Guia da Livre Circulação de Mercadorias
Guia da Livre Circulação de Mercadorias
Ares(2013)3759436 - 18/12/2013
NB-31-09-160-PT-C
LIVRE CIRCULAÇÃO DE MERCADORIAS
G U I A D E A P L I C A Ç Ã O D A S D I S P O S I Ç Õ E S D O T R ATA D O
QUE REGEM A LIVRE CIRCULAÇÃO DE MERCADORIAS
Livre circulação
de mercadorias
Guia de aplicação das disposições
do Tratado que regem a livre
circulação de mercadorias
ISBN 978-92-79-13488-3
Comissão Europeia
Empresa e Indústria
COMO OBTER PUBLICAÇÕES DA UNIÃO EUROPEIA
Publicações gratuitas:
• via EU Bookshop (http://bookshop.europa.eu);
• nas representações ou delegações da União Europeia.
Pode obter os respectivos contactos em: http://ec.europa.eu, ou enviando um fax para: +352 2929-42758.
Publicações pagas:
• via EU Bookshop (http://bookshop.europa.eu).
Assinaturas pagas (por exemplo, as séries anuais do Jornal Oficial da UE, a Colectânea da Jurisprudência do Tribunal de
Justiça e do Tribunal de Primeira Instância):
• através de um dos nossos agentes de vendas. Ver os respectivos contactos em: http://bookshop.europa.eu.
Livre circulação
de mercadorias
Guia de aplicação das disposições
do Tratado que regem
a livre circulação de mercadorias
Comissão Europeia
Empresa e Indústria
Aviso legal:
Nem a Comissão Europeia nem qualquer pessoa agindo em seu nome são responsáveis pelo uso que possa ser feito da informação
contida na presente publicação, nem por quaisquer erros que subsistam, apesar de uma preparação e verificação cuidadosas.
Esta publicação não reflecte necessariamente o parecer ou a posição da Comissão Europeia.
Quaisquer comentários ou sugestões em relação à presente publicação devem ser enviados para: Direcção-Geral das Empresas
e da Indústria, Unidade C2.
The Enterprise & Industry online magazine (http://ec.europa.eu/enterprise/e_i/index_en.htm) covers issues related to SMEs,
innovation, entrepreneurship, the single market for goods, competitiveness and environmental protection, better regulation,
industrial policies across a wide range of sectors, and more.
The printed edition of the magazine is published three times a year. You can subscribe online
(http://ec.europa.eu/enterprise/e_i/subscription_en.htm) to receive it — in English, French or German — free of charge by post.
Encontram-se disponíveis outras informações sobre a União Europeia, na Internet, via servidor Europa (http://europa.eu)
ISBN 978-92-79-13488-3
doi:10.2769/27753
Para a utilização/reprodução de qualquer material cujos direitos de autor pertençam a terceiros, deve ser obtida a autorização
dos titulares
Printed in Belgium
Embora o guia não seja o primeiro no seu género, as edições anteriores foram elaboradas principalmente como um instrumento prático destinado
a permitir que os países candidatos e/ou as autoridades nacionais se familiarizassem com o conceito expresso nos artigos 28.º a 30.º do Tratado
CE. A presente versão é mais detalhada. Reflecte a experiência prática dos serviços da Comissão responsáveis pela aplicação das disposições do
Tratado sobre livre circulação de mercadorias (*) e dá uma ideia dos obstáculos ao comércio que se continuam a fazer sentir na prática. O guia
resume a jurisprudência relevante, completando-a com comentários, se bem que não pretenda fazer uma cobertura exaustiva do tema. Destina-se
de preferência a funcionar como um manual, evidenciando as questões que se colocaram no domínio da aplicação prática dessas disposições do
Tratado e fornecendo respostas.
O guia pode ser útil para as administrações nacionais dos Estados-Membros, tanto no que se refere ao quadro regulamentar em vigor, como à
elaboração de nova legislação. Os juristas que aconselham os clientes sobre questões relacionadas com o mercado interno podem também ser
beneficiados por algumas orientações relativas a domínios não harmonizados. Finalmente, o mercado interno suscitou sempre o interesse de
países terceiros, que querem compreender o quadro jurídico do mercado europeu e aprender com a experiência europeia destes últimos 50 anos.
O presente guia poderá prestar alguns esclarecimentos úteis no que a este ponto se refere.
O guia reflecte a legislação e a jurisprudência tal como eram em 31 de Dezembro de 2009. A legislação da UE e os acórdãos do Tribunal de Justiça
constam da base de dados Eurlex (http://eur-lex.europa.eu). Os acórdãos proferidos desde 1 de Junho de 1997 estão também disponíveis no sítio
Internet do Tribunal de Justiça (http://curia.europa.eu).
O presente guia não é um documento juridicamente vinculativo e não representa necessariamente a posição oficial da Comissão.
Após a entrada em vigor do Tratado de Lisboa, o Tratado CE foi alterado e passou a designar-se Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia
(TFUE). As disposições sobre a livre circulação de mercadorias (ex-artigos 34.º-36.º TFUE) permaneceram inalteradas, mas passarão a ser os arti-
gos 34.º-36.º TFUE. Não são os únicos artigos renumerados. O presente guia utilizará esta nova numeração TFUE, mesmo quando remeter para os
acórdãos proferidos pelo Tribunal de Justiça ao abrigo do Tratado CE.
(*) A presente segunda edição do guia foi elaborada e redigida por Santiago Barón Escámez, Sylvia Ferretti, Juliana Frendo, Octavien Ginalski, Maciej Górka, Hans Ingels,
Christos Kyriatzis, Florian Schmidt, Carolina Stege, Laura Stočkutė e Yiannos Tolias. Os comentários e sugestões ao presente guia podem ser enviados à Direcção-Geral
das Empresas e da Indústria, Unidade C2.
Página 3
Índice
Prefácio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3
2. Disposições do Tratado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
5.1. «Exportações» . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26
Página 5
6. Justificações dos entraves ao comércio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
9.2. Solvit. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
9.3. Processo por infracção nos termos dos artigos 258.º e 260.º TFUE . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
9.3.1. Procedimento nos termos dos artigos 258.° e 260.° . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
9.3.2. Denúncias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
9.3.3. Prioridades e poder discricionário da Comissão para actuar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40
Página 6
Anexos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
B) Aplicação territorial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42
Territórios a que se aplica o artigo 34.º TFUE . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42
Territórios a que se não aplica o artigo 34.º TFUE . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42
Página 7
1. O papel e a importância
da livre circulação de mercadorias
no mercado interno do século XXI
A livre circulação de mercadorias é um dos artigos do Tratado. A legislação harmonizada pode criar obstáculos ao comércio transfron-
grandes êxitos do projecto europeu. Contri- existente em numerosos domínios especificou teiriço. Além do mais, as tecnologias da infor-
buiu para a realização do mercado interno de o significado do mercado interno, definindo mação modernas, tais como a Internet, facili-
que os cidadãos e empresas europeus bene- assim em termos concretos o princípio da livre tam as compras transfronteiriças e incentivam
ficiam actualmente e que está no centro das circulação de mercadorias, tal como se aplica a procura de uma transferência rápida e fácil
políticas da União Europeia. O mercado interno a produtos específicos. No entanto, a função de mercadorias entre os Estados-Membros.
actual facilita a compra e venda de produtos fundamental do princípio do Tratado, como Por consequência, estão a tornar-se evidentes
em 27 Estados-Membros com uma população âncora essencial e rede de segurança do mer- restrições comerciais em certos domínios que
total de mais de 490 milhões de habitantes. Pro- cado interno, mantém-se inalterada. anteriormente não eram aparentes.
porciona aos consumidores uma vasta escolha
de produtos e permites-lhes comprar a melhor Foram já abolidas muitas das principais restri- Contudo, a livre circulação de mercadorias não
qualidade ao melhor preço. Por outro lado, a ções à livre circulação de mercadorias. O traba- é um valor absoluto. Em circunstâncias especí-
livre circulação de mercadorias favorece as lho de base foi feito juntamente com a criação ficas, objectivos políticos fundamentais podem
empresas. Cerca de 75% do comércio intra-UE do mercado interno europeu, em 1993, mas a exigir que sejam impostas restrições ou mesmo
consiste em comércio de mercadorias. O mer- torrente contínua de queixas dirigidas à Comis- proibições que, obstando embora ao comércio
cado interno europeu, criado há algumas deze- são por cidadãos e empresas sublinha o facto livre, servem finalidades da maior importância
nas de anos, permite que as empresas da União de que nem os melhores esforços do passado como a protecção do ambiente ou da saúde
Europeia construam uma plataforma forte, num conseguiram eliminar todos os obstáculos ao humana. No contexto de uma evolução glo-
ambiente aberto, diversificado e competitivo. comércio. As pequenas e médias empresas, bal de grande âmbito, não é de estranhar que
Esta força interna promove o crescimento e a nomeadamente, são as mais afectadas. É por nestes últimos anos a livre circulação de mer-
criação de emprego na União Europeia e pro- isso que essas empresas preferem com frequên- cadorias tenha sido condicionada por critérios
porciona às empresas da UE os recursos de que cia concentrar as suas actividades em alguns ecológicos, o que sublinha o facto de que deter-
necessitam para serem bem sucedidas noutros Estados-Membros individuais, e não em todo minados fundamentos de justificação podem
mercados mundiais. Um mercado interno de o mercado interno, pois têm dificuldade em ser considerados de forma diferente ao longo
mercadorias funcional constitui assim um ele- lidar com as diferentes regras nacionais relativas do tempo. No âmbito da aplicação da legislação
mento crítico da prosperidade actual e futura às especificações técnicas dos produtos, que da UE, a conciliação de objectivos diferentes e
da UE numa economia globalizada (1). não foram ainda harmonizadas. Acresce que o por vezes concorrentes constitui uma tarefa
acesso ao mercado pode tornar-se ainda mais constante, a fim de assegurar a adopção de uma
Do ponto de vista jurídico, o princípio da livre complicado devido a diferenças da regulamen- abordagem equilibrada e proporcionada.
circulação de mercadorias foi um elemento tação relativa à comercialização ou aos preços
essencial da criação e do desenvolvimento do com que as empresas de outros Estados-Mem- Hoje em dia a livre circulação de mercadorias
mercado interno. É uma das liberdades eco- bros não estão familiarizadas. integra muitas políticas, para que se possa inse-
nómicas estabelecidas no Tratado CE. Os arti- rir harmoniosamente num mercado interno
gos 28.º-30.º do Tratado CE definiam o âmbito e Por outro lado, os novos produtos inovadores responsável, que assegure um acesso fácil a
o conteúdo deste princípio, proibindo as restri- e os progressos tecnológicos colocam novos produtos de qualidade, combinado com um
ções injustificadas ao comércio intra-UE. Actual- desafios. Um quadro regulamentar nacional elevado grau de protecção de outros interesses
mente o mercado interno vai além destes três que não acompanhe esta evolução em breve públicos.
(1) Ver comunicação da Comissão: «O mercado interno de mercadorias: um pilar da competitividade europeia», COM(2007) 35 final.
Página 8
2. Disposições do Tratado
As principais disposições do Tratado que • artigo 35.º TFUE, que diz respeito às expor- O capítulo do Tratado sobre a proibição das res-
regem a livre circulação de mercadorias são tações entre Estados-Membros e que pro- trições quantitativas entre os Estados-Membros
as seguintes: íbe também «as restrições quantitativas, contém também, no artigo 37.º TFUE, regras
bem como todas as medidas de efeito relativas à adaptação dos monopólios nacionais
• artigo 34.º TFUE, que diz respeito às impor- equivalente»; de natureza comercial. O papel e a relação des-
tações intra-UE e proíbe «as restrições quan- sas regras com os artigos 34.º-36.º TFUE serão
titativas à importação, bem como todas as • artigo 36.º TFUE, que prevê derrogações às descritos resumidamente no capítulo 7 do pre-
medidas de efeito equivalente» entre os liberdades do mercado interno estipuladas sente guia.
Estados-Membros; nos artigos 34.º e 35.º CE que se justifiquem
por determinadas razões específicas.
3. Âmbito de aplicação
do artigo 34.º TFUE
3.1. Condições gerais Quando o direito derivado é relevante, qual- zados ou ter sido apenas objecto de uma har-
quer medida nacional relacionada com o monização parcial. Em todos os casos em que
mesmo deve ser apreciada à luz das disposi- não é possível identificar legislação de harmo-
3.1.1. DOMÍNIOS ções de harmonização e não à das disposições nização, podemos continuar a basear-nos nos
NÃO HARMONIZADOS do Tratado (2). artigos 34.º-36.º TFUE. Os artigos do Tratado
funcionam assim como uma rede de segurança,
Embora os artigos 34.º-36.º TFUE lancem as bases Isto deve-se ao facto de que a legislação de har- que garante a possibilidade de analisar todos
do princípio geral da livre circulação de mercado- monização pode ser interpretada como uma os obstáculos ao comércio no mercado interno
rias, não constituem o único instrumento jurídico concretização do princípio da livre circulação de do ponto de vista da sua compatibilidade com
de avaliação da compatibilidade das medidas mercadorias, ao estabelecer os direitos e deve- a legislação da UE.
nacionais com as regras do mercado interno. res efectivos que devem ser respeitados no caso
Estes artigos do Tratado não são aplicáveis de produtos específicos. Portanto, qualquer 3.1.2. SIGNIFICADO
quando a livre circulação de um dado produto problema que seja abrangido pela legislação DE «MERCADORIAS»
está totalmente harmonizada por legislação da de harmonização deverá ser analisado à luz des-
UE mais específica, ou seja, nomeadamente, sas condições concretas e não de acordo com Os artigos 34.º e 35.º TFUE abrangem todos os
quando as especificações técnicas de um dado os princípios gerais consagrados no Tratado. tipos de importações e exportações de mer-
produto ou as suas condições de venda estão cadorias e produtos. A gama de mercadorias
sujeitas a harmonização, através de directivas ou Contudo, mesmo após 50 anos de actividade abrangida é tão grande quanto a gama das
regulamentos adoptados pela União Europeia. do legislador comunitário no domínio do esta- mercadorias existentes, desde que as mesmas
Em alguns outros casos, regras mais específicas belecimento de regras harmonizadas, as dis- tenham valor económico: «by goods, within the
do Tratado, tais como o artigo 110.º TFUE relativo posições do Tratado nem por isso se tornaram meaning of the …Treaty, must be understood
a disposições fiscais que podem obstar à reali- supérfluas; o seu âmbito de aplicação continua products which can be valued in money and
zação do mercado interno, prevalecem sobre a ser considerável. Determinadas circunstâncias which are capable, as such, of forming the sub-
as disposições gerais dos artigos 34.º-36.º TFUE. e/ou produtos podem não ter sido harmoni- ject of commercial transactions» (3) (por mer-
(2) Processo C-309/02, Radlberger e Spitz, Colectânea 2004, p. I-11763, n.º 53.
(3) Processo 7/68, Comissão/Itália, Colectânea 1968, p. 425.
Página 9
cadorias, na acepção do [...] Tratado, devem âmbito de aplicação dos artigos 34.º-36.º TFUE. As Porém, neste contexto o termo de «Estados-
entender-se os produtos avaliáveis em dinheiro condições necessárias para satisfazer esta exigên- -Membros» tem sido interpretado de forma
e susceptíveis, enquanto tal, de ser objecto de cia de um elemento transfronteiriço são simples: lata, de modo a incluir todas as autoridades de
transacções comerciais). basta que a medida em causa possa entravar indi- um país, tanto as autoridades centrais, como
recta ou potencialmente o comércio intra-UE (11). as autoridades de um Estado federal ou quais-
Nos seus acórdãos, o Tribunal de Justiça cla- quer outras autoridades territoriais (15). A con-
rificou em várias ocasiões a designação ade- A necessidade de um elemento transfronteiriço dição estabelecida por estes artigos aplica-se
quada de um produto específico. As obras significa implicitamente que a legislação da UE igualmente aos órgãos legislativos, judiciais ou
de arte devem ser consideradas como mer- não impede os Estados-Membros de tratarem os administrativos de um Estado-Membro (16), o
cadorias (4). As moedas que não estão já em seus produtos internos de forma menos favorável que significa que são abrangidas as medidas
circulação incluem-se também na definição de do que as importações («discriminação inversa»). tomadas por todos os organismos de direito
mercadorias, tal como as notas de banco e os Porém, na prática este problema raramente se público ou «organismos públicos». Porém, o
cheques ao portador (5), mas não os donativos coloca, pois os Estados-Membros normalmente mero facto de se tratar de um organismo de
em espécie (6). Os resíduos devem ser conside- não têm interesse em afectar negativamente as direito privado não obsta a que as medidas que
rados como mercadorias mesmo quando não mercadorias produzidas no seu próprio território. toma possam ser atribuídas ao Estado. Efectiva-
são recicláveis, desde que sejam objecto de Embora o artigo 34.º TFUE seja aplicável quando mente, o Tribunal considerou que:
uma transacção comercial. A electricidade (7) e um produto interno sai de um Estado-Membro e
o gás natural (8) são considerados mercadorias, é depois reimportado para esse Estado-Membro, • as medidas tomadas por um organismo pro-
mas não os sinais de televisão (9). ou seja, à reimportação (12), não se aplica nos fissional que tem poderes reguladores e disci-
casos em que o único objectivo da reimporta- plinares por força de legislação nacional rela-
O último exemplo sublinha o facto de que pode ção consiste em tornear a legislação nacional (13). tivamente à sua profissão podem recair no
ser importante do ponto de vista jurídico esta- âmbito de aplicação do artigo 34.º TFUE (17);
belecer uma distinção entre mercadorias e A condição da existência de um elemento
serviços. Ao passo que o peixe é sem dúvida transfronteiriço pode também ser satisfeita • as actividades de organismos que, ainda que
uma mercadoria, o direito de pescar e as auto- se o produto passar apenas em trânsito pelo constituídos sob a forma de uma sociedade
rizações de pesca à cana não são abrangidos Estado-Membro em questão. O Tribunal deixou privada, são criados por uma lei nacional e
pelo princípio da livre circulação de mercado- claro desde o início que a liberdade de circula- financiados principalmente pelo Governo
rias, mas antes constituem a «prestação de um ção de mercadorias tem por consequência a ou por contribuições obrigatórias pagas
serviço», na acepção das disposições do Tratado existência de um princípio geral de liberdade pelas empresas de um certo sector e/ou
respeitantes à livre prestação de serviços (10). de trânsito de mercadorias no interior da UE (14). cujos administradores são nomeados pelas
autoridades públicas ou por elas supervisio-
3.1.3. COMÉRCIO Independentemente do local onde foram pro- nados podem ser atribuídas ao Estado (18).
TRANSFRONTEIRIÇO/TRÂNSITO duzidas primitivamente, no interior ou no exte-
rior do mercado interno, todas as mercadorias, a Num processo recente, o Tribunal pareceu mesmo
Nos termos da sua formulação, o artigo 34.º TFUE partir do momento em que circulam livremente reconhecer que as declarações públicas proferi-
aplica-se aos obstáculos ao comércio «entre os no mercado interno, beneficiam do princípio das por um funcionário do Estado, apesar de não
Estados-Membros». Por conseguinte, a existência da liberdade de circulação. terem força jurídica, são imputáveis ao Estado e
de um elemento transfronteiriço constitui con- constituem um obstáculo à livre circulação de
dição prévia essencial de avaliação de um caso 3.1.4. DESTINATÁRIOS mercadorias, se os destinatários destas declara-
ao abrigo desta disposição. Medidas puramente ções podem razoavelmente pressupor, no con-
nacionais, que afectem apenas a circulação de Os artigos 34.º-36.º TFUE dizem respeito às texto dado, que se trata de posições que o fun-
mercadorias a nível interno, não recaem no medidas tomadas pelos Estados-Membros. cionário toma com a autoridade da sua função (19).
(4) Processo 7/78, R./Thompson, Johnson and Woodiwiss, Colectânea 1978, p. 2247.
(5) Processo C-358/93, Bordessa, Colectânea 1995, p. I-361.
(6) Processo C-318/07, Persche, Colectânea 2009, p. I-359, n.º 29.
(7) Processo C-393/92, Almelo/Energiebedrijf Ijsselmij, Colectânea 1994, p. I-1477.
(8) Processo C-159/94, Comissão/França, Colectânea 1997, p. I-5815.
(9) Processo 155/73, Sacchi, Colectânea 1974, p. 423.
(10) Processo C-97/98, Peter Jägerskiöld /Torolf Gustafsson, Colectânea 1999, p. I-7319.
(11) Processo 8/74, Dassonville, Colectânea 1974, p. 837, n.º 5.
(12) Processo 78/70, Deutsche Grammophon/Metro, Colectânea 1971, p. 487.
(13) Processo 229/83, Leclerc/Au Ble Vert, Colectânea 1985, p. 1.
(14) Processo C-320/03, Comissão/Áustria, Colectânea 2005, p. I-9871, n.º 65.
(15) Processos apensos C-1/90 e C-176/90, Aragonesa de Publicidad Exterior e Publivía, Colectânea 1991, p. I-4151.
(16) Processo C-434/85, Allen and Hanburys, Colectânea 1988, p. 1245, n.º 25; processo C-227/06, Comissão/Bélgica, 2008, ainda não publicado, n.º 37.
(17) Ver processo 266-267/87, R/Royal Pharmaceutical Society of Great Britain, Colectânea 1989, p. 1295; processo C-292/92, Hünermund, Colectânea 1993, p. I-6787.
(18) Ver processo 249/81, Comissão/Irlanda (Buy Irish), Colectânea 1982, p. 4005; processo C-325/00, Comissão/Alemanha, Colectânea 2002, p. I-9977; processo C-227/06,
Comissão/Bélgica, 2008, ainda não publicado.
(19) Processo C-470/03 AGM-Cosmet SRl, Colectânea 2007, p. I-2749.
Página 10
No entanto, apesar de a expressão «Estados- um Estado-Membro, ou seja, uma situação em ção dos artigos 34.º-35.º TFUE apenas porque
-Membros» ter um sentido lato, não se aplica que um Estado-Membro se abstém de tomar as o entrave que cria é ligeiro e porque é possível
de forma alguma directamente a medidas de medidas requeridas para fazer face a entraves comercializar os produtos de outras formas (25).
carácter «puramente» privado, isto é, às medi- à livre circulação de mercadorias. O obstáculo Por consequência, uma medida estatal pode
das tomadas por particulares ou empresas. específico pode inclusive ser consequência da constituir uma medida proibida com um efeito
actuação de particulares. No processo C-265/95, equivalente ao de uma restrição, mesmo que:
Finalmente, segundo jurisprudência assente, o a França foi considerada responsável por actos
artigo 34.º TFUE aplica-se também a medidas de agricultores nacionais que tentaram restrin- • tenha um significado económico relativa-
adoptadas pelas instituições da UE. No entanto, gir as importações de produtos agrícolas pro- mente pequeno;
no que respeita ao controlo jurisdicional, há que venientes de Estados-Membros vizinhos, inter-
reconhecer ao legislador da UE um amplo poder ceptando os camiões que transportavam essas • só seja aplicável numa zona geográfica
de apreciação. Por conseguinte, só o carácter mercadorias e destruindo a respectiva carga. muito limitada do território nacional (26);
manifestamente inadequado de uma medida A não intervenção das autoridades nacionais
adoptada, em relação ao objectivo que as ins- contra esses actos foi considerada como uma • afecte apenas um número limitado de
tituições competentes pretendem prosseguir, violação do artigo 34.º TFUE, pois os Estados- importações/exportações ou um número
pode afectar a legalidade de tal medida (20). -Membros são obrigados a tomar todas as limitado de operadores económicos.
medidas necessárias e apropriadas para impedir
3.1.5. MEDIDAS ACTIVAS que sejam criados obstáculos à livre circulação Considerou-se que certas regulamentações
E PASSIVAS de mercadorias, nomeadamente por acções de nacionais não recaem no âmbito de aplicação
particulares no seu território (23). do artigo 34.º TFUE se o seu efeito de restri-
O artigo 34.º TFUE caracteriza-se com frequên- ção do comércio entre Estados-Membros é
cia por um direito de defesa que pode ser invo- Acresce que o artigo 34.º TFUE pode criar a demasiado aleatório e indirecto (27). Contudo,
cado contra as medidas nacionais que criam obrigação de obter resultados. Esta obrigação tal não deve ser considerado como uma regra
obstáculos injustificados ao comércio trans- é infringida se um Estado-Membro não atin- de minimis.
fronteiriço. Por consequência, as violações do gir os objectivos devido à sua inactividade ou
artigo 34.º TFUE parecem pressupor uma acti- actividade insuficiente. No processo C-309/02, 3.1.7. APLICAÇÃO TERRITORIAL
vidade por parte de um Estado. Neste sentido, que dizia respeito a um sistema obrigatório
as medidas que recaem no âmbito de aplicação de depósito e retoma de embalagens de tara A obrigação de respeitar as disposições do
do artigo 34.º TFUE consistem principalmente perdida de bebidas aplicado na Alemanha, o artigo 34.º TFUE aplica-se a todos os Esta-
em disposições vinculativas da legislação dos Tribunal considerou que a conformidade do dos-Membros da UE e, em certos casos, pode
Estados-Membros, mas medidas não vinculati- sistema de depósito com o princípio da livre ser também aplicável aos territórios europeus
vas podem constituir também uma violação do circulação de mercadorias dependia da exis- cujas relações externas são da responsabilidade
artigo 34.º TFUE (21). Uma prática administrativa tência de um sistema operacional em que todos de um Estado-Membro ou a territórios ultrama-
pode constituir um obstáculo proibido à livre os produtores ou distribuidores pudessem par- rinos dependentes de um Estado-Membro ou a
circulação de mercadorias, quando apresente ticipar. Ainda que o ónus da implantação do ele associados de qualquer forma.
um certo grau de constância e de generali- sistema fosse deixado a empresas privadas, o
dade (22). Estado-Membro foi considerado responsável No que se refere a alguns outros países, o
pelos resultados atingidos ou não atingidos (24). comércio de mercadorias entre esses países e
Tendo em conta as obrigações dos Estados- os Estados-Membros da UE é regido pelas dis-
-Membros ao abrigo do artigo 4.º, n.º 3, do 3.1.6. INEXISTÊNCIA posições de acordos específicos, e não pelas
Tratado da União Europeia, (ex-artigo 10.º DE UMA REGRA DE MINIMIS TFUE. Por exemplo, os produtos originários da
CE) que exige que tomem todas as medidas Islândia, do Liechtenstein e da Noruega benefi-
gerais ou especiais capazes de assegurar o Não existe um princípio de minimis em relação ciam de liberdade de circulação na UE, por força
cumprimento das obrigações decorrentes do aos artigos que dizem respeito à livre circulação do artigo 11.º do Acordo EEE, e os produtos
Tratado, bem como o «effet utile» da legislação de mercadorias. Segundo a jurisprudência esta- industriais originários da Turquia beneficiam
da UE, o artigo 34.º TFUE pode ser infringido belecida, uma medida nacional não deixa de ser de liberdade de circulação na UE, por força dos
em certas circunstâncias pela inactividade de abrangida pelo âmbito de aplicação da proibi- artigos 5.º a 7.º da Decisão 1/95 do Conselho de
(20) Processos apensos C-154/04 e C-155/04J, Alliance for Natural Health, Colectânea 2005, p. I-6451, n.os 47 e 52.
