APRENDENDO O CONTENTAMENTO
– LUCIANO SUBIRÁ
Rosméri, uma querida irmã de Guarapuava, Paraná, contou-me que, quando se converteu,
ela começou a orar fervorosamente para que o Senhor fizesse com que ela ganhasse na
Loteria. Mesmo sem ter conseguido nada a princípio, ela foi insistindo, não só no jogo, mas
nas orações “para poder ganhar”. Numa certa ocasião, estando já desanimada e cansada de
tanto orar, porém sem ver nada acontecer, ela desabafou com Deus, dizendo que Ele não
ouvia as suas orações. Então, ela teve uma visão que a marcou muito.
Ela se viu diante de uma grande cachoeira, bem linda. Também viu o Senhor Jesus na parte
de baixo, onde as águas caíam; então ela viu que Ele começou a escalar as pedras daquela
cachoeira. Quando Ele chegou lá em cima, ela, sem entender, perguntou: “Jesus, por que o
Senhor escalou as pedras? Num piscar de olhos o Senhor poderia estar aí em cima! O
Senhor é Deus! Por que subir?” Aí então, Ele olhou para ela, de uma forma muito amorosa
e paciente, e respondeu-lhe: “Subir com o seu próprio esforço é mais gratificante.
Experimente!”
Depois que Jesus lhe disse isto, a visão cessou, e ela sabia em seu espírito que Deus lhe
falara acerca da questão de jogar na Loteria. Eu gostaria de trazer uma palavra de
advertência sobre os jogos de azar. Não há bênção neste tipo de dinheiro! A grande maioria
dos ganhadores da Loteria perdem o dinheiro ganho em questão de meses, ou de poucos
anos, e não creio que isto seja apenas em função de não estarem prontos para administrá-lo,
mas porque não há bênção sobre este tipo de ganho.
Hoje em dia as pessoas se lançam desesperadamente ao jogo para “tentarem a sorte”, mas
o cristão reconhece que é melhor andar devagar e construir a sua vida com o “suor do seu
rosto” e com o que Deus lhe dá. Muitos sacrificam o que não têm para jogarem. Milhões de
pessoas fazem a sua “fezinha” na Loteria, que enriquecerá uma única pessoa (no máximo
algumas) e continuará decepcionando muitas.
Não há nenhuma clara e direta proibição bíblica com relação aos jogos, mas a ética, os
valores que a Palavra de Deus nos comunica em seu todo, e a consciência do que é uma boa
mordomia devem nos afastar desta prática. O problema de muitos de nós é que nos
permitimos ser dominados pela compulsão de termos as coisas. Precisamos
de “contentamento” em nossas vidas. Esta é uma virtude na vida do cristão genuíno.
O CONTENTAMENTO SE APRENDE
Ao escrever a sua Epístola aos Filipenses, o Apóstolo Paulo falou sobre a importância do
contentamento e revelou que isto é uma virtude que devemos desenvolver. O contentamento
não aparece imediatamente ao novo nascimento. É algo que aprendemos:
“Alegro-me grandemente no Senhor, porque finalmente vocês renovaram o seu
interesse por mim. De fato, vocês já se interessavam, mas não tinham oportunidade para
demonstrá-lo. Não estou dizendo isso porque esteja necessitado, pois aprendi a adaptar-
me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter
fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem
alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele
que me fortalece. Apesar disso, vocês fizeram bem em participar de minhas
tribulações.” Filipenses 4.10-14 – NVI
Quando examinamos o contexto desta afirmação feita por Paulo, percebemos que ele estava
em tribulação, ou seja, com necessidades materiais. Os irmãos intervieram com uma ajuda,
uma oferta amorosa para o seu sustento, e ele lhes disse que ela veio ao encontro de suas
necessidades do momento, ou, como ele mesmo denomina, da sua pobreza. Contudo, o
apóstolo não reclama da sua privação, mas diz que ele aprendeu a viver contente em toda e
qualquer situação.
Observe isto: ele aprendeu o contentamento, o que significa que, no início da sua carreira
cristã, ele não o possuía. E onde foi que ele aprendeu a praticar esta virtude? Em meio à
abundância ou à falta? É claro que foi durante a necessidade, pois são em circunstâncias
como essas que Deus trata conosco. Quando chegou a provisão enviada pelos filipenses,
Paulo teve a vitória sobre a privação e a necessidade. Ele venceu (as circunstâncias) e
aprendeu o contentamento (com o que passou).
