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Informativo de Jurisprudência 2021

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Lucas Fontoura
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SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Informativo de Jurisprudência

2021
Superior Tribunal de Justiça
Secretaria de Jurisprudência
Seção de Informativo de Jurisprudência

Informativo de Jurisprudência de
2021
organizado por ramos do Direito
4ª Edição
(Informativos n. 684 e 698)

Brasília-DF, maio de 2020.


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA
Secretaria de Jurisprudência
Coordenadoria de Divulgação de Jurisprudência
Seção de Informativo de Jurisprudência

REALIZAÇÃO
Seção de Informativo de Jurisprudência

EQUIPE TÉCNICA
Fernanda Pires Isaac Borges da Nóbrega
Isabel Rocha Martins
José Araújo Filho
Maria do Socorro Mesquita Guerra
Ocione de Jesus Abreu
Patrícia Alves Brito Correa
Rafael Souza Proto
Ricardo Alvim Dusi
Rodrigo Zapata

Superior Tribunal de Justiça


Secretaria de Jurisprudência
SAFS Quadra 06 Lote 01 Trecho III
Prédio da Administração Bloco F
2º andar Trecho I Ala “A”
Brasília-DF
Telefone: (061) 3319-9014
CEP 70.095-900
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO .......................................................................................................... 6

SÚMULAS ....................................................................................................................... 7
DIREITO ADMINISTRATIVO ............................................................................... 8
DIREITO PENAL ...................................................................................................... 8
DIREITO TRIBUTÁRIO .......................................................................................... 8

RECURSOS REPETITIVOS ......................................................................................... 9


DIREITO ADMINISTRATIVO ............................................................................. 10
DIREITO AMBIENTAL ......................................................................................... 12
DIREITO CIVIL ...................................................................................................... 14
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE .............................................. 18
DIREITO DO CONSUMIDOR............................................................................... 19
DIREITO EMPRESARIAL .................................................................................... 21
DIREITO FALIMENTAR....................................................................................... 23
DIREITO PREVIDENCIÁRIO .............................................................................. 25
DIREITO PROCESSUAL CIVIL .......................................................................... 30
DIREITO TRIBUTÁRIO ........................................................................................ 34
DIREITO URBANÍSTICO...................................................................................... 37

PROPOSTA DE REVISÃO DE ENTENDIMENTO FIRMADO EM RECURSOS


REPETITIVOS.............................................................................................................. 39
DIREITO ADMINISTRATIVO ............................................................................. 40
DIREITO PROCESSUAL CIVIL .......................................................................... 44

DIREITO ADMINISTRATIVO .................................................................................. 46


CORTE ESPECIAL ................................................................................................. 47
PRIMEIRA SEÇÃO ................................................................................................. 48
PRIMEIRA TURMA ............................................................................................... 52
SEGUNDA TURMA ................................................................................................ 54

DIREITO BANCÁRIO ................................................................................................. 60


PRIMEIRA SEÇÃO ................................................................................................. 61
SEGUNDA TURMA ................................................................................................ 62

DIREITO CIVIL ........................................................................................................... 63


PRIMEIRA SEÇÃO ................................................................................................. 64
SEGUNDA SEÇÃO .................................................................................................. 65
SEGUNDA TURMA ................................................................................................ 66
TERCEIRA TURMA ............................................................................................... 66
QUARTA TURMA ................................................................................................... 96

DIREITO COMERCIAL ........................................................................................... 107


TERCEIRA TURMA ............................................................................................. 108

DIREITO CONSTITUCIONAL ................................................................................ 109


CORTE ESPECIAL ............................................................................................... 110
PRIMEIRA SEÇÃO ............................................................................................... 111
TERCEIRA SEÇÃO .............................................................................................. 112
PRIMEIRA TURMA ............................................................................................. 113
SEGUNDA TURMA .............................................................................................. 114

DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE ................................................. 115


TERCEIRA TURMA ............................................................................................. 116
QUARTA TURMA ................................................................................................. 118

DIREITO DO CONSUMIDOR ................................................................................. 119


CORTE ESPECIAL ............................................................................................... 120
SEGUNDA SEÇÃO ................................................................................................ 120
TERCEIRA TURMA ............................................................................................. 121
QUARTA TURMA ................................................................................................. 127

DIREITO DO TRABALHO....................................................................................... 129


PRIMEIRA SEÇÃO ............................................................................................... 130
SEGUNDA SEÇÃO ................................................................................................ 132
TERCEIRA SEÇÃO .............................................................................................. 133

DIREITO EMPRESARIAL ....................................................................................... 135


SEGUNDA SEÇÃO ................................................................................................ 136
TERCEIRA TURMA ............................................................................................. 137
QUARTA TURMA ................................................................................................. 139

DIREITO FALIMENTAR ......................................................................................... 144


TERCEIRA TURMA ............................................................................................. 145
QUARTA TURMA ................................................................................................. 145

DIREITO FINANCEIRO ........................................................................................... 149


SEGUNDA TURMA .............................................................................................. 150

DIREITO MARCÁRIO .............................................................................................. 152


TERCEIRA TURMA ............................................................................................. 153
QUARTA TURMA ................................................................................................. 153
DIREITO PENAL ....................................................................................................... 155
CORTE ESPECIAL ............................................................................................... 156
TERCEIRA SEÇÃO .............................................................................................. 157
QUINTA TURMA .................................................................................................. 162
SEXTA TURMA ..................................................................................................... 165

DIREITO PREVIDENCIÁRIO ................................................................................. 169


SEGUNDA TURMA .............................................................................................. 170

DIREITO PROCESSUAL CIVIL ............................................................................. 172


CORTE ESPECIAL ............................................................................................... 173
SEGUNDA SEÇÃO ................................................................................................ 180
TERCEIRA SEÇÃO .............................................................................................. 181
SEGUNDA TURMA .............................................................................................. 183
TERCEIRA TURMA ............................................................................................. 190
QUARTA TURMA ................................................................................................. 208

DIREITO PROCESSUAL PENAL ........................................................................... 219


CORTE ESPECIAL ............................................................................................... 220
TERCEIRA SEÇÃO .............................................................................................. 222
QUINTA TURMA .................................................................................................. 230
SEXTA TURMA ..................................................................................................... 235

DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO ........................................................... 243


PRIMEIRA SEÇÃO ............................................................................................... 244

DIREITO REGISTRAL ............................................................................................. 245


QUARTA TURMA ................................................................................................. 246

DIREITO TRIBUTÁRIO ........................................................................................... 248


PRIMEIRA SEÇÃO ............................................................................................... 249
PRIMEIRA TURMA ............................................................................................. 251
SEGUNDA TURMA .............................................................................................. 254

DIREITO URBANÍSTICO ........................................................................................ 257


QUARTA TURMA ................................................................................................. 258
APRESENTAÇÃO

Com o intuito de proporcionar mais uma forma de consulta ao usuário do


Informativo de Jurisprudência, o presente trabalho disponibiliza todas as súmulas e
notas de julgados publicadas durante o ano de 2021, agrupadas segundo os respectivos
ramos do direito.
As súmulas e as notas extraídas de julgamentos submetidos ao rito dos
recursos repetitivos estão localizadas em capítulos específicos, no início do documento,
organizadas de acordo com a matéria preponderante, em ordem de recentidade – da
mais recente para a mais antiga – e por órgão julgador, considerando a Corte Especial, as
Seções temáticas e as Turmas.
As demais notas também estão dispostas de acordo com a matéria
preponderante, ordenadas, por sua vez, conforme o órgão julgador e da mais recente
para a mais antiga.
Cabe ressaltar que as notas que abordam mais de um tema jurídico estão
repetidas nos respectivos ramos. Essa opção foi adotada para que o usuário que se
interesse por apenas um ramo específico do direito não perca qualquer informação.
O Informativo de Jurisprudência de 2021 organizado por ramos do Direito
será atualizado mensalmente no decorrer do ano. Vale lembrar que, ao final de cada nota
e de cada súmula, há a indicação da edição do Informativo de Jurisprudência
correspondente.

6
SÚMULAS

7
DIREITO ADMINISTRATIVO
Voltar ao Sumário.

SÚMULA N. 647
São imprescritíveis as ações indenizatórias por danos morais e materiais decorrentes de atos de perseguição
política com violação de direitos fundamentais ocorridos durante o regime militar. (Primeira Seção, julgado em
10/03/2021, DJe 15/03/2021). (Informativo n. 688)

SÚMULA N. 646
É irrelevante a natureza da verba trabalhista para fins de incidência da contribuição ao FGTS, visto que apenas
as verbas elencadas em lei (art. 28, § 9º, da Lei n. 8.212/1991), em rol taxativo, estão excluídas da sua base de
cálculo, por força do disposto no art. 15, § 6º, da Lei n. 8.036/1990. (Primeira Seção, julgado em 10/03/2021,
DJe 15/03/2021). (Informativo n. 688)

DIREITO PENAL
Voltar ao Sumário.

SÚMULA N. 648
A superveniência da sentença condenatória prejudica o pedido de trancamento da ação penal por falta de justa
causa feito em habeas corpus.(Súmula 648, Terceira Seção, julgado em 14/04/2021, DJe 19/04/2021)
(Informativo n. 692)

DIREITO TRIBUTÁRIO
Voltar ao Sumário.

SÚMULA N. 649
Não incide ICMS sobre o serviço de transporte interestadual de mercadorias destinadas ao exterior.(Primeira
Seção, julgado em 28/04/2021, DJe 03/05/2021). (Informativo n. 693)

8
RECURSOS REPETITIVOS

9
DIREITO ADMINISTRATIVO
Voltar ao Sumário.

PROCESSO REsp 1.769.306/AL, Rel. Min. Benedito Gonçalves, Primeira Seção, por
unanimidade, julgado em 10/03/2021. (Tema 1009).
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO
TEMA Servidor público. Devolução de valores recebidos. Artigo 46, caput, da Lei n.
8.112/1990. Revisão da tese definida no Tema repetitivo 531/STJ. Ausência
de alcance nos casos de pagamento indevido decorrente de erro de cálculo ou
operacional da administração pública. Possibilidade de devolução. Salvo
inequívoca presença da boa-fé objetiva. Tema 1009.
DESTAQUE
Os pagamentos indevidos aos servidores públicos decorrentes de erro administrativo (operacional ou de
cálculo), não embasado em interpretação errônea ou equivocada da lei pela Administração, estão sujeitos à
devolução, ressalvadas as hipóteses em que o servidor, diante do caso concreto, comprova sua boa-fé objetiva,
sobretudo com demonstração de que não lhe era possível constatar o pagamento indevido.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia consiste em definir se a tese firmada no Tema 531/STJ seria igualmente aplicável aos casos de
erro operacional ou de cálculo, para igualmente desobrigar o servidor público, de boa-fé, a restituir ao erário a
quantia recebida a [Link] julgamento do Recurso Especial Repetitivo n. 1.244.182/PB (Tema 531/STJ),
definiu-se que quando a Administração Pública interpreta erroneamente uma lei, resultando em pagamento
indevido ao servidor, de boa-fé, cria-se uma falsa expectativa de que os valores recebidos são legais e definitivos,
impedindo, assim, que ocorra desconto dos mesmos, o que está em conformidade com a Súmula 34 da Advocacia
Geral da União - AGU. Assim, acerca da impossibilidade de devolução ao erário de valores recebidos
indevidamente por servidor público, de boa-fé, em decorrência de equívoco na interpretação de lei pela
Administração Pública, constata-se que o tema está pacificado.O artigo 46, caput, da Lei n. 8.112/1990
estabelece a possibilidade de reposições e indenizações ao erário. Trata-se de disposição legal expressa,
plenamente válida, embora com interpretação dada pela jurisprudência com alguns temperamentos,
especialmente em observância aos princípios gerais do direito, como boa-fé, a fim de impedir que valores pagos
indevidamente sejam devolvidos ao erá[Link] dos casos de errônea ou má aplicação de lei, onde o
elemento objetivo é, por si, suficiente para levar à conclusão de que o beneficiário recebeu o valor de boa-fé,
assegurando-lhe o direito da não devolução do valor recebido indevidamente, na hipótese de erro material ou
operacional deve-se analisar caso a caso, de modo a averiguar se o servido tinha condições de compreender a
ilicitude no recebimento dos valores, de modo a se lhe exigir comportamento diverso, diante do seu dever de
lealdade para com a Administração Pública. Impossibilitar a devolução dos valores recebidos indevidamente
por erro perceptível da Administração Pública, sem a análise do caso concreto da boa-fé objetiva, permitiria o
enriquecimento sem causa por parte do servidor, em flagrante violação do artigo 884 do Código [Link] tudo
isso, não há que se confundir erro na interpretação de lei com erro operacional, de modo àquele não se estende
o entendimento fixado no Recurso Especial Repetitivo n. 1.244.182/PB, sem a observância da boa-fé objetiva do
servidor público, o que possibilita a restituição ao Erário dos valores pagos indevidamente decorrente de erro
de cálculo ou operacional da Administração Pública. (Informativo n. 688)

10
PROCESSO REsp 1.261.020-CE, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Primeira Seção,
por unanimidade, julgado em 10/02/2021 (tema 503)
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO
TEMA Servidor público federal. Quintos. Incorporação de função comissionada.
Período entre 8 de Abril de 1988 a 4 de setembro de 2001. Matéria decidida
sob o rito da repercussão geral. RE n. 638.115/CE. Juízo de retratação. Tema
503.
DESTAQUE
a) Servidores públicos federais civis não possuem direito às incorporações de quintos/décimos pelo exercício
de funções e cargos comissionados entre a edição da Lei n. 9.624/1998 e a MP n. 2.225-48/2001;b) Porém, os
servidores públicos que recebem quintos/décimos pelo exercício de funções e cargos comissionados entre a
edição da Lei n. 9.624/1998 e a MP n. 2.225-48/2001, seja por decisão administrativa ou decisão judicial não
transitada em julgado, possuem direito subjetivo de continuar recebendo os quintos/décimos até o momento
de sua absorção integral por quaisquer reajustes futuros concedidos aos servidores;c) Nas hipóteses em que a
incorporação aos quintos/décimos estiver substanciada em coisa julgada material, não é possível a
descontinuidade dos pagamentos de imediato.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia diz respeito à possibilidade de incorporação de quintos decorrente do exercício de funções
comissionadas no período compreendido entre a edição da Lei n. 9.624/1998 e a MP n. 2.225-48/2001.A
Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça, sob o rito dos recursos especiais repetitivos, fixou a tese jurídica
de que: "A Medida Provisória n. 2.225-45/2001, com a revogação dos artigos 3º e 10 da Lei n. 8.911/94,
autorizou a incorporação da gratificação relativa ao exercício de função comissionada no período de 8/4/1998
a 4/9/2001, transformando tais parcelas, desde logo, em VPNI - Vantagem Pessoal Nominalmente
Identificada."No entanto, nos autos do RE n. 638.115/CE, o Supremo Tribunal Federal entendeu não ser possível
a incorporação de quintos decorrente do exercício de funções comissionadas no período compreendido entre a
edição da Lei n. 9.624/1998 e a MP n. 2.225-48/2001.O STF, contudo, modulou os efeitos do julgamento no RE
n. 68.115/CE. Portanto, em juízo de retratação e com base na orientação jurisprudencial do Supremo Tribunal
Federal firmada em repercussão geral, foram fixadas as teses destacadas. (Informativo n. 685)

PROCESSO REsp 1.815.461/AL, Rel. Min. Assusete Magalhães, Primeira Seção, por
unanimidade, julgado em 10/02/2021. (Tema 1028)
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO
TEMA Ocupante de cargo público de agente de trânsito. Inscrição na Ordem dos
Advogados do Brasil. Incompatibilidade. Incidência do art. 28, V, da Lei n.
8.906/1994. Tema 1028.
DESTAQUE
O exercício da advocacia, mesmo em causa própria, é incompatível com as atividades desempenhadas por
servidor ocupante de cargo público de agente de trânsito, nos termos do art. 28, V, da Lei n. 8.906/1994.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Nos termos do art. 5º, XIII, da Constituição Federal, "é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão,
atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer". Já o art. 22, XVI, da Constituição Federal
estabelece que compete privativamente à União legislar sobre "organização do sistema nacional de emprego e
condições para o exercício de profissões".Assim, o "exercício de qualquer profissão está sujeito a condições,
condições que a lei estabelecerá. Isto deflui da própria natureza das profissões, cujo exercício requer
fiscalização. No que toca às profissões liberais, instituem-se os conselhos, os quais, com base na lei federal,

11
exercerão a fiscalização do seu exercício. A Constituição, ao estabelecer a competência legislativa da União,
competência privativa, dispõe, expressamente, a respeito (C.F., art. 22, XVI). Na cláusula final do inc. XVI do
citado art. 22, está a autorização expressa ao legislador federal no sentido de que estabelecerá ele 'condições
para o exercício de profissões'" (STF, RE 199.088/SP, Rel. Ministro Carlos Velloso, Segunda Turma, DJU de
16/04/99).O art. 28, V, da Lei n. 8.906/1994, que dispõe sobre o Estatuto da Advocacia e a Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB), determina que a advocacia é incompatível, mesmo em causa própria, para os
ocupantes de cargos ou funções vinculados direta ou indiretamente a atividade policial de qualquer natureza.
Assim, ao utilizar a expressão "atividade policial de qualquer natureza", o texto legal buscou abarcar todos
aqueles que exerçam funções compreendidas no poder de polícia da Administração Pública, definido no art. 78
do [Link] entendimento, quanto aos agentes de trânsito, foi reforçado pela EC 82/2014 e pela Lei n.
13.675/2018. A EC 82/2014 acrescentou o § 10 ao art. 144 da CF/1988, nele incluindo a atividade de agente de
trânsito, estabelecendo, entre os órgãos encarregados da segurança pública, "a segurança viária, exercida para
a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do seu patrimônio nas vias públicas",
compreendendo ela "a fiscalização de trânsito, além de outras atividades previstas em lei, que assegurem ao
cidadão o direito à mobilidade urbana eficiente", competindo a segurança viária, "no âmbito dos Estados, do
Distrito Federal e dos Municípios, aos respectivos órgãos ou entidades executivos e seus agentes de trânsito,
estruturados em Carreira, na forma da lei".A Lei n. 13.675/2018, que "disciplina a organização e o
funcionamento dos órgãos responsáveis pela segurança pública, nos termos do § 7º do art. 144 da Constituição
Federal", instituiu, no seu art. 9º, o Sistema Único de Segurança Pública (Susp), dispondo, no seu § 2º, inciso XV,
que os agentes de trânsito são integrantes operacionais do aludido Sistema Único de Segurança
Pú[Link], assim, que os agentes de trânsito desempenham atividades incompatíveis com o exercício
da advocacia, porquanto ocupam cargos "vinculados direta ou indiretamente a atividade policial de qualquer
natureza", tal como previsto no art. 28, V, da Lei n. 8.906/1994, exercendo funções que condicionam o uso, o
gozo e a disposição da propriedade e restringem o exercício da liberdade dos administrados no interesse
público, na forma do art. 78 do CTN, além de preservarem eles a "ordem pública e a incolumidade das pessoas
e do seu patrimônio nas vias públicas", na fiscalização do trânsito, integrando os órgãos responsáveis pela
segurança pública, previstos no art. 144 da CF/1988 (art. 144, § 10, da CF/1988 e art. 9º, § 2º, XV, da Lei n.
13.675/2018). (Informativo n. 685)

DIREITO AMBIENTAL
Voltar ao Sumário.

PROCESSO REsp 1.770.760/SC, Rel. min. Benedito Gonçalves, Primeira Seção, por
unanimidade, julgado em 28/04/2021. (Tema 1010)
RAMO DO DIREITO DIREITO AMBIENTAL, DIREITO URBANÍSTICO
TEMA Áreas de Preservação Permanente. Delimitação da extensão da faixa não
edificável a partir das margens de cursos d'água naturais. Área urbana
consolidada. Incidência do art. 4º, I, da Lei n. 12.651/2012 (novo Código
Florestal) ou do art. 4º, caput, III, da Lei n. 6.766/1979 (Lei de parcelamento
do solo urbano). Critério da especialidade. Aplicação do novo Código Florestal.
Tema 1010.
DESTAQUE
Na vigência do novo Código Florestal (Lei n. 12.651/2012), a extensão não edificável nas Áreas de
Preservação Permanente de qualquer curso d'água, perene ou intermitente, em trechos caracterizados como
área urbana consolidada, deve respeitar o que disciplinado pelo seu art. 4º, caput, inciso I, alíneas "a, b, c, d e e,
a fim de assegurar a mais ampla garantia ambiental a esses espaços territoriais especialmente protegidos e, por
conseguinte, à coletividade.

12
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia diz respeito a qual norma deve ser aplicável para fins de definir a extensão da faixa não
edificável a partir das margens de cursos d'água naturais em trechos caracterizados como área urbana
consolidada: se corresponde à área de preservação permanente prevista no art. 4°, I, da Lei n. 12.651/2012
(equivalente ao art. 2°, alínea "a", da revogada Lei n. 4.771/1965), cuja largura varia de 30 (trinta) a 500
(quinhentos) metros, ou ao recuo de 15 (quinze) metros determinado no art. 4°, caput, III, da Lei n. 6.766/1979.

A definição da norma a incidir sobre o caso deve garantir a melhor e mais eficaz proteção ao meio ambiente
natural e ao meio ambiente artificial, em cumprimento ao disposto no art. 225 da CF/1988, sempre com os olhos
também voltados ao princípio do desenvolvimento sustentável (art. 170, VI,) e às funções social e ecológica da
propriedade.
O art. 4º, caput, inciso I, da Lei n. 12.651/2012 mantém-se hígido no sistema normativo federal, após os
julgamentos da ADC 42 e das ADIs 4.901, 4.902, 4.903 e 4.937.
A disciplina da extensão das faixas marginais a cursos d'água no meio urbano foi apreciada inicialmente nesta
Corte Superior no julgamento do REsp 1.518.490/SC, Relator Ministro Og Fernandes, Segunda Turma, DJe de
15/10/2019, precedente esse que solucionou, especificamente, a antinomia entre a norma do antigo Código
Florestal (art. 2º da Lei n. 4.771/1965) e a norma da Lei de Parcelamento do Solo Urbano (art. 4º, III, da Lei n.
6.766/1976), com a afirmação de que o normativo do antigo Código Florestal é o que deve disciplinar a largura
mínima das faixas marginais ao longo dos cursos d'água no meio urbano.
Exsurge inarredável que a norma inserta no novo Código Florestal (art. 4º, caput, inciso I), ao prever medidas
mínimas superiores para as faixas marginais de qualquer curso d'água natural perene e intermitente, sendo
especial e específica para o caso em face do previsto no art. 4º, III, da Lei n. 6.766/1976, é a que deve reger a
proteção das APPs ciliares ou ripárias em áreas urbanas consolidadas, espaços territoriais especialmente
protegidos (art. 225, III, da CF/1988), que não se condicionam a fronteiras entre o meio rural e o urbano.
Assinale-se, a opção pela não aplicação do art. 4º, caput, e I, da Lei n. 12.651/2012, quando o comando do seu
caput é expresso em determinar a sua incidência também ao meio urbano, apresenta-se inequivocamente
inapropriado, pois estar-se-ia a afrontar o enunciado da Súmula Vinculante n. 10 do Supremo Tribunal Federal.
A solução que ora se propõe não se altera pela superveniência da Lei n. 13.913/2019, que suprimiu a
expressão "[...] salvo maiores exigências da legislação específica." do inciso III do art. 4º da LPSU, pois, pelo
critério da especialidade, o normativo contido no art. 4º, caput, I, da Lei n. 12.651/2012 (novo Código Florestal)
é o que garante a mais ampla proteção ao meio ambiente, em áreas urbana e rural, e deve, como já assinalado,
incidir ao caso. O fato de agora o inciso III-A do art. 4º da Lei n. 6.766/1976 expressamente estabelecer, em
caráter geral, a determinação do distanciamento de "no mínimo" 15 (quinze) metros apenas reforça a função de
norma geral norteadora da menor distância que as faixas marginais, não edificáveis, devem manter dos cursos
d'água, o que, por uma visão teleológica do sistema de proteção ambiental, não restringe a aplicação do art. 4º,
caput, da Lei n. 12.651/2012 às áreas urbanas consolidadas. (Informativo n. 694)

PROCESSO REsp 1.814.944-RN, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Primeira Seção,
por unanimidade, julgado em 10/02/2021 (Tema 1036)
RAMO DO DIREITO DIREITO AMBIENTAL
TEMA Apreensão de veículo utilizado na prática de infração ambiental.
Desnecessidade de comprovação de uso específico e exclusivo com essa
finalidade. Tema 1036.
DESTAQUE
A apreensão do instrumento utilizado na infração ambiental, fundada na atual redação do § 4º do art. 25 da Lei
n. 9.605/1998, independe do uso específico, exclusivo ou habitual para a empreitada infracional.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
No caso, entendeu a Corte de origem a retenção é justificável somente nos casos em que a posse em si do veículo
constitui ilícito,Ocorre que essa não é a interpretação mais adequada da norma, que não prevê tal condição para
13
a sua aplicação, conforme entendimento recentemente adotado na Segunda Turma no julgamento do REsp
1.820.640/PE (Rel. Min. Og Fernandes, Segunda Turma, DJe de 09/10/2019).Nesse julgado, observou-se que
"[a] efetividade da política de preservação do meio ambiente, especialmente no momento em que a comunidade
internacional lança os olhos sobre o papel das autoridades públicas brasileiras no exercício de tal mister, atrai
para o Judiciário o dever de interpretar a legislação à luz de tal realidade, recrudescendo a proteção ambiental
e a correspondente atividade fiscalizatória"; assim, "[m]erece ser superada a orientação jurisprudencial desta
Corte Superior que condiciona a apreensão de veículos utilizados na prática de infração ambiental à
comprovação de que os bens sejam específica e exclusivamente empregados na atividade ilícita".Em conclusão,
restou assentado que "[o]s arts. 25 e 72, IV, da Lei n. 9.605/1998 estabelecem como efeito imediato da infração
a apreensão dos bens e instrumentos utilizados na prática do ilícito ambiental", por isso "[a] exigência de
requisito não expressamente previsto na legislação de regência para a aplicação dessas sanções compromete a
eficácia dissuasória inerente à medida, consistindo em incentivo, sob a perspectiva da teoria econômica do
crime, às condutas lesivas ao meio ambiente".Com efeito, a apreensão definitiva do veículo impede a sua
reutilização na prática de infração ambiental - além de desestimular a participação de outros agentes nessa
mesma prática, caso cientificados dos inerentes e relevantes riscos dessa atividade, em especial os de ordem
patrimonial -, dando maior eficácia à legislação que dispõe as sanções penais e administrativas derivadas de
condutas e atividades lesivas ao meio ambiente. (Informativo n. 685)

DIREITO CIVIL
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PROCESSO REsp 1.438.263/SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Segunda Seção, por
maioria quanto à redação da tese, julgado em 24/03/2021 (Tema 948).
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Legitimidade do não associado para a execução da sentença. Ação civil pública
manejada por associação na condição de substituta processual.
Representação prevista no art. 5º, XXI, da Constituição Federal. Tema 948.
DESTAQUE
Em ação civil pública proposta por associação, na condição de substituta processual, possuem legitimidade para
a liquidação e execução da sentença todos os beneficiados pela procedência do pedido, independentemente de
serem filiados à associação promovente.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia acerca da legitimidade daquele que não seja filiado à associação autora para a execução
da sentença proferida em ação civil pública.
A atuação das associações em processos coletivos pode se verificar de duas maneiras: (a) por meio da ação
coletiva ordinária, hipótese de representação processual, com base no permissivo contido no artigo 5º, inciso
XXI, da CF/1988; ou (b) ou na ação civil pública, agindo a associação nos moldes da substituição processual
prevista no Código de Defesa do Consumidor e na Lei da Ação Civil Pública.
Esta Corte, a partir deste julgamento, firma o entendimento de que todos os substituídos numa ação civil pública
que tem por objeto a tutela de um direito individual homogêneo, possuem legitimidade para liquidação e
execução da sentença, e que esses substituídos são todos aqueles interessados determináveis que se unem por
uma mesma situação de fato.
Vale destacar que os direitos individuais homogêneos (art. 81, parágrafo único, III do CDC) são direitos
subjetivos individuais tutelados coletivamente em razão de decorrerem de uma mesma origem, resultam "não
de uma contingência imposta pela natureza do direito tutelado, e sim de uma opção política legislativa, na busca
de mecanismos que potencializem a eficácia da prestação jurisdicional".

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Também é certo que a coisa julgada formada nas ações coletivas fundadas em direitos individuais homogêneos
é estabelecida pela legislação (art. 103, III, do CDC), portanto, proposta uma ação coletiva fundada em direitos
individuais homogêneos, já se sabe que a sentença irá formar coisa julgada pro et contra em relação aos
legitimados coletivos, enquanto terá efeitos erga omnes no caso de procedência do pedido (secundum eventum
litis).
Importante, ademais, ressaltar que a sentença de uma ação coletiva fundada em direitos individuais
homogêneos será sempre genérica, fixando apenas a responsabilidade do réu pelos danos causados (art. 95, do
CDC).
Sendo assim, a partir da disciplina já existente, o mérito deste julgamento pelo rito especial é dizer, em
complemento, que aqueles a quem os comandos da sentença condenatória se estenderem são legitimados para
promoção da execução da decisão judicial, filiados ou não à associação que promoveu a ação civil em
substituição. (Informativo n. 694)

PROCESSO REsp 1.870.771/SP, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, Segunda Seção,
por unanimidade, julgado em 24/03/2021 (Tema 1066)
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA ECAD. Direitos autorais. Aparelhos (rádio e televisão) em quartos de hotel,
motel e afins. Transmissão de obras musicais, literomusicais e audiovisuais.
Leis n. 9.610/1998 e 11.771/2008. Compatibilidade. TV por assinatura. Bis in
idem não configurado. Tema 1066.
DESTAQUE
a) "A disponibilização de equipamentos em quarto de hotel, motel ou afins para a transmissão de obras
musicais, literomusicais e audiovisuais permite a cobrança de direitos autorais pelo Escritório Central de
Arrecadação e Distribuição - ECAD".
b) "A contratação por empreendimento hoteleiro de serviços de TV por assinatura não impede a cobrança de
direitos autorais pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição - ECAD, inexistindo bis in idem".
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia acerca da possibilidade de cobrança pelo Escritório Central de Arrecadação e
Distribuição - ECAD de direitos autorais por utilização de obras musicais e audiovisuais, inclusive de TV por
assinatura, em quarto de hotel, de motel e afins.
Após muitos debates, com oscilações nos entendimentos adotados em diversos julgamentos, a Segunda Seção
firmou orientação no sentido de ser devido o pagamento de direitos autorais envolvendo sonorização nos
quartos dos hóspedes, levando em consideração precisamente o flagrante incremento na lucratividade da
empresa hoteleira, vinculada ao objetivo comercial do empreendimento.
Posteriormente, também em relação aos fatos geradores ocorridos na vigência da antiga Lei n. 5.988/1973, a
Segunda Seção ajustou a jurisprudência com o propósito de distinguir "transmissão" de "retransmissão" para
efeito da cobrança de direitos autorais. Com efeito, consolidou-se o entendimento de que não seria obrigatório
o referido pagamento quando se cuidasse de simples "transmissão" mediante aparelho receptor (v.g. TV ou
rádio) instalado no aposento do hóspede.
No entanto, com a edição da Lei n. 9.610/1998, objeto de interpretação para firmar tese em recurso especial
repetitivo, os contornos do fato gerador para a cobrança de direitos autorais em quartos de hotéis, motéis e
afins foram bastante modificados, sendo desnecessário invocar lucros da empresa e distinguir "transmissão" de
"retransmissão". A atual lei é ampla, referindo-se à utilização, "por quaisquer processos, inclusive a radiodifusão
ou transmissão por qualquer modalidade", em "hotéis, motéis", sem excluir do conceito de "locais de frequência
coletiva" nenhuma parte ou cômodo específico do estabelecimento.
À luz da atual lei, portanto, são devidos direitos autorais quando disponíveis em quartos de hotel, motel ou
afim aparelhos de televisão e de rádio.
Ademais, a Lei n. 11.771/2008 não é incompatível com a Lei n. 9.610/1998 nem veda a cobrança de direitos
autorais pela sonorização em aposentos de clientes em empreendimentos de hotelaria.

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Deste modo, a disponibilização de equipamentos em quarto de hotel, motel ou afins para a transmissão de
obras musicais, literomusicais e audiovisuais permite a cobrança de direitos autorais pelo Escritório Central de
Arrecadação e Distribuição - ECAD".
Vale ressaltar a ausência de bis in idem mesmo quando contratado pelo empreendimento hoteleiro serviço
de TV por assinatura, com instalação de televisões em ambientes de frequência coletiva do estabelecimento,
incluindo os quartos dos hóspedes.
Assim, a contratação por empreendimento hoteleiro de serviços de TV por assinatura não impede a cobrança
de direitos autorais pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição - ECAD, inexistindo bis in idem.
(Informativo n. 692)

PROCESSO REsp 1.740.397-RS, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, Segunda Seção,
por unanimidade, julgado em 28/10/2020, DJe 11/12/2020 (Tema
1021).
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO PREVIDENCIÁRIO
TEMA Verbas remuneratórias. Reconhecimento pela Justiça Trabalhista. Inclusão
nos cálculos de proventos de complementação de aposentadoria.
Impossibilidade. Ausência de prévio custeio. Modulação de efeitos da decisão.
Recálculo do benefício em ações já ajuizadas. Possibilidade. Ampliação da tese
firmada no Tema Repetitivo 955/STJ. Tema 1021.
DESTAQUE
I) A concessão do benefício de previdência complementar tem como pressuposto a prévia formação de reserva
matemática, de forma a evitar o desequilíbrio atuarial dos planos. Em tais condições, quando já concedido o
benefício de complementação de aposentadoria por entidade fechada de previdência privada, é inviável a
inclusão dos reflexos de quaisquer verbas remuneratórias reconhecidas pela Justiça do Trabalho nos cálculos
da renda mensal inicial dos benefícios de complementação de [Link]) Os eventuais prejuízos causados
ao participante ou ao assistido que não puderam contribuir ao fundo na época apropriada ante o ato ilícito do
empregador poderão ser reparados por meio de ação judicial a ser proposta contra a empresa ex-empregadora
na Justiça do [Link]) Modulação dos efeitos da decisão (art. 927, § 3º, do CPC/2015): nas demandas
ajuizadas na Justiça comum até 8/8/2018 (data do julgamento do REsp n. 1.312.736/RS - Tema repetitivo n.
955/STJ) - se ainda for útil ao participante ou assistido, conforme as peculiaridades da causa -, admite-se a
inclusão dos reflexos de verbas remuneratórias, reconhecidas pela Justiça do Trabalho, nos cálculos da renda
mensal inicial dos benefícios de complementação de aposentadoria, condicionada à previsão regulamentar de
que as parcelas de natureza remuneratória devem compor a base de cálculo das contribuições a serem
recolhidas e servir de parâmetro para o cômputo da renda mensal inicial do benefício, e à recomposição prévia
e integral das reservas matemáticas com o aporte, a ser vertido pelo participante, de valor a ser apurado por
estudo técnico atuarial em cada [Link]) Nas reclamações trabalhistas em que o ex-empregador tiver sido
condenado a recompor a reserva matemática, e sendo inviável a revisão da renda mensal inicial da
aposentadoria complementar, os valores correspondentes a tal recomposição devem ser entregues ao
participante ou assistido a título de reparação, evitando-se, igualmente, o enriquecimento sem causa da
entidade fechada de previdência complementar.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
No julgamento do REsp Repetitivo 1.312.736/RS, conclui-se pela inviabilidade da inclusão dos reflexos das
verbas remuneratórias reconhecidas pela Justiça do Trabalho, nos cálculos da renda mensal inicial dos
benefícios de complementação de [Link] entanto, a afirmação da tese mais ampla, para que o
enunciado estabelecido no Tema n. 955/STJ seja aplicável ao pedido de incorporação de quaisquer verbas
remuneratórias no benefício já concedido, mostra-se adequada e coerente, pois a verba em si (horas extras
habituais) não foi motivo determinante para o entendimento fixado no julgamento do REsp 1.312.736/RS.O que
efetivamente se decidiu foi pela impossibilidade da incorporação pretendida, não obstante haver previsão no
plano de que verbas de natureza remuneratória (naquele caso específico, as horas extraordinárias habituais)

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deveriam compor a base de cálculo das contribuições do patrocinador e do participante e servir de parâmetro
para o cálculo da renda mensal inicial do benefício, dada a natureza do regime de capitalização - que exige a
prévia formação de reserva capaz de garantir o pagamento do benefício - e a inviabilidade da recomposição
dessa [Link] qual for a espécie de verba remuneratória reivindicada perante a Justiça do Trabalho, é
possível concluir, como se afirmou no repetitivo anterior, pela impossibilidade de sua incorporação no benefício
de previdência complementar, caso não haja o prévio aporte, nos termos exigidos pelo respectivo regulamento,
porque invariavelmente haverá prejuízo para o equilíbrio atuarial do plano. A tese mais abrangente se mostra,
portanto, não apenas adequada, mas necessária para assegurar a isonomia e conferir segurança jurídica em sua
aplicação pelos diversos Tribunais do País. (Informativo n. 684)

PROCESSO REsp 1.809.486-SP, Rel. Min. Marco Buzzi, Segunda Seção, por
unanimidade, julgado em 09/12/2020, DJe 16/12/2020 (Tema 1032)
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO DO CONSUMIDOR
TEMA Plano de saúde. Cláusula de coparticipação à razão máxima de 50% (cinquenta
por cento). Informação e ajuste ao consumidor. Transtorno psiquiátrico.
Internação superior a 30 (trinta) dias por ano. Abusividade afastada. Validade.
Equilíbrio financeiro. Tema 1032.
DESTAQUE
Nos contratos de plano de saúde não é abusiva a cláusula de coparticipação expressamente ajustada e informada
ao consumidor, à razão máxima de 50% (cinquenta por cento) do valor das despesas, nos casos de internação
superior a 30 (trinta) dias por ano, decorrente de transtornos psiquiátricos, preservada a manutenção do
equilíbrio financeiro.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a definir se é legal ou abusiva a cláusula que impõe coparticipação para a hipótese de
internação psiquiátrica, uma modalidade de tratamento para indivíduos acometidos por transtornos mentais,
comorbidades ou dependência química, que corresponde a um serviço de saúde de enorme relevância
pú[Link] contratar um plano de saúde e despender mensalmente relevantes valores na sua manutenção, o
consumidor busca garantir, por conta própria, acesso a um direito fundamental que, a rigor, deveria ser
prestado pelo Estado de modo amplo, adequado, universal e [Link] que, se a universalização da
cobertura - apesar de garantida pelo constituinte originário no artigo 198 da Constituição Federal e considerada
um dos princípios basilares das ações e serviços públicos de saúde nos termos do artigo 7º da Lei n. 8.080/90
que dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o
funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências - não é viabilizada pelo Estado no tempo
e modo necessários para fazer frente às adversidades de saúde que acometem os cidadãos, tampouco pode ser
imposta de modo completo e sem limites ao setor privado, porquanto, nos termos do artigo 199 da Constituição
Federal e 4º, § 1º, da Lei n. 8.080/90, a assistência à saúde de iniciativa privada é exercida em caráter
complementar.A presente discussão vincula-se, exatamente, às entidades privadas de assistência à saúde que,
embora prestem - de modo secundário e supletivo - serviços de utilidade pública relacionados a direito
fundamental estabelecido na Carta Constitucional, exercem, no âmbito do sistema da livre iniciativa, o seu
mister com foco na obtenção de lucro inerente à atividade exercida, ressalvadas aquelas instituições
filantrópicas ou sem fins [Link], diferentemente do Estado, que tem o dever de prestar assistência
ampla e ilimitada à população, a iniciativa privada se obriga nos termos da legislação de regência e do contrato
firmado entre as partes, no âmbito do qual são estabelecidos os serviços a serem prestados/cobertos, bem como
as limitações e restrições de direitos.A Lei n. 9.656/98 rege os planos e seguros privados de assistência à saúde
e permite à operadora dos respectivos serviços custear, total ou parcialmente, a assistência médica, hospitalar
e odontológica de seus clientes, estabelecendo no artigo 16, inciso VIII, que os contratos, regulamentos ou
produtos colocados à disposição dos consumidores podem fixar "a franquia, os limites financeiros ou o
percentual de co-participação do consumidor ou beneficiário".Como se vê da lei de regência, os planos de saúde
podem ser coparticipativos ou não, sendo, pois, lícita a incidência da coparticipação em determinadas despesas,

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desde que informado com clareza o percentual deste compartilhamento, nos termos dos artigos 6º, inciso III e
54, §§ 3o e 4o da Lei n. 8.078/90, nos quais estabelecido que eventuais limitações a direitos, ressalvas e
restrições de cobertura, bem como estipulações e obrigações carreadas aos consumidores devem ser redigidos
de modo claro, com caracteres ostensivos e legíveis e com o devido destaque a fim de permitir a fácil
compreensão pelo consumidor.A prescrição da internação em virtude de transtornos psiquiátricos ou doenças
mentais é considerada uma medida terapêutica excepcional, a ser utilizada somente quando outras formas de
tratamento ambulatorial ou em consultório se mostrarem insuficientes para a recuperação do
paciente/[Link] desse contexto, em obediência aos ditames da Lei n. 9.656/98, que admite a
coparticipação de algumas despesas, e aos princípios orientadores da internação segundo a Lei n. 10.216/2001,
o Conselho Nacional de Saúde Complementar - CONSU e a Agência Nacional de Saúde Suplementar - ANS, a fim
de regulamentarem a questão, editaram diversas Resoluções Normativas para o trato da matéria ao longo das
últimas duas dé[Link] os ditames legais e regulamentares acerca da questão jurídica, verifica-se que
não é abusiva a cláusula de coparticipação expressamente contratada e informada ao consumidor, limitada ao
máximo de 50% do valor contratado entre a operadora de planos privados de assistência à saúde e o respectivo
prestador de serviços de saúde, para a hipótese de internação superior a 30 (trinta) dias decorrente de
transtornos psiquiátricos, pois destinada à manutenção do equilíbrio entre as prestações e contraprestações
que envolvem a gestão dos custos dos contratos de planos privados de saúde. (Informativo n. 684)

DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE


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PROCESSO REsp 1.846.781/MS, Rel. Min. Assusete Magalhães, Primeira Seção, por
unanimidade, julgado em 10/02/2021 (Tema 1058)
RAMO DO DIREITO DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
TEMA Matrícula de menores em creches ou escolas. Conflito de competência. Direito
à educação. Competência absoluta da Justiça da Infância e da Juventude. Arts.
148, IV, e 209 da Lei n. 8.069/1990. Tema 1058
DESTAQUE
A Justiça da Infância e da Juventude tem competência absoluta para processar e julgar causas envolvendo
matrícula de menores em creches ou escolas, nos termos dos arts. 148, IV, e 209 da Lei n. 8.069/1990
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Com lastro na CF/1988, a Lei n. 8.069/1990 assegura expressamente, à criança e ao adolescente, o direito à
educação como direito público subjetivo, mediante "acesso à escola pública e gratuita, próxima de sua
residência, garantindo-se vagas no mesmo estabelecimento a irmãos que frequentem a mesma etapa ou ciclo de
ensino da educação básica" (art. 53, V), bem como "atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a
cinco anos de idade" (art. 54, IV). O art. 148 da Lei n. 8.069/1990 estabelece que "a Justiça da Infância e da
Juventude é competente para: (...) IV - conhecer de ações civis fundadas em interesses individuais, difusos ou
coletivos afetos à criança e ao adolescente, observado o disposto no art. 209".A Lei n. 8.069/1990 estabelece, no
seu Capítulo VII, disposições relativas "às ações de responsabilidade por ofensa aos direitos assegurados à
criança e ao adolescente, referentes ao não oferecimento ou oferta irregular" (...) "do ensino obrigatório" e "de
atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a cinco anos de idade" (art. 208, I e III), estatuindo que
"as ações previstas neste Capítulo serão propostas no foro do local onde ocorreu ou deva ocorrer a ação ou
omissão, cujo juízo terá competência absoluta para processar e julgar a causa, ressalvadas a competência da
Justiça Federal e a competência originária dos tribunais superiores" (art. 209).Assim, na forma da
jurisprudência do STJ, as "ações civis fundadas em interesses individuais, difusos ou coletivos afetos à criança e
ao adolescente", previstas no art. 148, IV, da Lei n. 8.069/1990, são da competência absoluta da Justiça da
Infância e da Juventude, ressalvadas apenas "a competência da Justiça Federal e a competência originária dos
tribunais superiores", na forma do art. 209 da referida Lei n. 8.069/1990, independentemente de a criança ou o
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adolescente encontrar-se ou não em situação de risco, na forma prevista no art. 98 do Estatuto da Criança e do
[Link] efeito, a jurisprudência do STJ, interpretando os arts. 148, IV, e 209 da Lei n. 8.069/1990,
firmou entendimento, ao apreciar casos relativos ao direito à saúde e à educação de crianças e adolescentes,
pela competência absoluta do Juízo da Infância e da Juventude para processar e julgar demandas que visem
proteger direitos individuais, difusos ou coletivos afetos à criança e ao adolescente, independentemente de o
menor encontrar-se ou não em situação de risco ou abandono, porquanto "os arts. 148 e 209 do ECA não
excepcionam a competência da Justiça da Infância e do Adolescente, ressalvadas aquelas estabelecidas
constitucionalmente, quais sejam, da Justiça Federal e de competência originária" (STJ, REsp 1.199.587/SE, Rel.
Ministro Arnaldo Esteves Lima, Primeira Turma, DJe de 12/11/2010).A Primeira Turma do STJ, em situação
análoga, na qual se postulava judicialmente o fornecimento de fraldas e alimento a menor, afastou a competência
da Vara da Fazenda Pública e concluiu que "esta Corte já consolidou o entendimento de que a competência da
vara da infância e juventude para apreciar pedidos referentes ao menor de idade é absoluta, consoante art. 148,
inciso IV, do Estatuto da Criança e do Adolescente".Examinando caso idêntico, a Segunda Turma do STJ firmou
o seguinte entendimento: "O Estatuto da Criança e do Adolescente é lex specialis, prevalece sobre a regra geral
de competência das Varas de Fazenda Pública, quando o feito envolver Ação Civil Pública em favor da criança
ou do adolescente, na qual se pleiteia acesso às ações ou aos serviços públicos, independentemente de o infante
estar em situação de abandono ou risco, em razão do relevante interesse social e pela importância do bem
jurídico tutelado. Na forma da jurisprudência do STJ, 'a competência da vara da infância e juventude para
apreciar pedidos referentes ao menor de idade é absoluta, consoante art. 148, inciso IV, do Estatuto da Criança
e do Adolescente' (STJ, AgRg no REsp 1.464.637/ES, [Link]. Sérgio Kukina, Primeira Turma, DJe de
28.3.2016).Em conclusão, a interpretação dos arts. 148, IV, e 209 da Lei n. 8.069/1990 impõe o reconhecimento
da competência absoluta da Vara da Infância e da Juventude, em detrimento da Vara da Fazenda Pública, para
processar e julgar causas envolvendo matrícula de crianças e adolescentes em creches ou escolas,
independentemente de os menores se encontrarem em situação de risco ou abandono, tal como previsto no art.
98 da referida Lei n. 8.069/1990. (Informativo n. 685)

DIREITO DO CONSUMIDOR
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PROCESSO REsp 1.809.486-SP, Rel. Min. Marco Buzzi, Segunda Seção, por
unanimidade, julgado em 09/12/2020, DJe 16/12/2020 (Tema 1032)
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO DO CONSUMIDOR
TEMA Plano de saúde. Cláusula de coparticipação à razão máxima de 50% (cinquenta
por cento). Informação e ajuste ao consumidor. Transtorno psiquiátrico.
Internação superior a 30 (trinta) dias por ano. Abusividade afastada. Validade.
Equilíbrio financeiro. Tema 1032.
DESTAQUE
Nos contratos de plano de saúde não é abusiva a cláusula de coparticipação expressamente ajustada e informada
ao consumidor, à razão máxima de 50% (cinquenta por cento) do valor das despesas, nos casos de internação
superior a 30 (trinta) dias por ano, decorrente de transtornos psiquiátricos, preservada a manutenção do
equilíbrio financeiro.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a definir se é legal ou abusiva a cláusula que impõe coparticipação para a hipótese de
internação psiquiátrica, uma modalidade de tratamento para indivíduos acometidos por transtornos mentais,
comorbidades ou dependência química, que corresponde a um serviço de saúde de enorme relevância
pú[Link] contratar um plano de saúde e despender mensalmente relevantes valores na sua manutenção, o
consumidor busca garantir, por conta própria, acesso a um direito fundamental que, a rigor, deveria ser
prestado pelo Estado de modo amplo, adequado, universal e [Link] que, se a universalização da
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cobertura - apesar de garantida pelo constituinte originário no artigo 198 da Constituição Federal e considerada
um dos princípios basilares das ações e serviços públicos de saúde nos termos do artigo 7º da Lei n. 8.080/90
que dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o
funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências - não é viabilizada pelo Estado no tempo
e modo necessários para fazer frente às adversidades de saúde que acometem os cidadãos, tampouco pode ser
imposta de modo completo e sem limites ao setor privado, porquanto, nos termos do artigo 199 da Constituição
Federal e 4º, § 1º, da Lei n. 8.080/90, a assistência à saúde de iniciativa privada é exercida em caráter
complementar.A presente discussão vincula-se, exatamente, às entidades privadas de assistência à saúde que,
embora prestem - de modo secundário e supletivo - serviços de utilidade pública relacionados a direito
fundamental estabelecido na Carta Constitucional, exercem, no âmbito do sistema da livre iniciativa, o seu
mister com foco na obtenção de lucro inerente à atividade exercida, ressalvadas aquelas instituições
filantrópicas ou sem fins [Link], diferentemente do Estado, que tem o dever de prestar assistência
ampla e ilimitada à população, a iniciativa privada se obriga nos termos da legislação de regência e do contrato
firmado entre as partes, no âmbito do qual são estabelecidos os serviços a serem prestados/cobertos, bem como
as limitações e restrições de direitos.A Lei n. 9.656/98 rege os planos e seguros privados de assistência à saúde
e permite à operadora dos respectivos serviços custear, total ou parcialmente, a assistência médica, hospitalar
e odontológica de seus clientes, estabelecendo no artigo 16, inciso VIII, que os contratos, regulamentos ou
produtos colocados à disposição dos consumidores podem fixar "a franquia, os limites financeiros ou o
percentual de co-participação do consumidor ou beneficiário".Como se vê da lei de regência, os planos de saúde
podem ser coparticipativos ou não, sendo, pois, lícita a incidência da coparticipação em determinadas despesas,
desde que informado com clareza o percentual deste compartilhamento, nos termos dos artigos 6º, inciso III e
54, §§ 3o e 4o da Lei n. 8.078/90, nos quais estabelecido que eventuais limitações a direitos, ressalvas e
restrições de cobertura, bem como estipulações e obrigações carreadas aos consumidores devem ser redigidos
de modo claro, com caracteres ostensivos e legíveis e com o devido destaque a fim de permitir a fácil
compreensão pelo consumidor.A prescrição da internação em virtude de transtornos psiquiátricos ou doenças
mentais é considerada uma medida terapêutica excepcional, a ser utilizada somente quando outras formas de
tratamento ambulatorial ou em consultório se mostrarem insuficientes para a recuperação do
paciente/[Link] desse contexto, em obediência aos ditames da Lei n. 9.656/98, que admite a
coparticipação de algumas despesas, e aos princípios orientadores da internação segundo a Lei n. 10.216/2001,
o Conselho Nacional de Saúde Complementar - CONSU e a Agência Nacional de Saúde Suplementar - ANS, a fim
de regulamentarem a questão, editaram diversas Resoluções Normativas para o trato da matéria ao longo das
últimas duas dé[Link] os ditames legais e regulamentares acerca da questão jurídica, verifica-se que
não é abusiva a cláusula de coparticipação expressamente contratada e informada ao consumidor, limitada ao
máximo de 50% do valor contratado entre a operadora de planos privados de assistência à saúde e o respectivo
prestador de serviços de saúde, para a hipótese de internação superior a 30 (trinta) dias decorrente de
transtornos psiquiátricos, pois destinada à manutenção do equilíbrio entre as prestações e contraprestações
que envolvem a gestão dos custos dos contratos de planos privados de saúde. (Informativo n. 684)

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DIREITO EMPRESARIAL
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PROCESSO REsp 1.717.213-MT, Rel. Min. Nancy Andrighi, Segunda Seção, por
unanimidade, julgado em 03/12/2020, DJe 10/12/2020 (Tema 1022)
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL, DIREITO EMPRESARIAL, DIREITO
FALIMENTAR
TEMA Recuperação judicial e falência. Decisões interlocutórias. Hipóteses de
cabimento do agravo de instrumento previstas na Lei n. 11.101/2005. Risco
de lesão grave e de difícil reparação exigidos pelo CPC/1973. Ressignificação
do cabimento à luz do CPC/2015. Natureza jurídica do processo
recuperacional. Liquidação e execução negocial. Natureza jurídica do
processo falimentar. Liquidação e execução coletiva. Aplicabilidade da regra
do Art. 1.015, parágrafo único, do CPC/2015. Cabimento de agravo de
instrumento contra todas as decisões interlocutórias proferidas nos
processos recuperacionais e falimentares. Modulação de efeitos. Segurança
jurídica e proteção da confiança. Tema 1022.
DESTAQUE
Cabe agravo de instrumento de todas as decisões interlocutórias proferidas no processo de recuperação judicial
e no processo de falência, por força do art. 1.015, parágrafo único, do CPC/2015.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
No regime recursal adotado pelo CPC/2015, há dois diferentes modelos de recorribilidade das decisões
interlocutórias: (i) para as decisões proferidas na fase de conhecimento, será cabível o agravo de instrumento
nas hipóteses listadas nos incisos do art. 1.015, observado, ainda, o abrandamento da taxatividade desse rol em
razão da tese fixada por ocasião do julgamento do Tema Repetitivo 988 (tese da taxatividade mitigada); (ii) para
as decisões proferidas nas fases de liquidação e cumprimento da sentença, no processo executivo e na ação de
inventário, será cabível o agravo de instrumento contra todas as decisões interlocutórias, por força do art. 1.015,
parágrafo único.O regime recursal diferenciado para as decisões interlocutórias proferidas nas fases de
liquidação e cumprimento de sentença, no processo executivo e na ação de inventário se justifica pela
impossibilidade de rediscussão posterior da questão objeto da interlocutória, na medida em que nem sempre
haverá apelação nessas espécies de fases procedimentais e processos, inviabilizando a incidência da regra do
art. 1.009, §1º, do CPC/2015 e também pela altíssima invasividade e gravidade das decisões interlocutórias
proferidas nessas espécies de fases procedimentais e processos, uma vez que, em regra, serão praticados
inúmeros e sucessivos atos judiciais de índole satisfativa (pagamento, penhora, expropriação e alienação de
bens, etc.) que se revelam claramente incompatíveis com a recorribilidade apenas diferida das decisões
interlocutó[Link] a Lei n. 11.101/2005 preveja o cabimento do agravo de instrumento em específicas
hipóteses, como, por exemplo, o art. 17, caput, art. 59, §2º e art. 100, não se pode olvidar que, por ocasião da
edição da referida lei, vigorava no Brasil o CPC/1973, cujo sistema recursal, no que tange às decisões
interlocutórias, era diametralmente oposto ao regime recursal instituído pelo CPC/2015, de modo que a escolha,
pelo legislador, de apenas algumas específicas hipóteses de recorribilidade imediata das interlocutórias
proferidas nos processos recuperacionais e falimentares deve ser interpretada como o reconhecimento de que,
naquelas hipóteses, estava presumidamente presente o risco de causar à parte lesão grave e de difícil reparação,
requisito exigido pelo art. 522, caput, do CPC/[Link] se reinterpretar a questão relacionada à recorribilidade
das decisões interlocutórias proferidas nos processos recuperacionais e falimentares à luz do regime instituído
pelo CPC/2015, conclui-se que, tendo o processo recuperacional a natureza jurídica de liquidação e de execução
negocial das dívidas da pessoa jurídica em recuperação e tendo o processo falimentar a natureza jurídica de
liquidação e de execução coletiva das dívidas da pessoa jurídica falida, a esses processos deve ser aplicada a

21
regra do art. 1.015, parágrafo único, do novo [Link], nos termos do art. 1.036 e seguintes do CPC/2015, fixa-
se a seguinte tese jurídica: Cabe agravo de instrumento de todas as decisões interlocutórias proferidas no
processo de recuperação judicial e no processo de falência, por força do art. 1.015, parágrafo único, do
CPC/[Link] propiciar segurança jurídica e proteger as partes que, confiando na irrecorribilidade das
decisões interlocutórias fora das hipóteses de cabimento previstas na Lei n. 11.101/2005, não interpuseram
agravo de instrumento com base no art. 1.015, parágrafo único, do CPC/2015, faz-se necessário estabelecer que:
(i) as decisões interlocutórias que não foram objeto de recurso de agravo de instrumento poderão ser objeto de
impugnação pela parte em eventual e hipotética apelação ou em contrarrazões, como autoriza o art. 1.009, §1º,
do CPC/2015, se entender a parte que ainda será útil o enfrentamento da questão incidente objeto da decisão
interlocutória naquele momento processual; (ii) que a presente tese jurídica vinculante deverá ser aplicada a
todas as decisões interlocutórias proferidas após a publicação do acórdão que fixou a tese e a todos os agravos
de instrumento interpostos antes da fixação da tese e que ainda se encontrem pendentes de julgamento ao
tempo da publicação deste acórdão, excluindo-se aqueles que não foram conhecidos por decisão judicial
transitada em julgado. (Informativo n. 684)

PROCESSO REsp 1.842.911-RS, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Segunda Seção,
por unanimidade, julgado em 09/12/2020, DJe 17/12/2020 (Tema
1051)
RAMO DO DIREITO DIREITO EMPRESARIAL, DIREITO FALIMENTAR
TEMA Recuperação judicial. Crédito. Existência. Sujeição aos efeitos do processo de
soerguimento. Art. 49, caput, da Lei n. 11.101/2005. Data do fato gerador.
Tema 1051.
DESTAQUE
Para o fim de submissão aos efeitos da recuperação judicial, considera-se que a existência do crédito é
determinada pela data em que ocorreu o seu fato gerador.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A questão controvertida consiste em definir, a partir da interpretação do artigo 49, caput, da Lei n. 11.101/2005,
se a existência do crédito é determinada pela data de seu fato gerador ou pelo trânsito em julgado da sentença
que o [Link] se percebe da leitura do referido artigo, nem todos os credores estão submetidos aos
efeitos da recuperação judicial, mas somente aqueles titulares de créditos existentes na data do pedido, ainda
que não vencidos, e que não foram excepcionados pelo artigo 49, §§ 3º e 4º, da Lei n. 11.101/2005. Além disso,
os créditos de natureza fiscal estão excluídos da recuperação judicial (art. 6º, § 7º, da Lei n. 11.101/2005).Diante
dessa opção do legislador de excluir determinados credores da recuperação judicial, mostra-se imprescindível
identificar o que deve ser considerado como crédito existente na data do pedido ainda que não vencido. A
matéria ganha especial dificuldade no que respeita aos créditos que dependem de liquidaçã[Link] créditos
ilíquidos decorrentes de responsabilidade civil, das relações de trabalho e de prestação de serviços, entre
outros, dão ensejo a duas interpretações quanto ao momento de sua existência, que podem ser assim resumidas:
(i) a existência do crédito depende de provimento judicial que o declare (com trânsito em julgado) e (ii) a
constituição do crédito ocorre no momento do fato gerador, pressupondo a existência de um vínculo jurídico
entre as partes, o qual não depende de decisão judicial que o declare.A primeira corrente interpretativa parte
do pressuposto de que somente nas situações em que a obrigação é descumprida, sendo necessária a
intervenção do Poder Judiciário para que a prestação seja satisfeita, é que se poderia falar em existência do
crédito. No entanto, o crédito pode ser satisfeito espontaneamente, a partir da quantificação acordada pelas
partes, extinguindo-se a obrigaçã[Link] decorre que a existência do crédito não depende de declaração judicial.
Na verdade, confunde-se o conceito de obrigação e de responsabilidade.A existência do crédito está diretamente
ligada à relação jurídica que se estabelece entre o devedor e credor, o liame entre as partes, pois é com base nela
que, ocorrido o fato gerador, surge o direito de exigir a prestação (direito de crédito). Assim, a prestação do
trabalho, na relação trabalhista, faz surgir o direito ao crédito; na relação de prestação de serviços, a realização
do serviç[Link] responsabilidade civil contratual, o vínculo jurídico precede a ocorrência do ilícito que faz surgir

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o dever de indenizar. Na responsabilidade jurídica extracontratual, o liame entre as partes se estabelece
concomitantemente com a ocorrência do evento danoso. De todo modo, ocorrido o ato lesivo, surge o direito ao
crédito relativo à reparação dos danos [Link] seja, os créditos submetidos aos efeitos da recuperação
judicial são aqueles decorrentes da atividade do empresário antes do pedido de recuperação, isto é, de fatos
praticados ou de negócios celebrados pelo devedor em momento anterior ao pedido de recuperação judicial,
excetuados aqueles expressamente apontados na lei de regê[Link] linha, foi editado o Enunciado n. 100 da
III Jornada de Direito Comercial, que tem o seguinte teor: "Consideram-se sujeitos à recuperação judicial, na
forma do art. 49 da Lei n. 11.101/2005, os créditos decorrentes de fatos geradores anteriores ao pedido de
recuperação, independentemente da data de eventual acordo, sentença ou trânsito em julgado."Em resumo,
ocorrido o fato gerador, surge o direito de crédito, sendo o adimplemento e a responsabilidade elementos
subsequentes, não interferindo na sua constituiçã[Link] disso, conclui-se que a submissão do crédito aos
efeitos da recuperação judicial não depende de sentença que o declare ou o quantifique, menos ainda de seu
trânsito em julgado, bastando a ocorrência do fato gerador, conforme defende a segunda corrente interpretativa
mencionada e o entendimento adotado pela iterativa jurisprudência desta Corte. (Informativo n. 684)

DIREITO FALIMENTAR
Voltar ao Sumário.

PROCESSO REsp 1.717.213-MT, Rel. Min. Nancy Andrighi, Segunda Seção, por
unanimidade, julgado em 03/12/2020, DJe 10/12/2020 (Tema 1022)
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL, DIREITO EMPRESARIAL, DIREITO
FALIMENTAR
TEMA Recuperação judicial e falência. Decisões interlocutórias. Hipóteses de
cabimento do agravo de instrumento previstas na Lei n. 11.101/2005. Risco
de lesão grave e de difícil reparação exigidos pelo CPC/1973. Ressignificação
do cabimento à luz do CPC/2015. Natureza jurídica do processo
recuperacional. Liquidação e execução negocial. Natureza jurídica do
processo falimentar. Liquidação e execução coletiva. Aplicabilidade da regra
do Art. 1.015, parágrafo único, do CPC/2015. Cabimento de agravo de
instrumento contra todas as decisões interlocutórias proferidas nos
processos recuperacionais e falimentares. Modulação de efeitos. Segurança
jurídica e proteção da confiança. Tema 1022.
DESTAQUE
Cabe agravo de instrumento de todas as decisões interlocutórias proferidas no processo de recuperação judicial
e no processo de falência, por força do art. 1.015, parágrafo único, do CPC/2015.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
No regime recursal adotado pelo CPC/2015, há dois diferentes modelos de recorribilidade das decisões
interlocutórias: (i) para as decisões proferidas na fase de conhecimento, será cabível o agravo de instrumento
nas hipóteses listadas nos incisos do art. 1.015, observado, ainda, o abrandamento da taxatividade desse rol em
razão da tese fixada por ocasião do julgamento do Tema Repetitivo 988 (tese da taxatividade mitigada); (ii) para
as decisões proferidas nas fases de liquidação e cumprimento da sentença, no processo executivo e na ação de
inventário, será cabível o agravo de instrumento contra todas as decisões interlocutórias, por força do art. 1.015,
parágrafo único.O regime recursal diferenciado para as decisões interlocutórias proferidas nas fases de
liquidação e cumprimento de sentença, no processo executivo e na ação de inventário se justifica pela
impossibilidade de rediscussão posterior da questão objeto da interlocutória, na medida em que nem sempre
haverá apelação nessas espécies de fases procedimentais e processos, inviabilizando a incidência da regra do
art. 1.009, §1º, do CPC/2015 e também pela altíssima invasividade e gravidade das decisões interlocutórias
proferidas nessas espécies de fases procedimentais e processos, uma vez que, em regra, serão praticados
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inúmeros e sucessivos atos judiciais de índole satisfativa (pagamento, penhora, expropriação e alienação de
bens, etc.) que se revelam claramente incompatíveis com a recorribilidade apenas diferida das decisões
interlocutó[Link] a Lei n. 11.101/2005 preveja o cabimento do agravo de instrumento em específicas
hipóteses, como, por exemplo, o art. 17, caput, art. 59, §2º e art. 100, não se pode olvidar que, por ocasião da
edição da referida lei, vigorava no Brasil o CPC/1973, cujo sistema recursal, no que tange às decisões
interlocutórias, era diametralmente oposto ao regime recursal instituído pelo CPC/2015, de modo que a escolha,
pelo legislador, de apenas algumas específicas hipóteses de recorribilidade imediata das interlocutórias
proferidas nos processos recuperacionais e falimentares deve ser interpretada como o reconhecimento de que,
naquelas hipóteses, estava presumidamente presente o risco de causar à parte lesão grave e de difícil reparação,
requisito exigido pelo art. 522, caput, do CPC/[Link] se reinterpretar a questão relacionada à recorribilidade
das decisões interlocutórias proferidas nos processos recuperacionais e falimentares à luz do regime instituído
pelo CPC/2015, conclui-se que, tendo o processo recuperacional a natureza jurídica de liquidação e de execução
negocial das dívidas da pessoa jurídica em recuperação e tendo o processo falimentar a natureza jurídica de
liquidação e de execução coletiva das dívidas da pessoa jurídica falida, a esses processos deve ser aplicada a
regra do art. 1.015, parágrafo único, do novo [Link], nos termos do art. 1.036 e seguintes do CPC/2015, fixa-
se a seguinte tese jurídica: Cabe agravo de instrumento de todas as decisões interlocutórias proferidas no
processo de recuperação judicial e no processo de falência, por força do art. 1.015, parágrafo único, do
CPC/[Link] propiciar segurança jurídica e proteger as partes que, confiando na irrecorribilidade das
decisões interlocutórias fora das hipóteses de cabimento previstas na Lei n. 11.101/2005, não interpuseram
agravo de instrumento com base no art. 1.015, parágrafo único, do CPC/2015, faz-se necessário estabelecer que:
(i) as decisões interlocutórias que não foram objeto de recurso de agravo de instrumento poderão ser objeto de
impugnação pela parte em eventual e hipotética apelação ou em contrarrazões, como autoriza o art. 1.009, §1º,
do CPC/2015, se entender a parte que ainda será útil o enfrentamento da questão incidente objeto da decisão
interlocutória naquele momento processual; (ii) que a presente tese jurídica vinculante deverá ser aplicada a
todas as decisões interlocutórias proferidas após a publicação do acórdão que fixou a tese e a todos os agravos
de instrumento interpostos antes da fixação da tese e que ainda se encontrem pendentes de julgamento ao
tempo da publicação deste acórdão, excluindo-se aqueles que não foram conhecidos por decisão judicial
transitada em julgado. (Informativo n. 684)

PROCESSO REsp 1.842.911-RS, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Segunda Seção,
por unanimidade, julgado em 09/12/2020, DJe 17/12/2020 (Tema
1051)
RAMO DO DIREITO DIREITO EMPRESARIAL, DIREITO FALIMENTAR
TEMA Recuperação judicial. Crédito. Existência. Sujeição aos efeitos do processo de
soerguimento. Art. 49, caput, da Lei n. 11.101/2005. Data do fato gerador.
Tema 1051.
DESTAQUE
Para o fim de submissão aos efeitos da recuperação judicial, considera-se que a existência do crédito é
determinada pela data em que ocorreu o seu fato gerador.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A questão controvertida consiste em definir, a partir da interpretação do artigo 49, caput, da Lei n. 11.101/2005,
se a existência do crédito é determinada pela data de seu fato gerador ou pelo trânsito em julgado da sentença
que o [Link] se percebe da leitura do referido artigo, nem todos os credores estão submetidos aos
efeitos da recuperação judicial, mas somente aqueles titulares de créditos existentes na data do pedido, ainda
que não vencidos, e que não foram excepcionados pelo artigo 49, §§ 3º e 4º, da Lei n. 11.101/2005. Além disso,
os créditos de natureza fiscal estão excluídos da recuperação judicial (art. 6º, § 7º, da Lei n. 11.101/2005).Diante
dessa opção do legislador de excluir determinados credores da recuperação judicial, mostra-se imprescindível
identificar o que deve ser considerado como crédito existente na data do pedido ainda que não vencido. A
matéria ganha especial dificuldade no que respeita aos créditos que dependem de liquidaçã[Link] créditos

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ilíquidos decorrentes de responsabilidade civil, das relações de trabalho e de prestação de serviços, entre
outros, dão ensejo a duas interpretações quanto ao momento de sua existência, que podem ser assim resumidas:
(i) a existência do crédito depende de provimento judicial que o declare (com trânsito em julgado) e (ii) a
constituição do crédito ocorre no momento do fato gerador, pressupondo a existência de um vínculo jurídico
entre as partes, o qual não depende de decisão judicial que o declare.A primeira corrente interpretativa parte
do pressuposto de que somente nas situações em que a obrigação é descumprida, sendo necessária a
intervenção do Poder Judiciário para que a prestação seja satisfeita, é que se poderia falar em existência do
crédito. No entanto, o crédito pode ser satisfeito espontaneamente, a partir da quantificação acordada pelas
partes, extinguindo-se a obrigaçã[Link] decorre que a existência do crédito não depende de declaração judicial.
Na verdade, confunde-se o conceito de obrigação e de responsabilidade.A existência do crédito está diretamente
ligada à relação jurídica que se estabelece entre o devedor e credor, o liame entre as partes, pois é com base nela
que, ocorrido o fato gerador, surge o direito de exigir a prestação (direito de crédito). Assim, a prestação do
trabalho, na relação trabalhista, faz surgir o direito ao crédito; na relação de prestação de serviços, a realização
do serviç[Link] responsabilidade civil contratual, o vínculo jurídico precede a ocorrência do ilícito que faz surgir
o dever de indenizar. Na responsabilidade jurídica extracontratual, o liame entre as partes se estabelece
concomitantemente com a ocorrência do evento danoso. De todo modo, ocorrido o ato lesivo, surge o direito ao
crédito relativo à reparação dos danos [Link] seja, os créditos submetidos aos efeitos da recuperação
judicial são aqueles decorrentes da atividade do empresário antes do pedido de recuperação, isto é, de fatos
praticados ou de negócios celebrados pelo devedor em momento anterior ao pedido de recuperação judicial,
excetuados aqueles expressamente apontados na lei de regê[Link] linha, foi editado o Enunciado n. 100 da
III Jornada de Direito Comercial, que tem o seguinte teor: "Consideram-se sujeitos à recuperação judicial, na
forma do art. 49 da Lei n. 11.101/2005, os créditos decorrentes de fatos geradores anteriores ao pedido de
recuperação, independentemente da data de eventual acordo, sentença ou trânsito em julgado."Em resumo,
ocorrido o fato gerador, surge o direito de crédito, sendo o adimplemento e a responsabilidade elementos
subsequentes, não interferindo na sua constituiçã[Link] disso, conclui-se que a submissão do crédito aos
efeitos da recuperação judicial não depende de sentença que o declare ou o quantifique, menos ainda de seu
trânsito em julgado, bastando a ocorrência do fato gerador, conforme defende a segunda corrente interpretativa
mencionada e o entendimento adotado pela iterativa jurisprudência desta Corte. (Informativo n. 684)

DIREITO PREVIDENCIÁRIO
Voltar ao Sumário.

PROCESSO REsp 1.847.731/RS, Rel. Min. Manoel Erhardt (Desembargador


convocado do TRF 5ª Região), Primeira Seção, por unanimidade, julgado
em 29/04/2021. (Tema 1050)
RAMO DO DIREITO DIREITO PREVIDENCIÁRIO
TEMA Benefício previdenciário. Pagamento na via administrativa. Total ou parcial
após citação válida. Honorários advocatícios. Não alteração. Base de cálculo.
Totalidade dos valores devidos. Tema 1050.
DESTAQUE
O eventual pagamento de benefício previdenciário na via administrativa, seja ele total ou parcial, após a citação
válida, não tem o condão de alterar a base de cálculo para os honorários advocatícios fixados na ação de
conhecimento, que será composta pela totalidade dos valores devidos.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a definir sobre a possibilidade de computar as parcelas pagas a título de benefício
previdenciário na via administrativa no curso da ação, na base de cálculo para fixação de honorários
advocatícios, além dos valores decorrentes de condenação judicial.

25
O art. 85, §2º, do CPC/2015 prevê o proveito econômico como um dos critérios para o arbitramento dos
honorários de sucumbência. Todavia, o proveito econômico ou valor da condenação não é sinônimo de valor
executado a ser recebido em requisição de pagamento, mas sim equivale ao proveito jurídico, materializado no
valor total do benefício que foi concedido ao segurado por força de decisão judicial, conseguido por meio da
atividade laboral exercida pelo advogado.
Assim, o valor da condenação não se limita ao pagamento que será feito do montante considerado controvertido
ou mesmo pendente de pagamento por meio de requisição de pagamento, ao contrário, abarca a totalidade do
valor a ser auferido pela parte beneficiária em decorrência da ação judicial.
Foi assim que decidiu este Superior Tribunal de Justiça a partir do precedente inaugural, referente a essa
matéria, que se deu nos autos do REsp. 956.263/SP (DJ 3.9.2007), da relatoria do eminente Min. Napoleão Nunes
Maia Filho no qual se firmou entendimento no sentido de que os valores pagos administrativamente devem ser
compensados na fase de liquidação do julgado; entretanto, tal compensação não deve interferir na base de
cálculo dos honorários sucumbenciais, que deverá ser composta pela totalidade dos valores devidos. Além disso,
os honorários advocatícios, nos termos do art. 85, § 2º, do CPC/2015, são fixados na fase de conhecimento com
base no princípio da sucumbência, ou seja, em razão da derrota da parte vencida.
Indubitavelmente, tendo ocorrido a resistência à pretensão por parte do INSS, que ensejou a propositura da
ação, impõe-se a incidência de honorários sucumbenciais, a fim de que a parte que deu causa à demanda arque
com as despesas inerentes ao processo, em atenção ao princípio da causalidade, inclusive no que se refere à
remuneração do advogado que patrocinou a causa em favor da parte vencedora.
Caso fosse adotado entendimento diverso, poderia ocorrer a situação peculiar em que o INSS, ao reconhecer o
débito integral em via administrativa, posteriormente à propositura da ação de conhecimento em face de
indeferimento inicial do benefício previdenciário pela Administração Pública, ficaria desincumbido do valor
devido a título de honorários advocatícios ao patrono que atuou na causa judicial previdenciária. (Informativo
n. 694)

PROCESSO REsp 1.381.734/RN, Rel. Min. Benedito Gonçalves, Primeira Seção, por
unanimidade, julgado em 10/03/2021. (Tema 979).
RAMO DO DIREITO DIREITO PREVIDENCIÁRIO
TEMA Benefício previdenciário. Art. 115, II, da Lei n. 8.213/1991. Devolução de
valores recebidos por força de interpretação errônea e de má aplicação da lei.
Não ocorrência. Erro material ou operacional da administração. Inequívoca
presença da boa-fé objetiva. Possibilidade de devolução. Tema 979.
DESTAQUE
Os pagamentos indevidos aos segurados decorrentes de erro administrativo (material ou operacional), não
embasado em interpretação errônea ou equivocada da lei pela Administração, são repetíveis, sendo legítimo o
desconto no percentual de até 30% (trinta por cento) de valor do benefício pago ao segurado/beneficiário,
ressalvada a hipótese em que o segurado, diante do caso concreto, comprova sua boa-fé objetiva, sobretudo com
demonstração de que não lhe era possível constatar o pagamento indevido.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O beneficiário não pode ser penalizado pela interpretação errônea ou pela má aplicação da lei previdenciária ao
receber valor além do devido. Diz-se desse modo porque também é dever-poder da Administração bem
interpretar a legislação que deve por ela ser aplicada no pagamento dos benefícios. É regra geral do direito que
ao administrado não é permitido alegar o desconhecimento da legislação, no entanto, não é dado exigir daquele
que recebe o valor acima do devido pela Previdência Social a percepção da interpretação de todo o complexo
legislativo, legal e infralegal utilizado pela Administração para o pagamento do benefí[Link] dessa
perspectiva, esta Corte Superior evoluiu a sua jurisprudência passando a adotar o entendimento no sentido de
que, para a não devolução dos valores recebidos indevidamente pelo beneficiário da Previdência Social, é
imprescindível, além do caráter alimentar da verba e do princípio da irrepetibilidade do benefício, a presença
da boa-fé objetiva daquele que recebe parcelas tidas por indevidas pela administração. Essas situações não

26
refletem qualquer condição para que o cidadão compreenda de forma inequívoca que recebeu a maior o que
não lhe era [Link], nessas circunstâncias, evidencia-se não ser possível exigir-se do beneficiário a
devolução de valores pagos pelo INSS, ainda que [Link] das hipóteses anteriores
(interpretação errônea e má aplicação da lei), onde o elemento objetivo é, por si, suficiente para levar à
conclusão de que o segurado recebeu o benefício de boa-fé, assegurando-lhe o direito da não devolução do valor
recebido indevidamente, a hipótese de erro material ou operacional deve ser analisado caso a caso, de modo a
averiguar se o beneficiário/segurado tinha condições de compreender a respeito do não pertencimento dos
valores recebidos, de modo a se lhe exigir comportamento diverso, diante do seu dever de lealdade para com a
Administração Previdenciá[Link] contexto, é possível afirmar que há erros materiais ou operacionais que se
mostram incompatíveis com a indispensável boa-fé objetiva, dando ensejo ao ressarcimento do indébito,
situação que foi muito bem retratada no MS n. 19.260/DF, da relatoria do Ministro Herman Benjamin, DJe
03/09/2014, ao exemplificar uma situação hipotética de um servidor que não possui filhos e recebeu, por erro
da Administração, auxílio [Link], os erros materiais ou operacionais cometidos pela Administração
Previdenciária que não se enquadrem nas hipóteses de interpretação errônea e má aplicação da lei e não sejam
capazes de despertar no beneficiário inequívoca compreensão da irregularidade do pagamento abrem a
possibilidade do [Link] forma, pode-se afirmar com segurança que no caso de erro material ou
operacional, para fins de ressarcimento administrativo do valor pago indevidamente, deve-se averiguar a
presença da boa-fé do segurado/beneficiário, concernente na sua aptidão para compreender, de forma
inequívoca, a irregularidade do pagamento.O artigo 154, § 3º, do Decreto n. 3.048/1999 autoriza a
Administração Previdenciária a proceder o desconto daquilo que pagou indevidamente. Todavia, a dedução no
benefício só deverá ocorrer quando se estiver diante de erro da administração. Nesse caso, caberá à
Administração Previdenciária, ao instaurar o devido processo administrativo, observar as peculiaridades de
cada caso concreto, com desconto no benefício no percentual de até 30% (trinta por cento). (Informativo n.
688)

PROCESSO REsp 1.381.734/RN, Rel. Min. Benedito Gonçalves, Primeira Seção, por
unanimidade, julgado em 10/03/2021. (Tema 979).
RAMO DO DIREITO DIREITO PREVIDENCIÁRIO
TEMA Benefício previdenciário. Art. 115, II, da Lei n. 8.213/1991. Devolução de
valores recebidos por força de interpretação errônea e de má aplicação da lei.
Não ocorrência. Erro material ou operacional da administração. Inequívoca
presença da boa-fé objetiva. Possibilidade de devolução. Tema 979.
DESTAQUE
Os pagamentos indevidos aos segurados decorrentes de erro administrativo (material ou operacional), não
embasado em interpretação errônea ou equivocada da lei pela Administração, são repetíveis, sendo legítimo o
desconto no percentual de até 30% (trinta por cento) de valor do benefício pago ao segurado/beneficiário,
ressalvada a hipótese em que o segurado, diante do caso concreto, comprova sua boa-fé objetiva, sobretudo com
demonstração de que não lhe era possível constatar o pagamento indevido.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O beneficiário não pode ser penalizado pela interpretação errônea ou pela má aplicação da lei previdenciária ao
receber valor além do devido. Diz-se desse modo porque também é dever-poder da Administração bem
interpretar a legislação que deve por ela ser aplicada no pagamento dos benefícios. É regra geral do direito que
ao administrado não é permitido alegar o desconhecimento da legislação, no entanto, não é dado exigir daquele
que recebe o valor acima do devido pela Previdência Social a percepção da interpretação de todo o complexo
legislativo, legal e infralegal utilizado pela Administração para o pagamento do benefí[Link] dessa
perspectiva, esta Corte Superior evoluiu a sua jurisprudência passando a adotar o entendimento no sentido de
que, para a não devolução dos valores recebidos indevidamente pelo beneficiário da Previdência Social, é
imprescindível, além do caráter alimentar da verba e do princípio da irrepetibilidade do benefício, a presença
da boa-fé objetiva daquele que recebe parcelas tidas por indevidas pela administração. Essas situações não

27
refletem qualquer condição para que o cidadão compreenda de forma inequívoca que recebeu a maior o que
não lhe era [Link], nessas circunstâncias, evidencia-se não ser possível exigir-se do beneficiário a
devolução de valores pagos pelo INSS, ainda que [Link] das hipóteses anteriores
(interpretação errônea e má aplicação da lei), onde o elemento objetivo é, por si, suficiente para levar à
conclusão de que o segurado recebeu o benefício de boa-fé, assegurando-lhe o direito da não devolução do valor
recebido indevidamente, a hipótese de erro material ou operacional deve ser analisado caso a caso, de modo a
averiguar se o beneficiário/segurado tinha condições de compreender a respeito do não pertencimento dos
valores recebidos, de modo a se lhe exigir comportamento diverso, diante do seu dever de lealdade para com a
Administração Previdenciá[Link] contexto, é possível afirmar que há erros materiais ou operacionais que se
mostram incompatíveis com a indispensável boa-fé objetiva, dando ensejo ao ressarcimento do indébito,
situação que foi muito bem retratada no MS n. 19.260/DF, da relatoria do Ministro Herman Benjamin, DJe
03/09/2014, ao exemplificar uma situação hipotética de um servidor que não possui filhos e recebeu, por erro
da Administração, auxílio [Link], os erros materiais ou operacionais cometidos pela Administração
Previdenciária que não se enquadrem nas hipóteses de interpretação errônea e má aplicação da lei e não sejam
capazes de despertar no beneficiário inequívoca compreensão da irregularidade do pagamento abrem a
possibilidade do [Link] forma, pode-se afirmar com segurança que no caso de erro material ou
operacional, para fins de ressarcimento administrativo do valor pago indevidamente, deve-se averiguar a
presença da boa-fé do segurado/beneficiário, concernente na sua aptidão para compreender, de forma
inequívoca, a irregularidade do pagamento.O artigo 154, § 3º, do Decreto n. 3.048/1999 autoriza a
Administração Previdenciária a proceder o desconto daquilo que pagou indevidamente. Todavia, a dedução no
benefício só deverá ocorrer quando se estiver diante de erro da administração. Nesse caso, caberá à
Administração Previdenciária, ao instaurar o devido processo administrativo, observar as peculiaridades de
cada caso concreto, com desconto no benefício no percentual de até 30% (trinta por cento). (Informativo n.
688)

PROCESSO REsp 1.808.156-SP, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Primeira Seção,
por unanimidade, julgado em 10/02/2021 (Tema 1011)
RAMO DO DIREITO DIREITO PREVIDENCIÁRIO
TEMA Regime geral de previdência social. Aposentadoria por tempo de contribuição.
Segurado professor. Cálculo do benefício. Incidência do fator previdenciário.
Interpretação dos arts. 29 e 56 da Lei n. 8.213/1991, com redação dada pela
Lei n. 9.876/1999. Tema 1011.
DESTAQUE
Incide o fator previdenciário no cálculo da renda mensal inicial de aposentadoria por tempo de contribuição de
professor vinculado ao Regime Geral de Previdência Social, independente da data de sua concessão, quando a
implementação dos requisitos necessários à obtenção do benefício se der após o início de vigência da Lei n.
9.876/1999, ou seja, a partir de 29/11/1999.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
À luz do Decreto 53.831/1964, Quadro Anexo, Item 2.1.4, que regulamentou o artigo 31 da Lei n. 3.807/1960, a
atividade de professor era considerada penosa, caracterizando a natureza jurídica da aposentadoria do
professor como aposentadoria [Link] a promulgação da Emenda Constitucional 18/1981, marco
temporal de constitucionalização da aposentadoria do professor, essa modalidade de aposentadoria ganhou a
natureza jurídica de aposentadoria por tempo de contribuição, com redução de tempo.A Constituição de 1988
manteve a natureza jurídica da aposentadoria do professor como aposentadoria por tempo de contribuição,
com redução de tempo, atribuindo, a partir da Emenda 20/1998, o cálculo dos proventos, ao legislador
ordinário.A Lei n. 9.876/1999, de 26 de novembro de 1999, concebida para realizar as alterações introduzidas
pela Emenda 20/1998, introduziu o fator previdenciário, cuja missão constitui a manutenção do equilíbrio
atuarial do Regime Geral da Previdência Social.O artigo 29 da Lei n. 8.213/1991, com a redação dada pela Lei n.
9.876/1999, combinado com o artigo 56, expressa a intenção do legislador em fazer incidir no cálculo do salário

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de benefício da aposentadoria por tempo de contribuição do professor, o fator previdenciário.O Supremo
Tribunal Federal, no julgamento do RE 1.221.630 RG/SC firmou a seguinte tese de repercussão geral, aplicável
ao vertente caso: "É constitucional o fator previdenciário previsto no art. 29, caput, incisos e parágrafos, da Lei
nº 8.213/91, com a redação dada pelo art. 2º da Lei nº 9.876/99. " (Dje 19/06/2020, Ata nº 12/2020 - DJ
divulgado em 18/06/2020). (Informativo n. 685)

PROCESSO REsp 1.740.397-RS, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, Segunda Seção,
por unanimidade, julgado em 28/10/2020, DJe 11/12/2020 (Tema
1021).
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO PREVIDENCIÁRIO
TEMA Verbas remuneratórias. Reconhecimento pela Justiça Trabalhista. Inclusão
nos cálculos de proventos de complementação de aposentadoria.
Impossibilidade. Ausência de prévio custeio. Modulação de efeitos da decisão.
Recálculo do benefício em ações já ajuizadas. Possibilidade. Ampliação da tese
firmada no Tema Repetitivo 955/STJ. Tema 1021.
DESTAQUE
I) A concessão do benefício de previdência complementar tem como pressuposto a prévia formação de reserva
matemática, de forma a evitar o desequilíbrio atuarial dos planos. Em tais condições, quando já concedido o
benefício de complementação de aposentadoria por entidade fechada de previdência privada, é inviável a
inclusão dos reflexos de quaisquer verbas remuneratórias reconhecidas pela Justiça do Trabalho nos cálculos
da renda mensal inicial dos benefícios de complementação de [Link]) Os eventuais prejuízos causados
ao participante ou ao assistido que não puderam contribuir ao fundo na época apropriada ante o ato ilícito do
empregador poderão ser reparados por meio de ação judicial a ser proposta contra a empresa ex-empregadora
na Justiça do [Link]) Modulação dos efeitos da decisão (art. 927, § 3º, do CPC/2015): nas demandas
ajuizadas na Justiça comum até 8/8/2018 (data do julgamento do REsp n. 1.312.736/RS - Tema repetitivo n.
955/STJ) - se ainda for útil ao participante ou assistido, conforme as peculiaridades da causa -, admite-se a
inclusão dos reflexos de verbas remuneratórias, reconhecidas pela Justiça do Trabalho, nos cálculos da renda
mensal inicial dos benefícios de complementação de aposentadoria, condicionada à previsão regulamentar de
que as parcelas de natureza remuneratória devem compor a base de cálculo das contribuições a serem
recolhidas e servir de parâmetro para o cômputo da renda mensal inicial do benefício, e à recomposição prévia
e integral das reservas matemáticas com o aporte, a ser vertido pelo participante, de valor a ser apurado por
estudo técnico atuarial em cada [Link]) Nas reclamações trabalhistas em que o ex-empregador tiver sido
condenado a recompor a reserva matemática, e sendo inviável a revisão da renda mensal inicial da
aposentadoria complementar, os valores correspondentes a tal recomposição devem ser entregues ao
participante ou assistido a título de reparação, evitando-se, igualmente, o enriquecimento sem causa da
entidade fechada de previdência complementar.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
No julgamento do REsp Repetitivo 1.312.736/RS, conclui-se pela inviabilidade da inclusão dos reflexos das
verbas remuneratórias reconhecidas pela Justiça do Trabalho, nos cálculos da renda mensal inicial dos
benefícios de complementação de [Link] entanto, a afirmação da tese mais ampla, para que o
enunciado estabelecido no Tema n. 955/STJ seja aplicável ao pedido de incorporação de quaisquer verbas
remuneratórias no benefício já concedido, mostra-se adequada e coerente, pois a verba em si (horas extras
habituais) não foi motivo determinante para o entendimento fixado no julgamento do REsp 1.312.736/RS.O que
efetivamente se decidiu foi pela impossibilidade da incorporação pretendida, não obstante haver previsão no
plano de que verbas de natureza remuneratória (naquele caso específico, as horas extraordinárias habituais)
deveriam compor a base de cálculo das contribuições do patrocinador e do participante e servir de parâmetro
para o cálculo da renda mensal inicial do benefício, dada a natureza do regime de capitalização - que exige a
prévia formação de reserva capaz de garantir o pagamento do benefício - e a inviabilidade da recomposição
dessa [Link] qual for a espécie de verba remuneratória reivindicada perante a Justiça do Trabalho, é

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possível concluir, como se afirmou no repetitivo anterior, pela impossibilidade de sua incorporação no benefício
de previdência complementar, caso não haja o prévio aporte, nos termos exigidos pelo respectivo regulamento,
porque invariavelmente haverá prejuízo para o equilíbrio atuarial do plano. A tese mais abrangente se mostra,
portanto, não apenas adequada, mas necessária para assegurar a isonomia e conferir segurança jurídica em sua
aplicação pelos diversos Tribunais do País. (Informativo n. 684)

DIREITO PROCESSUAL CIVIL


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PROCESSO REsp 1.866.015/SP, Rel. Min. Herman Benjamin, por unanimidade,


julgado em 10/03/2021. (Tema 1053)
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Ações previdenciárias decorrentes de acidente de trabalho. Presença do INSS.
Incompetência dos Juizados Especiais da Fazenda Pública. Tema 1053.
DESTAQUE
Os Juizados Especiais da Fazenda Pública não têm competência para o julgamento de ações decorrentes de
acidente de trabalho em que o Instituto Nacional do Seguro Social figure como parte.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A fixação da competência da Justiça dos Estados para as ações acidentárias foi prevista na Carta de 1946 (art.
123, §1º), na Carta de 1967 (art. 134, § 2º) e na EC n. 1 de 1969 (art. 142). A regra persistiu na Constituição de
1988 (art. 109, I), mesmo após a EC 45/2004Sobre a matéria, o Superior Tribunal de Justiça baixou a Súmula
15: "Compete à Justiça estadual processar e julgar os litígios decorrentes de acidente do trabalho". E o Supremo
Tribunal Federal, a Súmula 501: "Compete à Justiça Ordinária Estadual o processo e o julgamento, em ambas as
instâncias, das causas de acidente do trabalho, ainda que promovidas contra a União, suas autarquias, empresas
públicas ou sociedades de economia mista".O STJ já se pronunciou, não sobre o tema dos autos, mas acerca de
questão correlata, que decorreu da previsão feita no art. 109, § 3º, da Constituição de 1988. O preceito autoriza,
na hipótese de ausência de vara federal no domicílio do segurado, a delegação legal para que a Justiça Estadual
processe demandas de natureza previdenciária. Decidiu-se no STJ, em relevante precedente sobre o tema: "Em
razão do próprio regramento constitucional e infraconstitucional, não há competência federal delegada no
âmbito dos Juizados Especiais Estaduais, nem o Juízo Estadual, investido de competência federal delegada
(artigo 109, parágrafo 3º, da Constituição Federal), pode aplicar, em matéria previdenciária, o rito de
competência do Juizado Especial Federal, diante da vedação expressa contida no artigo 20 da Lei n.
10.259/2001" (REsp 661.482/PB, Relator p/ Acórdão Ministro Hamilton Carvalhido, DJe 05/02/2009).O
referido art. 20 da Lei n. 10.259/2001, que veda a aplicação do procedimento dos Juizados Especiais Federais
no juízo estadual que esteja no exercício de competência delegada (CF, art. 109, § 3º), também proíbe, pelo
diálogo entre as fontes, a aplicação do rito dos juizados no juízo estadual que processe demandas acidentárias
(CF, art. 109, I). Como isso, se equilibra o direito de acesso à justiça com as normas relativas ao pacto federativo,
tanto nas demandas contra o INSS em que se postula benefício previdenciário, como nas que decorram de
acidente de trabalho.A Lei dos Juizados Especiais da Fazenda Pública (Lei n. 12.153/2009) não conflita com esse
entendimento, pois o seu art. 2º estabelece expressamente que compete a esses órgãos "processar, conciliar e
julgar causas cíveis de interesse dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios e dos Municípios, até o valor
de 60 (sessenta) salários mínimos". Do preceito se extrai que não estão incluídas nessa competência as causas
de interesse da União e suas [Link], o art. 5º, inciso II, da mesma Lei define que podem
ser reús no Juizado Especial da Fazenda Pública "os Estados, o Distrito Federal, os Territórios e os Municípios,
bem como autarquias, fundações e empresas públicas a eles vinculadas".Nessa linha, antes da afetação do tema,
diversas decisões monocráticas deram provimento a Recursos Especiais do INSS em casos idênticos ao destes
autos, para reformar decisões declinatórias do Tribunal de Justiça do Estado do Mato Grosso, sob o fundamento
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de que "não há previsão para a Autarquia Federal ser parte em processo no Juizado Especial da Fazenda Pública"
(REsp 1.861.311/MT, Rel. Min. Francisco Falcão, DJe 20/03/2020). (Informativo n. 688)

PROCESSO REsp 1.764.405/SP, Rel. Min. Assusete Magalhães, por unanimidade,


julgado em 10/03/2021. (Tema 961)
RAMO DO DIREITO DIREITO TRIBUTÁRIO, DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Execução fiscal. Exceção de pré-executividade. Exclusão do sócio do polo
passivo. Prosseguimento da execução, em relação ao executado e/ou
responsáveis. Honorários advocatícios. Tema 961.
DESTAQUE
É possível a fixação de honorários advocatícios, em exceção de pré-executividade, quando o sócio é excluído do
polo passivo da execução fiscal, que não é extinta.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Construção doutrinária e jurisprudencial, a Exceção de Pré-Executividade consiste em meio de defesa do
executado, tal qual os Embargos à Execução. Difere deste último, sobretudo, pelo objeto: enquanto os Embargos
à Execução podem envolver qualquer matéria, a Exceção de Pré-Executividade limita-se a versar sobre questões
cognoscíveis ex officio, que não demandem dilação probatória. Ato postulatório que é, a Exceção de Pré-
Executividade não prescinde da representação, em juízo, por advogado regularmente inscrito nos quadros da
Ordem dos Advogados do Brasil. Por isso, antes mesmo da afetação do presente Recurso Especial ao rito dos
repetitivos, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça pacificara o entendimento sobre a matéria, no
sentido de serem devidos honorários advocatícios, quando acolhida a Exceção de Pré-Executividade para excluir
o excipiente, ainda que não extinta a Execução Fiscal, porquanto "a exceção de pré-executividade contenciosa e
que enseja a extinção da relação processual em face de um dos sujeitos da lide, que para invocá-la empreende
contratação de profissional torna inequívoca o cabimento de verba honorária, por força da sucumbência
informada pelo princípio da causalidade. (...) a imposição dos ônus processuais, no Direito Brasileiro, pauta-se
pelo princípio da sucumbência, norteado pelo princípio da causalidade, segundo o qual aquele que deu causa à
instauração do processo deve arcar com as despesas dele decorrentes" (STJ, AgRg no REsp 1.180.908/MG, Rel.
Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, DJe de 25/08/2010).O entendimento condiz com os posicionamentos do STJ
em matéria de honorários de advogado. De fato, quando confrontado ou com a literalidade do art. 20 do
CPC/1973 ou com a aplicação de regras isentivas dos honorários, este Tribunal vem, de modo sistemático,
interpretando restritivamente as últimas normas, e extensivamente o primeiro dispositivo processual,
considerando o vetusto princípio de direito segundo o qual a lei não pode onerar aquele em cujo favor opera.
Tal foi o raciocínio que presidiu a edição da Súmula 153 do STJ: "A desistência da execução fiscal, após o
oferecimento dos embargos não exime o exequente dos encargos da sucumbência".Semelhante razão inspirou
o julgamento do Recurso Especial 1.185.036/PE, sob o regime dos recursos repetitivos, no qual se questionava
a possibilidade de condenação da Fazenda Pública ao pagamento de honorários sucumbenciais, em decorrência
da integral extinção da Execução Fiscal, pelo acolhimento de Exceção de Pré-Executividade. No aludido
julgamento restou assentada "a possibilidade de condenação da Fazenda Pública ao pagamento de honorários
advocatícios quando acolhida a Exceção de Pré-Executividade e extinta a Execução Fiscal" (STJ, REsp
1.185.036/PE, Rel. Ministro Herman Benjamin, Primeira Seção, DJe de 01/10/2010).O mesmo se passa quando
a Exceção de Pré-Executividade, acolhida, acarreta a extinção parcial do objeto da execução, ou seja, quando o
acolhimento da objeção implica a redução do valor exequendo, conforme diversos precedentes desta Corte.O
mesmo entendimento, pelo cabimento de honorários de advogado, firmou a Corte Especial do STJ, no REsp
1.134.186/RS, julgado sob o rito do art. 543-C do CPC/1973, quando acolhida, ainda que parcialmente, a
impugnação ao cumprimento da sentença, registrando o voto condutor do aludido acórdão que "o acolhimento
ainda que parcial da impugnação gerará o arbitramento dos honorários, que serão fixados nos termos do art.
20, § 4º, do CPC, do mesmo modo que o acolhimento parcial da exceção de pré-executividade, porquanto, nessa
hipótese, há extinção também parcial da execução" (STJ, REsp 1.134.186/RS, Rel. Ministro Luis Felipe Salomão,
Corte Especial, DJe de 21/10/2011).As hipóteses de acolhimento, ainda que parcial, da impugnação ao

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cumprimento de sentença e de acolhimento da Exceção de Pré-Executividade, para reduzir o montante
exequendo, são em tudo análogas à hipótese ora em julgamento, ou seja, acolhimento da Exceção de Pré-
Executividade, para excluir determinado executado do polo passivo da execução fiscal, que não é extinta,
prosseguindo o feito, em relação aos demais executados. Nenhuma delas põe fim ao processo, ou seja, a natureza
dos pronunciamentos não é outra senão a de decisão interlocutória. A rigor, o que difere as primeiras hipóteses
do caso em análise é o objeto sobre o qual recaem. O caso em julgamento opera a extinção parcial subjetiva do
processo, aqueles, a extinção parcial objetiva. Sendo as hipóteses espécies de extinção parcial do processo, clara
está a adequação de tratá-las por igual: ubi eadem ratio ibi idem jus. (Informativo n. 688)

PROCESSO REsp 1.807.180/PR, Rel. Min. Og Fernandes, Primeira Seção, por


unanimidade, julgado em 24/02/2021. (Tema 1026).
RAMO DO DIREITO DIREITO TRIBUTÁRIO, DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Inscrição do devedor em cadastros de inadimplentes por decisão judicial.
Execução fiscal. Art. 1º da Lei n. 6.830/1980. Aplicação subsidiária do CPC.
Possibilidade. Deferimento do requerimento de negativação. Desnecessidade
de esgotamento prévio de outras medidas executivas. Tema 1026.
DESTAQUE
O art. 782, §3º, do CPC é aplicável às execuções fiscais, devendo o magistrado deferir o requerimento de inclusão
do nome do executado em cadastros de inadimplentes, preferencialmente pelo sistema SERASAJUD,
independentemente do esgotamento prévio de outras medidas executivas, salvo se vislumbrar alguma dúvida
razoável à existência do direito ao crédito previsto na Certidão de Dívida Ativa - CDA.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O objeto da controvérsia é definir se o art. 782, §3º, do CPC é aplicável apenas às execuções de título judicial ou
também às de título extrajudicial, mais especificamente, às execuções fiscais.O art. 782, §3º, do CPC está inserido
no Capítulo III ("Da competência"), do Título I ("Da execução em geral"), do Livro II (Do processo de execução")
do CPC, sendo que o art. 771 dispõe que "este Livro regula o procedimento da execução fundada em título
extrajudicial".Não há dúvidas, portanto, de que o art. 782, §3º, do CPC ao determinar que "A requerimento da
parte, o juiz pode determinar a inclusão do nome do executado em cadastros de inadimplentes.", dirige-se às
execuções fundadas em títulos extrajudiciais.O art. 782, §5º, do CPC ao prever que "O disposto nos §§ 3º e 4º
aplica-se à execução definitiva de título judicial.", possui dupla função: 1) estender às execuções de títulos
judiciais a possibilidade de inclusão do nome do executado em cadastros de inadimplentes; 2) excluir a
incidência do instituto nas execuções provisórias, restringindo-o às execuções [Link] termos do art. 1º
da Lei n. 6.830/1980, o CPC tem aplicação subsidiária às execuções fiscais, caso não haja regulamentação
própria sobre determinado tema na legislação especial, nem se configure alguma incompatibilidade com o
sistema. É justamente o caso do art. 782, §3º, do CPC, que se aplica subsidiariamente às execuções fiscais pois:
1) não há norma em sentido contrário na Lei n. 6.830/1980; 2) a inclusão em cadastros de inadimplência é
medida coercitiva que promove no subsistema os valores da efetividade da execução, da economicidade, da
razoável duração do processo e da menor onerosidade para o devedor (arts. 4º, 6º, 139, inc. IV, e 805, do CPC).O
Poder Judiciário determina a inclusão nos cadastros de inadimplentes com base no art. 782, §3º, por meio do
SERASAJUD, sistema gratuito e totalmente virtual, regulamentado pelo Termo de Cooperação Técnica n.
020/2014 firmado entre CNJ e SERASA. O ente público, por sua vez, tem a opção de promover a inclusão sem
interferência ou necessidade de autorização do magistrado, mas isso pode lhe acarretar despesas a serem
negociadas em convênio próprio.A situação ideal a ser buscada é que os entes públicos firmem convênios mais
vantajosos com os órgãos de proteção ao crédito, de forma a conseguir a quitação das dívidas com o mínimo de
gastos e o máximo de eficiência. Isso permitirá que, antes de ajuizar execuções fiscais que abarrotarão as
prateleiras (físicas ou virtuais) do Judiciário, com baixo percentual de êxito (conforme demonstrado ano após
ano no "Justiça em Números" do CNJ), os entes públicos se valham do protesto da CDA ou da negativação dos
devedores, com uma maior perspectiva de [Link]ém, no momento atual, em se tratando de execuções
fiscais ajuizadas, não há justificativa legal para o magistrado negar, de forma abstrata, o requerimento da parte

32
de inclusão do executado em cadastros de inadimplentes, baseando-se em argumentos como: 1) o art. 782, § 3º,
do CPC apenas incidiria em execução definitiva de título judicial; 2) em se tratando de título executivo
extrajudicial, não haveria qualquer óbice a que o próprio credor providenciasse a efetivação da medida; 3) a
intervenção judicial só caberá se eventualmente for comprovada dificuldade significativa ou impossibilidade de
o credor fazê-lo por seus próprios meios; 4) ausência de adesão do tribunal ao convênio SERASAJUD ou a
indisponibilidade do sistema. Tais requisitos não estão previstos em [Link] suma, tramitando uma execução
fiscal e sendo requerida a negativação do executado com base no art. 782, § 3º, do CPC, o magistrado deverá
deferi-la, salvo se vislumbrar alguma dúvida razoável à existência do direito ao crédito previsto na Certidão de
Dívida Ativa - CDA, a exemplo da prescrição, da ilegitimidade passiva ad causam, ou outra questão identificada
no caso [Link] ponto importante a ser fixado é que, sendo medida menos onerosa, a anotação do nome
da parte executada em cadastro de inadimplentes pode ser determinada antes de exaurida a busca por bens
penhoráveis. Atende-se, assim, ao princípio da menor onerosidade da execução, positivado no art. 805 do CPC.
(Informativo n. 686)

PROCESSO REsp 1.717.213-MT, Rel. Min. Nancy Andrighi, Segunda Seção, por
unanimidade, julgado em 03/12/2020, DJe 10/12/2020 (Tema 1022)
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL, DIREITO EMPRESARIAL, DIREITO
FALIMENTAR
TEMA Recuperação judicial e falência. Decisões interlocutórias. Hipóteses de
cabimento do agravo de instrumento previstas na Lei n. 11.101/2005. Risco
de lesão grave e de difícil reparação exigidos pelo CPC/1973. Ressignificação
do cabimento à luz do CPC/2015. Natureza jurídica do processo
recuperacional. Liquidação e execução negocial. Natureza jurídica do
processo falimentar. Liquidação e execução coletiva. Aplicabilidade da regra
do Art. 1.015, parágrafo único, do CPC/2015. Cabimento de agravo de
instrumento contra todas as decisões interlocutórias proferidas nos
processos recuperacionais e falimentares. Modulação de efeitos. Segurança
jurídica e proteção da confiança. Tema 1022.
DESTAQUE
Cabe agravo de instrumento de todas as decisões interlocutórias proferidas no processo de recuperação judicial
e no processo de falência, por força do art. 1.015, parágrafo único, do CPC/2015.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
No regime recursal adotado pelo CPC/2015, há dois diferentes modelos de recorribilidade das decisões
interlocutórias: (i) para as decisões proferidas na fase de conhecimento, será cabível o agravo de instrumento
nas hipóteses listadas nos incisos do art. 1.015, observado, ainda, o abrandamento da taxatividade desse rol em
razão da tese fixada por ocasião do julgamento do Tema Repetitivo 988 (tese da taxatividade mitigada); (ii) para
as decisões proferidas nas fases de liquidação e cumprimento da sentença, no processo executivo e na ação de
inventário, será cabível o agravo de instrumento contra todas as decisões interlocutórias, por força do art. 1.015,
parágrafo único.O regime recursal diferenciado para as decisões interlocutórias proferidas nas fases de
liquidação e cumprimento de sentença, no processo executivo e na ação de inventário se justifica pela
impossibilidade de rediscussão posterior da questão objeto da interlocutória, na medida em que nem sempre
haverá apelação nessas espécies de fases procedimentais e processos, inviabilizando a incidência da regra do
art. 1.009, §1º, do CPC/2015 e também pela altíssima invasividade e gravidade das decisões interlocutórias
proferidas nessas espécies de fases procedimentais e processos, uma vez que, em regra, serão praticados
inúmeros e sucessivos atos judiciais de índole satisfativa (pagamento, penhora, expropriação e alienação de
bens, etc.) que se revelam claramente incompatíveis com a recorribilidade apenas diferida das decisões
interlocutó[Link] a Lei n. 11.101/2005 preveja o cabimento do agravo de instrumento em específicas
hipóteses, como, por exemplo, o art. 17, caput, art. 59, §2º e art. 100, não se pode olvidar que, por ocasião da
edição da referida lei, vigorava no Brasil o CPC/1973, cujo sistema recursal, no que tange às decisões

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interlocutórias, era diametralmente oposto ao regime recursal instituído pelo CPC/2015, de modo que a escolha,
pelo legislador, de apenas algumas específicas hipóteses de recorribilidade imediata das interlocutórias
proferidas nos processos recuperacionais e falimentares deve ser interpretada como o reconhecimento de que,
naquelas hipóteses, estava presumidamente presente o risco de causar à parte lesão grave e de difícil reparação,
requisito exigido pelo art. 522, caput, do CPC/[Link] se reinterpretar a questão relacionada à recorribilidade
das decisões interlocutórias proferidas nos processos recuperacionais e falimentares à luz do regime instituído
pelo CPC/2015, conclui-se que, tendo o processo recuperacional a natureza jurídica de liquidação e de execução
negocial das dívidas da pessoa jurídica em recuperação e tendo o processo falimentar a natureza jurídica de
liquidação e de execução coletiva das dívidas da pessoa jurídica falida, a esses processos deve ser aplicada a
regra do art. 1.015, parágrafo único, do novo [Link], nos termos do art. 1.036 e seguintes do CPC/2015, fixa-
se a seguinte tese jurídica: Cabe agravo de instrumento de todas as decisões interlocutórias proferidas no
processo de recuperação judicial e no processo de falência, por força do art. 1.015, parágrafo único, do
CPC/[Link] propiciar segurança jurídica e proteger as partes que, confiando na irrecorribilidade das
decisões interlocutórias fora das hipóteses de cabimento previstas na Lei n. 11.101/2005, não interpuseram
agravo de instrumento com base no art. 1.015, parágrafo único, do CPC/2015, faz-se necessário estabelecer que:
(i) as decisões interlocutórias que não foram objeto de recurso de agravo de instrumento poderão ser objeto de
impugnação pela parte em eventual e hipotética apelação ou em contrarrazões, como autoriza o art. 1.009, §1º,
do CPC/2015, se entender a parte que ainda será útil o enfrentamento da questão incidente objeto da decisão
interlocutória naquele momento processual; (ii) que a presente tese jurídica vinculante deverá ser aplicada a
todas as decisões interlocutórias proferidas após a publicação do acórdão que fixou a tese e a todos os agravos
de instrumento interpostos antes da fixação da tese e que ainda se encontrem pendentes de julgamento ao
tempo da publicação deste acórdão, excluindo-se aqueles que não foram conhecidos por decisão judicial
transitada em julgado. (Informativo n. 684)

DIREITO TRIBUTÁRIO
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PROCESSO REsp 1.841.798/MG, Rel. Min. Benedito Gonçalves, Primeira Seção, por
unanimidade, julgado em 20/04/2021 (Tema 1048)
RAMO DO DIREITO DIREITO TRIBUTÁRIO
TEMA Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação - ITCDM. Doação não
declarada. Prazo decadencial. Art. 173, I, do CTN. Primeiro dia do exercício
seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. Tema 1048.
DESTAQUE
O Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação - ITCDM, referente a doação não oportunamente declarada
pelo contribuinte ao fisco estadual, a contagem do prazo decadencial tem início no primeiro dia do exercício
seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, observado o fato gerador, em conformidade
com os arts. 144 e 173, I, ambos do CTN.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a definir o início da contagem do prazo decadencial previsto no art. 173, I, do CTN
para a constituição do Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD) referente a doação não
oportunamente declarada pelo contribuinte ao fisco estadual.
Nos termos do art. 149, II, do CTN, quando a declaração não seja prestada, por quem de direito, no prazo e na
forma da legislação tributária, surge para o Fisco a necessidade de proceder ao lançamento de ofício, no prazo
de cinco anos contados do primeiro dia do exercício seguinte à data em que ocorrido o fato gerador do tributo
(art. 173, I, do CTN).