(21) Processo 249/81, Comissão/Irlanda (Buy Irish), Colectânea 1982, p. 4005; processo C-227/06, Comissão/Bélgica, 2008, ainda não publicado.
(22) Processo 21/84, Comissão/França, Colectânea 1985, p. 1355; processo C-387/99, Comissão/Alemanha, Colectânea 2004, p. I-3751, n.º 42, e jurisprudência citada;
processo C-88/07, Comissão/Espanha, 2009, ainda não publicado.
(23) Processo C-265/95, Comissão/França, Colectânea 1997, p. I-6959, n.º 31; ver também processo C-112/00, Schmidberger, Colectânea 2003, p. I-5659, n.º 60, nomea-
damente sobre possíveis justificações (liberdade de expressão e liberdade de reunião).
(24) Processo C-309/02, Radlberger Getränkegesellschaft e S. Spitz, Colectânea 2004, p. I-11763, n.º 80.
(25) Ver processos apensos 177/82 e 178/82, Van de Haar, Colectânea 1984, p. 1797; 269/83, Comissão/França, Colectânea 1985, p. 837; 103/84, Comissão/Itália, Colec-
tânea 1986, p. 1759.
(26) Processo C-67/97, Blühme, Colectânea 1998, p. I-8033.
(27) Processo C-69/88, Krantz, Colectânea 1990, p. I-583; processo C-93/92, Motorradcenter, Colectânea 1993, p. I-5009; processo C-379/92, Peralta, Colectânea 1994,
p. I-4353; processo C-44/98, BASF, Colectânea 1999, p. I-6269. Ver também C-20/03, Burmanjer, Colectânea 2005, p. I-4133, em que o Tribunal considerou que a regula-
mentação nacional em causa, que submete a uma autorização prévia a venda ambulante de assinaturas de periódicos, de qualquer modo teria um efeito demasiado
insignificante e aleatório para poder ser considerado susceptível de entravar ou de perturbar de outra forma o comércio entre os Estados-Membros.
Página 11
Associação UE-Turquia relativa à fase final da «Qualquer regulamentação comercial dos dos. Neste caso, os Estados-Membros podiam
união aduaneira (28). Estados-Membros susceptível de entravar, estabelecer uma derrogação, invocando não só
directa ou indirectamente, actual ou poten- o artigo 36.º TFUE, como também exigências
Para referências mais pormenorizadas aos ter- cialmente, o comércio intra-UE deve ser imperativas, um conceito que foi consagrado
ritórios a que se aplica o artigo 34.º TFUE, ver o considerada uma medida de efeito equi- pela primeira vez neste acórdão.
anexo B ao presente guia. valente a restrições quantitativas».
Por conseguinte, pode concluir-se que o
3.1.8. RESTRIÇÕES Esta definição foi confirmada pela jurispru- artigo 34.º TFUE se aplicará não só a medidas
QUANTITATIVAS dência do Tribunal, com pequenas variantes. nacionais que estabelecem discriminações
O termo «regulamentação comercial» hoje em contra os produtos importados, mas também
As restrições quantitativas foram definidas dia geralmente não é utilizado, pois a fórmula a medidas legais que parecem aplicar-se igual-
como qualquer medida que implique uma Dassonville não se limita efectivamente à regu- mente a produtos nacionais e importados, mas
proibição total ou parcial da importação, expor- lamentação comercial, abrangendo também a que na prática impõem mais encargos às impor-
tação ou trânsito (29). Constituiriam exemplos regulamentação técnica, por exemplo. tações (este encargo específico relaciona-se
destas medidas uma proibição total ou um com a exigência de as importações cumprirem
sistema de quotas (30), em que são aplicadas Na Directiva 70/50/CEE (32), que foi aplicada duas regulamentações diferentes, a do Estado-
restrições quantitativas quando são atingidos formalmente durante o período de transição -Membro de fabrico e a do Estado-Membro de
determinados limites máximos de importação da Comunidade, afirmava-se a intenção da importação). Estas regulamentações são por
ou exportação. Porém, só as quotas não pautais Comissão de abranger não só as medidas que vezes referidas como sendo «aplicáveis indis-
recaem no âmbito de aplicação deste artigo, concediam claramente um tratamento dife- tintamente» [ver processo Comissão/Itália (34)].
uma vez que os contingentes pautais são abran- rente às mercadorias nacionais e importadas,
gidos pelo artigo 30.º TFUE. como também às que se aplicavam igualmente Por consequência, e segundo os acórdãos do
a umas e outras. Posteriormente, no processo Tribunal no processo Dassonville e posterior-
Uma restrição quantitativa pode basear-se em Dassonville, o Tribunal sublinhava que o ele- mente no processo Cassis de Dijon, não é neces-
disposições legais ou constituir apenas uma mento mais importante para determinar se uma sário que exista um elemento de discriminação
prática administrativa. Assim, até um sistema medida nacional é abrangida pelo artigo 34.º para que uma medida nacional seja abrangida
de quotas dissimuladas pode recair no âmbito TFUE é o seu efeito (…susceptível de entravar, pelo artigo 34.º TFUE.
de aplicação do artigo 34.º TFUE. directa ou indirectamente, actual ou potencial-
mente…), portanto o aspecto discriminatório 3.1.10. MODALIDADES DE VENDA
3.1.9. MEDIDAS DE EFEITO de uma medida não é já o factor decisivo para
EQUIVALENTE o artigo 34.º TFUE. Era evidente para o Tribunal Quase vinte anos (35) depois do acórdão Das-
que nem só as medidas abertamente discrimi- sonville, o Tribunal considerou necessário apon-
O termo «medida de efeito equivalente» tem natórias podiam criar entraves ao comércio de tar algumas limitações ao alcance do termo
um âmbito muito mais alargado do que a res- produtos entre os Estados-Membros. «medidas de efeito equivalente», no âmbito
trição quantitativa. Embora não seja fácil esta- do artigo 34.º TFUE.
belecer uma distinção exacta entre restrições O acórdão do Tribunal no processo Cassis de
quantitativas e medidas de efeito equivalente, o Dijon (33) confirmava as afirmações anteriores No processo Keck and Mithouard (36), o Tribu-
facto não tem grande importância prática, aten- da Directiva 70/50/CEE e do acórdão Dasson- nal considerou que «dado que os operadores
dendo a que as regras se aplicam da mesma ville. Ao reconhecer que podia haver diferen- económicos invocam cada vez mais frequente-
forma às restrições quantitativas e às medidas ças entre as regulamentações nacionais dos mente o artigo [34.º] do Tratado para impugnar
de efeito equivalente. Estados-Membros e que esse facto podia inibir qualquer tipo de regulamentação que tenha
o comércio de mercadorias, o Tribunal confir- por efeito limitar a sua liberdade comercial,
No acórdão Dassonville, o Tribunal de Justiça mava que o artigo 34.º TFUE podia também mesmo que não abranja os produtos prove-
estabeleceu uma interpretação do significado e abranger medidas nacionais que se aplicavam nientes de outros Estados-Membros, o Tribunal
do âmbito das medidas de efeito equivalente (31): igualmente aos produtos nacionais e importa- de Justiça considera necessário reexaminar e
(28) JO L 35 de 13.02.1996, p. 1.
(29) Processo 2/73, Riseria Luigi Geddo/Ente Nationale Risi, Colectânea 1973, p. 865.
(30) Processo 13/68 Sociedade anónima Salgoil/Ministério do Comércio Externo da República Italiana, Colectânea 1968, p. 423.
(31) Processo 8/74, Dassonville, Colectânea 1974, p. 837.
(32) Directiva 70/50/CEE relativa à supressão das medidas de efeito equivalente a restrições quantitativas à importação não consideradas por outras disposições tomadas
por força do Tratado CEE (JO L 13 de 1970, p. 29) (não existe versão portuguesa).
(33) Processo 120/78, Rewe Zentral/ Bundesmonopolverwaltung für Branntwein, (Cassis de Dijon), Colectânea 1979, p. 649.
(34) Processo C-110/05, Comissão/Itália, 2009, ainda não publicado, n.º 35.
(35) A argumentação dos acórdãos Keck (processos C-267/91 e C-268/91, Keck, Colectânea 1993, p. I-6097) parece ter estado já presente nos processos anteriores 155/80,
Oebel, Colectânea 1981, p. 3147, 75/81, Blesgen, Colectânea 1982, p. 1211; C-23/89, Quietlynn, Colectânea 1990, p. I-3059 e 148/85, Forest, Colectânea 1986, p. 3349.
Para uma argumentação contrária, ver processos (pré-Keck) 60 e 61/84, Cinéthèque, Colectânea 1985, p. 2605 e 145/88, Torfaen, Colectânea 1989, p. 3851 (primeiro
processo sobre a legislação relativa às actividades comerciais exercidas ao Domingo). A dificuldade de aplicação do teste previsto no processo Torfaen era evidente na
jurisprudência do Reino Unido: por exemplo, nos processos B&Q plc/Shrewsbury BC, 1990, 3 CMLR 535 e Stoke City Council/B&Q, 1990, 3 CMLR 31. Para uma síntese da
jurisprudência relativa ao artigo 34.º TFUE anterior ao acórdão Keck, ver conclusões do advogado-geral Jacobs no processo C-412/93, Leclerc-Siplec, Colectânea 1995,
p. I-179, n.os 23-33.
(36) Processos C-267/91 e C-268/91, Keck, Colectânea 1993, p. I-6097, n.º 14.
Página 12
precisar a sua jurisprudência na matéria». Ou rísticas dos produtos do que os tipos de medi- regular as condições de fabrico dos produtos de
seja, por outras palavras, na origem da inten- das que constituem modalidades de venda. As padaria, incluindo os produtos «bake-off» (46). A
ção de reexaminar a jurisprudência parece ter medidas relacionadas com as características característica principal dos produtos «bake-off»
estado, entre outras, a necessidade de limitar do produto podem ser, por exemplo, medidas é serem fornecidos aos locais de venda depois
o fluxo de processos destinados a alterar pila- relativas à forma, à dimensão, ao peso, à com- de finalizadas as etapas importantes da sua
res fundamentais das disposições nacionais posição, à apresentação, à identificação ou à preparação. Nestas condições, a exigência de
dos Estados-Membros em matéria de protec- colocação à venda. Dito isto, há casos em que, dispor de um depósito de farinha, de uma sala
ção social que não tinham de modo algum a à primeira vista, algumas medidas não pare- de amassadela ou de um depósito de combus-
intenção de interferir com a livre circulação (37). cem estar relacionadas com as características tível sólido não tem em conta a especificidade
do produto, mas em que o Tribunal considera desses produtos e gera custos suplementares.
No acórdão Keck, o Tribunal, referindo-se ao que estão (42). O Tribunal concluiu que a legislação em causa
processo Cassis de Dijon, considerava que constituía, portanto, um obstáculo à importa-
«constituem medidas de efeito equivalente, No processo Canal Satélite Digital (43), a ques- ção, não se podendo considerar que estabe-
proibidas pelo artigo [34.º]… regras relativas tão que foi colocada ao Tribunal consistia em lecesse uma modalidade de venda. Efectiva-
às condições a que essas mercadorias devem determinar se o processo de registo em causa, mente, o Tribunal parece adoptar a posição do
obedecer» (38). Imediatamente a seguir, decla- que impunha a obrigação de os operadores e os advogado-geral, que considera que uma regu-
rava que «em contrapartida, impõe-se consi- seus produtos se inscreverem num registo ofi- lamentação que impõe condições que fazem
derar que, contrariamente ao que até agora foi cial, violava o artigo 34.º TFUE. A fim de obterem parte do processo de produção diz respeito
decidido, a aplicação de disposições nacionais esse registo, os operadores deviam cumprir as às características intrínsecas dos produtos (47).
que limitam ou proíbem determinadas moda- especificações técnicas e obter um relatório téc-
lidades de venda a produtos provenientes de nico prévio elaborado pelas autoridades nacio- Um outro acórdão recente do Tribunal que
outros Estados-Membros não é susceptível de nais e uma certificação técnica administrativa pode ser citado a este respeito é o que foi
entravar directa ou indirectamente, actual ou prévia, declarando que as condições técnicas e proferido no processo Comissão/Grécia rela-
potencialmente, o comércio intra-UE na acep- outras tinham sido cumpridas. O Tribunal con- tivo aos jogos eléctricos, electromecânicos e
ção da jurisprudência Dassonville» (39). cluiu que estas exigências constituíam uma electrónicos (48). Este processo dizia respeito
violação do artigo 34.º TFUE, observando que a uma lei grega que proibia a instalação e o
Efectivamente, as regras que estabelecem con- a necessidade de adaptar os produtos em ques- funcionamento de qualquer tipo de jogos
dições a que as mercadorias devem obedecer tão às regras nacionais excluía que se tratasse eléctricos, electromecânicos e electrónicos,
continuam a ser tratadas ao abrigo do acórdão de modalidades de venda. incluindo todos os jogos para computadores,
Cassis de Dijon, considerando-se que recaem em todos os lugares públicos ou privados, com
de per se no âmbito de aplicação do artigo 34.º Nos processos Alfa Vita Vassilopoulos and Carre- excepção dos casinos. A opinião do Tribunal foi
TFUE, independentemente do facto de introdu- four-Marinopoulos (44) e Comissão/Grécia (45), o a de que esta lei grega devia ser considerada
zirem uma discriminação com base na origem Tribunal considerou que a legislação nacional como constituindo uma violação do artigo 34.º
dos produtos (40). Em contrapartida, as modali- que sujeitava a venda de produtos de panifi- TFUE. O Tribunal acrescentava que assim era,
dades de venda só recaem no âmbito de apli- cação segundo o processo «bake-off» (descon- apesar de esta lei não proibir a importação dos
cação do artigo 34.º TFUE na condição de que gelação rápida seguida do aquecimento ou da produtos em questão e a sua colocação no mer-
a parte que invoca a violação possa provar que cozedura, nos locais de venda, de produtos cado (49). O Tribunal observava que, desde a
introduzem uma discriminação, de direito ou de total ou parcialmente pré-cozidos e congela- entrada em vigor da lei, se verificara uma dimi-
facto, com base na origem dos produtos. A dis- dos) às mesmas exigências que as aplicáveis nuição do volume das importações desse tipo
criminação de direito existe quando as medidas ao processo completo de fabrico e de comer- de jogos a partir de outros Estados-Membros.
são manifestamente discriminatórias (41). Porém, cialização do pão e dos produtos de padaria Porém, o Tribunal afirmava também que as
a discriminação de facto é mais complexa. violava o artigo 34.º TFUE. O Tribunal chegou a importações de máquinas de jogos cessaram
esta conclusão com base na constatação de que após a instituição da referida proibição. Esta
É relativamente mais fácil determinar os tipos resulta claramente das disposições da legisla- última observação do Tribunal pode constituir
de medidas que se relacionam com as caracte- ção nacional em causa que esta tem por objecto um factor determinante, justificando porque é
(37) C. Barnard, «Fitting the Remaining Pieces into the Goods and Persons Jigsaw» (2001) EL Rev. 35, p. 50; J. Schwarze, Europäisches Wirtschaftsrecht, 2007, n.º 72.
(38) Processos C-267/91 e C-268/91, Keck, Colectânea 1993, p. I-6097, n.º 15.
(39) Processos C-267/91 e C-268/91, Keck, Colectânea 1993, p. I-6097, n.º 16.
(40) P. Oliver, Free Movement of Goods in the European Community, 2003, p. 124.
(41) P. Oliver, Free Movement of Goods in the European Community, 2003, p. 127; o processo C-320/93, Lucien Ortscheit/Eurim-Pharm, Colectânea 1994, p. I-5243, constituía
provavelmente um desses casos.
(42) Ver, por exemplo, processo C-470/93, Mars, Colectânea 1995, p. I-1923, e processo C-368/95, Familiapress, Colectânea 1997, p. I-3689, n.º 11.
(43) Processo C-390/99, Canal Satélite Digital, Colectânea 2002, p. I-607, n.º 29; ver também processo C-389/96, Aher-Waggon, Colectânea 1998, p. I-4473, n.º 18.
(44) Processos C-158/04 e C-159/04, Alfa Vita, Colectânea 2006, p. I-8135.
(45) Processo C-82/05, Comissão/Grécia, Colectânea 2006, p. I-93 (resumo publicado).
(46) Processos C-158/04 e C-159/04, Alfa Vita, Colectânea 2006, p. I-8135, n.º 18.
(47) Conclusões do advogado-geral Poiares Maduro, n.º 16.
(48) Processo C-65/05, Comissão/Grécia, Colectânea 2006, p. I-10341.
(49) Processo C-65/05, Comissão/Grécia, Colectânea 2006, p. I-10341, n.º 28.
Página 13
que a medida recai no âmbito de aplicação do em causa podia ser considerada como uma vas à embalagem dos produtos que, segundo o
artigo 34.º TFUE. modalidade de venda. acórdão Keck and Mithouard , se incluem prima
facie nas regulamentações relacionadas com
O Tribunal inclui na lista de modalidades de As medidas relacionadas com restrições à publi- os produtos, foram classificadas na categoria
venda medidas relacionadas com as condições cidade são um pouco mais complicadas. O papel de modalidades de venda, após a análise das
e os métodos de publicidade (50), medidas rela- importante da publicidade, ao permitir que um particularidades do caso específico (64). Estas
cionadas com o horário de venda dos produ- produto de um Estado-Membro penetre num soluções ilustram o pragmatismo adoptado
tos (51), medidas relacionadas com os pontos novo mercado de outro Estado-Membro, foi pelo Tribunal neste domínio.
de venda dos produtos ou restrições relativas reconhecido pelos advogados-gerais (57) e pelo
a quem podem ser vendidos os produtos (52) Tribunal de Justiça (58). Desde o processo Keck Por fim, no processo Comissão/Itália (65) O Tri-
e medidas relacionadas com os controlos dos and Mithouard, o Tribunal trata as restrições à bunal salientou que a jurisprudência assente
preços (53). publicidade como modalidades de venda (59). no artigo 34.º TFUE reflecte as obrigações de
É interessante observar que, em certos casos, o respeitar 3 princípios: a) o princípio da não dis-
Além disso, certos procedimentos/obrigações Tribunal parece relacionar o âmbito das restri- criminação, b) o princípio do reconhecimento
não relacionados com o produto ou a respectiva ções à publicidade com a discriminação. Mais mútuo e c) o princípio tendente a assegurar
embalagem podem ser também considerados especificamente, considera que «a proibição aos produtos comunitários um livre acesso aos
como modalidades de venda, como o demons- absoluta da publicidade sobre as características mercados nacionais. No n.º 35 apresenta a expli-
tra o processo Sapod Audic (54). A medida nacio- de um produto» (60) é susceptível de tornar mais cação clássica referente ao acórdão «Cassis de
nal em causa no processo Sapod Audic previa difícil o acesso ao mercado de novos produtos Dijon» e no n.º 36 a referente ao acórdão Keck
que todos os produtores e importadores contri- originários de outros Estados-Membros do que and Mithouard . O n.º 37 refere que: «Por con-
buíssem ou organizassem a eliminação dos seus o dos produtos nacionais, com os quais o con- seguinte, devem ser consideradas medidas de
resíduos de embalagens. O Tribunal analisou a sumidor está mais familiarizado (61). efeito equivalente a restrições quantitativas à
compatibilidade da medida com o artigo 34.º importação, na acepção do artigo [34.º TFUE],
TFUE caso esta impusesse apenas «uma obriga- Recapitulando, o Tribunal parece considerar as medidas adoptadas por um Estado-Membro
ção geral de identificar as embalagens tomadas a que as modalidades de venda são medidas que têm por objectivo ou por efeito tratar de
cargo por uma empresa aprovada para efeitos que estão associadas à comercialização dos forma menos favorável os produtos provenien-
da sua eliminação» (55). No contexto desta inter- produtos, mais do que às características dos tes de outros Estados-Membros, bem como as
pretação, o Tribunal considerou que «a obri- produtos (62). Porém, o Tribunal viu-se obrigado medidas referidas no n.° 35 do presente acór-
gação que a mesma comporta não se refere a introduzir alguns cambiantes na simplicidade dão. O mesmo conceito engloba igualmente
como tal ao produto ou à sua embalagem e, da distinção estabelecida no acórdão Keck and qualquer outra medida que crie obstáculos ao
portanto, não contém em si uma regra relativa Mithouard (63). Por consequência, certas regu- acesso ao mercado de um Estado-Membro de pro-
às condições que as mercadorias devem respei- lamentações que parecem recair na categoria dutos originários de outros Estados-Membros»
tar, tais como as relativas nomeadamente à sua de modalidades de venda são tratadas como (sublinhado nosso). Resta saber se o acórdão
rotulagem ou ao seu acondicionamento» (56). regulamentações relacionadas com os produ- virá alargar o âmbito de aplicação do artigo 34.º
Por consequência, concluiu que a disposição tos. Em contrapartida, regulamentações relati- TFUE e, nesse caso, em que circunstâncias.
(50) Ver C-412/93, Leclerc-Siplec, Colectânea 1995, p. I-179, n.º 22, e processo C-6/98, ARD, Colectânea 1999, p. I-7599, n.º 46.
(51) Ver processos C-401/92 e C-402/92, Tankstation ’t Heukske e Boermans, Colectânea 1994, p. I-2199, n.º 14; processo C-69 e 258/93, Punto Casa, Colectânea 1994,
p. I-2355; e processos C-418/93, C-421/93,C-460/93, C-462/93, 464/93, C-9/94, C-11/94, C-14/94, C-15/94, C-23/94, C-24/94 e C-332/94, Semeraro Casa Uno e. o., Colectâ-
nea 1996, p. I-2975.
(52) Ver processo C-391/92, Comissão/Grécia, Colectânea 1995, p. I-1621, n.º 15; processo C-69 e 258/93, Punto Casa, Colectânea 1994, p. I-2355.
(53) Ver processo C-63/94, Belgapom, Colectânea 1995, p. I-2467.
(54) Processo C-159/00, Sapod Audic/Eco-Emballages, Colectânea 2002, p. I-5031.
(55) Idem, n.º 71 (mais enfaticamente). Se fosse interpretada como impondo a obrigação de aposição de uma marca ou de um rótulo, a medida constituiria uma regu-
lamentação técnica na acepção da Directiva 98/34. Nesse caso, o indivíduo poderia invocar a não notificação dessa disposição nacional e competiria então ao tribunal
nacional recusar a aplicação dessa disposição.
(56) Idem, n.º 72.
(57) Ver, por exemplo, as conclusões do advogado-geral Jacobs, no processo C-412/93, Leclerc-Siplec, Colectânea 1995, p. I-179, e do advogado-geral Geelhoed, no
processo C-239/02, Douwe Egberts, Colectânea 2004, p. I-7007.
(58) Ver, por exemplo, os processos apensos C-34/95 e C-36/95, De Agostini, Colectânea 1997, p. I-03843.
(59) Ver processos C-412/93, Leclerc-Siplec, Colectânea 1995, p. I-179; processos apensos C-34/95 e C-36/95, De Agostini, Colectânea 1997, p. I-3843; processo C-405/98,
Gourmet, Colectânea 2001, p. I-1795; processo C-292/92, Hünermund, Colectânea 1993, p. I-6787.
(60) Processo C-239/02, Douwe Egberts, Colectânea 2004, p. I-7007, n.º 53.
(61) No que se refere à discriminação entre os operadores económicos nacionais e os operadores económicos de outros Estados-Membros, ver processo C-322/01,
DocMorris, Colectânea 2003, p. I-14887, n.º 74, e processo C-254/98, Heimdienst, Colectânea 2000, p. I-151, n.º 26. Ver também processos 87/85 e 88/85, Legia e Gyselinx,
Colectânea 1986, p. 1707, n.º 15, e processo C-189/95, Franzén, Colectânea 1997, p. I-5909, n.º 71.
(62) Ver processo C-71/02, Karner, Colectânea 2004, p. I-3025 (proibição de referências à origem comercial de mercadorias provenientes da falência de uma empresa);
processo C-441/04, A-Punkt, Colectânea 2006, p. I-2093 (venda ao domicílio), e também a argumentação semelhante do processo C-20/03, Burmanjer, Colectânea 2005,
p. I-4133.
(63) Conclusões do advogado-geral nos processos C-158/04 e C-159/04, Alfa Vita, Colectânea 2006, p. I-8135, n.os 27-29.
(64) Processo C-416/00. Morellato, n.º 36 (o advogado-geral Maduro Poiares declara que a exigência de modificar o produto parece ter sido imposta apenas na fase final
de comercialização do produto. Por consequência, o acesso do produto importado ao mercado nacional não era posto em causa).
(65) Processo C-110/05 Comissão/Itália [2009] ainda não publicado.
