, se, por exemplo,
o agente subtraiu/sequestrou o menor de 18 anos como condição ou preço de resgate, incorrerá
no crime de extorsão mediante sequestro, previsto no art. 159 do CP (norma principal).
O crime de importunação sexual, previsto no art. 215-A do CP, incluído pela Lei no
13.718/2018, incidirá “se o ato não constitui crime mais grave”, conforme expressamente prevê
o referido dispositivo legal. Logo, o delito de importunação sexual somente incidirá se a conduta
do agente não caracterizar crime mais grave, como, por exemplo, estupro (CP, art. 213) ou
estupro de vulnerável (CP, art. 217-A).
Assim, como já decidiu o STJ, a conduta do agente que surpreendeu a vítima, puxando-a
pelo braço, para fazê-la tocar em seu órgão genital, não obtendo êxito porque a vítima conseguiu
dele se desvencilhar, enquadra-se no art. 213 c/c art. 14, II, ambos do CP, já que se trata de ato
mais grave do que aquele previsto no art. 215-A do CP. Poder-se-ia cogitar da incidência do art.
215-A do CP (norma subsidiária), se a ação atentatória contra o pudor praticada com propósito
lascivo contra a vítima tivesse ocorrido sem violência ou grave ameaça.1
1 STJ, AgRg no REsp no 1767968/MG, rel. Min. Nefi Cordeiro, 6a T., j. 5-5-2020.
[Link]. Subsidiariedade tácita
A subsidiariedade tácita ou implícita ocorre quando a norma penal não ressalva, de modo
expresso, a sua incidência na hipótese de outra norma de maior gravidade punitiva não ser
aplicável ao caso concreto.
Não há previsão expressa da natureza subsidiária da norma, extraindo-se essa condição
do contexto que envolveu o fato praticado, que não se enquadra em norma penal mais grave.
Busca-se, agora, adequar o fato ao tipo penal subsidiário, que prevê tratamento menos grave,
tanto que, não raras vezes, constitui elementar, qualificadora, causa de aumento de pena,
agravante ou meio de execução do crime previsto na norma principal ou primária.
O crime de constrangimento ilegal (CP, art. 146) é tacitamente subsidiário em relação ao
crime de estupro (CP, art. 213). Assim, se, no caso concreto, não restar caracterizado que o
constrangimento, praticado mediante violência ou grave ameaça, tinha por finalidade a prática
de conjunção carnal ou qualquer ato libidinoso, possível incidir o crime de constrangimento ilegal.
Logo, a conduta do agente que aponta uma arma em direção à vítima maior de idade,
determinando que fique nua, sem o dolo lascivo, mas tão somente para constrangê-la, não se
enquadra no crime de estupro, porque não foi compelida a praticar ou permitir que com ela se
pratique ato sexual. Todavia, porque a vítima foi constrangida a fazer algo contra sua vontade,
incide a norma subsidiária, prevista no art. 146 do CP.
3.3.3. Princípio da consunção ou da absorção
[Link]. Introdução
Diversamente do princípio da subsidiariedade, em que a prática de um ato delituoso deve
ser enquadrada na norma mais grave, o princípio da consunção é aplicado para dirimir conflito
aparente de normas decorrente de uma sequência de fatos delituosos, que, isoladamente,
constituem crime, mas que, ao final, devem ser subsumidos a um único tipo penal. Em outras
palavras, os atos delituosos praticados para alcançar o resultado esperado serão absorvidos
pelo crime desejado, resultando, assim, na responsabilização do agente pela prática de um
crime.
Contextualizando para melhor compreensão. Imaginemos um agente que desfere golpe
de faca na vítima, causando-lhe lesões corporais; na sequência, desfere outro golpe de faca na
vítima, gerando outra lesão corporal; e, por fim, desfere o golpe fatal, matando-a. Temos duas
lesões corporais em sequência e, ao final, o homicídio. Dessa sequência de fatos delituosos
surge o conflito aparente de normas. O agente deverá responder por três crimes (duas lesões
corporais e homicídio) ou apenas pelo crime de homicídio?
Pelo princípio da consunção, ou da absorção, o fato mais abrangente e grave consome,
absorve, o(s) fato(s) menos abrangentes. Os fatos menos abrangentes figuram como meio
necessário ou normal fase de preparação ou execução de outro crime. Nesse caso, a norma
consuntiva prevalece sobre a norma consumida. Trata-se da hipótese de o crime meio ser
absorvido pelo crime fim.
Prevalece, nessa hipótese, a norma penal que define o crime mais abrangente, que
absorverá a norma que prevê conduta de menor amplitude, evitando-se a incidência do bis in
idem.
A aplicação do princípio da consunção se justifica, porque o bem jurídico protegido pela
norma menos abrangente já está tutelado pela norma mais abrangente. Além disso, a violação
da norma menos abrangente constitui meio necessário para atingir o bem jurídico tutelado pela
norma mais abrangente.
Assim, considerando o exemplo acima, a integridade corporal (bem jurídico tutelado pelo
art. 129 do CP) também está protegido pela norma mais abrangente prevista no art. 121 do
CP. E, ainda, como a ofensa à integridade corporal constitui meio necessário para alcançar o
crime de homicídio, as lesões corporais previamente praticadas serão absorvidas pelo crime de
homicídio. Em síntese, o agente responderá unicamente pelo crime de homicídio (CP, art. 121).
[Link]. Hipóteses de incidência do princípio da consunção
O princípio da consunção pode ser aplicado em quatro situações distintas: crime
progressivo, progressão criminosa, crime complexo e fatos impuníveis.
a) Crime progressivo
No crime progressivo, o agente, desejando desde o início produzir um resultado mais
grave, pratica previamente sucessão de fatos, que, isoladamente, constituem crime, até alcançar
o resultado final almejado. Ou seja, para alcançar o resultado pretendido, o agente pratica atos
antecedentes de menor gravidade, sem os quais não seria possível atingir a consumação do
delito desejado. O ato final, ensejador do resultado inicialmente pretendido, absorve todos os
anteriores. Trata-se da hipótese dos denominados crimes de passagem.
No crime progressivo há, portanto, unidade de elemento subjetivo, sendo a conduta
composta de vários atos praticados progressivamente até produzir o resultado desejado.
Tomemos como exemplo o agente que pretende desde o início produzir a morte da vítima.
Para tanto, utiliza-se de uma faca, golpeando a vítima em várias partes do corpo, vindo ao final
a aplicar o golpe fatal, causando-lhe a morte. Há um único elemento subjetivo, sendo a conduta
composta por vários atos praticados de forma progressiva até atingir o resultado mais grave.
Surge, assim, o conflito aparente de normas: o agente responderá pelos delitos de lesão corporal
(CP, art. 129) e homicídio (CP, art. 121) ou apenas pelo crime de homicídio (CP, art. 121)??
Nesse caso, aplicando-se o princípio da consunção, o agente responderá apenas pelo crime de
homicídio (CP, art. 121), pois as várias lesões corporais produzidas pelos golpes de faca
constituíram meio necessário para a execução do delito pretendido, sendo, por isso, absorvidas
pelo crime de homicídio.
Convém ressaltar que o princípio da consunção somente poderá ser adotado se
evidenciada relação de dependência ou de subordinação entre as condutas, bem como que os
delitos sequenciais foram praticados no mesmo contexto fático.
Essa premissa é fundamental para a verificação da incidência do princípio da consunção
em relação aos crimes de porte ilegal de arma e homicídio, bem como crime de porte ilegal de
arma de fogo e roubo majorado pelo emprego de arma de fogo.
E, nesse aspecto, o STJ sedimentou entendimento no sentido de que a absorção do crime
de porte ilegal de arma de fogo pelo de homicídio exige que as condutas tenham sido praticadas
no mesmo contexto, guardando relação de dependência ou subordinação, de modo que o porte
tenha como fim unicamente a prática do delito de homicídio.2
Assim, se restar demonstrado que o agente portava a arma em ocasiões distintas da
prática do crime de homicídio, não será aplicado o princípio da consunção, diante da incidência
de crimes autônomos e independentes entre si. Logo, nesse caso, o agente responderá pelo
delito previsto na Lei no 10.826/2003 e crime de homicídio, em concurso material de crimes.
b) Progressão criminosa
A progressão criminosa não se confunde com crime progressivo.
Enquanto no crime progressivo há, desde o início da conduta do agente, único elemento
subjetivo, na progressão criminosa a intenção inicial é praticar o delito menor, e, durante a
2 STJ, AgRg no AgREsp no 1186399/MS, rel. Min. Nefi Cordeiro, 6a T., j. 3-5-2018.
execução do delito, o agente delibera por cometer o crime mais grave. Há, portanto, pluralidade
de fatos e de desígnios em progressividade delitiva.
Assim, se o dolo inicial era o de praticar apenas lesão corporal, mas, ao longo da
execução, o agente decidir matar a vítima, haverá pluralidade de desígnios, com modificação do
dolo (primeiro, pretendia lesionar; após, deliberou por matar a vítima) e pluralidade de condutas,
praticadas em progressividade delitiva. Nesse caso, o agente responderá apenas pelo crime de
homicídio, restando absorvidas as lesões corporais praticadas.
c) Fatos impuníveis
Pode ocorrer de o agente realizar uma conduta anterior ou posterior, previstos como
delitos autônomos, mas que, ao final, são impuníveis. Trata-se das hipóteses dos chamados ante
factum impunível e pos factum impunível.
O ante factum não punível ocorre quando um fato anterior menos grave constitui meio
necessário para a prática de outro fato, mais grave, ficando, por conseguinte, o primeiro
absorvido, sendo o fato antecedente mero indiferente penal.
Tomemos como exemplo o fato de o agente quebrar o vidro de um veículo, caracterizando
fato definido como crime de dano (CP, art. 163), para subtrair uma bolsa feminina que se
encontra no interior do automóvel. Nesse caso, o dano provocado na porta caracteriza o ante
factum impunível, já que funcionou como meio de execução para a subtração da bolsa. Logo, o
agente responderá apenas pelo crime de furto qualificado pelo rompimento de obstáculo (CP,
art. 155, § 4º, I), sendo o fato anterior (dano) absorvido.
Nos termos da Súmula no 17 do STJ, o crime de falso é absorvido pelo de estelionato,
quando nele se exaure
O post factum impunível ocorre quando, após realizada a conduta, o agente pratica nova
conduta voltada a ofender o mesmo bem jurídico, visando apenas tirar proveito da prática
anterior. Trata-se, pois, de mero exaurimento. Assim, se após o furto o agente destrói a coisa
subtraída, só responde pelo furto (CP, art. 155), que absorverá o crime de dano (CP, art. 163).
Neste caso, a lesão ao interesse jurídico causada pela conduta precedente torna indiferente o
crime de dano.
Adotando esse fundamento, o STJ já decidiu no sentido de que o uso de documento
falsificado (CP, art. 304) deve ser absorvido pela falsificação do documento público ou privado
(CP, arts. 297 e 298), quando praticado pelo mesmo agente, caracterizando o delito de uso post
factum não punível, ou seja, mero exaurimento do crime de falso, não respondendo o falsário
pelos dois crimes, em concurso material.3
3.3.4. Princípio da alternatividade
O princípio da alternatividade se aplica nos crimes de ação múltipla ou de conteúdo
variado, no qual o tipo penal descreve duas ou mais condutas como verbos nucleares do tipo.
Nesse caso, o tipo penal descreve várias condutas, que, se praticadas pelo agente, de forma
sucessiva, configura fato único.
Se o agente adquirir, guardar e vender determinada droga, praticando, assim, três das
condutas previstas no art. 33 da Lei no 11.343/2006, deverá ser imputado a ele a prática de um
crime de tráfico de drogas, não incidindo, no caso, concurso de três infrações.
3 STJ, AgRg no RHC no 112730/SP, rel. Min. Ribeiro Dantas, 5a T., j. 3-3-2020.
7) (XXV EXAME – REAPLICAÇÃO EM PORTO ALEGRE – TESE PRINCIPAL DA PEÇA)
Breno, nascido em 07 de junho de 1945, na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, falsifica
uma assinatura em uma folha de cheque e a apresenta em loja de eletrodomésticos localizada
no bairro de sua residência, com a intenção de realizar compras no valor de R$ 5.000,00 (cinco
mil reais). Após a apresentação do cheque, apesar de a falsificação não ser grosseira e ser apta
a enganar, o gerente do estabelecimento comercial percebe que aquele cheque não fora
assinado pelo verdadeiro correntista do banco, já que o nome que constava do título de crédito
era de um grande amigo seu. Descoberta a fraude, o referido gerente aciona a polícia, e Breno
é preso em flagrante antes de obter a vantagem pretendida. Com o recebimento dos autos, o
Ministério Público opina pela liberdade de Breno e oferece denúncia pela prática dos crimes do
Art. 171, caput, e Art. 297, § 2º, na forma do Art. 69, todos do Código Penal. Após concessão da
liberdade provisória e recebimento da denúncia, houve juntada do laudo pericial do cheque,
constatando a falsidade e a capacidade para iludir terceiros, bem como da Folha de
Antecedentes Criminais, no qual consta uma condenação definitiva pela prática, no ano anterior,
do crime de homicídio culposo na direção de veículo automotor, além de uma ação em curso
pela suposta prática de crime de furto. Durante a instrução, todos os fatos acima descritos são
confirmados pelas testemunhas, não tendo sido o réu interrogado, já que, apesar de intimado,
apresentou problemas de saúde no dia e não pôde comparecer à audiência. Ainda durante a
audiência de instrução e julgamento, após a instrução, as partes apresentaram suas alegações,
sendo consignado pela defesa o inconformismo com a ausência do réu, já que foi apresentado
atestado médico, e, em seguida, o juiz proferiu sentença condenatória nos termos da denúncia,
condenando o agente pela prática dos dois delitos em suas modalidades consumadas. No
momento de fixar a pena-base, aumentou o magistrado a pena do estelionato em 02 meses,
destacando que o comportamento de Breno não deixa qualquer dúvida de que agiu com dolo. Já
a pena do uso de documento falso foi aplicada em seu patamar mínimo. Na segunda fase, não
foram reconhecidas atenuantes, mas foi reconhecida a agravante da reincidência, aumentando
a pena de cada um dos delitos em mais 02 meses de reclusão. No terceiro momento, não foram
reconhecidas causas de aumento ou de diminuição. Assim, foi fixada a pena de 01 ano e 04
meses de reclusão e 14 dias-multa, no que tange ao crime de estelionato, e 02 anos e 02 meses
de reclusão e 12 dias-multa para o crime de falsificação de documento equiparado ao público,
restando a pena final em 03 anos e 06 meses de reclusão e 26 dias-multa. O regime inicial de
cumprimento de pena aplicado pelo magistrado foi o semiaberto e não houve substituição da
pena privativa de liberdade por restritiva de direito, tudo fundamentado na reincidência do agente.
Intimado da decisão, o Ministério Público apenas tomou ciência de seu teor, não apresentando
qualquer medida. Já a defesa técnica de Breno foi intimada de seu teor em 06 de dezembro de
2017, quarta-feira, sendo quinta-feira dia útil em todo o país. Considerando apenas as
informações narradas, na condição de advogado(a) de Breno, redija a peça jurídica
cabível, diferente de habeas corpus e embargos de declaração, apresentando todas as
teses jurídicas pertinentes. A peça deverá ser datada no último dia do prazo para
interposição. (Valor: 5,00)
Concurso de crimes
Prof. Nidal Ahmad
@[Link]
4.1. Introdução
Quando um sujeito, mediante unidade ou pluralidade de ações ou omissões, pratica dois
ou mais delitos, surge o concurso de crimes ou de penas.
O concurso pode ocorrer entre crimes de qualquer espécie, comissivos ou omissivos,
dolosos ou culposos, consumados ou tentados, simples ou qualificados e ainda entre crimes e
contravenções.
O concurso de crimes está inserido no Título V do Código Penal, relativo às penas,
justamente porque sua incidência repercute no total da pena aplicada ao agente que praticou
dois ou mais crimes.
Há três espécies de concurso de crimes: concurso material, concurso formal e crime
continuado.
4.2. Concurso de crimes e a relação com outros institutos
As regras do concurso de crimes não repercutem somente na pena definitiva, mas também
influenciam em outros institutos jurídicos, como, por exemplo, na determinação do procedimento,
na concessão da suspensão condicional do processo, na prescrição.
Nos termos do art. 394 do CPP, para determinar o procedimento a ser seguido, deve-se
verificar o máximo da pena cominada ao delito, considerando os critérios do concurso de crimes.
Assim, para definir o procedimento no contexto de concurso material de crimes ou de concurso
formal imperfeito, as penas deverão ser somadas. Tratando-se de concurso formal perfeito e
crime continuado, considera-se a pena mais grave, com a elevação da fração que mais aumenta
a pena (1/2, se concurso formal perfeito; 2/3, se crime continuado).
Para a concessão da suspensão condicional do processo, um dos requisitos é que a pena
mínima cominada ao delito não seja superior a um ano (Lei no 9.099/1995, art. 89), devendo ser
considerado nesse limite o concurso de crimes. No contexto de concurso material de crimes, as
penas mínimas cominadas devem ser somadas. Se as penas mínimas somadas superarem um
ano, o réu não poderá ser beneficiado pela suspensão condicional do processo.
Em relação ao concurso formal de crimes e crime continuado, deve-se considerar a fração
que menos aumenta a pena. É o que dispõe a Súmula nº 723 STF:
Súmula 723 do STF:
Não se admite a suspensão condicional do processo por crime continuado, se a
soma da pena mínima da infração mais grave com o aumento mínimo de um sexto
for superior a um ano.
E também a Súmula nº 243 STJ:
Súmula 243 do STJ:
O benefício da suspensão do processo não é aplicável em relação às infrações
penais cometidas em concurso material, concurso formal ou continuidade delitiva,
quando a pena mínima cominada, seja pelo somatório, seja pela incidência da
majorante, ultrapassar o limite de um (1) ano.
No contexto de concurso de crimes, o prazo prescricional deve ser verificado com base
na pena máxima cominada ou na pena imposta na sentença em relação a cada um dos crimes,
ou seja, isoladamente. É o que se extrai do art. 119 do CP e da Súmula no 497 do STF: “Quando
se tratar de crime continuado, a prescrição regula-se pela pena imposta na sentença, não se
computando o acréscimo decorrente da continuação”.
4.3. Concurso material de crimes
4.3.1. Conceito
Ocorre o concurso material, também chamado de real, quando o agente, mediante mais
de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não (CP, art. 69, caput), não
sendo necessário que tenham sido praticados no mesmo contexto fático. Há, pois, pluralidade
de condutas e pluralidade de crimes.
4.3.2. Concurso material e penas restritivas de direitos
Conforme dispõe o art. 69, § 1º, do CP, no caso de concurso material, se o agente sofrer
pena privativa de liberdade por um dos delitos, não sendo concedido o sursis, não seria possível
atribuir, em relação ao outro, pena restritiva de direitos, porque, em tese, seria incompatível o
cumprimento simultâneo das penas.
Conclui-se, em sentido contrário, que, se concedido o sursis à pena privativa de liberdade,
será possível a substituição dessa pena pela restritiva de direitos em relação ao outro delito, já
que, uma vez suspensa a execução da pena privativa de liberdade, não haveria impedimento
para o cumprimento da pena restritiva de direitos.
Imaginemos, por exemplo, que o réu tenha sido condenado pelo crime de lesão corporal
grave (CP, art.129, § 1o), com pena aplicada de um ano e oito meses de reclusão, sendo
concedida suspensão condicional da pena, e, no mesmo processo, em concurso material de
crimes, pelo crime de furto (CP, art. 155), com pena aplicada em um ano. Logo, como foi
concedida a suspensão condicional da pena em relação ao crime de lesão corporal grave, pode
o magistrado substituir a pena privativa de liberdade por restritiva de direitos, em relação ao delito
de furto.
4.3.3. Cumprimento simultâneo ou sucessivo de penas restritivas de direitos
Nos termos do art. 69, § 2º, do CP, quando forem aplicadas na sentença duas ou mais
penas restritivas de direitos, o condenado cumprirá simultaneamente as que forem compatíveis
entre si e sucessivamente as demais.
Assim, o condenado pode, por exemplo, cumprir simultaneamente uma pena de prestação
de serviço à comunidade e uma prestação pecuniária. Por outro lado, diante da incompatibilidade
de cumprimento simultâneo, o cumprimento de duas penas de prestação de serviços à
comunidade deverá ser de forma sucessiva.
Imaginemos, por exemplo, que o agente tenha sido condenado pelo crime de furto simples
(CP, art. 155), em concurso material com o crime de estelionato (CP, art. 171). Em relação ao
crime de furto foi aplicada a pena privativa de liberdade de um ano, substituída por prestação de
serviços à comunidade; em relação ao crime de estelionato, foi aplicada pena privativa de
liberdade de dois anos, também substituição por prestação de serviço à comunidade. Nesse
caso, não há possibilidade de cumprimento simultâneo das penas restritivas de direitos, devendo
o condenado cumprir as prestações de serviços à comunidade de forma sucessiva: Assim, por
exemplo, após cumprir a pena do crime de furto, passará a cumprir a prestação de serviços à
comunidade em relação ao crime de estelionato.
4.3.4. Aplicação da pena
Nos termos do art. 69, caput, do CP, quando o agente realiza o concurso real de crimes,
“aplicam-se cumulativamente as penas em que haja incorrido”. Portanto, no concurso material
as penas são cumuladas, somadas.
Aplica-se, pois, o sistema do cúmulo material de crimes.
Na hipótese de crimes conexos apurados na mesma ação penal, a soma das penas, pelo
concurso material, será realizada na própria sentença, após a adoção do critério trifásico para
cada um dos delitos.
Exemplo: O agente pratica o crime de estupro (CP, art. 213) e, para assegurar a sua
impunidade, desfere golpes de faca na vítima, matando-a, praticando o crime de homicídio
qualificado (CP, art. 121, § 2º, V). Imaginemos que o juiz fixe, em relação ao delito de estupro, a
pena de 8 anos de reclusão. Em relação ao crime de homicídio qualificado, a pena de 20 anos.
Ao final, considerando se tratar de concurso material de crimes, o Magistrado deverá aplicar o
sistema do cúmulo material, mediante o somatório das penas. Logo, no caso, a pena definitiva
do réu será de 28 anos de reclusão.
De outro lado, na hipótese de não haver conexão entre os crimes, sendo, por isso,
julgados em processos distintos, a soma das penas será realizada perante o juízo da execução
criminal, por força do disposto no art. 66, III, a, da LEP.
