TUBERCULOSE
Dra Cristina Corsi Dib, médica veterinária, Pesquisadora Científica III do Instituto
Biológico
A tuberculose bovina é uma doença crônica dos animais, causada pela
infecção pelo Mycobacterium bovis, uma bactéria de crescimento lento, intracelular
obrigatória. Esta zoonose caracteriza-se pelo desenvolvimento progressivo de lesões
nodulares denominadas tubérculos, que podem localizar-se em qualquer órgão ou
tecido. Acomete principalmente bovinos e bubalinos, mas muitas outras espécies de
animais domésticos e silvestres também são susceptíveis.
As perdas econômicas mundiais associadas com a tuberculose bovina já foram
estimadas em mais de três bilhões de dólares anuais. E por ser uma zoonose, a
importância atribuída à tuberculose bovina vai além da esfera econômica, causando
impactos negativos significativos na saúde humana e animal. A infecção causada pelo
M. bovis no homem é também chamada de tuberculose zoonótica.
Apesar de ser considerada como uma das doenças mais antigas da
humanidade é considerada reemergente, tendo causado a morte de 1,5 milhões de
pessoas das 9,6 milhões que desenvolveram a tuberculose ativa em 2014, de acordo
com a Organização Mundial de Saúde. O advento da síndrome de imunodeficiência
adquirida-AIDS, em muito colaborou para o aumento no número de casos de
tuberculose, e o risco de manifestação da doença em humanos, tanto por M.
tuberculosis, como por M. bovis. Este fato reacendeu a discussão sobre a importância
do M. bovis como agente causador, especialmente nos países em desenvolvimento
onde os dados são escassos.
ETIOLOGIA
A tuberculose é causada por um bacilo álcool-ácido resistente, ou seja, que
quando corado pela fucsina a quente, não se descora pelo álcool clorídrico (coloração
de Ziehl-Neelsen). É uma bactéria de crescimento lento, aeróbica, imóvel, não
encapsulada e não esporulada, que pertence à Ordem Actinomycetales, Família
Mycobacteriaceae e ao gênero Mycobacterium. São bastonetes curtos, que
apresentam aspecto granular quando corados e medem de 0,5 a 7,0 µm de
comprimento por 0,3 µm largura.
As espécies causadores da tuberculose humana e animal estão agrupadas no
Complexo Mycobacterium tuberculosis, composto por M. tuberculosis, M. africanum,
M. canettii, M. caprae, M. bovis, M. pinnipedii, M. microti, M. mungi, M. orygis.
EPIDEMIOLOGIA
O Mycobacterium bovis, é considerado um patógeno altamente adaptável e
“bem sucedido”. Tem distribuição mundial e uma ampla gama de hospedeiros
domésticos e silvestres e pode participar da etiologia da tuberculose humana.
A tuberculose é uma doença primordialmente respiratória e de transmissão
aerógena entre as espécies, via aerossóis infecciosos eliminados pela tosse ou
secreção nasal de um animal com tuberculose ativa. Embora considerada de menor
importância, a infecção pela via digestiva é também comum em ambientes
contaminados, e não deve ser descartada. Em geral, a via oral é mais importante em
bezerros amamentando-se em vacas tuberculosas. Outras possíveis vias de infecção
por M. bovis são congênitas, cutâneas e venéreas, embora sejam raras.
A rota de infecção influencia aspectos importantes da patogênese incluindo a
dose infectante requerida para o estabelecimento da infecção. Consequentemente, a
susceptibilidade à infecção por M. bovis varia com a rota de infecção. A dose de M.
bovis à qual os bovinos são expostos pode ser altamente variável, devido a diferenças
individuais do animal, cepa bacteriana e porta de entrada da inoculação. A inalação de
poucos bacilos é suficiente para o estabelecimento da infecção, enquanto milhões são
requeridos em caso de infecção pela via oral.
Nos rebanhos, a principal fonte de M. bovis são bovinos infectados que
residem no próprio rebanho, ou animais recentemente adquiridos. A disseminação
dentro do rebanho é devida principalmente à transmissão por aerossol entre animais
em contato próximo, mas pode ocorrer da fêmea lactante à sua cria, pelo leite
contaminado, ou simplesmente pelo contato próximo entre a mãe e o bezerro.
A infecção pelo M. bovis se propaga nos animais independentemente do sexo,
da raça ou da idade. A introdução e a manutenção da doença em um rebanho
dependem do tipo de exploração, manejo zootécnico e sanitário, tamanho do rebanho
e densidade populacional. A doença ocorre com mais frequência em rebanhos leiteiros
do que em rebanhos de corte. A reunião de animais nas ordenhas, o sistema intensivo
de criação e a maior longevidade das vacas em rebanhos leiteiros, facilitam a sua
transmissão e a manutenção. Contudo, bovinos de corte e bubalinos mantidos em
confinamento e condições naturais de aglomeração estão sujeitos às mesmas
condições de risco.
O M. tuberculosis, principal agente causador da tuberculose humana, é menos
patogênico para o bovino, sendo que nesta espécie, a doença tem caráter auto-
limitante e ocasional, geralmente não excedendo a 1% na maioria dos casos.
