Polymatheia
Revista de Filosofia
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TRANSUMANISMO, PÓS-HUMANISMO E REGULAÇÃO, SOB A ÓTICA DE
LUC FERRY E INTÉRPRETES
Priscila Oliveira1
Resumo: Pretende-se ilustrar a articulação crítica entre os conceitos de transumanismo e
pós-humanismo em Luc Ferry, sob a ótica da tradição pós-iluminista, com ênfase à ideia
de regulação – crucial para as ciências sociais aplicadas, especialmente para o Direito. A
despeito do sucesso ou fracasso de certas pesquisas em alta tecnologia, relacionadas ao
campo do transumanismo e do pós-humanismo, a sugestão é de que o arcabouço teórico-
conceitual que sustenta tais investidas pode fomentar uma cultura que coloca, desde já,
questionamentos éticos para os quais os operadores do Direito devem estar prontamente
atentos.
Palavras-chave: Transumanismo. Pós-humanismo. Inteligência artificial. Regulação.
Ética.
TRANSHUMANISME, POSTHUMANISME ET RÉGULATION CHEZ LUC
FERRY ET DES INTERPRÈTES
Résumé: Cet article vise à illustrer l'articulation critique entre les concepts de
transhumanisme et de posthumanisme à Luc Ferry, sous l’angle de la tradition post-
Lumières, en mettant l'accent sur l'idée de régulation - cruciale pour les sciences sociales
appliquées, en particulier pour le Droit. Malgré le succès ou l'échec de certaines
recherches de haute technologie, liées au domaine du transhumanisme et du post-
humanisme, la suggestion est que le cadre théorique et conceptuel qui soutient la
proposition peut favoriser une culture critique, soulevant des questions éthiques
pertinentes pour les praticiens du Droit.
Mots-clés : Transhumanisme. Le posthumanisme. L'intelligence artificielle. Régulation.
L'éthique.
1. Introdução
1
Mestre e doutoranda em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná, na linha de pesquisa em
Ética e Política.
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No ano de 2022, após a pandemia do Covid-19 ter devastado milhares de
famílias ao redor de todo o mundo e ressignificado os padrões de “normalidade” das
próprias interações humanas, o cineasta David Cronenberg levou às telas dos cinemas um
projeto engavetado há duas décadas: o filme Crimes do Futuro2, protagonizado por Viggo
Mortensen e
Léa Seydoux, acertando precisamente uma sociedade tomada pelo cansaço, assustada e
que aponta, segundo muitos, para um horizonte distópico. A despeito do sugestivo título,
a película retrata um universo de relações que escapa à estética do futurismo hightech,
ajudando a provocar, para além do choque inicial ao espectador desavisado, reflexões de
extrema relevância. Uma das questões tratadas, por meio da linguagem artística, remonta
à temática do transumanismo e do pós-humanismo: afinal, estaríamos diante de um
progresso fático da natureza humana, ou de uma outra natureza, gestada pelos nossos
excessos? Como a cultura e subcultura, bem como as estruturas de regulação social e
controle político se organizam nesse novo cenário? Quais os dilemas éticos envolvidos
nesta nova perspectiva e relação do homem com seu próprio corpo, com os demais corpos
e suas expressões ou performances?
É pertinente mencionar, considerando o vasto campo de pesquisa que se
desdobra contemporaneamente em torno das noções de transumanismo e pós-humanismo,
que embora ambas naturalmente se entrelacem, não se esgotam tampouco se reduzem a
um termo final e unívoco. Segundo Maia (2018, p. 434), antes do destaque do
transumanismo e do pós-humanismo na esfera da ciência e da tecnologia, tais ideias
participariam do campo de significação próprio à filosofia e, igualmente, à teologia. Dessa
perspectiva – de tais conceitos encerrando crenças e modos de vida –, Maia explica a
inevitabilidade da profusão de entendimentos distintos sobre a natureza das noções em
2
No original, Crimes of the Future. Uma boa resenha do filme é a de Rodrigo Menezes, para o Portal E.
