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Urbanização e Capitalismo na Idade Média

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Tópicos abordados

  • cidades novas,
  • cidades e servidão,
  • desenvolvimento econômico,
  • trabalho assalariado,
  • cidades e transformação,
  • expansão colonial,
  • cidades e trabalho,
  • cidades mercantis,
  • feudalismo,
  • revolução industrial
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  • cidades e trabalho,
  • cidades mercantis,
  • feudalismo,
  • revolução industrial

2

A URBANIZAÇÃO SOB O CAPITALISMO

Esboçamos no capítulo anterior uma retrospectiva do processo de urbanização


do século IV a.C. até os séculos X e XI dC., resgatando as condições econômicas,
sociais e políticas necessárias à sua origem e evolução.

É notória a expressividade do fato urbano pré-capitalista. São bons exemplos


disto, tanto as cidades antigas localizadas na bacia do Mediterrâneo, quanto as
orientais, todas essencialmente políticas. Podemos destacar inclusive o papel das
"cidades" feudais, pois ainda que fossem pequenas e tivessem muitas vezes um
caráter urbano discutível, pelo seu papel pouco político e muito mais religioso,
estavam inseridas na economia feudal, e ao mesmo tempo em luta contra ela.

Esta retrospectiva tem razão de ser, se quisermos distinguir a magnitude do


processo de urbanização a partir do desenvolvimento do capitalismo, tanto no que se
refere a sua intensidade, quanto ao caráter mais amplo e diversificado das cidades.

As transformações, que historicamente se deram, permitindo a estruturação do


modo de produção capitalista, constituem conseqüências contundentes do próprio
processo de urbanização. A cidade nunca fora um espaço tão importante, e nem a
urbanização um processo tão expressivo e extenso a nível mundial, como a partir do
capitalismo.

O RENASCIMENTO URBANO
Discutimos no capítulo anterior, a pertinência de se considerar como urbanos, os
aglomerados ("cidades" episcopais e burgos) que [pág. 30]

existiam durante o predomínio feudal na Europa. Procuramos verificar porque


econômica e politicamente não poderíamos considerá-las aglomerados urbanos
porque não se distinguiam do campo, como as cidades antigas fornecedoras de
serviços políticos e religiosos, reais ou imaginários, em troca do excedente alimentar
produzido pelo campo , mas se constituíam acessórios da economia feudal.

As primeiras cidades mercantis resultaram da transformação do caráter destas


aglomerações medievais sem funções urbanas.

O processo de absorção da atividade mercantil e sua transformação deu-se


paulatinamente nesses aglomerados e decorreu do fato de que mesmo durante o
período de predomínio do modo de produção feudal os mercadores e, portanto, o
comércio, subsistiram, ainda que eventuais e restritos, já que o feudo necessitava de
muito poucos produtos. Além disto, no decorrer dos séculos X e XI houve a
reabertura dos postos europeus, antes sob o controle árabe.

Contraditoriamente essa absorção/transformação foi possível graças ao caráter


protetor dessas aglomerações, caráter do qual nem mesmo os mercadores (apesar
da natureza de sua atividade) podiam prescindir naquela organização econômica,
política e social.

Em outras palavras, o caráter itinerante dos mercadores e os riscos a que


estavam expostos numa época em que a ausência de um poder político central
apenas dava garantias de proteção intrafeudo, exigiam um abrigo.

A proteção daqueles homens e sobretudo de suas mercadorias, estava dentro da


muralha. Desde a segunda metade do século X, os mercadores buscavam os burgos
localizados ao longo dos caminhos e dos rios. O reatamento com o comércio do
Oriente reforçou o fluxo comercial e a procura de proteção por parte dos mercadores
tornou-se tão freqüente que logo algumas dessas aglomerações muradas não
puderam mais contê-los, gerando uma ocupação extramuros. Daí resultou a
expressão foris-burgus, queria dizer burgo dos arredores, ou arrabaldes. Muitas
cidades surgiram nos arrabaldes das fortalezas.

Assim, podemos dizer que o renascimento urbano, que marca o último período
da Idade Média, teve base territorial no próprio aglomerado medieval, que não
possuía caráter urbano.

Não é, porém, apenas a partir da transformação do caráter dos aglomerados


feudais que a urbanização é retomada, pois também há registros de reconstrução de
cidades nos sítios urbanos (espaços topográficos ocupados pelas cidades, o "chão"
das cidades) de alguns aglomerados romanos. Além disso, já no século XII, cidades
novas tinham sido fundadas em lugares nunca antes ocupados, o que permitira o
estabelecimento de muitas cidades na Europa central e oriental. [pág. 31]

Desta forma, por volta de 1400, as terras habitadas da Europa central e


ocidental achavam-se marcadas por uma malha relativamente densa de cidades,
cuja base econômica era o comércio e o artesanato. Essas cidades eram
caracterizadas por instituições que davam proteção legal aos direitos dos
cidadãos, outorgando-lhes a função de pequenos núcleos administrativos.

Benevolo ressalta que:

"Para compreender a cidade antiga, é suficiente uma descrição completa de poucas


cidades dominantes: Atenas, Roma, Constantinopla. Ao contrário, na Idade Média não
existe nenhuma supercidade, mas um grande número de cidades médias, entre as
quais uma dúzia nos séculos XIII e XIV alcançam mais ou menos o mesmo tamanho:
dos 300 aos 600 hectares de superfície e dos 50.000 a 150.000 habitantes".