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Em se tratando do imposto sobre a transmissão de bens ou direitos, mediante doação, o fato gerador ocorrerá:
(i) no tocante aos bens imóveis, pela efetiva transcrição realizada no registro de imóveis (art. 1.245 do
CC/2020); (i) em relação aos bens móveis, ou direitos, a transmissão da titularidade, que caracteriza a doação,
se dará por tradição (art. 1.267 do CC/2020), eventualmente objeto de registro administrativo.
Para o caso de omissão na declaração do contribuinte, a respeito da ocorrência do fato gerador do imposto
incidente sobre a transmissão de bens ou direitos por doação, caberá ao Fisco diligenciar quanto aos fatos
tributáveis e exercer a constituição do crédito tributário mediante lançamento de ofício, dentro do prazo
decadencial.
O Superior Tribunal de Justiça tem entendimento pacificado no sentido de que, no caso do Imposto de
Transmissão Causa Mortis e Doação - ITCDM, a contagem do prazo decadencial tem início no primeiro dia do
exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, observado o fato gerador, em
conformidade com os arts. 144 e 173, I, ambos do CTN, sendo irrelevante a data em que o fisco teve
conhecimento da ocorrência do fato gerador (AgInt no REsp 1.690.263/MG, Rel. Ministro Francisco Falcão,
Segunda Turma Segunda Turma, julgado em 10/9/2019, DJe 16/9/2019). No mesmo sentido: AgInt no REsp
1.795.066/MG, Rel. Ministro Benedito Gonçalves,(Primeira Turma Primeira Turma, julgado em 16/9/2019, DJe
18/ 9/2019). (Informativo n. 694)

PROCESSO REsp 1.764.405/SP, Rel. Min. Assusete Magalhães, por unanimidade,


julgado em 10/03/2021. (Tema 961)
RAMO DO DIREITO DIREITO TRIBUTÁRIO, DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Execução fiscal. Exceção de pré-executividade. Exclusão do sócio do polo
passivo. Prosseguimento da execução, em relação ao executado e/ou
responsáveis. Honorários advocatícios. Tema 961.
DESTAQUE
É possível a fixação de honorários advocatícios, em exceção de pré-executividade, quando o sócio é excluído do
polo passivo da execução fiscal, que não é extinta.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Construção doutrinária e jurisprudencial, a Exceção de Pré-Executividade consiste em meio de defesa do
executado, tal qual os Embargos à Execução. Difere deste último, sobretudo, pelo objeto: enquanto os Embargos
à Execução podem envolver qualquer matéria, a Exceção de Pré-Executividade limita-se a versar sobre questões
cognoscíveis ex officio, que não demandem dilação probatória. Ato postulatório que é, a Exceção de Pré-
Executividade não prescinde da representação, em juízo, por advogado regularmente inscrito nos quadros da
Ordem dos Advogados do Brasil. Por isso, antes mesmo da afetação do presente Recurso Especial ao rito dos
repetitivos, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça pacificara o entendimento sobre a matéria, no
sentido de serem devidos honorários advocatícios, quando acolhida a Exceção de Pré-Executividade para excluir
o excipiente, ainda que não extinta a Execução Fiscal, porquanto "a exceção de pré-executividade contenciosa e
que enseja a extinção da relação processual em face de um dos sujeitos da lide, que para invocá-la empreende
contratação de profissional torna inequívoca o cabimento de verba honorária, por força da sucumbência
informada pelo princípio da causalidade. (...) a imposição dos ônus processuais, no Direito Brasileiro, pauta-se
pelo princípio da sucumbência, norteado pelo princípio da causalidade, segundo o qual aquele que deu causa à
instauração do processo deve arcar com as despesas dele decorrentes" (STJ, AgRg no REsp 1.180.908/MG, Rel.
Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, DJe de 25/08/2010).O entendimento condiz com os posicionamentos do STJ
em matéria de honorários de advogado. De fato, quando confrontado ou com a literalidade do art. 20 do
CPC/1973 ou com a aplicação de regras isentivas dos honorários, este Tribunal vem, de modo sistemático,
interpretando restritivamente as últimas normas, e extensivamente o primeiro dispositivo processual,
considerando o vetusto princípio de direito segundo o qual a lei não pode onerar aquele em cujo favor opera.
Tal foi o raciocínio que presidiu a edição da Súmula 153 do STJ: "A desistência da execução fiscal, após o
oferecimento dos embargos não exime o exequente dos encargos da sucumbência".Semelhante razão inspirou
o julgamento do Recurso Especial 1.185.036/PE, sob o regime dos recursos repetitivos, no qual se questionava

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a possibilidade de condenação da Fazenda Pública ao pagamento de honorários sucumbenciais, em decorrência
da integral extinção da Execução Fiscal, pelo acolhimento de Exceção de Pré-Executividade. No aludido
julgamento restou assentada "a possibilidade de condenação da Fazenda Pública ao pagamento de honorários
advocatícios quando acolhida a Exceção de Pré-Executividade e extinta a Execução Fiscal" (STJ, REsp
1.185.036/PE, Rel. Ministro Herman Benjamin, Primeira Seção, DJe de 01/10/2010).O mesmo se passa quando
a Exceção de Pré-Executividade, acolhida, acarreta a extinção parcial do objeto da execução, ou seja, quando o
acolhimento da objeção implica a redução do valor exequendo, conforme diversos precedentes desta Corte.O
mesmo entendimento, pelo cabimento de honorários de advogado, firmou a Corte Especial do STJ, no REsp
1.134.186/RS, julgado sob o rito do art. 543-C do CPC/1973, quando acolhida, ainda que parcialmente, a
impugnação ao cumprimento da sentença, registrando o voto condutor do aludido acórdão que "o acolhimento
ainda que parcial da impugnação gerará o arbitramento dos honorários, que serão fixados nos termos do art.
20, § 4º, do CPC, do mesmo modo que o acolhimento parcial da exceção de pré-executividade, porquanto, nessa
hipótese, há extinção também parcial da execução" (STJ, REsp 1.134.186/RS, Rel. Ministro Luis Felipe Salomão,
Corte Especial, DJe de 21/10/2011).As hipóteses de acolhimento, ainda que parcial, da impugnação ao
cumprimento de sentença e de acolhimento da Exceção de Pré-Executividade, para reduzir o montante
exequendo, são em tudo análogas à hipótese ora em julgamento, ou seja, acolhimento da Exceção de Pré-
Executividade, para excluir determinado executado do polo passivo da execução fiscal, que não é extinta,
prosseguindo o feito, em relação aos demais executados. Nenhuma delas põe fim ao processo, ou seja, a natureza
dos pronunciamentos não é outra senão a de decisão interlocutória. A rigor, o que difere as primeiras hipóteses
do caso em análise é o objeto sobre o qual recaem. O caso em julgamento opera a extinção parcial subjetiva do
processo, aqueles, a extinção parcial objetiva. Sendo as hipóteses espécies de extinção parcial do processo, clara
está a adequação de tratá-las por igual: ubi eadem ratio ibi idem jus. (Informativo n. 688)

PROCESSO REsp 1.807.180/PR, Rel. Min. Og Fernandes, Primeira Seção, por


unanimidade, julgado em 24/02/2021. (Tema 1026).
RAMO DO DIREITO DIREITO TRIBUTÁRIO, DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Inscrição do devedor em cadastros de inadimplentes por decisão judicial.
Execução fiscal. Art. 1º da Lei n. 6.830/1980. Aplicação subsidiária do CPC.
Possibilidade. Deferimento do requerimento de negativação. Desnecessidade
de esgotamento prévio de outras medidas executivas. Tema 1026.
DESTAQUE
O art. 782, §3º, do CPC é aplicável às execuções fiscais, devendo o magistrado deferir o requerimento de inclusão
do nome do executado em cadastros de inadimplentes, preferencialmente pelo sistema SERASAJUD,
independentemente do esgotamento prévio de outras medidas executivas, salvo se vislumbrar alguma dúvida
razoável à existência do direito ao crédito previsto na Certidão de Dívida Ativa - CDA.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O objeto da controvérsia é definir se o art. 782, §3º, do CPC é aplicável apenas às execuções de título judicial ou
também às de título extrajudicial, mais especificamente, às execuções fiscais.O art. 782, §3º, do CPC está inserido
no Capítulo III ("Da competência"), do Título I ("Da execução em geral"), do Livro II (Do processo de execução")
do CPC, sendo que o art. 771 dispõe que "este Livro regula o procedimento da execução fundada em título
extrajudicial".Não há dúvidas, portanto, de que o art. 782, §3º, do CPC ao determinar que "A requerimento da
parte, o juiz pode determinar a inclusão do nome do executado em cadastros de inadimplentes.", dirige-se às
execuções fundadas em títulos extrajudiciais.O art. 782, §5º, do CPC ao prever que "O disposto nos §§ 3º e 4º
aplica-se à execução definitiva de título judicial.", possui dupla função: 1) estender às execuções de títulos
judiciais a possibilidade de inclusão do nome do executado em cadastros de inadimplentes; 2) excluir a
incidência do instituto nas execuções provisórias, restringindo-o às execuções [Link] termos do art. 1º
da Lei n. 6.830/1980, o CPC tem aplicação subsidiária às execuções fiscais, caso não haja regulamentação
própria sobre determinado tema na legislação especial, nem se configure alguma incompatibilidade com o
sistema. É justamente o caso do art. 782, §3º, do CPC, que se aplica subsidiariamente às execuções fiscais pois:

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1) não há norma em sentido contrário na Lei n. 6.830/1980; 2) a inclusão em cadastros de inadimplência é
medida coercitiva que promove no subsistema os valores da efetividade da execução, da economicidade, da
razoável duração do processo e da menor onerosidade para o devedor (arts. 4º, 6º, 139, inc. IV, e 805, do CPC).O
Poder Judiciário determina a inclusão nos cadastros de inadimplentes com base no art. 782, §3º, por meio do
SERASAJUD, sistema gratuito e totalmente virtual, regulamentado pelo Termo de Cooperação Técnica n.
020/2014 firmado entre CNJ e SERASA. O ente público, por sua vez, tem a opção de promover a inclusão sem
interferência ou necessidade de autorização do magistrado, mas isso pode lhe acarretar despesas a serem
negociadas em convênio próprio.A situação ideal a ser buscada é que os entes públicos firmem convênios mais
vantajosos com os órgãos de proteção ao crédito, de forma a conseguir a quitação das dívidas com o mínimo de
gastos e o máximo de eficiência. Isso permitirá que, antes de ajuizar execuções fiscais que abarrotarão as
prateleiras (físicas ou virtuais) do Judiciário, com baixo percentual de êxito (conforme demonstrado ano após
ano no "Justiça em Números" do CNJ), os entes públicos se valham do protesto da CDA ou da negativação dos
devedores, com uma maior perspectiva de [Link]ém, no momento atual, em se tratando de execuções
fiscais ajuizadas, não há justificativa legal para o magistrado negar, de forma abstrata, o requerimento da parte
de inclusão do executado em cadastros de inadimplentes, baseando-se em argumentos como: 1) o art. 782, § 3º,
do CPC apenas incidiria em execução definitiva de título judicial; 2) em se tratando de título executivo
extrajudicial, não haveria qualquer óbice a que o próprio credor providenciasse a efetivação da medida; 3) a
intervenção judicial só caberá se eventualmente for comprovada dificuldade significativa ou impossibilidade de
o credor fazê-lo por seus próprios meios; 4) ausência de adesão do tribunal ao convênio SERASAJUD ou a
indisponibilidade do sistema. Tais requisitos não estão previstos em [Link] suma, tramitando uma execução
fiscal e sendo requerida a negativação do executado com base no art. 782, § 3º, do CPC, o magistrado deverá
deferi-la, salvo se vislumbrar alguma dúvida razoável à existência do direito ao crédito previsto na Certidão de
Dívida Ativa - CDA, a exemplo da prescrição, da ilegitimidade passiva ad causam, ou outra questão identificada
no caso [Link] ponto importante a ser fixado é que, sendo medida menos onerosa, a anotação do nome
da parte executada em cadastro de inadimplentes pode ser determinada antes de exaurida a busca por bens
penhoráveis. Atende-se, assim, ao princípio da menor onerosidade da execução, positivado no art. 805 do CPC.
(Informativo n. 686)

DIREITO URBANÍSTICO
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PROCESSO REsp 1.770.760/SC, Rel. min. Benedito Gonçalves, Primeira Seção, por
unanimidade, julgado em 28/04/2021. (Tema 1010)
RAMO DO DIREITO DIREITO AMBIENTAL, DIREITO URBANÍSTICO
TEMA Áreas de Preservação Permanente. Delimitação da extensão da faixa não
edificável a partir das margens de cursos d'água naturais. Área urbana
consolidada. Incidência do art. 4º, I, da Lei n. 12.651/2012 (novo Código
Florestal) ou do art. 4º, caput, III, da Lei n. 6.766/1979 (Lei de parcelamento
do solo urbano). Critério da especialidade. Aplicação do novo Código Florestal.
Tema 1010.
DESTAQUE
Na vigência do novo Código Florestal (Lei n. 12.651/2012), a extensão não edificável nas Áreas de
Preservação Permanente de qualquer curso d'água, perene ou intermitente, em trechos caracterizados como
área urbana consolidada, deve respeitar o que disciplinado pelo seu art. 4º, caput, inciso I, alíneas "a, b, c, d e e,
a fim de assegurar a mais ampla garantia ambiental a esses espaços territoriais especialmente protegidos e, por
conseguinte, à coletividade.

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INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia diz respeito a qual norma deve ser aplicável para fins de definir a extensão da faixa não edificável
a partir das margens de cursos d'água naturais em trechos caracterizados como área urbana consolidada: se
corresponde à área de preservação permanente prevista no art. 4°, I, da Lei n. 12.651/2012 (equivalente ao art.
2°, alínea "a", da revogada Lei n. 4.771/1965), cuja largura varia de 30 (trinta) a 500 (quinhentos) metros, ou
ao recuo de 15 (quinze) metros determinado no art. 4°, caput, III, da Lei n. 6.766/1979.
A definição da norma a incidir sobre o caso deve garantir a melhor e mais eficaz proteção ao meio ambiente
natural e ao meio ambiente artificial, em cumprimento ao disposto no art. 225 da CF/1988, sempre com os olhos
também voltados ao princípio do desenvolvimento sustentável (art. 170, VI,) e às funções social e ecológica da
propriedade.
O art. 4º, caput, inciso I, da Lei n. 12.651/2012 mantém-se hígido no sistema normativo federal, após os
julgamentos da ADC 42 e das ADIs 4.901, 4.902, 4.903 e 4.937.
A disciplina da extensão das faixas marginais a cursos d'água no meio urbano foi apreciada inicialmente nesta
Corte Superior no julgamento do REsp 1.518.490/SC, Relator Ministro Og Fernandes, Segunda Turma, DJe de
15/10/2019, precedente esse que solucionou, especificamente, a antinomia entre a norma do antigo Código
Florestal (art. 2º da Lei n. 4.771/1965) e a norma da Lei de Parcelamento do Solo Urbano (art. 4º, III, da Lei n.
6.766/1976), com a afirmação de que o normativo do antigo Código Florestal é o que deve disciplinar a largura
mínima das faixas marginais ao longo dos cursos d'água no meio urbano.
Exsurge inarredável que a norma inserta no novo Código Florestal (art. 4º, caput, inciso I), ao prever medidas
mínimas superiores para as faixas marginais de qualquer curso d'água natural perene e intermitente, sendo
especial e específica para o caso em face do previsto no art. 4º, III, da Lei n. 6.766/1976, é a que deve reger a
proteção das APPs ciliares ou ripárias em áreas urbanas consolidadas, espaços territoriais especialmente
protegidos (art. 225, III, da CF/1988), que não se condicionam a fronteiras entre o meio rural e o urbano.
Assinale-se, a opção pela não aplicação do art. 4º, caput, e I, da Lei n. 12.651/2012, quando o comando do seu
caput é expresso em determinar a sua incidência também ao meio urbano, apresenta-se inequivocamente
inapropriado, pois estar-se-ia a afrontar o enunciado da Súmula Vinculante n. 10 do Supremo Tribunal Federal.
A solução que ora se propõe não se altera pela superveniência da Lei n. 13.913/2019, que suprimiu a expressão
"[...] salvo maiores exigências da legislação específica." do inciso III do art. 4º da LPSU, pois, pelo critério da
especialidade, o normativo contido no art. 4º, caput, I, da Lei n. 12.651/2012 (novo Código Florestal) é o que
garante a mais ampla proteção ao meio ambiente, em áreas urbana e rural, e deve, como já assinalado, incidir
ao caso. O fato de agora o inciso III-A do art. 4º da Lei n. 6.766/1976 expressamente estabelecer, em caráter
geral, a determinação do distanciamento de "no mínimo" 15 (quinze) metros apenas reforça a função de norma
geral norteadora da menor distância que as faixas marginais, não edificáveis, devem manter dos cursos d'água,
o que, por uma visão teleológica do sistema de proteção ambiental, não restringe a aplicação do art. 4º, caput,
da Lei n. 12.651/2012 às áreas urbanas consolidadas. (Informativo n. 694)

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PROPOSTA DE REVISÃO DE ENTENDIMENTO
FIRMADO EM RECURSOS REPETITIVOS

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DIREITO ADMINISTRATIVO
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PROCESSO Pet 12.344-DF, Rel. Min. Og Fernandes, Primeira Seção, por


unanimidade, julgado em 28/10/2020, DJe 13/11/2020 (Tema 126)
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO
TEMA Desapropriação. Juros compensatórios. MP n. 1.577/1997;Tema Repetitivo n.
126/STJ. Revisão. Súmula 408/STJ. Cancelamento.
DESTAQUE
Tese repetitiva revisada: A tese firmada no Tema Repetitivo n. 126/STJ passa a ter o seguinte teor: "O índice de
juros compensatórios na desapropriação direta ou indireta é de 12% até 11/06/1997, data anterior à vigência
da MP 1577/97.".Súmula cancelada: A Súmula 408/STJ, com igual redação da tese 126/STJ original, resta
cancelada.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Trata-se de proposta de revisão de tese repetitiva e enunciado de súmula sobre juros compensatórios em ações
expropriató[Link] o julgamento de mérito pelo Supremo Tribunal Federal na ADI 2332, foi proposta a
afetação da matéria, a fim de se evitar contradições sistêmicas no ordenamento, que foi acolhida pela Primeira
Seção do STJ.A tese firmada originalmente no Tema Repetitivo n. 126 e na Súmula 408/STJ tem igual redação:
"Nas ações de desapropriação, os juros compensatórios incidentes após a Medida Provisória n. 1.577, de
11/06/1997, devem ser fixados em 6% ao ano até 13/09/2001 e, a partir de então, em 12% ao ano, na forma
da Súmula n. 618 do Supremo Tribunal Federal".Aqui, efetivamente, verifica-se que a Corte avançou sobre o que
não lhe competia na medida em que, sob a compreensão atual deste Tribunal, tal feito nem sequer comportaria
conhecimento, ante a ausência, nos precedentes que lhe deram origem, de indicação do dispositivo de lei federal
submetido a interpretação divergente entre tribunais.O contexto é revelador das consequências: admitiu-se
nesta Corte (como era permitido pela jurisprudência à época) recurso que cuidava de matéria efetivamente
constitucional, porquanto ausente dispositivo infraconstitucional com comando normativo apto a sustentar a
tese da [Link] havia a divergência, plausivelmente decorrente da alteração normativa oriunda,
primeiro, da MP e​,​ depois, da cautelar deferida na ADI 2332/DF. Note-se que, antes da MP, os
juros de 12% emergiram de construção jurisprudencial, com histórico iniciado em 1963, em alusão às normas
do Código Civil de então (Súmula 164/STF); em 1984, consolidou-se o dobro do parâmetro, à luz da Lei de Usura
e da crise inflacionária da época (Súmula 618/STF).Pode o STJ afirmar que os juros incidem aos fatos conforme
a norma então vigente, embora o Supremo tenha dito que a norma é inconstitucional ab initio? Poderia o STJ ter
dito o que fosse sobre, a rigor, a modulação de efeitos da cautelar, restringindo-a tão somente aos fatos havidos
após sua publicação ou, de outro modo, expandindo-a para momento anterior? Qual a interpretação adequada
do efeito ex nunc da decisão cautelar do Supremo: incidir sobre todos os feitos pendentes ou o marco temporal
a se adotar seria a imissão de posse? É essa interpretação de ordem constitucional ou legal? É desta Corte a
competência para definir se o julgado de mérito do STF aplica-se, agora, imediatamente aos casos transitados,
mas ainda sem expedição de precatório?Entende-se que o art. 11 da Lei da ADI (Lei n. 9.868/1999) apenas aduz
um efeito da decisão. Entretanto, o referido normativo se dirige à Corte Suprema, autorizando-a a exercer tal
poder e dispondo sobre suas consequências. Não parece adequado que o STJ se imiscua na interpretação do
decidido pelo Supremo a ponto de conferir ou afastar, indiretamente, efeito modulado às emanações
jurisdicionais daquela [Link] que a pretexto de análise da Lei da ADI, cumpre à Corte Suprema dispor sobre
seus julgados e às demais instâncias observá-los, existindo ampla previsão de medidas para suprimir
disparidades: reclamação, ação rescisória, embargos à execução, além do próprio extraordiná[Link] ao STJ
dispor sobre a matéria com a extensão decidida nos repetitivos em comento, ainda mais de forma condicionada
à decisão cautelar do Supremo. O problema foi agravado com a redação das teses alcançada pela unidade
administrativa, como apontado, e pela Súmula 408/[Link] Corte quis resolver a lacuna da forma como

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dispunha, sem se submeter a eventual postergação de sua solução pelo Supremo, de modo a não deixar a
sociedade insegura e o jurisdicionado sem tutela, acumulando recursos especiais inconclusos ou motivados pelo
provimento do Tribunal Constitucional. Entretanto, a dinâmica que se seguiu denota a frustração ao menos
parcial desse objetivo, em particular pela somatória do resultado de mérito da ADI com a possibilidade de
rescisória da coisa julgada inconstitucional com termo inicial no julgamento concentrado (art. 525, §15, do
CPC/2015).Com isso, propõe-se revisar a tese firmada no Tema Repetitivo n. 126/STJ para passar a ter o
seguinte teor: "O índice de juros compensatórios na desapropriação direta ou indireta é de 12% até 11.6.97,
data anterior à vigência da MP 1577/97".No que se refere à Súmula 408/STJ, verifica-se que, à época do julgado,
buscava esta Corte sistematizar em enunciados sumulares a compreensão vinculante extraída de recursos
[Link], ao constar expressamente as teses nos acórdãos, por força legal (CPC/2015, arts. 979,
984, 1.037 e 1.038) e regimental (RISTJ, art. 104-A), dispensa-se a providência que, de resto, presta-se apenas a
aumentar a complexidade normativa, sem efeitos práticos ante o caráter vinculante dos próprios precedentes
qualificados. Os julgados repetitivos, como sabido, visam a simplificar a prestação jurisdicional, pretensão
normativa prejudicada pela despicienda convivência das teses e súmulas sobre uma mesma questão. Assim, o
referido enunciado resta cancelado. (Informativo n. 684)

PROCESSO Pet 12.344-DF, Rel. Min. Og Fernandes, Primeira Seção, por


unanimidade, julgado em 28/10/2020, DJe 13/11/2020 (Temas 280,
281, 282 e 283)
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO
TEMA Desapropriação. Juros compensatórios. MP n. 1901-30/1999. Imóveis
improdutivos;Tema Repetitivo n. 280/STJ. Revisão de tese. Propriedade
impassível de qualquer espécie de exploração econômica. Tema Repetitivo n.
281/STJ. Revisão de tese. Perda da renda. Prova pelo expropriado. MP n.
2027-38/2000. Índice de produtividade zero. Tema Repetitivo n. 282/STJ.
Revisão de tese. Tema Repetitivo n. 283/STJ. Cancelamento.
DESTAQUE
I) Tese revisada no Tema Repetitivo n. 280/STJ: "Até 26/9/1999, data anterior à edição da MP n. 1901-30/1999,
são devidos juros compensatórios nas desapropriações de imóveis improdutivos".II)Tese revisada no Tema
Repetitivo n. 281/STJ: "Mesmo antes da MP n. 1901-30/1999, são indevidos juros compensatórios quando a
propriedade se mostrar impassível de qualquer espécie de exploração econômica atual ou futura, em
decorrência de limitações legais ou fáticas".III) Tese revisada no Tema Repetitivo n. 282/STJ: "i) A partir de
27/9/1999, data de edição da MP n. 1901-30/1999, exige-se a prova pelo expropriado da efetiva perda de renda
para incidência de juros compensatórios (art. 15-A, § 1º, do Decreto-Lei n. 3365/1941); e ii) Desde 5/5/2000,
data de edição da MP 2027-38/2000, veda-se a incidência dos juros compensatórios em imóveis com índice de
produtividade zero (art. 15-A, § 2º, do Decreto-Lei n. 3365/1941)".IV) Cancelamento do Tema Repetitivo n.
283/STJ.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Trata-se de proposta de revisão das teses repetitivas sobre juros compensatórios em ações
expropriató[Link] o julgamento de mérito pelo Supremo Tribunal Federal na ADI 2332, foi proposta a
afetação da matéria, a fim de se evitar contradições sistêmicas no ordenamento, que foi acolhida pela Primeira
Seção do [Link] ponto, trata-se da análise das seguintes Teses: i) 280/STJ: "A eventual improdutividade do
imóvel não afasta o direito aos juros compensatórios, pois esses restituem não só o que o expropriado deixou
de ganhar com a perda antecipada, mas também a expectativa de renda, considerando a possibilidade do imóvel
ser aproveitado a qualquer momento de forma racional e adequada, ou até ser vendido com o recebimento do
seu valor à vista."; ii) 281/STJ: "São indevidos juros compensatórios quando a propriedade se mostrar
impassível de qualquer espécie de exploração econômica seja atual ou futura, em decorrência de limitações
legais ou da situação geográfica ou topográfica do local onde se situa a propriedade."; iii) 282/STJ: "Para aferir
a incidência dos juros compensatórios em imóvel improdutivo, deve ser observado o princípio do tempus regit

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actum, assim como acontece na fixação do percentual desses juros. As restrições contidas nos §§ 1º e 2º do art.
15-A, inseridas pelas MPs n. 1.901-30/1999 e 2.027-38/2000 e reedições, as quais vedam a incidência de juros
compensatórios em propriedade improdutiva, serão aplicáveis, tão somente, às situações ocorridas após a sua
vigência."; e iv) 283/STJ: "Para aferir a incidência dos juros compensatórios em imóvel improdutivo, deve ser
observado o princípio do tempus regit actum, assim como acontece na fixação do percentual desses juros.
Publicada a medida liminar concedida na ADI 2.332/DF (DJU de 13/09/2001), deve ser suspensa a
aplicabilidade dos §§ 1º e 2º do artigo 15-A do Decreto-lei n. 3.365/1941 até que haja o julgamento de mérito
da demanda".Da análise do REsp 1.116.364/PI, verifica-se equívoco quanto à interpretação pela unidade
administrativa do que realmente decidido em sede [Link], as teses, na forma como redigidas pela
unidade administrativa, de um lado, retratam apenas parte do entendimento desta Corte em sede repetitiva,
tendo sido suprimida daquelas a condicionalidade ao julgamento de mérito na ADI. De outro lado, ao segmentar
o julgado em teses diversas, limitou-se a redação administrativa a indicar a interpretação consolidada sobre o
ordenamento anterior à alteração legislativa, como se autônomo das demais [Link] é: afirmou o
STJ que sua jurisprudência impunha (já antes da MP) a incidência de juros compensatórios aos imóveis
improdutivos, exceto se absolutamente inviável a exploração econômica, o que deveria prevalecer até a edição
da MP, e na vigência da cautelar, desde que confirmada pelo Supremo por ocasião do juízo de mérito. Afastada
a condição, com a não confirmação da cautelar, resta inevitável reconhecer que as teses devem ser adequadas;
não tendo se implementado a condição, torna-se insubsistente a tese que a ela submetia o afastamento do
percentual de 12% dos juros compensató[Link] consequências do julgamento do Supremo devem ser a ele
submetidas. Assim, a manutenção da Tese 283/STJ resultaria em indevida modulação, por este Tribunal, em
sede vinculante, da decisão de mérito do STF na ADI 2332. Restará violada a competência daquela Corte caso o
STJ mantenha a tese vinculante delimitando a hiperatividade da cautelar após o juízo de mérito não modulado
da [Link] isso, entende-se pela revisão das teses firmadas nos Temas Repetitivos do STJ n. 280, 281 e 283, e,
por seu turno, o cancelamento do Tema Repetitivo n. 283/STJ. (Informativo n. 684)

PROCESSO Pet 12.344-DF, Rel. Min. Og Fernandes, Primeira Seção, por


unanimidade, julgado em 28/10/2020, DJe 13/11/2020 (Tema 1.072)
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO
TEMA Desapropriação. Juros compensatórios. Percentual. Momento de incidência.
DESTAQUE
Nova tese repetitiva afirmada: Os juros compensatórios observam o percentual vigente no momento de sua
incidência.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
À luz dos recursos especiais ainda hoje providos no STJ sobre o ponto, resta polêmica nos tribunais ordinários
quanto ao marco fático a que se refere a tese da regência temporal dos juros, se a data de imissão na posse ou o
momento de sua incidência. Embora tenha constado no repetitivo claramente tratar-se da segunda hipótese,
houve certa falta de clareza na redação administrativa da tese. A ementa, entretanto, é, como a jurisprudência
deste Colegiado, inequívoca, de modo que se propõe a edição de nova tese retratando-as adequadamente. Na
verdade, a rigor, essa é a ratio que subjazia à Tese 283, muito embora a unidade administrativa não a tenha
captado, preferindo dispor como vinculante as consequências condicionais e casuísticas da regra jurídica
emanada do acórdã[Link], evidencia-se a interpretação constante dos repetitivos no sentido de que o fato
regido pelo tempo da norma não é a imissão de posse, mas sim a incidência dos juros. (Informativo n. 684)

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PROCESSO Pet 12.344-DF, Rel. Min. Og Fernandes, Primeira Seção, por
unanimidade, julgado em 28/10/2020, DJe 13/11/2020 (Tema 1.073)
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO
TEMA Desapropriação. Juros compensatórios e moratórios. Súmulas 12, 70 e
102/STJ. MP 1.997-34. Limite temporal.
DESTAQUE
Nova tese repetitiva afirmada: As Súmulas n. 12, 70 e 102 (As Súmulas 12/STJ: "Em desapropriação, são
cumuláveis juros compensatórios e moratórios", 70/STJ: "Os juros moratórios, na desapropriação direta ou
indireta, contam-se desde o trânsito em julgado da sentença" e 102/STJ: "A incidência dos juros moratórios
sobre compensatórios, nas ações expropriatórias, não constitui anatocismo vedado em lei") somente se aplicam
às situações ocorridas até 12/01/2000, data anterior à vigência da MP 1.997-34.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Trata-se de proposta de revisão das teses repetitivas e enunciados de súmula sobre juros compensatórios e
juros moratórios em ações expropriató[Link] o julgamento de mérito pelo Supremo Tribunal Federal
na ADI 2332, foi proposta a afetação da matéria, a fim de se evitar contradições sistêmicas no ordenamento, que
foi acolhida pela Primeira Seção.É de todos sabido a tendência desta Corte de manter inalterados os seus
enunciados sumulares, em razão de sua eficácia temporal para feitos à época de sua vigência, bem como para se
evitar o prejuízo a sua referenciação. Mas Porém, é relevante esclarecer a comunidade jurídica também quanto
a suas limitações temporais, de modo a que não se pretenda, como não raro ocorre, reanimar discussões
obsoletas, firmadas sobre normas e leis há muito decaí[Link] ponto, propõe-se a edição de nova tese, mas que
a rigor em nada inova. Trata-se quase de providência administrativa. Exsurge o problema da época em que as
teses relativas aos recursos repetitivos eram elaboradas administrativamente, após o [Link] o
julgamento do REsp 1.118.103/SP, a unidade administrativa entendeu, por ocasião da sistematização dos
repetitivos, resumir os efeitos vinculantes às Teses 210/STJ: "O termo inicial dos juros moratórios em
desapropriações é o dia 1º de janeiro do exercício seguinte àquele em que o pagamento deveria ser feito." e
211/STJ: "Os juros compensatórios, em desapropriação, somente incidem até a data da expedição do precatório
original (...), não havendo hipótese de cumulação de juros moratórios com juros compensatórios."; as reticências
são da redação da tese, embora não se trate de transcrição de qualquer elemento do voto ou acórdã[Link]-se,
portanto, que sejam mantidas inalteradas as súmulas, porquanto referencial válido da jurisprudência à época
aplicável, mas que se edite nova tese fundada no julgamento do REsp 1.118.103/SP, já realizado em regime
repetitivo, para afirmar que as Súmulas n. 12, 70 e 102 (As Súmulas 12/STJ: "Em desapropriação, são cumuláveis
juros compensatórios e moratórios", 70/STJ: "Os juros moratórios, na desapropriação direta ou indireta,
contam-se desde o trânsito em julgado da sentença" e 102/STJ: "A incidência dos juros moratórios sobre
compensatórios, nas ações expropriatórias, não constitui anatocismo vedado em lei") somente se aplicam às
situações ocorridas até 12/01/2000, data anterior à vigência da MP 1.997-34. (Informativo n. 684)

PROCESSO Pet 12.344-DF, Rel. Min. Og Fernandes, Primeira Seção, por


unanimidade, julgado em 28/10/2020, DJe 13/11/2020 (Tema 1.071)
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Desapropriação. ADI 2332/DF. Medida cautelar ou julgamento de mérito.
Eficácia. Revisão em recurso especial. Impossibilidade.
DESTAQUE
Nova tese repetitiva afirmada: A discussão acerca da eficácia e efeitos da medida cautelar ou do julgamento de
mérito da ADI 2332 não comporta revisão em recurso especial.

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INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Descabe recurso especial para discussão acerca dos efeitos do julgado do Supremo. Veda-se, assim, qualquer
tentativa de provocar transversalmente o STJ a abordar o teor ou efeitos da matéria constitucional apreciada
pela Corte competente, bem como os limites de seu julgado. (Informativo n. 684)

DIREITO PROCESSUAL CIVIL


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PROCESSO Pet 12.344-DF, Rel. Min. Og Fernandes, Primeira Seção, por


unanimidade, julgado em 28/10/2020, DJe 13/11/2020 (Tema 1.071)
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Desapropriação. ADI 2332/DF. Medida cautelar ou julgamento de mérito.
Eficácia. Revisão em recurso especial. Impossibilidade.
DESTAQUE
Nova tese repetitiva afirmada: A discussão acerca da eficácia e efeitos da medida cautelar ou do julgamento de
mérito da ADI 2332 não comporta revisão em recurso especial.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Descabe recurso especial para discussão acerca dos efeitos do julgado do Supremo. Veda-se, assim, qualquer
tentativa de provocar transversalmente o STJ a abordar o teor ou efeitos da matéria constitucional apreciada
pela Corte competente, bem como os limites de seu julgado. (Informativo n. 684)

PROCESSO Pet 12.344-DF, Rel. Min. Og Fernandes, Primeira Seção, por


unanimidade, julgado em 28/10/2020, DJe 13/11/2020
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Emenda Regimental n. 26/2016 do RISTJ. Teses repetitivas elaboradas
anteriormente. Caráter meramente indexador/administrativo. Precedente
vinculante. Conteúdo efetivo dos julgados.
DESTAQUE
As teses repetitivas do STJ do período anterior à Emenda Regimental n. 26/2016 do RISTJ possuem natureza
administrativa de caráter meramente indexador, encontrando-se o precedente vinculante no conteúdo efetivo
dos julgados.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Visando a melhor organizar a jurisprudência qualificada, aumentando sua observância pelos jurisdicionados e
instâncias ordinárias, foi adotada, em 2013, pela unidade administrativa de gestão de precedentes (então
denominada NURER), a atual metodologia, na qual a página de recursos repetitivos do Superior Tribunal de
Justiça (STJ) organiza as informações por [Link] tanto, os encarregados estudaram os acórdãos e,
interpretando-os, alcançaram as redações das teses ora contidas nos bancos de dados de [Link]-se,
portanto, que a atividade de edição de teses, naquele momento, não teve caráter jurisdicional. Os ministros
julgavam os recursos, e adotavam, usualmente, a forma "acórdão [ou recurso] submetido ao regime do 543-C
do CPC", sem explicitar, detidamente, o teor ou redação estritos da tese. Tentava-se, quando muito, editar
súmula correspondente ao conteúdo do precedente, sem consenso ou uniformização quanto a seus efeitos e
procedimentos. Assim, pode haver discrepância entre a interpretação da unidade administrativa e a extensão
do que se decidiu em sede [Link] acórdãos tratados nesta revisão, as teses nesse período não constaram
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necessariamente nem mesmo das ementas, ao menos na exata forma em que publicadas umas e outras. Tratou-
se, reitere-se, de providência estritamente administrativa, exercida de forma independente e após
completamente exaurida a jurisdiçã[Link] passo, sua natureza jurídica em nada difere dos informativos de
jurisprudência produzidos pela unidade administrativa responsável pela catalogação e divulgação dos julgados
desta Corte. Eventual equívoco nessas bases ou boletins em nada vincularia o exercício jurisdicional, do mesmo
modo como a redação das teses no período anterior à Emenda Regimental n. 26/2016 não pode receber os
efeitos que vêm recebendo de forma crítica.O fato é que é preciso atentar com maior rigor para o conteúdo
preciso dos julgamentos, para além das teses compiladas, nesse período (a discussão perde relevo, ou ao menos
muda significativamente de contexto, após a Emenda Regimental n. 26/2016).Em todo caso, no período anterior
à Emenda n. 26 ao RISTJ, indiscutivelmente são os julgados, e não as teses, que têm efetiva natureza vinculante;
as teses redigidas pela unidade administrativa são utilíssimas, mas de caráter indexante, não jurisdicional.
(Informativo n. 684)

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DIREITO ADMINISTRATIVO

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CORTE ESPECIAL
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PROCESSO CC 170.111/DF, Rel. Min. Francisco Falcão, Corte Especial, por


unanimidade, julgado em 17/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO
TEMA Conflito negativo de competência. Primeira e Terceira Seções do STJ.
Interdição parcial de presídio. Relação litigiosa de direito público. Art. 9º, § 1º,
XIV, do Regimento Interno do STJ. Competência da Primeira Seção.
DESTAQUE
Compete à Primeira Seção do STJ julgar interdição de estabelecimentos prisionais.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A competência dos juízes da execução penal para a fiscalização e interdição dos estabelecimentos prisionais tem
natureza administrativa. Nesse contexto, a relação litigiosa possui natureza jurídica de Direito Público,
enquadrando-se na regra do art. 9º, § 1º, XIV, do Regimento Interno do [Link]ções de interdição de presídio
já foram julgadas em diversas ocasiões pela Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça, integrante da
Primeira Seção, o que endossa a competência da referida Seção. Precedentes: Aglnt no RMS n. 42.050/GO, Rel.
Ministro Og Fernandes, Segunda Turma, julgado em 4/6/2019, DJe 10/6/2019; RMS n. 51.863/SE, Rel. Ministro
Francisco Falcão, Segunda Turma, julgado em 11/12/2018, DJe 14/12/2018. (Informativo n. 689)

PROCESSO AI no AREsp 641.185-RS, Rel. Min. Og Fernandes, Corte Especial, por


unanimidade, julgado em 11/02/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO CONSTITUCIONAL
TEMA Concessão de habilitação [Link]. 148, § 3º, do Código de Trânsito
Brasileiro. Parcialmente inconstitucional, sem redução de texto. Infração
(grave ou gravíssima) meramente administrativa. Não aplicação.
DESTAQUE
O art. 148, § 3º, do Código de Trânsito Brasileiro, é parcialmente inconstitucional excluindo de sua aplicação a
hipótese de infração (grave ou gravíssima) meramente administrativa, ou seja, não cometida na condução de
veículo automotor
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A jurisprudência desta Corte de Justiça, interpretando teleologicamente o art. 148, § 3º, do CTB (verbis: § 3º A
Carteira Nacional de Habilitação será conferida ao condutor no término de um ano, desde que o mesmo não
tenha cometido nenhuma infração de natureza grave ou gravíssima ou seja reincidente em infração média)
firmou-se no sentido da possibilidade de concessão da Carteira Nacional de Habilitação definitiva a motorista
que cometeu infração de natureza grave não na qualidade de condutor, mas de proprietário do veículo, ou seja,
de caráter meramente administrativo, durante o prazo de um ano da sua permissão provisória. Nos termos da
firme orientação trilhada no STJ, a infração administrativa de trânsito, ou seja, aquela que não está relacionada
à condução do veículo e à segurança no trânsito, mas sim à propriedade do veículo, ainda que seja de natureza
grave, não obsta a concessão da habilitação definitiva. Também uníssono o pensamento do Superior Tribunal
no sentido de que tal diretriz não se confundia com eventual declaração de inconstitucionalidade do art. 148, §
3º, do CTB, mas apenas conferia a melhor interpretação de norma infraconstitucional. Ocorre que, no
julgamento do ARE 1.195.532/RS, tirado do acórdão proferido no presente agravo em recurso especial, o
Supremo Tribunal Federal reconheceu expressamente que o órgão fracionário do Superior Tribunal de Justiça,

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ao conferir interpretação teleológica ao disposto no art. 148, § 3º, do CTB, apesar de não ter declarado
expressamente a inconstitucionalidade do mencionado dispositivo legal, promoveu a denominada declaração
de inconstitucionalidade parcial sem redução de texto, pela qual o intérprete declara a inconstitucionalidade de
algumas interpretações possíveis do texto legal, sem, contudo, alterá-lo gramaticalmente, ou seja, censurou uma
determinada interpretação por considerá-la inconstitucional. Nesse contexto, reconhece-se a
inconstitucionalidade parcial, sem redução de texto, do § 3º do artigo 148 da Lei n. 9.503/1997, para excluir sua
aplicação à hipótese de infração (grave ou gravíssima) meramente administrativa, ou seja, não cometida na
condução de veículo automotor. (Informativo n. 685)

PRIMEIRA SEÇÃO
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PROCESSO MS 24.508-DF, Rel. Min. Assusete Magalhães, Primeira Seção, por


unanimidade, julgado em 12/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO
TEMA Anistiado político. Concessão de reparação mensal, permanente e continuada,
com fundamento na Lei n. 10.559/2002. Fixação do quantum da indenização
mediante arbitramento por "pesquisa de mercado". Critério supletivo.
Prestação mensal que deve ser equivalente à remuneração que o anistiado
perceberia, caso não tivesse sofrido perseguição política. Arts. 6º, 7º e 8º da
Lei n. 10.559/2002.
DESTAQUE
No tocante ao valor da reparação mensal devida aos anistiados políticos, a fixação do quantum indenizatório
por pesquisa de mercado, deve ser supletiva, utilizada apenas quando não há, por outros meios, como se
estipular o valor da prestação mensal, permanente e continuada.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Trata-se de Mandado de Segurança impetrado em face de ato do Ministro de Estado da Justiça que, ao declarar
o impetrante anistiado político, fixou a reparação econômica, de caráter indenizatório, em prestação mensal,
permanente e continuada, cujo valor fora obtido em pesquisa de mercado e não levara em consideração a perda
do cargo público, por motivação exclusivamente política, como reconhecido no processo administrativo
pertinente.
O art. 8º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 assegura ao
anistiado político, atingido profissionalmente, por motivação política, a indenização correspondente ao valor
que receberia se ainda estivesse na ativa, e a Lei n. 10.559, de 13/11/2002, em seus arts. 6º e 7º, ao regulamentar
o referido dispositivo constitucional, estabeleceu duas formas de reparação econômica, de caráter
indenizatório, devidas aos anistiados e não cumuláveis entre si: (I) prestação única; e (II) prestação mensal,
permanente e continuada, sendo a primeira devida àqueles anistiados que não puderam comprovar vínculo com
atividade laboral, e a segunda, àqueles com vínculo profissional à época da perseguição política, que não
optarem por parcela única.
As normas que disciplinam a matéria asseguram, aos anistiados que tiveram interrompida a sua carreira
profissional, a indenização equivalente aos rendimentos mensais que perceberiam, caso não tivessem sofrido
perseguição política, respeitados, ainda, os regimes jurídicos, as graduações e as promoções que seriam
alcançadas, assim como demais direitos e vantagens relativos à categoria.

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Nos termos do art. 6º, § 1º, da Lei n. 10.559/2002, para a fixação do valor da prestação mensal devem ser
utilizadas informações prestadas por empresas, sindicatos, conselhos profissionais, entidades da administração
indireta a que o anistiado político estava vinculado ao sofrer a punição, sobre o valor que hoje receberia ele,
caso não tivesse sido alvo de perseguição política, ou prestadas pelo órgão em que atuava o servidor público.
Dessa forma, o Setor de Recursos Humanos dos órgãos públicos pode atestar, oficialmente, a carreira, o cargo e
o posicionamento do servidor, com todas as referências específicas que ele atingiria, no quadro funcional.
Nessa perspectiva, a fixação do quantum indenizatório por pesquisa de mercado, baseado em informações
disponibilizadas por institutos de pesquisa, deve ser supletiva, utilizada apenas quando não há, por outros
meios, como se estipular o valor da prestação mensal, permanente e continuada, o que não ocorre, no caso, seja
ante a determinação do art. 6º, caput, da Lei n. 10.559/2002, no sentido de que "o valor da prestação mensal,
permanente e continuada, será igual ao da remuneração que o anistiado político receberia se na ativa estivesse",
seja porque, na forma do art. 37, X, da CF/1988, a remuneração de servidor público só pode ser fixada ou
alterada por lei específica, seja, enfim, porque o cargo do impetrante não foi sumariamente extinto, mas, por
força de lei, transformado em outro. (Informativo n. 696)

PROCESSO CC 147.784/PR, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Primeira Seção, por
unanimidade, julgado em 24/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO CONSTITUCIONAL, DIREITO DO
TRABALHO
TEMA Contribuição sindical compulsória (imposto sindical). Servidor Público. Art.
114, III, da CF. Adequação da jurisprudência do STJ. Tema n. 994/STF. RE
1.089.282/AM. Competência da Justiça Comum para servidor público com
vínculo estatutário. Competência da Justiça do Trabalho para servidor público
com vínculo celetista. Nova interpretação da Súmula 222 do STJ.
DESTAQUE
A Súmula 222 do STJ - Compete à Justiça Comum processar e julgar as ações relativas à contribuição sindical
prevista no art. 578 da CLT - deve abarcar apenas situações em que a contribuição sindical diz respeito a
servidores públicos estatutários, mantendo-se a competência para processar e julgar as ações relativas à
contribuição sindical referentes a celetistas (servidores públicos ou não) na Justiça do Trabalho.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Com o advento do art. 114, da Constituição Federal de 1988 (em sua redação original), firmou-se a interpretação
restritiva de que a competência da justiça laboral somente abarcava as hipóteses ali expressas e que quaisquer
outras "controvérsias decorrentes da relação de trabalho" somente o seriam de competência daquela justiça
especializada acaso sobreviesse lei que assim o estabelecesse. Assim, permaneceu vigente no período a Súmula
n. 87 do extinto Tribunal Federal de Recursos - TFR que definiu ser da competência da Justiça Comum o processo
e julgamento da contribuição assistencial prevista em convenção ou acordo coletivo e da contribuição sindical
compulsória prevista em lei (imposto sindical), a saber: "Compete à Justiça Comum o processo e julgamento de
ação de cobrança de contribuições sindicais".Tal situação perdurou até o advento da Lei n. 8.984/1995 que
estabeleceu competir " à Justiça do Trabalho conciliar e julgar os dissídios que tenham origem no cumprimento
de convenções coletivas de trabalho ou acordos coletivos de trabalho, mesmo quando ocorram entre sindicatos
ou entre sindicato de trabalhadores e empregador" (convenções e acordos não homologados). Tal lei levou a
cobrança da contribuição assistencial prevista em convenção ou acordo coletivo para a competência da Justiça
do Trabalho, surgindo então dúvida a respeito do destino da contribuição sindical compulsória (imposto
sindical), se acompanharia a contribuição assistencial ou se permaneceria na Justiça [Link] novo
contexto, este Superior Tribunal de Justiça produziu o precedente nos EDcl no CC 17.765 / MG (Segunda Seção,
Rel. Min. Paulo Costa Leite, julgado em 13/08/1997) onde no qual restou fixado que a cobrança da contribuição
sindical compulsória (imposto sindical) deveria se dar na Justiça [Link], em 23/06/1999, com
base no mencionado precedente, foi julgada pela Segunda Seção a Súmula n. 222/STJ com o seguinte texto:

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"Compete à Justiça Comum processar e julgar as ações relativas à contribuição sindical prevista no art. 578 da
CLT".Mais recentemente, com o advento da alteração do art. 114, da CF/1988, promovida pela EC n. 45/2004,
foram inseridas na competência da Justiça do Trabalho "as ações oriundas da relação de trabalho, abrangidos
os entes de direito público externo e da administração pública direta e indireta da União, dos Estados, do Distrito
Federal e dos Municípios" (art. 114, I, CF/1988) e "as ações sobre representação sindical, entre sindicatos, entre
sindicatos e trabalhadores, e entre sindicatos e empregadores" (art. 114, III, CF/1988).A troca da expressão
"dissídios individuais e coletivos entre trabalhadores e empregadores" contida na redação original do art. 114,
da CF/1988, pela expressão "ações oriundas da relação de trabalho", contida na redação dada pela EC n.
45/2004, trouxe dúvida em relação à competência da Justiça do Trabalho para julgar as causas entre o Poder
Público e seus servidores estatutários. O tema foi então enfrentado pelo STF quando do julgamento da ADI 3.395
MC/DF (Tribunal Pleno, Rel. Min. Cezar Peluso, julgado em 05/04/2006) que registrou: "O disposto no art. 114,
I, da Constituição da República, não abrange as causas instauradas entre o Poder Público e servidor que lhe seja
vinculado por relação jurídico-estatutária". Contudo, permaneceu alguma dúvida em relação ao reflexo do
julgado do STF sobre as ações que envolviam as contribuições sindicais de servidores públicos e o alcance do
disposto no art. 114, III, da CF/[Link] feita, após o julgamento pelo STF da ADI 3.395 MC / DF, em pesquisa
realizada na jurisprudência deste STJ, no que se refere às ações em que se discute a técnica de tributação via
recolhimento e repasse, os mais recentes precedentes da Primeira Seção são no sentido de que o referido
julgamento em nada havia interferido na regra de competência para a discussão da contribuição sindical dos
servidores públicos, devendo esta se dar sempre na Justiça do Trabalho, indiferente a condição do servidor
público de celetista ou estatutá[Link] histórico, constata-se que houve sucessivas alterações em relação ao
posicionamento original. Migrou-se de uma posição inicial (1) onde todas as ações que versassem sobre o
imposto sindical teriam seu destino na Justiça Comum (Súmula n. 222/STJ), para uma posição (2) onde as ações
que versassem sobre o imposto sindical envolvendo todos os tipos de celetistas (servidores ou não) haveriam
que ser destacadas e levadas para a Justiça do Trabalho, mantendo-se apenas as ações que versassem sobre o
imposto sindical envolvendo servidores estatutários na Justiça Comum e, posteriormente, para uma posição (3)
na qual todas as ações que versassem sobre o imposto sindical (envolvendo celetistas ou estatutários), haveriam
que ser julgadas na Justiça do Trabalho. Assim, a evolução da jurisprudência vinha sendo no sentido de retirar
essas atribuições da Justiça Comum transferindo-as gradativamente para a Justiça Laboral, que detinha a
expertise no exame das relações de representação sindical, já que o tema "contribuição sindical" guardaria mais
afinidade com o tema "representação sindical" que com o tema "regime estatutário".Ocorre que em direção
diametralmente oposta àquela que vinha tomando este Superior Tribunal de Justiça e o Tribunal Superior do
Trabalho, o Supremo Tribunal Federal, quando do julgamento do Tema n. 994, no RE 1.089.282/AM (Tribunal
Pleno, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em sessão virtual de 27/11/2020 a 04/12/2020), firmou a seguinte
tese: "Compete à Justiça Comum processar e julgar demandas em que se discute o recolhimento e o repasse de
contribuição sindical de servidores públicos regidos pelo regime estatutário".Desta forma, o STF determinou o
retorno deste Superior Tribunal de Justiça um passo atrás para a posição jurisprudencial intermediária anterior,
qual seja, a de que: (a) as ações em que se discute a contribuição sindical (imposto sindical) de servidor púbico
estatutário, após o advento da EC n. 45/2004, devem continuar ser ajuizadas na Justiça Comum e (b) as ações
em que se discute a contribuição sindical (imposto sindical) de servidor púbico celetista, após o advento da EC
n. 45/2004, devem ser ajuizadas na Justiça do [Link] modo, deve ser dada nova interpretação ao
enunciado n. 222 da Súmula deste STJ ("Compete à Justiça Comum processar e julgar as ações relativas à
contribuição sindical prevista no art. 578 da CLT") para abarcar apenas as situações em que a contribuição
sindical (imposto sindical) diz respeito a servidores públicos estatutários, mantendo-se a competência para
processar e julgar as ações relativas à contribuição sindical referente a celetistas (servidores ou não) na Justiça
do Trabalho. (Informativo n. 690)

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PROCESSO EREsp 1.460.696/PR, Rel. Min. Sérgio Kukina, Primeira Seção, por
unanimidade, julgado em 24/02/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO CIVIL, DIREITO BANCÁRIO
TEMA Sistema Financeiro de Habitação - SFH. Mútuo habitacional. Plano de
Equivalência Salarial - PES. Repetição do indébito. Pedido de cobertura do
saldo devedor pelo Fundo de Compensação de Valorizações Salariais - FCVS.
Amortização Negativa. Capitalização de juros. Parcela que não compõe as
prestações do mutuário. Inexistência de valores a serem restituídos.
DESTAQUE
Nos contratos de mútuo imobiliário regidos pelo Plano de Equivalência Salarial - PES, segurados pelo Fundo de
Compensação de Valorizações Salariais - FCVS, o reconhecimento de anatocismo não gera direito a repetição de
indébito se tal procedimento impactou apenas no valor do saldo devedor do contrato.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a analisar se uma vez reconhecida a prática de ilegal capitalização de juros nos contratos
de mútuo imobiliário regidos pelo Plano de Equivalência Salarial - PES, segurados pelo Fundo de Compensação
de Valorizações Salariais - FCVS, impõe-se que as diferenças apuradas sejam restituídas ao mutuário em
pecúnia, ou se elas deveriam ser abatidas do saldo devedor, o qual será quitado com recursos do FCVS. A ideia
por trás do PES é assegurar ao mutuário que as prestações pagas para a obtenção da casa própria mantenham-
se estáveis, seguindo sua evolução salarial. Já o saldo devedor, que deve ser amortizado a cada parcela paga,
sofre o reajuste pelos índices da poupança, devendo, ao final do contrato, ser realizado o encontro de contas.
Caso ainda exista algum valor residual, o FCVS entra como um seguro, quitando as diferenç[Link] entanto, este
descompasso de reajustes acaba determinando a seguinte anomalia: a parcela é insuficiente para amortizar os
juros e o saldo devedor, gerando uma diferença que é reincorporada ao principal. Como consequência, ao fim
do contrato, apesar da adimplência do mutuário, ele se depara com o fato de que o saldo residual alcança valor
maior que o principal contratado, ou mesmo do próprio imóvel adquirido.A Segunda Turma, ao se defrontar
com o tema, registrou que o afastamento da capitalização de juros não pode gerar benefício repetitório em favor
do mutuário, uma vez que as diferenças decorrentes desta operação devem compor o saldo devedor, o qual será
coberto pelo FCVS.Já o acórdão paradigma, prolatado pela Primeira Turma, em situação fática em muito
semelhante, concluiu que "O art. 23 da Lei n. 8.004/1990, não prevê que os valores eventualmente cobrados
com excesso sejam compensados com saldo devedor, mas, antes, restituídos ao mutuário, com redução nas
prestações vincendas imediatamente subsequentes ou, acaso findas as parcelas, em espécie, nos exatos termos
do aludido dispositivo legal" (REsp 848.855/RS, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 19/8/2008,
DJe 15/9/2008).O ponto fulcral do debate está em definir qual o efeito da prática de anatocismo no contrato de
financiamento imobiliário celebrado com a adoção do PES. Se o mutuário teve que arcar com prestações mensais
maiores, existirá, sim, o direito de repetição; contudo, se tal procedimento impactou apenas o valor do saldo
devedor, este deve ser reduzido e utilizado um montante menor do FCVS para a quitação do mútuo. De fato,
somente os valores efetivamente desembolsados pelo mutuário poderiam ensejar o direito de restituição.
(Informativo n. 686)

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PRIMEIRA TURMA
Voltar ao Sumário.

PROCESSO REsp 1.429.799/SP, Rel. Min. Sérgio Kukina, Primeira Turma, por
unanimidade, julgado em 02/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO
TEMA Aquisição de veículos usados para posterior revenda. Transferência de
propriedade para a revendora. Expedição de novo certificado de registro de
veículos. Art. 123, I, do Código de Trânsito Brasileiro. Obrigatoriedade.
DESTAQUE
A transferência de propriedade de veículo automotor usado implica, obrigatoriamente, na expedição de novo
Certificado de Registro de Veículo - CRV, ainda quando a aquisição ocorra para fins de posterior revenda.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Da leitura do art. 123, I, do Código de Trânsito Brasileiro, depreende-se que a transferência de titularidade do
veículo, por si só, acarreta na necessária e obrigatória expedição de novo Certificado de Registro do Veículo -
[Link] caso, o impetrante sustentou que o referido art. 123, I, não poderia ensejar dois tratamentos distintos,
a saber: montadoras e concessionárias de veículos novos, mesmo sendo, em tese, proprietárias de tais bens,
estariam dispensadas de seu registro junto ao DETRAN, ao passo que, na revenda de veículos usados, as
empresas desse ramo de negócios, ao adquirí-los, mesmo por período transitório, teriam de se submeter à
exigência de um novo [Link], trata-se a discussão sobre apenas aquelas situações que envolvam a
expedição de novo CRV de veículos usados, que tenham sido adquiridos para revenda e que, presume-se, já
possuíam CRV em nome do anterior proprietário (alienante).Em relação a essa específica modalidade negocial
(revenda de veículos usados), não há negar, o art. 123, I, do CTB impõe a expedição de novo CRV, em vista da
desenganada transferência da propriedade do veículo. (Informativo n. 687)

PROCESSO AREsp 1.314.581/SP, Rel. Min. Benedito Gonçalves, Primeira Turma, por
unanimidade, julgado em 23/02/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO
TEMA Improbidade administrativa. Homologação judicial de acordo. Art. 17, § 1º, da
Lei n. 8.429/1992, com redação alterada pela Lei n. 13.964/2019.
Possibilidade.
DESTAQUE
É possível acordo de não persecução cível no âmbito da ação de improbidade administrativa em fase recursal.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A Lei n. 13.964/2019, denominada "Pacote Anticrime", alterou o § 1º do art. 17 da Lei n. 8.429/1992, o qual
passou a dispor que: § 1º As ações de que trata este artigo admitem a celebração de acordo de não persecução
cível, nos termos desta Lei.A referida Lei também introduziu o § 10-A ao art. 17 da LIA, com a seguinte redação:
Havendo a possibilidade de solução consensual, poderão as partes requerer ao juiz a interrupção do prazo para
a contestação, por prazo não superior a 90 (noventa) [Link] efeito, a aludida alteração trouxe a possibilidade
de acordo de não persecução cível no âmbito da ação de improbidade administrativa.A Segunda Turma desta
Corte, ao se pronunciar a respeito da delação premiada e do acordo de leniência, em sede de ação de
improbidade administrativa, conferiu interpretação restritiva aos referidos institutos à esfera penal, nos termos
do sobredito art. 17, § 1º, da [Link] oportunidade, o eminente Relator, Ministro Mauro Campbell Marques,
consignou que "a transação e o acordo são expressamente vedados no âmbito da ação de improbidade

52
administrativa (art. 17, § 1º, da Lei n. 8.429/1992), ainda que entenda oportuno o debate pelo Congresso
Nacional sobre o referido dispositivo legal, a fim de analisar sua atualidade, pertinência e compatibilidade com
normas sancionatórias que preveem a possibilidade de acordo de não-persecução penal." (REsp 1.464.287/DF,
Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 26/6/2020.)A Primeira Turma desta Corte, em
julgamento realizado em 03/05/2016, antes, portanto, da alteração do art. 17, § 1º, da LIA, não conheceu do
requerimento de homologação de acordo no âmbito de ação de improbidade [Link] ocasião, o
eminente Relator, Ministro Napoleão Nunes Maia Filho, ressalvou seu ponto de vista pela possibilidade de
acordo, uma vez cumpridas pelas partes transigentes as obrigações do Termo de Ajustamento de Conduta, não
se justificando a protelação da homologação do acordo.O Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP)
editou a Resolução n. 179, de 26 de julho de 2017, regulamentando o § 6º do art. 5º da Lei n. 7.347/1985, para
disciplinar, no âmbito do Ministério Público, a tomada do compromisso de ajustamento de [Link] linha,
o Conselho Superior do Ministério Público do Estado de São Paulo (CSMPSP) editou a Resolução n. 1.193, de 11
de março de 2020, a qual disciplina o acordo de não persecução cível no âmbito do MPSP, regulamentando o
disposto no art. 17, § 1º, da LIA e no art. 7º, § 2º, da Resolução n. 179/2017 do Conselho Nacional do Ministério
Pú[Link] caso, o recorrente foi condenado por dano ao erário pela prática de conduta ímproba na modalidade
culposa do art. 10 da LIA, decorrente da condenação por danos morais sofrida, nos autos de ação de indenização,
em razão de conduta omissiva consubstanciada pelo não cumprimento de ordem judicial para que fornecesse
medicamento a paciente, que acabou vindo a ó[Link] forma, tendo em vista a homologação do acordo pelo
Conselho Superior do MPSP, a conduta culposa praticada pelo recorrente, bem como a reparação do dano ao
Município, além da manifestação favorável do Ministério Público Federal ao acordo, tem-se que a transação deve
ser homologada. (Informativo n. 686)

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SEGUNDA TURMA
Voltar ao Sumário.

PROCESSO RMS 65.757-RJ, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, por
unanimidade, julgado em 04/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO
TEMA Concurso público. Enfermeiro. Cadastro de reserva. Direito à nomeação.
Contratação temporária. Descaracterização. Contratação decorrente da
pandemia causada pelo vírus SARS-COV-2. Determinação judicial para
contratação temporária.
DESTAQUE
A contratação temporária de terceiros para o desempenho de funções do cargo de enfermeiro, em decorrência
da pandemia causada pelo vírus Sars-CoV-2, e determinada por decisão judicial, não configura preterição ilegal
e arbitrária nem enseja direito a provimento em cargo público em favor de candidato aprovado em cadastro de
reserva.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A orientação da jurisprudência do STJ é no sentido de que a simples existência de contratação temporária não
significa, por si só, a preterição a direito do aprovado em concurso público, e isso porque além de ter assento
constitucional, ou seja, ser uma situação permitida pela lei maior do país, o que denota a sua regularidade
intrínseca, a ilegalidade da contratação somente ocorrerá quando não observados os requisitos da lei de
regência da respectiva unidade federativa.
No caso analisado, o contexto da demanda revela, de uma lado, que a Administração Pública local agiu com
bastante clareza ao arregimentar candidatos para um certame no qual não havia vagas disponíveis, fato que não
é debelado, por outro lado, com a contratação temporária de terceiros decorrente da excepcionalidade da
situação, ainda atual, da pandemia decorrente do vírus Sars-CoV-2, causador da covid-19.
Pesa considerar ainda que a contratação temporária questionada teve origem em demanda judicial ajuizada
justamente com o escopo da necessidade temporária gerada pelo advento da pandemia.
Isso corrobora ainda a inexistência de preterição ilegal, forte na jurisprudência desta Corte que assim
compreende quando a nomeação decorre de determinação judicial.
Normalmente os casos concretos avaliados referem-se à inobservância da ordem classificatória, mas como isso
advém de decisão judicial então não haveria ilegalidade na prática administrativa, como no caso do AgInt no
RMS 55.701/GO (Rel. Ministro Og Fernandes, Segunda Turma, julgado em 25/08/2020, DJe 01/09/2020).
No presente caso, embora a situação fática seja distinta, a razão é a mesma, porque a Administração Pública
local somente procedeu à contratação em virtude de ordem judicial, o que igualmente retira do fato a pecha da
preterição ilegal. (Informativo n. 695)

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PROCESSO REsp 1.925.492-RJ, Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, por
unanimidade, julgado em 04/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Improbidade administrativa. Decisão interlocutória que indefere pedido de
depoimento pessoal. Agravo de instrumento. Cabimento. Prevalência de
previsão contida na Lei da Ação Popular sobre o artigo 1.015 do CPC/2015.
Microssistema de tutela coletiva.
DESTAQUE
Aplica-se à ação de improbidade administrativa o previsto no artigo 19, § 1º, da Lei da Ação Popular, segundo o
qual das decisões interlocutórias cabe agravo de instrumento.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Na origem, trata-se de Ação por Improbidade na qual o Juízo de primeiro grau indeferiu o pedido de depoimento
pessoal da ré, o que resultou na interposição de Agravo de Instrumento. O Recurso não foi conhecido sob o
fundamento de que seria "inaplicável na hipótese o disposto no artigo 19, parágrafo 1º da Lei n. 4.717/1965, já
que se refere às Ações Populares" e "a Decisão hostilizada não se enquadra no rol taxativo do artigo 1.015 do
Código de Processo Civil".
Esse entendimento contraria a orientação, consagrada no STJ, de que "O Código de Processo Civil deve ser
aplicado somente de forma subsidiária à Lei de Improbidade Administrativa. Microssistema de tutela coletiva"
(REsp 1.217.554/SP, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, DJe 22.8.2013).
A ideia do microssistema de tutela coletiva foi concebida com o fim de assegurar a efetividade da jurisdição no
trato dos direitos coletivos, razão pela qual a previsão do artigo 19, § 1º, da Lei da Ação Popular ("Das decisões
interlocutórias cabe agravo de instrumento") se sobrepõe, inclusive nos processos de improbidade, à previsão
restritiva do artigo 1.015 do CPC/2015.
Na mesma direção: "Os arts. 21 da Lei da Ação Civil Pública e 90 do CDC, como normas de envio, possibilitaram
o surgimento do denominado Microssistema ou Minissistema de proteção dos interesses ou direitos coletivos
amplo senso, no qual se comunicam outras normas, como o Estatuto do Idoso e o da Criança e do Adolescente,
a Lei da Ação Popular, a Lei de Improbidade Administrativa e outras que visam tutelar direitos dessa natureza,
de forma que os instrumentos e institutos podem ser utilizados com o escopo de 'propiciar sua adequada e
efetiva tutela'" (art. 83 do CDC)" (REsp 695.396/RS, Primeira Turma, Rel. Ministro Arnaldo Esteves Lima, DJe
27.4.2011).
Assim, deve-se aplicar à Ação por Improbidade o mesmo entendimento já adotado em relação à Ação Popular,
como sucedeu, entre outros, no seguinte precedente: "A norma específica inserida no microssistema de tutela
coletiva, prevendo a impugnação de decisões interlocutórias mediante agravo de instrumento (art. 19 da Lei n.
4.717/65), não é afastada pelo rol taxativo do art. 1.015 do CPC/2015, notadamente porque o inciso XIII daquele
preceito contempla o cabimento daquele recurso em 'outros casos expressamente referidos em lei'" (AgInt no
REsp 1.733.540/DF, Rel. Ministro Gurgel de Faria, Primeira Turma, DJe 4.12.2019). Na mesma direção: REsp
1.452.660/ES, Rel. Ministro Og Fernandes, Segunda Turma, DJe 27.4.2018. (Informativo n. 695)

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PROCESSO REsp 1.929.230-MT, Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, por
unanimidade, julgado em 04/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Improbidade administrativa. Fase de cumprimento de sentença.
Requerimento de medidas coercitivas. Suspensão de CNH e apreensão de
passaporte. Previsão feita no art. 139, IV, do CPC/2015. Medidas executivas
atípicas. Aplicação em processos de improbidade. Observância de parâmetros.
Análise dos fatos da causa. Possibilidade.
DESTAQUE
São cabíveis medidas executivas atípicas de cunho não patrimonial no cumprimento de sentença proferida em
ação de improbidade administrativa.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Há no Superior Tribunal de Justiça julgados afirmando a possibilidade da adoção das chamadas medidas atípicas
no âmbito da execução, desde que preenchidos certos requisitos. Nesse sentido: "O propósito recursal é definir
se a suspensão da carteira nacional de habilitação e a retenção do passaporte do devedor de obrigação de pagar
quantia são medidas viáveis de serem adotadas pelo juiz condutor do processo executivo [...] O Código de
Processo Civil de 2015, a fim de garantir maior celeridade e efetividade ao processo, positivou regra segundo a
qual incumbe ao juiz determinar todas as medidas indutivas, coercitivas, mandamentais ou sub-rogatórias
necessárias para assegurar o cumprimento de ordem judicial, inclusive nas ações que tenham por objeto
prestação pecuniária (art. 139, IV)" (REsp 1.788.950/MT, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, DJe
26.4.2019).
Há, também, decisão da Primeira Turma indeferindo as medidas atípicas, mas mediante expressa referência aos
fatos da causa. Afirmou-se no julgado: "O TJ/PR deu provimento a recurso de Agravo de Instrumento interposto
pelo Município de Foz do Iguaçu/PR contra a decisão de Primeiro Grau que indeferiu o pedido de medidas
aflitivas de inscrição do nome do executado em cadastro de inadimplentes, de suspensão do direito de dirigir e
de apreensão do passaporte. O acórdão do TJ/PR, ora apontado como ato coator, deferiu as indicadas medidas
no curso da Execução Fiscal. Ao que se dessume do enredo fático-processual, a medida é excessiva. Para além
do contexto econômico de que se lançou mão anteriormente, o que, por si só, já justificaria o afastamento das
medidas adotadas pelo Tribunal Araucariano, registre-se que o caderno processual aponta que há penhora de
30% dos vencimentos que o réu aufere na Companhia de Saneamento do Paraná-SANEPAR. Além disso,
rendimentos de sócio-majoritário que o executado possui na Rádio Cultura de Foz do Iguaçu Ltda.-EPP também
foram levados a bloqueio" (HC 45.3870/PR, Relator Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Primeira Turma, DJe
15.8.2019).
Além de fazer referência aos fatos da causa, essa última decisão, da Primeira Turma, foi proferida em Execução
Fiscal. Diversamente, no caso dos autos trata-se de cumprimento de sentença proferida em Ação por
Improbidade Administrativa, demanda que busca reprimir o enriquecimento ilícito, as lesões ao erário e a
ofensa aos princípios da Administração Pública.
Ora, se o entendimento desta Corte - conforme jurisprudência supra destacada - é no sentido de que são cabíveis
medidas executivas atípicas a bem da satisfação de obrigações de cunho estritamente patrimonial, com muito
mais razão elas devem ser admitidas em casos onde o cumprimento da sentença se dá a bem da tutela da
moralidade e do patrimônio público. Superada a questão da impossibilidade de adoção de medidas executivas
atípicas de cunho não patrimonial pela jurisprudência dessa Corte, não há como não considerar o interesse
público na satisfação da obrigação um importante componente na definição pelo cabimento (ou não) delas à luz
do caso concreto.
Os parâmetros construídos pela Terceira Turma, para aplicação das medidas executivas atípicas, encontram
largo amparo na doutrina se revelam adequados, também, no cumprimento de sentença proferida em Ação por
Improbidade.

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Conforme tem preconizado a Terceira Turma: "A adoção de meios executivos atípicos é cabível desde que,
verificando-se a existência de indícios de que o devedor possua patrimônio expropriável, tais medidas sejam
adotadas de modo subsidiário, por meio de decisão que contenha fundamentação adequada às especificidades
da hipótese concreta, com observância do contraditório substancial e do postulado da proporcionalidade" (REsp
1.788.950/MT, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, DJe 26.4.2019).
Consigne-se que a observância da proporcionalidade não deve ser feita em abstrato, a não ser que as instâncias
ordinárias expressamente declarem o artigo 139, IV, do CPC/2015, inconstitucional. Não sendo o caso, as balizas
da proporcionalidade devem ser observadas com referência ao caso concreto, nas hipóteses em que as medidas
atípicas se revelem excessivamente gravosas, por exemplo, causando prejuízo ao exercício da profissão.
(Informativo n. 695)

PROCESSO REsp 1.833.358/PB, Rel. Min. Og Fernandes, Segunda Turma, por


unanimidade, julgado em 06/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO FINANCEIRO
TEMA Precatório ou Requisição de Pequeno Valor - RPV. Cancelamento. Arts. 2º e 3º
da Lei n. 13.463/2017. Reexpedição. Prescrição. Termo inicial. Cancelamento.
DESTAQUE
É prescritível a pretensão de expedição de novo precatório ou RPV após o cancelamento estabelecido pelo art.
2º da Lei n. 13.463/2017.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Conforme o entendimento da Segunda Turma desta Corte Superior, é prescritível a pretensão de expedição de
novo precatório ou RPV após o cancelamento estabelecido pelo art. 2º da Lei n. 13.463/2017.
Nos termos do REsp 1.859.409/RN, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 16/6/2020,
DJe 25/6/2020: "1. Estabelecem, respectivamente, os arts. 2º e 3º da Lei 13.463/2017: "Ficam cancelados os
precatórios e as RPV federais expedidos e cujos valores não tenham sido levantados pelo credor e estejam
depositados há mais de dois anos em instituição financeira oficial", "cancelado o precatório ou a RPV, poderá
ser expedido novo ofício requisitório, a requerimento do credor". 2. A pretensão de expedição de novo
precatório ou nova RPV, após o cancelamento de que trata o art. 2º da Lei nº 13.463/2017, não é imprescritível."
O fundamento é o de que, por aplicação do princípio da actio nata, conforme o referido precedente, "o direito
do credor de que seja expedido novo precatório ou nova RPV começa a existir na data em que houve o
cancelamento do precatório ou RPV cujos valores, embora depositados, não tenham sido levantados".
(Informativo n. 691)

PROCESSO REsp 1.506.932/PR, Rel. Min. Auro Campbell Marques, 2 Turma, por
unanimidade, julgado em 02.03.2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO
TEMA Aposentadoria. Ato complexo. Confirmação pelo Tribunal de Contas.
Decadência. Readequação de entendimento. RE 636.553/RS, Tema 445/STF.
Prazo de cinco anos. Marco inicial. Chegada do processo na corte de contas.
Juízo de retratação.
DESTAQUE
Os Tribunais de Contas estão sujeitos ao prazo de 5 anos para o julgamento da legalidade do ato de concessão
inicial de aposentadoria, reforma ou pensão, a contar da chegada do processo à respectiva Corte de Contas
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia do autos cinge-se à saber se é possível aplicação de prazo decadencial para que a Corte de Contas
da União analise aposentadoria de servidor público, ato necessário à perfectibilização da concessão do benefício

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previdenciá[Link] decisão anteriormente proferida, esta Turma consignou, considerando a jurisprudência
firme desta Casa, no sentido de que, por se tratar de ato complexo, a aposentadoria de servidor público só se
completa com a análise pelo TCU e, portanto, não corre prazo decadencial entre a concessão pelo órgão e a
decisão final proferida pelo [Link] entanto, o STF, em julgamento realizado sob a sistemática da
repercussão geral, pacificou o entendimento de que, em atenção aos princípios da segurança jurídica e da
confiança legítima, os Tribunais de Contas estão sujeitos ao prazo de 5 anos para o julgamento da legalidade do
ato de concessão inicial de aposentadoria, reforma ou pensão, a contar da chegada do processo à respectiva
Corte de Contas (Tema 445, RE 636.553/RS). (Informativo n. 687)

PROCESSO REsp 1.311.899-RS, Rel. Min. Assusete Magalhães, Segunda Turma, por
unanimidade, julgado em 23/02/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO TRIBUTÁRIO
TEMA Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional - PGFN. Execução Fiscal. Emissão de
CDA. Atuar em juízo. Incompatibilidade. Lei Complementar n. 73/1993. Não
vedação.
DESTAQUE
Não é vedado, ao Procurador da Fazenda Nacional que emitiu a certidão de dívida ativa, atuar como
representante judicial da Fazenda Nacional, na respectiva execução fiscal.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Nos termos do art. 12, I e II, da Lei Complementar n. 73/1993, à Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional
compete especialmente: (i) apurar a liquidez e certeza da dívida ativa da União de natureza tributária,
inscrevendo-a para fins de cobrança, amigável ou judicial; e (ii) representar privativamente a União, na execução
de sua dívida ativa de caráter tributário. Nada, no aludido dispositivo, sugere que as atividades devam
necessariamente ser praticadas por membros diferentes da [Link] seu turno, na Lei n. 6.830/1980,
especialmente em seu art. 2º, que trata, em pormenores, do ato de inscrição, não se encontra suporte para o
impedimento de Procurador da Fazenda Nacional que emitiu a certidão de dívida ativa, atuar como
representante judicial da Fazenda Nacional, na respectiva execução [Link] vedações legais à atuação do
Procurador da Fazenda Nacional são aquelas constantes dos arts. 28 a 31 da Lei Complementar n. 73/1993,
entre as quais não se encontra albergada a hipótese [Link] fim, registre-se que a incompatibilidade
prevista no art. 28, III, da Lei n. 8.906/1994 (Estatuto da Advocacia), tampouco se aplica, obviamente, ao
Procurador da Fazenda Nacional, atuando, em Juízo, na defesa da União. (Informativo n. 686)

PROCESSO REsp 1.722.423-RJ, Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, por
unanimidade, julgado em 24/11/2020, DJe 18/12/2020
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO CIVIL
TEMA Danos morais. Pessoa Jurídica de Direito Público. Credibilidade institucional
agredida. Dano reflexo sobre os demais jurisdicionados. Lesões
extrapatrimoniais. Condenação. Possibilidade jurídica.
DESTAQUE
Pessoa Jurídica de Direito Público tem direito à indenização por danos morais relacionados à violação da honra
ou da imagem, quando a credibilidade institucional for fortemente agredida e o dano reflexo sobre os demais
jurisdicionados em geral for evidente.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a determinar se é possível o INSS, pessoa jurídica de direito público, ser vítima de danos
[Link], Também não afasta a pretensão reparatória o argumento de que as pessoas que integram
o Estado não sofrem "descrédito mercadológico".O direito das pessoas jurídicas à reparação por dano moral não

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exsurge apenas no caso de prejuízos comerciais, mas também nas hipóteses, mais abrangentes, de ofensa à
honra objetiva. Nesse plano, até mesmo entidades sem fins lucrativos podem se [Link], não se pode
afastar a possibilidade de resposta judicial à agressão perpetrada por agentes do Estado contra a credibilidade
institucional da autarquia, a qual implica em dano reflexo sobre os demais segurados da Previdência e os
jurisdicionados em geral é evidente, tudo consubstanciado por uma lesão de ordem extrapatrimonial.
(Informativo n. 684)

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DIREITO BANCÁRIO

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PRIMEIRA SEÇÃO
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PROCESSO EREsp 1.460.696/PR, Rel. Min. Sérgio Kukina, Primeira Seção, por
unanimidade, julgado em 24/02/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO CIVIL, DIREITO BANCÁRIO
TEMA Sistema Financeiro de Habitação - SFH. Mútuo habitacional. Plano de
Equivalência Salarial - PES. Repetição do indébito. Pedido de cobertura do
saldo devedor pelo Fundo de Compensação de Valorizações Salariais - FCVS.
Amortização Negativa. Capitalização de juros. Parcela que não compõe as
prestações do mutuário. Inexistência de valores a serem restituídos.
DESTAQUE
Nos contratos de mútuo imobiliário regidos pelo Plano de Equivalência Salarial - PES, segurados pelo Fundo de
Compensação de Valorizações Salariais - FCVS, o reconhecimento de anatocismo não gera direito a repetição de
indébito se tal procedimento impactou apenas no valor do saldo devedor do contrato.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a analisar se uma vez reconhecida a prática de ilegal capitalização de juros nos contratos
de mútuo imobiliário regidos pelo Plano de Equivalência Salarial - PES, segurados pelo Fundo de Compensação
de Valorizações Salariais - FCVS, impõe-se que as diferenças apuradas sejam restituídas ao mutuário em
pecúnia, ou se elas deveriam ser abatidas do saldo devedor, o qual será quitado com recursos do FCVS. A ideia
por trás do PES é assegurar ao mutuário que as prestações pagas para a obtenção da casa própria mantenham-
se estáveis, seguindo sua evolução salarial. Já o saldo devedor, que deve ser amortizado a cada parcela paga,
sofre o reajuste pelos índices da poupança, devendo, ao final do contrato, ser realizado o encontro de contas.
Caso ainda exista algum valor residual, o FCVS entra como um seguro, quitando as diferenç[Link] entanto, este
descompasso de reajustes acaba determinando a seguinte anomalia: a parcela é insuficiente para amortizar os
juros e o saldo devedor, gerando uma diferença que é reincorporada ao principal. Como consequência, ao fim
do contrato, apesar da adimplência do mutuário, ele se depara com o fato de que o saldo residual alcança valor
maior que o principal contratado, ou mesmo do próprio imóvel adquirido.A Segunda Turma, ao se defrontar
com o tema, registrou que o afastamento da capitalização de juros não pode gerar benefício repetitório em favor
do mutuário, uma vez que as diferenças decorrentes desta operação devem compor o saldo devedor, o qual será
coberto pelo FCVS.Já o acórdão paradigma, prolatado pela Primeira Turma, em situação fática em muito
semelhante, concluiu que "O art. 23 da Lei n. 8.004/1990, não prevê que os valores eventualmente cobrados
com excesso sejam compensados com saldo devedor, mas, antes, restituídos ao mutuário, com redução nas
prestações vincendas imediatamente subsequentes ou, acaso findas as parcelas, em espécie, nos exatos termos
do aludido dispositivo legal" (REsp 848.855/RS, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 19/8/2008,
DJe 15/9/2008).O ponto fulcral do debate está em definir qual o efeito da prática de anatocismo no contrato de
financiamento imobiliário celebrado com a adoção do PES. Se o mutuário teve que arcar com prestações mensais
maiores, existirá, sim, o direito de repetição; contudo, se tal procedimento impactou apenas o valor do saldo
devedor, este deve ser reduzido e utilizado um montante menor do FCVS para a quitação do mútuo. De fato,
somente os valores efetivamente desembolsados pelo mutuário poderiam ensejar o direito de restituição.
(Informativo n. 686)

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SEGUNDA TURMA
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PROCESSO REsp 1.311.899-RS, Rel. Min. Assusete Magalhães, Segunda Turma, por
unanimidade, julgado em 23/02/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO TRIBUTÁRIO
TEMA Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional - PGFN. Execução Fiscal. Emissão de
CDA. Atuar em juízo. Incompatibilidade. Lei Complementar n. 73/1993. Não
vedação.
DESTAQUE
Não é vedado, ao Procurador da Fazenda Nacional que emitiu a certidão de dívida ativa, atuar como
representante judicial da Fazenda Nacional, na respectiva execução fiscal.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Nos termos do art. 12, I e II, da Lei Complementar n. 73/1993, à Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional
compete especialmente: (i) apurar a liquidez e certeza da dívida ativa da União de natureza tributária,
inscrevendo-a para fins de cobrança, amigável ou judicial; e (ii) representar privativamente a União, na execução
de sua dívida ativa de caráter tributário. Nada, no aludido dispositivo, sugere que as atividades devam
necessariamente ser praticadas por membros diferentes da [Link] seu turno, na Lei n. 6.830/1980,
especialmente em seu art. 2º, que trata, em pormenores, do ato de inscrição, não se encontra suporte para o
impedimento de Procurador da Fazenda Nacional que emitiu a certidão de dívida ativa, atuar como
representante judicial da Fazenda Nacional, na respectiva execução [Link] vedações legais à atuação do
Procurador da Fazenda Nacional são aquelas constantes dos arts. 28 a 31 da Lei Complementar n. 73/1993,
entre as quais não se encontra albergada a hipótese [Link] fim, registre-se que a incompatibilidade
prevista no art. 28, III, da Lei n. 8.906/1994 (Estatuto da Advocacia), tampouco se aplica, obviamente, ao
Procurador da Fazenda Nacional, atuando, em Juízo, na defesa da União. (Informativo n. 686)

62
DIREITO CIVIL

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PRIMEIRA SEÇÃO
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PROCESSO EREsp 1.460.696/PR, Rel. Min. Sérgio Kukina, Primeira Seção, por
unanimidade, julgado em 24/02/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO CIVIL, DIREITO BANCÁRIO
TEMA Sistema Financeiro de Habitação - SFH. Mútuo habitacional. Plano de
Equivalência Salarial - PES. Repetição do indébito. Pedido de cobertura do
saldo devedor pelo Fundo de Compensação de Valorizações Salariais - FCVS.
Amortização Negativa. Capitalização de juros. Parcela que não compõe as
prestações do mutuário. Inexistência de valores a serem restituídos.
DESTAQUE
Nos contratos de mútuo imobiliário regidos pelo Plano de Equivalência Salarial - PES, segurados pelo Fundo de
Compensação de Valorizações Salariais - FCVS, o reconhecimento de anatocismo não gera direito a repetição de
indébito se tal procedimento impactou apenas no valor do saldo devedor do contrato.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a analisar se uma vez reconhecida a prática de ilegal capitalização de juros nos contratos
de mútuo imobiliário regidos pelo Plano de Equivalência Salarial - PES, segurados pelo Fundo de Compensação
de Valorizações Salariais - FCVS, impõe-se que as diferenças apuradas sejam restituídas ao mutuário em
pecúnia, ou se elas deveriam ser abatidas do saldo devedor, o qual será quitado com recursos do FCVS. A ideia
por trás do PES é assegurar ao mutuário que as prestações pagas para a obtenção da casa própria mantenham-
se estáveis, seguindo sua evolução salarial. Já o saldo devedor, que deve ser amortizado a cada parcela paga,
sofre o reajuste pelos índices da poupança, devendo, ao final do contrato, ser realizado o encontro de contas.
Caso ainda exista algum valor residual, o FCVS entra como um seguro, quitando as diferenç[Link] entanto, este
descompasso de reajustes acaba determinando a seguinte anomalia: a parcela é insuficiente para amortizar os
juros e o saldo devedor, gerando uma diferença que é reincorporada ao principal. Como consequência, ao fim
do contrato, apesar da adimplência do mutuário, ele se depara com o fato de que o saldo residual alcança valor
maior que o principal contratado, ou mesmo do próprio imóvel adquirido.A Segunda Turma, ao se defrontar
com o tema, registrou que o afastamento da capitalização de juros não pode gerar benefício repetitório em favor
do mutuário, uma vez que as diferenças decorrentes desta operação devem compor o saldo devedor, o qual será
coberto pelo FCVS.Já o acórdão paradigma, prolatado pela Primeira Turma, em situação fática em muito
semelhante, concluiu que "O art. 23 da Lei n. 8.004/1990, não prevê que os valores eventualmente cobrados
com excesso sejam compensados com saldo devedor, mas, antes, restituídos ao mutuário, com redução nas
prestações vincendas imediatamente subsequentes ou, acaso findas as parcelas, em espécie, nos exatos termos
do aludido dispositivo legal" (REsp 848.855/RS, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 19/8/2008,
DJe 15/9/2008).O ponto fulcral do debate está em definir qual o efeito da prática de anatocismo no contrato de
financiamento imobiliário celebrado com a adoção do PES. Se o mutuário teve que arcar com prestações mensais
maiores, existirá, sim, o direito de repetição; contudo, se tal procedimento impactou apenas o valor do saldo
devedor, este deve ser reduzido e utilizado um montante menor do FCVS para a quitação do mútuo. De fato,
somente os valores efetivamente desembolsados pelo mutuário poderiam ensejar o direito de restituição.
(Informativo n. 686)

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SEGUNDA SEÇÃO
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PROCESSO EAREsp 1.459.849-ES, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, Segunda Seção,
por maioria, julgado em 14/10/2020, DJe 17/12/2020
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO DO CONSUMIDOR
TEMA Plano de saúde. Despesas médico-hospitalares realizadas fora da rede
credenciada. Reembolso. Restrição a situações excepcionais. Inexistência ou
insuficiência de estabelecimento ou profissional credenciado no local.
Urgência ou emergência do procedimento. Art. 12, VI da Lei n. 9.656/1998.
DESTAQUE
O reembolso das despesas médico-hospitalaes efetuadas pelo beneficiário com tratamento/atendimento de
saúde fora da rede credenciada pode ser admitido somente em hipóteses excepcionais, tais como a inexistência
ou insuficiência de estabelecimento ou profissional credenciado no local e urgência ou emergência do
procedimento.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A Segunda Seção, em apreciação aos embargos de divergência, pacificou o entendimento que encontrava
dissonância no âmbito do Tribunal com relação ao reembolso das despesas efetuadas pelo usuário do plano de
saúde fora da rede conveniada.À vista disso, constata-se que o acórdão embargado, proferido pela Quarta Turma
do STJ reformou o acórdão estadual sob o fundamento de que a jurisprudência desta Corte Superior entende
que o reembolso das despesas efetuadas pelo usuário do plano de saúde fora da rede conveniada somente é
admitido em casos excepcionais, conforme prevê o art. 12, VI, da Lei n. 9.656/[Link] sua vez, os acórdãos
paradigmas, proferidos pela Terceira Turma do STJ, entenderam que a exegese do artigo supracitado deve ser
extensiva, em homenagem aos princípios da boa-fé e da proteção da confiança nas relações [Link]
deixar assente que o contrato de plano de assistência à saúde, por definição, tem por objeto propiciar, mediante
o pagamento de um preço (consistente em prestações antecipadas e periódicas), a cobertura de custos de
tratamento médico e atendimentos médico, hospitalar e laboratorial perante profissionais, rede de hospitais e
laboratórios próprios ou [Link] forma, a estipulação contratual que vincula a cobertura contratada
aos médicos e hospitais de sua rede ou conveniados é inerente a esta espécie contratual e, como tal, não encerra,
em si, nenhuma abusividade.Não obstante, excepcionalmente, nos casos de urgência e emergência, em que não
se afigurar possível a utilização dos serviços médicos próprios, credenciados ou conveniados, a empresa de
plano de saúde, mediante reembolso, responsabiliza-se pelas despesas médicas expendidas pelo contratante em
tais condições, limitada, no mínimo, aos preços de serviços médicos e hospitalares praticados pelo respectivo
[Link]-se, pois, de garantia legal mínima conferida ao contratante de plano de assistência à saúde, a ser
observada, inclusive, no denominado plano-referência, de cobertura básica, de modo que não se pode falar em
ofensa ao princípio da proteção da confiança nas relações privadas, já que os beneficiários do plano estarão
sempre amparados, seja pela rede credenciada, seja por outros serviços de saúde quando aquela se mostrar
insuficiente ou se tratar de situação de urgência. (Informativo n. 684)

65
SEGUNDA TURMA
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PROCESSO REsp 1.722.423-RJ, Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, por
unanimidade, julgado em 24/11/2020, DJe 18/12/2020
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO CIVIL
TEMA Danos morais. Pessoa Jurídica de Direito Público. Credibilidade institucional
agredida. Dano reflexo sobre os demais jurisdicionados. Lesões
extrapatrimoniais. Condenação. Possibilidade jurídica.
DESTAQUE
Pessoa Jurídica de Direito Público tem direito à indenização por danos morais relacionados à violação da honra
ou da imagem, quando a credibilidade institucional for fortemente agredida e o dano reflexo sobre os demais
jurisdicionados em geral for evidente.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a determinar se é possível o INSS, pessoa jurídica de direito público, ser vítima de danos
[Link], Também não afasta a pretensão reparatória o argumento de que as pessoas que integram
o Estado não sofrem "descrédito mercadológico".O direito das pessoas jurídicas à reparação por dano moral não
exsurge apenas no caso de prejuízos comerciais, mas também nas hipóteses, mais abrangentes, de ofensa à
honra objetiva. Nesse plano, até mesmo entidades sem fins lucrativos podem se [Link], não se pode
afastar a possibilidade de resposta judicial à agressão perpetrada por agentes do Estado contra a credibilidade
institucional da autarquia, a qual implica em dano reflexo sobre os demais segurados da Previdência e os
jurisdicionados em geral é evidente, tudo consubstanciado por uma lesão de ordem extrapatrimonial.
(Informativo n. 684)

TERCEIRA TURMA
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PROCESSO REsp 1.878.041-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 25/05/2021, DJe 31/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
TEMA Guarda compartilhada. Genitores domiciliados em cidades distintas.
Possibilidade.
DESTAQUE
O fato de os genitores possuírem domicílio em cidades distintas não representa óbice à fixação da guarda
compartilhada.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Inicialmente, importa consignar que a guarda compartilhada não se confunde com a guarda alternada, tampouco
com o regime de visitas ou de convivência.
Com efeito, a guarda compartilhada impõe o compartilhamento de responsabilidades, não se confundindo com
a custódia física conjunta da prole ou com a divisão igualitária de tempo de convivência dos filhos com os pais.
De fato, nesta modalidade de guarda, é plenamente possível - e, até mesmo, recomendável - que se defina uma
residência principal para os filhos, garantindo-lhes uma referência de lar para suas relações da vida.