Página 14
3.1.11. RESTRIÇÕES À UTILIZAÇÃO no caso dos reboques especialmente conce- fora dessas águas (72). Consequentemente, é
bidos para os motociclos, as possibilidades de possível alegar que a proibição em causa tem
Uma categoria de restrições foi recentemente utilização dos mesmos sem ser com os moto- por efeito impedir virtualmente o acesso ao
salientada pela jurisprudência do Tribunal: ciclos são marginais (70). Com efeito, os consu- mercado. Contudo, no n.º 39, o Tribunal sus-
as restrições à utilização. Estas restrições são midores, sabendo que lhes é proibido utilizar tentou que uma «regulamentação como a que
caracterizadas como regulamentações nacio- o seu motociclo com um reboque especial- está em causa no processo principal pode,
nais que autorizam a venda de um produto, mente concebido para o mesmo, não têm pra- em princípio, ser considerada proporcionada
restringindo embora em certa medida a res- ticamente nenhum interesse em comprar esse desde que, antes de mais, as autoridades com-
pectiva utilização. reboque. Consequentemente, a proibição em petentes sejam obrigadas a tomar as referidas
questão constitui uma violação do artigo 34.º medidas de execução, em seguida, que essas
Estas condições podem incluir restrições rela- TFUE. Contudo, neste caso específico, o Tribunal autoridades tenham efectivamente exercido a
cionadas com a finalidade ou o método de deliberou que a medida devia ser considerada competência que lhes é conferida nessa matéria
utilização específica, o contexto ou a data de justificada por razões imperiosas de segurança e tenham designado as zonas que satisfazem as
utilização, o grau de utilização ou os tipos de rodoviária. condições previstas pelo regulamento nacional
utilização. Tais medidas, em certas circuns- e, finalmente, que tais medidas tenham sido
tâncias, podem constituir medidas de efeito O último processo [C-142/05 (71), Mickelsson adoptadas num prazo razoável após a entrada
equivalente. e Roos] diz respeito a um pedido de decisão em vigor desse regulamento» (73). No n.º 40, o
prejudicial que suscita a questão de saber se os Tribunal afirma que a regulamentação nacional
Três processos recentes podem ser classificados artigos 34.º e 36.º TFUE se opõem a um regula- como a que está em causa no processo principal
como estando incluídos neste domínio. No pri- mento sueco relativo à utilização de motos de pode ser justificada pelo objectivo da protec-
meiro processo, a Comissão, no processo Comis- água. Segundo este regulamento, a utilização ção do ambiente sem prejuízo do respeito das
são/Portugal (66), intentou uma acção contra deste tipo de embarcação fora das vias navegá- condições acima indicadas. Deste modo indica
Portugal porque existe uma lei portuguesa que veis públicas e das águas nas quais a autoridade o Tribunal que o tipo de regulamentação em
proíbe a afixação de películas coloridas nos vidros distrital a tenha autorizado, é proibida e passí- causa pode ser justificado desde que respeite
dos veículos automóveis. A Comissão advoga que vel de ser punida com uma coima. O Tribunal as condições supramencionadas.
tal proibição infringia o artigo 34.º TFUE e não começou por repetir os três aspectos mencio-
podia ser justificada à luz do artigo 36.º TFUE. A nados no Processo C-110/05 (Comissão/Itália,
Comissão alegou que os eventuais interessados, n.º 37). O Tribunal explicou que, sempre que 3.2. Princípio do
comerciantes ou particulares, não comprariam as disposições regulamentares nacionais sobre reconhecimento mútuo
essas películas, uma vez que não poderiam ser as vias navegáveis tenham por efeito impedir
afixadas nos vidros dos automóveis (67). O Tribu- os utilizadores de motos de água de as utilizar Os obstáculos técnicos à livre circulação de
nal parece ter aceite esta alegação. Em especial, para os fins específicos e inerentes a que se mercadorias na União Europeia são ainda fre-
defendeu que «…os eventuais interessados, destinam ou de restringir sobremaneira a sua quentes. Esses obstáculos surgem quando as
comerciantes ou particulares, sabendo que lhes utilização, tais regulamentações têm por efeito autoridades nacionais aplicam a produtos pro-
é proibido afixar essas películas no pára-brisas dificultar o acesso ao mercado nacional dessas venientes de outros Estados-Membros onde
e nos vidros correspondentes aos lugares dos mercadorias e, assim, constituem medidas de são legalmente produzidos e comercializados,
passageiros dos veículos automóveis, não terão, efeito equivalente a restrições quantitativas. regras técnicas estabelecendo as condições a
na prática, nenhum interesse em comprá-las.» (68) O Tribunal sustentou que, no momento dos que essas mercadorias devem obedecer, como
Consequentemente, concluiu que Portugal não factos, não tinham sido indicadas as vias abertas as que se referem à designação, forma, dimen-
cumpria as obrigações que lhe incumbiam por à utilização por motos de água e que a utili- são, peso, composição, apresentação, rotulagem
força do artigo 34.º TFUE. zação de motos de água só era permitida nas e embalagem. Essas regras nacionais, quando se
vias navegáveis públicas. O Tribunal assinalou não destinem a aplicar o direito derivado da
No segundo processo, em Comissão/Itália (69), ainda que o arguido no processo principal e a UE, constituem obstáculos técnicos abrangidos
a Comissão solicitou ao Tribunal que se pro- Comissão mantinham que essas vias navegá- pelos artigos 34.º e 36.º TFUE, mesmo que se
nunciasse sobre o facto de a Itália, por manter veis se destinavam ao tráfego intenso de cariz apliquem sem distinção a todos os produtos.
a proibição de tracção de reboques por moto- comercial, o que torna perigosa a utilização
ciclos, não cumprir as suas obrigações por força de motos de água e que, de todo o modo, a Ao abrigo do «princípio do reconhecimento
do artigo 34.º TFUE. O Tribunal sustentou que, maioria das vias navegáveis suecas se situam mútuo» (74), continuam a coexistir no mer-
Página 15
cado interno regulamentações técnicas nacio- zados noutro Estado-Membro, e que revoga a Quando foi criado o mercado interno, em 1 de
nais diferentes. O princípio significa que o Decisão n.º 3052/95/CE (75). Janeiro de 1993, os repetidos controlos fron-
Estado-Membro de destino não pode proibir teiriços que acompanhavam a transferência de
a comercialização, no seu território, de pro- mercadorias passaram à história. Actualmente
dutos legalmente comercializados noutro 3.3. Entraves típicos os Estados-Membros só podem efectuar con-
Estado-Membro e que não são objecto de har- ao comércio trolos nas suas fronteiras no âmbito de um
monização na UE, mesmo que a sua produção sistema de controlo geral aplicado na mesma
tenha obedecido a normas técnicas e de qua- Os entraves ao comércio assumem formas e medida no interior do território nacional e/ou
lidade diferentes das vigentes no país. A única configurações muito diferentes. Por vezes são se esses controlos consistirem em controlos por
excepção a este princípio são as restrições que medidas muito óbvias, dirigidas especificamente amostragem. Contudo, se esses controlos, inde-
se justificam ao abrigo do artigo 36.º do TFUE contra as importações ou autorizando o trata- pendentemente do local onde são efectuados,
(moralidade pública, ordem pública e segu- mento preferencial dos produtos nacionais, e por constituírem um controlo sistemático de produ-
rança pública, protecção da saúde e da vida vezes constituem um efeito secundário inespe- tos importados, continuam a ser considerados
das pessoas e animais ou de preservação das rado de decisões políticas de carácter geral. Ao como medidas de efeito equivalente (78), que
plantas, etc.), ou com fundamento em razões longo destas últimas décadas, a jurisdição e a só excepcionalmente se justificarão, desde que
imperativas de interesse geral reconhecidas aplicação prática dos artigos 34.º-36.º TFUE em sejam cumpridas condições rigorosas.
pela jurisprudência do Tribunal de Justiça, as processos por incumprimento permitiram definir
quais devem contudo ser proporcionais ao um certo número de categorias típicas, algumas 3.3.2. OBRIGAÇÕES DE NOMEAR
objectivo prosseguido. das quais são descritas seguidamente. UM REPRESENTANTE OU DE
DISPOR DE INSTALAÇÕES DE
Portanto, o princípio do reconhecimento 3.3.1. DISPOSIÇÕES NACIONAIS ARMAZENAMENTO NO ESTADO-
mútuo num domínio não harmonizado consiste RELACIONADAS COM A -MEMBRO DE IMPORTAÇÃO
numa regra e numa excepção: IMPORTAÇÃO (LICENÇAS
DE IMPORTAÇÃO, INSPECÇÕES A obrigação de um importador dispor de um
• A regra geral de que, apesar da existência E CONTROLOS) estabelecimento no Estado-Membro de destino
de uma regulamentação técnica nacional foi considerada pelo Tribunal como uma nega-
no Estado-Membro de destino, os produtos As medidas nacionais directamente relacio- ção directa da livre circulação de mercadorias
legalmente produzidos ou comercializados nadas com a importação de produtos prove- no mercado interno. Efectivamente, o Tribunal
noutro Estado-Membro usufruem do direito nientes de outros Estados-Membros dificultam concluiu que obrigar as empresas estabeleci-
fundamental de livre circulação, garantido as importações e, portanto, são consideradas das noutros Estados-Membros a incorrerem
pelo TFUE. regularmente como medidas de efeito equiva- nos custos de estabelecer um representante
lente, contrárias ao artigo 34.º TFUE. A obriga- no Estado-Membro de importação levaria a que
• A excepção de que os produtos legalmente ção de obter uma licença de importação antes fosse difícil ou impossível que certas empre-
produzidos ou comercializados noutro de importar mercadorias constitui um exem- sas, nomeadamente as pequenas e médias
Estado-Membro não usufruem desse direito plo claro no que a este ponto se refere. Dado empresas, penetrassem no mercado desse
se o Estado-Membro de destino puder pro- que as formalidades deste tipo podem causar Estado-Membro (79). A obrigação de nomear um
var que é essencial impor a sua própria regu- demoras, esta obrigação infringe o artigo 34.º representante ou um agente, de dispor de um
lamentação técnica aos produtos em causa, TFUE, mesmo que as licenças sejam concedi- estabelecimento ou escritório secundário ou
com fundamento nas razões referidas no das automaticamente e que o Estado-Membro de instalações de armazenamento no Estado-
artigo 36.º TFUE ou em razões imperativas em causa não tencione reservar-se o direito de -Membro de importação seria igualmente con-
de interesse geral reconhecidas pela juris- recusar a licença (76). trária ao artigo 34.º TFUE.
prudência do Tribunal de Justiça, as quais
devem contudo estar sujeitas ao princípio Inspecções e controlos como os controlos Alguns Estados-Membros tentaram justificar
da proporcionalidade. veterinários, sanitários, fitossanitários e outros, essas exigências alegando que eram neces-
incluindo os controlos aduaneiros das impor- sárias para assegurar uma aplicação correcta
Ainda recentemente, o principal problema que tações (e das exportações), são considerados de disposições nacionais de interesse público,
dificultava a aplicação do princípio do reconhe- como medidas de efeito equivalente na acep- incluindo nalguns casos a responsabilidade
cimento mútuo era sem dúvida a incerteza jurí- ção dos artigos 34.º e 35.º, respectivamente (77). penal. O Tribunal recusou este argumento. Con-
dica generalizada sobre o ónus da prova. Por Tais inspecções são susceptíveis de dificultar ou siderou que embora todos os Estados-Membros
consequência, a UE adoptou o Regulamento encarecer as importações e exportações, em tenham o direito de tomar medidas adequadas
(CE) n.º 764/2008, que estabelece procedimen- consequência das demoras inerentes às ins- para assegurar a protecção da ordem pública
tos para a aplicação de certas regras técnicas pecções e dos custos de transporte adicionais no seu território, essas medidas só se justifi-
nacionais a produtos legalmente comerciali- em que o operador económico poderá incorrer. cam se for estabelecido que são necessárias
(75) JO L 218 de 13.08.2008, p. 21. Para mais pormenores, ver ponto 8.3 do presente guia.
(76) Processo C-54/05, Comissão/Finlândia, Colectânea 2007, p. I-2473, n.º 31, ou processo 51-54/71, International Fruit Company/Produktschap voor Groenten en Fruit,
Colectânea 1971, p. 3369.
(77) Processo 4/75, Rewe Zentralfinanz/Landwirschaftskammer, Colectânea 1975, p. 843.
(78) Processo C-272/95, Dt. Milch-Kontor II, Colectânea 1997, p. I-1905.
(79) Processo 155/82, Comissão/Bélgica, Colectânea 1983, p. 531, n.º 7.
Página 16
por razões legítimas de interesse geral e que Por consequência, uma medida nacional que tado se torne impossível ou mais difícil que a
essa protecção não pode ser alcançada por incentivava o armazenamento de produtos pro- do produto nacional (85).
outros meios que imponham menos restrições duzidos internamente podia criar obstáculos à
à livre circulação de mercadorias (80). Assim, o livre circulação de mercadorias, nos termos do Congelamentos de preços: num processo relacio-
Tribunal considerou que «[e]ven though criminal artigo 34.º TFUE. nado com uma regulamentação nacional que
penalties may have a deterrent effect as regards exigia que todas as subidas de preços fossem
the conduct which they sanction, that effect is 3.3.3. CONTROLOS DE PREÇOS notificadas às autoridades pelo menos dois
not guaranteed and, in any event, is not streng- E REEMBOLSOS NACIONAIS meses antes de entrarem em vigor, o Tribunal
thened…solely by the presence on national ter- confirmou que os congelamentos de preços
ritory of a person who may legally represent the Se bem que o Tratado não contenha disposi- igualmente aplicáveis aos produtos nacionais
manufacturer» (mesmo que as sanções penais ções específicas relativas às regulamentações e aos importados não representam em si mes-
sejam de natureza a exercer um efeito de pre- nacionais de preços, o Tribunal de Justiça con- mos uma medida de efeito equivalente a uma
venção dos comportamentos que reprimem, firmou em várias ocasiões, através da sua juris- restrição quantitativa. Porém, podem, de facto,
este efeito não é garantido nem, de qualquer prudência, que o artigo 34.º TFUE se aplica às produzir esse efeito, se o nível dos preços for de
modo, reforçado apenas devido à presença no regulamentações nacionais de preços. tal ordem que a comercialização de produtos
território nacional de uma pessoa habilitada importados se torne impossível ou mais difícil
a representar juridicamente o fabricante) (81). Estas regulamentações abrangem várias medi- do que a dos produtos nacionais (86). Será o caso
Por consequência, o Tribunal concluiu que a das: preços máximos e mínimos, congelamento se os importadores só puderem comercializar
exigência de estabelecimento de um repre- dos preços, margens de lucro máximas e míni- os produtos importados com prejuízo.
sentante no território nacional não é de molde mas e manutenção do preço de revenda.
a proporcionar salvaguardas suplementares Margens de lucro máximas e mínimas fixadas
suficientes, do ponto de vista dos objectivos Preços mínimos: um preço mínimo fixado num num determinado montante, em vez de numa
de interesse público, para justificar uma derro- montante específico que, apesar de indistin- percentagem do preço de custo, não consti-
gação à proibição contida no artigo 34.º TFUE. tamente aplicável aos produtos nacionais e tuem uma medida de efeito equivalente na
importados, poderá limitar as importações, ao acepção do artigo 34.º TFUE. O mesmo se aplica
As exigências nacionais que regem o armazena- impedir que o seu preço de custo mais baixo se à fixação da margem de lucro da venda a reta-
mento de mercadorias importadas constituem reflicta no preço de venda a retalho e ao obs- lho, que é uma percentagem do preço de reta-
também um violação do artigo 34.º TFUE, se tar assim a que os importadores tirem partido lho livremente determinada pelo fabricante,
essas medidas nacionais afectarem de forma da sua vantagem competitiva, é uma medida desde que constitua uma remuneração ade-
discriminatória os produtos importados, de efeito equivalente contrária ao artigo 34.º quada para os retalhistas. Pelo contrário, uma
em comparação com os produtos nacionais. TFUE. O consumidor não pode usufruir desse margem de lucro máxima fixada num montante
Incluem-se nessas medidas todas as regras que preço vantajoso (83). Porém, este domínio está único, aplicável tanto aos produtos nacionais
proíbam, limitem ou exijam o armazenamento agora parcialmente harmonizado e a legislação como aos produtos importados, e que não tem
apenas de produtos importados. O Tribunal nacional que fixa preços mínimos para o tabaco, em conta o custo da importação, é abrangida
considerou que uma medida nacional que por exemplo, deve ser avaliada à luz da Direc- pelo artigo 34.º TFUE (87).
exigia que as bebidas espirituosas de origem tiva 95/59/CE, de 27 de Novembro de 1995, rela-
vínica fossem armazenadas durante seis meses tiva aos impostos que incidem sobre o consumo Desde o acórdão do Tribunal no processo Keck
antes de poderem utilizar certas denominações de tabacos manufacturados, com excepção dos and Mithouard, que dizia respeito a legislação
de qualidade constituía uma medida de efeito impostos sobre o volume de negócios. Segundo francesa proibindo a revenda com prejuízo, as
equivalente a uma restrição quantitativa (82). a jurisprudência do Tribunal de Justiça, a fixação regulamentações nacionais de preços parecem
desses preços de venda mínimos é contrária ao ser abrangidas pelo conceito de «modalidades
As regulamentações nacionais que limitam artigo 9.º, n.º 1, da Directiva (84). de venda». Como tal, não recaem no âmbito de
total ou parcialmente a utilização de instala- aplicação do artigo 34.º TFUE quando se apli-
ções de armazenamento aos produtos nacio- Preços máximos: apesar de um preço máximo cam a todos os operadores económicos que
nais ou que sujeitam o armazenamento de indistintamente aplicável a produtos nacionais exercem a sua actividade no território nacional
produtos importados a condições diferentes e e importados não constituir, por si só, uma e quando afectam da mesma forma, de direito
mais onerosas do que as que são exigidas para medida de efeito equivalente a uma restrição e de facto, a comercialização dos produtos
os produtos nacionais podem criar obstácu- quantitativa, poderá ter esse efeito se for fixado nacionais e dos produtor originários de outros
los semelhantes ao comércio de mercadorias. a um nível tal que a venda do produto impor- Estados-Membros. O facto de os «controlos de
(80) Processo 155/82, Comissão/Bélgica, Colectânea 1983, p. 531, n.º 12. Ver também processo C-12/02, Grilli, Colectânea 2003, p. I-11585, n.os 48 e 49; C-193/94, Skanavi
e Chryssanthakopoulos, Colectânea 1996, p. I-929, n.os 36-38.
(81) Processo 155/82, Comissão/Bélgica, Colectânea 1983, p. 531, n.º 15.
(82) Processo 13/78, Eggers/Freie Hansestadt Bremen, Colectânea 1978, p. 1935.
(83) Processo 231/83, Cullet, Colectânea 1985, p. 305, processo 82/77, Van Tiggele, Colectânea 1978, p. 25.
(84) Processo C-216/98, Comissão/Grécia, Colectânea 2000, p. I-8921, e processo C-302/00, Comissão/França, Colectânea 2002, p. I-2055.
(85) Processo 65/75, Tasca, Colectânea 1976, p. 291; processos 88-90/75, SADAM, Colectânea 1976, p. 323; processo 181/82, Roussel, Colectânea 1983, p. 3849; pro-
cesso 13/77, GB-Inno/ATAB, Colectânea 1977, p. 2115.
(86) Processos 16-20/79, Danis, Colectânea 1979, p. 3327.
(87) Processo 116/84, Roelstrate, Colectânea 1985, p. 1705; processo 188/86, Lefevre, Colectânea 1987, p. 2963.
Página 17
preços» constituírem «modalidades de venda» especificadas na Directiva 89/105/CE relativa à ção está em conformidade com o princípio da
é confirmado pelo acórdão do Tribunal no pro- transparência das medidas que regulamentam proporcionalidade. Esta demonstração inclui
cesso Belgapom, em que se considerou que a a formação do preço das especialidades farma- a apresentação dos elementos de prova rele-
legislação belga proibindo as vendas com pre- cêuticas para uso humano e a sua inclusão nos vantes, tais como dados técnicos, científicos,
juízo e as vendas com uma margem de lucro sistemas nacionais de seguro de saúde. estatísticos e nutricionais, bem como todas as
muito baixa não recaía no âmbito de aplicação outras informações relevantes (92).
do artigo 34.º TFUE. No processo Decker (89), o Tribunal concluiu
que uma legislação nacional por força da Além disso, cabe ao Estado-Membro provar que
Reembolso de medicamentos: de acordo com qual o reembolso das despesas com produtos a finalidade declarada não pode ser alcançada
uma regra geral, o direito da UE não preju- médicos está sujeito a uma autorização prévia por outros meios com um efeito menos res-
dica a competência dos Estados-Membros concedida por uma instituição competente de tritivo para o comércio intra-UE entre os Esta-
para organizarem os seus sistemas de segu- um Estado-Membro quando os produtos são dos-Membros (93). Por exemplo, relativamente
rança social (88); e na falta de harmonização adquiridos noutro Estado-Membro constitui a uma proibição francesa de comercialização
a nível da UE, compete à legislação de cada um entrave à livre circulação de mercadorias, das bebidas energéticas cujo teor em cafeína
Estado-Membro determinar as condições de na acepção do artigo 34.º TFUE, uma vez que seja superior a um certo limite, o Tribunal con-
concessão de prestações em matéria de segu- incita as pessoas a adquirirem esses produtos siderou que «uma rotulagem adequada, que
rança social. Porém, essa legislação pode afectar no seu Estado-Membro de origem, e não noutro informe os consumidores sobre a natureza, os
as possibilidades de comercialização e, por seu Estado-Membro, sendo assim susceptível de ingredientes e as características dos géneros ali-
turno, influenciar a capacidade de importação. entravar a importação de produtos originários mentícios enriquecidos, podia permitir aos con-
Daí resulta que uma decisão nacional de reem- de outros Estados-Membros. sumidores susceptíveis de serem ameaçados
bolso de medicamentos pode ter um impacto por um consumo excessivo de uma substância
negativo na respectiva importação e constituir 3.3.4. PROIBIÇÕES NACIONAIS nutritiva adicionada a esses géneros decidirem
um obstáculo à livre circulação de mercadorias. DE PRODUTOS/SUBSTÂNCIAS por si quanto à utilização destes géneros» (94).
ESPECÍFICOS Por consequência, o Tribunal concluiu que a
Além disso, resulta do acórdão Duphar que as proibição de comercialização das bebidas ener-
disposições da legislação nacional que regem Uma proibição de comercialização de um géticas cujo teor em cafeína seja superior a um
o reembolso de medicamentos no quadro do produto ou de uma substância específica é a certo limite não era necessária para realizar o
sistema nacional de saúde são compatíveis com medida mais restritiva que um Estado-Membro objectivo da protecção dos consumidores.
o artigo 34.º TFUE se a determinação dos produ- pode adoptar na perspectiva da livre circulação
tos sujeitos a reembolso e dos que são excluídos de mercadorias. A maior parte dos produtos O processo das vitaminas contra a Dinamarca (95)
for efectuada sem discriminação no que res- que são objecto de proibições nacionais são dizia respeito à prática administrativa dinamar-
peita à origem dos produtos e com base em cri- géneros alimentícios (90), incluindo vitaminas quesa de proibir o enriquecimento de géneros
térios objectivos e controláveis. Deve também e outros suplementos alimentares, ou substân- alimentícios com vitaminas e minerais se não
ser possível corrigir a lista de produtos, sempre cias químicas (91). fosse possível demonstrar que esse enrique-
que o cumprimento dos critérios especificados cimento correspondia a uma necessidade da
o exigir. Os «critérios objectivos e controláveis» As justificações destas medidas rigorosas invo- população dinamarquesa. O Tribunal concor-
a que se refere o Tribunal podem estar relacio- cadas com mais frequência pelos Estados-Mem- dou inicialmente em que competia à Dinamarca
nados com a existência no mercado de outros bros são a protecção da saúde e da vida das decidir do nível a que pretendia assegurar a
produtos menos dispendiosos com o mesmo pessoas e animais ou a preservação das plantas, protecção da saúde e da vida das pessoas, no
efeito terapêutico, com o facto de os produtos nos termos do artigo 36.º TFUE, e as exigências respeito do princípio da proporcionalidade. O
em causa serem livremente comercializados, imperativas estabelecidas pela jurisprudência Tribunal observou, porém, que competia às
sem necessidade de receita médica, ou com do Tribunal, tais como a protecção do ambiente. autoridades nacionais demonstrar «em cada
o facto de os produtos terem sido excluídos Estas razões justificativas são frequentemente caso concreto, à luz dos hábitos alimentares
do reembolso por motivos de natureza farma- combinadas. O Estado-Membro que impõe uma nacionais e tendo em conta os resultados da
coterapêutica justificados pela protecção da proibição nacional de um produto/substância investigação científica internacional, que a sua
saúde pública. deve demonstrar que a medida é necessária regulamentação é necessária para proteger
e, eventualmente, que a comercialização dos efectivamente os interesses mencionados na
As regras processuais que regem a adopção produtos em questão constitui um risco sério referida disposição e, nomeadamente, que a
de decisões nacionais de reembolso foram para a saúde pública e que essa regulamenta- comercialização do produto em questão repre-
(88) Ver processo 238/82, Duphar, Colectânea 1984, p. 523, e processo C-70/95, Sodemare e outros, Colectânea 1997, p. I-3395.
(89) Processo C-120/95, Decker, Colectânea 1998, p. I-1831.
(90) Processos 174/82, Officier van Justitie/Sandoz, Colectânea 1983, p. 2445; C-24/00, Comissão/França, Colectânea 2004, p. I-1277; C-420/01, Comissão/Itália, Colec-
tânea 2003, p. I-6445; C-192/01, Comissão/Dinamarca, Colectânea 2003, p. I-9693; C-41/02 Comissão/Países Baixos, Colectânea 2004, p. I-11375; C-319/05, Comissão/
/Alemanha, Colectânea 2007, p. I-9811.
(91) Processo C-473/98, Kemikalieinspektionen/Toolex-Alpha AB, Colectânea 2000, p. I-5681.
(92) Processo C-270/02, Comissão/Itália, Colectânea 2004, p. I-1599.
(93) Processo 104/75, De Peijper, Colectânea 1976, p. 613.
(94) Processo C-24/00, Comissão/França, Colectânea 2004, p. I-1277, n.º 75.
(95) Processo C-192/01, Comissão/Dinamarca, Colectânea 2003, p. I-9693.