Assim, podemos dizer que, predominantemente, a urbanização do fim do


período feudal foi marcada pela proliferação do número de cidades. Muitas delas
atingiram tamanhos expressivos para a época, sobretudo na Itália e Holanda, onde
a atividade comercial já era maior alguns séculos antes. A figura 4 contém um
mapa da Europa, onde localizamos algumas cidades dentre as mais importantes da
última fase do período medieval. A planta da cidade de Milão, em meados do
século XIV (figura 5) ilustra o estágio de crescimento e complexidade de
estruturação urbana que as cidades européias atingiram com o renascimento
comercial. Observa-se que a cidade mantinha o plano "medieval" típico
estruturado ainda na fase de predomínio do modo de produção feudal, de que os
muros e as portas são testemunhos. Contudo, podemos notar que houve um
adensamento de ruas e construções, sobretudo na parte central, onde moravam
os mais abastados, e que a cidade já cresceu além dos muros.

Este processo de retomada da urbanização, de renascimento das cidades, foi


possível pela reativação do comércio, enquanto atividade econômica urbana. Ao
se desenvolver, esse comércio foi criando as condições para a estruturação do
modo de produção capitalista e, simultaneamente, a destruição dos pilares da
economia feudal (o latifúndio sua economia "fechada" e a servidão).

SOBRE O MODO DE PRODUÇÃO CAPITALISTA

Maurice Dobb, em Evolução do capitalismo, destaca que o processo de


desenvolvimento do capitalismo foi lento e complexo, através de importantes
transformações políticas (no interior das classes e na [pág. 32]
política do Estado), e a partir da sociedade de classes sobre a qual se estruturava o
feudalismo.

A ação da burguesia comercial (de burgo, porque aí moravam os comerciantes)


para se constituir como classe social espaço que não lhe era dado na organização
social vigente , foi muito importante para a desestruturação do modo de produção
feudal. Singer destaca: "Neste processo, a capacidade associativa da cidade medieval,
ou melhor, de sua classe dominante a burguesia no sentido de se unir dentro da
cidade contra as demais classes e de se associar a outras cidades num sistema cada
vez mais amplo de divisão do trabalho, ou seja, de se constituir como classe,
desempenha um papel essencial".

Podemos dizer que a cidade teve o seu papel neste processo, na medida em que
ali se reuniam os comerciantes e a riqueza por eles acumulada, ali se concentravam
os artesãos ocupados com a produção necessária à atividade comercial, e nesta
medida ali se dava a [pág. 33]

ruptura da economia feudal. Tanto assim que a servidão ia aos poucos sendo minada
pela comercialização do excedente alimentar e pelo surgimento dos arrendatários
capitalistas (a partir do século XIV), apontando para a transformação da terra em
mercadoria.

Com o fortalecimento da burguesia comercial proporcional ao crescimento de


sua riqueza, de seu capital acumulado, muitas cidades obtiveram sua autonomia e
passaram a ser o destino dos servos que fugiam dos feudos, estimulados pela
burguesia. Uma expressão demonstra o espírito da época:

"O ar da cidade é o ar da liberdade".

A partir do processo de constituição de uma classe social a burguesia , com


base na atividade comercial, a produção não visava apenas satisfazer as necessidades
humanas, mas por seu caráter de mercadoria, propiciar o lucro e, por conseguinte, a
acumulação através do comércio.

O escambo (comércio eventual, realizado durante a Idade Média, no predomínio


do modo de produção feudal), realizava-se para satisfazer as necessidades dos
indivíduos de possuir mercadorias que não [pág. 34]

podiam produzir. A moeda, o dinheiro era apenas, o equivalente geral, que facilitava
estas "trocas", e que permitia que cada uma das partes interessadas na troca não se
visse obrigada a consumir as mercadorias da outra. Ao invés de se trocar mercadorias
entre si (M M), podia-se vender a mercadoria, e com o dinheiro adquirir o que
conviesse (M -D-M).

O que o comércio regular, que começa a se desenvolver plenamente durante a


Idade Média fez, foi mudar o caráter desta troca, pois o comerciante comprava
mercadorias (D M) e as revendia por uma quantidade de dinheiro maior do que a
inicial (M D'), modificando a operação (D-M D).

É importante entender esta mudança porque foi com base nela que a circulação
foi transformada. Antes o objetivo era obter as mercadorias necessárias (valores
de uso) , enquanto no segundo caso o fim da circulação era o dinheiro; assim a
mercadoria passava a valer enquanto valor de troca (no qual estava também
embutido o seu valor de uso). Karl Marx em sua obra O Capital afirma que o dinheiro
que circulava desta maneira, tornava-se capital. Portanto, aqueles que dele se
beneficiavam desde o fim do período medieval a burguesia eram os capitalistas,
e nesta primeira fase do desenvolvimento do novo modo de produção ocorreu a
acumulação primi va do capital.

O processo era muito complexo, e os comerciantes não eram seus únicos


agentes. Como expusemos acima, a própria comercialização do excedente feudal,
nela embutida a possibilidade da ruptura da instituição servil , tornava os próprios
servos também agentes do processo. Isto ocorria na medida em que migram para as
cidades espaço fora do domínio feudal, espaço aonde, aos poucos, iam se
estabelecendo princípios e direitos que davam sustentação à ação capitalista e,
portanto, ao exercício da cidadania (os direitos dos que moravam na cidade, fora da
esfera do domínio econômico, político e social do modo de produção feudal). Daí
Singer afirmar que: "Pode-se interpretar deste modo o surgimento do capitalismo no
seio da sociedade feudal, sua longa luta para se desenvolver e o seu triunfo final
como uma etapa histórica do desenvolvimento das forças produtivas urbanas. O
capitalismo surge na cidade, no centro dinâmico de uma economia urbana, que
lentamente se reconstitui na Europa, a partir do século XIII" (destaque nosso).

