Despronúncia em Homicídio Tentado PR
Despronúncia em Homicídio Tentado PR
Documento assinado digitalmente, conforme MP nº 2.200-2/2001, Lei nº 11.419/2006, resolução do Projudi, do TJPR/OE
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ
1ª CÂMARA CRIMINAL
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Recurso em Sentido Estrito sob n.º
0000374-17.2024.8.16.014, Comarca de Reserva - Vara Criminal, em que é recorrente PAULO
MARTINS DA CRUZ e recorrido o MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ.
“No dia 18 de dezembro de 2021, por volta das 09h29min, na Rua Pastor Gregório
Szeremeta, n° 768, em frente ao mercado Big Mais, neste município e Comarca de Reserva/PR,
o denunciado PAULO MARTINS DA CRUZ, agindo dolosamente, com manifesta intenção de
matar (animus necandi), iniciou a execução de ato visando ceifar a vida da vítima Dornevil de
Lima, vez que efetuou contra ele aproximadamente 03 (três) disparos de arma de fogo (não
apreendi da), não logrando êxito em atingi-lo por circunstancias alheias a sua vontade, vez que
PROJUDI - Recurso: 0000374-17.2024.8.16.0143 - Ref. mov. 31.1 - Assinado digitalmente por Miguel Kfouri Neto:5950
27/05/2024: JUNTADA DE ACÓRDÃO. Arq: Acórdão (Desembargador Miguel Kfouri Neto - 1ª Câmara Criminal)
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o ofendido, ao perceber que seria atacado, se abrigou na frente do seu automóvel, ocasião em
que sacou a arma de fogo do tipo pistola calibre .40lb, que portava no momento, vindo a efetuar
02 (dois) disparos, repelindo a injusta agressão. O delito foi praticado por motivo fútil, posto
que perpetrado em razão da vítima estar se relacionando com a ex-esposa do denunciado. O
crime foi cometido com emprego de meio que resultou perigo comum, uma vez que os disparos
de arma de fogo efetuados pelo denunciado, por não atingirem a vítima, colocaram em risco os
É a síntese do essencial.
FUNDAMENTAÇÃO E VOTO
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Cuida-se de recurso em sentido estrito interposto por PAULO MARTINS DA
CRUZ contra a decisão que o pronunciou como incurso nas sanções do art. 121, § 2.º, incisos II e
III, c.c. art. 14, inc. II, ambos do CP, a fim de ser submetido a julgamento perante o Tribunal do
Júri.
Pois bem.
Desse modo, para que o réu seja submetido a julgamento perante o Conselho de
Sentença, é necessário que o Magistrado se convença da materialidade do fato e da existência,
frise-se, de indícios suficientes de autoria, isto é, não se exige a certeza necessária exigida para
os decretos condenatórios.
“(...) “eu estava no mercado comprando umas coisas para levar pro rapaz que
cuida da minha chácara e ele (acusado) passou atrás de mim, parou com o carro e deu três
tiros, foi o Paulo Martins o nome dele; eu saí da minha casa e cheguei no mercado para levar as
coisas na chácara e estava indo para o clube de tiro; sim (portava arma de fogo); uma .40,
tenho registro, porte de trânsito tudo; o clube de tiro faz caminho com a minha propriedade; (...)