M. Cioran Brasil, que está disponível em: [Link]
distopia-cronenberg-rodrigo-menezes/. Acesso em 21 set. 2022.
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xeque, bem como as mais variadas vertentes, muitas vezes contrárias entre si, organizadas
em torno de “ideias pós-humanistas ou transumanistas”. Ciente da dificuldade, o autor
ainda assim propõe uma distinção entre os termos para fins de análise: situará o
transumanismo, a partir da leitura de Nick Bostrom, na dimensão das pesquisas de alta
ciência e tecnologia, e o pós-humanismo separado em duas correntes: a cultural/filosófica
e a tecno-científica. Cabe ressaltar, entretanto, que subjaz ao método a premissa de que
ambos podem ser considerados como “dois momentos distintos da realidade humana em
transição. Enquanto transumanismo diz respeito à passagem ou ao movimento de
passagem, o ‘pós-humano’ representa a ideia de estágio ao qual se chega”. (MAIA,
2018, p. 438, grifos nossos).
Luc Ferry, por sua vez, também operará uma primeira distinção, do ponto de
vista analítico: irá entender o transumanismo, de modo geral, a partir da ideia de
enhancement ou melhoria, herdada, grosso modo, da noção de perfectibilidade tal qual
teria sido pensada pelos filósofos iluministas, desde o século XVIII. Contudo, antes de
avançar no argumento de Ferry, é válido ponderar a respeito da dificuldade ou aparente
paradoxo ocasionado na tentativa de circunscrever a noção de perfectibilidade em uma
ótica genuinamente otimista, a despeito do modo que a própria tradição Iluminista, não
raro, acaba sendo tomada (sobretudo no que concerne aos progressos da razão).
Rousseau, por exemplo, lançou mão da ideia de perfectibilidade em seu Segundo
Discurso à Academia de Dijon, para responder à questão sobre a origem e os fundamentos
da desigualdade entre os homens. De acordo com o genebrino, é a perfectibilidade que
permite o aperfeiçoamento humano, tanto da perspectiva de seu avanço em “luzes” (ou
seja, do aprimoramento da racionalidade), quanto de seu declínio moral, pelo afastamento
do homem de um estado de pura autenticidade, no qual vigoram apenas suas necessidades
naturais. Verifica-se, em Rousseau, uma pálida aparência construída pela medida do
olhar alheio, marcando a passagem do estado de natureza para o estado social, no qual
imperam ao homem de cultivo necessidades atribuídas ou artificiais. É a perfectibilidade,
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portanto, a condição de possibilidade tanto do progresso da razão quanto da
degenerescência (moral) humana. A esse respeito, a filósofa Maria das Graças
Nascimento3 argumenta:
(...) o conceito de perfectibilidade no século foi elaborado por Rousseau no interior de uma
concepção da história humana absolutamente contrária ao otimismo da ideologia do
progresso. (...) Rousseau considera que o efeito do desenvolvimento das ciências e das artes
não é positivo. Ao contrário, a aventura da civilização se mostra como um processo de
degeneração progressiva do homem. O conceito de perfectibilidade, introduzido no Discurso
sobre a origem da desigualdade, tem um papel fundamental na antropologia de Rousseau.
‘Qualidade muito específica’, ‘faculdade quase ilimitada’, ela distingue o homem do animal
e, com a intervenção das circunstâncias, desenvolve sucessivamente todas as outras
faculdades. Mas este processo de aperfeiçoamento é ao mesmo tempo um processo de
degeneração. Rousseau não nega a continuidade da história. Ela é a continuidade da
civilização, mas é precisamente a civilização que aliena o homem da natureza. Para
Rousseau, a categoria do progresso não dá conta do sentido da história. O final do Segundo
Discurso é incisivo: a desigualdade entre os homens tira sua força e seu crescimento
exatamente dos progressos do espírito humano. Ao criticar a ideia de progresso, Rousseau
dissocia os valores que lhe são correlatos, coloca em questão os meios e os fins, e mostra as
contradições de um processo que seus contemporâneos consideram positivo. Sua crítica então
efetua uma avaliação do presente exatamente inversa àquela de Condorcet. Se o progresso
do espírito humano é ao mesmo tempo uma degeneração, o passado é superior ao presente.