4.4. Concurso formal
4.4.1. Conceito
Ocorre o concurso formal (ou ideal) quando o agente, mediante uma só ação ou omissão,
pratica dois ou mais crimes (CP, art. 70, caput). Há unidade de conduta e pluralidade de crimes.
A unidade de conduta se concretiza quando os atos são realizados no mesmo contexto
espacial e temporal, não sendo necessário que seja praticado em ato único. De fato, pode haver
unidade de conduta mesmo quando fracionada em vários atos, como, por exemplo, agente que
subtrai objetos pertencentes a pessoas distintas, no mesmo contexto fático.
Para incidir o concurso formal de crimes, a única conduta deve produzir duas ou mais
infrações penais, atingindo mais de um bem penalmente tutelado, causando, pois, pluralidade
de resultados.
Assim, quem efetua disparos em direção a uma pessoa, atingindo a vítima pretendida e
também pessoa diversa, terá praticado, mediante uma única ação, dois crimes, uma vez que
violou mais de um bem penalmente tutelado.
Do mesmo modo, o motorista que conduz seu veículo de modo imprudente, vindo a matar
várias pessoas, desenvolveu um único comportamento, do qual resultaram vários crimes.
4.4.2. Concurso formal perfeito e concurso formal imperfeito
O concurso formal perfeito, ou próprio, está previsto na primeira parte do art. 70 do
CP. Ocorre quando o agente pratica duas ou mais infrações penais mediante uma única conduta,
movido por um único desígnio. O agente, por meio de um só impulso volitivo, dá causa a dois ou
mais resultados, sem desígnios autônomos em relação a cada um dos resultados.
Quando a unidade de comportamento corresponder à unidade interna da vontade do
agente, assim compreendido como sendo o desejo de realizar apenas um crime e obter um único
resultado danoso, fala-se em concurso formal perfeito.
Assim, se, por exemplo, o agente, na condução de veículo automotor, atropela e causa a
morte de uma pessoa e lesão corporal em outra, praticará o crime de homicídio culposo na
condução de veículo automotor (CTB, art. 302) e o crime de lesão corporal culposa na condução
de veículo automotor (CTB, art. 303), em concurso formal perfeito, já que não tinha desígnios
autônomos em relação a cada um dos resultados.
No concurso formal imperfeito, ou impróprio, o agente, mediante uma ação ou omissão,
pretende, de forma consciente e voluntária, o resultado em relação a cada um dos crimes. Ou
seja, o agente desenvolve a conduta única com desígnios autônomos em relação a cada um dos
resultados.
Desígnio autônomo se caracteriza pelo fato de o agente pretender, mediante uma única
conduta, atingir dois ou mais resultados. Ou seja, o agente, mediante uma ação ou omissão, age
com consciência e vontade em relação a cada um deles, considerados isoladamente.
EXEMPLO 1:
O agente provoca fogo em uma residência com a intenção de matar todos os
moradores. O agente tem desígnios autônomos (intenção de matar) em relação a
cada um dos moradores da residência.
EXEMPLO 2:
Wilson, maior, capaz, na saída de um estádio de futebol, tendo avistado diversos
torcedores do time adversário embarcados em um veículo de transporte regular,
aproveitou-se da oportunidade e lançou uma única bomba incendiária contra o
automóvel, causando graves lesões em diversas vítimas e a morte de uma delas.
Nesse caso, Wilson será apenado com base no concurso formal imperfeito ou
impróprio.
A expressão “desígnios autônomos” abrange tanto o dolo direto quanto o dolo eventual.
Assim, haverá concurso formal imperfeito, por exemplo, entre o delito de homicídio doloso com
dolo direto e outro com dolo eventual.
4.4.3. Aplicação da pena no concurso formal
a) Em relação ao concurso formal perfeito
O concurso formal próprio ou perfeito (CP, art. 70, primeira parte) foi concebido com a
finalidade de conferir tratamento menos severo a agente que, mediante uma conduta, gerou
pluralidade de resultados não derivados de desígnios autônomos, afastando, com isso, os rigores
do concurso material (CP, art. 69).
Por esse motivo, em relação ao concurso formal perfeito, ou próprio, o Código Penal
adotou o sistema de exasperação da pena. Aplica-se a pena do crime a mais grave ou, se iguais,
somente uma delas, mas aumentada, em qualquer caso, de um sexto até metade.
Nesse sentido, se a regra da exasperação da pena se mostrar prejudicial ao réu em
comparação ao cúmulo material, deverá ser afastada. Trata-se, portanto, da regra do concurso
material benéfico como teto do produto da exasperação da pena.
Isso porque, conforme dito:
O concurso formal próprio ou perfeito (CP, art. 70, primeira parte), cuja regra para a
aplicação da pena é a da exasperação, foi criado com intuito de favorecer o réu nas hipóteses
de pluralidade de resultados não derivados de desígnios autônomos, afastando-se, pois, os
rigores do concurso material (CP, art. 69). Nesse diapasão, o parágrafo único do art. 70 do CP
impõe o afastamento da regra da exasperação, se esta se mostrar prejudicial ao réu, em
comparação com o cúmulo material. Nos termos da jurisprudência deste STJ, o aumento da pena
decorrente do concurso formal próprio é calculada com base no número de infrações penais
cometidas, que concretizará a fração de aumento abstratamente prevista (1/6 a 1/2),
exasperando-se a pena do crime de maior reprimenda. Nesses termos, aplica-se a fração de
aumento de 1/6 pela prática de 2 infrações; 1/5, para 3 infrações; 1/4 para 4 infrações; 1/3 para
5 infrações e 1/2 para 6 ou mais infrações.4
Assim, o critério adotado pela jurisprudência para a fixação do aumento da pena em
decorrência do concurso formal perfeito de crimes tem relação com o número de crimes
cometidos pelo agente.
Número de crimes Aumento da pena
• 2 crimes • 1/6 de aumento
• 3 crimes • 1/5 de aumento
• 4 crimes • 1/3 de aumento
• 5 crimes • 1/3 de aumento
• 6 ou mais crimes • 1/2 de aumento
b) Em relação ao concurso formal imperfeito
Como dissemos, o critério da exasperação da pena visa a favorecer o agente que, por
meio de uma conduta, produz dois ou mais resultados, sem desígnios autônomos em relação a
cada um deles.
4 STJ, HC no 325411/SP, rel. Min. Ribeiro Dantas, 5a T., j. 19-4-2018.
No concurso formal imperfeito, ou impróprio, embora tenha desenvolvido uma conduta,
recai sobre o agente maior grau de reprovabilidade, já que revelou desígnios autônomos em
relação a cada resultado, não merecendo, por isso, tratamento menos severo proporcionado pelo
critério da exasperação da pena.
Por isso, no concurso formal imperfeito, o critério adotado é o cúmulo material, devendo
ser somadas as penas aplicadas em relação a cada um dos crimes praticados pelo agente, nos
termos do art. 70, caput, 2ª parte, do CP.
Imaginemos que Wilson, pretendendo matar dois colegas de trabalho que exerciam suas
atividades em uma sala ao lado da dele, inseriu substância tóxica no sistema de ventilação dessa
sala, o que causou o óbito de ambos em poucos minutos. Nessa situação, Wilson, com uma
única conduta, praticou dois resultados, com desígnios autônomos em relação a cada um deles.
Trata-se, pois, de dois homicídios dolosos em concurso formal imperfeito.
Nesse caso, o Magistrado terá de realizar a dosimetria da pena em relação a todas as
vítimas, e, ao final, aplicar o critério do cúmulo material. Assim, vamos considerar que, em
relação a vítima “A”, a pena aplicada foi de 12 anos, e, em relação à vítima “B”, a pena aplicada
tenha sido de 15 anos. Como se trata de concurso formal imperfeito, o magistrado terá de adotar
o critério do cúmulo material, somando as penas, ficando a pena definitiva em 27 anos.
4.4.4. Concurso formal e crime único
O concurso formal se caracteriza pela produção de dois ou mais resultados, embora
decorrentes de conduta única. Logo, a partir da conduta do agente, devem resultar dois ou mais
crimes.
Há, no entanto, determinadas situações em que, num primeiro momento, poderia ensejar
a percepção da prática de dois ou mais crimes, quando, na verdade, se trata de crime único.
Quando, por exemplo, há o emprego de violência ou grave ameaça contra várias pessoas, mas
subtração de patrimônio pertencente a apenas uma delas, estaremos diante de crime único de
roubo, já que ocorreu crime contra apenas um patrimônio.
Todavia, se, num mesmo contexto fático, são subtraídos bens pertencentes a vítimas
distintas, não haverá crime único, mas concurso formal, já que com uma conduta, o agente
atingiu patrimônios distintos. caracterizando concurso formal, por terem sido atingidos
patrimônios diversos, nos moldes do art. 70 do CP.5
O STJ tem entendido que a prática do crime de roubo contra vítimas diversas, no mesmo
contexto fático, configura uma única ação, incidindo, por isso, as regras do concurso formal de
crimes.6
4.5. Crime continuado
4.5.1. Conceito
O crime continuado está previsto no art. 70 do CP.
Ocorre o crime continuado quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão,
pratica dois ou mais crimes da mesma espécie, devendo os subsequentes, pelas condições de
tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes, ser havidos como continuação do
primeiro.
4.5.2. Requisitos
Para a incidência das regras do crime continuado é preciso verificar a presença de
requisitos dispostos no art. 71 do CP, consistentes: a) na pluralidade de condutas; b) na
pluralidade de crimes da mesma espécie; c) nas mesmas condições de tempo, lugar, maneira
de execução e outras semelhantes.
[Link]. Pluralidade de condutas
Nos termos do art. 71 do CP, o crime continuado se caracteriza pelo fato de o agente
praticar crimes mediante mais de uma ação ou omissão, exigindo, pois, pluralidade de condutas.
Distingue-se do concurso material, que também exige pluralidade de condutas, por força
da incidência dos demais requisitos, consistentes na prática de crimes de mesma espécie, nas
mesmas condições de tempo, lugar e maneira de execução.
5 STJ, HC no 608932/SP, rel. Min. Ribeiro Dantas, 5a T., j. 6-10-2020.
6 STJ, AgRg no HC no 412140/MG, rel. Min. Sebastião Reis Júnior, 6a T., j. 1-3-2018.
[Link]. Crimes da mesma espécie
Crimes da mesma espécie são os que estão previstos no mesmo tipo penal, considerando-
se, inclusive, as figuras simples ou qualificadas, dolosas ou culposas, tentadas ou consumadas.
Além disso, para caracterizar crimes da mesma espécie, é necessário que os crimes
parcelares devem tutelar os mesmos bens jurídicos e possuem a mesma estrutura jurídica. Por
isso, a teor da jurisprudência do STJ, não há como reconhecer a continuidade delitiva entre os
crimes de roubo e o de latrocínio, porquanto são delitos de espécies diversas, já que tutelam
bens jurídicos diferentes, uma vez que o roubo tutela o patrimônio e a integridade física
(violência) ou o patrimônio e a liberdade individual (grave ameaça); o latrocínio, por outro lado,
tutela o patrimônio e a vida.
[Link]. Conexão temporal
Exige-se, para caracterizar crime continuado, conexão temporal entre as condutas
praticadas para que se configure a continuidade delitiva. Deve existir, em outros termos, uma
certa periodicidade que permita observar-se um certo ritmo, uma certa uniformidade, entre as
ações sucessivas, embora não se possam fixar, a respeito, indicações precisas.
A jurisprudência tem admitido crime continuado quando entre as infrações penais não
houver decorrido período superior a 30 dias.
[Link]. Conexão espacial
Além dos demais requisitos, para que seja possível reconhecer a continuidade delitiva,
deve, ainda, estar presente a conexão espacial.
A lei não estabelece parâmetros para o reconhecimento da conexão espacial, tendo a
jurisprudência do STJ admitido a continuidade delitiva quando tratarem de crimes praticados na
mesma cidade, bem como em comarcas limítrofes ou próximas.
Assim, a prática de crimes da mesma espécie em locais diversos não exclui a
continuidade. Crimes praticados em bairros diversos de uma mesma cidade, ou em cidades
próximas, podem ser entendidos como praticados em condições de lugar semelhantes.
[Link]. Maneira de execução
A lei exige que a forma de execução das infrações continuadas seja semelhante,
traduzindo-se no modo, forma e os meios empregados para a prática dos delitos.
Exemplo: Empregado de um estabelecimento comercial que subtrai, diariamente, objetos
da empresa.
Por outro lado, um crime de furto qualificado pela escalada e outro furto qualificado pela
destreza, conquanto crimes da mesma espécie, inviabilizam a incidência do crime continuado, já
que empregaram modos de execução distintos.
Da mesma forma, verifica-se a diversidade da maneira de execução dos diversos delitos,
quando o agente pratica furto ora sozinho, ora em companhia de comparsas, não configurando,
pois, continuidade delitiva, mas sim a habitualidade criminosa.
[Link]. Unidade de desígnios
Exige-se unidade de resolução, devendo o agente desejar praticar os crimes com
continuidade. Portanto, além dos requisitos objetivos, exige unidade de desígnios, isto é, uma
programação inicial, com realização sucessiva.
É o entendimento adotado pelo STJ7, segundo o qual na prática dos crimes em
continuidade delitiva, exigindo-se, pois, que haja um liame entre os crimes, apto a evidenciar de
imediato terem sido esses delitos subsequentes continuação do primeiro, isto é, os crimes
parcelares devem resultar de um plano previamente elaborado pelo agente.
Com efeito, o próprio Código Penal, ao dispor que os crimes subsequentes devem ser
havidos como continuação do primeiro, sinaliza pela necessidade da ligação subjetiva entre os
diversos crimes praticados pelo agente. Não há como considerar um crime subsequente ao
primeiro sem a presença de liame ou vínculo subjetivo entre eles. Logo, deve restar demonstrado
que o agente agiu com consciência e vontade em praticar crimes da mesma espécie em
sequência, nas mesmas condições de tempo, lugar e modo de execução.
4.5.3. Crime continuado específico
Além dos requisitos previstos no art. 71, caput, do CP, o crime continuado específico prevê
a necessidade de três requisitos, que devem ocorrer simultaneamente:
7 STJ, HC no 419094/RJ, rel. Min. Ribeiro Dantas, 5a T., j. 15-3-2018.
a) Contra vítimas diferentes
Admite-se nexo de causalidade entre crimes que lesam interesses jurídicos pessoais,
ainda que praticados contra vítimas diversas.
De fato, a circunstância de os delitos componentes atingirem bens jurídicos pessoais não
impede a continuação. Entretanto, cumpre observar o disposto no parágrafo único do art. 71 do
Código Penal:
Art. 71, parágrafo único, do Código Penal:
Nos crimes dolosos, contra vítimas diferentes, cometidos com violência ou grave
ameaça à pessoa, poderá o juiz, considerando a culpabilidade, os antecedentes, a
conduta social e a personalidade do agente, bem como os motivos e as
circunstâncias, aumentar a pena de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais
grave, se diversas, até o triplo, observadas as regras do parágrafo único do art. 70
e do art. 75 deste Código.
Assim, admite o Código Penal nexo de continuidade entre homicídios, lesões corporais ou
roubos contra vítimas diversas, podendo o juiz, de acordo com as circunstâncias judiciais do art.
59, caput, do CP, aumentar a pena de um dos delitos até o triplo, desde que a pena não seja
superior à que seria imposta se o caso fosse de concurso material.
b) Com violência ou grave ameaça à pessoa
Mesmo que o crime seja contra vítimas diferentes, se não houver violência – real ou ficta
– contra a pessoa, não haverá a continuidade específica.
c) Somente em crimes dolosos
Se a ação criminosa for praticada contra vítimas diferentes, com violência à pessoa, mas
não for produto de uma conduta dolosa, não estará caracterizado o crime continuado específico.
4.5.4. Aplicação da pena
Tratando-se de crime continuado comum, aplica-se a pena de qualquer um dos crimes,
se idênticas, aumentada de 1/6 até 2/3.
Tratando-se de crime continuado qualificado, aplica-se a pena do crime mais grave,
aumentada de 1/6 até 2/3.
O parâmetro para o aumento da pena entre 1/6 e 2/3 deve ser proporcional ao número de
infrações praticadas. Ou seja, “em se tratando de aumento de pena referente à continuidade
delitiva, aplica-se a fração de aumento de 1/6 pela prática de 2 infrações; 1/5, para 3 infrações;
1/4 para 4 infrações; 1/3 para 5 infrações; 1/2 para 6 infrações e 2/3 para 7 ou mais infrações”. 8
Número de crimes Aumento da pena
• 2 crimes • 1/6 de aumento
• 3 crimes • 1/5 de aumento
• 4 crimes • 1/4 de aumento
• 5 crimes • 1/3 de aumento
• 6 crimes • 1/2 de aumento
• 7 crimes ou mais • 2/3 de aumento
Tratando-se de crime continuado específico, previsto no art. 71, parágrafo único, do CP,
aplica-se a pena do crime mais grave aumentada até o triplo. Todavia, segundo o entendimento
do STF, no crime continuado qualificado, a majoração da pena não está adstrita ao número de
i
Logo, a fração de aumento de pena
no crime continuado qualificado lastreia-se nos vetores em questão, e não apenas no número de
infrações praticadas.9
Se, da aplicação da regra do crime continuado, a pena resultar superior à que restaria se
somadas as penas, aplica-se a regra do concurso material benéfico (CP, art. 71, parágrafo único,
parte final).
8 STJ, AgRg no EDcl-AgREsp no 1629001/SP, rel. Min. Laurita Vaz, 3a Seção, j. 28-10-2020.
9 STF, HC no 131871/PR, rel. Min. Dias Toffoli, 2a T., j. 31-5-2016.
8) (QUESTÃO 04 – XXII EXAME)
Diego e Júlio caminham pela rua, por volta das 21h, retornando para suas casas após mais um
dia de aula na faculdade, quando são abordados por Marcos, que, mediante grave ameaça de
morte e utilizando simulacro de arma de fogo, exige que ambos entreguem as mochilas e os
celulares que carregavam. Após os fatos, Diego e Júlio comparecem em sede policial, narram o
ocorrido e descrevem as características físicas do autor do crime. Por volta das 5h da manhã do
dia seguinte, policiais militares em patrulhamento se deparam com Marcos nas proximidades do
local do fato e verificam que ele possuía as mesmas características físicas do roubador. Todavia,
não são encontrados com Marcos quaisquer dos bens subtraídos, nem o simulacro de arma de
fogo. Ele é encaminhado para a Delegacia e, tendo-se verificado que era triplamente reincidente
na prática de crimes patrimoniais, a autoridade policial liga para as residências de Diego e Júlio,
que comparecem em sede policial e, em observância de todas as formalidades legais, realizam
o reconhecimento de Marcos como responsável pelo assalto. O Delegado, então, lavra auto de
prisão em flagrante em desfavor de Marcos, permanecendo este preso, e o indicia pela prática
do crime previsto no Art. 157, caput, do Código Penal, por duas vezes, na forma do Art. 69 do
Código Penal. Diante disso, Marcos liga para seu advogado para informar sua prisão. Este
comparece, imediatamente, em sede policial, para acesso aos autos do procedimento originado
do Auto de Prisão em Flagrante.
Considerando apenas as informações narradas, na condição de advogado de Marcos,
responda, de acordo com a jurisprudência dos Tribunais Superiores, aos itens a seguir.
A) Qual requerimento deverá ser formulado, de imediato, em busca da liberdade de Marcos
e sob qual fundamento? Justifique. (Valor: 0,65)
B) Oferecida denúncia na forma do indiciamento, qual argumento de direito material
poderá ser apresentado pela defesa para questionar a capitulação delitiva constante da
nota de culpa, em busca de uma punição mais branda? Justifique. (Valor: 0,60)
9) (QUESTÃO 02 – XXVII EXAME)
Em cumprimento de mandado de busca e apreensão, o oficial de justiça Jorge compareceu ao
local de trabalho de Lucas, sendo encontradas, no interior do imóvel, duas armas de fogo de
calibre .38, calibre esse considerado de uso permitido, devidamente municiadas, ambas com
numeração suprimida. Em razão disso, Lucas foi preso em flagrante e denunciado pela prática
de dois crimes previstos no Art. 16, caput, da Lei 10.826/2003, em concurso material, sendo
narrado que “Lucas, de forma livre e consciente, guardava, em seu local de trabalho, duas armas
de fogo de calibre restrito, devidamente municiadas”.
Após a instrução, em que os fatos foram confirmados, foi juntado o laudo confirmando o calibre
.38 das armas de fogo, a capacidade de efetuar disparos, bem como que ambas tinham a
numeração suprimida. As partes apresentaram alegações finais, e o magistrado, em sentença,
considerando o teor do laudo, condenou Lucas pela prática de dois crimes previstos no Art. 16,
parágrafo único, inciso IV, da Lei nº 10.826/2003, em concurso formal.
Intimada a defesa técnica da sentença condenatória, responda, na condição de
advogado(a) de Lucas, aos itens a seguir.
A) Qual o argumento de direito processual a ser apresentado em busca da desconstituição
da sentença condenatória? Justifique. (Valor: 0,65)
B) Reconhecida a validade da sentença em segundo grau, qual o argumento de direito
material a ser apresentado para questionar o mérito da sentença condenatória e,
consequentemente, a pena aplicada? Justifique. (Valor: 0,60)
10) (QUESTÃO 03 – XXX EXAME)
Eduardo foi preso em flagrante no momento em que praticava um crime de roubo simples, no
bairro de Moema. Ainda na unidade policial, compareceram quatro outras vítimas, todas
narrando que tiveram seus patrimônios lesados por Eduardo naquela mesma data, com intervalo
de cerca de 30 minutos entre cada fato, no bairro de Moema, São Paulo.
As cinco vítimas descreveram que Eduardo, simulando portar arma de fogo, anunciava o assalto
e subtraía os bens, empreendendo fuga em uma bicicleta. Eduardo foi denunciado pela prática
do crime do Art. 157, caput, por cinco vezes, na forma do Art. 69, ambos do Código Penal, e, em
sede de audiência, as vítimas confirmaram a versão fornecida em sede policial.
Assistido por seu advogado Pedro, Eduardo confessou os crimes, esclarecendo que pretendia
subtrair bens de seis vítimas para conseguir dinheiro suficiente para comprar uma motocicleta.