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Na guarda alternada, por outro lado, há a fixação de dupla residência, residindo a prole, de forma fracionada,
com cada um dos genitores por determinado período, ocasião em que cada um deles, individual e
exclusivamente, exercerá a guarda dos filhos.
Assim, é imperioso concluir que a guarda compartilhada não demanda custódia física conjunta, tampouco tempo
de convívio igualitário, sendo certo, ademais, que, dada sua flexibilidade, esta modalidade de guarda comporta
as fórmulas mais diversas para sua implementação concreta, notadamente para o regime de convivência ou de
visitas, a serem fixadas pelo juiz ou por acordo entre as partes em atenção às circunstâncias fáticas de cada
família individualmente considerada.
Portanto, não existe qualquer óbice à fixação da guarda compartilhada na hipótese em que os genitores residem
em cidades, estados, ou, até mesmo, países diferentes, máxime tendo em vista que, com o avanço tecnológico, é
plenamente possível que, à distância, os pais compartilhem a responsabilidade sobre a prole, participando
ativamente das decisões acerca da vida dos filhos.
A possibilidade de os genitores possuírem domicílios em cidades distintas infere-se da própria previsão contida
no § 3º do art. 1.583 do CC/2002, segundo o qual "na guarda compartilhada, a cidade considerada base de
moradia dos filhos será aquela que melhor atender aos interesses dos filhos". (Informativo n. 698)

PROCESSO REsp 1.875.223-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 25/05/2021, DJe 31/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Direito de preferência. Art. 502 do CC/2002. Requisitos. Art. 504 do CC/2002.
Depósito do preço do bem. Tomada de empréstimo. Abuso de direito.
Inocorrência.
DESTAQUE
A tomada de empréstimo para cumprimento do requisito do depósito do preço do bem, previsto no art. 504 do
CC/2002, não configura abuso de direito hábil a tolher o exercício do direito de preferência.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O art. 504 do CC/2002 enumera taxativamente requisitos a serem observados para o exercício do direito de
preferência: i) a indivisibilidade da coisa; ii) a ausência de prévia ciência, pelo condômino preterido acerca da
venda realizada a estranho; iii) o depósito do preço, que deve ser idêntico àquele que fora pago pelo estranho
na aquisição; e iv) a observância do prazo decadencial de 180 (cento e oitenta) dias.
A origem do dinheiro utilizado para o depósito do preço do bem não tem qualquer relevância para o exercício
do direito de preferência.
No caso, verifica-se que a Corte local concluiu, com base unicamente nos fatos de que a parte não possuía
patrimônio para fazer frente à aquisição do bem e de que o empréstimo realizado ocorreu sem a prestação de
qualquer garantia ou comprovação de renda, que teria havido suposto abuso de direito no exercício do direito
de preferência.
Tais fundamentos, contudo, não são suficientes para, por si sós, tolher o exercício do direito de preferência da
parte que prestou observância aos requisitos exigidos pelo art. 504 do CC/2002. Ademais, a comprovação de
renda e/ou prestação de garantia pelo mutuário integram a esfera de faculdade do mutuante ao contratar.
(Informativo n. 697)

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PROCESSO REsp 1.741.716-SP, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, Terceira
Turma, por maioria, julgado em 25/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Pensão alimentícia. Percentual sobre os rendimentos líquidos. Horas extras.
Base de cálculo. Integração.
DESTAQUE
O valor recebido a título de horas extras integra a base de cálculo da pensão alimentícia fixada em percentual
sobre os rendimentos líquidos do alimentante.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Consoante a doutrina e a jurisprudência nacional, os alimentos devem ser fixados de acordo com o binômio
necessidade/possibilidade, atendendo às peculiaridades do caso concreto.
No que tange à possibilidade de pagamento do devedor de alimentos, especificamente, quanto à incidência das
horas extras, verifica-se que há entendimento no âmbito da Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça no
sentido de que os valores pagos a título de horas extras devem ser incluídos na verba alimentar.
No julgamento do Recurso Especial 1.098.585/SP, de relatoria do Ministro Luis Felipe Salomão, a Quarta Turma,
por maioria, entendeu que as horas extras têm caráter remuneratório e o acréscimo patrimonial delas advindo
consubstancia aumento superveniente nas possibilidades do alimentante, o que autoriza a incidência dos
alimentos.
Soma-se a isso, que por ocasião do julgamento do Recurso Especial 1.358.281/SP, processado sob o rito do art.
543-C do CPC/1973, de relatoria do Min. Herman Benjamim, a Primeira Seção do STJ reafirmou o entendimento
no sentido de que o adicional de horas extras possui caráter remuneratório.
Assim, o valor recebido pelo alimentante a título de horas extras possui natureza remuneratória, integrando a
base de cálculo dos alimentos fixados em percentual sobre os rendimentos líquidos do devedor. (informativo
n. 698)

PROCESSO REsp 1.837.219-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 25/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL
TEMA Propriedade intelectual. Cultivares. Contrato de licença. Royalties. Cobrança.
Prazo prescricional quinquenal.
DESTAQUE
A pretensão de cobrança de royalties decorrentes de contrato de licenciamento de uso de cultivares possui prazo
prescricional quinquenal.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A Lei n. 9.456/1997 instituiu o sistema de proteção de cultivares, consolidando a proteção intelectual no setor
de melhoramento vegetal e garantindo aos melhoristas de plantas sua exploração comercial exclusiva pelo
prazo legal.
Nesse contexto, o produtor precisará obter autorização do titular do direito para multiplicar o material
vegetativo, o que se dá por concessão de autorização ou licença de uso mediante o pagamento de royalties.
Cumpre esclarecer que para que surja a obrigação de pagar royalties é necessário que o proprietário tenha
autorizado o uso de sua cultivar. O uso de cultivar sem licença enseja a indenização por utilização indevida e
não o pagamento de royalties.
O contrato de licença deve descrever o objeto e os limites de autorização de uso, a forma de cálculo e o modo de
pagamento da contraprestação.

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Existe mais de uma maneira de calcular o valor da contraprestação pela utilização de cultivar: levando-se em
conta um período de tempo para o uso, a área plantada, ou o volume, que pode corresponder a unidades, quilos
e litros. Nas últimas hipóteses, a liquidação da obrigação vai depender das informações prestadas pelo
licenciado quanto às quantidades utilizadas para a composição do valor devido, na forma do contrato.
A Lei n. 9.456/1997 não cuida do contrato de licença de uso, nem tampouco do prazo prescricional para a ação
de cobrança de royalties. Além disso, não prevê a aplicação subsidiária de outro regramento de modo que para
regular a prescrição deve ser aplicada a norma geral, isto é, o Código Civil. Entretanto, somente no caso de não
haver disciplina específica é que irá incidir o prazo geral decenal.
No caso, contudo, a apuração do valor devido depende de meros cálculos aritméticos. Assim, a pretensão é de
recebimento de dívida líquida constante de instrumento particular. Nesse contexto, deve ser aplicado o prazo
quinquenal de que trata o artigo 206, § 5º, I, do Código Civil. (Informativo n. 698)

PROCESSO REsp 1.862.902-SC, Rel. Min. Nancy Andrighi, Rel. Acd. Min. Paulo de
Tarso Sanseverino, Terceira Turma, por maioria, julgado em
18/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Alienação fiduciária de imóvel. Lei n. 9.514/1997. Taxa de ocupação. Termo
inicial. Data da alienação do imóvel em leilão.
DESTAQUE
O termo inicial da exigibilidade da taxa de ocupação de imóvel alienado fiduciariamente em garantia, conforme
previsão da redação originária do art. 37-A da Lei 9.514/97, inicia-se após a data da alienação em leilão e, em
casos excepcionais, a partir da data da consolidação da propriedade do imóvel pelo credor.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a saber se o termo inicial da exigibilidade da taxa de ocupação de imóvel alienado
fiduciariamente em garantia tem início desde a consolidação da propriedade ou da arrematação do imóvel.
O fundamento para que a taxa de ocupação não incida no período anterior à alienação em toda e qualquer
situação é que a propriedade fiduciária não se equipara à propriedade plena, por estar vinculada ao propósito
de garantia da dívida, conforme expressamente dispõe o art. 1.367 do Código Civil.
Por essa razão, o titular da propriedade fiduciária não goza de todos os poderes inerentes ao domínio.
Efetivamente, não se reconhece ao proprietário fiduciário os direitos de usar (jus utendi) e de fruir (jus fruendi)
da coisa, restando-lhe apenas os direitos de dispor da coisa (jus abutendi) e de reavê-la de quem injustamente a
possua (rei vindicatio). Essa limitação de poderes se mantém após a consolidação da propriedade em favor do
credor fiduciário, pois essa consolidação se dá exclusivamente com o propósito satisfazer a dívida.
Com efeito, o direito do credor se limita ao crédito, sendo a garantia (ainda que por meio de alienação fiduciária)
um mero acessório, não podendo o credor se apropriar, simultaneamente, do crédito e da coisa dada em
garantia, sob pena de bis in idem e enriquecimento sem causa. Sob outro ângulo, cabe destacar que a lei impõe
um rito célere à alienação extrajudicial, de modo que o primeiro leilão deva ser realizado no prazo de 30 (trinta)
dias após o registro da consolidação da propriedade, conforme previsto no art. 27 da Lei 9.514/97,
independentemente da desocupação do imóvel.Há, portanto, no referido art. 27 um fundamento de boa-fé
objetiva, especificamente concretizada no preceito "duty to mitigate the loss".
Relembre-se, no caso, que o financiamento imobiliário possui acentuado caráter social, na medida em que visa
facilitar o acesso da população à moradia, um direito fundamental previsto na Constituição.
Noutro norte, é certo que a boa-fé também impõe deveres ao mutuário, como o de desocupar o imóvel, caso não
tenha purgado tempestivamente a mora. Porém, a violação desse dever impõe perdas potenciais ao próprio
mutuário, não à instituição financeira, que já é remunerada pelos encargos contratuais.
Desse modo, por qualquer ângulo que se aborde a questão (legalidade estrita, natureza da propriedade
fiduciária ou boa-fé objetiva), impõe-se concluir que a taxa de ocupação, em regra, incidirá após a alienação do
imóvel. Em sendo frustrado o primeiro leilão, a lei prevê a realização de um segundo leilão no prazo de 15 dias,
após o qual a dívida será extinta compulsoriamente, exonerando-se ambas as partes de suas obrigações.

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Ora, havendo extinção da dívida, o imóvel deixa de estar afetado ao propósito de garantia, passando a integrar
o patrimônio do credor de forma plena, o que se assemelha a uma adjudicação. A partir de então, o credor passa
a titularizar todos os poderes inerentes ao domínio, fazendo jus aos frutos imóvel, inclusive na forma da taxa de
ocupação.
Quando hipótese especial ocorre, ou seja, quando inexistente a alienação do bem, senão a sua adjudicação, o art.
37-A merece interpretação analógica, tomando-se em vez de arrematação, que não houve, a adjudicação como
termo inicial. Do mesmo modo, quando o devedor obtém a suspensão judicial dos leilões que, assim, do mesmo
modo, não ocorrem, postergando de modo indevido a reintegração do credor, justifica-se, aí sim, a incidência da
taxa de ocupação antes da alienação/adjudicação, pois se está a indenizar o credor fiduciante pelo período de
indevido alijamento da posse do imóvel.
Com efeito, a fixação do termo a quo da taxa de ocupação na data da consolidação da propriedade do imóvel
decorre da precária suspensão obtida pelo mutuário dos leilões do imóvel e pelo período dilargado, assim, de
indevida posse do bem, mas esta não deve ser a interpretação a ser extraída, de regra, do art. 37-A da Lei
9.514/97, senão em casos excepcionais. (Informativo n. 697)

PROCESSO REsp 1.909.459-SC, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 18/05/2021, DJe 20/05/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC). Contrato de cessão de
crédito. Solvência do devedor. Responsabilidade do cedente. Cessão de crédito
pro solvendo. Cláusula contratual. Validade.
DESTAQUE
É valida a cláusula contratual inserida em contrato de cessão de crédito celebrado com um FIDC que consagra a
responsabilidade do cedente pela solvência do devedor (cessão de crédito pro solvendo).
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) são regulamentados pela Comissão de Valores
Mobiliários (CVM), que editou a Instrução Normativa n. 356/2001. São constituídos sob a forma de condomínios
abertos ou fechados (art. 3º, I, da IN n. 356/2001 da CVM), sem personalidade jurídica, e atuam no mercado de
capitais e são utilizados para a captação de recursos.
A aquisição de direitos creditórios pelos FIDCs pode se dar de duas formas: por meio (i) de cessão civil de
crédito, em conformidade às normas consagradas no Código Civil; ou (ii) de endosso, ato típico do regime
cambial.
Nesse contexto, o art. 2º, XV, da IN n. 356/2001 da CVM prevê expressamente o conceito de coobrigação. É certo
que tal previsão foi incluída na normativa com a finalidade de referendar a higidez da cláusula constante de
contrato de cessão de crédito convencionado com um FIDC, por meio da qual o cedente garante a solvência do
devedor.
Em outras palavras, seria um contrassenso concluir pela invalidade dessa espécie de disposição contratual
quando a própria entidade responsável pela regulamentação e fiscalização dos FIDCs fez constar expressamente
da normativa que os regulamenta esse conceito.
Ainda que tal previsão inexistisse, a conclusão permaneceria inalterada, pelos seguintes motivos: (i) não há, no
ordenamento jurídico brasileiro, previsão legal que vede os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios de
estipular a responsabilidade do cedente pelo pagamento do débito em caso de inadimplemento do devedor e
(ii) o art. 296 do CC/02 preceitua que "salvo estipulação em contrário, o cedente não responde pela solvência
do devedor". Ou seja, o cedente apenas ficará incumbido do pagamento da dívida se houver previsão contratual.
Sendo assim, é válida a estipulação, pelo FIDC, de cessão de crédito pro solvendo. (Informativo n. 697)

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PROCESSO REsp 1.609.701-MG, Rel. Min. Moura Ribeiro, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 18/05/2021, DJe 20/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL
TEMA Alimentos. Prévio acordo extrajudicial. Validade. Posterior ação de alimentos.
Cabimento. Interesse processual. Existência. Teoria da asserção. Melhor
interesse da criança. Prevalência.
DESTAQUE
É cabível o ajuizamento de ação de alimentos, ainda que exista acordo extrajudicial válido com o mesmo objeto,
quando o valor da pensão alimentícia não atende aos interesses da criança.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia reside em saber se há interesse processual no ajuizamento de ação de alimentos, considerando
a existência de anterior acordo extrajudicial com o mesmo objeto, considerado válido e eficaz pela instância
ordinária, formalizado no Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania - CEJUS.
Como é sabido, as condições da ação, dentre elas, o interesse processual, definem-se da narrativa formulada na
inicial, não da análise do mérito da demanda, motivo pelo qual não se recomenda ao julgador, na fase
postulatória, se aprofundar no exame de tais preliminares.
É o que diz a teoria da asserção, adotada pela jurisprudência desta eg. Corte Superior, que já proclamou que os
fatos narrados na inicial constituem meras alegações de modo que, nesse momento, as condições da ação, dentre
elas o interesse processual, devem ser avaliadas in status assertionis, ou seja, de forma abstrata, à luz
exclusivamente da narrativa constante na inicial, sem o aprofundamento na matéria de mérito e dispensando
qualquer atividade probatória.
No caso, a pretensão deduzida na ação de alimentos fundou-se especificamente no argumento de que o valor
acordado a título de alimentos não atendia às necessidades básicas e era prejudicial à alimentada, não se
questionando sobre a validade formal do acordo.
Tal afirmativa se coaduna com o leitura dos fundamentos da petição inicial de alimentos, cuja causa de pedir e
pedido estão relacionados diretamente com a insuficiência do valor da pensão alimentícia paga pelo genitor
para atender as necessidades do infante (binômio necessidade/possibilidade), com o acréscimo de que a
genitora deste recusou o acordo antes da sua homologação.
Deve-se buscar conferir efetividade aos princípios do melhor interesse e da proteção integral do menor e do
adolescente, e, principalmente da dignidade da pessoa humana consagrados na ordem constitucional de
maneira que o trabalho interpretativo do magistrado, na solução de causa dessa natureza, seja guiado pelas
linhas mestras do sistema constitucional, pelos seus princípios, suas garantias e suas normas valorativas.
Nesse trilhar, é de se ter em mente que a questão envolve, não somente o interesse patrimonial, mas também a
dignidade da infante, que é sujeito de direitos, e não objeto, deve receber alimentos, ao menos, suficientes para
o atendimento das suas necessidades básicas, que são presumidas, considerando a sua pouca idade (atualmente
com 10 anos).
Nesta toada, conclui-se que o arrependimento e a insatisfação com os termos da avença realizada no CEJUSC,
porque não atenderia interesse indisponível e a ela teria sido prejudicial, em tese, caracterizou, sim, potencial
interesse processual. Ademais, o alegado prejuízo se confunde com o próprio mérito da ação, que se mostra
adequada para a pretensão buscada. (Informativo n. 697)

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PROCESSO REsp 1.475.477-MG, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 18/05/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Contrato de sublocação firmado entre distribuidora de combustíveis e posto
de revenda. Contratos coligados. Manutenção da natureza jurídica. Lei n.
8.245/1991 (Lei de locações). Aplicabilidade.
DESTAQUE
Os pactos adjacentes coligados ao contrato de sublocação comercial não retira a aplicabilidade da Lei n.
8.245/1991.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
No caso, as partes firmaram um "Contrato de Sublocação de Posto de Serviço", por meio do qual a parte locou o
imóvel com equipamentos nele instalados para operação de posto de gasolina e diversos pactos subjacentes à
locação, tais como a utilização da marca da distribuidora de combustíveis, à qual foi assegurado o direito de
escolha dos locais de colocação dos letreiros e anúncios para divulgação de seus produtos, a cláusula de
exclusividade e a cota mínima de aquisição de produtos.
Os contratos mistos podem ser definidos como aqueles resultantes da junção de elementos específicos de
contratos diversos, levando à criação de um contrato singular, com características próprias e inconfundíveis em
relação aos contratos reunidos, ou seja, os elementos dos contratos distintos se unem, perdendo sua autonomia,
para formarem um contrato novo.
A questão fundamental quanto aos contratos mistos é determinar qual a sua disciplina jurídica, de modo que,
para resolver o impasse, a doutrina especializada propõe 3 (três) soluções: a) teoria da combinação, na qual há
decomposição de cada contrato que formou o misto, com aplicação da respectiva norma; b) teoria da absorção,
a qual estabelece que todo contrato misto possui uma espécie contratual que prepondera sobre as demais, de
maneira que suas normas é que regerão toda a relação jurídica; e c) teoria analógica, segundo a qual a tarefa do
intérprete é procurar o contrato típico do qual mais se aproxima o contrato atípico em análise, com vistas a se
aplicar a norma que disciplina aquele.
Por sua vez, nos contratos coligados ou conexos há uma justaposição de modalidades diversas de contratos, de
tal forma que cada um destes mantém sua autonomia, preservando suas características próprias, haja vista que
o objetivo da junção desses contratos é possibilitar uma atividade econômica específica, isto é, há uma mera
combinação de contratos completos com um propósito econômico específico.
Diversamente dos contratos mistos, a coligação de contratos não implica, em regra, muitas dificuldades no que
tange ao direito aplicável à espécie, exatamente por não perderem sua individualidade, devendo ser observado
o conjunto de regras próprias dos modelos ajustados.
É notório que as relações jurídicas para a comercialização de derivados de petróleo possuem uma complexidade
diferenciada e envolvem, via de regra, valores consideráveis, o que justifica a coligação de diversos contratos
típicos para formação de um instrumento robusto e seguro que possa regular de forma satisfatória o negócio
jurídico e viabilize a finalidade econômica pretendida.
Assim, o fato de o contrato de sublocação possuir outros pactos adjacentes não retira sua autonomia nem o
desnatura, notadamente quando as outras espécies contratuais a ele se coligam com o único objetivo de
concretizar e viabilizar sua finalidade econômica, de modo que as relações jurídicas dele decorrentes serão
regidas pela Lei n. 8.245/1991.
Dessa forma, não se pode afastar a incidência da referida lei, pois há apenas uma justaposição dos contratos
coligados, aplicando-se a norma de cada um deles de forma harmônica, ou seja, havendo o inadimplemento dos
aluguéis, abre-se a possibilidade de a locadora ajuizar a ação de despejo, da mesma forma que, se houvesse, por
exemplo, a mora no pagamento dos produtos adquiridos em virtude do contrato de compra e venda, seriam
aplicáveis as regras específicas desse instituto jurídico, com a possibilidade de propositura da competente ação
de cobrança. (Informativo n. 697)

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PROCESSO REsp 1.745.407-SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma,
julgado em 11/05/2021, DJe 14/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Compromisso de compra e venda. Imóvel em loteamento. Ação de rescisão
contratual c/c reintegração de posse. Pretensão de resolução contratual.
Constituição em mora. Intimação através de carta com aviso de recebimento.
Recibo assinado pelo devedor. Validade.
DESTAQUE
A constituição em mora para fins de rescisão de contrato de compromisso de compra e venda de imóvel em
loteamento, sujeito à disciplina da Lei n. 6.766/1979, pode se dar por carta com aviso de recebimento, desde
que assinado o recibo pelo próprio devedor, nos termos do art. 49 da norma mencionada.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O propósito recursal consiste em esclarecer se a intimação prevista no art. 32 da Lei n. 6.766/1979 - a fim de
constituir em mora o devedor e, posteriormente, rescindir o contrato de compromisso de compra e venda de
imóvel loteado - pode ser realizada através de carta com aviso de recebimento.
Convém registrar que a Lei n. 6.766/1979 (regente do parcelamento do solo urbano) preconiza, em seu art. 32,
que, "vencida e não paga a prestação, o contrato será considerado rescindido 30 (trinta) dias depois de
constituído em mora o devedor". Complementa, no § 1º do respectivo dispositivo legal, que para se dar
concretude ao disposto no caput deve ser intimado o devedor/adquirente do imóvel, "a requerimento do credor,
pelo Oficial do Registro de Imóveis, a satisfazer as prestações vencidas e as que se vencerem até a data do
pagamento, os juros convencionados e as custas de intimação".
Assim, para a resolução contratual, reputa-se imprescindível a prévia interpelação do devedor, conforme
assentado no § 1º, sendo necessário, ato contínuo, examinar o modo pelo qual deve se realizar essa notificação.
Acerca da temática, é consabido que essa intimação deve se realizar através do Oficial de Registro de Imóveis,
segundo a literalidade do art. 32, § 1º, acima mencionado. Entretanto, esse requisito não se mostra absoluto,
pois a própria lei prevê expressamente que as intimações e notificações nela previstas "deverão ser feitas
pessoalmente ao intimado ou notificado, que assinará o comprovante do recebimento, e poderão igualmente
ser promovidas por meio dos Cartórios de Registro de Títulos e Documentos da Comarca da situação do imóvel
ou do domicílio de quem deva recebê-las" (art. 49, caput). Em caráter residual, admite até mesmo a intimação
ou notificação através de edital (art. 49, § 2º).
A exegese que se extrai da leitura conjunta dos arts. 32 e 49 da Lei n. 6.766/1979 denota a intenção do legislador
de que a notificação seja feita pessoalmente ao devedor, para que este tenha ciência inequívoca de sua mora e
da consequência perniciosa que dela resulta (qual seja, a resolução do contrato com o retorno ao estado anterior
das partes, implicando a perda do imóvel), bem como dos exatos termos para purgação, a exemplo do prazo e
dos valores para pagamento.
Partindo dessa premissa, não há óbice para que se efetue a intimação por outros meios que demonstrem
claramente a constituição em mora do devedor, com a sua ciência indubitável da situação de inadimplência, da
possibilidade de rescisão contratual e da forma pela qual podem ser elididos os efeitos da mora.
Assim, tem-se como hábil à constituição em mora do devedor, para fins do disposto no art. 32 da Lei n.
6.766/1979, a intimação através de carta remetida pelo correio com aviso de recebimento, em que o recibo
tenha sido assinado pelo devedor, de forma a comprovar a sua ciência inequívoca acerca dos termos da
inadimplência, em conformidade com o teor do art. 49 dessa lei.
Cumpre destacar que, em situação semelhante, o legislador admite expressamente a intimação, através de carta
com aviso de recebimento, para a constituição em mora do devedor fiduciante de coisa imóvel (art. 26, caput e
§§ 1º a 3º, da Lei n. 9.514/1997). Não sendo purgada a mora devida e oportunamente, consolida-se a
propriedade fiduciária em favor do credor fiduciário (art. 26, § 7º, da Lei n. 9.514/1997), implicando a rescisão
contratual e a perda da posse do imóvel para o credor, assim como prevê a Lei n. 6.766/1979, ressalvadas as
respectivas particularidades.

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Portanto, a purgação da mora para fins de rescisão de contrato de compromisso de compra e venda de imóvel
em loteamento, sujeito à disciplina da Lei n. 6.766/1979, pode se dar mediante intimação realizada pelo Oficial
do Cartório do Registro de Imóveis (art. 32), pelo Oficial do Cartório do Registro de Títulos e Documentos (art.
49) ou por carta com aviso de recebimento, desde que assinado o recibo pelo próprio devedor, esta última
hipótese decorrente da exegese do citado art. 49. (Informativo n. 696)

PROCESSO REsp 1.904.498-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado
em 04/05/2021, DJe 06/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Modificação do regime de bens de casamento. Interpretação do art. 1.639, §
2º, do CC. Exigência da apresentação de relação discriminada dos bens dos
cônjuges. Desnecessidade. Ausência de verificação de indícios de prejuízos aos
consortes ou a terceiros. Preservação da intimidade e da vida privada.
DESTAQUE
A apresentação da relação pormenorizada do acervo patrimonial do casal não é requisito essencial para
deferimento do pedido de alteração do regime de bens.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
De acordo com a jurisprudência consolidada desta Corte Superior, é possível a modificação do regime de bens
escolhido pelo casal - autorizada pelo art. 1.639, § 2º, do CC/2002 - ainda que o casamento tenha sido celebrado
na vigência do Código Civil anterior. Para tanto, estabelece a norma precitada que ambos os cônjuges devem
formular pedido motivado, cujas razões devem ter sua procedência apurada em juízo, resguardados os direitos
de terceiros.
A melhor interpretação que se pode conferir ao referido artigo é aquela no sentido de não se exigir dos cônjuges
justificativas ou provas exageradas, sobretudo diante do fato de a decisão que concede a modificação do regime
de bens operar efeitos ex nunc.
Isso porque, na sociedade conjugal contemporânea, estruturada de acordo com os ditames assentados na
Constituição de 1988, devem ser observados - seja por particulares, seja pela coletividade, seja pelo Estado - os
limites impostos para garantia da dignidade da pessoa humana, dos quais decorrem a proteção da vida privada
e da intimidade, sob o risco de, em situações como a que ora se examina, tolher indevidamente a liberdade dos
cônjuges no que concerne à faculdade de escolha da melhor forma de condução da vida em comum.
Destarte, no particular, considerando a presunção de boa-fé que beneficia os consortes e a proteção dos direitos
de terceiros conferida pelo dispositivo legal em questão, bem como que os recorrentes apresentaram
justificativa plausível à pretensão de mudança de regime de bens e acostaram aos autos farta documentação
(certidões negativas das Justiças Estadual e Federal, certidões negativas de débitos tributários, certidões
negativas da Justiça do Trabalho, certidões negativas de débitos trabalhistas, certidões negativas de protesto e
certidões negativas de órgãos de proteção ao crédito), revela-se despicienda a juntada da relação
pormenorizada de seus bens. (Informativo n. 695)

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PROCESSO REsp 1.905.614-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 04/05/2021, DJe 06/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Atribuição de nome ao filho. Poder familiar. Bilateralidade e consensualidade.
Autotutela. Inadmissão. Ato do pai que, desrespeitando consenso dos
genitores, acresce unilateralmente prenome à criança por ocasião do registro.
Deveres de lealdade e boa-fé. Violação. Ato ilícito. Configuração. Exercício
abusivo do poder de família. Exclusão do prenome indevidamente acrescido.
Ausência de comprovação da má-fé, intuito de vingança ou propósito de
atingir à genitora. Irrelevância. Conduta censurável em si mesma.
DESTAQUE
É admissível a exclusão de prenome da criança na hipótese em que o pai informou, perante o cartório de registro
civil, nome diferente daquele que havia sido consensualmente escolhido pelos genitores.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O direito ao nome é um dos elementos estruturantes dos direitos da personalidade e da dignidade da pessoa
humana, pois diz respeito à própria identidade pessoal do indivíduo, não apenas em relação a si, como também
em ambiente familiar e perante a sociedade.
Conquanto a modificação do nome civil seja qualificada como excepcional e as hipóteses em que se admite a
alteração sejam restritivas, esta Corte tem reiteradamente flexibilizado essas regras, permitindo-se a
modificação se não houver risco à segurança jurídica e a terceiros.
Nomear o filho é típico ato de exercício do poder familiar, que pressupõe bilateralidade, salvo na falta ou
impedimento de um dos pais, e consensualidade, ressalvada a possibilidade de o juiz solucionar eventual
desacordo entre eles, inadmitindo-se, na hipótese, a autotutela.
O ato do pai que, conscientemente, desrespeita o consenso prévio entre os genitores sobre o nome a ser de dado
ao filho, acrescendo prenome de forma unilateral por ocasião do registro civil, além de violar os deveres de
lealdade e de boa-fé, configura ato ilícito e exercício abusivo do poder familiar, sendo motivação bastante para
autorizar a exclusão do prenome indevidamente atribuído à criança.
É irrelevante apurar se o acréscimo unilateralmente promovido pelo genitor por ocasião do registro civil da
criança ocorreu por má-fé, com intuito de vingança ou com o propósito de, pela prole, atingir à genitora,
circunstâncias que, se porventura verificadas, apenas servirão para qualificar negativamente a referida conduta.
(Informativo n. 695)

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PROCESSO REsp 1.711.412-MG, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 04/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO EMPRESARIAL
TEMA Contrato de factoring. Cláusula de responsabilização da faturizada pela
solvência dos créditos cedidos à faturizadora. Emissão de nota promissória
para garantia da operação. Princípio da autonomia da vontade. Art. 296 do
Código Civil. Impossibilidade. Vulneração da própria natureza do contrato.
Aval aposto nas notas promissórias. Insubsistência. Interpretação do art. 899,
§ 2º, do Código Civil.
DESTAQUE
A empresa faturizada não responde pela insolvência dos créditos cedidos, sendo nulos a disposição contratual
em sentido contrário e eventuais títulos de créditos emitidos com o fim de garantir a solvência dos créditos
cedidos no bojo de operação de factoring.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O contrato de factoring não se subsume a uma simples cessão de crédito, contendo, em si, ainda, os serviços
prestados pela faturizadora de gestão de créditos e de assunção dos riscos advindos da compra dos créditos da
empresa faturizada. O risco advindo dessa operação de compra de direitos creditórios, consistente justamente
na eventual inadimplência do devedor/sacado, constitui elemento essencial do contrato de factoring, não
podendo ser transferido à faturizada/cedente, sob pena de desnaturar a operação de fomento mercantil em
exame.
A natureza do contrato de factoring, diversamente do que se dá no contrato de cessão de crédito puro, não dá
margem para que os contratantes, ainda que sob o signo da autonomia de vontades que regem os contratos em
geral, estipulem a responsabilidade da cedente (faturizada) pela solvência do devedor/sacado. Por consectário,
a ressalva constante no art. 296 do Código Civil - in verbis: "Salvo estipulação em contrário, o cedente não
responde pela solvência do devedor" - não tem nenhuma aplicação no contrato de factoring.
Ratificação do posicionamento prevalecente no âmbito desta Corte de Justiça, segundo o qual, no bojo do
contrato de factoring, a faturizada/cedente não responde, em absoluto, pela insolvência dos créditos cedidos,
afigurando-se nulos a disposição contratual nesse sentido e eventuais títulos de créditos emitidos com o fim de
garantir a solvência dos créditos cedidos no bojo de operação de factoring, cujo risco é integral e exclusivo da
faturizadora.
Importante registrar que, a despeito da absoluta impossibilidade de a faturizada responder pela solvência dos
títulos transferidos, em virtude da natureza da operação de factoring, a cedente (faturizada) responde, sim, pela
existência do crédito, ao tempo em que lhe cedeu (pro soluto). Não se têm dúvidas, assim, que a faturizada se
responsabiliza, por exemplo, pelo saque, fraudulento, da chamada "duplicata fria", sem causa legítima
subjacente.
No caso, as notas promissórias, que dão supedâneo à ação executiva, foram emitidas pela faturizada, por
imposição contratual, para o propósito exclusivo de garantir a solvência dos créditos cedidos no âmbito do
contrato de factoring, o que, como assentando, não se afigura possível, por vulnerar a própria natureza do ajuste.
No mais, frisa-se que a obrigação assumida pelo avalista, responsabilizando-se solidariamente pela obrigação
contida no título de crédito é, em regra, autônoma e independente daquela atribuída ao devedor principal. O
avalista equipara-se ao avalizado, em obrigações.
Sem descurar da autonomia da obrigação do avalista, assim estabelecida por lei, com relevante repercussão nas
hipóteses em que há circulação do título, deve-se assegurar ao avalista a possibilidade de opor-se à cobrança,
com esteio nos vícios que inquinam a própria relação originária (engendrada entre credor e o avalizado),
quando, não havendo circulação do título, o próprio credor, imbuído de má-fé, é o responsável pela extinção,
pela nulidade ou pela inexistência da obrigação do avalizado.

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É de se reconhecer, para a hipótese em análise, em que não há circulação do título, a insubsistência do aval
aposto nas notas promissórias emitidas para garantir a insolvência dos créditos cedidos em operação de
factoring. Afinal, em atenção à impossibilidade de a faturizada/cedente responder pela insolvência dos créditos
cedidos, afigurando-se nula a disposição contratual nesse sentido, a comprometer a própria existência de
eventuais títulos de créditos emitidos com o fim de garantir a operação de fomento mercantil, o aval ali inserido
torna-se, de igual modo, insubsistente.
Esta conclusão, a um só tempo, obsta o enriquecimento indevido por parte da faturizadora, que sabe ou deveria
saber não ser possível transferir o risco da operação de factoring que lhe pertence com exclusividade, e não
compromete direitos de terceiros, já que não houve circulação dos títulos em comento. (Informativo n. 695)

PROCESSO REsp 1.927.496/SP, Rel. Min. Moura Ribeiro, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 27/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Negócio jurídico simulado. Nulidade. Reconhecimento em sede de embargos
de terceiro. Cabimento.
DESTAQUE
A nulidade de negócio jurídico simulado pode ser reconhecida no julgamento de embargos de terceiros.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
De início, destaca-se que não se desconhece o enunciado da Súmula 195 desta Corte (em embargos de terceiro
não se anula ato jurídico, por fraude contra credores). Porém, este enunciado é anterior ao Código Civil de 2002.
É sabido que o Código Civil em vigor alçou a simulação como causa de nulidade (não de anulabilidade), do
negócio jurídico e, dessa forma, como regra de ordem pública que é, pode ser declarada até mesmo de ofício
pelo juiz da causa (art. 168, parágrafo único, do CC/2002).
Nesse sentido, o art. 167 do CC/2002 é claro ao prescrever que é nulo o negócio jurídico simulado, mas
subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma.
Essa, inclusive, foi a conclusão firmada no Enunciado 294 da IV Jornada de Direito Civil promovida pelo
Conselho da Justiça Federal quando pontuou que: sendo a simulação uma causa de nulidade do negócio jurídico,
pode ser alegada por uma das partes contra a outra.
Dessa forma, é desnecessário oajuizamento de ação específica para se declarar a nulidade de negócio jurídico
simulado, não havendo como se restringir o seu reconhecimento em embargos de terceiros. (Informativo n.
694)

PROCESSO REsp 1.927.423/SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 27/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Pessoas com enfermidade ou deficiência mental. Incapacidade absoluta.
Inocorrência. Curatela. Excepcionalidade. Proporcionalidade. Caso concreto.
DESTAQUE
É inadmissível a declaração de incapacidade absoluta às pessoas com enfermidade ou deficiência mental.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A questão consiste em definir se, à luz das alterações promovidas pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência,
quanto ao regime das incapacidades, reguladas pelos arts. 3º e 4º do Código Civil, é possível declarar como
absolutamente incapaz adulto que, por causa permanente, encontra-se inapto para gerir sua pessoa e
administrar seus bens de modo voluntário e consciente.
A Lei n. 13.146/2015 tem por objetivo assegurar e promover a inclusão social das pessoas com deficiência
física ou psíquica e garantir o exercício de sua capacidade em igualdade de condições com as demais pessoas.

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A partir da entrada em vigor da referida lei, a incapacidade absoluta para exercer pessoalmente os atos da
vida civil se restringe aos menores de 16 (dezesseis) anos, ou seja, o critério passou a ser apenas etário, tendo
sido eliminadas as hipóteses de deficiência mental ou intelectual anteriormente previstas no Código Civil.
Sob essa perspectiva, o art. 84, § 3º, da Lei n. 13.146/2015 estabelece que o instituto da curatela pode ser
excepcionalmente aplicado às pessoas portadoras de deficiência, ainda que agora sejam consideradas
relativamente capazes, devendo, contudo, ser proporcional às necessidades e às circunstâncias de cada caso
concreto. (Informativo n. 694)

PROCESSO REsp 1.692.938/SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 27/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO DO CONSUMIDOR
TEMA Plano de saúde. Medicamento de uso domiciliar. Custeio. Operadora. Não
obrigatoriedade. Antineoplásico oral. Não caracterização. Limitação lícita.
Contrato acessório de medicação de uso domiciliar. Possibilidade. Assistência
farmacêutica. SUS. Política pública. Remédios de alto custo. Relação nacional
de medicamentos essenciais (RENAME).
DESTAQUE
É lícita a exclusão, na Saúde Suplementar, do fornecimento de medicamentos para tratamento domiciliar,
salvo os antineoplásicos orais (e correlacionados), a medicação assistida (home care) e os incluídos no rol da
Agência Nacional de Saúde para esse fim.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a definir se medicamento de uso domiciliar, e não enquadrado como antineoplásico
oral, é de cobertura obrigatória pelo plano de saúde.
Os medicamentos receitados por médicos para uso doméstico e adquiridos comumente em farmácias não
estão, em regra, cobertos pelos planos de saúde, porquanto a obrigatoriedade de custeio dos fármacos, na Saúde
Suplementar, se dá durante a internação hospitalar (abrangido o home care), na quimioterapia oncológica
ambulatorial, na hipótese de antineoplásicos orais para uso domiciliar (e correlacionados), e naqueles
relacionados a procedimentos listados no Rol da ANS. É a interpretação dos arts. 10, VI, da Lei n. 9.656/1998 e
19, § 1º, VI, da RN n. 338/2013 da ANS (atual art. 17, parágrafo único, VI, da RN n. 465/2021).

As normas do CDC aplicam-se apenas subsidiariamente nos planos de saúde, conforme previsão do art. 35-G
da Lei n. 9.656/1998. Ademais, em casos de incompatibilidade de normas, pelos critérios da especialidade e da
cronologia, há evidente prevalência da lei especial nova.
A previsão legal do art. 10, VI, da Lei n. 9.656/1998 não impede a oferta de medicação de uso domiciliar pelas
operadoras de planos de assistência à saúde (i) por liberalidade; (ii) por meio de previsão no contrato principal
do próprio plano de saúde ou (iii) mediante contratação acessória de caráter facultativo, conforme
regulamentação da RN n. 310/2012 da ANS.
No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), a assistência farmacêutica está fortemente em atividade,
existindo a Política Nacional de Medicamentos (PNM), garantindo o acesso de fármacos à população, inclusive
os de alto custo, por meio de instrumentos como a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME).
De acordo com a RN n. 338/2013 da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), vigente à época dos fatos
(hoje, RN n. 465/2021), a qual atualiza o Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde, que constitui a referência
básica para cobertura assistencial mínima nos planos privados de assistência à saúde, medicamento de uso
domiciliar é aquele prescrito pelo médico assistente para administração em ambiente externo ao de unidade de
saúde.
No caso, o medicamento "Viekira Pak", indicado para o tratamento da Hepatite-C virótica crônica, é de uso
oral. De fato, é um fármaco constituído por comprimidos, os quais podem ser ingeridos em domicílio.

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Logo, como o tratamento medicamentoso é realizado em ambiente externo ao de unidade de saúde (uso
domiciliar), não há como afastar a limitação do art. 10, VI, da Lei n. 9.656/1998, que, por sua vez, foi também
prevista contratualmente. (Informativo n. 694)

PROCESSO REsp 1.605.604/MG, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira
Turma, por unanimidade, julgado em 20/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Prestação de serviços advocatícios. Falecimento do mandante. Cláusula quota
litis. Êxito. Prescrição. Termo Inicial. Implementação de condição suspensiva.
Art. 199, I, CC/2002.
DESTAQUE
A existência de cláusula quota litis em contrato de prestação de serviços advocatícios faz postergar o início
da prescrição até o momento da implementação da condição suspensiva.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O prazo prescricional é contado, em regra, a partir do momento em que configurada lesão ao direito subjetivo,
não influindo para tanto ter ou não seu titular conhecimento pleno do ocorrido ou da extensão dos danos (art.
189 do CC/2002).
O termo inicial do prazo prescricional, em situações específicas, pode ser deslocado para o momento de
conhecimento da lesão, aplicando-se excepcionalmente a actio nata em seu viés subjetivo.
Nas ações de cobrança de honorários advocatícios contratuais, ocorrendo o falecimento do mandante, o
termo inicial da prescrição, em regra, é a data da ciência desse fato pelo advogado (mandatário).
A existência de cláusula quota litis em contrato de prestação de serviços advocatícios faz postergar o início
da prescrição até o momento da implementação da condição suspensiva.
No caso, por mais que a morte do mandante possa deflagrar o início do prazo prescricional, o instrumento
contratual estipulou que o recebimento da referida verba honorária está submetido ao êxito da reclamação
trabalhista e a sua exigibilidade condicionada à liberação dos valores.
Incide, portanto, o art. 199, I, CC/2002: "Não corre igualmente a prescrição (...) pendendo condição
suspensiva". (Informativo n. 693)

PROCESSO REsp 1.645.757, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 06/04/2021, DJe 08/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Sociedade Anônima de capital fechado. Termo no Livro de Transferência de
Ações Nominativas. Ausência de prazo fixado. Caracterização da mora.
Interpelação do devedor. Necessidade.
DESTAQUE
Na Sociedade Anônima de capital fechado, não fixado prazo para que seja lavrado o termo no Livro de
Transferência de Ações Nominativas, é indispensável a interpelação do devedor para que fique caracterizada a
mora.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cumpre assinalar, de início, que na Sociedade Anônima de capital fechado, a transferência das ações
nominativas registradas (não escriturais) somente ocorre por termo lavrado no Livro de Transferência de Ações
Nominativas, conforme dispõe o art. 31, § 1º, da Lei n. 6.404/1976.
No caso, a parte afirma que nem o contrato, nem a lei de regência, estabelecem prazo para que seja lavrado o
termo no Livro de Transferência de Ações Nominativas, de forma que a mora somente ficou caracterizada a
partir da data da notificação, tendo sido realizada a prestação imediatamente.

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A questão que se põe a debate, então, é definir em que momento a inércia do cedente caracteriza o
inadimplemento, autorizando a parte lesada a pedir a resolução do contrato ou exigir-lhe o cumprimento, com
a cumulação de perdas e danos.
A Corte de origem se valeu do art. 104, parágrafo único, da Lei n. 6.404/1976, que dispõe que a companhia
deve diligenciar para que os atos de transferências e averbações nos livros sociais sejam praticados no menor
prazo possível, para concluir que a obrigação não foi cumprida a tempo.
O referido dispositivo legal, porém, não parece ter o alcance que lhe foi dado, pois além de não prever um
prazo específico, era necessário o comparecimento das partes para assinar o termo, não cabendo a diligência
nessa fase somente à companhia. Ademais, o art. 104 da LSA fala em reparação de eventuais prejuízos e não em
desfazimento do negócio.
Assim, o que se constata é que, não existindo prazo no contrato ou na lei, a mora somente se configura após
a notificação do devedor para o cumprimento da obrigação. (Informativo n. 693)

PROCESSO REsp 1.922.153/RS, Rel. min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 20/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Doação. Direito intertemporal. Cláusula de reversão em favor de terceiro.
Validade à luz do código civil de 1916. Doação com cláusula de reversão em
favor de herdeiros do donatário. Implemento da condição após a entrada em
vigor do código civil de 2002. Possibilidade.
DESTAQUE
É válida e eficaz a cláusula de reversão em favor de terceiro, aposta em contrato de doação celebrado à luz do
CC/1916, ainda que a condição resolutiva se verifique apenas sob a vigência do CC/2002.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérias a dizer se é válida e eficaz a doação com cláusula de reversão, celebrada sob a vigência
do CC/1916, em benefício de apenas alguns dos herdeiros do donatário, na hipótese em que a morte deste se
verificar apenas sob a vigência do CC/2002.
Na hipótese, levando-se em consideração que o contrato de doação foi celebrado em 1987, a validade da
cláusula de reversão em apreço deve ser aferida à luz das disposições do CC/1916, não havendo que se cogitar
da aplicação do novo Código Civil para esse mister.
Feita essa consideração, cumpre verificar, portanto, se, no sistema anterior ao advento do CC/2002, era
possível inserir a referida cláusula em contrato de doação.
No que diz respeito ao seu conteúdo, tanto o art. 1.174 do CC/1916, quanto o caput do art. 547 do CC/2002,
admitem a denominada cláusula de reversão, também denominada de cláusula de retorno ou de devolução:
CC/1916, Art. 1.174. O doador pode estipular que os bens doados voltem ao seu patrimônio, se sobreviver ao
donatário; CC/2002, Art. 547. O doador pode estipular que os bens doados voltem ao seu patrimônio, se
sobreviver ao donatário. Parágrafo único. Não prevalece cláusula de reversão em favor de terceiro.
Observa-se dos dispositivos legais acima mencionados que, ao contrário do CC/2002, o diploma anterior, a
despeito de autorizar a cláusula de reversão em favor do doador, nada dizia acerca da reversão em favor de
terceiro.
Muito embora existam respeitáveis opiniões em contrário, ante a lacuna legislativa, deve-se admitir a cláusula
de reversão em favor de terceiro na hipótese de doações celebradas na vigência do CC/1916 em prestígio à
liberdade contratual e à autonomia privada.
Assim, não obstante a validade da cláusula em apreço, cumpre verificar se a cláusula de reversão estipulada
em benefício de apenas alguns dos herdeiros do donatário é eficaz na hipótese em que a morte deste - fato que
representa o implemento da condição - se verificar apenas sob a vigência do CC/2002.

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De início, importa consignar que, em se tratando de matéria relativa à direito intertemporal, incide o disposto
no caput do art. 2.035 do CC/2002, segundo o qual que a validade dos atos jurídicos subordina-se aos ditames
da lei anterior, mas os seus efeitos, desde que produzidos após a vigência do novo Código, em regra, a ele estarão
subordinados.
Observa-se que a impossibilidade de retroação dos efeitos da lei nova para atingir a validade de atos jurídicos
já celebrados coaduna-se com a regra esculpida no inciso XXXVI, do art. 5º da Constituição Federal, que impõe
o respeito ao ato jurídico perfeito, o que, aliás, conduziu parcela da doutrina a apontar a inconstitucionalidade
da segunda parte do dispositivo em comento.
O mencionado dispositivo legal deve ser interpretado, sistematicamente, com o previsto no caput do art. 6º
da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, que estabelece a proteção ao direito adquirido: "a Lei em
vigor terá efeito imediato e geral, respeitados o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada".
O deslinde da presente crise de direito material, portanto, perpassa pela verificação da existência ou não, na
espécie, de direito adquirido - o que afastaria a incidência do novel Diploma - ou de efeitos produzidos somente
após a entrada em vigor do novo Código, o que atrairia a incidência de suas normas, a teor do art. 2.035.
Com efeito, com o implemento da condição, ao mesmo tempo em que se resolve a propriedade, ocorre a
atribuição desse direito subjetivo patrimonial aos terceiros em prol dos quais a cláusula foi pactuada. Não se
trata, pois, de sucessividade, mas sim de simultaneidade.
A partir da interpretação do art. 126 do CC/2002 (correspondente ao art. 122 do CC/1916) e do § 2º do art.
6º da LINDB, parte da doutrina, influenciada pelo direito francês, sustenta a existência de efeito retroativo nas
condições, motivo pelo qual poderia se falar em verdadeiros direitos adquiridos nas hipóteses de atos jurídicos
sujeitos à condição suspensiva.
Partindo dessas premissas, seria possível concluir que, em se tratando de direito adquirido, não poderia o
novo Código Civil retroagir, prejudicando o direito dos beneficiários da cláusula de reversão, a teor do disposto
no inciso XXXVI do art. 5º da Constituição Federal e do caput do art. 6º da LINDB, notadamente porque, ao tempo
da celebração da doação, não havia qualquer vedação à referida cláusula.
Não se olvida, é verdade, que parcela da doutrina rechaça a existência de direito adquirido na hipótese de
atos jurídicos sujeitos à condição suspensiva: "a condição suspensiva, até que se cumpra, impede o direito
adquirível, só dá ao credor a esperança".
16. De fato, dispõe o art. 125 do CC/2002 (correspondente ao art. 118 do CC/1916), que "subordinando-se a
eficácia do negócio jurídico à condição suspensiva, enquanto esta se não verificar, não se terá adquirido o direito,
a que ele visa". Desse modo, tratando-se de condição suspensiva, os efeitos do negócio jurídico - ou de
determinada cláusula negocial - só se verificariam após o implemento da condição.
Diante dessas considerações, importa consignar que, no período de pendência, isto é, no lapso temporal entre
a celebração do negócio e a realização da condição, muita embora não exista já direito adquirido, há a atribuição
ao sujeito beneficiado, de um direito expectativo, que representa a eficácia mínima dos atos jurídicos
condicionados.
Trata-se, a rigor, de posição jurídica que se traduz no direito à aquisição de um outro direito - o chamado
direito expectado - e que não se confunde com a mera expectativa de direito, que é minus e conceito pré-jurídico.
Assim, ainda que não se reconheça, antes do implemento da condição, hipótese de verdadeiro direito
adquirido, não há como se afastar a caracterização, ao menos, de direito expectativo digno de tutela jurídica.
No caso, portanto, não incidem as disposições do CC/2002, isto é, o fato de o implemento da condição
suspensiva haver ocorrido após o advento do novo Código, em nada afeta a eficácia da cláusula de reversão, que
permanece hígida e garantida pela ultratividade da lei pretérita.
Por fim, importa destacar que, fosse a referida cláusula nula toda a doação seria maculada de nulidade,
porquanto tratar-se-ia de condição juridicamente impossível, nos termos do inciso I do art. 123 do CC/2002
(correspondente ao art. 166 do CC/1916).
Assim, seja por se tratar de verdadeiro direito adquirido, seja por estar cristalizado direito expectativo em
favor dos herdeiros beneficiados, é imperioso concluir, a partir de uma interpretação sistemática dos arts. 125,
126 e 2.035 do CC/2002 e art. 6º, caput e § 2º da LINDB, que não incide, na espécie, as normas previstas no
CC/2002, o que, como corolário lógico, conduz ao reconhecimento da validade e da eficácia da cláusula de
reversão em apreço. (Informativo n. 693)

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PROCESSO REsp 1.919.208/MA, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 20/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Contrato de locação de imóvel urbano. Resilição. Restituição do bem em
condições precárias. Locador que foi injustamente privado de seu uso e gozo.
Lucros cessantes. Indenização devida.
DESTAQUE
É devida indenização por lucros cessantes pelo período em que o imóvel objeto de contrato de locação
permaneceu indisponível para uso, após sua devolução pelo locatário em condições precárias.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Nos termos dos arts. 569 do CC/02 e 23 da Lei 8.245/91, incumbe ao locatário usar e gozar do bem locado de
forma regular, tratando-o com o mesmo cuidado como se fosse seu e, finda a locação, restituí-lo ao locador no
estado em que o recebeu, ressalvadas as deteriorações decorrentes do seu uso normal.
Recai sobre o locatário a responsabilidade pela deterioração anômala do bem, circunstância que autoriza o
locador a exigir, para além da rescisão do ajuste, indenização por perdas e danos.
A determinação das perdas e danos está submetida ao princípio da reparação integral, de maneira que devem
abranger tanto o desfalque efetivo e imediato no patrimônio do credor, como a perda patrimonial futura, a teor
do disposto no art. 402 do CC/02.
Para além dos danos emergentes, a restituição do imóvel locado em situação de deterioração enseja o
pagamento de indenização por lucros cessantes, pelo período em que o bem permaneceu indisponível para o
locador.
A ausência de prova categórica de que o imóvel seria imediatamente locado a outrem se fosse devolvido pelo
locatário em boas condições de uso não impede a caracterização dos lucros cessantes. A simples disponibilidade
do bem para uso e gozo próprio, ou para qualquer outra destinação que pretendesse o locador, tem expressão
econômica e integra a sua esfera patrimonial, que restou reduzida pelo ilícito contratual. (Informativo n. 693)

PROCESSO REsp 1.846.502/DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 20/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Plano de saúde coletivo empresarial. Resilição unilateral. Legalidade.
Inconformismo. Usuário. Plano Individual. Migração. Impossibilidade.
Modalidade não comercializada.
DESTAQUE
A operadora não pode ser obrigada a oferecer plano individual a usuário de plano coletivo extinto se ela não
disponibiliza no mercado tal modalidade contratual.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Na hipótese de cancelamento do plano privado coletivo de assistência à saúde, deve ser permitido que os
empregados ou ex-empregados migrem para planos individuais ou familiares, sem o cumprimento de carência,
desde que a operadora comercialize esses planos.
Nesse sentido são os arts. 1º e 3º da Res. CONSU n. 19/1999, que disciplinaram a absorção do universo de
consumidores pelas operadoras de planos ou seguros de assistência à saúde que operam ou administram planos
coletivos que vierem a ser liquidados ou encerrados.
Além disso, não é ilegal a recusa de operadoras de planos de saúde de comercializarem planos individuais
por atuarem apenas no segmento de planos coletivos. Com efeito, não há norma alguma que as obrigue a atuar
em determinado ramo de plano de saúde.

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Por outro lado, ainda não pode ser aplicada, por analogia, a regra do art. 30 da Lei n. 9.656/1998, na tentativa
de conciliar o dever de proteção ao consumidor com o direito da operadora de rescindir unilateralmente a
avença coletiva e que não oferece, em contrapartida, plano na modalidade individual ou familiar.
É que a aplicação da analogia somente é viável quando houver vácuo normativo (art. 4º da Lei de Introdução
às Normas do Direito Brasileiro - LINDB), o que não é a situação analisada. Além disso, mesmo se houvesse
omissão normativa, o art. 30 da Lei n. 9.656/1998 - que regula o direito de manutenção, como beneficiário, de
ex-empregado demitido sem justa causa em plano de saúde coletivo - não guarda ressonância com a hipótese
sob exame. Isso porque, no caso, o plano coletivo foi extinto, não existindo mais fática e juridicamente, ao passo
que na situação evidenciada pelo dispositivo legal em apreço, o ex-empregado pode permanecer na apólice
grupal empresarial ainda em vigência.
Ressalta-se que a exploração da assistência à saúde pela iniciativa privada também possui raiz constitucional
(arts. 197 e 199, caput e § 1º, da CF), merecendo proteção não só o consumidor, mas também a livre iniciativa e
o livre exercício da atividade econômica (arts. 1º, IV, 170, IV e parágrafo único, e 174 da CF).
Desse modo, devem ser sopesados tanto os direitos do consumidor quanto os das empresas, não havendo
superioridade de uns sobre os outros.
Assim, inclusive conforme prevê o art. 35-G da Lei n. 9.656/1998, a legislação consumerista incide
subsidiariamente nos planos de saúde.
Logo, esses dois instrumentos normativos devem ser aplicados de forma harmônica nesses contratos
relacionais, mesmo porque lidam com bens sensíveis, como a manutenção da vida, ou seja, visam ajudar o
usuário a suportar riscos futuros envolvendo a sua higidez física e mental, assegurando o devido tratamento
médico. (Informativo n. 693)

PROCESSO REsp 1.890.327/SP, Rel. min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
maioria, julgado em 20/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO DO CONSUMIDOR
TEMA Imóvel entregue em metragem a menor. Vício aparente. Pretensão de
abatimento proporcional do preço. Venda ad mensuram. Prazo decadencial.
Art. 501 do CC/2002.
DESTAQUE
Na hipótese em que as dimensões de imóvel adquirido não correspondem às noticiadas pelo vendedor, cujo
preço da venda foi estipulado por medida de extensão (venda ad mensuram), aplica-se o prazo decadencial de 1
(um) ano, previsto no art. 501 do CC/2002, para exigir o complemento da área, reclamar a resolução do contrato
ou o abatimento proporcional do preço
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A entrega de bem imóvel em metragem diversa da contratada não pode ser considerada vício oculto, mas sim
aparente, dada a possibilidade de ser verificada com a mera medição das dimensões do imóvel - o que, por
precaução, o adquirente, inclusive, deve providenciar tão logo receba a unidade imobiliária.
É de 90 (noventa) dias o prazo para o consumidor reclamar por vícios aparentes ou de fácil constatação no
imóvel por si adquirido, contado a partir da efetiva entrega do bem (art. 26, II e § 1º, do CDC).
O prazo decadencial previsto no art. 26 do CDC relaciona-se ao período de que dispõe o consumidor para
exigir em juízo alguma das alternativas que lhe são conferidas pelos arts. 18, § 1º, e 20, caput, do mesmo diploma
legal (a saber, a substituição do produto, a restituição da quantia paga, o abatimento proporcional do preço e a
reexecução do serviço), não se confundindo com o prazo prescricional a que se sujeita o consumidor para
pleitear indenização decorrente da má-execução do contrato.
Nesta última hipótese, à falta de prazo específico no CDC que regule a hipótese de reparação de danos
decorrentes de vício do produto, entende-se que deve ser aplicado o prazo geral decenal do art. 205 do CC/02.

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Para as situações em que as dimensões do imóvel adquirido não correspondem às noticiadas pelo vendedor,
cujo preço da venda foi estipulado por medida de extensão ou com determinação da respectiva área (venda ad
mensuram), aplica-se o disposto no art. 501 do CC/02, que prevê o prazo decadencial de 1 (um) ano para a
propositura das ações previstas no antecedente artigo (exigir o complemento da área, reclamar a resolução do
contrato ou o abatimento proporcional do preço).
Isso significa dizer que, também na hipótese de venda ad mensuram - e consequente aplicação da legislação
civilista -, convém sublinhar que o prazo decadencial previsto no art. 501 do CC/02 refere-se, tão somente, à
propositura de ação para exigir o complemento da área, reclamar a resolução do contrato ou o abatimento
proporcional do preço, não se confundindo com o prazo prescricional a que se sujeita o consumidor para pleitear
indenização decorrente da má-execução do contrato.
No caso, o Tribunal de origem deixou expressamente consignada a natureza da ação ajuizada, isto é, de
abatimento proporcional do preço, afastando-se, por não se tratar de pretensão indenizatória, o prazo
prescricional geral de 10 (dez) anos previsto no art. 205 do CC/02. (Informativo n. 693)

PROCESSO REsp 1.904.374/DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 13/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Declaração de inconstitucionalidade. Modulação temporal de efeitos e eficácia
ex nunc como exceção. Tema n. 809/STF. Aplicabilidade aos processos em que
não tenha havido trânsito em julgado da sentença de partilha. Pré-existência
de decisão excluindo herdeiro da sucessão à luz do dispositivo posteriormente
declarado inconstitucional. Irrelevância. Ação de inventário sem sentença de
partilha e sem trânsito em julgado. Equiparação com decisão proferida no
curso do inventário. Impossibilidade. Inconstitucionalidade. Possibilidade de
arguição em impugnação ao cumprimento de sentença.
DESTAQUE
A tese fixada pelo Supremo Tribunal Federal por ocasião do julgamento do tema n. 809/STF, segundo a qual
"é inconstitucional a distinção de regimes sucessórios entre cônjuges e companheiros prevista no art. 1.790 do
CC/2002, devendo ser aplicado, tanto nas hipóteses de casamento quanto nas de união estável, o regime do art.
1.829 do CC/2002", deve ser aplicada ao inventário em que a exclusão da concorrência entre herdeiros ocorreu
em decisão anterior à tese.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Considerando que a lei incompatível com o texto constitucional padece do vício de nulidade, a declaração de
sua inconstitucionalidade, de regra, produz efeito ex tunc, ressalvadas as hipóteses em que, no julgamento pelo
Supremo Tribunal Federal, houver a modulação temporal dos efeitos, que é excepcional.
Ao declarar a inconstitucionalidade do art. 1.790 do CC/2002 (tema 809), o Supremo Tribunal Federal
modulou temporalmente a aplicação da tese para apenas "os processos judiciais em que ainda não tenha havido
trânsito em julgado da sentença de partilha", de modo a tutelar a confiança e a conferir previsibilidade às
relações finalizadas sob as regras antigas (ou seja, às ações de inventário concluídas nas quais foi aplicado o art.
1.790 do CC/2002).
Dessa forma, aplica-se a tese fixada no tema n. 809/STF às ações de inventário em que ainda não foi proferida
a sentença de partilha, ainda que tenha havido, no curso do processo, a prolação de decisão que, aplicando o art.
1.790 do CC/2002, excluiu herdeiro da sucessão e que a ela deverá retornar após a declaração de
inconstitucionalidade e a consequente aplicação do art. 1.829 do CC/2002.

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Isso porque, desde a reforma promovida pela Lei n. 11.232/2005, a declaração superveniente de
inconstitucionalidade de lei pelo Supremo Tribunal Federal torna inexigível o título que nela se funda, tratando-
se de matéria suscetível de arguição em impugnação ao cumprimento de sentença - ou seja, após o trânsito em
julgado da sentença (art. 475, II e §1º, do CPC/73) -, motivo pelo qual, com muito mais razão, deverá o juiz deixar
de aplicar a lei inconstitucional antes da sentença de partilha, marco temporal eleito pelo Supremo Tribunal
Federal para modular os efeitos da tese fixada no julgamento do tema n. 809/STF. (Informativo n. 692)

PROCESSO REsp 1.795.215/PR, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 23/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Sucessão causa mortis. União estável. Bem particular. Frutos civis.
Comunicabilidade exclusivamente durante a constância da união estável. Data
da celebração do contrato de locação e período de sua vigência. Irrelevância.
DESTAQUE
O montante recebido a título de aluguéis de imóvel particular do "de cujus" não se comunica à companheira
supérstite após a data da abertura da sucessão.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Inicialmente, o art. 1.660, V, do CC dispões que se comunicam os frutos dos bens particulares de cada cônjuge
ou companheiro percebidos durante a constância da união ou pendentes ao tempo de cessar a comunhã[Link]
que concerne à divisão dos frutos civis após a extinção do casamento ou da união estável, esta Corte Superior já
teve a oportunidade de se manifestar no sentido de que o direito à meação se dá com relação aos valores que
foram auferidos durante a constância da convivê[Link] oportunidade, ficou assentado que "o reconhecimento
da incomunicabilidade daquela rubrica [ocorre] apenas quando percebidos os valores em momento anterior ou
posterior ao casamento".Vale dizer, o que autoriza a comunicabilidade dos frutos é a data da ocorrência do fato
que dá ensejo à sua percepção, ou, em outros termos, o momento em que o titular adquiriu o direito ao seu
[Link] particular, a meação, quanto aos valores reclamados, cinge-se aos aluguéis relativos ao período
aquisitivo compreendido no curso da união estável, a qual teve como termo final a data do falecimento do
companheiro, proprietário exclusivo do imóvel [Link] destacar que a Lei n. 8.245/1991 (Lei do
Inquilinato) dispõe, em seu art. 10, que, "morrendo o locador, a locação transmite-se aos herdeiros".Isso
significa que, a partir da data do falecimento do locador - momento em que houve a transmissão dos direitos e
deveres decorrentes do contrato de locação aos herdeiros -, todo e qualquer vínculo, ainda que indireto, apto a
autorizar a recorrente a partilhar dos aluguéis (como aquele previsto na norma do inc. V do art. 1.660 do CC) foi
rompido, cessando, por imperativo lógico, seu direito à meação sobre [Link], a data da celebração do
contrato de locação ou o termo final de sua vigência em nada influenciam na resolução da questão, pois os
aluguéis somente podem ser considerados pendentes se deveriam ter sido recebidos na constância da união
estável ou casamento e não o [Link] contexto, portanto, somente podem ser considerados eventuais
aluguéis vencidos e não pagos ao tempo do óbito do proprietário, circunstância que, caso verificada, autorizaria
sua integração à meação da companheira. (Informativo n. 690)

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PROCESSO REsp 1.841.285/DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 23/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO DO CONSUMIDOR
TEMA Plano de saúde coletivo. Falecimento do titular. Beneficiária agregada.
Pretensão de manutenção do benefício. Possibilidade. Art. 30, § 2º, da Lei n.
9.656/1998.
DESTAQUE
No caso de morte do titular, os membros do grupo familiar - dependentes e agregados - podem permanecer
como beneficiários no plano de saúde coletivo, desde que assumam o pagamento integral.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Na hipótese de falecimento do titular do plano de saúde coletivo, seja este empresarial ou por adesão, a Terceira
Turma decidiu que nasce para os dependentes já inscritos o direito de pleitear a sucessão da titularidade, nos
termos dos arts. 30 ou 31 da Lei n. 9.656/1998, a depender da hipótese, desde que assumam o seu pagamento
integral (REsp 1.871.326/RS, julgado em 01/09/2020, DJe 09/09/2020).Apesar de o § 3º do art. 30, que trata
da hipótese de permanência em caso de morte do beneficiário titular, fazer uso da expressão "dependentes", o
§ 2º assegura a proteção conferida pelo referido art. 30, de manutenção do plano de saúde nas hipóteses de
rompimento do contrato de trabalho do titular, obrigatoriamente, a todo o grupo familiar, sem fazer nenhuma
distinção quanto aos [Link] linha desse raciocínio, não há como fazer uma interpretação puramente
literal e isolada do § 3º do art. 30 da Lei n. 9.656/1998; a interpretação há de ser feita em harmonia com o direito
instituído pelo § 2º, garantindo, assim, que, no caso de morte do titular, os membros do grupo familiar -
dependentes e agregados - permaneçam como beneficiários no plano de saúde, desde que assumam o
pagamento integral, na forma da [Link], de acordo com o art. 2º, I, "b" da Resolução ANS 295/2012,
beneficiário dependente é o beneficiário de plano privado de assistência à saúde cujo vínculo contratual com a
operadora depende da existência de relação de dependência ou de agregado a um beneficiário titular.
(Informativo n. 690)

PROCESSO REsp 1.857.852/RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 16/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Partilha. Ausência de citação de litisconsorte necessário. Sentença
juridicamente inexistente. Tese firmada pelo STF. Tema n. 809/STF.
Aplicabilidade.
DESTAQUE
É imperiosa a aplicação da tese firmada pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do tema n. 809/STF, que
impõe a igualdade de tratamento no regime sucessório entre cônjuges e companheiros, em processo cuja
inexistência jurídica da sentença de partilha, ante a ausência de citação de litisconsorte necessário, impede a
formação da coisa julgada material.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia resume-se em definir se a tese fixada pelo Supremo Tribunal Federal por ocasião do julgamento
do tema n. 809/STF, segundo a qual "é inconstitucional a distinção de regimes sucessórios entre cônjuges e
companheiros prevista no art. 1.790 do CC/2002, devendo ser aplicado, tanto nas hipóteses de casamento
quanto nas de união estável, o regime do art. 1.829 do CC/2002", é aplicável na hipótese em que, a despeito da
existência de sentença de partilha irrecorrida que homologou acordo celebrado pelos colaterais, únicos
herdeiros conhecidos ao tempo de sua prolação, houve o superveniente reconhecimento de herdeiro apto a
exclui-los da linha sucessó[Link] início, deve-se considerar que diante do surgimento de provável herdeiro, deve
o juízo do inventário, mesmo após a prolação de sentença homologatória de acordo de partilha irrecorrida e
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antes da expedição do respectivo formal, reconhecer a existência de vício grave consistente na ausência de
citação de litisconsorte necessário e, assim, a inexistência jurídica da sentença por ele proferida, que não transita
em julgado e tampouco forma coisa julgada [Link], não há que se falar em coisa julgada na sentença
proferida em processo em que não se formou a relação jurídica apta ao seu [Link]-se que a
inexistência jurídica da sentença pode ser declarada em ação autônoma (querela nullitatis insanabilis) e também
no próprio processo em que proferida, na fase de cumprimento de sentença ou até antes dela, se possível,
especialmente na hipótese em que a matéria foi previamente submetida ao crivo do contraditório e não havia a
necessidade de dilação probató[Link] virtude dos limites subjetivos da coisa julgada, o formal de partilha será
título executivo judicial apenas em relação ao inventariante, aos herdeiros e aos sucessores a título singular ou
universal, não alcançando, contudo, terceiros, como o litisconsorte necessário não citado para o inventá[Link]
efeito, declarada a inexistência jurídica da sentença na própria ação de inventário, deve ser aplicada a tese
firmada pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do tema n. 809/STF, por meio da qual foi declarada a
inconstitucionalidade do art. 1.790 do CC/2002. (Informativo n. 689)

PROCESSO REsp 1.622.450/SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 16/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Serviços advocatícios. Negligência. Perda de prazo. Responsabilidade civil.
Perda de uma chance. Prescrição. Termo inicial. Conhecimento do dano. Actio
nata.
DESTAQUE
O termo inicial da prescrição da pretensão de obter o ressarcimento pela perda de uma chance decorrente da
ausência de apresentação de agravo de instrumento é a data do conhecimento do dano.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O prazo prescricional é contado, em regra, a partir do momento em que configurada lesão ao direito subjetivo,
sendo desinfluente para tanto ter ou não seu titular conhecimento pleno do ocorrido ou da extensão dos danos
(art. 189 do CC/2002).Tal regra, contudo, é mitigada em duas situações: (i) nas hipóteses em que a própria
legislação vigente estabeleça que o cômputo do lapso prescricional se dê a partir de termo inicial distinto (como
ocorre, por exemplo, nas ações que se originam de fato que deva ser apurado no juízo criminal - art. 200 do
Código Civil) e (ii) nas excepcionalíssimas situações em que possível constatar que, pela própria natureza das
coisas, seria impossível ao autor, por absoluta falta de conhecimento de "défice à sua esfera jurídica", adotar
comportamento outro, que não o de inércia (o que ocorre, por exemplo, com pessoa que se submete a transfusão
de sangue, vindo a descobrir, anos mais tarde, ter sido naquela oportunidade contaminada pelo vírus HIV).A
primeira exceção mencionada não apresenta grandes dificuldades de aplicação, pois a regra jurídica explicita o
diferenciado termo inicial do prazo prescricional. Por sua vez, a segunda deve ser admitida com mais cautela e
vem sendo solucionada na jurisprudência desta Corte Superior a partir da aplicação pontual da chamada teoria
da actio nata em seu viés subjetivo, que, em síntese, confere ao conhecimento da lesão pelo titular do direito
subjetivo violado a natureza de pressuposto indispensável ao início do prazo de prescriçã[Link] caso, não é
razoável considerar como marco inicial da prescrição a data limite para a interposição do agravo de
instrumento, haja vista inexistirem elementos nos autos - ou a comprovação por parte do causídico - de que o
cliente tenha sido cientificado da perda de prazo para apresentar o recurso cabí[Link] porque a relação entre
advogado e cliente se baseia na confiança recíproca e na legítima expectativa de que o profissional defenderá
com zelo o mandato que lhe foi outorgado, conforme o art. 16 do Código de Ética e Disciplina da OAB, motivo
pelo qual não se pode exigir do outorgante o conhecimento de eventual erro ou da negligência do patrono
(outorgado) durante a tramitação do [Link], na hipótese, o prazo prescricional não pode ter início
no momento da lesão ao direito da parte, mas na data do conhecimento do dano, aplicando-se excepcionalmente
a actio nata em sua vertente subjetiva. (Informativo n. 689)

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PROCESSO REsp 1.622.450/SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 16/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Serviços advocatícios. Negligência. Perda de prazo. Responsabilidade civil.
Perda de uma chance. Prescrição. Termo inicial. Conhecimento do dano. Actio
nata.
DESTAQUE
O termo inicial da prescrição da pretensão de obter o ressarcimento pela perda de uma chance decorrente da
ausência de apresentação de agravo de instrumento é a data do conhecimento do dano.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O prazo prescricional é contado, em regra, a partir do momento em que configurada lesão ao direito subjetivo,
sendo desinfluente para tanto ter ou não seu titular conhecimento pleno do ocorrido ou da extensão dos danos
(art. 189 do CC/2002).Tal regra, contudo, é mitigada em duas situações: (i) nas hipóteses em que a própria
legislação vigente estabeleça que o cômputo do lapso prescricional se dê a partir de termo inicial distinto (como
ocorre, por exemplo, nas ações que se originam de fato que deva ser apurado no juízo criminal - art. 200 do
Código Civil) e (ii) nas excepcionalíssimas situações em que possível constatar que, pela própria natureza das
coisas, seria impossível ao autor, por absoluta falta de conhecimento de "défice à sua esfera jurídica", adotar
comportamento outro, que não o de inércia (o que ocorre, por exemplo, com pessoa que se submete a transfusão
de sangue, vindo a descobrir, anos mais tarde, ter sido naquela oportunidade contaminada pelo vírus HIV).A
primeira exceção mencionada não apresenta grandes dificuldades de aplicação, pois a regra jurídica explicita o
diferenciado termo inicial do prazo prescricional. Por sua vez, a segunda deve ser admitida com mais cautela e
vem sendo solucionada na jurisprudência desta Corte Superior a partir da aplicação pontual da chamada teoria
da actio nata em seu viés subjetivo, que, em síntese, confere ao conhecimento da lesão pelo titular do direito
subjetivo violado a natureza de pressuposto indispensável ao início do prazo de prescriçã[Link] caso, não é
razoável considerar como marco inicial da prescrição a data limite para a interposição do agravo de
instrumento, haja vista inexistirem elementos nos autos - ou a comprovação por parte do causídico - de que o
cliente tenha sido cientificado da perda de prazo para apresentar o recurso cabí[Link] porque a relação entre
advogado e cliente se baseia na confiança recíproca e na legítima expectativa de que o profissional defenderá
com zelo o mandato que lhe foi outorgado, conforme o art. 16 do Código de Ética e Disciplina da OAB, motivo
pelo qual não se pode exigir do outorgante o conhecimento de eventual erro ou da negligência do patrono
(outorgado) durante a tramitação do [Link], na hipótese, o prazo prescricional não pode ter início
no momento da lesão ao direito da parte, mas na data do conhecimento do dano, aplicando-se excepcionalmente
a actio nata em sua vertente subjetiva. (Informativo n. 689)

PROCESSO REsp 1.735.931/CE, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, Terceira


Turma, por unanimidade, julgado em 09/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Direitos autorais. ECAD. Sonorização em veículos de transporte coletivo
(ônibus). Transmissão de obras autorais. Uso de obras autorais em atividade
empresária. Finalidade lucrativa. Local de frequência coletiva.
DESTAQUE
Os ônibus de transporte de passageiros são considerados locais de frequência coletiva para fins de proteção de
direitos autorais, o que gera dever de repasse ao ECAD.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A questão controvertida diz respeito aos direitos autorais decorrentes da utilização de obras musicais por meio
de sonorização ambiental em veículos de transportes coletivos terrestres (ônibus municipais, intermunicipais
e interestaduais).A execução de obras musicais e/ou audiovisuais dentro dos ônibus de transporte de
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passageiros não se enquadra em qualquer das exceções previstas no art. 46 da Lei n. 9.610/1998, verificando-
se, sim, a utilização da obra artística mediante captação de transmissão de radiodifusão em locais de frequência
coletiva e sonorização [Link] caso, aplica-se o disposto no art. 29, inciso VIII, alíneas "e" e "f", da referida
lei, segundo o qual: Art. 29. Depende de autorização prévia e expressa do autor a utilização da obra, por
quaisquer modalidades, tais como: (...) VIII: a utilização, direta ou indireta, da obra literária, artística ou
científica, mediante: (...) e) captação de transmissão de radiodifusão em locais de frequência coletiva; f)
sonorização ambiental;Além disso, o art. 68, §3º, estabelece que: Sem prévia e expressa autorização do autor ou
titular, não poderão ser utilizadas obras teatrais, composições musicais ou lítero-musicais e fonogramas, em
representações e execuções públicas. (...) § 3º Consideram-se locais de frequência coletiva os teatros, cinemas,
salões de baile ou concertos, boates, bares, clubes ou associações de qualquer natureza, lojas, estabelecimentos
comerciais e industriais, estádios, circos, feiras, restaurantes, hotéis, motéis, clínicas, hospitais, órgãos públicos
da administração direta ou indireta, fundacionais e estatais, meios de transporte de passageiros terrestre,
marítimo, fluvial ou aéreo, ou onde quer que se representem, executem ou transmitam obras literárias, artísticas
ou cientí[Link] forma, as sociedades empresárias que exploram o transporte coletivo de pessoas e que
executam obras musicais no interior dos veículos devem necessariamente repassar ao ECAD os valores devidos
a título de direitos autorais pela transmissão radiofônica nos termos do enunciado 63/STJ. (Informativo n.
687)

PROCESSO REsp 1.893.754/MA, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 09/03/2021, DJe 11/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Extravio, perda ou avaria de cargas transportadas por via marítima.
Indenização. Prazo prescricional. 1 (um) ano.
DESTAQUE
O prazo prescricional da pretensão indenizatória decorrente de extravio, perda ou avaria de cargas
transportadas por via marítima é de 1 (um) ano.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Inicialmente, o Decreto-Lei n. 116/1967 dispõe, especificamente, sobre as operações inerentes ao transporte de
mercadorias por via d'água nos portos brasileiros, delimitando suas responsabilidades e tratando das faltas e
avarias eventualmente ocorridas. Na hipótese de ocorrência de avarias em carga objeto de transporte marítimo,
dispõe o art. 8º do mencionado decreto-lei sobre o prazo prescricional da pretensão indenizatória: prescrevem
ao fim de um ano, contado da data do término da descarga do navio transportador, as ações por extravio de
carga, bem como as ações por falta de conteúdo, diminuição, perdas e avarias ou danos à [Link], por ser
lei especial que rege a matéria, deve ser aplicada a todos os entes envolvidos na relação de transporte marítimo,
sejam eles operadores portuários, transportadores, consignatários da carga, exportadores e até mesmo
[Link] fato, não há como se extrair qualquer conclusão de que o decreto-lei regule tão somente as
relações firmadas entre as entidades portuárias e o transportador da carga.A corroborar com o raciocínio, vale
ressaltar que a Súmula 151 do Supremo Tribunal Federal, em pleno vigor, preceitua que prescreve em 1 (um)
ano a ação do segurador sub-rogado para haver indenização por extravio ou perda de carga transportada por
[Link] oportuno, convém frisar que, ao analisar a redação da referida súmula, o Ministro Luis Felipe Salomão,
relator do REsp 1.278.722/PR (4ª Turma, DJe 29/06/2016) mencionou que "a orientação pretoriana é no
sentido de a prescrição da ação regressiva da seguradora ser a mesma que a da ação do segurado, visto que a
relação jurídica de direito material não se altera, mudando apenas o sujeito ativo, ou credor, que passa a ser
outro, tratando-se o caso de sub-rogação pessoal, em que há substituição de uma pessoa por outra, ressalvando-
se a esta os mesmos direitos e ações que àquela competiam".Ora, se a seguradora possui o prazo de 1 (um) ano
- porque sub-rogada nos direitos e ações do segurado, inclusive no que tange ao prazo prescricional - é de se
concluir que também o próprio consignatário da carga que não tenha contratado seguro possui, igualmente, o
mesmo prazo prescricional para exercer a sua pretensão de indenização, sendo inviável concluir que seria à sua

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pretensão aplicável o prazo prescricional de 3 (três) anos previsto no Código Civil (art. 206, § 3º, V).
(Informativo n. 688)

PROCESSO REsp 1.877.738/DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 09/03/2021, DJe 11/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL
TEMA Inventário. Cumprimento de sentença. Crédito constituído em face de um dos
herdeiros. Homologação da partilha. Penhora no rosto dos autos. Art. 860 do
CPC/2015. Possibilidade. Art. 642, caput, do CPC/2015. Habilitação de
credores do espólio no processo de inventário. Inaplicabilidade à hipótese dos
autos.
DESTAQUE
A homologação da partilha, por si só, não constitui circunstância apta a impedir que o juízo do inventário
promova a constrição determinada por outro juízo.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a verificar se é cabível, após a decisão homologatória da partilha, a efetivação de
penhora no rosto dos autos do inventário para garantia de crédito objeto de execução movida por terceiro em
face de um dos herdeiros.O art. 860 do CPC/2015 prevê expressamente que a penhora é passível de ser levada
a efeito em processo distinto daquele em que o crédito deveria, originariamente, ser satisfeito, podendo recair
sobre os bens que forem adjudicados ou que vierem a caber ao [Link]-se de ação de inventário,
este Tribunal Superior já se manifestou no sentido do cabimento da penhora no rosto dos autos quando se tratar
de constrição que objetive atingir direito a ser atribuído a um dos herdeiros que figure na posição de
[Link] que, no particular, o juízo onde se processa a ação sucessória, após o recebimento do ofício
que havia deferido o pedido de penhora em favor do recorrente, deixou de efetivar a constrição ao argumento
de que essa somente seria cabível antes da realização da partilha, haja vista o disposto no art. 642, caput, do
CPC/2015.A norma invocada, todavia, versa exclusivamente acerca da habilitação de credores do espólio no
processo de inventário, o que, de fato, pode ocorrer, a critério dos terceiros interessados, apenas até o momento
da partilha.A homologação da partilha, portanto, nos termos da do referido artigo, possui o condão de impedir,
tão somente, que credores do espólio requeiram ao juízo do inventário o pagamento de dívidas contraídas pelo
de [Link], a homologação da partilha, por si só, não constitui circunstância apta a impedir que o juízo do
inventário promova a constrição determinada por outro juízo. (Informativo n. 688)

PROCESSO REsp 1.872.102/SP, Rel. Min. Marco Aurélio Belizze, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 02/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Contrato de gerenciamento de carreira. Atleta profissional menor de dezoito
anos. Aplicação da Lei n. 9.615/1998 (Lei Pelé). Descabimento. Emancipação
legal. Relação empregatícia. Art. 5º, parágrafo único, V, do CC. Autorização
judicial. Art. 1.691 do CC. Desnecessidade.
DESTAQUE
A autorização judicial não é pressuposto de validade de contratos de gestão de carreira e de agenciamento de
atleta profissional celebrados por atleta relativamente incapaz devidamente assistido pelos pais ou responsável
legal.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A emancipação legal proveniente de relação empregatícia, prevista no art. 5º, parágrafo único, V, parte final, do
CC/2002, pressupõe: i) que o menor possua ao menos dezesseis anos completos; ii) a existência de vínculo

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empregatício; e iii) que desse liame lhe sobrevenha economia pró[Link] decorrer diretamente do texto da lei,
essa espécie de emancipação prescinde de autorização judicial, bem como dispensa o registro público respectivo
para a validade dos atos civis praticados pelo emancipado, bastando apenas que se evidenciem os requisitos
legais para a implementação da capacidade civil plena.O regramento disposto no art. 1.691 do CC, que exige
autorização judicial para a contração de obrigações em nome do filho menor, não se aplica ao filho emancipado,
porquanto dotado este de capacidade civil plena, podendo realizar os atos da vida civil, por si só.Se o filho menor
for emancipado, seja qual for a espécie de emancipação, a administração do seu patrimônio é retirada dos seus
pais e entregue ao próprio infante, segundo o disposto no art. 1.690, caput, parte final, do CC: compete aos pais,
e na falta de um deles ao outro, com exclusividade, representar os filhos menores de dezesseis anos, bem como
assisti-los até completarem a maioridade ou serem [Link]ém disso, convém pontuar que a
emancipação constitui hipótese de extinção do poder familiar, nos termos do art. 1.635, II, do [Link] derradeiro,
enfatiza-se que a simples ocorrência de emancipação legal não tem o condão de afastar a aplicação de
regramentos dispostos em leis especiais, ante o critério da especialidade utilizado a fim de dirimir o conflito
aparente de normas, a exemplo do que se extrai do Enunciado n. 530 do CJF, aprovado na VI Jornada de Direito
Civil: a emancipação, por si só, não elide a incidência do Estatuto da Criança e do [Link] base nessa
cognição, poder-se-ia cogitar do exame da validade dos contratos de gestão de carreira e de agenciamento de
jogador profissional de futebol à luz do disposto no art. 27-C, VI, da Lei n. 9.615/1998 (Lei Pelé).No caso,
celebrados os contratos antes da entrada em vigor do inciso VI do art. 27-C da Lei n. 9.615/1998 (Lei Pelé), ou
seja, após pactuados os contratos tidos como nulos, não se lhes aplicando, desse modo, retroativamente, por se
tratar de ato jurídico perfeito (art. 6º, caput e § 1º, da LINDB).Outrossim, a título de reforço argumentativo,
ainda que fosse o caso de análise da higidez dos contratos através da perspectiva do art. 27-C, VI, da Lei n.
9.615/1998, depreende-se da literalidade da norma que a vedação à celebração de contrato de gerenciamento
de carreira só se aplica ao atleta em formação menor de 18 (dezoito) anos. (Informativo n. 687)

PROCESSO REsp 1.873.918-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 02/03/2021, DJe 04/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Direito ao nome. Substituição de patronímico familiar pelo do cônjuge.
Retomada do nome de solteiro ainda na constância do vínculo conjugal.
Possibilidade.
DESTAQUE
É admissível o retorno ao nome de solteiro do cônjuge ainda na constância do vínculo conjugal.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O direito ao nome é um dos elementos estruturantes dos direitos da personalidade e da dignidade da pessoa
humana, pois diz respeito à própria identidade pessoal do indivíduo, não apenas em relação a si, como também
em ambiente familiar e perante a [Link] a modificação do nome civil seja qualificada como
excepcional e as hipóteses em que se admite a alteração sejam restritivas, esta Corte tem reiteradamente
flexibilizado essas regras, interpretando-as de modo histórico-evolutivo para que se amoldem a atual realidade
social em que o tema se encontra mais no âmbito da autonomia privada, permitindo-se a modificação se não
houver risco à segurança jurídica e a [Link] caso, a parte, que havia substituído um de seus patronímicos
pelo de seu cônjuge por ocasião do matrimônio, fundamentou a sua pretensão de retomada do nome de solteira,
ainda na constância do vínculo conjugal, em virtude do sobrenome adotado ter se tornado o protagonista de seu
nome civil em detrimento do sobrenome familiar, o que lhe causa dificuldades de adaptação, bem como no fato
de a modificação ter lhe causado problemas psicológicos e emocionais, pois sempre foi socialmente conhecida
pelo sobrenome do pai e porque os únicos familiares que ainda carregam o patronímico familiar se encontram
em grave situação de saú[Link] que as justificativas apresentadas não são frívolas, mas, ao revés, demonstram
a irresignação de quem vê no horizonte a iminente perda dos seus entes próximos sem que lhe sobre uma das
mais palpáveis e significativas recordações - o sobrenome -, deve ser preservada a intimidade, a autonomia da

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vontade, a vida privada, os valores e as crenças das pessoas, bem como a manutenção e perpetuação da herança
familiar. (Informativo n. 687)

PROCESSO REsp 1.706.999-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 23/02/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL
TEMA Partilha. Anulação. Imóveis. Registro. Herdeiros. Comunhão universal de bens.
Citação. Cônjuges. Necessidade. Litisconsórcio necessário.
DESTAQUE
No caso de a anulação de partilha acarretar a perda de imóvel já registrado em nome de herdeiro casado sob o
regime de comunhão universal de bens, a citação do cônjuge é indispensável, tratando-se de hipótese de
litisconsórcio necessário.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Conforme determina o art. 1.647 do Código Civil, a alienação, a cessão, a desistência e a renúncia de bens imóveis
necessitam de outorga uxória.O que norteia a conclusão de que o cônjuge do herdeiro deve participar do
processo é a correspondência entre a renúncia, a cessão e a desistência com a alienação de bem imóvel. Essa
situação fica ainda mais preponderante nos casos em que o herdeiro é casado sob o regime de comunhão
universal de bens, pois tudo o que houver sido adquirido por herança passa imediatamente a integrar o
patrimônio comum, cabendo ao outro cônjuge por [Link] caso de ação de anulação de partilha, parece que
o mesmo raciocínio deve orientar a verificação quanto à necessidade de participação do cônjuge do herdeiro no
processo. Assim, se houver a possibilidade de ser atingido negativamente o patrimônio do casal, com a alienação
(perda) de bem imóvel, o cônjuge do herdeiro deve ser chamado para integrar a lide. Caso contrário, é
dispensada sua participaçã[Link] hipótese dos autos, o regime de casamento dos herdeiros é a comunhão
universal de bens e a partilha anteriormente realizada contemplou bens imó[Link] situação, em que os
imóveis recebidos pelos recorrentes por conta da anterior partilha já foram levados a registro, integrando o
patrimônio comum do casal, mostra-se indispensável a citação do cônjuge do herdeiro para a ação de anulação
de partilha. Isso porque poderá haver a perda do imóvel que atualmente pertence a ambos, devendo a lide ser
decidida de forma uniforme para [Link] lembrar, ainda, que de acordo com o artigo 10, §1º, I, do CPC/1973
(art. 73, § 1º, I, do CPC/2015), os cônjuges serão necessariamente citados para a ação que trate de direitos reais
imobiliários (art. 1.225 do CC). Nesse contexto, se o imóvel passou a integrar o patrimônio comum, a ação na
qual se pretende a anulação da partilha envolve a anulação do próprio registro de transferência da propriedade
do bem, mostrando-se indispensável a citação. (Informativo n. 686)

PROCESSO REsp 1.846.167-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 09/02/2021, DJe 11/02/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Direito real de habitação. Cobrança de aluguéis da companheira supérstite e
sua filha. Descabimento.
DESTAQUE
Os herdeiros não podem exigir remuneração do companheiro sobrevivente pelo uso do imóvel.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O art. 1.414 do CC/2002 assegura ao detentor do direito real a prerrogativa de habitar a residência com sua
família. Assim, para fins de aplicação dessa norma, a doutrina propõe seu alargamento, para incluir nesse
conceito "membros de suas relações, desde que não satisfaçam estes algum pagamento pela hospedagem".Para
além disso, nesse aspecto em específico, relembre-se uma vez mais, que a mens legis é manter o companheiro -
ou cônjuge - vinculado ao local que lhe serve de convívio familiar. É possível afirmar, então, que esse instituto

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também visa a evitar que, além da morte daquele com quem compartilhava a sua vida, o convivente supérstite
também tenha de suportar a perda do [Link] sabiamente a Terceira Turma acentuou no julgamento do REsp
1.582.178/RJ, "o objetivo da lei é permitir que o cônjuge sobrevivente permaneça no mesmo imóvel familiar
que residia ao tempo da abertura da sucessão como forma, não apenas de concretizar o direito constitucional à
moradia, mas também por razões de ordem humanitária e social, já que não se pode negar a existência de vínculo
afetivo e psicológico estabelecido pelos cônjuges com o imóvel em que, no transcurso de sua convivência,
constituíram não somente residência, mas um lar".Sendo assim, não podem os herdeiros exigir remuneração da
companheira sobrevivente, nem da filha que com ela reside no imóvel. (Informativo n. 685)

PROCESSO REsp 1.846.167-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 09/02/2021, DJe 11/02/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Direito real de habitação. Companheira supérstite. Extinção de condomínio e
alienação de imóvel comum. Inviabilidade.
DESTAQUE
Aos herdeiros não é autorizado exigir a extinção do condomínio e a alienação do bem imóvel comum enquanto
perdurar o direito real de habitação
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A doutrina civilista tem defendido a impossibilidade de os herdeiros postularem a extinção do condomínio e a
alienação do bem [Link] Corte, da mesma forma, nas duas oportunidades em que foi instada a se
manifestar sobre o assunto, denegou a pretensão dos herdeiros de extinguir o condomínio e alienar o imóvel
indivisí[Link] sentido a Quarta Turma destaca que "dada a reserva pelo acórdão do direito real vitalício de
habitação, limitado, como não poderia deixar de ser, a venda à nua propriedade (50%), recebida em partilha,
tênue se apresenta a ofensa à norma legal em apreço que, em princípio, não proíbe taxativamente o ato de
disposição, com as ressalvas já declinadas, mas que, de qualquer forma, ainda que indiretamente pode deixar ao
desabrigo o cônjuge, neste caso, contra a vontade da lei" (REsp 234.276/RJ, Rel. ministro Fernando Gonçalves,
Quarta Turma, julgado em 14/10/2003, DJ 17/11/2003).Tem-se, então, que a autorização de extinção do
condomínio sobre o imóvel e venda do bem comum contraria a própria essência do direito real de habitação
decorrente da sucessão. (Informativo n. 685)

PROCESSO EAREsp 1.835.598-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
maioria, julgado em 09/02/2021, DJe 17/02/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Rescisão de contrato particular de compra e venda de imóvel. Cláusula de
alienação fiduciária em garantia. Ausência de registro. Garantia não
constituída. Venda extrajudicial do bem. Desnecessidade.
DESTAQUE
A ausência do registro do contrato de compra e venda de imóvel impede a constituição da garantia fiduciária.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
No ordenamento jurídico brasileiro, coexiste um duplo regime jurídico da propriedade fiduciária: a) o regime
jurídico geral do Código Civil, que disciplina a propriedade fiduciária sobre coisas móveis infungíveis, sendo o
credor fiduciário qualquer pessoa natural ou jurídica; b) o regime jurídico especial, formado por um conjunto
de normas extravagantes, dentre as quais a Lei n. 9.514/1997, que trata da propriedade fiduciária sobre bens
imó[Link] à propriedade fiduciária de bem imóvel, regida pela Lei n. 9.514/1997, verifica-se que a garantia
somente se constitui com o registro do contrato que lhe serve de título no registro imobiliário do local onde o
bem se [Link] maneira, sem o registro do contrato no competente Registro de Imóveis, há simples crédito,

93
situado no âmbito obrigacional, sem qualquer garantia real nem propriedade resolúvel transferida ao
[Link], na ausência de registro do contrato, não é exigível do adquirente que se submeta ao procedimento
de venda extrajudicial do bem para só então receber eventuais diferenças do vendedor. (Informativo n. 685)

PROCESSO REsp 1.868.099-CE, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 15/12/2020, DJe 18/12/2020
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO DO CONSUMIDOR
TEMA Empréstimo consignado firmado com analfabeto. Aposição de digital.
Insuficiente. Validade. Assinatura a rogo, na presença de 2 (duas)
testemunhas, ou or procurador público. Expressão do livre consentimento.
Acesso ao conteúdo das cláusulas e condições contratadas.
DESTAQUE
É válida a contratação de empréstimo consignado por analfabeto mediante a assinatura a rogo, a qual, por sua
vez, não se confunde, tampouco poderá ser substituída pela mera aposição de digital ao contrato escrito.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a definir, a par da adequação da tutela jurisdicional entregue, a validade do contrato de
empréstimo consignado por consumidor analfabeto mediante a mera aposição da digital ao instrumento
contratual.A liberdade de contratar é assegurada ao analfabeto, bem como àquele que se encontre
impossibilitado de ler e escrever. Em regra, a forma de contratação, no direito brasileiro, é livre, não se exigindo
a forma escrita para contratos de alienação de bens móveis, salvo quando expressamente exigido por lei.O
contrato de mútuo, do qual o contrato de empréstimo consignado é espécie, se perfaz mediante a efetiva
transmissão da propriedade da coisa emprestada. Essa observação, ainda que pareça singela, é essencial para a
identificação dos requisitos de validade do contrato, em especial, no que se refere à sua formalização, Isso
porque o fundamento central do acórdão recorrido foi a aplicação, ao caso dos autos, do art. 595 do Código Civil
de 2002, cujo texto normativo excepcionaria a necessidade de procuração pública para assinatura de contrato
de prestação de serviç[Link] que se configure, em regra, contrato de fornecimento de produto, a
instrumentação do empréstimo consignado na forma escrita faz prova das condições e obrigações impostas ao
consumidor para o adimplemento contratual, em especial porque, nessa modalidade de crédito, a restituição da
coisa emprestada se faz mediante o débito de parcelas diretamente do salário ou benefício previdenciário
devido ao consumidor contratante pela entidade pagadora, a qual é responsável pelo repasse à instituição
credora (art. 3o, III, da Lei n. 10.820/2003).A adoção da forma escrita, com redação clara, objetiva e adequada,
é fundamental para demonstração da efetiva observância, pela instituição financeira, do dever de informação,
imprescindíveis à livre escolha e tomada de decisões por parte dos clientes e usuários (art. 1o da Resolução
CMN n. 3.694/2009).Nas hipóteses em que o consumidor está impossibilitado de ler ou escrever, acentua-se a
hipossuficiência natural do mercado de consumo, inviabilizando o efetivo acesso e conhecimento às cláusulas e
obrigações pactuadas por escrito, de modo que a atuação de terceiro (a rogo ou por procuração pública) passa
a ser fundamental para manifestação inequívoca do consentimento.A incidência do art. 595 do CC/2002, na
medida em que materializa o acesso à informação imprescindível ao exercício da liberdade de contratar por
aqueles impossibilitados de ler e escrever, deve ter aplicação estendida a todos os contratos em que se adote a
forma escrita, ainda que esta não seja exigida por lei.A aposição de digital não se confunde, tampouco substitui
a assinatura a rogo, de modo que sua inclusão em contrato escrito somente faz prova da identidade do
contratante e da sua reconhecida impossibilidade de assinar. (Informativo n. 684)

94
PROCESSO REsp 1.834.231-MG, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 15/12/2020, DJe 18/12/2020
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Operações de crédito pessoal. Desconto das parcelas em conta corrente na
qual recebido benefício de prestação continuada de assistência social ao idoso
- BPC. Pedido de limitação dos descontos. Acolhimento. Verba destinada
essencialmente à sobrevivência do idoso. Princípio da dignidade da pessoa
humana. Resp 1.555.722/[Link].
DESTAQUE
É possível a limitação dos descontos em conta bancária de recebimento do Benefício de Prestação Continuada,
de modo a não privar o idoso de grande parcela do benefício destinado à satisfação do mínimo existencial.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Discute-se, na espécie, a limitação de descontos de prestações de mútuo em conta bancária na qual é depositado,
em favor do recorrido, o Benefício de Prestação Continuada de Assistência Social ao Idoso - [Link] benefício,
de matriz constitucional, cuida de mecanismo de proteção social que visa garantir ao idoso o mínimo
indispensável à sua subsistência, não provida por sua família, mediante a concessão de uma renda mensal
equivalente a 1 (um) salário mí[Link] plano infraconstitucional, a Lei n. 8.742/1993 (Lei da Assistência Social
- LOAS), a par de corroborar que a assistência social é política estatal que provê os mínimos sociais, estabelece
que faz jus ao BPC o idoso com 65 (sessenta e cinco) anos ou mais cuja família tenha renda mensal per capita
igual ou inferior a ¼ (um quarto) do salário mí[Link], à toda evidência, o BPC, longe de constituir
"remuneração" ou "verba salarial" - do que tratou o precedente firmado no REsp 1.555.722/SP - consiste em
renda transferida pelo Estado ao idoso, de modo a ofertar-lhe, em um primeiro momento, condições de
sobrevivência em enfrentamento à miséria, e para além disto, "também propiciar condições mínimas de
sobrevivência com dignidade".Nesse diapasão, constata-se que, em razão da natureza e finalidade do BPC, a
margem de disponibilidade, do beneficiário, sobre o valor do benefício é consideravelmente reduzida se
comparada à liberdade do trabalhador no uso de seu salário, proventos e outras rendas. O valor recebido a título
de benefício assistencial, deveras, é voltado precipuamente à satisfação de necessidades básicas vitais do
indivíduo, com vistas à sua sobrevivência. Diferentemente, em se tratando de verba de natureza salarial, é
possível cogitar de uma maior margem financeira do indivíduo para custear suas despesas em geral, como
educação, lazer, vestuário, transporte, etc, aí incluído o pagamento de [Link]ém ressaltar, sequer há
autorização legal para desconto de prestações de empréstimos e cartão de crédito diretamente no BPC,
concedido pela União Federal e pago por meio do Instituto Nacional do Seguro Social - INSS, pois a Lei n.
10.820/2003, que regula a consignação em folha de pagamento de parcelas de empréstimos e cartão de crédito,
ao dispor sobre os descontos nos benefícios pagos pelo INSS, remete, tão somente, aos benefícios de
aposentadoria e pensão, ou seja, aqueles relacionados à Previdência Social, não abrangendo, assim, benefícios
[Link] limitação dos descontos, na espécie, não decorre de analogia com a hipótese de consignação
em folha de pagamento, mas com a necessária ponderação entre o princípio da autonomia da vontade privada
e o princípio da dignidade da pessoa humana, de modo a não privar o devedor de grande parcela do benefício
que, já de início, era integralmente destinado à satisfação do mínimo [Link] contexto, diante desse
específico quadro normativo, cabe realizar a distinção (distinguishing) entre o entendimento firmado no REsp
1.555.722/SP e a hipótese concreta dos autos, para o fim de acolher o pedido de limitação dos descontos ao
percentual de 30% do valor recebido a título de Benefício de Prestação Continuada de Assistência Social ao
Idoso - BPC. (Informativo n. 684)

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QUARTA TURMA
Voltar ao Sumário.