Ele aprendeu que a sua alegria em Deus independe do que acontece do lado de fora (nas
circunstâncias) e que ela deve estar presente em toda e qualquer situação. Ele aprendeu
também que não são as circunstâncias que devem reger os nossos sentimentos, mas sim a
confiança no Deus da nossa vitória. Ele foi tratado pelo Senhor a ponto de se desapegar
completamente das coisas materiais e viver contente pelo fato de que Deus é maior do que
os nossos problemas e intervém neles. Paulo diz ainda que ele tinha experiência em todas as
coisas, tanto na fartura e abundância, como na falta e escassez, mas que não importava qual
o tipo de situação ele teria que enfrentar, pois ele podia todas as coisas n’Aquele que o
fortalecia: Deus!
Vemos claramente que o “poder todas as coisas” não significa “não precisar passar por
tribulações”, nem tampouco vencê-las tão imediatamente elas cheguem, mas suportá-las
paciente e confiantemente, sabendo que a vitória do Senhor é certa e que ela chegará a
tempo.
A única forma de não nos deixarmos envolver pela ganância é permitirmos que a Palavra de
Deus prevaleça em nossos corações. O que as Escrituras Sagradas mais ensinam no que
tange as coisas materiais é que devemos viver com contentamento. O nosso coração não
deve ser aprisionado pela ganância, mas sustentado pelo contentamento!
“Conservem-se livres do amor ao dinheiro e contentem-se com o que vocês têm, porque
Deus mesmo disse: Nunca o deixarei, nunca o abandonarei.” Hebreus 13.5 – NVI
O contentamento é o oposto do “amor ao dinheiro” (que outras versões traduziram como
“avareza”), o qual, por sua vez, é insaciável. O contentamento não é apenas um conselho, e
sim o padrão que Deus ordena aos Seus filhos.
“Não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes”. Romanos 12.16 – ARC
Entre os poucos registros que temos nos Evangelhos sobre o teor da pregação de
arrependimento de João Batista, vemos que ele aborda o assunto do contentamento:
“E uns soldados o interrogaram também, dizendo: E nós, que faremos? E ele lhes disse:
A ninguém trateis mal, nem defraudeis e contentai-vos com o vosso soldo.” Lucas 3.14
– ARC
Contentar-se com o seu salário era a base do caráter que aqueles soldados romanos
necessitavam para não errarem em outras áreas. Muitos dos nossos desvios de conduta
originam-se na falta de contentamento. Precisamos permitir que Deus reformule os nossos
valores. Temos que ter limites em nossos anseios. Quando queremos muito alcançar o que
não podemos é porque já entramos no território da ganância.
O contentamento não inunda o nosso coração só porque fizemos uma oração nesse sentido.
Ele vem de acordo com um processo de mudança de valores. Este processo é desencadeado
quando começamos a dar ouvidos ao que as Sagradas Escrituras dizem sobre o assunto. A
única forma pela qual a ganância é tratada é mediante a renovação da nossa mente pela
Palavra de Deus. É necessário meditarmos nos trechos bíblicos que tratam do assunto,
decorá-los, proferi-los sempre. É preciso orar sobre eles, pois o contentamento é algo que
aprendemos, ouvindo a Palavra de Deus e remodelando valores.
O contentamento não está ligado à falta de condições para uma vida digna; não é uma
carência contínua, e sim sabermos esperar até que as circunstâncias mudem. O
contentamento não significa uma falta de sonhos ou um comodismo, e sim paciência para
darmos um passo de cada vez, sempre do tamanho das nossas pernas; significa não
ambicionarmos coisas altivas, mas acomodarmo-nos às humildes.
Paulo disse que ele sabia como passar por escassez e também como ter em abundância.
Tanto numa circunstância como na outra, precisamos aprender a nos contentarmos. Na falta,
ele se contentava. Na abundância, ele também se contentava. O apóstolo dá a entender
nestes versículos que ele não era um esbanjador na hora em que ele tinha de sobra, nem um
murmurador na hora em que as coisas estavam faltando. Precisamos aprender estes
princípios para também aprendermos como lidar com cada circunstância.
