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Fausto Primeiro (anotações pessoais)
Início do século 19. No céu, Mefistófeles e Deus fazem uma aposta pela alma de
Henrique Fausto, um sábio alemão que tem como maior ambição a obtenção de todos, o
conhecimento, motivo pelo qual iniciou estudos sobre a magia. Posteriormente, os
acontecimentos hão de degringolar em uma tragédia envolvendo sua amada (Margarida)
e o filho deles.
Ao mesmo tempo que salpicada de peripécias inverossímeis acbou sendo concebida como
advertência aos contemporâneos cada vez mais empenhados em "especular sobre os
elementos" e expandir os limites do mundo.
O POETA (Prólogo no Teatro)
Deve o poeta esbanjar seu máximo direito
E dom da natureza, o inato humano alento,
Criminalmente, em teu proveito?
Com que governa qualquer elemento?
Não é com o uníssono que, do Eu emerso,
Dentro do coração lhe rebate o universo?
...
Quem lança pétalas primaveris,
No atalho, aos pés da bem-amada?
Quem a coroa verde enrama
Que do merecimento a glória sela?
Quem firma o Olimpo, à união os deuses chama?
O gênio humano, que no poeta se revela.
(Sobre o real dever do poeta, além da diversão)
O BUFO (Prólogo no Teatro)
Atende-vos à vida humana plena!
Cada um a vive e dela é ignorante,
E onde a pintais, se torna interessante.
Multíplices visões e pouca claridade,
Cem ilusões e um raio de verdade,
Assim prepara-se a poção perfeita,
Que tudo, em torno, anima, atrai, deleita.
Canto dos Arcanjos (Prólogo do Céu)
Ressoa o sol no canto alado
Dos orbes no infinito espaço,
E seu percurso pré-traçado
vence com majestoso passo.
Anima os anjos a visão
De inescrutável harmonia:
Da obra máxima a imensidão
Pasma, qual no primeiro dia.
E em ronda arrebatada e eterna
Gira o esplendor do térreo mundo;
Radiante luz do céu se alterna
Com mantos de negror profundo;
Ao pé da rocha a fúria vasta
Do mar espuma pelas eras,
E rocha e mar consigo arrasta
O curso infindo das esferas.
E rugem furacão e vento
Da terra ao mar, do mar à terra,
Formando um vasto encadeamento
Que efeitos sem limite encerra.
Fulgura o raio arrasador
Que do trovão precede a via;
Mas cantam núncios teus, Senhor,
O suave curso de teu dia.
FAUSTO (Noite)
“Medicine, and Law, and Philosophy -
You've worked your way through every school,
Even, God help you, Theology,
And sweated at it like a fool.
Why labour at it any more?
You're no wiser now than you were before.
You're Master of Arts, and Doctor too,
And for ten years all you've been able to do
Is lead your students a fearful dance
Through a maze of error and ignorance.
And all this misery goes to show
There's nothing we can ever know.
Oh yes you're brighter than all those relics,
Professors and Doctors, scribblers and clerics,
No doubts or scruples to trouble you,
Defying hell, and the Devil too.
But there's no joy in self-delusion;
Your search for truth ends in confusion.
Don't imagine your teaching will ever raise
The minds of men or change their ways.
And as for worldly wealth, you have none -
What honour or glory have you won?
A dog could stand this life no more.
And so I've turned to magic lore;
The spirit message of this art
Some secret knowledge might impart.
No longer shall I sweat to teach
What always lay beyond my reach;
I'll know what makes the world revolve,
Its mysteries resolve,
No more in empty words I'll deal -
Creation's wellsprings I'll reveal!”
Posso encontrar aqui o que me falta?
Devo em mil livros, ler, talvez,
Que sempre se estafou a humana malta,
Que houve um afortunado alguma ou outra vez?
Caveira oca, tu! Pra mim por que te ris?
É por que, como o meu, teu cérebro, outrora,
Sedento de verdade, erradiço, infeliz,
Buscava a luz pela penumbra afora?
Mas, com cilindros palhetões, cinzéis
Não removeis nenhum entrave.