PROCESSO REsp 1.729.550-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 14/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Responsabilidade civil. Matéria jornalística que narrou fatos verídicos ou
verossímeis. Dever de informação. Liberdade de imprensa. Direito à crítica e
à opinião. Limites. Interesse público e direitos da personalidade. Abuso de
direito. Não configuração.
DESTAQUE
Não caracteriza hipótese de responsabilidade civil a publicação de matéria jornalística que narre fatos verídicos
ou verossímeis, embora eivados de opiniões severas, irônicas ou impiedosas, sobretudo quando se trate de
figuras públicas que exerçam atividades tipicamente estatais, gerindo interesses da coletividade, e a notícia e
crítica referirem-se a fatos de interesse geral relacionados à atividade pública desenvolvida pela pessoa
noticiada.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia principal dos autos está em definir acerca dos limites da liberdade de imprensa em artigos
jornalísticos críticos à atuação e ao estilo profissional de certa pessoa em postagens realizadas no portal
eletrônico de notícias.
Trata-se do instigante conflito aparente entre direitos fundamentais, consagrados na Constituição Federal de
1988 e regulamentados pela legislação infraconstitucional, quais sejam a liberdade de imprensa - corolário da
liberdade de informação e da liberdade de manifestação do pensamento - e os direitos da personalidade, como
a privacidade, a honra e a imagem, envolvendo em ambos polos da ação experientes jornalistas.
Vale ressaltar que o exercício do direito de informar apenas será digno de proteção quando presente o requisito
interno da verdade, revelado quando a informação conferir ciência da realidade.
Advirta-se, contudo, que não se exige, para a proteção anunciada, uma verdade absoluta, mas, sim, a chamada
"verdade subjetiva" que se extrai da diligência do informador, a quem incumbe apurar de forma séria os fatos
que pretende tornar públicos. Assim, "para haver responsabilidade, é necessário haver clara negligência na
apuração do fato ou dolo na difusão de falsidade".
A "veracidade do fato" consubstancia um compromisso ético com a informação verossímil - o que pode,
eventualmente, abarcar informações não totalmente precisas -, que figura como um dos parâmetros
legitimadores do exercício da liberdade de informação. Por outro lado, o requisito da verdade não subordina o
direito de expressão (em sentido estrito), que consiste na liberdade básica de expressar qualquer manifestação
do pensamento humano, tais como ideias, opiniões, críticas e crenças. A conceituação é mesmo intuitiva: trata-
se de poder manifestar-se favorável ou contrariamente a uma ideia, mediante a realização de juízo de valor e de
crítica, garantindo-se a participação efetiva dos cidadãos na condução dos assuntos públicos do país.
A liberdade de imprensa, nesse cenário, constitui modalidade qualificada das liberdades de informação e de
expressão; por meio dela, assegura-se a transmissão das informações e dos juízos de valor pelos jornalistas ou
profissionais integrantes dos veículos de comunicação social de massa, notadamente emissoras de rádio e de
televisão, editoras de jornais e provedores de notícias na internet.
Destaque-se que a liberdade de imprensa - também chamada de liberdade de informação jornalística - tem
conteúdo abrangente, compreendendo: (i) o "direito de informar" e o "direito de buscar a informação" (ambos
decorrentes da liberdade de informação que, como pontuado, tem compromisso com a verdade ainda que
subjetiva); e (ii) o "direito de opinar" e o "direito de criticar", que refletem a liberdade de expressão em sentido
estrito.

96
Conquanto seja livre a divulgação de informações, conhecimento ou ideias - mormente quando se está a tratar
de imprensa -, tal direito não é absoluto ou ilimitado, revelando-se cabida a responsabilização pelo abuso
constatado quando, a pretexto de se expressar o pensamento, invadem-se os direitos da personalidade, com
lesão à dignidade de outrem. Assim, configurada a desconformidade, o ordenamento jurídico prevê a
responsabilização cível e criminal pelo conteúdo difundido, além do direito de resposta.
Nessa linha de raciocínio, não se pode olvidar que, além do requisito da "verdade subjetiva" - consubstanciado
no dever de diligência na apuração dos fatos narrados (ou seja, o compromisso ético com a informação
verossímil) -, a existência de interesse público também constitui limite genérico ao exercício da liberdade de
imprensa (corolária dos direitos de informação e de expressão),
Como de sabença, pessoas públicas estão submetidas à exposição de sua vida e de sua personalidade e, por
conseguinte, são obrigados a tolerar críticas que, para o cidadão comum, poderiam significar uma séria lesão à
honra; tal idoneidade não se configura, decerto, em situações nas quais imputada, injustamente e sem a
necessária diligência, a prática de atos concretos que resvalem a criminalidade.
Nesse contexto, não caracteriza hipótese de responsabilidade civil a publicação de matéria jornalística que narre
fatos verídicos ou verossímeis, embora eivados de opiniões severas, irônicas ou impiedosas, sobretudo quando
se trate de figuras públicas que exerçam atividades tipicamente estatais, gerindo interesses da coletividade, e a
notícia e crítica referirem-se a fatos de interesse geral relacionados à atividade pública desenvolvida pela pessoa
noticiada. (Informativo n. 696)

PROCESSO REsp 1.345.170-RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 04/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Procuração em causa própria. Art. 685 do CC. Título translativo de
propriedade. Impossibilidade.
DESTAQUE
A procuração em causa própria (in rem suam) não é título translativo de propriedade.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O Código Civil prevê no art. 685: Conferido o mandato com a cláusula "em causa própria", a sua revogação não
terá eficácia, nem se extinguirá pela morte de qualquer das partes, ficando o mandatário dispensado de prestar
contas, e podendo transferir para si os bens móveis ou imóveis objeto do mandato, obedecidas as formalidades
legais.
Pode-se afirmar que, quanto à natureza jurídica, a procuração em causa própria, tal como a ordinária
procuração, é negócio jurídico unilateral. Trata-se, a rigor, do chamado negócio jurídico de procura, de que
resulta o instrumento de procuração.
A noção exata do instituto se evidencia ao se comparar a procuração e o mandato. De fato, é de toda conveniência
não se confundir os institutos, notadamente por possuírem naturezas jurídicas diversas: a procuração é negócio
jurídico unilateral; o mandato, como contrato que é, apresenta-se como negócio jurídico geneticamente
bilateral. De um lado, há uma única declaração jurídico-negocial, de outro, duas declarações jurídico-negociais
que se conjugam por serem congruentes quanto aos meios e convergentes quanto aos fins.
Em suma, muito embora o nome do outorgado conste do instrumento de procuração, ele não é figurante, pois o
negócio jurídico é unilateral.
Nesse contexto, pode-se conceituar a procuração em causa própria como o negócio jurídico unilateral que
confere um poder de representação ao outorgado, que o exerce em seu próprio interesse, por sua própria conta,
mas em nome do outorgante.
Quantos aos efeitos, o negócio jurídico referente à procuração em causa própria outorga ao procurador, de
forma irrevogável, inextinguível pela morte de qualquer das partes e sem dever de prestação de contas, o poder
formativo (direito potestativo) de dispor do direito (real ou pessoal) objeto da procuração. Em outras palavras,
a rigor não se transmite o direito objeto do negócio jurídico, outorga-se o poder de transferi-lo.

97
Assim, o outorgante continua sendo titular do direito (real ou pessoal) objeto da procuração em causa própria,
de modo que o outorgado passa a ser apenas titular do poder de dispor desse direito, em seu próprio interesse,
mas em nome alheio.
Em sede jurisprudencial, há precedente do Superior Tribunal de Justiça, de relatoria do em. Min. Sidnei Beneti,
que, após apontar a ampla utilização do referido instrumento no direito brasileiro, destaca que a procuração em
causa própria, a rigor, não transmite o direito objeto do negócio ao procurador, mas sim outorga-lhe o poder de
transferi-lo para si ou para outrem.
De fato, se a procuração in rem suam operasse, ela própria, transferência de direitos reais ou pessoais, estar-se-
ia abreviando institutos jurídicos e burlando regras jurídicas há muito consagradas e profundamente
imbricadas no sistema jurídico nacional.
Em síntese, à procuração em causa própria não pode ser atribuída a função de substituir, a um só tempo, os
negócios jurídicos obrigacionais ([Link]. contrato de compra e venda, doação) e dispositivos ([Link]. acordo de
transmissão) indispensáveis, em regra, à transmissão dos direitos subjetivos patrimoniais, notadamente do
direito de propriedade.
É imperioso observar, portanto, que a procuração em causa própria, por si só, não produz cessão ou transmissão
de direito pessoal ou de direito real, sendo tais afirmações frutos de equivocado romanismo que se deve evitar.
De fato, como cediço, também naquele sistema jurídico, por meio da procuração in rem suam não havia
verdadeira transferência de direitos. (Informativo n. 695)

PROCESSO REsp 1.414.803-SC, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 04/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Acidente aéreo. Colisão de aeronaves durante voo. Arrendador.
Responsabilidade civil. Ausência de nexo causal. Conduta que não influenciou
imediata ou diretamente para a ocorrência do evento danoso. Afastamento do
dever de indenizar.
DESTAQUE
A proprietária, na qualidade de arrendadora de aeronave, não pode ser responsabilizada civilmente pelos danos
causados por acidente aéreo, quando há o rompimento do nexo de causalidade, afastando-se o dever de
indenizar.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia dos autos está em definir se a proprietária, na qualidade de arrendadora de determinado avião,
pode ser responsabilizada pelos danos advindos de acidente aéreo, com diversas mortes, em que houve a colisão
de aeronaves por conduta culposa do piloto de outra aeronave.
O transporte aéreo pode ser dividido em doméstico - regido pelo Código Brasileiro da Aeronáutica, que é aquele
em que o ponto de partida, intermediário e o destino estão situados em território nacional (art. 215) - e em
internacional - regulado pela Convenção de Montreal, em que o ponto de partida e ponto de destino estejam
situados em território de dois Estados signatários da Convenção ou que haja escala prevista no território de
qualquer outro Estado, mesmo que este não seja signatário da convenção (art. 1º, nº 2).
Com relação ao transporte aéreo internacional, estabeleceu o STF que as normas e os tratados internacionais
limitadores da responsabilidade das transportadoras aéreas de passageiros, especialmente as Convenções de
Varsóvia e Montreal, têm prevalência em relação ao Código de Defesa do Consumidor, sendo aplicável o limite
indenizatório estabelecido pelos normativos internacionais subscritos pelo Brasil, em relação às condenações
por dano material.
Definiu-se, ademais, que as disposições previstas nos aludidos acordos internacionais incidem exclusivamente
nos contratos de transporte aéreo internacional de pessoas, bagagens ou carga. Assim, não alcançam o
transporte nacional de pessoas, que está excluído da abrangência do art. 22 da Convenção de Varsóvia. Por fim,
esclareceu que a limitação indenizatória abarca apenas a reparação por danos materiais, e não morais.

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No que toca à legislação pátria, o Codex, na seção do transporte de pessoas, fixou no art. 734 a responsabilidade
objetiva do transportador pelos danos causados às pessoas transportadas e suas bagagens, pois se está diante
de obrigação de resultado, salvo motivo de força maior, vedando qualquer cláusula excludente da
responsabilidade.
Já o art. 927, parágrafo único, do Código Civil prevê cláusula geral de responsabilidade objetiva quando a
atividade normalmente desenvolvida pelo causador do dano implicar, por sua natureza, riscos para os direitos
de outrem, como sói o transporte aéreo.
Somado a isso, ao menos no âmbito interno, incide o regime da responsabilidade objetiva do Código
consumerista fundada na teoria do risco do empreendimento (CDC, arst. 6°, VI, 12, 14 e 17).
o entanto, só há falar em responsabilidade civil se houver uma relação de causa e efeito entre a conduta e o dano,
se a causa for abstratamente idônea e adequada à produção do resultado, não bastando ser antecedente.
Ao contrário do que ocorre na teoria da equivalência das condições (teoria da conditio sine qua non) em que
toda e qualquer circunstância que haja concorrido para produzir o dano pode ser considerada capaz de gerar o
dano, na causalidade adequada, a ideia fundamental é a que só há uma relação de causalidade entre fato e dano
quando o ato praticado pelo agente seja de molde a provocar o dano sofrido pela vítima, segundo o curso normal
das coisas e a experiência comum da vida.
Na aferição do nexo de causalidade, "a doutrina majoritária de Direito Civil adota a teoria da causalidade
adequada ou do dano direto e imediato, de maneira que somente se considera existente o nexo causal quando o
dano é efeito necessário e adequado de uma causa (ação ou omissão). Essa teoria foi acolhida pelo Código Civil
de 1916 (art. 1.060) e pelo Código Civil de 2002 (art. 403)".
Assim, sem que ocorra efetivamente uma relação de causalidade entre fato e dano, não sendo o ato praticado
pelo agente minimamente suficiente para provocar o dano sofrido pela vítima, segundo o curso normal das
coisas e a experiência comum da vida, conforme a teoria da causalidade adequada, a proprietária e arrendadora
da aeronave não pode ser responsabilizada civilmente pelos danos causados, haja vista o rompimento do nexo
de causalidade, afastando-se o dever de indenizar. (Informativo n. 695)

PROCESSO REsp 1.699.013-DF, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 04/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Imóvel de propriedade comum do ex-casal. Residência de ex-cônjuge com
filha menor de ambos. Arbitramento de aluguel. Não obrigatoriedade.
DESTAQUE
Não é obrigatório o arbitramento de aluguel ao ex-cônjuge que reside, após o divórcio, em imóvel de
propriedade comum do ex-casal com a filha menor de ambos.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
nicialmente, o uso exclusivo do imóvel comum por um dos ex-cônjuges - após a separação ou o divórcio e ainda
que não tenha sido formalizada a partilha - autoriza que aquele privado da fruição do bem reivindique, a título
de indenização, a parcela proporcional a sua quota-parte sobre a renda de um aluguel presumido, nos termos
do disposto nos artigos 1.319 e 1.326 do Código Civil.
Tal obrigação reparatória - que tem por objetivo afastar o enriquecimento sem causa do coproprietário -
apresenta como fato gerador o uso exclusivo do imóvel comum por um dos ex-consortes, a partir da inequívoca
oposição daquele que se encontra destituído da fruição do bem, notadamente quando ausentes os requisitos
ensejadores da chamada "usucapião familiar" prevista no artigo 1.240-A do Código Civil.
No caso, ainda que o imóvel pertença a ambos os ex-cônjuges, é utilizado como moradia da prole comum (filha
menor cuja guarda foi concedida ao ex-marido). Indaga-se, portanto, quanto as consequências desta situação,
se possui o condão de afastar (ou, de algum modo, minorar) o dever de indenização pelo uso exclusivo do bem.

99
Como de sabença, incumbe a ambos os genitores - na medida de suas possibilidades econômico-financeiras -,
custear as despesas dos filhos menores com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene e
transporte; dever parental que, por óbvio, não se desfaz com o término do vínculo matrimonial ou da união
estável, conforme se depreende do artigo 1.703 do Código Civil.
Enquanto o filho for menor, a "obrigação alimentícia" tem por lastro o dever de sustento derivado do poder
familiar, havendo presunção de necessidade do alimentando; ao passo que, após a maioridade civil (dezoito
anos), exsurge o dever dos genitores de prestar alimentos ao filho - em decorrência da relação de parentesco -
quando demonstrada situação de incapacidade ou de indigência não proposital, bem como por estar o
descendente em período de formação escolar profissionalizante ou em faculdade.
Outrossim, impende assinalar que uma das características da obrigação de prestar alimentos é a sua
alternatividade, consoante se extrai da norma inserta no artigo 1.701 do Código Civil.
A prestação alimentícia, portanto, pode ter caráter pecuniário - pagamento de certa soma em dinheiro - e/ou
corresponder a uma obrigação in natura, hipótese em que o devedor fornece os próprios bens necessários à
sobrevivência do alimentando, tais como moradia, saúde e educação.
Nada obstante, à luz do disposto no artigo 1.707 do Código Civil, não se admite, em linha de princípio, a
compensação de alimentos fixados em pecúnia com aqueles pagos in natura, os quais serão considerados como
mera liberalidade do devedor quando divergirem da forma estipulada pelo juízo.
A jurisprudência desta Corte tem ponderado, contudo, que o aludido princípio da incompensabilidade da
obrigação alimentar não é absoluto, podendo ser mitigado para impedir o enriquecimento indevido de uma das
partes, mediante o abatimento de despesas pagas in natura para satisfação de necessidades essenciais do
alimentando - como moradia, saúde e educação - do débito oriundo de pensão alimentícia.
Concluindo, é certo que a utilização do bem pela descendente dos coproprietários - titulares do poder familiar
e, consequentemente, do dever de sustento - beneficia a ambos, não se configurando, portanto, o fato gerador
da obrigação indenizatória fundada nos artigos 1.319 e 1.326 do Código Civil.
Ademais, o fato de o imóvel comum também servir de moradia para a filha do ex-casal tem a possibilidade de
converter a "indenização proporcional devida pelo uso exclusivo do bem" em "parcela in natura da prestação
de alimentos" (sob a forma de habitação), que deve ser somada aos alimentos in pecunia a serem pagos pelo ex-
cônjuge que não usufrui do bem - e que pode ser apurado em ação própria -, afastando o enriquecimento sem
causa de qualquer uma das partes. (Informativo n. 695)

PROCESSO REsp 1.819.075-RS, Rel. p/ acórdão Min. Raul Araújo, Quarta Turma, por
maioria, julgado em 20/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Condomínio. Destinação residencial. Contrato atípico de hospedagem. Airbnb.
Locação concomitante de partes do imóvel a diferentes pessoas. Inviabilidade.
DESTAQUE
É vedado o uso de unidade condominialcom destinação residencialpara fins de hospedagem remunerada,
com múltipla e concomitante locação de aposentos existentes nos apartamentos, a diferentes pessoas, por curta
temporada.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
No caso, tem-se um contrato atípico de hospedagem, que expressa uma nova modalidade, singela e inovadora
de hospedagem de pessoas, sem vínculo entre si, em ambientes físicos de padrão residencial e de precário
fracionamento para utilização privativa, de limitado conforto, exercida sem inerente profissionalismo por
proprietário ou possuidor do imóvel, sendo a atividade comumente anunciada e contratada por meio de
plataformas digitais variadas.
Assim, esse contrato atípico de hospedagem configura atividade aparentemente lícita, desde que não
contrarie a Lei de regência do contrato de hospedagem típico, regulado pela Lei n. 11.771/2008, como autoriza
a norma do art. 425 do Código Civil, ao dizer: "É lícito às partes estipular contratos atípicos, observadas as
normas gerais fixadas neste Código".

100
No caso específico de unidade condominial, também devem ser observadas as regras dos arts. 1.332 a 1.336
do CC/2002, que, por um lado, reconhecem ao proprietário o direito de usar, fruir e dispor livremente de sua
unidade e, de outro, impõem o dever de observar sua destinação e usá-la de maneira não abusiva, com respeito
à Convenção Condominial.
Ademais, deve harmonizar-se com os direitos relativos à segurança, ao sossego e à saúde das demais
múltiplas propriedades abrangidas no Condomínio, de acordo com as razoáveis limitações aprovadas pela
maioria de condôminos, pois são limitações concernentes à natureza da propriedade privada em regime de
condomínio edilício.
Portanto, existindo na Convenção de Condomínio regra impondo destinação residencial, mostra-se inviável
o uso das unidades particulares que, por sua natureza, implique o desvirtuamento daquela finalidade residencial
(CC/2002, arts. 1.332, III, e 1.336, IV).
Com isso, fica o condômino obrigado a "dar às suas partes a mesma destinação que tem a edificação" (CC, art.
1.336, IV), ou seja, destinação residencial, carecendo de expressa autorização para dar destinação diversa,
inclusive para a relativa à hospedagem remunerada, por via de contrato atípico. (Informativo n. 693)

PROCESSO REsp 1.135.682-RS, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 13/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL
TEMA Cédula de crédito comercial garantida por alienação fiduciária. Ajuizamento
de ação de busca e apreensão. Interrupção da prescrição. Citação válida. Art.
202, inciso V, do Código Civil.
DESTAQUE
O ajuizamento da ação de busca e apreensão fundada no inadimplemento da cédula de crédito comercial
garantida por alienação fiduciária, com a citação válida do devedor, interrompe o prazo para propor ação de
execução com base no mesmo título de crédito.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Conforme a regra do art. 202, inciso V c/c parágrafo único, do Código Civil, qualquer ato judicial que constitua
em mora o devedor interrompe a prescrição, que voltará a ser contada somente após o trânsito em julgado da
decisão judicial que ponha fim ao processo que a interrompeu.
No caso, as partes celebraram uma cédula de crédito - pacto cuja finalidade é incentivar a atividade comercial
através do empréstimo remunerado de capital. O objetivo do tomador do empréstimo é obter o crédito para
fomentar sua atividade empresarial; já o objetivo da instituição financeira é reaver o valor emprestado, com
juros e demais acréscimos legais.
A cláusula de alienação fiduciária é acessória e serve de garantia para que o credor, diante do
inadimplemento, receba o capital emprestado. Assim, afirmar que a ação de busca e apreensão tem como
propósito obter o bem dado em garantia implica tomar o acessório pelo principal.
Quando a instituição financeira ajuizou a ação de busca e apreensão e citou validamente a embargada,
constituiu em mora a devedora; isso significa dizer que a ré estava inadimplente com a obrigação principal da
cédula de crédito comercial: restituir, conforme acordado, o capital emprestado pelo autor. Inexistente a mora,
que é requisito essencial, haveria carência de ação.
Mais um indicativo de que a finalidade do processo é a restituição do capital emprestado era a possibilidade
de purgação da mora, na redação do art. 3º, § 1º, do Decreto-Lei n. 911/1969, anterior à Lei n. 10.931/2004. O
devedor, até então, poderia adimplir as parcelas atrasadas, e o pacto seguia seu curso normal. Ainda hoje, pode
o devedor pagar a integralidade da dívida, cumprindo a obrigação principal.
Assim, patente que a finalidade da ação de busca e apreensão é o cumprimento da obrigação expressa na
cédula de crédito comercial - assim como o é a ação de execução, proposta com base no mesmo título. Não é
possível afastar a constituição em mora do devedor - fato que, a teor do já mencionado art. 202, inciso V, e
parágrafo único, do Código Civil, implicou a interrupção da prescrição até o trânsito em julgado do processo.
(Informativo n. 692)

101
PROCESSO REsp 1.236.057-SP, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 06/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL
TEMA Bem de família. Protesto contra alienação. Cabimento. Requisitos. Legítimo
interesse. Não prejudicialidade efetiva da medida.
DESTAQUE
É cabível a averbação de protesto contra alienação em matrícula de imóvel considerado bem de família.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O protesto possui previsão legal no art. 867 do CPC/1973, segundo o qual "todo aquele que desejar prevenir
responsabilidade, prover a conservação e ressalva de seus direitos ou manifestar qualquer intenção de modo
formal, poderá fazer por escrito o seu protesto, em petição dirigida ao juiz, e requerer que do mesmo se intime
a quem de direito". O Código de Processo Civil de 2015, em seu art. 301, arrolou o registro de protesto contra
alienação de bem como uma das formas de tutela de urgência de natureza cautelar.
Além disso, a "averbação, no Cartório de Registro de Imóveis, de protesto contra alienação de bem, está
dentro do poder geral de cautela do juiz (art. 798, CPC) e se justifica pela necessidade de dar conhecimento do
protesto a terceiros, prevenindo litígios e prejuízos para eventuais adquirentes" (EREsp 440.837/RS, Rel.
Ministra Eliana Calmon, Rel. p/ Acórdão Ministro Barros Monteiro, Corte Especial, julgado em 16/08/2006, DJ
28/05/2007).
Assim, o protesto busca preservar direitos preexistentes e, por ser medida administrativa determinada
judicialmente, esgota-se no plano do registro da vontade do promovente. A inserção da informação no registro
público do imóvel é uma forma de prevenir possível alienação fraudulenta, mediante divulgação erga omnes.
Portanto, a medida não impede a disposição do bem, mas obsta que terceiro adquirente possa alegar boa-fé,
no caso de futura demanda judicial envolvendo o imóvel. Além disso, o STJ, no julgamento do RMS 35.481/SP,
interpretando o art. 869 do CPC/1973, entendeu que o protesto contra alienação de bens pressupõe a existência
de dois requisitos, quais sejam, legítimo interesse e não prejudicialidade efetiva da medida.
Em relação ao bem de família, o protesto contra alienação de bens não possui o objetivo de obstar ou anular
o negócio jurídico de venda do imóvel impenhorável, mas somente de informar terceiros de boa-fé a respeito
da pretensão do credor de penhora do bem, na hipótese de afastamento da proteção conferida pela Lei n.
8.009/1990.
Assim, estão presentes os pressupostos para o protesto contra a alienação de bens, tendo em vista que a
publicidade da pretensão é essencial para proteção de terceiros de boa-fé e preservação do direito do executante
de futura constrição do imóvel, no caso da perda da qualidade de bem de família. (Informativo n. 692)

PROCESSO REsp 1.691.792-RS, Rel. Min. Antônio Carlos Ferreira, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 23/03/2021 
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Plano de pecúlio. Inadimplência. Longo período. Entidade de previdência
privada. Recusa de pagamento do pecúlio por morte. Legitimidade.
DESTAQUE
É legítima a recusa da entidade de previdência privada ao pagamento do pecúlio por morte no caso de
inadimplemento das parcelas contratadas por longo período, independente da ausência de prévia interpelação
para o encerramento do contrato.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Inicialmente, não resta dúvida de que o entendimento firmado pela Segunda Seção - no sentido de que "[o] mero
atraso no pagamento de prestação do prêmio do seguro não importa em desfazimento automático do contrato,
para o que se exige, ao menos, a prévia constituição em mora do contratante pela seguradora, mediante
102
interpelação" (REsp 316.552/SP, Rel. Ministro Aldir Passarinho Junior, Segunda Seção, julgado em 09/10/2002,
DJ 12/04/2004, p. 184) - também se aplica ao caso do contrato de previdência privada com plano de pecúlio
por morte.O mero inadimplemento das prestações não basta para a caracterização da mora do segurado, sendo
necessária a interpelação para a desconstituição da relação contratual. Entretanto, diante de um longo período
de inadimplemento - aproximadamente 7 (sete) anos, sem prova de circunstância excepcional que se afigure
apta a justificar o descumprimento da obrigação, não há falar em "mero inadimplemento", senão a inequívoca
manifestação de desinteresse na continuidade da relação [Link] julgamento do REsp 842.408/RS,
examinando situação semelhante, entendeu a Terceira Turma desta Corte que "indenizar segurado
inadimplente há mais de um ano é agredir a boa-fé (Art. 1.443 do CCB/1916) e a lógica do razoável. Pouco
importa se o inadimplemento decorreu de suposta redução do limite de crédito do segurado. Nem há como
impor ao banco onde realizados os débitos o dever de acompanhar os compromissos financeiros de seu cliente
'distraído' (fl. 201). Um atraso de 15 meses não pode ser qualificado como 'mero atraso no pagamento de
prestação do prêmio do seguro' (REsp 316.552). A ausência de interpelação por parte da seguradora não
garante, no caso, o direito à indenização securitária". (Informativo n. 690)

PROCESSO REsp 1.412.247-MG, Rel. Min. Antônio Carlos Ferreira, Quarta Turma,
por unanimidade, julgado em 23/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL
TEMA Indenização por morte. DPVAT. Seguro de vida. Identidade.
Impenhorabilidade. CPC/1973, art. 649, VI (CPC/2015, art. 833, VI).
Incidência.
DESTAQUE
Os valores pagos a título de indenização pelo "Seguro DPVAT" aos familiares da vítima fatal de acidente de
trânsito gozam da proteção legal de impenhorabilidade ditada pelo art. 649, VI, do CPC/1973 (art. 833, VI, do
CPC/2015), enquadrando-se na expressão "seguro de vida".
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
"O Seguro DPVAT tem a finalidade de amparar as vítimas de acidentes causados por veículos automotores
terrestres ou pela carga transportada, ostentando a natureza de seguro de danos pessoais, cujo escopo é
eminentemente social, porquanto transfere para o segurador os efeitos econômicos do risco da
responsabilidade civil do proprietário em reparar danos a vítimas de trânsito, independentemente da existência
de culpa no sinistro" (REsp 876.102/DF, Rel. Ministro Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, julgado em
22/11/2011, DJe 01/02/2012).Sob uma perspectiva teleológica da proteção conferida ao "seguro de vida" pelo
art. 649, VI, do CPC/1973 (art. 833, VI, do CPC/2015), os valores pagos pelo "seguro DPVAT" devem receber o
mesmo tratamento, evidenciando cobertura que, conquanto obrigatória, em tudo se identifica com a
indenização paga em razão do "seguro de pessoa" previsto pelo art. 789 e ss. do CC/[Link] fato, a indenização
paga pelo "seguro DPVAT", sobretudo quando ocorre a morte da vítima do acidente automobilístico, também
tem objetivo de atenuar os efeitos que a ausência do falecido pode ensejar às finanças de sua família, revelando
indubitável natureza [Link] a doutrina, "ao instituir a impenhorabilidade do seguro de vida, quis
o legislador assegurar a efetividade da proteção patrimonial que o segurado [ou, no caso do DPVAT, a própria
lei instituidora] desejou destinar aos beneficiários; o valor devido pela empresa seguradora a esse título não é
penhorável por dívidas destes nem do espólio ou do autor da herança, porque em qualquer dessas hipóteses tal
intuito estaria frustrado".Forçoso concluir que o "seguro de vida" e o "seguro DPVAT", previsto nas Leis Federais
n. 6.194/1974 e 8.374/1991, longe de evidenciar natureza e objetivos distintos, em verdade guardam estreita
semelhança, sobretudo no que se refere à finalidade de sua indenização, motivo pelo qual é inafastável, tanto
para um quanto para o outro, a impenhorabilidade ditada pela lei processual - ubi eadem ratio ibi eadem
dispositio. Não se trata, pois, de aplicação analógica do dispositivo legal, senão o enquadramento do "seguro
DPVAT" dentro da previsão contida na lei processual. (Informativo n. 690)

103
PROCESSO REsp 1.859.665/SC, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 09/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Provedor de aplicações de internet. Fornecimento de dados dos usuários.
Especificação mínima da conduta ilícita. Necessidade.
DESTAQUE
É vedado ao provedor de aplicações de internet fornecer dados de forma indiscriminada dos usuários que
tenham compartilhado determinada postagem, em pedido genérico e coletivo, sem a especificação mínima de
uma conduta ilícita realizada.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O Marco Civil da Internet (Lei n. 12.965/2014) estabelece que na provisão de conexão à internet, cabe ao
administrador de sistema autônomo respectivo o dever de manter os registros de conexão, sob sigilo, em
ambiente controlado e de segurança, pelo prazo de 1 ano, nos termos do regulamento (art. 13) e o provedor de
aplicações de internet, custodiar os respectivos registros de acesso a aplicações de internet, pelo prazo de 6
meses (art. 15).O propósito da norma foi o de criar instrumental que consiga, por autoridade constituída e
precedida de autorização judicial, acessar os registros de conexão, rastreando e sancionando eventuais condutas
ilícitas perpetradas por usuários da internet e inibindo, de alguma forma, a falsa noção de anonimato no uso das
redes. Por outro lado, a Lei n. 12.965/2014 possui viés hermenêutico voltado ao zelo pela preservação da
intimidade, da vida privada, da honra e da imagem do usuário (art. 23), com a previsão de cláusula de reserva
judicial para qualquer quebra de [Link], se é certo afirmar que o usuário das redes sociais pode
livremente reivindicar seu direito fundamental de expressão, também é correto sustentar que a sua liberdade
encontrará limites nos direitos da personalidade de outrem, sob pena de abuso em sua autonomia, já que
nenhum direito é absoluto, por maior que seja a sua posição de preferência, especialmente se se tratar de danos
a outros direitos de elevada importâ[Link] termos da Lei n. 12.965/14 (art. 22), a parte interessada poderá
pleitear ao juízo, com o propósito de formar conjunto probatório em processo judicial cível ou penal, em caráter
incidental ou autônomo, que ordene ao responsável pela guarda o fornecimento de registros de conexão ou de
registros de acesso a aplicações de internet. Para tanto, sob pena de admissibilidade, exige a norma que haja: I -
fundados indícios da ocorrência do ilícito; II - justificativa motivada da utilidade dos registros solicitados para
fins de investigação ou instrução probatória; e III - período ao qual se referem os registros (parágrafo
único).Nesse contexto, não se pode subjugar o direito à privacidade a ponto de permitir a quebra indiscriminada
do sigilo dos registros, com informações de foro íntimo dos usuários, tão somente pelo fato de terem
compartilhado determinado vídeo que, depois, veio a se saber que se tratava falso. (Informativo n. 688)

PROCESSO REsp 1.511.978-BA, Rel. Min. Antônio Carlos Ferreira, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 02/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Denúncia vazia. Art. 47, V, da Lei n. 8.245/1991. Termo inicial. Formação do
vínculo contratual.
DESTAQUE
O termo inicial de contagem do prazo para a denúncia vazia, nas hipóteses de que trata o art. 47, V, da Lei n.
8.245/1991, coincide com a formação do vínculo contratual.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia reside na interpretação do art. 47, V, da Lei n. 8.245/1991, que tem a seguinte redação: Art. 47.
Quando ajustada verbalmente ou por escrito e como prazo inferior a trinta meses, findo o prazo estabelecido, a
locação prorroga - se automaticamente, por prazo indeterminado, somente podendo ser retomado o imóvel: (...)
V - se a vigência ininterrupta da locação ultrapassar cinco anos. (...).Defende-se que a contagem do período
indicado no dispositivo somente se inicia com o fim da locação pelo prazo estabelecido contratualmente, quando
104
passa a viger por tempo [Link]-se, contudo, que, segundo o comando expresso do dispositivo, o
requisito temporal refere-se à "vigência ininterrupta da locação", vínculo cujo prazo deve ser contado desde a
sua formação inicial, não sofrendo interrupção pelo fato de haver sido prorrogada por prazo indeterminado
após o decurso do lapso temporal originariamente avençado.É dizer: a locação por prazo indeterminado não
traduz uma nova contratação, senão o mero prolongamento da avença originária, vigendo ininterruptamente
desde que a posse direta do imóvel é transmitida ao locatário, em regra com a simbólica entrega das chaves.
(Informativo n. 687)

PROCESSO REsp 1.580.446-RJ, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 23/02/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Distribuidora de medicamentos. Drogarias e Farmácias. Tarifa de emissão de
boleto bancário. Repasse. Legalidade.
DESTAQUE
É cabível o repasse da despesa relativa à tarifa de emissão de boletos bancários feito pela distribuidora de
medicamentos às drogarias e farmácias.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
No comércio atacadista de drogas, medicamentos, insumos farmacêuticos e correlatos - produtos sujeitos à
vigilância sanitária, nos termos da Lei n. 6.360/1976 -, a atividade empresarial de distribuição apresenta certas
peculiaridades, notadamente em razão da intensa regulação estatal incidente sobre tais produtos e os agentes
do mercado que com eles [Link], todos os agentes econômicos integrantes dessa relação comercial
devem se submeter aos preços máximos de venda dos medicamentos - "preço fábrica" ou "preço máximo ao
consumidor" -, o que implica a limitação do repasse de custos entre os participantes da cadeia de distribuição,
assim como a redução das respectivas margens de [Link] cadeia de relações jurídicas que culminam com a
cobrança e posterior repasse do pagamento de tarifa de emissão de boleto bancário, as distribuidoras
(comerciantes atacadistas) adquirem os produtos da indústria farmacêutica (laboratórios e importadoras) e,
posteriormente, atuam na logística de disponibilização - armazenagem, controle de estoque, organização e
realização do fluxo de distribuição, transporte e venda - dos medicamentos para as farmácias e drogarias
(comerciantes varejistas), que constituem o principal canal de acesso aos fármacos pela população
[Link] vez firmado o contrato de compra e venda mercantil - integrante da relação de distribuição de
produtos farmacêuticos -, a obrigação essencial das atacadistas (vendedoras) consistirá na "entrega dos
medicamentos" (transferência efetiva do domínio) em determinado prazo, ao passo que incumbirá às varejistas
(compradoras) o pagamento do preço avenç[Link] termos do artigo 325 do Código Civil, a obrigação das
compradoras não se resume ao pagamento do preço, presumindo-se a sua responsabilidade pelas "despesas
com o pagamento e a quitação", salvo em se tratando de despesa excepcional decorrente de fato imputável ao
credor.À luz do Código Civil de 2002, a chamada tarifa de emissão de boleto bancário caracteriza despesa
decorrente da oferta deste meio de pagamento às varejistas (compradoras), revelando-se razoável que lhes seja
[Link]ém disso, a vedação de cobrança de tarifa de emissão de boleto consubstancia comando dirigido
unicamente às instituições financeiras, que não podem exigir de seus clientes (pessoas, físicas ou jurídicas, com
as quais mantenha vínculo negocial não esporádico) a remuneração de serviço sem respaldo em prévia
contratação nem obter valores, a esse título, diretamente do sacado.Não há falar, contudo, em limitação à
liberdade negocial de sociedades empresárias, que, no âmbito de relação mercantil, convencionem a
transferência, para as adquirentes de produtos farmacêuticos (varejistas), do custo suportado pela vendedora
(distribuidora) com a oferta de meio de pagamento favorável ao desenvolvimento eficiente das atividades das
partes, ambas integrantes da cadeia de distribuição de [Link] mesmo diapasão, destaca-se a tese
firmada, à unanimidade, pela Terceira Turma, por ocasião do julgamento do REsp 1.515.640/SP, no sentido de
que, seja à luz do artigo 325 do Código Civil, seja em face dos limites de atuação do Conselho Monetário Nacional,
não caracteriza abuso do poder econômico, violação à boa-fé ou aos bons costumes o repasse, pelas
distribuidoras de medicamentos (atacadistas), da tarifa de emissão de boletos bancários às drogarias e

105
farmácias (varejistas).Por fim, registra-se que a criação do Pix revolucionou não apenas o mercado financeiro,
mas também os usos e costumes próprios das relações jurídicas empresariais, que deverão se adequar ao novo
cenário, modernizando-se e aprimorando-se com vista a otimizar a busca pelo lucro e pela acumulação de
riquezas, finalidade principal do sistema econômico capitalista que ora vivenciamos. (Informativo n. 686)

PROCESSO REsp 1.907.653-RJ, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 23/02/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL
TEMA Extinção contratual. Cláusula resolutiva tácita. Art. 475 do Código Civil.
Pedidos alternativos. Pedido de cumprimento ou a resolução do contrato.
Opção do lesado. Momento. Antes da sentença.
DESTAQUE
Em ação de extinção contratual com cláusula resolutiva, é lícito à parte lesada optar entre o cumprimento
forçado ou o rompimento do contrato, desde que antes da sentença.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia sobre pedido formulado de forma alternativa, com fundamento na cláusula resolutiva
tácita prevista no art. 475 do Código Civil e não, de obrigação pactuada com natureza alternativa, instituto
tratado nos arts. 252 a 256 do mesmo Código.É lícito à parte lesada optar pelo cumprimento forçado ou pelo
rompimento do contrato, não lhe cabendo, todavia, o direito de exercer ambas a alternativas simultaneamente.
A escolha, uma vez feita, pode variar, desde que antes da sentenç[Link] a doutrina, a ação para a resolução
do contrato pode ser exercida "em substituição da ação para cumprimento, ainda que esta já tenha sido
intentada, desde que não haja sentença, porque só esta (e não o simples pedido judicial) é decisiva e extingue o
direito de escolha que, entre os dois remédios, a lei concede".Assim, julgado procedente o pedido de condenação
do devedor ao cumprimento do contrato, não cabe deferir, simultaneamente, ao credor, a pretensão de
resolução do pacto. (Informativo n. 686)

106
DIREITO COMERCIAL

107
TERCEIRA TURMA
Voltar ao Sumário.

PROCESSO REsp 1.920.311-MG, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 18/05/2021, DJe 20/05/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO COMERCIAL
TEMA Nota promissória. Divergência entre datas de vencimento apostas na cártula.
Nulidade. Não ocorrência. Data posterior. Prevalência.
DESTAQUE
A aposição de datas de vencimento divergentes em nota promissória não inquina os títulos de crédito de
nulidade, devendo-se adotar, a data posterior se a outra coincide com a data de emissão do título.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Embora o formalismo constitua princípio regulamentador dos títulos de crédito, pode a lei enumerar
determinado requisito e, ainda assim, admitir a possibilidade de a cártula não o conter expressamente - ou de o
conter de forma irregular, com a presença de vícios supríveis - sem que o título perca sua eficácia própria.
Um desses defeitos supríveis é o da divergência entre os valores da dívida inscritos no título, cuja solução
prevista na Lei Uniforme de Genebra (art. 6º da LUG) é de fazer prevalecer a expressão grafada por extenso ou
aquela de menor quantia, as quais, presumivelmente, correspondem à vontade do emitente da cártula.
A data de vencimento da dívida constitui requisito não essencial da nota promissória, pois, em virtude da
ausência desse elemento, considera-se que o valor é exigível à vista, por se presumir ser essa a vontade do
emitente do título.
A interpretação sistemática da LUG permite inferir que, para a solução de questões relacionadas a defeitos
supríveis ou requisitos não essenciais, o critério a ser adotado deve ser pautado pela busca da vontade
presumida do emitente.
Dentre os elementos essenciais de uma operação de crédito inclui-se a concessão de um prazo para pagamento
da obrigação, de modo que, por envolver operação dessa natureza, a emissão de uma nota promissória autoriza
a presunção de que a efetiva vontade do emitente é a de que o vencimento ocorresse em data futura, após sua
emissão.
Nesse cenário, se, entre duas datas de vencimento, uma coincide com a data de emissão do título - não existindo,
assim, como se entrever, nessa hipótese, uma operação de crédito -, deve prevalecer a data posterior.
(Informativo n. 697)

108
DIREITO CONSTITUCIONAL

109
CORTE ESPECIAL
Voltar ao Sumário.

PROCESSO AI no AREsp 641.185-RS, Rel. Min. Og Fernandes, Corte Especial, por


unanimidade, julgado em 11/02/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO CONSTITUCIONAL
TEMA Concessão de habilitação definitiva. Art. 148, § 3º, do Código de Trânsito
Brasileiro. Parcialmente inconstitucional, sem redução de texto. Infração
(grave ou gravíssima) meramente administrativa. Não aplicação.

DESTAQUE
O art. 148, § 3º, do Código de Trânsito Brasileiro, é parcialmente inconstitucional excluindo de sua aplicação a
hipótese de infração (grave ou gravíssima) meramente administrativa, ou seja, não cometida na condução de
veículo automotor
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A jurisprudência desta Corte de Justiça, interpretando teleologicamente o art. 148, § 3º, do CTB (verbis: § 3º A
Carteira Nacional de Habilitação será conferida ao condutor no término de um ano, desde que o mesmo não
tenha cometido nenhuma infração de natureza grave ou gravíssima ou seja reincidente em infração média)
firmou-se no sentido da possibilidade de concessão da Carteira Nacional de Habilitação definitiva a motorista
que cometeu infração de natureza grave não na qualidade de condutor, mas de proprietário do veículo, ou seja,
de caráter meramente administrativo, durante o prazo de um ano da sua permissão provisória. Nos termos da
firme orientação trilhada no STJ, a infração administrativa de trânsito, ou seja, aquela que não está relacionada
à condução do veículo e à segurança no trânsito, mas sim à propriedade do veículo, ainda que seja de natureza
grave, não obsta a concessão da habilitação definitiva. Também uníssono o pensamento Superior Tribunal no
sentido de que tal diretriz não se confundia com eventual declaração de inconstitucionalidade do art. 148, § 3º,
do CTB, mas apenas conferia a melhor interpretação de norma infraconstitucional. Ocorre que, no julgamento
do ARE 1.195.532/RS, tirado do acórdão proferido no presente agravo em recurso especial, o Supremo Tribunal
Federal reconheceu expressamente que o órgão fracionário do Superior Tribunal de Justiça, ao conferir
interpretação teleológica ao disposto no art. 148, § 3º, do CTB, apesar de não ter declarado expressamente a
inconstitucionalidade do mencionado dispositivo legal, promoveu a denominada declaração de
inconstitucionalidade parcial sem redução de texto, pela qual o intérprete declara a inconstitucionalidade de
algumas interpretações possíveis do texto legal, sem, contudo, alterá-lo gramaticalmente, ou seja, censurou uma
determinada interpretação por considerá-la inconstitucional. Nesse contexto, reconhece-se a
inconstitucionalidade parcial, sem redução de texto, do § 3º do artigo 148 da Lei n. 9.503/1997, para excluir sua
aplicação à hipótese de infração (grave ou gravíssima) meramente administrativa, ou seja, não cometida na
condução de veículo automotor. (Informativo n. 685)

110
PRIMEIRA SEÇÃO
Voltar ao Sumário.

PROCESSO CC 147.784/PR, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Primeira Seção, por
unanimidade, julgado em 24/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO CONSTITUCIONAL, DIREITO DO
TRABALHO
TEMA Contribuição sindical compulsória (imposto sindical). Servidor Público. Art.
114, III, da CF. Adequação da jurisprudência do STJ. Tema n. 994/STF. RE
1.089.282/AM. Competência da Justiça Comum para servidor público com
vínculo estatutário. Competência da Justiça do Trabalho para servidor público
com vínculo celetista. Nova interpretação da Súmula 222 do STJ.
DESTAQUE
A Súmula 222 do STJ - Compete à Justiça Comum processar e julgar as ações relativas à contribuição sindical
prevista no art. 578 da CLT - deve abarcar apenas situações em que a contribuição sindical diz respeito a
servidores públicos estatutários, mantendo-se a competência para processar e julgar as ações relativas à
contribuição sindical referentes a celetistas (servidores públicos ou não) na Justiça do Trabalho.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


Com o advento do art. 114, da Constituição Federal de 1988 (em sua redação original), firmou-se a interpretação
restritiva de que a competência da justiça laboral somente abarcava as hipóteses ali expressas e que quaisquer
outras "controvérsias decorrentes da relação de trabalho" somente o seriam de competência daquela justiça
especializada acaso sobreviesse lei que assim o estabelecesse. Assim, permaneceu vigente no período a Súmula
n. 87 do extinto Tribunal Federal de Recursos - TFR que definiu ser da competência da Justiça Comum o processo
e julgamento da contribuição assistencial prevista em convenção ou acordo coletivo e da contribuição sindical
compulsória prevista em lei (imposto sindical), a saber: "Compete à Justiça Comum o processo e julgamento de
ação de cobrança de contribuições sindicais".Tal situação perdurou até o advento da Lei n. 8.984/1995 que
estabeleceu competir " à Justiça do Trabalho conciliar e julgar os dissídios que tenham origem no cumprimento
de convenções coletivas de trabalho ou acordos coletivos de trabalho, mesmo quando ocorram entre sindicatos
ou entre sindicato de trabalhadores e empregador" (convenções e acordos não homologados). Tal lei levou a
cobrança da contribuição assistencial prevista em convenção ou acordo coletivo para a competência da Justiça
do Trabalho, surgindo então dúvida a respeito do destino da contribuição sindical compulsória (imposto
sindical), se acompanharia a contribuição assistencial ou se permaneceria na Justiça [Link] novo
contexto, este Superior Tribunal de Justiça produziu o precedente nos EDcl no CC 17.765 / MG (Segunda Seção,
Rel. Min. Paulo Costa Leite, julgado em 13/08/1997) onde no qual restou fixado que a cobrança da contribuição
sindical compulsória (imposto sindical) deveria se dar na Justiça [Link], em 23/06/1999, com
base no mencionado precedente, foi julgada pela Segunda Seção a Súmula n. 222/STJ com o seguinte texto:
"Compete à Justiça Comum processar e julgar as ações relativas à contribuição sindical prevista no art. 578 da
CLT".Mais recentemente, com o advento da alteração do art. 114, da CF/1988, promovida pela EC n. 45/2004,
foram inseridas na competência da Justiça do Trabalho "as ações oriundas da relação de trabalho, abrangidos
os entes de direito público externo e da administração pública direta e indireta da União, dos Estados, do Distrito
Federal e dos Municípios" (art. 114, I, CF/1988) e "as ações sobre representação sindical, entre sindicatos, entre
sindicatos e trabalhadores, e entre sindicatos e empregadores" (art. 114, III, CF/1988).A troca da expressão
"dissídios individuais e coletivos entre trabalhadores e empregadores" contida na redação original do art. 114,
da CF/1988, pela expressão "ações oriundas da relação de trabalho", contida na redação dada pela EC n.
45/2004, trouxe dúvida em relação à competência da Justiça do Trabalho para julgar as causas entre o Poder
Público e seus servidores estatutários. O tema foi então enfrentado pelo STF quando do julgamento da ADI 3.395
MC/DF (Tribunal Pleno, Rel. Min. Cezar Peluso, julgado em 05/04/2006) que registrou: "O disposto no art. 114,
111
I, da Constituição da República, não abrange as causas instauradas entre o Poder Público e servidor que lhe seja
vinculado por relação jurídico-estatutária". Contudo, permaneceu alguma dúvida em relação ao reflexo do
julgado do STF sobre as ações que envolviam as contribuições sindicais de servidores públicos e o alcance do
disposto no art. 114, III, da CF/[Link] feita, após o julgamento pelo STF da ADI 3.395 MC / DF, em pesquisa
realizada na jurisprudência deste STJ, no que se refere às ações em que se discute a técnica de tributação via
recolhimento e repasse, os mais recentes precedentes da Primeira Seção são no sentido de que o referido
julgamento em nada havia interferido na regra de competência para a discussão da contribuição sindical dos
servidores públicos, devendo esta se dar sempre na Justiça do Trabalho, indiferente a condição do servidor
público de celetista ou estatutá[Link] histórico, constata-se que houve sucessivas alterações em relação ao
posicionamento original. Migrou-se de uma posição inicial (1) onde todas as ações que versassem sobre o
imposto sindical teriam seu destino na Justiça Comum (Súmula n. 222/STJ), para uma posição (2) onde as ações
que versassem sobre o imposto sindical envolvendo todos os tipos de celetistas (servidores ou não) haveriam
que ser destacadas e levadas para a Justiça do Trabalho, mantendo-se apenas as ações que versassem sobre o
imposto sindical envolvendo servidores estatutários na Justiça Comum e, posteriormente, para uma posição (3)
na qual todas as ações que versassem sobre o imposto sindical (envolvendo celetistas ou estatutários), haveriam
que ser julgadas na Justiça do Trabalho. Assim, a evolução da jurisprudência vinha sendo no sentido de retirar
essas atribuições da Justiça Comum transferindo-as gradativamente para a Justiça Laboral, que detinha a
expertise no exame das relações de representação sindical, já que o tema "contribuição sindical" guardaria mais
afinidade com o tema "representação sindical" que com o tema "regime estatutário".Ocorre que em direção
diametralmente oposta àquela que vinha tomando este Superior Tribunal de Justiça e o Tribunal Superior do
Trabalho, o Supremo Tribunal Federal, quando do julgamento do Tema n. 994, no RE 1.089.282/AM (Tribunal
Pleno, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em sessão virtual de 27/11/2020 a 04/12/2020), firmou a seguinte
tese: "Compete à Justiça Comum processar e julgar demandas em que se discute o recolhimento e o repasse de
contribuição sindical de servidores públicos regidos pelo regime estatutário".Desta forma, o STF determinou o
retorno deste Superior Tribunal de Justiça um passo atrás para a posição jurisprudencial intermediária anterior,
qual seja, a de que: (a) as ações em que se discute a contribuição sindical (imposto sindical) de servidor púbico
estatutário, após o advento da EC n. 45/2004, devem continuar ser ajuizadas na Justiça Comum e (b) as ações
em que se discute a contribuição sindical (imposto sindical) de servidor púbico celetista, após o advento da EC
n. 45/2004, devem ser ajuizadas na Justiça do [Link] modo, deve ser dada nova interpretação ao
enunciado n. 222 da Súmula deste STJ ("Compete à Justiça Comum processar e julgar as ações relativas à
contribuição sindical prevista no art. 578 da CLT") para abarcar apenas as situações em que a contribuição
sindical (imposto sindical) diz respeito a servidores públicos estatutários, mantendo-se a competência para
processar e julgar as ações relativas à contribuição sindical referente a celetistas (servidores ou não) na Justiça
do Trabalho. (Informativo n. 690)

TERCEIRA SEÇÃO
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PROCESSO RMS 60.531-RO, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Rel. Acd. Min. Ribeiro Dantas,
Terceira Seção, por maioria, julgado em 09/12/2020, DJe 17/12/2020
RAMO DO DIREITO DIREITO CONSTITUCIONAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL, DIREITO
PROCESSUAL CIVIL
TEMA Serviços de comunicação. Criptografia de ponta a ponta. Quebra de sigilo de
dados. Decisão judicial. Descumprimento. Impossibilidade técnica. Astreintes.
Ilegalidade.
DESTAQUE
É ilegal a aplicação de astreintes, por descumprimento de decisão judicial de quebra de sigilo de dados, em
virtude da impossibilidade técnica pelo emprego de criptografia de ponta a ponta.

112
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A possibilidade de aplicação, em abstrato, da multa cominatória foi reconhecida, por maioria, nesta Terceira
Seção (REsp 1.568.445/PR, Rel. Ministro Rogerio Schietti Cruz, Rel. p/ Acórdão Ministro Ribeiro Dantas,
Terceira Seção, julgado em 24/06/2020, DJe 20/08/2020).No caso, porém, há de se fazer uma distinção ou um
distinguishing entre o precedente citado e a situação em análise cuja controvérsia é a alegação, pela empresa
que descumpriu a ordem judicial, da impossibilidade técnica de obedecer à determinação do Juízo, haja vista o
emprego da criptografia de ponta a [Link] de ponta a ponta é a proteção dos dados nas duas
extremidades do processo, tanto no polo do remetente quanto no outro polo do destinatário. Nela, há "dois tipos
de chaves são usados para cada ponta da comunicação, uma chave pública e uma chave privada. As chaves
públicas estão disponíveis para as ambas as partes e para qualquer outra pessoa, na verdade, porque todos
compartilham suas chaves públicas antes da comunicação. Cada pessoa possui um par de chaves, que são
complementares. [...] O conteúdo só poderá ser descriptografado usando essa chave pública (...) junto à chave
privada (...). Essa chave privada é o único elemento que torna impossível para qualquer outro agente
descriptografar a mensagem, já que ela não precisa ser compartilhada".Ao buscar mecanismos de proteção à
liberdade de expressão e comunicação privada, por meio da criptografia de ponta a ponta, as empresas estão
protegendo direito fundamental, reconhecido expressamente na Carta [Link]ém ressaltar que o Ministro
Edson Fachin, na ADPF 403, e a Ministra Rosa Weber, na ADI 5527, chegam à mesma conclusão: o ordenamento
jurídico brasileiro não autoriza, em detrimento da proteção gerada pela criptografia de ponta a ponta, em
benefício da liberdade de expressão e do direito à intimidade, sejam os desenvolvedores da tecnologia multados
por descumprirem ordem judicial incompatível com encriptaçã[Link], em ponderação de valores os benefícios
advindos da criptografia de ponta a ponta se sobrepõem às eventuais perdas pela impossibilidade de se coletar
os dados das conversas dos usuários da tecnologia. (Informativo n. 684)

PRIMEIRA TURMA
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PROCESSO RMS 51.841/CE, Rel. Min. Regina Helena Costa, Primeira Turma, por
maioria, julgado em 06/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CONSTITUCIONAL
TEMA Membros do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas. Atuação
funcional. Requisição direta de documentos aos jurisdicionados. Autonomia.
Ausência de subordinação ao presidente da Corte de Contas. Arts. 73, § 2º, I, e
130, da Constituição da República.
DESTAQUE
É assegurada, aos membros do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas, a prerrogativa de requerer
informações diretamente aos jurisdicionados do respectivo Tribunal, sem subordinação ao Presidente da Corte.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A Constituição da República, em seu art. 73, § 2º, I, prevê a existência do Ministério Público junto ao Tribunal
de Contas da União, outorgando aos seus membros, nos termos do art. 130, as mesmas prerrogativas, vedações
e forma de investidura relativas ao Parquet, enquanto função essencial à Justiça.
O Supremo Tribunal Federal, na exegese desses dispositivos, firmou orientação, há muito, segundo a qual o
Ministério Público junto ao Tribunal de Contas é órgão de extração constitucional, cuja existência jurídica tem
sua gênese na Lei Maior, sem ostentar, entretanto, fisionomia institucional própria.
Outrossim, ainda no âmbito do Supremo Tribunal Federal, restou consolidado o entendimento de que o
legislador constituinte, ao assegurar aos membros do Ministério Público de Contas as robustas garantias do
Ministério Público comum, deferiu àqueles um "status jurídico especial", de modo a possibilitar que sua atuação
funcional se dê de modo exclusivo e autônomo, em relação a tal Corte. (Informativo n. 691)
113
SEGUNDA TURMA
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PROCESSO RMS 65.747/SP, Rel. Min. Assusete Magalhães, por unanimidade, julgado
em 16/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CONSTITUCIONAL
TEMA Precatório. Débito de preferência, por idoso, no recebimento de precatório de
natureza comum. Interpretação extensiva do art. 100, § 2º, da Constituição
Federal. Impossibilidade.
DESTAQUE
Para a obtenção da preferência no pagamento de precatório, faz-se necessária a conjugação dos requisitos
constantes do art. 100, § 2º, da Constituição Federal, ou seja, dívida de natureza alimentar e titular idoso ou
portador de doença grave.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Na forma da Constituição Federal, para a obtenção de preferência no pagamento de precatório é necessário que
o titular seja idoso ou portador de doença grave e que o débito seja de natureza alimentar, não sendo possível
dar interpretação extensiva ao comando constitucional.O art. 71 da Lei n. 10.471/2003 - Estatuto do Idoso -
assegura apenas "a prioridade na tramitação dos processos e procedimentos e na execução dos atos e diligências
judiciais em que figure como parte ou interveniente pessoa com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos",
não dispondo sobre a prioridade no pagamento de precatórios de natureza alimentar, ou não, de que sejam
titulares idosos, matéria disciplinada no art. 100, § 2º, da CF/[Link], no caso de o crédito do precatório ser
de natureza comum, a Constituição Federal e a Lei n. 10.471/2003 não lhe asseguram o pagamento prioritário
de tal crédito, mesmo que o titular tenha idade avançada. (Informativo n. 689)

114
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE

115
TERCEIRA TURMA
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PROCESSO REsp 1.878.041-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 25/05/2021, DJe 31/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
TEMA Guarda compartilhada. Genitores domiciliados em cidades distintas.
Possibilidade.
DESTAQUE
O fato de os genitores possuírem domicílio em cidades distintas não representa óbice à fixação da guarda
compartilhada.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Inicialmente, importa consignar que a guarda compartilhada não se confunde com a guarda alternada, tampouco
com o regime de visitas ou de convivência.
Com efeito, a guarda compartilhada impõe o compartilhamento de responsabilidades, não se confundindo com
a custódia física conjunta da prole ou com a divisão igualitária de tempo de convivência dos filhos com os pais.
De fato, nesta modalidade de guarda, é plenamente possível - e, até mesmo, recomendável - que se defina uma
residência principal para os filhos, garantindo-lhes uma referência de lar para suas relações da vida.
Na guarda alternada, por outro lado, há a fixação de dupla residência, residindo a prole, de forma fracionada,
com cada um dos genitores por determinado período, ocasião em que cada um deles, individual e
exclusivamente, exercerá a guarda dos filhos.
Assim, é imperioso concluir que a guarda compartilhada não demanda custódia física conjunta, tampouco tempo
de convívio igualitário, sendo certo, ademais, que, dada sua flexibilidade, esta modalidade de guarda comporta
as fórmulas mais diversas para sua implementação concreta, notadamente para o regime de convivência ou de
visitas, a serem fixadas pelo juiz ou por acordo entre as partes em atenção às circunstâncias fáticas de cada
família individualmente considerada.
Portanto, não existe qualquer óbice à fixação da guarda compartilhada na hipótese em que os genitores residem
em cidades, estados, ou, até mesmo, países diferentes, máxime tendo em vista que, com o avanço tecnológico, é
plenamente possível que, à distância, os pais compartilhem a responsabilidade sobre a prole, participando
ativamente das decisões acerca da vida dos filhos.
A possibilidade de os genitores possuírem domicílios em cidades distintas infere-se da própria previsão contida
no § 3º do art. 1.583 do CC/2002, segundo o qual "na guarda compartilhada, a cidade considerada base de
moradia dos filhos será aquela que melhor atender aos interesses dos filhos". (Informativo n. 698)

PROCESSO REsp 1.892.782/PR, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 06/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
TEMA Adoção. Sentença concessiva. Ausência de consentimento do adotado.
Rescisão. Excepcionalidade.
DESTAQUE
É possível, mesmo ante a regra da irrevogabilidade da adoção, a rescisão de sentença concessiva de adoção
ao fundamento de que o adotado, à época da adoção, não a desejava verdadeiramente e de que, após atingir a
maioridade, manifestou-se nesse sentido.

116
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A interpretação sistemática e teleológica do disposto no § 1º do art. 39 do ECA conduz à conclusão de que a
irrevogabilidade da adoção não é regra absoluta, podendo ser afastada sempre que, no caso concreto, verificar-
se que a manutenção da medida não apresenta reais vantagens para o adotado, tampouco é apta a satisfazer os
princípios da proteção integral e do melhor interesse da criança e do adolescente.
Por outro lado, a sentença concessiva de adoção, ainda quando proferida em procedimento de jurisdição
voluntária, pode ser encoberta pelo manto protetor da coisa julgada material e, como consectário lógico, figurar
como objeto de ação rescisória.
Nesse contexto, se extrai do Relatório Psicológico que não houve, de fato, consentimento do adotando com
relação à adoção, conforme exige o § 2º do art. 45 do ECA. Não se trata de vedada alegação de fato novo, mas
sim de prova pericial nova que se refere à existência ou inexistência de ato jurídico anterior à sentença, qual
seja, o consentimento do adolescente.
No caso, subsome-se ao previsto no inciso VI do art. 966 do CPC/2015, porquanto admitiu o magistrado
singular, ao deferir a adoção, que houve o consentimento do adotando, conforme exigido pelo § 2º do art. 45 do
ECA, o que, posteriormente, revelou-se falso.
Passando ao largo de qualquer objetivo de estimular a revogabilidade das adoções, situações como a
vivenciada pelos adotantes e pelo adotado demonstram que nem sempre as presunções estabelecidas
dogmaticamente, suportam o crivo da realidade, razão pela qual, em caráter excepcional, é dado ao julgador
demover entraves legais à plena aplicação do direito e à tutela da dignidade da pessoa humana. (Informativo
n. 691)

PROCESSO REsp 1.878.298/MG, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira
Turma, por unanimidade, julgado em 02/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
TEMA Adoção. Destituição do poder familiar. Guarda provisória. Nome afetivo. Uso
administrativo. Informação adicional. Instituições escolares, de saúde, cultura
e lazer. Identidade. Perigo de dano. Probabilidade do direito. Trâmites
regulares. Tutela antecipada. Cabimento.
DESTAQUE
Presentes os requisitos autorizadores da tutela antecipada, é cabível a inclusão de informações adicionais, para
uso administrativo em instituições escolares, de saúde, cultura e lazer, relativas ao nome afetivo do adotando
que se encontra sob guarda provisória.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a definir a possibilidade de deferimento de tutela antecipada para autorizar o uso
administrativo, em instituições escolares, de saúde, cultura e lazer, de nome afetivo da criança que se encontra
em guarda provisória decorrente de processo de adoção ainda em [Link] o tema, o art. 47, § 5º, da Lei n.
8.069/1990 prevê o direito à modificação do nome e do prenome do adotando, após a prolação de sentença em
processo de adoção, com a respectiva oitiva e consentimento da criança ou adolescente, conforme disposto pelo
art. 28, § 2º, do referido diploma legal.O nome afetivo já utilizado pela família adotiva no convívio decorrente
da guarda provisória impacta diretamente a noção de pertencimento social da criança, bem como influi no
processo de reconstrução de sua identidade e da dupla parental que se revela mesmo antes da sentença
[Link] longo da experiência da guarda provisória, os laços afetivos da filiação adotiva já começam a ser
tecidos e, caso presentes os requisitos para o deferimento da antecipação de tutela, o uso - nas demais
instituições em que a criança convive - do nome já utilizado pelos adotantes no seio familiar tende a, ao menos
em tese, facilitar a adaptação e a construção das novas identidades em [Link] caso, o
Tribunal a quo destacou que o processo de adoção e de destituição do poder familiar vem transcorrendo
conforme os trâmites legais e há perigo de dano para a identidade da criança que desde os sete meses de vida -
quando iniciou a guarda provisória - vem sendo chamada pelo nome afetivo pelos [Link] forma,
constatada a presença dos requisitos autorizadores da tutela antecipada e respeitada a escuta da criança e do
117
adolescente nos moldes previstos em lei, é cabível a inclusão de informações adicionais, em via administrativa,
relativas ao nome afetivo do adotando que se encontra ainda sob guarda provisória. (Informativo n. 687)

QUARTA TURMA
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PROCESSO REsp 1.653.405-RJ, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 02/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
TEMA Multa do art. 249 do ECA. Caráter preventivo, punitivo e pedagógico.
Maioridade da vítima. Afastamento. Inocorrência.
DESTAQUE
A multa instituída pelo art. 249 do ECA não possui caráter meramente preventivo, mas também punitivo e
pedagógico, de modo que não pode ser afastada sob fundamentação exclusiva do advento da maioridade civil
da vítima dos fatos que determinaram a imposição da penalidade.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O Tribunal de origem afastou a aplicação da penalidade prevista no art. 249 do ECA unicamente em decorrência
do advento da maioridade civil da apontada ví[Link], o simples advento da maioridade não pode ser
fundamento para o afastamento da multa do art. 249 do ECA, sob pena de esvaziamento do instituto e
enfraquecimento da rede protetora estabelecida pelo diploma [Link] desta Corte Superior
reconhecem não somente o caráter punitivo da referida multa, mas também os igualmente importantes aspectos
pedagógicos e preventivos, a fim de se evitar a perpetração de condutas de tal [Link]-se que a
maioridade civil não tem o condão de retroagir para afastar os efeitos da aplicação do ECA. (Informativo n.
687)

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DIREITO DO CONSUMIDOR

119
CORTE ESPECIAL
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PROCESSO CC 165.221/DF, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Corte Especial, por
unanimidade, julgado em 03/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO DO CONSUMIDOR, DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Ação civil pública. Afastamento da cobrança de multa por resolução do
contrato por motivo de força maior ou caso fortuito, especialmente roubo e
furto do telefone celular. Relação jurídica litigiosa. Direito do consumidor.
Competência das Turmas da 2ª Seção.
DESTAQUE
Compete às Turmas da Segunda Seção julgar recurso especial interposto em face de concessionárias do serviço
de telefonia com o objetivo de afastar a cobrança de multa em caso de resolução do contrato por motivo de
roubo ou furto do aparelho celular.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia à definição da Turma competente para processar e julgar recurso especial decorrente
de ação civil pública proposta pelo Ministério Público estadual em face de concessionárias do serviço de
telefonia celular com o objetivo de afastar a cobrança de multa em caso de resolução do contrato por motivo de
força maior ou caso fortuito, especialmente nas hipóteses de roubo e furto do telefone celular.A Corte Especial
possui entendimento de que compete à Primeira Seção processar e julgar feito em que se discute a adequação
do serviço público concedido (v. g. CC 138.405/DF, Rel. p/ Acórdão Ministro Herman Benjamin, Corte Especial,
DJe de 10/10/2016).Ocorre que tal entendimento não se aplica nos casos em que a discussão dos autos esteja
restrita ao exame da abusividade ou não de cláusula contratual que rege relação de natureza puramente
consumerista travada entre clientes e concessionárias do serviço de telefonia [Link], levando-se em
conta a natureza dessa relação jurídica litigiosa, compete às Turmas que integram a Segunda Seção processar e
julgar a presente questão. (Informativo n. 687)

SEGUNDA SEÇÃO
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PROCESSO EAREsp 1.459.849-ES, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, Segunda Seção,
por maioria, julgado em 14/10/2020, DJe 17/12/2020
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO DO CONSUMIDOR
TEMA Plano de saúde. Despesas médico-hospitalares realizadas fora da rede
credenciada. Reembolso. Restrição a situações excepcionais. Inexistência ou
insuficiência de estabelecimento ou profissional credenciado no local.
Urgência ou emergência do procedimento. Art. 12, VI da Lei n. 9.656/1998.
DESTAQUE
O reembolso das despesas médico-hospitalaes efetuadas pelo beneficiário com tratamento/atendimento de
saúde fora da rede credenciada pode ser admitido somente em hipóteses excepcionais, tais como a inexistência
ou insuficiência de estabelecimento ou profissional credenciado no local e urgência ou emergência do
procedimento.

120
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A Segunda Seção, em apreciação aos embargos de divergência, pacificou o entendimento que encontrava
dissonância no âmbito do Tribunal com relação ao reembolso das despesas efetuadas pelo usuário do plano de
saúde fora da rede conveniada.À vista disso, constata-se que o acórdão embargado, proferido pela Quarta Turma
do STJ reformou o acórdão estadual sob o fundamento de que a jurisprudência desta Corte Superior entende
que o reembolso das despesas efetuadas pelo usuário do plano de saúde fora da rede conveniada somente é
admitido em casos excepcionais, conforme prevê o art. 12, VI, da Lei n. 9.656/[Link] sua vez, os acórdãos
paradigmas, proferidos pela Terceira Turma do STJ, entenderam que a exegese do artigo supracitado deve ser
extensiva, em homenagem aos princípios da boa-fé e da proteção da confiança nas relações [Link]
deixar assente que o contrato de plano de assistência à saúde, por definição, tem por objeto propiciar, mediante
o pagamento de um preço (consistente em prestações antecipadas e periódicas), a cobertura de custos de
tratamento médico e atendimentos médico, hospitalar e laboratorial perante profissionais, rede de hospitais e
laboratórios próprios ou [Link] forma, a estipulação contratual que vincula a cobertura contratada
aos médicos e hospitais de sua rede ou conveniados é inerente a esta espécie contratual e, como tal, não encerra,
em si, nenhuma abusividade.Não obstante, excepcionalmente, nos casos de urgência e emergência, em que não
se afigurar possível a utilização dos serviços médicos próprios, credenciados ou conveniados, a empresa de
plano de saúde, mediante reembolso, responsabiliza-se pelas despesas médicas expendidas pelo contratante em
tais condições, limitada, no mínimo, aos preços de serviços médicos e hospitalares praticados pelo respectivo
[Link]-se, pois, de garantia legal mínima conferida ao contratante de plano de assistência à saúde, a ser
observada, inclusive, no denominado plano-referência, de cobertura básica, de modo que não se pode falar em
ofensa ao princípio da proteção da confiança nas relações privadas, já que os beneficiários do plano estarão
sempre amparados, seja pela rede credenciada, seja por outros serviços de saúde quando aquela se mostrar
insuficiente ou se tratar de situação de urgência. (Informativo n. 684)

TERCEIRA TURMA
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PROCESSO REsp 1.881.806-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 04/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO DO CONSUMIDOR
TEMA Lei n. 4.591/1964. Incorporação imobiliária. Extinção do contrato. Dia da
destituição do incorporador. Marco final das obrigações constituídas entre as
partes. Extinção anômala.
DESTAQUE
O dia da destituição da incorporadora, com a consequente assunção da obra pelos adquirentes, é o marco final
das obrigações constituídas entre as partes.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A Lei n. 4.591/1964 previu três situações distintas para a extinção do contrato de incorporação, observado o
atraso na entrega da obra, com desfechos que variam de acordo com a conveniência dos adquirentes.
Na primeira, os compradores optam por receber, com atraso, a unidade imobiliária. Nesse caso, "será devida ao
adquirente adimplente, por ocasião da entrega da unidade, indenização de 1% (um por cento) do valor
efetivamente pago à incorporadora, para cada mês de atraso, pro rata die, corrigido monetariamente conforme
índice estipulado em contrato" (art. 43-A, § 2º, com a redação conferida pela Lei n. 13.786/2018).
Na segunda, os adquirentes optam pelo não recebimento do imóvel. Nessa hipótese, "desde que o adquirente
não tenha dado causa ao atraso, poderá ser promovida por este a resolução do contrato, sem prejuízo da
devolução da integralidade de todos os valores pagos e da multa estabelecida, em até 60 (sessenta) dias corridos
contados da resolução, corrigidos nos termos do § 8º do art. 67-A desta Lei" (art. 43-A, § 1º, com a redação
conferida pela Lei n. 13.786/2018).
121
Há, ainda, uma terceira situação: a da destituição do incorporador em razão da completa paralisação da obra. É
a hipótese verificada no caso em análise, que foi prevista no art. 43, VI, da Lei n. 4.591/1964 com a seguinte
dicção: "(...) VI - se o incorporador, sem justa causa devidamente comprovada, paralisar as obras por mais de 30
dias, ou retardar-lhes excessivamente o andamento, poderá o Juiz notificá-lo para que no prazo mínimo de 30
dias as reinicie ou torne a dar-lhes o andamento normal. Desatendida a notificação, poderá o incorporador ser
destituído pela maioria absoluta dos votos dos adquirentes, sem prejuízo da responsabilidade civil ou penal que
couber, sujeito à cobrança executiva das importâncias comprovadamente devidas, facultando-se aos
interessados prosseguir na obra."
Observa-se, contudo, que para essa hipótese, a Lei não explicita, como fez anteriormente, as consequências
jurídicas decorrentes, limitando-se a dispor: "Art. 43. Quando o incorporador contratar a entrega da unidade a
prazo e preços certos, determinados ou determináveis, mesmo quando pessoa física, ser-lhe-ão impostas as
seguintes normas: (...) II - responder civilmente pela execução da incorporação, devendo indenizar os
adquirentes ou compromissários, dos prejuízos que a êstes advierem do fato de não se concluir a edificação ou
de se retardar injustificadamente a conclusão das obras, cabendo-lhe ação regressiva contra o construtor, se fôr
o caso e se a êste couber a culpa."
Infere-se, portanto, que a primeira situação supracitada descreve uma hipótese de extinção normal, enquanto
as duas últimas, representam hipóteses de extinção anômala do contrato de incorporação. Coloca-se ao crivo do
adquirente uma possibilidade de extinção regular do contrato e duas possibilidades de extinção anormal da
contratação, sendo, a partir desse cenário, possível divisar as consequências da destituição do incorporador.
É de se observar, inicialmente, que a destituição da incorporadora põe fim ao contrato de incorporação. Com
isso, o dia da destituição da incorporadora, com a consequente assunção da obra pelos adquirentes, exsurge
como o marco final das obrigações constituídas entre as partes.
É, portanto, até essa data que devem ser apurados os prejuízos efetivos que comporão o montante indenizatório
devido pelas incorporadora e construtora, solidariamente. Isso, porque os riscos do empreendimento estão
limitados às cláusulas e à extensão do contrato, assumindo o incorporador apenas os riscos contratados e tão-
somente enquanto durar o ajuste.
Assim, optando os adquirentes pela assunção da obra, com a contratação de outra construtora, é lícito deduzir
que eles abrem mão de receber a integralidade de todos os valores pagos, além da multa estabelecida, para
prosseguirem, por conta própria, na construção do empreendimento, assumindo, com isso, as consequências
dessa deliberação.
De fato, existindo a opção de o adquirente requerer a resolução do contrato, recebendo "a integralidade dos
valores pagos devidamente corrigidos, bem como a multa estipulada para o inadimplemento", a escolha pela
destituição do incorporador não pode significar um implemento do risco do negócio originalmente assumido.
Desse modo, se o adquirente, ou a maioria dos compradores reunidos em assembleia, decidiu pela continuidade
do empreendimento, inclusive com a necessidade de aportes financeiros adicionais, esses valores não podem
ser cobrados do incorporador destituído, sob pena de se agravar, unilateralmente, o risco do negócio original.
A destituição do incorporador constitui um exercício regular de um direito legalmente previsto, que pode,
conforme o caso, impor novos riscos aos adquirentes, sem que isso conduza, todavia, a uma ampliação dos riscos
originariamente assumidos pelo incorporador.
Pela mesma razão, deduz-se que os lucros cessantes serão cabíveis apenas durante o período compreendido
entre a data prometida para a entrega da obra até a data efetiva da destituição do incorporador, que, frise-se, é
o marco da extinção (anômala) da incorporação. (Informativo n. 695)

122
PROCESSO REsp 1.692.938/SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 27/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO DO CONSUMIDOR
TEMA Plano de saúde. Medicamento de uso domiciliar. Custeio. Operadora. Não
obrigatoriedade. Antineoplásico oral. Não caracterização. Limitação lícita.
Contrato acessório de medicação de uso domiciliar. Possibilidade. Assistência
farmacêutica. SUS. Política pública. Remédios de alto custo. Relação nacional
de medicamentos essenciais (RENAME).
DESTAQUE
É lícita a exclusão, na Saúde Suplementar, do fornecimento de medicamentos para tratamento domiciliar,
salvo os antineoplásicos orais (e correlacionados), a medicação assistida (home care) e os incluídos no rol da
Agência Nacional de Saúde para esse fim.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a definir se medicamento de uso domiciliar, e não enquadrado como antineoplásico
oral, é de cobertura obrigatória pelo plano de saúde.
Os medicamentos receitados por médicos para uso doméstico e adquiridos comumente em farmácias não
estão, em regra, cobertos pelos planos de saúde, porquanto a obrigatoriedade de custeio dos fármacos, na Saúde
Suplementar, se dá durante a internação hospitalar (abrangido o home care), na quimioterapia oncológica
ambulatorial, na hipótese de antineoplásicos orais para uso domiciliar (e correlacionados), e naqueles
relacionados a procedimentos listados no Rol da ANS. É a interpretação dos arts. 10, VI, da Lei n. 9.656/1998 e
19, § 1º, VI, da RN n. 338/2013 da ANS (atual art. 17, parágrafo único, VI, da RN n. 465/2021).
As normas do CDC aplicam-se apenas subsidiariamente nos planos de saúde, conforme previsão do art. 35-G
da Lei n. 9.656/1998. Ademais, em casos de incompatibilidade de normas, pelos critérios da especialidade e da
cronologia, há evidente prevalência da lei especial nova.
A previsão legal do art. 10, VI, da Lei n. 9.656/1998 não impede a oferta de medicação de uso domiciliar pelas
operadoras de planos de assistência à saúde (i) por liberalidade; (ii) por meio de previsão no contrato principal
do próprio plano de saúde ou (iii) mediante contratação acessória de caráter facultativo, conforme
regulamentação da RN n. 310/2012 da ANS.
No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), a assistência farmacêutica está fortemente em atividade,
existindo a Política Nacional de Medicamentos (PNM), garantindo o acesso de fármacos à população, inclusive
os de alto custo, por meio de instrumentos como a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME).
De acordo com a RN n. 338/2013 da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), vigente à época dos fatos
(hoje, RN n. 465/2021), a qual atualiza o Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde, que constitui a referência
básica para cobertura assistencial mínima nos planos privados de assistência à saúde, medicamento de uso
domiciliar é aquele prescrito pelo médico assistente para administração em ambiente externo ao de unidade de
saúde.
No caso, o medicamento "Viekira Pak", indicado para o tratamento da Hepatite-C virótica crônica, é de uso
oral. De fato, é um fármaco constituído por comprimidos, os quais podem ser ingeridos em domicílio.
Logo, como o tratamento medicamentoso é realizado em ambiente externo ao de unidade de saúde (uso
domiciliar), não há como afastar a limitação do art. 10, VI, da Lei n. 9.656/1998, que, por sua vez, foi também
prevista contratualmente. (Informativo n. 694)

123
PROCESSO REsp 1.890.327/SP, Rel. min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
maioria, julgado em 20/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO DO CONSUMIDOR
TEMA Imóvel entregue em metragem a menor. Vício aparente. Pretensão de
abatimento proporcional do preço. Venda ad mensuram. Prazo decadencial.
Art. 501 do CC/2002.
DESTAQUE
Na hipótese em que as dimensões de imóvel adquirido não correspondem às noticiadas pelo vendedor, cujo
preço da venda foi estipulado por medida de extensão (venda ad mensuram), aplica-se o prazo decadencial de 1
(um) ano, previsto no art. 501 do CC/2002, para exigir o complemento da área, reclamar a resolução do contrato
ou o abatimento proporcional do preço
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A entrega de bem imóvel em metragem diversa da contratada não pode ser considerada vício oculto, mas sim
aparente, dada a possibilidade de ser verificada com a mera medição das dimensões do imóvel - o que, por
precaução, o adquirente, inclusive, deve providenciar tão logo receba a unidade imobiliária.
É de 90 (noventa) dias o prazo para o consumidor reclamar por vícios aparentes ou de fácil constatação no
imóvel por si adquirido, contado a partir da efetiva entrega do bem (art. 26, II e § 1º, do CDC).
O prazo decadencial previsto no art. 26 do CDC relaciona-se ao período de que dispõe o consumidor para
exigir em juízo alguma das alternativas que lhe são conferidas pelos arts. 18, § 1º, e 20, caput, do mesmo diploma
legal (a saber, a substituição do produto, a restituição da quantia paga, o abatimento proporcional do preço e a
reexecução do serviço), não se confundindo com o prazo prescricional a que se sujeita o consumidor para
pleitear indenização decorrente da má-execução do contrato.
Nesta última hipótese, à falta de prazo específico no CDC que regule a hipótese de reparação de danos
decorrentes de vício do produto, entende-se que deve ser aplicado o prazo geral decenal do art. 205 do CC/02.
Para as situações em que as dimensões do imóvel adquirido não correspondem às noticiadas pelo vendedor,
cujo preço da venda foi estipulado por medida de extensão ou com determinação da respectiva área (venda ad
mensuram), aplica-se o disposto no art. 501 do CC/02, que prevê o prazo decadencial de 1 (um) ano para a
propositura das ações previstas no antecedente artigo (exigir o complemento da área, reclamar a resolução do
contrato ou o abatimento proporcional do preço).
Isso significa dizer que, também na hipótese de venda ad mensuram - e consequente aplicação da legislação
civilista -, convém sublinhar que o prazo decadencial previsto no art. 501 do CC/02 refere-se, tão somente, à
propositura de ação para exigir o complemento da área, reclamar a resolução do contrato ou o abatimento
proporcional do preço, não se confundindo com o prazo prescricional a que se sujeita o consumidor para pleitear
indenização decorrente da má-execução do contrato.
No caso, o Tribunal de origem deixou expressamente consignada a natureza da ação ajuizada, isto é, de
abatimento proporcional do preço, afastando-se, por não se tratar de pretensão indenizatória, o prazo
prescricional geral de 10 (dez) anos previsto no art. 205 do CC/02. (Informativo n. 693)

124
PROCESSO REsp 1.841.285/DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 23/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO DO CONSUMIDOR
TEMA Plano de saúde coletivo. Falecimento do titular. Beneficiária agregada.
Pretensão de manutenção do benefício. Possibilidade. Art. 30, § 2º, da Lei n.
9.656/1998.
DESTAQUE
No caso de morte do titular, os membros do grupo familiar - dependentes e agregados - podem permanecer
como beneficiários no plano de saúde coletivo, desde que assumam o pagamento integral.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Na hipótese de falecimento do titular do plano de saúde coletivo, seja este empresarial ou por adesão, a Terceira
Turma decidiu que nasce para os dependentes já inscritos o direito de pleitear a sucessão da titularidade, nos
termos dos arts. 30 ou 31 da Lei n. 9.656/1998, a depender da hipótese, desde que assumam o seu pagamento
integral (REsp 1.871.326/RS, julgado em 01/09/2020, DJe 09/09/2020).Apesar de o § 3º do art. 30, que trata
da hipótese de permanência em caso de morte do beneficiário titular, fazer uso da expressão "dependentes", o
§ 2º assegura a proteção conferida pelo referido art. 30, de manutenção do plano de saúde nas hipóteses de
rompimento do contrato de trabalho do titular, obrigatoriamente, a todo o grupo familiar, sem fazer nenhuma
distinção quanto aos [Link] linha desse raciocínio, não há como fazer uma interpretação puramente
literal e isolada do § 3º do art. 30 da Lei n. 9.656/1998; a interpretação há de ser feita em harmonia com o direito
instituído pelo § 2º, garantindo, assim, que, no caso de morte do titular, os membros do grupo familiar -
dependentes e agregados - permaneçam como beneficiários no plano de saúde, desde que assumam o
pagamento integral, na forma da [Link], de acordo com o art. 2º, I, "b" da Resolução ANS 295/2012,
beneficiário dependente é o beneficiário de plano privado de assistência à saúde cujo vínculo contratual com a
operadora depende da existência de relação de dependência ou de agregado a um beneficiário titular.
(Informativo n. 690)

PROCESSO REsp 1.872.048-RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 23/02/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO DO CONSUMIDOR
TEMA Compra e venda de mercadoria pela internet. Recusa ao cumprimento da
oferta. Art. 35 do CDC. Ausência de produto em estoque. Cumprimento forçado
da obrigação. Possibilidade.
DESTAQUE
O mero fato de o fornecedor do produto não o possuir em estoque no momento da contratação não é condição
suficiente para eximi-lo do cumprimento forçado da obrigação.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Como se infere do art. 35 do CDC, a recusa à oferta oferece ao consumidor a prerrogativa de optar,
alternativamente e a sua livre escolha, pelo cumprimento forçado da obrigação, aceitar outro produto, ou
rescindir o contrato, com direito à restituição de quantia eventualmente antecipada, monetariamente
atualizada, somada a perdas e danos.O CDC consagrou expressamente, em seus arts. 48 e 84, o princípio da
preservação dos negócios jurídicos, segundo o qual se pode determinar qualquer providência a fim de que seja
assegurado o resultado prático equivalente ao adimplemento da obrigação de fazer, razão pela qual a solução
de extinção do contrato e sua conversão em perdas e danos é a ultima ratio, o último caminho a ser [Link]
opções do art. 35 do CDC são intercambiáveis e produzem, para o consumidor, efeitos práticos equivalentes ao
adimplemento, pois guardam relação com a satisfação da intenção validamente manifestada ao aderir à oferta
do fornecedor, por meio da previsão de resultados práticos equivalentes ao adimplemento da obrigação de fazer
125
ofertada ao público.A impossibilidade do cumprimento da obrigação de entregar coisa, no contrato de compra
e venda, que é consensual, deve ser restringida exclusivamente à inexistência absoluta do produto, na hipótese
em que não há estoque e não haverá mais, pois aquela espécie, marca e modelo não é mais [Link], a
possibilidade ou não do cumprimento da escolha formulada livremente pelo consumidor deve ser aferida à luz
da boa-fé objetiva, de forma que, sendo possível ao fornecedor cumprir com a obrigação, entregando ao
consumidor o produto anunciado, ainda que obtendo-o por outros meios, como o adquirindo de outros
revendedores, não há razão para se eliminar a opção pelo cumprimento forçado da obrigação. (Informativo n.
686)

PROCESSO REsp 1.868.099-CE, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 15/12/2020, DJe 18/12/2020
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO DO CONSUMIDOR
TEMA Empréstimo consignado firmado com analfabeto. Aposição de digital.
Insuficiente. Validade. Assinatura a rogo, na presença de 2 (duas)
testemunhas, ou or procurador público. Expressão do livre consentimento.
Acesso ao conteúdo das cláusulas e condições contratadas.
DESTAQUE
É válida a contratação de empréstimo consignado por analfabeto mediante a assinatura a rogo, a qual, por sua
vez, não se confunde, tampouco poderá ser substituída pela mera aposição de digital ao contrato escrito.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a definir, a par da adequação da tutela jurisdicional entregue, a validade do contrato de
empréstimo consignado por consumidor analfabeto mediante a mera aposição da digital ao instrumento
contratual.A liberdade de contratar é assegurada ao analfabeto, bem como àquele que se encontre
impossibilitado de ler e escrever. Em regra, a forma de contratação, no direito brasileiro, é livre, não se exigindo
a forma escrita para contratos de alienação de bens móveis, salvo quando expressamente exigido por lei.O
contrato de mútuo, do qual o contrato de empréstimo consignado é espécie, se perfaz mediante a efetiva
transmissão da propriedade da coisa emprestada. Essa observação, ainda que pareça singela, é essencial para a
identificação dos requisitos de validade do contrato, em especial, no que se refere à sua formalização, Isso
porque o fundamento central do acórdão recorrido foi a aplicação, ao caso dos autos, do art. 595 do Código Civil
de 2002, cujo texto normativo excepcionaria a necessidade de procuração pública para assinatura de contrato
de prestação de serviç[Link] que se configure, em regra, contrato de fornecimento de produto, a
instrumentação do empréstimo consignado na forma escrita faz prova das condições e obrigações impostas ao
consumidor para o adimplemento contratual, em especial porque, nessa modalidade de crédito, a restituição da
coisa emprestada se faz mediante o débito de parcelas diretamente do salário ou benefício previdenciário
devido ao consumidor contratante pela entidade pagadora, a qual é responsável pelo repasse à instituição
credora (art. 3o, III, da Lei n. 10.820/2003).A adoção da forma escrita, com redação clara, objetiva e adequada,
é fundamental para demonstração da efetiva observância, pela instituição financeira, do dever de informação,
imprescindíveis à livre escolha e tomada de decisões por parte dos clientes e usuários (art. 1o da Resolução
CMN n. 3.694/2009).Nas hipóteses em que o consumidor está impossibilitado de ler ou escrever, acentua-se a
hipossuficiência natural do mercado de consumo, inviabilizando o efetivo acesso e conhecimento às cláusulas e
obrigações pactuadas por escrito, de modo que a atuação de terceiro (a rogo ou por procuração pública) passa
a ser fundamental para manifestação inequívoca do consentimento.A incidência do art. 595 do CC/2002, na
medida em que materializa o acesso à informação imprescindível ao exercício da liberdade de contratar por
aqueles impossibilitados de ler e escrever, deve ter aplicação estendida a todos os contratos em que se adote a
forma escrita, ainda que esta não seja exigida por lei.A aposição de digital não se confunde, tampouco substitui
a assinatura a rogo, de modo que sua inclusão em contrato escrito somente faz prova da identidade do
contratante e da sua reconhecida impossibilidade de assinar. (Informativo n. 684)

126
QUARTA TURMA
Voltar ao Sumário.

PROCESSO REsp 1.539.056/MG, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 06/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO DO CONSUMIDOR, DIREITO URBANÍSTICO
TEMA Ação civil pública. Venda de terrenos em loteamento irregular. Publicidade
enganosa. Interesse transindividual. Proteção do meio ambiente e da ordem
urbanística. Dano moral coletivo. Cabimento.
DESTAQUE
A alienação de terrenos a consumidores de baixa renda em loteamento irregular, tendo sido veiculada
publicidade enganosa sobre a existência de autorização do órgão público e de registro no cartório de imóveis,
configura lesão ao direito da coletividade e dá ensejo à indenização por dano moral coletivo.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O dano moral transindividual - conhecido como "dano moral coletivo" -, caracteriza-se pela prática de
conduta antijurídica que, de forma absolutamente injusta e intolerável, viola valores éticos essenciais da
sociedade, implicando um dever de reparação, que tem por escopo prevenir novas condutas antissociais (função
dissuasória), punir o comportamento ilícito (função sancionatório-pedagógica) e reverter, em favor da
comunidade, o eventual proveito patrimonial obtido pelo ofensor (função compensatória indireta).
Tal categoria de dano moral é aferível, portanto, in re ipsa, ou seja, reclama a mera apuração de uma conduta
ilícita que, de maneira injusta e intolerável, viole valor ético-jurídico fundamental da sociedade, revelando-se
despicienda a demonstração de prejuízos concretos ou de efetivo abalo moral.
No presente caso, a pretensão reparatória de dano moral coletivo - deduzida pelo Ministério Público estadual
na ação civil pública - tem por causas de pedir a alienação de terrenos em loteamento irregular (ante a violação
de normas de uso e ocupação do solo) e a veiculação de publicidade enganosa a consumidores de baixa renda,
que teriam sido submetidos a condições precárias de moradia.
As instâncias ordinárias reconheceram a ilicitude da conduta dos réus que, utilizando-se de ardil e omitindo
informações relevantes para os consumidores/adquirentes, anunciaram a venda de terrenos em loteamento
irregular - com precárias condições urbanísticas - como se o empreendimento tivesse sido aprovado pela
Municipalidade e devidamente registrado no cartório imobilirio competente; nada obstante, o pedido de
indenização por dano moral coletivo foi julgado improcedente.
No afã de resguardar os direitos básicos de informação adequada e de livre escolha dos consumidores -
protegendo-os, de forma efetiva, contra métodos desleais e práticas comerciais abusivas -, é que o Código de
Defesa do Consumidor procedeu à criminalização das condutas relacionadas à fraude em oferta e à publicidade
abusiva ou enganosa.
Os objetos jurídicos tutelados pelas citadas normas penais compreendem, os direitos de livre escolha e de
informação adequada dos consumidores, cuja higidez da manifestação de vontade deve ser assegurada, de modo
a atender o valor ético-jurídico encartado no princípio constitucional da dignidade humana, conformador do
próprio conceito de Estado Democrático de Direito, que não se coaduna com a permanência de profundas
desigualdades, tais como a existente entre o fornecedor e a parte vulnerável no mercado de consumo.
Ambos os crimes são de mera conduta, não reclamando a consumação do resultado lesivo - efetivo
comprometimento da manifestação da vontade do consumidor -, donde se extrai, a evidente intolerabilidade da
lesão ao direito transindividual da coletividade ludibriada, não informada adequadamente ou exposta à oferta
fraudulenta ou à publicidade enganosa ou abusiva.

127
Sob a mesma ótica, destaca-se precedente da Segunda Turma - da relatoria do eminente Ministro Herman
Benjamin -, firmado por ocasião do julgamento do Recurso Especial 1.828.620/RO, segundo o qual "enganar o
consumidor ou dele abusar vai muito além de dissabor irrelevante ou aborrecimento desprezível, de natural
conduta cotidiana, aceitável na vida em sociedade", por configurar prática flagrantemente antiética e ilegal que
não poupa "nem pobres nem vulneráveis, nem analfabetos nem enfermos".
Outrossim, não é apenas à luz do CDC que se observa a configuração de dano moral transindividual
inaceitável.
Com efeito, a Lei n. 6.766/1979 - que dispõe sobre o parcelamento do solo para fins urbanos - em seus artigos
50 e 51 (notadamente os contidos nos incisos I e II do caput do artigo 50) consubstanciam crimes de mera
conduta, tendo por objeto jurídico o respeito ao ordenamento urbanístico e, por conseguinte, a defesa do meio
ambiente ecologicamente equilibrado, valor ético social - intergeracional e fundamental - consagrado pela
Constituição de 1988 (artigo 225), que é vulnerado, de forma grave, pela prática do loteamento irregular (ou
clandestino).
Sendo clara a ofensa ao mínimo existencial da coletividade prejudicada pelo loteamento irregular - assim
como a publicidade enganosa efetuada em detrimento dos consumidores -, tal conduta configura lesão
intolerável a valor essencial da sociedade, o que torna a condenação ao pagamento de indenização por danos
morais coletivos plenamente viável. (Informativo n. 691)

128
DIREITO DO TRABALHO

129
PRIMEIRA SEÇÃO
Voltar ao Sumário.

PROCESSO Agint no CC 155.994-SP, Rel. Min. Benedito Gonçalves, Primeira Seção,


julgado em 12/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO DO TRABALHO E PROCESSUAL TRABALHISTA
TEMA Ação civil pública. Normas trabalhistas. Concessão de Selo de
Responsabilidade Social. Art. 114, I e VII da CF. Competência da Justiça do
Trabalho.
DESTAQUE
Compete à Justiça do Trabalho processar e julgar a ação civil pública fundamentada na não concessão pela União
de Selo de Responsabilidade Social a empresa pela falta de verificação adequada do cumprimento de normas
que regem as condições de trabalho.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Trata-se de conflito de competência em ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público do Trabalho que tem
como fundamento a falta de cumprimento pela empresa requerida de condições de trabalho que lhe permitiriam
receber o Selo de Responsabilidade.
Assim sendo, o que se verifica é que a causa tem como questão de fundo o respeito às relações de trabalho e tem
como pedidos a observância de normas destinadas a promover as relações de trabalho.
Dados os pedidos e a causa de pedir, resulta que é competente a Justiça do Trabalho, nos termos do art. 114 da
Constituição da República, notadamente de seus incisos I e VII.
É nessa linha que são os precedentes desta Corte Superior, os quais frisam que a definição do juízo competente
é dada pelos termos em que a demanda é formulada. Confira-se: CC 89.207/SP, Rel. Ministro Teori Albino
Zavascki, Primeira Seção, DJe 1/9/2008.
Além disso, o Tribunal Superior do Trabalho, no julgamento do RR-1060-06.2012.5.15.0079, apreciando a
mesma controvérsia, reconheceu a competência daquela Justiça Especializada para o exame da questão
referente à cassação do selo de responsabilidade social "empresa compromissada", bem como impedir a
concessão sucessiva de novos selos de responsabilidade às Usinas, sem a análise concreta do cumprimento das
obrigações trabalhistas descritas no Termo de Responsabilidade. (Informativo n. 696)

PROCESSO CC 147.784/PR, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Primeira Seção, por
unanimidade, julgado em 24/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO CONSTITUCIONAL, DIREITO DO
TRABALHO
TEMA Contribuição sindical compulsória (imposto sindical). Servidor Público. Art.
114, III, da CF. Adequação da jurisprudência do STJ. Tema n. 994/STF. RE
1.089.282/AM. Competência da Justiça Comum para servidor público com
vínculo estatutário. Competência da Justiça do Trabalho para servidor público
com vínculo celetista. Nova interpretação da Súmula 222 do STJ.
DESTAQUE
A Súmula 222 do STJ - Compete à Justiça Comum processar e julgar as ações relativas à contribuição sindical
prevista no art. 578 da CLT - deve abarcar apenas situações em que a contribuição sindical diz respeito a
servidores públicos estatutários, mantendo-se a competência para processar e julgar as ações relativas à
contribuição sindical referentes a celetistas (servidores públicos ou não) na Justiça do Trabalho.