Disse, ainda, que apenas simulou portar arma de fogo, mas não utilizou efetivamente material
bélico ou simulacro de arma. O juiz, no momento da sentença, condenou o réu nos termos da
denúncia, sendo aplicada a pena mínima de 04 anos para cada um dos delitos, totalizando 20
anos de pena privativa de liberdade a ser cumprida em regime inicial fechado, além da multa. Ao
ser intimado do teor da sentença, pessoalmente, já que se encontrava preso, Eduardo tomou
conhecimento que Pedro havia falecido, mas que foram apresentadas alegações finais pela
Defensoria Pública por determinação do magistrado logo em seguida à informação do
falecimento do patrono. A família de Eduardo, então, procura você, na condição de advogado(a),
para defendê-lo.
Considerando apenas as informações narradas, responda, na condição de advogado(a)
de Eduardo, constituído para apresentação de apelação, aos itens a seguir.
A) Existe argumento de direito processual, em sede de recurso, a ser apresentado para
desconstituir a sentença condenatória? Justifique. (Valor: 0,65)
B) Diante da confirmação dos fatos pelo réu, qual argumento de direito material poderá
ser apresentado, em sede de apelação, em busca da redução da sanção penal aplicada?
Justifique. (Valor: 0,60)
FIQUE LIGADO!
Edição 23 STJ – CONCURSO DE CRIMES
4) Não há crime único, podendo haver concurso formal, quando, no mesmo
contexto fático, o agente incide nas condutas dos arts. 14 (porte ilegal de arma
de fogo de uso permitido) e 16 (posse ou porte ilegal de arma de fogo de uso
restrito) da Lei n. 10.826/2003.
5) Não há crime único, podendo haver concurso material, quando, no mesmo
contexto fático, o agente incide nas condutas dos arts. 14 (porte ilegal de arma
de fogo de uso permitido) e 16 (posse ou porte ilegal de arma de fogo de uso
restrito) da Lei n. 10.826/2003.
7) A apreensão de mais de uma arma de fogo, acessório ou munição, em um
mesmo contexto fático, não caracteriza concurso formal ou material de crimes,
mas delito único.
Concurso de pessoas
Prof. Nidal Ahmad
@[Link]
5.1. Conceito de concurso de pessoas
Trata-se de contribuição entre dois ou mais agentes para o cometimento de uma infração
penal. Ocorre quando duas ou mais pessoas, em conjugação de esforços, reúnem-se para a
prática de um ou mais delitos.
A doutrina utiliza também as expressões concurso de agentes e codelinquência.
5.2. Requisitos
Não basta a contribuição de duas ou mais pessoas na prática delituosa para caracterizar
o concurso de pessoas. É necessária, ainda, a presença de determinados requisitos, sem os
quais não há como configurar o concurso de pessoas.
Para a incidência do concurso de pessoas devem estar presentes, cumulativamente, os
seguintes requisitos: a) pluralidade de condutas; b) relevância causal das condutas; c) liame ou
vínculo subjetivo; d) identidade de infrações.
5.2.1. Pluralidade de condutas
Trata-se de requisito elementar do concurso de pessoas: a concorrência de mais de uma
pessoa na execução de uma infração penal.
Assim, para que haja concurso de pessoas, exige-se que cada um dos agentes tenha
realizado ao menos uma conduta relevante. Pode ser autoria e participação, em que há uma
conduta principal e outra acessória, praticadas, respectivamente, por autor e partícipe, bem como
em coautoria, em que há duas condutas principais.
5.2.2. Relevância causal das condutas
Nos termos do art. 29, caput, do CP, quem, de qualquer modo, contribuir para a prática
de um delito incide nas penas a este cominadas. A expressão de “qualquer modo” revela a
amplitude da forma de atuação do agente na empreitada delituosa, seja na forma de contribuição
pessoal, direta ou indireta, física ou moral.
Extrai-se, ainda, do art. 29, caput, do CP, que, para incidir a hipótese de concurso de
pessoas, a conduta do agente deve concorrer para o crime, contribuindo, ainda que
minimamente, para a produção do resultado. É imprescindível, pois, que a conduta do agente
tenha sido relevante para a infração penal, a ponto de, se excluída do curso causal, o resultado
não teria ocorrido da forma como ocorreu.
Em outras palavras, se a conduta não tem qualquer relevância causal, isto é, se não
contribuiu em nada para a produção do resultado, não há que se falar em concurso de pessoas.
A simples manifestação de adesão a uma prática delituosa não configura participação.
Assim, se, sem realizar qualquer outra conduta, simplesmente manifestar que irá concorrer para
a prática de um homicídio que efetivamente foi consumado, o crime não poderá ser imputado ao
agente, por força do concurso de pessoas, uma vez que sua conduta foi absolutamente
irrelevante. Agora, se induzir, estimular, o executor a matar a vítima, o agente será
responsabilizado pelo crime de homicídio, já que sua conduta foi relevante para a produção do
resultado.
Imaginemos que a empregada doméstica de uma residência, profundamente irritada por
ter sido ofendida pela patroa, observa que há uma movimentação suspeita no lado externo da
casa, concluindo que era alguém observando o local para praticar o delito de furto. Para facilitar
o sucesso da subtração, a empregada deixa aberta a porta da frente da residência. Durante a
empreitada criminosa, sem saber que a porta da frente se encontrava destrancada, o agente de
atitude suspeita arrombou a porta dos fundos, ingressou na residência, e subtraiu diversos
objetos. Diante desse quadro fático, a empregada doméstica não deverá responder por qualquer
infração penal, uma vez que a sua contribuição foi absolutamente irrelevante para o sucesso da
subtração.
Para implementação deste requisito, além de ser relevante para o resultado, a
contribuição do agente deve ser antes ou durante a execução do delito. Se posterior ao delito,
não haverá concurso de pessoas, podendo incidir, conforme o caso, um delito autônomo, como,
por exemplo, receptação (CP, art. 180), favorecimento pessoal (CP, art. 348) ou favorecimento
real (CP, art. 149).
5.2.3. Vínculo subjetivo
Além da pluralidade de condutas relevantes para o resultado, afigura-se, ainda,
imprescindível o elemento subjetivo, consistente na conjugação de vontades de cada um dos
agentes para a produção do mesmo resultado.
Os agentes devem atuar conscientes de que participam de crime comum, ainda que não
tenha havido acordo prévio de vontades. A ausência desse elemento psicológico inviabiliza o
concurso de pessoas, ensejando condutas isoladas e autônomas.
A atuação de cada um dos agentes deve ser voltada para a produção do mesmo resultado.
Trata-se do princípio da convergência de vontades dos agentes voltados para a prática do
mesmo crime, ainda que não haja combinação prévia, ou seja, que um dos agentes não saiba
da contribuição do outro.
No vínculo subjetivo, que caracteriza o concurso de pessoas, basta que um dos agentes
tenha conhecimento que está contribuindo para prática delituosa, ainda que não tenha havido
combinação prévia com o outro agente envolvido no delito. Basta, em síntese, um dos agentes
aderir à conduta ou à vontade de outrem, e concorrer, ainda que sem o conhecimento do outro,
para a produção do resultado.
Consideremos o mesmo exemplo acima, com uma pequena e determinante adaptação.
Imaginemos que a empregada doméstica de uma residência, profundamente irritada por ter sido
ofendida pela patroa, observa que há uma movimentação suspeita no lado externo da casa,
concluindo que era alguém observando o local para praticar o delito de furto. Para facilitar o
sucesso da subtração, a empregada deixa aberta a porta da frente da residência. Durante a
empreitada criminosa, sem saber do auxílio da empregada doméstica, o agente de atitude
suspeita ingressou na residência pela porta da frente deixada aberta, e subtraiu diversos objetos.
Agora, diante desse quadro fático, a empregada doméstica deverá responder pelo furto praticado
na residência, já que sua contribuição foi relevante para o resultado (se não tivesse deixado a
porta aberta, o furto não teria ocorrido da forma como ocorreu), estando, ainda, presente, em
relação a ela a qualificadora do concurso de pessoas, diante da concorrência de vontades, uma
vez que aderiu à conduta e à vontade do agente suspeito.
A inexistência do vínculo subjetivo descaracteriza o concurso de pessoas, podendo,
conforme o caso, ensejar a hipótese de autoria mediata, autoria colateral ou crimes autônomos
e independentes em relação a cada um dos agentes.
5.2.4. Identidade de infração para todos os agentes
Nos termos do art. 29, caput, do CP: “Quem, de qualquer modo, concorre para o crime
incide nas penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade”. Significa que, via de regra,
todos aqueles que contribuem para a prática de delito responderão pelo mesmo crime.
É a aplicação da teoria unitária ou monista, segundo a qual haverá um único crime para
os diversos agentes. Assim, o agente que anuncia o assalto e realiza a subtração responderá
pelo mesmo crime daquele que o conduziu até o local do roubo, aguardando-o para empreender
fuga, e daquele que planejou toda a atividade criminosa. Os três agentes responderão pelo crime
de roubo majorado.
5.3. Modalidades de atuação no concurso de pessoas
O agente pode atuar no contexto do concurso de pessoas na condição de autor, coautor
ou partícipe. Logo, as modalidades de atuação no concurso de pessoas são: a) autoria; b)
coautoria; c) participação.
5.3.1. Autoria
Para a adequada imputação do delito ao agente, revela-se necessário identificar o seu
modo de atuação na empreitada delituosa, verificando-se se contribuiu para o delito na condição
de autor.
Todavia, diante da omissão do legislador, estabelecer o conceito de autoria não se revela
tarefa das mais pacíficas, surgindo, em razão disso, várias teorias para a definição do conceito
de autor de um crime.
Dentre essas teorias, merecem destaque: a) teoria objetiva (na qual está alojada a
vertente restritiva); b) teoria do domínio do fato.
[Link]. Teoria objetiva ou dualista
A teoria objetiva ou dualista está estreitamente vinculada a um conceito restritivo de autor,
uma vez que estabelece evidente distinção entre a figura do autor e do partícipe, delimitando a
atuação dos agentes na empreitada delituosa, e restringindo a figura do autor à determinada
forma de atuação.
Com efeito, ao contrário da teoria extensiva, que tratava a autoria como figura única,
ampliando sobremaneira seu conceito, a teoria restritiva limita o conceito de autor à determinada
forma de atuação, estabelecendo nítida distinção em relação à figura do partícipe.
Agora, com a teoria objetiva, na vertente restritiva, não há só a figura do autor, mas a
figura do autor e do partícipe.
Para a teoria objetivo-formal, autor é aquele que realiza a ação ou omissão descrita no
verbo nuclear do tipo penal que define o crime ou contravenção. É, em síntese, aquele que
pratica a conduta descrita no tipo penal incriminador. É aquele que pratica, por exemplo, a ação
de “matar” (CP, art. 121); de subtrair (CP, arts. 155 e 157); de constranger (CP, arts. 146, 158 e
213).
Partícipe é aquele que contribui, de qualquer modo, para a empreitada delituosa, mas sem
realizar a ação ou omissão descrita no verbo nuclear do tipo. É aquele que induz, instiga ou
auxilia o autor a executar a conduta descrita no tipo penal.
Assim, o agente que efetua disparos contra a vítima, atuará no crime de homicídio na
condição de autor, ao passo que aquele que induziu a matá-la atuará na condição de partícipe.
Quem ingressa numa agência bancária e, portando uma arma de fogo, anuncia o assalto
e realiza a subtração do dinheiro, atuará no crime de roubo majorado na condição de autor,
enquanto o agente que se posta no lado externo do prédio e aguarda, com o motor do veículo
acionado, o comparsa para empreenderem fuga, atua no delito na condição de partícipe.
E é justamente na adequação típica da conduta do partícipe que reside a importância do
estudo do concurso de pessoas. Com efeito, em tese, a conduta do partícipe seria atípica, pois,
teoricamente, não se enquadra no modelo legal de conduta proibida descrita no tipo penal. Não
existe tipo penal definindo a conduta de “mandar matar” ou “auxiliar a subtrair”. Se não existisse
a norma de extensão do art. 29, caput, do CP essas condutas vinculadas ao partícipe seriam
atípicas, gerando impunidade.
Por meio dessa norma de extensão, que serve como verdadeira ponte, é possível
adequar, ainda que de forma indireta, a conduta do partícipe ao tipo penal que descreve a
conduta criminosa.
Assim, por exemplo, a conduta do autor intelectual ou do mandante do crime será típica,
por força da norma de extensão (ou ponte de ouro) do art. 29, caput, CP, que estabelece a
ligação entre a sua conduta e o tipo penal correspondente.
[Link] Teoria do domínio do fato
De acordo com a teoria do domínio do fato, autor é quem tem o controle final do fato. É
quem domina o decurso do crime e decide sobre sua prática, interrupção e circunstâncias. O
partícipe não tem o domínio do fato, pois apenas coopera, induz e incita a prática do delito.
Em síntese, a teoria do domínio do fato amplia o conceito de autor, abarcando também o
agente que realiza uma parte necessária da execução do plano global, com o domínio funcional
do fato, mesmo que não constitua um ato típico em sentido estrito. É aquele que domina a
realização do fato, quem tem poder sobre ele, bem como quem tem poder sobre a vontade alheia.
Assim, para a teoria do domínio do fato, a figura do autor não se restringe somente aquele
que executa a conduta descrita no tipo penal, mas também aquele que tem o controle da ação
típica dos demais agentes, inserindo-se, nesse contexto, o autor executor, o autor intelectual, o
autor mediato, bem como o coautor.
O partícipe é aquele que contribui para o delito alheio, sem realizar a figura típica, nem
tampouco comandar a ação. É quem não domina a realização do fato, mas contribui de qualquer
modo para ele.
EXEMPLO 1:
Clodoaldo, Alan e Patrícia, todos maiores e capazes, deliberaram para assaltar uma
empresa local. Em data e hora combinadas, no período noturno e após o
fechamento, Clodoaldo e Alan arrombaram a porta dos fundos da empresa, na qual
entraram e ficaram vigiando enquanto Patrícia subtraía objetos valiosos, que seriam
divididos igualmente entre os três. Como se vê, a rigor somente Patrícia praticou a
ação nuclear do tipo penal que define o crime de furto, já que somente ela praticou
o ato de subtrair. Não há dúvida que Patrícia atuou no delito na condição de autora.
Clodoaldo e Alan não realizaram a ação descrita no tipo penal, mas, sem dúvida,
tinham o controle de toda a ação delituosa, o domínio final do fato, sendo, portanto,
também autores do delito.
EXEMPLO 2:
Clodoaldo, Alan e Patrícia deliberaram praticar um crime de roubo. Clodoaldo se
encarregou somente de emprestar a arma. Alan ficou responsável por transportar
em seu veículo Patrícia até o local do crime e dar-lhe fuga. Patrícia atraiu a vítima
ao local ermo, anunciou o assalto, apontando a arma para a vítima, e, após,
subtraiu sua carteira. Nesse contexto, pela teoria do domínio do fato, Alan e
Patrícia atuaram na condição de autores, já que tinham o domínio de toda
empreitada delituosa, ao passo que Clodoaldo, por ter somente emprestado a
arma, sem o controle de dominar a ação dos comparsas, responderá pelo crime de
roubo majorado na condição de partícipe.
5.3.2. Coautoria
A coautoria é a modalidade de atuação no concurso de pessoas em que dois ou mais
agentes figuram como autores do crime, desenvolvendo a conduta em busca do mesmo
resultado.
A coautoria pode ser parcial (ou funcional) ou direta (ou material).
A coautoria parcial (ou funcional) é aquela em que há divisão de tarefas entre os agentes,
que, somadas, produzem o resultado desejado por todos.
EXEMPLO:
Um dos agentes segura a vítima, enquanto o outro desfere nela golpes de faca.
A coautoria direta (ou material) é aquela em que todos os agentes executam atos iguais,
voltados à produção do resultado.
EXEMPLO:
Mauro e Arnaldo, ambos portando faca, desferem golpes de faca contra a vítima
até levá-la à morte.
5.3.3. Participação
Conforme a teoria restritiva de autoria, partícipe é quem contribui para que o autor ou
coautores realizem a conduta principal, ou seja, aquele que, sem praticar o verbo nuclear do tipo,
concorre de algum modo para a produção do resultado. De acordo com a teoria do domínio do
fato, participação é a contribuição dolosa de menor relevância, em que o agente contribui para o
fato de outrem, sem ter o domínio do fato.
Assim, considerando a teoria restritiva, adotada pelo Código Penal, autor seria o agente
que pratica a conduta descrita no verbo nuclear do tipo incriminador, ao passo que partícipe seria
aquele que contribui, de qualquer modo, para a atividade delituosa, mas sem realizar a conduta
descrita no tipo penal.
EXEMPLO:
Imaginemos a hipótese de Carlos instigar e encorajar Pedro a matar João. Se
efetivamente praticar a ação de matar João, Pedro responderá pelo crime de
homicídio na condição de autor, enquanto Carlos responderá pelo mesmo crime
na condição de partícipe.
Dessarte, a participação é a atividade acessória daquele que colabora para a conduta do
autor com a prática de uma ação que, em si mesma, não é penalmente relevante no sentido de
realização da conduta descrita no tipo penal. Logo, partícipe de um crime é o sujeito que induz,
instiga ou auxilia na prática do crime, sem praticar a conduta típica.
Como se vê, a participação é conduta acessória à do autor, considerada principal.
Somente haverá participação se o agente der início à execução do delito. Se o crime nem sequer
chegar a ser tentado, não haverá participação punível (CP, art. 31).
[Link]. Formas de participação
O art. 29, caput, do CP não delimitou a forma de atuação dos agentes, estabelecendo,
apenas, que quem, de qualquer modo, concorre para o crime responderá nas penas a este
cominadas.
A expressão concorrer “de qualquer modo” se reveste de forma extremamente genérica
para alcançar a conduta daquele que contribuiu, ainda que minimamente, para a produção do
resultado.
Todavia, em termos de participação, a doutrina aponta a existência de duas espécies: a)
participação moral; b) participação material.
[Link].1. Participação moral
a) Induzir
A participação moral é aquela vinculada ao apoio psicológico dado pelo partícipe,
induzindo ou instigando o autor a praticar o delito.
No induzimento, o agente introduz na mente do autor a ideia criminosa. O autor não tinha
a representação mental da prática delituosa, sendo induzido pelo partícipe a cogitar a execução
do delito. Em síntese, na indução, o partícipe faz surgir na mente do agente a intenção delituosa.
EXEMPLO:
Suponha-se que tenha ocorrido um desentendimento entre Marcelo e João, sem
maiores consequências. Marcelo conta o ocorrido a Fernando, que passa a induzi-
lo a matar João, introduzindo na sua mente a ideia homicida. Se efetivamente matar
João, Marcelo atuará na condição de autor do homicídio, ao passo que Fernando
responderá pelo mesmo delito na condição de partícipe.
É irrelevante que o executor pratique o fato delituoso imediatamente à determinação ou
que o cometa depois de longo tempo. Pode apresentar-se sob as formas de mandato, paga,
promessa, ordem ou artifício.
b) Instigar
Instigar é reforçar uma ideia criminosa já existente. O agente já cogitava a possibilidade
de praticar o crime, sendo apenas encorajado, instigado pelo partícipe.
O partícipe reforça, estimula, a preexistente resolução delituosa. Pode ocorrer de duas
maneiras: a) mediante reforço da resolução de o executor cometer o delito; b) mediante
promessa de ajuda material ou moral após o cometimento por parte do executor. Do contrário,
há determinação e não instigação, embora as duas formas possam coexistir (o partícipe induz e
depois instiga o autor principal a praticar o delito).
EXEMPLO:
Suponha-se que tenha ocorrido um desentendimento entre Marcelo e João.
Marcelo conta o ocorrido a Fernando, manifestando, ainda, a vontade de matar
João. Fernando, então, passa a instigá-lo, reforçando a ideia criminosa,
encorajando Marcelo a levar adiante a conduta delituosa e consumar o seu desejo
de matar João. Se efetivamente matar João, Marcelo atuará na condição de autor
do homicídio, ao passo que Fernando responderá pelo mesmo delito na condição
de partícipe.
Se a pessoa determinada ou instigada a cometer o crime não está sujeita à autoridade do
partícipe, ou é punível (inexistente a impunidade em virtude de condição ou qualidade pessoal),
a sua responsabilidade é igual à do instigador ou determinador.
[Link].2. Participação material
A participação material se exterioriza na forma de auxílio. O partícipe será aquele que
presta ajuda efetiva na preparação ou execução do delito.
O auxílio é a forma de participação material que corresponde à antiga cumplicidade. Pode
ser prestado na preparação ou execução do delito.
Auxilia na preparação quem fornece a arma ou informações úteis à realização do crime.
Auxilia na execução quem permanece de atalaia, no sentido de avisar o autor da aproximação
de terceiro; quem leva o ladrão em seu veículo ao local do furto; quem empresta a arma ao
homicida.
[Link]. Participação impunível
Para a participação ser punível, afigura-se imprescindível que o ato executório do crime
tenha sido iniciado. Com efeito, o ajuste, a determinação, a indução, instigação e o auxílio
somente serão punidos se o autor der início à execução do delito. Se o crime nem sequer chegar
a ser tentado, a conduta do partícipe não será punível (CP, art. 31).
Imaginemos que Fabrício contrata Félix para matar Mafalda. Félix sai em busca de
Mafalda e, ao avistá-la, apiedado, nem sequer dá início aos atos executórios. Nesse caso, tanto
Fabrício quanto Félix não sofrerão qualquer tipo de punição, uma vez que o delito nem sequer
chegou a ser tentado.
Trata-se de decorrência lógica do caráter de acessoriedade da participação, uma vez que,
para existir participação punível, afigura-se imprescindível que o autor ao menos tenha dado
início à prática de um fato típico e ilícito.
Essa regra, no entanto, comporta exceção, insculpida na expressão “salvo disposição em
contrário”, que consta no art. 31 do CP.
Com efeito, há situações expressamente previstas em lei em que o ajuste, a determinação,
instigação ou auxílio são tipificados como crimes autônomos, como, por exemplo, nos crimes de
incitação ao crime (CP, art. 286) e de associação criminosa (CP, art. 288). Nesses casos, basta,
respectivamente, a incitação ao crime e a associação de três ou mais pessoas com a finalidade
de praticarem crimes para a tipificação da conduta, independentemente se os crimes objeto da
incitação ou da associação vierem a ser praticados.
[Link]. Participação posterior ao crime
A participação em concurso de pessoas exige que a conduta acessória tenha sido
praticada antes ou durante a execução do delito. Isso porque, diante do caráter de
acessoriedade, a participação do agente deve contribuir para o crime praticado pelo executor até
a fase da consumação.
