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Por que evitar comer caranguejo?

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Por que não devemos comer caranguejo?

Este itan nos remete a importância de não trairmos as divindades, não jurar em vão, não
falsear com as palavras.

Como o caranguejo ficou sem a cabeça.

Quando o mundo foi criado, nenhum animal possuía cabeça.

Entretanto, Olofin havia prometido que um dia, todos seriam aquinhoados com cabeças, mas,
como se tratasse de um número muito grande de pretendentes, não havia previsão de data
para a entrega. A verdade é que todos andavam muito ansiosos pelo momento de poderem
desfilar exibindo belas cabeças, dotadas, segundo se dizia, de olhos, boca, orelhas e tudo o
mais que compõe uma boa e verdadeira cabeça.

Naquela época o caranguejo era um bom adivinho e vivia desta atividade. Todos os bichos da
região eram seus clientes e ele orgulhava-se de jamais haver falhado numa previsão.

Caranguejo cultuava Esù, de quem era muito íntimo e com quem dividia, de bom grado, tudo o
que recebia na sua função de adivinho. Desta forma, mantinha-se sempre, muito bem
informado de tudo o que acontecia, tanto no Aye, quanto no Orun.

Sabemos, com certeza, que era Esù quem sustentava o dom de adivinhar do caranguejo.

Um belo dia, logo pela manhã, Esù foi à casa do amigo para lhe dar, em primeira mão, a grande
e tão esperada notícia: no dia seguinte Olodumare, que já não agüentava mais tanta
reclamação, distribuiria cabeças entre os animais. Havia, no entanto, um pequeno problema: o
número de cabeças existentes não era suficiente para atender a demanda toda e, por este
motivo, aqueles que chegassem por último ao Orun, continuariam acéfalos.

“Não contes a ninguém o que te estou revelando. Trata de chegar primeiro e assim poderás
escolher a melhor cabeça que estiver disponível. Depois podes espalhar a notícia entre todos”.

Disse Esù ao caranguejo.

Ora, como já sabemos, o caranguejo zelava muito bem por sua fama de adivinho e assim, não
se sabe se por força de ofício ou por simples vaidade, logo que Esù foi embora, saiu batendo
de porta em porta, espalhando a boa nova e sendo por isto, muito bem recompensado pelos
vizinhos.

Atrapalhado com tantos presentes, caminhava cada vez mais lentamente, mas não parou até
que o último dos bichos tivesse sido avisado.

Os animais, logo que sabiam da novidade, abandonavam o que quer que estejam fazendo e
corriam para o Orun, em cuja porta já se havia formado uma imensa fila.

A confusão era tão grande que filas foram formadas para que a ordem de chegada fosse
respeitada, já que alguns retardatários, usando de força, tentavam furar a fila.
Somente depois de voltar à sua casa, onde guardou os presentes que havia recebido em troca
da informação, é que o caranguejo, após tomar um bom banho, dispôs-se a ir buscar sua
própria cabeça.

Contudo, quando finalmente chegou ao Orun, era tarde demais, não existia mais uma cabeça
sequer e, desta forma, por não saber guardar segredo, nosso herói ficou privado de adquirir
uma cabeça.

Zangado e decepcionado com a atitude do amigo, Esù negou-se, para sempre, a ajudá-lo no
ofício de adivinho e desmoralizado e triste, o caranguejo internou-se no pântano onde vive até
hoje enterrado na lama e… Sem cabeça, é claro!

Diante deste Itan, acredito que o maior motivo de todos nós não podermos comer caranguejo,
é exatamente porque o caranguejo cometeu um interdito com Èsú, traindo sua confiança.

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