Ao dizer que ele podia todas as coisas n’Aquele que o fortalecia, Paulo mostra que ele havia
aprendido de Deus o contentamento, e que, na hora do aperto, era o Senhor que o fortalecia,
de modo que ele pudesse suportar o que ele estava passando. Na vida deste homem de
Deus, a Palavra do Senhor falava mais alto do que a ganância e a abafava completamente. É
este exemplo que nós devemos seguir!
A dificuldade que temos de não nos contentarmos não é proveniente do fato de ser
impossível vivermos com menos, mas sim porque não queremos viver com menos,
especialmente quando vemos outros vivendo com mais. Juntamente com a ganância, sempre
encontraremos, caminhando de mãos dadas com ela, a inveja!
Queremos tanto os produtos de última geração pelo mero fato de que todo mundo os está
comprando, e não queremos ficar para trás. Há em nossa carne um senso de competitividade
e disputa, e estamos sempre procurando estar por cima. A Bíblia fala que o que nos move de
maneira gananciosa, em busca da maioria dos nossos alvos, é a inveja:
“Também vi eu que todo trabalho e toda destreza em obras provém da inveja que o
homem tem de seu próximo. Também isso é vaidade e desejo vão.” Eclesiastes 4.4
O contentamento provém do quebrantamento interior. É necessário despir-se da ganância e
avareza e caminhar em desprendimento. Podemos relacionar o contentamento ao domínio
próprio, que é fruto do Espírito. Por outro lado, a inveja é uma obra da carne.
NO QUE CONSISTE A VIDA
Numa certa ocasião, Jesus foi abordado por alguém que Lhe pediu ajuda quanto aos seus
bens. Embora a resposta de Jesus possa parecer grosseira, ela revela o aborrecimento que
Lhe causamos com a nossa ganância:
“Disse-lhe alguém dentre a multidão: Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a
herança. Mas ele respondeu: Homem, quem me constituiu a mim por juiz ou repartidor
entre vós? E disse ao povo: Acautelai-vos de toda espécie de cobiça; porque a vida do
homem não consiste na abundância de bens que ele possui.” Lucas 12.13-15
Este homem teve uma chance de falar com Jesus e a desperdiçou! A partir de então, o
Mestre começou a ensinar que a busca do que é material jamais levará o homem à
realização. Viver para enriquecer é insensatez, pois a vida do homem consiste em ser rico
para com Deus.
“Propôs-lhes então uma parábola, dizendo: O campo de um homem rico produzira com
abundância; e ele arrazoava consigo, dizendo: Que farei? Pois não tenho onde recolher
os meus frutos. Disse então: Farei isto: derribarei os meus celeiros e edificarei outros
maiores, e ali recolherei todos os meus cereais e os meus bens; e direi à minha alma:
Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te.
Mas Deus lhe disse: Insensato, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado,
para quem será?” Lucas 12.16-20
Depois de declarar aquilo em que não consiste a vida do homem, o Senhor Jesus falou sobre
aquilo em que ela realmente consiste:
“Assim é aquele que para si ajunta tesouros e não é rico para com Deus.” Lucas 12.21
Ser rico para com Deus! Este deve ser o alvo de cada um de nós. Não podemos permitir que
a cobiça e o materialismo roubem isto de nós. Observe outras coisas que as Escrituras
dizem a este respeito:
“Porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda palavra e em todo conhecimento…
de maneira que nenhum dom vos falta, enquanto aguardais a manifestação de nosso
Senhor Jesus Cristo.” 1 Coríntios 1.5,7
Os coríntios foram enriquecidos nas coisas de Deus! Note que não estamos falando contra o
fato de sermos materialmente ricos, e sim contra a ganância. Enriquecer materialmente não
é errado, desde que o coração não se prenda a isto (Sl 62.10). Contudo, deve haver em nós
um anseio de enriquecermos espiritualmente, em Deus. E o anseio por tal riqueza espiritual
deve ser maior do que o anseio pelas riquezas terrenas.
Quando o Senhor Jesus falou com as Igrejas da Ásia por meio do Apóstolo João, Ele
chamou uma igreja “pobre” de “rica” (Ap 2.9), pois ela era espiritualmente rica, mas Ele
chamou uma igreja “rica” de “pobre” (Ap 3.17), pois, nas coisas de Deus, eles eram
miseráveis!
