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Todos os direitos desta edição reservados a Pontes Editores Ltda.

Proibida a reprodução total ou parcial em qualquer mídia


sem a autorização escrita da editora.
Os infratores estão sujeitos às penas da lei.
A Editora não se responsabiliza pelas opiniões emitidas nesta publicação.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Lima, Érica. (Org.)


Diversas faces da tradução na contemporaneidade - Volume 1
Érica Lima (Org.) - Campinas, SP : Pontes Editores, 2018

Bibliografia.
ISBN 978-85-7113-979-4

1. Tradução - história 2. Tradução - literária I. Título

Índices para catálogo sistemático:

1. Tradução - história - 418


2. Tradução - literária - 418
Copyright © 2018 - da organizadora representante dos colaboradores
Coordenação Editorial: Pontes Editores
Editoração e capa: Eckel Wayne

Conselho Editorial:

Angela B. Kleiman
(Unicamp – Campinas)
Clarissa Menezes Jordão
(UFPR – Curitiba)
Edleise Mendes
(UFBA – Salvador)
Eliana Merlin Deganutti de Barros
(UENP – Universidade Estadual do Norte do Paraná)
Eni Puccinelli Orlandi
(Unicamp – Campinas)
Glaís Sales cordeiro
(Université de Genève - Suisse)
José Carlos Paes de Almeida Filho
(UNB – Brasília)
Maria Luisa Ortiz Alvarez
(UNB – Brasília)
Rogério Tilio
(UFRJ - Rio de Janeiro)
Suzete Silva
(UEL - Londrina)
Vera Lúcia Menezes de Oliveira e Paiva
(UFMG – Belo Horizonte)

Pontes Editores
Rua Francisco Otaviano, 789 - Jd. Chapadão
Campinas - SP - 13070-056
Fone 19 3252.6011
[email protected]
www.ponteseditores.com.br

2018 - Impresso no Brasil


SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO . ...................................................................................... 7
Érica Lima

CAPÍTULO I
PANORAMA DAS PESQUISAS SOBRE TECNOLOGIA NOS ESTUDOS
DA TRADUÇÃO: UMA INTRODUÇÃO A ESTE RECORTE TEMÁTICO........... 15
Tina Paulsen Christensen, Marian Flanagan e Anne Schjoldager
Traduzido por Carlos César da Silva e Mariana Ormenese Dias

CAPÍTULO II
PRODUÇÃO CINEMATOGRÁFICA ACESSÍVEL: ‘LIGANDO OS PONTOS’
ENTRE TRADUÇÃO AUDIOVISUAL, ACESSIBILIDADE E CINEMA................ 49
Pablo Romero-Fresco
Traduzido por Marcella Wiffler Stefanini e Samira Spolidorio

CAPÍTULO III
DISSIPANDO A NÉVOA QUE ENCOBRE A TELA: MANIPULAÇÃO
IDEOLÓGICA NA TRADUÇÃO AUDIOVISUAL.............................................. 83
Jorge Díaz-Cintas
Traduzido por Giulia Sanches Bassani, Marcella Wiffler Stefanini e Samira Spolidorio
CAPÍTULO IV
ECOTRADUTOLOGIA: FOCOS DE PESQUISA E PERSPECTIVAS/.................. 111
Gengshen Hu
Traduzido por Xinwei Zhou e Yu Pin Fang

CAPÍTULO V
O OFÍCIO DE TRADUZIR: DE ALGUNS TRADUTORES NA NARRATIVA ARGENTINA
DOS ANOS NOVENTA E PRIMEIRA DÉCADA DO SÉCULO XXI.................... 131
Gersende Camenen
Traduzido por Juliana Aparecida Gimenes e Thaís Marques Soranzo

SOBRE OS AUTORES.................................................................................. 151

SOBRE OS TRADUTORES........................................................................... 153


Diversas faces da tradução na contemporaneidade

APRESENTAÇÃO

Érica Lima

Ao Paulo,
idealizador deste projeto e
incansável defensor da tradução.

Em 1998, tive oportunidade de participar, juntamente com


colegas da pós-graduação de Linguística Aplicada da Unicamp, de
um projeto de tradução de artigos acadêmicos que versavam sobre
diferentes tendências da área de Estudos da Tradução, incluindo
desde textos relacionados à psicanálise e filosofia até questões de
gênero. A coletânea, organizada por Paulo Ottoni, então professor
da casa e meu orientador de mestrado, foi publicada sob o título
“Tradução: a prática da diferença”1, e teve como objetivo “apre-
sentar as diferentes reflexões que a tradução promove, redimen-
sionando profundamente a questão da linguagem na produção de
significados” (OTTONI, 1998, p.11). A participação em tal projeto
foi bastante significativa para minha vida profissional, tanto por
trazer minha “assinatura” em traduções publicadas, quanto pelo
fato de uma delas ser a tradução de “Carta a um amigo japonês”, de
Jacques Derrida, um texto que traz muitas concepções da descons-
trução, as quais, até hoje, fazem parte da fundamentação teórica
que adoto, seja em sala de aula, seja em pesquisas sobre tradução.
Em várias ocasiões tornei público meu agradecimento ao Paulo
e meu orgulho por fazer parte de um projeto tão relevante, que
1 OTTONI, P. (org.) Tradução: a prática da diferença. Campinas, Editora da Unicamp, Fapesp,
1998.

7
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

contém, além de Derrida, textos de Barbara Johnson, Lori Chamber-


lain e Alan Bass, renomados autores de reflexões imprescindíveis,
que abriram caminho para pesquisas contemporâneas em tradução
e revelaram a importância do papel do tradutor na “prática da di-
ferença”. A segunda edição da coletânea, em 2005, comprovou a
pertinência do projeto e a atualidade dos textos traduzidos.
Em 2015, com o meu ingresso como docente do departamen-
to de Linguística Aplicada, passei a considerar a possibilidade de
continuar esse projeto de tradução, que foi se concretizando com
a criação de um grupo de pesquisa cujo principal objetivo é não
só pensar, mas praticar a tradução. Dessa forma, apresento, com
muito prazer, exatos vinte anos após a primeira edição, esta cole-
tânea que, embora traga outros autores e outros pós-graduandos,
tem, na essência, os mesmos objetivos delineados e idealizados
por Ottoni (os mesmos, mas que também são outros, diria Derrida
na “Carta”): disponibilizar uma reunião de textos que articulam
pensamentos sobre tradução, dar maior visibilidade aos traduto-
res, auxiliar nas reflexões e nas pesquisas dos alunos envolvidos
e, obviamente, possibilitar um maior acesso àqueles que não leem
em inglês, espanhol ou chinês, as três línguas dos “originais” aqui
apresentados.
Nas últimas décadas, o cenário dos Estudos da Tradução tem
mudado enormemente em algumas frentes, porém, em outras, a
situação permanece praticamente inalterada. Com o desenvolvi-
mento de novas áreas e de softwares de tradução cada vez mais
avançados, o próprio mercado tem ficado mais complexo, o que
pode ser observado, por exemplo, na distribuição de tarefas, em
que não temos apenas o papel do tradutor, mas também do revisor,
gerente de projetos, consultor linguístico, gestor de terminologia,
legendador, audiodescritor, localizador, entre tantas funções e de-
nominações, que surgem a cada dia. Entretanto, o reconhecimento
da relevância e importância da profissão não parecem acompanhar
essa progressão que tem ocorrido em relação ao próprio fazer
tradutório. O tradutor, em geral, continua sendo mal remunerado,

8
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

dificilmente recebe direitos autorais e com frequência tem dificul-


dades em se identificar como categoria profissional.
A complexidade também é característica do ambiente acadê-
mico, a começar pelos cursos de graduação. Não parece haver, até
hoje, estudos abrangentes sobre a falta de padronização das grades
curriculares, cargas horárias e mesmo nomenclaturas dos cursos de
graduação, ou sobre a necessidade ou não dessa padronização. São
poucas as instituições de ensino superior públicas ou particulares,
no Brasil, que apresentam habilitação em tradução; o número é
ainda menor se considerarmos efetivamente as grades curriculares,
ou seja, o oferecimento de disciplinas que ultrapassem o núcleo de
formação básica de cursos de Letras e que sejam efetivamente dire-
cionadas à formação específica, abrangendo, por exemplo, teorias
de tradução, prática de tradução de diferentes gêneros textuais,
tecnologias de tradução e metodologia de pesquisa em tradução.
A situação dos cursos acaba se refletindo nas representações pro-
pagadas na coletividade sobre a (real) necessidade de ser formado
em tradução, já que o fato de a profissão não ser regulamentada
e a crescente proliferação dos cursos conhecidos como “livres”
acabam alimentando uma ilusão de que, para ser tradutor, basta
ser bilíngue e saber usar softwares de tradução.
A complexidade também é característica dos cursos de pós-gra-
duação. Se, de um lado, temos pesquisas de ponta, com trabalhos
que refletem a natureza interdisciplinar dos Estudos da Tradução,
abarcando desde questões emergentes da realidade social atual,
como pesquisas sobre acessibilidade, até interfaces com o ensino
de línguas e questões ideológicas, literárias, tecnológicas etc.,
de outro, a área, apesar da relevante produção de dissertações e
teses, ainda não tem um lugar de fato, uma vez que a tradução
aparece, ao menos nas instituições de fomento à pesquisa, como
subárea da subárea.
Nesse contexto, e com o intuito de incentivar reflexões, es-
pecialmente aquelas relacionadas a tendências contemporâneas