A transmissão do M. bovis entre espécies animais é relativamente comum.
Entre os animais domésticos, os caprinos e ovinos foram considerados naturalmente
resistentes à infecção causada por Mycobacterium bovis durante muito tempo, até o
aparecimento de casos da enfermidade em alguns países. A presença da enfermidade
nestes animais encontra-se estreitamente relacionada à proximidade com rebanhos
bovinos infectados, compartilhamento de pastagens e a prática de produtores em
realizar a aleitamento das crias com leite de vacas.
Os suínos podem se infectar com o M. bovis, pela ingestão de leite ou produtos
lácteos contaminados, resíduos de cozinha e matadouros e bovinos tuberculosos.
Nos cavalos a tuberculose é pouco frequente, sendo a via de infecção
predominantemente digestiva.
Cães costumam ser considerados relativamente resistentes à tuberculose,
sendo requerida uma exposição massiva e repetida ao homem ou animal infectado, ou
ao consumo de produtos contaminados. Cerca de 75% dos casos de tuberculose em
cães devem-se ao M. tuberculosis e o resto ao bacilo bovino. A infecção pode ocorrer
por via aerógena ou por ingestão de escarro, leite e vísceras. Embora sejam poucos
casos de transmissão do cão para o homem, um cão tuberculoso representa um risco
potencial, principalmente para pessoas imunossuprimidas. Em casos de infecção por
M. bovis, os cães podem ser uma fonte de reinfecção para rebanhos bovinos.
Os gatos também tem uma resistência natural à tuberculose, mas ao contrário
dos cães, 90% dos casos diagnosticados são causados por M. bovis. A via de infecção
é digestiva, pelo consumo de leite e vísceras contaminados. Os gatos infectados
também podem contribuir para a reintrodução da doença nos rebanhos bovinos.
A infecção dos animais silvestres pelo M. bovis já foi descrita em muitas
espécies e se tornou endêmica em algumas populações, dificultando o controle e a
erradicação da doença nos rebanhos. Em países desenvolvidos, onde a tuberculose
bovina encontra-se em fase de erradicação ou já erradicada, espécies silvestres
assumem importância como reservatório do M. bovis para bovinos, podendo introduzir
ou reintroduzir a doença nos rebanhos. Alguns exemplos são o texugo na Europa, um
pequeno marsupial silvestre na Nova Zelândia e os cervídeos nos Estados Unidos.
No homem, a infecção é comumente adquirida pelo consumo de leite e
derivados crus, levando ao desenvolvimento da doença extrapulmonar. No entanto,
alguns casos de infecção em humanos podem ocorrer pela inalação de aerossóis,
quando em contato frequente com animais doentes, principalmente em grupos
ocupacionais como trabalhadores rurais, ordenhadores, magarefes e veterinários.
MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS
A tuberculose pode causar uma grande diversidade de sinais clínicos, uma vez
que qualquer tecido pode ser afetado. Porém, sendo uma doença de evolução crônica,
os sinais clínicos são pouco frequentes nos bovinos e bubalinos. Na maioria dos
rebanhos infectados por M. bovis, a doença é subclínica, inaparente, sendo detectada
somente pelo teste tuberculínico. Em casos em que a doença evolui, dependendo da
localização, os animais podem apresentar caquexia progressiva, hiperplasia de
linfonodos superficiais e ou profundos, dispneia, tosse, mastite, endometrite,
infertilidade entre outros.
Apesar de ser uma doença crônica debilitante, também pode assumir caráter
agudo e progressivo. Em casos de tuberculose congênita, a doença pode se
desenvolver rapidamente e se tornar disseminada, o que leva à morte dos animais
jovens em algumas semanas ou meses.
No homem assim como no bovino, a aparência e o curso da doença dependem
do órgão ou tecido acometido. A tuberculose zoonótica em sua forma respiratória
causa uma doença clinicamente indistinguível da tuberculose clássica causada pelo M.
tuberculosis.
DIAGNÓSTICO
A tuberculose bovina é diagnosticada in vivo pelo exame clínico e o teste
tuberculínico, e após a morte pelo exame histopatológico, bacteriológico, e técnicas
moleculares.
O exame clínico tem valor relativo já que a maior parte dos animais infectados
não apresentam sintomas aparentes. Porém, pode ser de grande valia em animais
com tuberculose avançada ou generalizada que não reagem ao teste tuberculínico.
Nestes casos os principais sintomas observados são tosse seca e repetitiva, cansaço,
dificuldade respiratória e linfoadenomegalia.