A riqueza espiritual tem que vir antes. Se o Senhor permitir que você tenha a riqueza
espiritual e ainda a riqueza material, amém. Mas, se você tiver que escolher entre uma e
outra, não vacile! Prefira ser rico para com Deus, pois esta é a única e verdadeira riqueza! O
Diabo nos impulsiona à ganância, não porque ele queira nos enriquecer materialmente, mas
para tentar nos empobrecer espiritualmente, e assim afastar-nos de Deus pela corrupção
material. O contentamento é a nossa proteção!
VALORES
Há valores maiores do que os bens e o dinheiro:
“Melhor é o pouco com o temor do Senhor, do que um grande tesouro, e com ele a
inquietação. Melhor é um prato de hortaliça onde há amor, do que o boi gordo, e com
ele o ódio.” Provérbios 15.16,17
Aqui a Bíblia está falando de valores espirituais (como o temor do Senhor) e também de
valores emocionais (como o amor, ao invés de ódio). Tudo isto deve vir antes do dinheiro!
Já afirmamos que a Bíblia não é contra a riqueza. Pelo contrário, creio que Deus pode e
quer fazer com que prosperemos; contudo, é importante entendermos que há uma ordem a
ser seguida. O Apóstolo João declarou a Gaio que ele queria que o seu irmão e amigo fosse
próspero e tivesse saúde, assim como a sua alma – com valores interiores – era próspera (3
Jo 2)!
O problema da ganância é que ela tenta apressar as coisas e ainda consome o nosso tempo,
energia, alvos, e outras coisas em nossas vidas que deveriam ser do Senhor. A Palavra do
Senhor nos mostra que o caminho da espera e paciência é melhor. Viver com contentamento
não significa acomodarmo-nos de modo a nunca chegarmos a lugar algum. Não! É
esperarmos com paciência no Senhor até alcançarmos os nossos alvos! Tem mais a ver com
sabermos esperar do que com não esperarmos nada, como erroneamente ensinam alguns.
Veja o que Deus diz sobre o tempo necessário para a prosperidade como fruto do trabalho:
“A riqueza adquirida às pressas diminuirá; mas quem a ajunta pouco a pouco terá
aumento.” Provérbios 13.11)
A ganância lhe diz para você jogar em tudo o que puder dar-lhe dinheiro sem esforço e
depressa, mas o conselho de Deus diz que “quem ajunta pouco a pouco enriquecerá”. A
ganância também lhe dirá para você não entregar os seus dízimos e também não ofertar; ela
tentará mostrar-lhe o “quanto” você poderia fazer com este dinheiro. Mas a Palavra de Deus
diz que devemos dar e fazer prova de Deus, pois Ele é a nossa provisão e sustento. Quem
confia no Senhor vê a diferença:
“Aquele que confia nas suas riquezas cairá; mas os justos reverdecerão como a
folhagem.” (Provérbios 11.28)
Já declarei que a ganância sempre caminha de mãos dadas com a inveja, e agora eu gostaria
de mostrar-lhe as consequências da sua decisão de esperar a hora de Deus para você
alcançar o que você deseja, ou entregar-se à inveja, porque você vê outros que têm as coisas
antes de você:
“O coração tranquilo é a vida da carne; a inveja, porém, é a podridão dos ossos.”
Provérbios 14.30
Diga “não” à ganância, e você viverá em paz e com uma realização interior. Mas, se você
decidir erroneamente e ceder à ganância, saiba desde já quais são as consequências.
Paulo disse a Timóteo que essa cobiça levou muitos a se desviarem da fé e a se
traspassarem a si mesmos com muitas dores (1 Tm 6.10). Deus não é contra o fato de você
ter dinheiro, e sim contra a ganância. À medida que você prosperar, mantenha os valores
certos em seu íntimo. Foi esta a instrução que o Apóstolo Paulo pediu que o seu discípulo
Timóteo transmitisse à igreja:
“Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a sua esperança na
incerteza das riquezas, mas em Deus, que nos concede abundantemente todas as coisas
para delas gozarmos; que pratiquem o bem, que se enriqueçam de boas obras, que sejam
liberais e generosos, entesourando para si mesmos um bom fundamento para o futuro,
para que possam alcançar a verdadeira vida.” 1 Timóteo 6.17-19
Os problemas ligados ao dinheiro são claramente abordados: o perigo da altivez e o risco de
fazermos das riquezas a nossa esperança.
O contentamento, por sua vez, é a forma de não permitirmos que estes erros nos enlacem. E,
justamente por ser o oposto da ganância, o contentamento nos leva a semearmos na vida de
outras pessoas através da prática da bondade e da generosidade.