O processo é lento, e ao mesmo tempo em que vão ocorrendo estas


transformações ao nível do econômico e do social, as idéias, o ideológico, vão
também se "modernizando" começa a se organizar o ideário que marcará a Idade
Moderna. Nas cidades território do capitalismo vão se instituindo novas
"ordens". Novas leis dão legitimi- [pág. 35]

dade e apoio à ação capitalista. A usura passa a ser largamente praticada, embora
oficialmente a Igreja continue a condená-la. Há um relaxamento do controle desta
prática, cuja evidência mais clara é a existência de muitos banqueiros. Além disso, os
ideais de pobreza e da terra como dádiva de Deus para o trabalho vão se
deteriorando, ocorrendo um processo de abandono dos feudos pelos servos e uma
crise econômico-social no início dos Tempos Modernos que facilitará a centralização
monárquica.

O desenvolvimento de um modo de produção como totalidade sempre


compreende contradições. Neste momento da história, uma dessas contradições foi
a organização corporativista dos artesãos, e outra o monopólio sobre o excedente
alimentar pela aristocracia feudal.

As Corporações de Ofício e as Manufaturas


Para Pirenne

" poder-se-ia definir a corporação medieval como uma corporação industrial que
gozava do privilégio de exercer exclusivamente determinada profissão, de acordo com
os regulamentos sancionados pela autoridade pública".

Era, na prática, o monopólio concedido, na maior parte das vezes pelo poder
municipal, ao grupo de artesãos que se dedicava a uma determinada profissão.

Havia tantas corporações de ofícios quanto profissões, e as bases da instituição


corporativa eram o exclusivismo e o protecionismo, uma vez que regulavam as
condições de trabalho, a quantidade e a qualidade da produção, determinavam os
preços e esforçavam-se para excluir a concorrência de artesãos de outras cidades e
regiões.

Este mecanismo restritivo limitava a capacidade de produção e, portanto, a


quantidade de mercadorias à disposição dos comerciantes.

Neste sentido, a produção artesanal organizada corporativamente, um dos


pilares do desenvolvimento da burguesia comercial, passou contraditoriamente a se
opor aos interesses de expansão das forças produtivas, que o comércio ia
requerendo. Singer afirma que:

"Encontrava-se, assim a burguesia comercial entre duas barreiras: o monopólio sobre o


excedente alimentar exercido pela aristocracia feudal e o monopólio sobre a produção
manufatureira, exercido pela elite corporativa".
Já ressaltamos que a organização feudal (e portanto "o monopólio sobre o
excedente alimentar") estava se desestruturando, paralelamente ao fortalecimento
da burguesia, uma vez que esta submetia ao regime comercial a circulação do
excedente produzido pelo campo, [pág. 36]

abrindo espaço à "desobediência" servil. A primeira barreira estava assim mais traça,
e em diluição. A burguesia encontrou aí a possibilidade de fazer frente à segunda
barreira a do monopólio sobre a produção artesanal, exercido pelas corporações.

Ou seja, tendo a sua ação limitada pelas restrições impostas pelas corporações,
os comerciantes começaram a organizar no campo (à margem da regulamentação
corporativa, restrita à área urbana) outra produção artesanal, denominada "sistema
de trabalho a domicílio". Os comerciantes passaram a fornecer matérias-primas e às
vezes ferramentas, às famílias camponesas "liberadas". Na medida em que isto
acontecia a instituição da servidão se corroía e se desenvolvia a troca através do
dinheiro, visando o aumento em escala cada vez maior.

Em suma, se as corporações impediam a expansão das forças produtivas que os


comerciantes estavam exigindo para se desenvolver, eles próprios, organizaram
outra produção fora das cidades, submetendo esta produção paulatinamente ao
domínio do capital comercial.

Estavam lançadas as bases da manufatura. Enquanto a indústria doméstica dava


sustentação a uma produção organizada em estágios sucessivos, cada um deles
realizado por um artesão em sua casa, a manufatura reunia artesãos num mesmo
espaço de trabalho, aproximando estas etapas e, portanto, tornando mais rápido o
ciclo produtivo. À parte estas diferenças no que se refere à forma de articular as
fases do processo produtivo, o importante é ressaltar como Dobb que " a
subordinação da produção ao capital era característica tanto do novo sistema
doméstico quanto da manufatura " e que aqui estão as bases da emergência do
trabalho assalariado.

Para Singer as imposições colocadas pelo sistema corporativo criaram as


condições para o surgimento de novas formas de organização do processo produtivo.
"É a revolução da manufatura, que se dá fora da cidade e contra a cidade".

A concorrência estava estabelecida. E aconteceu uma expansão da manufatura,


estimulada pelo fato de que o ciclo da produção de uma mercadoria não estava
restrito à capacidade e domínio técnico de um artesão especializado sob os
regulamentos de monopólio separativista, mas estava compartimentado, na medida
em que os novos artesãos, sem especialização maior e sob o controle do capital
comercial, ocupavam-se de partes da produção.

Resumindo, o que se deu a partir da manufatura foi a especialização e o


aprofundamento da divisão do trabalho, e os primeiros passos para a emergência do
trabalho assalariado.

Paralelamente a este processo e decorrente da força econômica que a burguesia


foi ganhando, começou a se estabelecer, politicamen- [pág. 37]

te, uma aliança que paulatinamente suprimiu os privilégios da aristocracia feudal e a


autoproteção corporativa dos artesãos. Tratava-se da aliança entre o capital
comercial e a aristocracia real, entre a burguesia e o rei, que além de permitir a
superação de barreiras inicialmente impostas à expansão dos interesses capitalistas,
abriu espaço para esta expansão criando as condições para os grandes
descobrimentos marítimos.

A URBANIZAÇÃO MODERNA
O capitalismo, enquanto modo de produção, encontra terreno firme" para sua
formação a nível político, através da aliança estabelecida entre o capital comercial e
a realeza, e a nível do ideológico, através das doutrinas mercantilistas. É o processo
da acumulação primitivista.