Página 18
senta um risco real para a saúde pública» (96). requisitos deste tipo para produtos tão diversi- que tinham sido emitidos por um instituto de
Após ter apreciado a prática administrativa ficados como equipamento marítimo, telefones homologação italiano, não foram reconheci-
dinamarquesa em causa, o Tribunal concluiu móveis, automóveis de passageiros e equipa- dos. O Tribunal considerou que as autoridades
que a medida «não permite respeitar o direito mento médico. (neste caso, as autoridades portuguesas) são
comunitário quanto à identificação e à avalia- obrigadas a ter em conta os certificados emi-
ção de um risco real para a saúde pública, que Regra geral, é exigida a homologação para que tidos por organismos de certificação de outro
exige uma avaliação profunda, caso a caso, dos seja autorizada a colocação de um produto no Estado-Membro, nomeadamente se esses orga-
efeitos que poderia causar a adição em causa mercado. O cumprimento dos requisitos de nismos são autorizados pelo Estado-Membro
de minerais e de vitaminas» (97). homologação é assinalado com frequência para o efeito. Se as autoridades portuguesas
por uma marcação do produto. A marcação CE, não dispunham de informações suficientes para
Regra geral, o Tribunal tem adoptado uma por exemplo, confirma o cumprimento desses verificar os certificados em causa, poderiam ter
abordagem restritiva relativamente a medidas requisitos, através quer de uma declaração do obtido essas informações das autoridades do
deste tipo. Porém, em domínios em que não há próprio fabricante, quer de uma certificação por Estado-Membro de exportação. É exigida uma
certezas científicas no que se refere ao impacto uma terceira parte. atitude activa por parte do organismo nacional
de um produto ou de uma substância específica ao qual é feito um pedido de homologação de
na saúde pública ou no ambiente, por exemplo, Ao passo que os requisitos comuns de homo- um produto ou de reconhecimento da equiva-
o Tribunal tem tido mais dificuldade em rejeitar logação a nível da UE geralmente facilitam a lência de um certificado.
tais proibições (98). Nesses casos, o chamado comercialização dos produtos no mercado
princípio da precaução (99) desempenha tam- interno, a homologação nacional em domí- 3.3.6. PROCESSO
bém um papel importante na apreciação global nios não harmonizados tende a criar entraves DE AUTORIZAÇÃO
da causa efectuada pelo Tribunal. ao comércio de mercadorias. As normas diver-
gentes dos produtos colocam dificuldades Os regimes nacionais que sujeitam a comer-
Pode também acontecer que os Estados-Mem- aos fabricantes que pretendem comercializar cialização de mercadorias a uma autorização
bros, em vez de decretarem uma proibição, produtos em diferentes Estados-Membros ou prévia restringem o acesso ao mercado do
se limitem a exigir uma autorização prévia, podem estar na origem de custos de confor- Estado-Membro de importação e, portanto,
no interesse da saúde pública, para a adição midade mais elevados. A exigência de homo- devem ser considerados como uma medida
de substâncias que foram autorizadas noutro logação nacional para que um produto possa de efeito equivalente a uma restrição quantita-
Estado-Membro. Neste caso, os Estados-Mem- ser colocado no mercado deve, portanto, ser tiva das importações, na acepção do artigo 34.º
bros só cumprem as suas obrigações ao abrigo considerada como uma medida de efeito equi- TFUE (104). O Tribunal de Justiça estabeleceu
do direito da UE desde que esse processo seja valente (101). um certo número de condições de justificação
facilmente acessível e possa ser concluído dessa autorização prévia (105):
em prazos razoáveis e que, se conduzir a um Embora um Estado-Membro possa ter o direito
indeferimento, o mesmo possa ser objecto de exigir, por razões de saúde ou segurança, • deve ser fundamentado em critérios objec-
de recurso jurisdicional. Este processo deve que um produto que foi já aprovado noutro tivos, não discriminatórios e conhecidos
ser previsto expressamente na regulamen- Estado-Membro seja submetido a um novo antecipadamente, de modo a enquadrar
tação, como uma medida de aplicação geral processo de exame e autorização, o Estado- o exercício do poder de apreciação das
vinculativa para as autoridades nacionais. As -Membro de importação deve ter em conta autoridades nacionais a fim de este não ser
características deste «processo simplificado» os ensaios ou controlos efectuados no ou nos utilizado de modo arbitrário;
foram estabelecidas pelo Tribunal no processo Estados-Membros de exportação que propor-
C-344/90 (100). cionem garantias equivalentes (102). • não deve essencialmente sobrepor-se
aos controlos que já foram efectuados
3.3.5. HOMOLOGAÇÃO No processo Comissão/Portugal (103), foi recu- no âmbito de outros processos, quer no
sada a uma empresa pelo organismo de mesmo Estado-Membro, quer noutro
Os requisitos de homologação definem previa- supervisão a autorização necessária para ins- Estado-Membro;
mente as condições regulamentares, técnicas e talar tubos de polietileno, alegando que esses
de segurança que um produto deve respeitar. tubos não tinham sido aprovados pelo orga- • um processo de autorização prévia só é
Por consequência, a homologação não se limita nismo de homologação nacional. Os certifica- necessário se for de considerar que o con-
a um sector específico, uma vez que existem dos de homologação detidos pela empresa, trolo a posteriori ocorreria demasiado tarde
Página 19
para garantir a efectiva eficácia deste e per- • proibição da venda e cessão por corres- acórdão Cassis de Dijon, considerando-se que
mitir-lhe atingir o objectivo prosseguido; pondência de videogramas que não foram recaem de per se no âmbito de aplicação do
objecto, por parte de uma autoridade nacio- artigo 34.º TFUE, sem necessidade de deter-
• um processo de autorização, devido à dura- nal competente ou de um organismo de minar se são também discriminatórias (111), ao
ção e aos custos desproporcionados que auto-regulação voluntária, de um controlo passo que as modalidades de venda devem ser
implica, não deve ser susceptível de dissu- e de uma classificação com vista à protecção sujeitas ao teste da discriminação. Porém, como
adir os operadores interessados de prosse- de menores e que não contenham a indica- o observou o advogado-geral Maduro Poiares,
guirem o seu projecto. ção, determinada por essa autoridade ou o Tribunal viu-se obrigado a introduzir alguns
esse organismo, da idade a partir da qual cambiantes na simplicidade da distinção esta-
3.3.7. REGULAMENTAÇÕES podem ser vistos (109). belecida no acórdão Keck and Mithouard (112).
TÉCNICAS QUE PREVÊEM Por consequência, certas regulamentações que
CONDIÇÕES DE APRESENTAÇÃO 3.3.8. RESTRIÇÕES parecem recair na categoria de modalidades
DAS MERCADORIAS (PESO, À PUBLICIDADE de venda são tratadas como regulamentações
COMPOSIÇÃO, APRESENTAÇÃO, relacionadas com os produtos. Esta afirmação
ROTULAGEM, FORMA, TAMANHO, Antes do processo Keck and Mithouard, o Tri- aplica-se, nomeadamente, às medidas relacio-
EMBALAGEM) bunal considerara já em várias ocasiões que nadas com a publicidade que parecem afectar
as medidas nacionais que impõem restrições à as condições que os produtos devem satisfa-
As condições que os produtos importados publicidade eram abrangidas pelo artigo 34.º zer (113). Porém, a abordagem que o Tribunal
devem satisfazer no que se refere à forma, TFUE. Um desses casos foi o do processo Oos- adopta habitualmente desde o acórdão Keck
dimensão, peso, composição, apresentação, thoek (processo 286/81), respeitante a uma and Mithouard baseia-se no pressuposto de
identificação ou colocação à venda podem proibição da oferta de subsídios em espécie que as restrições à publicidade e à promoção
obrigar os fabricantes e os importadores a para promoção de vendas. O Tribunal entendeu devem ser consideradas como «modalidades
adaptarem os produtos em causa às regula- que «uma legislação que restringe ou proíbe de venda» (114) e, caso não sejam discrimina-
mentações em vigor no Estado-Membro onde determinadas formas de publicidade e determi- tórias, não recaem no âmbito de aplicação do
são comercializados, por exemplo, modificando nados métodos de promoção de vendas — ape- artigo 34.º TFUE.
o rótulo dos produtos importados (106). Dado sar de não regular directamente as importações
que estas condições de apresentação dos pro- — pode ser susceptível de limitar os volumes A abordagem adoptada pelo Tribunal nos pro-
dutos estão directamente relacionadas com o de importação, na medida em que afecta as cessos relacionados com a publicidade parece
próprio produto, não são consideradas como possibilidades de escoamento dos produtos desenrolar-se em três etapas principais. Em pri-
modalidades de venda, mas sim como medidas importados» (110). meiro lugar, o Tribunal decide que certos méto-
de efeito equivalente, nos termos do artigo 34.º dos de promoção da venda de um produto
TFUE. A partir do acórdão Keck and Mithouard, o Tri- são modalidades de venda. Em segundo lugar,
bunal parece ter adoptado em certos aspec- passa a examinar o âmbito da restrição à publi-
As seguintes medidas, por exemplo, foram con- tos uma abordagem diferente (por exemplo, cidade (proibição total ou não). Em terceiro
sideradas contrárias ao artigo 34.º TFUE: tratando as restrições à publicidade como lugar, examina o aspecto da discriminação (se a
modalidades de venda), mas noutros aspectos restrição nacional em causa afecta a comerciali-
• exigência de que a margarina fosse comer- os advogados-gerais e o Tribunal adoptaram e zação de produtos de outros Estados-Membros
cializada em embalagens de forma cúbica, aprofundaram a mesma abordagem (no que de modo diferente da dos produtos nacionais).
para a distinguir da manteiga (107); se refere à importância intrínseca da publici- Em vários processos, o Tribunal parece rela-
dade para a livre circulação de mercadorias). cionar o âmbito da restrição (total ou parcial)
• proibição de comercialização num Estado- Tal como foi já explicado supra a propósito com a discriminação. Ou seja, por outras pala-
-Membro de artigos de metais preciosos do Keck and Mithouard, «as regras relativas às vras, se a restrição é total, pressupõe-se que
sem as punções obrigatórias (punção oficial condições a que as mercadorias devem obe- poderá ter mais impacto para os produtos
nacional) (108); decer» continuam a ser tratadas ao abrigo do importados (115); se for parcial, poderá afec-
(106) Processo C-33/97, Colim, Colectânea 1999, p. I-3175, n.º 37 e processo C-416/00, Morellato, Colectânea 2003, p. I-9343, n.os 29 e 30.
(107) Processo 261/81, Rau/De Smedt, Colectânea 1982, p. 3961.
(108) Processo C-30/99, Comissão/Irlanda, Colectânea 2001, p. I-4619.
(109) Processo C-244/06, Dynamic Medien Vertriebs GmbH/Avides Media AG, Colectânea 2008, p. I-505; neste acórdão os entraves ao comércio foram considerados justifi-
cados por razões de protecção de menores.
(110) N.º 15. Ver também processos pré-Keck: processo 362/88, GB-INNO, Colectânea 1990, p. I-667, e processos apensos C-1/90 e C-176/90, Aragonesa de Publicidad
Exterior e Publivía, Colectânea 1991, p. I-4151.
(111) P. Oliver, Free Movement of Goods in the European Community, 2003, p. 124.
(112) Conclusões nos processos C-158/04 e C-159/04, Alfa Vita, Colectânea 2006, p. I-8135, n.os 26-29.
(113) Processo C-470/93, Mars, Colectânea 1995, p. I-1923, n.º 13 (medida que exige despesas suplementares de acondicionamento e publicidade). Ver também processo
C-368/95, Familiapress, Colectânea 1997, p. I-3689, n.º 11.
(114) Ver C-292/92, Hünermund, Colectânea 1993, p. I-6787 (proibição da publicidade a produtos parafarmacêuticos fora das farmácias) e processo C-412/93, Leclerc-Siplec,
Colectânea 1995, p. I-179 (restrição da publicidade televisiva); P. Oliver, Free Movement of Goods in the European Community, 2003, 7.43.
(115) Neste contexto, ver processo C-405/98, Gourmet, Colectânea 2001, p. I-1795; processos C-34/95 e C-36/95, De Agostini, Colectânea 1997, p. I-3843 e processo C-239/02,
Douwe Egberts, Colectânea 2004, p. I-7007 (proibindo as referências ao «emagrecimento» e a «recomendações, certificações, declarações ou pareceres médicos ou a
declarações sobre a sua autorização»).
Página 20
tar do mesmo modo os produtos nacionais e depósito e retoma, devem ser satisfeitas cer- entre os Estados-Membros. Um tal regime,
importados (116). Porém, deve sublinhar-se que tas condições para que o sistema cumpra as criado para promover a distribuição de alguns
o Tribunal, nos processos Dior (117) e Gourmet disposições da Directiva 94/62/CE, relativa a produtos fabricados num determinado país ou
International Products (118), assinalou que algu- embalagens e a resíduos de embalagens, e dos região e cuja mensagem publicitária sublinha
mas proibições de publicidade poderiam não ter artigos 34.º-36.º TFUE. O Estado-Membro deve, a origem dos produtos relevantes, pode inci-
necessariamente mais impacto para os produ- por exemplo, assegurar que o sistema seja total- tar os consumidores a adquirirem esses pro-
tos importados (119). mente operacional, abranja todo o território e dutos, à exclusão de produtos importados (122).
esteja aberto à participação de todos os pro- Aplica-se a mesma regra ao caso de marcações
3.3.9. OBRIGAÇÕES DE DEPÓSITO dutores ou distribuidores, em condições não que indicam não o país de produção, mas sim
discriminatórias. Além disso, deve ser previsto a conformidade dos produtos com as normas
Os sistemas de depósito e retoma, principal- um prazo de transição suficiente para todos os nacionais (123).
mente no sector das bebidas, têm suscitado ao produtores e distribuidores se poderem adap-
longo destes últimos anos debates constantes, tar às exigências do novo sistema e para garan- As regras de um Estado-Membro relativas às
à luz da legislação ambiental e das regras relati- tir o bom funcionamento do sistema. marcações de origem/qualidade podem ser
vas ao mercado interno. Estes sistemas impos- aceitáveis se o produto em causa possui efec-
sibilitam com frequência que os operadores de No processo C-302/86 (121), o Tribunal analisou tivamente qualidades e características que se
mercado que exercem a sua actividade em vários um sistema de depósito e retoma de emba- devem ao facto de ter a sua origem numa zona
Estados-Membros comercializem o mesmo pro- lagens de cerveja e de refrigerantes introdu- geográfica específica (124) ou se a origem indica
duto, nas mesmas embalagens, nos diferentes zido pela Dinamarca, no âmbito do qual em uma localização especial na tradição da região
Estados-Membros. Os produtores e importado- princípio só podiam ser utilizadas embalagens em causa (125). Essa obrigação pode também
res são obrigados a adaptar as embalagens às aprovadas. Embora o Tribunal defendesse que justificar-se em casos em que de outra forma os
necessidades de cada um dos Estados-Membros, o sistema de depósito e retoma era conside- consumidores poderiam ser induzidos em erro
o que implica geralmente custos suplementares. rado como um elemento indispensável de um pela embalagem ou a rotulagem do produto,
Por consequência, estas medidas têm impacto sistema destinado a assegurar a reutilização por exemplo.
não só sobre as modalidades de venda especí- das embalagens e, portanto, necessário para
ficas, mas também sobre o próprio produto. O atingir os objectivos ambientais prosseguidos, Medidas que incitam ou dão preferência à
efeito destes sistemas, ou seja, a repartição dos considerava que a limitação a embalagens compra exclusiva de produtos nacionais são
mercados, contraria com frequência o conceito aprovadas e a exigência de autorização eram medidas de efeito equivalente, na acepção
de um verdadeiro mercado interno. Portanto, desproporcionadas. do artigo 34.º TFUE. O caso mais famoso de
as exigências nacionais neste sentido podem incitamento à compra de produtos nacionais
ser consideradas como entraves ao comércio, 3.3.10. INDICAÇÕES DE ORIGEM, foi o processo Buy Irish (126), respeitante a uma
na acepção do artigo 34.º TFUE. MARCAS DE QUALIDADE, campanha de grande escala de incitamento à
INCITAMENTO À COMPRA compra de produtos nacionais, de preferência
Apesar de serem classificados como entraves DE PRODUTOS NACIONAIS a produtos importados. O Tribunal decidiu que
ao comércio, podem justificar-se, por exemplo, a campanha, na medida em que constituía uma
por razões relacionadas com a protecção do Regra geral, uma obrigação imposta pelo tentativa clara de redução do fluxo de importa-
ambiente. Em dois acórdãos sobre o sistema Estado de apresentar uma declaração de ori- ções, infringia o artigo 34.º TFUE.
alemão de depósito obrigatório de embalagens gem constitui uma medida de efeito equiva-
de bebidas de tara perdida, o Tribunal de Justiça lente, contrária ao artigo 34.º TFUE. Nos casos Os Estados-Membros podem permitir que as
confirmou que, nos termos do direito da UE, os em que os Estados-Membros organizam ou organizações incitem à compra de tipos especí-
Estados-Membros têm o direito de optar entre apoiam uma campanha de promoção que ficos de frutas e produtos hortícolas, por exem-
um sistema de depósito e retoma, um sistema envolve a aposição de um rótulo de origem/ plo, referindo as suas propriedades especiais,
integrado de recolha de embalagens ou uma /qualidade, o Tribunal decidiu que esses regi- desde que os consumidores não sejam aconse-
combinação entre os dois sistemas (120). Quando mes têm, pelo menos potencialmente, efeitos lhados a comprar os produtos nacionais exclusi-
um Estado-Membro opta por um sistema de restritivos da livre circulação de mercadorias vamente em função da sua origem nacional (127).
(116) Neste contexto, ver processo C-292/92, Hünermund, Colectânea 1993, p. I-6787, e processo C-71/02, Karner, Colectânea 2004, p. I-3025 (proibição de referências à
origem comercial de mercadorias provenientes da falência de uma empresa).
(117) Processo C-337/95, Dior, Colectânea 1997, p. I-6013.
(118) Processo C-405/98, Gourmet, Colectânea 2001, p. I-1795.
(119) P. Oliver e S. Enchelmaier, «Free Movement of Goods: Recent Developments in the Case Law», CML Rev. 649, 2007, p. 675.
(120) Processo C-463/01, Comissão/Alemanha, Colectânea 2004, p. I-11705; processo C-309/02, Radlberger e Spitz , Colectânea 2004, p. I-11763.
(121) Processo C-302/86, Comissão/Dinamarca, Colectânea 1988, p. 4607.
(122) Processo C-325/00, Comissão/Alemanha, Colectânea, p. I-9977 («aus deutschen Landen frisch auf den Tisch»); processo C-6/02, Comissão/França, Colectânea 2003,
p. I-2398; processo C-255/03, Comissão/Bélgica, ainda não publicado.
(123) Processo C-227/06, Comissão/Bélgica, 2008, ainda não publicado.
(124) Processo 12/74, Comissão/Alemanha, Colectânea 1975, p. 181.
(125) Processo 113/80, Comissão/Irlanda, Colectânea 1981, p. 1625.
(126) Processo 249/81, Comissão/Irlanda, Colectânea 1982, p. 4005.
(127) Processo 222/82, Apple and Pear Development Council/Lewis, Colectânea 1983, p. 4083.
Página 21
3.3.11. OBRIGAÇÃO DE UTILIZAR O Tribunal declarou no processo C-85/94, Pia- As questões colocadas ao Tribunal no processo
A LÍNGUA NACIONAL geme (130), relativamente à determinação de Deutscher Apothekerverband (132) relaciona-
uma língua de fácil compreensão pelos con- vam-se com procedimentos nacionais respei-
As exigências linguísticas impostas em sumidores, que podiam ser tidos em conta tantes às vendas pela Internet de medicamen-
domínios não harmonizados constituem diversos factores, tais como «a eventual simi- tos para uso humano noutro Estado-Membro
um entrave ao comércio intra-UE proibido litude das palavras em diferentes línguas, o que não aquele onde a DocMorris estava esta-
pelo artigo 34.º TFUE, na medida em que os conhecimento generalizado de mais de uma belecida. À época a legislação alemã proibia a
produtos provenientes de outros Estados- língua pela população em causa, ou a existência venda por correspondência de medicamentos
-Membros devem ostentar rótulos diferentes de circunstâncias particulares, tais como uma que só podiam ser vendidos nas farmácias.
que implicam despesas suplementares de vasta campanha de informação ou uma larga
embalagem (128). Esta obrigação pode assu- distribuição do produto, desde que se possa A primeira questão colocada pelo tribunal
mir muitas formas, em função dos produtos: estabelecer que o consumidor está suficiente- nacional consistia em saber se o artigo 34.º
declarações, mensagens publicitárias, certifi- mente informado». TFUE se opõe a uma proibição da importação
cados de garantia, instruções técnicas, instru- comercial de medicamentos para uso humano
ções de utilização, etc. Resulta do princípio geral da proporcionalidade cuja venda é reservada, exclusivamente, às far-
que os Estados-Membros podem adoptar medi- mácias no Estado-Membro em causa, através da
A obrigação de utilizar uma determinada língua das nacionais exigindo que certas características venda por correspondência por farmácias auto-
nas etapas anteriores à venda ao consumidor dos produtos nacionais ou importados sejam rizadas de outros Estados-Membros, tendo por
final não se pode justificar por razões de defesa indicadas numa língua facilmente compre- base encomendas individuais de consumidores
do consumidor, uma vez que esse tipo de exi- ensível pelos consumidores. Além disso, esta finais feitas através da Internet.
gências não são necessárias; os produtores, os medida nacional não deve ser de natureza a
importadores, os grossistas e os retalhistas, excluir a eventual utilização de outros meios O Tribunal começou por tratar esta restrição
que são as únicas pessoas que participam na que garantam a informação dos consumido- nacional como uma modalidade de venda.
manipulação das mercadorias, exercem a sua res, como a utilização de desenhos, símbolos Nos termos do acórdão Keck and Mithouard,
actividade na língua que conhecem melhor ou ou pictogramas (131). Finalmente, e em todas as uma modalidade de venda pode ser abrangida
em que podem obter as informações específi- circunstâncias, essas medidas nacionais devem pelo artigo 34.º TFUE se for discriminatória. Ao
cas de que necessitam. estar limitadas às menções a que o Estado-Mem- determinar se existia discriminação, o Tribunal
bro atribui carácter obrigatório e relativamente chama a atenção para a relação entre o âmbito
As vendas ao consumidor final são um caso às quais a utilização de outros meios que não a da medida restritiva e a discriminação. Em pri-
diferente. É compreensível que seja adoptada sua tradução não permitiria garantir uma infor- meiro lugar, na linha do acórdão De Agostini
uma abordagem diferente, uma vez que, ao mação adequada dos consumidores. Contudo, and TV-Shop (no que se refere à importância
contrário do que acontece com os operadores, este princípio da proporcionalidade exige uma da publicidade para a venda do produto em
que dispõem desses conhecimentos devido à abordagem caso a caso. questão) (133), o Tribunal, mutatis mutandis,
natureza da sua actividade ou que estão em sublinhava a importância da Internet para a
posição de obter as informações necessárias, 3.3.12. RESTRIÇÕES venda do produto. Em seguida, explicava que
não se pode pressupor que o consumidor ÀS VENDAS À DISTÂNCIA uma tal proibição absoluta coloca mais obstá-
compreenda facilmente as línguas de outros (VENDAS PELA INTERNET, culos às farmácias localizadas no exterior da
Estados-Membros. POR CORRESPONDÊNCIA, ETC.) Alemanha do que às que se situam no interior
do país e que, portanto, a medida violava o
No seu acórdão no processo C-366/98, Na sequência dos progressos das tecnologias artigo 34.º TFUE.
Geffroy (129), o Tribunal decidiu que o artigo 34.º da informação e da comunicação, as mercado-
TFUE «deve ser interpretado no sentido de que rias são transaccionadas no mercado interno Mais especificamente, o Tribunal considerava
se opõe a que uma regulamentação nacional com uma frequência crescente através desses que a Internet é, para as farmácias que não
[...] imponha a utilização de uma determinada canais. Como tal, não é de estranhar que a apli- estão estabelecidas no território alemão, um
língua para a rotulagem dos géneros alimentí- cação do artigo 34.º TFUE às transacções pela meio mais importante para «atingir directa-
cios, sem prever a possibilidade de utilização de Internet que implicam a transferência de merca- mente» o referido mercado (134). O Tribunal
uma outra língua de fácil compreensão pelos dorias de um Estado-Membro para outro tenha explicava que uma proibição que atinge mais
compradores ou de a informação do comprador estado na origem de processos instaurados no as farmácias estabelecidas fora do território ale-
ser assegurada por outras medidas». Tribunal de Justiça. mão pode ser susceptível de tornar mais difícil o
Página 22
acesso ao mercado dos produtos provenientes 3.3.13. RESTRIÇÕES de farmacêutico e a disciplina do seu exercício
de outros Estados-Membros do que o dos pro- À IMPORTAÇÃO DE BENS serem reguladas pelo direito derivado da UE.
dutos nacionais. PARA USO PESSOAL
Contudo, tal como o ilustra o acórdão Escalier
Em seguida o Tribunal analisou as possíveis O artigo 34.º TFUE não só concede às empresas e Bonnarel (138), os particulares que importam
justificações. Quanto aos medicamentos que o direito de importarem bens para finalidades bens para utilização numa sua propriedade
não estão sujeitos a receita médica, o Tribunal comerciais, como também concede aos indi- privada podem estar também sujeitos a certas
considerou que nenhuma das justificações víduos o direito de importarem bens para uso obrigações que são igualmente aplicáveis aos
invocadas pode, validamente, fundamentar a pessoal, como o demonstra o acórdão Schu- importadores que exercem a sua actividade
proibição absoluta da sua venda por corres- macher (137). Neste caso, um particular enco- com fins comerciais. No caso em apreço, foi
pondência. mendou para seu uso pessoal um medicamento instaurado um processo penal a dois indivíduos
importado de França. Porém, as autoridades acusados de terem na sua posse, com vista à
No que respeita aos medicamentos que estão aduaneiras da Alemanha, onde residia esse sua utilização, produtos fitofarmacêuticos para
sujeitos a receita médica, o Tribunal começou indivíduo, recusaram a autorização para a utilização agrícola que não beneficiavam de
por observar que o abastecimento do público introdução no consumo do produto em causa. uma autorização de colocação no mercado.
precisa de uma fiscalização mais estrita. O Tri- O tribunal nacional apresentou ao Tribunal de Os acusados alegaram que as exigências de
bunal considerou que, perante os riscos que Justiça um pedido de decisão a título prejudi- autorização nacional não podem ser aplicadas
se podem ligar à utilização destes medica- cial, colocando a questão de saber se a legisla- aos agricultores que fazem importações não
mentos, a necessidade de poder verificar de ção que proibia um particular de importar para para fins comerciais, mas para fins pessoais. O
uma maneira eficaz e responsável a autenti- seu uso pessoal um medicamento que estava Tribunal entendeu que os Estados-Membros
cidade das receitas prescritas pelos médicos e autorizado no Estado-Membro de importação, são obrigados a sujeitar as importações de pro-
de garantir assim a entrega do medicamento, era vendido sem receita nesse Estado-Mem- dutos fitofarmacêuticos no território nacional
quer ao próprio cliente quer a uma pessoa por bro e fora adquirido numa farmácia de outro a um procedimento de exame, podendo esse
este encarregada de o ir buscar, seria suscep- Estado-Membro, era contrária aos artigos 34.º procedimento revestir a forma de um procedi-
tível de justificar uma proibição da venda por e 36.º TFUE. O Tribunal começou por observar mento dito «simplificado», destinado a verificar
correspondência (135). Além disso, o Tribunal que essa legislação constituía uma infracção ao se um produto necessita de uma autorização
concluiu que a proibição se pode justificar por artigo 34.º TFUE. Examinando as possíveis justi- de colocação no mercado ou se se deve con-
razões de equilíbrio financeiro do sistema de ficações, considerou que a medida se não podia siderar que esse produto já foi autorizado no
segurança social ou de integridade do sistema justificar por razões de protecção da saúde Estado-Membro de importação (139). O Tribunal
nacional de saúde (136). pública. Explicou que a compra de medicamen- observou que os princípios referidos supra são
tos numa farmácia de outro Estado-Membro válidos independentemente da finalidade da
oferece uma garantia equivalente à resultante importação e, por conseguinte, são igualmente
da venda do medicamento numa farmácia aplicáveis aos agricultores que importam pro-
nacional. Esta conclusão era também apoiada dutos, exclusivamente, para as necessidades
pelo facto de as condições de acesso à profissão da sua exploração.