9
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

de pesquisa e estudo da tradução, a coletânea que ora apresento


aparece como um lugar de discussão e uma tentativa de articular
diferentes áreas de atuação e pesquisa, por meio de textos de
autores geograficamente distantes, que se entrelaçam e dialogam,
mesmo que indiretamente. O maior ponto de confluência dos
cinco trabalhos aqui traduzidos, sem dúvida, é a persistência na
luta por tornar a área cada vez mais forte e no desenvolvimento
de pesquisas bem fundamentadas, cujos resultados sejam vistos
no nosso cotidiano.
O capítulo que abre a coletânea, “Panorama das Pesquisas so-
bre Tecnologia da Tradução nos Estudos da Tradução”, de autoria
de Tina Paulsen Christensen, Marian Flanagan e Anne Schjoldager,
foi publicado pela primeira vez na Dinamarca, e traz um recorte
temático da situação dos recursos tecnológicos usados na tradu-
ção e seus impactos para a área. Abrangendo um levantamento
de publicações de um período de dez anos, a pesquisa tem por
objetivo discutir alguns conceitos da tecnologia e mapear os ar-
tigos publicados de 2006 a 2016, em nove periódicos de grande
visibilidade, referentes à temática em questão. Dada a importância
da incorporação da tecnologia para o tradutor, as autoras sugerem
que o famoso mapa de Holmes seja expandido, com a inclusão de
áreas de pesquisa (pura e aplicada) sobre tecnologia da tradução,
visto como um campo claramente em expansão.
O segundo capítulo, de Pablo Romero-Fresco, trata de um dos
pontos relacionados à tecnologia incluído também no capítulo um:
a tradução de multimídias, em especial a tradução audiovisual. Sob
o título “Produção Cinematográfica Acessível: ‘Ligando os Pontos’
entre Tradução Audiovisual, Acessibilidade e Cinema”, o autor
desenvolve a noção de produção cinematográfica acessível, defen-
dendo que a tradução e acessibilidade deveriam ser consideradas
nas etapas de pré e pós-produção de um filme. O texto mostra que
a tradução audiovisual e a acessibilidade são relegadas a segundo
plano, o que muitas vezes dificulta ou até impede que haja uma
“produção cinematográfica acessível”, que incluiria não apenas

10
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

legendas para surdos e ensurdecidos e audiodescrição para cegos,


mas também acessibilidade linguística, isto é, a possibilidade de
tornar um filme acessível ao público falante de outras línguas por
meio, por exemplo, de legendagem parcial. O autor traz exemplos
de pseudotraduções, de casos em que o multilinguismo nos filmes
acabou sendo ignorado em versões traduzidas e apresenta um
estudo sobre uma produção da qual ele fez parte desde a produ-
ção, comprovando, na prática, a necessidade da interação entre
produtores e tradutores.
Continuando a abordagem sobre tradução audiovisual, Jorge
Díaz-Cintas aborda a questão ideológica inerente à tradução para
a legendagem e dublagem, relacionando as decisões tradutórias de
textos audiovisuais com relações sociais, valores culturais, estrutu-
ras de poder e questões de censura. Como o próprio nome indica,
“Dissipando a Névoa que Encobre a Tela: Manipulação Ideológica
na Tradução Audiovisual”, o objetivo do texto é mostrar que as
facetas da tradução audiovisual vão muito além das diferenças
linguísticas entre as línguas.
Podem ser observados alguns pontos em comum entre os
textos de Díaz-Cintas e Romero-Fresco, entre eles: o incentivo a
pesquisas na área de tradução audiovisual que vão além de limita-
ções e padrões técnicos; a necessidade de maior visibilidade e mais
reconhecimento da importância da acessibilidade na tradução, e a
participação do tradutor em todas as etapas de desenvolvimento
de produtos audiovisuais.
A concepção da tradução como um processo holístico é trazida
no quarto capítulo, de autoria de Gengshen Hu, o maior responsá-
vel, na China, pela criação e desenvolvimento da Ecotradutologia.
Em “Ecotradutologia: focos de pesquisa e perspectivas teóricas”,
o autor apresenta e esclarece alguns conceitos seminais da teoria
que tem adquirido força e conseguido adeptos, como pode ser
confirmado pelo aumento no número de pesquisas que adotam
essa fundamentação na última década. Em confluência com os

11
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

textos anteriores, a Ecotradutologia defende que o tradutor é o


centro do processo tradutório e, partindo da perspectiva ecológica,
o texto expõe os paradigmas norteadores da teoria, apontando
as diferenças em relação às abordagens ocidentais dos Estudos
da Tradução. Segundo o autor, a Ecotradutologia parte de uma
abordagem holística, o que faz com que considere as interrelações
entre os organismos e o ambiente, entre o homem e a natureza,
procurando coexistir em equilíbrio e harmonia. Nesse sentido,
a Ecotradutologia vai além da linguística, literatura, cultura, e
abrange a filosofia, ciência e tecnologia, isto é, engloba os estudos
da tradução, as teorias de tradução e os textos de partida e de
chegada. A cada processo tradutório, todas as perspectivas são
consideradas: argumentação, contexto, pesquisa metodológica,
terminologia, discurso, princípios éticos, culturais, filosóficos,
etc. De forma semelhante aos textos anteriores, a Ecotradutolo-
gia também surge como uma área em que as pesquisas estão em
expansão e na qual ainda há muito o que explorar.
Encerrando a coletânea, o capítulo intitulado “O Ofício de
Traduzir: de Alguns Tradutores na Narrativa Argentina dos Anos
Noventa e Primeira Década do Século XXI”, de Gersende Camenen,
traz análises do papel do tradutor como personagem no texto
literário e nos mostra como ele vem deixando o lugar secundá-
rio que sempre lhe foi atribuído para se tornar protagonista de
ficções argentinas, algo que também ocorre em “Notas ao pé da
página”2, de Moacyr Scliar. Nele, a narrativa é feita em cinco notas
em páginas em branco, isto é, a história do tradutor é contada no
espaço geralmente destinado a ele, nas traduções. O pouco espaço
aparece em contraste com a declarada grandeza do personagem e
sua constatação de que é essencial para o autor, o qual lhe implora
para que continue a ser seu tradutor.
A autora analisa o papel do tradutor (“de papel e osso”) em
diferentes ficções e além delas, mostrando o caráter híbrido da

2 SCLIAR, M. Notas ao pé da página. In: BASTIANETTO, P. 12 retextualizações: traduções


comentadas – italiano e português. Belo Horizonte, FALE/UFMG, 2011, p. 13-17.

12
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

tarefa do tradutor (“entre trabalho intelectual e atividade remune-


rada”), seu poder de manipular ideologicamente a linguagem e de
revelar mistérios. Mais do que a clássica ideia do tradutor traidor,
Gersende Camenen traz o tradutor como central no texto, na crítica
e na produção de sentidos. Novamente há a confirmação de que
são necessárias mais pesquisas sobre o tradutor na literatura e
sobre as representações e leituras provenientes desse personagem.
À guisa de conclusão, gostaria de fazer algumas considerações
sobre o processo tradutório: coube aos alunos a escolha dos textos
a serem traduzidos, cuja relevância para os trabalhos desenvolvidos
no programa deveria ser explícita. Também foi de responsabilidade
de cada dupla ou trio entrar em contato com os autores no intuito
de conseguir autorização para a tradução e, além disso, dirimir
eventuais dúvidas sobre o texto e sobre as escolhas tradutórias do
grupo. Por fim, ficou estabelecido que todos os textos deveriam
ser traduzidos por, no mínimo, duas pessoas, dada a importância
do trabalho em equipe para o grupo de pesquisa, ou seja, as in-
terações e negociações durante o processo de tradução e revisão
eram tão fundamentais quanto o resultado final.
Acredito que, assim como meus propósitos, como organiza-
dora, coadunam com os que direcionaram a primeira coletânea,
há uma correlação entre a postura dos tradutores dos textos aqui
apresentados e o que, como tradutoras, afirmamos no prefácio
naquela época: “não estamos pedindo desculpas por possíveis
‘perdas’ ou ‘infidelidades’ inescapáveis, mas apenas convidando os
leitores a uma reflexão que desloque também a tradução do seu
lugar de atividade de segunda linha, de arremedo, de simulacro”
(OTTONI, 1998, p.9) e, mais do que isso, contribua para a valori-
zação da profissão.
Esta publicação une uma tradição de reflexões teóricas à práti-
ca tradutória, não só no que tange ao texto traduzido propriamente
dito, mas também em relação aos outros aspectos envolvidos no
processo, tais como: prazos exíguos, negociação com a editora,

13
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

interação com autores, responsabilidade, comprometimento, ética


e trabalho em equipe, comprovando a qualidade do programa e
a competência dos alunos, contribuindo para a disseminação de
trabalhos acadêmico-científicos e convidando ao diálogo com
diferentes frentes de pesquisa em tradução.
Agradeço o apoio da Capes e do programa de pós-graduação
de Linguística Aplicada, a inestimável contribuição dos autores e
aos tradutores: Carlos, Giulia, Juliana, Marcella, Mariana, Samira,
Thaís, Yu e Zhou, que embarcaram comigo neste projeto. Espero
que seja o primeiro de muitos e que a coletânea cumpra seu papel
de incitar a reflexão e conquistar mais espaços para a tradução.