Se a contribuição do partícipe for posterior à consumação do crime, pode configurar,
conforme o caso, o crime de favorecimento pessoal (CP, art. 348) ou real (CP, art. 349), dentre
outros.
E aqui cabe uma ressalva. Pode ser que a conduta do partícipe se limite a encorajar ou
influenciar o executor a praticar o delito, vindo a ter proveito somente após a consumação do
delito. Nesse caso, o partícipe responderá pelo crime praticado pelo autor, uma vez que sua
contribuição, no sentido de influenciar, instigar, encorajar, ocorreu antes da consumação do
delito.
Contextualizando a situação: Imaginemos que uma pessoa estimule o agente a praticar o
crime de furto de um veículo, sob a promessa de que ficaria com o automóvel, mediante
pagamento em dinheiro. Nesse caso, aquele que estimulou responderá, juntamente com o autor,
pelo crime de furto qualificado, uma vez que sua contribuição foi anterior à consumação do delito.
Se, eventualmente, sua conduta se restringir a atos praticados posteriormente à
consumação do delito, o agente não responderá pelo crime praticado pelo autor, podendo,
conforme o caso, responder por delito autônomo. É o caso do sujeito que, sem qualquer
contribuição anterior, adquire o veículo subtraído sabendo ser produto de furto. Evidentemente
não responderá pelo crime de furto, mas de receptação, previsto no art. 180 do CP, já que sua
atuação ocorreu após a consumação do delito de furto.
FIQUE LIGADO
- AUTOR executa a ação descrita no verbo nuclear do tipo: TEORIA RESTRITIVA
- PARTÍCIPE não executa ação descrita no verbo nuclear do tipo.
Não executa ação
descrita no verbo
nuclear do tipo
PARTÍCIPE Moral Induzir; Instigar
Formas
Material Auxiliar
5.4. Punibilidade do concurso de pessoas
5.4.1. Participação de menor importância – Art. 29, §1º
A participação aqui referida diz respeito exclusivamente ao partícipe. Isso porque, ainda
que tenha sido pequena, a contribuição do coautor não pode ser considerada de menor
importância, uma vez que atuou diretamente na execução do crime. A sua culpabilidade,
naturalmente superior à de um simples partícipe, será avaliada nos termos do art. 29, caput, do
CP, e a pena a ser fixada obedecerá aos limites abstratos previstos pelo tipo penal infringido.
O partícipe que houver tido “participação de menor importância” poderá ter sua pena
reduzida de um sexto a um terço, nos termos do art. 29, § 1º.
Trata-se, pois, de uma causa de diminuição da pena.
5.4.2. Da cooperação dolosamente distinta ou desvios subjetivo entre os participantes – Art.
29, § 2º
O agente que desejava praticar um delito, sem a condição de prever a concretização de
crime mais grave, deve responder pelo que pretendeu fazer, não se podendo a ele imputar outra
conduta indesejada, sob pena de se estar tratando de responsabilidade objetiva.
Esse dispositivo cuida da hipótese de o autor principal cometer delito mais grave que o
pretendido pelo partícipe ou coautor.
EXEMPLO:
“A” determina “B” a espancar “C”. “B” mata “C”. Segundo o art. 29, § 2º, “A”
responde por crime de lesão corporal, cuja pena deve ser aumentada até metade
se a morte da vítima lhe era previsível.
De fato, a solução dada pelo CP leva à punição de “A” pelo delito de lesões corporais, que
foi o crime desejado, cuja pena será elevada até a metade se o homicídio for previsível.
5.5. Comunicabilidade das elementares e circunstâncias do crime
Via de regra, as circunstâncias e condições pessoais relacionadas a um dos agentes não
se comunica aos outros que contribuíram para a prática delituosa.
Todavia, há determinadas circunstâncias ou condições pessoais que compõem, integram
o tipo penal, figurando, no caso, como verdadeira elementar no tipo penal. Nesse caso, quando
também constituem o tipo penal, ou seja, figuram como elementares do tipo penal, as
circunstâncias ou condições pessoais relacionadas a um dos sujeitos se comunicam aos demais
coautores ou partícipes.
EXEMPLO:
“A”, funcionário público, comete um crime de peculato (art. 312), com a
participação de “B”, não funcionário público. A condição pessoal (funcionário
público) é elementar do crime de peculato, comunicando-se, portanto, ao agente
que não é funcionário público. Logo, os dois respondem por crime de peculato.
De outro lado, as circunstâncias objetivas alcançam o partícipe ou coautor se, sem haver
praticado o fato que as constitui, houveram integrado o dolo ou culpa.
EXEMPLO:
“A” instiga “B” a praticar homicídio contra “C”. “B”, para a execução do crime,
emprega asfixia. O partícipe não responde por homicídio qualificado (art. 121, § 2º,
III, 4ª figura), a não ser que o meio de execução empregado pelo autor principal
tenha ingressado na esfera de seu conhecimento.
Conforme ESTEFAM (2010, p. 285), da regra contida no artigo 30 do Código Penal
podem-se extrair duas conclusões:
a) Todas as elementares do crime, objetivas, normativas ou subjetivas, comunicam-se a
todos os agentes (se por eles conhecidas). Assim, por exemplo, a condição de funcionário
público, elementar do crime de peculato (CP, art. 312), estende-se ao coautor ou partícipe que
não ostente tal qualidade, fazendo com que ele, embora particular, responda pelo delito.
b) As circunstâncias da infração penal comunicam-se apenas quando objetivas (e forem
conhecidas pelos demais concorrentes). Por esse motivo, o emprego de arma por um dos
agentes no crime de roubo provoca, com relação a todos, a incidência da causa de aumento de
pena daí decorrente (CP, art. 157, § 2º, I). Se subjetivas, serão incomunicáveis.
EXEMPLO:
O motivo egoístico, que qualifica o crime de dano (CP, art. 163, parágrafo único,
IV, primeira figura), não se comunica aos demais concorrentes que tenham
colaborado com o fato por outros motivos.
11) (QUESTÃO 01 – IX EXAME)
Raimundo, já de posse de veículo automotor furtado de concessionária, percebe que não tem
onde guardá-lo antes de vendê-lo para a pessoa que o encomendara. Assim, resolve ligar para
um grande amigo seu, Henrique, e após contar toda sua empreitada, pede-lhe que ceda a
garagem de sua casa para que possa guardar o veículo, ao menos por aquela noite. Como
Henrique aceita ajudá-lo, Raimundo estaciona o carro na casa do amigo. Ao raiar do dia,
Raimundo parte com o veículo, que seria levado para o comprador.
Considerando as informações contidas no texto responda, justificadamente, aos itens a
seguir.
A) Raimundo e Henrique agiram em concurso de agentes? (Valor: 0,75)
B) Qual o delito praticado por Henrique? (Valor: 0,50)
12) (QUESTÃO 01 – XXIX EXAME)
Caio e Bruno são irmãos e estão em dificuldades financeiras. Caio, que estava sozinho em seu
quarto, verifica que a janela da casa dos vizinhos está aberta; então, ingressa no local e subtrai
um telefone celular avaliado em R$500,00. Ao mesmo tempo, apesar de não saber da conduta
de seu irmão, Bruno percebe que a porta da residência dos vizinhos também ficou aberta. Tendo
conhecimento que os proprietários eram um casal de empresários muito rico, ingressa no local
e subtrai uma bolsa, avaliada em R$ 450,00.
Os fatos são descobertos dois dias depois, e Bruno e Caio são denunciados pelo crime de furto
qualificado (Art. 155, § 4º, inciso IV, do Código Penal), sendo acostadas as Folhas de
Antecedentes Criminais (FAC), contendo, cada uma delas, outra anotação pela suposta prática
de crime de estelionato, sem, contudo, haver condenação com trânsito em julgado em ambas.
Após instrução, a pretensão punitiva do Estado é julgada procedente, sendo aplicada pena
mínima de 02 anos de reclusão e 10 dias-multa, em regime inicial aberto, devidamente
substituída por restritiva de direitos.
Com base nas informações expostas, intimado(a) para apresentação de recurso,
responda, na condição de advogado(a) de Caio e Bruno, aos itens a seguir.
A) Existe argumento de direito material a ser apresentado para questionar a capitulação
jurídica apresentada pelo Ministério Público e acolhida na sentença? (Valor: 0,60)
B) Mantida a capitulação acolhida na sentença (Art. 155, § 4º, inciso IV, do Código Penal),
existe argumento em busca da redução da pena aplicada? (Valor: 0,65)
O(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não
confere pontuação.
13) (QUESTÃO 3 – XIX EXAME)
Sabendo que Vanessa, uma vizinha com quem nunca tinha conversado, praticava diversos furtos
no bairro em que morava, João resolve convidá-la para juntos subtraírem R$ 1.000,00 de um
cartório do Tribunal de Justiça, não contando para ela, contudo, que era funcionário público e
nem que exercia suas funções nesse cartório. Praticam, então, o delito, e Vanessa fica surpresa
com a facilidade que tiveram para chegar ao cofre do cartório. Descoberto o fato pelas câmeras
de segurança, são os dois agentes denunciados, em 10 de março de 2015, pela prática do crime
de peculato. João foi notificado e citado pessoalmente, enquanto Vanessa foi notificada e citada
por edital, pois não foi localizada em sua residência. A família de Vanessa constituiu advogado
e o processo prosseguiu, mas dele a ré não tomou conhecimento. Foi decretada a revelia de
Vanessa, que não compareceu aos atos processuais. Ao final, os acusados foram condenados
pela prática do crime previsto no Art. 312 do Código Penal à pena de 02 anos de reclusão. Ocorre
que, na verdade, Vanessa estava presa naquela mesma Comarca, desde 05 de março de 2015,
em razão de prisão preventiva decretada em outros dois processos. Ao ser intimada da
sentença, ela procura você na condição de advogado(a). Considerando a hipótese
narrada, responda aos itens a seguir.
A) Qual argumento de direito processual poderia ser apresentado em favor de Vanessa
em sede de apelação? Justifique. (Valor: 0,65)
B) No mérito, foi Vanessa corretamente condenada pela prática do crime de peculato?
Justifique. (Valor: 0,60)
Obs.: o mero “sim” ou “não”, desprovido de justificativa ou mesmo com a indicação de justificativa
inaplicável ao caso, não será pontuado.
Extinção da punibilidade
Prof. Nidal Ahmad
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6.1 Introdução
Em regra, as causas extintivas da punibilidade só alcançam o direito de punir do Estado,
subsistindo o crime em todos os seus requisitos e a sentença condenatória irrecorrível.
Excepcionalmente, a causa resolutiva do direito de punir apaga o fato praticado pelo
agente e rescinde a sentença condenatória irrecorrível. É o que acontece com a abolitio criminis
e a anistia.
Ordinariamente, as causas extintivas de punibilidade estão previstas no artigo 107 do
Código Penal. Todavia, o rol não é taxativo, uma vez que existem outras causas extintivas de
punibilidade previstas no Código Penal e em leis especiais.
Exemplo: art. 312, §3º, art. 342, § 2º, art. 168-A, § 2º, todos do Código Penal.
No nosso estudo, merece especial destaque a decadência e a prescrição.
6.2 Causas de extinção da punibilidade
Conforme o artigo 107 do Código Penal, são causas de extinção da punibilidade:
• Morte do agente
A morte do agente constitui causa de extinção da punibilidade, por conta do princípio da
personalidade da pena, segundo a qual a pena não pode passar da pessoa do condenado
(CF/88, art. 5º, XLV, 1ª parte).
Essa extinção da punibilidade incide sobre todas as espécies de penas, inclusive a pena
de multa. Assim, se, no curso da execução da pena de multa convertida em dívida ativa, o réu
vier a falecer, deve ser declarada extinta a punibilidade do agente pela sua morte, não sendo
possível, assim, direcionar a execução da pena de multa aos seus sucessores.
Isso porque, em sendo personalíssima a responsabilidade penal, a morte do agente faz
com que o Estado perca o jus puniendi, não se transmitindo a seus herdeiros qualquer obrigação
de natureza penal.
Todavia, a própria Constituição Federal prevê a possibilidade de a obrigação de reparar o
dano e a decretação do perdimento de bens ser estendidas aos sucessores e contra eles
executadas, até o limite do valor do patrimônio transferido (CF/88, art. 5º, XLV, 2ª parte).
• Da anistia, graça e indulto
A anistia, graça e indulto constituem espécies de indulgência, ensejando a renúncia do
Estado ao direito de punir.
São benefícios concedidos por órgãos diversos do Poder Judiciário, mas que somente
ensejam a extinção da punibilidade após decisão judicial.
a) Anistia
Trata-se de espécie de exclusão da incidência do Direito Penal sobre uma ou mais
infrações penais. Não exclui o crime, mas apenas a possibilidade de o Estado punir o agente que
o praticou, razão pela qual tem efeito retroativo.
A competência para concessão de anistia é exclusiva da União e privativa do Congresso
Nacional (CF/88, art. 48, VIII), com a sanção do Presidente da República, só podendo ser
concedida por meio de lei federal.
Não se aplica aos delitos referentes a “prática de tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes
e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos” (CF/88, art. 5º, XLIII; Lei
8.072/90, art. 2º, I).
b) Graça
A graça, ao contrário do indulto, é um benefício concedido a pessoa determinada,
condenada definitivamente pela prática de crime comum, consistente na extinção ou comutação
da pena.
Nos termos do art. 5º, XLIII, da Constituição Federal, a graça não pode ser aplicada em
relação a delitos referentes à prática de tortura, tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins,
terrorismo e aos definidos como crimes hediondos.
A Constituição Federal não faz expressa referência à graça, sendo esse instituto tratado
pela Lei de Execução Penal como indulto individual (LEP, art. 188).
A competência para concessão da graça é do Presidente da República, nos termos do art.
84, XII, da Constituição Federal, podendo, nos termos do parágrafo único desse artigo, delegar
a atribuição “aos Ministros de Estado, ao Procurador-Geral da República ou ao Advogado-Geral
da União”.
c) Indulto
O indulto coletivo constitui modalidade de clemência concedida a todo condenado que
preencher os requisitos previstos no Decreto Presidencial publicado geralmente no final de cada
ano. Como se vê, o indulto, ao contrário da graça, tem caráter coletivo e é concedido
espontaneamente.
Assim como a graça, a competência para conceder o indulto é do Presidente da República,
nos termos do art. 84, XII, da Constituição Federal/88, podendo, nos termos do parágrafo único
desse artigo, delegar a atribuição “aos Ministros de Estado, ao Procurador-Geral da República
ou ao Advogado-Geral da União”.
Os requisitos para a concessão do indulto variam de acordo com cada decreto publicado,
considerando, invariavelmente, requisitos subjetivos (primariedade e bom comportamento
carcerário, sem registro de falta grave ao longo do ano) e objetivos (tempo de cumprimento de
pena).
O indulto pode ser total, quando ensejar a extinção da pena, ou parcial, na hipótese de
diminuição ou comutação da pena, bem como incondicionado ou condicionado.
Nos termos do art. 2º, I, da Lei 8072/90, o indulto não pode ser aplicado em relação a
delitos referentes à prática de tortura, tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, terrorismo e
aos definidos como crimes hediondos. O artigo 44 da Lei 11.343/2006 também veda a concessão
do indulto aos condenados pelo crime de tráfico de drogas.
• Lei posterior que deixa de considerar o fato criminoso (abolitio criminis)
A lei penal retroage, atingindo fatos ocorridos antes de sua entrada em vigor, sempre que
beneficiar o agente de qualquer modo (CF, art. 5º, XL; CP, art. 2º). Assim, se a lei posterior deixar
de considerar o fato como criminoso, excluindo da seara penal a conduta como sendo delituosa,
retroagirá para alcançar os fatos praticados antes da sua vigência, com a consequente extinção
da punibilidade dos responsáveis.
A Lei nº 11.106/2005, por exemplo, revogou os artigos 217 e 240, ambos do Código Penal,
deixando de considerar como condutas criminosas a sedução e o adultério. Logo, se, por
exemplo, o agente estava cumprindo pena pela prática do crime de sedução (CP, art. 240), o juiz
da execução penal terá de declarar a extinção da punibilidade do condenado, já que o fato não
mais constitui crime.
Nos termos do artigo 2º do Código Penal, a abolitio criminis gera o efeito de fazer cessar
a execução e os efeitos penais da sentença condenatória, como, por exemplo, a reincidência,
maus antecedentes, lançamento do nome do réu no rol dos culpados. Assim, se, após extinta a
punibilidade pela abolitio criminis, o agente praticar novo crime, não será considerado
reincidente.
Todavia, não apaga os efeitos civis da prática delituosa, já que a lei fala em cessação dos
efeitos “penais” da sentença.
Se o fato abolido como crime estiver sendo apurado ainda na fase de inquérito policial ou
na fase judicial em sede de juízo de primeiro grau, cumpre ao juiz competente para conduzir a
persecução penal declarar a extinção da punibilidade. No caso de se encontrar na fase recursal,
ou na hipótese de competência originária dos Tribunais, a competência para declaração de
extinção da punibilidade será do respectivo Tribunal.
Se já foi proferida sentença condenatória, encontrando-se na fase de execução criminal,
a competência para a declaração da extinção da punibilidade será do Juízo da Execução
Criminal, nos termos do artigo 66, I, da Lei 7.210/84, e da Súmula 611 do Supremo Tribunal
Federal.
• Prescrição, decadência e perempção
O artigo 107, IV, do Código Penal prevê como causas de extinção da punibilidade a
prescrição, decadência e perempção.
A prescrição será analisada em capítulo próprio, diante da abrangência do tema.
a) Decadência
A decadência é a perda do direito do ofendido e dos demais legitimados de representar,
no caso de ação penal pública condicionada à representação, e de oferecer a queixa-crime, na
hipótese de ação penal privada, em face do decurso do tempo.
Nos termos do artigo 103 do Código Penal e 38 do Código de Processo Penal, o ofendido
ou seu representante legal decai do direito de queixa ou de representação se não o exerce dentro
do prazo de seis meses, contados a partir do dia em que veio a saber quem é o autor do crime,
ou, no caso da ação penal privada subsidiária da pública, do dia em que se esgotou o prazo para
o oferecimento da denúncia.
Logo, os legitimados para apresentar representação ou oferecer queixa-crime têm o prazo
de 06 (seis) meses, a contar da inequívoca ciência da autoria do fato, para exercer esse direito.
Escoado esse prazo sem iniciativa do ofendido ou do seu representante legal, incide a
decadência do direito de representação ou de queixa-crime, com a consequente extinção da
punibilidade do agente ofensor.
Como se trata de prazo penal, a contagem segue as regras do artigo 10 do Código Penal,
incluindo-se o dia do começo, excluindo-se o último dia, considerando o calendário comum.
Assim, se, por exemplo, o ofendido tomou ciência da autoria do fato no dia 03/03/2012, terá até
o dia 02/09/2020 para oferecer a representação ou ajuizar a queixa-crime. A partir do dia
03/09/2020 já terá incidido a decadência do direito, com a consequente extinção da punibilidade.
O prazo penal não se suspende e não se interrompe, não podendo, ainda, ser prorrogado
para o primeiro dia útil, se cair no sábado, domingo ou feriado. A partir do momento em que o
ofendido tomou conhecimento da ciência da autoria do fato, começa a correr o prazo
decadencial, não havendo suspensão ou interrupção.
b) Perempção
A perempção é uma causa de extinção da punibilidade que incide por conta da inércia
processual do querelante.
A perempção só é possível na ação penal exclusivamente privada, não sendo aplicável à
ação penal privada subsidiária da pública, já que, diante da negligência do querelante, o
Ministério Público retoma a ação penal (CPP, art. 29, parte final).
As hipóteses de perempção estão elencadas no artigo 60 do Código de Processo Penal.
E, segundo se extrai desse dispositivo, a perempção somente é possível após o ajuizamento da
ação penal privada.
Nos termos do artigo 60, inciso I, do Código de Processo Penal, haverá perempção
quando, iniciada a ação penal, o querelante deixar de promover o andamento do processo
durante 30 dias seguidos. Nesse caso, se, após regular intimação, o querelante não se
manifestar no prazo legal de 30 dias, será decretada a extinção da punibilidade pela perempção.
Tomemos como exemplo o querelante deixar de nomear novo advogado, depois de devidamente
intimado a renúncia do advogado que o representava na ação penal.
A perempção incide também quando, falecendo o querelante, ou sobrevindo sua
incapacidade, não comparecer em juízo, para prosseguir no processo, dentro do prazo de 60
dias, qualquer das pessoas a quem couber fazê-lo, ressalvado o disposto no art. 36 do Código
de Processo Penal (CPP, art. 60, II).
Na hipótese de morte do querelante, a legitimidade para prosseguir na ação penal passa
para o cônjuge, ascendente, descendente ou irmão (CPP, art. 31). Se um desses legitimados
não se habilitar aos autos, a fim de dar prosseguimento ao processo, dentro do prazo de 60 dias,
incidirá a causa de extinção de punibilidade do querelado.
Há perempção quando o querelante deixar de comparecer, sem motivo justificado, a
qualquer ato do processo a que deva estar presente, ou deixar de formular o pedido de
condenação nas alegações finais (CPP, art. 60, III). A presença do querelante no ato deve ser
imprescindível. Se o ato permitir ser representado por seu procurador, não haverá perempção.
A falta de pedido de condenação e não apresentação das alegações finais no prazo legal,
se devidamente intimado para tanto, também geram a incidência da perempção (CPP, art. 60,
III, 2ª parte). Assim, ao final da audiência de instrução, nos debates orais o querelante não
formular pedido de condenação ou de procedência do pedido, haverá perempção e, por
conseguinte, a extinção da punibilidade do querelado. Da mesma forma, se os debates orais
foram substituídos por memoriais escritos, por força do artigo 403, § 3º, do Código de Processo
Penal, e o querelante não apresentar essa peça no prazo legal, também incidirá a perempção.
Também gera a perempção quando, sendo querelante pessoa jurídica, esta se extinguir
sem deixar sucessor (CPP, art. 60, IV).
• Da renúncia ao direito de queixa ou perdão aceito nos crimes de ação penal
privada
a) Renúncia ao direito de queixa
É a abdicação do ofendido ou de seu representante legal do direito de promover a ação
penal privada. Trata-se de ato unilateral pelo qual o ofendido delibera por não ajuizar a queixa-
crime contra o suposto ofensor.
Nos termos do art. 104, caput, do Código Penal: “o direito de queixa não pode ser exercido
quando renunciado”.
