AVALIAÇÃO DOS TEORES DE CURCUMINA EM DIFERENTES
ACESSOS DE CÚRCUMA (Curcuma longa, L.)
LEANDRO I. PERON1; PAULO R. N. CARVALHO2; MARTA G. DA SILVA3;
JOAQUIM A. DE AZEVEDO FILHO4; JOSÉ B. PINHEIRO5; MARIO S.
SIGRIST6; MARIA I. ZUCCHI7
N°10219
RESUMO
Esse estudo buscou estabelecer e validar uma metodologia analítica confiável
para a análise de pigmentos em cúrcuma (expresso como curcumina), determinar o
teor de curcumina em amostras provenientes da coleção de germoplasma mantida
pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, plantadas em dois locais
diferentes (Piracicaba e Monte Alegre – SP) e estudar um processo de obtenção da
curcumina com pureza superior a 90%.
Os resultados conduziram a uma metodologia robusta, com boa sensibilidade e
precisão e com uma incerteza expandida (k=2; 95%) inferior a 5%. As amostras
analisadas indicaram uma contribuição significativa nas condições de cultivo sobre os
teores de curcumina dos acessos estudados. O início dos estudos para a obtenção de
curcumina indicou um efeito significativo das variáveis: temperatura de extração e
tamanho das partículas na extração do óleo resina.
ABSTRACT
The aim of this work was to validate on analytical methodology for pigments in
turmeric (expressed as curcumin), to evaluate the concentration of curcumin in
accesses of turmeric from the germoplasma collection maintained by the Escola
Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, collected from two different cultivars
(Piracicaba and Monte Alegre) and evaluate a curcumin extraction in order to achieve a
product more than 90% pure.
Results showed a robust methodology with good sensibility and accuracy and
with an expanded uncertain (k=2; 95%) of less than 5%. The sample analysed
indicated a significant influence of cultivation conditions on the curcumin content in the
studied accesses. The preliminary studies for curcumin extraction indicated a
significant influence of the following variables: temperature and size of particulas on the
oil resin extraction.
1. Bolsista CNPq: Graduando em Química pela Faculdade de Paulínia. leandro_peron@[Link]
2. Orientador: Pesquisador, Instituto de Tecnologia de Alimentos, Campinas - SP. carvalho@[Link]
3. Colaboradora: Pesquisadora, Instituto de Tecnologia de Alimentos, Campinas - SP.
4. Colaborador: APTA – Polo Leste Paulista – Monte Alegre – SP.
5. Colaborador: Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz – Piracicaba – SP.
6. Colaborador: Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz – Piracicaba – SP.
7. Colaborador: Instituto Agronômico – Campinas – SP
INTRODUÇÃO
A cúrcuma (Curcuma longa L.) é uma planta da família da Zingiberaceae, cuja
origem remonta do sul da Índia e que foi introduzida no Brasil na década de 80
(ALMEIDA, 2006). Os pigmentos que fornecem cor à cúrcuma pertencem à classe dos
diferoluilmetano e são representados principalmente pela curcumina [1,7 - bis- (4-
hidroxi-3-metoxifenil)-1,6-heptadiena-3,5-diona], cuja concentração pode variar de 1,5
a 7,1% (GOVINDARAJAN, 1980). PEREIRA (1998) cita uma concentração média de
curcumina de 2,5%.
As atividades biológicas da cúrcuma foi objeto de uma revisão conduzida por
ARAUJO & LEON (2001). Nela os autores citam estudos onde são relatadas
atividades antiinflamatórias, anti-HIV, bactericida, antiparasitária, antipasmódica,
inibidor da carcinogênese e do crescimento do câncer.
O Brasil, apesar de ser um grande produtor de cúrcuma, ainda apresenta uma
produtividade muito inferior aos principais produtores mundiais, chegando a pouco
mais de 50% da produtividade da Índia. Isso indica um grande potencial de melhoria e
tornam necessários estudos sobre os fatores que influenciam sua produtividade e a
qualidade.