14
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

CAPÍTULO I

PANORAMA DAS PESQUISAS SOBRE TECNOLOGIA


NOS ESTUDOS DA TRADUÇÃO: UMA INTRODUÇÃO
A ESTE RECORTE TEMÁTICO1

Tina Paulsen Christensen, Marian Flanagan e Anne Schjoldager


Traduzido por Carlos César da Silva e Mariana Ormenese Dias

Introdução

Hoje, a tradução está por toda parte, e esse nosso mundo


globalizado provavelmente não funcionaria mais sem ela (TAVELLA
e VILLENEUVE, 2013). Em 2016, o estudo anual sobre a indústria
da tradução, feito pelo Common Sense Advisory, divulgou que a pro-
cura por serviços de tradução está aumentando constantemente
(DEPALMA et al., 2016). Por muitas décadas e com o intuito de
suprir essa demanda, os prestadores de serviços linguísticos (na
sigla em inglês, LSP) têm implementado cada vez mais as avançadas
tecnologias da tradução para otimizar a produtividade do tradutor
(TARAVELLA e VILLENEUVE, 2013, p. 62). A adoção da tecnologia
na indústria da linguagem teve início quando as tecnologias da
informação e comunicação (TIC) foram lançadas, mas foi a internet
e o seu uso como ferramenta de comunicação e colaboração que
acelerou o advento dessa tecnologia na década de 1990. Como

1 Publicado originalmente em: HERMES - Journal of Language and Communication in


Business (Dinamarca) sob o título Mapping Translation Technology Research in Translation
Studies. An Introduction to the Thematic Section, 2017, nº 56, 7-20, http://dx.doi.org/10.7146/
hjlcb.v0i56.97199.

15
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

apontado por Alonso e Calvo (2015, p. 136), a adoção da tecnolo-


gia tem afetado todos os tipos de atividades humanas, mas talvez
o efeito tenha sido mais impactante no campo da tradução, cujos
processos de decodificação e codificação de uma língua para outra
parecem ser facilmente amparados ou até mesmo administrados
por computadores. Ademais, a tecnologia da tradução (que, por
conveniência, passaremos a chamar “TT”) não é mais usada ex-
clusivamente por tradutores profissionais – agora ela também é
usada por muitos não tradutores, que aproveitam os mecanismos
de tradução automática (TA)2 online e gratuitos como um auxílio
para entender e produzir textos em outros idiomas. Dessa forma,
por exemplo, em 2016, o Google Translate traduziu cerca de 143
bilhões de palavras por dia em 100 combinações diferentes de
idiomas (LUMERAS e WAY, 2017). Consequentemente, hoje a TT
está tão integrada em nossas vidas que poderia ser descrita como
“everyware”, um termo cunhado por Cronin (2010).
Devido ao crescente advento da TT na indústria linguística
e o seu comprovado impacto sobre a tradução como profissão,
os estudantes e acadêmicos da área precisam de conhecimento
aprofundado e empiricamente fundamentado sobre a natureza e
as influências da TT (por exemplo, CHRISTENSEN e SCHJOLDAGER,
2010, 2011; CHRISTENSEN, 2011). Infelizmente, o crescente uso
profissional dessa tecnologia não se refletiu no ramo dos Estudos
da Tradução, não havendo um aumento semelhante em projetos
de pesquisa voltados para a TT (MUNDAY, 2009, p. 15; O’HAGAN,
2013; DOHERTY, 2016, p. 952). �O presente recorte temático busca
melhorar essa situação apresentando estudos novos e inovadores
que consideram os avanços tecnológicos recentes e seus impac-
tos para a tradução como profissão e para o tradutor, abordando
diferentes perspectivas e utilizando diversos métodos.
Na Seção 2, apresentaremos pesquisas sobre a TT como uma
subdisciplina dos Estudos da Tradução (ET), definindo e discutin-

2 No presente trabalho, destacaremos os termos que consideramos centrais para o campo de


pesquisa sobre a tecnologia da tradução.

16
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

do alguns conceitos e modelos básicos da área que usaremos no


decorrer deste artigo. Com base em estudos em escala menor
publicados em periódicos sobre ET entre os anos de 2006 e 2016,
a Seção 3 tenta mapear os avanços relevantes das pesquisas sobre
TT no campo dos ET dividindo essas tecnologias em três categorias
temáticas. A Seção 4 usa essas mesmas categorias para introdu-
zir e discutir os trabalhos incluídos no recorte temático. Nossa
pesquisa se encerra na Seção 5 com algumas observações finais
e uma breve discussão sobre o que o futuro pode reservar para a
tradução como profissão.

Introdução à pesquisa sobre tecnologia da


tradução nos Estudos da Tradução

Os estudiosos da tradução, em geral, concordam que os ET se


tornaram um campo de estudo independente em meados da déca-
da de 1980 (SNELL-HORNBY, 1995; MUNDAY, 2016, p. 13). Desde o
princípio, a disciplina foi considerada interdisciplinar por natureza
e caracterizada por uma diversidade de metodologias emprestadas
de outros campos de pesquisa. A evolução dos ET é frequentemente
descrita por meio de “fases” (BREMS et. al., 2014, p. 2). Na década de
1970, o campo passou por uma fase pragmática; nos anos 80, uma
fase cultural; e nos anos 90, uma fase empírica e centrada na globa-
lização. Atualmente, os ET estão passando por uma fase tecnológica
(CRONIN, 2010; O’HAGAN, 2013). Alonso e Calvo (2015) argumen-
tam, inclusive, que os ET estão passando por uma transformação
epistemológica da conceitualização da tradução, e que a causa disso
seriam os avanços tecnológicos. De acordo com Alcina (2008, p. 90),
a disciplina de pesquisa sobre a TT aborda “o desenvolvimento e a
adaptação de estratégias, ferramentas e recursos tecnológicos que
facilitam o trabalho do tradutor bem como a pesquisa e o ensino
de tais atividades”. Apesar de Alcina (2008, p. 79) considerar este
um campo interdisciplinar situado na intersecção entre a ciência da
computação e os ET, em nosso trabalho, a pesquisa sobre a TT será
tratada como uma subdisciplina dos Estudos da Tradução.

17
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Em seu artigo inovador sobre a TT, Alcina (2008, p. 96-98)


faz a distinção entre recursos e ferramentas em uma classificação
da TT feita por meio de aplicativos de computador relacionados
à tradução. Os Recursos englobam todos os conjuntos de dados
disponíveis ao tradutor para consulta, como corpora e dicionários
online, enquanto as Ferramentas são programas de computador
nos quais o tradutor pode executar determinadas funções e ações
que podem ser administradas e salvas digitalmente, como termi-
nologia em um Sistema de Gerenciamento de Terminologia (da
sigla em português, SGT), arquivos de texto em um processador
de texto e traduções feitas por intermédio de um software de
tradução (para obter um panorama das ferramentas de tradução,
consulte FOLARON, 2010). A classificação de Alcina (2008) nos
ajuda a entender a ideia da TT de uma perspectiva instrumental
por meio de subcategorias – apesar de algumas delas parecerem
se justapor (ferramentas de linguagem, por exemplo, também po-
dem ser vistas como ferramentas de documentação por meio das
quais os tradutores obtêm conhecimento). Segue abaixo a nossa
interpretação das subcategorias da TT sugeridas por Alcina (2008):

1. Equipamento de informática: inclui elementos que são instru-


mentos para o funcionamento e a manutenção gerais do computa-
dor – como sistemas operacionais, softwares de antivírus, leitores
de DVD e programas simples de processamento de imagens.

2. Ferramentas e recursos de comunicação e documentação:


usados pelos tradutores para que eles se relacionem por meio do
computador e da rede – como e-mails, redes virtuais e ambientes
de trabalho colaborativo – a fim de interagir com seus atuais e
possíveis clientes, com outros tradutores e especialistas ou para
obter informações e dados de outros computadores ou servidores
– como enciclopédias e sites.

18
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

3. Edição de texto e editoração eletrônica: inclui ferramentas


usadas para a escrita, edição e revisão de textos, especialmente
os processadores de texto.

4. Ferramentas e recursos de linguagem: são projetados para a


coleta e organização de dados linguísticos, como SGT (ferramentas)
e corpora, bancos de dados e dicionários online (recursos).

5. Ferramentas de tradução: são parte importante do processo


tradutório e são pensadas especificamente para trabalhar com,
pelo menos, um texto de partida e um texto de chegada concomi-
tantemente, além de estabelecer relações entre os dois textos em
nível de segmentação ou em nível textual. Essas ferramentas podem
ser combinadas com outro tipo de software, como processadores
de texto ou bancos de dados de terminologia, que pertencem às
categorias acima. Esta subcategoria engloba programas de tra-
dução assistida, que incluem softwares de memórias de tradução
(MT), bancos de dados de terminologia, processadores de texto e
ferramentas de Tradução Automática (TA).