A renúncia ao direito de queixa somente pode ser exercida na ação penal exclusivamente
privada, não sendo possível na ação penal privada subsidiária da pública, uma vez que, se o
ofendido não oferecer a queixa-crime, o Ministério Público poderá oferecer a denúncia enquanto
não incidir outra causa de extinção da punibilidade do agente, como, por exemplo, pela
prescrição.
A renúncia pode ser: expressa e tácita. A renúncia expressa constará de declaração
assinada pelo ofendido, seu representante legal ou procurador com poderes especiais, que não
precisa ser advogado (CPP, art. 50).
A renúncia tácita ao direito de queixa consiste na prática de ato incompatível com a
vontade de o ofendido ou seu representante legal iniciar a ação penal privada (CP, art. 104,
parágrafo único, 1ª parte). Assim, no crime de injúria, por exemplo, mostra-se incompatível com
a vontade de exercer o direito de queixa o ofendido convidar o ofensor para ser padrinho de
batismo do seu filho.
O fato de o ofendido receber a indenização do dano causado pelo crime não implica
renúncia ao direito de queixa, conforme se extrai do artigo 104, parágrafo único, 2ª parte, do
Código Penal. Todavia, em se tratando de crime de ação penal privada de menor potencial
ofensivo, seguindo o procedimento da Lei nº 9.099/95, a composição civil homologada acarreta
a renúncia ao direito de queixa (Lei 9.099/95, art. 74, parágrafo único).
No caso de concurso de pessoas, a exclusão de um dos ofensores indica renúncia ao
direito de queixa contra todos, não podendo o Promotor de Justiça aditar a queixa para nela
incluir o ofensor excluído.
Com efeito, se, por exemplo, são três os autores do crime de ação penal privada, cumpre
ao ofendido oferecer queixa contra todos ou contra nenhum. A exclusão de um importa renúncia
tácita, estendendo-se aos demais, nos termos do art. 49 do Código de Processo Penal.
Nos termos do art. 50 do Código de Processo Penal, a renúncia do ofendido não impede
que seu representante legal inicie a ação penal privada, nem a renúncia do último excluirá o
direito do primeiro.
Conforme dispõe o artigo 31 do Código de Processo Penal, no caso de morte da vítima,
o direito de oferecer a queixa-crime passará ao cônjuge, ascendente, descendente ou irmão.
Nesse caso, a renúncia de um dos legitimados não se reveste de causa impeditiva ao exercício
da ação penal privada pelos demais.
Havendo duas ou mais vítimas, a renúncia de uma delas não impede o exercício do direito
de queixa pelas demais.
b) Perdão do ofendido
O perdão do ofendido ou do seu representante legal consiste na manifestação, expressa
ou tácita, de desistir do prosseguimento da ação penal privada. É a desistência manifestada após
o oferecimento da queixa, que obsta o prosseguimento da ação penal privada, conforme prevê
o artigo 105 do Código Penal.
O perdão aceito do ofendido é causa extintiva de punibilidade que incide somente na ação
penal exclusivamente privada.
Tratando-se de ação penal privada subsidiária da pública (CP, art. 100, § 3º), a desistência
do ofendido de prosseguir com o processo não determina a extinção da punibilidade, mesmo que
o réu aceite o perdão, pois se trata de ação penal pública, devendo o Ministério Público assumi-
la como parte principal (CPP, art. 29).
Depois de iniciada a ação penal privada, o perdão do ofendido pode ser manifestado até
o trânsito em julgado da sentença penal condenatória (CPP, art. 106, § 2º).
No caso de haver dois ofendidos, o perdão concedido por um não prejudica o direito do
outro (CP, art. 106, II).
O perdão é um ato bilateral, dependendo, pois, da aceitação do querelado, já que poderá
recusar o perdão (CP, art. 106, III), optando pelo prosseguimento da ação penal, a fim de provar
sua inocência.
Quando há dois ou mais querelados, o perdão concedido a um deles se estende a todos,
sem que produza, entretanto, efeito em relação ao que o recusa (CPP, art. 51; CP, art. 106, I e
III).
Assim, havendo dois réus, o perdão aceito por um produz efeito de extinguir a punibilidade
também em relação ao outro, salvo se ocorre recusa. Neste caso, a ação penal continua em
relação ao querelado que o recusou.
Nos termos do artigo 58 do Código de Processo Penal, concedido o perdão, mediante
declaração expressa nos autos, o querelado será intimado a dizer, dentro de três dias, se o
aceita, devendo, ao mesmo tempo, ser cientificado de que o seu silêncio importará aceitação.
Aceito o perdão, o juiz julgará extinta a punibilidade.
• Da retratação do agente
A retratação significa desdizer-se, retirar o que foi dito, confessar que errou.
Em regra, a retratação do agente não tem relevância jurídica, funcionando somente como
circunstância judicial na aplicação da pena. Excepcionalmente, o estatuto penal lhe empresta
força extintiva da punibilidade (CP, art. 107, VI).
A retratação, como causa de extinção da punibilidade, somente incide nos casos
expressamente previstos em lei, como, por exemplo, nos crimes contra a honra, conforme prevê
o artigo 143 do Código Penal.
Nos crimes contra a honra, a retratação só é cabível na calúnia e na difamação, sendo
inadmissível na injúria. Nos dois primeiros casos, importa à vítima que o ofensor se retrate
negando que ela praticou o fato imputado. Na injúria, porém, não há imputação de fato, mas
atribuição ao ofendido de qualidade negativa, não importando a esta a retratação.
A retratação nos crimes de difamação e calúnia só é possível quando se trata da ação
penal privada, pois o art. 143 do Código Penal se refere expressamente ao querelado.
Também incide na hipótese prevista no art. 342, § 2º, do Código Penal, que trata do crime
de falso testemunho ou falsa perícia, segundo o qual o fato deixa de ser punível, se, antes da
sentença o agente se retrata ou declara a verdade. Essa retratação só é possível até a sentença
final do procedimento em que foi praticado o falso testemunho.
• Perdão judicial
Perdão judicial é o instituto pelo qual o juiz, não obstante a incidência da infração penal
praticada por agente culpável, deixa de aplicar a pena nos casos expressamente previstos em
lei.
O perdão judicial pode ser concedido, por exemplo, aos seguintes crimes:
a) art. 121, § 5º, do Código Penal: “Na hipótese de homicídio culposo, o juiz poderá deixar
de aplicar a pena, se as consequências da infração atingirem o próprio agente de forma tão grave
que a sanção penal se torne desnecessária”;
b) art. 129, § 8º, do Código Penal: “aplica-se à lesão culposa o disposto no §5º do art.
121”;
c) art. 140, § 1º, do Código Penal: em relação ao crime de injúria, “o juiz pode deixar de
aplicar a pena: I - quando o ofendido, de forma reprovável, provocou diretamente a injúria; II - no
caso de retorsão imediata, que consista em outra injúria;
d) art. 180, § 5º, do Código Penal, em relação à receptação culposa, “Na hipótese do §3º,
se o criminoso é primário, pode o juiz, tendo em consideração as circunstâncias, deixar de aplicar
a pena. Na receptação dolosa aplica-se o disposto no §2º do art. 155.”;
e) art. 242, parágrafo único, do Código Penal, “Dar parto alheio como próprio; registrar
como seu o filho de outrem; ocultar recém-nascido ou substituí-lo, suprimindo ou alterando direito
inerente ao estado civil: Se o crime é praticado por motivo de reconhecida nobreza”
14) (QUESTÃO 4 - XXIX EXAME)
Em processo no qual se imputava a Antônio a prática do crime de constituição de milícia privada,
foi designada audiência de instrução e julgamento para oitiva das testemunhas arroladas pela
acusação e pela defesa. No dia da audiência, as testemunhas de acusação não compareceram,
determinando o magistrado, por economia processual, a oitiva das testemunhas de defesa
presentes, apesar de o advogado de Antônio se insurgir contra esse fato. Na ocasião, foram
ouvidas três testemunhas de defesa, dentre as quais Pablo, que prestou declarações falsas para
auxiliar o colega nesse processo criminal. Identificada sua conduta, porém, houve extração de
peças ao Ministério Público, que, em 09 de abril de 2019, ofereceu denúncia em face de Pablo,
imputando-lhe a prática do crime de falso testemunho na forma majorada. No processo de
Antônio, foi designada nova audiência de instrução e julgamento, ocasião em que foram ouvidas
as testemunhas de acusação; novamente, Pablo, a seu pedido, prestou declarações,
confirmando que havia mentido na audiência anterior, mas que agora contava a verdade, o que
veio a prejudicar a própria defesa do réu. Com base nas declarações das testemunhas de
acusação e nas novas declarações de Pablo, Antônio veio a ser condenado. Pablo, por sua vez,
em seu processo pelo crime de falso testemunho, também veio a ser condenado, reconhecendo
o magistrado a atenuante do Art. 65, inciso III, alínea b, do Código Penal. Considerando as
informações narradas, responda, na condição de advogado(a) de Antônio e Pablo.
A) Qual argumento de direito processual poderá ser apresentado por você para
desconstituir a sentença condenatória do réu? Justifique. (Valor: 0,65)
B) Qual o argumento de direito material a ser apresentado pela defesa técnica de Pablo
para questionar a sentença condenatória? Justifique. (Valor: 0,60)
Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal
não confere pontuação.
Descriminantes putativas
Prof. Nidal Ahmad
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7.1 Conceito
É a causa excludente da ilicitude erroneamente imaginada pelo agente. Ela não existe
na realidade, mas o sujeito pensa que sim, porque está errado. Só existe, portanto, na mente,
na imaginação do agente. Por essa razão, é também conhecida como descriminante imaginária
ou erroneamente suposta.
Logo, é possível que o sujeito, por erro plenamente justificado pelas circunstâncias do
caso concreto, suponha encontrar-se em estado de necessidade, legítima defesa, estrito
cumprimento do dever legal ou em exercício regular do direito. Quando isso ocorre, aplica-se o
disposto no art. 20, § 1º, 1ª parte.
7.2 Espécies
A) Descriminante putativa por erro de tipo
É um erro de tipo essencial incidente sobre elementares de um tipo permissivo. Os tipos
permissivos são aqueles que permitem a realização de condutas inicialmente proibidas.
Compreendem os que descrevem as causas de exclusão da ilicitude. São espécies de tipo
permissivo:
Legítima defesa
Estado de necessidade
Exercício regular do direito
Estrito cumprimento do dever legal
Ocorrerá um erro de tipo permissivo quando o agente, erroneamente, imaginar uma
situação de fato totalmente diversa da realidade, em que estão presentes os requisitos de uma
causa de justificação.
Assim, por exemplo, se o agente praticar uma conduta supondo estar diante de uma
agressão injusta, mas, que na verdade, não existe. Trata-se de legítima defesa putativa.
O agente pratica uma conduta supondo estar numa situação de perigo, que, na verdade,
não existe. Trata-se de estado de necessidade putativo.
Os efeitos são os mesmos do erro de tipo, já que a descriminante putativa por erro de tipo
não é outra coisa senão erro de tipo essencial incidente sobre tipo permissivo.
Assim, se o erro for vencível, o agente responde por crime culposo, já que o dolo será
excluído, da mesma forma como sucede com o erro de tipo propriamente dito; se o erro for
inevitável, excluir-se-ão o dolo e a culpa e não haverá crime.
Cuidando-se de erro invencível, há exclusão do dolo e culpa.
Tratando-se de erro vencível, responde o sujeito por crime culposo, se prevista a
modalidade culposa. Provando-se que o sujeito não foi diligente no verificar as circunstâncias do
fato, responde por crime de homicídio culposo (art. 20, § 1º, CP).
B) Descriminante putativa por erro de proibição
O agente tem perfeita noção de tudo o que está ocorrendo. Não há qualquer engano
acerca da realidade. Não há erro sobre a situação de fato. Ele supõe que está diante da causa
que exclui o crime, porque avalia equivocadamente a norma: pensa que esta permite, quando,
na verdade, ela proíbe; imagina que age certo, quando está errado; supõe que o injusto é justo.
O sujeito imagina estar em legítima defesa, estado de necessidade etc., porque supõe
estar autorizado e legitimado pela norma a agir em determinada situação.
Exemplo: uma pessoa de idade avançada recebe um violento tapa em seu rosto, desferido
por um jovem atrevido. O idoso tem perfeita noção do que está acontecendo, sabe que seu
agressor está desarmado e que o ataque cessou. Não existe, portanto, qualquer equívoco sobre
a realidade concreta. Nessa situação, no entanto, imagina-se equivocadamente autorizado pelo
ordenamento jurídico a matar aquele que o humilhou, atuando, assim, em legítima defesa de sua
honra.
Ocorre aqui uma descriminante (a legítima defesa é causa de exclusão da ilicitude)
putativa (imaginária, já que não existe no mundo real) por erro de proibição (pensou que a
conduta proibida fosse permitida). No exemplo dado, a descriminante, no caso a legítima defesa,
foi putativa, pois só existe na mente do homicida, que imaginou que a lei lhe tivesse permitido
matar. Essa equivocada suposição foi provocada por erro de proibição, isto, por erro sobre a
ilicitude da conduta praticada.
As consequências dessa descriminante putativa encontram-se no art. 21 do CP e são as
mesmas do erro de proibição direto ou propriamente dito.
O dolo não pode ser excluído, porque o engano incide sobre a culpabilidade e não sobre
a conduta (por isso, erro de proibição). Se o erro for inevitável, o agente terá cometido um crime
doloso, mas não responderá por ele; se evitável, responderá pelo crime doloso com pena
diminuída de 1/6 a 1/3.
7.3 Consequências
No contexto das descriminantes putativas, aplica-se a teoria limitada da culpabilidade.
Pela teoria limitada da culpabilidade, quando a descriminante putativa incidir sobre
pressupostos de uma situação de fato (exemplo: o agente imaginar que está diante de uma
injusta agressão, mas que era imaginária. Supor que o desafeto iria sacar uma arma, quando,
na verdade, era um celular), o efeito em relação à conduta do agente é o mesmo do erro de tipo
(art. 20, CP): Se o erro foi invencível, exclui o dolo e a culpa; se vencível, exclui o dolo, mas o
agente responde pelo delito culposo, se previsto em lei. Para Cleber Masson, “acarreta a
atipicidade do fato, pois no finalismo o dolo e a culpa compõem a estrutura da conduta. Sem eles
não há conduta, e sem conduta o fato é atípico”.
Agora, se a descriminante putativa recair sobre pressupostos os limites legais das
excludentes, ou seja, apesar de conhecer a situação de fato, ignora a ilicitude do
comportamento (supõe ser comportamento lícito), o efeito será o mesmo do erro de proibição:
se inevitável, o agente será isento de pena; se evitável, o agente responde pelo delito, mas terá
a pena reduzida (art. 21, CP). Exemplo: um senhor de idade recebe um soco de um jovem rapaz
e acredita estar autorizado a revidar, lesionando-o gravemente por conta do desaforo. O senhor
sabe exatamente o que está fazendo, mas ignora que sua conduta será ilícita (que, no caso, não
se trata de hipótese de legítima defesa). É o caso das descriminantes putativas por erro de
proibição.
15) (QUESTÃO 4 - XXVII EXAME)
Revoltada com o fato de que sua melhor amiga Clara estaria se relacionando com seu ex-
companheiro João, Maria a procurou e iniciou uma discussão.
Durante a discussão, Clara, policial militar, afirmou que, se Maria a xingasse novamente, ela a
mataria gastando apenas uma munição da sua arma. Persistindo na discussão, Maria voltou a
ofender Clara. Esta, então, abriu sua bolsa e pegou um bem de cor preta. Acreditando que Clara
cumpriria sua ameaça, Maria desferiu um golpe na cabeça da rival, utilizando um pedaço de pau
que estava no chão. A perícia constatou que o golpe foi a causa eficiente da morte de Clara.
Posteriormente, também foi constatado que Clara, de fato, estava com sua arma de fogo na
bolsa, mas que ela apenas pegara seu telefone celular para ligar para João.
Após denúncia pela prática do crime de homicídio qualificado e encerrada a instrução da primeira
fase do procedimento do Tribunal do Júri, entendeu o magistrado por pronunciar Maria nos
termos da inicial acusatória.
Com base nas informações expostas, responda, na condição de advogado(a) de Maria,
aos itens a seguir.
A) Qual o recurso cabível da decisão proferida pelo magistrado? Caso tivesse ocorrido a
impronúncia, o recurso pela parte interessada seria o mesmo? Justifique. (Valor: 0,65)
B) Qual a tese de direito material a ser apresentada em sede de recurso para combater a
decisão de submeter a ré ao julgamento pelo Tribunal do Júri? Justifique. (Valor: 0,60)
16) (QUESTÃO 1 - VI EXAME)
Ao chegar a um bar, Caio encontra Tício, um antigo desafeto que, certa vez, o havia ameaçado
de morte. Após ingerir meio litro de uísque para tentar criar coragem de abordar Tício, Caio partiu
em sua direção com a intenção de cumprimentá-lo. Ao aproximar-se de Tício, Caio observou que
seu desafeto bruscamente pôs a mão por debaixo da camisa, momento em que achou que Tício
estava prestes a sacar uma arma de fogo para vitimá-lo. Em razão disso, Caio imediatamente
muniu-se de uma faca que estava sobre o balcão do bar e desferiu um golpe no abdome de
Tício, o qual veio a falecer. Após análise do local por peritos do Instituto de Criminalística da
Polícia Civil, descobriu-se que Tício estava tentando apenas pegar o maço de cigarros que
estava no cós de sua calça.
Considerando a situação acima, responda aos itens a seguir, empregando os argumentos
jurídicos apropriados e a fundamentação legal pertinente ao caso.
A) Levando-se em conta apenas os dados do enunciado, Caio praticou crime? Em caso
positivo, qual? Em caso negativo, por que razão? (Valor: 0,65)
B) Supondo que, nesse caso, Caio tivesse desferido 35 golpes na barriga de Tício, como
deveria ser analisada a sua conduta sob a ótica do Direito Penal? (Valor: 0,60)
Efeitos da sentença condenatória
Prof. Nidal Ahmad
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8.1 Nota introdutória
Após a prática de um fato típico, ilícito e sendo o agente culpável, em tese, instaura-se
uma ação penal, que pode ser pública ou privada. Observando as garantias constitucionais do
contraditório, ampla defesa e do devido processo legal, objetiva-se chegar ao final e, se
comprovada a materialidade e a autoria, o Estado, por meio do Poder Judiciário, aplicar uma
sentença ou acórdão condenatório, com a fixação de uma pena.
Essa sentença condenatória, ao transitar em julgado, naturalmente gera efeitos que, direta
ou indiretamente, atingem o condenado. Os efeitos não são apenas na esfera penal, mas
também em outras áreas do direito, como cível, administrativa, eleitoral, por exemplo.
Os efeitos da condenação são divididos em principais e secundários:
8.2 Efeitos principais
Como corolário lógico da sentença penal condenatória, o efeito principal consiste na
aplicação de uma pena privativa de liberdade, restritiva de direitos e/ou multa, além de medida
de segurança, no caso de agente semi-imputável que revela periculosidade.
8.3 Efeitos secundários
Além dos efeitos principais, a sentença condenatória gera efeitos secundários, também
denominados efeitos mediatos, acessórios, reflexos ou indiretos, de natureza penal e extrapenal.
8.3.1 Efeitos secundários de natureza penal
São inúmeros os efeitos secundários da sentença penal condenatória transitada em
julgado, dentre os quais podem ser destacados os seguintes:
a) gerar a reincidência (Art. 63 do CP);
b) configuração de maus antecedentes, se não utilizada para fins de reincidência;
c) fixação do regime inicial fechado na hipótese de prática de novo crime, ressalvada a
hipótese da Súmula 269 do Superior Tribunal de Justiça ;
d) vedação da substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos na
hipótese de prática de novo crime, ressalvada a hipótese do artigo 44, § 3º, do Código Penal;
e) vedação da concessão da suspensão condicional da pena em relação ao novo crime
(Art. 77, inciso I, do CP), e revogação da “sursis” (Art. 81, inciso I, e § 1º, do CP);
f) causa de revogação do livramento condicional (Arts. 86 e 87, ambos do CP);
g) aumento e interrupção do prazo da prescrição da pretensão executória, quando
reconhecida a reincidência pela prática de outro crime (Arts. 110, caput, e 117, inciso VI, ambos
do CP);
h) vedação da concessão da transação penal e da suspensão condicional do processo,
em relação ao novo crime (Arts. 76, § 2º, inciso I, e 89, caput, ambos da Lei nº 9.099/95).
8.3.2 Efeitos secundários de natureza extrapenal
Além de gerar efeitos penais, a sentença penal condenatória transitada em julgado gera
efeitos extrapenais, ou seja, em outras áreas do direito, como na esfera cível, administrativa,
trabalhista, eleitoral, etc.
Esses efeitos se dividem em genéricos e específicos:
Os efeitos genéricos incidem sobre todos os crimes e estão previstos no artigo 91 do
Código Penal, consistentes em reparar o dano e confisco. Incidem de forma automática, não
sendo necessário, portanto, o juiz declarar na sentença. É o que se extrai, a contrario sensu, do
disposto no artigo 92, parágrafo único, do Código Penal.
Os efeitos específicos são aqueles previstos no artigo 92 do Código Penal. Nos termos
do artigo 92, parágrafo único, do Código Penal, esses efeitos não incidem de forma automática,
devendo o juiz declará-los motivadamente na sentença.
8.3.2 Efeitos genéricos
a) Tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime
Nos termos do artigo 91, inciso I, do Código Penal, constitui efeito da sentença penal
condenatória “tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime”. Trata-se de
efeito automático decorrente da sentença penal condenatória, já que meramente declaratória no
tocante à indenização civil, não sendo necessário mandamento expresso no sentido de o réu
reparar o dano resultante do crime.
A sentença penal condenatória transitada em julgado permite à vítima promover a ação
de execução ex delicto, nos termos do artigo 63 do Código de Processo Penal, já que constitui
título executivo judicial, conforme prevê o artigo 515, inciso I, do Código de Processo Civil de
2015.
Assim, transitada em julgado a sentença penal condenatória a sua execução no juízo cível
visa tão somente estabelecer o quantum da reparação do dano, não sendo, portanto, objeto de
discussão o mérito da causa.
b) A perda em favor da união, ressalvado o direito do lesado ou de terceiro de boa-
fé, dos instrumentos do crime, desde que consistam em coisas cujo fabrico, alienação,
uso, porte ou detenção constitua fato ilícito
É a hipótese do confisco como efeito da condenação, previsto no artigo 91, inciso II, do
Código Penal. Trata-se da perda em favor da União de bens de origem ilícita, decorrente do
delito praticado.