Página 23
4. Outras questões específicas
abrangidas pelo artigo 34.º TFUE
4.1. Importações Estado-Membro, o produto importado paralela- relativo à colocação dos produtos fitofarmacêu-
paralelas de especialidades mente é objecto de uma autorização concedida ticos no mercado» proposto significará que a
farmacêuticas e produtos com base num procedimento «simplificado» importação paralela de produtos fitossanitários
fitofarmacêuticos proporcionalmente (em comparação com um será harmonizada a nível da UE e deixará de ser
procedimento de autorização de colocação no regida pelo artigo 34.º TFUE.
O comércio paralelo de produtos é uma forma mercado), na condição de que:
legal de comércio no mercado interno. É «para- Além disso, deve ser estabelecida uma distin-
lelo» na acepção de que incide sobre produtos • tenha sido concedida uma autorização de ção entre comércio paralelo e reimportação.
que são essencialmente similares aos produtos colocação no mercado ao produto impor- No caso das especialidades farmacêuticas, por
comercializados pelas redes de distribuição dos tado no Estado-Membro de origem; exemplo, significa as transacções em que são
fabricantes ou dos fornecedores originais, mas importadas especialidades farmacêuticas para
tem lugar fora destas redes, ou paralelamente • o produto importado seja essencialmente um Estado-Membro onde são autorizadas,
a elas. O comércio paralelo é consequência das similar a um produto que recebeu já uma tendo sido obtidas anteriormente por uma
diferenças de preço das especialidades farma- autorização de colocação no mercado no farmácia de outro Estado-Membro junto de um
cêuticas (140) ou dos pesticidas (141) quando, Estado-Membro de destino. grossista do Estado-Membro de importação. No
por exemplo, os Estados-Membros fixam ou que a este ponto se refere, o Tribunal conside-
controlam de qualquer outra forma os preços A fim de tentar estabelecer um equilíbrio rou que um produto fabricado no território de
dos produtos comercializados nos respectivos entre os direitos dos importadores paralelos um Estado-Membro, exportado e depois reim-
mercados. O comércio paralelo em princípio e a necessidade de preservar certos objectivos portado nesse mesmo Estado, constitui um pro-
cria uma concorrência saudável e está na ori- de interesse público, tais como a protecção duto importado nos mesmos termos que um
gem de reduções de preço para os consumi- da saúde pública e do ambiente, a Comissão produto fabricado num outro Estado-Membro
dores, constituindo uma consequência directa elaborou directrizes relativas às importações que é directamente introduzido no território
do desenvolvimento do mercado interno, que paralelas, nos seguintes textos: nacional (145). Porém, o Tribunal observou que
garante a livre circulação de mercadorias. tal conclusão se não aplica nos casos em que
• directrizes elaboradas pelo Comité se demonstre que os produtos em causa foram
Embora a segurança e a comercialização inicial Fitossanitário Permanente relativas ao exportados tendo como única finalidade a sua
das especialidades farmacêuticas e dos pro- comércio paralelo de produtos fitossanitá- reimportação, para assim se contornar uma
dutos fitofarmacêuticos sejam reguladas por rios na UE e no EEE (2001) (142); legislação como a que está em causa (146).
legislação da UE, os princípios em que assenta
a legalidade do comércio paralelo nestes pro- • comunicação interpretativa da Comissão
dutos foram definidos pela jurisprudência do sobre as importações paralelas de espe- 4.2. Registo de automóveis
Tribunal, com base nas disposições do Tratado cialidades farmacêuticas cuja colocação no
relativas à livre circulação de mercadorias. mercado foi já autorizada (2003) (143). A legislação nacional em vigor prevê geral-
mente três etapas diferentes de obtenção do
No que se refere às especialidades farmacêu- No decurso de um exercício legislativo de alte- registo de um veículo a motor. Em primeiro
ticas e aos pesticidas, quando as autoridades ração da legislação da UE relativa aos produ- lugar, a homologação das características téc-
competentes do Estado-Membro de destino tos fitossanitários (144), propôs-se em 2007 que nicas do veículo a motor que, na maioria dos
dispõem já das informações necessárias para fossem incluídas na legislação as disposições casos, corresponde à homologação CE. Alguns
fins de protecção da saúde pública ou da segu- expressas que regem as importações paralelas modelos de veículos a motor, contudo, estão
rança ambiental, em consequência de uma destes produtos. A entrada em vigor do «Regu- ainda sujeitos a procedimentos de homolo-
primeira comercialização do produto nesse lamento do Parlamento Europeu e do Conselho gação de âmbito nacional. Em segundo lugar,
Página 24
controlo técnico dos veículos usados, cujo Estado-Membro certifica que um modelo para supor que as disposições técnicas uti-
objectivo é verificar, com o intuito de proteger de veículo cumpre todos os requisitos lizadas para conceder a homologação não
a saúde e a vida das pessoas, se um dado veí- europeus de segurança e de protecção sejam equivalentes às suas.
culo a motor se encontra realmente em bom do ambiente aplicáveis. A homologação As autoridades nacionais não podem
estado de manutenção à data da matrícula. CE é válida em todos os Estados-Membros. solicitar o certificado de conformidade
Finalmente, a matrícula do veículo a motor, O fabricante, na sua qualidade de titular da CE para os veículos matriculados previa-
ou seja, a autorização administrativa para a homologação CE, emite um certificado de mente noutro Estado-Membro se o cer-
entrada do veículo na circulação rodoviária, o conformidade CE que comprova que o veí- tificado de matrícula anterior do veículo
que implica a sua identificação e a emissão de culo foi fabricado em conformidade com for inteiramente conforme ao modelo
um número de matrícula. o modelo de veículo homologado. Não da Directiva 1999/37CE. Não obstante,
se pode requerer que os veículos novos as autoridades nacionais podem soli-
A Comissão actualizou em 2007 a comunicação com homologação CE acompanhados de citar o certificado de conformidade CE
interpretativa relativa aos procedimentos de um certificado de conformidade válido de veículos matriculados previamente
matrícula de veículos provenientes de outro voltem a ser sujeitos a um novo processo noutro Estado-Membro se o certificado
Estado-Membro (147). Esta comunicação estabe- de homologação das suas características de matrícula não harmonizado emitido
lece em pormenor as condições mínimas que técnicas ou para verificação da conformi- pelo outro Estado-Membro lhes não per-
os procedimentos de registo de automóveis dade com requisitos técnicos adicionais mitir identificar o veículo a motor com
devem respeitar. relativos à sua construção e ao seu fun- suficiente exactidão. Se o veículo a motor
cionamento, a não ser que tenham sido não possuir certificado de conformidade
No caso de veículos a motor matriculados manifestamente modificados após a saída CE, as autoridades nacionais podem soli-
previamente noutro Estado-Membro, o de fábrica. citar um certificado de conformidade
Estado-Membro de matrícula pode solicitar Os veículos a motor que não são abrangi- nacional.
apenas a apresentação dos seguintes docu- dos pela homologação CE beneficiam de
mentos: procedimentos de homologação nacional 3) Prova de pagamento do IVA, se o veículo
de modelo ou de homologação nacional for novo, para efeitos de tributação do IVA.
1) O original ou uma cópia do certificado de individual. Anteriormente os procedimen-
matrícula emitido noutro Estado-Membro: tos de homologação nacional de veículos 4) Um certificado de seguro.
o certificado de matrícula harmoni- a motor que tinham já obtido uma homo-
zado emitido por um Estado-Membro logação nacional noutro Estado-Membro e 5) Um certificado de controlo técnico, se o
deve ser reconhecido pelos demais de veículos a motor que estavam já matri- controlo técnico for obrigatório para todas
Estados-Membros para nova matrícula culados noutro Estado-Membro recaíam as matrículas de veículos a motor previa-
do veículo noutro Estado-Membro (148). no âmbito de aplicação dos artigos 34.º mente matriculados no mesmo ou noutro
Porém, muitos veículos matriculados e 36.º TFUE (150). Actualmente, ao abrigo Estado-Membro. O certificado de controlo
antes de 2004 mantêm ainda o certificado da nova Directiva 2007/46/CE relativa à técnico anterior à matrícula deve satisfazer
de matrícula não harmonizado. homologação, a homologação nacional pelo menos as mesmas condições proces-
e os procedimentos de homologação suais da homologação das características
2) O certificado de conformidade CE ou individual foram harmonizados. Se bem técnicas do veículo (151).
nacional: todos os automóveis de pas- que a validade da homologação se res-
sageiros construídos em série e homo- trinja ao Estado-Membro que concedeu a Num acórdão recente, o Tribunal confirmou
logados desde 1996 estão, em princípio, homologação, outro Estado-Membro deve que as proibições gerais de matrícula de veícu-
sujeitos à homologação CE (149). Trata-se autorizar a venda, a matrícula ou a circula- los usados importados infringem o artigo 34.º
de um procedimento através do qual um ção do veículo, a menos que tenha razões TFUE (152).
(147) Comunicação interpretativa da Comissão relativa aos procedimentos de matrícula de veículos provenientes de outro Estado-Membro (JO C 68 de 24.3.2007, p. 15).
(148) Nos termos do artigo 4.º da Directiva 1999/37/CE do Conselho, de 29 de Abril de 1999, relativa aos documentos de matrícula dos veículos (JO L 138 de 1.6.1999,
p. 57).
(149) Esta matéria é regida pela Directiva 2007/46/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 5 de Setembro de 2007, que estabelece um quadro para a homologação
dos veículos a motor e seus reboques, e dos sistemas, componentes e unidades técnicas destinados a serem utilizados nesses veículos (JO L 263 de 9.10.2007, p. 1). A
Directiva 2007/46/CE substitui a Directiva 70/156/CEE do Conselho, de 6 de Fevereiro de 1970, relativa à aproximação das legislações dos Estados-Membros respeitantes
à homologação dos veículos a motor e seus reboques.
(150) Processo 406/85, Procureur de la République/Daniel Gofette e Alfred Gilliard, Colectânea 1987, p. 2525.
(151) Processo 50/85, Bernhard Schloh/Auto contrôle technique, Colectânea 1986, p. 1855; processo C-451/99, Cura Anlagen GmbH/Auto Service Leasing, Colectânea 2002,
p. I-3193.
(152) Processo C-524/07, Comissão/Áustria, 2008, ainda não publicado.
Página 25
5. Entraves à exportação
(artigo 35.º TFUE)
O artigo 35.º TFUE estipula que: «São proibi- Há várias razões para esta interpretação tão res- a última condição do princípio Groenveld («em
das, entre os Estados-Membros, as restrições tritiva do artigo 35.º TFUE. Em primeiro lugar, detrimento da produção ou do comércio de
quantitativas à exportação, bem como todas no caso das importações, as medidas não dis- outros Estados-Membros») (157). Este teste, que
as medidas de efeito equivalente». criminatórias podem impor um duplo encargo foi aplicado numa série de acórdãos do Tribu-
aos importadores, visto que devem cumprir as nal (158), é conforme com a evolução no domínio
regulamentações do seu próprio país e do país da livre circulação dos trabalhadores (159) e da
5.1. «Exportações» de importação. Assim, essas medidas são consi- livre prestação de serviços (160).
deradas como sendo justificadamente abrangi-
No contexto do artigo 35.º TFUE, o termo das pela legislação da UE de protecção do mer- Além disso, em alguns casos o Tribunal não se
«exportações» refere-se ao comércio entre Esta- cado interno. Não é o caso dos exportadores, que referiu à condição de garantir uma vantagem
dos-Membros, ou seja, às exportações de um devem apenas cumprir as mesmas regulamen- particular à produção nacional (161). Num pedido
Estado-Membro para outros Estados-Membros. tações estabelecidas para o mercado interno e de decisão prejudicial recente (162), o Tribunal
Não se aplica às exportações para um país que o mercado de exportação. Em segundo lugar, se abordou a legislação belga que proíbe o vende-
não pertença à UE. o âmbito de aplicação do artigo 35.º TFUE fosse dor de pedir um adiantamento ou pagamento
demasiado alargado, abrangeria restrições que durante o prazo de resolução de sete dias
se não referem ao comércio intra-UE (154). durante o qual o consumidor pode rescindir
5.2. Restrições um contrato de venda à distância. Apesar de a
quantitativas e medidas No processo Rioja, a diferença de tratamento proibição de receber adiantamentos se aplicar a
de efeito equivalente surgiu em consequência de melhores condi- todos os operadores económicos que exercem
ções de produção ou comércio para as empre- a sua actividade no território nacional, o Tri-
Embora o artigo 35.º TFUE e o artigo 34.º TFUE sas nacionais (155). No processo Parma, assumiu bunal considera que essa proibição na prática
tenham formulações muito semelhantes, há a forma da concessão de uma vantagem espe- afecta mais a saída de produtos do mercado
uma diferença clara entre ambos, na medida cífica às empresas situadas na região de produ- do Estado-Membro de exportação do que a
em que o artigo 35.º TFUE basicamente se aplica ção, uma vez que a utilização da denominação comercialização dos produtos no mercado
apenas a medidas que estabelecem uma discri- de origem protegida «Prosciutto di Parma» pelo nacional desse Estado-Membro. Um aspecto
minação contra certas mercadorias. Este princí- presunto comercializado em fatias foi subor- interessante deste caso reside no facto de os
pio foi estabelecido no acórdão Groenveld (153), dinada à condição de as operações de corte e efeitos do entrave dificultarem principalmente
em que o Tribunal declarou que o artigo 35.º de embalagem serem efectuadas na região de as actividades comerciais de empresas estabe-
TFUE «visa as medidas nacionais que têm por produção (156). Estas vantagens para o mercado lecidas no Estado-Membro de exportação e não
objectivo ou por efeito restringir especifica- nacional criavam desvantagens competitivas no Estado-Membro de destino.
mente os fluxos de exportação e estabelecer às empresas estabelecidas noutros Estados-
assim uma diferença de tratamento entre o -Membros, devido aos custos suplementares De um modo geral, a posição adoptada pelo
comércio interno de um Estado-Membro e o seu que podem ocorrer ou à dificuldade em obter Tribunal parece ser a de que o artigo 35.º TFUE
comércio de exportação, de forma a garantir certos produtos que são necessários para con- abrange entraves ao comércio que têm um
uma vantagem particular à produção nacional correr com o mercado nacional. efeito real e específico para as exportações e
ou ao mercado interno do Estado interessado, que criam uma diferença de tratamento entre
em detrimento da produção ou do comércio Em algumas das suas decisões tomadas ao o comércio interno de um Estado-Membro e
de outros Estados-Membros». abrigo do artigo 35.º TFUE, o Tribunal omitiu as exportações.
(153) Processo 15/79, P. B. Groenveld BV/Produktschap voor Vee en Vlees, Colectânea 1979, p. 3409; ver também processo C-12/02, Marco Grilli, Colectânea 2003, p. I-11585,
n.º 41.
(154) P. Oliver e S. Enchelmaier: «Free movement of goods: Recent developments in the case law», CML Rev. 44, 2007, p. 686.
(155) Processos C-47/90, Delhaize/Promalvin, Colectânea 1992, p. I-3669 (neste processo o Tribunal omitiu na sua argumentação a condição de garantir uma vantagem
particular à produção nacional, embora essa vantagem fosse manifesta, com base nos factos).
(156) Processo C-108/01, Consorzio del Prosciutto di Parma, Colectânea 2003, p. I-5121.
(157) Processo 155/80, Oebel, Colectânea 1981, p. I-3147.
(158) Processos C-47/90, Delhaize/Promalvin, Colectânea 1992, p. I-3669, n.º 12; C-80/92, Comissão/Bélgica, Colectânea 1994, p. I-1019, n.º 24; C-203/96, Dusseldorp/Minister
van Milieubeheer, Colectânea 1998, p. I-4075; C-209/98, FFAD/Københavns Kommune, Colectânea 2000, p. I-3743, n.º 34.
(159) Processos C-415/93, Bosman, Colectânea 1995, p. I-4921; C-18/95, Terhoeve, Colectânea 1999, p. I-345.
(160) Processo C-384/93, Alpine Investments, Colectânea 1995, p. I-1141.
(161) Processo C-388/95, Reino da Bélgica/Reino de Espanha, Colectânea 2000, p. I-3123, n.º 41.
(162) Processo C-205/07, Gysbrechts e Santurel Inter, 2008, ainda não publicado.
Página 26
6. Justificações dos entraves
ao comércio
6.1. Artigo 36.º TFUE harmonização na UE, compete aos Estados-Mem- conformidade com as obrigações decorrentes
bros definirem os seus próprios níveis de pro- da legislação da UE. Por exemplo, qualquer proi-
O artigo 36.º TFUE enumera as justificações que tecção. Em caso de harmonização parcial, é fre- bição de importação de produtos cuja comer-
podem ser utilizadas pelos Estados-Membros quente que a própria legislação de harmonização cialização não seja proibida mas sim restringida
em defesa da aplicação de medidas nacionais autorize explicitamente os Estados-Membros a será discriminatória e constituirá uma violação
que restringem o comércio transfronteiriço: «As manterem ou adoptarem medidas mais estritas, das disposições respeitantes à «livre circulação
disposições dos artigos 34.º e 35.º são aplicá- desde que sejam compatíveis com o Tratado. de mercadorias». A maior parte dos casos em
veis sem prejuízo das proibições ou restrições à Nesses casos o Tribunal deverá avaliar as dispo- que o Tribunal admitiu directamente a justifi-
importação, exportação ou trânsito justificadas sições em causa ao abrigo do artigo 36.º TFUE. cação da moralidade pública diziam respeito
por razões de moralidade pública, ordem pública a mercadorias indecentes ou obscenas (168), ao
e segurança pública, de protecção da saúde e da Mesmo que uma medida seja justificável nos passo que noutros casos em que foi invocada a
vida das pessoas e animais ou de preservação das termos de uma das derrogações do artigo 36.º, moralidade pública foram também encontradas
plantas, de protecção do património nacional de não deve «constituir nem um meio de discri- outras justificações interligadas (a protecção da
valor artístico, histórico ou arqueológico, ou de minação arbitrária nem qualquer restrição dis- ordem social, em processos relacionados com
protecção da propriedade industrial e comercial». simulada ao comércio entre os Estados-Mem- jogos de azar (169), a protecção dos menores,
bros». A segunda parte do artigo 36.º TFUE no processo da rotulagem de videogramas (170).
A jurisprudência do Tribunal prevê ainda adicio- destina-se a evitar os abusos por parte dos
nalmente as chamadas exigências imperativas Estados-Membros. Como o declarou o Tribu- A ordem pública é interpretada de forma muito
(por exemplo, a protecção do ambiente) que nal, «a função do segundo período do artigo restritiva pelo Tribunal de Justiça e raramente
um Estado-Membro pode também invocar para [36.º] consiste em impedir que as restrições ao pôde ser invocada para justificar uma derro-
defender medidas nacionais. comércio motivadas pelas razões indicadas gação a título do artigo 36.º Não poderá ser
no primeiro período sejam desviadas da sua invocada, por exemplo, caso seja considerada
O Tribunal de Justiça interpreta restritivamente finalidade e utilizadas de forma a criar discri- uma cláusula de salvaguarda geral ou para ser-
a lista das derrogações do artigo 36.º TFUE, que minações em relação a mercadorias originárias vir apenas objectivos económicos proteccionis-
se referem sempre a interesses não económi- de outros Estados-Membros ou a proteger indi- tas. Sempre que se possa recorrer a outra das
cos (163). Além disso, todas as medidas devem rectamente certas produções nacionais» (167), ou derrogações previstas no artigo 36.º, o Tribunal
respeitar o princípio da proporcionalidade. O seja, adoptar medidas proteccionistas. de Justiça prefere esta solução alternativa, ou a
ónus da prova de que se justificam as medi- justificação da ordem pública combinada com
das adoptadas nos termos do artigo 36.º TFUE 6.1.1. MORALIDADE PÚBLICA, outras justificações possíveis (171). A justificação
incumbe ao Estado-Membro (164), mas quando ORDEM PÚBLICA E SEGURANÇA da ordem pública só por si apenas foi aceite
um Estado-Membro apresenta justificações PÚBLICA num caso excepcional em que um Estado-Mem-
convincentes, compete à Comissão demonstrar bro estava a restringir a importação e a exporta-
que as medidas tomadas não são adequadas Os Estados-Membros podem decidir proibir um ção de moedas de ouro de colecção. O Tribunal
nesse caso específico (165). produto por razões de moralidade. Competirá a considerou que a restrição se justificava devido
cada Estado-Membro definir as normas que per- à necessidade de proteger o direito de cunhar
O artigo 36.º TFUE não pode ser invocado para mitam que os produtos cumpram a legislação moeda, que é considerado tradicionalmente
justificar derrogações à legislação da UE harmo- nacional em matéria de moralidade, mas esses como susceptível de pôr em causa interesses
nizada (166). Por outro lado, quando não existe poderes discricionários devem ser exercidos em fundamentais do Estado (172).
(163) Processo C-120/95, Decker, Colectânea 1998, p. I-1831; processo 72/83, Campus Oil, Colectânea 1984, p. 2727.
(164) Processo 251/78, Denkavit Futtermittel/Ministério da Agricultura, Colectânea 1979, p. 3369.
(165) Processo C-55/99, Comissão/França, Colectânea 2000, p. I-11499.
(166) Processo C-473/98, Kemikalieinspektionen/Toolex Alpha, Colectânea 2000, p. I-5681; processo 5/77, Tadeschi/Denkavit, Colectânea 1977, n.º 1555.
(167) Processo 34/79, Henn e Darby, Colectânea 1979, p. 3795, n.º 21, bem como processos apensos C-1/90 e C-176/90, Aragonesa de Publicidad Exterior e Publivía, Colec-
tânea 1991, p. I-4151, n.º 20.
(168) Processo 121/85, Conegate/Customs and Excise Comissioners, Colectânea 1986, p. 1007; processo 34/79, R/Henn e Darby, Colectânea 1979, p. 3795.
(169) Processo C-275/92 Schindler, Colectânea 1994, p. I-1039, n.º 58 e jurisprudência citada, e processo C-124/97, Läärä e outros, Colectânea 1999, p. I-6067, n.º 33.
(170) Processo C-244/06, Dynamic Medien Vertriebs/Avides Media, Colectânea 2008, p. I-505.
(171) O Tribunal reconheceu que regulamentação «que tem por objectivo orientar o consumo de álcool de forma a prevenir os efeitos prejudiciais causados à saúde das
pessoas e à sociedade pelas substâncias alcoólicas e que, assim, procura combater o abuso do álcool, responde a preocupações de saúde e ordem públicas reconhecidas
pelo artigo 36.° TFUE»; processo C-434/04, Ahokainen e Leppik, Colectânea 2006, p. I-9171, n.º 28.
(172) Processo 7/78, R/Thompson, Colectânea 1978, p. 2247.
Página 27
A justificação da segurança pública tem sido Tratado, a que nível pretendem assegurar essa podia adoptar as referidas medidas de pro-
invocada numa área específica, nomeadamente protecção, em especial qual o grau de severi- tecção sem ter de esperar que a realidade e
a do mercado energético da UE, mas a deci- dade dos controlos a efectuar» (177). No mesmo a gravidade de tais riscos fossem plenamente
são deve limitar-se aos factos precisos e não é acórdão, o Tribunal declarava ainda que uma demonstradas». O princípio define as circuns-
amplamente aplicável. Num desses casos, um regulamentação ou prática nacionais não bene- tâncias em que o legislador nacional, da UE
Estado-Membro impôs que os importadores de ficiam da derrogação prevista no artigo 36.º ou internacional pode adoptar medidas para
petróleo comprassem até 35% das suas necessi- TFUE quando a saúde e a vida das pessoas proteger os consumidores contra riscos para a
dades de petróleo a uma companhia petrolífera podem ser protegidas de forma igualmente saúde que, dada a incerteza no actual estádio
nacional, a preços fixados pelo governo. O Tri- eficaz através de medidas menos restritivas da investigação científica, possam estar asso-
bunal de Justiça considerou que esta medida das trocas intra-UE. ciados a um produto ou serviço.
era claramente proteccionista e uma violação
do artigo 34.º TFUE. Contudo, foi considerada A protecção da saúde e da vida das pessoas O Tribunal de Justiça tem declarado consis-
justificada por razões de segurança pública, isto e animais e a preservação das plantas são as tentemente que os Estados-Membros devem
é, para manter uma refinaria de petróleo econo- razões mais comuns com que os Estados-Mem- proceder a uma avaliação de risco antes de
micamente viável, garantindo o abastecimento bros tentam geralmente justificar os entraves adoptarem medidas de precaução ao abrigo
em épocas de crise (173). à livre circulação de mercadorias. Apesar de a dos artigos 34.º e 36.º TFUE (180). De um modo
jurisprudência do Tribunal nesta matéria ser geral, o Tribunal parece contentar-se com a
O Tribunal aceitou também a justificação por muito extensa, há algumas regras principais conclusão de que subsistem incertezas cien-
razões de segurança pública em casos em que que devem ser observadas: a protecção da tíficas e, após esse facto ter sido estabele-
estava em causa o comércio de mercadorias de saúde não pode ser invocada quando a ver- cido, concede grande latitude de decisão aos
importância estratégica (174) e de mercadorias dadeira finalidade da medida é a protecção Estados-Membros ou às instituições, no que
de dupla utilização (175), « …para evitar o risco do mercado interno, ainda que, na ausência se refere às medidas a tomar (181). Porém, as
de perturbação grave das relações externas de harmonização, caiba ao Estado-Membro medidas não podem ser fundamentadas «numa
ou da coexistência pacífica entre os povos sus- estabelecer o nível de protecção a assegurar; abordagem puramente hipotética do risco» (182).
ceptível de afectar a segurança pública de um as medidas adoptadas devem ser proporcio-
Estado-Membro». Nestes casos o Tribunal decla- nadas, ou seja, limitar-se ao necessário para De um modo geral, quando os Estados-Mem-
rou que o âmbito de aplicação do artigo 36.º atingir a finalidade legítima da protecção da bros pretendem manter ou introduzir medidas
TFUE abrange tanto a segurança interna (por saúde pública. Além disso, as medidas em causa de protecção da saúde ao abrigo do artigo 36.º
exemplo, a detecção e prevenção do crime e a devem ser fundamentadas — devem ser apre- TFUE, compete-lhes provar a necessidade des-
regulação do trânsito de mercadorias), como a sentados elementos de prova e dados (técnicos, sas medidas (183). É também o caso em situ-
segurança externa (176). científicos, estatísticos, nutricionais) relevantes, ações em que está em causa o princípio da
bem como todas as outras informações rele- precaução, como o confirmou o Tribunal de
6.1.2. PROTECÇÃO DA SAÚDE E vantes (178). Justiça em vários processos recentes (184). Nos
DA VIDA DAS PESSOAS E ANIMAIS seus acórdãos, o Tribunal tem sublinhado que
OU PRESERVAÇÃO DAS PLANTAS Aplicação do «princípio da precaução»: o a existência de riscos reais deve ser demons-
(PRINCÍPIO DA PRECAUÇÃO) princípio da precaução foi utilizado pela pri- trada à luz dos resultados mais recentes da
meira vez pelo Tribunal de Justiça no processo investigação científica internacional. Assim,
O Tribunal de Justiça decidiu que «entre os «National Farmers’ Union» (179), encontrando-se compete aos Estados-Membros o ónus inicial
bens ou interesses tutelados pelo artigo [36.º], já implícito em jurisprudência anterior. O Tri- de provarem que podem ser tomadas medidas
a saúde e a vida das pessoas encontram-se em bunal declarou que «tendo em conta a grande de precaução ao abrigo do artigo 36.º TFUE.
primeiro lugar, cabendo aos Estados-Membros incerteza quanto aos riscos apresentados pelos Porém, os Estados-Membros não são obrigados
estabelecer, dentro dos limites impostos pelo animais e produtos em causa, [a Comissão] a provar sem margem para dúvidas a existência
Página 28
de uma relação entre os dados disponíveis e o tidos também em consideração na definição de cas e os direitos de autor. Quanto ao exercí-
risco; basta-lhes demonstrar que existe incer- «património nacional», tais como uma avaliação cio dos direitos de propriedade industrial,
teza científica na área em causa. As instituições de natureza contextual que tome em considera- podem extrair-se dois princípios da jurispru-
da UE avaliarão então o caso apresentado pelo ção o património do Estado-Membro individual. dência sobre a compatibilidade com os arti-
Estado-Membro (185). É provavelmente por esta razão que se deixa gos 34.º-36.º TFUE.
bem claro que «o anexo da presente directiva
6.1.3. PROTECÇÃO não tem por objecto a definição dos bens O primeiro princípio é o de que o Tratado
DO PATRIMÓNIO NACIONAL classificados como «património nacional», na não afecta a existência de direitos de proprie-
DE VALOR ARTÍSTICO, HISTÓRICO acepção do artigo 36.º TFUE, mas unicamente dade industrial conferidos pela legislação dos
OU ARQUEOLÓGICO as categorias de bens susceptíveis de serem Estados-Membros. Sendo assim, a legislação
classificados como tal». nacional relativa à aquisição, transferência e
O dever de um Estado-Membro de proteger extinção desses direitos é aplicável. No entanto,
o seu património nacional e os seus tesouros A Directiva 93/7/CEE foi introduzida em conju- este princípio não se aplica quando haja um
nacionais pode justificar medidas que criam gação com a abolição dos controlos nas fron- elemento discriminatório nas normas nacio-
entraves às importações ou às exportações. teiras nacionais, mas não abrange a restitui- nais (189).