O famoso modelo de Hutchins e Somers (1992) é frequente-


mente usado para fazer a distinção entre os modos de tradução
de acordo com o grau de envolvimento humano e a automação
no processo tradutório. No modo de tradução humana, por defi-
nição, há apenas atuação humana e nenhuma automação – isto é,
nenhuma TT está envolvida. Essa tecnologia da tradução, por sua
vez, está envolvida em todos os outros modos: tradução de alta
qualidade totalmente automatizada (fully-automated high-quality
translation, FAHQT), tradução humana assistida por computador
(machine-aided human translation, MAHT) e tradução automática
assistida por humanos (human-aided machine translation, HAMT).
Na FAHQT, a máquina executa a tradução sem intervenção humana.
Na MAHT, o tradutor está no comando do processo tradutório, mas
a ferramenta disponibiliza diferentes tipos de apoio linguístico,

19
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

incluindo a função de MT. Por fim, na HAMT, a ferramenta produz


quase toda a tradução, mas os humanos auxiliam o processo por
meio da pré- ou pós-edição dos textos (CHRISTENSEN e SCHJOL-
DAGER, 2016, p. 90), por exemplo. As últimas duas categorias en-
volvem as ferramentas chamadas, de maneira geral, de traduções
assistidas por computador (computer-assisted translation, CAT), que
são aquelas ferramentas usadas principalmente na indústria linguís-
tica atualmente. O conceito de Alcina (2008) sobre Tecnologia da
Tradução pode ser percebido em todos os modos do modelo de
Hutchins e Somers (1992), exceto na categoria de tradução humana.
O objetivo da TA é automatizar o processo de tradução e pro-
duzir FAHQT, mas, até agora, essa meta não foi atingida, e talvez
nunca vá ser (LUMERAS e WAY, 2017, nesta edição3). Por algum
tempo, a indústria da linguagem se concentrou no desenvolvi-
mento de ferramentas CAT que auxiliam o processo de tradução,
em vez de automatizá-lo. Comercialmente, as chamadas CAT Tools
se popularizaram no começo da década de 1990 (por exemplo,
MAYLATH, 2013, p. 41). A princípio, essas ferramentas eram usadas
principalmente em traduções técnicas e em trabalhos de localiza-
ção de softwares para computadores, áreas que se beneficiaram
pelo vasto uso das ferramentas de MT combinadas com a SGT,
mas, atualmente, quase todos os tipos de tradução profissional
parecem ser executados usando as CATs (por exemplo, GARCIA,
2007; 2012; O’HAGAN, 2009; PYM, 2011). Uma Memória de Tra-
dução (MT) é um banco de dados que contém traduções prévias
(pareando segmentos do texto de partida e do texto de chegada)
que podem ser reutilizados. A última tendência na indústria da
linguagem é combinar a Tradução Automática (TA) com programas
de Memória de Tradução (MT) (KOBY, 2013); vamos nos referir a
essa nova prática como MT assistida por TA. Também existe o uso
de uma ferramenta de TA (geralmente interna) para realizar uma
tradução prévia do texto de partida, que depois será pós-editada
3 Nota dos tradutores: Este texto é a introdução do número especial da revista Hermes, portanto,
a referência a "nesta edição" que aparece algumas vezes no texto é referente ao número 56 de
2017, conforme explicitado na Nota 1.

20
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

(por exemplo, GLANAGAN e CHRISTENSEN, 2014; CHRISTENSEN e


SCHJOLDAGER, 2016). A pós-edição (PE) é definida como uma tarefa
de edição, modificando e/ou corrigindo textos pré-traduzidos que
foram processados por um sistema de TA de uma língua de partida
para uma língua de chegada (para obter um panorama, veja FLA-
NAGAN e CHRISTENSEN, 2014, p. 257). Já que as ferramentas de
TA em contextos profissionais são normalmente treinadas usando
bancos de dados e termbases de memórias de tradução internos,
e já que os tradutores editam o resultado da TA que será incluído
nesses arquivos de dados, o conceito de MT assistida por TA dis-
torce a distinção tradicional entre TA, PE e MT (FAHQT, HAMT e
MAHT, respectivamente), o que também é destacado por Bundgaard
(2017, p. 15, e nesta edição).
Sabemos muito bem que ferramentas como as CATs e a TA são
usadas de forma corriqueira na indústria linguística e que isso está
mudando esse mercado, o papel do tradutor e os processos de tra-
dução (por exemplo, CHRISTENSEN e SCHJOLDAGER, 2016; GASPARI
et. al., 2015). Enquanto antigamente os tradutores se concentravam
em executar transferências linguísticas de um texto para outro e
em produzir um texto de chegada que atingisse as expectativas
de seus clientes, hoje, os tradutores passam a maior parte do seu
tempo interagindo com tecnologias da tradução que lhes fornecem
propostas tradutórias (os chamados matches) ou passam muito tem-
po pós-editando traduções feitas por máquina. Como é raro haver
quem ainda traduza do zero, os tradutores profissionais podem ser
reconhecidos como sendo, de fato, pós-editores (por exemplo, PYM,
2011; 2012; GARCIA, 2012; BUNDGAARD et. al., 2016; BUNDGAARD,
2017). Do mesmo modo, inspirado pelo campo de pesquisa da
interação entre humano e máquina (human-computer interaction,
HCI)4, O’Brien (2012) sugere que agora as traduções profissionais
deveriam ser conceitualizadas como interações entre tradutor e
computador (translator-computer interaction, TCI).

4 Para um panorama da pesquisa sobre HCI, veja Wobbrock e Kientz (2016).

21
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Além disso, de acordo com o paradigma de Risku (2010) de


cognição situada e incorporada, as ferramentas de tradução não
devem ser entendidas como artefatos auxiliares isolados, mas como
parte de uma rede complexa na qual os computadores funcionam
como extensões da memória e do conhecimento humano.
O uso de ferramentas CAT é um exemplo ilustrativo da aborda-
gem da TCI para traduções profissionais: considere, por exemplo, a
maneira como os bancos de dados de terminologia e os sistemas de
MT auxiliam as habilidades pessoais do tradutor por permitirem que
ele recupere conhecimento armazenado eletronicamente na forma
de propostas tradutórias. Como consequência disso – e também
porque os tradutores tendem a se conectar via computadores e
internet (como a maioria dos demais profissionais, atualmente) –,
Alonso e Calvo (2015) propõem que a atividade de tradução deveria,
agora, ser concebida como tradução transumana, que eles definem
como “um sistema ou uma rede extensiva, cognitiva, antropológica
e social que integra tradutores humanos e tecnologias, sejam elas
específicas da tradução ou não, e reconhece a dimensão coletiva
de muitos dos atuais processos de trabalho tradutórios” (ALONSO
e CALVO, 2015, p. 148).

Panorama das pesquisas sobre tecnologia da


tradução nos estudos da tradução

A primeira tentativa de definir e mapear a disciplina acadê-


mica dos ET foi publicada por Holmes (1988/2000) em um artigo
intitulado “O nome e a natureza dos Estudos da Tradução”. Nesse
trabalho inovador, Holmes fez a distinção básica entre pesquisa
pura e aplicada. A pesquisa pura engloba duas subdisciplinas:
pesquisa teórica – que teoriza sobre a tradução – e pesquisa des-
critiva – que abrange estudos empíricos que podem ser orientados
pelo produto, pelo processo ou pela função. A pesquisa aplicada
investiga as aplicações dos ET que abordam aspectos além dos
limites da disciplina acadêmica – como o treinamento do tradutor,

22
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

as ferramentas e os recursos tradutórios, a política da tradução e


a crítica tradutória.
Considerando a fase tecnológica dos ET (Seção 2), o mapa tra-
dicional de Holmes5 provavelmente precisaria ser expandido com
algumas novas áreas de pesquisa que sejam exclusivas às pesquisas
sobre tecnologia da tradução (em ambas as áreas, pura e aplicada).
Esperando contribuir com esse processo de expansão do mapa
tradicional dos ET, decidimos traçar um panorama do campo de
pesquisas sobre a tecnologia da tradução por meio de um estudo
em menor escala de trabalhos sobre os ET publicados entre 2006
e 2016. O objetivo deste estudo foi duplo: (1) avaliar o quanto a
incorporação profissional da tecnologia da tradução foi reflexo dos
trabalhos de pesquisa dentro dos ET e (2) identificar as áreas de
interesse e a orientação dos autores em questão. A seguir, vamos
apresentar nossos métodos de coleta (3.1) e análise de dados (3.2),
além de apresentar e discutir nossas descobertas (3.3).