A aliança da burguesia comercial com o rei permitiu a formação dos ESTADOS


NACIONAIS ABSOLUTISTAS. A ação política desta aliança desenvolveu-se em pelo
menos duas frentes.

Em primeiro lugar, em termos de território europeu espaço de constituição


deste modo de produção houve um grande reforço do processo de urbanização.
Este reforço decorreu do fim do monopólio feudal sobre a produção alimentar. A
ordem capitalista, ao se impor à ordem feudal, transformou a terra em mercadoria e
levou a aristocracia feudal sem capital acumulado, a arrendar ou vender parcelas de
suas terras.

Paralelamente, novas leis foram se impondo aos interesses de monopólio das


corporações. O movimento capitalista precisava expandir a capacidade produtiva e
desencadeou um processo de ampliação estimulando as manufaturas, que
paulatinamente, com o fim das leis que protegiam as corporações, tomaram a cidade
e transformaram o caráter da produção artesanal urbana. Enfim, a manufatura
urbana foi reforçar a capacidade produtiva que a cidade havia adquirido a partir da
produção artesanal organizada. Ainda a nível das cidades européias, a formação dos
Estados Nacionais Absolutistas permitiu o adensamento populacional na medida em,
que o aparato político-administrativo que dava amparo ao Estado propiciou o
aparecimento de uma burocracia numerosa e a formação de exércitos permanentes.

Além disto, o fortalecimento do rei em detrimento da aristocracia provocou a


formação da corte e de outras instituições de grande prestígio social, o que foi um
estímulo muito grande ao desenvolvimento do artesanato de luxo e das artes. No
período feudal, a arquitetura e os costumes, por exemplo, denotavam a
singularidade de uma sociedade [pág. 38]
ideologicamente comprometida com a pobreza e a frugalidade tidas do agrado
divino. As cidades modernas, ao contrário, constituíram-se em depositárias da
riqueza monetária, originada com o comércio e a usura. Henri Lefébvre em seu livro
O direito à cidade assim define as cidades modernas:

"Nesses centros, prospera o artesanato, produção bem distinta da agricultura. As


cidades apóiam as comunidades camponesas e a libertação dos camponeses, não sem
se aproveitarem disso em seu próprio benefício. Em suma, são centros de vida social e
política onde se acumulam não apenas as riquezas como também os conhecimentos,
as técnicas e as obras (obras de arte, monumentos). A própria cidade é uma obra, e
esta característica contrasta com a orientação irreversível na direção do dinheiro, na
direção do comércio, na direção das trocas, na direção dos produtos. Com efeito, a
obra é valor de uso e o produto é o valor de troca".

Os Estados Nacionais Absolutistas desenvolveram sua ação política numa


segunda frente, muito importante para o processo de urbanização. A necessidade de
ampliar as condições para o desenvolvimento do capitalismo impulsionou o
empreendimento de grandes navegações marítimas. Promovia-se com isso a
expansão colonial e a criação de novos monopólios comerciais.

Este processo de reforço à economia mercantil permitiu a extensão da


urbanização ao mundo colonial, a partir do século XV. Ainda que as primeiras cidades
coloniais não tenham sido mais do que portos construídos para escoar as riquezas
coloniais em exploração, ou fortes para proteger os colonizadores, a extensão do fato
urbano a novas áreas foi importante, porque se constituiu no embrião de um
processo de ampliação espacial da urbanização e no suporte de articulação destas
novas áreas ao capitalismo mercantil europeu. À medida que o próprio capitalismo se
desenvolvia, esta urbanização no mundo colonial como veremos adiante, foi se
ampliando e tomando um caráter de mutiplicidade funcional.

Em algumas colônias, como as inglesas da América do Norte, o caráter das


cidades foi se tomando múltiplo, a partir do século XVI, à medida que colonos se
fixavam de forma permanente e se implantava uma economia mais estável. Johnson
faz referência à fundação de Williamsburg (Virgínia, Estados Unidos), em 1633, cujo
aspecto era de uma aldeia rural inglesa, sem nenhum caráter urbano e alguns anos
depois, nos fins desse século, já se tornara capital da colônia de Virgínia e tinha
ampliado suas funções. [pág. 39]

No Brasil, durante o século XVI, foram fundadas 18 cidades, segundo os dados


levantados por Nestor Goulart Reis Filho em seu livro Evolução urbana no Brasil,
tendo esse número aumentado para 28 no século XVII. Para citar um exemplo,
podemos destacar a cidade de Salvador da Bahia de Todos os Santos (atualmente,
apenas Salvador), a qual foi fundada em 1549, e em 1583, quando Fernão Cardim
percorria a costa brasileira, já tinha uma população considerável para a época: três
mil portugueses, oito mil índios cristãos e três ou quatro mil escravos.

As cidades coloniais tinham apenas um caráter político-administrativo,


militar-defensivo e de recepção e escoamento de mercadorias.

Recapitulemos alguns pontos:

A cidade assumiu, com o capitalismo, uma capacidade de produção, que a diferenciava


totalmente do processo da urbanização ocorrido na Antiguidade. A cidade romana,
para nos referirmos à organização política que permitiu maior urbanização no período
antigo, era o locus da gestão político-administrativa, de exercício do poder, de moradia
das elites dominantes. Manjei Castells, em seu livro A questão urbana define a cidade
romana assim: "A cidade portanto não é um local de produção, mas de gestão e de
domínio, ligado à primazia social do aparelho político-administrativo".

A cidade mercantil era também o espaço de dominação e gestão do modo de


produção, de exercício de poder, e fornecedora de serviços, tanto quanto as cidades
antigas. No entanto diferenciava-se delas por seu caráter produ vo, ou seja, por
passar a ser, de forma mais marcante, o lugar da produção de mercadorias.