O teste tuberculínico é uma resposta de hipersensibilidade tardia mediada por
linfócitos T sensibilizados, deflagrada em indivíduos previamente expostos ao bacilo
da tuberculose. É considerada como técnica de referência pela Organização Mundial
de Epizootias (OIE) e foi utilizada como base para os programas de controle e
erradicação da tuberculose bovina em todo o mundo, com boa sensibilidade e
especificidade. Pode detectar infecções recentes, a partir de três a oito semanas da
exposição ao bacilo, porém, alguns animais infectados não reagem à tuberculinização,
devido a uma deficiência do sistema imune que pode ocorrer por vários motivos. A
dessensibilização acontece por uma deficiência temporária do sistema imune induzida
por inoculações sucessivas de tuberculina, ou aplicação de alta concentração do
antígeno. No entanto, este efeito cessa com o reestabelecimento da população de
linfócitos T. Reações falso-negativas podem acontecer por tuberculinizações feitas
próximas ao parto ou em animais com deficiências de alimentação. Em alguns casos
pode haver um fenômeno conhecido como anergia, que ocorre em animais com
tuberculose generalizada, ou nos estágios finais da doença, quando o excesso de
antígenos circulantes induz à imunossupressão, e a consequente falta de reação do
animal ao teste tuberculínico.
Figura 1 - Aplicação da tuberculina no terço médio da
tábua do pescoço. Teste Cervical Comparativo.
A coloração de Ziehl-Neelsen para a detecção de bacilos álcool ácido
resistentes pode ser utilizada em amostras frescas de lesões, fixadas em lâminas, e
em colônias isoladas no meio de cultura. Porém, apresenta baixa sensibilidade de
detecção nos fragmentos de lesões frescas e não é capaz de diferenciar a espécie de
micobactéria.
O diagnóstico anatomopatológico é também rotineiramente utilizado por meio
da necropsia e inspeção de carcaça. A inspeção em abatedouros é uma ferramenta
fundamental em todas as etapas do programa de controle e erradicação, porque
permite rastrear a origem e detectar novos focos. Alguns animais não apresentam
lesões visíveis a olho nu, por estarem no início da infecção. Algumas lesões iniciais
também podem não ser detectadas se não for realizada uma necropsia detalhada.
Fragmentos de órgãos ou tecidos contendo lesões sugestivas devem ser
encaminhados para exame histopatológico.
Figura 2 – Linfonodo bovino com granuloma de
aspecto caseoso.
O diagnóstico definitivo é realizado por meio do isolamento e identificação das
colônias por métodos bioquímicos ou moleculares. Os meios de cultura
tradicionalmente recomendados para o primo-isolamento das micobactérias são meios
à base de ovos. O meio de Stonebrink, utilizado para o isolamento do M. bovis,
contém piruvato de sódio como fonte de carbono no lugar da glicerina utilizada no
meio de Löwenstein-Jensen, utilizado para o cultivo do M. tuberculosis. O isolamento
neste meio pode demorar até mais de doze semanas, e tornar o diagnóstico muito
lento e fastidioso, pois a identificação bioquímica das colônias isoladas também é
demorada.
Figura 3 – Cultura de Mycobacterium bovis em Meio
de Stonebrink.
Métodos moleculares como a Reação em Cadeia da Polimerase oferecem uma
alternativa interessante para a classificação e identificação dessas bactérias de forma
rápida e precisa. Os passos mais limitantes são as extrações de DNA genômico
amplificável de qualidade e a disponibilidade de oligonucleotídeos com alta
especificidade para diferenciar as espécies. Esta diferenciação é importante no
monitoramento de áreas endêmicas onde a tuberculose bovina e humana coexistem, e
suas limitações tornam difíceis estimar com precisão a proporção de casos de
tuberculose humana causada por M. bovis.
CONTROLE
O controle da tuberculose bovina baseia-se principalmente nos testes
tuberculínicos do rebanho e sacrifício ou abate sanitário dos reagentes. Controle de
tráfego de animais, inspeção de carcaças, exigência de exames prévios à aquisição de
novos animais para o rebanho, compra de animais de rebanhos certificados como livre
de tuberculose, quarentena dos animais recém-introduzidos no rebanho são outras
medidas essenciais ao controle desta enfermidade. Além disto, por se tratar de uma
doença crônica, com período de incubação prolongado, a realização do exame de
tuberculina deve ser frequente e regular, respeitando-se o intervalo estabelecido entre
os exames, de acordo com o regulamento do Programa de Controle e Erradicação da
Brucelose e Tuberculose (PNCEBT). Manejo sanitário e zooténico, como alimentação
e suplementação adequadas, instalações adequadas, higiene das instalações, entre
outros contribuem para a saúde como um todo, diminuindo os fatores de risco para a
presença da enfermidade no plantel. É ainda importante que se faça um
monitoramento da saúde do trabalhador rural, e o controle de acesso de reservatórios
domésticos, silvestres e sinantrópicos.
A pasteurização do leite e a inspeção dos produtos de origem animal são
medidas que visam diminuir o risco de transmissão do M. bovis para a população
humana.
O tratamento da tuberculose bovina não é recomendado como forma de
controle da enfermidade nos programas adotados para sua erradicação devido a
fatores como: incerteza do resultado, alto custo com medicamentos, e os problemas
que podem ser gerados com resistência a drogas, complicando o tratamento da
doença no homem. A vacinação pode ser uma alternativa futura, mas no momento
ainda não existem dados que justifiquem sua adoção.