ção de bens já exportados ilicitamente e não
A definição exacta de «património nacional» estabelece medidas de controlo destinadas a O segundo princípio é o de que um direito de
presta-se a diferentes interpretações e embora evitar essas exportações ilícitas. O Regulamento propriedade industrial se esgota quando um
seja evidente que esses bens devem possuir um (CE) n.º 116/2009 relativo às exportações de produto tenha sido legalmente distribuído no
«valor artístico, histórico ou arqueológico» real, bens culturais vai mais longe, impondo um mercado de outro Estado-Membro pelo titular
compete aos Estados-Membros determinarem controlo uniforme, nas fronteiras externas da desse direito, ou com o seu consentimento. Por
quais os bens que são abrangidos por esta cate- Comunidade, das exportações de bens pro- conseguinte, o titular do direito em questão não
goria. Contudo, a Directiva 93/7/CEE (186), rela- tegidos; contudo, estes controlos aplicam-se se pode opor à importação do produto para
tiva à restituição de bens culturais que tenham apenas às exportações para países que não são qualquer Estado-Membro onde o mesmo foi
saído ilicitamente do território de um Estado- Estados-Membros da UE (187). comercializado pela primeira vez. Isto é conhe-
-Membro, pode constituir um instrumento cido como o princípio do esgotamento dos
de interpretação útil. Embora confirme que Por consequência, os Estados-Membros direitos, que não prejudica a possibilidade de
compete aos Estados-Membros definir o seu impõem diversas restrições à exportação de os titulares de direitos de autor ou de comoda-
património nacional, as disposições e o anexo antiguidades e de outros artefactos culturais, tos receberem os montantes a que têm direito
da Directiva podem prestar um contributo para restrições essas que, juntamente com procedi- resultantes de cada utilização (190).
a interpretação, em caso de dúvida. A Directiva mentos administrativos conexos como o pre-
refere que o património nacional pode incluir: enchimento de formulários de declaração e a Actualmente, porém, estes dois aspectos são
apresentação de documentos comprovativos, geralmente abrangidos por legislação harmo-
• os bens repertoriados nos inventários dos são geralmente consideradas justificadas ao nizada como a Directiva 89/104/CE relativa
museus, arquivos e fundos de conservação abrigo do artigo 36.º TFUE. As tentativas dos às marcas.
das bibliotecas; Estados-Membros de desencorajar a exporta-
ção de tesouros artísticos através de uma impo- Note-se que, além de patentes, marcas, direitos
• quadros, pinturas, esculturas; sição fiscal não foram, porém, consideradas jus- de autor e direitos de desenhos ou modelos,
tificadas, uma vez que essa iniciativa constitui as denominações geográficas constituem tam-
• livros; uma medida equivalente a um direito adua- bém propriedade industrial e comercial, para
neiro (artigo 30.º TFUE), para a qual não pode efeitos do artigo 36.º TFUE (191).
• meios de transporte; ser invocado como justificação o artigo 36.º
TFUE (188).
• arquivos. 6.2. Exigências imperativas
6.1.4. PROTECÇÃO
A directiva tenta definir os bens que recaem no DA PROPRIEDADE INDUSTRIAL No acórdão Cassis de Dijon, o Tribunal de Justiça
seu âmbito de aplicação, referindo no respec- E COMERCIAL estabeleceu o conceito de exigências imperati-
tivo anexo características como a propriedade, vas sob a forma de uma lista não exaustiva de
a antiguidade e o valor do bem, mas é evidente Os tipos mais importantes de propriedade interesses protegidos no âmbito do artigo 34.º
que há mais alguns factores que devem ser industrial e comercial são as patentes, as mar- TFUE. Neste acórdão, o Tribunal declarava que
(185) A Comissão adoptou uma comunicação relativa ao princípio da precaução, COM(2000) 1 final.
(186) Directiva 93/7/CEE do Conselho, de 15 de Março de 1993, relativa à restituição de bens culturais que tenham saído ilicitamente do território de um Estado-Membro.
(187) Regulamento (CE) n.º 116/2009 do Conselho, de 18 de Dezembro de 2008, relativo às exportações de bens culturais, JO L 39 de 10.2.2009, p. 1-6.
(188) Processo 7/68, Comissão/Itália, Colectânea 1968, p. 423.
(189) Processo C-235/89, Comissão/Itália, Colectânea 1992, p. I-777.
(190) Processo 187/80, Merck/Stephar, Colectânea 1981, p. 2063; processos apensos C-267/95 e 268/95, Merck/Primecrown, Colectânea 1996, p. I-6285; processo 78/70,
Deutsche Grammophon/Metro, Colectânea 1971, p. 487.
(191) Processo C-3/91, Exportur/LOR, Colectânea 1992, p. I-5529, e processo C-388/95, Bélgica/Espanha, Colectânea 2000, p. I-3123.
Página 29
estas exigências imperativas dizem respeito, • uma proibição da importação de resíduos pro- 6.2.2. DEFESA
nomeadamente, à eficácia do controlo fis- venientes de outros Estados-Membros (195); DOS CONSUMIDORES
cal, à protecção da saúde pública, à lealdade
das transacções comerciais e à defesa • um sistema de depósito e retoma de emba- Certos entraves ao comércio intra-UE resul-
dos consumidores. lagens (196); tantes de disparidades entre as disposições
da legislação nacional devem ser aceites, na
As exigências imperativas, tal como foram • uma proibição de princípio de utiliza- medida em que essas disposições sejam apli-
especificadas pelo Tribunal no acórdão Cassis ção de certas substâncias químicas, que cáveis indistintamente aos produtos nacionais
de Dijon, só podiam ser invocadas para justi- prevê também derrogações quando não e importados e possam ser justificadas para
ficar normas aplicáveis indistintamente. Por exista um produto de substituição menos satisfazer exigências imperativas fundamentais
conseguinte, teoricamente não podem ser perigoso (197); relacionadas com a defesa dos consumidores
utilizadas para justificar medidas discriminató- ou o comércio justo. Tais disposições, para que
rias outras razões além das que são abrangidas • a obrigação de as empresas privadas de sejam admissíveis, devem ser proporcionadas
pelo artigo 36.º TFUE. Embora o Tribunal tenha fornecimento de electricidade comprarem ao objectivo prosseguido e esse objectivo não
encontrado formas de superar esta distinção a electricidade produzida na sua zona de deve poder ser atingido por medidas menos
sem renunciar à sua prática anterior (192), foi fornecimento a partir de fontes de energia restritivas do comércio intra-UE (201). A orien-
alegado que esta distinção é artificial e que o renováveis (198). tação adoptada na jurisprudência do Tribunal
Tribunal está a evoluir no sentido da simpli- é que sempre que os produtos importados
ficação, tratando as exigências imperativas A protecção do ambiente está também estrei- sejam similares aos nacionais, uma etiqueta-
da mesma forma do que as justificações do tamente relacionada com a protecção da vida gem adequada, que pode ser exigida ao abrigo
artigo 36.º TFUE (193). e da saúde das pessoas (199), sendo invocada da legislação nacional, deve bastar para forne-
com uma frequência crescente pelos Esta- cer ao consumidor as informações necessárias
6.2.1. PROTECÇÃO DO AMBIENTE dos-Membros, na sequência dos progressos sobre a natureza do produto. Não é admissível
da ciência e de uma maior sensibilização da uma justificação por razões de defesa do con-
Embora a protecção do ambiente não seja men- opinião pública para esta questão. Porém, o sumidor para medidas desnecessariamente
cionada expressamente no artigo 36.º TFUE, o facto de as justificações ambientais serem invo- restritivas (202).
Tribunal reconheceu que constituía uma exi- cadas com mais frequência não significa que
gência imperativa fundamental. O Tribunal é o Tribunal considere sempre que esta razão é 6.2.3. OUTRAS EXIGÊNCIAS
de opinião que «a protecção do ambiente» é suficiente para justificar qualquer medida, seja IMPERATIVAS
«um dos objectivos essenciais da Comunidade», de que tipo for. Efectivamente, nestes últimos
«susceptíveis de justificar, enquanto tais, certas anos o Tribunal confirmou várias vezes que a O Tribunal reconheceu ocasionalmente outras
limitações ao princípio da livre circulação das saúde pública e as justificações ambientais nem «exigências imperativas» susceptíveis de
mercadorias» (194). sempre são suficientes para inibir a livre circu- justificarem os entraves à livre circulação de
lação de mercadorias. O Tribunal defendeu em mercadorias:
O Tribunal considerou justificada uma série vários processos que as medidas nacionais eram
de medidas nacionais, com base na protecção desproporcionadas em relação ao objectivo a Melhoramento das condições de trabalho:
do ambiente: atingir ou que não tinham sido apresentadas ao passo que a saúde e a segurança no traba-
provas do risco alegado (200). lho recaem no âmbito de aplicação da saúde
(192) No processo C-2/90, Comissão/Bélgica (Colectânea 1992, p. I-4431), o Tribunal decidiu que uma medida que podia ser considerada discriminatória não o era, devido
à natureza especial dos objectos em causa, e aceitou depois a justificação ambiental. No processo 320/03, Comissão/Áustria (Colectânea 2005, p. 9871), o Tribunal optou
por considerar que uma medida era aplicável indistintamente, e não indirectamente discriminatória.
(193) P. Oliver, Free movement of goods in the European Community, 2003, 8.3-8.10.
(194) Processo 302/86, Comissão/Dinamarca, Colectânea 1988, p. 4607, n.º 8.
(195) Processo C-2/90, Comissão/Bélgica, Colectânea 1992, p. I-4431.
(196) Processo 302/86, Comissão/Dinamarca, Colectânea 1988, p. 4607.
(197) Processo C-473/98, Toolex Alpha, Colectânea 2000, p. I-5681.
(198) Processo C-379/98, PreussenElektra/Schleswag, Colectânea 2001, p. I-2099.
(199) Em alguns processos, o Tribunal parece ter tratado a protecção do ambiente como fazendo parte da saúde pública e sendo abrangida pelo artigo 36.º TFUE: ver,
por exemplo, processo C-67/97, Bluhme, Colectânea 1998, p. I-8033.
(200) Ver, por exemplo: (1) processos C-319/05, Comissão/Alemanha, Colectânea 2007, p. I-9811; (2) C-186/05, Comissão/Suécia, Colectânea 2007, p. I-129; (3) C-297/05,
Comissão/Países Baixos, Colectânea 2007, p. I-7467; (4) C-254/05, Comissão/Bélgica, Colectânea 2007, p. I-4269; (5) C-432/03, Comissão/Portugal, Colectânea 2005, p. I-9665;
(6) C-114/04, Comissão/Alemanha, ainda não publicado; (7) C-212/03, Comissão/França, Colectânea 2005, p. I-4213; (8) C-463/01, Comissão/Alemanha, Colectânea 2004,
p. I-11705; (9) C-41/02, Comissão/Países Baixos, Colectânea 2004, p. I-11375; (10) C-497/03, Comissão/Áustria, ainda não publicado; (11) C-150/00, Comissão/Áustria,
Colectânea 2004, p. I-3887; (12) C-387/99, Comissão/Alemanha, Colectânea 2004, p. I-3751; (13) C-24/00, Comissão/França, Colectânea 2004, p. I-1277; (14) C-270/02,
Comissão/Itália, Colectânea 2004, p. I-1559; (15) C-122/03, Comissão/França, Colectânea 2003, p. I-15093; (16) C-358/01, Comissão/Espanha, Colectânea 2003, p. I-13145;
(17) C-455/01, Comissão/Itália, Colectânea 2003, p. I-12023; (18) C-192/01, Comissão/Dinamarca, Colectânea 2003, p. I-9693; (19) C-420/01, Comissão/Itália, Colectânea 2003,
p. I-6445.
(201) Processo 120/78, Rewe-Zentral AG/Bundesmonopolverwaltung für Branntwein, Colectânea 1979, p. 649, n.º 8; processo C-313/94, Graffione, Colectânea 1996, p. I-6039,
n.º 17; processo C-3/99, Ruwet, Colectânea 2000, p. I-8749, n.º 50.
(202) Processo C-448/98, Guimont, Colectânea 2000, p. I-10663, relativo à regulamentação francesa que proíbe a comercialização de um queijo sem casca com a deno-
minação «emental»; processo 261/81, Rau/De Schmedt, Colectânea 1982, p. 3961, relativo à exigência belga de que a margarina seja comercializada em embalagens de
forma cúbica.
Página 30
pública referida no artigo 36.º TFUE, o melhora- tível de justificar um entrave à livre circulação prudência do Tribunal de Justiça, uma medida
mento das condições de trabalho constitui uma de mercadorias. estatal deve respeitar o princípio da propor-
«exigência imperativa», mesmo na ausência de cionalidade (209). A medida em questão deve
qualquer consideração ligada à saúde (203). Segurança rodoviária: o Tribunal reconheceu ser necessária para atingir o objectivo invo-
também em vários processos que a segurança cado e este objectivo não poderia ser atingido
Finalidades culturais (204): num processo rela- rodoviária pode constituir uma razão imperiosa através de proibições ou limitações de menor
cionado com legislação francesa destinada a de interesse geral susceptível de justificar um amplitude ou susceptíveis de afectar menos o
promover a criação de obras cinematográficas, entrave à livre circulação de mercadorias (206). comércio intra-UE.
o Tribunal pareceu reconhecer que a protecção
da cultura constitui uma «exigência imperativa» Combate à criminalidade: num processo Ou seja, por outras palavras, os meios esco-
susceptível de justificar restrições às importa- relacionado com uma proibição portuguesa lhidos pelos Estados-Membros devem ser
ções ou às exportações. de afixação de películas coloridas nos vidros limitados ao que é efectivamente necessário
dos veículos automóveis (207), o Tribunal decidiu para assegurar que seja atingido o objectivo
Manutenção do pluralismo da imprensa (205): que o combate à criminalidade pode constituir prosseguido e devem ser proporcionados ao
na sequência de um pedido de decisão pre- uma razão imperiosa de interesse geral suscep- referido objectivo (210).
judicial relativo a uma proibição austríaca de tível de justificar um entrave à livre circulação
publicações que oferecem aos leitores, atra- de mercadorias. Observe-se que, na ausência de normas de
vés de jogos, adivinhas ou concursos, a pos- harmonização a nível europeu, compete aos
sibilidade de ganhar um prémio, o Tribunal Protecção do bem-estar dos animais: no Estados-Membros decidir do nível a que pre-
considerou que a manutenção do pluralismo processo C-219/07, o Tribunal observou que a tendem assegurar a protecção do interesse legí-
da imprensa pode constituir uma exigência protecção do bem-estar dos animais constitui timo prosseguido. Em certas áreas (211), o Tribu-
imperativa que justifica uma restrição à livre um objectivo legítimo de interesse geral. Decla- nal tem concedido aos Estados-Membros uma
circulação de mercadorias. Observou que esse rou também que a importância deste objec- certa «margem de apreciação» relativamente
pluralismo contribui para salvaguardar a liber- tivo se traduziu, nomeadamente, na adopção, às medidas adoptadas e ao nível de protecção
dade de expressão, consagrada pelo artigo 10.º pelos Estados-Membros, do Protocolo rela- assegurado, que pode variar de Estado-Membro
da Convenção para a Protecção dos Direitos do tivo à protecção e ao bem-estar dos animais, para Estado-Membro.
Homem e das Liberdades Fundamentais, que é anexo ao Tratado que institui a Comunidade
um dos direitos fundamentais garantidos pela Europeia (208). Apesar desta relativa liberdade de determina-
ordem jurídica da UE. ção do nível de protecção a assegurar, a mera
Tal como foi já referido supra, a lista de exigên- circunstância de um Estado-Membro ter esco-
Equilíbrio financeiro do sistema de segu- cias imperativas não é exaustiva e o Tribunal lhido um sistema de protecção diferente do
rança social: as finalidades puramente eco- pode decidir que outras «exigências impera- adoptado por um outro Estado-Membro não
nómicas não podem justificar um entrave tivas» são susceptíveis de justificar entraves à pode ter qualquer incidência sobre a aprecia-
à livre circulação de mercadorias. Porém, no livre circulação de mercadorias. ção da necessidade e da proporcionalidade das
processo C-120/95, Decker, relativo à recusa de disposições tomadas na matéria. Estas devem
um Estado-Membro de reembolsar a despesa apenas ser apreciadas à luz dos objectivos
com a compra de uns óculos com lentes de cor- 6.3. Teste da prosseguidos pelas autoridades nacionais do
recção adquiridos num oculista estabelecido proporcionalidade Estado-Membro interessado e do nível de pro-
noutro Estado-Membro, o Tribunal reconheceu tecção que as mesmas pretendem garantir (212).
que um risco grave para o equilíbrio financeiro Para que possa ser considerada justificada
do sistema de segurança social pode constituir ao abrigo do artigo 36.º TFUE ou de uma das Um elemento importante da análise da justi-
uma razão imperiosa de interesse geral suscep- exigências imperativas estabelecidas na juris- ficação apresentada por um Estado-Membro
(203) No processo 155/80, Oebel, Colectânea 1981, p. 1993, o Tribunal de Justiça considerou que a proibição de cozer pão à noite era uma decisão legítima de política
económica e social, num sector manifestamente sensível.
(204) Processos 60-61/84, Cinéthèque SA/Fédération nationale des cinémas français, Colectânea 1985, p. 2605.
(205) Processo C-368/95, Familiapress, Colectânea 1997, p. I-3689.
(206) Processo C-54/05 Comissão/Finlândia, Colectânea 2007, p. I-2473, n.º 40, e jurisprudência citada.
(207) Processo C-265/06, Comissão/Portugal, Colectânea 2008, p. I-2245, n.º 38.
(208) Processo C-219/07, Nationale Raad van Dierenkwekers en Liefhebbers e Andibel, Colectânea 2008, p. I-4475, n.º 27.
(209) Processo C-390/99, Canal Satélite Digital, Colectânea 2002, p. I-607, n.º 33; processo C-254/05, Comissão/Bélgica, Colectânea 2007, p. 4269, n.º 33, e jurisprudência
citada; processo C-286/07, Comissão/Luxemburgo, 2008, ainda não publicado, n.º 36.
(210) Processo C-319/05, Comissão/Alemanha (alho), Colectânea 2007, p. I-9811, n.º 87, e jurisprudência citada.
(211) É nomeadamente o caso dos objectivos de protecção da saúde e da vida das pessoas, que se encontram em primeiro lugar entre os bens ou interesses tutelados
pelo artigo 36.º TFUE. Esta «margem de apreciação» foi também reconhecida em relação a medidas motivadas pela necessidade de assegurar a protecção da ordem
pública, da moralidade pública ou da segurança pública. Para exemplos relacionados com a justificação da saúde pública, ver processo C-322/01, DocMorris, Colectâ-
nea 2003, p. I-14887, n.º 103, e jurisprudência citada; no que respeita à justificação da moralidade pública, ver processos 34/79, Henn e Darby, Colectânea 1979, p. 3795,
e C-244/06, Dynamic Medien, Colectânea 2008, p. I-505; no que respeita a medidas relacionadas com o álcool e a justificação por razões de protecção da saúde pública
e da ordem pública, ver processo C-434/04, Ahokainen e Leppik, Colectânea 2006, p. I-9171; no que respeita a medidas contra os jogos de azar e à justificação por razões
de moralidade pública, ordem pública e segurança pública, ver processo C-65/05, Comissão/Grécia, Colectânea 2006, p. I-10341; no que respeita a medidas relacionadas
com a protecção dos animais, ver processo C-219/07, Nationale Raad van Dierenkwekers en Liefhebbers e Andibel, Colectânea 2008, p. I-4475.
(212) Processo C-124/97, Läärä e outros, Colectânea 1999, p. I-6067, n.º 36.
Página 31
consistirá, portanto, na existência de medidas natória do sistema (215). Se um Estado-Membro vas susceptíveis de serem invocadas por um
alternativas que coloquem menos entraves ao puder demonstrar que a adopção da medida Estado-Membro devem ser acompanhadas
comércio. O Estado-Membro tem obrigação alternativa teria tido um efeito prejudicial para das provas apropriadas ou de uma análise
de optar pela «alternativa menos restritiva» e outros interesses legítimos, isto teria de ser da oportunidade e da proporcionalidade da
o facto de o não fazer constitui uma violação tomado em consideração na apreciação da medida restritiva adoptada por esse Estado,
do princípio da proporcionalidade. O Tribunal proporcionalidade (216). bem como de elementos precisos que permi-
concluiu em várias ocasiões que as medidas tam sustentar a sua argumentação (217). A este
estatais não eram proporcionadas porque esta- respeito, a mera afirmação de que a medida se
vam disponíveis alternativas (213). Nesta matéria, 6.4. Ónus da prova justifica com base numa das razões aceites ou
o Estado-Membro é também obrigado a prosse- a ausência de análises de possíveis alternativas
guir de forma coerente e sistemática os objec- Cabe ao Estado-Membro que invoca uma serão consideradas insatisfatórias (218). Porém,
tivos invocados e a evitar as incoerências entre justificação para uma restrição à livre circu- o Tribunal observou recentemente que este
as medidas que são ou não escolhidas (214). No lação de mercadorias provar concretamente ónus de prova não pode ir até à exigência de
processo C-249/07, o Tribunal apontou, por a existência de uma razão de interesse geral, que o Estado-Membro prove positivamente
exemplo, algumas incoerências no sistema de a necessidade da restrição em causa e o seu que nenhuma outra medida imaginável per-
concessão de autorizações que comprovavam carácter proporcionado relativamente ao mitiria atingir esse objectivo nas mesmas con-
a falta de objectividade e a natureza discrimi- objectivo prosseguido. As razões justificati- dições (219).
(213) Ver processo 104/75, De Peijper, Colectânea 1976, p. 613; processo C-54/05, Comissão/Finlândia, Colectânea 2007, p. I-2473, n.º 46, e processo C-297/05, Comissão/
/Países Baixos, Colectânea 2007, p. I-7467, n.º 79, em que o Tribunal refere alternativas disponíveis às medidas contestadas.
(214) Ver processo C-500/06, Corporación Dermoestética, 2008, ainda não publicado, n.º 39; processo C-169/07, Hartlauer, 2009, ainda não publicado, n.º 55.
(215) Processo C-249/07, Comissão/Países Baixos, 2008, ainda não publicado, n.os 47-50.
(216) Ver conclusões do advogado-geral Poiares Maduro no processo C-434/04, Ahokainen e Leppik, Colectânea 2006, p. I-9171, n.º. 25.
(217) Processo C-14/02, ATRAL, Colectânea 2004, p. I-4431, n.º 69; processo C-254/05, Comissão/Bélgica, Colectânea 2007, p. I-4269, n.º 36.
(218) Processo C-265/06, Comissão/Portugal, Colectânea 2008, p. I-2245, n.os 40-47.
(219) Processo C-110/05, Comissão/Itália, 2009, ainda não publicado, n.º 66.
Página 32
7. Relação com outras
liberdades e artigos do Tratado
CE relacionados com a livre
circulação de mercadorias
7.1. Artigo 45.º TFUE «[o imposto] pode influenciar de forma nega- 7.2. Artigo 56.º TFUE
— Livre circulação tiva a decisão de os trabalhadores migrantes — Livre prestação de serviços
dos trabalhadores exercerem o seu direito à livre circulação» (221).