Outro ponto a ser ressaltado é o desenvolvimento da especialização funcional e


portanto da divisão social do trabalho que se deu nas cidades mercantis; num
primeiro momento através da organização da produção artesanal nas corporações, e
num segundo momento, de forma mais acentuada, com o desenvolvimento da
manufatura.

As cidades européias modernas eram a manifestação destas transformações que


estavam se dando no processo produtivo, para atender aos interesses de maior
acumulação de capital. Elas eram também o meio que permitia e dava sustentação a
estas transformações, na medida em que se constituíam em pontos de concentração
populacional, isto é, da força de trabalho e de consumidores.

Um terceiro ponto a ser destacado é que as cidades, já na primeira fase do


capitalismo período mercantil tornaram-se centros da vida social e política da
Europa, pois a produção agrícola e a propriedade fundiária deixaram de ser os pontos
de apoio da economia, assim como a aristocracia perdeu para a burguesia seu papel
prepon- [pág. 40]

derante na gestão do processo social. A força das cidades, como espaço de


sustentação da nova ordem econômica, social e política pode ser observada pela
riqueza monetária, científica e artística que se acumulou nas cidades modernas nesse
período também denominado Renascimento (a retomada e ampliação dos múltiplos
papéis que se desenvolveram nas cidades antigas).

Com base nestes três pontos reforçados aqui, podemos entender a


expressividade da urbanização européia nos séculos XIV, XV, XVI e XVII, e a
importância que muitas destas cidades atingiram. Lefèbvre reforça a dimensão e
importância destas cidades, onde contraditoriamente comerciantes e banqueiros
investiam "improdutivamente" parte de suas riquezas, e aponta, inclusive, para a
constituição na Europa, de uma rede urbana (conjunto de cidades que mantinham
relações econômicas entre si). A constituição da rede manifestava já uma certa
divisão interurbana do trabalho, tornada possível pelas ligações existentes entre as
cidades (estradas, vias fluviais e marítimas) e por relações comerciais e bancárias
estabelecidas entre elas. Esta infra-estrutura e estas relações estabeleceram-se com
o apoio do poder centralizado do Estado Moderno.

Segundo o mesmo autor, é fundamental ressaltar que apesar desta divisão social
do trabalho interurbana já estar embrionariamente estabelecida naquele período, a
cidade mercantil ainda se constituía num sistema relativamente fechado, pois
conservava seu caráter orgânico de comunidade, estabelecido a partir das
corporações de ofício.

Um quarto ponto a ser destacado é o da extensão urbana ao mundo colonial. Se


não fosse a necessidade de ampliação dos espaços sob o domínio do capital
comercial, provavelmente a urbanização não teria se estendido àquela época, à
América por exemplo.

A peculiaridade deste processo expansivo está no fato de que há um


determinado tipo de urbanização que está sendo levado às novas áreas a
urbanização européia, sob o domínio capitalista e a ele dando sustentação. Esta
urbanização difere da urbanização antiga, que inclusive se manifestou na América,
África e Ásia. Durante a Antiguidade, as cidades floresceram em diferentes territórios
e diferentes tempos, sob organizações econômicas, sociais e políticas que também
apresentavam diferenças entre si. O processo que observamos a partir do século XV é
o de exportação do modelo urbano europeu, aquele das cidades-suportes para o
desenvolvimento capitalista. [pág. 41]
3

INDUSTRIALIZAÇÃO E URBANIZAÇÃO

Industrialização e urbanização têm aparecido sempre associadas, como se se


tratasse de um duplo processo, ou de um processo com duas facetas. A identidade
entre estes dois "fenômenos" é tão forte, que não podemos fugir de sua análise, se
queremos refletir sobre a sociedade contemporânea.

Já vimos que a urbanização é um processo que remonta à Antiguidade, e que a


cidade é um fato desde que determinadas condições históricas, o permitiram há
cerca de 5.500 anos atrás na Mesopotâmia. Isto foi visto no primeiro capítulo.

A expressão indústria traduz, no seu sentido mais amplo, o conjunto de


atividades humanas que têm por objeto a produção de mercadorias, através da
transformação dos produtos da natureza. Portanto, a própria produção artesanal
doméstica, a corporativa e a manufatureira representaram formas de produção
industrial, ou seja, um primeiro passo no sentido de transformar a cidade
efetivamente num espaço de produção.

O sistema fabril já havia começado a se constituir quando o capital comercial deu


início à organização da produção manufatureira. Daí ao advento da maquinofatura
foram alguns passos.

Será que a expressão industrialização traduz bem este processo de


transformação de matérias-primas em mercadorias, desde as suas primeiras fases?
Ou será que a expressão tem um significado mais amplo, e se refere a
transformações mais radicais tanto de ordem social, quanto econômica e política?
[pág. 42]

Ainda que a indústria seja a forma através da qual a sociedade apropria-se da


natureza e transforma-a, a industrialização é um processo mais amplo, que marca a
chamada Idade Contemporânea, e que se caracteriza pelo predomínio da atividade
industrial sobre as outras atividades econômicas. Dado o caráter urbano da produção
industrial (produção essa totalmente diferenciada das atividades produtivas que se
desenvolvem de forma extensiva no campo, como a agricultura e a pecuária) as
cidades se tornaram sua base territorial, já que nelas se concentram capital e força
de trabalho.

Esta concentração é decorrência direta da forma como se estruturou a partir do


mercantilismo, o próprio modo de produção capitalista. Decorrentes desse processo,
as cidades deram ao mesmo tempo suporte a ele.