A cúrcuma apresenta potencial para a substituição da tartrazina, um dos
corantes artificiais mais usados no Brasil pelas indústrias de alimentos, mas que tem
seu uso questionado por problemas de alergia que pode causar a consumidores
sensíveis a esse aditivo. Contudo, a dificuldade da oferta do corante de cúrcuma puro
(curcumina) tem restringido seu uso às formas de rizomas secos e moídos e de óleo
essencial. Esses produtos possuem o aroma e odor característico da cúrcuma,
dificultando o emprego em produtos onde esses aspectos são indesejáveis. Além
disso, as contínuas descobertas das propriedades funcionais da curcumina reforçam a
necessidade de ofertar ao mercado um produto puro para utilização em ensaios
clínicos.
O presente estudo buscou: estabelecer e validar uma metodologia analítica
para uso na determinação de curcumina em rizomas de cúrcuma e no estudo do
processo de produção do corante; avaliar o teor de curcumina nos acessos de
cúrcuma do banco de germoplasma do Departamento de Genética da Escola Superior
de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP),
plantadas em duas localidades diferentes (Monte Alegre do Sul e Piracicaba - SP) e
estabelecer de uma tecnologia de produção da curcumina com pureza superior a 90%
para utilização em estudos clínicos e como corante de alimentos.
MATERIAL E MÉTODOS
- Metodologia analítica
O método analítico baseou-se na NBR 13624 (LARA, 1996) que tem como
princípio a extração da curcumina com etanol, diluição e leitura espectrofotométrica. O
método foi validado quanto à especificidade ou seletividade, faixa de trabalho
(linearidade), sensibilidade (limite de detecção e de quantificação), exatidão, precisão
(repetividade, reprodutibilidade) e robustez.
- Matéria-prima
A matéria-prima utilizada no projeto foi proveniente do estudo de SIGRIST
(2009), onde foram caracterizadas as diversidades genéticas e agromorfológicas. Os
acessos de cúrcuma do banco de germoplasma do Departamento de Genética da
ESALQ foram plantadas em dois locais do estado de São Paulo, nos municípios de
Piracicaba e de Monte Alegre do Sul. O plantio de Monte Alegre do Sul foi iniciado em
29/11/2007 e o de Piracicaba em 04/12/2007. A colheita foi realizada na última
quinzena de julho de 2008, após a senescência das folhas. Os rizomas da cúrcuma,
caracterizados como dedos médios e grandes (entre 3 e 5 cm), foram cortados de
forma transversal e secos em estufa com circulação de ar forçada. Uma parte da
amostra foi encaminhada para o Laboratório de Análise de Pigmentos do Centro de
Química de Alimentos do Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL), onde foram
armazenadas em local seco e ao abrigo da luz.
- Extração da curcumina
Foi inicialmente conduzido um planejamento fatorial fracionário 24-1 , buscando
avaliar a influencia dos fatores: temperatura de extração, pureza do solvente,
proporção de solvente e tamanho das partículas, no rendimento da extração de óleo
essencial dos rizomas secos de cúrcuma.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
- Métodologia analítica:
Linearidade: a equação resultante da regressão linear ofereceu a seguinte equação:
y= 0,1615x - 0,0146 com um coeficiente de correlação r = 0,9996, indicando que a
correlação é significativa (95%). Sensibilidade: os limites de detecção e de
quantificação foram, respectivamente, 7,93 e 14,10 mg de curcumina por 100 g de
cúrcuma. Precisão: o método apresentou um coeficiente de variação de 2%, inferior
ao obtido pela equação de Horwitz (CV = 5%) (HORVITZ, 1982) indicando uma boa
precisão do processo analítico. Robustez: os resultados do planejamento fatorial
utilizado para a análise da robustez indicou que o método é robusto e que pequenas
alterações não afetam o resultado analítico. O cálculo da incerteza do resultado
analítico indicou um valor de 2,34% para a incerteza combinada, o que corresponde a
uma incerteza expandida de 0,11 g de curcumina por 100g de cúrcuma (k=2; 95%),
para uma concentração de 2,28 g/100g.
- Matéria Prima
A análise de variância dos resultados agrupados por local de cultivo, indicou que
existe diferença significativa entre as amostras provenientes dos dois locais do estudo.