o supermercado fica do lado da minha casa; eu estava em um Honda Civic; era de manhã, umas
nove e meia dez horas; eu estava com as costas virada pra rua pondo as compras no porta-
malas do veículo; estava sozinho, o do mercado sim (funcionário ajudando), estava carregando
o carrinho, até foi ele que viu, empurrou e falou cuidado; (...) ele me empurrou e o Paulo já
chegou e atirou; atirou de dentro do veículo, só abaixou o vidro; sim (viu que era o acusado);
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era um Voyage Preto, eu já sabia que ele tinha esse carro; com certeza eu conheci o carro; foi
três disparos, um pegou no meu boné; (...) como a minha arma estava dentro do carro eu peguei
e minha reação foi dar dois disparos também; dentro do veículo (a arma da vítima); eu estava
atrás do veículo ainda (quando acusado efetua disparos); (...); sim (após a efetuação dos
disparos foi pegar arma); a hora que ele ouviu os disparos ele saiu, ele arrancou o carro, todo
mundo viu; sim (acusado só saiu do local após a vítima efetuar os disparos); acredito que não
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e deu mais disparos atrás do Voyage; (...); eu só lembro que ele saiu falando no telefone com a
Márcia que ele tinha atingido no vidro traseiro; o carro estava praticamente na BR quando ele
disparou, não deu pra ouvir os estilhaços de vidro; na verdade ele foi a pé até o meio da rua;
não lembro quantos disparos que foi no meio da rua; o vidro da frente do veículo era bem
escuro, (...); não deu pra ver bem certo quem estava dentro (...); ele (atirador do Voyage) atira
de dentro do veículo; isso, foi abaixado o vidro do passageiro; duas balas atingiu a parede do
“(...) nesse dia eu fui chamado na frente do caixa para fazer um pacote; fiz o
pacote, coloquei no carrinho, tudo e fui levar no carro do cliente; estava carregando no carro
dele e de repente desceu um carro atirando; (...) a pessoa atirou de dentro do carro; (...) acho
que era bem a tarde, é que eu não lembro, porque faz tempinho; daí nós estava conversando e de
repente desceu um carro já atirando; na hora assim a gente não vê, a gente se apavora; se me
vem na memória acho que é um carro branco; ele desceu devagar só que o carro andando; isso
(carro estava devagar); declaradamente não (ver atirador); ver a cara dele não me recordo; eu
lembro que era uma pessoa clara, só isso; era homem; ele estava sozinho; isso (atira pelo vidro
do passageiro); na verdade nem deu tempo, porque eu estava de costa, a hora que eu vi ele
estava se jogando no chão e aquele barulho; (...); estava de costa aí que eu virei rápido; acho
que eu paralisei na hora; eu fiquei paralisado; ele foi pro chão e aí começou a revidar, começou
a atirar também; eu acho que a arma já estava no corpo, porque a hora que ele se jogou eu vi
que tinha caído alguma coisa e ele pegou e começou a atirar; isso (viu que ele revidou); ele
revidou ali do carro e ainda saiu meio atrás ainda; isso (efetuou mais um disparo); isso (carro
seguiu); a hora que ele saiu eu fui pra dentro do mercado e aí não vi mais nada; não fiquei
sabendo (vítima atingir veículo com disparos); (...) a cara da pessoa na hora eu não vi, vi que
era uma pessoa clara; mas aí não afirmei que era a pessoa que ele (delegado) tinha mostrado;
não, depois do acontecido nós nem conversamos mais; (...); tinha bastante cliente e até na
verdade correram tudo pro fundo do mercado, bastante gente no caixa; no estacionamento não,
era só eu ele porque era estacionamento pequeno; sim, bem perto; atingiu a parede do mercado
lá, até tinha marca de bala no mercado”.– conforme extraído da decisão de pronúncia (mov.
143.1).