Nesta perspectiva, entender a urbanização a partir do desenvolvimento


industrial, é procurar entender o próprio desenvolvimento do capitalismo.

SOBRE O CAPITALISMO INDUSTRIAL...


No capítulo anterior, de forma mais específica no item O Renascimento Urbano,
procuramos destacar algumas transformações importantes ocorridas no fim do
período de predomínio da economia feudal, que interessam ao entendimento da
estruturação do modo de produção capitalista.

Destacamos como muda o caráter da circulação das mercadorias, antes realizada


com a finalidade de se obter valores de uso, e a partir da emergência de um
segmento social os comerciantes cuja ocupação específica é a realização desta
circulação, passa a se dar com finalidade de se obter capital.

Ressaltamos como a constituição dos comerciantes em classe social a


burguesia a partir do fortalecimento da atividade comercial e da acumulação de
capital dela decorrentes, reforça sobremaneira as condições necessárias ao próprio
desenvolvimento capitalista. Isto porque de um lado "mina" a organização feudal, e
do outro cria, através da ação política (possível pela aliança com a realeza), condições
infra-estruturais (por exemplo, melhoria das estradas e do transporte marítimo) e
superestruturais (por exemplo, desenvolvimento de instituições legais que passam a
proteger o comércio, em detrimento dos interesses da aristocracia feudal e das
corporações) para este desenvolvimento.

Procuramos mostrar como estas transformações traduziram-se concretamente


numa ampliação expressiva da ação capitalista, quer [pág. 43]

através do fim dos monopólios feudais sobre a produção alimentar, quer através do
fim dos monopólios corporativistas sobre a produção artesanal, quer através da
ampliação do território de atuação deste capital comercial, via monopólios coloniais,
estabelecidos pelos "descobrimentos" marítimos.

Em sua obra O Capital, Marx ressalta que condições concretas concorreram para
este processo:

"A descoberta de ouro e prata na América, a extirpação, escravização e sepultamento


nas minas, da produção nativa, o início da conquista e saque das índias Orientais, a
transformação da África num campo para a caça comercial aos negros, assinalaram a
aurora da produção capitalista. Esses antecedentes idílicos constituem o principal
impulso da acumulação primitiva".

Nesta primeira etapa do desenvolvimento capitalista que denomina-se


capitalismo comercial, fase que permitiu a acumulação primitiva, ainda não havia se
desenvolvido plenamente o novo modo de produção, porque o trabalho assalariado
não havia se estabelecido de forma predominante.

Para entender como o capitalismo se desenvolve, conformando a etapa


capitalista industrial, é fundamental apreender como se dá a emergência do trabalho
assalariado. Leo Huberman, em seu livro História da Riqueza do Homem afirma que:

"A história da criação de uma oferta necessária à produção capitalista deve, portanto,
ser a história de como os trabalhadores foram privados dos meios de produção".

O modo de produção capitalista desenvolveu-se plenamente a princípio na


Inglaterra, pois aí se concretizaram primeiramente as condições para tal, e mais cedo
criou-se uma classe trabalhadora livre da condição servil e sem propriedades.

A Emergência do Trabalho Assalariado


A sociedade feudal era estática, com base na relação entre senhor e servo. A
ampliação expressiva do comércio, o desenvolvimento de uma economia monetária
que transformou o caráter da vinculação das mercadorias e o próprio crescimento
das cidades com tudo que este crescimento significava, sobretudo o
fortalecimento de um espaço fora do domínio feudal foram "acontecimentos"
históricos que proporcionaram as condições necessárias à corrosão da instituição
servil, pois permitiam aos camponeses o rompimento das amarras que os prendiam à
economia feudal. [pág. 44]

Com o crescimento das cidades retomava-se, de forma acentuada, a divisão do


trabalho entre a cidade e o campo. Para uma população urbana crescente, havia
necessidade de um aumento da produção agrícola. Isto se deu através do aumento
da produtividade, com o desenvolvimento intensivo da agricultura, e através da
extensão das áreas cultivadas.

Na Europa havia muitas terras ainda inaproveitadas. A partir do século XII


desenvolveu-se um processo de mobilidade da fronteira agrícola européia, pela
transformação de terras improdutivas em áreas agricultáveis. Esta ampliação da área
cultivada foi feita pelos camponeses, através de pedidos de concessão de terras e
significou a possibilidade de ficarem livres das obrigações a que estavam sujeitos na
ordem feudal.

As terras cultivadas se estenderam tanto através da concessão de terras, como


através do arrendamento de parcelas das terras dos senhores feudais. Os servos
conquistavam sua liberdade, e a terra fonte de renda tornava-se uma
mercadoria valiosa para a aristocracia já em decadência com a desestruturação da
economia feudal.

Paralelamente ao processo de libertação do servo das obrigações feudais, a


indústria artesanal se modificou. Como vimos no capítulo anterior, à medida que as
cidades cresciam, o mercado se ampliava e o uso do dinheiro se generalizava, os
camponeses responsáveis pela produção artesanal tinham oportunidade de
abandonar o campo e viver exclusivamente de um ofício. Não era necessário muito
capital, porque a produção era feita em um dos cômodos da própria casa, ou seja, a
oficina era doméstica.

O aumento do número de artesãos, e a necessidade de proteção de seus


interesses fez surgirem as corporações de ofício, contra os quais se colocavam os
interesses da burguesia comercial, de ampliação da capacidade produtiva. O
surgimento da manufatura foi a reação a este processo, e muito contribuiu para a
emergência do trabalho assalariado. A manufatura cresceu, dominou a cidade e
transformou o próprio caráter da produção artesanal urbana.