Quando a comparação é feita entre os acessos, observa-se que os resultados de
curcumina das amostras provenientes de Monte Alegre do Sul foram sistematicamente
superiores aos observados nas amostras de Piracicaba. Enquanto todas as amostras
de Monte Alegre do Sul apresentaram teores de curcumina (em base seca) variando
de um mínimo de 4,04 g/100 a um máximo de 4,96 g/100g, nenhuma das amostras de
Piracicaba chegou a esse valor, variando (em base seca) de 0,22 g/100g a 3,95
g/100g. (Tabela 1)
- Extração de curcumina
O resultado do delineamento utilizado para a avaliação da influência dos fatores
estudados na extração do óleo resina de cúrcuma indicou que apenas a temperatura
de extração e o tamanho das partículas apresentaram influência significativa no
rendimento do processo. A Figura 1 apresenta os resultados do estudo.
Contrastes 1 = 234 2 = 134 3 = 124 4 = 123 12 = 34 13 = 24 14 = 23
Estimativa 1,29 -5,08 -0,42 -0,53 -0,27 -0,33 0,12
Gráfico normal dos efeitos Gráfico cúbico do estudo de extração de óleo resina
3,0
4,605
2,5
,99
2,0
3,915
1,5 (1)Temperatura ,95 9,955
Expected Normal Value
1,0 1by4
,75
0,5 1by2
8,725
1by3 ,55 5,355
0,0
(3)Solvente
,35
-0,5 (4)Proporção
-1,0 ,15 4,005
(2)Partículas 10,705
-1,5
,05
-2,0
,01 8,815
-2,5
-3,0
-6 -5 -4 -3 -2 -1 0 1 2
- Interactions - Main effects and other effects
Effects
FIGURA 1. Contrastes, gráfico dos efeitos e gráfico cúbico resultante do planejamento
fatorial 24-1 utilizado no estudo de extração de óleo essencial de cúrcuma.
Esses resultados são compatíveis com os resultados divulgados por MANZAN et al.
(2003), que indicou a temperatura de extração, o tamanho da partícula e o tempo de
extração como variáveis significativas no rendimento da extração de óleo resina de
cúrcuma usando etanol como solvente.
TABELA 1. Resultados de análises de curcumina (base seca) em cúrcumas plantadas
em Monte Alegre do Sul e Piracicaba.
Monte Alegre do Sul Piracicaba
Nº Acessos Curcumina Tukey Curcumina Tukey
s s
(g/100g) (95%) (g/100g) (95%)
1 04-24MG 4,51 0,23 bcdefgh 3,42 0,04 defghi
2 Mara Rosa - Raimundo 4,19 0,04 ghij 3,29 0,15 hi
3 Mara Rosa - Moacir 4,14 0,05 hij 3,55 0,18 abcdefghi
4 Mara Rosa - Sebastião Félix 4,64 0,15 abcdefg 3,94 0,05 ab
5 Sem nome 4,17 0,05 hij 3,61 0,01 abcdefgh
6 Mara Rosa - Antônio Nunes 4,63 0,01 abcdef 3,40 0,19 efghi
7 Mara Rosa - Edivaldo 4,96 0,28 a 3,61 0,04 abcdefghi
8 Mara Rosa - Bento 4,05 0,10 ij 3,63 0,03 abcdefgh
9 Santa Rosa 4,66 0,21 abcdef 3,85 0,20 abc
10 Mara Rosa - Sebastiana NA NA 3,88 0,00 abc
11 Campinas (IAC -) NA NA 0,22 0,00 k
12 Mara Rosa - Délcio NA NA NA
13 Mara Rosa - Diquinho 4,80 0,01 abcdabcdef 3,58 0,09 bcdefghi
14 Campinas (IAC 22) 4,65 0,14 abcdef 3,77 0,06 abcde
15 Lavras 4,34 0,07 efghij 3,79 0,06 abcd
16 Mara Rosa - Cláudio 4,82 0,01 abcd 3,74 0,09 abcdef
17 Mara Rosa - Zé Branco 4,65 0,11 abcdef 3,72 0,03 abcde
18 Campinas (M22-IAC 3) 4,88 0,03 ab NA
19 M22-1 NA NA 3,36 0,13 efghi
20 Mara Rosa - Mário NA NA 3,32 0,07 ghi
21 Rubiataba - Duarte 4,64 0,01 abcdef 3,58 0,04 abcdefgh
22 Mara Rosa - Wilson 4,19 0,03 ghij 3,90 0,06 abc
23 Campinas (6 IAC +) NA NA NA
24 MG (M24) 4,46 0,07 bcdefghi 3,66 0,08 abcdefg
25 Mara Rosa - Divino 4,71 0,01 abcde 3,41 0,03 efghi
26 M22-B 4,26 0,00 fghij 3,38 0,05 fghi