Em pleno dia imersa em fundo arcano,
Da natureza o véu jamais arrancas,
E o que ela se recusa expor ao gênio humano,
Não lhe arrebatarás com roscas e alavancas.
FAUSTO (Floresta e Gruta)
Mas nunca é doada a perfeição ao homem,
Ah! Como o sinto agora! A esse êxtase
Que mais e mais dos deuses me aproxima,
Juntaste o companheiro que não posso
Já dispensar, embora, com insolência,
Me avilte ante mim próprio, e um mero bafo seu
Reduza as tuas dádivas a nada.
Fomenta-me no peito intenso fogo
Que por aquela linda imagem arde.
E assim, baqueio do desejo ao gozo.
E no gozo arfo, a ansiar pelo desejo.
A indicação "Noite de Valpúrgis" remete à data de 1 de maio, em que a Igreja
católica comemora o dia de Santa Valpúrgis, nascida na Inglaterra por volta do ano
de 710 e falecida na Alemanha em 779. Segundo uma lenda popular do Harz, seres
demoníacos reuniam-se no cume da montanha mais alta para promover um culto
orgiástico à aquele demônio.
No livro ,Mefistófeles comenta sobre Lilith ser a primeira esposa de Adão (não irei
me aprofundar sobre essa interpretação porque enfim), "Como Deus, segundo o
Gênesis, criou primeiro o ser humano à sua imagem, -homem e mulher ele os criou-
(1:27), e somente depois teria criado a Eva a partir da costela de Adão, originou-
se uma antiga concepçao rabínica segundo a qual a primeira mulher teria sido
Lilith. De acordo com isso, ela teria se unido ao demônio, povoando o mundo com
pequenos demônios." informações presentes na nota 31.
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Aula José Monir
O homem mesmo quando tem oscuros objetivos acha o caminho certo (fala entre o
Altíssimo e Mefisto). Metafisicamente (não a concepção religiosa) os anjos são
aspectos da natureza de Deus, assim como é o demônio. Entretanto este é conflituoso
com o homem (não no sentido mau, mas de conflito, de desafio que o obriga a
crescer). Demônio em hebraico signifca adversário. No caso ele seria o adversário
do homem, ele faz parte de um plano maior, ele é instrumento de um plano maior. A
Margarida representa o polo luminoso da história, por isso o demônio não pode
tenta-la ou agir contra ela (diretamente). Já a noite de Valpurgis é a realização
da vida puramente hedonística, voltada aos sentidos e aos prazeres/sensações.
Fausto não sabe viver a vida pois ele jamais a viveu de fato, vive ainda pensando
como um adolescente (pensa em goethe quando jovem, na época em que escreveu o
fausto I). O mundo da matéria está em oposição ao mundo espiritual, por isso
mefistófeles o conduz pela terra da forma que conduz. Fausto I é a descida ao
inferno (assim como há na divina comédia e a morte de Jesus - inicialmente -).
Goethe nos diz que a descida oas infernos é precisa para haver uma redenção (Fausto
II).
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FAUSTO II
A abertura da segunda parte da tragédia conduz então o herói a um processo de
regeneração biológica e psíquica, graças ao esquecimento, simbolizado aqui pela
referência ao mitológico rio Letes, em cujas águas os mortos deixavam as lembranças
da vida terrena.
"Do Letes banhe-o a límpida onda fria;
Relaxe o corpo rígido, e refeito
Aguarde no repouso o alvor do dia.
Das sílfides cumpri o anseio pio,
À luz sagrada restituí-o"
(Primeiro Ato - Palatinado Imperial)
Comentários sobre a situação do mundo contemporâneo à Goethe e as deformações
monstruosas de um corpo estatal doente, em que o "ilegal em forma legal impera".
Além dos "reis lá fora" que não intervêm na caótica situação do reino, a postura
das demais potências em relação à França Revolucionária.
"Mas, ah! De que serve a imperial razão,
Bondade da alma, prontidão da mão?
Quando, febril, se tumultua o Estado,
De multidão de males infestado?