Ainda no século XVI, quando muitos aperfeiçoamentos técnicos já haviam


ocorrido (como a produção do papel e da pólvora com energia hidráulica), e a
produção industrial ainda era predominantemente artesanal do ponto de vista
técnico, o domínio do artesão sobre o processo produtivo já diminuía. Afrânio
Mendes Catani destaca:

"A forma de produção mais corrente, em particular na área têxtil, tinha ainda por base
o artesanato. Assim, podia ainda ser realizada em pequenas oficinas ou até em casa,
por pessoas que continuavam a conservar [pág. 45]
uma pequena porção de terreno e continuavam a cultura em pequena escala com o
artesanato como atividade secundária. Portanto era necessário capital para a
aquisição de matérias-primas para a organização da venda (e, às vezes, para o
acabamento do produto), o que era assegurado por um mercador-fabricante, que
deslocava o trabalho a ser realizado pelos artesãos nas aldeias ou nos subúrbios de
cidades mercantis, organizava a divisão do trabalho em fases de produção (por
exemplo, fiação, tecelagem, acabamento) e tratava da venda do produto acabado. A
partir daí, as expressões 'indústria caseira ou doméstica' e, também, 'sistema de
deslocação' têm sido usadas indiferentemente para definir aquela que foi a forma de
produção mais característica na fase inicial, na pré-revolução industrial do capitalismo,
que Marx chamou a fase da 'manufatura' por contraste com a da 'maquinofatura'
introduzida pela revolução industrial" (destaques nossos).

Desta forma, o trabalho assalariado entrou em processo de "gestação". Embora


os artesãos ainda fossem donos de seus meios de produção, e muitas vezes ainda
possuíssem um pedaço de terra, o capitalista (ainda de fato, um comerciante)
começou a subordinar a produção ao capital.

Este processo de decomposição da produção em fases, cabendo a cada artesão a


responsabilidade por uma destas etapas, significava a sua perda de controle sobre o
preço do produto, direito este que passou ao comerciante, responsável pela venda
da mercadoria. Nesta relação, o pagamento recebido pelo artesão já começava a se
assemelhar a um salário.

O processo acentuou-se à medida que os artesãos, perdendo o controle sobre o


preço do produto, entraram em dificuldades financeiras, permitindo que tanto os
comerciantes como os artesãos que conseguiram acumular algum capital se
tornassem seus patrões.

Simultaneamente, a partir da segunda metade do século XVII, aperfeiçoaram-se


os instrumentos de produção. As ferramentas e algumas máquinas (ainda que
movidas pela energia humana) melhoraram e tomaram-se mais caras, o que acabou
por fortalecer o controle da produção, por parte daqueles que tinham capital
acumulado e podiam fazer frente a estes investimentos.
Paulatinamente a produção industrial passa a ser realizada na fábrica, onde
através dos investimentos realizados pelos capitalistas, concentram-se instrumentos
de produção mais modernos, que permitem uma produção mais rápida e de custo
menor. A concorrência torna-se inexorável para a produção artesanal, e a
emergência e predominância do trabalho assalariado, um fato consumado. [pág. 46]

O reforço deste processo deu-se pelas transformações que ocorriam no campo:


fim das terras comuns para pastagens, elevação das taxas de arrendamento em
decorrência da transformação definitiva da terra em mercadoria, o que quer dizer,
em fonte de renda. O aumento das taxas de crescimento populacional também
permitiu a ampliação do contingente de expropriados, que portadores apenas de sua
força de trabalho, constituíam-se mão-de-obra abundante para a produção fabril, e
reforçavam a instituição do trabalho assalariado como forma predominante, já a
partir do século XVI.

A Revolução Industrial
A expressão indústria, entendida em seu sentido mais restrito, diz respeito às
formas tomadas pela produção de mercadorias, a partir da maquinofatura, e
especialmente com a Revolução Industrial.

De fato, o que se denomina como Revolução Industrial, ocorrida na segunda


metade do século XVIII, foi muito mais do que a decorrência da simples descoberta
da máquina a vapor (1769), dos teares mecânicos de fiação (1767, 1768 e 1801), da
locomotiva e da estrada de ferro (1829), como alguns livros didáticos afirmam. Muito
pelo contrário, estas invenções não se constituem a causa da Revolução Industrial,
mas decorrem de processos de transformação pelos quais estava passando o próprio
processo de produção industrial desde o século XVI.

A predominância do trabalho assalariado, e por outro lado o controle, cada vez


mais definitivo, da produção pelo capital, dão ao desenvolvimento capitalista um
novo rumo, através da ampliação do espectro de acumulação e reprodução do
capital. Antes era possível acumular-se a partir do comércio de todo o tipo que a
economia mercantil permitia (inclua-se aí os saques e a pirataria, por exemplo).
Agora, era possível reproduzir este capital acumulado, investindo-o na produção,
através da compra dos meios de produção necessários: matéria-prima, ferramentas,
máquinas e torça de trabalho. Embutido no preço do produto, agora sob a
determinação do capitalista, estava o "lucro", aquilo que a economia liberal
considera a remuneração do capital investido, e que, na verdade, constitui-se na
apropriação de parte da riqueza produzida pelo trabalhador que o seu salário não
remunera a mais-valia.

Para esta apropriação de mais-valia ampliar-se e permitir a própria ampliação do


capital era preciso incentivar o aumento dos ritmos [pág. 47]

e produção, o aumento da produtividade. Segundo Marx, este aumento de extração


da mais-valia deu-se de duas formas diferentes.

A reprodução do capital intensificou-se através do aumento da mais-valia


absoluta, isto é, aumento da jornada de trabalho dos assalariados, em face de uma
diminuição progressiva dos salários pagos.