“(...) “todo sábado pela manhã o Dornevil ia no mercado fazer compra, porque ele
ia pro sítio com a família; nesse dia ele entrou dentro do mercado, pegou o carrinho e foi pro
fundo fazer compra; o mercado, se vocês passarem por frente vão ver que lá da rua você
consegue ver o fundo do mercado, as pessoas que estão lá dentro; o carro do Dorvenil também
era conhecido na cidade, são poucos que tem lá; era um Honda Civic, cinza, chumbo; ele
chegou, estacionou o carro, pegou o carrinho e entrou fazer compra; alguns minutos depois
parou um carro preto do outro lado da rua; só que ali no mercado é normal parar carro e ficar,
talvez estaria falando no telefone, só que eu não vi quem estava dentro, aguardou alguns
minutos e eu atendendo quem vinha; aí eu fiquei olhando uns minutos, veio cliente e comecei a
atender; aí veio o Done e quando olhei aquele carro já tinha sumido; (...) e passou comigo a
compra e eu chamei o Marcelo ‘venha me ajudar aqui empacotar a compra pra mim’; (...) o
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Marcelo pegou a compra, pôs no carrinho e saiu com ele e eu continuei no caixa atendendo as
outras pessoas; nisso que ele foi no carro dele e abriu o porta-malas já desceu aquele carro
atirando, sentido Detran; e foi aonde ele (vítima) tirou da pistola dele e atirou; aí eles ficaram
naquela troca de tiros, Marcelo ali perto deles, e eu no caixa, os clientes se expandiram dentro
do mercado; (...) eu costumava ficar olhando pra fora, ficar na cadeira em sistema de alerta,
(...); então nunca ficava de costa pra rua; um olho pra rua e outro no caixa; sim, porque o
“(...) ele é uma pessoa meio complicada (vítima); ele está preso, isso já diz tudo
para mim; ouvi rumores que ele é uma pessoa de extorquir, enrola assim, estelionatário na
verdade; (...) eu estava no posto, tinha chegado no posto, tinha estragado um caminhão e eu
estava conversando com o Carlinhos; ele estava pegando óleo, nós começamos a conversar,
estava colhendo tomate e nisso chegou o Paulo conversar lá; chegou abastecer o carro; era
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umas nove e pouco; eu tinha deixado o caminhão pra arrumar umas oito e mais, tinha ido no
Lopata lá; ele (acusado) falou que tinha ido tomar vacina do Corona; até caçoei com ele se o
braço não estava doendo, que a vacina dá reação (...) acho que uns quarenta minutos mais ou
menos (tempo que ficaram conversando); posto Cruzeiro, aqui em cima; chegou de carro, era
um carro preto; estava normal; ele estava bem tranquilo; ele estava dando risada da vacina lá;
eu sei que ele ficou uns quarenta, cinquenta minutos, eu fiquei mais esperando o caminhão
“(...) por volta das nove horas eu saí da minha casa, fui tomar vacina do Covid e
demorei uns dez, quinze minutos, não tinha muita gente; aí fui no posto lá perto do Cruzeiro
abastecer meu carro e foi aonde eu encontrei o Carlos Dalzoto e o Vianei; a gente ficou
conversando um pouco lá e depois fui pra minha casa; não (envolvimento com o fato); sim
(vítima namora ex-esposa do acusado); não, porque a partir do momento que a gente termina o
relacionamento, cada um segue a sua vida; não tem porque pegar e ter ciúme não; não
(confusão com a vítima); (...); não (ter rixa com vítima); é parecido (carro), mas não é o meu;
BAV8802 (número da placa); ele era bem escuro (vidro); eu não tenho mais esse carro; tinha
um Voyage; não (não era esse) (...) não faço a mínima ideia (motivo da acusação); (...) outubro
de 2019 (término do relacionamento); não (manter contato com a ex-esposa); ela foi embora e
eu fiquei morando aqui; ela foi embora uns quatro, cinco meses (depois do término); 2020 ela
foi embora; nunca mais a vi; não (contato telefônico); logo após, não sei quanto tempo foi,
troquei de número; nunca mais tive contato com ela; não, nunca (tentar reatar a relação); é
mentira (acusado proferir ameaças a ex-esposa); não (ter ameaçado por meio de gesto de
arminha); (...) a gente terminou porque elaqueria casar no civil e eu disse que eu caso no civil,
mas você tem que casar na igreja católica comigo; (...) foi tranquilo, de boa, não teve briga,
nada (término); sim, na pastelaria, por ele ser cliente trocava um bom dia, boa tarde (conhecer
vítima), não (vítima não ligou pra tirar satisfação); logo depois que a gente se separou (saber
que vítima estava com a ex-esposa); essa agora faz um ano (que está namorando); foi uns
quatro meses (outro relacionamento do acusado); eu acredito que não, porque nunca ameacei,
nunca fiz nada de mal pra ela (ex-esposa mudar de cidade); não (se já atirou); não (usar arma
de fogo)”. – conforme extraído da decisão de pronúncia (mov. 143.1).