Todavia, o Tribunal rejeitou por outras razões o A livre prestação de serviços (artigo 56.º TFUE, ex-
O artigo 45.º TFUE (ex-artigo 39.º CE) assegura argumento do casal de que o imposto violava -artigo 49.º CE), uma das liberdades fundamen-
a livre circulação dos trabalhadores na UE. Esta o artigo 45.º TFUE. Observe-se que o Tribunal tais consagradas no Tratado CE, está estreita-
liberdade implica a abolição de toda e qual- se não pronunciou sobre a questão de saber mente relacionada com a livre circulação de
quer discriminação em razão da nacionalidade se restrições desse tipo deveriam ser trata- mercadorias. As duas liberdades relacionam-se
entre os trabalhadores migrantes da UE e os das exclusivamente ao abrigo do artigo 34.º com transacções económicas, principalmente
trabalhadores nacionais, no que diz respeito ao TFUE (222). Além disso, não há ainda certezas de natureza comercial, entre Estados-Membros.
emprego, à remuneração e demais condições no que se refere às situações em que seria mais Devido a esta proximidade, acontece por vezes
de trabalho, bem como às vantagens fiscais e vantajoso aplicar o artigo 45.º TFUE em vez do que uma medida nacional específica restringe
sociais. O artigo 45.º TFUE proíbe não só a dis- artigo 34.º TFUE, tendo em conta que a primeira tanto a circulação de mercadorias (artigo 34.º
criminação em razão da nacionalidade, como disposição se aplica apenas aos nacionais de um TFUE) como a livre prestação de serviços
também as regulamentações nacionais que Estado-Membro. (artigo 56.º TFUE).
são aplicáveis independentemente da nacio-
nalidade dos trabalhadores em causa, mas que Observe-se que, segundo a jurisprudência do Efectivamente, um determinado requisito
obstam à sua liberdade de circulação. Tribunal, as regulamentações nacionais que exi- relacionado com a distribuição ou a venda por
gem a matrícula ou a tributação de um veículo grosso ou a retalho de mercadorias pode restrin-
Os problemas relacionados com a circulação automóvel de uma empresa no Estado-Membro gir simultaneamente a livre circulação de mer-
dos bens pessoais do trabalhadores podem teo- de residência do trabalhador que utiliza esse cadorias e a livre prestação de serviços de distri-
ricamente ser apreciados à luz do artigo 34.º veículo, mesmo que a entidade patronal que buição comercial. Como o reconheceu o Tribunal
TFUE ou do artigo 45.º TFUE. O Tribunal abordou disponibilizou o veículo ao trabalhador esteja no acórdão Praktiker Bau- und Heimwerkermärkte,
esta questão no processo Weigel (220), que dizia estabelecida noutro Estado-Membro e mesmo «o objectivo do comércio a retalho é a venda
respeito à transferência dos veículos a motor de que o veículo seja utilizado essencialmente de produtos aos consumidores. Este comércio
um casal do seu próprio país (Alemanha) para o no Estado-Membro de estabelecimento da compreende, além do acto jurídico de venda,
Estado-Membro onde o marido se empregara entidade patronal, constitui uma violação do toda a actividade desenvolvida pelo operador
(Áustria). Quando o casal matriculou os seus artigo 45.º TFUE (223), pois tendo tal medida por com vista a incitar à celebração deste acto. Esta
veículos a motor na Áustria, foi-lhe cobrado um efeito impedir um trabalhador de beneficiar de actividade consiste, nomeadamente, na selecção
imposto de montante excessivo. O casal alegou determinadas vantagens e, designadamente, de uma gama de produtos propostos para venda
que o imposto os poderia dissuadir de exercer da colocação à disposição de um veículo, e na oferta de diversas prestações destinadas a
os seus direitos ao abrigo do artigo 45.º TFUE. pode, portanto, dissuadi-lo de trabalhar nou- levar o consumidor a celebrar o referido acto
tro Estado-Membro. com o comerciante em questão, em vez de o
O Tribunal concordou, em princípio, com este fazer com um seu concorrente» (224).
argumento, na medida em que considerou que
Página 33
Assim, por exemplo, as restrições à publicidade de acesso à televisão digital e aos respectivos ção estatal ou, por delegação, a uma organi-
(por exemplo, publicidade às bebidas alcoóli- equipamentos foi apreciada simultaneamente zação privada.
cas) (225) podem, por um lado, afectar o sector da à luz dos dois artigos (229).
promoção, enquanto actividade de prestação O artigo 37.º TFUE tem um efeito directo,
de serviços e, por outro lado, o efeito dessas aplicando-se apenas a mercadorias (portanto,
restrições pode estar relacionado com produtos 7.3. Artigo 63.º TFUE não abrange a livre prestação de serviços ou
específicos e as respectivas possibilidades de — Livre circulação de capitais os movimentos de capitais (232). Além disso, a
penetração no mercado, criando assim entra- disposição do Tratado diz respeito a actividades
ves ao comércio de produtos. As disposições O artigo 63.º TFUE (ex-artigo 56.º CE), que diz relacionadas intrinsecamente com a actividade
nacionais que proíbem a venda de produtos respeito à livre circulação da capitais entre específica de um monopólio, sendo portanto
em leilão, em certas circunstâncias, podem, por os Estados-Membros, protege as operações irrelevante para disposições nacionais que não
exemplo, ser consideradas por um lado como financeiras no mercado interno. Embora essas apresentem essa relação.
impeditivas da actividade de prestação de ser- transacções impliquem regularmente o investi-
viços do leiloeiro, ao mesmo tempo que, por mento de fundos (230), não se pode excluir que, Pode argumentar-se, por um lado, que essas
outro lado, podem criar entraves à venda de em circunstâncias específicas, digam também disposições nacionais são abrangidas por
mercadorias (226). respeito a transferências em espécie. Num acór- outras disposições do Tratado, tais como, por
dão recente, o Tribunal decidiu que quando exemplo, o artigo 34.º TFUE. Esta abordagem
O Tribunal considerou que o artigo 57.º TFUE um contribuinte solicita num Estado-Membro a sugere que o artigo 37.º TFUE constitui uma
não estabelece uma ordem de prioridades dedução fiscal de donativos feitos a instituições lex specialis em relação à disposição geral pre-
entre a livre prestação de serviços e as outras com sede e de reconhecida utilidade pública vista no artigo 34.º TFUE. No processo Franzén,
liberdades fundamentais (227). Provavelmente noutro Estado-Membro, esses donativos estão relativo ao monopólio nacional sueco de venda
por razões de economia processual, quando abrangidos pelo artigo 63.º TFUE, mesmo se a retalho de bebidas alcoólicas, o Tribunal
uma medida nacional afecta mais do que uma efectuados em espécie sob a forma de bens de decidiu que «as normas relativas à existência e
liberdade fundamental, o Tribunal geralmente consumo corrente (231). funcionamento do monopólio» (233) devem ser
examina essa medida apenas à luz de uma apreciadas à luz do artigo 37.º TFUE, ao passo
liberdade fundamental. Para tal determina qual que «a incidência... das outras disposições da
das liberdades fundamentais prevalece (228). 7.4. Artigo 37.º TFUE legislação nacional, que são destacáveis do
Por conseguinte, na maior parte dos casos é — Monopólios estatais funcionamento do monopólio embora tenham
necessário identificar o ponto focal principal da incidência neste último, deve ser apreciada à
medida nacional: quando se relaciona com mer- Nos termos do n.º 1 do artigo 37.º TFUE luz do [artigo 34.º TFUE]» (234). Esta conclusão
cadorias, aplica-se o artigo 34.º TFUE; quando (ex-artigo 31.º CE), «os Estados-Membros adap- parece ter sido confirmada no processo Han-
está relacionada com a prestação de serviços, tam os monopólios nacionais de natureza ner, relacionado com um monopólio nacional
aplica-se o artigo 56.º TFUE. Por exemplo, no comercial, de modo a que esteja assegurada a sueco de venda a retalho de medicamentos, em
caso de leilões ou de vendas ambulantes, o Tri- exclusão de toda e qualquer discriminação entre que o Tribunal argumentou que o artigo 37.º
bunal considerou que o aspecto da prestação nacionais dos Estados-Membros quanto às con- TFUE «tem em vista a eliminação dos entraves
de serviços era secundário e, portanto, não o dições de abastecimento e de comercialização». à livre circulação de mercadorias, com excep-
tomou em consideração no âmbito da apre- ção dos efeitos restritivos nas trocas comerciais
ciação jurídica do caso. Isto não significa que os monopólios devam que são inerentes à existência dos monopólios
ser abolidos, mas apenas que devem ser em causa» (235). Mais recentemente, o Tribunal
Contudo, esta abordagem do ponto focal nem adaptados de modo a excluir toda e qualquer explicou, no processo Rosengren, que «embora
sempre funciona. Num processo no sector das possibilidade de discriminação. Regra geral, a medida em causa no processo principal...
telecomunicações, o Tribunal concluiu que o o artigo 37º TFUE aplica-se em circunstâncias afecte a livre circulação de mercadorias na
aspecto da livre circulação das mercadorias e em que uma intervenção do Estado: 1) con- Comunidade Europeia, não regula, enquanto
o da livre prestação de serviços estavam inti- cede exclusividade de direitos de compra ou tal, o exercício, por esse monopólio [monopólio
mamente ligados. Por conseguinte, a questão de venda, possibilitando assim o controlo das sueco da comercialização de bebidas alcoóli-
da compatibilidade com a legislação da UE das importações ou das exportações; 2) concede cas], do respectivo direito exclusivo de venda
restrições impostas aos operadores de serviços direitos a uma empresa estatal, a uma institui- a retalho de bebidas alcoólicas no território
Página 34
sueco. Assim, não se pode considerar que essa obsta, de modo algum, a que a compatibili- os produtos importados, mas a imposição que
medida, que, por conseguinte, não diz respeito dade de um regime de auxílios seja apreciada incide sobre os produtos nacionais é directa ou
ao exercício da respectiva função específica por em relação a outras regras da UE, como os indirectamente compensada, ou seja, se o seu
esse monopólio, é relativa à própria existência artigos 34.º-36.º TFUE (239). Ao mesmo tempo, produto se destinar a financiar actividades de
deste último» (236). o mero facto de uma medida de auxílio esta- que beneficiam apenas os produtos nacionais
tal enquanto tal afectar o comércio intra-UE onerados, ao passo que os produtos importa-
Por outro lado, pode também alegar-se que não é em si mesmo suficiente para que a dos não beneficiam desse reembolso, a referida
parece haver uma sobreposição entre o medida seja qualificada simultaneamente taxa pode ser classificada como um direito adu-
artigo 37.º TFUE e outros artigos do Tratado. O como uma medida de efeito equivalente na aneiro ou um encargo de efeito equivalente,
Tribunal considerou, nos processos por incum- acepção do artigo 34.º TFUE. Pelo contrário, atendendo a que, na prática, o «imposto» só é
primento respeitantes a diferentes monopólios o Tribunal estabelece uma distinção entre os pago pelos importadores (243).
nacionais de gás e electricidade (237), que era aspectos que estão indissoluvelmente liga-
efectivamente possível uma aplicação conjunta dos ao objectivo do auxílio e os aspectos que O Tribunal de Justiça atribuiu especial atenção
do artigo 37.º TFUE e do artigo 34.º TFUE. Esta podem ser separados das condições e acções à questão dos chamados «encargos ocultos»,
abordagem significa que uma medida relacio- que, fazendo embora parte do regime de ou seja, disposições nacionais que não são
nada com um monopólio estatal deve come- auxílios, podem ser consideradas como não óbvias, mas que constituem efectivamente
çar por ser examinada ao abrigo do artigo 37.º sendo necessárias à realização do objectivo ou um encargo de efeito equivalente. Por exem-
TFUE. Se a medida em causa é considerada ao funcionamento correcto do auxílio (240). Só plo, num processo em que a legislação alemã
discriminatória, não é já necessário examiná-la estes últimos aspectos são abrangidos pelos sujeitava as transferências de resíduos para
à luz dos artigos 34.º e 35.º TFUE. Em contrapar- artigos 34.º-36.º TFUE. outros Estados-Membros a uma contribuição
tida, caso se conclua que a medida não é discri- obrigatória para um fundo de solidariedade
minatória em conformidade com o artigo 37.º para a reintrodução de resíduos (244) e noutro
TFUE, será necessário examiná-la ao abrigo das 7.6. Artigo 30.º CE processo em que a legislação belga cobrava
disposições gerais relativas à livre circulação — A União Aduaneira uma taxa sobre os diamantes importados (245)
de mercadorias. para financiar um fundo social para os mineiros
Enquanto o artigo 34.º TFUE abrange as bar- belgas, o Tribunal concluiu que esses encar-
reiras comerciais não pautais, todos os direitos gos pecuniários deviam ser consideradas como
7.5. Artigo 107.º TFUE aduaneiros e encargos de efeito equivalente encargos de efeito equivalente. Regra geral,
— Auxílios estatais são proibidos ao abrigo do artigo 30.º TFUE todos os encargos ligados à passagem de uma
(ex-artigo 25.º CE). fronteira, independentemente do respectivo
O artigo 107.º TFUE (ex-artigo 87.º CE) prevê que objectivo, montante ou natureza discriminató-
são incompatíveis com o mercado comum, na É jurisprudência assente que qualquer ria ou proteccionista, devem ser considerados
medida em que afectem as trocas comerciais encargo pecuniário, por mínimo que seja, como encargos de efeito equivalente.
entre os Estados-Membros, os auxílios conce- unilateralmente imposto, sejam quais forem
didos pelos Estados ou provenientes de recur- as suas denominação e técnica, e que onere
sos estatais, independentemente da forma que as mercadorias pelo facto de passarem a 7.7. Artigo 110.º TFUE
assumam, que falseiem ou ameacem falsear a fronteira, quando não seja um direito adu- — Disposições fiscais
concorrência, favorecendo certas empresas ou aneiro propriamente dito, constitui um
certas produções. encargo de efeito equivalente, na acepção do O artigo 110.º TFUE (ex-artigo 90.º CE) constitui
artigo 30.° TFUE (241). Esse encargo escapa, con- um complemento das disposições relativas à
Neste aspecto, as regras relativas aos auxílios tudo, a essa qualificação se fizer parte de um supressão dos direitos aduaneiros e dos encar-
estatais e os artigos 34.º-36.º TFUE têm um sistema geral de imposições internas abran- gos de efeito equivalente. Tem por objectivo
objectivo comum, nomeadamente assegu- gendo sistematicamente, segundo os mesmos assegurar a livre circulação de mercadorias
rar a livre circulação de mercadorias entre os critérios, os produtos nacionais e os produtos entre os Estados-Membros, em condições nor-
Estados-Membros, em condições normais de importados e exportados (242). mais de concorrência, através da eliminação de
concorrência (238). Porém, o seu ponto focal qualquer forma de protecção que possa resultar
é diferente e o facto de uma medida estatal Mesmo quando uma taxa é cobrada indistin- da aplicação de imposições internas discrimina-
ser qualificada como um auxílio estatal não tamente sobre os produtos nacionais e sobre tórias relativamente a produtos originários de
(236) Processo C-170/04, Rosengren, Colectânea 2007, p. I-4071, n.os 21-22; ver também processo C-186/05, Comissão/Suécia, Colectânea 2007, p. I-129.
(237) Processos C-159/94, Comissão/França, Colectânea 1997, p. I-5815, n.º 41; C-158/94, Comissão/Itália, Colectânea 1997, p. I-5789, n.º 33; C-157/94, Comissão/Países
Baixos, Colectânea 1997, p. I-5699, n.º 24.
(238) Processo 103/84, Comissão/Itália, Colectânea 1986, p. 1759, n.º 19.
(239) Processo C-234/99, Nygård, Colectânea 2002, p. I-3657, n.º 56; processo C-351/88, Laboratori Bruneau, Colectânea 1991, p. I-3641, n.º 7.
(240) Processo 74/76, Ianelli, Colectânea 1977, p. 557, n.º 17.
(241) Processo 24/68 Comissão/Itália, Colectânea 1969, p. 193; processos apensos C-441/98 e 442/98, Michaïlidis, Colectânea 2000, p. I-7145, n.º 15.
(242) Processo C-389/00, Comissão/Alemanha, Colectânea 2003, p. I-2001.
(243) Processo C-28/96, Fricarnes, Colectânea 1997, p. I-4939.
(244) Processo C-389/00, Comissão/Alemanha, Colectânea 2003, p. I-2001.
(245) Processo 2-3/69, Social Fonds voor Diamantarbeiders, Colectânea 1969, p. 211.
Página 35
outros Estados-Membros (246). Relativamente aplicando taxas de imposto diferenciadas a pro- publicidade do tabaco (253) foi decisivo, na medida
ao artigo 34.º TFUE, o artigo 110.º é conside- dutos estrangeiros que podem não ser exacta- em que o Tribunal concluiu que o legislador da
rado lex specialis, o que significa que nos casos mente similares a produtos nacionais, mas que UE tinha adoptado legislação que era inadmis-
abrangidos pelo artigo 110.º é excluída a aplica- apesar disso concorrem com esses produtos. sível a nível da UE (254). O Tribunal, ao examinar
ção do artigo 34.º TFUE. Foi o caso no acórdão No processo Comissão/Reino Unido (250), o Reino a validade da directiva contestada, observou
Kawala (247), em que o Tribunal decidiu que uma Unido onerava certos vinhos com uma taxa do que as medidas referidas no artigo 114.º TFUE
taxa sobre a primeira matrícula que onera os imposto especial de consumo que era cerca de se destinam a melhorar as condições do esta-
veículos automóveis usados importados, sendo cinco vezes mais elevada do que aquela que belecimento e do funcionamento do mercado
de carácter fiscal, recai no âmbito de aplicação onera a cerveja. O Reino Unido produz gran- interno. Além disso, quando estejam preenchi-
do artigo 110.º e que, portanto, o artigo 34.º des quantidades de cerveja, mas muito pouco das as condições de recurso ao artigo 114.º TFUE,
TFUE não é aplicável. vinho. Após ter estabelecido a existência de «o legislador comunitário não pode ser impedido
uma relação efectiva de concorrência entre os de se fundar nesta base jurídica por a protecção
Existe violação do artigo 110.°, n.º 1, do TFUE vinhos leves e a cerveja, o Tribunal de Justiça da saúde pública ser determinante nas opções a
sempre que a imposição que incide sobre concluiu que o Reino Unido, ao onerar os vinhos tomar» (255). O Tribunal examinou a validade da
o produto importado e a que incide sobre o leves de uvas frescas com uma taxa do imposto directiva em causa sob dois pontos de vista. Em
produto nacional similar são calculadas de especial de consumo relativamente mais ele- primeiro lugar, verificou se a directiva contribuía
forma diferente e segundo modalidades dife- vada do que aquela que onera a cerveja, não efectivamente para eliminar os entraves à livre
rentes que conduzam, ainda que apenas em cumpriu as obrigações que lhe incumbem por circulação das mercadorias e à livre prestação
certos casos, a uma tributação superior do força do artigo 110.º, n.º 2, do TFUE. de serviços. Em segundo lugar, examinou se a
produto importado. Directiva contribuía para suprimir as distorções
Nos casos em que é cobrada uma taxa sobre os de concorrência.
O Tribunal define produtos similares como os produtos nacionais e sobre os produtos impor-
produtos que apresentam propriedades aná- tados e o seu produto se destina a financiar acti- O acórdão referido supra coloca algumas ques-
logas e satisfazem as mesmas necessidades vidades de que beneficiam apenas os produtos tões interessantes, respeitantes, inter alia, à rela-
dos consumidores. No processo Comissão/ nacionais, compensando assim parcialmente o ção entre os artigos 34.º e 114.º TFUE. No que se
/França (248), de acordo com a argumentação do encargo que incide sobre esses produtos, a refe- refere a esta relação, J. Usher observou que, se
Tribunal, as bebidas espirituosas obtidas a partir rida taxa constitui uma imposição interna discri- «as was held in Gourmet International Products,
de cereais, tais como o whisky, o rum, o gin e o minatória proibida pelo artigo 110.º TFUE (251). a national advertising ban may be justifiable
vodka, são produtos similares às bebidas espi- under Article 36 TFUE, the question arises as
rituosas obtidas a partir do vinho e de frutas, to whether Article 114 TFUE is drafted so as
tais como o cognac, o calvados e o armagnac. 7.8. Artigo 114.º TFUE — to achieve this aim, and in particular whether
Aproximação das legislações it can be used to replace such a national ban
Mesmo que não estejam reunidas as condições with [an EU-]wide ban?» (256) (como se consi-
de uma discriminação directa, uma imposição O artigo 114.º TFUE (ex-artigo 100.º-A CEE), inse- derou no acórdão Gourmet, uma proibição de
pode ser indirectamente discriminatória em rido originalmente no Tratado pelo Acto Único publicidade a nível nacional se pode justificar
razão dos seus efeitos. Dificuldades de ordem Europeu, concede ao legislador da UE poderes ao abrigo do artigo 36.º TFUE, coloca-se a ques-
prática não podem justificar a aplicação de para adoptar «as medidas relativas à aproxima- tão de saber se o artigo 114.º TFUE foi redigido
imposições internas discriminatórias em relação ção das disposições legislativas, regulamen- de forma a atingir este objectivo e, nomeada-
a produtos originários de outros Estados-Mem- tares e administrativas dos Estados-Membros mente, se pode ser utilizado para substituir essa
bros (249). que tenham por objecto o estabelecimento e o proibição nacional por uma proibição a nível
funcionamento do mercado interno». O âmbito [da UE?]). Resta saber mais exactamente como é
O artigo 110.º, n.º 2, destina-se a abranger as de aplicação desta disposição tem sido interpre- que esta relação entre as duas disposições pode
disposições fiscais nacionais que procuram tado de forma muito lata pelo Tribunal (252). Efec- evoluir num mercado interno mais integrado,
proteger indirectamente os produtos nacionais tivamente, pode considerar-se que o acórdão global e competitivo.
(246) Processos apensos C-290/05 e C-333/05, Ákos Nádasdi/Vám- és Pénzügyőrség Észak-Alföldi Regionális Parancsnoksága (C-290/05) e Ilona Németh/Vám- és Pénzügyőrség
Dél-Alföldi Regionális Parancsnoksága (C-333/05), Colectânea 2006, p. I-10115, n.º 45.
(247) Processo C-134/07, Piotr Kawala/Gmina Miasta Jaworzna, Colectânea 2007, p. I-10703.
(248) Processo 168/78, Comissão/França, Colectânea 1980, p. 347.
(249) Processo C-221/06, Stadtgemeinde Frohnleiten, Colectânea 2007, p. I-9643.
(250) Processo 170/78, Comissão/Reino Unido, Colectânea 1983, p. 2265.
(251) Processo C-28/96, Fricarnes, Colectânea 1997, p. I-4939; processo C-206/06, Essent Network Noord, 2008, ainda não publicado.
(252) Ver, por exemplo, processo C-350/92, Espanha/Conselho, Colectânea 1995, p. I-1985, e processo C-300/89, Comissão/Conselho (dióxido de titânio), Colectânea 1991,
p. I-2867.
(253) Processo C-376/98, Alemanha/Parlamento e Conselho, Colectânea 2000, p. I-8419. Este processo dizia respeito à validade da Directiva 98/43, que proíbe todas as
formas de publicidade e patrocínio dos produtos do tabaco na UE.
(254) Dito isto, é claro que não se sabe se a Directiva contestada poderia ter sido adoptada ao abrigo do artigo 352.º TFUE (ex-artigo 308.º CE).
(255) Processo C-376/98, Alemanha/Parlamento e Conselho, Colectânea 2000, p. I-8419, n.º 88.
(256) J. Usher, nota sobre o processo C-376/98, CML Rev. 1519, 2001, p. 1538. No que a este ponto se refere, ver também G. Davies («Can Selling Arrangements be harmo-
nised?», EL Rev. 370, 2005), que defende uma interpretação lata do âmbito do artigo 114.º TFUE, alegando que uma harmonização positiva não pode ser um mero reflexo
de uma harmonização negativa. O autor observa que o Tratado deixa claro que o mercado interno deve ser um mercado que respeite também valores não comerciais.
Página 36
Seja como for, depois de o legislador da UE ter abusiva dos seus poderes, a Comissão poderá 7.10. Artigo 351.º TFUE
adoptado medidas com base no artigo 114.º investigar o Estado-Membro em causa ou, se
TFUE, um Estado-Membro pode excepcio- necessário, recorrer directamente ao Tribunal O artigo 351.º TFUE (ex-artigo 307.º CE) diz res-
nalmente, devido a problemas específicos, de Justiça. peito aos direitos e obrigações decorrentes de
introduzir medidas derrogatórias às dispo- convenções concluídas antes de 1958 ou, em
sições totalmente harmonizadas, com base É importante sublinhar que, de um modo geral, relação aos Estados que aderem à Comunidade,
no artigo 114.º, n.os 4 a 9 do TFUE. O Estado- as derrogações às normas da UE devem ser anteriormente à data da respectiva adesão. A
-Membro deve notificar à Comissão a medida interpretadas de forma restritiva. Mais especi- regra geral é que estes direitos e obrigações não
prevista e provar que é necessária e que dá ficamente, essas derrogações devem respeitar o serão afectados pelas disposições do Tratado.
resposta a um problema específico do seu ter- princípio da proporcionalidade (259). Se bem que
ritório. Caberá então à Comissão, no prazo de o artigo 346.º TFUE preveja certas condições de Relativamente ao artigo 34.º TFUE, o Tribunal,
seis meses a contar da recepção da notificação, derrogação a uma aplicação estrita das normas no processo C-324/93 (263), estabeleceu os limi-
aprovar ou rejeitar a medida nacional em causa, do Tratado, a supremacia do direito da UE e a tes das possibilidades de os Estados-Membros
depois de ter verificado se é justificada e que eficácia das suas normas restringem o recurso a adoptarem medidas que infringem as obri-
se não trata de uma forma de discriminação esta disposição (260). O Tribunal pode examinar gações que lhes incumbem por força deste
arbitrária ou de uma restrição dissimulada ao os limites do poder discricionário dos Estados- artigo. O problema dizia respeito à recusa de
comércio entre Estados-Membros nem consti- -Membros, com base na proporcionalidade (261) uma licença para a importação de diamorfina
tui um entrave ao funcionamento do mercado e no respeito dos princípios gerais (262). (um estupefaciente abrangido pela convenção
interno (257). O Tribunal forneceu algumas cla- única de 1961 sobre os estupefacientes) para o
rificações sobre a aplicação destas disposições, O artigo 347.º TFUE (ex-artigo 297.º CE) per- Reino Unido. O Tribunal decidiu que «o facto de
interpretando de forma restritiva as derroga- mite que os Estados-Membros tomem medi- tal medida poder resultar de uma convenção
ções em causa (258). das em caso de graves perturbações internas internacional anterior ao Tratado ou à adesão
que afectem a ordem pública ou em caso de de um Estado-Membro e de o Estado-Membro
guerra ou de tensão internacional. Ao abrigo manter essa medida por força do artigo [351.º],
7.9. Artigos 346.º, 347.º deste artigo, os Estados-Membros devem pro- não obstante o facto de constituir um entrave,
e 348.º TFUE ceder a consultas recíprocas tendo em vista não tem por efeito subtraí-la do âmbito de apli-
estabelecer de comum acordo as providências cação do artigo [34.º], porque o artigo [351.º]
O artigo 346.º TFUE (ex-artigo 296.º CE) autoriza necessárias para evitar que o funcionamento do só se aplica se a convenção impuser a um
os Estados-Membros a protegerem os interes- mercado comum seja afectado por tais medi- Estado--Membro uma obrigação incompatível
ses essenciais da sua segurança relacionados das. Tal como no caso do artigo 346.º TFUE, as com o Tratado».
com a produção ou o comércio de armas, medidas tomadas devem respeitar o princípio
munições e material de guerra, desde que as da proporcionalidade. A conclusão é que os Estados-Membros se
medidas tomadas não alterem as condições devem abster de adoptar medidas contrárias
de concorrência no mercado comum no que O artigo 348.º TFUE (ex-artigo 298.º CE) con- ao direito da UE, nomeadamente às normas
diz respeito aos produtos não destinados a cede à Comissão poderes para intervir no caso referentes à livre circulação de mercadorias,
fins especificamente militares. Se a Comissão de a utilização das faculdades previstas nos quando as convenções internacionais de que
ou um Estado-Membro considerarem que um artigos 346.º ou 347.º distorcer as condições são signatários os não obrigam a adoptar
Estado-Membro está a fazer uma utilização da concorrência. essas medidas.