Há registros referentes à primeira metade do século XIX, que apontam para


jornadas de trabalho de até 16 horas diárias na Inglaterra, incluindo-se o trabalho de
mulheres e crianças, que precisavam também vender sua força de trabalho para
garantir a sobrevivência familiar. O grande contingente de força de trabalho
disponível já havia permitido o achatamento dos salários a um nível de aviltamento
tal, que o chefe de família jamais conseguia nessa época, prover o sustenta de sua
família.

Ainda que a força de trabalho viesse sendo explorada ao máximo, o capital


procurava outras formas de se reproduzir, para realizar mais rapidamente a
apropriação da mais-valia.

O incentivo ao desenvolvimento técnico e científico foi grande neste período,


não por acaso. Era preciso implementar-se melhorias técnicas e descobrir novas
formas que permitissem mais rapidez para a realização do capital. A máquina a vapor
apareceu neste contexto, permitindo o aumento da mais-valia a realização da
mais-valia relativa.

É inegável a importância para o desenvolvimento capitalista, da descoberta de


máquinas que não dependiam mais exclusivamente da força humana ou de uma
energia sobre a qual não se tinha controle total como a do vento. Mas é preciso
inverter a ótica de análise mais corrente: a Revolução Industrial não aconteceu
porque se descobriu a máquina a vapor, mas a máquina a vapor foi. descoberta
porque se precisava promover uma revolução nos moldes da produção industrial, de
sorte a ampliar as possibilidades de realização do capital.

Este processo foi de fato tão transformador que mereceu o nome de revolução,
e reduziu a expressão indústria a um sentido mais restrito, ao da existência de um
sistema fabril de larga escala de produção, para o qual concorreu a utilização de uma
energia não humana, permitindo a produção em série.

O início da industrialização entendida aqui como traço da sociedade


contemporânea, como principal atividade econômica e principal forma através da
qual a sociedade se apropriava da natureza e a transformava marcou de forma
profunda e revolucionou o próprio processo de urbanização. [pág. 48]

Common questions

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The primary economic activities in cities during the early capitalism phase included craft production organized in guilds and later manufactories, alongside burgeoning trade. These activities created economic conditions conducive to industrialization, as guilds structured the division of labor which manufactories expanded upon, leading to the development of the capitalist factory system . This structuring of work and production in urban centers laid critical groundwork for the adoption of mechanized production that typified industrialization .

The emergence of capitalism in European cities led to significant changes in social and economic structures. The transition from feudal to capitalist systems emphasized production over administration, making cities centers of commerce and production rather than mere political hubs . Socially, this shift diminished the role of aristocracy while empowering the bourgeoisie, who controlled trade and capital investment . Economically, the specialization of labor and the emergence of guilds evolved into manufactories, setting the stage for later industrial development, highlighting the division of labor and the role of urban areas in capital accumulation .

The later medieval urbanization process in Europe differed from antiquity's urbanization in its decentralized development and commercial focus. Whereas ancient cities like Rome served as administrative and power centers, the medieval resurgence was characterized by numerous mid-sized cities with vibrant trade and artisan activities but no singular dominant city . Additionally, medieval urbanization generated semi-autonomous cities with economic rather than administrative power bases, facilitating a shift from aristocratic governance to bourgeois control .

Technological advancements played a critical role in reinforcing the capitalist economy by increasing production efficiency and reducing costs. Inventions such as the steam engine were catalystic, not because they initiated the Industrial Revolution, but because they met the existing demand for faster and cheaper production methods . The shift from artisanal to industrial production resulted in the reproduction of capital through large-scale manufacturing, where technological innovation became a key driver for expanding productivity and maximizing capital profit .

In colonial territories, capitalism influenced cities by introducing a multiplicity of functions as compared to their European counterparts. While European cities had functions including some level of production, colonial cities primarily assumed political-administrative and military-defensive roles. Over time, as the colonial economies stabilized, these cities became crucial for the reception and distribution of goods . This contrasted with Europe where cities were not purely service-oriented but increasingly centers of production and social life under capitalism .

During the mercantile capitalism phase, cities became focal points for social accumulation, contrasting with their earlier feudal role as military and administrative centers. The feudal period relied on agrarian surplus and noble patronage, while mercantile cities accumulated wealth through trade and commerce, supporting cultural, scientific, and artistic advancements . This economic shift empowered a bourgeois class that reshaped social hierarchies and promoted a network of interconnected cities, thus changing the social dynamics of wealth and power .

The development of a network of urban centers in Europe significantly impacted intercity economic relations by fostering trade and integration across regions. This network enabled cities to specialize in specific types of production, trade both raw and finished goods, and support a burgeoning capitalist economy . The interconnectedness facilitated economic and cultural exchanges, enhancing collective resource mobilization and reinforcing economic dominance by urban centers over rural areas .

The resurgence and transformation of urban centers during the late medieval period in Europe were primarily driven by the reactivation of trade, which created conditions for restructuring into a capitalist mode of production, undermining the feudal economy. This period saw a growth in trading activities and craft production, resulting in semi-autonomous cities with marked commercial bases . Additionally, the founding of new cities on previously unoccupied lands facilitated expansion in Europe, allowing for increased urban density by around 1400 .

The foundation of cities such as Williamsburg illustrated the transition from rural to urban settlement characteristics by transforming from simple rural settlements into urban centers with diverse functions. Initially founded as a rural English village, Williamsburg evolved by the end of the 17th century into the capital of Virginia, expanding its role beyond administration to become a vital point in the colonial economy . This transition was driven by growing permanent settlements and the need for structured civic governance and trade in colonial America.

Division of labor and specialization played pivotal roles in urbanization and industrialization by structuring production processes and enhancing economic efficiency. The organization of artisans within guilds specialized production tasks, a precursor to manufactories and later factories . This structure allowed urban areas to become both productive and administrative centers, facilitating efficient resource utilization that was crucial for supporting the increasingly complex economy of the early modern period .

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