Coleta de dados

Começamos nosso estudo investigando a lista de periódicos


sobre ET fornecida pela Sociedade Europeia dos Estudos da Tra-
dução (European Society for Translation Studies, EST), que incluía um
total de 129 volumes na época da nossa coleta de dados (novembro
de 2016). Logo descobrimos que a tarefa levaria muito tempo e
seria impossível estudarmos todos os periódicos mencionados.
Decidimos, então, desconsiderar os que não estavam disponíveis
online e os que publicavam, na maior parte das vezes, em idiomas
que nenhum de nós domina (chinês e japonês, por exemplo). Infe-
lizmente, a lista resultante ainda era bastante extensa e impossível
de gerenciar diante dos nossos propósitos. Para restringi-la ainda
mais, selecionamos apenas os periódicos em que havia publicações
de membros do nosso próprio grupo de pesquisa na Universidade
de Aarhus no período de 2006 a 2016. Isso feito, escolhemos incluir
5 Na época da nossa coleta de dados, nosso grupo de pesquisa se chamava “Grupo de Pesquisa
sobre Tradução e Interpretação”, e contava com 11 acadêmicos dos ET.

23
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

apenas os periódicos que haviam publicado ao menos dois traba-


lhos de pelo menos um dos membros do nosso grupo de pesquisa.
Apesar de essa coleta seletiva de periódicos provavelmente não
gerar resultados que possam ser entendidos como representativos
dos ET como um todo, estamos confiantes de que os nossos resul-
tados podem dar um indício interessante de algumas tendências
importantes dentro dos ET e da pesquisa sobre a TT.
�Durante o período investigado, descobrimos que ao menos
um membro do grupo de pesquisa havia publicado pelo menos
dois artigos dentre os nove periódicos a seguir (em ordem decres-
cente): 1) JosTrans – Journal of Specialised Translation, 2) Hermes, 3)
Perspectives – Studies in Translatology, 4) Meta: Translators’ Journal, 5)
Linguistica Antverpiensia – New Series – Themes in Translation Studies,
6) Target, 7) The Translator, 8) Fachsprache e 9) Trans-kom. Como pode
ser observado na lista, nenhum membro havia publicado artigos
nos periódicos que tratam exclusivamente de CATs ou TA, como
o Machine Translation. Todos os nove periódicos se classificam
como online dentro do campo dos ET e/ou afirmam que abordam
pesquisas sobre tradução, mas poucos se referem explicitamente
à tecnologia da tradução em suas descrições de escopo, objetivos
ou temas, com exceção do Meta (que menciona CAT e TA) e do
JosTrans, que menciona PE. Presumimos, no entanto, que todos os
nove periódicos aceitam artigos de pesquisas sobre TT.

Análise de dados

Inspirados pelas categorizações de Alcina (2008) (Seção 2),


decidimos definir as pesquisas sobre a TT como aquelas que aborda

• Ferramentas e recursos de comunicação e documentação (segunda


categoria de Alcina)

• Ferramentas e recursos de linguagem (quarta categoria de Alcina)

• Ferramentas de tradução (quinta categoria de Alcina)

24
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Para os nossos propósitos, as pesquisas sobre a TT também


incluem pesquisas sobre tecnologia da interpretação (por exemplo,
HAMIDI e PÖCHHACKER, 2007; CONNELL, 2006).
Para encontrar os artigos que seriam relevantes para o nosso
estudo, fizemos uma análise indutiva e acumulativa de termos
que se referissem à pesquisa sobre a TT (como definido acima)
nos títulos, resumos e, quando disponíveis, nas palavras-chave
dos artigos (doravante, títulos etc.). Isso resultou em uma lista de
termos que eram considerados o reflexo do conteúdo da pesquisa
sobre a TT. A partir de então, os artigos eram incluídos em nos-
so estudo se os seus títulos etc. contivessem algum dos termos
listados, a menos que eles fossem usados para descrever o que
os autores não abordariam (por exemplo, CHAUME, 2007). Se os
trabalhos não mencionassem a TT em seus títulos etc., eles não
eram incluídos em nosso estudo, apesar de poderem abordar o
assunto em outros momentos. Além disso, não incluímos artigos
que não possuíam resumos (por exemplo, prefácios e introduções
de editores, matérias jornalísticas, entrevistas, resenhas, artigos
de resenhas e artigos de palestras), e não incluímos trabalhos com
links inativos na tabela de conteúdos do periódico. Apesar de presu-
mirmos que essa abordagem nos permitiria encontrar artigos que
tratassem principalmente de pesquisas sobre a TT, temos ciência
de que isso também pode ter nos levado a incluir alguns textos
que tratam apenas minimamente do assunto – como o panorama
apresentado por Domínguez (2010) de reflexões de acadêmicos
espanhóis sobre a teoria da tradução no qual é mencionado que
alguns deles veem a tradução “como tecnologia”.
Nossa lista indutiva acumulativa de termos referentes à pes-
quisa sobre a TT incluiu os seguintes termos:

tecnologia da tradução, ferramenta de tradução, recur-


sos de tradução, auxiliares de tradução, bi-textos, (pós-)
edição, tradução assistida por computador, tradução/
interpretação assistida por tecnologia, automação da

25
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

tradução, tradução interativa, memória de tradução,


interação entre tradutor e computador, tradução auto-
mática, collage translation, (sistemas de) gerenciamento
de terminologia, reconhecimento de fala, programa de
síntese de fala, voz em texto/texto em voz, interpreta-
ção remota, tradução no ciberespaço, comunidades de
tradução virtuais/redes de tradução, blog de tradução,
tradução compartilhada, tradução na nuvem, blogs de
tradução e localização6, incluindo termos derivados e
subordinados (tais como: legendagem de fãs como
exemplo de tradução compartilhada e localização de
jogos como uma subordinada da localização) e seus
equivalentes ou traduções descritivas.

Se os títulos etc. incluíssem termos como:

tecnologia da informação e/ou comunicação; dicio-


nários eletrônicos, móveis e impressos, bancos de
dados, ferramentas automatizadas, corpora, termba-
ses/bancos, sistemas ou programas de extração de
terminologia (por exemplo, concordâncias), arquivos
de modelo, internet/web e redes,

então os trabalhos também eram incluídos em nossa aná-


lise, mas apenas se eles considerassem ferramentas e recursos
usados para traduções mediadas por computador. Isso significa
que incluímos artigos que tratavam ferramentas e recursos como
aplicativos que facilitam o trabalho do tradutor e como parte de
um processo no qual os computadores são aplicados à tradução;
não incluímos artigos que não tratavam as ferramentas e os re-
cursos dessa maneira. Sendo assim, a publicação da Prassl (2011)
sobre os processos de consulta ao dicionário feitos pelo tradutor,
por exemplo, foi incluída porque presumimos que os dicionários
em questão poderiam ser mediados por computador, apesar de
6 O termo “localização” é polissêmico. Em nossa análise, incluímos somente trabalhos que
abordam a localização conforme definição de Alonso e Calvo (2015, p. 138): “a adaptação de
produtos tecnológicos (e do discurso que os engloba) para cada mercado local e para usos,
personalizações e variedades linguísticas locais” (ênfase de Alonso e Calvo).

26
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

a Prassl não mencionar isso explicitamente no “título etc”. Em


contrapartida, o artigo de Fuertes-Olivera (2014) sobre a criação
de dicionários online não foi incluído, porque presumimos que
o texto não abordava a tradução. Da mesma forma, se um termo
como “web” era mencionado no título etc., o artigo era incluído
apenas se presumíssemos que ele abordaria a tradução por meio
da rede; o artigo não era incluído se considerássemos que ele
não falaria sobre tradução. As publicações que tratavam do uso
de ferramentas e recursos para o ensino de tradução também
foram incluídas (por exemplo, ZHU e YIP, 2010, que apresentam
as possibilidades de uso de um programa baseado em corpus e
assistido por computador – o ClinkNotes – para o ensino da tra-
dução). Por outro lado, os artigos que abordavam ferramentas e
recursos exclusivamente de uma perspectiva de (e-)learning para
idiomas não foram incluídos.
Por fim, os artigos que tratavam de todos os tipos de tradução
de multimídias – como screen translation, legendagem, tradução
audiovisual, descrição de áudio, legendagem de espetáculos ao
vivo, dublagem, tradução na web, tradução digital e afins – foram
incluídos em nosso estudo se ao menos um dos termos listados
fosse mencionado no título etc. Em compensação, os artigos que
focavam nos aspectos gerais de tradução de multimídias – como
a tradução de metáforas ou de humor em filmes legendados – não
foram incluídos.
Com base na classificação de pesquisas sugerida por Christen-
sen e Schjoldager (2010, p. 99), que se concentra nos interesses e na
orientação7 do autor, nosso próximo passo foi dividir os trabalhos
em três categorias temáticas

7 Enquanto Christensen e Schjoldager (2010) lidam com pesquisas empíricas sobre tradução
usando MT, a análise do artigo atual teve uma visão mais ampla e incluiu artigos sobre todos
os tipos de tecnologia da tradução e sobre todos os tipos de pesquisa (de acordo com Holmes,
1988/2000).

27
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

1. A Pesquisa orientada por tecnologia ressalta os aspectos técni-


cos das ferramentas e recursos de tradução, incluindo a avaliação
de ferramentas de forma mais ampla. Essa pesquisa se concentra
em estudar a própria tecnologia e suas funcionalidades.