(257) Ver, por exemplo, Decisão da Comissão, de 18 de Julho de 2001, relativa às disposições nacionais no domínio da farmacovigilância notificadas pela República
Federal da Alemanha, JO L 202 de 27.7.2001, p. 46; Decisão da Comissão de 14 de Setembro de 1994, JO L 316 de 9.12.94, p. 43; Decisão da Comissão de 26 de Fevereiro
de 1996, JO L 69 de 19.3.1996, p. 32; Decisão da Comissão de 21 de Dezembro de 1998, JO L 3 de 7.1.1999, p. 13; e sete decisões da Comissão de 26 de Outubro de 1999,
JO L 329 de 22.12.1999.
(258) Ver processo 41/93, França/Comissão, Colectânea 1994, p. I-1829 e processo C-319/97, Kortas, Colectânea 1999, p. I-3143. A este respeito, ver também processo
C-3/00, Dinamarca/Comissão, Colectânea 2003, p. I-2643, em que o Tribunal anulou a decisão da Comissão.
(259) Ver, mais recentemente, conclusões do advogado-geral Ruiz-Jarabo Colomer de 10 de Fevereiro de 2009, nos processos C-284/05, Comissão/Finlândia; C-294/05,
Comissão/Suécia; C-372/05 Comissão/Alemanha; C-387/05 e C-409/05, Comissão/Grécia, 2009, n.º 124, ainda não publicado. A este respeito, ver também a comunicação
interpretativa sobre a aplicação do artigo 296.º do Tratado no âmbito dos contratos públicos no sector da defesa, COM(2006) 779.
(260) N.º 125.
(261) A este respeito, ver processo 222/84, Johnston, Colectânea 1986, p. 1651.
(262) Advogado-geral Ruiz-Jarabo Colomer nos processos C-284/05 et al., n.º 141.
(263) Processo C-324/93, The Queen/Secretary of State for Home Department, ex parte Evans Medical e Macfarlan Smith, Colectânea 1995, p. I-563.
Página 37
8. Actos de direito
derivado conexos
8.1. Directiva 98/34/CE — Segundo a jurisprudência do Tribunal de Jus- ção ao Estado-Membro em causa exigindo a
relativa a um procedimento tiça (ver acórdãos CIA Security International e adopção daquelas medidas num prazo muito
de informação no domínio das Unilever) (264), as regras técnicas não notificadas curto (266).
normas e regulamentações na fase de projecto ou que foram adoptadas
técnicas e das regras relativas durante o período de espera não podem ser
aos serviços da sociedade aplicadas e, consequentemente, não podem 8.3. Regulamento (CE)
da informação ser invocadas contra particulares. Esta jurispru- n.º 764/2008 — Regulamento
dência constante foi confirmada mais uma vez, «reconhecimento mútuo»
A Directiva 83/189/CEE, que mais tarde pas- muito recentemente (265).
sou a ser a Directiva 98/34/CE, na sequência O legislador comunitário adoptou em 2008 um
de uma codificação, obriga desde 1984 os regulamento que estabelece procedimentos
Estados-Membros da União Europeia a notifi- 8.2. Regulamento (CE) para a aplicação de certas regras técnicas nacio-
carem à Comissão e aos seus pares os projec- n.º 2679/98 — Regulamento nais a produtos legalmente comercializados
tos de regras técnicas relativas aos produtos e, «morangos» noutro Estado-Membro. O principal objectivo
desde 1999, relativas aos serviços da sociedade deste regulamento consiste em definir os direi-
da informação, antes de serem adoptados nas O Regulamento (CE) n.º 2679/98 sobre o fun- tos e obrigações das autoridades nacionais e
suas legislações nacionais. cionamento do mercado interno em relação à das empresas quando as primeiras pretendem
livre circulação de mercadorias entre os Esta- negar o reconhecimento mútuo e recusar o
O controlo é efectuado pela Comissão e pelos dos-Membros prevê procedimentos especiais acesso ao mercado de um produto legalmente
Estados-Membros de modo preventivo. Nos para os obstáculos graves à livre circulação de comercializado noutro Estado-Membro. O
períodos de espera, os Estados-Membros mercadorias entre Estados-Membros, que ori- regulamento atribui o ónus da prova às auto-
devem abster-se de adoptar os projectos ginam grandes perdas para os indivíduos em ridades nacionais que pretendem recusar o
notificados durante, no mínimo, três meses, causa e exigem acções imediatas. Estes obstá- acesso ao mercado. Estas devem indicar por
enquanto são analisados. Este prazo pode ser culos poderão resultar, por exemplo, da passivi- escrito os fundamentos técnicos ou científi-
prolongado até um máximo de dezoito meses, dade das entidades nacionais competentes face cos que justificam a sua intenção de recusar
caso a medida prevista possa criar entraves a acções violentas de particulares, a bloqueios ao produto específico o acesso ao mercado
injustificados ao comércio ou estejam em curso não violentos de fronteiras ou de acções de um nacional. O operador económico em causa tem
trabalhos de harmonização a nível da UE no Estado-Membro, tais como boicotes institucio- oportunidade de defender a sua posição e de
domínio abrangido pelo projecto notificado. nalizados a produtos importados. apresentar argumentos sólidos às autoridades
competentes.
Deste modo, o procedimento permite eliminar, O regulamento prevê um procedimento de
ainda antes de surgirem, eventuais obstáculos alerta para troca de informações entre os O regulamento cria também em todos os
ao bom funcionamento do mercado interno, Estados-Membros e a Comissão relembra aos Estados-Membros pontos de contacto para
evitando intervenções a posteriori, sempre Estados-Membros a obrigação de adoptarem produtos que prestam informações às empre-
nefastas. Os projectos nacionais são adapta- medidas necessárias e proporcionadas para sas e às autoridades competentes de outros
dos ao direito da UE antes da sua adopção ou assegurarem a livre circulação de mercadorias e Estados-Membros sobre as regras técnicas apli-
mesmo congelados durante algum tempo, para de informarem a Comissão das mesmas, dando cáveis aos produtos e a aplicação do princípio
facilitar as discussões a nível da UE. poderes à Comissão para enviar uma notifica- do reconhecimento mútuo.
(264) Processos C-194/94, CIA Security, Colectânea 1996, p. I-2201, e C-443/98, Unilever, Colectânea 2000, p. I-7535.
(265) Processo C-20/05, Schwibbert, Colectânea 2007, p. I-9447.
(266) Para mais informações, ver http://ec.europa.eu/enterprise/policies/internal-market-goods/free-movement-non-harmonised-sectors/rapid-intervention-mechanism/
index_en.htm.
Página 38
9. Aplicação dos artigos 34.º
e 35.º TFUE
9.1. Efeito directo — tivo encontrar soluções para os problemas de uma infracção à legislação da UE e o Estado-
aplicação pelos particulares cidadãos e empresas, no prazo de dez semanas. -Membro é convidado a proceder em confor-
Uma recomendação de 2001 da Comissão (269), midade com esse parecer dentro de um prazo
O Tribunal de Justiça reconheceu que a proibi- aprovada pelo Conselho, estabelece os princí- especificado, que é geralmente de dois meses.
ção estabelecida no artigo 34.º TFUE é «impera- pios de utilização do Solvit. A Comissão Euro-
tiva e explícita e não necessita, para a sua apli- peia faz a gestão da base de dados e, quando Se o Estado-Membro em causa não proceder em
cação, de qualquer intervenção posterior dos necessário, presta assistência para acelerar a conformidade com este parecer no prazo fixado
Estados-Membros ou das instituições comuni- resolução dos problemas. Em 2008 o número de pela Comissão, esta pode recorrer ao Tribunal
tárias». Portanto, o artigo 34.º TFUE «tem efeito casos apresentados ao Solvit aumentou 22%, de Justiça, para obter uma declaração de que foi
directo e cria para os particulares direitos que os tendo sido atingido pela primeira vez o marco infringida a livre circulação de mercadorias. Se o
órgãos jurisdicionais devem salvaguardar» (267). de 1 000 casos num ano. As taxas de resolução Tribunal de Justiça concluir no seu acórdão final
são elevadas, ascendendo a 83%. que foi esse o caso, o Estado-Membro em causa
Mais tarde, o Tribunal decidiu que o artigo 35.º deve tomar as medidas necessárias à execução
TFUE tem também efeito directo, que as suas do acórdão do Tribunal de Justiça.
disposições são também «directamente aplicá- 9.3. Processo por infracção
veis e criam na esfera jurídica dos particulares nos termos dos artigos 258.º Se assim não for, a Comissão pode recorrer
direitos que os órgãos jurisdicionais nacionais e 260.º TFUE novamente ao Tribunal. O procedimento de
devem proteger» (268). segundo recurso ao Tribunal é estabelecido no
artigo 260.º TFUE. No âmbito do procedimento
Os particulares podem invocar o princípio e o 9.3.1. PROCEDIMENTO NOS previsto no artigo 260.º TFUE, devem ser res-
direito de livre circulação de mercadorias ins- TERMOS DOS ARTIGOS 258.º E 260.º peitadas as mesmas etapas do que as previstas
taurando uma acção num tribunal nacional. no artigo 258.º TFUE, se a Comissão não tiver
Este último pode recusar a aplicação de uma No seu papel de «guardiã do Tratado», a Comis- que formular um parecer fundamentado. Se
regra nacional que considere ser contrária aos são, actuando com base numa denúncia ou por o Tribunal de Justiça declarar que o Estado-
artigos 34.º e 35.º TFUE. Os tribunais nacionais sua própria iniciativa, pode iniciar um processo -Membro em causa não deu cumprimento ao
podem também avaliar em que medida um por infracção contra um Estado-Membro que seu primeiro acórdão, pode impor-lhe sanções
entrave às importações ou às exportações se considere não ter cumprido as obrigações que pecuniárias. Estas sanções pecuniárias desti-
pode justificar em termos das exigências impe- lhe incumbem por força do direito da UE. nam-se ter um efeito dissuasivo e a incentivar
rativas ou dos objectivos de interesse público os Estados-Membros a cumprirem o mais rapi-
enumerados no artigo 36.º TFUE. O artigo 258.º TFUE (ex-artigo 226.º CE) prevê damente possível a legislação da UE (270).
as etapas formais do «procedimento por infrac-
ção». A primeira etapa consiste em enviar ao 9.3.2. DENÚNCIAS
9.2. Solvit Estado-Membro em causa uma notificação,
solicitando-lhe que apresente as suas obser- Qualquer pessoa que considere que uma
O Solvit (www.europa.eu/solvit) é uma rede de vações dentro de um prazo especificado, que medida imputável a um Estado-Membro é con-
resolução de dificuldades decorrentes de uma é geralmente de dois meses. trária aos artigos 34.º-36.º TFUE pode apresen-
aplicação incorrecta da legislação do mercado tar uma denúncia junto da Comissão Europeia.
interno pelas autoridades públicas nacionais. Em função da resposta ou da ausência de res- Efectivamente, grande parte dos processos por
Todos os Estados do EEE criaram para o efeito posta do Estado-Membro em causa, a Comissão infracção relacionados com a livre circulação
os seus próprios centros Solvit, que comunicam pode decidir enviar um parecer fundamentado de mercadorias são iniciados pela Comissão na
directamente entre si através de uma base de ao Estado-Membro. Este documento deve con- sequência de uma denúncia. Uma comunicação
dados em linha. Os centros Solvit estão sedia- ter uma descrição coerente e pormenorizada de 2002 da Comissão relativa às relações com
dos na administração nacional e têm por objec- das razões pelas quais se considera que houve o autor da denúncia em matéria de infracções
Página 39
ao direito da UE (271) estabelece as regras e serviço da Comissão tencionar propor o direito derivado. Porém, por diferentes razões,
garantias relacionadas com o tratamento arquivamento de um processo de denún- os procedimentos legais como o processo por
das denúncias. cia, informará antecipadamente o autor infracção nos termos do artigo 258.º TFUE
da denúncia. podem nem sempre constituir o melhor
A denúncia deve ser apresentada por escrito, instrumento disponível para abordar uma
por carta, fax ou correio electrónico, numa das Se, após a realização de um inuqérito, a Comis- questão específica.
línguas oficiais da União Europeia. Se bem que são considerar que pode ter havido efectiva-
não seja obrigatória, recomenda-se a utilização mente uma infracção do direito da UE, pode Por conseguinte, é importante sublinhar que
do «modelo de formulário de denúncia» (272), decidir iniciar um processo por infracção, nosa a Comissão, estando embora plenamente
que assegura que sejam transmitidas à Comis- termos do artigo 258.º TFUE. empenhada no exercício das suas funções de
são todas as informações necessárias, acele- controlo da observância do direito da UE por
rando assim o tratamento da denúncia. Além disso, observe-se que a Comissão acordou parte dos Estados-Membros, dispõe de um
recentemente com vários Estados-Membros poder discricionário de apreciação para deci-
Será enviado ao autor da denúncia um pri- colaborar para acelerar e aumentar a eficiên- dir se deve ou não iniciar um procedimento
meiro aviso de recepção pela Secretaria-Geral cia dos processos de resolução de problemas, por infracção (274).
da Comissão, no prazo de quinze dias úteis. No através de um projecto-piloto, o projecto
prazo de um mês a contar do envio do primeiro «EU Pilot» (273). Um dos objectivos deste pro- Acresce que, na sua Comunicação de 2007 sobre
aviso de recepção, a Comissão decidirá se a cor- jecto-piloto consiste em fornecer respostas e a aplicação do direito comunitário (275), a Comis-
respondência será registada como denúncia. soluções mais rápidas e completas às denúncias, são referiu várias formas de melhorar a aplica-
através de contactos com os Estados-Membros, ção e a execução do direito comunitário. Além
Embora o autor da denúncia não seja parte ofi- em vez do procedimento formal por infracção. de uma parceria mais forte entre a Comissão e
cial de qualquer procedimento iniciado contra Se o serviço competente considerar que a os Estados-Membros e da prevenção, previa-se
um Estado-Membro, vale a pena observar que denúncia deve ser tratada através do «EU Pilot», também na comunicação o estabelecimento
ele ou ela usufrui de algumas garantias admi- o autor da denúncia será informado e solicitado de prioridades e a aceleração da gestão das
nistrativas importantes: a autorizar a revelação da sua identidade e do infracções. Ao abrigo destas regras, será dada
conteúdo da denúncia. O dossiê será então especial prioridade às infracções que coloquem
• a Comissão não revelará a sua identidade transferido para o Estado-Membro em causa, questões de princípio ou às que tenham mais
a menos que ele ou ela tenha autorizado que terá um prazo de dez semanas para propor impacto negativo para os cidadãos e as empre-
expressamente essa revelação; uma solução adequada ao autor da denúncia. sas em causa.
• a Comissão esforçar-se-á por tomar uma 9.3.3. PRIORIDADES E PODER Se bem que todos estes melhoramentos este-
decisão sobre o conteúdo da denúncia DISCRICIONÁRIO DA COMISSÃO jam já em curso e que a experiência de novas
(iniciar um procedimento por infracção ou PARA ACTUAR medidas como a prevenção e o reforço da par-
arquivar o caso) no prazo máximo de um ceria demonstre que foram já obtidos alguns
ano a contar do registo da denúncia; Na sua qualidade de guardiã do Tratado, a êxitos, os benefícios plenos das mesmas só
Comissão mantém-se vigilante, assegurando com o tempo se tornarão evidentes. Devem
• os serviços da Comissão manterão o autor o respeito do direito da UE e certificando-se de também ser objecto de um acompanhamento
da denúncia informado sobre o decurso do que os Estados-Membros respeitam as regras contínuo, sempre que sejam necessários novos
processo por infracção e sempre que um e obrigações estabelecidas no Tratado ou no progressos.
(271) http://eur-lex.europa.eu/LexUriServ/LexUriServ.do?uri=CELEX:52002DC0141:PT:HTML.
(272) http://ec.europa.eu/community_law/your_rights/your_rights_forms_pt.htm.
(273) Ver «Uma Europa de resultados — Aplicação do direito comunitário», COM(2007) 502 final, p. 9, e http://ec.europa.eu/community_law/infringements/applica-
tion_monitoring_en.htm.
(274) Processo C-200/88, Comissão/Grécia, Colectânea 1990, p. I-4299; despacho no processo T-47/96, Colectânea 1996, p. II-1559, n.º 42; ver também despacho no
processo T-177/05, despacho de 9 de Janeiro de 2006, n.os 37-40.
(275) «Uma Europa de resultados — Aplicação do direito comunitário», COM(2007) 502 final.
Página 40
Anexos
A) Comunicações importantes no domínio do artigo 34.º TFUE
• Comunicação interpretativa da Comissão — Facilitar o acesso de produtos ao mercado de um outro Estado-Membro: a aplicação prática do
reconhecimento mútuo (JO C 265 de 4.11.2003, p. 2).
• Comunicação interpretativa da Comissão sobre as importações paralelas de especialidades farmacêuticas cuja colocação no mercado foi já
autorizada [COM(2003) 839 final].
• Comunicação interpretativa da Comissão relativa aos procedimentos de matrícula de veículos provenientes de outro Estado-Membro
(JO C 68 de 24.3.2007, p. 15).
• Comunicação da Comissão — O mercado interno de mercadorias: um pilar da competitividade europeia [COM(2007) 35 final].
• Comunicação da Comissão — Embalagem de bebidas, sistemas de depósito e livre circulação de mercadorias (JO C 107 de 9.5.2009, p. 1).
Página 41
B) Aplicação territorial
Arquipélago dos Açores (região autónoma portuguesa). Constituído pelas ilhas de São Miguel, Pico, Terceira, São Jorge, Faial, Flores, Santa Maria,
Graciosa, Corvo.
Base jurídica: artigo 355.º, n.º 1, TFUE (ex-artigo 299.º, n.º 2, CE).
Ilhas Canárias (Comunidade Autónoma espanhola). Compreendem as ilhas de Tenerife, Fuerteventura, Gran Canaria, Lanzarote, La Palma, La
Gomera, El Hierro.
Base jurídica: artigo 355.º, n.º 1, TFUE (ex-artigo 299.º, n.º 2, CE).
Ilhas Anglo-Normandas (território sob a soberania do Reino Unido). Constituídas por Guernsey (incluindo Alderney, Sark, Herm, Jethou, Lihou e
Brecqhou); e Jersey (incluindo as ilhas desertas de Ecrehous e Les Minquiers).
Base jurídica: artigo 355.º, n.º 5, alínea c), TFUE [ex-artigo 299,º, n.º 6, alínea c), CE], e artigo 1.º, n.º 1, do Protocolo n.º 3 ao Tratado de Adesão do
Reino Unido à Comunidade Europeia (276).
Ilha de Man (território sob a soberania do Reino Unido). A ilha de Man é um território autónomo sob a soberania do Reino Unido que (tal como
as ilhas Anglo-Normandas) não faz parte da UE, mas que tem uma relação limitada com a UE no que se refere à livre circulação de mercadorias.
Base jurídica: artigo 355.º, n.º 5, alínea c), TFUE [ex-artigo 299.º, n.º 6, alínea c), CE], e artigo 1.º, n.º 1, do Protocolo n.º 3 ao Tratado de Adesão do
Reino Unido à Comunidade Europeia.
Madeira (região autónoma portuguesa). Constituída pelas ilhas da Madeira, Porto Santo, Desertas e Selvagens.
Base jurídica: artigo 355.º, n.º 1, TFUE (ex-artigo 299.º, n.º 2, CE).
Andorra
Base jurídica: Andorra aprovou em 1990 um tratado de união aduaneira com a UE que permite a livre circulação de produtos industriais entre as partes.
(276) O artigo 355.º, n.º 5, alínea c), TFUE prevê que as disposições dos Tratados só são aplicáveis às ilhas Anglo-Normandas e à ilha de Man na medida em que tal seja
necessário para assegurar a aplicação do regime previsto para essas ilhas no Tratado relativo à adesão do Reino Unido à Comunidade Europeia. O Protocolo n.º 3 a esse
Tratado de Adesão estipula que a regulamentação comunitária em matéria de restrições quantitativas e de livre circulação se aplica às ilhas Anglo-Normandas e à ilha
de Man nas mesmas condições que ao Reino Unido.
Página 42
Bermudas (território ultramarino do Reino Unido)
Base jurídica: de acordo com os desejos do respectivo Governo, as Bermudas são o único território ultramarino do Reino Unido que não está incluído
na decisão de Associação Ultramarina de 27 de Novembro de 2001 (277), que aplica a parte IV CE (278).
Ilhas Chafarinas (territórios sob soberania espanhola). As ilhas Chafarinas são constituídas por três pequenos ilhéus, Isla del Congresso, Isla Isabel
II e Isla del Rey.
Base jurídica: na ausência de qualquer referência específica no Tratado ou no respectivo anexo, o TFUE não parece aplicar-se a este território.
Gibraltar (território ultramarino do Reino Unido). Apesar de o Reino Unido ser responsável pelas relações externas de Gibraltar, Gibraltar é tratado
como um país terceiro para efeitos de comércio de todas as mercadorias. O artigo 355.º, n.º 2, TFUE prevê que o Tratado não é aplicável aos países
e territórios ultramarinos que mantenham relações especiais com o Reino Unido da Grã-Bretanha que, como Gibraltar, não são mencionados na
lista que consta do anexo II do Tratado CE (280).
Base jurídica: artigo 355.º, n.º 2, TFUE (ex-artigo 299.º, n.º 3, CE).
(277) 2001/822/CE: decisão do Conselho, de 27 de Novembro de 2001, relativa à associação dos países e territórios ultramarinos à Comunidade Europeia,
JO L 314 de 30.11.2001, p. 1-77.
(278) A relação das Bermudas com a UE é, portanto, ainda mais remota do que a dos outros PTU enumerados no anexo II do Tratado.
(279) JO L 302, 1985.
(280) No processo C-30/01, Comissão/Reino Unido, o Tribunal de Justiça considerou que Gibraltar devia ficar colocado, em relação ao regime de liberalização das impor-
tações na Comunidade, na mesma situação em que se encontrava antes da adesão do Reino Unido. Portanto, as mercadorias originárias de Gibraltar não são conside-
radas provenientes da Comunidade e o regime comunitário da livre circulação não lhes é aplicável. Do mesmo modo, as mercadorias importadas para Gibraltar não são
consideradas em livre prática num Estado-Membro porque não estão sujeitas aos direitos aduaneiros da pauta aduaneira comum.
Página 43
Islândia
Base jurídica: os Estados do Espaço Económico Europeu (EEE) beneficiam da livre circulação de mercadorias na UE ao abrigo do Acordo EEE e não
do artigo 34.º TFUE.
Lichtenstein
Base jurídica: os Estados do Espaço Económico Europeu (EEE) beneficiam da livre circulação de mercadorias na UE ao abrigo do Acordo EEE e não
do artigo 34.º TFUE.
Mónaco
Base jurídica: Mónaco é um Estado independente que, em princípio, assegura as suas próprias relações externas, portanto as disposições do Tratado
não se aplicam automaticamente, nos termos do artigo 355.º, n.º 3, TFUE.
Antilhas Neerlandesas (território ultramarino dos Países Baixos). Constituídas pelas ilhas de Bonaire, Curaçao, Saba, Santo Eustáquio e São Martinho.
Base jurídica: artigo 355.º, n.º 2, TFUE (ex-artigo 299.º, n.º 3, CE).
Nova Caledónia e dependências (um departamento ultramarino sui generis francês). Inclui a ilha principal (Grande Terre), as ilhas da Lealdade e
várias ilhas mais pequenas.
Base jurídica: artigo 355.º, n.º 2, TFUE (ex-artigo 299.º, n.º 3, CE).
Noruega
Base jurídica: os Estados do Espaço Económico Europeu (EEE) beneficiam da livre circulação de mercadorias na UE ao abrigo do Acordo EEE e não
do artigo 34.º TFUE.
Santa Helena e dependências (território ultramarino do Reino Unido). Incluindo as ilhas de Ascensão e de Tristão da Cunha.
Base jurídica: artigo 355.º, n.º 2, TFUE (ex-artigo 299.º, n.º 3, CE).
São Marino
Base jurídica: São Marino é um Estado independente que, em princípio, assegura as suas próprias relações externas, portanto as disposições do
Tratado não se aplicam automaticamente, nos termos do artigo 355.º, n.º 2, TFUE (ex-artigo 299.º, n.º 4, CE).
Suíça
Base jurídica: Estado da Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA), mas que não faz parte do Espaço Económico Europeu (EEE).
Cidade do Vaticano
Base jurídica: o Vaticano é um Estado independente que, em princípio, assegura as suas próprias relações externas, portanto as disposições do
Tratado não se aplicam automaticamente, nos termos do artigo 355.º, n.º 3, TFUE (ex-artigo 299.º, n.º 4, CE).
Página 44
Comissão Europeia
Livre circulação de mercadorias — Guia de aplicação das disposições do Tratado que regem a livre circulação de mercadorias
2010 — 44 p. — 21 x 29,7 cm
ISBN 978-92-79-13488-3
doi:10.2769/27753
COMO OBTER PUBLICAÇÕES DA UNIÃO EUROPEIA
Publicações gratuitas:
• via EU Bookshop (http://bookshop.europa.eu);
• nas representações ou delegações da União Europeia.
Pode obter os respectivos contactos em: http://ec.europa.eu, ou enviando um fax para: +352 2929-42758.
Publicações pagas:
• via EU Bookshop (http://bookshop.europa.eu).
Assinaturas pagas (por exemplo, as séries anuais do Jornal Oficial da UE, a Colectânea da Jurisprudência do Tribunal de
Justiça e do Tribunal de Primeira Instância):
• através de um dos nossos agentes de vendas. Ver os respectivos contactos em: http://bookshop.europa.eu.
NB-31-09-160-PT-C
LIVRE CIRCULAÇÃO DE MERCADORIAS
G U I A D E A P L I C A Ç Ã O D A S D I S P O S I Ç Õ E S D O T R ATA D O
QUE REGEM A LIVRE CIRCULAÇÃO DE MERCADORIAS
Livre circulação
de mercadorias
Guia de aplicação das disposições
do Tratado que regem a livre
circulação de mercadorias
ISBN 978-92-79-13488-3
Comissão Europeia
Empresa e Indústria