(1993, pp. 11-12) Grifos nossos.
Não obstante, Ferry compreende a perfectibilidade como uma espécie de
aperfeiçoamento promovido pelo progresso das ciências, sobretudo das biotecnologias,
em todos os níveis do que se é tomado por humano: não apenas nas ciências naturais, mas
igualmente nas artes, na sociabilidade, estética etc. Haveria, pois, um aumento
significativo de possibilidades e potencialidades abertas a todas as dimensões das
atividades humanas, uma vez que se promove, de saída, a longevidade como resultado
3
Em prefácio à tradução brasileira da obra de Condorcet, cujo espírito otimista, por sinal, é bastante avesso
ao de Rousseau – mais um sintoma de que as generalizações sobre o “iluminismo” são, no mínimo,
complicadas. In: CONDORCET. Esboço de um quadro histórico dos progressos do espírito humano. Trad.
Carlos Alberto Ribeiro de Moura. Prefácio de Maria das Graças de Souza. Campinas: Editora da
UNICAMP, 1993.
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primordial. Na obra A Revolução Transumanista (2018, p.1), o autor elucida a natureza
do projeto:
uma das características mais essenciais do movimento transumanista diz respeito (...) ao fato
de que pretende passar do paradigma médico tradicional, o da terapêutica, cuja finalidade
principal é ‘reparar’, curar doenças e patologias, para um modelo ‘superior’, o da melhoria,
ou até do ‘aumento’ do ser humano.
Hammes (2018, p. 431), por sua vez, propõe uma análise histórico-descritiva que
resulta na distinção do conceito de transumanismo – na esteira de Ferry, valendo-se do
sentido do enhancement –, da noção de pós-humanismo, que seria o resultado do
desenvolvimento da proposta transumanista, ou o resultado daquela “aplicação dos
diferentes recursos disponíveis no âmbito da tecnologia e das ciências para superar os
limites da condição humana, seja quanto à saúde, à idade e à inteligência ou ao
conhecimento” (HAMMES, 2018, p. 435). Dessa perspectiva, teríamos o pós-humanismo
não como uma exacerbação dos princípios transumanistas, ou uma de suas vertentes, mas
sim como o prolongamento natural do desenvolvimento das pesquisas daquele campo,
pela fabricação de um novo horizonte de humanidade. De certo modo, conclusão afeita à
proposta de Maia.
Há que se considerar, ainda, o horizonte da pós-modernidade e seu apontamento
crítico em relação a noções outrora bem engessadas como o locus possível de
efervescência dos debates acerca de uma “nova natureza”, ou um estado para além da
“velha natureza” humana, secular. Conforme aponta Maia (2017, pp. 74-75), o
improvável enquadramento do sujeito pós-moderno nas delimitações conceituais
pregressas é um dos ingredientes que ajuda a compreender o cenário das discussões
transumanistas/pós-humanistas:
Uma das razões que tem contribuído para a proliferação do debate sobre o pós-humano é uma
certa noção de dispersão do sujeito devido à pluralidade de narrativas e de meta-narrativas
sobre o que significa ser humano. Neste âmbito, pode-se dizer que a filosofia pós-moderna,
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com a sua crítica à racionalidade e à razão, apresenta correntes céticas em relação à ciência
e à tecnologia.
O ceticismo em relação à ciência e à tecnologia, no entanto, é bastante pontual:
trata-se, sobretudo, da superação de certos pressupostos a partir dos quais ambas as áreas
compreendiam o homem/humano, para a proposição de novas premissas: da ideia de um
ser entendido como um organismo animado, composto de matéria e pensamento, cuja
interferência externa poderia resultar em monstruosidade4, passamos a considerar a
possibilidade do humano como uma entidade única, como um mecanismo complexo –
puramente material – e, portanto, passível de reprodução integralmente artificial. Para
esse “novo homem”, uma “nova ciência” e uma “nova tecnologia” se fazem, pois,
necessárias, bem como o abandono de velhas crenças e temores de origem religiosa.