2. A Pesquisa orientada pelo fluxo de trabalho e pelo fluxo indus-


trial se interessa principalmente por questões do fluxo de trabalho
ou do processo. Esse tipo de pesquisa considera a tecnologia em
ação, evidenciando normalmente os aspectos sociais, cognitivos e
outros que sejam relevantes para o processo, incluindo questões
da indústria.

3. A Pesquisa teórica da tradução enfoca a tradução pela perspec-


tiva do tradutor ou do estudante de tradução ou ainda os aspectos
textuais da tradução. Essa categoria também inclui pesquisas que
abordam o impacto da tecnologia na profissão, o treinamento do
tradutor, a pesquisa sobre tradução ou a teoria da tradução. Os
artigos sobre teoria da tradução seriam incluídos nessa categoria
somente se a pesquisa pudesse ser situada no campo de pesquisa
sobre a TT – tratando de (aspectos das) ferramentas de tradução,
de tradução assistida por computador ou de tradução automática,
por exemplo.
Se acreditássemos que uma publicação seria elegível para
mais de uma categoria, usaríamos aquela que considerássemos
mais representativa dos principais interesses e da orientação do(s)
autor(es).

Resultados

Passamos agora a apresentar os resultados da nossa análise


dos artigos publicados de 2006 a 2016 nos nove periódicos. É
importante enfatizar que os resultados são baseados em nossa in-
terpretação do conteúdo e dos objetivos dos artigos selecionados
(dividindo-os em três categorias temáticas, conforme explicado

28
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

em 3.2) e, portanto, eles devem ser considerados como bastante


subjetivos. Em outras palavras, não há garantias de que outros
estudiosos que usassem nossa estrutura analítica chegariam às
mesmas conclusões a que nós chegamos.
A Tabela 1 mostra o número de edições publicadas durante
o período para cada periódico, o número total de artigos que
poderíamos acessar e analisar, o número de artigos que tratam
especificamente da tecnologia da tradução e a porcentagem de
artigos que lidam com a tecnologia da tradução em relação ao
número total de artigos analisados.

Número de Número total Número Porcentagem


volumes de artigos de artigos de artigos
(2006 analisados discutindo discutindo
a 2016) tradução e tradução e
tecnologia tecnologia

JosTrans 22 230 67 29,1

Hermes 20 168 6 3,6

Perspectives 43 284 24 8,5

Meta 40 490 37 7,6

Linguistica An- 11 146 27 18,5


tverpiensia

Target 26 172 11 6,4

The Translator 25 152 6 3,9

Fachsprache 22 85 1 1,2

Trans-kom 17 113 13 11,5

Tabela 1. Artigos analisados

Como mostrado na Tabela 1, dois periódicos sobre ET publi-


cam artigos sobre pesquisa em tecnologia da tradução: JosTrans
(29,1%) e Linguistica Antverpiensia (18,5%). Outros seis periódicos
publicam esse tipo de trabalho com menor frequência: Trans-kom
(11,5%), Perspectives (8,5%), Meta (7,6%), Target (6,4%), Hermes (3,6%) e

29
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

The Translator (3,9%). A revista Fachsprache (1,2%) raramente publica


artigos sobre esse tema. Embora essas porcentagens não demons-
trem muita coisa isoladamente, elas mostram que todas as nove
revistas publicaram pelo menos alguns artigos sobre tecnologia
da tradução no período escolhido. Isso indica que a pesquisa em
tecnologia da tradução já é uma subdisciplina integrada e viável
dos ET, embora, como mencionado em 3.1, apenas duas revistas,
Meta e JosTrans, se refiram à tecnologia da tradução em suas descri-
ções de escopo, objetivos e temas, e somente com alguns termos
bastante específicos (TA/CAT e PE, respectivamente).
A Tabela 2 mostra a frequência de trabalhos de pesquisa em
tecnologia da tradução em cada periódico e em todos os periódicos
juntos. Realizamos essa análise com foco nas mudanças diacrôni-
cas presentes nos periódicos, a fim de investigar se as frequências
variaram em diferentes momentos.

30
8
Periódico/ano 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 Total
8

JosTrans 3/18 3/15 7/15 7/22 0/20 6/24 14/22 8/20 1/20 9/27 9/27 67/230

Hermes 0/14 0/9 1/19 1/20 1/22 0/16 0/13 2/16 1/17 0/10 0/12 6/168

Perspectives 0/16 7/26 1/12 0/17 0/19 2/21 2/31 3/34 3/35 4/34 2/39 24/284

Meta 5/54 7/51 4/55 4/50 6/50 3/53 0/55 3/32 1/31 1/27 3/32 37/490

Linguistica 2/19 1/21 2/13 10/10 0/10 8/9 1/12 2/10 0/18 1/10 0/14 27/146
Antverpiensia

Target 0/13 1/18 1/14 0/13 1/12 2/13 1/14 2/20 2/17 0/17 1/21 11/172

The Trans- 1/14 0/12 0/15 0/17 0/13 1/17 3/14 0/10 0/13 0/10 1/17 6/152
lator

Trans-kom foi publicada pela primeira vez em 2008.


Fachsprache 0/8 0/6 0/7 0/8 1/9 0/10 0/6 0/6 0/8 0/9 0/8 1/85

Trans-kom8 - - 0/12 2/10 0/9 2/9 2/13 0/15 1/14 4/23 2/8 13/113

Artigos sobre 11 19 16 24 9 24 23 20 9 19 18 192/1840


Tecnologia
da Tradução
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

no total em
todos os
periódicos

Tabela 2. Documentos de pesquisa tecnológica e o número total de

31
artigos publicados a cada ano de 2006 a 2016
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Cerca de 192 dos 1840 artigos publicados nos nove periódicos


(correspondendo a 10,4%) abordam a tecnologia da tradução. A
produção total de artigos sobre pesquisa em tecnologia da tradução
é bastante constante durante o período, variando entre 9 como a
produção mais baixa (em 2010 e 2014) e 24 como a mais alta (em
2009 e 2011). Portanto, nosso estudo parece indicar que a virada
tecnológica (Seção 2) já havia começado em 2006. Para estabele-
cer com alguma certeza quando a virada tecnológica realmente
começou dentro dos ET, teríamos que expandir nosso estudo para
trabalhos publicados antes de 2006. Também teríamos que analisar
periódicos com escopos mais limitados do que os dos nove perió-
dicos examinados para o presente artigo. É notável que poderia ser
interessante estudar artigos publicados referentes a, por exemplo,
Machine Translation (Tradução Automática), que abordam a tradução
a partir da ótica da ciência da computação. Talvez descobríssemos
que alguns dos nove periódicos demonstram uma resposta atrasada
à virada tecnológica nos ET, embora em um grau variável.
Conforme explicamos no item 3.2, realizamos uma análise
temática dos 192 artigos que tratam de pesquisas sobre tecnologia
da tradução, dividindo-os em três categorias temáticas. A Tabela 3
mostra que a principal tendência nos nove periódicos parece ser
artigos sobre questões teóricas da tradução (nossa categoria 3),
pois 92 artigos assumem essa perspectiva, enquanto 66 artigos
evidenciam o aspecto técnico das ferramentas (nossa categoria
1) e apenas 34 salientam os aspectos da indústria e são voltados
para o fluxo de trabalho (nossa categoria 2). Isto reflete bem o que
Christensen e Schjoldager (2010) encontraram em sua pesquisa
empírica sobre tecnologia nas MTs.

32
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Periódico/ 1) Artigos de 2) Artigos de 3) Artigos de pesquisa


Números totais pesquisa voltados pesquisa voltados voltados para a teoria da
para a tecnologia para a indústria tradução
e o fluxo de
trabalho

JosTrans 19 15 33

Hermes 5 0 1

Perspectives 7 7 10

Meta 14 6 17

Linguistica Antver- 17 3 7
piensia

Target 2 2 7

The Translator 2 0 4

Fachsprache 1 0 0

Trans-kom 9 1 3

Números totais 66 34 92

Tabela 3. Análise temática de artigos sobre as pesquisas em tecnologia da tradução

Analisando os temas dos 192 trabalhos, descobrimos que a


maioria dos artigos teóricos sobre tradução parece se concentrar
no tradutor e no impacto da tecnologia sobre os tradutores e a
profissão em geral ou no treinamento de tradutores. Quanto aos
artigos que se dedicam aos aspectos técnicos, essas funções de
ferramentas são muito destacadas e orientam classificações e
avaliações de qualidade. A pesquisa da indústria voltada para o
fluxo de trabalho parece se concentrar mais na implementação de
tecnologias na indústria da linguagem do que no impacto disso
sobre os processos de tradução. Embora a pesquisa de processos
seja uma das áreas com desenvolvimento mais rápido nos Estudos
da Tradução (Munday 2009, p. 104), até o momento, essa tendência
não parece prevalecer na pesquisa sobre tecnologia da tradução.
Além disso, nosso estudo revelou que poucos pesquisadores inves-
tigaram a tecnologia da tradução no local de trabalho e, também,

33
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

que há pouca pesquisa sobre a interação dos tradutores com as


ferramentas de tradução e como isso afeta suas mentes e processos
de trabalho.