Pois bem.
Neste caso, a vítima da tentativa branca de homicídio afirma que o autor dos
disparos foi o réu. A motivação estaria ligada ao fato de a vítima estar se relacionando com a ex-
mulher do acusado.
A testemunha BRENO, proprietário do mercado, disse que “na hora que eu vi era
um Voyage preto descendo a rua do mercado e estava atirando”, mas também não soube dizer
quem seria o atirador. Ou seja, apenas falou que o atirador se deslocou em um VW-Voyage
preto, com os vidros dianteiro bem escuros “o vidro da frente do veículo era bem escuro (...) não
deu para ver bem certo quem estava dentro”. BRENO complementa, dizendo que “(...) nunca vi
o senhor Paulo. Acrescenta que “bastante pessoal fala o motivo do porquê; (...) nunca vi o
senhor Paulo; eles comentaram que o Done estava saindo com a esposa do dono da pastelaria”.
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A informante MARCIA, disse que em nenhum momento viu o atirador, mas apenas
o VW-Voyage, preto passando em frente ao mercado que trabalha “era um carro preto, um
Voyage desses novos; o mesmo carro que subiu era igualzinho o carro que desceu atirando; (...)
realmente vi o carro ficar uns minutinhos ali (...) ele atirou de dentro do carro, ele para um
pouquinho, uns minutinhos, muito rápido; (...) em nenhum momento eu vi o atirador.”.
Veja-se que o álibi apresentado por PAULO foi corroborado por duas testemunhas
trazidas pela Defesa, CARLOS e VIANEI, que afirmaram estarem com o réu no posto
“Cruzeiro”, conversando sobre a vacina da Covid-19 que o réu teria tomado naquele dia. Confira-
se trechos pertinentes dos depoimentos das referidas testemunhas:
Ainda, a título de argumentação, ressalte-se que a vítima afirmou que sua esposa e
ex-mulher do réu já foi ameaçada de morte por PAULO, e que ele falou para o tio dela que tinha
comprado uma arma para lhe matar, bem como, disse que “no Facebook da minha sogra ele
(Paulo) falou que foi ele e que ele tinha perdido a cabeça”, mas tais pessoas sequer foram
arroladas para serem ouvidas nos autos.
Assim, apenas com a palavra da vítima e testemunhas que nada confirmaram sobre
quem seria o atirador, concluo que o "standard" probatório mínimo, exigível para a pronúncia,
não foi atingido.
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pode admitir, em um Estado Democrático de Direito, a pronúncia baseada, exclusivamente, em
testemunhos indiretos (por ouvir dizer). Precedentes. 2. O Tribunal estadual, após apreciar
integralmente o conjunto fático-probatório, verificou a ausência de elementos suficientes para a
pronúncia do Recorrido, uma vez que as provas produzidas nos autos se restringiam a relatos
"por ouvir dizer", não havendo nada que imputasse a prática delitiva diretamente ao Acusado.
(...)”. (AgRg no REsp n. 1.959.515/RS, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em
Nesse quadro, existe apenas presunção de que tenha sido o réu quem efetuou os
disparos - um deles acertou o boné da vítima. Todavia, a prova é deveras frágil - e a
DESPRONÚNCIA do acusado se impõe.
DISPOSITIVO
O julgamento foi presidido pelo (a) Desembargadora Lidia Maejima, com voto, e dele
participaram Desembargador Miguel Kfouri Neto (relator) e Desembargador Substituto Benjamim
Acácio De Moura E Costa.
24 de maio de 2024