Como na ambientação de Cronemberg em Crimes do Futuro, os ídolos
desaparecem: entretanto, se os deuses estão mortos e a tecnologia é promissora, as
implicações éticas saltam aos olhos. E quais as preocupações resultantes desse novo
horizonte?
2. Os dilemas do aperfeiçoamento
Em entrevista concedida no ano de 2016 a Claire Chartier e Christophe Barbier,
correspondentes da revista francesa L’Express, Luc Ferry trata dos aspectos positivos e
negativos do transumanismo, a partir de seu ensaio intitulado La Révolution
transhumaniste, comment la technomédecine et l'uberisation du monde vont bouleverser
nos vies. Para o autor, a primeira tarefa da filosofia – que ele assume hegelianamente
4
É curioso notar, apenas como apontamento à reflexão, como o clássico Frankenstein, de Mary Shelley,
dialoga com a proposta de David Cronemberg, em Crimes do Futuro: a manipulação dos órgãos e a
possibilidade de criação de uma nova natureza, podendo resultar tanto em “monstruosidade”, quanto na
afirmação da própria potência criativa humana – um retorno mesmo ao mito de Prometeu.
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como prerrogativa –, seria justamente a de refletir sobre o seu próprio tempo5. A pós-
modernidade, então, poderia ser pensada a partir de dois fenômenos próprios à terceira
revolução industrial: o surgimento da tecnomedicina e a intensificação da economia
colaborativa, que Ferry identifica a partir da “uberização” ou proliferação dos modelos
disruptivos no mundo dos negócios. Vamos nos reter, de início, ao primeiro fenômeno.
O filósofo inicia a entrevista alegando que o projeto transumanista se caracteriza
por uma mudança de finalidade da própria medicina: outrora, tal ciência possuía um
caráter terapêutico, que visava minimizar as mazelas do corpo (e da mente) mas, com o
avanço das novas tecnologias – sobretudo às voltadas para a área da saúde, como a
engenharia genética e a tecnomedicina –, a antiga ciência teria passado a vislumbrar a
possibilidade não somente de combater enfermidades, mas potencialmente de retardar
significativamente o envelhecimento e, quiçá, a própria morte. Noutra entrevista,
concedida a Jorge Forbes, presente no prefácio à edição brasileira d’ A Revolução
Transumanista, Ferry (2018) esclarecia:
(...) o transumanismo é deixar a humanidade melhor. É melhorá-la. Em inglês se diz
enhancement. Trata-se de passar de um modelo terapêutico que tratava (o médico estava ali
para tratar, para consertar) para o modelo do aumento. E o verdadeiro projeto por trás disso
tudo é aumentar não só a inteligência, a beleza, a força, mas a longevidade humana. A Google
investe bilhões de dólares no projeto de aumento da longevidade humana. A idéia (sic) é
fabricar uma humanidade que seria jovem e velha ao mesmo tempo. ‘Se juventude soubesse,
se velhice pudesse’, diz um famoso provérbio. Trata-se de fabricar uma humanidade que
viveria 150, 200, 300 anos, talvez até mais. Isso já foi feito com ratos: os ratinhos
transgênicos da Universidade de Rochester vivem trinta por cento mais tempo que os ratos
normais. A ideia é fabricar uma humanidade que viveria muito mais tempo e, claro, em boa
saúde.
Tal possibilidade coloca a reflexão sobre o tema, portanto, na ordem do dia: o
avanço da tecnomedicina poderia promover inúmeras benesses, sobretudo àqueles
5
Tarefa já anunciada por Ferry em A Revolução Transumanista, p. XLIX, ao apresentar o propósito da
obra: “Daí o projeto deste livro, que afinal almeja cumprir a primeira tarefa que Hegel atribuía à filosofia:
‘entender aquilo que é’, fornecer a imagem mais exata possível do real, contribuir para apreender ‘seu
tempo no pensamento’ a fim de preparar tanto quanto possível a ação justa.”