Quem contemplar, deste imperial degrau,
O vasto reino, julga-o um sonho mau
Em que o monstruoso dúbios monstros gera,
Onde o ilegal em legal forma impera,
E em volta um mundo de erros prolifera."
"Assim tudo se desintegra:
Se da honra e lei some o preceito,
Como há de estar o senso em regra
Que nos conduz ao que é direito?
No fim até o homem de bem
À adulação cede, ao suborno;
Se de punir poder não tem,
Ao réu o juiz se une em retorno."
"Lá fora existem ainda reis
Mas ninguém julga ter que ver com isso."
"Oh, nunca, nunca, Mocidade,
Terás medida no prazer?
Oh, nunca, nunca, Majestade,
Terás razão quanto poder?"
(Noite de Válpurgis clássica)
Goethe designa essa segunda noite como "clássica" sobretudo em oposição à
correspondente celebração nórdica no Blocksberg, dominada inteiramente pelo sexo e
pela luxúria. Na antiga ele fora levado à se separar de Grethen, agora, ele buscar
aproximar-se de Helena, movido pela aspiração de encontrar o modelo máximo da
beleza feminina, Fausto logo se depara com as antiquíssimas esfinges e é remetido
por estas a Quiron, o mais sábio dos centauros.
(Alta região Montanhosa e o Ato final)
Referência à Mateus 4:8 (Tornou o diabo a levá-lo, agora para um monte muito alto.
E mostrou-lhe todos os reinos do mundo com seu esplendor e disse-lhe : 'Tudo isso
te darei, se, prostrado, me adorares').
"O mundo é meu gosto.
Contemplo distante
E próximo observo
O luar no levante,
O bosque, a ave e o cervo.
Assim vejo em tudo
Beleza sem fim,
E, como me agrada,
Agrado-me a mim.
Felizes meus olhos,
O que heis percebido,
Lá seja o que for,
Tão belo tem sido!"
-Um dia vais cair... E vai entender... tudo. (Otto Maria Carpeux enxerga nesses
versos uma espécie de quinta-essência ou balanço final da experiência de vida do
poeta, a expressão do "equilíbrio que o fez tirar a conclusão de sua vida."
"Até o ar e a luz inda não me hei liberto.
Pudesse eu rejeitar toda a feitiçaria,
Desaprender os termos de magia,
Só homem ver-me, homem só, perante a Criação,
Ser homem valeria a pena, então.
Era-o eu, antes que as trevas explorasse;
Blasfemo, o mundo e o próprio ser amaldiçoasse.
Hoje o ar está de espíritos tão cheio,
Que não há como opor-se a seu enleio.
Se um dia te sorri, radioso e são,
Prende-te a noite em teias de visão;
Voltas do campo, alegre, entre a frescura,
Grasna uma ave, e que grasna? Desventura.
Pelo mundo hei tão só corrido;
A todo anelo me apeguei, fremente,
Largava o que era insuficiente,
Deixava ir o que me escapava.
Só desejado e consumado tenho,
E ansiado mais, e assim, com força e empenho
Transposto a vida; antes grande e potente,
Mas hoje vai já sábia, lentamente.
O círculo terreal conheço a fundo,
À nossa vista cerra-se o outro mundo;
Parvo quem para lá o olhar alteia;
Além das nuvens seus iguais ideia!"
-O homem de bem, mesmo em meio à obscuridade de sua aspiração, da trilha certa se
acha sempre a par.
"Tudo que é efêmero é somente
Preexistência;
O Humano-Térreo-Insuficiente
Aqui é essência;
O Transcendente-Indefinível
É fato aqui;
O Feminil-Imperecível
Nos ala a si."
Fausto é redimido e salvo pela graça.