Seção temática sobre pesquisa em tecnologia da


tradução

A edição atual da Hermes traz oito artigos que abordam di-


versos tópicos dentro da pesquisa sobre tecnologia da tradução,
baseados em uma seleção ampla de teorias e métodos. Seguindo
a categorização temática explicada e usada na Seção 3, diríamos
que a maioria dos trabalhos (quatro) pode ser categorizada como
pesquisa da indústria orientada para o fluxo de trabalho. Isso parece
romper com a tendência das nove revistas analisadas para o nosso
estudo, e parece romper com uma tendência na Hermes,� em que
a maioria dos trabalhos (cinco de seis) publicados no período foi
categorizada como orientada à tecnologia (Tabela 3). Além disso,
embora o campo pareça não ter pesquisas sobre o processo de
tradução (Seção 3.3), todos os artigos da edição atual discutem
ou, pelo menos, abordam os aspectos do processo de CAT e/ou TA.
Como já explicado na Seção 3, a pesquisa orientada para a
tecnologia se concentra nos aspectos técnicos das ferramentas e
recursos de tradução (no sentido abordado por Alcina, 2008). Dois
artigos se enquadram nessa categoria. A pesquisa feita por Maite
Aragonés Lumeras e Andy Way é categorizada como voltada para a
tecnologia, pois os pesquisadores estudam os pontos fortes e fracos
da tradução automática estatística (SMT, do inglês Statistical ma-
chine translation) em comparação com a tradução humana. O artigo
traz uma notícia tranquilizadora para os tradutores profissionais
que temem que seus trabalhos sejam, em breve, controlados por
computadores. Segundo os autores, os humanos superam constan-
temente as ferramentas de tradução quando é necessário realizar
a desambiguação semântica, quando é preciso ter conhecimento
contextual e especialização de gênero, embora os computadores

34
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

sejam mais rápidos na tradução e no pré-processamento de textos


e possam auxiliar o tradutor na verificação ortográfica e termi-
nológica. Lumeras e Way concluem, portanto, que as habilidades
humanas provavelmente não serão replicadas por processos au-
tomáticos e continuarão sendo o componente mais valorizado do
processo de tradução hoje e também no futuro, sugerindo que os
desenvolvedores, linguistas computacionais e tradutores profis-
sionais devem reconhecer mais isso e trabalhar em conjunto para
otimizar os processos de tradução.
O artigo de Michael Carl e Moritz Jonas Schaeffer é classificado
como sendo voltado para a tecnologia, pois eles discutem e avaliam
a utilidade da TA. Em um estudo baseado em corpus envolvendo
vários pares de idiomas, os autores investigam as dificuldades
sistemáticas relacionadas à pós-edição de TA (PEMT, do inglês
�Post-edit machine translation), com foco em algumas consequências
das diferenças sintáticas e semânticas entre os idiomas de partida
e de chegada, às quais eles se referem como não literalidade na
tradução. Os autores estudam particularmente as correlações entre
a complexidade no resultado pós-editado e no gráfico de pesquisa
do sistema SMT (o caminho mais curto para uma possível tradução).
O resultado principal é que os pós-editores têm mais dificuldades
com traduções não literais geradas por um mecanismo de TA do
que os tradutores que traduzem os mesmos textos do zero.
A pesquisa para a indústria e orientada para o fluxo de tra-
balho se concentra nas ferramentas ou recursos em ação, lidando
com questões sociais e de outros processos na tradução profis-
sional (Seção 3). Quatro artigos se enquadram nessa categoria.
Ignacio Garcia examina uma nova e revolucionária ferramenta de
tradução: a computação em nuvem e sua influência no ambiente de
trabalho da indústria, incluindo as relações de poder no mercado
de tradução online. Com base em análises críticas de literatura
recente e relevante, bem como importantes fontes do setor, Garcia
documenta que o paradigma emergente da nuvem está reformu-
lando o setor de tradução no sentido de que os gerentes e clientes

35
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

controlam e monitoram cada vez mais o processo de tradução,


recrutando tradutores em um “pool de mão de obra casual e barata
que pode ser aproveitada conforme a demanda”. Do ponto de vista
gerencial, a computação em nuvem é altamente lucrativa devido à
competitividade e à flexibilidade do mercado online, mas para os
tradutores profissionais é alarmante como ela tem sido enfraque-
cedora, considerando que eles perdem o poder de barganha e o
controle sobre suas vidas profissionais.
Como apontado por Kristian Tangsgaard Hvelplund, embora
os recursos digitais pareçam ser amplamente usados pela maioria
dos tradutores profissionais, ainda não temos conhecimento em-
pírico desses recursos e sobre como eles afetam os processos de
tradução. O autor se propõe a ajudar a preencher essa lacuna. Os
recursos digitais são definidos como subsídios que os tradutores
podem acessar no computador e usar para resolver problemas de
tradução, como dicionários online e o mecanismo de pesquisa
do Google. Em um estudo sobre o processo de tradução empírica,
Hvelplund examina o uso de recursos digitais feito por tradutores
profissionais em uma série de sessões de gravação de tradução,
nas quais os tradutores traduziam textos ficcionais e de espe-
cialidades do inglês para o dinamarquês. O principal resultado é
que os recursos digitais são consultados em quase 20% do tempo
usado para realizar toda a tarefa de tradução, o que é bastante
considerável. Hvelplund finaliza seu artigo argumentando que o
uso de recursos digitais deve ser mais explorado na pesquisa do
processo de tradução.
O artigo de Nora Aranberri investiga a natureza das edições fei-
tas na TA e relata uma investigação sobre a pós-edição de traduções
geradas por SMT do espanhol para o basco realizadas por traduto-
res experientes, os quais enfrentaram a tarefa sem um treinamento
prévio, como é dado a muitos tradutores profissionais atualmente.
A qualidade do resultado da TA foi avaliada como moderada, o que
tende a ser comum na TA a partir de idiomas menos conhecidos
ou para esses idiomas, como é o caso do basco. Considerando que

36
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

os pós-editores da TA de alta qualidade podem geralmente se con-


centrar em consertar os matches da TA que precisam ser alterados,
os participantes analisados por Aranberri tiveram que dedicar um
tempo considerável avaliando as combinações de qualidade mo-
derada para saber se deveriam aceitá-las, rejeitá-las ou revisá-las.
Aranberri se refere a essa tarefa como PE “patchwork” e recomenda
que os futuros pós-editores sejam conscientizados sobre este tipo
de PE por meio de diretrizes e workshops de treinamento.
Joss Moorkens e Ryoko Sasamoto estudam a produtividade
ligada a vários segmentos na tradução com memória de tradução
assistida por TA. Dentro de uma estrutura teórica de relevância e
adotando uma abordagem de teoria fundamentada, eles relatam um
estudo exploratório e empírico da tradução automática profissional
assistida por memórias de tradução do inglês para o japonês. Eles
procuram estabelecer se existe uma relação entre os elementos
de comunicação inferencial (codificação processual/conceitual)
no texto de chegada, o esforço temporal e o tipo de segmento
de tradução (Tradução assistida por memórias de tradução, TA ou
tradução partindo do zero). O estudo mostra que a produtividade
da tradução aumenta quando os tradutores trabalham com matches
de memória de tradução, o que corrobora estudos anteriores, mas
diminui quando os tradutores editam as correspondências de TA
e aumenta quando eles traduzem do zero, o que é contrário ao
que seria esperado.
A Pesquisa teórica da tradução enfoca a perspectiva do tra-
dutor ou do estudante de tradução ou ainda os aspectos textuais
(Seção 3). Dois artigos se enquadram nessa categoria: ambos lidam
com as atitudes dos tradutores profissionais em relação à tecnolo-
gia e suas funcionalidades, e se concentram nos aspectos negativos
das ferramentas. Em um estudo em local de trabalho com tradução
usando memórias de tradução assistida por TA em uma empresa
de tradução dinamarquesa, Kristine Bundgaard usa a estrutura
de resistências percebidas de Pickering (2005) para conceituar a
irritação dos tradutores com a tecnologia. A principal conclusão é

37
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

que os tradutores foram mais críticos em relação à TA do que em


relação à tradução com memórias de tradução, pois geralmente
sentiam menos controle sobre o processo de tradução em relação
aos matches de TA (tendo maior resistência a isso), o que impacta
bastante em sua satisfação no trabalho.
Sharon O’Brien, Maureen Ehrensberger-Dow, Marcel Hasler e
Megan Connolly relatam os resultados de uma pesquisa online in-
ternacional, que fazia parte do projeto Ergo Trans, um projeto muito
grande e multidisciplinar. No artigo, os autores usam o conceito de
fricção cognitiva de Cooper (2004) para conceituar a irritação dos
tradutores com as ferramentas. Embora acreditem que parte do
atrito cognitivo sentido por muitos tradutores em relação às CATs
possa ser devido à falta de “maturidade tecnológica”, eles sugerem
que os desenvolvedores de software devem trabalhar de forma mais
colaborativa com os tradutores para desenvolver ferramentas que
gerem menos atrito cognitivo para os usuários – essa recomendação
também é expressa por Lumeras e Way (nesta edição).