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privados, naturalmente, de uma saúde plena; no entanto poderia, igualmente, criar
dispositivos capazes de nos colocar em pé de extrema desigualdade biológica, apenas para
citar o mais palpável. Nada muito distante do imaginário retratado nos cinemas, pelas
narrativas de ficção científica em suas mais diversas apresentações – sejam as futuristas
“hightech”, as de body horror ou distópicas – ao gosto da plateia. Ferry propõe à
L’Express, como exemplo, um chip desenvolvido para tratar os casos de retinopatia
pigmentar, que causariam cegueira. Nesse caso, o uso do dispositivo seria terapêutico,
trazendo qualidade de vida a quem, por um infortúnio natural, não poderia desfrutar de
uma condição de saúde plena. Mas, se estão dadas as condições para o desenvolvimento
de um chip capaz não apenas de corrigir uma patologia, mas também de produzir uma
visão para além do alcance natural humano – uma visão de “águia” –, estaríamos então
extrapolando o limite do tratamento terapêutico, produzindo um excesso cuja
consequência mais imediata seria, justamente, fomentar a competição a partir da criação
de uma desigualdade objetiva entre os homens, da perspectiva biológica. O perigo desse
horizonte parece bastante evidente, conforme sugestão do entrevistado.
No entanto, cabe ponderar que o movimento transumanista comporta as mais
variadas orientações: desde aqueles que adotam essa perspectiva mencionada por Ferry
do enhancement – herança, em parte, do desenvolvimento do humanismo secular
iluminista –, quanto aqueles que acreditariam numa espécie de “superação do humano”,
da sua condição de fragilidade, em nome de uma espécie de hibridismo evolucionista.
Desta segunda perspectiva despontam as vertentes que se focam nos avanços da
cibernética para pensar a condição do homem-máquina, cuja herança, em parte, remete
ao materialismo radical, noutra ao pós-humanismo. Segundo o autor, este último
encontraria em um suposto niilismo nietzschiano, avesso de alguma maneira aos
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“ideólogos” da Ilustração, material fecundo para as teses sobre a “fabricação” de uma
nova humanidade6. Nesse sentido, argumenta Ferry (2018, XLII):
o transumanismo se divide em dois grandes campos: os que querem ‘simplesmente’ melhorar
a espécie humana sem renunciar, porém, à sua humanidade, mas, ao contrário, reforçando-a;
e os que, justamente como Kurzweil, defendem a ‘tecno-fabricação’ de uma ‘pós-
humanidade’, para a criação de uma nova espécie, se necessário hibridada com máquinas
dotadas de capacidades físicas e uma inteligência artificial infinitamente superiores às nossas.
No primeiro caso, o transumanismo se situa prontamente na continuidade de certo
humanismo "não naturalista” (...), um humanismo que, de Pico de la Mirandola a Condorcet,
defendia a perfectibilidade infinita do ser humano. No segundo, a ruptura com o humanismo
em todos os seus aspectos é ao mesmo tempo consumida e assumida.
Considerando esse segundo grupo cuja referência seria o materialismo radical,
em oposição ao desenvolvimento de um projeto de aperfeiçoamento humano outrora
pensado pelos iluministas clássicos, Ferry projeta, em resposta ao L’Express, um
horizonte de resultados do cruzamento entre IA (inteligência artificial) e robótica, com a
fabricação de “pós-humanos” hiperconectados às redes da World Wide Web para as
décadas de 2030, 40. Segundo o filósofo, tal projeto, encabeçado por Ray Kurzweil, não
deve ser ridicularizado pois recebe significativa injeção de capital7 e, ainda que
6
A respeito da influência de Friedrich Nietzsche, Maia argumenta, na esteira de Stefan Herbrechter, que
haveria uma certa interpretação da filosofia nietzscheana da qual tanto pós-humanismo quanto vertentes do
transumanismo se valeriam para pensar a ideia de superação da humanidade e a proposição de um “novo
homem”. A esse respeito vale conferir Maia, Transumanismo e pós-humanismo – descodificação política
de uma problemática contemporânea, pp. 55-57, 2018 e Herbrechter, Posthumanism: a critical analysis.
London: Bloomsbury, 2013.