130
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Com o advento do art. 114, da Constituição Federal de 1988 (em sua redação original), firmou-se a interpretação
restritiva de que a competência da justiça laboral somente abarcava as hipóteses ali expressas e que quaisquer
outras "controvérsias decorrentes da relação de trabalho" somente o seriam de competência daquela justiça
especializada acaso sobreviesse lei que assim o estabelecesse. Assim, permaneceu vigente no período a Súmula
n. 87 do extinto Tribunal Federal de Recursos - TFR que definiu ser da competência da Justiça Comum o processo
e julgamento da contribuição assistencial prevista em convenção ou acordo coletivo e da contribuição sindical
compulsória prevista em lei (imposto sindical), a saber: "Compete à Justiça Comum o processo e julgamento de
ação de cobrança de contribuições sindicais".Tal situação perdurou até o advento da Lei n. 8.984/1995 que
estabeleceu competir " à Justiça do Trabalho conciliar e julgar os dissídios que tenham origem no cumprimento
de convenções coletivas de trabalho ou acordos coletivos de trabalho, mesmo quando ocorram entre sindicatos
ou entre sindicato de trabalhadores e empregador" (convenções e acordos não homologados). Tal lei levou a
cobrança da contribuição assistencial prevista em convenção ou acordo coletivo para a competência da Justiça
do Trabalho, surgindo então dúvida a respeito do destino da contribuição sindical compulsória (imposto
sindical), se acompanharia a contribuição assistencial ou se permaneceria na Justiça [Link] novo
contexto, este Superior Tribunal de Justiça produziu o precedente nos EDcl no CC 17.765 / MG (Segunda Seção,
Rel. Min. Paulo Costa Leite, julgado em 13/08/1997) onde no qual restou fixado que a cobrança da contribuição
sindical compulsória (imposto sindical) deveria se dar na Justiça [Link], em 23/06/1999, com
base no mencionado precedente, foi julgada pela Segunda Seção a Súmula n. 222/STJ com o seguinte texto:
"Compete à Justiça Comum processar e julgar as ações relativas à contribuição sindical prevista no art. 578 da
CLT".Mais recentemente, com o advento da alteração do art. 114, da CF/1988, promovida pela EC n. 45/2004,
foram inseridas na competência da Justiça do Trabalho "as ações oriundas da relação de trabalho, abrangidos
os entes de direito público externo e da administração pública direta e indireta da União, dos Estados, do Distrito
Federal e dos Municípios" (art. 114, I, CF/1988) e "as ações sobre representação sindical, entre sindicatos, entre
sindicatos e trabalhadores, e entre sindicatos e empregadores" (art. 114, III, CF/1988).A troca da expressão
"dissídios individuais e coletivos entre trabalhadores e empregadores" contida na redação original do art. 114,
da CF/1988, pela expressão "ações oriundas da relação de trabalho", contida na redação dada pela EC n.
45/2004, trouxe dúvida em relação à competência da Justiça do Trabalho para julgar as causas entre o Poder
Público e seus servidores estatutários. O tema foi então enfrentado pelo STF quando do julgamento da ADI 3.395
MC/DF (Tribunal Pleno, Rel. Min. Cezar Peluso, julgado em 05/04/2006) que registrou: "O disposto no art. 114,
I, da Constituição da República, não abrange as causas instauradas entre o Poder Público e servidor que lhe seja
vinculado por relação jurídico-estatutária". Contudo, permaneceu alguma dúvida em relação ao reflexo do
julgado do STF sobre as ações que envolviam as contribuições sindicais de servidores públicos e o alcance do
disposto no art. 114, III, da CF/[Link] feita, após o julgamento pelo STF da ADI 3.395 MC / DF, em pesquisa
realizada na jurisprudência deste STJ, no que se refere às ações em que se discute a técnica de tributação via
recolhimento e repasse, os mais recentes precedentes da Primeira Seção são no sentido de que o referido
julgamento em nada havia interferido na regra de competência para a discussão da contribuição sindical dos
servidores públicos, devendo esta se dar sempre na Justiça do Trabalho, indiferente a condição do servidor
público de celetista ou estatutá[Link] histórico, constata-se que houve sucessivas alterações em relação ao
posicionamento original. Migrou-se de uma posição inicial (1) onde todas as ações que versassem sobre o
imposto sindical teriam seu destino na Justiça Comum (Súmula n. 222/STJ), para uma posição (2) onde as ações
que versassem sobre o imposto sindical envolvendo todos os tipos de celetistas (servidores ou não) haveriam
que ser destacadas e levadas para a Justiça do Trabalho, mantendo-se apenas as ações que versassem sobre o
imposto sindical envolvendo servidores estatutários na Justiça Comum e, posteriormente, para uma posição (3)
na qual todas as ações que versassem sobre o imposto sindical (envolvendo celetistas ou estatutários), haveriam
que ser julgadas na Justiça do Trabalho. Assim, a evolução da jurisprudência vinha sendo no sentido de retirar
essas atribuições da Justiça Comum transferindo-as gradativamente para a Justiça Laboral, que detinha a
expertise no exame das relações de representação sindical, já que o tema "contribuição sindical" guardaria mais
afinidade com o tema "representação sindical" que com o tema "regime estatutário".Ocorre que em direção
diametralmente oposta àquela que vinha tomando este Superior Tribunal de Justiça e o Tribunal Superior do
Trabalho, o Supremo Tribunal Federal, quando do julgamento do Tema n. 994, no RE 1.089.282/AM (Tribunal
Pleno, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em sessão virtual de 27/11/2020 a 04/12/2020), firmou a seguinte

131
tese: "Compete à Justiça Comum processar e julgar demandas em que se discute o recolhimento e o repasse de
contribuição sindical de servidores públicos regidos pelo regime estatutário".Desta forma, o STF determinou o
retorno deste Superior Tribunal de Justiça um passo atrás para a posição jurisprudencial intermediária anterior,
qual seja, a de que: (a) as ações em que se discute a contribuição sindical (imposto sindical) de servidor púbico
estatutário, após o advento da EC n. 45/2004, devem continuar ser ajuizadas na Justiça Comum e (b) as ações
em que se discute a contribuição sindical (imposto sindical) de servidor púbico celetista, após o advento da EC
n. 45/2004, devem ser ajuizadas na Justiça do [Link] modo, deve ser dada nova interpretação ao
enunciado n. 222 da Súmula deste STJ ("Compete à Justiça Comum processar e julgar as ações relativas à
contribuição sindical prevista no art. 578 da CLT") para abarcar apenas as situações em que a contribuição
sindical (imposto sindical) diz respeito a servidores públicos estatutários, mantendo-se a competência para
processar e julgar as ações relativas à contribuição sindical referente a celetistas (servidores ou não) na Justiça
do Trabalho. (Informativo n. 690)

SEGUNDA SEÇÃO
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PROCESSO CC 164.709/MG, Rel. p/ acórdão Min. Raul Araújo, Segunda Seção, por
maioria, julgado em 28/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO DO TRABALHO, DIREITO PROCESSUAL CIVIL, DIREITO
EMPRESARIAL
TEMA Sociedade anônima. Conselho de Administração. Eleição. Participação de
trabalhadores ativos e aposentados. Direito facultativo e excepcional do
trabalhador. Competência da Justiça Comum.
DESTAQUE
Compete à Justiça Comum julgar a participação de trabalhadores ativos e aposentados no conselho de
administração de sociedades anônimas.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A participação de trabalhadores ativos e aposentados no conselho de administração de sociedades anônimas
ou na gestão de qualquer sociedade empresária é garantida na parte final do inciso XI do art. 7º da Constituição
da República como direito excepcional dos trabalhadores.

Sendo um direito trabalhista extraordinário, não poderá a lei que venha a instituí-lo e regulamentá-lo,
concretizando a previsão constitucional, impô-lo como regra; terá, ao invés, de estabelecê-lo como exceção.
Então, ao ser instituído por lei aquele direito excepcional em favor dos trabalhadores, seu exercício se dará
conforme ali disciplinado, observadas as restrições decorrentes da previsão constitucional.
Atenta a esses condicionantes e à ausência de lei especial regulamentadora da previsão constitucional é que
a jurisprudência da Segunda Seção entende que a definição da competência em hipóteses assemelhadas fica a
depender do contexto das demandas consideradas, ante a natureza especializada da Justiça Trabalhista.
Na hipótese, não trata propriamente da discussão do direito trabalhista estrito senso, ou seja, de controvérsias
decorrentes da relação de trabalho ou de representação sindical, ou mesmo de "outras controvérsias decorrentes
da relação de trabalho". A causa de pedir das ações originárias gravita em torno de relação de natureza
estatutária, civil e empresarial.
Como se sabe, o Conselho de Administração das Companhias, como órgão de deliberação colegiada, é
regulado pelo direito empresarial, na Lei das Sociedades Anônimas (Lei n. 6.404/1976), enquanto o direito
facultativo e excepcional de participação dos empregados no aludido conselho tem expressa previsão no
parágrafo único do art. 140 da Lei das S/A.

132
A legislação de Direito Empresarial, a Lei das S/A, rege a vida das companhias que disputam o mercado,
especialmente das chamadas companhias abertas que angariam recursos no mercado de ações, de modo a
cumprirem requisitos de governança e transparência para enfrentar adequadamente a acirrada concorrência
no mercado nacional e internacional, no qual atuem.
A referida lei ao estabelecer, em seu art. 139, parágrafo único, que o estatuto poderá prever a participação dos
empregados no conselho de administração, faculta às companhias ensejar esse direito excepcional aos
trabalhadores, mediante previsão nos respectivos estatutos, por ato de liberalidade dessas empresas.
Assim, a criação desse direito trabalhista, de índole não obrigatória e extraordinária, não pode ser imposta às
sociedades anônimas. Fica a depender destas a concepção do benefício no âmbito de cada sociedade empresária.
Uma vez criado o direito pelo respectivo estatuto social, os representantes dos empregados deverão ser
escolhidos pelo voto destes, em eleição direta, organizada pela própria companhia, em conjunto com as
entidades sindicais representativa da categoria. (Informativo n. 694)

TERCEIRA SEÇÃO
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PROCESSO CC 175.033-GO, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, Terceira Seção, por
unanimidade, julgado em 26/05/2021, DJe 31/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL E DO TRABALHO, DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Sequestro penal e penhora trabalhista. Pluralidade de constrições
patrimoniais sobre o mesmo bem. Possibilidade. Antecipação, pelo Juízo
trabalhista, da prática do ato expropriatório. Usurpação de competência.
Primazia da medida constritiva penal. Interesse público e inteligência do art.
133 do CPP. Competência do Juízo penal para a prática dos atos
expropriatórios, sem declaração de nulidade do ato praticado pelo Juízo
trabalhista. Reversão da quantia obtida em prol da constrição penal.
DESTAQUE
Incorre em usurpação de competência o Juízo cível ou trabalhista que pratica ato expropriatório de bem
sequestrado na esfera penal.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Inexistindo disposição legal em sentido contrário, afigura-se possível a coexistência de múltiplas constrições
patrimoniais sobre um mesmo bem, decretadas por Juízes diversos, sem implicar na usurpação de competência
por quaisquer deles.
No entanto, é possível cogitar o conflito positivo da discussão acerca da existência ou não de primazia da medida
assecuratória de índole penal (sequestro) sobre a decretada em sede de reclamação trabalhista (penhora), de
modo a elucidar se a conduta do Juízo trabalhista, no sentido de antecipar a prática de ato expropriatório
referente a bem sob o qual ainda recaia constrição decretada pelo Juízo criminal, consubstanciou usurpação de
competência do último.
Inicialmente, cumpre rememorar que o sequestro é medida assecuratória voltada à retenção de bens móveis e
imóveis do indiciado ou acusado, ainda que em poder de terceiros, quando adquiridos com os proventos da
infração (art. 125 do CPP) para que deles não se desfaça, durante o curso da ação penal, de modo a assegurar a
indenização da vítima ou impossibilitar ao agente que tenha lucro com a atividade criminosa. Transitada a ação
penal e inexistindo ofendido a requerer a indenização, são os proventos do delito confiscados em prol da
Fazenda Pública (arts. 133, § 1º, do CPP e 91, II, b, do Código Penal) e submetidos a alienação judicial ou
transferidos diretamente ao ente público (art. 133-A, § 4º, do CPP).

133
De outra parte, a hipoteca legal (art. 134 do CPP) e o arresto (art. 136 do CPP) são direcionados à constrição do
patrimônio lícito do acusado, a fim de que dele não se desfaça e dando garantia ao ofendido ou à Fazenda Pública
de que o acusado não estará insolvente ao final do processo criminal, de modo a assegurar a reparação do dano
por ele causado.
Tais medidas assecuratórias penais ostentam natureza distinta, pois enquanto o sequestro ostenta um interesse
público - retenção e confisco dos bens adquiridos com os proventos da infração -, o arresto e a hipoteca legal
ostentam interesse nitidamente privado - constrição do patrimônio lícito para fins de reparação de dano -,
convicção essa robustecida na diversidade do procedimento para expropriação desses bens, pois enquanto os
bens sequestrados são expropriados no Juízo penal (art. 133 do CPP), os bens arrestados ou hipotecados, em
sede penal, são expropriados no Juízo cível (art. 143 do CPP).
Assim, considerando a natureza peculiar da medida assecuratória penal de sequestro (art. 125 do CPP) -
verificada a partir do interesse público (aquisição com proventos da infração penal) e do fato de que a
expropriação ocorre na seara penal -, deve ser reconhecida a primazia da referida constrição, frente àquela
decretada por Juízo cível ou trabalhista (penhora), sendo indiferente qual constrição foi decretada primeiro.
Logo, incorre em usurpação de competência o Juízo trabalhista que pratica ato expropriatório de bem
sequestrado na seara penal, ainda que objeto de constrição decretada em sede trabalhista (penhora).
Contudo, no caso, conquanto verificada a usurpação de competência, não deve ser declarada a nulidade do ato
expropriatório praticado pelo Juízo Trabalhista, pois os bens submetidos à alienação judicial gozam de
presunção (juris tantum), estabelecida pelo próprio Poder Judiciário e pela lei (art. 903 do CPC), de que são
desembaraçados, ou seja, livres de ônus, sendo que a declaração de nulidade implicaria em descrédito de um
instituto que depende de sua credibilidade para adesão dos arrematantes.
Desse modo, mantida a alienação, deve ser observado, no entanto, que a quantia obtida com a alienação judicial,
promovida perante o Juízo incompetente deve ser revertida em prol da constrição decretada pelo Juízo penal, a
fim de mitigar o prejuízo causado com a inobservância do direcionamento estabelecido na lei penal e processual
penal (arts. 133, § 1º, do CPP, e 91, II, b, do Código Penal). (Informativo n. 697)

134
DIREITO EMPRESARIAL

135
SEGUNDA SEÇÃO
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PROCESSO CC 164.709/MG, Rel. p/ acórdão Min. Raul Araújo, Segunda Seção, por
maioria, julgado em 28/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO DO TRABALHO, DIREITO PROCESSUAL CIVIL, DIREITO
EMPRESARIAL
TEMA Sociedade anônima. Conselho de Administração. Eleição. Participação de
trabalhadores ativos e aposentados. Direito facultativo e excepcional do
trabalhador. Competência da Justiça Comum.
DESTAQUE
Compete à Justiça Comum julgar a participação de trabalhadores ativos e aposentados no conselho de
administração de sociedades anônimas.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A participação de trabalhadores ativos e aposentados no conselho de administração de sociedades anônimas
ou na gestão de qualquer sociedade empresária é garantida na parte final do inciso XI do art. 7º da Constituição
da República como direito excepcional dos trabalhadores.
Sendo um direito trabalhista extraordinário, não poderá a lei que venha a instituí-lo e regulamentá-lo,
concretizando a previsão constitucional, impô-lo como regra; terá, ao invés, de estabelecê-lo como exceção.
Então, ao ser instituído por lei aquele direito excepcional em favor dos trabalhadores, seu exercício se dará
conforme ali disciplinado, observadas as restrições decorrentes da previsão constitucional.
Atenta a esses condicionantes e à ausência de lei especial regulamentadora da previsão constitucional é que
a jurisprudência da Segunda Seção entende que a definição da competência em hipóteses assemelhadas fica a
depender do contexto das demandas consideradas, ante a natureza especializada da Justiça Trabalhista.
Na hipótese, não trata propriamente da discussão do direito trabalhista estrito senso, ou seja, de controvérsias
decorrentes da relação de trabalho ou de representação sindical, ou mesmo de "outras controvérsias decorrentes
da relação de trabalho". A causa de pedir das ações originárias gravita em torno de relação de natureza
estatutária, civil e empresarial.
Como se sabe, o Conselho de Administração das Companhias, como órgão de deliberação colegiada, é
regulado pelo direito empresarial, na Lei das Sociedades Anônimas (Lei n. 6.404/1976), enquanto o direito
facultativo e excepcional de participação dos empregados no aludido conselho tem expressa previsão no
parágrafo único do art. 140 da Lei das S/A.
A legislação de Direito Empresarial, a Lei das S/A, rege a vida das companhias que disputam o mercado,
especialmente das chamadas companhias abertas que angariam recursos no mercado de ações, de modo a
cumprirem requisitos de governança e transparência para enfrentar adequadamente a acirrada concorrência
no mercado nacional e internacional, no qual atuem.
A referida lei ao estabelecer, em seu art. 139, parágrafo único, que o estatuto poderá prever a participação dos
empregados no conselho de administração, faculta às companhias ensejar esse direito excepcional aos
trabalhadores, mediante previsão nos respectivos estatutos, por ato de liberalidade dessas empresas.
Assim, a criação desse direito trabalhista, de índole não obrigatória e extraordinária, não pode ser imposta às
sociedades anônimas. Fica a depender destas a concepção do benefício no âmbito de cada sociedade empresária.
Uma vez criado o direito pelo respectivo estatuto social, os representantes dos empregados deverão ser
escolhidos pelo voto destes, em eleição direta, organizada pela própria companhia, em conjunto com as
entidades sindicais representativa da categoria. (Informativo n. 694)

136
TERCEIRA TURMA
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PROCESSO REsp 1.711.412-MG, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 04/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO EMPRESARIAL
TEMA Contrato de factoring. Cláusula de responsabilização da faturizada pela
solvência dos créditos cedidos à faturizadora. Emissão de nota promissória
para garantia da operação. Princípio da autonomia da vontade. Art. 296 do
Código Civil. Impossibilidade. Vulneração da própria natureza do contrato.
Aval aposto nas notas promissórias. Insubsistência. Interpretação do art. 899,
§ 2º, do Código Civil.
DESTAQUE
A empresa faturizada não responde pela insolvência dos créditos cedidos, sendo nulos a disposição contratual
em sentido contrário e eventuais títulos de créditos emitidos com o fim de garantir a solvência dos créditos
cedidos no bojo de operação de factoring.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O contrato de factoring não se subsume a uma simples cessão de crédito, contendo, em si, ainda, os serviços
prestados pela faturizadora de gestão de créditos e de assunção dos riscos advindos da compra dos créditos da
empresa faturizada. O risco advindo dessa operação de compra de direitos creditórios, consistente justamente
na eventual inadimplência do devedor/sacado, constitui elemento essencial do contrato de factoring, não
podendo ser transferido à faturizada/cedente, sob pena de desnaturar a operação de fomento mercantil em
exame.
A natureza do contrato de factoring, diversamente do que se dá no contrato de cessão de crédito puro, não dá
margem para que os contratantes, ainda que sob o signo da autonomia de vontades que regem os contratos em
geral, estipulem a responsabilidade da cedente (faturizada) pela solvência do devedor/sacado. Por consectário,
a ressalva constante no art. 296 do Código Civil - in verbis: "Salvo estipulação em contrário, o cedente não
responde pela solvência do devedor" - não tem nenhuma aplicação no contrato de factoring.
Ratificação do posicionamento prevalecente no âmbito desta Corte de Justiça, segundo o qual, no bojo do
contrato de factoring, a faturizada/cedente não responde, em absoluto, pela insolvência dos créditos cedidos,
afigurando-se nulos a disposição contratual nesse sentido e eventuais títulos de créditos emitidos com o fim de
garantir a solvência dos créditos cedidos no bojo de operação de factoring, cujo risco é integral e exclusivo da
faturizadora.
Importante registrar que, a despeito da absoluta impossibilidade de a faturizada responder pela solvência dos
títulos transferidos, em virtude da natureza da operação de factoring, a cedente (faturizada) responde, sim, pela
existência do crédito, ao tempo em que lhe cedeu (pro soluto). Não se têm dúvidas, assim, que a faturizada se
responsabiliza, por exemplo, pelo saque, fraudulento, da chamada "duplicata fria", sem causa legítima
subjacente.
No caso, as notas promissórias, que dão supedâneo à ação executiva, foram emitidas pela faturizada, por
imposição contratual, para o propósito exclusivo de garantir a solvência dos créditos cedidos no âmbito do
contrato de factoring, o que, como assentando, não se afigura possível, por vulnerar a própria natureza do ajuste.
No mais, frisa-se que a obrigação assumida pelo avalista, responsabilizando-se solidariamente pela obrigação
contida no título de crédito é, em regra, autônoma e independente daquela atribuída ao devedor principal. O
avalista equipara-se ao avalizado, em obrigações.

137
Sem descurar da autonomia da obrigação do avalista, assim estabelecida por lei, com relevante repercussão nas
hipóteses em que há circulação do título, deve-se assegurar ao avalista a possibilidade de opor-se à cobrança,
com esteio nos vícios que inquinam a própria relação originária (engendrada entre credor e o avalizado),
quando, não havendo circulação do título, o próprio credor, imbuído de má-fé, é o responsável pela extinção,
pela nulidade ou pela inexistência da obrigação do avalizado.
É de se reconhecer, para a hipótese em análise, em que não há circulação do título, a insubsistência do aval
aposto nas notas promissórias emitidas para garantir a insolvência dos créditos cedidos em operação de
factoring. Afinal, em atenção à impossibilidade de a faturizada/cedente responder pela insolvência dos créditos
cedidos, afigurando-se nula a disposição contratual nesse sentido, a comprometer a própria existência de
eventuais títulos de créditos emitidos com o fim de garantir a operação de fomento mercantil, o aval ali inserido
torna-se, de igual modo, insubsistente.
Esta conclusão, a um só tempo, obsta o enriquecimento indevido por parte da faturizadora, que sabe ou deveria
saber não ser possível transferir o risco da operação de factoring que lhe pertence com exclusividade, e não
compromete direitos de terceiros, já que não houve circulação dos títulos em comento. (Informativo n. 695)

PROCESSO REsp 1.839.078/SP, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, Terceira


Turma, por unanimidade, julgado em 09/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO EMPRESARIAL
TEMA Sociedade limitada. Aplicação supletiva das normas relativas às sociedades
anônimas. Retirada voluntária imotivada de sócio. Art. 1.029 do CC.
Possibilidade. Liberdade de não permanecer associado. Garantia
constitucional. Omissão relativa à retirada imotivada na Lei n. 6.404/76
incompatível com a natureza das sociedades limitadas.
DESTAQUE
É direito do sócio retirar-se imotivadamente de sociedade limitada regida de forma supletiva pelas normas da
sociedade anônima.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A questão controvertida diz respeito à possibilidade de o sócio retirar-se imotivadamente, nos termos do art.
1.029 do CC, de sociedade limitada regida de forma supletiva pelas normas relativas à sociedade anô[Link]
termos do que dispõe o referido artigo do Código Civil, o sócio pode se retirar da sociedade de prazo
indeterminado mediante simples notificação aos demais sócios. Trata-se de hipótese de retirada voluntária
[Link] dispositivo, conquanto inserido no capítulo relativo às sociedades simples, é perfeitamente
aplicável às sociedades de natureza limitada, conforme a jurisprudência deste Superior Tribunal, de modo que
o sócio, também nesse tipo societário, tem o direito de se retirar de forma imotivada, sem que seja necessária,
para tanto, a ação de dissolução parcial.O presente caso, porém, apresenta a peculiaridade de ser a sociedade
limitada supletivamente regida pelas normas aplicáveis às sociedades anônimas, conforme expressamente
previsto no contrato social da recorrida, segundo reconhecido pelo Tribunal de [Link] linha do acórdão
recorrido, o fato de a sociedade limitada ser regida supletivamente pela Lei das Sociedades Anônima afasta a
possibilidade de retirada imotivada do só[Link] entanto, a aplicação supletiva da Lei n. 6.404/76 não tem o
condão de afastar o direito de retirada imotivada nas sociedades limitadas de prazo [Link] porque,
em primeiro lugar, a própria Constituição Federal expressamente garante, em seu art. 5º, XX, tanto o direito
fundamental de associação quanto a de não associação. Há, portanto, liberdade constitucionalmente garantida
não apenas de se associar, mas também de não permanecer [Link] segundo lugar, a aplicação supletiva
das normas relativas às sociedades anônimas, autorizada pelo parágrafo único do art. 1.053 do CC, apenas deve
ocorrer naquilo que for compatível com o regramento das sociedades [Link] sentido, ausência de
previsão na Lei n. 6.404/76 acerca da retirada imotivada não implica sua proibição nas sociedades limitadas
regidas supletivamente pelas normas relativas às sociedades anônimas, especialmente quando o art. 1.089 do
CC determina a aplicação supletiva do próprio Código Civil nas hipóteses de omissão daquele [Link]
assim, não havendo previsão específica na Lei n. 6.404/76 acerca da retirada imotivada, e sendo tal omissão

138
incompatível com a natureza das sociedades limitadas, imperioso reconhecer a possibilidade de aplicação do
art. 1.029 do [Link] modo, ainda que o contrato social tenha optado pela regência supletiva da Lei n. 6.404/76,
há direito potestativo de retirada imotivada do sócio na sociedade limitada em questão. E, tendo sido
devidamente exercido tal direito, não mais se mostra possível a convocação de reunião com a finalidade de
deliberar sobre exclusão do sócio que já se retirou. (Informativo n. 688)

PROCESSO REsp 1.692.803-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 23/02/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO EMPRESARIAL
TEMA Sociedade anônima fechada. Aprovação das contas. Sócio administrador.
Impossibilidade.
DESTAQUE
O fato de a sociedade ter somente dois sócios não é suficiente para afastar a proibição de o administrador
aprovar suas próprias contas.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Nos termos do artigo 115, § 1º, da Lei n. 6.404/1976 (LSA), o acionista não poderá votar nas deliberações da
assembleia-geral relativas à aprovação de suas contas como administrador. O artigo 134, § 6º, do mesmo
diploma legal, entretanto, ressalva a situação em que os diretores forem os únicos acionistas da companhia
fechada, autorizando, nesse caso, que participem da votação relativa aos documentos elencados no artigo 133,
dentre os quais, os relatórios da administração, os demonstrativos financeiros e o parecer do conselho fiscal.O
texto legal não faz nenhuma ressalva quanto aos acionistas serem diretores somente em certo período do
exercício. Ademais, ao se adotar esse entendimento, estaria se inaugurando um questionamento acerca de qual
seria o prazo mínimo para ser afastada a proibição do artigo 115, § 1º, da LSA (uma semana, um mês, um
trimestre), esvaziando o conteúdo [Link] forma, o fato de a sociedade ter somente 2 (dois) sócios não é
suficiente para afastar a proibição de o administrador aprovar suas próprias contas, pois o acionista minoritário
deverá proferir seu voto no interesse da sociedade, podendo responder por eventual abuso. (Informativo n.
686)

QUARTA TURMA
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PROCESSO REsp 1.825.555-MT, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 04/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO EMPRESARIAL, DIREITO FALIMENTAR
TEMA Recuperação judicial. Microempresas e Empresas de Pequeno Porte.
Administrador judicial. Remuneração. Limitação de 2%. Rito especial e
procedimento ordinário. Aplicabilidade.
DESTAQUE
A remuneração do administrador judicial nas recuperações judiciais envolvendo Microempresas e Empresas de
Pequeno Porte, com limitação de 2% do valor dos créditos submetidos à recuperação ou dos bens alienados na
falência (LREF, art. 24, § 5º), aplica-se às recuperações judiciais em que haja a opção pelo plano especial (LREF,
arts. 70 a 72) e, também, àquelas que adotem o procedimento ordinário de recuperação judicial (LREF, arts. 51
e seguintes).

139
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
1. A Constituição Federal de 1988 dispõe, dentre os princípios da atividade econômica, o "tratamento favorecido
para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração
no País" (IX), em que deverão receber tratamento jurídico diferenciado, visando o incentivo na simplificação de
suas obrigações administrativas, tributárias, previdenciárias e creditícias, ou na eliminação ou redução destas
por meio de lei, nos termos do art. 179.
2. Nesse contexto, o escopo protetivo da norma foi posteriormente encampado pela Lei n. 11.101/2005 (LREF),
que, dentre vários dispositivos, estabeleceu, especificamente, na Seção V do Capítulo III, um microssistema
próprio para tais empresas de pequeno porte, conferindo prerrogativa na adoção de regime facultativo. Nos
termos do art. 70, § 1º, a microempresa poderá optar entre o plano especial de recuperação judicial dos arts. 70
a 72 ou seguir pelo rito comum dos arts. 51 e seguintes.
3. A questão ora em julgamento é justamente saber se a regra do § 5º do art. 24 da LREF - que limita a
remuneração do administrador judicial em 2% - está atrelada à opção da Microempresa e da Empresa de
Pequeno Porte pelo rito especial de recuperação (LREF, arts. 70-72), procedimento judicial mais simplificado,
ou seja, trata-se de definir se a regra limitadora da retribuição ocorre em razão da qualificação da pessoa - ME
e EPP -, ou em razão da escolha pelo procedimento do plano especial de recuperação judicial.
4. Seguindo os ditames constitucionais, a regra teve o escopo de proteger eminentemente a pessoa do devedor
que se enquadra nos requisitos legais da empresa de pequeno porte, dando o devido tratamento favorecido,
independentemente da sua opção pela adoção do plano especial de recuperação.
5. Ademais, quando o legislador quis, realmente, restringir determinada regra - somente para aqueles que
optaram pelo rito específico dos arts. 70 a 72 da LREF -, ele o fez expressamente.
6. Somado a isso, no âmbito do sistema recuperacional, existem diversos dispositivos espalhados de forma
sistemática em prol da reabilitação das microempresas, não se limitando o tratamento diferenciado às
disposições da seção atinente ao plano especial.
7. Por outro lado, entender de forma diversa acabaria por privar a empresa de pequeno porte de todas as outras
benesses previstas em Lei, apenas pelo fato de que, estrategicamente, optou por não adotar o plano especial.
(Informativo n. 695)

PROCESSO REsp 1.518.203-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 27/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO EMPRESARIAL
TEMA Validade e eficácia de duplicata. Requisitos essenciais e meras
irregularidades. Necessidade de diferenciação. Interpretação conforme usos e
costumes do lugar de sua celebração.
DESTAQUE
A cártula, contendo todos os requisitos essenciais previstos no art. 2º, § 1º, da Lei das Duplicatas, tem validade
e eficácia de duplicata, mesmo que não siga rigorosamente as medidas do modelo estabelecido na Resolução do
Bacen n. 102/1968 e tenha, também, a descrição da mercadoria objeto da compra e venda e uma fatura da
mercadoria objeto da negociação.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia consiste em saber se cártula, ainda que contenha todos os requisitos essenciais previstos no
art. 2º, § 1º, da Lei das Duplicatas, tem sua validade e sua eficácia desconstituídas, retirando sua natureza por
apresentar "também a descrição da mercadoria objeto da compra e venda, uma fatura da mercadoria objeto da
negociação", e não observar, com precisão, "os limites do documento, com altura mínima de 148 mm e máxima
de 152 mm e largura mínima de 203 mm e máxima de 210 mm", conforme modelo estabelecido na Resolução
do Bacen n. 102/1968.

140
O art. 113 do Código Civil dispõe que os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa-fé e os
usos do lugar de sua celebração. Assim, não é comum que o sacado e endossatários se valham de régua, por
ocasião, respectivamente, do aceite e da operação de endosso, para aferição do preenchimento preciso das
dimensões de largura e altura da cártula.
Como se sabe, são três modalidades de duplicata, quais sejam: a) a cartular, assinada em papel; b) as assinadas
por certificado digital, denominadas no mercado de securitização de recebíveis de "duplicata digital"; c) as
correspondentes às informações presentes nos boletos bancários, inicialmente denominadas "duplicata virtual"
ou "eletrônica", a teor da mais técnica nominação atribuída pela Lei n. 13.775/2018, "duplicata sob a forma
escritural".
Na verdade, a "praxe mercantil aliou-se ao desenvolvimento da tecnologia e desmaterializou a duplicata,
transformando-a em 'registros eletromagnéticos, transmitidos por computador pelo comerciante ao banco. O
banco, a seu turno, faz a cobrança, mediante expedição de simples aviso ao devedor - os chamados 'boletos', de
tal sorte que o título em si, na sua expressão de cártula, somente vai surgir se o devedor se mostrar inadimplente.
Do contrário, - o que corresponde à imensa maioria dos casos - a duplicata mercantil atem-se a uma
potencialidade que permite se lhe sugira a designação de duplicata virtual'.
Vale observar que os requisitos essenciais da Duplicata, os quais devem ser devidamente supridos sob pena
de retirar o valor do de título de crédito do documento estão claramente previstos no art. 2º, § 1º, da Lei das
Duplicatas, que estabelece que a cártula conterá: I - a denominação "duplicata", a data de sua emissão e o número
de ordem; II - o número da fatura; III - a data certa do vencimento ou a declaração de ser a duplicata à vista; IV
- o nome e domicílio do vendedor e do comprador; V - a importância a pagar, em algarismos e por extenso; VI -
a praça de pagamento; VII - a cláusula à ordem; VIII - a declaração do reconhecimento de sua exatidão e da
obrigação de pagá-la, a ser assinada pelo comprador, como aceite, cambial; IX - a assinatura do emitente.
Assim, a imprecisão das medidas formais da cártula caracteriza mera e irrelevante irregularidade, cuja pecha
de inexistência não encontra respaldo nos usos e costumes, caracterizando formalismo totalmente incompatível
com o direito empresarial, isto é, não caracteriza vício que afete a validade e eficácia do título de crédito, não
sendo também compatível com a boa-fé objetiva que a sacada dê o aceite sem nenhuma oposição e, até mesmo
maneje a presente "ação declaratória de inexigibilidade de duplicata mercantil", e, contraditoriamente, venha a
dizer que o documento não caracteriza duplicata.
Igualmente, não perece razoável o entendimento de que, como a cártula apresenta também a descrição da
mercadoria objeto da compra e venda, uma fatura da mercadoria objeto da negociação, o que desnatura e
descaracteriza por completo o título como duplicata.
Isso porque a descrição da mercadoria, a par de caracterizar uma duplicata da fatura na própria acepção do
termo, a toda evidência, embora represente redobrada cautela, não pode ser caracterizado nem sequer algo
descabido, pois o art. 2º, § 2º, dispõe que uma duplicata tem que corresponder a uma única fatura. (Informativo
n. 694)

PROCESSO REsp 1.518.203-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 27/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO EMPRESARIAL
TEMA Endosso com aceite a terceiro. Circulação e abstração do título cambial.
Desnecessidade de prova de realização do negócio subjacente.
DESTAQUE
O endosso de duplicata mercantil com aceite a terceiro de boa-fé, dispensa a necessidade de demonstração,
pela endossatária, da consumação de negócio de compra e venda de mercadorias subjacente.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Discute-se se, mesmo havendo endosso de duplicata mercantil com aceite a terceiro de boa-fé, há necessidade
de demonstração, pela endossatária, da consumação de negócio de compra e venda de mercadorias subjacente.

141
Embora o endosso, no interesse do endossatário terceiro de boa-fé, tenha efeito de cessão, não se aplica e não
se confunde com o instituto civilista da cessão de crédito. Em razão disso, não são aplicáveis os arts. 288 e 290
do Código Civil para a obtenção, por meio tão somente do endosso de título de crédito à ordem, dos mesmos
efeitos de cessão de crédito.

Por um lado, como a duplicata tem aceite, o art. 15 da Lei das Duplicatas (Lei n. 5.474./1968), estabelece que
a cobrança judicial de duplicata ou triplicata será efetuada de conformidade com o processo aplicável aos títulos
executivos extrajudiciais, não havendo necessidade de quaisquer outros documentos, além do título. O inciso II
do mesmo dispositivo estabelece que, apenas se a duplicata ou triplicata não for aceita, é necessário,
cumulativamente, haja sido protestada e esteja acompanhada de documento hábil comprobatório da entrega e
do recebimento da mercadoria.
Por outro lado, o art. 25 da Lei da Duplicata esclarece que se aplicam à duplicata e à triplicata, no que couber,
os dispositivos da legislação sobre emissão, circulação e pagamento das Letras de Câmbio.
Com efeito, a duplicata é título de crédito causal, isso significa que, para sua regular constituição, deve haver
uma prestação de serviço. Essa causalidade, todavia, não lhe retira o caráter de abstração. Uma vez circulando
o título, ao endossatário não podem ser opostas as exceções.
Conclui-se, portanto, que, uma vez aceita, o sacado vincula-se ao título como devedor principal e a ausência
de entrega da mercadoria ou de prestação de serviços, ou mesmo quitação referente à relação fundamental ao
credor originário, somente pode ser oponível ao sacador, como exceção pessoal, mas não a endossatários de
boa-fé. (Informativo n. 694)

PROCESSO AgInt no AREsp 1.635.968/PR, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta
Turma, por unanimidade, julgado em 06/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO EMPRESARIAL
TEMA Duplicata. Endosso-caução. Quitação ao endossante. Não cabimento. Resgate
da cártula. Indispensabilidade.
DESTAQUE
O terceiro de boa-fé, endossatário, em operação de endosso-caução, não perde seu crédito de natureza
cambial em vista da quitação feita ao endossante (credor originário), sem resgate da cártula.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Registra-se, inicialmente, que "as normas das leis especiais que regem os títulos de crédito nominados, v.g.,
letra de câmbio, nota promissória, cheque, duplicata, cédulas e notas de crédito, continuam vigentes e se aplicam
quando dispuserem diversamente do Código Civil de 2002, por força do art. 903 do Diploma civilista. Com efeito,
com o advento do Diploma civilista, passou a existir uma dualidade de regramento legal: os títulos de crédito
típicos ou nominados continuam a ser disciplinados pelas leis especiais de regência, enquanto os títulos atípicos
ou inominados subordinam-se às normas do novo Código, desde que se enquadrem na definição de título de
crédito constante no art. 887 do Código Civil" (REsp 1.633.399/SP, Rel. Ministro Luis Felipe Salomão, Quarta
Turma, julgado em 10/11/2016, DJe 01/12/2016).
Conquanto a duplicata seja causal apenas na sua origem/emissão, sua circulação - configurada após o aceite
do sacado, ou, na sua falta, pela comprovação do negócio mercantil subjacente e o protesto - rege-se pelo
princípio da abstração, desprendendo-se de sua causa original, sendo por isso inoponíveis exceções pessoais a
terceiros de boa-fé, como a ausência da entrega das mercadorias compradas.
Ademais, o endosso-caução tem por finalidade garantir, mediante o penhor do título, obrigação assumida
pelo endossante perante o endossatário, que desse modo assume a condição de credor pignoratício do
endossante. Verificado o cumprimento da obrigação por parte do endossante, o título deve ser-lhe restituído
pelo endossatário, por isso não havendo, ordinariamente, propriamente a transferência do crédito representado
pelo título.

142
No entanto, é preciso ressaltar que o endossatário pignoratício é detentor dos direitos emergentes do título,
não podendo os coobrigados invocar contra ele exceções fundadas sobre relações pessoais com o endossante,
pois esse, "apesar de ser ainda o proprietário do título, transmitiu os direitos emergentes do mesmo ao
endossatário, como acontece no endosso comum".
Ademais, não se pode ignorar que a "quitação regular de débito estampado em título de crédito é a que ocorre
com o resgate da cártula - tem o devedor, pois, o poder-dever de exigir daquele que se apresenta como credor
cambial a entrega do título de crédito (o art. 324 do Código Civil, inclusive, dispõe que a entrega do título ao
devedor" (REsp 1.236.701/MG, Rel. Ministro Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, julgado em 05/11/2015, DJe
23/11/2015).
Por outro lado, o art. 905 do CC, caput, estabelece que o possuidor de título ao portador tem direito à prestação
nele indicada, mediante a sua simples apresentação ao devedor, e o parágrafo único estipula que a prestação é
devida ainda que o título tenha entrado em circulação contra a vontade do emitente.
Portanto, é temerário para o direito cambial, para a circulação dos títulos de crédito, que se admita a quitação
de crédito cambial, sem a exigência do resgate da cártula, notadamente se ensejar prejuízo a terceiro de boa-fé.
(Informativo n. 691)

143
DIREITO FALIMENTAR

144
TERCEIRA TURMA
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PROCESSO REsp 1.736.887/SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 13/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO FALIMENTAR
TEMA Contrato inadimplido. Valores pertencentes a terceiros em posse da
recuperanda. Recuperação judicial. Não submissão.
DESTAQUE
Os valores pertencentes a terceiros que estão na posse da recuperanda por força de contrato inadimplido não
se submetem aos efeitos da recuperação judicial.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
De acordo com o disposto no artigo 49, caput, da Lei n. 11.101/2005, estão sujeitos aos efeitos da recuperação
judicial todos os créditos existentes na data do pedido.
Porém, no caso, a recuperanda está na posse de valores que pertencem à parte (terceiros) em decorrência do
descumprimento do contrato de prestação de serviços firmado entre as partes, que previa o repasse dessas
quantias.
A questão mais se assemelha a uma hipótese de restituição, prevista no artigo 85 da Lei n. 11.101/2005, em
que o proprietário de bem que se encontra em poder do devedor na data da falência pode pedir a sua restituição.
Ainda que o pedido de restituição não se amolde perfeitamente à recuperação judicial, é útil para demonstrar
que na hipótese de a devedora se encontrar na posse de bens de terceiros, esses não são considerados seus
credores, não se podendo falar em habilitação, mas no exercício do direito de sequela.
Observa-se, ademais, que a lei de regência prevê que os titulares de propriedade resolúvel não se submetem
aos efeitos da recuperação judicial, estabelecendo o § 3º do artigo 49 que "prevalecerão os direitos de
propriedade sobre a coisa e as condições contratuais". Se é assim com a propriedade resolúvel, com muito mais
razão quanto à propriedade plena, cabendo a busca dos valores retidos indevidamente. (Informativo n. 692)

QUARTA TURMA
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PROCESSO REsp 1.851.692-RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por
maioria, julgado em 25/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO FALIMENTAR
TEMA Recuperação Judicial. Crédito concursal. Habilitação retardatária. Opção do
credor preterido. Possibilidade de posterior retomada da execução individual
do seu crédito.
DESTAQUE
É facultado ao titular do crédito que for voluntariamente excluído do plano recuperacional habilitar o seu
crédito ou promover a execução individual após finda a recuperação.

145
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia dos autos está em definir se o crédito que não foi incluído no plano de recuperação judicial deve
ser obrigatoriamente habilitado, ainda que de forma retardatária, ou se há faculdade do credor preterido
requerer a posterior retomada da execução individual do seu crédito.
Quanto ao ponto, iniciado o processamento da recuperação judicial, todos os créditos existentes na data do
pedido, ainda que não vencidos, estão sujeitos aos seus efeitos (LREF, art 49), estabelecendo a norma um
procedimento específico para apuração dos créditos devidos, seja em relação ao valor seja em relação à sua
classificação.
Em suma, a verificação passa por uma fase extrajudicial, sob a tutela do administrador judicial, em que os dados
para a formação da lista de credores serão extraídos da relação apresentada pelo devedor - a petição inicial da
recuperação judicial deve ser instruída pela recuperanda com a relação nominal completa dos credores, com a
indicação do endereço, a natureza, a classificação e o valor atualizado do crédito, discriminando sua origem, o
regime dos respectivos vencimentos e a indicação dos registros contábeis de cada transação pendente (art. 51,
III) -, dos livros contábeis e documentos comerciais e fiscais do devedor e nas declarações e divergências que
lhe forem apresentados pelos credores (LREF, art. 7°); e outra judicial, que se inicia a partir de eventuais
impugnações quanto ao rol, legitimidade, importância ou classificação de qualquer crédito (LREF, art. 11, 12 e
13) e será decidida por sentença pelo magistrado, já que se trata de processo contencioso, de natureza cognitiva.
Dessarte, caso não haja qualquer tipo de irresignação, o juiz homologará, como quadro-geral de credores, a
relação dos credores constante do edital contendo a relação de credores apresentada pelo administrador
judicial (LREF, art. 14) e, em havendo impugnações, a definição do quadro geral será definida a depender do
julgamento dessas, com a consolidação pelo administrador judicial (art. 18).
Seguindo a linha de raciocínio da norma, o credor que não tenha promovido sua habilitação dentro do prazo do
§ 1° do art. 7°, continuará podendo habilitar seu crédito enquanto a recuperação judicial ou a falência não
estiverem encerradas, não havendo falar em decadência ou preclusão. No entanto, tais habilitações deverão ser
recebidas como retardatárias.
No entanto, o titular do crédito que for voluntariamente excluído do plano recuperacional, detém a prerrogativa
de decidir entre habilitar o seu crédito ou promover a execução individual após finda a recuperação.
Nesse passo, caso a obrigação não seja abrangida pelo acordo recuperacional, restando suprimida do plano, não
haverá falar em novação, ficando o crédito excluído da recuperação e, por conseguinte, podendo ser satisfeito
pelas vias ordinárias (execução ou cumprimento de sentença).
Outrossim, caso o credor excluído tenha optado pela execução individual, ficará obrigado a aguardar o
encerramento da recuperação judicial, para só então dar prosseguimento ao feito, em consonância com o
procedimento estabelecido pelo CPC.
De fato, até o encerramento da recuperação judicial, o administrador judicial, o Comitê, qualquer credor ou o
representante do Ministério Público poderá "pedir a exclusão, outra classificação ou a retificação de qualquer
crédito, nos casos de descoberta de falsidade, dolo, simulação, fraude, erro essencial ou, ainda, documentos
ignorados na época do julgamento do crédito ou da inclusão no quadro-geral de credores" (LREF, art. 19).
(Informativo n. 698)

146
PROCESSO REsp 1.825.555-MT, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 04/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO EMPRESARIAL, DIREITO FALIMENTAR
TEMA Recuperação judicial. Microempresas e Empresas de Pequeno Porte.
Administrador judicial. Remuneração. Limitação de 2%. Rito especial e
procedimento ordinário. Aplicabilidade.
DESTAQUE
A remuneração do administrador judicial nas recuperações judiciais envolvendo Microempresas e Empresas de
Pequeno Porte, com limitação de 2% do valor dos créditos submetidos à recuperação ou dos bens alienados na
falência (LREF, art. 24, § 5º), aplica-se às recuperações judiciais em que haja a opção pelo plano especial (LREF,
arts. 70 a 72) e, também, àquelas que adotem o procedimento ordinário de recuperação judicial (LREF, arts. 51
e seguintes).
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
1. A Constituição Federal de 1988 dispõe, dentre os princípios da atividade econômica, o "tratamento favorecido
para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração
no País" (IX), em que deverão receber tratamento jurídico diferenciado, visando o incentivo na simplificação de
suas obrigações administrativas, tributárias, previdenciárias e creditícias, ou na eliminação ou redução destas
por meio de lei, nos termos do art. 179.
2. Nesse contexto, o escopo protetivo da norma foi posteriormente encampado pela Lei n. 11.101/2005 (LREF),
que, dentre vários dispositivos, estabeleceu, especificamente, na Seção V do Capítulo III, um microssistema
próprio para tais empresas de pequeno porte, conferindo prerrogativa na adoção de regime facultativo. Nos
termos do art. 70, § 1º, a microempresa poderá optar entre o plano especial de recuperação judicial dos arts. 70
a 72 ou seguir pelo rito comum dos arts. 51 e seguintes.
3. A questão ora em julgamento é justamente saber se a regra do § 5º do art. 24 da LREF - que limita a
remuneração do administrador judicial em 2% - está atrelada à opção da Microempresa e da Empresa de
Pequeno Porte pelo rito especial de recuperação (LREF, arts. 70-72), procedimento judicial mais simplificado,
ou seja, trata-se de definir se a regra limitadora da retribuição ocorre em razão da qualificação da pessoa - ME
e EPP -, ou em razão da escolha pelo procedimento do plano especial de recuperação judicial.
4. Seguindo os ditames constitucionais, a regra teve o escopo de proteger eminentemente a pessoa do devedor
que se enquadra nos requisitos legais da empresa de pequeno porte, dando o devido tratamento favorecido,
independentemente da sua opção pela adoção do plano especial de recuperação.
5. Ademais, quando o legislador quis, realmente, restringir determinada regra - somente para aqueles que
optaram pelo rito específico dos arts. 70 a 72 da LREF -, ele o fez expressamente.
6. Somado a isso, no âmbito do sistema recuperacional, existem diversos dispositivos espalhados de forma
sistemática em prol da reabilitação das microempresas, não se limitando o tratamento diferenciado às
disposições da seção atinente ao plano especial.
7. Por outro lado, entender de forma diversa acabaria por privar a empresa de pequeno porte de todas as outras
benesses previstas em Lei, apenas pelo fato de que, estrategicamente, optou por não adotar o plano especial.
(Informativo n. 695)

147
PROCESSO REsp 1.383.914/RS, Rel. Min. Antônio Carlos Ferreira, Quarta Turma,
por unanimidade, julgado em 16/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO FALIMENTAR
TEMA Massa falida. Litigância de má-fé. Condenação. Natureza. Encargos da massa.
Preferenciais. Habilitação. Desnecessidade. Ressalvas legais.
DESTAQUE
Os encargos da massa são preferenciais e não dependem de habilitação para serem satisfeitos, observadas as
ressalvas legais do art. 124 do Decreto-Lei n. 7.661/1945.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia reside na qualidade que se deve atribuir à pena imposta em ação de embargos de terceiro, na
qual se imputou à massa falida a pecha de litigante de má-fé.Segundo o disposto no art. 35 da lei processual
revogada, a sanção deve ser computada como custas processuais, traduzindo "encargo da massa", na forma
prevista pelo art. 124, § 1º, do Decreto-Lei n. 7.661/[Link], a Corte local, sem afastar a natureza da pena
imposta, concluiu que as custas qualificadas como encargos da massa são aquelas estritamente relacionadas ao
processo de falência e não, em outros [Link]ém assinalar que os embargos de terceiro nos quais imposta a
pena por litigância de má-fé foram opostos de forma incidental ao processo de falência, contra ato praticado
pelo síndico da massa, que arrecadou bem imóvel [Link] ponto, o STJ tem precedente no sentido de
que "[a] lei falimentar estabeleceu como encargos da massa falida as custas judiciais do processo da falência,
dos seus incidentes e das ações em que a massa for vencida, as quais compreendem taxas judiciárias,
emolumentos, verbas dos peritos, publicações, entre outras" (REsp 1.070.149/SP, Rel. Ministra Nancy Andrighi,
Terceira Turma, julgado em 15/12/2011, DJe 01/02/2012).Vale lembrar que no processo falimentar há dois
grupos de credores: os credores da falência propriamente dita e os credores da massa, que "são aqueles que têm
créditos sobre a massa depois de a falência ter sido decretada. Esses credores, por não precisarem se habilitar,
não estão sujeitos à verificação de créditos".Assim, respeitadas as ressalvas legais do próprio art. 124 do
Decreto-Lei n. 7.661/1945 (créditos trabalhistas e créditos com garantia real), não há se falar em habilitação, já
que, por expressa disposição legal, os encargos da massa são preferenciais com relação aos demais créditos da
própria falência. (Informativo n. 689)

148
DIREITO FINANCEIRO

149
SEGUNDA TURMA
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PROCESSO REsp 1.752.162/RJ, Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, por
unanimidade, julgado em 13/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO FINANCEIRO
TEMA Recursos na aérea da saúde. Mínimo constitucional. Não alocação. Estado-
membro. Reparação integral devida.
DESTAQUE
O Estado-membro que desrespeita o mínimo constitucional que deve ser aplicado na saúde, realocando
recurso em programa diverso, deve devolvê-lo à sua área de origem em sua totalidade.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Na origem, trata-se de Ação Civil Pública com pedido de antecipação dos efeitos da tutela, objetivando a
condenação de Estado-membro a reparar integralmente o dano causado pela não alocação do mínimo
constitucional de recursos na área de saúde, referente ao ano de 2005.
Entendeu o Tribunal de origem que o orçamento do ano 2005 seria fato pretérito e consumado e que a verba
que deveria ter sido usada na área de saúde teve outra destinação, sendo inviável o desfazimento ou acerto
daquele orçamento, bem como intervenção nas futuras dotações orçamentárias.
O acórdão objurgado criou parâmetro sancionador da conduta do Estado-membro, aplicando-lhe o
equivalente a 10% da verba apurada como não aplicada em programas e ações de saúde, sob o argumento de
que feriria "o limite da razoabilidade a fixação do valor da indenização pelo valor da diferença que deixou de ser
aplicada na saúde naquele ano, uma vez que se estaria desconsiderando "que os recursos não aplicados na área
de saúde, foram destinados ao benefício dos cidadãos do Estado-membro em outras áreas, como educação,
segurança, transporte, igualmente importantes".
No entanto, considerando o efetivo desvio de verba orçamentária destinada exclusivamente à saúde, a sua
aplicação em outras áreas de serviço público não pode servir de argumento para a redução do quantum, até
porque as condições de serviço público oferecido à população, notadamente no setor de saúde, notoriamente se
encontram extremamente precárias.
Assim, se determinado valor deveria, por força de norma constitucional, ter sido aplicado na saúde, e o Estado
alocou-o em programas diversos, a devolução de tal valor à sua área de origem, em sua totalidade, deve ser
efetivada como forma de restaurar a ordem pública.
A cominação de uma espécie de multa de 10% sobre o montante desviado revela-se em efetiva dissonância
da legislação pátria em vigor, que prevê sempre quantum indenizatório equivalente ao prejuízo apurado em
cada hipótese concreta, conforme se infere dos ditames do art. 944 do Código Civil. (Informativo n. 692).

PROCESSO REsp 1.833.358/PB, Rel. Min. Og Fernandes, Segunda Turma, por


unanimidade, julgado em 06/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO FINANCEIRO
TEMA Precatório ou Requisição de Pequeno Valor - RPV. Cancelamento. Arts. 2º e 3º
da Lei n. 13.463/2017. Reexpedição. Prescrição. Termo inicial. Cancelamento.
DESTAQUE
É prescritível a pretensão de expedição de novo precatório ou RPV após o cancelamento estabelecido pelo
art. 2º da Lei n. 13.463/2017.

150
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Conforme o entendimento da Segunda Turma desta Corte Superior, é prescritível a pretensão de expedição
de novo precatório ou RPV após o cancelamento estabelecido pelo art. 2º da Lei n. 13.463/2017.

Nos termos do REsp 1.859.409/RN, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em
16/6/2020, DJe 25/6/2020: "1. Estabelecem, respectivamente, os arts. 2º e 3º da Lei 13.463/2017: "Ficam
cancelados os precatórios e as RPV federais expedidos e cujos valores não tenham sido levantados pelo credor
e estejam depositados há mais de dois anos em instituição financeira oficial", "cancelado o precatório ou a RPV,
poderá ser expedido novo ofício requisitório, a requerimento do credor". 2. A pretensão de expedição de novo
precatório ou nova RPV, após o cancelamento de que trata o art. 2º da Lei nº 13.463/2017, não é imprescritível."
O fundamento é o de que, por aplicação do princípio da actio nata, conforme o referido precedente, "o direito
do credor de que seja expedido novo precatório ou nova RPV começa a existir na data em que houve o
cancelamento do precatório ou RPV cujos valores, embora depositados, não tenham sido levantados".
(Informativo n. 691)

151
DIREITO MARCÁRIO

152
TERCEIRA TURMA
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PROCESSO REsp 1.922.135/RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 13/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO MARCÁRIO
TEMA Diluição da marca no exterior. Registro no Brasil. Afastamento da
distintividade. Inocorrência.
DESTAQUE
A diluição da marca no exterior não é suficiente para afastar a distintividade do registro no Brasil.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Segundo a doutrina, a teoria da diluição, elaborada no direito norte-americano, corresponde ao conceito de
condutas parasitárias construído no direito europeu com o intuito de responsabilizar práticas que busquem se
"beneficiar, indevidamente, do prestígio associado a marcas conhecidas".
Com propósito similar, o art. 130, III, da LPI (Lei de Propriedade Industrial), garante aos titulares ou
depositantes de uma marca o direito de zelar pela sua integridade e reputação. O que a norma enfrenta, em
específico, são os efeitos da diluição, dentre os quais se destaca a perda da força do "sinal distintivo, seja pela
lesão à unicidade, à consistência no uso ou a sua reputação".
Ocorre que a diluição internacional ou, no caso, a ofensa à unicidade, não é suficiente para afastar a
distintividade da marca registrada no Brasil. Assim, permanece hígido o direito da empresa de zelar pela sua
unicidade, integridade ou reputação em território nacional.
Por fim, é válido acrescentar que o registro de marcas é regido pelo princípio da territorialidade, segundo o
qual a proteção marcária não transcenderia os limites nacionais, conforme previsto no art. 129 da LPI. Inexiste,
nesse sentido, previsão normativa que permita a análise da viabilidade de registro conforme o mercado
internacional e a diluição ou não da marca no exterior. (Informativo n. 692)

QUARTA TURMA
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PROCESSO REsp1.817.109-RJ, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 23/02/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL, DIREITO MARCÁRIO
TEMA Registro de marca. Ação de nulidade. INPI. Participação processual.
Obrigatoriedade.
DESTAQUE
Em ação de nulidade de registro de marca, a natureza da participação processual do INPI, quando não figurar
como autor ou corréu, é de intervenção sui generis (ou atípica) obrigatória, na condição de assistente especial.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A Lei n. 9.279/1996 (LPI) regula os direitos e obrigações relativos à propriedade industrial, definindo, ainda, o
procedimento a ser adotado nas ações de nulidade de patente e de registro de desenho industrial e de marcas
(artigos 57, 118 e 175).Em qualquer das aludidas pretensões, segundo as normas indicadas, deverá ocorrer a
intervenção do INPI, autarquia federal responsável pelo aperfeiçoamento, pela disseminação e pela gestão do
sistema brasileiro de concessão e garantia de direitos de propriedade [Link] tocante à nulidade do
153
registro de marca, o caput do artigo 175 da LPI estabelece que "a ação de nulidade do registro será ajuizada no
foro da justiça federal e o INPI, quando não for autor, intervirá no feito".A referida ação, portanto, poderá ser
proposta tanto pelo INPI como por qualquer outra pessoa (física ou jurídica) com legítimo interesse (artigo
173), mas, em não sendo a autarquia a autora, deverá, obrigatoriamente, intervir no feito, sob pena de
[Link] desse contexto normativo, precedentes desta Corte - envolvendo discussões sobre ônus
sucumbencial e honorários recursais - consagraram o entendimento de que, na ação de nulidade de patente ou
de registro de marca (ou de desenho industrial), a atuação processual do INPI, quando não figurar como autor
ou corréu, terá a natureza de intervenção sui generis (ou atípica), na condição de assistente especial (ou até de
amicus curiae), por se dar de forma obrigatória, tendo em vista o interesse público encartado na sua finalidade
institucional de proteção eficiente da propriedade industrial com o necessário estímulo ao desenvolvimento
tecnológico e econômico do país, observada a livre iniciativa, a função social da propriedade e a defesa do
mercado [Link] tal ótica, destaca-se precedente da Terceira Turma, exarado por ocasião do
julgamento do Recurso Especial 1.775.812/RJ - da relatoria do eminente Ministro Marco Aurélio Bellizze -, que,
ao versar sobre a legitimidade processual do INPI para impugnar sentença extintiva de reconvenção
apresentada por corréu, reconheceu a natureza dinâmica do litisconsórcio exercido pela autarquia, que não fica
adstrita a qualquer um dos polos da [Link] modo, fala-se em uma "migração interpolar" do INPI, a
exemplo do que ocorre na ação popular e na ação de improbidade, nas quais a pessoa jurídica de direito público
ou de direito privado, cujo ato seja objeto de impugnação, pode abster-se de contestar o pedido, ou atuar ao lado
do autor, desde que isso se afigure útil ao interesse público, nos termos dos artigos 6º, § 3º, da Lei n. 4.717/1965
e 17, § 3º, da Lei n. 8.429/1992. (Informativo n. 686)

154
DIREITO PENAL

155
CORTE ESPECIAL
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PROCESSO APn 912/RJ, Rel. Min. Laurita Vaz, Corte Especial, por unanimidade,
julgado em 03/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Queixa-crime. Calúnia contra pessoa morta. Retratação cabal antes da
sentença. Ato unilateral. Extinção da punibilidade. Artigos 143 e 107, VI, do
Código Penal.
DESTAQUE
A retratação da calúnia, feita antes da sentença, acarreta a extinção da punibilidade do agente independente de
aceitação do ofendido.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Consoante as diretrizes do Código Penal: "Art. 143. O querelado que, antes da sentença, se retrata cabalmente
da calúnia ou da difamação, fica isento de pena. Parágrafo único. Nos casos em que o querelado tenha praticado
a calúnia ou a difamação utilizando-se de meios de comunicação, a retratação dar-se-á, se assim desejar o
ofendido, pelos mesmos meios em que se praticou a ofensa."A retratação, admitida nos crimes de calúnia e
difamação, não é ato bilateral, ou seja, não pressupõe aceitação da parte ofendida para surtir seus efeitos na
seara penal, porque a lei não exige isso. O Código, quando quis condicionar o ato extintivo da punibilidade à
aceitação da outra parte, o fez de forma expressa, como no caso do perdão ofertado pelo querelante depois de
instaurada a ação [Link] é sabido, não há como se fazer analogia in malam partem, contra o réu, para lhe
impor condição para causa extintiva da punibilidade que a Lei Penal não [Link] verdade, basta que a
retratação seja cabal. Vale dizer: deve ser clara, completa, definitiva e irrestrita, sem remanescer nenhuma
dúvida ou ambiguidade quanto ao seu alcance, que é justamente o de desdizer as palavras ofensivas à honra,
retratando-se o ofensor do [Link], em se tratando de ofensa irrogada por meios de comunicação -
como no caso, que foi por postagem em rede social na internet -, o parágrafo único do art. 143 do Código Penal
dispõe que "a retratação dar-se-á, se assim desejar o ofendido, pelos mesmos meios em que se praticou a ofensa".A
norma penal, ao abrir ao ofendido a possibilidade de exigir que a retratação seja feita pelo mesmo meio em que
se praticou a ofensa, não transmudou a natureza do ato, que é essencialmente unilateral. Apenas permitiu que
o ofendido exerça uma [Link], se o ofensor, desde logo, mesmo sem consultar o ofendido, já se
utiliza do mesmo veículo de comunicação para apresentar a retratação, não se afigura razoável desmerecê-la,
porque o ato já atingiu sua finalidade legal. (Informativo n. 687)

156
TERCEIRA SEÇÃO
Voltar ao Sumário.

PROCESSO HC 455.097/PR, Rel. Min. Laurita Vaz, Terceira Seção, por unanimidade,
julgado em 14/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Medida cautelar de recolhimento noturno, finais de semana e dias não úteis.
Monitoração eletrônica. Detração. Possibilidade. Princípio da humanidade.
Excesso de execução. Providência cautelar que se assemelha ao cumprimento
de pena em regime prisional semiaberto. Ubi eadem ratio, ibi eadem legis
dispositio. Hipóteses do art. 42 do CP que não são numerus clausus.
DESTAQUE
É possível considerar o tempo submetido à medida cautelar de recolhimento noturno, aos finais de semana e
dias não úteis, supervisionados por monitoramento eletrônico, com o tempo de pena efetivamente cumprido,
para detração da pena.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Inicialmente, frise-se que a detração é prevista no art. 42 do Código Penal, segundo o qual se computa, "na
pena privativa de liberdade e na medida de segurança, o tempo de prisão provisória, no Brasil ou no estrangeiro,
o de prisão administrativa e o de internação em qualquer dos estabelecimentos referido no artigo anterior".
Interpretar a legislação que regula a detração de forma que favoreça o sentenciado harmoniza-se com o
Princípio da Humanidade, que impõe ao Juiz da Execução Penal a especial percepção da pessoa presa como
sujeito de direitos.
O óbice à detração do tempo de recolhimento noturno e aos finais de semana determinado com fundamento
no art. 319 do Código de Processo Penal sujeita o apenado a excesso de execução, em razão da limitação objetiva
à liberdade concretizada pela referida medida diversa do cárcere.
Note-se que a medida diversa da prisão que impede o acautelado de sair de casa após o anoitecer e em dias
não úteis assemelha-se ao cumprimento de pena em regime prisional semiaberto. Se nesta última hipótese não
se diverge que a restrição da liberdade decorre notadamente da circunstância de o agente ser obrigado a
recolher-se, igual premissa deve permitir a detração do tempo de aplicação daquela limitação cautelar. Ubi
eadem ratio, ibi eadem legis dispositio: onde existe a mesma razão fundamental, aplica-se a mesma regra jurídica.
O Superior Tribunal de Justiça, nos casos em que há a configuração dos requisitos do art. 312 do Código de
Processo Penal, admite que a condenação em regime semiaberto produza efeitos antes do trânsito em julgado
da sentença (prisão preventiva compatibilizada com o regime carcerário do título prisional). Nessa perspectiva,
mostra-se incoerente impedir que a medida cautelar que pressuponha a saída do paciente de casa apenas para
laborar, e durante o dia, seja descontada da reprimenda.
Essa conjuntura impõe o reconhecimento de que as hipóteses do art. 42 do Código Penal não consubstanciam
rol taxativo.
Desse modo, conclui-se que o período de recolhimento domiciliar, aplicado simultaneamente a monitoração
eletrônica, para fiscalização de seu cumprimento, deve ser objeto de detração penal. (Informativo n. 693)

157
PROCESSO HC 610.201/SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, Terceira Seção, por maioria,
julgado em 24/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Crime de estelionato. Regra do § 5º do art. 171 do Código Penal acrescentada
pela Lei n. 13.964/2019 (Pacote Anticrime). Representação. Condição de
procedibilidade. Aplicação retroativa a processos com denúncia já oferecida.
Inviabilidade. Ato jurídico perfeito.
DESTAQUE
A exigência de representação da vítima no crime de estelionato não retroage aos processos cuja denúncia já
foi oferecida.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia aborda a retroatividade ou não da Lei n. 13.964/19, também conhecida por Pacote Anticrime,
no que toca ao seu aspecto alterador da natureza jurídica da ação penal no delito de estelionato (art. 171 do
Código Penal). A ação que era pública incondicionada, como cediço, passou a exigir a representação da vítima,
como condição de procedibilidade, tornando-se, assim, ação pública condicionada à representação.
A celeuma então se instalou em relação àquelas ações penais já instauradas: seria a norma retroativa? A
representação da vítima seria também condição de prosseguibilidade? Ou em outros termos, a vítima, quando
já instaurada a ação penal, precisa comparecer em juízo para apresentar a sua representação?
A retroatividade da norma que previu a ação penal pública condicionada, como regra, no crime de estelionato,
é desaconselhada por, ao menos, duas ordens de motivos.
A primeira é de caráter processual e constitucional, pois o papel dos Tribunais Superiores, na estrutura do
Judiciário brasileiro é o de estabelecer diretrizes aos demais Órgãos jurisdicionais. Nesse sentido, verifica-se
que o STF, por ambas as turmas, já se manifestou no sentido da irretroatividade da lei que instituiu a condição
de procedibilidade no delito previsto no art. 171 do CP.
Em relação ao aspecto material, tem-se que a irretroatividade do art. 171, §5º, do CP, decorre da própria mens
legis, pois, mesmo podendo, o legislador previu apenas a condição de procedibilidade, nada dispondo sobre a
condição de prosseguibilidade. Ademais, necessário ainda registrar a importância de se resguardar a segurança
jurídica e o ato jurídico perfeito (art. 25 do CPP), quando já oferecida a denúncia.
Oportuno assinalar, ainda, que prevalece, tanto neste STJ quanto no STF, o entendimento no sentido de que
"a representação, nos crimes de ação penal pública condicionada, não exige maiores formalidades, sendo
suficiente a demonstração inequívoca de que a vítima tem interesse na persecução penal. Dessa forma, não há
necessidade da existência nos autos de peça processual com esse título, sendo suficiente que a vítima ou seu
representante legal leve o fato ao conhecimento das autoridades". (AgRg no HC 435.751/DF, Rel. Ministro Nefi
Cordeiro, Sexta Turma, DJe 04/09/2018). (Informativo n. 691)

PROCESSO EREsp 1.530.637/SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, Terceira Seção, por
maioria, julgado em 24/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL
TEMA Favorecimento da prostituição ou de outra forma de exploração sexual de
criança, adolescente ou vulnerável. Art. 218-B, §2°, I, do Código Penal. Figura
do intermediador. Prescindibilidade. Situação de exploração sexual.
Tipicidade da conduta.
DESTAQUE
O delito previsto no art. 218-B, § 2°, inciso I, do Código Penal, na situação de exploração sexual, não exige a figura
do terceiro intermediador.
158
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia diz respeito à interpretação conferida ao delito previsto no art. 218-B, §2°, I, do Código Penal
("favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual de criança ou adolescente ou de
vulnerável"), que assim dispõe: "Art. 218-B. Submeter, induzir ou atrair à prostituição ou outra forma de
exploração sexual alguém menor de 18 (dezoito) anos ou que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem
o necessário discernimento para a prática do ato, facilitá-la, impedir ou dificultar que a abandone: Pena -
reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos. (...) § 2° Incorre nas mesmas penas: I - quem pratica conjunção carnal
ou outro ato libidinoso com alguém menor de 18 (dezoito) e maior de 14 (catorze) anos na situação descrita no
caput deste artigo; (...)".No acórdão impugnado (REsp 1.530.637/SP), entendeu a Sexta Turma que a
configuração do delito em questão não pressupõe a existência de terceira pessoa, bastando que o agente, por
meio de pagamento, convença a vítima, maior de 14 e menor de 18 anos, a praticar com ele conjunção carnal ou
outro ato libidinoso, de modo a satisfazer a sua própria lascívia.Já no aresto paradigma (AREsp 1.138.200/GO),
concluiu a Quinta Turma que o tipo penal descrito no artigo 218-B, § 2°, inciso I, do Código Penal exige
necessariamente a figura do intermediário ou agenciador, não abarcando a conduta daquele que aborda
diretamente suas vítimas para a satisfação de lascívia pró[Link]-se que, apesar de o nomen juris do tipo em
questão ter deixado de ser "favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual de vulnerável"
para evitar confusão terminológica com a figura do vulnerável do art. 217-A do CP, é inegável que o legislador,
em relação à pessoa menor de 18 e maior de 14 anos, trouxe uma espécie de presunção relativa de
[Link] ensejo, a exploração sexual é verificada sempre que a sexualidade da pessoa menor de
18 e maior de 14 anos é tratada como mercancia.A norma penal não exige a figura do intermediador, além disso,
o ordenamento jurídico reconhece à criança e ao adolescente o princípio constitucional da proteção integral,
bem como o respeito à condição peculiar de pessoa em [Link], é lícito concluir que a norma
traz uma espécie de presunção relativa de maior vulnerabilidade das pessoas menores de 18 e maiores de 14
anos. Logo, quem, se aproveitando da idade da vítima, oferece-lhe dinheiro em troca de favores sexuais está a
explorá-la sexualmente, pois se utiliza da sexualidade de pessoa ainda em formação como mercancia,
independentemente da existência ou não de terceiro explorador. (Informativo n. 690)

PROCESSO HC 602.425/SC, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, Terceira Seção,


por maioria, julgado em 10/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Execução Penal. Remição da pena pelo estudo. Aprovação no Exame Nacional
para Certificação de Competência de Jovens e Adultos - ENCCEJA.
Recomendação n. 44/2013 do CNJ. Interpretação mais benéfica. Cálculo dos
50% da Carga Horária. Patamar equivalente a 1.600 horas. Remição de 133
dias. 26 dias por área de conhecimento. Reafirmação da jurisprudência da
Terceira Seção.
DESTAQUE
As 1.200 hs ou 1.600 hs, dispostas na Recomendação n. 44/2013 do CNJ, já equivalem aos 50% da carga horária
definida legalmente para cada nível de ensino, com base nas quais serão calculados os dias a serem remidos.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia diz respeito à remição da pena no patamar de 50% da carga horária definida legalmente para o
ensino fundamental, em virtude da aprovação no ENCCEJA. Questiona-se se as 1.200h/1.600h dispostas na
Recomendação n. 44/2013 do CNJ já equivalem aos 50% da carga horária definida legalmente para cada nível
de ensino ou se os 50% incidirão sobre essas 1.200h/[Link] é de conhecimento, o art. 126 da Lei de
Execuções Penais dispõe que "o condenado que cumpre pena em regime fechado ou semiaberto poderá remir,
por trabalho ou por estudo, parte do tempo de execução da pena". A redação do citado artigo deixa clara a
preocupação do legislador com a capacitação profissional do interno e com o estímulo a comportamentos que
propiciem a readaptação de presos ao convívio social.A diretriz do Superior Tribunal de Justiça estava pacificada
em ambas as Turmas que compõem a Terceira Seção, no sentido da interpretação mais benéfica ao
159
[Link], a Sexta Turma alterou seu entendimento, passando a considerar que os 50%, mencionados
na Recomendação n. 44/2013 do Conselho Nacional de Justiça, devem incidir sobre a carga horária de 1.600h
para o ensino fundamental e 1.200h para o ensino médio, resultando 800h/600h, que serão a base de cálculo
para remiçã[Link] obstante os doutos fundamentos em sentido contrário, deve ser mantida a jurisprudência
até então prevalente, a qual foi recentemente reafirmada pela Quinta Turma desta Corte, no Agravo Regimental
no Habeas Corpus n. 593.171/SC, de Relatoria do Ministro Ribeiro Dantas, julgado em 20/10/[Link] referido
julgado, a Quinta Turma considerou que "quando a Resolução CNJ n. 44/2013 menciona a carga horária de 1.600
horas para o ensino fundamental e 1.200 horas para o ensino médio, refere-se ao percentual de 50% da carga
horária definida legalmente para cada nível de ensino".Para se chegar à referida conclusão, registrou-se que "a
literalidade do ato oriundo do CNJ não é clara, mas dúbia, abrindo margem para a discricionariedade do
julgador. Com efeito, seu art. 1º, IV, estabelece que o apenado que seja aprovado nos exames nacionais que
certificam a conclusão do ensino fundamental têm direito à remição, pelo estudo menos formal, à razão de 50%
da carga horária. Em seguida, porém, o mesmo dispositivo faz uma equivalência da referida carga horária com
1.600 horas, mas de forma ambígua, permitindo a compreensão no sentido de que esse valor ainda deve ser
dividido por dois, como também que ele já corresponde à metade".Tem-se, portanto, que "a grande questão é
saber se a menção a 1.600 horas quis se referir à carga horária definida legalmente ou já aos 50%, sendo
isoladamente permitida ambas as leituras". Com o intuito de "fechar esse espaço deixado pelo CNJ" fez-se uso
da LDB, "segundo a qual a carga anual mínima para o ensino fundamental é de 800 horas, sendo natural que ela
seja menor no início e maior no final. Mesmo que esta lei seja primordialmente destinada a pessoas com até 17
anos, nada impede que seja também utilizada como critério interpretativo do ato normativo do CNJ, diante da
sua dubiedade, por não haver outro método mais claro".Relevante consignar, que o art. 4º, inciso II, da Resolução
n. 03/2010, do CNE, não impede esta interpretação. Pelo contrário, reafirmou-se que ele menciona que 1.600
horas equivalem apenas à duração mínima para os anos finais do Ensino Fundamental.Não se pode descurar,
ademais, que referida Resolução é norma administrativa do Ministério da Educação, estando, portanto, em
patamar de hierarquia inferior à Lei de Diretrizes de Educação [Link] linha de intelecção, "interpretar
que as 1.600 horas mencionadas pelo art. 1º, IV, da Recomendação n. 44/2013, do CNJ, correspondem a 50% da
carga horária definida é justamente cumprir o dispositivo. Em outras palavras, o Conselho Nacional de Educação
não estabeleceu 1.600 horas anuais como o máximo possível, o que permite uma carga horária superior a
isso".Registre-se, por fim, que "essa particular forma de parametrar a interpretação da lei (...) é a que mais se
aproxima da Constituição Federal, que faz da cidadania e da dignidade da pessoa humana dois de seus
fundamentos (incisos II e III do art. 1º). Mais: Constituição que tem por objetivos fundamentais erradicar a
marginalização e construir uma sociedade livre, justa e solidária (incisos I e III do art. 3º). Tudo na perspectiva
da construção do tipo ideal de sociedade que o preâmbulo de nossa Constituição caracteriza como 'fraterna'".
(HC 94163, Relator Min. CARLOS BRITTO, Primeira Turma do STF, DJe 22/10/2009 P. 23/10/2009).Nesse
contexto, a base de cálculo de 50% da carga horária definida legalmente para o ensino fundamental equivale a
1.600 horas, a qual, dividida por doze, resulta em 133 dias de remição em caso de aprovação em todos os campos
de conhecimento do ENCCEJA. Serão devidos, portanto, 26 dias de remição para cada uma das cinco áreas de
conhecimento. (Informativo n. 689)

PROCESSO HC 463.434-MT, Rel. Min. Reynaldo Soares Da Fonseca, Terceira Seção,


por unanimidade, julgado em 25/11/2020, DJe 18/12/2020
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL
TEMA Dosimetria da pena. Majorantes sobejantes. Patamar fixo ou variável.
Valoração em outra fase. Possibilidade. Princípio da individualização da pena.
DESTAQUE
O deslocamento da majorante sobejante para outra fase da dosimetria, além de não contrariar o sistema
trifásico, é a que melhor se coaduna com o princípio da individualização da pena.

160
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A questão jurídica diz respeito, em síntese, à valoração de majorantes sobejantes na primeira ou na segunda
fase da dosimetria da pena, a depender se a causa de aumento traz patamar fixo ou variá[Link] início, ressalta-
se que não é possível dar tratamento diferenciado à causa de aumento que traz patamar fixo e à que traz patamar
variável, porquanto, além de não se verificar utilidade na referida distinção, o mesmo instituto jurídico teria
tratamento distinto a depender de critério que não integra sua natureza jurí[Link] à possibilidade
propriamente dita de deslocar a majorante sobejante para outra fase da dosimetria, considero que se trata de
providência que, além de não contrariar o sistema trifásico, é a que melhor se coaduna com o princípio da
individualização da [Link] efeito, o sistema trifásico, trazido no art. 68 do Código Penal, disciplina que a
fixação da pena observará três fases: a fixação da pena-base, por meio da valoração das circunstâncias judiciais
previstas no art. 59 do Código Penal; a fixação da pena intermediária, com a valoração das atenuantes e das
agravantes; e a pena definitiva, após a incidência das causas de diminuição e de aumento da pena.O Código Penal
não atribui um patamar fixo às circunstâncias judiciais nem às agravantes e atenuantes, as quais devem ser
sopesadas de acordo com o livre convencimento motivado do Magistrado, em observância aos princípios da
razoabilidade e da proporcionalidade. As causas de aumento e de diminuição, por seu turno, já apresentam os
patamares que devem ser utilizados, de forma fixa ou variável. Segundo a doutrina, as causas de aumento
também são chamadas de qualificadoras em sentido amplo e, "por integrarem a estrutura típica do delito,
permitem a fixação da pena acima do máximo em abstrato previsto pelo legislador".Nessa linha de raciocínio,
nos mesmos moldes em que ocorre com o crime qualificado, já existindo uma circunstância que qualifique ou
majore o crime, autorizando, assim, a alteração do preceito secundário, ou a incidência de fração de aumento,
considera-se correta a jurisprudência que prevalece no Superior Tribunal de Justiça, no sentido de que as
qualificadoras e majorantes sobressalentes podem ser valoradas na primeira ou na segunda fase da dosimetria
da [Link] fato, da mesma forma que a existência de mais de uma qualificadora não modifica nem o tipo penal
nem o preceito secundário, tem-se que a existência de mais de uma majorante também não autoriza a retirada
da fração de aumento do mínimo, uma vez que se "exige fundamentação concreta, não sendo suficiente a mera
indicação do número de majorantes", nos termos do entendimento sumulado no verbete n. 443 da Súmula desta
[Link] contexto, a desconsideração tanto da qualificadora quanto da majorante sobressalentes acaba por
violar o princípio da individualização da pena, o qual preconiza a necessidade de a pena ser aplicada em
observância ao caso concreto, com a valoração de todas as circunstâncias objetivas e subjetivas do
[Link], referida desconsideração vai de encontro ao sistema trifásico, pois as causas de aumento (3ª
fase), assim como algumas das agravantes, são, em regra, circunstâncias do crime (1ª fase) valoradas de forma
mais gravosa pelo legislador. Assim, não sendo valoradas na terceira fase, nada impede sua valoração de forma
residual na primeira ou na segunda fases.A desconsideração das majorantes sobressalentes na dosimetria
acabaria por subverter a própria individualização da pena realizada pelo legislador, uma vez que as
circunstâncias consideradas mais gravosas, a ponto de serem tratadas como causas de aumento, acabariam
sendo desprezadas. Lado outro, se não tivessem sido previstas como majorantes, poderiam ser integralmente
valoradas na primeira e na segunda fases da [Link] fim, não há se falar que o deslocamento da causa de
aumento para a primeira fase permite o "agravamento do regime prisional por via transversa", porquanto o que
não se admite é a fixação de regime prisional mais gravoso sem a devida fundamentação. Assim, ainda que a
pena-base seja fixada no mínimo legal, é possível a imposição de regime mais gravoso que o estabelecido em lei,
desde que seja declinada motivação concreta. (Informativo n. 684)

161
QUINTA TURMA
Voltar ao Sumário.

PROCESSO REsp 1.925.717-SC, Rel. Min. Ribeiro Dantas, Quinta Turma, por
unanimidade, julgado em 25/05/2021, DJe 28/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL
TEMA Dano ambiental em unidade de conservação. Art. 40 da Lei n. 9.605/1998.
Construção em solo que, por seu valor ecológico, não é edificável. Art. 64 da
Lei n. 9.605/1998. Absorção. Possibilidade.
DESTAQUE
O delito de causar dano em unidade de conservação (art. 40 da Lei n. 9.605/1998) pode ser absorvido pelo delito
de construir em solo que, por seu valor ecológico, não é edificável (art. 64 da Lei n. 9.605/1998).
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia submetida ao exame desta Corte Superior é a (im)possibilidade de aplicação do princípio da
consunção, para que o delito do art. 40 da Lei n. 9.605/1998 (causar dano ambiental em unidade de
conservação) seja absorvido pelo crime do art. 64 da mesma lei (construir em solo que, por seu valor ecológico,
não é edificável).
As unidades de conservação não são o único espaço a receber especial tutela da legislação penal, pois a Lei n.
9.605/1998 tipifica, também, os danos ambientais causados em outras espécies de áreas, como as florestas de
preservação permanente (arts. 38, 39, 40, 44), as de domínio público (arts. 44 e 50-A), a Mata Atlântica (art. 38-
A), a vegetação fixadora de dunas e mangues (art. 50) e as praias (art. 54, § 2º, IV). Na verdade, considerando a
quantidade e diversidade de espaços protegidos pela Lei n. 9.605/1998, é mesmo difícil imaginar uma situação
em que o delito do art. 64 (na ação típica de construir em área não edificável por seu valor ecológico) não
produza, também, danos sobre algum dos outros espaços referidos naquele diploma legislativo.
A empreitada hermenêutica de bem definir o alcance destes tipos incriminadores é, certamente, dificultada pelo
emaranhado de regimes jurídicos de proteção de espaços com relevância ambiental, os quais não receberam do
legislador um tratamento sistemático. Não obstante, para avaliar a possibilidade de absorção de um crime por
outro, o mais importante é verificar se o delito menor se encontra na cadeia causal do delito continente, como
uma etapa do iter criminis - seja na preparação, consumação ou exaurimento do crime maior.
Este raciocínio, ao contrário do que defende o órgão acusador, não é obstado pela diversidade de bens jurídicos
protegidos por cada tipo incriminador; tampouco impede a consunção o fato de que o crime absorvido tenha
pena maior do que a do crime continente.
A Súmula 17/STJ bem exemplifica a linha aqui exposta: os crimes de falsidade (arts. 297 a 299 do CP) e
estelionato (art. 171 do CP) localizam-se, topograficamente, em seções diferentes do CP e tutelam bens jurídicos
diferentes: a fé pública, nos primeiros, e o patrimônio, no segundo. Também é possível vislumbrar situações em
que o estelionato, apenado com 1 a 5 anos de reclusão, absorve a falsidade de documento público, cuja sanção é
mais grave (2 a 6 anos de reclusão). Nem por isso fica inviabilizada a consunção, nos exatos termos da Súmula
17/STJ, que mesmo após três décadas de sua edição permanece norteando os julgamentos desta Corte Superior
sobre o tema.
A bem da verdade, a distinção entre os bens jurídicos tutelados pelos arts. 40 e 64 da Lei n. 9.605/1998 não é
tão intensa como aduz o MPF, pois este último dispositivo se refere, expressamente, à construção em espaços
não edificáveis por sua especial relevância ecológica. Por conseguinte, o dispositivo não destina a proteger
somente a higidez das posturas locais de ordenação urbanística e da ocupação do solo, como afirma o Parquet,
mas abrange textualmente a guarida do meio ambiente.

162
Estabelecidas estas premissas teóricas, o dano causado pela construção à estação ecológica se encontra,
efetivamente, absorvido pela edificação irregular. O dano pode, em tese, ser considerado concomitante à
construção, enquanto ato integrante da fase de execução do iter do art. 64, caso em que se aplicaria o princípio
da consunção em sua formulação genérica; ou, então, como consequência naturalística inafastável e necessária
da construção, de maneira que seu tratamento jurídico seria o de pós-fato impunível. De todo modo, o dano à
unidade de conservação se situa na escala causal da construção irregular (seja como ato executório ou como
exaurimento), nela exaurindo toda sua potencialidade lesiva. (Informativo n. 698)

PROCESSO HC 619.776/DF, Rel. Min. Ribeiro Dantas, Quinta Turma, por


unanimidade, julgado em 20/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL
TEMA Ingresso em estabelecimento prisional. Porte de chip de celular. Art. 349-A do
Código Penal. Não subsunção.
DESTAQUE
A conduta de ingressar em estabelecimento prisional com chip de celular não se subsome ao tipo penal
previsto no art. 349-A do Código Penal.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O art. 349-A do Código Penal prevê o seguinte tipo penal: Ingressar, promover, intermediar, auxiliar ou
facilitar a entrada de aparelho telefônico de comunicação móvel, de rádio ou similar, sem autorização legal, em
estabelecimento prisional.
Como se verifica, o legislador se limitou em punir - basicamente - o ingresso ou o auxílio na introdução de
aparelho telefônico móvel ou similar em estabelecimento prisional, não fazendo referência a qualquer outro
componente ou acessório utilizado para viabilizar o funcionamento desses equipamentos.
Portanto, em decorrência da principiologia básica do direito penal (legalidade), na falta de lei prévia que
defina o ingresso de chip em estabelecimento prisional como comportamento típico (nullum crimen sine lege),
impõe-se a absolvição pelo delito previsto no art. 349-A do Código Penal. (Informativo n. 693)

PROCESSO REsp 1.882.330/SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, Quinta Turma, por
unanimidade, julgado em 06/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Citação por carta Rogatória. Termo final da suspensão da prescrição. Data da
efetiva da citação. Retorno da contagem.
DESTAQUE
O termo final da suspensão do prazo prescricional pela expedição de carta rogatória para citação do acusado
no exterior é a data da efetivação da comunicação processual no estrangeiro, ainda que haja demora para a
juntada da carta rogatória cumprida aos autos.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia sobre quais os corretos marcos de início e fim da suspensão do prazo de prescrição
no caso de citação por carta rogatória, considerando o disposto no art. 368 do CPP.
De um lado, sustenta-se que a data de cumprimento da carta rogatória é da sua juntada aos autos, o que
afastaria a prescrição, enquanto do outro lado, entende-se que tal data equivale à efetiva citação no estrangeiro,
o que conduziria à extinção da punibilidade. A diferença decorre do considerável lapso temporal entre a
realização da comunicação processual no estrangeiro e a juntada aos autos.

163
Ambas as interpretações são razoáveis, mas isso acontece justamente em razão da imprecisão do texto legal,
da sua omissão legislativa em estabelecer os marcos iniciais e finais exatos para a suspensão da prescrição. Esta
opção legislativa por vagueza termina aumentando a margem de discricionariedade do julgador, especialmente
em caso como este, sobre o qual, ao que tudo indica, além de não haver precedente vinculante, não há
jurisprudência dominante acerca do tema nos Tribunais Superiores.
Assim, diante da divergência doutrinária e jurisprudencial, deve prevalecer o entendimento de que a fluência
do prazo prescricional continua não na data em que os autos da carta rogatória der entrada no cartório, mas sim
naquela em que se der o efetivo cumprimento no juízo rogado.
Vale ressaltar que a questão é hermenêutica e não de integração da norma jurídica, sendo que a Súmula
710/STF estabelece que no processo penal os prazos contam-se da data da intimação, e não da juntada aos autos
do mandado ou da carta precatória ou de ordem, valendo o mesmo raciocínio para a carta rogatória. Tal
entendimento tem por base a regra específica do art. 798, § 5º, "a", do CPP, que diferencia a sistemática adotada
para os processos criminais em relação aos processos cíveis. (Informativo n. 691)

PROCESSO RHC 123.402-RS, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma,
por unanimidade, julgado em 23/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL
TEMA Cannabis sativa l. Cultivo para tratamento individual. Salvo-conduto. Não
cabimento. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Análise
técnica.
DESTAQUE
É incabível salvo-conduto para o cultivo da cannabis visando a extração do óleo medicinal, ainda que na
quantidade necessária para o controle da epilepsia, posto que a autorização fica a cargo da análise do caso
concreto pela ANVISA.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Os Tribunais Superiores já possuem jurisprudência firmada no sentido de considerar que a conduta de importar
pequenas quantidades de sementes de maconha não se adequa à forma prevista no art. 33 da Lei de Drogas,
subsumindo-se, formalmente, ao tipo penal descrito no art. 334-A do Código Penal, mas cuja tipicidade material
é afastada pela aplicação do princípio da insignificância.O controle do cultivo e da manipulação da maconha
deve ser limitado aos conhecidos efeitos deletérios atribuídos a algumas substâncias contidas na planta, sendo
certo que a própria Lei n. 11.343/2006 permite o manejo de vegetais dos quais possam ser extraídas ou
produzidas drogas para fins medicinais ou científicos, desde que autorizado pela Uniã[Link] atual estágio do
debate acerca da regulamentação dos produtos baseados na Cannabis e de desenvolvimento das pesquisas a
respeito da eficácia dos medicamentos obtidos a partir da planta, não parece razoável desautorizar a produção
artesanal do óleo à base de maconha apenas sob o pretexto da falta de regulamentação. De mais a mais, a própria
agência de vigilância sanitária federal já permite a importação de medicamentos à base de maconha, produzidos
industrial ou artesanalmente no [Link], tal autorização depende de análise de critérios técnicos
que não cabem ao juízo criminal, especialmente em sede de habeas corpus. Essa incumbência está a cargo da
própria Agência Nacional de Vigilância Sanitária que, diante das peculiaridades do caso concreto, poderá
autorizar ou não o cultivo e colheita de plantas das quais se possam extrair as substâncias necessárias para a
produção artesanal dos [Link], a melhor solução é, inicialmente, submeter a questão ao exame
da autarquia responsável pela vigilância sanitária para que analise o caso concreto e decida se é viável a
autorização para cultivar e ter a posse de plantas de Cannabis sativa L. para fins medicinais, suprindo a exigência
contida no art. 33 da Lei n. 11.343/2006, e, em caso de demora ou de negativa, apresentar o tema ao Poder
Judiciário, devendo o pleito ser direcionado à jurisdição cível competente. (Informativo n. 690)

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SEXTA TURMA
Voltar ao Sumário.
PROCESSO HC 657.382/SC, Rel. Min. Laurita Vaz, Sexta Turma, por unanimidade,
julgado em 27/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL
TEMA Execução penal. Condições do regime aberto. Suspensão do dever de
apresentação mensal em juízo. Pandemia covid-19. Circunstância alheia à
vontade do apenado. Cumprimento das outras condições. Prolongamento da
pena. Impossibilidade. Pena efetivamente cumprida. Reconhecimento.
DESTAQUE
O período de suspensão do dever de apresentação mensal em juízo, em razão da pandemia de Covid-19, pode
ser reconhecido como pena efetivamente cumprida.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
No caso, o Juiz da Vara de Execuções Penais concedeu a progressão do paciente ao regime aberto e, em
audiência admonitória, impôs, dentre outras condições, o comparecimento pessoal e obrigatório perante o Juízo,
mensalmente, para informar e justificar suas atividades.
Ocorre que, diante da situação de pandemia, o Conselho Nacional de Justiça recomendou a suspensão
temporária do dever de apresentação regular em juízo das pessoas em cumprimento de pena no regime aberto
(art. 5º, inciso V, da Recomendação n. 62/2020 do CNJ).
Nesse sentido, o Poder Judiciário do Estado de Santa Catarina acolheu a recomendação e determinou a
suspensão das apresentações mensais em juízo dos apenados em regime aberto (art. 3.º, inciso III, da Resolução
Conjunta GP/CGJ n. 5/2020).
Diante de tais atos normativos, o magistrado singular suspendeu o dever de apresentação mensal em Juízo
aplicado aos apenados em regime aberto. A defesa, então, pleiteou o reconhecimento do período de suspensão
como pena efetivamente cumprida, no que foi atendida. Todavia, ao julgar o recurso de agravo em execução, o
Tribunal local reformou a decisão.
Com efeito, vê-se que a suspensão do dever de apresentação mensal em Juízo foi determinada pelo
magistrado em cumprimento à recomendação do Conselho Nacional de Justiça e à determinação do Tribunal de
Justiça do Estado de Santa Catarina, decorrentes da situação de pandemia, circunstância alheia à vontade do
paciente. Desse modo, não se mostra razoável o prolongamento da pena sem que tenha sido evidenciada a
participação do apenado em tal retardamento.
Com a mesma conclusão cite-se trecho das Orientações sobre Alternativas Penais no âmbito das medidas
preventivas à propagação da infecção pelo novo coronavírus (Covid-19), também elaborada pelo Conselho
Nacional de Justiça para disciplinar situação semelhante à ora analisada:
"No âmbito da execução penal, transação penal e condições impostas por suspensão condicional do processo
e sursis: (I) Dispensar o comparecimento pessoal para o cumprimento de penas e medidas alternativas - como
a prestação de serviços à comunidade, o comparecimento em juízo etc. - durante o período da pandemia; (II)
Computar o período de dispensa temporária do cumprimento de penas e medidas alternativas de cunho pessoal
e presencial - como a prestação de serviços à comunidade, o comparecimento em juízo etc. - durante o período
da pandemia, como período de efetivo cumprimento, considerando que a sua interrupção independe da vontade
da pessoa em cumprimento, decorrendo diretamente de imposição determinada por autoridades sanitárias,
além do que a manutenção prolongada de pendências jurídico-penais tem um efeito dessocializador, em
particular quanto as oportunidades de trabalho e renda".
Outrossim, o paciente cumpriu todas as demais condições do regime aberto, que não foram suspensas,
inclusive, permaneceu sujeito às sanções relativas a eventual descumprimento, o que reforça a necessidade de
se reconhecer o tempo de suspensão do dever de apresentação mensal em juízo como pena efetivamente
cumprida, sob pena de alargar o período em que o apenado está sujeito à disciplina do regime aberto.
(Informativo n. 694)
165
PROCESSO REsp 1.762.142/MG, Rel. Min. Sebastião Reis Junior, Sexta Turma, por
unanimidade, julgado em 13/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Crime contra o registro de marca e concorrência desleal. Ciência da autoria.
Queixa oferecida após a previsão do art. 38 do CPP. Decadência. Homologação
do laudo pericial. Reabertura do prazo. Impossibilidade.
DESTAQUE
O prazo do art. 529 do Código de Processo Penal não afasta a decadência pelo não exercício do direito de
queixa em seis meses, contados da ciência da autoria do crime.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Discute-se se o prazo decadencial previsto no art. 529 do CPP - 30 dias após homologação do laudo pericial -
consubstancia norma especial, apta a afastar a incidência do art. 38 do mesmo código (decadência em 6 meses
contados da ciência da autoria do crime).
Tal exegese, no entanto, não deve prevalecer. A interpretação sistemática das normas aponta no sentido da
possibilidade de conformação dos prazos previstos nos referidos dispositivos do Código de Processo Penal.
Assim, em se tratando de crimes contra a propriedade imaterial que deixem vestígio, a ciência da autoria do
fato delituoso dá ensejo ao início do prazo decadencial de 6 meses, sendo tal prazo reduzido para 30 dias se
homologado laudo pericial nesse ínterim.
A adoção de interpretação distinta, de modo a afastar o prazo previsto no art. 38 do CPP em prol daquele
preconizado no art. 529 do CPP, afigura-se desarrazoada, pois implicaria sujeitar à vontade de querelante o
início do prazo decadencial.
De fato, consoante ressaltado pelo Tribunal de origem, o querelante, a qualquer tempo, mesmo que passados
anos após ter tomado ciência dos fatos e de sua autoria, poderia pleitear a produção do laudo pericial, vindo a
se reabrir, a partir da data da ciência da homologação deste elemento probatório, o prazo para oferecimento de
queixa-crime.
Desse modo, o que se verifica é que a exegese defendida vulnera a própria natureza jurídica do instituto
(decadência), cujo escopo é punir a inércia do querelante. (Informativo n. 692)

PROCESSO HC 589.270, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, por
unanimidade, julgado em 23/02/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Pronúncia. Decisão ancorada exclusivamente em elementos colhidos no
inquérito policial. Impossibilidade. Ofensa ao art. 155 do CPP.
DESTAQUE
É ilegal a sentença de pronúncia fundamentada exclusivamente em elementos colhidos no inquérito policial.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A atual posição do Superior Tribunal de Justiça sobre o tema admite a pronúncia do acusado com base em
indícios derivados do inquérito policial, sem que isso represente afronta ao art. 155 do Código de Processo Penal
(HC 547.442/MT, Ministro Nefi Cordeiro, Sexta Turma, DJe 15/4/2020).Assim, na linha dos precedentes desta
Corte e do Supremo Tribunal Federal, embora não seja possível sustentar uma condenação com base em prova
produzida exclusivamente na fase inquisitorial, não ratificada em juízo, tal entendimento não se aplica à
sentença de pronúncia (HC 314.454/SC, Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, DJe 17/2/2017).Isso não
significa, no entanto, que inexistam decisões mais antigas no sentido de não admitir o juízo positivo de
pronúncia sem lastro em prova produzida sob o crivo judicial (HC 341.072/RS, Ministra Maria Thereza de Assis
Moura, Sexta Turma, DJe 29/4/2016 e REsp 1.254.296/RS, Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, DJe

166
2/2/2016).Nesse sentido, em nova orientação, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (HC 180.144/GO,
Ministro Celso de Mello, DJe 22/10/2020) enfrentou a questão e decidiu pela impossibilidade do juízo de
pronúncia nas condições mencionadas, partindo da premissa de que o Processo Penal se estrutura sobre as
garantias e objetiva resguardar do arbítrio estatal o status libertatis do acusado.O entendimento perfilado pela
Suprema Corte parte da ausência de amparo constitucional e legal do princípio do in dubio pro societate no
sistema processual penal brasileiro pós constituição de 1988. Em sentido oposto, considerado o assento
constitucional do princípio da presunção de inocência, art. 5º, LVII, da Constituição Federal, em todo seu alcance,
como norma de tratamento, norma probatória e norma de juízo, incumbe ao órgão acusador comprovar o
alegado em todas as fases e [Link] meio de concretização, e com o mesmo status de garantia
constitucional, o contraditório e a ampla defesa (e no caso do júri de plenitude de defesa) impedem a prolação
de sentença de pronúncia com base exclusiva em elementos produzidos no inquérito policial, nos termos do art.
155 do Código de Processo [Link] fato, admitir que a sentença de pronúncia se baseie em provas produzidas
no inquérito igualaria em densidade à decisão de recebimento de uma denúncia.O procedimento do jus
accusationis, delineado entre os arts. 406 e 421 do Código de Processo Penal, disciplina toda a produção
probatória destinada a embasar o deslinde da primeira fase do procedimento. Trata-se de arranjo legal que
busca evitar a submissão dos acusados ao Conselho de Sentença de forma temerária, não havendo razão de ser
em tais exigências legais, fosse admissível a atividade inquisitorial como suficiente.É incompatível com os
postulados do Estado Democrático de Direito admitir, no bojo do processo penal, a hipótese de que os jurados
possam condenar alguém, com base em íntima convicção, em julgamento que sequer deveria ter sido admitido.
Os julgamentos proferidos pelo Tribunal do Júri possuem peculiaridades em permanente discussão, até mesmo
nos Tribunais Superiores, a respeito da possibilidade de revisão dos julgamentos de mérito, da extensão dessa
revisão, o que torna, mais acertado exigir maior rigor na fase de pronúncia. (Informativo n. 686)

PROCESSO REsp 1.860.791, Rel. Min. Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em
09/02/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL
TEMA Exercício arbitrário das próprias razões. Art. 345 do Código Penal. Crime
formal. Consumação. Emprego dos meios executórios. Satisfação da
pretensão. Desnecessidade. Mero exaurimento da conduta.
DESTAQUE
O crime de exercício arbitrário das próprias razões é formal e consuma-se com o emprego do meio arbitrário,
ainda que o agente não consiga satisfazer a sua pretensão
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
No caso em análise, pretende-se a desclassificação do crime de exercício arbitrário das próprias razões para a
modalidade tentada.O delito de exercício arbitrário das próprias razões, previsto no Código Penal, está assim
tipificado: "Art. 345 - Fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão, embora legítima, salvo
quando a lei o permite: Pena - detenção, de quinze dias a um mês, ou multa, além da pena correspondente à
violência. Parágrafo único - Se não há emprego de violência, somente se procede mediante queixa."Embora haja
controvérsia doutrinária acerca da natureza formal ou material do delito, com abalizados autores defendendo
cada uma das posições, filia-se à corrente que defende o primeiro [Link] interpretação da
elementar "para satisfazer", conclui-se ser suficiente, para a consumação do crime do art. 345 do Código Penal,
que os atos que buscaram fazer justiça com as próprias mãos tenham visado obter a pretensão, mas não é
necessário que o agente tenha conseguido efetivamente satisfazê-la, por meio da conduta arbitrária. A
satisfação, se ocorrer, constitui mero exaurimento da [Link] assim, por se tratar de crime formal, uma
vez praticados todos os atos executórios, consumou-se o delito, a despeito de o autor da conduta não ter logrado
êxito em sua pretensão, que, no caso, era a de pegar o celular de propriedade da vítima, a fim de satisfazer dívida
que esta possuía com ele. (Informativo n. 685)

167
PROCESSO HC 525.249-RS, Rel. Min. Laurita Vaz, Sexta Turma, por unanimidade,
julgado em 15/12/2020, DJe 18/12/2020
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Execução Penal. Crime de porte ou posse de arma de fogo de uso permitido
com numeração suprimida. Art. 16, parágrafo único, inciso IV, da Lei n.
10.826/2003. Natureza hedionda do delito. Afastamento.
DESTAQUE
O crime de posse ou porte de arma de fogo de uso permitido com numeração, marca ou qualquer outro sinal de
identificação raspado, suprimido ou adulterado não integra o rol dos crimes hediondos.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Os Legisladores, ao elaborarem a Lei n. 13.497/2017 - que alterou a Lei de Crimes Hediondos - quiseram conferir
tratamento mais gravoso apenas ao crime de posse ou porte de arma de fogo, de acessório ou de munição de
uso proibido ou restrito, não abrangendo o crime de posse ou porte de arma de fogo, de acessório ou de munição
de uso [Link] pleitear a exclusão do projeto de lei dos crimes de comércio ilegal e de tráfico internacional
de armas de fogo, o Relator na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado Federal propôs "que
apenas os crimes que envolvam a utilização de armas de fogo de uso restrito, ou seja, aquelas de uso reservado
pelos agentes de segurança pública e Forças Armadas, sejam incluídos no rol dos crimes hediondos". O Relator
na Câmara dos Deputados destacou que "aquele que adquire ou possui, clandestinamente, um fuzil, que pode
chegar a custar R$ 50.000, (cinquenta mil reais), o equivalente a uns dez quilos de cocaína, tem perfil
diferenciado daquele que, nas mesmas condições, tem arma de comércio permitido". Importante ainda
esclarecer que a Lei n. 13.964/2019 alterou a redação da Lei de Crimes Hediondos. Antes da vigência de tal
norma, o dispositivo legal considerava equiparado à hediondo o crime de posse ou porte ilegal de arma de fogo
de uso restrito, previsto no art. 16 da Lei n. 10.826/2003. Atualmente, considera-se equiparado à hediondo o
crime de posse ou porte ilegal de arma de fogo de uso proibido, previsto no art. 16 da Lei n.º 10.826/[Link]
destacar que a alteração na redação da Lei de Crimes Hediondos apenas reforça o entendimento ora afirmado,
no sentido da natureza não hedionda do porte ou posse de arma de fogo de uso permitido com numeração,
marca ou qualquer outro sinal de identificação raspado, suprimido ou [Link] oportuno, ressalta-se que
no Relatório apresentado pelo Grupo de Trabalho destinado a analisar e debater as mudanças promovidas na
Legislação Penal e Processual Penal pelos Projetos de Lei n. 10.372/2018, n. 10.373/2018, e n. 882/2019 -
GTPENAL, da Câmara dos Deputados foi afirmada a especial gravidade da conduta de posse ou porte de arma
de fogo de uso restrito ou proibido, de modo que se deve "coibir mais severamente os criminosos que adquirem
ou "alugam" armamento pesado [...], ampliando consideravelmente o mercado do tráfico de armas". Outrossim,
ao alterar a redação do art. 16 da Lei n. 10.826/2003, com a imposição de penas diferenciadas para o posse ou
porte de arma de fogo de uso restrito e de uso proibido, a Lei n. 13.964/2019 atribuiu reprovação criminal
diversa a depender da classificação do armamento como de uso permitido, restrito ou [Link] do
assunto, esta Corte Superior, até o momento, afirmava que os Legisladores atribuíram reprovação criminal
equivalente às condutas descritas no caput do art. 16 da Lei n. 10.826/2003 e ao porte ou posse de arma de fogo
de uso permitido com numeração suprimida, equiparando a gravidade da ação e do resultado. Todavia, diante
dos fundamentos ora apresentados, tal entendimento deve ser superado (overruling).Corrobora a necessidade
de superação a constatação de que, diante de texto legal obscuro - como é o parágrafo único do art. 1.º da Lei de
Crimes Hediondos, na parte em que dispõe sobre a hediondez do crime de posse ou porte ilegal de arma de fogo
- e de tema com repercussões relevantes, na execução penal, cabe ao Julgador adotar postura redutora de danos,
em consonância com o princípio da humanidade. (Informativo n. 684)

168
DIREITO PREVIDENCIÁRIO

169
SEGUNDA TURMA
Voltar ao Sumário.

PROCESSO REsp 1.805.918-PE, Rel. Min. Og Fernandes, Segunda Turma, por


unanimidade, julgado em 25/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PREVIDENCIÁRIO, DIREITO TRIBUTÁRIO
TEMA Plano de Seguridade do Servidor Público (PSS). Contribuição previdenciária.
Art. 16-A da Lei n. 10.887/2004. Base de cálculo dos juros de mora. Inclusão.