Constitui efeito automático da sentença penal condenatória transitada em julgado, não
sendo, pois, necessário que o juiz declare expressamente na sentença.
c) Confisco alargado
A Lei nº 13.964/2019 (“Pacote Anticrime”) introduziu mais um efeito da sentença penal
condenatória.
Nos termos do artigo 91-A do Código Penal, na hipótese de condenação por infrações às
quais a lei comine pena máxima superior a 6 (seis) anos de reclusão, poderá ser decretada a
perda, como produto ou proveito do crime, dos bens correspondentes à diferença entre o valor
do patrimônio do condenado e aquele que seja compatível com o seu rendimento lícito.
Para efeito da perda prevista no caput do referido artigo, entende-se por patrimônio do
condenado todos os bens:
I - de sua titularidade, ou em relação aos quais ele tenha o domínio e o benefício direto ou
indireto, na data da infração penal ou recebidos posteriormente; e
II - transferidos a terceiros a título gratuito ou mediante contraprestação irrisória, a partir
do início da atividade criminal.
O condenado poderá demonstrar a inexistência da incompatibilidade ou a procedência
lícita do patrimônio.
A perda prevista neste artigo deverá ser requerida expressamente pelo Ministério Público,
por ocasião do oferecimento da denúncia, com indicação da diferença apurada.
Na sentença condenatória, o juiz deve declarar o valor da diferença apurada e especificar
os bens cuja perda for decretada.
Os instrumentos utilizados para a prática de crimes por organizações criminosas e milícias
deverão ser declarados perdidos em favor da União ou do Estado, dependendo da Justiça onde
tramita a ação penal, ainda que não ponham em perigo a segurança das pessoas, a moral ou a
ordem pública, nem ofereçam sério risco de ser utilizados para o cometimento de novos crimes.
[Link] Efeitos específicos
a) A perda de cargo, função pública ou mandato eletivo
O artigo 92, inciso I, do Código Penal, prevê duas hipóteses de perda de cargo, função ou
mandato eletivo como efeito da sentença penal condenatória:
a) quando aplicada pena privativa de liberdade por tempo igual ou superior a um ano, nos
crimes praticados com abuso de poder ou violação de dever para com a Administração Pública;
b) quando for aplicada pena privativa de liberdade por tempo superior a 4 (quatro) anos
nos demais casos.
A primeira hipótese pode incidir quando o funcionário público praticar o delito no exercício
das suas funções ou em razão dela, e a pena privativa de liberdade seja aplicada por tempo igual
ou superior a um ano.
Não se tratando de crime funcional, a perda do cargo, função pública ou mandato eletivo
poderá incidir quando a pena aplicada for igual ou superior a quatro anos.
Esse efeito, no entanto, não é automático, ou seja, exige para sua incidência que o juiz
declare expressamente em decisão motivada (Art. 92, parágrafo único, do CP).
b) A incapacidade para o exercício do pátrio poder (poder familiar), tutela ou curatela
Além do vínculo entre autor do fato e a vítima, a incidência do efeito específico consistente
na incapacidade para o exercício do poder familiar, tutela ou curatela, depende de duas
condições: a) que o crime seja doloso; b) que seja cominada pena de reclusão.
Esse efeito não é automático, devendo ser declarado na sentença em decisão motivada,
conforme se extrai do artigo 92, parágrafo único, do Código Penal. Assim, cumpre ao Magistrado,
no caso concreto, avaliar a necessidade da imposição da incapacidade para o exercício do poder
familiar, tutela ou curatela. Exemplo: pai condenado pela prática do crime estupro de vulnerável
(Art. 217-A do CP) contra filha de tenra idade.
c) A inabilitação para dirigir veículo, quando utilizado como meio para a prática de
crime doloso.
A aplicação desse efeito específico depende de dois requisitos: a) que o crime seja doloso;
b) que o veículo tenha sido utilizado “como meio” para a sua prática. Logo, não incide esse efeito
no caso de crime culposo.
PADRÃO DE RESPOSTAS
1) (QUESTÃO 2 - V EXAME)
Joaquina, ao chegar à casa de sua filha, Esmeralda, deparou-se com seu genro, Adaílton,
mantendo relações sexuais com sua neta, a menor F.M., de 12 anos de idade, fato ocorrido no
dia 2 de janeiro de 2011. Transtornada com a situação, Joaquina foi à delegacia de polícia, onde
registrou ocorrência do fato criminoso. Ao término do Inquérito Policial instaurado para apurar os
fatos narrados, descobriu-se que Adaílton vinha mantendo relações sexuais com a referida
menor desde novembro de 2010. Apurou-se, ainda, que Esmeralda, mãe de F.M., sabia de toda
a situação e, apesar de ficar enojada, não comunicava o fato à polícia com receio de perder o
marido que muito amava.
Na condição de advogado(a) consultado(a) por Joaquina, avó da menor, responda aos
itens a seguir, empregando os argumentos jurídicos apropriados e a fundamentação legal
pertinente ao caso.
A) Adaílton praticou crime? Em caso afirmativo, qual? (Valor: 0,3)
B) Esmeralda praticou crime? Em caso afirmativo, qual? (Valor: 0,5)
C) Considerando que o Inquérito Policial já foi finalizado, deve a avó da menor oferecer
queixa-crime? (Valor: 0,45)
GABARITO COMENTADO
A) Sim. Estupro de vulnerável, conduta descrita no art. 217-A do CP.
B) Sim. Esmeralda também praticou estupro de vulnerável (artigo 217-A do CP c/c artigo 13, §2º,
“a”, do CP), uma vez que tinha a obrigação legal de impedir o resultado, sendo garantidora da
menor.
C) Não, pois se trata de ação penal pública incondicionada, nos termos do art. 225, parágrafo
único, do CP.
Observação: A Lei 13.718, de 24 de setembro de 2018 trouxe importantes mudanças em
relação aos crimes contra a dignidade sexual. Agora a ação penal pública incondicionada
é a regra para os crimes contra a liberdade sexual e os crimes sexuais contra vulnerável
(arts. 213 a 218-C) e está prevista no artigo 225, caput, do Código Penal.
DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS
ITEM PONTUAÇÃO
A) Sim. Estupro de vulnerável (0,2) – art. 217-A do CP (0,1) 0 / 0,1 / 0,2 / 0,3
B) Sim. Estupro de vulnerável (0,3) – artigo 217-A do CP c/c artigo 13, §2º, “a”,
do CP OU era garantidora (0,2). 0 / 0,3 / 0,5
Não pontua só artigo ou fundamento isolados.
C) Não, por se tratar de ação penal pública incondicionada (0,35). Art. 225,
0 / 0,35 / 0,45
parágrafo único, do CP (0,1).
2) (QUESTÃO 04 – X EXAME)
Erika e Ana Paula, jovens universitárias, resolvem passar o dia em uma praia paradisíaca e, de
difícil acesso (feito através de uma trilha), bastante deserta e isolada, tão isolada que não há
qualquer estabelecimento comercial no local e nem mesmo sinal de telefonia celular. As jovens
chegam bastante cedo e, ao chegarem, percebem que além delas há somente um salva-vidas
na praia. Ana Paula decide dar um mergulho no mar, que estava bastante calmo naquele dia.
Erika, por sua vez, sem saber nadar, decide puxar assunto com o salva-vidas, Wilson, pois o
achou muito bonito. Durante a conversa, Erika e Wilson percebem que têm vários interesses em
comum e ficam encantados um pelo outro. Ocorre que, nesse intervalo de tempo, Wilson percebe
que Ana Paula está se afogando. Instigado por Erika, Wilson decide não efetuar o salvamento,
que era perfeitamente possível. Ana Paula, então, acaba morrendo afogada.
Nesse sentido, atento(a) apenas ao caso narrado, indique a responsabilidade jurídico-
penal de Erika e Wilson. (Valor: 1,25)
O examinando deve fundamentar corretamente sua resposta. A simples menção ou transcrição
do dispositivo legal não pontua.
GABARITO COMENTADO
Segundo os dados narrados na questão, Wilson, por ser salva-vidas, tem o dever legal de agir
para evitar o resultado e, naquele momento, podia perfeitamente agir. Assim, trata-se de agente
garantidor. Nesse caso, responde por delito comissivo por omissão, qual seja, homicídio doloso
praticado via omissão imprópria: art. 121 c/c art. 13, § 2º, alínea 'a', ambos do CP. Erika, por sua
vez, por ter instigado Wilson a não realizar o salvamento de Ana Paula, responde como partícipe
de tal homicídio, nos termos do art. 29 do CP. Não há que se falar em omissão de socorro por
parte de Erika, pois, conforme dados expressos no enunciado, ela não sabia nadar e nem tinha
como chamar por ajuda.
DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS
ITEM PONTUAÇÃO
Wilson, por ser agente garantidor (0,30) /responde pelo delito de homicídio
0,00/0,30/0,60/0,90
(0,30) / praticado via omissão imprópria. (0,30)
Erika responde como partícipe de tal homicídio (0,35). 0,00/0,35
3) (QUESTÃO 03 – EXAME 2010-02)
Pedro, almejando a morte de José, contra ele efetua disparo de arma de fogo, acertando-o na
região toráxica. José vem a falecer, entretanto, não em razão do disparo recebido, mas porque,
com intenção suicida, havia ingerido dose letal de veneno momentos antes de sofrer a agressão,
o que foi comprovado durante instrução processual. Ainda assim, Pedro foi pronunciado nos
termos do previsto no artigo 121, caput, do Código Penal.
Na condição de Advogado de Pedro:
Indique o recurso cabível;
O prazo de interposição;
A argumentação visando à melhoria da situação jurídica do defendido. Indique, ainda, para todas
as respostas, os respectivos dispositivos legais.
GABARITO COMENTADO
I – Recurso em sentido estrito, nos termos do artigo 581, IV, do Código de Processo Penal. (0,2)
II – 5 dias, nos termos do artigo 586, do Código de Processo Penal. (0,2)
III – deveria ser requerida a desclassificação do crime consumado para tentado, já que a ação
de Pedro não deu origem a morte de José. Trata-se de hipótese de concausa absolutamente
independente pré-existente. (0,4)
Artigo 13 do Código Penal. (0,2)
DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS
ITEM PONTUAÇÃO
Recurso em sentido estrito (art. 581, IV, CPP) 0/0,2
5 dias (art. 586, CPP) 0/0,2
Consumado para tentado (art. 13 CP) 0/0,2/0,4/0,6
4) (QUESTÃO 1 – XXI EXAME)
Paulo e Júlio, colegas de faculdade, comemoravam juntos, na cidade de São Gonçalo, o título
obtido pelo clube de futebol para o qual o primeiro torce. Não obstante o clima de
confraternização, em determinado momento, surgiu um entrevero entre eles, tendo Júlio
desferido um tapa no rosto de Paulo. Apesar da pouca intensidade do golpe, Paulo vem a falecer
no hospital da cidade, tendo a perícia constatado que a morte decorreu de uma fatalidade,
porquanto, sem que fosse do conhecimento de qualquer pessoa, Paulo tinha uma lesão pretérita
em uma artéria, que foi violada com aquele tapa desferido por Júlio e causou sua morte. O órgão
do Ministério Público, em atuação exclusivamente perante o Tribunal do Júri da Comarca de São
Gonçalo, denunciou Júlio pelo crime de lesão corporal seguida de morte (Art. 129, § 3º, do CP).
Considerando a situação narrada e não havendo dúvidas em relação à questão fática,
responda, na condição de advogado(a) de Júlio:
A) É competente o juízo perante o qual Júlio foi denunciado? Justifique. (Valor: 0,65)
B) Qual tese de direito material poderia ser alegada em favor de Júlio? Justifique. (Valor:
0.60)
Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar as respostas. A mera citação do dispositivo legal
não confere pontuação.
GABARITO COMENTADO
A) O(A) examinando(a) deve concluir pela incompetência do Juízo, tendo em vista que o crime
praticado não é doloso contra a vida. Nos termos do Art. 74, § 1º, do Código de Processo Penal
(ou Art. 5º, inciso XXXVIII, alínea d, da CRFB), ao Tribunal do Júri cabe apenas o julgamento
dos crimes dolosos contra a vida e os conexos. No caso, mesmo de acordo com a imputação
contida na denúncia, o resultado de morte foi culposo; logo, a competência é do juízo singular.
B) O(A) examinando(a) deve defender que não poderia Júlio responder pelo crime de lesão
corporal seguida de morte, porque aquele resultado não foi causado a título de dolo nem culpa.
O crime de lesão corporal seguida de morte é chamado de preterdoloso. A ação é dirigida à
produção de lesão corporal, sendo o resultado morte produzido a título de culpa. Costuma-se
dizer que há dolo no antecedente e culpa no consequente. Um dos elementos da culpa é a
previsibilidade objetiva, somente devendo alguém ser punido na forma culposa quando o
resultado não querido pudesse ser previsto por um homem médio, sendo que a ausência de
previsibilidade subjetiva, capacidade do agente, no caso concreto, de prever o resultado,
repercute na culpabilidade.
Na hipótese, não havia previsibilidade objetiva, o que impede a tipificação do delito de lesão
corporal seguida de morte. Também poderia o candidato responder que havia uma concausa
preexistente, relativamente independente, desconhecida, impedindo Júlio de responder pelo
resultado causado. Em princípio, a concausa relativamente independente preexistente não
impede a punição do agente pelo crime consumado. Contudo, deve ela ser conhecida do agente
ou ao menos existir possibilidade de conhecimento, sob pena de responsabilidade penal objetiva.
DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS
ITEM PONTUAÇÃO
A) O Tribunal do Júri não é o juízo competente, pois o crime imputado não é
doloso contra a vida (0,55), nos termos do Art. 74, § 1º, do CPP OU do Art. 5º, 0,00 / 0,55 / 0,65
inciso XXXVIII, da CRFB/88. (0,10)
B) Júlio não poderia responder pelo resultado morte (0,25), nem mesmo a título
de culpa, em razão da ausência de previsibilidade OU porque existe causa
relativamente independente preexistente desconhecida OU porque a atribuição
do resultado violaria o princípio da vedação da responsabilidade objetiva (0,35).
0,00 / 0,25 /
0,35 / 0,60
Obs.: A mera repetição do enunciado no sentido de que o resultado decorreu de
uma fatalidade em razão de lesão em artéria desconhecida, sem qualquer
fundamentação jurídica, não é suficiente para atribuição do segundo intervalo de
pontuação.
5) Durante uma grave discussão, ocorrida no serviço, Licurgo Moicano agrediu Coitinho Lelo com
uma paulada na cabeça, com a intenção de matá-lo. Atendido com rapidez, Coitinho Lelo foi
colocado dentro de uma ambulância que rumou para o Pronto Socorro Municipal. No trajeto, a
ambulância capotou, vindo Coitinho Lelo a falecer em razão do acidente. Diante do fato e à luz
do ordenamento jurídico penal, responda se Licurgo Moicano deve ser responsabilizado
penalmente? Em caso afirmativo, indique qual o crime, empregando os argumentos
jurídicos apropriados e a fundamentação legal pertinente ao caso.
GABARITO COMENTADO
O estudante deverá indicar que o crime praticado foi o de tentativa de homicídio, ressaltando que
o caso trata de hipótese de causa superveniente relativamente independente, enfatizando, ainda,
o artigo 13, § 1º, do Código Penal.
6) (QUESTÃO 4 – XXV EXAME – REAPLICAÇÃO PORTO ALEGRE)
Vitor efetuou disparos de arma de fogo contra José, com a intenção de causar sua morte. Ocorre
que, por erro durante a execução, os disparos atingiram a perna de seu inimigo e não o peito,
como pretendido. Esgotada a munição disponível, Vitor empreendeu fuga, enquanto José
solicitou a ajuda de populares e compareceu, de imediato, ao hospital para atendimento médico.
Após o atendimento médico, já no quarto com curativos, enquanto dormia, José vem a ser picado
por um escorpião, vindo a falecer no dia seguinte em razão do veneno do animal,
exclusivamente. Descobertos os fatos, considerando que José somente estava no hospital em
razão do comportamento de Vitor, o Ministério Público oferece denúncia em face do autor dos
disparos pela prática do crime de homicídio consumado, previsto no Art. 121, caput, do Código
Penal. Após regular prosseguimento do feito, na audiência de instrução e julgamento da primeira
fase do procedimento do Tribunal do Júri, quando da oitiva das testemunhas, o magistrado em
atuação optou por iniciar a oitiva das testemunhas formulando diretamente suas perguntas, sem
permitir às partes complementação. Após alegações finais orais das partes, o magistrado proferiu
decisão de pronúncia. Apesar da impugnação da defesa quanto à formulação das perguntas pelo
juiz, o magistrado esclareceu que não importaria quem fez a pergunta, pois as respostas seriam
as mesmas. Com base apenas nas informações narradas, na condição de advogado(a) de
Vitor, responda aos itens a seguir.
A) Qual o recurso cabível da decisão proferida pelo magistrado e qual argumento de
direito processual pode ser apresentado em busca da desconstituição de tal decisão?
Justifique. (Valor: 0,65)
B) Existe argumento de direito material a ser apresentado, em momento oportuno, para
questionar a capitulação jurídica apresentada pelo Ministério Público? Justifique. (Valor:
0,60)
GABARITO COMENTADO
A) O recurso cabível da decisão de pronúncia é o Recurso em Sentido Estrito, nos termos do
Art. 581, inciso IV, do CPP. Em relação ao argumento de direito processual, deveria o candidato
alegar que houve nulidade durante a instrução probatória, tendo em vista que o magistrado
formulou diretamente perguntas às testemunhas, sendo que o Código de Processo Penal prevê
o sistema de cross examination para oitiva das testemunhas, cabendo as partes formularem as
perguntas diretamente para as testemunhas, podendo ser complementados pelo magistrado, na
forma do Art. 411 e do Art. 212, ambos do CPP. No caso, o magistrado formulou diretamente as
perguntas, não oportunizou às partes a complementação e houve devida impugnação em
momento adequado. A conduta do juiz configura cerceamento de defesa, de modo que devem
ser anulados todos os atos desde a instrução.
B) Em relação ao argumento de direito material, deveria a defesa de Vitor questionar a
capitulação jurídica realizada pelo Ministério Público. De fato, Vitor, ao efetuar disparos de arma
de fogo contra José, em direção ao seu peito, tinha a intenção de matá-lo, como o enunciado
deixa claro. Todavia, os disparos de Vitor não foram suficientes para causar a morte de seu
inimigo por circunstâncias alheias à sua vontade, já que os projéteis atingiram a perna de José.
José recebeu atendimento médico e já estava no quarto com curativos.
Posteriormente, José veio a ser mordido por escorpião, sendo que o veneno do animal causou,
exclusivamente, sua morte. Certo é que José só estava no hospital em razão dos disparos de
Vitor, mas houve causa superveniente, relativamente independente, que por si só causou a morte
de José. Diante disso, o resultado fica afastado, mas responde Vitor pelos atos já praticados,
conforme previsão do Art. 13, § 1º, do Código Penal. Assim, por mais que José tenha falecido,
Vitor deveria responder pelo crime de tentativa de homicídio.
DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS
ITEM PONTUAÇÃO
A1) O recurso cabível da decisão de pronúncia é o Recurso em Sentido Estrito
0,00/0,20/0,30
(0,20), na forma do Art. 581, inciso IV, do CPP (0,10).
A2) O argumento de direito processual a ser apresentado é o de que houve
nulidade com a formulação de perguntas diretas por parte do magistrado, sem
0,00/0,15/0,20/0,35
oportunizar complementação das partes (0,20), o que viola o princípio da ampla
defesa OU o que gera o cerceamento de defesa (0,15).
B) O argumento de direito material é o de que ocorreu causa superveniente 0,00/0,15/0,25/0,35/
relativamente independente que por si só causou o resultado (0,35), devendo 0,45/0,50/0,60
Vitor responder por tentativa de homicídio (0,15), nos termos do Art. 13, § 1º, do
CP (0,10).
7) (XXV EXAME – REAPLICAÇÃO EM PORTO ALEGRE – TESE PRINCIPAL DA PEÇA)
Breno, nascido em 07 de junho de 1945, na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, falsifica
uma assinatura em uma folha de cheque e a apresenta em loja de eletrodomésticos localizada
no bairro de sua residência, com a intenção de realizar compras no valor de R$ 5.000,00 (cinco
mil reais). Após a apresentação do cheque, apesar de a falsificação não ser grosseira e ser apta
a enganar, o gerente do estabelecimento comercial percebe que aquele cheque não fora
assinado pelo verdadeiro correntista do banco, já que o nome que constava do título de crédito
era de um grande amigo seu. Descoberta a fraude, o referido gerente aciona a polícia, e Breno
é preso em flagrante antes de obter a vantagem pretendida.
Com o recebimento dos autos, o Ministério Público opina pela liberdade de Breno e oferece
denúncia pela prática dos crimes do Art. 171, caput, e Art. 297, § 2º, na forma do Art. 69, todos
do Código Penal. Após concessão da liberdade provisória e recebimento da denúncia, houve
juntada do laudo pericial do cheque, constatando a falsidade e a capacidade para iludir terceiros,
bem como da Folha de Antecedentes Criminais, no qual consta uma condenação definitiva pela
prática, no ano anterior, do crime de homicídio culposo na direção de veículo automotor, além
de uma ação em curso pela suposta prática de crime de furto.
Durante a instrução, todos os fatos acima descritos são confirmados pelas testemunhas, não
tendo sido o réu interrogado, já que, apesar de intimado, apresentou problemas de saúde no dia
e não pôde comparecer à audiência. Ainda durante a audiência de instrução e julgamento, após
a instrução, as partes apresentaram suas alegações, sendo consignado pela defesa o
inconformismo com a ausência do réu, já que foi apresentado atestado médico, e, em seguida,
o juiz proferiu sentença condenatória nos termos da denúncia, condenando o agente pela prática
dos dois delitos em suas modalidades consumadas. No momento de fixar a pena-base,
aumentou o magistrado a pena do estelionato em 02 meses, destacando que o comportamento
de Breno não deixa qualquer dúvida de que agiu com dolo. Já a pena do uso de documento falso
foi aplicada em seu patamar mínimo. Na segunda fase, não foram reconhecidas atenuantes, mas
foi reconhecida a agravante da reincidência, aumentando a pena de cada um dos delitos em
mais 02 meses de reclusão. No terceiro momento, não foram reconhecidas causas de aumento
ou de diminuição. Assim, foi fixada a pena de 01 ano e 04 meses de reclusão e 14 dias-multa,
no que tange ao crime de estelionato, e 02 anos e 02 meses de reclusão e 12 dias-multa para o
crime de falsificação de documento equiparado ao público, restando a pena final em 03 anos e
06 meses de reclusão e 26 dias-multa. O regime inicial de cumprimento de pena aplicado pelo
magistrado foi o semiaberto e não houve substituição da pena privativa de liberdade por restritiva
de direito, tudo fundamentado na reincidência do agente.