7
Ferry conta que Kurzweil teria recebido financiamento do Google permitindo, em 2008, a fundação da
Universidade da Singularidade, cuja perspectiva de estudo seria justamente o entrecruzamento da IA e da
robótica para fabricação de máquinas com consciência de si, cujo funcionamento imita a complexidade do
mecanismo humano. Ferry explica a distinção entre IA fraca (aquela responsável por cálculos complexos e
que vencem humanos em partidas de xadrez, através da análise e entrecruzamento em alta velocidade de
bilhões de dados, mas que são incapazes de pensamento real e de ter consciência de sua própria existência),
da IA forte, essa sim que interessaria para o desenvolvimento das verdadeiras máquinas-pensantes.
Questionado por Forbes sobre o avanço de tais pesquisas, Ferry revela: “Google Brain, uma das filiais da
Google, trabalha nisso, na fabricação de sequências de neurônios de silicone. Já fabricaram sequências
de neurônios que conversam entre si, que fabricaram uma linguagem comum que nós mesmos não
entendemos. Fizeram isso em 2013. É preciso ir à Google Brain para acreditar. Isso fez com que Stephen
Hawkins, Bill Gates e Elon Musk fizessem em 2015 um abaixo-assinado com mil pesquisadores do mundo
todo para dizer que o maior perigo que pesa sobre a humanidade é a IA forte. Ainda não chegamos lá, mas
se já tivéssemos chegado, o cenário que conduziu à destruição de Neandertal por Cro-magnon estaria se
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“delirante”, mereceria atenção sob o risco de deixarmos passar à margem importantes
inovações que modificariam, de maneira ainda desconhecida, nossas vidas e nossa
maneira de nos relacionarmos nas mais variadas dimensões: afetiva, política, trabalhista,
social. Ferry explica que o tema é complexo: não se trata do mero sonho visionário de
produção de ciborgues, partindo da ideia, certo modo, ingênua de tornar as máquinas
inteligentes, mas do pressuposto do materialismo de Kurzweil segundo o qual o homem
é tomado per se como uma máquina, cujo cérebro corresponderia a um complexo
mecanismo que teria, por sua vez, o pensamento como efeito visível.
Ora, se o homem é uma máquina, cujo cérebro corresponderia a um complexo
mecanismo produtor de pensamento, suprime-se aqui, segundo tal teoria, a distância ou
diferença material entre mente e corpo (o dualismo cartesiano). Dessa maneira, seria
possível projetar, artificialmente, unidades corpo-mente semelhantes ao homem
biológico. Essa seria, de acordo com Ferry, a proposta da “Universidade da
Singularidade”, o mote de suas pesquisas, sob a tutela de Kurzweil. Ainda que cético
quanto a possibilidade de criação de homens no sentido estrito – capazes também de afeto
genuíno, para os quais é imprescindível a dicotomia entre matéria e pensamento – Ferry
argumenta que a mera possibilidade de existência desses “ciborgues”, capazes ao menos
de reproduzir ou mimetizar emoções, já é preocupante o suficiente e traz questões éticas
consideráveis. Em resposta à Forbes, Ferry pondera sobre a crença dos adeptos de
Kurzweil:
A ciência sempre venceu a complexidade. Se fosse uma questão de natureza, de
essência, de qualidade, ainda vá lá, mas se for só quantitativo a gente vai chegar lá,
dizem eles. E assim eles começaram a fabricar sequências de neurônios que
conversam entre si, como eu dizia há pouco. E, portanto, pensam que estão em vias
de fabricar um cérebro de silicone. E se conseguíssemos fabricar um cérebro de
silicone, esse cérebro seria completamente humano, por assim dizer, ele não teria só
reproduzindo, porque teríamos fabricado uma pós-humanidade com melhor desempenho do que nós. Mas
não conseguimos ainda e ninguém sabe se vamos conseguir.” A entrevista, cuja tradução é de Alain
Mouzat, está disponível e pode ser consultada em: <[Link]
transumanista/> Acesso 29 set. 2022.