DESTAQUE
Os valores devidos a título de contribuição do Plano de Seguridade do Servidor Público (PSS) devem integrar a
base de cálculo dos juros de mora, na hipótese de pagamento em cumprimento de decisão judicial, de modo a
evitar indevida antecipação do fato gerador, bem como indevida redução da obrigação de pagar.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Conforme dispõe o art. 16-A da Lei n. 10.887/2004, a contribuição do Plano de Seguridade do Servidor Público
(PSS) somente é devida nas demandas judiciais a partir do pagamento dos valores requisitados ao ente público.
Desse modo, o fato gerador da exação, no caso de valores adimplidos por meio de precatório ou RPV, somente
ocorre no momento do pagamento ao beneficiário ou ao seu representante legal, ocasião na qual a instituição
financeira tem o encargo de proceder à retenção na fonte.
Nesse sentido, antes da ocasião do pagamento, seja na via administrativa, seja na via judicial, não há ainda
tributo devido pelo credor da Fazenda Pública.
Em verdade, nãose trata de fazer incluir no débito verbas que pertenceriam à UNIÃO, já que, por lei, a dívida
judicialmente reconhecida somente sofre a incidência da contribuição para o PSS no momento do pagamento
do precatório/RPV.
Acrescente-se, ainda, que os juros de mora, pela sua natureza indenizatória, não estão sujeitos à incidência da
contribuição.
Portanto, a pretensão de proceder à exclusão da contribuição previdenciária da base de cálculo dos juros de
mora acarreta indevida antecipação do fato gerador, bem como implica redução indevida da obrigação de pagar.
(Informativo n. 698)

PROCESSO REsp 1.764.559/SP, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma,
por unanimidade, julgado em 23/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PREVIDENCIÁRIO
TEMA Aposentadoria especial. Direito à implementação do benefício. Segurado que
não cessou o exercício da atividade especial antes da concessão definitiva do
benefício. Cabimento. Atividade especial exercida para garantia da
subsistência em decorrência da indevida denegação administrativa. Art. 57, §
8º, da Lei n. 8.213/1991.
DESTAQUE
O artigo 57, § 8º, da Lei n. 8.213/1991 não impede o reconhecimento judicial do direito do segurado ao benefício
aposentadoria especial com efeitos financeiros desde a data do requerimento administrativo, se preenchidos
nessa data todos os requisitos legais, mesmo que ainda não tenha havido o afastamento das atividades especiais.

170
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A questão discutida recursal gira em torno do direito à implantação do benefício aposentadoria especial, mesmo
que o segurado ainda não tenha cessado o exercício da atividade especial, enquanto aguarda o desfecho do
processo judicial para a concessão do benefício, sob a interpretação do § 8º do art. 57 da Lei n. 8.213/1991 (§
8º Aplica-se o disposto no art. 46 ao segurado aposentado nos termos deste artigo que continuar no exercício
de atividade ou operação que o sujeite aos agentes nocivos constantes da relação referida no art. 58 desta Lei).O
Tribunal a quo, ao enfrentar a situação jurídica, aplicou ao caso o disposto no art. 46 da Lei n. 8.213/1991, que
assim dispõe, in verbis: "O aposentado por invalidez que retornar voluntariamente à atividade terá sua
aposentadoria automaticamente cancelada, a partir da data do retorno".Todavia, não é possível condicionar o
reconhecimento do direito à implementação da aposentadoria especial ao prévio desligamento do vínculo
laboral em que exercida atividade em condições especiais, uma vez que, dessa forma, estar-se-ia impondo ao
segurado que deixasse de exercer a atividade que lhe garante a subsistência antes da concessão definitiva do
benefício substitutivo de sua [Link] é reconhecido judicialmente que o segurado preenche todos os
requisitos para a concessão do benefício aposentadoria especial na data do requerimento administrativo, a
demora no reconhecimento de seu direito e na concessão de seu benefício não pode ser a ele imputada, uma vez
que derivou da negativa de direito por parte do [Link] verdade, o segurado é compelido a continuar exercendo
atividade em condições especiais, em virtude da injustificada denegação administrativa, pois precisa garantir
sua subsistência no período compreendido entre o pedido administrativo e a concessão definitiva do benefício,
a partir da qual, nos termos do art. 57, § 8º, da Lei n. 8.213/1991, é que fica vedado o exercício de atividades em
condições [Link] efeito, não reconhecer o direito ao benefício aposentadoria especial ao segurado, no
decorrer dos processos administrativo e judicial, ao invés de concretizar o real objetivo protetivo da norma, isto
é, tutelar a incolumidade física do trabalhador submetido a condições insalubres ou perigosas, termina por
vulnerar novamente aquele segurado que teve o seu benefício indevidamente indeferido e só continuou a
exercer atividade especial para garantir sua subsistê[Link], apenas se pode impor a vedação ao exercício
de atividades em condições especiais a partir da concessão do benefício, uma vez que, antes desta, o segurado
não está em gozo de um benefício substitutivo de sua renda a justificar tal proibiçã[Link], deve ser
destacado que a interpretação ora proposta encontra respaldo na Instrução Normativa n. 77/2015 do INSS, a
qual, ao disciplinar a cessação da aposentadoria especial em caso de permanência ou retorno à atividade
ensejadora da concessão do benefício, expressamente prevê que o período entre a data do requerimento
administrativo e a data da ciência da decisão concessiva do benefício não é considerado como permanência ou
retorno à atividade. (Informativo n. 690)

171
DIREITO PROCESSUAL CIVIL

172
CORTE ESPECIAL
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PROCESSO AREsp 1.481.810-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Rel. Acd. Min. Nancy
Andrighi, Corte Especial, por maioria, julgado em 19/05/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Tempestividade. Tese fixada no REsp 1.813.684/SP. Modulação. Segunda-
feira de carnaval. Restrição. Feriado local. Comprovação no ato de
interposição do recurso. Art. 1.003, § 6º, CPC/2015. Aplicação.
DESTAQUE
A modulação dos efeitos da tese firmada por ocasião do julgamento do REsp 1.813.684/SP é restrita ao feriado
de segunda-feira de carnaval e não se aplica aos demais feriados, inclusive aos feriados locais.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Durante os últimos anos de vigência do CPC/1973, vigorou nesta Corte o entendimento de que "a comprovação
da tempestividade do recurso especial, em decorrência de feriado local ou de suspensão de expediente forense
no Tribunal de origem que implique prorrogação do termo final para sua interposição, pode ocorrer
posteriormente, em sede de agravo regimental". (AgRg no AREsp 137.141/SE, Corte Especial, Rel. Min. Antonio
Carlos Ferreira, DJe 15/10/2012).
Esse entendimento, de fato, pacificou uma série de oscilações jurisprudenciais até então existentes, pois esta
Corte, naquele momento histórico, ora admitia a comprovação posterior da existência do feriado local
(normalmente na primeira oportunidade após a decisão que declarava a intempestividade), ora admitia a
comprovação da existência do feriado local apenas no ato de interposição do recurso dirigido a esta Corte.
Dado que a nova legislação processual passou a disciplinar especificamente essa matéria, os órgãos fracionários
desta Corte voltaram a oscilar, agora à luz do CPC/2015, entre a manutenção do referido entendimento ou a
aplicação da regra do art. 1.003, §6º, segundo a qual "o recorrente comprovará a ocorrência de feriado local no
ato de interposição do recurso".
Essa divergência jurisprudencial, todavia, perdurou apenas até 20/11/2017, quando esta Corte Especial
concluiu o julgamento do AgInt no AREsp 957.821/MS e fixou a tese de que "a jurisprudência construída pelo
STJ à luz do CPC/1973 não subsiste ao CPC/2015: ou se comprova o feriado local no ato da interposição do
respectivo recurso, ou se considera intempestivo o recurso, operando-se, em consequência, a coisa julgada".
Formou-se, então, um precedente vinculante, nos estritos termos do art. 927, V, do CPC/2015, que deveria, diz
a lei, ser respeitado por todos os órgãos fracionários, inclusive pela própria Corte Especial, a partir daquele
momento.
A despeito da solidez jurisprudencial desde então construída e comprovada empiricamente, entendeu a 4ª
Turma, por unanimidade, em sessão de julgamento ocorrida em 16/05/2019, pela afetação do REsp
1.813.684/SP à Corte Especial, com base no art. 16, IV, do RISTJ.
A questão jurídica que motivou a afetação era apenas uma: dizer se a segunda-feira de carnaval seria ou não um
feriado notório, tese que, se porventura acolhida, poderia afastar a incidência da regra do art. 1.003, §6º, do
CPC/15 e, consequentemente, a incidência da orientação fixada 18 meses antes pela Corte Especial, por ocasião
do julgamento do AgInt no AREsp 957.821/MS.
Por ocasião da última sessão de julgamento do REsp 1.813.684/SP, ocorrida em 02/10/2019, sagrou-se
vencedora a tese formulada pelo e. Min. Luís Felipe Salomão, modulando os efeitos da decisão para admitir a
prova posterior da existência do feriado nos recursos interpostos até a data da publicação do respectivo
acórdão, o que veio a ocorrer em 18/11/2019.

173
Como o e. Min. Luís Felipe Salomão havia proposto a tese vencedora sem voto escrito previamente distribuído
aos e. Ministros que compõem a Corte Especial, constatou-se, apenas posteriormente à publicação do acórdão,
que o voto redigido por S. Exa. não correspondia ao objeto da deliberação da Corte Especial na sessão de
julgamento ocorrida em 02/10/2019.
Em virtude disso, propôs-se Questão de Ordem, cujo julgamento se iniciou e foi concluído em 03/02/2020,
acolhida pela maioria dos e. Ministros da Corte Especial "para reconhecer que a tese firmada por ocasião do
julgamento do REsp 1.813.684/SP é restrita ao feriado de segunda-feira de carnaval e não se aplica aos demais
feriados, inclusive aos feriados locais".
Embora a razão aparente desse resultado seja o fato de que o voto redigido posteriormente à sessão pelo e. Min.
Luís Felipe Salomão não correspondia ao objeto de deliberação da Corte Especial naquela assentada, não se
pode olvidar que há, naquele julgamento, uma razão subjacente: a tese jurídica fixada pela Corte Especial no
julgamento do AgInt no AREsp 957.821/MS não foi, em absolutamente nenhum momento, implícita ou
expressamente, superada pela Corte Especial.
Assim, o único propósito da referida afetação regimental era o de verificar se uma específica situação jurídica -
o feriado da segunda-feira de carnaval - porventura não estaria abrangida pela regra em virtude da sua
notoriedade.
O próprio resultado do julgamento do REsp 1.813.684/SP, inclusive, confirma a manutenção da regra fixada no
AgInt no AREsp 957.821/MS, na medida em que a notoriedade do feriado de segunda-feira de carnaval,
conquanto reconhecida pela maioria dos e. Ministros que compõem a Corte Especial, não foi suficiente para
desobrigar as partes da comprovação de sua existência, mas, sim, somente teve o condão de permitir que as
partes comprovassem a existência a posteriori e, ainda assim, somente em um determinado lapso temporal (até
a publicação do acórdão do REsp 1.813.684/SP, ocorrida em 18/11/2019), findo o qual voltou a valer a regra
fixada no AgInt no AREsp 957.821/MS.
A simples razão pela qual não se poderá estender o entendimento fixado no REsp 1.813.684/SP para outros
feriados locais, pois, está no fato de que a orientação que superou momentaneamente a regra geral prevista no
AgInt no AREsp 957.821/MS é excepcional e se fundou em uma razão específica.
Ao que consta, o julgamento do REsp 1.813.684/SP apenas superou momentânea e excepcionalmente a regra,
mas não o precedente anteriormente fixado na Corte Especial, inclusive porque, para recursos especiais e
agravos interpostos após 18/11/2019 (data da publicação do acórdão), a regra que está sendo aplicada é aquela
fixada pela Corte Especial no AgInt no AREsp 957.821/MS.
De outro lado, sublinhe-se que uma modulação ampla, geral e irrestrita, como propõe o voto do e. Relator,
apenas poderia ter sido feita em 2017, por ocasião do julgamento do AgInt no AREsp 957.821/MS, ocasião em
que a Corte Especial fixou a orientação aderente à lei nova (art. 1.003, §6º, do CPC/15). (Informativo n. 697)

PROCESSO EAREsp 1.663.952-RJ, Rel. Min. Raul Araújo, Corte Especial, por maioria,
julgado em 19/05/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL PENAL, DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Processo eletrônico. Lei n. 11.419/2006. Duplicidade de intimações.
Contagem dos prazos processuais. Termo inicial. Portal Eletrônico.
Prevalência.
DESTAQUE
O termo inicial de contagem dos prazos processuais, em caso de duplicidade de intimações eletrônicas, dá-se
com a realizada pelo portal eletrônico, que prevalece sobre a publicação no Diário da Justiça (DJe).
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia cinge-se a aferir o termo inicial de contagem dos prazos processuais quando houver duplicidade
das intimações eletrônicas previstas na Lei n. 11.419/2006 (Lei do Processo Eletrônico), mais especificamente
as intimações ocorridas no Diário da Justiça Eletrônico (DJe) e no Portal Eletrônico.
A respeito da temática, coexistem nesta Corte Superior três vertentes jurisprudenciais.

174
A corrente jurisprudencial defensora de que, se ambas as formas de intimações forem feitas em relação ao
mesmo ato processual, deve prevalecer a realizada no Diário da Justiça Eletrônico, afirma que a própria Lei do
Processo Eletrônico, no § 2º do art. 4º, estabelece que a publicação dos atos judiciais e administrativos, realizada
no Diário da Justiça eletrônico, disponibilizado em sítio da rede mundial de computadores, substitui qualquer
outro meio e publicação oficial, para quaisquer efeitos legais, exceto nos casos que, por lei, se exigir intimação
ou vista pessoal.
A corrente jurisprudencial que defende deva prevalecer a intimação realizada pelo Portal Eletrônico salienta
que, nos termos do art. 5º da Lei do Processo Eletrônico, as intimações feitas por meio eletrônico em portal
próprio a publicação no órgão oficial, inclusive eletrônico. Argumenta-se, ademais, que o Novo Código de
Processo Civil, no art. 270, prestigia o meio eletrônico, como forma preferencial de comunicação dos atos
processuais, e que a intimação pela publicação em órgão oficial deve ser utilizada de forma subsidiária à
intimação eletrônica em face do disposto no art. 272 do NCPC.
Por sua vez, a terceira corrente jurisprudencial, segundo a qual, havendo duplicidade de intimações, deve
prevalecer a primeira validamente efetuada, alicerça-se no fundamento de que, para todos os efeitos, as partes
e seus advogados tomam ciência do ato judicial ou administrativo logo na primeira intimação oficialmente
realizada, que, normalmente, costuma ser a publicação da imprensa eletrônica, podendo a partir de então
recorrer ou promover o ato processual adequado. Portanto, não é concebível que se aguarde a ultimação da
outra intimação para se considerar devidamente cientificado.
Na sequência, convém diferenciar os dois tipos de comunicação dos atos processuais previstos na Lei do
Processo Eletrônico, que aqui estão em debate - intimação pelo Portal Eletrônico e intimação pelo Diário da
Justiça Eletrônico.
De um lado, a intimação pelo Diário Eletrônico de Justiça envolve a inserção da informação em diário publicado
periodicamente. O servidor insere a informação no jornal eletrônico do Tribunal, o qual é disponibilizado, em
regra, ao final do dia. Há regra específica segundo a qual a publicação do ato judicial é considerada no dia
seguinte ao da disponibilização, marcando o começo dos prazos processuais. Os prazos são contados com a
exclusão do dia do começo e com a inclusão do dia do término. Logo, o primeiro dia do prazo ocorre apenas no
dia seguinte ao considerado como data da publicação.
De outro lado, a intimação pelo Portal Eletrônico implica o envio da comunicação por intermédio de um sistema
eletrônico de controle de processos, cada vez mais utilizado no âmbito do Poder Judiciário. A comunicação do
ato processual ocorre "por dentro" do sistema informatizado. O advogado, devidamente cadastrado, acessa o
processo judicial eletrônico e é intimado. Há um prazo de dez (10) dias para acesso à informação. Após o envio
da intimação pelo processo judicial eletrônico, a parte tem dez (10) dias para consultar o teor da informação.
Caso consulte a informação dentro desse lapso temporal, o ato judicial será considerado publicado no dia da
consulta, dando-se início ao cômputo do prazo a partir do primeiro dia subsequente. Caso não consulte nos dez
(10) dias previstos, a intimação será automática, de maneira que será considerada realizada na data do término
desse prazo, independentemente de consulta, iniciando-se, a seguir, a contagem do prazo processual.
A respeito desta modalidade de notificação dos atos judiciais, estabelece o aludido art. 5º da Lei do Processo
Eletrônico que as intimações feitas por meio de Portal Eletrônico dispensam a publicação no órgão oficial,
inclusive eletrônico.
Dito isso e partindo-se da premissa de que, diante de procedimento do próprio Poder Judiciário que cause
dúvida, como no caso de duplicidade de intimações válidas, não pode a parte ser prejudicada - mormente
porque, em tais circunstâncias, cria-se uma incerteza no tocante ao exato termo inicial para contagem dos
prazos processuais -, considera-se que a melhor exegese é a que faz prevalecer a intimação no Portal Eletrônico
em detrimento da tradicional intimação por Diário da Justiça, ainda que atualmente esta também seja eletrônica.
Com efeito, levando-se em consideração os princípios da boa-fé processual, da confiança e da não surpresa,
atinentes ao Direito Processual, deve a norma ser interpretada da forma mais favorável à parte, a fim de se evitar
prejuízo na contagem dos prazos processuais.
Se a própria Lei do Processo Eletrônico criou essa forma de intimação, dispensando qualquer outra, e tornou
este mecanismo hábil a promover, inclusive, as intimações pessoais dos entes que possuem tal prerrogativa, não
há como afastar a conclusão de que esta regerá o prazo naturalmente em relação ao advogado que esteja
cadastrado no sistema eletrônico. Há, pois, uma presunção de validade, que leva a exigir do Poder Judiciário
comportamento condizente com os ditames legais e com a boa-fé processual.

175
Desse modo, entende-se que sempre que a modalidade de intimação pelo Portal Eletrônico (art. 5º da Lei n.
11.419/2006) for prevista e aplicável em determinado Tribunal para os advogados devidamente cadastrados,
deve esta prevalecer sobre a tradicional intimação pelo DJe. (Informativo n. 697)

PROCESSO HDE 1.809/EX, Rel. min. Raul Araújo, Corte Especial, por maioria, julgado
em 22/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Homologação de decisão estrangeira. Sentença arbitral estrangeira. Relação
patrimonial. Valor da causa. Fixação de honorários advocatícios. Equidade
(CPC, Art. 85, § 8º).
DESTAQUE
Em sede de homologação de decisão estrangeira, aplica-se a norma do § 8º do art. 85 do CPC, fixando-se os
honorários advocatícios por equidade.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Na vigência do Código de Processo Civil de 1973, a Corte Especial entendia, ao menos na maioria dos casos
encontrados na base de dados da jurisprudência do STJ, que a aplicação da norma do § 4º do art. 20 é que deveria
nortear o julgador na fixação, por equidade, de honorários do advogado em decisão prolatada em homologação
de sentença estrangeira, e não a regra do § 3º do mesmo dispositivo legal.
De forma geral, a Corte Especial se inclinava no sentido de entender que o arbitramento dos honorários
advocatícios de sucumbência nas decisões homologatórias de sentença estrangeira, seja para deferir o pedido
ou para indeferi-lo, deveria ser feito com base na equidade, à luz do art. 20, § 4º, do revogado CPC de 1973,
norma correspondente à do § 8º do art. 85 do atual Código de Processo Civil.
Após o advento do novo Código, a análise da base de dados da jurisprudência do STJ revela que, para fins de
fixação de honorários advocatícios sucumbenciais na homologação de decisão estrangeira (HDE), há acórdãos
da colenda Corte Especial que ora aplicam o § 2º do art. 85 do CPC de 2015, que se refere às hipóteses de
arbitramento no montante de 10% a 20% sobre o valor da condenação ou do proveito econômico ou do valor
atualizado da causa, ora assentam o § 8º do mesmo artigo, o qual trata a respeito das hipóteses de arbitramento
de tal verba por equidade.
A segunda orientação alicerça-se, preponderantemente, no fundamento de que o procedimento de
homologação de sentença estrangeira não tem natureza condenatória ou proveito econômico imediato e, por
essa razão, descabe considerar os parâmetros de condenação, de proveito econômico ou mesmo do valor da
causa como bases de cálculo dos honorários advocatícios, pois, afinal, o mérito da decisão homologada não é
objeto de deliberação nesta Corte. Assim, a decisão a ser homologada é, em si, fator exógeno à decisão
homologatória a ser proferida.
Essa é a orientação que mais se coaduna com o instituto da decisão de natureza predominantemente
homologatória.
Assim, não se tem condenação, nem proveito econômico imediato ou valor da causa aptos a dar legítimo
respaldo à aplicação das bases de cálculo previstas, respectivamente, no citado § 2º do art. 85 do CPC de 2015,
ou seja: 1º) o "valor da condenação"; 2º) o valor "do proveito econômico obtido"; e 3º) "valor atualizado da
causa".
Contudo, não se pode olvidar que o valor da causa pode ser um dos critérios norteadores do julgador no
arbitramento, por equidade, da quantia a ser paga a título de honorários advocatícios sucumbenciais, quando a
causa originária, tratar de relações patrimoniais.
É o que expressamente dispõe o próprio § 8º do art. 85, que manda o julgador atentar para que, no "valor dos
honorários por apreciação equitativa", seja observado "o disposto nos incisos do § 2º", isto é: o grau de zelo do
profissional; o lugar de prestação do serviço; a natureza e a importância da causa; o trabalho realizado pelo
advogado e o tempo exigido para o seu serviço.

176
Assim, quando a causa na qual proferida a decisão a ser homologada envolve relações patrimoniais, o valor
atribuído à causa é indicativo do relevo, da importância que tem a causa para as partes litigantes. Então, nessa
hipótese, de ação versando sobre relações patrimoniais, o valor da causa será observado como um dos critérios
norteadores do julgador no arbitramento de honorários sucumbenciais por equidade, conforme expressamente
dispõe o próprio § 8º do multicitado art. 85. (Informativo n. 693)

PROCESSO APn 957/MG, Rel. Min. Herman Benjamin, Corte Especial, julgado em
22/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Relatoria. Competência. Questão de ordem. Julgamento prévio do agravo
interno. Desnecessidade. Preliminar de incompetência. Indeferimento.
Encontro fortuito de provas. Inexistência. Desmembramento do processo.
Descabimento. Pedido de vista.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Inicialmente, o Ministro Luis Felipe Salomão suscitou Questão de Ordem quanto ao momento da apreciação
da competência da relatoria. Sustentou que deveria ser suspenso o julgamento do feito para que seja primeiro
pautado e apreciado o agravo interno que tem por objeto a competência. No entanto, a Corte Especial decidiu,
por maioria, o prosseguimento da análise da competência da relatoria em sede de preliminar da ação penal.
Quanto à preliminar de arguição de incompetência, o Ministro Relator afastou as três preliminares relativas
à competência, sob a alegação de que não houve encontro fortuito de provas e que não é possível o
desmembramento do processo, pois as provas das investigações estão interrelacionadas. Alegou que ficou
firmada a competência por prevenção, conforme arts. 78, 79 e 83 do CPC/2015.
Pediu vista o Ministro Luis Felipe Salomão para cotejar as decisões mais recentes do STF a respeito do tema.
(Informativo n. 693)

PROCESSO EAREsp 650.536/RJ, Rel. Min. Raul Araújo, Corte Especial, por maioria,
julgado em 07/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Astreintes. Valor excessivo. Desproporcionalidade. Enriquecimento sem
causa. Preclusão. Coisa Julgada. Não submissão. Revisão a qualquer tempo.
Possibilidade.
DESTAQUE
É possível que o magistrado, a qualquer tempo, e mesmo de ofício, revise o valor desproporcional das
astreintes.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Há, nos arestos confrontados, discussão de questão de direito processual, acerca de operar-se, ou não, a
preclusão ou a coisa julgada a impossibilitar a revisão pelo julgador do valor fixado a título de astreintes. Há,
outrossim, debate a respeito da possibilidade de revisão da multa cominatória se o valor alcançado ferir os
princípios da razoabilidade e proporcionalidade ou a vedação do enriquecimento sem causa.
É possível a revisão do quantum fixado a título de multa cominatória, na via do recurso uniformizador, por
meio do exame da questão de direito processual adjacente - preclusão da discussão do valor da multa
cominatória -, mormente diante do flagrante exagero da quantia alcançada, em afronta aos princípios da
razoabilidade e da proporcionalidade e à vedação do enriquecimento sem causa.
Ressalte-se que a finalidade das astreintes é conferir efetividade ao comando judicial, coibindo o
comportamento desidioso da parte contra a qual foi imposta obrigação judicial. Seu escopo não é indenizar ou
substituir o adimplemento da obrigação, tampouco servir ao enriquecimento imotivado da parte credora,
devendo, pois, serem observados os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade.
177
Nessa toada, a própria legislação que prevê a possibilidade de imposição de multa cominatória autoriza o
magistrado, a requerimento da parte ou de ofício, alterar o valor e a periodicidade da multa, quando, em
observância aos referidos princípios, entender ser esta insuficiente ou excessiva, nos termos do art. 461, § 6º,
do CPC/1973 e, atualmente, do art. 537, § 1º, do CPC/2015.
Interpretando as referidas normas processuais, o Superior Tribunal de Justiça firmou orientação de que o
valor das astreintes, previstas no citado art. 461 do Código de Processo Civil revogado (correspondente ao art.
536 do Código vigente), é estabelecido sob a cláusula rebus sic stantibus, de maneira que, quando se tornar
irrisório ou exorbitante ou desnecessário, pode ser modificado ou até mesmo revogado pelo magistrado, a
qualquer tempo, até mesmo de ofício, ainda que o feito esteja em fase de execução ou cumprimento de sentença,
não havendo falar em preclusão ou ofensa à coisa julgada. Considera-se que a multa não tem uma finalidade em
si mesma e assim como pode ser fixada de ofício pelo juiz, em qualquer fase do processo, também pode ser
revista ex officio por este, a qualquer tempo.
A propósito, no julgamento do Recurso Especial 1.333.988/SP, sob a sistemática dos recursos repetitivos, a
Segunda Seção, no Tema 706, consolidou a tese de que "a decisão que comina astreintes não preclui, não fazendo
tampouco coisa julgada".
Por sua vez, a Primeira Seção, também julgando Recurso Especial Repetitivo para analisar o Tema 98
(possibilidade de imposição de multa diária a ente público, para compeli-lo a fornecer medicamento a pessoa
desprovida de recursos financeiros), afirmou a não incidência do instituto da coisa julgada na revisão do valor
das astreintes.
Nesse contexto, com respaldo na legislação e na jurisprudência desta Corte Superior, pode o julgador, a
requerimento da parte ou de ofício, a qualquer tempo, ainda que o feito esteja em fase de cumprimento de
sentença, modificar o valor das astreintes, seja para majorá-lo, para evitar a conduta recalcitrante do devedor
em cumprir a decisão judicial, seja para minorá-lo, quando seu montante exorbitar da razoabilidade e da
proporcionalidade, ou até mesmo para excluir a multa cominatória, quando não houver mais justa causa para
sua mantença.
Nessa linha de intelecção, ainda que já tenha havido redução anterior do valor da multa cominatória, não há
vedação legal a que o magistrado, amparado na constatação de que o total devido a esse título alcançou
montante elevado, reexamine a matéria novamente, caso identifique, diante de um novo quadro, que a
cominação atingiu patamar desproporcional à finalidade da obrigação judicial imposta.
Nesse diapasão, em atenção aos princípios da razoabilidade e proporcionalidade, é recomendável a redução,
quantas vezes forem necessárias, do valor das astreintes, sobretudo nas hipóteses em que a sua fixação ensejar
valor superior ao discutido na ação judicial em que foi imposta, a fim de evitar eventual enriquecimento sem
causa.
Desse modo, fixada a premissa de que as astreintes não se sujeitam à preclusão ou à coisa julgada, deve-se
definir os critérios para a melhor adequação do valor da multa quando ele se tornar excessivo ou irrisório.
Acerca da temática, a Quarta Turma, em importante precedente, de relatoria do Ministro Luis Felipe Salomão
(AgInt no AgRg no AREsp 738.682/RJ), delineou que o julgador, na fixação e/ou alteração do valor da multa
cominatória, deve-se balizar segundo dois "vetores de ponderação: a) efetividade da tutela prestada, para cuja
realização as astreintes devem ser suficientemente persuasivas; e b) vedação ao enriquecimento sem causa do
beneficiário, porquanto a multa não é, em si, um bem jurídico perseguido em juízo". Assim, lançou o eminente
Relator alguns parâmetros para nortear o magistrado na difícil tarefa de fixar o quantum devido a título de
astreintes: "i) valor da obrigação e importância do bem jurídico tutelado; ii) tempo para cumprimento (prazo
razoável e periodicidade); iii) capacidade econômica e de resistência do devedor; iv) possibilidade de adoção de
outros meios pelo magistrado e dever do credor de mitigar o próprio prejuízo (duty to mitigate de loss)".
Assim, entende-se que o magistrado, diante da desproporção que alcançou o valor da multa diária
originariamente arbitrada, deve, com base nos referidos critérios, de ofício ou a requerimento da parte, fazer
novo balizamento do quantum, garantindo, com isso, a eficácia da decisão judicial e, ao mesmo tempo, evitando
o enriquecimento sem causa do beneficiário. (Informativo n. 691)

178
PROCESSO HDE 1.809/US, Rel. Min. Raul Araújo, Corte Especial, julgado em
03.03.2021, com pedido de vista.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Homologação de sentença estrangeira. Fixação de honorários advocatícios.
Art. 85, § 8º do CPC. Valor discutidos na sentença a ser homologada. Pedido de
Vista.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A Corte Especial, por unanimidade, deferiu o pedido de homologação de sentença estrangeira, nos termos do
voto do Ministro Relator. Quanto aos honorários advocatícios, o Ministro Relator fixou o valor em R$ 40.000,00,
defendendo que deve ser aplicado ao caso o Art. 85, § 8º do CPC, que prevê a utilização de apreciação equitativa
e, nesse ponto, deve ser utilizado como um dos critérios para o estabelecimento do montante o proveito
econômico discutido na sentença a ser homologada, frisando que esse valor, porém, não deve ser utilizado como
simples base de cálculo para a verba honorária. Nesse ponto, o Ministro Relator foi acompanhado pelo Ministro
Paulo de Tarso [Link] a Ministra Maria Thereza de Assis Moura, acompanhada pelos Srs.
Ministros Francisco Falcão e Herman Benjamin, fixando o valor em R$ 5.000,00, defendendo que deve ser
aplicado ao caso o Art. 85, § 8º do CPC, mas que os valores discutidos na sentença a ser homologada não devem
ser levados em conta na fixação da verba honorária, considerando que o STJ se limita a analisar aspectos formais
nessa espécie de processo. Por fim, pediu vista a Sra. Ministra Nancy Andrighi. (Informativo n. 687)

PROCESSO CC 165.221/DF, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Corte Especial, por
unanimidade, julgado em 03/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO DO CONSUMIDOR, DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Ação civil pública. Afastamento da cobrança de multa por resolução do
contrato por motivo de força maior ou caso fortuito, especialmente roubo e
furto do telefone celular. Relação jurídica litigiosa. Direito do consumidor.
Competência das Turmas da 2ª Seção.
DESTAQUE
Compete às Turmas da Segunda Seção julgar recurso especial interposto em face de concessionárias do serviço
de telefonia com o objetivo de afastar a cobrança de multa em caso de resolução do contrato por motivo de
roubo ou furto do aparelho celular.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia à definição da Turma competente para processar e julgar recurso especial decorrente
de ação civil pública proposta pelo Ministério Público estadual em face de concessionárias do serviço de
telefonia celular com o objetivo de afastar a cobrança de multa em caso de resolução do contrato por motivo de
força maior ou caso fortuito, especialmente nas hipóteses de roubo e furto do telefone celular.A Corte Especial
possui entendimento de que compete à Primeira Seção processar e julgar feito em que se discute a adequação
do serviço público concedido (v. g. CC 138.405/DF, Rel. p/ Acórdão Ministro Herman Benjamin, Corte Especial,
DJe de 10/10/2016).Ocorre que tal entendimento não se aplica nos casos em que a discussão dos autos esteja
restrita ao exame da abusividade ou não de cláusula contratual que rege relação de natureza puramente
consumerista travada entre clientes e concessionárias do serviço de telefonia [Link], levando-se em
conta a natureza dessa relação jurídica litigiosa, compete às Turmas que integram a Segunda Seção processar e
julgar a presente questão. (Informativo n. 687)

179
SEGUNDA SEÇÃO
Voltar ao Sumário.

PROCESSO CC 164.709/MG, Rel. p/ acórdão Min. Raul Araújo, Segunda Seção, por
maioria, julgado em 28/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO DO TRABALHO, DIREITO PROCESSUAL CIVIL, DIREITO
EMPRESARIAL
TEMA Sociedade anônima. Conselho de Administração. Eleição. Participação de
trabalhadores ativos e aposentados. Direito facultativo e excepcional do
trabalhador. Competência da Justiça Comum.
DESTAQUE
Compete à Justiça Comum julgar a participação de trabalhadores ativos e aposentados no conselho de
administração de sociedades anônimas.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A participação de trabalhadores ativos e aposentados no conselho de administração de sociedades anônimas
ou na gestão de qualquer sociedade empresária é garantida na parte final do inciso XI do art. 7º da Constituição
da República como direito excepcional dos trabalhadores.
Sendo um direito trabalhista extraordinário, não poderá a lei que venha a instituí-lo e regulamentá-lo,
concretizando a previsão constitucional, impô-lo como regra; terá, ao invés, de estabelecê-lo como exceção.
Então, ao ser instituído por lei aquele direito excepcional em favor dos trabalhadores, seu exercício se dará
conforme ali disciplinado, observadas as restrições decorrentes da previsão constitucional.
Atenta a esses condicionantes e à ausência de lei especial regulamentadora da previsão constitucional é que
a jurisprudência da Segunda Seção entende que a definição da competência em hipóteses assemelhadas fica a
depender do contexto das demandas consideradas, ante a natureza especializada da Justiça Trabalhista.
Na hipótese, não trata propriamente da discussão do direito trabalhista estrito senso, ou seja, de controvérsias
decorrentes da relação de trabalho ou de representação sindical, ou mesmo de "outras controvérsias decorrentes
da relação de trabalho". A causa de pedir das ações originárias gravita em torno de relação de natureza
estatutária, civil e empresarial.
Como se sabe, o Conselho de Administração das Companhias, como órgão de deliberação colegiada, é
regulado pelo direito empresarial, na Lei das Sociedades Anônimas (Lei n. 6.404/1976), enquanto o direito
facultativo e excepcional de participação dos empregados no aludido conselho tem expressa previsão no
parágrafo único do art. 140 da Lei das S/A.
A legislação de Direito Empresarial, a Lei das S/A, rege a vida das companhias que disputam o mercado,
especialmente das chamadas companhias abertas que angariam recursos no mercado de ações, de modo a
cumprirem requisitos de governança e transparência para enfrentar adequadamente a acirrada concorrência
no mercado nacional e internacional, no qual atuem.
A referida lei ao estabelecer, em seu art. 139, parágrafo único, que o estatuto poderá prever a participação dos
empregados no conselho de administração, faculta às companhias ensejar esse direito excepcional aos
trabalhadores, mediante previsão nos respectivos estatutos, por ato de liberalidade dessas empresas.
Assim, a criação desse direito trabalhista, de índole não obrigatória e extraordinária, não pode ser imposta às
sociedades anônimas. Fica a depender destas a concepção do benefício no âmbito de cada sociedade empresária.
Uma vez criado o direito pelo respectivo estatuto social, os representantes dos empregados deverão ser
escolhidos pelo voto destes, em eleição direta, organizada pela própria companhia, em conjunto com as
entidades sindicais representativa da categoria. (Informativo n. 694)

180
TERCEIRA SEÇÃO
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PROCESSO CC 175.033-GO, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, Terceira Seção, por
unanimidade, julgado em 26/05/2021, DJe 31/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL E DO TRABALHO, DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Sequestro penal e penhora trabalhista. Pluralidade de constrições
patrimoniais sobre o mesmo bem. Possibilidade. Antecipação, pelo Juízo
trabalhista, da prática do ato expropriatório. Usurpação de competência.
Primazia da medida constritiva penal. Interesse público e inteligência do art.
133 do CPP. Competência do Juízo penal para a prática dos atos
expropriatórios, sem declaração de nulidade do ato praticado pelo Juízo
trabalhista. Reversão da quantia obtida em prol da constrição penal.
DESTAQUE
Incorre em usurpação de competência o Juízo cível ou trabalhista que pratica ato expropriatório de bem
sequestrado na esfera penal.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Inexistindo disposição legal em sentido contrário, afigura-se possível a coexistência de múltiplas constrições
patrimoniais sobre um mesmo bem, decretadas por Juízes diversos, sem implicar na usurpação de competência
por quaisquer deles.
No entanto, é possível cogitar o conflito positivo da discussão acerca da existência ou não de primazia da medida
assecuratória de índole penal (sequestro) sobre a decretada em sede de reclamação trabalhista (penhora), de
modo a elucidar se a conduta do Juízo trabalhista, no sentido de antecipar a prática de ato expropriatório
referente a bem sob o qual ainda recaia constrição decretada pelo Juízo criminal, consubstanciou usurpação de
competência do último.
Inicialmente, cumpre rememorar que o sequestro é medida assecuratória voltada à retenção de bens móveis e
imóveis do indiciado ou acusado, ainda que em poder de terceiros, quando adquiridos com os proventos da
infração (art. 125 do CPP) para que deles não se desfaça, durante o curso da ação penal, de modo a assegurar a
indenização da vítima ou impossibilitar ao agente que tenha lucro com a atividade criminosa. Transitada a ação
penal e inexistindo ofendido a requerer a indenização, são os proventos do delito confiscados em prol da
Fazenda Pública (arts. 133, § 1º, do CPP e 91, II, b, do Código Penal) e submetidos a alienação judicial ou
transferidos diretamente ao ente público (art. 133-A, § 4º, do CPP).
De outra parte, a hipoteca legal (art. 134 do CPP) e o arresto (art. 136 do CPP) são direcionados à constrição do
patrimônio lícito do acusado, a fim de que dele não se desfaça e dando garantia ao ofendido ou à Fazenda Pública
de que o acusado não estará insolvente ao final do processo criminal, de modo a assegurar a reparação do dano
por ele causado.
Tais medidas assecuratórias penais ostentam natureza distinta, pois enquanto o sequestro ostenta um interesse
público - retenção e confisco dos bens adquiridos com os proventos da infração -, o arresto e a hipoteca legal
ostentam interesse nitidamente privado - constrição do patrimônio lícito para fins de reparação de dano -,
convicção essa robustecida na diversidade do procedimento para expropriação desses bens, pois enquanto os
bens sequestrados são expropriados no Juízo penal (art. 133 do CPP), os bens arrestados ou hipotecados, em
sede penal, são expropriados no Juízo cível (art. 143 do CPP).
Assim, considerando a natureza peculiar da medida assecuratória penal de sequestro (art. 125 do CPP) -
verificada a partir do interesse público (aquisição com proventos da infração penal) e do fato de que a
expropriação ocorre na seara penal -, deve ser reconhecida a primazia da referida constrição, frente àquela
decretada por Juízo cível ou trabalhista (penhora), sendo indiferente qual constrição foi decretada primeiro.

181
Logo, incorre em usurpação de competência o Juízo trabalhista que pratica ato expropriatório de bem
sequestrado na seara penal, ainda que objeto de constrição decretada em sede trabalhista (penhora).
Contudo, no caso, conquanto verificada a usurpação de competência, não deve ser declarada a nulidade do ato
expropriatório praticado pelo Juízo Trabalhista, pois os bens submetidos à alienação judicial gozam de
presunção (juris tantum), estabelecida pelo próprio Poder Judiciário e pela lei (art. 903 do CPC), de que são
desembaraçados, ou seja, livres de ônus, sendo que a declaração de nulidade implicaria em descrédito de um
instituto que depende de sua credibilidade para adesão dos arrematantes.
Desse modo, mantida a alienação, deve ser observado, no entanto, que a quantia obtida com a alienação judicial,
promovida perante o Juízo incompetente deve ser revertida em prol da constrição decretada pelo Juízo penal, a
fim de mitigar o prejuízo causado com a inobservância do direcionamento estabelecido na lei penal e processual
penal (arts. 133, § 1º, do CPP, e 91, II, b, do Código Penal). (Informativo n. 698)

PROCESSO RMS 60.531-RO, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Rel. Acd. Min. Ribeiro Dantas,
Terceira Seção, por maioria, julgado em 09/12/2020, DJe 17/12/2020
RAMO DO DIREITO DIREITO CONSTITUCIONAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL, DIREITO
PROCESSUAL CIVIL
TEMA Serviços de comunicação. Criptografia de ponta a ponta. Quebra de sigilo de
dados. Decisão judicial. Descumprimento. Impossibilidade técnica. Astreintes.
Ilegalidade.
DESTAQUE
É ilegal a aplicação de astreintes, por descumprimento de decisão judicial de quebra de sigilo de dados, em
virtude da impossibilidade técnica pelo emprego de criptografia de ponta a ponta.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A possibilidade de aplicação, em abstrato, da multa cominatória foi reconhecida, por maioria, nesta Terceira
Seção (REsp 1.568.445/PR, Rel. Ministro Rogerio Schietti Cruz, Rel. p/ Acórdão Ministro Ribeiro Dantas,
Terceira Seção, julgado em 24/06/2020, DJe 20/08/2020).No caso, porém, há de se fazer uma distinção ou um
distinguishing entre o precedente citado e a situação em análise cuja controvérsia é a alegação, pela empresa
que descumpriu a ordem judicial, da impossibilidade técnica de obedecer à determinação do Juízo, haja vista o
emprego da criptografia de ponta a [Link] de ponta a ponta é a proteção dos dados nas duas
extremidades do processo, tanto no polo do remetente quanto no outro polo do destinatário. Nela, há "dois tipos
de chaves são usados para cada ponta da comunicação, uma chave pública e uma chave privada. As chaves
públicas estão disponíveis para as ambas as partes e para qualquer outra pessoa, na verdade, porque todos
compartilham suas chaves públicas antes da comunicação. Cada pessoa possui um par de chaves, que são
complementares. [...] O conteúdo só poderá ser descriptografado usando essa chave pública (...) junto à chave
privada (...). Essa chave privada é o único elemento que torna impossível para qualquer outro agente
descriptografar a mensagem, já que ela não precisa ser compartilhada".Ao buscar mecanismos de proteção à
liberdade de expressão e comunicação privada, por meio da criptografia de ponta a ponta, as empresas estão
protegendo direito fundamental, reconhecido expressamente na Carta [Link]ém ressaltar que o Ministro
Edson Fachin, na ADPF 403, e a Ministra Rosa Weber, na ADI 5527, chegam à mesma conclusão: o ordenamento
jurídico brasileiro não autoriza, em detrimento da proteção gerada pela criptografia de ponta a ponta, em
benefício da liberdade de expressão e do direito à intimidade, sejam os desenvolvedores da tecnologia multados
por descumprirem ordem judicial incompatível com encriptaçã[Link], em ponderação de valores os benefícios
advindos da criptografia de ponta a ponta se sobrepõem às eventuais perdas pela impossibilidade de se coletar
os dados das conversas dos usuários da tecnologia. (Informativo n. 684)

182
SEGUNDA TURMA
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PROCESSO AgInt no AREsp 1.688.809-SP, Rel. Min. Assusete Magalhães, Segunda


Turma, por unanimidade, julgado em 26/04/2021, DJe 28/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Ação Civil Pública. Criança indígena. Falecimento em decorrência de alegada
deficiência de serviço de prestação de saúde. Indenização por danos morais
coletivos e individuais. Legitimação extraordinária do Parquet. Arts. 129, V e
IX, da CF/1988 e 37, II, da Lei Complementar n. 75/1993. Relevância do bem
jurídico tutelado. Vulnerabilidade dos índios e da comunidade indígena.
DESTAQUE
O Ministério Público Federal é parte legítima para pleitear indenização por danos morais coletivos e individuais
em decorrência do óbito de menor indígena.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Na origem, trata-se de Ação Civil Pública ajuizada pelo Parquet em face da Fundação Serviços de Saúde de Mato
Grosso do Sul (Hospital Regional do Mato Grosso do Sul, com atuação pelo SUS) e da União Federal - com o
objetivo de obter pagamento de indenização por danos morais coletivos e individuais, em decorrência do óbito
de menor indígena, pertencente à tribo Ofayé-Xavante.
A Constituição Federal reconhece a peculiar vulnerabilidade dos índios e das populações indígenas, motivo pelo
qual o art. 37, II, da Lei Complementar n. 75/1993 confere legitimidade ao Ministério Público Federal "para
defesa de direitos e interesses dos índios e das populações indígenas", o que se mostra consentâneo com o art.
129, V e IX, da CF/1988, que outorga legitimidade ao Ministério Público não só para "defender judicialmente os
direitos e interesses das populações indígenas", como também para "exercer outras funções que lhe forem
conferidas, desde que compatíveis com sua finalidade".
Cuida-se , no caso, de atuação do Ministério Público Federal para a defesa de direitos e interesses de relevância
social, vale dizer, o direito à saúde e à boa prestação de serviços de saúde aos índios e à comunidade indígena -
de cuja alegada deficiência teria decorrido a morte da criança indígena -, bem como o direito de acesso à justiça
pelos índios e pela sua comunidade, em região na qual o acórdão recorrido reconhece "há notória precariedade
do acesso à Justiça". Como destacou o voto vencido, na origem, "Três Lagoas/MS e toda aquela região ainda não
conta com a Defensoria Pública da União, a quem caberia atuar na representação processual para o pleito de
danos morais individuais, segundo o entendimento do magistrado, e a Defensoria Pública estadual existente na
localidade atua somente perante a Justiça Estadual".
A propósito da legitimação extraordinária do Ministério Público, o STJ, ao apreciar o REsp 1.682.836/SP, julgado
sob o rito dos recursos repetitivos, firmou a tese de que o Ministério Público é parte legítima para pleitear
tratamento médico ou entrega de medicamentos nas demandas de saúde propostas contra os entes federativos,
mesmo quando se tratar de feitos contendo beneficiários individualizados, porque se refere a direitos
individuais indisponíveis, na forma do art. 1º da Lei n. 8.625/1993 (Lei Orgânica Nacional do Ministério
Público).A jurisprudência do STJ "vem sedimentando-se em favor da legitimidade do MP para promover Ação
Civil Pública visando à defesa de direitos individuais homogêneos, ainda que disponíveis e divisíveis, quando há
relevância social objetiva do bem jurídico tutelado (a dignidade da pessoa humana, a qualidade ambiental, a
saúde, a educação, para citar alguns exemplos) ou diante da massificação do conflito em si considerado" (STJ,
AgInt no REsp 1.701.853/RJ, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, DJe de 19/03/2021).
Dessarte, a relevância social do bem jurídico tutelado e a vulnerabilidade dos povos indígenas autoriza, em face
da peculiar situação do caso, a defesa dos interesses individuais dos índios pelo Ministério Público, em
decorrência de sua atribuição institucional.

183
A propósito do tema, a Segunda Turma do STJ pronunciou-se no sentido de que, "no campo da proteção da saúde
e dos índios, a legitimidade do Ministério Público para propor Ação Civil Pública é - e deve ser - a mais ampla
possível, não derivando de fórmula matemática, em que, por critério quantitativo, se contam nos dedos as
cabeças dos sujeitos especialmente tutelados. Nesse domínio, a justificativa para a vasta e generosa legitimação
do Parquet é qualitativa, pois leva em consideração a natureza indisponível dos bens jurídicos salvaguardados
e o status de hipervulnerabilidade dos sujeitos tutelados, consoante o disposto no art. 129, V, da Constituição, e
no art. 6º da Lei Complementar n. 75/1993" (STJ, REsp 1.064.009/SC, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda
Turma, DJe de 27/04/2011). (Informativo n. 695)

PROCESSO REsp 1.868.072-RS, Rel. Min. Francisco Falcão, Segunda Turma, por
unanimidade, julgado em 04/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Mandado de Segurança. Apelação. Resultado não unânime. Amplicação do
colegiado. Art. 942 do CPC/2015. Incidência.
DESTAQUE
A técnica de ampliação do colegiado, prevista no art. 942 do CPC/2015, aplica-se também ao julgamento de
apelação interposta contra sentença proferida em mandado de segurança.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O Código de Processo Civil de 2015, ao entrar em vigor, revogou o Código de Processo Civil de 1973, nos termos
do art. 1.046, caput, do CPC/2015. Todavia, as disposições especiais dos procedimentos regulados por leis
específicas permaneceram em vigor, mesmo após o advento do novel diploma legal, consoante o previsto no art.
1.046, § 2º, do CPC/2015, de maneira que as disposições especiais pertinentes ao mandado de segurança
seguem reguladas pela Lei n. 12.016/2009. Contudo, a Lei n. 12.016/2009 não contém nenhuma disposição
especial acerca da técnica de julgamento a ser adotada nos casos em que o resultado da apelação for não
unânime. Enquanto o art. 14 da Lei n. 12.016/2009 se limita a preconizar que contra a sentença proferida em
mandado de segurança cabe apelação, o art. 25 da Lei n. 12.016/2009 veda a interposição de embargos
infringentes contra decisão proferida em mandado de segurança.
Embora a técnica de ampliação do colegiado, prevista no art. 942 do CPC/2015, e os embargos infringentes,
revogados junto com Código de Processo Civil de 1973, possuam objetivos semelhantes, os referidos institutos
não se confundem, sobretudo porque o primeiro compreende técnica de julgamento, já o segundo consistia em
modalidade de recurso. Ademais: "(...) diferentemente dos embargos infringentes regulados pelo CPC/73, a nova
técnica de ampliação do colegiado é de observância automática e obrigatória sempre que o resultado da
apelação for não unânime e não apenas quando ocorrer a reforma de sentença" (REsp n. 179.8705/SC, Relator
Ministro Paulo de Tarso Sanseverino, Terceira Turma, julgado em 22/10/2019, DJe 28/10/2019).
Conclui-se, portanto, que a técnica de ampliação do colegiado, prevista no art. 942 do CPC/2015, aplica-se
também ao julgamento de apelação que resultou não unânime interposta contra sentença proferida em
mandado de segurança. (Informativo n. 695)

184
PROCESSO REsp 1.925.492-RJ, Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, por
unanimidade, julgado em 04/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Improbidade administrativa. Decisão interlocutória que indefere pedido de
depoimento pessoal. Agravo de instrumento. Cabimento. Prevalência de
previsão contida na Lei da Ação Popular sobre o artigo 1.015 do CPC/2015.
Microssistema de tutela coletiva.
DESTAQUE
Aplica-se à ação de improbidade administrativa o previsto no artigo 19, § 1º, da Lei da Ação Popular, segundo o
qual das decisões interlocutórias cabe agravo de instrumento.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Na origem, trata-se de Ação por Improbidade na qual o Juízo de primeiro grau indeferiu o pedido de depoimento
pessoal da ré, o que resultou na interposição de Agravo de Instrumento. O Recurso não foi conhecido sob o
fundamento de que seria "inaplicável na hipótese o disposto no artigo 19, parágrafo 1º da Lei n. 4.717/1965, já
que se refere às Ações Populares" e "a Decisão hostilizada não se enquadra no rol taxativo do artigo 1.015 do
Código de Processo Civil".
Esse entendimento contraria a orientação, consagrada no STJ, de que "O Código de Processo Civil deve ser
aplicado somente de forma subsidiária à Lei de Improbidade Administrativa. Microssistema de tutela coletiva"
(REsp 1.217.554/SP, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, DJe 22.8.2013).
A ideia do microssistema de tutela coletiva foi concebida com o fim de assegurar a efetividade da jurisdição no
trato dos direitos coletivos, razão pela qual a previsão do artigo 19, § 1º, da Lei da Ação Popular ("Das decisões
interlocutórias cabe agravo de instrumento") se sobrepõe, inclusive nos processos de improbidade, à previsão
restritiva do artigo 1.015 do CPC/2015.
Na mesma direção: "Os arts. 21 da Lei da Ação Civil Pública e 90 do CDC, como normas de envio, possibilitaram
o surgimento do denominado Microssistema ou Minissistema de proteção dos interesses ou direitos coletivos
amplo senso, no qual se comunicam outras normas, como o Estatuto do Idoso e o da Criança e do Adolescente,
a Lei da Ação Popular, a Lei de Improbidade Administrativa e outras que visam tutelar direitos dessa natureza,
de forma que os instrumentos e institutos podem ser utilizados com o escopo de 'propiciar sua adequada e
efetiva tutela'" (art. 83 do CDC)" (REsp 695.396/RS, Primeira Turma, Rel. Ministro Arnaldo Esteves Lima, DJe
27.4.2011).
Assim, deve-se aplicar à Ação por Improbidade o mesmo entendimento já adotado em relação à Ação Popular,
como sucedeu, entre outros, no seguinte precedente: "A norma específica inserida no microssistema de tutela
coletiva, prevendo a impugnação de decisões interlocutórias mediante agravo de instrumento (art. 19 da Lei n.
4.717/65), não é afastada pelo rol taxativo do art. 1.015 do CPC/2015, notadamente porque o inciso XIII daquele
preceito contempla o cabimento daquele recurso em 'outros casos expressamente referidos em lei'" (AgInt no
REsp 1.733.540/DF, Rel. Ministro Gurgel de Faria, Primeira Turma, DJe 4.12.2019). Na mesma direção: REsp
1.452.660/ES, Rel. Ministro Og Fernandes, Segunda Turma, DJe 27.4.2018. (Informativo n. 695)

185
PROCESSO REsp 1.929.230-MT, Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, por
unanimidade, julgado em 04/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Improbidade administrativa. Fase de cumprimento de sentença.
Requerimento de medidas coercitivas. Suspensão de CNH e apreensão de
passaporte. Previsão feita no art. 139, IV, do CPC/2015. Medidas executivas
atípicas. Aplicação em processos de improbidade. Observância de parâmetros.
Análise dos fatos da causa. Possibilidade.
DESTAQUE
São cabíveis medidas executivas atípicas de cunho não patrimonial no cumprimento de sentença proferida em
ação de improbidade administrativa.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Há no Superior Tribunal de Justiça julgados afirmando a possibilidade da adoção das chamadas medidas atípicas
no âmbito da execução, desde que preenchidos certos requisitos. Nesse sentido: "O propósito recursal é definir
se a suspensão da carteira nacional de habilitação e a retenção do passaporte do devedor de obrigação de pagar
quantia são medidas viáveis de serem adotadas pelo juiz condutor do processo executivo [...] O Código de
Processo Civil de 2015, a fim de garantir maior celeridade e efetividade ao processo, positivou regra segundo a
qual incumbe ao juiz determinar todas as medidas indutivas, coercitivas, mandamentais ou sub-rogatórias
necessárias para assegurar o cumprimento de ordem judicial, inclusive nas ações que tenham por objeto
prestação pecuniária (art. 139, IV)" (REsp 1.788.950/MT, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, DJe
26.4.2019).
Há, também, decisão da Primeira Turma indeferindo as medidas atípicas, mas mediante expressa referência aos
fatos da causa. Afirmou-se no julgado: "O TJ/PR deu provimento a recurso de Agravo de Instrumento interposto
pelo Município de Foz do Iguaçu/PR contra a decisão de Primeiro Grau que indeferiu o pedido de medidas
aflitivas de inscrição do nome do executado em cadastro de inadimplentes, de suspensão do direito de dirigir e
de apreensão do passaporte. O acórdão do TJ/PR, ora apontado como ato coator, deferiu as indicadas medidas
no curso da Execução Fiscal. Ao que se dessume do enredo fático-processual, a medida é excessiva. Para além
do contexto econômico de que se lançou mão anteriormente, o que, por si só, já justificaria o afastamento das
medidas adotadas pelo Tribunal Araucariano, registre-se que o caderno processual aponta que há penhora de
30% dos vencimentos que o réu aufere na Companhia de Saneamento do Paraná-SANEPAR. Além disso,
rendimentos de sócio-majoritário que o executado possui na Rádio Cultura de Foz do Iguaçu Ltda.-EPP também
foram levados a bloqueio" (HC 45.3870/PR, Relator Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Primeira Turma, DJe
15.8.2019).
Além de fazer referência aos fatos da causa, essa última decisão, da Primeira Turma, foi proferida em Execução
Fiscal. Diversamente, no caso dos autos trata-se de cumprimento de sentença proferida em Ação por
Improbidade Administrativa, demanda que busca reprimir o enriquecimento ilícito, as lesões ao erário e a
ofensa aos princípios da Administração Pública.
Ora, se o entendimento desta Corte - conforme jurisprudência supra destacada - é no sentido de que são cabíveis
medidas executivas atípicas a bem da satisfação de obrigações de cunho estritamente patrimonial, com muito
mais razão elas devem ser admitidas em casos onde o cumprimento da sentença se dá a bem da tutela da
moralidade e do patrimônio público. Superada a questão da impossibilidade de adoção de medidas executivas
atípicas de cunho não patrimonial pela jurisprudência dessa Corte, não há como não considerar o interesse
público na satisfação da obrigação um importante componente na definição pelo cabimento (ou não) delas à luz
do caso concreto.
Os parâmetros construídos pela Terceira Turma, para aplicação das medidas executivas atípicas, encontram
largo amparo na doutrina se revelam adequados, também, no cumprimento de sentença proferida em Ação por
Improbidade.

186
Conforme tem preconizado a Terceira Turma: "A adoção de meios executivos atípicos é cabível desde que,
verificando-se a existência de indícios de que o devedor possua patrimônio expropriável, tais medidas sejam
adotadas de modo subsidiário, por meio de decisão que contenha fundamentação adequada às especificidades
da hipótese concreta, com observância do contraditório substancial e do postulado da proporcionalidade" (REsp
1.788.950/MT, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, DJe 26.4.2019).
Consigne-se que a observância da proporcionalidade não deve ser feita em abstrato, a não ser que as instâncias
ordinárias expressamente declarem o artigo 139, IV, do CPC/2015, inconstitucional. Não sendo o caso, as balizas
da proporcionalidade devem ser observadas com referência ao caso concreto, nas hipóteses em que as medidas
atípicas se revelem excessivamente gravosas, por exemplo, causando prejuízo ao exercício da profissão.
(Informativo n. 695)

PROCESSO REsp 1.869.867/SC, Rel. Min. Og Fernandes, Segunda Turma, por


unanimidade, julgado em 20/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas - IRDR. Recurso Especial.
Recurso Extraordinário. Efeito suspensivo automático. Necessidade de
aguardar julgamento dos tribunais superiores.
DESTAQUE
Interposto Recurso Especial ou Recurso Extraordinário contra o acórdão que julgou Incidente de Resolução
de Demandas Repetitivas - IRDR, a suspensão dos processos realizada pelo relator ao admitir o incidente só
cessará com o julgamento dos referidos recursos, não sendo necessário, entretanto, aguardar o trânsito em
julgado.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a definir se a suspensão dos feitos realizada pelo relator ao admitir Incidente de
Resolução de Demandas Repetitivas cessa tão logo julgado o incidente pelo TJ/TRF, com a aplicação imediata
da tese, ou se é necessário aguardar o julgamento dos recursos excepcionais eventualmente interpostos.
No caso dos recursos repetitivos, os arts. 1.039 e 1.040 do CPC condicionam o prosseguimento dos processos
pendentes apenas à publicação do acórdão paradigma. Além disso, os acórdãos proferidos sob a sistemática dos
recursos repetitivos não são impugnáveis por recursos dotados de efeito suspensivo automático.
Por sua vez, a sistemática legal do IRDR é diversa, pois o Código de Ritos estabelece, no art. 982, § 5º, que a
suspensão dos processos pendentes, no âmbito do IRDR, apenas cessa caso não seja interposto recurso especial
ou recurso extraordinário contra a decisão proferida no incidente.
Além disso, há previsão expressa, nos §§1º e 2º do art. 987 do CPC, de que os recursos extraordinário e
especial contra acórdão que julga o incidente em questão têm efeito suspensivo automático (ope legis), bem
como de que a tese jurídica adotada pelo STJ ou pelo STF será aplicada, no território nacional, a todos os
processos individuais ou coletivos que versem sobre idêntica questão de direito.
Apesar de tanto o IRDR quanto os recursos repetitivos comporem o microssistema de julgamento de casos
repetitivos (art. 928 do CPC), a distinção de tratamento legal entre os dois institutos justifica-se pela
recorribilidade diferenciada de ambos. De fato, enquanto, de um lado, o IRDR ainda pode ser combatido por
REsp e RE, os quais, quando julgados, uniformizam a questão em todo o território nacional, os recursos
repetitivos firmados nas instâncias superiores apenas podem ser objeto de embargos de declaração, quando
cabíveis e de recurso extraordinário, contudo, este, sem efeito suspensivo automático.
Admitir o prosseguimento dos processos pendentes antes do julgamento dos recursos extraordinários
interpostos contra o acórdão do IRDR poderia ensejar uma multiplicidade de atos processuais desnecessários,
sobretudo recursos. Isso porque, caso se admita a continuação dos processos até então suspensos, os sujeitos
inconformados com o posicionamento firmado no julgamento do IRDR terão que interpor recursos a fim de
evitar a formação de coisa julgada antes do posicionamento definitivo dos tribunais superiores.

187
Ademais, com a manutenção da suspensão dos processos pendentes até o julgamento dos recursos pelos
tribunais superiores, assegura-se a homogeneização das decisões judiciais sobre casos semelhantes,
garantindo-se a segurança jurídica e a isonomia de tratamento dos jurisdicionados. Impede-se, assim, a
existência - e eventual trânsito em julgado - de julgamentos conflitantes, com evidente quebra de isonomia, em
caso de provimento do REsp ou RE interposto contra o julgamento do IRDR. (Informativo n. 693)

PROCESSO EDCL no REsp 1.785.364/CE, Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda


Turma, por unanimidade, julgado em 06.04.2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Fazenda Pública. Sentença ilíquida. Honorários advocatícios. Fixação de
percentual após a liquidação do julgado. Art. 85, § 4º, II, do CPC/2015.
Majoração dos honorários na instância superior. Impossibilidade.
DESTAQUE
Não cabe ao STJ majorar honorários advocatícios ainda a serem fixados em liquidação de sentença, na forma
do inciso II, do § 4º, do art. 85 do CPC/2015.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
No caso analisado, as instâncias ordinárias condenaram a parte sucumbente ao pagamento de honorários
"em percentual incidente sobre o valor da condenação a ser fixado por ocasião da liquidação de sentença, na
forma preconizada no inciso II, do § 4º, do art. 85 do CPC/2015".
O dispositivo estabelece que, proferida sentença ilíquida nas causas em que a Fazenda Pública for parte, a
definição do percentual dos honorários só ocorrerá após a liquidação do julgado. O objetivo da norma é evitar
desproporção na fixação da verba honorária, que tem maior chance de acontecer enquanto não conhecida a base
de cálculo.
Sendo esse o caso analisado, não há como o STJ majorar honorários ainda não definidos, não apenas por
impossibilidade lógica, mas também o art. 85, § 4º, II, do CPC/2015, deve ser observado, inclusive, pela instância
superior.
O fato de a parte sucumbente ter insistido em sua pretensão, sem êxito no recurso interposto, deve ser
considerado pelo Juízo da liquidação no momento em que for definir o percentual da verba honorária.
(Informativo n. 691)

PROCESSO REsp 1.887.589/GO, Rel. Min. Og Fernandes, Segunda Turma, por


unanimidade, julgado em 06.04.2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Cumprimento de sentença contra a Fazenda Pública. Alegação de excesso.
Ausência de planilha de cálculos. Art. 535, § 2º, do CPC. Concessão de prazo.
Possibilidade.
DESTAQUE
A alegação da Fazenda Pública de excesso de execução sem a apresentação da memória de cálculos com a
indicação do valor devido não acarreta, necessariamente, o não conhecimento da arguição.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O art. 535, § 2º, do CPC prevê consequência específica para a não indicação do valor que a Fazenda Pública
entende correto em sua impugnação ao cumprimento de sentença, qual seja, o não conhecimento da arguição
de excesso de execução.

188
Todavia, esta Corte possui jurisprudênciano sentido de que "eventuais erros materiais nos cálculos
apresentados para o cumprimento de sentença não estão sujeitos à preclusão, sendo possível ao magistrado,
inclusive, encaminhar os autos à contadoria, de ofício, para apurar se os cálculos estão em conformidade com o
título em execução"(AgInt no AREsp 1.364.410/RS, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, julgado
em 4/5/2020, DJe 8/5/2020).
Assim, em regra, a ausência de indicação do valor que a Fazenda Pública entende como devido na impugnação
enseja o não conhecimento da arguição de excesso, por existência de previsão legal específica nesse sentido (art.
535, §2º, do CPC).
No entanto, tal previsão legal não afasta o poder-dever de o magistrado averiguar a exatidão dos cálculos à
luz do título judicial que lastreia o cumprimento de sentença, quando verificar a possibilidade de existência de
excesso de execução.

Tal entendimento encontra respaldo inclusive no próprio Código de Ritos, em seu art. 526, §§ 1º e 2º, cuja
aplicação é cabível nos cumprimentos de sentença contra a Fazenda Pública, com as devidas adaptações.
Nesse sentido, se é cabível a remessa dos autos à contadoria do juízo para a verificação dos cálculos, é razoável
a concessão de prazo para apresentação darespectiva planilha pela Fazenda Pública, documento quepode
inclusive vir a facilitar o trabalho daquele órgão auxiliar em eventual necessidade de manifestação.
(Informativo n. 691)

PROCESSO REsp 1.821.336-SP, Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, por
unanimidade, julgado em 04/02/2020, DJe 22/10/2020
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Convenção Modelo da OCDE. Soft law. Prequestionamento. Não configuração.
DESTAQUE
A menção a convenções abstratas que não possuem validade e eficácia no Direito Interno não é suficiente à
configuração do prequestionamento, mesmo que em sua forma implícita.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
No caso, a corte de origem menciona o art. 12 da Convenção Modelo da OCDE para concluir que os valores
remetidos ao exterior não se enquadram no conceito de royalties, pois os serviços prestados pela impetrante
não implicam transferência de [Link] análise superficial, pode induzir a reconhecimento do
prequestionamento implícito da maté[Link] entanto, uma peculiaridade: a referência ao art. 12 da Convenção
Modelo da OCDE, instrumento de soft law por excelência, não é suficiente à configuração do
[Link] outras palavras, a menção à abstrata Convenção Modelo da OCDE, que não possui, per
si, validade e eficácia no Direito Interno, não é suficiente à configuração do prequestionamento, mesmo que em
sua forma implícita. Apenas a apreciação das concretas convenções firmadas com base em tal modelo e
internalizadas no ordenamento jurídico nacional, essas sim normas jurídicas aptas a produzir efeitos no País,
supriria o requisito para conhecimento do apelo [Link] desprezar a relevância interpretativa dos princípios
e normas de Direito Público Internacional, não é possível o reconhecimento do prequestionamento implícito,
baseado em mera recomendação internacional, que nem sequer se enquadra no conceito de "lei federal" para
fins de interposição de Recurso [Link], a redação do art. 12 da Convenção Modelo da OCDE (lato
sensu) não é suficiente à conclusão que a parte recorrente pretende ver acolhida. Apenas com análise de cada
Protocolo específico, questão não suscitada pela recorrente na Corte de origem, é possível definir o alcance da
expressão "informações correspondentes á experiência adquirida no setor industrial, comercial ou científico".
Esse é o ponto central da argumentação do Recurso Especial, que não foi tratado no acórdão recorrido e não foi
objeto da oposição de aclaratórios. (Informativo n.684 )

189
TERCEIRA TURMA
Voltar ao Sumário.

PROCESSO REsp 1.840.376-RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 25/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Alienação judicial do bem. Intimação. Defensoria Pública. Art. 889, II, do
CPC/2015. Intimação pessoal do devedor. Desnecessidade. Art. 186, § 2º, do
CPC/2015. Inaplicabilidade.
DESTAQUE
É prescindível a intimação direta do devedor acerca da data da alienação judicial do bem, quando representado
pela Defensoria Pública.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia reside na definição da amplitude e da aplicação do § 2º do art. 186 do CPC/2015, segundo o qual,
"a requerimento da Defensoria Pública, o juiz determinará a intimação pessoal da parte patrocinada quando o
ato processual depender de providência ou informação que somente por ela possa ser realizada ou prestada".
Por um lado, observa-se que o referido dispositivo objetiva facilitar a defesa judicial da parte representada pela
Defensoria Pública, que, muitas vezes, nem consegue o contato direto com os seus assistidos, motivado pela
ausência de telefone, pela falta dos dados necessários para realizar a própria comunicação ou pela condição
socioeconômica do assistido. Por outro, algumas informações ou atos, por sua natureza, devem ser praticados
pela própria parte, o que inviabiliza que sejam levados a efeito diretamente pelo defensor.
Em tais situações, caberá ao Poder Judiciário, inclusive em respeito aos princípios da cooperação e da
efetividade da tutela jurisdicional (arts. 6º e 8º do CPC/2015), após o requerimento da Defensoria Pública,
determinar igualmente a notificação pessoal dos assistidos, utilizando-se do auxílio dos oficiais de justiça.
Para tanto, a utilização do art. 186 do CPC/2015 exige que os atos a serem praticados não detenham natureza
exclusivamente técnica (ou processual), pois, se assim for, tanto a intimação quanto a manifestação caberia ao
procurador constituído nos autos.
Sob a égide da Lei n. 8.953/1994, que alterou o art. 687 do Código de Processo Civil de 1973, o devedor era
cientificado da alienação judicial por seu advogado. Por isso, a jurisprudência desta Corte Superior assentou que
"Se o executado, por intermédio da atuação de seu procurador nos autos, demonstra ter inequívoco
conhecimento da ata da hasta pública, torna-se prescindível a sua intimação pessoal" (AgInt no REsp
1.635.092/SP, Rel. Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 17/5/2018, DJe 22/5/2018).
Além disso, estabeleceu que, na fase de cumprimento de sentença, o executado é intimado na pessoa de seu
advogado, mesmo se este for defensor público. A única diferença é que o primeiro deve ser comunicado por
meio da imprensa oficial, enquanto para o segundo exige-se que a comunicação seja pessoal.
Com semelhante raciocínio, em ação de despejo por falta de pagamento, a intimação referente à purgação da
mora é dirigida ao defensor público.
O ponto comum está no fato de que a decisão que determina o pagamento ou a purga da mora não exige, por si
só, a necessidade de intimação pessoal do devedor, bastando a ciência do advogado ou do defensor público. E,
como afirmado pela Terceira Turma, "exigir a intimação pessoal do devedor na hipótese do art. 475-J, do CPC,
mesmo que apenas nas hipóteses em que ele estiver representado por defensor público, é propiciar um
retrocesso, impedindo que sejam atingidos os escopos de celeridade e efetividade" (REsp 1.032.436/SP, Rel.
Ministra Nancy Andrighi, julgado em 4/8/2011, DJe 15/8/2011).
Contudo, em caso de hasta pública, o art. 889, II, do CPC/2015, estabeleceu que "Serão cientificados da alienação
judicial, com pelo menos 5 (cinco) dias de antecedência: I - o executado, por meio de seu advogado ou, se não
tiver procurador constituído nos autos, por carta registrada, mandado, edital ou outro meio idôneo".

190
Assim, basta a intimação do advogado do devedor para cumprir a exigência processual referente ao prévio
conhecimento da praça pública do imóvel. Apenas se não houver procurador constituído nos autos, a norma
impõe a notificação direta do executado. Nesse contexto, a mesma regra vale para a parte representada pela
Defensoria Pública.
Ressalta-se que, antes de haver a alienação judicial, o devedor já teve várias oportunidades de evitar que o seu
bem respondesse pela dívida cobrada, inclusive quando teve início a fase de cumprimento de sentença. Agora,
em etapa avançada do processo, exigir a comunicação pessoal do executado a respeito do leilão, quando a norma
específica prescreve apenas a intimação na pessoa do advogado - ou do defensor público -, viola, em tese, os
princípios da celeridade e da razoável duração do processo.
Por fim, a atual codificação processual civil estipula expressamente as situações nas quais existe a necessidade
de intimação do próprio devedor, mesmo que representado pela Defensoria Pública. É o caso do cumprimento
de sentença que reconhece o dever de pagar quantia e do procedimento de adjudicação do bem penhorado.
(Informativo n. 698)

PROCESSO REsp 1.837.398-RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 25/05/2021, DJe 31/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Execução. Gratuidade de justiça. Pedido formulado por devedor. Cabimento.
Restrição da garantia à tutela jurisdicional cognitiva. Ilegalidade.
DESTAQUE
É inadmissível o indeferimento automático do pedido de gratuidade da justiça apenas por figurar a parte no
polo passivo em processo de execução.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Desde a vigência da Lei n. 1.060/1950, o deferimento da gratuidade é condicionado apenas à demonstração da
incapacidade do jurisdicionado de pagar as custas, as despesas processuais e os honorários advocatícios, sem
sacrifício do sustento próprio ou de sua família.
Nesse passo, o benefício da gratuidade de justiça tem como principal escopo assegurar a plena fruição da
garantia constitucional de acesso à Justiça, prevista no art. 5º, XXXV, da CF/1988, mediante a superação de um
dos principais obstáculos ao ajuizamento de uma ação ou ao exercício da defesa, consistente no custo financeiro
do processo.
Por isso, sequer o legislador poderia instituir regra que, invariavelmente, excluísse determinada atividade
jurisdicional do campo de incidência da gratuidade, independentemente da situação econômica do indivíduo,
sob pena de inconstitucional restrição do acesso ao Poder Judiciário às pessoas mais pobres.
Ainda, há na Lei expresso mecanismo que permite ao Juiz, de acordo com as circunstâncias concretas, conciliar
o direito de acesso à Justiça e a responsabilidade pelo ônus financeiro do processo, qual seja: o deferimento
parcial da gratuidade, apenas em relação a alguns dos atos processuais, ou mediante a redução percentual de
despesas que o beneficiário tiver de adiantar no curso do procedimento (art. 98, § 5º, do CPC).
Dessa maneira, é inquestionável que não está o Tribunal obrigado a conceder a plena gratuidade de justiça à
parte devido à declaração de insuficiência de recursos deduzida; porém, o que não se pode admitir é o
indeferimento automático do pedido, pela simples circunstância de ele figurar no polo passivo do processo de
execução. (Informativo n. 698)

191
PROCESSO REsp 1.703.707-RS, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 25/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Embargos de terceiro. Cognição limitada. Natureza constitutivo-negativa.
Cumulação de pedidos. Inadmissibilidade.
DESTAQUE
É inadmissível a cumulação de pedidos estranhos à natureza constitutivo-negativa dos embargos de terceiro.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Em regra, somente as pessoas que compõem a relação jurídico-processual é que poderão sofrer os efeitos das
decisões judiciais proferidas no respectivo processo, notadamente algum tipo de constrição judicial em seus
bens, por meio de penhora e sucessiva expropriação.
Quando, porém, o patrimônio de terceiro, sem nenhuma relação com o processo, for atingido, de maneira injusta,
pela prestação jurisdicional correlata, a lei confere um instrumento próprio para a defesa de seu interesse, a fim
de liberar o gravame judicial realizado em seus bens, qual seja, os embargos de terceiro.
A peculiaridade dos embargos de terceiro é que, a despeito de se tratar de ação de conhecimento, a sua única
finalidade é a de livrar da constrição judicial injusta os bens pertencentes a quem não é parte do processo, tanto
que o art. 681 do CPC/2015 afirma que, "acolhido o pedido inicial, o ato de constrição judicial indevida será
cancelado, com o reconhecimento do domínio, da manutenção da posse ou da reintegração definitiva do bem ou
do direito ao embargante".
Em outras palavras, os embargos de terceiro possuem cognição restrita, pois a sua análise limita-se tão somente
ao exame da legalidade do ato judicial que culminou na constrição ou ameaça de constrição sobre bens de
terceiro, não possuindo, assim, natureza condenatória.
Não se ignora que o art. 327, § 2º, do CPC/2015, ao permitir a cumulação de pedidos em um único processo,
estabelece que, "quando, para cada pedido, corresponder tipo diverso de procedimento, será admitida a
cumulação se o autor empregar o procedimento comum, sem prejuízo do emprego das técnicas processuais
diferenciadas previstas nos procedimentos especiais a que se sujeitam um ou mais pedidos cumulados, que não
forem incompatíveis com as disposições sobre o procedimento comum".
Ocorre que a referida norma processual, que permite a conversão de procedimento especial para o rito comum,
não se aplica em todo e qualquer caso.
Com efeito, conforme já decidido por esta egrégia Terceira Turma, "a partir de uma análise sistemática do CPC,
conclui-se que a regra do art. 292, § 2º [correspondente ao art. 327, § 2º, do CPC/2015], não se aplica
indiscriminadamente, como procura fazer crer a recorrente, alcançando apenas os pedidos sujeitos a
procedimentos que admitam conversão para o rito ordinário" (REsp 993.535/PR, Relatora a Ministra Nancy
Andrighi, DJe de 22/4/2010).
Assim, considerando a cognição limitada dos embargos de terceiro, cuja finalidade é tão somente de evitar ou
afastar a constrição judicial sobre bens de titularidade daquele que não faz parte do processo correlato, revela-
se inadmissível a cumulação de pedidos estranhos à sua natureza constitutivo-negativa, como, por exemplo, o
pleito de condenação do réu a indenização por danos morais, sob pena, inclusive, de tumultuar a marcha
processual célere dos embargos de terceiro, em nítida contradição com o próprio escopo do art. 327 do
CPC/2015. (Informativo n. 698)

192
PROCESSO REsp 1.837.219-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 25/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL
TEMA Propriedade intelectual. Cultivares. Contrato de licença. Royalties. Cobrança.
Prazo prescricional quinquenal.
DESTAQUE
A pretensão de cobrança de royalties decorrentes de contrato de licenciamento de uso de cultivares possui prazo
prescricional quinquenal.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A Lei n. 9.456/1997 instituiu o sistema de proteção de cultivares, consolidando a proteção intelectual no setor
de melhoramento vegetal e garantindo aos melhoristas de plantas sua exploração comercial exclusiva pelo
prazo legal.
Nesse contexto, o produtor precisará obter autorização do titular do direito para multiplicar o material
vegetativo, o que se dá por concessão de autorização ou licença de uso mediante o pagamento de royalties.
Cumpre esclarecer que para que surja a obrigação de pagar royalties é necessário que o proprietário tenha
autorizado o uso de sua cultivar. O uso de cultivar sem licença enseja a indenização por utilização indevida e
não o pagamento de royalties.
O contrato de licença deve descrever o objeto e os limites de autorização de uso, a forma de cálculo e o modo de
pagamento da contraprestação.
Existe mais de uma maneira de calcular o valor da contraprestação pela utilização de cultivar: levando-se em
conta um período de tempo para o uso, a área plantada, ou o volume, que pode corresponder a unidades, quilos
e litros. Nas últimas hipóteses, a liquidação da obrigação vai depender das informações prestadas pelo
licenciado quanto às quantidades utilizadas para a composição do valor devido, na forma do contrato.
A Lei n. 9.456/1997 não cuida do contrato de licença de uso, nem tampouco do prazo prescricional para a ação
de cobrança de royalties. Além disso, não prevê a aplicação subsidiária de outro regramento de modo que para
regular a prescrição deve ser aplicada a norma geral, isto é, o Código Civil. Entretanto, somente no caso de não
haver disciplina específica é que irá incidir o prazo geral decenal.
No caso, contudo, a apuração do valor devido depende de meros cálculos aritméticos. Assim, a pretensão é de
recebimento de dívida líquida constante de instrumento particular. Nesse contexto, deve ser aplicado o prazo
quinquenal de que trata o artigo 206, § 5º, I, do Código Civil. (Informativo n. 697)

PROCESSO REsp 1.912.277-AC, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 18/05/2021, DJe 20/05/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Exceção de pré-executividade. Juntada de prova pré-constituída ou
complementação de documentos. Possibilidade. Dilação probatória. Não
configuração.
DESTAQUE
Em sede de exceção de pré-executividade, o juiz pode determinar a complementação das provas, desde que elas
sejam preexistentes à objeção.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
De acordo com a jurisprudência consolidada desta Corte, a exceção de pré-executividade tem caráter
excepcional, sendo cabível quando atendidos simultaneamente dois requisitos, um de ordem material e outro
de ordem formal, a saber: (i) a matéria invocada deve ser suscetível de conhecimento de ofício pelo juiz; e (ii) é
indispensável que a decisão possa ser tomada sem necessidade de dilação probatória.

193
Entre as matérias passíveis de conhecimento ex officio estão as condições da ação e os pressupostos processuais.
Portanto, não há dúvida de que a ilegitimidade passiva pode ser invocada por meio de exceção de pré-
executividade, desde que amparada em prova pré-constituída.
Com relação ao requisito formal, é imprescindível que a questão suscitada seja de direito ou diga respeito a fato
documentalmente provado. A exigência de que a prova seja pré-constituída tem por escopo evitar embaraços
ao regular processamento da execução. Assim, as provas capazes de influenciar no convencimento do julgador
devem acompanhar a petição de objeção de não-executividade. No entanto, a intimação do executado para
juntar aos autos prova pré-constituída mencionada nas razões ou complementar os documentos já
apresentados não configura dilação probatória, de modo que não excede os limites da exceção de pré-
executividade.
Nessa linha de ideias, é relevante recordar que o mandado de segurança também exige prova pré-constituída
do direito líquido e certo alegado, não comportando dilação probatória. Esta Corte, todavia, consolidou
orientação no sentido de que é possível emendar a inicial do mandado de segurança, para possibilitar ao
impetrante a apresentação de documentos comprobatórios da certeza e da liquidez do direito invocado.
Outrossim, a autorização de complementação dos documentos pelo excipiente, à requerimento do juiz, encontra
alicerce no princípio da cooperação consagrado no art. 6º do CPC/2015, o qual preceitua que todos os sujeitos
do processo devem cooperar para que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva.
Esse princípio é desdobramento do princípio da boa-fé processual. Cuida-se de substancial e destacada
revolução no modelo processual até então vigente, em vista de uma maior proteção dos direitos fundamentais
dos envolvidos no processo.
Nesse cenário, a possibilidade de complementação da prova apresentada com o protocolo da exceção de pré-
executividade propicia a prestação de tutela jurisdicional adequada, efetiva e tempestiva.
Com essas considerações, tem-se que mesmo em sede de exceção de pré-executividade, com fulcro nos arts. 6º
e 321 do CPC/2015, o juiz pode determinar a complementação das provas, desde que elas sejam preexistentes
à objeção. (Informativo n. 697)

PROCESSO REsp 1.609.701-MG, Rel. Min. Moura Ribeiro, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 18/05/2021, DJe 20/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL
TEMA Alimentos. Prévio acordo extrajudicial. Validade. Posterior ação de alimentos.
Cabimento. Interesse processual. Existência. Teoria da asserção. Melhor
interesse da criança. Prevalência.
DESTAQUE
É cabível o ajuizamento de ação de alimentos, ainda que exista acordo extrajudicial válido com o mesmo objeto,
quando o valor da pensão alimentícia não atende aos interesses da criança.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia reside em saber se há interesse processual no ajuizamento de ação de alimentos, considerando
a existência de anterior acordo extrajudicial com o mesmo objeto, considerado válido e eficaz pela instância
ordinária, formalizado no Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania - CEJUS.
Como é sabido, as condições da ação, dentre elas, o interesse processual, definem-se da narrativa formulada na
inicial, não da análise do mérito da demanda, motivo pelo qual não se recomenda ao julgador, na fase
postulatória, se aprofundar no exame de tais preliminares.
É o que diz a teoria da asserção, adotada pela jurisprudência desta eg. Corte Superior, que já proclamou que os
fatos narrados na inicial constituem meras alegações de modo que, nesse momento, as condições da ação, dentre
elas o interesse processual, devem ser avaliadas in status assertionis, ou seja, de forma abstrata, à luz
exclusivamente da narrativa constante na inicial, sem o aprofundamento na matéria de mérito e dispensando
qualquer atividade probatória.

194
No caso, a pretensão deduzida na ação de alimentos fundou-se especificamente no argumento de que o valor
acordado a título de alimentos não atendia às necessidades básicas e era prejudicial à alimentada, não se
questionando sobre a validade formal do acordo.
Tal afirmativa se coaduna com o leitura dos fundamentos da petição inicial de alimentos, cuja causa de pedir e
pedido estão relacionados diretamente com a insuficiência do valor da pensão alimentícia paga pelo genitor
para atender as necessidades do infante (binômio necessidade/possibilidade), com o acréscimo de que a
genitora deste recusou o acordo antes da sua homologação.
Deve-se buscar conferir efetividade aos princípios do melhor interesse e da proteção integral do menor e do
adolescente, e, principalmente da dignidade da pessoa humana consagrados na ordem constitucional de
maneira que o trabalho interpretativo do magistrado, na solução de causa dessa natureza, seja guiado pelas
linhas mestras do sistema constitucional, pelos seus princípios, suas garantias e suas normas valorativas.
Nesse trilhar, é de se ter em mente que a questão envolve, não somente o interesse patrimonial, mas também a
dignidade da infante, que é sujeito de direitos, e não objeto, deve receber alimentos, ao menos, suficientes para
o atendimento das suas necessidades básicas, que são presumidas, considerando a sua pouca idade (atualmente
com 10 anos).
Nesta toada, conclui-se que o arrependimento e a insatisfação com os termos da avença realizada no CEJUSC,
porque não atenderia interesse indisponível e a ela teria sido prejudicial, em tese, caracterizou, sim, potencial
interesse processual. Ademais, o alegado prejuízo se confunde com o próprio mérito da ação, que se mostra
adequada para a pretensão buscada. (Informativo n. 697)

PROCESSO REsp 1.906.378-MG, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 11/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Petição Inicial. Distribuição. Cancelamento. Ausência de recolhimento de
custas. Art. 290 do CPC. Prévia citação ou intimação do réu. Desnecessidade.
ESTAQUE
O cancelamento da distribuição, a teor do art. 290 do CPC, prescinde da citação ou intimação da parte ré,
bastando a constatação da ausência do recolhimento das custas iniciais e da inércia da parte autora, após
intimada, em regularizar o preparo.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Inicialmente cumpre salientar que o art. 290 do CPC dispõe que "será cancelada a distribuição do feito se a parte,
intimada na pessoa de seu advogado, não realizar o pagamento das custas e despesas de ingresso em 15 (quinze)
dias".
Observa-se, desse modo, que o não recolhimento das custas iniciais - que representa importante pressuposto
processual - conduz ao cancelamento da distribuição.
Trata-se, a rigor, de hipótese de indeferimento da petição inicial em virtude da incorreta propositura da
demanda por ausência de preparo inicial do processo em formação.
Nesse contexto, ressalte-se que o cancelamento da distribuição prescinde da citação da parte ré, bastando a
constatação da ausência do recolhimento das custas iniciais e da inércia da parte autora, após intimada, em
regularizar o preparo.
Não bastasse ser indevida a citação da parte adversa, é imperioso observar que, nesse momento procedimental,
em regra, qualquer alusão à intimação da outra parte revela-se tecnicamente imprecisa, ante a inexistência de
relação jurídica processual triangular ou angular: o réu ainda não integra o processo.
Desse modo, constatada a ausência de recolhimento das custas iniciais e quedando-se inerte o autor após
intimado para regularizar o preparo, deve o juiz, sem a oitiva da outra parte - que, em regra, sequer integra a
relação jurídica processual -, cancelar a distribuição do processo, extinguindo o feito sem resolução do mérito.
(Informativo n. 696)

195
PROCESSO REsp 1.845.542-PR, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 11/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Recurso de apelação. Julgamento antecipado parcial do mérito. Possibilidade.
DESTAQUE
Os tribunais podem, diante do recurso de apelação, aplicar a técnica do julgamento antecipado parcial do mérito.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O art. 356 do CPC/2015 prevê, de forma clara, as situações em que o juiz deverá proceder ao julgamento
antecipado parcial do mérito. Esse preceito legal representa, portanto, o abandono do dogma da unicidade da
sentença. Na prática, significa dizer que o mérito da causa poderá ser cindido e examinado em duas ou mais
decisões prolatadas no curso do processo. Não há dúvidas de que a decisão interlocutória que julga parcialmente
o mérito da demanda é proferida com base em cognição exauriente e ao transitar em julgado, produz coisa
julgada material (art. 356, § 3º, do CPC/2015).
No entanto, o julgador apenas poderá valer-se dessa técnica, caso haja cumulação de pedidos e estes sejam
autônomos e independentes ou, tendo sido deduzido um único pedido, esse seja decomponível. Além disso, é
imprescindível que se esteja diante de uma das situações descritas no art. 356 do CPC/2015.
Presentes tais requisitos, não há óbice para que os tribunais apliquem a técnica do julgamento antecipado
parcial do mérito. Tal possibilidade encontra alicerce na teoria da causa madura, no fato de que a anulação dos
atos processuais é a ultima ratio, no confinamento da nulidade (art. 281 do CPC/2015, segunda parte) e em
princípios que orientam o processo civil, nomeadamente, da razoável duração do processo, da eficiência e da
economia processual. (Informativo n. 696)

PROCESSO REsp 1.927.496/SP, Rel. Min. Moura Ribeiro, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 27/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Negócio jurídico simulado. Nulidade. Reconhecimento em sede de embargos
de terceiro. Cabimento.
DESTAQUE
A nulidade de negócio jurídico simulado pode ser reconhecida no julgamento de embargos de terceiros.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
De início, destaca-se que não se desconhece o enunciado da Súmula 195 desta Corte (em embargos de terceiro
não se anula ato jurídico, por fraude contra credores). Porém, este enunciado é anterior ao Código Civil de 2002.

É sabido que o Código Civil em vigor alçou a simulação como causa de nulidade (não de anulabilidade), do
negócio jurídico e, dessa forma, como regra de ordem pública que é, pode ser declarada até mesmo de ofício
pelo juiz da causa (art. 168, parágrafo único, do CC/2002).
Nesse sentido, o art. 167 do CC/2002 é claro ao prescrever que é nulo o negócio jurídico simulado, mas
subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma.
Essa, inclusive, foi a conclusão firmada no Enunciado 294 da IV Jornada de Direito Civil promovida pelo
Conselho da Justiça Federal quando pontuou que: sendo a simulação uma causa de nulidade do negócio jurídico,
pode ser alegada por uma das partes contra a outra.
Dessa forma, é desnecessário oajuizamento de ação específica para se declarar a nulidade de negócio jurídico
simulado, não havendo como se restringir o seu reconhecimento em embargos de terceiros. (Informativo n.
694)

196
PROCESSO REsp 1.869.720/DF, Relator p/ acórdão Ministro Ricardo Villas Bôas
Cueva, Terceira Turma, por maioria, julgado em 27/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Título executivo. Cônjuge que não participou do processo de conhecimento.
Regime de comunhão parcial de bens. Conta bancária pessoal. Penhora de
ativos financeiros. Inadmissibilidade.
DESTAQUE
É inadmissível a penhora de ativos financeiros da conta bancária pessoal de terceiro, não integrante da
relação processual em que se formou o título executivo, pelo simples fato de ser cônjuge da parte executada com
quem é casado sob o regime da comunhão parcial de bens.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Segundo o artigo 1.658 do Código Civil, "no regime de comunhão parcial, comunicam-se os bens que
sobrevierem ao casal, na constância do casamento", com as exceções previstas em lei. Assim, sendo a dívida
adquirida na constância do casamento em benefício da unidade familiar, é possível, em regra, que ambos os
cônjuges sejam acionados a fim de adimplir a obrigação com o patrimônio amealhado na constância do
casamento.
No caso, contudo, nota-se que o cônjuge não participou do processo de conhecimento, de modo que não pode
ser surpreendido, já na fase de cumprimento de sentença, com a penhora de bens em sua conta-corrente
exclusiva.
Como cediço, o regime de bens adotado pelo casal não torna o cônjuge solidariamente responsável de forma
automática por todas as obrigações contraídas pelo parceiro (por força das inúmeras exceções legais contidas
nos artigos 1.659 a 1.666 do Código Civil) nem autoriza que seja desconsiderado o cumprimento das garantias
processuais que ornamentam o devido processo legal, tais como o contraditório e a ampla defesa.
Além disso, revela-se medida extremamente gravosa impor a terceiro, que nem sequer participou do
processo de conhecimento, o ônus de, ao ser surpreendido pela constrição de ativos financeiros bloqueados em
sua conta corrente pessoal, atravessar verdadeira saga processual por meio de embargos de terceiro na busca
de realizar prova negativa de que o cônjuge devedor não utiliza sua conta-corrente para realizar movimentações
financeiras ou ocultar patrimônio. (Informativo n. 694)

PROCESSO REsp 1.605.604/MG, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira
Turma, por unanimidade, julgado em 20/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Prestação de serviços advocatícios. Falecimento do mandante. Cláusula quota
litis. Êxito. Prescrição. Termo Inicial. Implementação de condição suspensiva.
Art. 199, I, CC/2002.
DESTAQUE
A existência de cláusula quota litis em contrato de prestação de serviços advocatícios faz postergar o início
da prescrição até o momento da implementação da condição suspensiva.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O prazo prescricional é contado, em regra, a partir do momento em que configurada lesão ao direito subjetivo,
não influindo para tanto ter ou não seu titular conhecimento pleno do ocorrido ou da extensão dos danos (art.
189 do CC/2002).
O termo inicial do prazo prescricional, em situações específicas, pode ser deslocado para o momento de
conhecimento da lesão, aplicando-se excepcionalmente a actio nata em seu viés subjetivo.
Nas ações de cobrança de honorários advocatícios contratuais, ocorrendo o falecimento do mandante, o
termo inicial da prescrição, em regra, é a data da ciência desse fato pelo advogado (mandatário).