Intimado da decisão, o Ministério Público apenas tomou ciência de seu teor, não apresentando
qualquer medida. Já a defesa técnica de Breno foi intimada de seu teor em 06 de dezembro de
2017, quarta-feira, sendo quinta-feira dia útil em todo o país.
Considerando apenas as informações narradas, na condição de advogado(a) de Breno,
redija a peça jurídica cabível, diferente de habeas corpus e embargos de declaração,
apresentando todas as teses jurídicas pertinentes. A peça deverá ser datada no último dia
do prazo para interposição. (Valor: 5,00)
GABARITO COMENTADO
Considerando as informações expostas na questão, deveria o candidato formular um Recurso
de Apelação, na forma do Art. 593, inciso I, do CPP, com elaboração da petição de interposição
acompanhada das respectivas razões recursais. A peça de interposição deveria ser direcionada
para o Juízo da Vara Criminal da Comarca de Porto Alegre/RS, enquanto que as razões recursais
deveriam ser endereçadas para o Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. A data
indicada deveria ser o dia 11 de dezembro de 2017, tendo em vista o prazo de 05 dias para
interposição da apelação.
Em suas razões recursais, inicialmente deveria o advogado buscar o reconhecimento da
nulidade dos atos praticados a partir da audiência de instrução e julgamento e da sentença, tendo
em vista que o ato foi realizado na ausência do réu, que não pode comparecer justificadamente,
inclusive sendo apresentado atestado médico pela defesa técnica. Dessa forma, houve violação
ao princípio da ampla defesa, em seu elemento autodefesa (direito de presença), de modo que
configurado cerceamento de defesa, pois o réu não foi interrogado.
Em seguida, como tese principal de mérito, deveria o examinando defender a impossibilidade de
condenação do agente pela prática de dois crimes autônomos, tendo em vista que a falsificação
do cheque foi apenas um meio para prática do crime de estelionato, de modo que o delito previsto
no Art. 297, §2º do Código Penal deveria ser absorvido pelo delito do Art. 171, caput, do Código
Penal.
Em princípio, quando um delito é praticado apenas como meio para a prática de outro delito,
aquele deve ficar absorvido por este, em respeito ao princípio da consunção. Trata-se de um dos
princípios que soluciona o conflito aparente de normas.
Uma das elementares do crime de estelionato é exatamente a fraude, a intenção de enganar.
Quando a fraude é utilizada através da falsificação de um documento cuja falsidade se exaure
no estelionato, o delito autônomo de falsificação ficará absorvido pelo estelionato, pois aquele foi
apenas um crime meio para a prática do mesmo e o potencial lesivo do crime meio foi exaurido.
Consagrando tal entendimento, o Superior Tribunal de Justiça editou o Enunciado 17 de sua
Súmula de Jurisprudência, prevendo que “Quando o falso se exaure no estelionato, sem mais
potencialidade lesiva, é por este absorvido”.
Na hipótese apresentada, não há dúvidas de que a intenção do agente era praticar um crime de
estelionato. Ademais, o falso no caso (folha de cheque com assinatura falsificada) se exaure no
estelionato, não mais tendo potencialidade lesiva, de modo que o crime do Art. 297, §2º do
Código Penal deveria ser absorvido, restando apenas o crime de estelionato.
Ressalta-se ser desnecessário encaminhamento dos autos para análise de proposta de
suspensão condicional do processo, tendo em vista que o réu responde a outros processos, não
preenchendo os requisitos do Art. 89 da Lei nº 9.099/90, não havendo prejuízo, porém, caso o
examinando elabore tal requerimento.
Após, deveria o examinando questionar a pena aplicada em relação ao crime de estelionato,
especialmente.
No momento de fixar a pena base do delito, o magistrado entendeu por aumentá-la, de acordo
com as circunstâncias do Art. 59 do Código Penal, sob o fundamento de que o denunciado agiu
com dolo. Ocorre que o delito de estelionato somente é punido em razão de comportamento
doloso, não havendo previsão de punição em caso de conduta culposa, de modo que o elemento
subjetivo dolo já é inerente ao tipo, não podendo o magistrado incrementar a pena sob esse
fundamento.
Na segunda fase, deveria ter sido reconhecida a atenuante em razão da idade do autor do fato,
tendo em vista que o agente era maior de 70 anos na data da sentença, pois nascido em 07 de
junho de 1945 e a sentença foi proferida no ano de 2017.
Já na terceira fase, deveria ser reconhecida a causa de diminuição de pena da tentativa. Isso
porque o crime de estelionato é delito classificado pela doutrina como sendo de natureza
material, ou seja, existe um resultado naturalístico previsto no tipo e ele precisa ocorrer para a
consumação do crime. Na hipótese apresentada, Breno pretendia pagar suas compras através
de cheque de terceiro, falsificando a assinatura do mesmo. Diante disso, pretendia obter
vantagem patrimonial em prejuízo alheio. Todavia, quando buscava realizar, mediante fraude,
compras no valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais), o gerente do estabelecimento descobriu o
ocorrido e acionou a polícia, permitindo a prisão em flagrante de Breno e impedindo a
consumação do delito. Assim, necessária a aplicação do Art. 14, inciso II, do Código Penal, com
redução da pena aplicada.
Após a dosimetria da pena, deveria o examinando defender a possibilidade de substituição da
pena privativa de liberdade por restritiva de direitos. Isso porque a condenação anterior do
agente, em que pese, de fato, configure reincidência, não impede a substituição, uma vez que o
Art. 44 do Código Penal apenas veda a medida para o condenado reincidente na prática de crime
doloso. Na hipótese, a pena aplicada foi inferior a 04 anos e o agente apenas tinha uma
condenação anterior pela prática de crime culposo, logo possível a substituição.
Caso não acolhido o pleito de substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos,
mesmo que mantida a pena aplicada em primeira instância, caberia o pedido de suspensão
condicional da pena, nos termos do Art. 77, § 2º, do Código Penal, tendo em vista que a sanção
aplicada foi inferior a 04 anos e o réu é maior de 70 anos, logo aplicável o sursis etário.
Em razão do exposto, deveria o examinando formular o pedido de conhecimento e provimento
do recurso, com os seguintes fundamentos:
a) Reconhecimento de nulidade em razão da ausência do réu em audiência e não realização de
interrogatório;
b) Afastamento do delito autônomo de falsificação de documento equiparado ao público;
c) Aplicação da pena base no mínimo legal, tendo em vista que o dolo é elemento inerente ao
tipo penal;
d) Reconhecimento da atenuante pelo fato de o réu ser maior de 70 anos na data da sentença;
e) Reconhecimento da causa de diminuição de pena da tentativa;
f) Substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos, tendo em vista que a
condenação anterior era por crime culposo.
g) Subsidiariamente, aplicação da suspensão condicional da pena.
O prazo a ser indicado na petição de interposição da apelação era o dia 11 de dezembro de
2017, já que o prazo previsto para a interposição do recurso de apelação é de 05 dias.
No fechamento, deveria o examinando indicar local, data, advogado e OAB.
DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS
ITEM PONTUAÇÃO
Petição de Interposição
1) Endereçamento: Vara Criminal da Comarca de Porto Alegre/RS (0,10). 0,00/0,10
2) Fundamento legal: Art. 593, inciso I, do Código de Processo Penal (0,10). 0,00/0,10
Razões Recursais
3) Endereçamento: Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul (0,10). 0,00/0,10
4) Preliminarmente, nulidade dos atos de instrução ou da sentença (0,30) 0,00/0,30
4.1) porque ocorreu cerceamento de defesa OU porque houve violação ao
0,00/0,15/025
princípio da ampla defesa (0,15), nos termos do Art. 5º, LV, CRFB (0,10).
4.2) porque o réu não pode comparecer ao ato justificadamente e não foi
realizado interrogatório OU e o réu não estava presente quando da produção das 0,00/0,15
provas (0,15)
5) No mérito: Absorção do crime de falsificação de documento pelo de estelionato
0,00/0,70/0,80
(0,70), nos termos do Enunciado 17 da Súmula de Jurisprudência do STJ (0,10).
6) Deverá ser aplicado o princípio da consunção (0,15), tendo em vista que se
0,00/0,15/0,20/0,35
trata do crime meio para a prática do crime patrimonial (0,20).
7) Redução da pena base ao mínimo legal (0,40), tendo em vista que o elemento
0,00/0,15/0,40/0,55
subjetivo dolo já é inerente ao tipo (0,15).
8) Reconhecimento de atenuante em razão de o agente ser maior de 70 anos na
0,00/0,35/0,45
data da sentença (0,35), nos termos do Art. 65, inciso I, do CP (0,10).
9) Reconhecimento da tentativa (0,45), tendo em vista que o crime de estelionato
0,00/0,10/0,45/0,55
é de natureza material e não houve obtenção da vantagem ilícita (0,10).
10) Substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos (0,20),
0,00/0,15/0,20/0,25/
tendo em vista que a condenação anterior foi pela prática de crime culposo (0,15),
0,30/0,35/0,45
de acordo com o Art. 44, inciso II, do Código Penal (0,10).
11) Subsidiariamente, aplicação da suspensão condicional da pena (0,15), tendo
em vista que a pena aplicada foi inferior a 4 anos e o réu era maior de 70 anos 0,00/0,10/0,15/
OU em razão do sursis etário (0,10), nos termos do Art. 77, §2º, do Código Penal 0,20/0,25/0,35
(0,10)
Pedidos:
12) Conhecimento (0,10) e provimento do recurso (0,20). 0,00/0,10/0,20/0,30
Prazo:
13) 11 de dezembro de 2017 (0,10). 0,00/0,10
Estrutura e Fechamento:
14) local, data, advogado e OAB. (0,10). 0,00/0,10
8) (QUESTÃO 04 – XXII EXAME)
Diego e Júlio caminham pela rua, por volta das 21h, retornando para suas casas após mais um
dia de aula na faculdade, quando são abordados por Marcos, que, mediante grave ameaça de
morte e utilizando simulacro de arma de fogo, exige que ambos entreguem as mochilas e os
celulares que carregavam. Após os fatos, Diego e Júlio comparecem em sede policial, narram o
ocorrido e descrevem as características físicas do autor do crime. Por volta das 5h da manhã do
dia seguinte, policiais militares em patrulhamento se deparam com Marcos nas proximidades do
local do fato e verificam que ele possuía as mesmas características físicas do roubador. Todavia,
não são encontrados com Marcos quaisquer dos bens subtraídos, nem o simulacro de arma de
fogo. Ele é encaminhado para a Delegacia e, tendo-se verificado que era triplamente reincidente
na prática de crimes patrimoniais, a autoridade policial liga para as residências de Diego e Júlio,
que comparecem em sede policial e, em observância de todas as formalidades legais, realizam
o reconhecimento de Marcos como responsável pelo assalto. O Delegado, então, lavra auto de
prisão em flagrante em desfavor de Marcos, permanecendo este preso, e o indicia pela prática
do crime previsto no Art. 157, caput, do Código Penal, por duas vezes, na forma do Art. 69 do
Código Penal. Diante disso, Marcos liga para seu advogado para informar sua prisão. Este
comparece, imediatamente, em sede policial, para acesso aos autos do procedimento originado
do Auto de Prisão em Flagrante.
Considerando apenas as informações narradas, na condição de advogado de Marcos,
responda, de acordo com a jurisprudência dos Tribunais Superiores, aos itens a seguir.
A) Qual requerimento deverá ser formulado, de imediato, em busca da liberdade de Marcos
e sob qual fundamento? Justifique. (Valor: 0,65)
B) Oferecida denúncia na forma do indiciamento, qual argumento de direito material
poderá ser apresentado pela defesa para questionar a capitulação delitiva constante da
nota de culpa, em busca de uma punição mais branda? Justifique. (Valor: 0,60)
Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal
não confere pontuação.
GABARITO COMENTADO
A) A defesa de Marcos deverá formular requerimento de relaxamento da prisão, tendo em vista
que não havia situação de flagrante a justificar a formalização do Auto de Prisão em Flagrante.
Narra o enunciado que, de fato, Marcos, mediante grave ameaça, inclusive com emprego de
simulacro de arma de fogo, subtraiu coisas alheias móveis de Diego e Julio, logo praticou dois
crimes de roubo.
As vítimas reconheceram o acusado, de modo que há justa causa para o oferecimento de
denúncia. Todavia, não havia situação de flagrante a justificar a prisão do acusado. Isso porque
o reconhecimento e prisão de Marcos ocorreram mais de 07 horas após o fato, sendo certo que
não houve perseguição e nem com o agente foram encontrados instrumentos ou produtos do
crime. Dessa forma, nenhuma das situações previstas no Art. 302 do Código de Processo Penal
restou configurada. Em sendo a prisão ilegal, o requerimento a ser formulado é de relaxamento
da prisão. Insuficiente, no caso, o examinando apresentar requerimento de liberdade provisória.
Primeiro porque, em sendo a prisão ilegal, sequer deveriam ser analisados os pressupostos dos
Artigos 312 e 313 do Código de Processo Penal nesse momento. Além disso, a princípio, não
seria caso de reconhecimento de ausência dos motivos da preventiva, já que foi praticado crime
com circunstâncias graves e o agente é triplamente reincidente.
B) O equívoco a ser alegado em relação à capitulação delitiva refere-se ao concurso de crimes.
Sem dúvidas, confirmados os fatos, houve crime de roubo, já que foram subtraídas coisas alheias
móveis e houve emprego de grave ameaça, ainda que apenas através de palavras de ordem e
emprego de simulacro de arma de fogo. Da mesma forma, dois foram os crimes patrimoniais
praticados. Isso porque dois patrimônios foram atingidos e presente o elemento subjetivo, tendo
em vista que Marcos sabia que estava subtraindo pertences de duas pessoas diversas. Todavia,
com uma só ação, mediante uma ameaça, foram subtraídos bens de dois patrimônios diferentes.
Assim, deverá ser reconhecido o concurso formal de delitos, aplicando-se a regra da
exasperação da pena, e não o concurso material, com aplicação do cúmulo material de sanções.
DISTRIBUIÇÃO DE PONTOS
ITEM PONTUAÇÃO
A) O requerimento a ser formulado é de relaxamento da prisão (0,35), tendo
em vista que não está presente nenhuma das situações de flagrante elencadas 0,00/0,30/0,35/0,65
no Art. 302 do CPP (0,30).
B) O argumento é que houve concurso formal de crimes (0,35), tendo em vista
0,00/0,15/0,25/0,35/
que, com uma só ação, foram praticados dois delitos (0,15), nos termos do Art.
0,45/ 0,50/0,60
70 do CP (0,10).
9) (QUESTÃO 02 – XXVII EXAME)
Em cumprimento de mandado de busca e apreensão, o oficial de justiça Jorge compareceu ao
local de trabalho de Lucas, sendo encontradas, no interior do imóvel, duas armas de fogo de
calibre .38, calibre esse considerado de uso permitido, devidamente municiadas, ambas com
numeração suprimida. Em razão disso, Lucas foi preso em flagrante e denunciado pela prática
de dois crimes previstos no Art. 16, caput, da Lei 10.826/2003, em concurso material, sendo
narrado que “Lucas, de forma livre e consciente, guardava, em seu local de trabalho, duas armas
de fogo de calibre restrito, devidamente municiadas”.
Após a instrução, em que os fatos foram confirmados, foi juntado o laudo confirmando o calibre
.38 das armas de fogo, a capacidade de efetuar disparos, bem como que ambas tinham a
numeração suprimida. As partes apresentaram alegações finais, e o magistrado, em sentença,
considerando o teor do laudo, condenou Lucas pela prática de dois crimes previstos no Art. 16,
parágrafo único, inciso IV, da Lei nº 10.826/2003, em concurso formal.
Intimada a defesa técnica da sentença condenatória, responda, na condição de
advogado(a) de Lucas, aos itens a seguir.
A) Qual o argumento de direito processual a ser apresentado em busca da desconstituição
da sentença condenatória? Justifique. (Valor: 0,65)
B) Reconhecida a validade da sentença em segundo grau, qual o argumento de direito
material a ser apresentado para questionar o mérito da sentença condenatória e,
consequentemente, a pena aplicada? Justifique. (Valor: 0,60)
GABARITO COMENTADO
A) O argumento de direito processual a ser apresentado é o de que houve violação ao princípio
da correlação, o que gera a nulidade da sentença por violação ao princípio da ampla defesa e
ao princípio do contraditório. Isso porque a denúncia narrou que Lucas guardava, em seu local
de trabalho, duas armas de fogo de calibre restrito.
Sem que houvesse aditamento da denúncia, o magistrado condenou o réu pela prática de dois
crimes de posse de arma de fogo de numeração suprimida, previsto no Art. 16, parágrafo único,
inciso IV, da Lei 10.826/03. Apesar do crime imputado na denúncia e o reconhecido na sentença
estarem previsto no mesmo dispositivo legal, eles não se confundem e a narrativa dos fatos é
diferente. O réu somente se defendeu sobre as armas apreendidas como sendo de uso restrito,
não podendo, então, o magistrado modificar os fatos para dar nova capitulação jurídica, nos
termos do Art. 384 do CPP. Se não houvesse alteração dos fatos, poderia o juiz aplicar o Art.
383 do CPP, mas não foi isso que ocorreu na hipótese narrada. Dessa forma, deve ser
reconhecida a nulidade da sentença.
B) Em busca de questionar o mérito da decisão, o advogado deveria argumentar que a conduta
de Lucas de guardar, em seu local de trabalho, duas armas de fogo com numeração suprimida
configura crime único previsto no Art. 16, parágrafo único, inciso IV, da Lei 10.826/03 e não dois
crimes autônomos, seja em concurso material ou formal. As armas estavam sendo guardadas
em um mesmo contexto, logo a violação ao bem jurídico protegido foi única, podendo, porém, a
quantidade de armas ser considerada no momento da aplicação da pena.
DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:
ITEM PONTUAÇÃO
A) Houve violação ao princípio da correlação OU não houve aditamento dos
fatos narrados na denúncia, não podendo o magistrado alterá-los (0,40), nos 0,00/0,15/0,25/0,40/
termos do Art. 384 do CPP (0,10), o que representa violação ao princípio da 0,50/0,55/0,65
ampla defesa OU contraditório (0,15)
B) Houve crime único OU Não houve qualquer espécie de concurso de
delitos (0,50), tendo em vista que as armas de fogo foram apreendidas em 0,00/0,10/0,50/0,60
um mesmo contexto (0,10)
10) (QUESTÃO 03 – XXX EXAME)
Eduardo foi preso em flagrante no momento em que praticava um crime de roubo simples, no
bairro de Moema. Ainda na unidade policial, compareceram quatro outras vítimas, todas
narrando que tiveram seus patrimônios lesados por Eduardo naquela mesma data, com intervalo
de cerca de 30 minutos entre cada fato, no bairro de Moema, São Paulo.
As cinco vítimas descreveram que Eduardo, simulando portar arma de fogo, anunciava o assalto
e subtraía os bens, empreendendo fuga em uma bicicleta. Eduardo foi denunciado pela prática
do crime do Art. 157, caput, por cinco vezes, na forma do Art. 69, ambos do Código Penal, e, em
sede de audiência, as vítimas confirmaram a versão fornecida em sede policial.
Assistido por seu advogado Pedro, Eduardo confessou os crimes, esclarecendo que pretendia
subtrair bens de seis vítimas para conseguir dinheiro suficiente para comprar uma motocicleta.
Disse, ainda, que apenas simulou portar arma de fogo, mas não utilizou efetivamente material
bélico ou simulacro de arma. O juiz, no momento da sentença, condenou o réu nos termos da
denúncia, sendo aplicada a pena mínima de 04 anos para cada um dos delitos, totalizando 20
anos de pena privativa de liberdade a ser cumprida em regime inicial fechado, além da multa. Ao
ser intimado do teor da sentença, pessoalmente, já que se encontrava preso, Eduardo tomou
conhecimento que Pedro havia falecido, mas que foram apresentadas alegações finais pela
Defensoria Pública por determinação do magistrado logo em seguida à informação do
falecimento do patrono. A família de Eduardo, então, procura você, na condição de advogado(a),
para defendê-lo.
Considerando apenas as informações narradas, responda, na condição de advogado(a)
de Eduardo, constituído para apresentação de apelação, aos itens a seguir.
A) Existe argumento de direito processual, em sede de recurso, a ser apresentado para
desconstituir a sentença condenatória? Justifique. (Valor: 0,65)
B) Diante da confirmação dos fatos pelo réu, qual argumento de direito material poderá
ser apresentado, em sede de apelação, em busca da redução da sanção penal aplicada?
Justifique. (Valor: 0,60)
Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal
não confere pontuação.
GABARITO COMENTADO
A questão exige do examinando conhecimentos sobre o tema concurso de crimes, além dos
direitos básicos dos acusados.
Narra o enunciado que Eduardo teria praticado cinco crimes de roubo, contra vítimas diferentes,
todos no bairro de Moema, com curto intervalo de tempo entre os fatos, com o mesmo modo de
agir, sendo seu objetivo obter dinheiro suficiente para a compra de uma motocicleta.
A) O argumento a ser apresentado, em sede de recurso, para desconstituir a sentença
condenatória, é o de que haveria violação ao princípio da ampla defesa, em sua vertente de
defesa técnica, tendo em vista que as alegações finais foram apresentadas pela Defensoria
Pública, não sendo o acusado intimado para, querendo, constituir novo patrono. De acordo com
o que consta do enunciado, durante a instrução processual, Eduardo foi assistido por Pedro,
advogado por ele constituído. Ocorre que, ao tomar conhecimento de que Pedro teria falecido,
de imediato o magistrado encaminhou os autos à Defensoria Pública para apresentação de
alegações finais, o que foi incorreto, já que o réu deveria ter sido intimado pessoalmente, pois
estava preso, para esclarecer se teria interesse em ser assistido pela Defensoria ou se pretendia
constituir novo advogado. Ao retirar esse direito do réu, o magistrado violou direito do acusado e
o princípio da ampla defesa.