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o cálculo, ele teria o verdadeiro pensamento, o livre-arbítrio, a decisão, a consciência
de si. Ele seria como o humano de Sartre: a existência precederia a essência. Ele seria
também um ser de história. Então o verdadeiro projeto da Google é fabricar uma pós-
humanidade, é o projeto de Kurzweil, é a busca da imortalidade. Porque enquanto só
se aumenta a vida humana, permaneceremos mortais.
Ainda que irrealizável, da perspectiva dualista de Ferry, o projeto da vertente
encabeçada por Kurzweil, por sua mera proposição, cria e retroalimenta todo um
movimento (entenda-se políticas e ações inclusas, público-privadas) que deixa de
considerar o aperfeiçoamento humano pela ótica da melhoria, do progresso sadio, para
apostar em tudo aquilo que possa fazer do homem outra coisa distinta disso que temos
por natural, e essa outra coisa deve, obviamente, trazer certas vantagens econômicas:
assim, do microcosmo social à macropolítica, vemos exemplos desse movimento (já antes
mesmo dos avanços das pesquisas em IA forte) – seja pelo contundente apelo e procura
por procedimentos estéticos desnecessários à saúde estrita, quanto pela injeção cada vez
maior de capital nos negócios disruptivos e, ainda, com a aposta do desenvolvimento de
máquinas capazes de ocupar certos postos de trabalho.
Nesse cenário, onde perde-se facilmente de vista o limite entre o eticamente
aceitável e o exagero, o Direito viria a ocupar um papel fundamental, encontrando,
contudo, inúmeras dificuldades, com ênfase à tarefa de regular práticas e pesquisas, sem
incorrer em censura autoritária. Isso porque não é tão óbvio quanto possa parecer, à
primeira vista, que o projeto transumanista – mesmo aquele criticado por Ferry –, incorra
num grande equívoco ou produza apenas efeitos negativos. Conforme observa Maia
(2017, p. 286), ao salientar outro aspecto do materialismo daquela vertente:
Este plano programático dos transumanistas vai além da ideia do melhoramento humano
através de alterações puramente biológicas. Já se prevê na sistematização destas ideias a
possibilidade de consumar, num plano muito mais avançado do que hoje é realizado, a
hibridização entre o humano e a máquina. Aliás, como defende D.J. Haraway (1991/1995),
o ciborgue poderá ter uma dimensão emancipatória no contexto de um modelo diferente de
sociedade. O ciborgue já não será um produto de um sistema desigual e de reprodução, mas
poderá ser ele próprio uma forma de relação mais justa, mais livre e enquadrada numa visão
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ecológica da sociedade mediante a redefinição das relações de poder, nomeadamente nas
estruturas do conhecimento.
Se Ferry parte de uma delimitação fundamental entre o plano biológico do
natural, haveria aqueles para os quais tais fronteiras não se mostrariam assim tão
evidentes ou sequer mesmo existiriam. Nesse sentido, o uso das tecnologias e seus
resultados estariam sempre dentro do âmbito do humano, caracterizado justamente pela
sua capacidade de produção e utilização de ferramentas visando adaptar-se e, também,
transformar o meio em que vive e suas relações. Tratar-se-ia, de certa maneira, de uma
visão menos catastrófica dos produtos das pesquisas nas mais diversas áreas de
conhecimento humano, inclusive o da inteligência artificial. Não parece ser outro o
diagnóstico de Maia (2017, p. 262):
Se atendermos à relação que desde sempre houve entre a evolução da espécie humana e a
utilização da técnica, mesmo que mediada por muitos outros fatores, o movimento
transumanista não estará a reivindicar mais do que a continuidade de um processo que tem
sido essencial para a nossa constituição enquanto espécie. Inclusivamente se adotarmos o
conceito de transumano como um humano melhorado, neste caso acentua-se a ambiguidade
sobre os conceitos em questão. Já não nos perguntaremos apenas se somos pós-humanos,
mas estará igualmente presente a questão se não seremos transumanos. E na verdade as
tecnologias emergentes como a engenharia genética, a nanotecnologia, a inteligência
artificial ou mesmo a criónica poderão possibilitar, de facto, ao ser humano a superação dos
seus limites físicos, psicológicos e mentais.