197
A existência de cláusula quota litis em contrato de prestação de serviços advocatícios faz postergar o início
da prescrição até o momento da implementação da condição suspensiva.
No caso, por mais que a morte do mandante possa deflagrar o início do prazo prescricional, o instrumento
contratual estipulou que o recebimento da referida verba honorária está submetido ao êxito da reclamação
trabalhista e a sua exigibilidade condicionada à liberação dos valores.
Incide, portanto, o art. 199, I, CC/2002: "Não corre igualmente a prescrição (...) pendendo condição
suspensiva". (Informativo n. 693)

PROCESSO REsp 1.818.926/DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 13/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Penhora. Bem imóvel indivisível em regime de copropriedade. Alienação
judicial do bem por inteiro. Possibilidade. Art. 843 do CPC/2015. Constrição.
Limites. Quota-parte titularizada pelo devedor.
DESTAQUE
É admitida a alienação integral do bem indivisível em qualquer hipótese de propriedade em comum,
resguardando-se, ao coproprietário ou cônjuge alheio à execução, o equivalente em dinheiro da sua quota-parte
no bem.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O CPC/2015, ao tratar da penhora e alienação judicial de bem indivisível, ampliou o regime anteriormente
previsto no CPC/1973.
Sob o novo quadro normativo, é autorizada a alienação judicial do bem indivisível, em sua integralidade, em
qualquer hipótese de copropriedade. Ademais, resguarda-se ao coproprietário alheio à execução o direito de
preferência na arrematação do bem ou, caso não o queira, a compensação financeira pela sua quota-parte, agora
apurada segundo o valor da avaliação, não mais sobre o preço obtido na alienação judicial (art. 843 do
CPC/2015).
Nesse novo regramento, a oposição de embargos de terceiro pelo cônjuge ou coproprietário que não seja
devedor nem responsável pelo adimplemento da obrigação se tornou despicienda, na medida em que a lei os
confere proteção automática. Basta, de fato, que sejam oportunamente intimados da penhora e da alienação
judicial, na forma dos arts. 799, 842 e 889 do CPC/2015, a fim de que lhes seja oportunizada a manifestação no
processo, em respeito aos postulados do devido processo legal e do contraditório.

Ainda, a fim de que seja plenamente resguardado o interesse do coproprietário do bem indivisível alheio à
execução, a própria penhora não pode avançar sobre o seu quinhão, devendo ficar adstrita à quota-parte
titularizada pelo devedor.
Trata-se, pois, de um gravame imposto pela atuação jurisdicional do Estado, com vistas à realização coercitiva
do direito do credor, que, à toda evidência, não pode ultrapassar o patrimônio do executado ou de eventuais
responsáveis pelo pagamento do débito, seja qual for a natureza dos bens alcançados. (Informativo n. 692)

PROCESSO REsp 1.682.215/MG, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira
Turma, por unanimidade, julgado em 06/04/2021, DJe 08/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Execução. Desistência. Antes da citação. Embargos do devedor. Extinção sem
resolução do mérito. Honorários Advocatícios. Não cabimento. CPC/1973.
DESTAQUE
Sob a égide do CPC de 1973, não responde por honorários sucumbenciais o credor que desiste da execução
antes da citação e da apresentação dos embargos, se não houver prévia constituição de advogados nos autos.
198
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a definir se, apresentado o pedido de desistência da execução antes da citação dos
executados, os embargos do devedor devem ser apreciados ou julgados extintos e se, nessa circunstância, o
credor responde pelo pagamento dos honorários advocatícios.
O Superior Tribunal de Justiça tem julgado no sentido de que os embargos do devedor são ação de natureza
autônoma e meio de defesa no processo de execução, que visa impedir, minorar ou extinguir a pretensão do
credor contida em título extrajudicial.
Todavia, apesar da autonomia dos embargos do devedor, a sua propositura depende (i) da prévia existência
da relação processual entre exequente e executado, com a efetiva ocorrência de citação ou de comparecimento
espontâneo devedor aos autos, (ii) e da ausência de fato pretérito à angularização do processo que impeça a
continuidade da demanda executiva (a exemplo da desistência).
Na hipótese, antes da citação dos devedores, o credor postulou a desistência da demanda executiva. Assim,
os embargos opostos carecem de pressuposto da existência ou de constituição válida, visto que, repita-se, a
desistência apresentada antes da citação, faz com que o processo principal (execução) seja extinto
precocemente e a demanda incidental (embargos) fique prejudicada.
Assim, é importante ressaltar que a aplicação do art. 569, parágrafo único, do CPC/1973, pressupõe que a
desistência da execução tenha sido apresentada após os embargos. Por outro lado, se a desistência ocorrer antes
da oposição dos embargos, estes devem ser imediatamente prejudicados independentemente de versarem a
respeito de questões processuais ou materiais.
No tocante ao pagamento de honorários, deve-se atentar não somente à sucumbência, mas também ao
princípio da causalidade, segundo o qual a parte que deu causa à instauração do processo deverá suportar os
ônus sucumbenciais.
Por sua vez, a Quarta Turma deste Tribunal Superior tem entendimento no sentido de que o credor responde
pelo pagamento de honorários advocatícios quando a desistência da execução ocorrer após a constituição de
advogado e da indicação de bens à penhora, independentemente da oposição de embargos. (AgInt no REsp
1.849.703/CE, Rel. Ministro Marco Buzzi, julgado em 30/3/2020, DJe 2/4/2020).
Entretanto, na hipótese vertente, antes da desistência da demanda executiva, os devedores não constituíram
advogado nos autos e não praticaram nenhum ato processual, o que somente ocorreu após a citação. Dessa
forma, não há como atrair para o exequente a aplicação do princípio da causalidade. E assim, deve ser afastado
o pagamento da verba honorária pelo exequente. (Informativo n. 692).

PROCESSO REsp 1.900.136/SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 06/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Impugnação ao cumprimento de sentença arbitral. Vícios elencados no art. 32
da Lei n. 9.307/1996. Prazo decadencial de 90 (noventa) dias. Aplicabilidade.
DESTAQUE
A impugnação ao cumprimento de sentença arbitral, devido à ocorrência dos vícios elencados no art. 32 da
Lei n. 9.307/1996, possui prazo decadencial de 90 (noventa) dias.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A declaração de nulidade da sentença arbitral pode ser pleiteada, judicialmente, por duas vias: (i) ação
declaratória de nulidade de sentença arbitral (art. 33, § 1º, da Lei n. 9.307/1996) ou (ii) impugnação ao
cumprimento de sentença arbitral (art. 33, § 3º, da Lei n. 9.307/1996).
Se a declaração de invalidade for requerida por meio de ação própria, há também a imposição de prazo
decadencial. Esse prazo, nos termos do art. 33, § 1º, da Lei de Arbitragem, é de 90 (noventa) dias. Sua aplicação,
reitera-se, é restrita ao direito de obter a declaração de nulidade devido à ocorrência de qualquer dos vícios
taxativamente elencados no art. 32 da referida norma.

199
Assim, embora a nulidade possa ser suscitada em sede de impugnação ao cumprimento de sentença arbitral,
se a execução for ajuizada após o decurso do prazo decadencial da ação de nulidade, a defesa da parte executada
fica limitada às matérias especificadas pelo art. 525, § 1º, do CPC/2015, sendo vedada a invocação de nulidade
da sentença com base nas matérias definidas no art. 32 da Lei n. 9.307/1996. (Informativo n. 691

PROCESSO REsp 1.880.944/SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 23/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Execução de título extrajudicial. Transação antes da sentença. Art. 90, § 3º, do
CPC/2015. Aplicabilidade. Taxa judiciária. Obrigação de recolhimento.
DESTAQUE
A transação antes da sentença de execução dispensa o pagamento das custas remanescentes, o que não abrange
a taxa judiciária.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Nos termos do art. 90, § 3º, do CPC/2015, "se a transação ocorrer antes da sentença, as partes ficam dispensadas
do pagamento das custas processuais remanescentes, se houver".Na hipótese, a Corte estadual deixou de aplicar
a referida norma, pois, segundo consignou "aplica-se somente se houver acordo antes da sentença na fase de
conhecimento, o que não é o caso".A interpretação propalada, todavia, destoa do próprio texto legal. Primeiro,
porque essa norma está localizada na parte geral do Diploma Processual, o que, por si só, evidencia ser aplicável
não só ao processo de conhecimento, como também ao processo de execução. Segundo, caso fosse a intenção do
legislador restringir sua aplicação ao processo de conhecimento, teria tido a cautela de inseri-la no capítulo que
trata especificamente dessa espécie procedimental ou, ao menos, teria feito alguma referência expressa nesse
sentido, o que não se verifica.É prescindível, assim, traçar maiores considerações acerca da matéria, para
concluir que se as partes celebrarem acordo antes da sentença, seja no processo de conhecimento ou no de
execução, ficarão dispensadas do pagamento das custas [Link], despesas processuais é gênero
do qual são espécies as custas judiciais, a taxa judiciária e os emolumentos. As custas judiciais têm natureza
tributária e visam a remunerar os serviços praticados pelos serventuários em juízo. A taxa judiciária, a seu turno,
também é um tributo, mas é devida ao Estado em contraprestação aos atos processuais.O art. art. 90, § 3º, do
CPC/2015 é expresso ao referir custas remanescentes. Assim, se a legislação estadual prever o recolhimento da
taxa judiciária ao final do processo, as partes não estarão desobrigadas de recolhê-la, haja vista que não se
confunde com as custas processuais e, portanto, não se enquadra nas custas remanescentes. (Informativo n.
690)

PROCESSO REsp 1.761.543/DF, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 23/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Créditos vinculados ao FIES. Impenhorabilidade. Precedentes da Terceira
Turma do STJ. Distinção. Valores decorrentes da recompra de CFT-E.
Possibilidade de constrição.
DESTAQUE
É possível a penhora de recursos oriundos da recompra pelo FIES dos valores dos títulos Certificados
Financeiros do Tesouro - Série E (CFT-E), de titularidade das instituições de ensino, que eventualmente
sobrepujam as obrigações legalmente vinculadas.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Conforme a legislação de regência, na medida em que há a prestação do serviço educacional, os títulos
Certificados Financeiros do Tesouro - Série E (CFT-E), emitidos pelo Tesouro Nacional, são repassados às
200
Instituições de Ensino Superior (IES) para pagamento exclusivo de contribuições sociais previdenciárias e,
subsidiariamente, dos demais tributos administrados pela Receita Federal do Brasil (art. 10, caput e § 3º, da Lei
n. 10.260/2001).Após o pagamento dos referidos débitos previdenciários e tributários, o FIES recomprará os
valores de titularidade das instituições de ensino que eventualmente sobrepujam as obrigações legalmente
vinculadas, resgatando os títulos CFT-E junto às mantenedoras das IES, e entregará o valor financeiro
equivalente ao resgate, atualizado pelo Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M).A Terceira Turma do STJ
firmou a tese de que os recursos públicos recebidos por instituição de ensino superior privada são
impenhoráveis, pois são verbas de aplicação compulsória em educaçã[Link], deve-se fazer uma distinção
entre os valores impenhoráveis e aqueles penhoráveis. Os certificados emitidos pelo Tesouro Nacional (CFT-E),
de fato, não são penhoráveis, haja vista a vinculação legal da sua aplicaçã[Link] outro lado, ao receber os valores
decorrentes da recompra de CFT-E, as instituições de ensino incorporam essa verba definitivamente ao seu
patrimônio, podendo aplicá-la da forma que melhor atenda aos seus interesses, não havendo nenhuma
ingerência do poder público. Assim, havendo disponibilidade plena sobre tais valores, é possível a constrição de
tais verbas para pagamento de obrigações decorrentes das relações privadas da instituição de [Link],
o art. 10, § 1º, da Lei n. 10.260/2001, ao vedar a negociação pelas IES com outras pessoas jurídicas de direito
público dos certificados de dívida pública emitidos em favor do FIES, nada dispõe sobre os valores oriundos da
recompra dos títulos e que serão incorporados definitivamente ao patrimônio da instituição de [Link]-se,
ainda, que se fosse outro o raciocínio adotado, seria necessário que a IES prestasse contas aos órgãos de controle
do poder público sobre as quantias recebidas da recompra dos CFT-E, por se tratar de verba pública de aplicação
obrigatória, demonstrando que tais valores foram efetivamente aplicados em educação, o que não [Link]
conseguinte, vedar a constrição dos valores oriundos da recompra frustraria as expectativas dos credores da
instituição de ensino, haja vista que atualmente boa parte de sua renda é proveniente dos repasses do FIES e do
processo de recompra dos [Link] forma, não se vislumbra nenhum óbice legal à penhora dos valores
oriundos da recompra dos CFT-E, pelo contrário, mostra-se, inclusive, salutar aos ordenamentos jurídico e
econômico que essas verbas possam ser objeto de constrição em caso de inadimplemento das obrigações
decorrentes das relações privadas das IES, dando maior credibilidade ao sistema jurídico e garantindo aos
credores que haverá opções para se buscar o crédito na eventual configuração da mora da instituição de ensino.
(Informativo n. 690)

PROCESSO REsp 1.847.194/MS, Rel. Min. Marco Aurélio Belizze, por unanimidade,
julgado em 16/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Ação de exigir contas. Primeira fase. Pedido inicial julgado procedente.
Prestação de contas. Termo inicial. Intimação da decisão.
DESTAQUE
O termo inicial do prazo de 15 (quinze) dias, previsto no art. 550, § 5º, do CPC/2015, para o réu cumprir a
condenação da primeira fase do procedimento de exigir contas começa a fluir automaticamente a partir da
intimação do réu, na pessoa do seu advogado, acerca da respectiva decisão.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Na vigência do CPC/1973, prevalecia a orientação de que a contagem do prazo de 48 (quarenta e oito) horas,
que se abria ao réu para cumprir a obrigação de prestar contas, devia ser feita a partir do trânsito em julgado
da sentença, independentemente de citação ou intimação pessoal.O fundamento principal da referida tese era
de que, nos termos do art. 915, § 2º, CPC/1973, o ato que condena o réu a prestar contas possui a natureza de
sentença, impugnável por meio de apelação, dotada de efeito [Link] seu turno, à luz do atual Código de
Processo Civil, o pronunciamento que julga procedente a primeira fase da ação de exigir contas tem natureza
jurídica de decisão interlocutória de mérito, recorrível por meio de agravo de [Link] essa razão, a
contagem do prazo previsto no art. 550, § 5º, do CPC/2015 começa a fluir automaticamente a partir da intimação
do réu, na pessoa do seu advogado, acerca da respectiva decisão, porquanto o recurso cabível contra o decisum,
em regra, não tem efeito suspensivo (art. 995 do CPC/2015). (Informativo n. 689)

201
PROCESSO REsp 1.913.236/MT, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 16/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Pequena propriedade rural. Impenhorabilidade. Art. 833, VIII, do CPC/2015.
Bem explorado pela família. Ônus da prova do executado. Única propriedade.
Desnecessidade. Garantia hipotecária. Não afastamento da proteção.
DESTAQUE
Para a proteção da impenhorabilidade da pequena propriedade rural é ônus do executado comprovar que o
imóvel é explorado pela família, prevalecendo a proteção mesmo que tenha sido dado em garantia hipotecária
ou não se tratando de único bem do devedor.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Vale ressaltar que para reconhecer a impenhorabilidade nos termos do art. 833, VIII, do CPC/2015, é imperiosa
a satisfação de dois requisitos, a saber: (i) que o imóvel se qualifique como pequena propriedade rural, nos
termos da lei, e (ii) que seja explorado pela família. Até o momento, não há uma lei definindo o que seja pequena
propriedade rural para fins de impenhorabilidade. Diante da lacuna legislativa, a jurisprudência tem tomado
emprestado o conceito estabelecido na Lei n. 8.629/1993, a qual regulamenta as normas constitucionais
relativas à reforma agrária. Em seu artigo 4ª, II, alínea "a", atualizado pela Lei n. 13.465/2017, consta que se
enquadra como pequena propriedade rural o imóvel rural "de área até quatro módulos fiscais, respeitada a
fração mínima de parcelamento".A Terceira Turma desta Corte, na vigência do CPC/1973, orientava-se no
sentido de que, para o reconhecimento da impenhorabilidade, o devedor tinha o ônus de comprovar que além
de pequena, a propriedade destinava-se à exploração familiar. Ademais, como regra geral, a parte que alega tem
o ônus de demonstrar a veracidade desse fato (art. 373 do CPC/2015) e, sob a ótica da aptidão para produzir
essa prova, ao menos abstratamente, é certo que é mais fácil para o devedor demonstrar a veracidade do fato
alegado. Demais disso, o art. 833, VIII, do CPC/2015 é expresso ao condicionar o reconhecimento da
impenhorabilidade da pequena propriedade rural à sua exploração familiar. Isentar o devedor de comprovar a
efetiva satisfação desse requisito legal e transferir a prova negativa ao credor importaria em desconsiderar o
propósito que orientou a criação dessa norma, o qual consiste em assegurar os meios para a manutenção da
subsistência do executado e de sua famí[Link] efeito, a ausência de comprovação de que o imóvel penhorado
é explorado pela família afasta a incidência da proteção da [Link]ém disso, a Lei n. 7.513/1986,
responsável pela inclusão do inciso X ao art. 649 do CPC/1973, exigia expressamente que o imóvel rural
constrito fosse o único bem do [Link] que a Lei n. 11.382/2006, responsável pela alteração do antigo
diploma processual, já não mais previa esse requisito. As legislações constitucional e infraconstitucional que se
seguiram nada referem, também, acerca da necessidade de o bem penhorado ser o único imóvel de propriedade
do [Link] se extrai que ser proprietário de um único imóvel não é pressuposto para o reconhecimento
da impenhorabilidade com base na previsão do art. 833, VIII, do CPC/[Link] fim, a orientação consolidada
desta Corte é no sentido de que o oferecimento do bem em garantia hipotecária não afasta a proteção da
impenhorabilidade, haja vista se tratar de norma de ordem pública, inafastável pela vontade das partes.
(Informativo n. 689)

202
PROCESSO REsp 1.812.459/ES, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 09/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Herança jacente. Legitimidade ativa do juiz. Poderes de instauração e
instrução do procedimento. Poder dever do magistrado.
DESTAQUE
A abertura e o regular processamento da herança jacente constituem poder-dever do magistrado, sendo
inadequado o indeferimento da petição inicial em virtude de irregular instrução do feito por qualquer dos outros
legitimados ativos.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O propósito recursal consiste em definir se a instauração do procedimento especial de herança jacente por um
ente municipal, mas sem a devida instrução com os documentos indispensáveis, ainda que desatendida a
intimação para emendar a petição inicial, enseja o indeferimento da exordial e, por conseguinte, a extinção do
processo sem resolução do mérito.A herança jacente, prevista nos arts. 738 a 743 do CPC/2015, é um
procedimento especial de jurisdição voluntária que consiste, grosso modo, na arrecadação judicial de bens da
pessoa falecida, com declaração, ao final, da herança vacante, ocasião em que se transfere o acervo hereditário
para o domínio público, salvo se comparecer em juízo quem legitimamente os reclame.A instauração desse
procedimento pode ser intentada, consoante dispõem os arts. 720 e 722 do CPC/2015, por qualquer
interessado, pelo Ministério Público, pela Defensoria Pública e pela Fazenda Pública, bem como pelo juiz, de
ofício, nos termos da exegese do art. 738 do CPC/2015, segundo o qual, "nos casos em que a lei considere jacente
a herança, o juiz em cuja comarca tiver domicílio o falecido procederá imediatamente à arrecadação dos
respectivos bens"A herança jacente excepciona, com isso, o princípio da demanda (inércia da jurisdição), tendo
em vista que o CPC/2015 confere legitimidade ao juiz para atuar ativamente, independente de provocação, seja
para a instauração do processo, seja para a sua instrução.Não se instaurando o processo por iniciativa do próprio
juiz, leva-se o fato ensejador da sua abertura (morte de alguém que deixe bens sem a existência de herdeiros ou
sucessores) ao conhecimento do magistrado através da petição inicial, observando-se os arts. 319 a 321 do
CPC/2015, que definem os elementos e documentos inerentes à [Link], evidenciando-se alguma
irregularidade sanável pelo julgador, impõe-se a intimação da parte autora/requerente para emendar a inicial
(art. 321, caput, do CPC/2015), dirimindo o vício. Não atendida a contento a intimação, será o caso de
indeferimento da petição inicial (art. 321, parágrafo único, c/c o art. 330, IV, ambos do CPC/2015), culminando
na extinção do processo, sem resolução do mérito (art. 485, I, do CPC/2015).No entanto, no caso específico da
herança jacente, a regra disposta no art. 321 do CPC/2015 comporta mitigação, de forma que, mesmo que a
parte autora não supra a mácula constatada, exige-se do juiz do domicílio do autor da herança, antes da prolação
da sentença terminativa, a adoção de diligências mínimas, ao menos na comarca da sua jurisdição, a fim de
elucidar os fatos imprescindíveis ao regular processamento do feito, oficiando-se as repartições públicas locais,
os estabelecimentos que entender pertinentes, bem como a vizinhança do domicílio do [Link] porque a
lei confere legitimidade ao próprio juiz para atuar ativamente no procedimento de herança jacente,
independente de provocação, seja para iniciar o processo (art. 738 do CPC/2015), seja para instruir
devidamente o feito, devendo, inclusive, diligenciar pessoalmente no lugar em que situados os bens a serem
arrolados e expedir carta precatória a juízo de comarca diversa para a arrecadação dos bens nela
[Link], o diploma processual em vigor, visando assegurar a efetiva prestação jurisdicional, assenta o
princípio da cooperação, passando a exigir a colaboração com o Poder Judiciário não só dos sujeitos do processo,
mas também de terceiros e do Poder Público, conforme interpretação sistemática dos arts. 6º, 380 e 438 do
CPC/[Link]-se, nesse contexto, que a efetiva instrução e o regular processamento da herança jacente
constitui um poder-dever do magistrado, o qual, tendo ciência dos fatos ensejadores à abertura desse
procedimento, seja por conta própria, seja por provocação, deve proceder ativamente, adotando as medidas
mínimas necessárias e cabíveis. (Informativo n. 688)

203
PROCESSO REsp 1.837.211/MG, Rel. Min. Moura Ribeiro, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 09/03/2021, DJe 11/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA CPC/2015. Cumprimento de sentença. Intimação do executado para
pagamento, sob pena de multa e fixação de honorários. Despacho de mero
expediente. Agravo de instrumento. Descabimento.
DESTAQUE
Sob a égide do Código de Processo Civil de 2015, é irrecorrível o ato judicial que determina a intimação do
devedor para o pagamento de quantia certa.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Na vigência do CPC/1973, o início da fase de cumprimento de sentença se dava de ofício pelo juiz da causa, com
a intimação do devedor para pagar a quantia fixada na sentença transitada em julgado ou apurada em
liquidaçã[Link] forma, o Superior Tribunal de Justiça, ao interpretar o art. 475-J daquele diploma legal, firmou
entendimento que, no cumprimento de sentença, a intimação do vencido para pagamento, sob pena de
imposição de multa, tem o condão de causar gravame a parte, possuindo, portanto, conteúdo decisó[Link],
com o advento do Novo Código de Processo Civil, o início da fase de cumprimento de sentença para pagamento
de quantia certa passou a depender de requerimento do [Link] o teor do art. 523 do NCPC: "No caso de
condenação em quantia certa, ou já fixada em liquidação, e no caso de decisão sobre parcela incontroversa, o
cumprimento definitivo da sentença far-se-á a requerimento do exequente, sendo o executado intimado para
pagar o débito, no prazo de 15 (quinze) dias, acrescido de custas, se houver".Observa-se que, agora, a intimação
do devedor para pagamento se afigura como despacho de mero expediente, pois é consectário legal da
provocação do credor para a satisfação do seu crédito. O juiz simplesmente cumpre o procedimento
determinado pelo Código de Processo [Link] forma, é irrecorrível o ato judicial que determina a intimação
do devedor para o pagamento de quantia certa, por ter natureza jurídica de despacho. (Informativo n. 688)

PROCESSO REsp 1.862.676-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 23/02/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Execução de título extrajudicial. Termo final para remição. Assinatura do auto
de arrematação.
DESTAQUE
O termo final para a remição da execução é a assinatura do auto de arrematação.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A remição da execução consiste na satisfação integral do débito executado no curso do processo e impede a
alienação do bem penhorado. Essa prerrogativa está prevista no art. 826 do CPC/2015, cuja primeira parte
estabelece que "antes de adjudicados ou alienados os bens, o executado pode, a todo tempo, remir a execução
(...)".Embora o dispositivo legal colacionado faça referência à alienação, não se pode olvidar que a arrematação
se trata de um ato complexo que, nos termos do art. 903 do CPC/2015, só se considera perfeita e acabada no
momento da assinatura do auto de arrematação pelo juiz, pelo arrematante e pelo [Link] linha de
pensamento, a doutrina pondera que "mesmo depois de encerrado o pregão, mas enquanto não se firma o auto
de arrematação, ou não se publica a sentença de adjudicação, ainda é possível ao devedor remir a
execução".Logo, a arrematação do imóvel não impede o devedor de remir a execução, caso o auto de
arrematação ainda esteja pendente de assinatura. (Informativo n. 686)

204
PROCESSO REsp 1.862.676-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 23/02/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Execução de título extrajudicial. Objeto do depósito remissivo. Integralidade
da dívida executada e seus acessórios.
DESTAQUE
Para a remição da execução, o executado deve depositar o montante correspondente à totalidade da dívida
executada, acrescida de juros, custas e honorários de advogado.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O art. 826 do CPC/2015 exige, para a remição da execução, que o executado pague ou consigne "a importância
atualizada da dívida, acrescida de juros, custas e honorários advocatícios". Assim, é imprescindível que o
executado deposite o montante integral do crédito e seus acessórios.É axiomático que a importância a que se
refere a lei diz respeito ao valor da dívida exigida no processo de execução cuja remissão é pretendida.
Intepretação diversa importaria na imposição de ônus adicional ao executado e, consequentemente, em
restrição a direito que lhe é assegurado, sem qualquer respaldo na legislação processual vigente. Se mais de uma
execução estiver em trâmite em face do executado, caso assim o deseje, ele poderá remir aquela que melhor lhe
[Link] tese encontra suporte, analogicamente, no entendimento doutrinário segundo o qual mesmo
existindo diversas penhoras sobre o imóvel, "o depósito do devedor não precisa abranger, necessariamente, o
crédito de todos os participantes do concurso de preferências (art. 908). É lícito ao executado escolher a dívida
que pretende pagar, talvez com o propósito de extinguir a execução mais adiantada, em que se realizarão os atos
expropriatórios. A penhora dos demais credores subsistirá com plena eficácia. O devedor assume o risco de
remir logo adiante outra execução, se credor diverso retomar a expropriação do bem [Link] resumo,
para a remição da execução, o executado deve depositar o montante correspondente à totalidade da dívida
executada, acrescida de juros, custas e honorários de advogado, não sendo possível exigir-lhe o pagamento de
débitos executados em outras demandas. (Informativo n. 686)

PROCESSO REsp 1.706.999-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma,
por unanimidade, julgado em 23/02/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL
TEMA Partilha. Anulação. Imóveis. Registro. Herdeiros. Comunhão universal de bens.
Citação. Cônjuges. Necessidade. Litisconsórcio necessário.
DESTAQUE
No caso de a anulação de partilha acarretar a perda de imóvel já registrado em nome de herdeiro casado sob o
regime de comunhão universal de bens, a citação do cônjuge é indispensável, tratando-se de hipótese de
litisconsórcio necessário.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Conforme determina o art. 1.647 do Código Civil, a alienação, a cessão, a desistência e a renúncia de bens imóveis
necessitam de outorga uxória.O que norteia a conclusão de que o cônjuge do herdeiro deve participar do
processo é a correspondência entre a renúncia, a cessão e a desistência com a alienação de bem imóvel. Essa
situação fica ainda mais preponderante nos casos em que o herdeiro é casado sob o regime de comunhão
universal de bens, pois tudo o que houver sido adquirido por herança passa imediatamente a integrar o
patrimônio comum, cabendo ao outro cônjuge por [Link] caso de ação de anulação de partilha, parece que
o mesmo raciocínio deve orientar a verificação quanto à necessidade de participação do cônjuge do herdeiro no
processo. Assim, se houver a possibilidade de ser atingido negativamente o patrimônio do casal, com a alienação
(perda) de bem imóvel, o cônjuge do herdeiro deve ser chamado para integrar a lide. Caso contrário, é

205
dispensada sua participaçã[Link] hipótese dos autos, o regime de casamento dos herdeiros é a comunhão
universal de bens e a partilha anteriormente realizada contemplou bens imó[Link] situação, em que os
imóveis recebidos pelos recorrentes por conta da anterior partilha já foram levados a registro, integrando o
patrimônio comum do casal, mostra-se indispensável a citação do cônjuge do herdeiro para a ação de anulação
de partilha. Isso porque poderá haver a perda do imóvel que atualmente pertence a ambos, devendo a lide ser
decidida de forma uniforme para [Link] lembrar, ainda, que de acordo com o artigo 10, §1º, I, do CPC/1973
(art. 73, § 1º, I, do CPC/2015), os cônjuges serão necessariamente citados para a ação que trate de direitos reais
imobiliários (art. 1.225 do CC). Nesse contexto, se o imóvel passou a integrar o patrimônio comum, a ação na
qual se pretende a anulação da partilha envolve a anulação do próprio registro de transferência da propriedade
do bem, mostrando-se indispensável a citação. (Informativo n. 686)

PROCESSO REsp 1.761.068-RS, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Rel. Acd. Min.
Nancy Andrighi, Terceira Turma, por maioria, julgado em 15/12/2020,
DJe 18/12/2020
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Cumprimento de sentença. Impugnação. Termo inicial. Término do prazo para
pagamento voluntário do débito. Art. 525 do CPC/2015. Garantia do juízo.
Irrelevância.
DESTAQUE
O prazo para impugnação se inicia após 15 (quinze) dias da intimação para pagar o débito, ainda que o executado
realize o depósito para garantia do juízo no prazo para pagamento voluntário, independentemente de nova
intimação.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Na vigência do CPC/1973, prevaleceu na Segunda Seção que, havendo depósito judicial do valor da execução, a
constituição da penhora é automática, independente da lavratura do respectivo termo, motivo pelo qual o prazo
para oferecer embargos do devedor deveria ser a data da efetivação do depósito judicial da quantia objeto da
ação de execuçã[Link] orientação tinha em vista a previsão do art. 738, I e II, do CPC/1973, em sua redação
originária, anterior à reforma da Lei n. 11.232/2005, que estabelecia a garantia do juízo como pressuposto dos
embargos do devedor e que previa que o prazo para a sua apresentação de embargos tinha início com a
intimação da penhora ou do termo de depósito [Link] CPC/2015, com a redação do art. 525, § 6º, a garantia
do juízo deixa expressamente de ser requisito para a apresentação do cumprimento de sentença, passando a se
tornar apenas mais uma condição para a suspensão dos atos [Link] fato, nos termos do § 3º do art. 523
do CPC/2015, somente após não ter sido efetuado o pagamento no prazo de 15 dias da intimação do executado
será expedido, desde logo, o mandado de penhora e avaliação, o que se justifica pelo fato de que, conforme a
doutrina, "antes de decorrido o prazo para pagamento voluntário não se justifica a prática de atos
executivos".Não por outra razão, o art. 525, caput, dispõe que o prazo de 15 (quinze) dias para a apresentação
da impugnação se inicia após o prazo do pagamento voluntário, independentemente de nova
intimaçã[Link], portanto, se o mandado de penhora só pode ser expedido após o prazo de 15 (quinze)
dias do pagamento espontâneo, não há razão para se considerar que a garantia do juízo é pré-requisito da
apresentação da impugnação ao cumprimento de sentenç[Link] mesma forma, se, nos termos do CPC/1973,
segundo a redação do § 1º do art. 475-J, tão logo o juízo estivesse assegurado pela constrição de bens - requisito
de admissibilidade da reação do devedor -, deveria ser realizada a intimação da penhora, quando, então,
querendo, poderia o devedor apresentar impugnação no prazo de quinze dias; na atual redação do CPC/2015, a
garantia do juízo é completamente dispensável para viabilizar a impugnação, sendo, assim, igualmente,
dispensada a intimação, na hipótese de penhora, ou o reconhecimento da ocorrência de comparecimento
espontâneo, por meio do depósito, para que o prazo para a impugnação comece a ter curso, porquanto não têm
essas circunstâncias qualquer influência sobre esse fato [Link], a apresentação de garantia do
juízo não supre eventual falta intimação, eis que, na forma dos arts. 523 e 525 do CPC/2015, a intimação para a
apresentação da impugnação, se houver interesse, já se torna perfeita com a intimação para pagar o débito,

206
tendo início automático após o prazo de 15 (quinze) dias para o cumprimento espontâneo da obrigaçã[Link],
por disposição expressa do art. 525, caput, do novo CPC, mesmo que o executado realize o depósito para garantia
do juízo no prazo para pagamento voluntário, o prazo para a apresentação da impugnação somente se inicia
após transcorridos os 15 (quinze) dias contados da intimação para pagar o débito, previsto no art. 523 do
CPC/2015, independentemente de nova intimação. (Informativo n. 684)
PROCESSO RMS 63.202-MG, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, Rel. Acd. Min. Nancy
Andrighi, Terceira Turma, por maioria, julgado em 01/12/2020, DJe
18/12/2020
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Decisão que indefere requerimento consensual de designação da audiência de
conciliação prevista no art. 334 do CPC. Impugnação imediata. Via adequada
após tema repetitivo 988. Agravo de instrumento. Excepcional utilização do
Mandado de Segurança. Impossibilidade absoluta.
DESTAQUE
Não é admissível, nem excepcionalmente, a impetração de mandado de segurança para impugnar decisões
interlocutórias após a publicação do acórdão em que se fixou a tese referente ao tema repetitivo 988, segundo
a qual "o rol do art. 1.015 do CPC é de taxatividade mitigada, por isso admite a interposição de agravo de
instrumento quando verificada a urgência decorrente da inutilidade do julgamento da questão no recurso de
apelação".
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a definir se, após a publicação do acórdão em que se fixou a tese referente ao tema
repetitivo 988, é admissível, ainda que excepcionalmente, a impetração de mandado de segurança para
impugnar decisões interlocutó[Link], é preciso reconhecer desde logo a premissa no sentido de que
ser inócuo e inútil impugnar, apenas em apelação ou em contrarrazões, a decisão interlocutória que indefere a
designação da audiência de conciliação pretendida pelas [Link] fato, de nada adiantará, do ponto de vista
prático, uma eventual impugnação diferida sobre um ato processual que se pretende seja praticado no início do
processo, especialmente porque diante da irreversibilidade dos efeitos que serão produzidos com a referida
decisão e dos danos alegadamente sofridos pelas [Link] a via impugnativa adequada, a decisão judicial
que, a requerimento do réu, indefere o pedido de designação da audiência de conciliação prevista no art. 334,
caput, do CPC, ao fundamento de dificuldade de pauta, proferida após a publicação do acórdão que fixou a tese
da taxatividade mitigada, somente é impugnável por agravo de instrumento e não por mandado de
seguranç[Link] seja excepcionalmente admissível a impugnação de decisões judiciais lato sensu por
mandado de segurança, não é admissível, nem mesmo excepcionalmente, a impugnação de decisões
interlocutórias por mandado de segurança após a tese firmada no tema repetitivo 988, que estabeleceu uma
exceção ao posicionamento há muito adotado nesta Corte, especificamente no que tange à impugnabilidade das
interlocutórias, de modo a vedar, em absoluto, a impugnação dessa espécie de decisão pelas partes mediante
mandado de segurança, porque há via impugnativa recursal apropriada, o agravo de instrumento. (Informativo
n. 684)

207
QUARTA TURMA
Voltar ao Sumário.

PROCESSO REsp 1.518.203-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 27/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO EMPRESARIAL
TEMA Validade e eficácia de duplicata. Requisitos essenciais e meras
irregularidades. Necessidade de diferenciação. Interpretação conforme usos e
costumes do lugar de sua celebração.
DESTAQUE
A cártula, contendo todos os requisitos essenciais previstos no art. 2º, § 1º, da Lei das Duplicatas, tem validade
e eficácia de duplicata, mesmo que não siga rigorosamente as medidas do modelo estabelecido na Resolução do
Bacen n. 102/1968 e tenha, também, a descrição da mercadoria objeto da compra e venda e uma fatura da
mercadoria objeto da negociação.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia consiste em saber se cártula, ainda que contenha todos os requisitos essenciais previstos no
art. 2º, § 1º, da Lei das Duplicatas, tem sua validade e sua eficácia desconstituídas, retirando sua natureza por
apresentar "também a descrição da mercadoria objeto da compra e venda, uma fatura da mercadoria objeto da
negociação", e não observar, com precisão, "os limites do documento, com altura mínima de 148 mm e máxima
de 152 mm e largura mínima de 203 mm e máxima de 210 mm", conforme modelo estabelecido na Resolução
do Bacen n. 102/1968.
O art. 113 do Código Civil dispõe que os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa-fé e os
usos do lugar de sua celebração. Assim, não é comum que o sacado e endossatários se valham de régua, por
ocasião, respectivamente, do aceite e da operação de endosso, para aferição do preenchimento preciso das
dimensões de largura e altura da cártula.
Como se sabe, são três modalidades de duplicata, quais sejam: a) a cartular, assinada em papel; b) as assinadas
por certificado digital, denominadas no mercado de securitização de recebíveis de "duplicata digital"; c) as
correspondentes às informações presentes nos boletos bancários, inicialmente denominadas "duplicata virtual"
ou "eletrônica", a teor da mais técnica nominação atribuída pela Lei n. 13.775/2018, "duplicata sob a forma
escritural".
Na verdade, a "praxe mercantil aliou-se ao desenvolvimento da tecnologia e desmaterializou a duplicata,
transformando-a em 'registros eletromagnéticos, transmitidos por computador pelo comerciante ao banco. O
banco, a seu turno, faz a cobrança, mediante expedição de simples aviso ao devedor - os chamados 'boletos', de
tal sorte que o título em si, na sua expressão de cártula, somente vai surgir se o devedor se mostrar inadimplente.
Do contrário, - o que corresponde à imensa maioria dos casos - a duplicata mercantil atem-se a uma
potencialidade que permite se lhe sugira a designação de duplicata virtual'.
Vale observar que os requisitos essenciais da Duplicata, os quais devem ser devidamente supridos sob pena
de retirar o valor do de título de crédito do documento estão claramente previstos no art. 2º, § 1º, da Lei das
Duplicatas, que estabelece que a cártula conterá: I - a denominação "duplicata", a data de sua emissão e o número
de ordem; II - o número da fatura; III - a data certa do vencimento ou a declaração de ser a duplicata à vista; IV
- o nome e domicílio do vendedor e do comprador; V - a importância a pagar, em algarismos e por extenso; VI -
a praça de pagamento; VII - a cláusula à ordem; VIII - a declaração do reconhecimento de sua exatidão e da
obrigação de pagá-la, a ser assinada pelo comprador, como aceite, cambial; IX - a assinatura do emitente.

208
Assim, a imprecisão das medidas formais da cártula caracteriza mera e irrelevante irregularidade, cuja pecha
de inexistência não encontra respaldo nos usos e costumes, caracterizando formalismo totalmente incompatível
com o direito empresarial, isto é, não caracteriza vício que afete a validade e eficácia do título de crédito, não
sendo também compatível com a boa-fé objetiva que a sacada dê o aceite sem nenhuma oposição e, até mesmo
maneje a presente "ação declaratória de inexigibilidade de duplicata mercantil", e, contraditoriamente, venha a
dizer que o documento não caracteriza duplicata.
Igualmente, não perece razoável o entendimento de que, como a cártula apresenta também a descrição da
mercadoria objeto da compra e venda, uma fatura da mercadoria objeto da negociação, o que desnatura e
descaracteriza por completo o título como duplicata.
Isso porque a descrição da mercadoria, a par de caracterizar uma duplicata da fatura na própria acepção do
termo, a toda evidência, embora represente redobrada cautela, não pode ser caracterizado nem sequer algo
descabido, pois o art. 2º, § 2º, dispõe que uma duplicata tem que corresponder a uma única fatura. (Informativo
n. 694)

PROCESSO REsp 1.512.001-SP, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 27/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Acidente de trânsito. Evasão do local. Dano moral in re ipsa. Inexistência.
Produção probatória. Necessidade
DESTAQUE
A omissão de socorro à vítima de acidente de trânsito, por si, não configura hipótese de dano moral in re ipsa.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A omissão de socorro incontestavelmente possui elevada gravidade social, tanto que constitui o crime
omissivo tipificado no art. 135 do Código Penal, ou, ainda, pode configurar conduta criminosa prevista no Código
de Trânsito Brasileiro (arts. 304 e 305).
De fato, considerando a solidariedade um imperativo de ordem moral, de sua ausência pode decorrer um
dever jurídico, como na omissão de socorro. Assim, todos são obrigados a agir para ajudar alguém que se
encontre em estado de perigo, na medida de suas possibilidades, ou seja, sem risco pessoal.
No entanto, relevante ressaltar que, por afastar a necessidade da demonstração do dano moral, a presunção
judicial dificulta a defesa do réu. Diante disso, a dedução lógica da ocorrência do dano deve ser restrita a casos
muito específicos de ofensa a direitos da personalidade.
Segundo dispõe o art. 944 do CC/2002, a indenização deve somente reparar o dano daquele que foi atingido,
na correta medida do prejuízo suportado.
Importa destacar que, para ser caracterizado o dano moral, deve-se previamente traçar o limite entre os
meros incômodos da vida em sociedade e os fatos ensejadores da indenização.
Conquanto reconhecer que a evasão do réu do local do acidente pode, de fato, causar ofensa à integridade
física e psicológica da vítima, verifica-se também a possibilidade de, dependendo do contexto fático, não existir
violação a direito da personalidade, razão pela qual há relevância em avaliar as particularidades envolvidas em
cada caso concreto.
Realmente, haverá circunstâncias em que a fuga do réu, sem previamente verificar se há necessidade de
auxílio aos demais envolvidos no acidente, superará os limites do mero aborrecimento e, por consequência,
importará na devida compensação pecuniária do sofrimento gerado. Por outro lado, é possível conceber
situação hipotética em que a evasão do réu do local do sinistro não causará transtorno emocional ou psicológico
à vítima.
É prudente, portanto, averiguar as peculiaridades que envolvem o caso concreto para constatação do dano
moral, tais como: I) se alguém se feriu gravemente; II) se houve pronto socorro por terceiros; III) se a pessoa
ferida estava consciente após o acidente; IV) se, em decorrência do atraso do socorro, houve alguma sequela e
qual sua extensão; e v) se a vítima possuía condição física e emocional de conseguir sozinha ajuda, entre outros
fatores.

209
Sob esse prisma, o contexto do ato ilícito e suas consequências danosas, assim como o nexo causal, devem ser
devidamente examinados pelo julgador por intermédio das alegações das partes e das provas produzidas,
atendendo aos princípios do contraditório e da ampla defesa.
Feitas essas considerações, a omissão de socorro, por si, não configura hipótese de dano moral in re ipsa, sob
pena de negar vigência ao disposto nos arts. 186 e 927 do CC/2002. (Informativo n. 694)

PROCESSO REsp 1.236.057-SP, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 06/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL
TEMA Bem de família. Protesto contra alienação. Cabimento. Requisitos. Legítimo
interesse. Não prejudicialidade efetiva da medida.

DESTAQUE
É cabível a averbação de protesto contra alienação em matrícula de imóvel considerado bem de família.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O protesto possui previsão legal no art. 867 do CPC/1973, segundo o qual "todo aquele que desejar prevenir
responsabilidade, prover a conservação e ressalva de seus direitos ou manifestar qualquer intenção de modo
formal, poderá fazer por escrito o seu protesto, em petição dirigida ao juiz, e requerer que do mesmo se intime
a quem de direito". O Código de Processo Civil de 2015, em seu art. 301, arrolou o registro de protesto contra
alienação de bem como uma das formas de tutela de urgência de natureza cautelar.

Além disso, a "averbação, no Cartório de Registro de Imóveis, de protesto contra alienação de bem, está
dentro do poder geral de cautela do juiz (art. 798, CPC) e se justifica pela necessidade de dar conhecimento do
protesto a terceiros, prevenindo litígios e prejuízos para eventuais adquirentes" (EREsp 440.837/RS, Rel.
Ministra Eliana Calmon, Rel. p/ Acórdão Ministro Barros Monteiro, Corte Especial, julgado em 16/08/2006, DJ
28/05/2007).
Assim, o protesto busca preservar direitos preexistentes e, por ser medida administrativa determinada
judicialmente, esgota-se no plano do registro da vontade do promovente. A inserção da informação no registro
público do imóvel é uma forma de prevenir possível alienação fraudulenta, mediante divulgação erga omnes.
Portanto, a medida não impede a disposição do bem, mas obsta que terceiro adquirente possa alegar boa-fé,
no caso de futura demanda judicial envolvendo o imóvel. Além disso, o STJ, no julgamento do RMS 35.481/SP,
interpretando o art. 869 do CPC/1973, entendeu que o protesto contra alienação de bens pressupõe a existência
de dois requisitos, quais sejam, legítimo interesse e não prejudicialidade efetiva da medida.
Em relação ao bem de família, o protesto contra alienação de bens não possui o objetivo de obstar ou anular
o negócio jurídico de venda do imóvel impenhorável, mas somente de informar terceiros de boa-fé a respeito
da pretensão do credor de penhora do bem, na hipótese de afastamento da proteção conferida pela Lei n.
8.009/1990.
Assim, estão presentes os pressupostos para o protesto contra a alienação de bens, tendo em vista que a
publicidade da pretensão é essencial para proteção de terceiros de boa-fé e preservação do direito do executante
de futura constrição do imóvel, no caso da perda da qualidade de bem de família. (Informativo n. 692)

210
PROCESSO REsp 1.135.682-RS, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 13/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL
TEMA Cédula de crédito comercial garantida por alienação fiduciária. Ajuizamento
de ação de busca e apreensão. Interrupção da prescrição. Citação válida. Art.
202, inciso V, do Código Civil.
DESTAQUE
O ajuizamento da ação de busca e apreensão fundada no inadimplemento da cédula de crédito comercial
garantida por alienação fiduciária, com a citação válida do devedor, interrompe o prazo para propor ação de
execução com base no mesmo título de crédito.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Conforme a regra do art. 202, inciso V c/c parágrafo único, do Código Civil, qualquer ato judicial que constitua
em mora o devedor interrompe a prescrição, que voltará a ser contada somente após o trânsito em julgado da
decisão judicial que ponha fim ao processo que a interrompeu.
No caso, as partes celebraram uma cédula de crédito - pacto cuja finalidade é incentivar a atividade comercial
através do empréstimo remunerado de capital. O objetivo do tomador do empréstimo é obter o crédito para
fomentar sua atividade empresarial; já o objetivo da instituição financeira é reaver o valor emprestado, com
juros e demais acréscimos legais.
A cláusula de alienação fiduciária é acessória e serve de garantia para que o credor, diante do
inadimplemento, receba o capital emprestado. Assim, afirmar que a ação de busca e apreensão tem como
propósito obter o bem dado em garantia implica tomar o acessório pelo principal.
Quando a instituição financeira ajuizou a ação de busca e apreensão e citou validamente a embargada,
constituiu em mora a devedora; isso significa dizer que a ré estava inadimplente com a obrigação principal da
cédula de crédito comercial: restituir, conforme acordado, o capital emprestado pelo autor. Inexistente a mora,
que é requisito essencial, haveria carência de ação.
Mais um indicativo de que a finalidade do processo é a restituição do capital emprestado era a possibilidade
de purgação da mora, na redação do art. 3º, § 1º, do Decreto-Lei n. 911/1969, anterior à Lei n. 10.931/2004. O
devedor, até então, poderia adimplir as parcelas atrasadas, e o pacto seguia seu curso normal. Ainda hoje, pode
o devedor pagar a integralidade da dívida, cumprindo a obrigação principal.

Assim, patente que a finalidade da ação de busca e apreensão é o cumprimento da obrigação expressa na
cédula de crédito comercial - assim como o é a ação de execução, proposta com base no mesmo título. Não é
possível afastar a constituição em mora do devedor - fato que, a teor do já mencionado art. 202, inciso V, e
parágrafo único, do Código Civil, implicou a interrupção da prescrição até o trânsito em julgado do processo.
(Informativo n. 692)

PROCESSO REsp 1.412.247-MG, Rel. Min. Antônio Carlos Ferreira, Quarta Turma,
por unanimidade, julgado em 23/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL
TEMA Indenização por morte. DPVAT. Seguro de vida. Identidade.
Impenhorabilidade. CPC/1973, art. 649, VI (CPC/2015, art. 833, VI).
Incidência.
DESTAQUE
Os valores pagos a título de indenização pelo "Seguro DPVAT" aos familiares da vítima fatal de acidente de
trânsito gozam da proteção legal de impenhorabilidade ditada pelo art. 649, VI, do CPC/1973 (art. 833, VI, do
CPC/2015), enquadrando-se na expressão "seguro de vida".

211
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
"O Seguro DPVAT tem a finalidade de amparar as vítimas de acidentes causados por veículos automotores
terrestres ou pela carga transportada, ostentando a natureza de seguro de danos pessoais, cujo escopo é
eminentemente social, porquanto transfere para o segurador os efeitos econômicos do risco da
responsabilidade civil do proprietário em reparar danos a vítimas de trânsito, independentemente da existência
de culpa no sinistro" (REsp 876.102/DF, Rel. Ministro Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, julgado em
22/11/2011, DJe 01/02/2012).Sob uma perspectiva teleológica da proteção conferida ao "seguro de vida" pelo
art. 649, VI, do CPC/1973 (art. 833, VI, do CPC/2015), os valores pagos pelo "seguro DPVAT" devem receber o
mesmo tratamento, evidenciando cobertura que, conquanto obrigatória, em tudo se identifica com a
indenização paga em razão do "seguro de pessoa" previsto pelo art. 789 e ss. do CC/[Link] fato, a indenização
paga pelo "seguro DPVAT", sobretudo quando ocorre a morte da vítima do acidente automobilístico, também
tem objetivo de atenuar os efeitos que a ausência do falecido pode ensejar às finanças de sua família, revelando
indubitável natureza [Link] a doutrina, "ao instituir a impenhorabilidade do seguro de vida, quis
o legislador assegurar a efetividade da proteção patrimonial que o segurado [ou, no caso do DPVAT, a própria
lei instituidora] desejou destinar aos beneficiários; o valor devido pela empresa seguradora a esse título não é
penhorável por dívidas destes nem do espólio ou do autor da herança, porque em qualquer dessas hipóteses tal
intuito estaria frustrado".Forçoso concluir que o "seguro de vida" e o "seguro DPVAT", previsto nas Leis Federais
n. 6.194/1974 e 8.374/1991, longe de evidenciar natureza e objetivos distintos, em verdade guardam estreita
semelhança, sobretudo no que se refere à finalidade de sua indenização, motivo pelo qual é inafastável, tanto
para um quanto para o outro, a impenhorabilidade ditada pela lei processual - ubi eadem ratio ibi eadem
dispositio. Não se trata, pois, de aplicação analógica do dispositivo legal, senão o enquadramento do "seguro
DPVAT" dentro da previsão contida na lei processual. (Informativo n. 690)

PROCESSO REsp 1.909.451-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 23/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Apelação. Art. 1.013 do CPC/2015. Efeito devolutivo. Extensão. Pedido
recursal. Capítulo não impugnado. Trânsito em julgado. Proibição de
reformatio in pejus. Contraditório. Indispensabilidade.
DESTAQUE
A extensão do efeito devolutivo da apelação é definida pelo pedido do recorrente e qualquer julgamento fora
desse limite não pode comprometer a efetividade do contraditório, ainda que se pretenda aplicar a teoria da
causa madura.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A apelação visa à obtenção de novo pronunciamento sobre a causa, com reforma total ou parcial da sentença do
juiz de primeiro grau. Nessa extensão, conforme a doutrina, "as questões de fato e de direito tratadas no
processo, sejam de natureza substancial ou processual, voltam a ser conhecidas e examinadas pelo
tribunal".Esse recurso é interposto contra sentença (art. 1.009, caput, CPC/2015), podendo
compreender todos, ou apenas alguns, itens ou capítulos da decisão judicial recorrida, a depender da
delimitação apresentada pelo recorrente na interposição do apelo, limitando, assim, a atuação do
órgão ad quem na solução do mérito recursal.O diploma processual civil de 2015 é
suficientemente claro ao estabelecer que "a apelação devolverá ao tribunal o conhecimento da matéria
impugnada", cabendo o órgão ad quem apreciar e julgar "todas as questões suscitadas e discutidas no processo,
ainda que não tenham sido solucionadas, desde que relativas ao capítulo impugnado" (art. 1.013, § 1º, do
CPC/2015).Assim, o efeito devolutivo da apelação define o que deverá ser analisado pelo órgão recursal. O
"tamanho" dessa devolução se definirá por duas variáveis: sua extensão e sua profundidade. A extensão do efeito
devolutivo é exatamente a medida daquilo que se submete, por força do recurso, ao julgamento do órgão ad
[Link] do âmbito da devolução, o tribunal poderá apreciar todas as questões suscitadas e discutidas no
processo, ainda que não tenham sido solucionadas pela sentença recorrida, mas a extensão do que será
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analisado é definida pelo pedido do recorrente. Em seu julgamento, o acórdão deverá se limitar a acolher ou
rejeitar o que lhe for requerido pelo apelante, para que não haja ofensa ao princípio da disponibilidade da tutela
jurisdicional e o da adstrição do julgamento ao [Link] o capítulo não impugnado pelo adversário do
apelante, e que eventualmente a reforma pudesse significar prejuízo ao recorrente, incide a coisa julgada. Assim,
não há se pensar em reformatio in pejus, já que qualquer providência dessa natureza esbarraria na res
[Link], é intuitivo concluir que a solução de questão estranha ao que fora estabelecido pelo
recorrente - mesmo que exclusivamente referente à matéria de ordem pública -, ao ensejo de decidir o processo
ou algum incidente no seu curso, comprometerá a efetividade do contraditó[Link] acrescentar, por
oportuno, outro viés impeditivo do julgamento pelo órgão ad quem fora dos limites apresentado pelo autor do
recurso, sem que haja respeito ao contraditório. É que, ainda que se pretenda valer-se da teoria da causa madura,
prestigiada de modo explícito no § 3º do art. 1.013 do CPC/2015, a falta do contraditório acerca da questão
decidida se apresentaria como barreira ao próprio cumprimento daquela [Link] nos ensina a
doutrina, para considerar-se madura a causa não basta, por exemplo, que a questão de mérito a ser decidida
seja apenas de direito. "Mesmo que não haja prova a ser produzida, não poderá o Tribunal enfrenta-lo no
julgamento da apelação formulada contra a sentença terminativa, se uma das partes ainda não teve
oportunidade processual adequada de debater a questão de mérito. Estar o processo em condições de imediato
julgamento significa, em outras palavras, não apenas envolver o mérito da causa questão só de direito que se
deve levar em conta, mas também a necessidade de cumprir o contraditório" (Informativo n. 690)

PROCESSO REsp 1.910.317-PE, Rel. Min. Antônio Carlos Ferreira, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 02/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Resultado unânime do acórdão de apelação. Embargos de declaração. Aptidão
para alteração do resultado. Técnica de julgamento ampliado. Aplicabilidade.
DESTAQUE
Deve ser aplicada a técnica de julgamento ampliado nos embargos de declaração toda vez que o voto divergente
possua aptidão para alterar o resultado unânime do acórdão de apelação.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia principal diz respeito à possibilidade de aplicação da técnica de julgamento ampliado nos
embargos de declaração, tendo em vista ter o voto divergente concedido efeito infringente aos embargos para
reformar o decidido unanimemente no recurso de apelaçã[Link] depreende-se do disposto no art. 942 do
CPC/2015: Quando o resultado da apelação for não unânime, o julgamento terá prosseguimento em sessão a ser
designada com a presença de outros julgadores, que serão convocados nos termos previamente definidos no
regimento interno, em número suficiente para garantir a possibilidade de inversão do resultado inicial,
assegurado às partes e a eventuais terceiros o direito de sustentar oralmente suas razões perante os novos
[Link], diversamente dos embargos infringentes, previsto no art. 530 do CPC/1973 - recurso
cabível quando acórdão não unânime julgar a apelação e reformar a sentença de mérito -, na técnica de
julgamento ampliado não há necessidade de alteração do resultado da decisão de primeira instância, mas apenas
que haja divergência no julgamento do recurso de apelaçã[Link], o requisito de modificação da sentença pelo
Tribunal ficou previsto apenas para as hipóteses de ação rescisória e agravo de instrumento (art. 942, § 3º, I e
II, do CPC/2015).Ademais, apesar de o art. 942 do CPC/2015 não mencionar a possibilidade de a divergência
ocorrer apenas em sede de embargos de declaração, deve ser considerado seu efeito integrativo, de modo que
há a complementação e incorporação dos fundamentos e do resultado no acórdão [Link] tal contexto,
quando há aptidão dos embargos de declaração para influenciar o julgamento que os precedeu, modificando-
lhes a conclusão unânime, devem ser convocados outros julgadores, na forma do art. 942 do CPC/2015.
(Informativo n. 687)

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PROCESSO REsp 1.707.014/MT, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 02/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Ação de prestação de contas. Interesse de agir do inventariante. Natureza
dúplice da demanda. CPC/2015.
DESTAQUE
Na vigência do CPC/2015, remanesce o interesse de agir do inventariante na ação de prestação de contas,
mantido o caráter dúplice da demanda.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A ação de prestação de contas tem por escopo aclarar o resultado da administração de negócios alheios
(apuração da existência de saldo credor ou devedor) e, sob a regência do CPC de 1973, ostentava caráter dúplice
quanto à sua propositura, podendo ser deduzida tanto por quem tivesse o dever de prestar contas quanto pelo
titular do direito de [Link] contexto, o dever de prestar contas incumbia àquele que administrava bens
ou interesses alheios, ao passo que o direito de exigi-las cabia àquele em favor do qual os negócios haviam sido
geridos. A apuração de saldo credor, em favor de uma das partes, implicava a prolação de sentença condenatória
em detrimento do [Link] ordem de ideias, pelo novel diploma, a legitimidade ativa para propor a
presente ação é apenas daquele que tem seus bens, valores ou interesses administrados por outrem, isto é, por
aquele que detém a pretensão de exigir contas (CPC, art. 550). Como se percebe, o referido procedimento
especial é voltado tão somente para a ação de exigir contas, ficando a pretensão de dar contas relegada ao
procedimento [Link] entanto, não se pode olvidar que a pretensão de dar contas sempre teve um
procedimento mais simples, já que o autor, de plano, reconhecia o seu dever de prestar as contas, limitando-se
o seu mérito a desincumbir de tal mister, recebendo a quitação ou vendo declarado eventual saldo
credor/devedor em relação a [Link] destacar, ademais, que embora o dever de dar contas seja único e
idêntico, o regime jurídico processual da prestação de contas é diverso, a depender se a administração é legal
ou contratual, notadamente em razão dos ditames do novo art. 550 do CPC, voltado às obrigações derivadas de
um dever negocial de prestá-las (advogado, depositário, administrador de empresa, síndico, dentre outras), e
da contrapartida ao art. 553, destinado processualmente às obrigações determinadas pela lei (inventariante,
administrador da falência, tutor, curador, dentre outros).Ademais, assim como consagrado
jurisprudencialmente sob a égide do CPC de 1973, o Codex de 2015 explicitou o dever do autor de, na petição
inicial, especificar, detalhadamente, as razões pelas quais exige as contas, instruindo-a com documentos
comprobatórios dessa necessidade, se existirem.São as causas de pedir remota e próxima, as quais devem ser
deduzidas, obrigatoriamente, na exordial, a fim de demonstrar a existência de interesse de agir do
[Link], o inventariante é o administrador e o representante legal do espólio, incumbindo a ele prestar
as primeiras e últimas declarações, exibir em cartório os documentos relativos ao espólio, juntar aos autos
certidões e documentos, trazer à colação os bens recebidos pelo herdeiro ausente, renunciante ou excluído e
requerer a declaração de insolvência (CPC, art. 618). Ainda, ouvidos os interessados e com autorização do juiz,
alienar bens, transigir, pagar dívidas e fazer despesas necessárias para conservação e melhoramento dos bens
do espólio (CPC, art. 619).Dentre os deveres do inventariante está - e aqui é importante o destaque -, o dever de
"prestar contas de sua gestão ao deixar o cargo ou sempre que o juiz lhe determinar" (CPC, art. 618, VII; CPC/73,
art. 991, VII). Portanto, não pode o inventariante encerrar seu mister sem que antes apresente as contas de sua
gestão. Com efeito, a atribuição do inventariante é exigência da norma, razão pela qual é obrigado a prestar
contas e, por consectário lógico, o seu interesse de agir, para ajuizar a presente ação autônoma de prestação de
contas, é presumido.Não se pode olvidar que, apesar do Código de Processo prever que o incidente de prestação
de contas do inventariante deve ser apresentado em apenso aos autos do inventário (CPC, art. 553), pode
ocorrer a finalização do processo sucessório sem o acertamento das despesas. Além do mais, como se sabe, o
inventariante pode vir, futuramente, a ser civilmente responsável pelos [Link] modo, sobressai,
nesses casos, o interesse de agir do inventariante na ação de prestação de contas pelo rito especial dos arts. 552
e 553 do CPC/2015 (e não do art. 550 do mesmo código).Por fim, anote-se que, apesar de não ser um

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procedimento bifásico, a prestação de contas deve ter mantida o seu caráter dúplice, podendo haver débitos ou
créditos a ser liquidados pela sentença. (Informativo n. 687)

PROCESSO Resp 1.691.882-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão; Quarta Turma, por
unanimidade; julgado em 09/02/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Execução. Verba de financiamento do BNDES. Programa de Capitalização de
Cooperativas Agropecuárias (PROCAP-AGRO). Recurso público com
destinação social. Impenhorabilidade
DESTAQUE
São absolutamente impenhoráveis os recursos públicos recebidos do Programa de Capitalização por
Cooperativas Agropecuárias.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A penhora deve recair sobre o conjunto de bens do devedor suficientes para o pagamento do principal
atualizado, juros, custas e honorários advocatícios (CPC/2015, art. 831). No entanto, por razões de cunho
humanitário e de solidariedade social, voltados à proteção do executado e de sua família, estabeleceu o
legislador a vedação de atos expropriatórios em relação a certos bens destinados a conferir um mínimo
necessário a sobrevivência digna do devedor (CPC/2015, art. 832).Ademais, as medidas executivas previstas
pela norma devem receber uma exegese à luz da Constituição, uma vez que almejam a realização de direitos
fundamentais e porque, em sua realização, também podem atingir direitos fundamentais. Sob essa ótica, afigura-
se mais adequada a interpretação teleológica das impenhorabilidades, diante da finalidade da norma e em
conformação com os princípios da justiça e do bem comum, a fim de se evitar o sacrifício de um direito
fundamental em relação a outro.O Diploma processual civil estabeleceu como absolutamente impenhoráveis os
recursos públicos recebidos por instituições privadas para aplicação compulsória em educação, saúde ou
assistência social (649, IX, do CPC/1973; CPC/2015, art. 833, X). O legislador, em juízo ex ante de ponderação e
numa perspectiva de sociabilidade, optou por prestigiar os recursos públicos com desígnios sociais em
detrimento do pagamento de crédito ao exequente, salvaguardando o direito coletivo de sujeitos
indeterminados favorecidos pelos financiamentos nas áreas de educação, saúde ou assistência [Link] caso,
os recursos recebidos pela Cooperativa agropecuária se enquadram na tipicidade do art. 649, IX, do CPC/1973
(art. 833, IX, CPC/2015), seja por se tratar de financiamento público, seja pelo evidente caráter assistencial da
verba - programa de capitalização das cooperativas agropecuárias (PROCAP-AGRO) para fomento de atividade
com interesse coletivo e para a recuperação das Cooperativas -, devendo ser tidos por absolutamente
impenhoráveis. (Informativo n. 685)

PROCESSO REsp 1.907.653-RJ, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 23/02/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL
TEMA Extinção contratual. Cláusula resolutiva tácita. Art. 475 do Código Civil.
Pedidos alternativos. Pedido de cumprimento ou a resolução do contrato.
Opção do lesado. Momento. Antes da sentença.
DESTAQUE
Em ação de extinção contratual com cláusula resolutiva, é lícito à parte lesada optar entre o cumprimento
forçado ou o rompimento do contrato, desde que antes da sentença.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia sobre pedido formulado de forma alternativa, com fundamento na cláusula resolutiva
tácita prevista no art. 475 do Código Civil e não, de obrigação pactuada com natureza alternativa, instituto
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tratado nos arts. 252 a 256 do mesmo Código.É lícito à parte lesada optar pelo cumprimento forçado ou pelo
rompimento do contrato, não lhe cabendo, todavia, o direito de exercer ambas a alternativas simultaneamente.
A escolha, uma vez feita, pode variar, desde que antes da sentenç[Link] a doutrina, a ação para a resolução
do contrato pode ser exercida "em substituição da ação para cumprimento, ainda que esta já tenha sido
intentada, desde que não haja sentença, porque só esta (e não o simples pedido judicial) é decisiva e extingue o
direito de escolha que, entre os dois remédios, a lei concede".Assim, julgado procedente o pedido de condenação
do devedor ao cumprimento do contrato, não cabe deferir, simultaneamente, ao credor, a pretensão de
resolução do pacto. (Informativo n. 686)

PROCESSO REsp1.810.444-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 23/02/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Negócio jurídico processual. Art. 190 do CPC/2015. Limites. Contraditório.
Vulnerabilidade da parte. Inexistência. Requisito de validade. Transação de
ato judicial. Aquiecência do juiz. Necessidade.
DESTAQUE
O negócio jurídico processual que transige sobre o contraditório e os atos de titularidade judicial se aperfeiçoa
validamente se a ele aquiescer o juiz.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia dos autos consiste na verificação dos possíveis limites impostos pelo diploma legal ao objeto do
negócio jurídico processual. Na hipótese, a questão é definir a possibilidade das partes estipularem, em negócio
jurídico processual prévio, que haverá, em caso de inadimplemento contratual, o bloqueio de ativos financeiros
para fins de arresto e penhora, em caráter inaudita altera parte e sem necessidade de se prestar [Link]
acordo com a doutrina, o negócio jurídico processual é "o instrumento por excelência da autonomia privada,
correspondendo justamente à modalidade de ato lícito que permite ao particular escolher os efeitos a serem
produzidos, os quais serão tão somente reconhecidos e tutelados pelo ordenamento na medida em que se
mostrem compatíveis, estrutural e funcionalmente, com os limites da legalidade".O art. 190 do CPC/2015
formalizou a adoção da teoria dos negócios jurídicos processuais, conferindo, assim, certa flexibilização
procedimental ao processo, tendo em mira a promoção efetiva do direito material discutido.É certo que não é
de hoje a existência de hipóteses isoladas e tipificadas de negócios jurídicos processuais. Todavia, ganha
destaque a sistematicidade com que o novo Código de Processo Civil articulou uma cláusula geral de negociação,
consagrando a atipicidade como meio apto à adequação das demandas às especificidades da causa e segundo a
conveniência dos litigantes, sempre, é claro, moldada pelos limites impostos pelo ordenamento jurí[Link],
não se sujeita a um juízo de conveniência pelo juiz, prevista a recusa de sua aplicação "somente nos casos de
nulidade ou de inserção abusiva em contrato de adesão ou em que alguma parte se encontre em manifesta
situação de vulnerabilidade".A doutrina preconiza que, nada obstante, quando evidenciado um conflito entre
alguma das típicas garantias processuais formadoras da tutela justa (contraditório, igualdade, ampla defesa) e
a manifestação volitiva das partes, o magistrado, diante do caso concreto, deverá realizar um exame de
ponderação entre os valores [Link] caso, no exercício da função fundamental de conferir efetividade às
convenções, preservando a materialidade da garantia constitucional, consideram-se transpostos os limites
impostos à celebração, em razão de seu [Link], o objeto de negociação investigado merece reprimenda
também pelo fato de transigir sobre atos de titularidade [Link] linha de intelecção, no que respeita ao
caso concreto, é possível afirmar que todas as vezes que a supressão do contraditório conduzir à desigualdade
de armas no processo, o negócio processual, ou a cláusula que previr tal situação, deverá ser considerado
invá[Link] ponto, vislumbrando o juiz, na análise do instrumento, que a transação acerca do contraditório
não torna uma das partes vulnerável, dada as peculiaridades do caso, é possível reconhecer-lhe validade.
(Informativo n. 686)

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PROCESSO REsp1.817.109-RJ, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 23/02/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL, DIREITO MARCÁRIO
TEMA Registro de marca. Ação de nulidade. INPI. Participação processual.
Obrigatoriedade.
DESTAQUE
Em ação de nulidade de registro de marca, a natureza da participação processual do INPI, quando não figurar
como autor ou corréu, é de intervenção sui generis (ou atípica) obrigatória, na condição de assistente especial.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A Lei n. 9.279/1996 (LPI) regula os direitos e obrigações relativos à propriedade industrial, definindo, ainda, o
procedimento a ser adotado nas ações de nulidade de patente e de registro de desenho industrial e de marcas
(artigos 57, 118 e 175).Em qualquer das aludidas pretensões, segundo as normas indicadas, deverá ocorrer a
intervenção do INPI, autarquia federal responsável pelo aperfeiçoamento, pela disseminação e pela gestão do
sistema brasileiro de concessão e garantia de direitos de propriedade [Link] tocante à nulidade do
registro de marca, o caput do artigo 175 da LPI estabelece que "a ação de nulidade do registro será ajuizada no
foro da justiça federal e o INPI, quando não for autor, intervirá no feito".A referida ação, portanto, poderá ser
proposta tanto pelo INPI como por qualquer outra pessoa (física ou jurídica) com legítimo interesse (artigo
173), mas, em não sendo a autarquia a autora, deverá, obrigatoriamente, intervir no feito, sob pena de
[Link] desse contexto normativo, precedentes desta Corte - envolvendo discussões sobre ônus
sucumbencial e honorários recursais - consagraram o entendimento de que, na ação de nulidade de patente ou
de registro de marca (ou de desenho industrial), a atuação processual do INPI, quando não figurar como autor
ou corréu, terá a natureza de intervenção sui generis (ou atípica), na condição de assistente especial (ou até de
amicus curiae), por se dar de forma obrigatória, tendo em vista o interesse público encartado na sua finalidade
institucional de proteção eficiente da propriedade industrial com o necessário estímulo ao desenvolvimento
tecnológico e econômico do país, observada a livre iniciativa, a função social da propriedade e a defesa do
mercado [Link] tal ótica, destaca-se precedente da Terceira Turma, exarado por ocasião do
julgamento do Recurso Especial 1.775.812/RJ - da relatoria do eminente Ministro Marco Aurélio Bellizze -, que,
ao versar sobre a legitimidade processual do INPI para impugnar sentença extintiva de reconvenção
apresentada por corréu, reconheceu a natureza dinâmica do litisconsórcio exercido pela autarquia, que não fica
adstrita a qualquer um dos polos da [Link] modo, fala-se em uma "migração interpolar" do INPI, a
exemplo do que ocorre na ação popular e na ação de improbidade, nas quais a pessoa jurídica de direito público
ou de direito privado, cujo ato seja objeto de impugnação, pode abster-se de contestar o pedido, ou atuar ao lado
do autor, desde que isso se afigure útil ao interesse público, nos termos dos artigos 6º, § 3º, da Lei n. 4.717/1965
e 17, § 3º, da Lei n. 8.429/1992. (Informativo n. 686)

PROCESSO REsp 1.188.443-RJ, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, Rel. Acd. Min. Luis
Felipe Salomão, Quarta Turma, por maioria, julgado em 27/10/2020,
DJe 18/12/2020
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Planos e seguros de saúde. Ação coletiva vindicando descumprimento de
norma emitida pela ANS. Litisconsórcio passivo necessário da União e da ANS.
Imprescindibilidade.
DESTAQUE
Há litisconsórcio passivo necessário da União e da Agência Nacional de Saúde em ação coletiva que afete a esfera
do poder regulador da entidade da Administração Pública.

217
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Trata-se de ação coletiva que tem como causa de pedir a invocação de que a Resolução n. 13/1998 do Conselho
de Saúde Suplementar - Consu, reproduzida em cláusulas de contratos de planos e seguros de saúde das rés,
alegadamente extrapolou os lindes estabelecidos pela Lei n. 9.656/1998, ao impor o limite, no período de
carência contratual, de 12 horas para atendimento aos beneficiários dos planos ambulatoriais e hospitalares.
Com efeito, o exame da higidez do ato administrativo é questão prejudicial ao acolhimento do pedido, que
implica tacitamente obstar seus efeitos, ao fundamento de violação de direito de terceiros (beneficiários de
planos e seguros de saúde).Por um lado, o art. 4º, incisos I, XXIX e XXX, da Lei n. 9.961/2000 estabelece que
compete à Agência Nacional de Saúde Suplementar - ANS: I - propor políticas e diretrizes gerais ao Conselho de
Saúde Suplementar - Consu para a regulação do setor de saúde suplementar; XXIX - fiscalizar o cumprimento
das disposições da Lei n. 9.656, de 1998, e de sua regulamentação; XXX - aplicar as penalidades pelo
descumprimento da Lei n. 9.656, de 1998, e de sua regulamentação. Por outro lado, o contrato (o regulamento
contratual) não se confunde com o instrumento contratual, sendo as normas legais e os atos das autoridades
constituídas - notadamente em se tratando de relação contratual a envolver a saúde suplementar, que sofre
forte intervenção estatal -, juntamente com a vontade das partes (que exprime o poder de autonomia), os
agentes típicos das limitações à liberdade contratual dos particulares, isto é, são as fontes do regulamento
contratual, para cuja concreta determinação, segundo as circunstâncias e em diferentes medidas, podem
[Link] termos do art. 47 do CPC/1973, há litisconsórcio necessário quando, por disposição de lei "ou
pela natureza da relação jurídica", o juiz tiver de decidir a lide de modo uniforme para todas as partes. E o art.
114 do CPC/2015 também estabelece que o litisconsórcio será necessário por disposição de lei ou quando, pela
natureza da relação jurídica controvertida, a eficácia da sentença depender da citação de todos que devam ser
litisconsortes. Já o art. 115, I, do CPC/2015 dispõe que a sentença de mérito, quando proferida sem a integração
do contraditório, será nula, se a decisão deveria ser uniforme em relação a todos que deveriam ter integrado o
[Link], orienta a doutrina que parte legítima para a causa é quem figura na relação como titular dos
interesses em lide ou, ainda, como substituto processual. No tocante aos substituídos da ação civil pública e às
inúmeras seguradoras e operadoras de planos de saúde rés, o pedido mediato da ação, bem como o decidido
pelas instâncias ordinárias, pretensamente esvazia os efeitos do ato regulamentar administrativo (que vincula
fornecedores e consumidores), a par de ensejar a possibilidade de coexistência de decisões inconciliáveis, caso
o ato administrativo venha a ser questionado na Justiça Federal e considerado hí[Link] a
jurisprudência da Primeira Seção do STJ, há litisconsórcio passivo necessário quando o pedido formulado na
inicial da ação afetar a esfera do poder regulador de entidade da administração pú[Link] linha, não se
tratando de ação coletiva visando dar cumprimento à regulamentação legal e/ou infralegal - hipótese mais
frequente, em que é inquestionável a competência da Justiça Estadual e a ausência de interesse institucional da
União e da ANS -, mas de tentativa, por via transversa, sem a participação das entidades institucionalmente
interessadas, de afastar os efeitos de disposição cogente infralegal, ocasionando embaraço às atividades
fiscalizatórias e sancionatórias da ANS, sem propiciar às entidades da administração pública federal o exercício
da ampla defesa e do contraditório, até mesmo para eventualmente demonstrarem o interesse público na
manutenção dos efeitos da norma, devem integrar o polo passivo da demanda a União e a ANS. (Informativo n.
684)

218
DIREITO PROCESSUAL PENAL

219
CORTE ESPECIAL
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PROCESSO EAREsp 1.663.952-RJ, Rel. Min. Raul Araújo, Corte Especial, por maioria,
julgado em 19/05/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL PENAL, DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Processo eletrônico. Lei n. 11.419/2006. Duplicidade de intimações.
Contagem dos prazos processuais. Termo inicial. Portal Eletrônico.
Prevalência.
DESTAQUE
O termo inicial de contagem dos prazos processuais, em caso de duplicidade de intimações eletrônicas, dá-se
com a realizada pelo portal eletrônico, que prevalece sobre a publicação no Diário da Justiça (DJe).
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia cinge-se a aferir o termo inicial de contagem dos prazos processuais quando houver duplicidade
das intimações eletrônicas previstas na Lei n. 11.419/2006 (Lei do Processo Eletrônico), mais especificamente
as intimações ocorridas no Diário da Justiça Eletrônico (DJe) e no Portal Eletrônico.
A respeito da temática, coexistem nesta Corte Superior três vertentes jurisprudenciais.
A corrente jurisprudencial defensora de que, se ambas as formas de intimações forem feitas em relação ao
mesmo ato processual, deve prevalecer a realizada no Diário da Justiça Eletrônico, afirma que a própria Lei do
Processo Eletrônico, no § 2º do art. 4º, estabelece que a publicação dos atos judiciais e administrativos, realizada
no Diário da Justiça eletrônico, disponibilizado em sítio da rede mundial de computadores, substitui qualquer
outro meio e publicação oficial, para quaisquer efeitos legais, exceto nos casos que, por lei, se exigir intimação
ou vista pessoal.
A corrente jurisprudencial que defende deva prevalecer a intimação realizada pelo Portal Eletrônico salienta
que, nos termos do art. 5º da Lei do Processo Eletrônico, as intimações feitas por meio eletrônico em portal
próprio a publicação no órgão oficial, inclusive eletrônico. Argumenta-se, ademais, que o Novo Código de
Processo Civil, no art. 270, prestigia o meio eletrônico, como forma preferencial de comunicação dos atos
processuais, e que a intimação pela publicação em órgão oficial deve ser utilizada de forma subsidiária à
intimação eletrônica em face do disposto no art. 272 do NCPC.
Por sua vez, a terceira corrente jurisprudencial, segundo a qual, havendo duplicidade de intimações, deve
prevalecer a primeira validamente efetuada, alicerça-se no fundamento de que, para todos os efeitos, as partes
e seus advogados tomam ciência do ato judicial ou administrativo logo na primeira intimação oficialmente
realizada, que, normalmente, costuma ser a publicação da imprensa eletrônica, podendo a partir de então
recorrer ou promover o ato processual adequado. Portanto, não é concebível que se aguarde a ultimação da
outra intimação para se considerar devidamente cientificado.
Na sequência, convém diferenciar os dois tipos de comunicação dos atos processuais previstos na Lei do
Processo Eletrônico, que aqui estão em debate - intimação pelo Portal Eletrônico e intimação pelo Diário da
Justiça Eletrônico.
De um lado, a intimação pelo Diário Eletrônico de Justiça envolve a inserção da informação em diário publicado
periodicamente. O servidor insere a informação no jornal eletrônico do Tribunal, o qual é disponibilizado, em
regra, ao final do dia. Há regra específica segundo a qual a publicação do ato judicial é considerada no dia
seguinte ao da disponibilização, marcando o começo dos prazos processuais. Os prazos são contados com a
exclusão do dia do começo e com a inclusão do dia do término. Logo, o primeiro dia do prazo ocorre apenas no
dia seguinte ao considerado como data da publicação.

220
De outro lado, a intimação pelo Portal Eletrônico implica o envio da comunicação por intermédio de um sistema
eletrônico de controle de processos, cada vez mais utilizado no âmbito do Poder Judiciário. A comunicação do
ato processual ocorre "por dentro" do sistema informatizado. O advogado, devidamente cadastrado, acessa o
processo judicial eletrônico e é intimado. Há um prazo de dez (10) dias para acesso à informação. Após o envio
da intimação pelo processo judicial eletrônico, a parte tem dez (10) dias para consultar o teor da informação.
Caso consulte a informação dentro desse lapso temporal, o ato judicial será considerado publicado no dia da
consulta, dando-se início ao cômputo do prazo a partir do primeiro dia subsequente. Caso não consulte nos dez
(10) dias previstos, a intimação será automática, de maneira que será considerada realizada na data do término
desse prazo, independentemente de consulta, iniciando-se, a seguir, a contagem do prazo processual.
A respeito desta modalidade de notificação dos atos judiciais, estabelece o aludido art. 5º da Lei do Processo
Eletrônico que as intimações feitas por meio de Portal Eletrônico dispensam a publicação no órgão oficial,
inclusive eletrônico.
Dito isso e partindo-se da premissa de que, diante de procedimento do próprio Poder Judiciário que cause
dúvida, como no caso de duplicidade de intimações válidas, não pode a parte ser prejudicada - mormente
porque, em tais circunstâncias, cria-se uma incerteza no tocante ao exato termo inicial para contagem dos
prazos processuais -, considera-se que a melhor exegese é a que faz prevalecer a intimação no Portal Eletrônico
em detrimento da tradicional intimação por Diário da Justiça, ainda que atualmente esta também seja eletrônica.
Com efeito, levando-se em consideração os princípios da boa-fé processual, da confiança e da não surpresa,
atinentes ao Direito Processual, deve a norma ser interpretada da forma mais favorável à parte, a fim de se evitar
prejuízo na contagem dos prazos processuais.
Se a própria Lei do Processo Eletrônico criou essa forma de intimação, dispensando qualquer outra, e tornou
este mecanismo hábil a promover, inclusive, as intimações pessoais dos entes que possuem tal prerrogativa, não
há como afastar a conclusão de que esta regerá o prazo naturalmente em relação ao advogado que esteja
cadastrado no sistema eletrônico. Há, pois, uma presunção de validade, que leva a exigir do Poder Judiciário
comportamento condizente com os ditames legais e com a boa-fé processual.
Desse modo, entende-se que sempre que a modalidade de intimação pelo Portal Eletrônico (art. 5º da Lei n.
11.419/2006) for prevista e aplicável em determinado Tribunal para os advogados devidamente cadastrados,
deve esta prevalecer sobre a tradicional intimação pelo DJe. (Informativo n. 697)

PROCESSO APn 912/RJ, Rel. Min. Laurita Vaz, Corte Especial, por unanimidade,
julgado em 03/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Queixa-crime. Calúnia contra pessoa morta. Retratação cabal antes da
sentença. Ato unilateral. Extinção da punibilidade. Artigos 143 e 107, VI, do
Código Penal.
DESTAQUE
A retratação da calúnia, feita antes da sentença, acarreta a extinção da punibilidade do agente independente de
aceitação do ofendido.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Consoante as diretrizes do Código Penal: "Art. 143. O querelado que, antes da sentença, se retrata cabalmente
da calúnia ou da difamação, fica isento de pena. Parágrafo único. Nos casos em que o querelado tenha praticado
a calúnia ou a difamação utilizando-se de meios de comunicação, a retratação dar-se-á, se assim desejar o
ofendido, pelos mesmos meios em que se praticou a ofensa."A retratação, admitida nos crimes de calúnia e
difamação, não é ato bilateral, ou seja, não pressupõe aceitação da parte ofendida para surtir seus efeitos na
seara penal, porque a lei não exige isso. O Código, quando quis condicionar o ato extintivo da punibilidade à
aceitação da outra parte, o fez de forma expressa, como no caso do perdão ofertado pelo querelante depois de
instaurada a ação [Link] é sabido, não há como se fazer analogia in malam partem, contra o réu, para lhe
impor condição para causa extintiva da punibilidade que a Lei Penal não [Link] verdade, basta que a
retratação seja cabal. Vale dizer: deve ser clara, completa, definitiva e irrestrita, sem remanescer nenhuma

221
dúvida ou ambiguidade quanto ao seu alcance, que é justamente o de desdizer as palavras ofensivas à honra,
retratando-se o ofensor do [Link], em se tratando de ofensa irrogada por meios de comunicação -
como no caso, que foi por postagem em rede social na internet -, o parágrafo único do art. 143 do Código Penal
dispõe que "a retratação dar-se-á, se assim desejar o ofendido, pelos mesmos meios em que se praticou a ofensa".A
norma penal, ao abrir ao ofendido a possibilidade de exigir que a retratação seja feita pelo mesmo meio em que
se praticou a ofensa, não transmudou a natureza do ato, que é essencialmente unilateral. Apenas permitiu que
o ofendido exerça uma [Link], se o ofensor, desde logo, mesmo sem consultar o ofendido, já se
utiliza do mesmo veículo de comunicação para apresentar a retratação, não se afigura razoável desmerecê-la,
porque o ato já atingiu sua finalidade legal. (Informativo n. 687)

TERCEIRA SEÇÃO
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PROCESSO CC 175.033-GO, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, Terceira Seção, por
unanimidade, julgado em 26/05/2021, DJe 31/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL E DO TRABALHO, DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Sequestro penal e penhora trabalhista. Pluralidade de constrições
patrimoniais sobre o mesmo bem. Possibilidade. Antecipação, pelo Juízo
trabalhista, da prática do ato expropriatório. Usurpação de competência.
Primazia da medida constritiva penal. Interesse público e inteligência do art.
133 do CPP. Competência do Juízo penal para a prática dos atos
expropriatórios, sem declaração de nulidade do ato praticado pelo Juízo
trabalhista. Reversão da quantia obtida em prol da constrição penal.
DESTAQUE
Incorre em usurpação de competência o Juízo cível ou trabalhista que pratica ato expropriatório de bem
sequestrado na esfera penal.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Inexistindo disposição legal em sentido contrário, afigura-se possível a coexistência de múltiplas constrições
patrimoniais sobre um mesmo bem, decretadas por Juízes diversos, sem implicar na usurpação de competência
por quaisquer deles.
No entanto, é possível cogitar o conflito positivo da discussão acerca da existência ou não de primazia da medida
assecuratória de índole penal (sequestro) sobre a decretada em sede de reclamação trabalhista (penhora), de
modo a elucidar se a conduta do Juízo trabalhista, no sentido de antecipar a prática de ato expropriatório
referente a bem sob o qual ainda recaia constrição decretada pelo Juízo criminal, consubstanciou usurpação de
competência do último.
Inicialmente, cumpre rememorar que o sequestro é medida assecuratória voltada à retenção de bens móveis e
imóveis do indiciado ou acusado, ainda que em poder de terceiros, quando adquiridos com os proventos da
infração (art. 125 do CPP) para que deles não se desfaça, durante o curso da ação penal, de modo a assegurar a
indenização da vítima ou impossibilitar ao agente que tenha lucro com a atividade criminosa. Transitada a ação
penal e inexistindo ofendido a requerer a indenização, são os proventos do delito confiscados em prol da
Fazenda Pública (arts. 133, § 1º, do CPP e 91, II, b, do Código Penal) e submetidos a alienação judicial ou
transferidos diretamente ao ente público (art. 133-A, § 4º, do CPP).
De outra parte, a hipoteca legal (art. 134 do CPP) e o arresto (art. 136 do CPP) são direcionados à constrição do
patrimônio lícito do acusado, a fim de que dele não se desfaça e dando garantia ao ofendido ou à Fazenda Pública
de que o acusado não estará insolvente ao final do processo criminal, de modo a assegurar a reparação do dano
por ele causado.

222
Tais medidas assecuratórias penais ostentam natureza distinta, pois enquanto o sequestro ostenta um interesse
público - retenção e confisco dos bens adquiridos com os proventos da infração -, o arresto e a hipoteca legal
ostentam interesse nitidamente privado - constrição do patrimônio lícito para fins de reparação de dano -,
convicção essa robustecida na diversidade do procedimento para expropriação desses bens, pois enquanto os
bens sequestrados são expropriados no Juízo penal (art. 133 do CPP), os bens arrestados ou hipotecados, em
sede penal, são expropriados no Juízo cível (art. 143 do CPP).
Assim, considerando a natureza peculiar da medida assecuratória penal de sequestro (art. 125 do CPP) -
verificada a partir do interesse público (aquisição com proventos da infração penal) e do fato de que a
expropriação ocorre na seara penal -, deve ser reconhecida a primazia da referida constrição, frente àquela
decretada por Juízo cível ou trabalhista (penhora), sendo indiferente qual constrição foi decretada primeiro.
Logo, incorre em usurpação de competência o Juízo trabalhista que pratica ato expropriatório de bem
sequestrado na seara penal, ainda que objeto de constrição decretada em sede trabalhista (penhora).
Contudo, no caso, conquanto verificada a usurpação de competência, não deve ser declarada a nulidade do ato
expropriatório praticado pelo Juízo Trabalhista, pois os bens submetidos à alienação judicial gozam de
presunção (juris tantum), estabelecida pelo próprio Poder Judiciário e pela lei (art. 903 do CPC), de que são
desembaraçados, ou seja, livres de ônus, sendo que a declaração de nulidade implicaria em descrédito de um
instituto que depende de sua credibilidade para adesão dos arrematantes.
Desse modo, mantida a alienação, deve ser observado, no entanto, que a quantia obtida com a alienação judicial,
promovida perante o Juízo incompetente deve ser revertida em prol da constrição decretada pelo Juízo penal, a
fim de mitigar o prejuízo causado com a inobservância do direcionamento estabelecido na lei penal e processual
penal (arts. 133, § 1º, do CPP, e 91, II, b, do Código Penal). (Informativo n. 697)

PROCESSO CC 177.882-PR, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, Terceira Seção, por
unanimidade, julgado em 26/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Tráfico internacional. Importação. Apreensão da droga em Centro
Internacional dos Correios distante do local de destino. Facilidade para
colheita de provas da autoria delitiva no endereço do destinatário do
entorpecente. Competência do Juízo do local de destino da droga.
Flexibilização da Súmula n. 528 do STJ.
DESTAQUE
Compete ao Juízo Federal do endereço do destinatário da droga, importada via Correio, processar e julgar o
crime de tráfico internacional.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O núcleo da controvérsia consiste em verificar a possibilidade de redimensionar o alcance da Súmula n. 528/STJ,
a qual cuida de tráfico de drogas praticado via postal, nos mesmos moldes em que a Terceira Seção desta Corte
Superior de Justiça, no precedente do CC 172.392/SP, flexibilizou a incidência da Súmula n. 151/STJ, no caso de
contrabando e descaminho, quando a mercadoria apreendida estiver em trânsito e conhece-se o endereço da
empresa importadora destinatária da mercadoria.
Conforme Súmula n. 528/STJ, "Compete ao Juiz Federal do local da apreensão da droga remetida do exterior
pela via postal processar e julgar o crime de tráfico internacional". Feita a necessária digressão sobre os julgados
inspiradores da Súmula n. 528/STJ, constata-se que o Ministro Rogerio Schietti Cruz, no julgamento do CC
134.421/TJ (DJe 4/12/2014), propôs a revisão do seu posicionamento para, exclusivamente no caso de
importação de droga via correio (ou seja, quando conhecido o destinatário), reconhecer como competente o
Juízo do local de destino da droga. Malgrado tenha vencido a tese pela competência do local da apreensão da
droga, em nome da segurança jurídica, a dinâmica do tempo continua revelando as dificuldades investigativas
no caso de importação via correios, quando a droga é apreendida em local distante do destino conhecido.

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Com efeito, "Em situações excepcionais, a jurisprudência desta Corte tem admitido a fixação da competência
para o julgamento do delito no local onde tiveram início os atos executórios, em nome da facilidade para a coleta
de provas e para a instrução do processo, tendo em conta os princípios que atendem à finalidade maior do
processo que é a busca da verdade real" (CC 151.836/GO, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, TERCEIRA
SEÇÃO, DJe 26/6/2017).
Ademais, uma vez abraçada a tese de que a consumação da importação da droga ocorre no momento da
entabulação do negócio jurídico, o local de apreensão da mercadoria em trânsito não se confunde com o local
da consumação do delito, o qual já se encontrava perfeito e acabado desde a negociação.
Ressalte-se que a prestação jurisdicional efetiva depende de investigação policial eficiente. Caso inicialmente o
local da apreensão da droga possa apresentar-se como facilitador da colheita de provas no tocante à
materialidade delitiva, em um segundo momento, a distância do local de destino da droga dificulta sobremaneira
as investigações da autoria delitiva, sendo inegável que os autores do crime possuem alguma ligação com o
endereço aposto na correspondência.
A fixação da competência no local de destino da droga, quando houver postagem do exterior para o Brasil com
o conhecimento do endereço designado para a entrega, proporcionará eficiência da colheita de provas
relativamente à autoria e, consequentemente, também viabilizará o exercício da defesa de forma mais ampla.
Desse modo, na hipótese de importação da droga via correio cumulada com o conhecimento do destinatário por
meio do endereço aposto na correspondência, a Súmula n. 528/STJ deva ser flexibilizada para se fixar a
competência no Juízo do local de destino da droga, em favor da facilitação da fase investigativa, da busca da
verdade e da duração razoável do processo. (Informativo n. 698)

PROCESSO HC 455.097/PR, Rel. Min. Laurita Vaz, Terceira Seção, por unanimidade,
julgado em 14/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Medida cautelar de recolhimento noturno, finais de semana e dias não úteis.
Monitoração eletrônica. Detração. Possibilidade. Princípio da humanidade.
Excesso de execução. Providência cautelar que se assemelha ao cumprimento
de pena em regime prisional semiaberto. Ubi eadem ratio, ibi eadem legis
dispositio. Hipóteses do art. 42 do CP que não são numerus clausus.
DESTAQUE
É possível considerar o tempo submetido à medida cautelar de recolhimento noturno, aos finais de semana e
dias não úteis, supervisionados por monitoramento eletrônico, com o tempo de pena efetivamente cumprido,
para detração da pena.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Inicialmente, frise-se que a detração é prevista no art. 42 do Código Penal, segundo o qual se computa, "na
pena privativa de liberdade e na medida de segurança, o tempo de prisão provisória, no Brasil ou no estrangeiro,
o de prisão administrativa e o de internação em qualquer dos estabelecimentos referido no artigo anterior".
Interpretar a legislação que regula a detração de forma que favoreça o sentenciado harmoniza-se com o
Princípio da Humanidade, que impõe ao Juiz da Execução Penal a especial percepção da pessoa presa como
sujeito de direitos.
O óbice à detração do tempo de recolhimento noturno e aos finais de semana determinado com fundamento
no art. 319 do Código de Processo Penal sujeita o apenado a excesso de execução, em razão da limitação objetiva
à liberdade concretizada pela referida medida diversa do cárcere.
Note-se que a medida diversa da prisão que impede o acautelado de sair de casa após o anoitecer e em dias
não úteis assemelha-se ao cumprimento de pena em regime prisional semiaberto. Se nesta última hipótese não
se diverge que a restrição da liberdade decorre notadamente da circunstância de o agente ser obrigado a
recolher-se, igual premissa deve permitir a detração do tempo de aplicação daquela limitação cautelar. Ubi
eadem ratio, ibi eadem legis dispositio: onde existe a mesma razão fundamental, aplica-se a mesma regra jurídica.