B) Em sede de apelação, poderia ser buscado o reconhecimento da continuidade delitiva, o que
geraria redução da sanção penal aplicada. De acordo com o que consta do enunciado, de fato
foram praticados cinco crimes de roubo. Mesmo sem emprego de arma de fogo ou simulacro de
arma de fogo, houve grave ameaça na subtração dos bens de cinco vítimas diferentes, logo cinco
patrimônios foram atingidos e cinco crimes autônomos foram praticados. Ainda que Eduardo
tenha confessado os fatos, a pena mínima foi aplicada, não cabendo redução com fundamento
na atenuante do Art. 65, III, d, do CP, nos termos da Súmula 231 do STJ. Todavia, o magistrado
reconheceu o concurso material de crimes e somou a pena aplicada para cada um dos delitos.
De acordo com o Art. 71 do CP, a pena de apenas um dos crimes será aplicada e aumentada de
1/6 a 2/3 quando o agente, mediante mais de uma ação, pratica dois ou mais crimes da mesma
espécie, nas mesmas condições de tempo, lugar, maneira de execução, sendo os subsequentes
continuação do primeiro. Todas as exigências legais foram preenchidas. Os delitos foram
praticados no mesmo bairro, com intervalo de 30 minutos entre eles, sempre com o mesmo modo
de execução. A intenção do agente sempre foi praticar vários crimes, um em continuidade do
outro, para obter dinheiro suficiente para comprar uma motocicleta. Assim, ao invés do cúmulo
material, deveria o magistrado ter aumentado a pena de um dos delitos (04 anos) em 1/6 a 2/3,
ou, até mesmo, aplicar a previsão do Art. 71, parágrafo único, do CP.
DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:
ITEM PONTUAÇÃO
A) Sim. Tendo em vista que Eduardo deveria ter sido intimado para manifestar
seu interesse em constituir novo advogado ou ser assistido pela Defensoria
0,00/0,15/0,25/0,40/
Pública, para oferecimento das alegações finais, em razão do falecimento do
0,50/0,55/0,65
antigo patrono (0,40), houve violação ao princípio da ampla defesa (0,15), nos
termos do Art. 5º, inciso LV, da CRFB (0,10).
B) Reconhecimento da continuidade delitiva (0,35), na forma do Art. 71 do CP
0,00/0,15/0,25/0,35/
(0,10), já que os crimes são da mesma espécie e foram praticados nas mesmas
0,45/0,50/0,60
condições de tempo, local e modo de execução (0,15).
11) (QUESTÃO 01 – IX EXAME)
Raimundo, já de posse de veículo automotor furtado de concessionária, percebe que não tem
onde guardá- lo antes de vendê-lo para a pessoa que o encomendara. Assim, resolve ligar para
um grande amigo seu, Henrique, e após contar toda sua empreitada, pede-lhe que ceda a
garagem de sua casa para que possa guardar o veículo, ao menos por aquela noite. Como
Henrique aceita ajudá-lo, Raimundo estaciona o carro na casa do amigo. Ao raiar do dia,
Raimundo parte com o veículo, que seria levado para o comprador.
Considerando as informações contidas no texto responda, justificadamente, aos itens a
seguir.
A) Raimundo e Henrique agiram em concurso de agentes? (Valor: 0,75)
B) Qual o delito praticado por Henrique? (Valor: 0,50)
GABARITO COMENTADO
A) Não há concurso de agentes, pois o auxílio foi proposto após a consumação do crime de furto.
Assim, não estão presentes os requisitos necessários à configuração do concurso de agentes,
mormente liame subjetivo e identidade da infração penal.
B) Favorecimento real (Art. 349, do CP).
DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS
ITEM PONTUAÇÃO
A) Não, pois o auxílio foi proposto após a consumação do crime de furto (0,75)
OU Não, pois inexistente liame subjetivo e identidade da infração penal entre 0,00/ 0,75
ambos (0,75).
B) Favorecimento real OU praticou o delito descrito no Art. 349, do CP (0,50). 0,00/ 0,50
12) (QUESTÃO 01 – XXIX EXAME)
Caio e Bruno são irmãos e estão em dificuldades financeiras. Caio, que estava sozinho em seu
quarto, verifica que a janela da casa dos vizinhos está aberta; então, ingressa no local e subtrai
um telefone celular avaliado em R$500,00. Ao mesmo tempo, apesar de não saber da conduta
de seu irmão, Bruno percebe que a porta da residência dos vizinhos também ficou aberta. Tendo
conhecimento que os proprietários eram um casal de empresários muito rico, ingressa no local
e subtrai uma bolsa, avaliada em R$ 450,00.
Os fatos são descobertos dois dias depois, e Bruno e Caio são denunciados pelo crime de furto
qualificado (Art. 155, § 4º, inciso IV, do Código Penal), sendo acostadas as Folhas de
Antecedentes Criminais (FAC), contendo, cada uma delas, outra anotação pela suposta prática
de crime de estelionato, sem, contudo, haver condenação com trânsito em julgado em ambas.
Após instrução, a pretensão punitiva do Estado é julgada procedente, sendo aplicada pena
mínima de 02 anos de reclusão e 10 dias-multa, em regime inicial aberto, devidamente
substituída por restritiva de direitos.
Com base nas informações expostas, intimado(a) para apresentação de recurso,
responda, na condição de advogado(a) de Caio e Bruno, aos itens a seguir.
A) Existe argumento de direito material a ser apresentado para questionar a capitulação
jurídica apresentada pelo Ministério Público e acolhida na sentença? (Valor: 0,60)
B) Mantida a capitulação acolhida na sentença (Art. 155, § 4º, inciso IV, do Código Penal),
existe argumento em busca da redução da pena aplicada? (Valor: 0,65)
O(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não
confere pontuação.
GABARITO COMENTADO
A) Sim, a capitulação jurídica realizada pelo Ministério Público e acolhida na sentença poderá
ser questionada, tendo em vista que não deveria ter sido imputada a qualificadora do concurso
de agentes. O Art. 155, § 4º, inciso IV, do CP prevê qualificadora do furto quando este for
praticado mediante concurso de duas ou mais pessoas.
Ocorre que, apesar de Caio e Bruno serem irmãos e terem praticado crimes de furto no mesmo
local, data e horário, não houve concurso de agentes. Dentre os requisitos para configuração do
concurso de agentes está o liame subjetivo, que não restou configurado na hipótese
apresentada. A todo momento o enunciado deixa claro que Caio e Bruno sequer sabiam da
conduta um do outro, não havendo que se falar, então, em comunhão de ações e desígnios e,
consequentemente, concurso de agentes, apesar de configurado o crime de furto simples em
relação a ambos.
B) Mesmo em caso de manutenção da capitulação apresentada, ou seja, de furto qualificado,
seria possível a redução da pena aplicada em razão do privilégio previsto no Art. 155, § 2º, do
CP. Apesar de os agentes responderem a outras ações penais, nos termos da Súmula 444 do
STJ, não havendo sentença condenatória anterior com trânsito em julgado, são considerados
tecnicamente primários e de bons antecedentes. Ademais, as coisas furtadas podem ser
consideradas de pequeno valor, não havendo que se falar em insignificância, na hipótese, seja
pelo valor dos bens seja porque o enunciado indaga sobre a redução da pena aplicada e não
afastamento da tipicidade da conduta.
É preciso, ainda, ressaltar que os Tribunais Superiores pacificaram o entendimento de que a
figura do furto privilegiado poderá ser reconhecida ainda que o crime em questão seja de furto
qualificado, topograficamente localizado após a disciplina do privilégio, nos termos da Súmula
511 do Superior Tribunal de Justiça.
DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS
ITEM PONTUAÇÃO
A) Sim, o argumento seria pela inexistência de liame subjetivo entre os
agentes (0,45), afastando-se a qualificadora do concurso de pessoas 0,00/0,15/0,45/0,60
(0,15).
B) Sim, aplicação do furto privilegiado (0,35), já que a coisa é de pequeno 0,00/0,20/0,30/0,35/
valor e os réus são primários (0,20), conforme a Súmula 511 do STJ (0,10). 0,45/0,55/0,65
13) (QUESTÃO 3 – XIX EXAME)
Sabendo que Vanessa, uma vizinha com quem nunca tinha conversado, praticava diversos furtos
no bairro em que morava, João resolve convidá-la para juntos subtraírem R$ 1.000,00 de um
cartório do Tribunal de Justiça, não contando para ela, contudo, que era funcionário público e
nem que exercia suas funções nesse cartório.
Praticam, então, o delito, e Vanessa fica surpresa com a facilidade que tiveram para chegar ao
cofre do cartório. Descoberto o fato pelas câmeras de segurança, são os dois agentes
denunciados, em 10 de março de 2015, pela prática do crime de peculato. João foi notificado e
citado pessoalmente, enquanto Vanessa foi notificada e citada por edital, pois não foi localizada
em sua residência.
A família de Vanessa constituiu advogado e o processo prosseguiu, mas dele a ré não tomou
conhecimento. Foi decretada a revelia de Vanessa, que não compareceu aos atos processuais.
Ao final, os acusados foram condenados pela prática do crime previsto no Art. 312 do Código
Penal à pena de 02 anos de reclusão. Ocorre que, na verdade, Vanessa estava presa naquela
mesma Comarca, desde 05 de março de 2015, em razão de prisão preventiva decretada em
outros dois processos. Ao ser intimada da sentença, ela procura você na condição de
advogado(a).
Considerando a hipótese narrada, responda aos itens a seguir.
A) Qual argumento de direito processual poderia ser apresentado em favor de Vanessa
em sede de apelação? Justifique. (Valor: 0,65)
B) No mérito, foi Vanessa corretamente condenada pela prática do crime de peculato?
Justifique. (Valor: 0,60)
Obs.: o mero “sim” ou “não”, desprovido de justificativa ou mesmo com a indicação de justificativa
inaplicável ao caso, não será pontuado.
GABARITO COMENTADO
A) O examinando deveria alegar que, em relação à Vanessa, o processo é nulo desde a citação.
Quando Vanessa foi citada por edital, ela estava presa em estabelecimento na mesma unidade
da Federação do juízo processante, logo sua citação foi nula, conforme Enunciado 351 da
Súmula de Jurisprudência do STF. Como ela não tomou conhecimento da ação e nem mesmo
foi interrogada, pois teve sua revelia decretada, o prejuízo é claro. Assim, em sede de apelação,
antes de enfrentar o mérito da apelação, deveria o advogado buscar a anulação de todos os atos
após sua citação, inclusive da sentença. Poderia, ainda, o candidato justificar a nulidade na
exigência trazida pelo Art. 360 do CPP, que prevê que o réu preso deve ser citado pessoalmente.
B) Vanessa não foi corretamente condenada pela prática do crime de peculato. Em que pese o
Art. 30 do Código Penal prever que as “circunstâncias” de caráter pessoal se comunicam quando
elementares do crime, não é possível, no caso concreto, a aplicação desse dispositivo, porque o
enunciado deixa claro que Vanessa não tinha conhecimento da condição de funcionário público
de João, não sendo possível responsabilizá-la por peculato. A simples afirmação de que as
circunstâncias pessoais não se comunicam é insuficiente para atribuição da pontuação, pois,
quando elementares, poderá haver comunicação, desde que o agente tenha dessa situação. Da
mesma forma, inadequada a afirmativa no sentido de que o particular não pode ser
responsabilizado pelo crime próprio de peculato, pois insuficiente.
DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS
ITEM PONTUAÇÃO
A) Nulidade dos atos processuais praticados após sua citação OU nulidade da
sentença (0,25), pois a citação por edital foi inválida, já que Vanessa estava 0,00/0,10/0,25/0,30/
presa OU já que a citação de Vanessa deveria ter sido realizada pessoalmente 0,35/0,40/0,55/0,65
(0,30), nos termos da Súmula 351 do STF OU do art. 360, CPP (0,10).
B) Vanessa não foi corretamente condenada por peculato porque não tinha
conhecimento da condição de funcionário público de João, dependendo a
comunicação da elementar desse elemento subjetivo OU porque não pode ser 0,00 / 0,60
aplicado o Art. 30 do CP pela ausência de elemento subjetivo (0,60).
14) (QUESTÃO 4 - XXIX EXAME)
Em processo no qual se imputava a Antônio a prática do crime de constituição de milícia privada,
foi designada audiência de instrução e julgamento para oitiva das testemunhas arroladas pela
acusação e pela defesa. No dia da audiência, as testemunhas de acusação não compareceram,
determinando o magistrado, por economia processual, a oitiva das testemunhas de defesa
presentes, apesar de o advogado de Antônio se insurgir contra esse fato. Na ocasião, foram
ouvidas três testemunhas de defesa, dentre as quais Pablo, que prestou declarações falsas para
auxiliar o colega nesse processo criminal. Identificada sua conduta, porém, houve extração de
peças ao Ministério Público, que, em 09 de abril de 2019, ofereceu denúncia em face de Pablo,
imputando-lhe a prática do crime de falso testemunho na forma majorada. No processo de
Antônio, foi designada nova audiência de instrução e julgamento, ocasião em que foram ouvidas
as testemunhas de acusação; novamente, Pablo, a seu pedido, prestou declarações,
confirmando que havia mentido na audiência anterior, mas que agora contava a verdade, o que
veio a prejudicar a própria defesa do réu. Com base nas declarações das testemunhas de
acusação e nas novas declarações de Pablo, Antônio veio a ser condenado. Pablo, por sua vez,
em seu processo pelo crime de falso testemunho, também veio a ser condenado, reconhecendo
o magistrado a atenuante do Art. 65, inciso III, alínea b, do Código Penal. Considerando as
informações narradas, responda, na condição de advogado(a) de Antônio e Pablo.
A) Qual argumento de direito processual poderá ser apresentado por você para
desconstituir a sentença condenatória do réu? Justifique. (Valor: 0,65)
B) Qual o argumento de direito material a ser apresentado pela defesa técnica de Pablo
para questionar a sentença condenatória? Justifique. (Valor: 0,60)
Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal
não confere pontuação.
GABARITO COMENTADO
A) O advogado de Antônio poderá buscar o reconhecimento da nulidade da sentença
condenatória em razão da violação ao devido processo legal. Isso porque, de acordo com o Art.
400 do CPP, na audiência, primeiro devem ser ouvidas as testemunhas da acusação. Somente
após a produção de provas pela acusação poderiam ser ouvidas as testemunhas de defesa e
interrogado o acusado. Violando a ordem da oitiva das testemunhas, tendo a defesa se insurgido
contra tal inversão e ficando claro o prejuízo com a condenação e alteração dos fatos por parte
de Pablo, deverá ser reconhecida a nulidade do processo desde a primeira audiência de
instrução e julgamento.
B) A conduta de Pablo de, em audiência de instrução e julgamento de processo criminal, fazer
afirmação falsa como testemunha, a princípio, configura o crime realmente imputado: Art. 342, §
1º, do CP. Ocorre que, até como forma de incentivar a retratação e minorar os prejuízos causados
em processos, previu o legislador, no Art.342, § 2º, do CP, que se o agente se retrata ou declara
a verdade antes da sentença ser proferida no processo em que ocorreu o ilícito, o fato deixa de
ser punível. No caso, Pablo se retratou, narrou a verdade, antes mesmo de ser proferida a
sentença condenatória de Antônio. Dessa forma, não poderia o magistrado reconhecer que tal
retratação funcionaria apenas como atenuante do Art. 65, inciso III, alínea b, do CP, ou
arrependimento posterior, devendo reconhecer a extinção da punibilidade do agente, já que o
fato deixa de ser punível.
DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS
ITEM PONTUAÇÃO
A) Houve inversão na ordem de oitiva das testemunhas OU que as
testemunhas de defesa não poderiam ter sido ouvidas antes das
testemunhas de acusação (0,40), havendo violação ao devido 0,00/0,15/0,25/0,40/
processo legal OU violação à ampla defesa OU violação ao 0,50/0,55/0,65
contraditório (0,15), conforme o Art. 564, inciso IV, do CPP OU Art.
400 do CPP (0,10).
B) Houve retratação antes da sentença ser proferida no processo de
0,00/0,15/0,25/0,35/
Antônio (0,35), deixando o fato de ser punível (0,15), nos termos do
0,45/0,50/0,60
Art. 342, § 2º, do CP (0,10).
15) (QUESTÃO 4 - XXVII EXAME)
Revoltada com o fato de que sua melhor amiga Clara estaria se relacionando com seu ex-
companheiro João, Maria a procurou e iniciou uma discussão.
Durante a discussão, Clara, policial militar, afirmou que, se Maria a xingasse novamente, ela a
mataria gastando apenas uma munição da sua arma. Persistindo na discussão, Maria voltou a
ofender Clara. Esta, então, abriu sua bolsa e pegou um bem de cor preta. Acreditando que Clara
cumpriria sua ameaça, Maria desferiu um golpe na cabeça da rival, utilizando um pedaço de pau
que estava no chão. A perícia constatou que o golpe foi a causa eficiente da morte de Clara.
Posteriormente, também foi constatado que Clara, de fato, estava com sua arma de fogo na
bolsa, mas que ela apenas pegara seu telefone celular para ligar para João.
Após denúncia pela prática do crime de homicídio qualificado e encerrada a instrução da primeira
fase do procedimento do Tribunal do Júri, entendeu o magistrado por pronunciar Maria nos
termos da inicial acusatória.
Com base nas informações expostas, responda, na condição de advogado(a) de Maria,
aos itens a seguir.
A) Qual o recurso cabível da decisão proferida pelo magistrado? Caso tivesse ocorrido a
impronúncia, o recurso pela parte interessada seria o mesmo? Justifique. (Valor: 0,65)
B) Qual a tese de direito material a ser apresentada em sede de recurso para combater a
decisão de submeter a ré ao julgamento pelo Tribunal do Júri? Justifique. (Valor: 0,60)
GABARITO COMENTADO
A) A questão narra que Maria foi pronunciada pela suposta prática de crime de homicídio
qualificado, sendo que, ao final da primeira fase do procedimento do Tribunal do Júri, entendeu
o magistrado por pronunciar Maria nos termos da denúncia. Da decisão de pronúncia caberá
recurso em sentido estrito, nos termos do Art. 581, inciso IV, do CPP. Caso a decisão proferida
pelo magistrado fosse de impronúncia, não haveria que se falar em recurso em sentido estrito.
Antes da edição da 11.689/08, a decisão de impronúncia também era combatida através de
recurso em sentido estrito. Todavia, houve alteração legislativa e, desde então, da decisão de
impronúncia, por ser terminativa, caberá recurso de apelação, assim como ocorreria na
absolvição sumária, conforme previsão do Art. 416 do CPP.
B) A tese de direito material seria que Maria agiu em legítima defesa putativa, nos termos do Art.
20, §1º do Código Penal (erro de tipo permissivo), tendo em vista que acreditava estar atuando
em legítima defesa. Isso porque Clara havia ameaçado Maria de morte caso essa realizasse um
xingamento, o que foi feito por Maria.
Ainda que diante de eventual injúria, se verídica, a conduta de Clara de efetuar disparo de arma
de fogo configuraria uma injusta agressão, pois, no mínimo, haveria excesso em sua conduta.
Caso, de fato, Clara tivesse pego, em sua bolsa, sua arma de fogo, configurada estaria a legítima
defesa e, consequentemente, a conduta de Maria seria legítima. Todavia, na verdade Maria
supôs situação que não existia, já que Clara apenas pegou seu celular para realizar uma ligação.
Diante disso, a atuação em legítima defesa foi apenas putativa
DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS
ITEM PONTUAÇÃO
A1) O recurso cabível da decisão de pronúncia é o recurso em sentido
0,00/0,30/0,40
estrito (0,30), conforme Art. 581, inciso IV, do CPP (0,10).
A2) Caso a decisão fosse de impronúncia, o recurso cabível seria de
0,00/0,15/0,25
apelação (0,15), conforme previsão do Art. 416 do CPP (0,10).
B) A tese de direito material seria que Maria agiu em legítima defesa
putativa (0,15), estando amparada por descriminante putativa OU erro 0,00/0,15/0,25/0,35/
de tipo permissivo 0,45/0,50/0,60
(0,35), conforme Art. 20, §1º do CP (0,10).
16) (QUESTÃO 1 - VI EXAME)
Ao chegar a um bar, Caio encontra Tício, um antigo desafeto que, certa vez, o havia ameaçado
de morte. Após ingerir meio litro de uísque para tentar criar coragem de abordar Tício, Caio partiu
em sua direção com a intenção de cumprimentá-lo. Ao aproximar-se de Tício, Caio observou que
seu desafeto bruscamente pôs a mão por debaixo da camisa, momento em que achou que Tício
estava prestes a sacar uma arma de fogo para vitimá-lo. Em razão disso, Caio imediatamente
muniu-se de uma faca que estava sobre o balcão do bar e desferiu um golpe no abdome de
Tício, o qual veio a falecer. Após análise do local por peritos do Instituto de Criminalística da
Polícia Civil, descobriu-se que Tício estava tentando apenas pegar o maço de cigarros que
estava no cós de sua calça.
Considerando a situação acima, responda aos itens a seguir, empregando os argumentos
jurídicos apropriados e a fundamentação legal pertinente ao caso.
A) Levando-se em conta apenas os dados do enunciado, Caio praticou crime? Em caso
positivo, qual? Em caso negativo, por que razão? (Valor: 0,65)
B) Supondo que, nesse caso, Caio tivesse desferido 35 golpes na barriga de Tício, como
deveria ser analisada a sua conduta sob a ótica do Direito Penal? (Valor: 0,60)
GABARITO COMENTADO
A) Não, pois atuou sob o manto de descriminante putativa, instituto previsto no art. 20, parágrafo
1º do CP, uma vez que supôs, com base em fundado receio, estar em situação de legítima
defesa. Como se limitou a dar uma facada, a sua reação foi moderada, não havendo que se falar
em punição por excesso.
B) Ainda que tenha procurado se defender de agressão que imaginou estar em vias de ocorrer,
Caio agiu em excesso doloso, devendo, portanto, responder por homicídio doloso, na forma do
artigo 23, parágrafo único, do CP.
DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS
ITEM PONTUAÇÃO
A) Não, pois atuou sob o manto de descriminante putativa, uma vez que
supôs estar em situação de legítima defesa, (0,5) nos termos do artigo
0,00/0,50/0,65
20, §1º, do CP (0,15).
Obs.: A mera indicação do artigo não é pontuada.
B) Ainda que tenha procurado se defender de agressão que imaginou
estar em vias de ocorrer, Caio agiu em excesso doloso (0,45), na forma 0,00/0,45/0,60
do artigo 23, parágrafo único, do CP (0,15).