FIM
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Aula José Monir
Um adendo sobre o Fausto de Thomas Maan: O interessante do Fausto de Mann é que
mesmo a protagonista desistindo do pacto, ele ainda ocorre inconscientemente. Isso
pois, o que ocorreu na 2a Guerra Mundial é o resultado de um longo processo de
deterioração da espiritualidade do povo alemão. É na verdade um acordo muito maior
que resultará naquilo. Essas histórias fausticas são o desejo humano de se obter
algo que não tem o direito. Apesar de fausto não estar redimido no começo, ele tem
uma espécie de sonho, isso pois estará conhecendo o "Grande Mundo" que Mefistófeles
o prometera. Ele saiu do seu gabinete de estudos e fora levado à corte real. O
demônio apresenta um ouro falso, assim, convence-os a emitir o papel moeda,
ocasionando a maior inflação daquele império. O Eterno feminino começa a ser
discutido cedo, já na aparição de Helena de Troia, visto que, por causa dela
ocorrera a Guerra de Tróia, a qual destruiu toda uma cidade. A recuperação de ambos
por Fausto implica na recuperação da beleza clássica (classicismo). A viagem de
Fausto até "As Mães" é uma metáfora misteriosa. Pensa-se que elas representam a
Gênese da vida, o seio maternal. Entretanto, ele só consegue recuperar "parte"
deles e não eles em si (representa a busca da Renascença - período em que nos
encontramos na história - por esse ideal perdido, ou seja, o sonho Renascentista).
No segundo ato temos um Flashback de quando conheceram o flâmulo. Agora, este se
tornara um "erudito" como Fausto era. Após um discruso hegeliano idealista,
mefistófeles diz:
-"Nada mais há que eu possa acrescentar!"
Flâmulo: "Diabo algum há se eu não o quiser"
Mefistófeles: "Passa-te ainda assim o diabo a rasteira"
Flâmulo: "Antes de eu criá-lo, não havia o mundo. Comigo a luz se deu sua rota, a
Terra ao encontro florescia."
Essa é a pretenção acadêmica que Fausto havia desistido no I livro. Também
encontramos Wagner, buscando criar um homúnculo (mais uma vez há aqui a pretenção
dos acadêmicos.). Aqui podemos pensar que é uma história do próprio Goethe visto
que esse é um mundo que ele viveu e deixara para trás. Para a recuperação de
Helena, o homúnculo sugere a criação de uma Noite de Valpurgis Clássica.
Nos atos finais, Fausto se depara com figuras psicológicas (como a Apreensão). Como
Rei Lear, Édipo Rei e outros, apenas com a "cegueira" que se consegue enxergar
alguma coisa sobre si mesmo. Após a morte de Fausto, Mefistófeles exprime uma
declaração niilista (as pretenções humanas são inúteis, ele sempre vencerá). Por
excelência as estratégias "demoníacas" são a usada na sedução de Adão e Eva (O
homem é Deus propriamente, ele pode ser igual ou maior), assim como dizer que o
homem não é absolutamente nada. Aqui temos um comentário acerca de um discurso que
Ghandi dera: "Mostre-me um cristão que siga a rigor o Sermão da Montanha e serei eu
cristão também". Entretano, há um retruco: Me mostre quem siga a rigor os
princípios de Manu (hinduísmo). Também não há. O problema dessa visão idealista das
coisas é que ela não é possível (em ambos os casos) pois considera um ser humano
que não existe, pois ignora toda a natureza do ser e sua condição humana, falha. O
Cristianismo não é uma religião para santos, para indivíduos perfeitos e sim para
pecadores.