224
O Superior Tribunal de Justiça, nos casos em que há a configuração dos requisitos do art. 312 do Código de
Processo Penal, admite que a condenação em regime semiaberto produza efeitos antes do trânsito em julgado
da sentença (prisão preventiva compatibilizada com o regime carcerário do título prisional). Nessa perspectiva,
mostra-se incoerente impedir que a medida cautelar que pressuponha a saída do paciente de casa apenas para
laborar, e durante o dia, seja descontada da reprimenda.
Essa conjuntura impõe o reconhecimento de que as hipóteses do art. 42 do Código Penal não consubstanciam
rol taxativo.
Desse modo, conclui-se que o período de recolhimento domiciliar, aplicado simultaneamente a monitoração
eletrônica, para fiscalização de seu cumprimento, deve ser objeto de detração penal. (Informativo n. 693)

PROCESSO HC 610.201/SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, Terceira Seção, por maioria,
julgado em 24/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Crime de estelionato. Regra do § 5º do art. 171 do Código Penal acrescentada
pela Lei n. 13.964/2019 (Pacote Anticrime). Representação. Condição de
procedibilidade. Aplicação retroativa a processos com denúncia já oferecida.
Inviabilidade. Ato jurídico perfeito.
DESTAQUE
A exigência de representação da vítima no crime de estelionato não retroage aos processos cuja denúncia já
foi oferecida.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia aborda a retroatividade ou não da Lei n. 13.964/19, também conhecida por Pacote Anticrime,
no que toca ao seu aspecto alterador da natureza jurídica da ação penal no delito de estelionato (art. 171 do
Código Penal). A ação que era pública incondicionada, como cediço, passou a exigir a representação da vítima,
como condição de procedibilidade, tornando-se, assim, ação pública condicionada à representação.
A celeuma então se instalou em relação àquelas ações penais já instauradas: seria a norma retroativa? A
representação da vítima seria também condição de prosseguibilidade? Ou em outros termos, a vítima, quando
já instaurada a ação penal, precisa comparecer em juízo para apresentar a sua representação?
A retroatividade da norma que previu a ação penal pública condicionada, como regra, no crime de estelionato,
é desaconselhada por, ao menos, duas ordens de motivos.
A primeira é de caráter processual e constitucional, pois o papel dos Tribunais Superiores, na estrutura do
Judiciário brasileiro é o de estabelecer diretrizes aos demais Órgãos jurisdicionais. Nesse sentido, verifica-se
que o STF, por ambas as turmas, já se manifestou no sentido da irretroatividade da lei que instituiu a condição
de procedibilidade no delito previsto no art. 171 do CP.
Em relação ao aspecto material, tem-se que a irretroatividade do art. 171, §5º, do CP, decorre da própria mens
legis, pois, mesmo podendo, o legislador previu apenas a condição de procedibilidade, nada dispondo sobre a
condição de prosseguibilidade. Ademais, necessário ainda registrar a importância de se resguardar a segurança
jurídica e o ato jurídico perfeito (art. 25 do CPP), quando já oferecida a denúncia.
Oportuno assinalar, ainda, que prevalece, tanto neste STJ quanto no STF, o entendimento no sentido de que
"a representação, nos crimes de ação penal pública condicionada, não exige maiores formalidades, sendo
suficiente a demonstração inequívoca de que a vítima tem interesse na persecução penal. Dessa forma, não há
necessidade da existência nos autos de peça processual com esse título, sendo suficiente que a vítima ou seu
representante legal leve o fato ao conhecimento das autoridades". (AgRg no HC 435.751/DF, Rel. Ministro Nefi
Cordeiro, Sexta Turma, DJe 04/09/2018). (Informativo n. 691)

225
PROCESSO HC 602.425/SC, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, Terceira Seção,
por maioria, julgado em 10/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Execução Penal. Remição da pena pelo estudo. Aprovação no Exame Nacional
para Certificação de Competência de Jovens e Adultos - ENCCEJA.
Recomendação n. 44/2013 do CNJ. Interpretação mais benéfica. Cálculo dos
50% da Carga Horária. Patamar equivalente a 1.600 horas. Remição de 133
dias. 26 dias por área de conhecimento. Reafirmação da jurisprudência da
Terceira Seção.
DESTAQUE
As 1.200 hs ou 1.600 hs, dispostas na Recomendação n. 44/2013 do CNJ, já equivalem aos 50% da carga horária
definida legalmente para cada nível de ensino, com base nas quais serão calculados os dias a serem remidos.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia diz respeito à remição da pena no patamar de 50% da carga horária definida legalmente para o
ensino fundamental, em virtude da aprovação no ENCCEJA. Questiona-se se as 1.200h/1.600h dispostas na
Recomendação n. 44/2013 do CNJ já equivalem aos 50% da carga horária definida legalmente para cada nível
de ensino ou se os 50% incidirão sobre essas 1.200h/[Link] é de conhecimento, o art. 126 da Lei de
Execuções Penais dispõe que "o condenado que cumpre pena em regime fechado ou semiaberto poderá remir,
por trabalho ou por estudo, parte do tempo de execução da pena". A redação do citado artigo deixa clara a
preocupação do legislador com a capacitação profissional do interno e com o estímulo a comportamentos que
propiciem a readaptação de presos ao convívio social.A diretriz do Superior Tribunal de Justiça estava pacificada
em ambas as Turmas que compõem a Terceira Seção, no sentido da interpretação mais benéfica ao
[Link], a Sexta Turma alterou seu entendimento, passando a considerar que os 50%, mencionados
na Recomendação n. 44/2013 do Conselho Nacional de Justiça, devem incidir sobre a carga horária de 1.600h
para o ensino fundamental e 1.200h para o ensino médio, resultando 800h/600h, que serão a base de cálculo
para remiçã[Link] obstante os doutos fundamentos em sentido contrário, deve ser mantida a jurisprudência
até então prevalente, a qual foi recentemente reafirmada pela Quinta Turma desta Corte, no Agravo Regimental
no Habeas Corpus n. 593.171/SC, de Relatoria do Ministro Ribeiro Dantas, julgado em 20/10/[Link] referido
julgado, a Quinta Turma considerou que "quando a Resolução CNJ n. 44/2013 menciona a carga horária de 1.600
horas para o ensino fundamental e 1.200 horas para o ensino médio, refere-se ao percentual de 50% da carga
horária definida legalmente para cada nível de ensino".Para se chegar à referida conclusão, registrou-se que "a
literalidade do ato oriundo do CNJ não é clara, mas dúbia, abrindo margem para a discricionariedade do
julgador. Com efeito, seu art. 1º, IV, estabelece que o apenado que seja aprovado nos exames nacionais que
certificam a conclusão do ensino fundamental têm direito à remição, pelo estudo menos formal, à razão de 50%
da carga horária. Em seguida, porém, o mesmo dispositivo faz uma equivalência da referida carga horária com
1.600 horas, mas de forma ambígua, permitindo a compreensão no sentido de que esse valor ainda deve ser
dividido por dois, como também que ele já corresponde à metade".Tem-se, portanto, que "a grande questão é
saber se a menção a 1.600 horas quis se referir à carga horária definida legalmente ou já aos 50%, sendo
isoladamente permitida ambas as leituras". Com o intuito de "fechar esse espaço deixado pelo CNJ" fez-se uso
da LDB, "segundo a qual a carga anual mínima para o ensino fundamental é de 800 horas, sendo natural que ela
seja menor no início e maior no final. Mesmo que esta lei seja primordialmente destinada a pessoas com até 17
anos, nada impede que seja também utilizada como critério interpretativo do ato normativo do CNJ, diante da
sua dubiedade, por não haver outro método mais claro".Relevante consignar, que o art. 4º, inciso II, da Resolução
n. 03/2010, do CNE, não impede esta interpretação. Pelo contrário, reafirmou-se que ele menciona que 1.600
horas equivalem apenas à duração mínima para os anos finais do Ensino Fundamental.Não se pode descurar,
ademais, que referida Resolução é norma administrativa do Ministério da Educação, estando, portanto, em
patamar de hierarquia inferior à Lei de Diretrizes de Educação [Link] linha de intelecção, "interpretar
que as 1.600 horas mencionadas pelo art. 1º, IV, da Recomendação n. 44/2013, do CNJ, correspondem a 50% da
carga horária definida é justamente cumprir o dispositivo. Em outras palavras, o Conselho Nacional de Educação
não estabeleceu 1.600 horas anuais como o máximo possível, o que permite uma carga horária superior a
226
isso".Registre-se, por fim, que "essa particular forma de parametrar a interpretação da lei (...) é a que mais se
aproxima da Constituição Federal, que faz da cidadania e da dignidade da pessoa humana dois de seus
fundamentos (incisos II e III do art. 1º). Mais: Constituição que tem por objetivos fundamentais erradicar a
marginalização e construir uma sociedade livre, justa e solidária (incisos I e III do art. 3º). Tudo na perspectiva
da construção do tipo ideal de sociedade que o preâmbulo de nossa Constituição caracteriza como 'fraterna'".
(HC 94163, Relator Min. CARLOS BRITTO, Primeira Turma do STF, DJe 22/10/2009 P. 23/10/2009).Nesse
contexto, a base de cálculo de 50% da carga horária definida legalmente para o ensino fundamental equivale a
1.600 horas, a qual, dividida por doze, resulta em 133 dias de remição em caso de aprovação em todos os campos
de conhecimento do ENCCEJA. Serão devidos, portanto, 26 dias de remição para cada uma das cinco áreas de
conhecimento. (Informativo n. 689)

PROCESSO RHC 131.263, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, Terceira Seção, por
maioria, julgado em 24/02/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Conversão ex officio da prisão em flagrante em preventiva. Lei n. 13.964/2019
(Pacote Anticrime). Impossibilidade. Necessidade de requerimento prévio do
Ministério Público, ou do querelante, ou do assistente, ou representação da
autoridade policial.
DESTAQUE
Após o advento da Lei n. 13.964/2019, não é possível a conversão ex offício da prisão em flagrante em
preventiva, mesmo nas situações em que não ocorre audiência de custódia.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Discute-se acerca da possibilidade de se decretar a prisão preventiva de ofício, mesmo se decorrente de prisão
flagrante e mesmo se não tiver ocorrido audiência de custódia, em face do que dispõe a Lei n. 13.964/2019, em
razão da divergência de posicionamento entre as Turmas criminais que compõem esta Corte Superior de
Justiç[Link], após o advento da Lei n. 13.964/2019, não é mais possível a conversão da prisão em flagrante
em preventiva sem provocação por parte ou da autoridade policial, do querelante, do assistente, ou do
Ministério Público, mesmo nas situações em que não ocorre audiência de custó[Link] sentido, deve-se
considerar o disposto no art. 3º-A do CPP, que reafirma o sistema acusatório em que o juiz atua, vinculado à
provocação do órgão acusador; no art. 282, § 2º, do CPP, que vincula a decretação de medida cautelar pelo juiz
ao requerimento das partes ou quando, no curso da investigação criminal, à representação da autoridade
policial ou a requerimento do Ministério Público; e, finalmente, no art. 311, também do CPP, que é expresso ao
vincular a decretação da prisão preventiva a requerimento do Ministério Público, do querelante ou do
assistente, ou à representação da autoridade [Link] ressaltar que a prisão preventiva não é uma
consequência natural da prisão flagrante, logo é uma situação nova que deve respeitar o disposto, em especial,
nos arts. 311 e 312 do CPP.Não se vê, ainda, como o disposto no inciso II do art. 310 do CPP - possibilidade de o
juiz converter a prisão em flagrante em preventiva quando presentes os requisitos do art. 312 e se revelarem
inadequadas ou insuficientes as medidas cautelares diversas da prisão - pode autorizar a conversão da prisão
em flagrante em preventiva sem pedido expresso nesse sentido, já que tal dispositivo deve ser interpretado em
conjunto com os demais que cuidam da prisão [Link] forma, pode, sim, o juiz converter a prisão em
flagrante em preventiva desde que, além de presentes as hipóteses do art. 312 e ausente a possibilidade de
substituir por cautelares outras, haja o pedido expresso por parte ou do Ministério Público, ou da autoridade
policial, ou do assistente ou do [Link] fim, a não realização da audiência de custódia (qualquer que
tenha sido a razão para que isso ocorresse ou eventual ausência do representante do Ministério Público quando
de sua realização) não autoriza a prisão, de ofício, considerando que o pedido para tanto pode ser formulado
independentemente de sua ocorrência. O fato é que as novas disposições legais trazidas pela Lei n. 13.964/2019
impõem ao Ministério Público e à Autoridade Policial a obrigação de se estruturarem de modo a atender os
novos deveres que lhes foram impostos. (Informativo n. 686)

227
PROCESSO HC 463.434-MT, Rel. Min. Reynaldo Soares Da Fonseca, Terceira Seção,
por unanimidade, julgado em 25/11/2020, DJe 18/12/2020
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL
TEMA Dosimetria da pena. Majorantes sobejantes. Patamar fixo ou variável.
Valoração em outra fase. Possibilidade. Princípio da individualização da pena.
DESTAQUE
O deslocamento da majorante sobejante para outra fase da dosimetria, além de não contrariar o sistema
trifásico, é a que melhor se coaduna com o princípio da individualização da pena.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A questão jurídica diz respeito, em síntese, à valoração de majorantes sobejantes na primeira ou na segunda
fase da dosimetria da pena, a depender se a causa de aumento traz patamar fixo ou variá[Link] início, ressalta-
se que não é possível dar tratamento diferenciado à causa de aumento que traz patamar fixo e à que traz patamar
variável, porquanto, além de não se verificar utilidade na referida distinção, o mesmo instituto jurídico teria
tratamento distinto a depender de critério que não integra sua natureza jurí[Link] à possibilidade
propriamente dita de deslocar a majorante sobejante para outra fase da dosimetria, considero que se trata de
providência que, além de não contrariar o sistema trifásico, é a que melhor se coaduna com o princípio da
individualização da [Link] efeito, o sistema trifásico, trazido no art. 68 do Código Penal, disciplina que a
fixação da pena observará três fases: a fixação da pena-base, por meio da valoração das circunstâncias judiciais
previstas no art. 59 do Código Penal; a fixação da pena intermediária, com a valoração das atenuantes e das
agravantes; e a pena definitiva, após a incidência das causas de diminuição e de aumento da pena.O Código Penal
não atribui um patamar fixo às circunstâncias judiciais nem às agravantes e atenuantes, as quais devem ser
sopesadas de acordo com o livre convencimento motivado do Magistrado, em observância aos princípios da
razoabilidade e da proporcionalidade. As causas de aumento e de diminuição, por seu turno, já apresentam os
patamares que devem ser utilizados, de forma fixa ou variável. Segundo a doutrina, as causas de aumento
também são chamadas de qualificadoras em sentido amplo e, "por integrarem a estrutura típica do delito,
permitem a fixação da pena acima do máximo em abstrato previsto pelo legislador".Nessa linha de raciocínio,
nos mesmos moldes em que ocorre com o crime qualificado, já existindo uma circunstância que qualifique ou
majore o crime, autorizando, assim, a alteração do preceito secundário, ou a incidência de fração de aumento,
considera-se correta a jurisprudência que prevalece no Superior Tribunal de Justiça, no sentido de que as
qualificadoras e majorantes sobressalentes podem ser valoradas na primeira ou na segunda fase da dosimetria
da [Link] fato, da mesma forma que a existência de mais de uma qualificadora não modifica nem o tipo penal
nem o preceito secundário, tem-se que a existência de mais de uma majorante também não autoriza a retirada
da fração de aumento do mínimo, uma vez que se "exige fundamentação concreta, não sendo suficiente a mera
indicação do número de majorantes", nos termos do entendimento sumulado no verbete n. 443 da Súmula desta
[Link] contexto, a desconsideração tanto da qualificadora quanto da majorante sobressalentes acaba por
violar o princípio da individualização da pena, o qual preconiza a necessidade de a pena ser aplicada em
observância ao caso concreto, com a valoração de todas as circunstâncias objetivas e subjetivas do
[Link], referida desconsideração vai de encontro ao sistema trifásico, pois as causas de aumento (3ª
fase), assim como algumas das agravantes, são, em regra, circunstâncias do crime (1ª fase) valoradas de forma
mais gravosa pelo legislador. Assim, não sendo valoradas na terceira fase, nada impede sua valoração de forma
residual na primeira ou na segunda fases.A desconsideração das majorantes sobressalentes na dosimetria
acabaria por subverter a própria individualização da pena realizada pelo legislador, uma vez que as
circunstâncias consideradas mais gravosas, a ponto de serem tratadas como causas de aumento, acabariam
sendo desprezadas. Lado outro, se não tivessem sido previstas como majorantes, poderiam ser integralmente
valoradas na primeira e na segunda fases da [Link] fim, não há se falar que o deslocamento da causa de
aumento para a primeira fase permite o "agravamento do regime prisional por via transversa", porquanto o que
não se admite é a fixação de regime prisional mais gravoso sem a devida fundamentação. Assim, ainda que a
pena-base seja fixada no mínimo legal, é possível a imposição de regime mais gravoso que o estabelecido em lei,
desde que seja declinada motivação concreta. (Informativo n. 684)

228
PROCESSO RMS 60.531-RO, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Rel. Acd. Min. Ribeiro Dantas,
Terceira Seção, por maioria, julgado em 09/12/2020, DJe 17/12/2020
RAMO DO DIREITO DIREITO CONSTITUCIONAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL, DIREITO
PROCESSUAL CIVIL
TEMA Serviços de comunicação. Criptografia de ponta a ponta. Quebra de sigilo de
dados. Decisão judicial. Descumprimento. Impossibilidade técnica. Astreintes.
Ilegalidade.
DESTAQUE
É ilegal a aplicação de astreintes, por descumprimento de decisão judicial de quebra de sigilo de dados, em
virtude da impossibilidade técnica pelo emprego de criptografia de ponta a ponta.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A possibilidade de aplicação, em abstrato, da multa cominatória foi reconhecida, por maioria, nesta Terceira
Seção (REsp 1.568.445/PR, Rel. Ministro Rogerio Schietti Cruz, Rel. p/ Acórdão Ministro Ribeiro Dantas,
Terceira Seção, julgado em 24/06/2020, DJe 20/08/2020).No caso, porém, há de se fazer uma distinção ou um
distinguishing entre o precedente citado e a situação em análise cuja controvérsia é a alegação, pela empresa
que descumpriu a ordem judicial, da impossibilidade técnica de obedecer à determinação do Juízo, haja vista o
emprego da criptografia de ponta a [Link] de ponta a ponta é a proteção dos dados nas duas
extremidades do processo, tanto no polo do remetente quanto no outro polo do destinatário. Nela, há "dois tipos
de chaves são usados para cada ponta da comunicação, uma chave pública e uma chave privada. As chaves
públicas estão disponíveis para as ambas as partes e para qualquer outra pessoa, na verdade, porque todos
compartilham suas chaves públicas antes da comunicação. Cada pessoa possui um par de chaves, que são
complementares. [...] O conteúdo só poderá ser descriptografado usando essa chave pública (...) junto à chave
privada (...). Essa chave privada é o único elemento que torna impossível para qualquer outro agente
descriptografar a mensagem, já que ela não precisa ser compartilhada".Ao buscar mecanismos de proteção à
liberdade de expressão e comunicação privada, por meio da criptografia de ponta a ponta, as empresas estão
protegendo direito fundamental, reconhecido expressamente na Carta [Link]ém ressaltar que o Ministro
Edson Fachin, na ADPF 403, e a Ministra Rosa Weber, na ADI 5527, chegam à mesma conclusão: o ordenamento
jurídico brasileiro não autoriza, em detrimento da proteção gerada pela criptografia de ponta a ponta, em
benefício da liberdade de expressão e do direito à intimidade, sejam os desenvolvedores da tecnologia multados
por descumprirem ordem judicial incompatível com encriptaçã[Link], em ponderação de valores os benefícios
advindos da criptografia de ponta a ponta se sobrepõem às eventuais perdas pela impossibilidade de se coletar
os dados das conversas dos usuários da tecnologia. (Informativo n. 684)

229
QUINTA TURMA
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PROCESSO AREsp 701.833-SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, Quinta Turma.


RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Provas que embasaram a condenação supostamente ilícitas. Dados bancários
obtidos por autoridades estrangeiras, em conformidade com a legislação local,
e remetidas à polícia federal. Falta de participação das autoridades centrais de
Brasil e estrangeiras neste procedimento. Nulidade. Inocorrência.
Interpretação sistemática do acordo de cooperação jurídica firmado entre
Brasil e EUA (MLAT). Pretensão de incidência da exceção de ordem pública
(art. 17 da Lindb). Descabimento.
DESTAQUE
Não viola a ordem pública brasileira o compartilhamento direto de dados bancários pelos órgãos investigativos
mesmo que, no Estado de origem, sejam obtidos sem prévia autorização judicial, se a reserva de jurisdição não
é exigida pela legislação local.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia acerca da licitude no compartilhamento direto de provas pelos órgãos investigadores,
em razão de cooperação internacional, obtidos sem prévia autorização judicial, mas em conformidade com a lei
estrangeira que rege o ato.
O art. 4º do MLAT entre Brasil e EUA institui um procedimento específico para as solicitações de cooperação,
com a participação das autoridades centrais de cada país (o Ministério da Justiça e o Procurador-Geral,
respectivamente). Não obstante, o descumprimento deste rito, por si só, não é causa suficiente para declarar a
nulidade das provas decorrentes da colaboração.
A finalidade do MLAT é facilitar a cooperação entre os Estados signatários, não só pelo rito do art. 4º (em que a
solicitação é feita pela autoridade central do país requerente), mas também por "qualquer outra forma de
assistência" (art. 1º, n. 2, "h"), "ajuste ou outra prática bilateral cabível" (art. 17). Tratar o procedimento formal
do art. 4º como impositivo, sob pena de nulidade das provas obtidas por formas atípicas de cooperação,
desconsideraria o teor destes textos normativos e violaria frontalmente o art. 1º, n. 5, do MLAT.
Destarte, a veiculação de pedidos pelas autoridades centrais não é a única forma válida de compartilhamento -
pelo menos no âmbito do Acordo de Assistência firmado entre Brasil e EUA -, que não veda a cooperação direta
entre os órgãos investigadores de cada país. O que o Tratado proíbe, ao revés, é a supressão de alguma prova
com espeque em seus dispositivos, até mesmo porque o MLAT não contempla regras de validade da atividade
de produção probatória.
Tais regras são previstas no ordenamento jurídico de cada Estado, e é frente a elas que a prova oriunda da
cooperação internacional deve ser valorada (sobre isto se falará mais adiante). O Tratado disciplina, tão
somente, a possibilidade de compartilhamento das informações, sem instituir parâmetros legais específicos
para o exame de sua licitude. A única ressalva feita pelo MLAT a esse compartilhamento, na verdade, refere-se
aos casos em que o Estado requerido solicite a restrição no uso da informação (art. 7º, n. 1 e 2).
Não há semelhante regra de exclusão, todavia, direcionada à cooperação direta, quando feita sem a
intermediação das autoridades centrais. E trata-se, aqui, de um silêncio eloquente: o MLAT poderia ter vedado
o uso de provas fornecidas por meios diversos daquele previsto em seu art. 4º, até porque conferiu ao Estado
requerido a prerrogativa de impor condições e restrições, discricionariamente, ao emprego do material
fornecido. Contudo, o Tratado não o fez, e ainda deixou claro que suas normas não excluem outras maneiras de
compartilhamento de informações, tampouco servem de fundamento para que se pleiteie a exclusão ou
supressão de qualquer prova.

230
O Tratado em comento não prevê, como consequência da intermediação das autoridades centrais, qualquer
forma de notificação ou participação do investigado no procedimento de entrega de documentos, disciplinado
no art. 13 do MLAT. E, ainda, a quebra do sigilo independe da anterior formação de contraditório, o qual é
exercido de forma diferida, no curso do processo judicial, não havendo qualquer gravame ao investigado. Assim,
o compartilhamento direto de provas, sem requerimento formulado pela autoridade central brasileira e dirigido
à norte-americana, não gera a nulidade para a defesa.
Cada país tem a independência para estabelecer quais medidas investigativas se submetem à reserva de
jurisdição, como modo de instituir uma cautela adicional à tutela da intimidade de seus cidadãos. Não se pode,
todavia, exigir uniformidade sobre o tema no regramento das quase duas centenas de Estados soberanos, sob
pena de inviabilizar a cooperação jurídica internacional.
Enquanto cláusula geral, o devido processo legal (que inclusive é positivado também na 5ª e 14ª emendas à
Constituição dos EUA) admite diferentes conformações legislativas, admitindo-se certa margem de
discricionariedade ao legislador para definir seus contornos. Impor a necessidade de prévia autorização judicial
para esta ou aquela medida interventiva se insere em tal âmbito, não sendo possível dizer que, apenas por não
ter sido submetida à reserva de jurisdição, determinada diligência praticada no estrangeiro ofende o devido
processo legal. Vale ressaltar que para avaliar a admissibilidade de uma prova à luz do art. 17 da LINDB, mais
decisivo é o respeito à condição humana do indivíduo do que, propriamente, a reserva de jurisdição.
(Informativo n. 695)

PROCESSO REsp 1.882.330/SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, Quinta Turma, por
unanimidade, julgado em 06/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Citação por carta Rogatória. Termo final da suspensão da prescrição. Data da
efetiva da citação. Retorno da contagem.
DESTAQUE
O termo final da suspensão do prazo prescricional pela expedição de carta rogatória para citação do acusado
no exterior é a data da efetivação da comunicação processual no estrangeiro, ainda que haja demora para a
juntada da carta rogatória cumprida aos autos.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia sobre quais os corretos marcos de início e fim da suspensão do prazo de prescrição
no caso de citação por carta rogatória, considerando o disposto no art. 368 do CPP.
De um lado, sustenta-se que a data de cumprimento da carta rogatória é da sua juntada aos autos, o que
afastaria a prescrição, enquanto do outro lado, entende-se que tal data equivale à efetiva citação no estrangeiro,
o que conduziria à extinção da punibilidade. A diferença decorre do considerável lapso temporal entre a
realização da comunicação processual no estrangeiro e a juntada aos autos.
Ambas as interpretações são razoáveis, mas isso acontece justamente em razão da imprecisão do texto legal,
da sua omissão legislativa em estabelecer os marcos iniciais e finais exatos para a suspensão da prescrição. Esta
opção legislativa por vagueza termina aumentando a margem de discricionariedade do julgador, especialmente
em caso como este, sobre o qual, ao que tudo indica, além de não haver precedente vinculante, não há
jurisprudência dominante acerca do tema nos Tribunais Superiores.
Assim, diante da divergência doutrinária e jurisprudencial, deve prevalecer o entendimento de que a fluência
do prazo prescricional continua não na data em que os autos da carta rogatória der entrada no cartório, mas sim
naquela em que se der o efetivo cumprimento no juízo rogado.
Vale ressaltar que a questão é hermenêutica e não de integração da norma jurídica, sendo que a Súmula
710/STF estabelece que no processo penal os prazos contam-se da data da intimação, e não da juntada aos autos
do mandado ou da carta precatória ou de ordem, valendo o mesmo raciocínio para a carta rogatória. Tal
entendimento tem por base a regra específica do art. 798, § 5º, "a", do CPP, que diferencia a sistemática adotada
para os processos criminais em relação aos processos cíveis. (Informativo n. 691)

231
PROCESSO AgRg no RHC 136.708/MS, Rel. Min. Felix Fisher, Quinta Turma, por
unanimidade, julgado em 11/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Conversão de ofício da prisão em flagrante em prisão preventiva. Posterior
apresentação da representação da autoridade policial. Possibilidade.
DESTAQUE
O posterior requerimento da autoridade policial pela segregação cautelar ou manifestação do Ministério
Público favorável à prisão preventiva suprem o vício da inobservância da formalidade de prévio requerimento.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A Constituição Federal de 1988 estabeleceu a dignidade da pessoa humana como ponto nuclear das suas
diretrizes principiológicas e programáticas, reverenciando-a, no âmbito penal, na responsabilização por
conduta penalmente imputável como decorrência da estrita observância das garantias constitucionais que as
concretizam, tornando justo e legítimo o decreto condenatório.
Nesta esteira, sem esgotá-los, destacam-se os princípios que dignificam a responsabilização penal definitiva:
reserva legal (art. 5º, II), juízo natural (art. 5º, XXXVII, legalidade (art. 5º, XXXIX), devido processo legal (art. 5º,
LIV), contraditório e ampla defesa (art. 5º, LV), legalidade das provas (art. 5º, LVI) e segurança jurídica (art. 5º,
XXXVI).
Nesse aspecto, o desrespeito das normas que promovem o devido processo legal implica, em regra, nulidade
do ato nas hipóteses de descumprimento da sua finalidade e da ocorrência de efetivo e comprovado prejuízo,
segundo orientação dos princípios pas de nullité sans grief e da instrumentalidade.
No ponto, o princípio da instrumentalidade reforça a manutenção de determinados atos não só pela economia
processual, mas pela agilidade que se deve empreender em busca do ato final do processo, a sentença, a teor
dos arts. 565 a 572 do CPP.
Ressalta-se, assim, que o posterior requerimento da autoridade policial pela segregação cautelar ou
manifestação do Ministério Público favorável à medida cautelar extrema suprem o vício da inobservância da
formalidade de prévio requerimento, corroborando a higidez do feito e ausência de nulidade processual.
Com efeito, o referido vício pode ser superado pelo posterior requerimento da autoridade policial pela prisão
preventiva, de modo que não se configura nenhuma nulidade passível de correção, observado, pois, o devido
processo legal.
Ademais, a eventual concessão da ordem, no sentido de revogar a prisão preventiva seria inócua ante a
possibilidade de imediata decretação de nova prisão preventiva, quando há mais de um pleito no sentido da
decretação e manutenção da segregação cautelar. (Informativo n. 691)

PROCESSO RMS 57.740-PE, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma,
por unanimidade, julgado em 23/03/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Mandado de busca e apreensão. Empresa investigada. Pessoa que se apresenta
como representante. Consentimento expresso. Validade. Teoria da aparência.
DESTAQUE
É válida a autorização expressa para busca e apreensão em sede de empresa investigada dada por pessoa que
age como sua representante.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a saber sobre a validade da autorização para cumprimento de mandado de busca e
apreensão dada por pessoa que, embora tenha deixado de ser sócia formal de empresa, continua assinando
documentos, possui a chave do escritório e apresenta-se como responsável para as autoridades policiais.A teoria
da aparência, quando cabível, valida a autorização expressa para a realização de busca e apreensão em sede de
empresa [Link] ressaltar que, embora tal teoria tenha encontrado maior amplitude de aplicação
232
jurisprudencial na seara civil, processual civil e no Código de Defesa do Consumidor, nada há que impeça sua
aplicação também na seara [Link], para sua aplicação, há de reforçar a necessidade de conjugação da
boa-fé com o erro escusável e alguns requisitos essenciais. Segundo a doutrina, são seus requisitos essenciais
objetivos: a) uma situação de fato cercada de circunstâncias tais que manifestamente a apresentem como se fora
uma situação de direito; b) situação de fato que assim possa ser considerada segundo a ordem geral e normal
das coisas; c) e que, nas mesmas condições acima, apresente o titular aparente como se fora titular legítimo, ou
o direito como se realmente existisse. São seus requisitos subjetivos essenciais: a) a incidência em erro de quem,
de boa-fé, a mencionada situação de fato como situação de direito considera; b) a escusabilidade desse erro
apreciada segundo a situação pessoal de quem nele [Link], reputa-se válida a autorização de ingresso
da autoridade policial no estabelecimento dada por empregados da empresa, ou quem se apresenta como tal,
observados os requisitos supracitados, em face da teoria da aparência. (Informativo n. 690)

PROCESSO HC 641.877/DF, Rel. Min. Ribeiro Dantas, Quinta Turma, por


unanimidade, julgado em 09/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Citação via WhatsApp. Princípio da necessidade. Inadequação formal e
material. Pas de nullité sans grief. Necessária aferição da autenticidade com a
adoção das cautelas necessárias.
DESTAQUE
É possível a utilização de WhatsApp para a citação de acusado, desde que sejam adotadas medidas suficientes
para atestar a autenticidade do número telefônico, bem como a identidade do indivíduo destinatário do ato
processual.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A citação do acusado revela-se um dos atos mais importantes do processo. É por meio dela que o indivíduo toma
conhecimento dos fatos que o Estado, por meio do jus puniendi lhe direciona e, assim, passa a poder demonstrar
os seus contra-argumentos à versão acusatória (contraditório, ampla defesa e devido processo legal).No
Processo Penal, diversamente do que ocorre na seara Processual Civil, não se pode prescindir do processo para
se concretizar o direito substantivo. É o processo que legitima a [Link], em um primeiro momento, vários
óbices impediriam a citação via WhatsApp, seja de ordem formal, haja vista a competência privativa da União
para legislar sobre processo (art. 22, I, da CF), ou de ordem material, em razão da ausência de previsão legal e
possível malferimento de princípios caros como o devido processo legal, o contraditório e a ampla
[Link]-se não ser adequado fechar-se os olhos para a realidade. Excluir peremptória e abstratamente
a possibilidade de utilização do WhatsApp para fins da prática de atos de comunicação processuais penais, como
a citação e a intimação, não se revelaria uma postura comedida. Não se trata de autorizar a confecção de normas
processuais por tribunais, mas sim o reconhecimento, em abstrato, de situações que, com os devidos cuidados,
afastariam, ao menos, a princípio, possíveis prejuízos ensejadores de futuras anulações. Isso porque a tecnologia
em questão permite a troca de arquivos de texto e de imagens, o que possibilita ao oficial de justiça, com quase
igual precisão da verificação pessoal, aferir a autenticidade do número telefônico, bem como da identidade do
destinatário para o qual as mensagens são [Link]ém disso, não há falar em nulidade de ato processual sem
demonstração de prejuízo ou, em outros termos, princípio pas nullité sans grief. Com efeito, é possível imaginar-
se a utilização do WhatsApp para fins de citação na esfera penal, com base no princípio pas nullité sans grief. De
todo modo, para tanto, imperiosa a adoção de todos os cuidados possíveis para se comprovar a autenticidade
não apenas do número telefônico com que o oficial de justiça realiza a conversa, mas também a identidade do
destinatário das [Link] cediço, a tecnologia em questão permite a troca de arquivos de texto e de
imagens, o que possibilita ao oficial de justiça, com quase igual precisão da verificação pessoal, aferir a
autenticidade da conversa. É possível imaginar-se, por exemplo, a exigência pelo agente público do envio de foto
do documento de identificação do acusado, de um termo de ciência do ato citatório assinado de próprio punho,
quando o oficial possuir algum documento do citando para poder comparar as assinaturas, ou qualquer outra
medida que torne inconteste tratar-se de conversa travada com o verdadeiro denunciado. De outro lado, a mera

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confirmação escrita da identidade pelo citando não nos parece [Link]ário distinguir, porém, essa
situação daquela em que, além da escrita pelo citando, há no aplicativo foto individual dele. Nesse caso, ante a
mitigação dos riscos, diante da concorrência de três elementos indutivos da autenticidade do destinatário,
número de telefone, confirmação escrita e foto individual, entende-se possível presumir-se que a citação se deu
de maneira válida, ressalvado o direito do citando de, posteriormente, comprovar eventual nulidade, seja com
registro de ocorrência de furto, roubo ou perda do celular na época da citação, com contrato de permuta, com
testemunhas ou qualquer outro meio válido que autorize concluir de forma assertiva não ter havido citação
vá[Link], é possível o uso da referida tecnologia para citação, desde que, com a adoção de medidas
suficientes para atestar a identidade do indivíduo com quem se travou a conversa. (Informativo n. 688)

PROCESSO REsp 1.843.523/CE, Rel. Min. Ribeiro Dantas, Quinta Turma, por
unanimidade, julgado em 09/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Diminuição da matéria suscetível de impugnação nos embargos infringentes.
Prejuízo à defesa. Omissão do voto vencido quanto ao exame do mérito da
apelação. Art. 939 do CPC. Questão preliminar. Conceito amplo para ordenar
julgamento. Error in procedendo evidenciado. Não pronunciamento sobre o
mérito. Nulidade do acórdão que julgou a apelação.
DESTAQUE
Há nulidade no acórdão que julga apelação sem a observância da formalidade de colher os votos em separado
sobre questão preliminar e de mérito, em razão da diminuição do espectro da matéria possível de impugnação
na via dos infringentes.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia à análise em que o tribunal procede à tomada global dos votos no julgamento da
apelação, anotando o resultado das questões preliminar e meritória como resultado final do julgamento. Em
consequência da adoção desse procedimento, o integrante do órgão julgador que fica vencido quanto à
preliminar de cerceamento da defesa, pelo indeferimento de prova, não se pronuncia acerca do mérito
[Link] termos do art. 939 do Código de Processo Civil, a possibilidade de encerrar o julgamento por
incompatibilidade entre a preliminar e o mérito tem como destinatário todo o órgão colegiado e não cada um
de seus integrantes. Ademais, a acepção sobre o conceito de preliminar, para o fim de julgamento fatiado, é
ampla, uma vez que a diferenciação entre preliminar e prejudicial não tem cabimento [Link] que se adote
interpretação mais restritiva sobre o conceito de preliminar, não há que se falar em qualquer possibilidade de
tratar o cerceamento de defesa, resultante do indeferimento de prova, como [Link], sob qualquer
ponto de vista considerado, a decisão sobre a nulidade de prova deve ser tida como questão [Link]
modo, ao não tomar o voto quanto ao mérito da apelação do juiz vencido na preliminar, houve error in
procedendo pelo tribunal, evidenciando a violação ao art. 939 do [Link] fim, como os embargos infringentes
são recurso de fundamentação vinculada, o tribunal não pode conhecer da divergência meritória, supondo que
o juiz que conclui pela nulidade da prova - e fica vencido - absolveria a parte recorrente, evidenciando, assim, o
prejuízo à defesa. (Informativo n. 688)

234
SEXTA TURMA
Voltar ao Sumário.

PROCESSO REsp 1.806.792-SP, Rel. Min. Laurita Vaz, Sexta Turma, por
unanimidade, julgado em 11/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Quebra de sigilo telefônico e telemático. Ordem de habilitação de SIMCARD
(chip) da autoridade policial em substituição ao do titular da linha.
Procedimento ilegal.
DESTAQUE
É ilegal a quebra do sigilo telefônico mediante a habilitação de chip da autoridade policial em substituição ao
do investigado titular da linha.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia refere-se à validade do pedido de quebra de sigilo telefônico e telemático em que se determinou
a interceptação de determinados terminais telefônicos mediante a habilitação temporária de SIMCARDS
indicados pela autoridade policial em substituição às linhas do investigado.
A Lei n. 9.296/1996 - que regulamenta o inciso XII, parte final, do art. 5.º da Constituição Federal - trata da
interceptação de comunicações telefônicas de qualquer natureza para prova em investigação criminal e em
instrução processual penal, inclusive do fluxo de comunicações em sistemas de informática e telemática,
disciplinando os limites dessa ingerência estatal na esfera de direitos fundamentais dos indivíduos.
Na situação em análise, o acórdão recorrido foi preciso ao concluir que "não se trata do procedimento previsto
na Lei n. 9.296/96, que não autoriza a suspensão do serviço telefônico ou do fluxo da comunicação telemática
mantida pelo usuário, tampouco a substituição do alvo da investigação e titular da linha por agente indicado
pela autoridade policial".
De fato, a ordem judicial, endereçada à concessionária de telefonia, consistiu na determinação de viabilizar à
autoridade policial a utilização de "SIMCARD" (cartão "SIM", sigla em inglês da expressão Subscriber Identity
Module - módulo de identificação do assinante -, comumente referido no Brasil como "chip"), em substituição ao
do aparelho celular do usuário investigado, "pelo prazo de 15 (quinze) dias e a critério da autoridade policial,
em horários previamente indicados, inclusive de madrugada."
Pretendeu-se que a operadora de telefonia, quando acionada, habilitasse o chip do agente investigador, em
substituição ao do usuário, a critério da autoridade policial, que teria pleno acesso, em tempo real, às chamadas
e mensagens transmitidas para a linha originária, inclusive via WhatsApp. Ora, esse procedimento, claramente,
não encontra respaldo nos artigos da lei que disciplina a interceptação telefônica, além de gerar insuperáveis
inconvenientes, para dizer o mínimo.
Isso porque, a ação, se implementada, permitiria aos investigadores acesso irrestrito a todas as conversas por
meio do WhatsApp, inclusive com a possibilidade de envio de novas mensagens e a exclusão de outras. Se não
bastasse, eventual exclusão de mensagem enviada ou de mensagem recebida não deixaria absolutamente
nenhum vestígio e, por conseguinte, não poderia jamais ser recuperada para servir de prova em processo penal,
tendo em vista que, em razão da própria característica do serviço, feito por meio de encriptação ponta-a-ponta,
a operadora não armazena em nenhum servidor o conteúdo das conversas dos usuários.
Há relevantes diferenças entre como se daria a quebra do sigilo telefônico e telemático, em conformidade com
a lei de regência, e a forma de acesso e intervenção na linha telefônica e nos dados do investigado da forma como
determinada no caso em exame.

235
Com efeito, ao contrário da interceptação telefônica, no âmbito da qual o investigador de polícia atua como mero
observador de conversas travadas entre o alvo interceptado e terceiros, na troca do chip habilitado, o agente do
estado tem a possibilidade de atuar como participante das conversas, podendo interagir diretamente com seus
interlocutores, enviando novas mensagens a qualquer contato inserido no celular, além de poder também
excluir, com total liberdade, e sem deixar vestígios, as mensagens no WhatsApp. E, nesse interregno, o usuário
ficaria com todos seus serviços de telefonia suspensos.
Dessa forma, mostra-se irretocável a conclusão do Tribunal de origem, no sentido de que, "[t]ratando-se de
providência que excepciona a garantia à inviolabilidade das comunicações, a interceptação telefônica e
telemática deve se dar nos estritos limites da lei, não sendo possível o alargamento das hipóteses previstas ou
a criação de procedimento diverso." (Informativo n. 696)

PROCESSO RHC 141.737/PR, Rel. Min. Sebastião Reis Junior, Sexta Turma, por
maioria, julgado em 27/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Busca e apreensão. Prontuários médicos. Documentos sigilosos.
Discriminação específica no mandado. Desnecessidade. Nulidade da prova.
Inocorrência.
DESTAQUE
Inexiste exigência legal de que o mandado de busca e apreensão detalhe o tipo de documento a ser
apreendido, ainda que de natureza sigilosa.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
No caso, se a investigação foi deflagrada em virtude da adulteração de prontuários, a interpretação evidente
é de que os principais objetos visados pela medida de busca e apreensão eram os prontuários dos pacientes que
haviam sido submetidos a tratamento e, ao mesmo tempo, vítimas de inúmeros crimes.
Não se vê a ocorrência de nulidade. Embora os prontuários possam conter dados sigilosos, foram obtidos a
partir da imprescindível autorização judicial prévia, quer dizer, a prova foi obtida por meio lícito. A ausência de
sua discriminação específica no mandado de busca é irrelevante, até porque os prontuários médicos encontram-
se inseridos na categoria de documentos em geral, inexistindo qualquer exigência legal de que a autorização
cautelar deva detalhar o tipo de documento a ser apreendido quando este possuir natureza sigilosa.
Conforme já se pronunciou o STF, "dada a impossibilidade de indicação, ex ante, de todos os bens passíveis
de apreensão no local da busca, é mister conferir-se certa discricionariedade, no momento da diligência, à
autoridade policial" (STF, Pet 5173/DF, Min. Dias Tofoli, Primeira Turma, DJe 18/11/2014).
Com efeito, "O artigo 243 da Lei Processual Penal disciplina os requisitos do mandado de busca e apreensão,
dentre os quais não se encontra o detalhamento do que pode ou não ser arrecadado" (HC 524.581/RJ, Rel.
Ministro Jorge Mussi, Quinta Turma, DJe 13/2/2020). "Suficiente à delimitação da busca e apreensão é a
determinação de que deveriam ser apreendidos os materiais que pudessem guardar relação estrita com aqueles
fatos [...]" (HC 537.017/RS, Rel. Ministro Nefi Cordeiro, Sexta Turma, DJe 3/2/2020).
Em outro precedente, esta Corte Superior já preconizou que "O artigo 240 do Código de Processo Penal, ao
tratar da busca e apreensão, apresenta um rol exemplificativo dos casos em que a medida pode ser determinada,
no qual se encontra a hipótese de arrecadação de objetos necessários à prova da infração ou à defesa do réu,
não havendo qualquer ressalva de que não possam dizer respeito à intimidade ou à vida privada do indivíduo"
(HC 142.205/RJ, Rel. Ministro Jorge Mussi, Quinta Turma DJe 13/12/2010).
Ademais, vale frisar que o sigilo do qual se reveste os prontuários médicos pertencem única e exclusivamente
aos pacientes, não ao médico. Assim, como afirmado pelo Tribunal estadual, caso houvesse a violação do direito
à intimidade, haveria de ser arguida pelos seus titulares e não pelo investigado. (Informativo n. 694)

236
PROCESSO RHC 135.970/RS, Rel. Min. Sebastião Reis Junior, Sexta Turma, por
unanimidade, julgado em 20/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Citação por edital. Art. 366 do CPP. Suspensão do processo e do prazo
prescricional. Esgotamento do prazo máximo (Súmula 415/STJ). Retomada do
curso processual sem o comparecimento do réu. Impossibilidade.
Inconstitucionalidade assentada pelo STF. Regime de Repercussão Geral
(Tema n. 438/STF). Revisão da jurisprudência do STJ.
DESTAQUE
Citado o réu por edital, nos termos do art. 366 do CPP, o processo deve permanecer suspenso enquanto
perdurar a não localização do réu ou até que sobrevenha o transcurso do prazo prescricional.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A pacífica jurisprudência do STJ firmou-se no sentido de que "esgotado o prazo máximo de suspensão
processual, nos termos do art. 366 do CPP, regulado pelas mesmas regras contidas no art. 109 do Código Penal
- in casu, 12 anos -, e citado o réu por edital, haja vista a sua não localização, deve o feito ter o seu regular
prosseguimento, mesmo com a ausência daquele à lide, mediante a constituição de defesa técnica" (RHC n.
112.703/RS, Ministro Nefi Cordeiro, Sexta Turma, DJe de 22/11/2019).
Sucede que o Plenário do Supremo Tribunal Federal, no julgamento do RE 600.851/DF, apreciado sob o
regime de repercussão geral (Tema n. 438/STF), firmou a seguinte tese: "Em caso de inatividade processual
decorrente de citação por edital, ressalvados os crimes previstos na Constituição Federal como imprescritíveis,
é constitucional limitar o período de suspensão do prazo prescricional ao tempo de prescrição da pena máxima
em abstrato cominada ao crime, a despeito de o processo permanecer suspenso".
Na oportunidade, consolidou-se a constitucionalidade do entendimento cristalizado no Enunciado n. 415 da
Súmula deste Superior Tribunal de Justiça, segundo a qual o período máximo da suspensão do processo, na
hipótese prevista no art. 366 do Código de Processo Penal, em que o réu citado por edital não comparece, nem
constitui advogado, não pode ultrapassar o lapso temporal previsto para a configuração da prescrição pela pena
máxima abstratamente cominada ao delito.
Por outro lado, firmou-se, também, o entendimento de que, enquanto não localizado o réu citado por edital,
já que se trata de uma ficção jurídica, o prosseguimento do processo penal afronta as garantias do devido
processo legal, da ampla defesa e do contraditório (art. 5º, incisos LIV e LV, da Constituição Federal), concluindo-
se, assim, pela constitucionalidade da suspensão do processo sem prazo determinado, conforme prevê o art.
366 do Código de Processo Penal.
Nesses termos, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça deve ser revista para se adequar a novel
orientação firmada pelo Supremo Tribunal Federal, em que se reconheceu a impossibilidade de prosseguimento
do processo penal em caso de inatividade processual decorrente de citação por edital. (Informativo n. 693)

PROCESSO RHC 114.683/RJ, Rel. Rogério Schietti Cruz, Sexta Turma, por
unanimidade, julgado em 13/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Diligência de busca e apreensão. Negativa de acesso à totalidade dos materiais
localizados. Cerceamento de defesa. Violação da Súmula Vinculante n. 14 do
STF. Nulidade configurada.
DESTAQUE
Realizada a busca e apreensão, apesar de o relatório sobre o resultado da diligência ficar adstrito aos
elementos relacionados com os fatos sob apuração, deve ser assegurado à defesa acesso à integra dos dados
obtidos no cumprimento do mandado judicial.

237
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Inicialmente, cumpre salientar que segundo o enunciado na Súmula Vinculante n. 14, do Supremo Tribunal
Federal, "É direito do defensor, no interesse do representado, ter acesso amplo aos elementos de prova que, já
documentados em procedimento investigatório realizado por órgão com competência de polícia judiciária,
digam respeito ao exercício do direito de defesa".
A respeito do tema, a jurisprudência desta Corte Superior assinala que, durante a fase do inquérito policial, o
enunciado da Súmula Vinculante n. 14 do STF expressa o direito de acesso pela defesa aos elementos de
convicção já documentados pelo órgão com competência de polícia e que digam respeito ao exercício legítimo
do direito de defesa.
A respeito do direito de "acesso amplo" aos elementos colhidos durante a investigação, previsto pela Súmula
Vinculante n. 14, o Supremo Tribunal Federal detalhou, no julgamento da Reclamação n. 23.101/PR, que o
direito ao "acesso amplo", descrito pelo verbete mencionado, engloba a possibilidade de obtenção de cópias, por
quaisquer meios, de todos os elementos de prova já documentados, inclusive mídias que contenham gravação
de depoimentos em formato audiovisual e a simples autorização de ter vista dos autos, nas dependências do
Parquet, e transcrever trechos dos depoimentos de interesse da defesa, não atende ao enunciado da Súmula
Vinculante 14.
Assim, iniciada a ação penal, com o oferecimento da denúncia, cumpria ao Ministério Público "abrir" para a
defesa todo o material objeto dos diversos mandados de busca e apreensão judicialmente autorizados
(computadores, tablets, cartões de memória, pen-drives, telefones celulares, mídias diversas, documentos etc.),
aos quais a defesa não tivera acesso até então.
Pode o Ministério Público, por certo, escolher o que irá supedanear a acusação, mas o material restante,
supostamente não utilizado, deve permanecer à livre consulta do acusado, para o exercício de suas faculdades
defensivas. Essa é a ratio essendi da Súmula Vinculante n. 14 do STF.
Frise-se que, a fim de resguardar a intimidade dos demais investigados em relação aos quais foi cumprida
diligência de busca e apreensão, basta que se colha dos advogados o compromisso de não dar publicidade ao
material examinado e que não interesse, direta ou indiretamente, à defesa de seu cliente.
Note-se que a jurisprudência desta Corte Superior é firme em assinalar que, em homenagem ao art. 563 do
Código de Processo Penal, não se declara a nulidade do ato processual se a irregularidade: a) não foi suscitada
em prazo oportuno e b) não vier acompanhada da prova do efetivo prejuízo para a parte.
No que toca ao primeiro requisito, o recorrente demonstrou haver, desde o início da ação penal, postulado o
acesso a todo o material apreendido em razão do cumprimento de mandado judicial de busca e apreensão.
O prejuízo suportado pelo recorrente é ínsito ao próprio vício constatado, ao não lhe ter sido franqueado o
exame, antes do início da instrução criminal, dos dados colhidos em cumprimento ao mandado de busca e
apreensão, diante da possibilidade de existência de elementos que pudessem interessar à sua defesa.
(Informativo n. 692)

PROCESSO REsp 1.762.142/MG, Rel. Min. Sebastião Reis Junior, Sexta Turma, por
unanimidade, julgado em 13/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Crime contra o registro de marca e concorrência desleal. Ciência da autoria.
Queixa oferecida após a previsão do art. 38 do CPP. Decadência. Homologação
do laudo pericial. Reabertura do prazo. Impossibilidade.
DESTAQUE
O prazo do art. 529 do Código de Processo Penal não afasta a decadência pelo não exercício do direito de
queixa em seis meses, contados da ciência da autoria do crime.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Discute-se se o prazo decadencial previsto no art. 529 do CPP - 30 dias após homologação do laudo pericial -
consubstancia norma especial, apta a afastar a incidência do art. 38 do mesmo código (decadência em 6 meses
contados da ciência da autoria do crime).
238
Tal exegese, no entanto, não deve prevalecer. A interpretação sistemática das normas aponta no sentido da
possibilidade de conformação dos prazos previstos nos referidos dispositivos do Código de Processo Penal.

Assim, em se tratando de crimes contra a propriedade imaterial que deixem vestígio, a ciência da autoria do
fato delituoso dá ensejo ao início do prazo decadencial de 6 meses, sendo tal prazo reduzido para 30 dias se
homologado laudo pericial nesse ínterim.
A adoção de interpretação distinta, de modo a afastar o prazo previsto no art. 38 do CPP em prol daquele
preconizado no art. 529 do CPP, afigura-se desarrazoada, pois implicaria sujeitar à vontade de querelante o
início do prazo decadencial.
De fato, consoante ressaltado pelo Tribunal de origem, o querelante, a qualquer tempo, mesmo que passados
anos após ter tomado ciência dos fatos e de sua autoria, poderia pleitear a produção do laudo pericial, vindo a
se reabrir, a partir da data da ciência da homologação deste elemento probatório, o prazo para oferecimento de
queixa-crime.
Desse modo, o que se verifica é que a exegese defendida vulnera a própria natureza jurídica do instituto
(decadência), cujo escopo é punir a inércia do querelante. (Informativo n. 692)

PROCESSO HC 598.051/SP, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz, Sexta Turma, por
unanimidade, julgado em 02/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Flagrante. Domicílio com expressão do direito à intimidade. Asilo inviolável.
Exceções constitucionais. Interpretação restritiva. Ingresso no domicílio.
Exigência de justa causa (fundada suspeita). Consentimento do morador.
Requisitos de validade. Necessidade de documentação e registro audiovisual
da diligência. Ônus estatal de comprovar a voluntariedade do consentimento.
DESTAQUE
A prova da legalidade e da voluntariedade do consentimento para o ingresso na residência do suspeito incumbe,
em caso de dúvida, ao Estado, e deve ser feita com declaração assinada pela pessoa que autorizou o ingresso
domiciliar, indicando-se, sempre que possível, testemunhas do ato. Em todo caso, a operação deve ser registrada
em áudio-vídeo e preservada a prova enquanto durar o processo.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O art. 5º, XI, da Constituição Federal consagrou o direito fundamental à inviolabilidade do domicílio, ao dispor
que "a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador,
salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação
judicial".A inviolabilidade de sua morada é uma das expressões do direito à intimidade do indivíduo, o qual,
sozinho ou na companhia de seu grupo familiar, espera ter o seu espaço íntimo preservado contra devassas
indiscriminadas e arbitrárias, perpetradas sem os cuidados e os limites que a excepcionalidade da ressalva a tal
franquia constitucional [Link] hipótese de suspeita de crime em flagrante, exige-se, em termos de standard
probatório para ingresso no domicílio do suspeito sem mandado judicial, a existência de fundadas razões (justa
causa), aferidas de modo objetivo e devidamente justificadas, de maneira a indicar que dentro da casa ocorre
situação de flagrante delito.O tráfico ilícito de entorpecentes, em que pese ser classificado como crime de
natureza permanente, nem sempre autoriza a entrada sem mandado no domicílio onde supostamente se
encontra a droga. Apenas será permitido o ingresso em situações de urgência, quando se concluir que do atraso
decorrente da obtenção de mandado judicial se possa objetiva e concretamente inferir que a prova do crime (ou
a própria droga) será destruída ou ocultada.O consentimento do morador, para validar o ingresso de agentes
estatais em sua casa e a busca e apreensão de objetos relacionados ao crime, precisa ser voluntário e livre de
qualquer tipo de constrangimento ou coação.A prova da legalidade e da voluntariedade do consentimento para
o ingresso na residência do suspeito incumbe, em caso de dúvida, ao Estado, e deve ser feita com declaração
assinada pela pessoa que autorizou o ingresso domiciliar, indicando-se, sempre que possível, testemunhas do
ato. Em todo caso, a operação deve ser registrada em áudio-vídeo e preservada tal prova enquanto durar o

239
processo.A violação a essas regras e condições legais e constitucionais para o ingresso no domicílio alheio
resulta na ilicitude das provas obtidas em decorrência da medida, bem como das demais provas que dela
decorrerem em relação de causalidade, sem prejuízo de eventual responsabilização penal do(s) agente(s)
público(s) que tenha(m) realizado a diligê[Link]-se o prazo de 1 (um) ano para permitir o aparelhamento das
polícias, treinamento e demais providências necessárias para a adaptação às diretrizes da presente decisão, de
modo a evitar situações de ilicitude, que, entre outros efeitos, poderá implicar responsabilidade administrativa,
civil e/ou penal do agente estatal, à luz da legislação vigente (art. 22 da Lei 13.869/2019), sem prejuízo do
eventual reconhecimento, no exame de casos a serem julgados, da ilegalidade de diligências pretéritas.
(Informativo n. 687)

PROCESSO HC 589.270, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, por
unanimidade, julgado em 23/02/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Pronúncia. Decisão ancorada exclusivamente em elementos colhidos no
inquérito policial. Impossibilidade. Ofensa ao art. 155 do CPP.
DESTAQUE
É ilegal a sentença de pronúncia fundamentada exclusivamente em elementos colhidos no inquérito policial.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A atual posição do Superior Tribunal de Justiça sobre o tema admite a pronúncia do acusado com base em
indícios derivados do inquérito policial, sem que isso represente afronta ao art. 155 do Código de Processo Penal
(HC 547.442/MT, Ministro Nefi Cordeiro, Sexta Turma, DJe 15/4/2020).Assim, na linha dos precedentes desta
Corte e do Supremo Tribunal Federal, embora não seja possível sustentar uma condenação com base em prova
produzida exclusivamente na fase inquisitorial, não ratificada em juízo, tal entendimento não se aplica à
sentença de pronúncia (HC 314.454/SC, Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, DJe 17/2/2017).Isso não
significa, no entanto, que inexistam decisões mais antigas no sentido de não admitir o juízo positivo de
pronúncia sem lastro em prova produzida sob o crivo judicial (HC 341.072/RS, Ministra Maria Thereza de Assis
Moura, Sexta Turma, DJe 29/4/2016 e REsp 1.254.296/RS, Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, DJe
2/2/2016).Nesse sentido, em nova orientação, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (HC 180.144/GO,
Ministro Celso de Mello, DJe 22/10/2020) enfrentou a questão e decidiu pela impossibilidade do juízo de
pronúncia nas condições mencionadas, partindo da premissa de que o Processo Penal se estrutura sobre as
garantias e objetiva resguardar do arbítrio estatal o status libertatis do acusado.O entendimento perfilado pela
Suprema Corte parte da ausência de amparo constitucional e legal do princípio do in dubio pro societate no
sistema processual penal brasileiro pós constituição de 1988. Em sentido oposto, considerado o assento
constitucional do princípio da presunção de inocência, art. 5º, LVII, da Constituição Federal, em todo seu alcance,
como norma de tratamento, norma probatória e norma de juízo, incumbe ao órgão acusador comprovar o
alegado em todas as fases e [Link] meio de concretização, e com o mesmo status de garantia
constitucional, o contraditório e a ampla defesa (e no caso do júri de plenitude de defesa) impedem a prolação
de sentença de pronúncia com base exclusiva em elementos produzidos no inquérito policial, nos termos do art.
155 do Código de Processo [Link] fato, admitir que a sentença de pronúncia se baseie em provas produzidas
no inquérito igualaria em densidade à decisão de recebimento de uma denúncia.O procedimento do jus
accusationis, delineado entre os arts. 406 e 421 do Código de Processo Penal, disciplina toda a produção
probatória destinada a embasar o deslinde da primeira fase do procedimento. Trata-se de arranjo legal que
busca evitar a submissão dos acusados ao Conselho de Sentença de forma temerária, não havendo razão de ser
em tais exigências legais, fosse admissível a atividade inquisitorial como suficiente.É incompatível com os
postulados do Estado Democrático de Direito admitir, no bojo do processo penal, a hipótese de que os jurados
possam condenar alguém, com base em íntima convicção, em julgamento que sequer deveria ter sido admitido.
Os julgamentos proferidos pelo Tribunal do Júri possuem peculiaridades em permanente discussão, até mesmo
nos Tribunais Superiores, a respeito da possibilidade de revisão dos julgamentos de mérito, da extensão dessa
revisão, o que torna, mais acertado exigir maior rigor na fase de pronúncia. (Informativo n. 686)

240
PROCESSO HC 598.886-SC, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, por
unanimidade, julgado em 27/10/2020, DJe 18/12/2020
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Inquérito Policial. Reconhecimento fotográfico de pessoa. Inobservância do
procedimento previsto no art. 226 do CPP. Prova inválida como fundamento
para condenação. Necessidade de evitar erros judiciários.
DESTAQUE
O reconhecimento de pessoa, presencialmente ou por fotografia, realizado na fase do inquérito policial, apenas
é apto, para identificar o réu e fixar a autoria delitiva, quando observadas as formalidades previstas no art. 226
do Código de Processo Penal e quando corroborado por outras provas colhidas na fase judicial, sob o crivo do
contraditório e da ampla defesa.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O reconhecimento de pessoa, presencialmente ou por fotografia, realizado na fase do inquérito policial, apenas
é apto, para identificar o réu e fixar a autoria delitiva, quando observadas as formalidades previstas no art. 226
do Código de Processo Penal e quando corroborado por outras provas colhidas na fase judicial, sob o crivo do
contraditório e da ampla [Link] estudos da Psicologia moderna, são comuns as falhas e os equívocos
que podem advir da memória humana e da capacidade de armazenamento de informações. Isso porque a
memória pode, ao longo do tempo, se fragmentar e, por fim, se tornar inacessível para a reconstrução do fato. O
valor probatório do reconhecimento, portanto, possui considerável grau de subjetivismo, a potencializar falhas
e distorções do ato e, consequentemente, causar erros judiciários de efeitos deletérios e muitas vezes
irreversíveis.O reconhecimento de pessoas deve, portanto, observar o procedimento previsto no art. 226 do
Código de Processo Penal, cujas formalidades constituem garantia mínima para quem se vê na condição de
suspeito da prática de um crime, não se tratando, como se tem compreendido, de "mera recomendação" do
legislador. Em verdade, a inobservância de tal procedimento enseja a nulidade da prova e, portanto, não pode
servir de lastro para sua condenação, ainda que confirmado, em juízo, o ato realizado na fase inquisitorial, a
menos que outras provas, por si mesmas, conduzam o magistrado a convencer-se acerca da autoria delitiva.
Nada obsta, ressalve-se, que o juiz realize, em juízo, o ato de reconhecimento formal, desde que observado o
devido procedimento probatório.O reconhecimento de pessoa por meio fotográfico é ainda mais problemático,
máxime quando se realiza por simples exibição ao reconhecedor de fotos do conjecturado suspeito extraídas de
álbuns policiais ou de redes sociais, já previamente selecionadas pela autoridade policial. E, mesmo quando se
procura seguir, com adaptações, o procedimento indicado no Código de Processo Penal para o reconhecimento
presencial, não há como ignorar que o caráter estático, a qualidade da foto, a ausência de expressões e trejeitos
corporais e a quase sempre visualização apenas do busto do suspeito podem comprometer a idoneidade e a
confiabilidade do ato. (Informativo n. 684)

PROCESSO HC 525.249-RS, Rel. Min. Laurita Vaz, Sexta Turma, por unanimidade,
julgado em 15/12/2020, DJe 18/12/2020
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL
TEMA Execução Penal. Crime de porte ou posse de arma de fogo de uso permitido
com numeração suprimida. Art. 16, parágrafo único, inciso IV, da Lei n.
10.826/2003. Natureza hedionda do delito. Afastamento.
DESTAQUE
O crime de posse ou porte de arma de fogo de uso permitido com numeração, marca ou qualquer outro sinal de
identificação raspado, suprimido ou adulterado não integra o rol dos crimes hediondos.

241
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Os Legisladores, ao elaborarem a Lei n. 13.497/2017 - que alterou a Lei de Crimes Hediondos - quiseram conferir
tratamento mais gravoso apenas ao crime de posse ou porte de arma de fogo, de acessório ou de munição de
uso proibido ou restrito, não abrangendo o crime de posse ou porte de arma de fogo, de acessório ou de munição
de uso [Link] pleitear a exclusão do projeto de lei dos crimes de comércio ilegal e de tráfico internacional
de armas de fogo, o Relator na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado Federal propôs "que
apenas os crimes que envolvam a utilização de armas de fogo de uso restrito, ou seja, aquelas de uso reservado
pelos agentes de segurança pública e Forças Armadas, sejam incluídos no rol dos crimes hediondos". O Relator
na Câmara dos Deputados destacou que "aquele que adquire ou possui, clandestinamente, um fuzil, que pode
chegar a custar R$ 50.000, (cinquenta mil reais), o equivalente a uns dez quilos de cocaína, tem perfil
diferenciado daquele que, nas mesmas condições, tem arma de comércio permitido". Importante ainda
esclarecer que a Lei n. 13.964/2019 alterou a redação da Lei de Crimes Hediondos. Antes da vigência de tal
norma, o dispositivo legal considerava equiparado à hediondo o crime de posse ou porte ilegal de arma de fogo
de uso restrito, previsto no art. 16 da Lei n. 10.826/2003. Atualmente, considera-se equiparado à hediondo o
crime de posse ou porte ilegal de arma de fogo de uso proibido, previsto no art. 16 da Lei n.º 10.826/[Link]
destacar que a alteração na redação da Lei de Crimes Hediondos apenas reforça o entendimento ora afirmado,
no sentido da natureza não hedionda do porte ou posse de arma de fogo de uso permitido com numeração,
marca ou qualquer outro sinal de identificação raspado, suprimido ou [Link] oportuno, ressalta-se que
no Relatório apresentado pelo Grupo de Trabalho destinado a analisar e debater as mudanças promovidas na
Legislação Penal e Processual Penal pelos Projetos de Lei n. 10.372/2018, n. 10.373/2018, e n. 882/2019 -
GTPENAL, da Câmara dos Deputados foi afirmada a especial gravidade da conduta de posse ou porte de arma
de fogo de uso restrito ou proibido, de modo que se deve "coibir mais severamente os criminosos que adquirem
ou "alugam" armamento pesado [...], ampliando consideravelmente o mercado do tráfico de armas". Outrossim,
ao alterar a redação do art. 16 da Lei n. 10.826/2003, com a imposição de penas diferenciadas para o posse ou
porte de arma de fogo de uso restrito e de uso proibido, a Lei n. 13.964/2019 atribuiu reprovação criminal
diversa a depender da classificação do armamento como de uso permitido, restrito ou [Link] do
assunto, esta Corte Superior, até o momento, afirmava que os Legisladores atribuíram reprovação criminal
equivalente às condutas descritas no caput do art. 16 da Lei n. 10.826/2003 e ao porte ou posse de arma de fogo
de uso permitido com numeração suprimida, equiparando a gravidade da ação e do resultado. Todavia, diante
dos fundamentos ora apresentados, tal entendimento deve ser superado (overruling).Corrobora a necessidade
de superação a constatação de que, diante de texto legal obscuro - como é o parágrafo único do art. 1.º da Lei de
Crimes Hediondos, na parte em que dispõe sobre a hediondez do crime de posse ou porte ilegal de arma de fogo
- e de tema com repercussões relevantes, na execução penal, cabe ao Julgador adotar postura redutora de danos,
em consonância com o princípio da humanidade. (Informativo n. 684)

242
DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO

243
PRIMEIRA SEÇÃO
Voltar ao Sumário.

PROCESSO Agint no CC 155.994-SP, Rel. Min. Benedito Gonçalves, Primeira Seção,


julgado em 12/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO DO TRABALHO E PROCESSUAL TRABALHISTA
TEMA Ação civil pública. Normas trabalhistas. Concessão de Selo de
Responsabilidade Social. Art. 114, I e VII da CF. Competência da Justiça do
Trabalho.
DESTAQUE
Compete à Justiça do Trabalho processar e julgar a ação civil pública fundamentada na não concessão pela União
de Selo de Responsabilidade Social a empresa pela falta de verificação adequada do cumprimento de normas
que regem as condições de trabalho.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Trata-se de conflito de competência em ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público do Trabalho que tem
como fundamento a falta de cumprimento pela empresa requerida de condições de trabalho que lhe permitiriam
receber o Selo de Responsabilidade.
Assim sendo, o que se verifica é que a causa tem como questão de fundo o respeito às relações de trabalho e tem
como pedidos a observância de normas destinadas a promover as relações de trabalho.
Dados os pedidos e a causa de pedir, resulta que é competente a Justiça do Trabalho, nos termos do art. 114 da
Constituição da República, notadamente de seus incisos I e VII.
É nessa linha que são os precedentes desta Corte Superior, os quais frisam que a definição do juízo competente
é dada pelos termos em que a demanda é formulada. Confira-se: CC 89.207/SP, Rel. Ministro Teori Albino
Zavascki, Primeira Seção, DJe 1/9/2008.
Além disso, o Tribunal Superior do Trabalho, no julgamento do RR-1060-06.2012.5.15.0079, apreciando a
mesma controvérsia, reconheceu a competência daquela Justiça Especializada para o exame da questão
referente à cassação do selo de responsabilidade social "empresa compromissada", bem como impedir a
concessão sucessiva de novos selos de responsabilidade às Usinas, sem a análise concreta do cumprimento das
obrigações trabalhistas descritas no Termo de Responsabilidade. (Informativo n. 696)

244
DIREITO REGISTRAL

245
QUARTA TURMA
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PROCESSO REsp 1.583.007-RJ, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 20/04/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO REGISTRAL
TEMA Registro de marca. Sinais integrantes da propriedade industrial olímpica.
Nulidade. Proteção especial. Teoria da diluição. Marketing de emboscada. Não
cabimento.
DESTAQUE
É nulo o registro de marcanominativa de símbolo olímpico ou paraolímpico.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia está em definir se é válido ou não o registro da marca nominativa "fogo olímpico" para
identificar álcool e álcool etílico, na medida em que existente previsão legal (artigo 15 da Lein.9.615/1998)
conferindo ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB) - e ao Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPOB) - a exclusividade
de uso de símbolos olímpicos e paraolímpicos, assim como das denominações "jogos olímpicos", "olimpíadas",
"jogos paraolímpicos" e "paraolímpiadas".
Nos dias atuais, a marca não tem apenas a finalidade de assegurar direitos ou interesses meramente
individuais do seu titular, mas visa, acima de tudo, proteger os adquirentes de produtos ou serviços, conferindo-
lhes subsídios para aferir a origem e a qualidade do produto ou serviço. De outra banda, tem por escopo evitar
o desvio ilegal de clientela e a prática do proveito econômico parasitário.
A distintividade écondição fundamental para o registro da marca, razão pela qual a
Lein.9.279/1996(LPI)enumera vários sinais não registráveis, tais como aqueles de uso comum, genérico, vulgar
ou meramente descritivos, porquanto desprovidos de um mínimo diferenciador que justifique sua apropriação
a título exclusivo (artigo 124, inciso VI).
De outro lado, o inciso XIII do mesmo artigo 124 preceitua airregistrabilidadecomo marca de "nome, prêmio
ou símbolo de evento esportivo, artístico, cultural, social, político, econômico ou técnico, oficial ou oficialmente
reconhecido, bem como a imitação suscetível de criar confusão, salvo quando autorizados pela autoridade
competente ou entidade promotora do evento".
Tal norma retratahipótese de vedação absoluta de registromarcáriode designações e símbolos relacionados
a evento esportivo - assim como artístico, cultural, social, político, econômico ou técnico -, que seja oficial
(realizado ou promovido por autoridades públicas) ou oficialmente reconhecido (quando for de caráter
privado), o que inviabiliza "a utilização do termo protegido em qualquer classe" sem a anuência da autoridade
competente ou da entidade promotora do evento.
Em complemento à LPI, sobreveio a Lein.9.615/1998 - apelidada de Lei do Desporto ou de Lei Pelé -, que, em
seu artigo 87, conferiu às entidades de administração do desporto ou de prática esportiva a propriedade
exclusiva das denominações e dos símbolos que as identificam, preceituando que tal proteção legal é válida em
todo o território nacional, por tempo indeterminado, sem necessidade de registro ou averbação no órgão
competente.

246
Ademais, importante destacar que, por ocasião dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016, a
Lein.13.284/2016 criminalizou o proveito econômico parasitário, estabelecendo como figuras típicas de caráter
temporário o "marketing de emboscada por associação" (divulgar marcas, produtos ou serviços, com o fim de
alcançar vantagem econômica ou publicitária, por meio de associação direta ou indireta com os Jogos, sem
autorização das entidades organizadoras ou de pessoa por elas indicada, induzindo terceiros a acreditar que
tais marcas, produtos ou serviços são aprovados, autorizados ou endossados pelas entidades organizadoras) e
o "marketing de emboscada por intrusão" (expor marcas, negócios, estabelecimentos, produtos ou serviços ou
praticar atividade promocional, sem autorização das entidades organizadoras ou de pessoa por elas indicada,
atraindo de qualquer forma a atenção pública nos locais oficiais com o fim de obter vantagem econômica ou
publicitária).

Outrossim, a teoria da diluição das marcas tem amparo no inciso III do artigo 130 da Lei de Propriedade
Industrial, segundo o qual ao titular da marca ou ao depositante é assegurado o direito de zelar pela sua
integridade material ou reputação.
Diante desse quadro, deve ser reconhecida a nulidade do registromarcário, tendo em vista: (i) a proteção
especial, em todos os ramos de atividade, conferida pelo ordenamento jurídico brasileiro aos sinais integrantes
da "propriedade industrial Olímpica", que não podem ser reproduzidos ou imitados por terceiros sem a
autorização prévia do COB; (ii) o necessário afastamento do aproveitamento parasitário decorrente do
denominado "marketing de emboscada" pelo uso conjugado de expressão e símbolos olímpicos cujo
magnetismo comercial é inegável; e (iii) o cabimento da aplicação da teoria da diluição a fim de proteger o COB
contra a perda progressiva da distintividade dos signos olímpicos, cujo acentuado valor simbólico pode vir a ser
maculado, ofuscado ou adulterado com a sua utilização em produto de uso cotidiano. (Informativo n. 693)

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DIREITO TRIBUTÁRIO

248
PRIMEIRA SEÇÃO
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PROCESSO EDv nos EAREsp 1.109.354/SP, Rel. Min. Gurgel de Faria, Primeira Seção,
por maioria, julgado em 14/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO TRIBUTÁRIO
TEMA Contribuição ao PIS e COFINS. Regime monofásico. Creditamento. Não
cabimento. Excepcionalidade. Previsão legislativa expressa.
DESTAQUE
A técnica de creditamento, em regra, não se coaduna com o regime monofásico da contribuição ao PIS e
COFINS, só sendo excepcionada quando expressamente prevista pelo legislador.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
No regime monofásico, a carga tributária concentra-se numa única fase, sendo suportada por um único
contribuinte, não havendo cumulatividade a se evitar. Na técnica não cumulativa, por sua vez, a carga tributária
é diluída em operações sucessivas (plurifasia), sendo suportada por cada elo (contribuinte) da cadeia produtiva,
havendo direito a abater o crédito da etapa anterior.
Por outro lado, algumas vezes, por opção política, o legislador pode optar pela geração ficta de crédito, por
exemplo, forma de incentivo a determinados segmentos da economia, como fez o art. 17 da Lei n. 11.033/2004
para os beneficiários do regime tributário especial denominado REPORTO, caso que não se confunde com os
créditos próprios do regime não cumulativo.
A respeito dos mais diversos benefícios fiscais, a Constituição Federal, no art. 150, § 6º, estabelece que
"qualquer subsídio ou isenção, redução de base de cálculo, concessão de crédito presumido, anistia ou remissão,
relativos a impostos, taxas ou contribuições, só poderá ser concedido mediante lei específica, federal, estadual
ou municipal, que regule exclusivamente as matérias acima enumeradas ou o correspondente tributo ou
contribuição, sem prejuízo do disposto no art. 155, § 2.º, XII, g".
Ante o cenário normativo vigente, percebe-se que um benefício fiscal estruturado e instituído para um
determinado fim ou destinado a contemplar uma parcela específica de contribuintes não pode ser estendido a
hipótese diversa daquela estabelecida pelo Poder Legislativo, ressalvada a posterior opção legislativa pela
ampliação do seu alcance.
Nesse caminho, em interpretação histórica dos dispositivos que cuidam da matéria em debate, bem como da
leitura do item 8 da Exposição de motivos da MP n. 66/2002, convertida na Lei n. 10.637/2002, ficou
estabelecido que os contribuintes tributados em regime monofásico estavam excluídos da incidência não
cumulativa.
À luz dessas premissas, a jurisprudência deste Tribunal Superior, em um primeiro momento, entendeu que o
benefício instituído pelo artigo 17 da Lei n. 11.033/04 somente se aplicaria aos contribuintes integrantes do
regime específico de tributação denominado REPORTO e não alcançaria o sistema não cumulativo desenhado
para a COFINS e a Contribuição ao PIS.
Contudo, esse entendimento (na parte referente à extensão da Lei do REPORTO), foi superado por ambos os
órgãos fracionários que compõem a Primeira Seção do STJ, tendo sido decidido que o benefício fiscal previsto
no art. 17 da Lei n. 11.033/2004 deveria ser estendido a outras pessoas jurídicas além daquelas definidas na
referida lei.
Ocorre que, no que concerne à incompatibilidade do creditamento da contribuição ao PIS e da COFINS quando
a tributação se desse pelo regime monofásico, não houve alteração de entendimento da Segunda Turma do STJ,
que continuou decidindo reiteradamente pela sua impossibilidade.

249
Ocorre que a Primeira Turma, no ano de 2017, alterou seu posicionamento (quanto à possibilidade de
creditamento na monofasia), para entender que "o benefício fiscal consistente em permitir a manutenção de
créditos de PIS e COFINS, ainda que as vendas e revendas realizadas pela empresa não tenham sido oneradas
pela incidência dessas contribuições no sistema monofásico, é extensível às pessoas jurídicas não vinculadas ao
REPORTO, regime tributário diferenciado para incentivar a modernização e ampliação da estrutura portuária
nacional, por expressa determinação legal". Nesse julgado, considerou-se que tal benefício era extensível às
pessoas jurídicas não vinculadas ao REPORTO e que o art. 17 da Lei n. 11.033/2004 teria derrogado,
tacitamente, a Lei n. 10.637/2002 e a Lei n. 10.833/2003, porque teria regulado inteiramente a matéria tratada
nos arts. 3º dessas leis.
No entanto, atento ao que determinam o art. 150, § 6º, da CF/88 e o art. 2º do Decreto-Lei n. 4.657/1942,
deve prevalecer o entendimento da Segunda Turma desta Corte Superior, segundo o qual o benefício fiscal do
art. 17 da Lei n. 11.033/2004, em razão da especialidade, não derrogou a Lei n. 10.637/2002 e a Lei n.
10.833/2003, bem como não desnaturou a estrutura do sistema de créditos estabelecida pelo legislador para a
observância do princípio da não cumulatividade.
Por fim, pontua-se que tal técnica é utilizada para setores econômicos geradores de expressiva arrecadação,
por imperativo de praticabilidade tributária, e objetiva o combate à evasão fiscal, foge, com todo o respeito, da
razoabilidade uma interpretação que venha a admitir a possibilidade de creditamento do tributo que termine
por neutralizar toda a arrecadação exatamente dos setores mais fortes da economia. (Informativo n. 692)

PROCESSO EAREsp 31.084/MS, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Primeira Seção,
por maioria, julgado em 24/03/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO TRIBUTÁRIO
TEMA ISSQN. Sociedades simples no regime limitado. Quadro societário composto
por médicos. Recolhimento do ISSQN pela alíquota fixa. Regime do artigo 9º,
§ 3º, do Decreto-Lei n. 406/1968. Serviço prestado em caráter pessoal e em
nome da sociedade.
DESTAQUE
Sociedades simples fazem jus ao recolhimento do ISSQN na forma privilegiada previsto no art. 9º, §§ 1º e 3º,
do Decreto-Lei n. 406/1968 quando a atividade desempenhada não se sobrepuser à atuação profissional e direta
dos sócios na condução do objeto social da empresa, sendo irrelevante para essa finalidade o fato de a pessoa
jurídica ter se constituído sob a forma de responsabilidade limitada.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A questão cinge-se em saber se uma sociedade limitada faz jus ao recolhimento do ISSQN na forma
privilegiada previsto no art. 9º, §§ 1º e 3º, do Decreto-Lei n. 406/1968. No caso, trata-se de sociedade simples
limitada, em que o objeto social é a prestação de serviços médicos desenvolvidos diretamente pelos sócios que
compõem o quadro societário, cuja responsabilidade pessoal é regida pelo Código de Ética Médica.
Pautado nas mais variadas concepções factuais, hodiernamente a jurisprudência dessa Corte tem negado às
sociedades limitadas, a benesse da tributação prevista no Decreto-Lei n. 406/1968, tendo por parâmetro, ora a
forma com que a sociedade é constituída (limitada, por exemplo), ora baseada no método de distribuição de
lucros de seus sócios entre si, se proporcionalmente ao serviço prestado por cada um em nome da sociedade,
ou se proporcionalmente à sua participação no capital social.
Neste cenário, há de se esclarecer que o fato de uma sociedade simples adotar o regime de sociedade limitada,
não a torna automaticamente uma sociedade empresária. Em verdade, as municipalidades ao interpretar a
norma do artigo 9º, § 3º, do Decreto-Lei n. 406/1968 confundem a limitação da responsabilidade perante as
obrigações societárias, limitada às quotas de capital social de cada um dos sócios, com a responsabilidade
pessoal pela prestação do serviço, que decorre das normas que regulamentam a profissão dos sócios.

250
A propósito, as profissões descritas no rol do Decreto-Lei n. 406/1968 possuem cada qual, uma lei específica
regulamentando e disciplinando a responsabilidade civil pelo exercício da profissão para o público, seja de
forma autônoma, seja através de uma pessoa jurídica constituída para esse fim. Nesse cenário, conjugando esses
regramentos profissionais, com a norma tributária que instituiu o benefício da alíquota fixa, não se pode
condicionar o gozo da referida benesse fiscal ao modelo societário elegido pelos sócios para a consecução do
objeto social da pessoa jurídica. A rigor, a responsabilidade pessoal descrita no artigo 9º, § 3º, do Decreto-Lei n.
406/1968 é aquela descrita nas leis de regência de cada profissão.
Desse modo, quando os serviços prestados forem de caráter exclusivamente intelectual, não se pode a partir
da forma de constituição societária, avaliar o caráter empresarial da sociedade, como o único elemento para se
definir se ela faz jus ao benefício da alíquota fixa de de ISSQN, porquanto existem sociedades limitadas que não
são empresárias, conforme preveem expressamente os artigos 982 e 983 do Código Civil.
Assim, a fruição do direito à tributação privilegiada do ISSQN depende, basicamente, da análise da atividade
efetivamente exercida pela sociedade, para saber se ela se enquadra dentre aquelas elencadas no § 3º do art. 9º
do Decreto-lei n. 406/1968 (itens 1, 4, 8, 25, 52, 88, 89, 90, 92 da lista anexa à LC n. 56/1987), bem como se
perquirir se a atividade intelectual, científica, literária ou artística desempenhada pela pessoa jurídica não
constitua elemento de empresa, ou melhor, nos termos do artigo 966 do Código Civil, que os fatores de produção,
circulação e de organização empresarial não se sobreponham à atuação profissional e direta dos sócios na
condução do objeto social da empresa, sendo irrelevante para essa finalidade o fato de a pessoa jurídica ter se
constituído sob a forma de responsabilidade limitada. (Informativo n. 691)

PRIMEIRA TURMA
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PROCESSO REsp 1.452.963-SC, Rel. Min. Gurgel de Faria, Primeira Turma, por
unanimidade, julgado em 18/05/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO TRIBUTÁRIO
TEMA Imposto sobre operações financeiras - IOF. Câmbio. Vinculação à exportação.
Adiantamento sobre contrato de câmbio (ACC). Operação de crédito. Fato
gerador. Inexistência.
DESTAQUE
O Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC), vinculado à exportação de bens e serviços, não constitui
fato gerador do Imposto sobre Operações Financeiras - IOF.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Nos termos do art. 63, II, do CTN constitui fato gerador do IOF a liquidação do contrato de câmbio, de modo que
somente quando há a efetiva troca de moeda é cabível a incidência do tributo.
No Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC), a instituição financeira se obriga a pagar, em reais e no
momento estabelecido na avença, pela moeda estrangeira comprada a termo, ou seja, paga-se antecipadamente,
de forma total ou parcial, pelo valor correspondente ao câmbio, que se efetivará no futuro.
No âmbito das exportações, a venda de mercadorias e serviços é formalizada, em regra, mediante um contrato
firmado entre a empresa nacional e o adquirente estrangeiro. O pagamento é realizado pela moeda do país
importador. Todavia, o exportador brasileiro deve recebê-lo em moeda corrente brasileira, recebida por
operação de câmbio, a ser intermediada por instituição financeira. De acordo com o seu interesse, pode formular
um ACC, para antecipar esse valor, sujeitando-se aos seus consectários pertinentes.
Com efeito, o ACC representa uma antecipação da obrigação contratual formulada com a instituição financeira,
que tem por objeto pagar ao exportador o preço em moeda nacional da moeda estrangeira adquirida para
entrega futura.

251
Conclui-se que há um liame, um vínculo indissociável, entre o ACC e a operação de câmbio, na medida em que
se antecipa para o exportador nacional uma importância que irá se concretizar com o recebimento da moeda
estrangeira, advinda da efetiva exportação dos bens ou serviços.
Nesse contexto, o ACC não representa uma operação de crédito, embora não se negue a antecipação de
numerário que ela representa. Trata-se de uma operação de câmbio de forma antecipada, e assim deve ser
tributada, pois vinculada a compra a termo de moeda estrangeira.
Ademais, em se tratando de operação de câmbio vinculada às exportações, sempre foi observada a alíquota
(zero) de IOF, seguindo a orientação constitucional de que não se exporta tributos (arts. 149, § 2º, I; 153, § 3º,
III; e 155, § 2º, X, "a", da Constituição Federal). (Informativo n. 697_

PROCESSO REsp 1.520.184-PR, Rel. Min. Benedito Gonçalves, Primeira Turma, por
unanimidade, julgado em 04/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO TRIBUTÁRIO
TEMA Contribuição ao PIS e COFINS. Lei n. 9.718/1998. Cooperativa de pesquisa
agropecuária. Venda de sementes, grãos e mudas. Desenvolvimento de
tecnologia. Fato definidor da qualidade da mercadoria. Royalties. Base de
cálculo. Inclusão. Possibilidade.
DESTAQUE
As receitas de royalties provenientes de atividades próprias da cooperativa de desenvolvimento científico e
tecnológico de pesquisa agropecuária, devem integrar a base de cálculo das contribuições ao PIS e da COFINS.
NFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O Supremo Tribunal Federal firmou entendimento, segundo o qual a receita bruta e o faturamento, para fins
de definição da base de cálculo de incidência da contribuição para o PIS e da COFINS, são termos equivalentes e
consistem na totalidade das receitas auferidas com a venda de mercadorias, de serviços ou de mercadorias e
serviços, assim entendido como a soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais típicas.
No caso, trata-se de "sociedade cooperativa que tem por objeto social o desenvolvimento científico e
tecnológico de pesquisa agropecuária e aufere receitas decorrentes da venda dos seus produtos (sementes,
fertilizantes, mudas etc) e também de royalties (rendimentos decorrentes da exploração dos direitos sobre as
sementes e mudas desenvolvidas na atividade de pesquisa)".
É certo que os royalties são pagos em razão do uso, da fruição ou da exploração de direitos, e não pela
prestação de serviços ou em decorrência da venda de sementes, grãos, mudas etc.
O produto resultante da pesquisa científica e tecnológica é o know how de como desenvolver determinas
espécies de sementes e mudas mais resistentes a pragas, [Link].; e, assim, não se confunde os rendimentos
recebidos pela venda dessas mercadorias biotecnológicas.
A pesquisa científica ou tecnológica cria, melhora ou desenvolve o produto oferecido, tornando-o atraente
para os potenciais compradores interessados nas características desenvolvidas pelo procedimento científico.
Essas características são, em alta proporção, definidoras da qualidade específica buscada pelo produtor-
cooperado (menor custo de produção por hectare; menor incidência de pragas; maior resistência a produtos
químicos etc).
Por isso, a receita da venda do produto (semente, grãos, mudas etc) e, concomitante, as receitas de royalties
(derivados de seu desenvolvimento) são provenientes das atividades típicas da cooperativa autora; são
indissociáveis, se considerado o fato de uma receita estar intimamente vinculada com a geração da outra, razão
pela qual não há como se retirar os royalties da base de cálculo das contribuições, tendo em vista compor a
"soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais típicas". (Informação n. 695)

252
PROCESSO REsp 1.805.317/AM, Rel. Min. Gurgel de Faria, Primeira Turma, por
unanimidade, julgado em 09/02/2021, DJe 17/02/2021
RAMO DO DIREITO DIREITO TRIBUTÁRIO
TEMA Imposto sobre serviços de qualquer natureza - ISSQN. Armazenagem em
terminal portuário alfandegado. Incidência.
DESTAQUE
A atividade de armazenamento de cargas em terminal portuário alfandegado está sujeita à incidência do
Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza - ISSQN
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
De acordo com o art. 1º da LC n. 116/2003, "o Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (...) tem como fato
gerador a prestação de serviços constantes lista anexa, ainda que esses não se constituam como atividade
preponderante do prestador". A referida lista, em seu item 20.01, elenca expressamente a prestação de serviços
portuários, especificando, entre eles, os de armazenagem de qualquer [Link] o adequado desempenho
da atividade de armazenamento em instalação portuária alfandegada, a empresa autorizada para explorar o
terminal portuário (art. 4º, § 2º, II, "b", da Lei n. 8.630/1993 e Portaria RFB n. 3.518/2011) deve organizar as
cargas recebidas em razão de sua natureza, conservar o seu estado em conformidade com os cuidados que elas
exigem e guardar as mesmas sob sua vigilância, controlando por meio de monitoramento obrigatório o acesso
de pessoas à área destinada para essa finalidade, sendo certo que todas essas ações encerram o cumprimento
de obrigações de fazer, estando, assim, bem caracterizada a prestação de serviço tributável pelo imposto
[Link] espécie de armazenamento não se confunde com instituto da locação para afastar a incidência
do ISSQN, pois não há transferência da posse direta da área alfandegada ao importador/exportador, para que
esse a utilize por sua conta e risco, sendo certo que a área alfandegada segregada para fins de armazenamento
é de acesso restrito, o que impede a cessão de seu espaço físico, competindo exclusivamente ao terminal
portuário o manejo dos contêineres recebidos.A distinção entre esses negócios jurídicos também se dá no
campo da responsabilidade civil: na locação de espaço físico, ainda que cedido com instalações próprias para o
uso almejado, eventuais danos em razão do exercício da posse direta devem ser suportados pelo próprio
locatário que lhe deu causa; já no armazenamento em questão, salvo os casos de força maior, caberá à empresa
que explora o terminal portuário o dever de indenizar os prejuízos causados aos proprietários por falha na
prestação do serviço de armazenagem. (Informativo n. 685)

PROCESSO REsp 1.168.001-RS, Rel. Min. Sérgio Kukina, Primeira Turma, por
maioria, julgado em 17/11/2020, DJe 17/12/2020
RAMO DO DIREITO DIREITO TRIBUTÁRIO
TEMA Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI. Crédito presumido.
Ressarcimento de PIS e COFINS. Lei n. 9.363/1996. Critério temporal. Data da
exportação (Registro junto ao SISCOMEX).
DESTAQUE
O direito ao crédito presumido de IPI só surge na data de exportação e não na data de aquisição dos insumos.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A Lei n. 9.363/1996 instituiu o benefício fiscal de crédito presumido de Imposto sobre Produtos Industrializados
- IPI para ressarcimento do valor de PIS/PASEP e COFINS incidente sobre as respectivas aquisições no mercado
interno de insumos utilizados no processo produtivo (art. 1º).O objetivo do benefício foi o de desonerar as
exportações; a tal propósito, o elemento temporal eleito pelo legislador para o gozo dessa benesse foi a data da
exportação (e não a da aquisição dos insumos).Já a MP n. 1.807-2/1.999 promoveu a suspensão da fruição desse
mesmo benefício, no período compreendido entre 1º de abril e 31 de dezembro de 1999 (art. 12).Tal suspensão
ocorreu nas exportações realizadas no lapso previsto na MP n. 1.807/1999, considerando-se que o direito ao
crédito surge quando da realização da exportação (data de registro junto ao SISCOMEX).Com efeito, "apenas as
253
exportações efetuadas dentro do primeiro trimestre de 1999 geraram crédito presumido de IPI. Isso porque,
muito embora se possa dizer que o direito ao crédito tenha por causa desonerar as aquisições no mercado
interno, a sua utilização somente pode ocorrer quando da realização da exportação (data de registro junto ao
SISCOMEX e embarque da mercadoria), já que o objetivo do benefício é desonerar as exportações" (REsp
1.340.086/RS, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 2/5/2017). (Informativo n. 684)

SEGUNDA TURMA
Voltar ao Sumário.

PROCESSO REsp 1.805.918-PE, Rel. Min. Og Fernandes, Segunda Turma, por


unanimidade, julgado em 25/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO PREVIDENCIÁRIO, DIREITO TRIBUTÁRIO
TEMA Plano de Seguridade do Servidor Público (PSS). Contribuição previdenciária.
Art. 16-A da Lei n. 10.887/2004. Base de cálculo dos juros de mora. Inclusão.

DESTAQUE
Os valores devidos a título de contribuição do Plano de Seguridade do Servidor Público (PSS) devem integrar a
base de cálculo dos juros de mora, na hipótese de pagamento em cumprimento de decisão judicial, de modo a
evitar indevida antecipação do fato gerador, bem como indevida redução da obrigação de pagar.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Conforme dispõe o art. 16-A da Lei n. 10.887/2004, a contribuição do Plano de Seguridade do Servidor Público
(PSS) somente é devida nas demandas judiciais a partir do pagamento dos valores requisitados ao ente público.
Desse modo, o fato gerador da exação, no caso de valores adimplidos por meio de precatório ou RPV, somente
ocorre no momento do pagamento ao beneficiário ou ao seu representante legal, ocasião na qual a instituição
financeira tem o encargo de proceder à retenção na fonte.
Nesse sentido, antes da ocasião do pagamento, seja na via administrativa, seja na via judicial, não há ainda
tributo devido pelo credor da Fazenda Pública.
Em verdade, nãose trata de fazer incluir no débito verbas que pertenceriam à UNIÃO, já que, por lei, a dívida
judicialmente reconhecida somente sofre a incidência da contribuição para o PSS no momento do pagamento
do precatório/RPV.
Acrescente-se, ainda, que os juros de mora, pela sua natureza indenizatória, não estão sujeitos à incidência da
contribuição.
Portanto, a pretensão de proceder à exclusão da contribuição previdenciária da base de cálculo dos juros de
mora acarreta indevida antecipação do fato gerador, bem como implica redução indevida da obrigação de pagar.
(Informativo n. 697)

254
PROCESSO AREsp 1.471.958-RS, Rel. Min. Assusete Magalhães, Segunda Turma,
julgado em 18/05/2021, DJe 24/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO TRIBUTÁRIO
TEMA ICMS. Decadência. Pagamento a menor. Dimensionamento incorreto do
crédito tributário. Creditamento indevido. Diferencial de alíquotas. Art. 150 §
4º do Código Tributário Nacional.
DESTAQUE
Na hipótese de lançamento suplementar de ICMS, em decorrência de dimensionamento incorreto do crédito
tributário (creditamento a maior e diferencial de alíquotas), deve ser aplicado o art. 150, § 4º, e não o art. 173,
I, ambos do CTN.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O termo inicial do prazo decadencial de tributo sujeito a lançamento por homologação - como é o caso, em regra,
do ICMS -, depende da circunstância de ter o contribuinte antecipado, ou não, o pagamento da exação. Com
efeito, nos termos da Súmula 555 do STJ, "quando não houver declaração do débito, o prazo decadencial
quinquenal para o Fisco constituir o crédito tributário conta-se exclusivamente na forma do art. 173, I, do CTN,
nos casos em que a legislação atribui ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da
autoridade administrativa" . Ou seja, não antecipado o pagamento, o prazo decadencial inicia-se no primeiro dia
do exercício seguinte àquele em que poderia ter sido efetuado o lançamento. Por outro lado, antecipado o
pagamento do tributo, o prazo decadencial observa o art. 150, § 4º, do CTN, ou seja, desde a ocorrência do fato
gerador inicia-se o prazo decadencial para o lançamento suplementar, sob pena de homologação tácita do
lançamento. Nesse sentido: STJ, AgInt no REsp 1.817.191/RS, Rel. Ministro Francisco Falcão, Segunda Turma,
DJe de 24/04/2020.
No caso analisado, verificou-se não pagamento de tributo referente a diferença a menor entre o que foi pago
pelo contribuinte e o que foi apurado, posteriormente, no lançamento complementar, pelo Fisco, em decorrência
do creditamento integral, realizado pelo contribuinte, e do diferencial de alíquotas. Pontua-se que, no caso
analisado, não há qualquer imputação da prática, pelo contribuinte, de ato doloso, fraudulento ou simulado.
Em casos tais, o prazo decadencial rege-se pelo art. 150, § 4º, do CTN, tendo início na data da ocorrência do fato
gerador. "Com efeito, a jurisprudência consolidada por esta Corte dirime a questão jurídica apresentada a partir
da existência, ou não, de pagamento antecipado por parte do contribuinte. Para essa finalidade, salvo os casos
de dolo, fraude ou simulação, despiciendo se mostra indagar a razão pela qual o contribuinte não realizou o
pagamento integral do tributo. A dedução aqui considerada (creditamento indevido) nada mais é do que um
crédito utilizado pelo contribuinte decorrente da escrituração do tributo apurado em determinado período
(princípio da não cumulatividade), que veio a ser recusada (glosada) pela Administração. Se esse crédito
abarcasse todo o débito tributário a ponto de dispensar qualquer pagamento, aí sim, estar-se-ia, como visto,
diante de uma situação excludente da aplicação do art. 150, § 4º, do CTN" (STJ, AgRg nos EREsp 1.199.262/MG,
Rel. Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Seção, DJe de 07/11/2011).
Com isso, conclui-se que na hipótese de lançamento suplementar de ICMS, em decorrência de dimensionamento
incorreto do crédito tributário (creditamento a maior e diferencial de alíquotas), deve ser aplicado o art. 150, §
4º, e não o art. 173, I, do CTN. (Informativo n. 698)

PROCESSO RMS 52.051-AP, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, por
unanimidade, julgado em 11/05/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO TRIBUTÁRIO
TEMA Imposto de Renda - IR. Contraprestação de plantões médicos. Incidência.
DESTAQUE
Incide Imposto de Renda sobre verba paga como contraprestação de plantões médicos.

255
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a analisar se incide Imposto de Renda - IR sobre a verba como contraprestação de
plantões médicos considerando que lei local considera a referida verba como indenizatória.
De início, pontua-se que a existência de lei considerando a referida verba como indenizatória não transmuta a
natureza jurídica desta verba para fins de IR. Nesse sentido, segue precedente: "(...) 1. Os rendimentos do
trabalho assalariado estão sujeitos à incidência do imposto de renda (art. 7º, I, da Lei n. 7.713/1988). 2. O fato
de lei estadual denominar a remuneração pelo serviço prestado em plantões como verba indenizatória não
altera sua natureza jurídica para fins de imposto de renda, porquanto, nos termos dos arts. 109, 110 e 111 do
CTN, combinados com os arts. 3º, 6º e 7º da Lei n. 7.713/1988, a incidência desse tributo, de competência da
União, independe da denominação específica dos rendimentos, sendo certo que inexiste hipótese legal de
isenção. (...) (RMS n. 50.738/AP, Primeira Turma, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 10/05/2016,
DJe03/06/2016).
À toda evidência, como bem ressaltada pela Corte de Origem "apesar de a redação do art. 5° da Lei Estadual n.
1.575/2011 prever que a remuneração dos plantões médicos possui natureza indenizatória, não há como fechar os
olhos à realidade, posto que tais pagamentos são habituais, comutativos e de caráter eminentemente retributivo
do serviço prestado mês a mês e não se prestam a ressarcir qualquer gasto ou despesa extraordinária realizada
pelo servidor [...]".
Com efeito, a verba assim instituída se assemelha àquela paga por horas extras aos demais trabalhadores da
iniciativa privada ou servidores públicos, constituindo evidentemente remuneração, pois corresponde à paga
pelo serviço prestado fora dos horários habituais. Para estes casos (hora extra) é pacífica a jurisprudência deste
STJ no sentido da incidência do imposto de renda. (Informativo n. 696)

256
DIREITO URBANÍSTICO

257
QUARTA TURMA
Voltar ao Sumário.

PROCESSO REsp 1.539.056/MG, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 06/04/2021.
RAMO DO DIREITO DIREITO DO CONSUMIDOR, DIREITO URBANÍSTICO
TEMA Ação civil pública. Venda de terrenos em loteamento irregular. Publicidade
enganosa. Interesse transindividual. Proteção do meio ambiente e da ordem
urbanística. Dano moral coletivo. Cabimento.
DESTAQUE
A alienação de terrenos a consumidores de baixa renda em loteamento irregular, tendo sido veiculada
publicidade enganosa sobre a existência de autorização do órgão público e de registro no cartório de imóveis,
configura lesão ao direito da coletividade e dá ensejo à indenização por dano moral coletivo.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O dano moral transindividual - conhecido como "dano moral coletivo" -, caracteriza-se pela prática de
conduta antijurídica que, de forma absolutamente injusta e intolerável, viola valores éticos essenciais da
sociedade, implicando um dever de reparação, que tem por escopo prevenir novas condutas antissociais (função
dissuasória), punir o comportamento ilícito (função sancionatório-pedagógica) e reverter, em favor da
comunidade, o eventual proveito patrimonial obtido pelo ofensor (função compensatória indireta).
Tal categoria de dano moral é aferível, portanto, in re ipsa, ou seja, reclama a mera apuração de uma conduta
ilícita que, de maneira injusta e intolerável, viole valor ético-jurídico fundamental da sociedade, revelando-se
despicienda a demonstração de prejuízos concretos ou de efetivo abalo moral.
No presente caso, a pretensão reparatória de dano moral coletivo - deduzida pelo Ministério Público estadual
na ação civil pública - tem por causas de pedir a alienação de terrenos em loteamento irregular (ante a violação
de normas de uso e ocupação do solo) e a veiculação de publicidade enganosa a consumidores de baixa renda,
que teriam sido submetidos a condições precárias de moradia.
As instâncias ordinárias reconheceram a ilicitude da conduta dos réus que, utilizando-se de ardil e omitindo
informações relevantes para os consumidores/adquirentes, anunciaram a venda de terrenos em loteamento
irregular - com precárias condições urbanísticas - como se o empreendimento tivesse sido aprovado pela
Municipalidade e devidamente registrado no cartório imobiliário competente; nada obstante, o pedido de
indenização por dano moral coletivo foi julgado improcedente.
No afã de resguardar os direitos básicos de informação adequada e de livre escolha dos consumidores -
protegendo-os, de forma efetiva, contra métodos desleais e práticas comerciais abusivas -, é que o Código de
Defesa do Consumidor procedeu à criminalização das condutas relacionadas à fraude em oferta e à publicidade
abusiva ou enganosa.
Os objetos jurídicos tutelados pelas citadas normas penais compreendem, os direitos de livre escolha e de
informação adequada dos consumidores, cuja higidez da manifestação de vontade deve ser assegurada, de modo
a atender o valor ético-jurídico encartado no princípio constitucional da dignidade humana, conformador do
próprio conceito de Estado Democrático de Direito, que não se coaduna com a permanência de profundas
desigualdades, tais como a existente entre o fornecedor e a parte vulnerável no mercado de consumo.
Ambos os crimes são de mera conduta, não reclamando a consumação do resultado lesivo - efetivo
comprometimento da manifestação da vontade do consumidor -, donde se extrai, a evidente intolerabilidade da
lesão ao direito transindividual da coletividade ludibriada, não informada adequadamente ou exposta à oferta
fraudulenta ou à publicidade enganosa ou abusiva.

258
Sob a mesma ótica, destaca-se precedente da Segunda Turma - da relatoria do eminente Ministro Herman
Benjamin -, firmado por ocasião do julgamento do Recurso Especial 1.828.620/RO, segundo o qual "enganar o
consumidor ou dele abusar vai muito além de dissabor irrelevante ou aborrecimento desprezível, de natural
conduta cotidiana, aceitável na vida em sociedade", por configurar prática flagrantemente antiética e ilegal que
não poupa "nem pobres nem vulneráveis, nem analfabetos nem enfermos".
Outrossim, não é apenas à luz do CDC que se observa a configuração de dano moral transindividual
inaceitável.
Com efeito, a Lei n. 6.766/1979 - que dispõe sobre o parcelamento do solo para fins urbanos - em seus artigos
50 e 51 (notadamente os contidos nos incisos I e II do caput do artigo 50) consubstanciam crimes de mera
conduta, tendo por objeto jurídico o respeito ao ordenamento urbanístico e, por conseguinte, a defesa do meio
ambiente ecologicamente equilibrado, valor ético social - intergeracional e fundamental - consagrado pela
Constituição de 1988 (artigo 225), que é vulnerado, de forma grave, pela prática do loteamento irregular (ou
clandestino).
Sendo clara a ofensa ao mínimo existencial da coletividade prejudicada pelo loteamento irregular - assim
como a publicidade enganosa efetuada em detrimento dos consumidores -, tal conduta configura lesão
intolerável a valor essencial da sociedade, o que torna a condenação ao pagamento de indenização por danos
morais coletivos plenamente viável. (Informativo n. 691)

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