Tal qual o personagem Saul Tenser8 em Crimes do Futuro, a superação da
ambiguidade desse novo sujeito, empoderado o suficiente para performar suas incisões,
mas ainda indeciso quanto a compreensão de si (afinal, tratava-se na película de uma
patologia ou da evolução da espécie?), a perspectiva que lança luz, justamente, à potência
criativa humana dissolve fronteiras que expurgam para fora do sujeito a responsabilidade
sobre sua nova realidade. Assim, devolvendo ao homem o encargo integral sobre aquilo
8
Um trocadilho perspicaz para Soul Tensor (“tensionador de alma”), como bem observa Menezes, do Portal
E. M. Cioran Brasil. Disponível em: <[Link]
distopia-cronenberg-rodrigo-menezes/>. Acesso em 21 set. 2022.
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que faz de si mesmo, as distinções ingênuas entre natureza e artifício restam superadas,
impondo ao sujeito ético a reflexão sobre o impacto de suas (cri)ações de/sobre si e
de/sobre o mundo, bem como a necessidade de regulação – e atualização constante quanto
a esse processo – de suas práticas.
3. Considerações finais
Com mais ou menos alarme sobre os efeitos e resultados das pesquisas em alta
tecnologia, sobretudo aquelas que envolvem a genética, parece ponto pacífico entre os
autores e comentadores a emergência da necessidade de uma regulação eficiente sobre
certas atividades. O campo da bioética trata dessa emergência, para a qual o Direito deve
estar atento, pois não é nada claro tampouco consensual qual deve ser o modo de
intervenção dos agentes reguladores sobre os temas em questão. E não poderia ser
diferente: há quem veja, por exemplo, certos procedimentos genéticos da perspectiva da
eugenia e imediatamente relacionem tais práticas às tornadas célebres pelo nazismo
alemão; mas há também aqueles que insistem numa mediação, negando a equiparação
simplória das atividades: estaria praticando um ato de eugenia uma mãe que, ao descobrir
pelos exames de pré-natal que seu filho possui uma alteração cromossômica, decide pela
interrupção da gestação? Outra questão pontualmente problemática está relacionada ao
sentido do prolongamento da longevidade: até que ponto este seria desejável? Quais as
condições sustentáveis do planeta para abarcar uma realidade de milhares de pessoas com
expectativas de vida cada vez maiores e, consequentemente, perspectivas de consumo de
recursos naturais inflacionadas?
Ferry levanta essas e outras questões, em sua obra, e defende, resumidamente, a
reflexão sobre dois pontos centrais: 1) da distinção entre as práticas promotoras de um
melhoramento, aperfeiçoamento saudável daquelas que extrapolam os limites da própria
natureza humana (em que se pese de qual natureza se está a falar); 2) a necessidade de
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políticas e legislações sobre as atividades controversas, sem incorrer numa lógica
“proibicionista” (que para ele é inócua), e apostando na aplicação globalizada via tratados
e convenções, já que a proibição de uma prática numa região e a liberação em outra
tenderia a promover o comércio/turismo clandestino de profissionais e clientes. Maia
(2017, p. 286) acrescentaria ainda, a partir da leitura de João Arriscado Nunes9, a ideia de
democratização da pesquisa científica, pois para ele é preciso empoderar os cidadãos e
trazê-los para o debate consciente sobre os valores que devem prevalecer nas decisões,
uma vez que tais valores estão sujeitos aos desdobramentos históricos e não permanecem
sempre os mesmos. Ele afirma, como conclusão à sua tese de doutoramento, cuja ênfase
se destaca oportunamente:
(...) há que apostar no empoderamento dos cidadãos no quadro de uma biopolítica
democrática que leve à participação destes no processo de debate e de deliberação sobre a
aplicação das tecnologias emergentes. Sem a democratização do conhecimento e da prática
científica e médica dificilmente se poderá implementar um modelo de sociedade sustentável
que obedeça às necessidades de todos.
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9
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19, 2003.
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