27 M22-C NA NA 2,85 0,17 ij
28 Mara Rosa - Marião NA NA NA
29 Goiânia - Henriqueta 4,04 0,06 j 3,83 0,01 abc
30 Mara Rosa - José Venâncio 4,35 0,03 dfghij 3,91 0,05 j
31 Mara Rosa - Gabriel 4,73 0,15 abcde 3,29 0,09 hi
32 Mara Rosa - Dona Nega 4,59 0,07 abcdefg 3,59 0,08 abcdefgh
33 Ibitinga 4,69 0,03 abcde 3,33 0,06 fghi
34 Mara Rosa - Dona Tereza 4,85 0,03 abc 3,95 0,06 a
35 Botucatu 4,26 0,08 fghij 3,43 0,10 defghi
36 Campinas (M25 IAC) 4,07 0,08 ij 3,19 0,20 ij
37 Mara Rosa - Estevão 4,44 0,03 cdefghij 3,45 0,08 cdefghi
38 Goiás 4,43 0,05 defghij 3,55 0,03 abcdefgh
39 MG 4,41 0,11 defghij 3,19 0,06 hi
40 IAC 7(-) 4,32 0,07 efgh 3,44 0,09 efghi
41 IAC 6(+) 4,20 0,12 ghij 0,24 0,01 k
Média de duas repetições analíticas simultâneas e independentes; s = estimativa de desvio padrão. NA = não
analisada; As médias seguidas pela mesma letra não são significativamente diferentes (Tukey, 95%).
CONCLUSÃO
- A metodologia utilizada para a determinação da concentração de curcumina em
rizomas de cúrcuma apresentou boa linearidade, sensibilidade e precisão e foi
robusta para pequenas alterações.
- Houve diferença significativa (95%) para entre as amostras provenientes dos dois
locais de cultivo (Piracicaba e Monte Alegre do Sul), indicando uma contribuição
significativa nas condições de cultivo para o teor de curcumina das amostras;
- O estudo do processo de extração de óleo essencial indicou uma contribuição
significativa (95%) para a temperatura de extração e o tamanho das partículas.
Obs: O estudo está tendo continuidade buscando estabelecer e otimizar o processo de
extração de curcumina.
AGRADECIMENTOS
- Os autores agradecem ao CNPq pela bolsa concedida ao primeiro autor e à
FAPESP pelo financiamento à pesquisa.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA, L. P. Caracterização de pigmentos da Curcuma longa, L., avaliação da
atividade antimicrobiana, morfogênese in vitro na produção de curcuminóides e óleos
essenciais. Dissertação de Doutorado. Faculdade de Farmácia da Universidade
Federal de MinasGerais. Belo Horizonte, 2006, 120p.
ARAUJO, C. A. C.; LEON, L. L. Biological activities of Curcuma longa L. Mem. Inst.
Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 96, n. 5, p. 723-728, 2001.
GOVIDARAJAN, V. S. Turmeric – Chemistry, Technology and Quality. CCR Critical
Review in Food Science and Nutrition. Boca Raton, v. 12, n. 3, p. 199-301, 1980.
HORWITZ, W. Evaluation of analytical methods used for regulation of foods and drugs.
Analytical Chemists, v. 54, n. 1, p. 67A – 76A, 1982.
LARA,W.H. Monografia de corantes naturais para fins alimentícios–padrões de
identidade e qualidade. São Paulo: Instituto Adolfo Lutz, 1984, 47p.
MANZAN, A. C. C. M.; TONIOLO, F. S.; BREDOW, E.; POVH, N. P. Extration of
essential oil and pigments from Curcuma longa [L.] by steam distillation and extraction
with volatile solvents. J. Agric. Food Chem. v. 51, n. 23, p.6802 – 6807, 2003.
PEREIRA, A. S.; STRINGHETA, P. C. Considerações sobre a cultura e
processamento do açafrão. Horticultura Brasileira, Brasília, v. 16, n. 2, p. 102-105,
1998.
SIGRIST, M. S. Divergência genética em Curcuma longa L. utilizando marcadores
microssatélites e agromorfológicos. Dissertação de Mestrado. Instituto Agronômico.
Campinas. 2009, 82p.