A literatura só tem interesse em situações tensionais (conflito entre coisas que se
manifestam). Se a história não tem situação tencional, é apenas algo para passar o
tempo. Lembremo-nos de que Fausto fora salvo pelo pedido de Grechen. Ela o perdoa e
pede para que ele seja perdoado. O que Fausto faz após perceber que é o autor de
tamanha imprudência? Ao invés de sentir culpa ele pretende dedicar-se à ação
(grandes feitos cada vez mais impossíveis). Nisso há um fator do destino humano
após a queda (lembremo-nos de que após Fausto I ele "cai" simbolicamente). Ele
compensa-a produzindo ações humanas. Goethe nos diz que a única maneira de lidar
com a tragédia da existência humana é tal modo de agir, visto que é uma missão
humana que busca a realização da nossa existência. Durante isso, haverá inúmeros
erros. O homem erra enquanto faz. O que é matar o ser humano? Destruir sua
capacidade de expressar humanidade. Entretanto nada desses projetos o fazem subir
ao céu, mas o Eterno feminino. O componente masculino (sol, instinto de natureza e
força etc.) fez o fausto realizar suas empreitadas, já o componente lunar é passivo
(recebe o reflexo de), do mesmo modo há o Ying e Yang. O esgotamento do seu
componente solar no final da vida, faz-o voltar-se mais ao componente lunar
(Eterno-Feminil), o único que pode levá-lo ao céu. Tal componente é a humildade de
reconhecer-nos como criaturas e incapazes de viver fora do jugo de Deus. Percebemos
pois que a capacidade de perdão da mulher é maior que a do homem (isso é
demonstrado também por Santa Tereza, o papel natural e amoroso da mãe etc.). Só ela
é capaz de receber a imagem de Deus (por ser lunar), já o homem (solar) faz a
competição da sua luz com a luz de Deus. Por isso Nossa Senhora é o modelo da
santidade humana. Lembremos que tudo isso é também a história de Goethe. É
interessante ver que Deus permitira (na história) Fausto de fazer tudo isso e ser
submetido à aposta, visto que assim ele conhecera Grechen e fora salvo graças a ela
(uma forma de pensar sobre o plano maior de Deus).
Sobre o final: Porque ele fora salvo sem arrependimento? Porque ele entra no céu
grego e não no Cristão (simbólicamente). Pensemos também que Fausto é o resumo da
tragédia humana. Um homem que é dirigido pelas próprias vontades, que, no fundo, é
bom (lembra-te dele com grechen) mas que é refem de seus vícios. Mesmo ele falhando
constantemente (ainda que buscando acertar, ainda que de alguma forma buscando o
trancendental) Deus o perdoa, justamente por isso (condição humana e busca pelo
amor, ainda que de forma deturpada). Esse perdão é feito a pedido de Grechen,
instrumento de sua salvação que ele só conhecera "andando por linhas tortas", o
quer reafirma o plano maior de Deus.
No #nal das coisas, quando todo o mundo espera que o diabo leve Fausto
para o inferno, aparecem os anjos do céu e o carregam em glória para o céu.
Fausto foi perdoado. Muito embora tenha vendido a alma para o diabo, o
diabo não foi capaz de extorqui-la de fato. E por quê? Porque na visão de Goethe,
que é do mesmo século do Machado de Assis – Goethe é um pouco
mais velho, eles têm uns sessenta, setenta anos de diferença concreta e real
– a humanidade é composta de pessoas que erram o tempo todo e, portanto, a única
possibilidade da existência humana é você fazer, mesmo errando.
Para Goethe, o princípio da vida humana é você fazer, fazer e fazer, porque
é fazendo que você se regenera, que se arrepende dos erros. Portanto, não
há nenhuma saída a não ser fazer, fazer e fazer, mesmo sabendo que você
irá errar. Esta ideia sobre a vida é o contraponto perfeito contra a #loso#a do
Schopenhauer As obras são muito próximas, não é? Goethe está na verdade
querendo ser um anti-Schopenhauer, porque no fundo, no fundo, o que estava em
questão ali é a questão da ação humana e da não-ação humana. É o
pessimismo de Schopenhauer, que acha que nada pode ser feito, porque no
fundo tudo é inútil, e o otimismo goethiano que acha que você vai pro céu,
mesmo que você tenha feito pacto com o diabo. Mesmo que você seja um
sujeito muito mal, ainda você vai pro céu, apesar disso. Ou seja, você tem
capacidade de salvação mesmo sendo um crápula, basta que você tenha feito
mais do que não feito. Ou seja, o que gera a perdição humana é a inação. É
a brás cubice. É a omissão perante a vida, é a falta de ação humana, de que
o Brás Cubas é um exemplo maravilhosamente claro, não é? É o cúmulo da
falta de ação humana.