Considerações finais e discussão

A atual carência de pesquisas sobre tecnologia da tradução


nos ET nos inspirou a enviar convites para artigos em uma seção
temática na Hermes, e temos o prazer de apresentar esses artigos
inovadores e interessantes, que ajudarão a preencher essa infeliz
lacuna nos ET. O objetivo do nosso artigo introdutório foi apresen-
tar as oito contribuições, tendo como pano de fundo a história e
as tendências atuais da pesquisa em tecnologia da tradução. Ini-
ciamos com uma breve discussão sobre a pesquisa em tecnologia
da tradução como uma subdisciplina dos ET, e fornecemos uma
interpretação da categorização da tecnologia da tradução de Alcina
(2008), que usamos como base para um estudo de mapeamento
dos trabalhos de pesquisa sobre a tecnologia da tradução publi-
cados por nove revistas com a temática “Estudos da Tradução” no
período de 2006 a 2016.

38
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

O objetivo do estudo de mapeamento foi duplo: (1) avaliar o


quanto a incorporação profissional da tecnologia da tradução foi
reflexo dos trabalhos de pesquisa dentro dos ET e (2) identificar
as áreas de interesse e a orientação dos autores em questão. O
método analítico foi indutivo e acumulativo à medida que identi-
ficamos termos relacionados à tecnologia da tradução em títulos,
resumos e palavras-chave de artigos publicados pelas nove revistas,
dividindo-os em três categorias temáticas. As análises resultaram
em um mapa de pesquisa em tecnologia da tradução, conforme re-
presentado nos nove artigos escritos durante o período escolhido.
Como todo mapa, o que apresentamos é um reflexo simplificado
da realidade, mas acreditamos que os nossos resultados podem
ajudar a demonstrar algumas tendências interessantes que são
indicativas da virada tecnológica nos ET; achamos, inclusive, que as
três categorias de pesquisa em tecnologia da tradução encontradas
podem ser usadas para complementar o tradicional mapa dos ET
de Holmes (1988/2000).
Um dos principais resultados da nossa análise é que a pesquisa
em tecnologia da tradução é agora parte integrante dos ET, em-
bora ainda não na medida em que se esperaria se considerarmos
a sua esmagadora absorção na profissão de tradutor. A principal
tendência nos nove periódicos parece ser a teoria da tradução, com
92 artigos teóricos de um total de 192 artigos sobre pesquisa de
tecnologia da tradução (Tabela 2, Seção 3.3). Também descobrimos
que as nove revistas lidam com tecnologia da tradução em graus
variados, variando de 1,2 a 29,1% do total de artigos (Tabela 1,
Seção 3.3). Em outras palavras, embora a pesquisa em tecnologia
da tradução tenha deixado uma marca permanente em alguns pe-
riódicos sobre ET, ela é quase invisível em outros locais. A análise
também mostra que a maioria dos artigos que tratam de aspectos
teóricos da tradução na tecnologia faz as abordagens partindo
da perspectiva do tradutor ou se concentra no treinamento do
tradutor e no produto gerado pela tradução. Por exemplo, mui-
tos artigos teóricos sobre tradução em nosso estudo discutem e

39
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

avaliam a capacidade das ferramentas de atender aos padrões de


qualidade profissional, porém, são relativamente raros os artigos
teóricos sobre tradução que tratam dos aspectos do processo da
tecnologia da tradução.
Embora os projetos sobre tecnologia da tradução dentro
dos ET ainda sejam relativamente raros, as evidências que temos
mostram claramente que o advento da tecnologia da tradução teve
um impacto enorme na profissão do tradutor. Os artigos da edição
atual da Hermes certamente sugerem que a tecnologia da tradução
mudou a maioria dos aspectos da tradução profissional – incluindo
processos de tradução, fluxos de trabalho e produtos, condições
de trabalho e status dos tradutores, além do gerenciamento e da
infraestrutura do setor de linguagens. Porém, as mudanças mais
essenciais ainda estão por vir com as ferramentas emergentes da
TA. Um sinal claro de que estamos entrando em uma era de auto-
mação crescente é que a maioria dos colaboradores dessa questão
parece trabalhar com a premissa de que a norma na tradução pro-
fissional é agora a PEMT ou a memória de tradução assistida por
TA, opondo-se à tradução tradicional com MT (sem função para a
TA), o que foi a norma até recentemente.
Mudanças essenciais na prática da tradução tendem a alterar
a percepção dos tradutores profissionais sobre a tarefa que estão
desenvolvendo, e elas também devem alterar a maneira como
pensamos sobre a tradução teoricamente. Este é definitivamente
o momento de reconsiderarmos e discutirmos o que entendemos
por tradução e por tradutores. Em especial, a tradução profissional
pode ser descrita atualmente de forma mais apropriada como TCI
(O’BRIEN, 2012) e como uma atividade transumana (ALONSO e CAL-
VO, 2015), já que a tecnologia, os tradutores e a indústria devem
agora ser vistos como um sistema coerente. Esse ponto parece já
ser comum a todos os colaboradores na questão temática.
Suspeitamos que o modelo tradicional de modos de tradução
de Hutchin e Somers (1992) (Seção 2) não seja mais aplicável aos ne-

40
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

gócios nem à tradução especializada (embora possa ser válido para


outros tipos de tradução mais criativa, como poesia ou tradução
literária). Primeiramente, como toda tradução profissional tende a
ser realizada usando alguma forma de assistência computacional,
o modo de tradução humana de Hutchin e Somers deve ser consi-
derado, se não inexistente, pelo menos insignificante na profissão
de tradutor na atualidade. Portanto, sugerimos que todo modo de
tradução humana poderia ser abandonado. Em segundo lugar, como
muitas traduções profissionais parecem envolver alguma forma de
automação, a distinção entre MAHT e HAMT está cada vez mais
nebulosa (Seção 2), e o modelo carece de complementação com
um modo que inclua MAHT e HAMT. A tradução com memória de
tradução assistida por TA (Seção 2) é um exemplo de aplicação
profissional que abrange tanto MAHT (tradução com memória de
tradução) quanto HAMT (pós-edição de TA) em oposição à tradução
tradicional com memória de tradução, que não envolve HAMT (por
não ter funções de TA). Em terceiro lugar, pensamos que o modelo
poderia ser complementado com alguns novos modos que reflitam
o desenvolvimento tecnológico significativo e diversificado dentro
da tradução totalmente automática de alta qualidade (FAHQT).
Exemplos dessas ferramentas recentes incluem: o SMT, os sistemas
de TA híbridos baseados em regras e os sistemas neurais de TA
(NMT, do inglês neural machine translation) desenvolvidos recente-
mente e cuja capacidade de “aprender” apresenta características
impressionantes de qualidade e velocidade (por exemplo, KENNY
(2016); O’BRIEN (2016); BUNDGAARD (2017)).�
Não há dúvida de que os tradutores estão se tornando cada
vez menos centrais para os processos de tradução, que passam a
ser cada vez mais dominados por uma variedade de ferramentas e
recursos avançados (Hvelplund, por exemplo). Alguns desses recur-
sos acabaram de ser disponibilizados, como o NMT, por exemplo.
Também é bem provável que os tradutores estejam se tornando
cada vez menos centrais para a tradução profissional, pois todo
o mercado de tradução poderá ser revolucionado em breve por

41
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

soluções colaborativas online, como a computação em nuvem


(Garcia) e também pelos avanços contínuos, como a inteligência
artificial, que aceleram ainda mais os processos de automação.
Como apontado por Garcia (nesta edição), esses desenvolvimentos
de mercado podem ter um impacto devastador sobre as condições
de trabalho e o status dos tradutores profissionais, que correm o
risco de se tornarem marginalizados como freelancers em um mer-
cado de plantão competitivo, do qual não têm controle.
No entanto, o futuro da profissão de tradução pode não ser tão
sombrio assim. Em primeiro lugar, é improvável que as máquinas
assumam todos os processos de tradução, pelo menos não em um
futuro previsível e, em segundo lugar, ter processos de tradução
mais automatizados não significa necessariamente que não haverá
necessidade de tradutores humanos. De acordo com o artigo de
Lumeras e Way (nesta edição), por exemplo, não há dúvida de que
os tradutores humanos e os sistemas de SMT ainda precisarão se
complementar, já que os humanos superam os computadores em
tarefas que envolvem interpretação contextual e textual, mas o
grau de envolvimento humano dependerá do cenário de tradução,
incluindo “o propósito, o valor e o prazo de validade do conteú-
do” (Lumeras e Way, nesta edição). Os resultados de vários outros
colaboradores para esta questão também indicam que mesmo a
TA de alta qualidade ainda pressupõe pelo menos algum grau de
envolvimento humano, especialmente na forma de PE para idiomas
menos usados (Aranberri nesta edição; Moorkens e Sasamoto, nesta
edição). Da mesma forma, os trabalhos de Bundgaard e O’Brien,
Ehrensberger-Dow, Hasler e Connolly concluem que os resultados
de alta qualidade são mais facilmente alcançados com as MTs do
que nos matches de TA e que trabalhar com matches de TA tende a
irritar mais os tradutores do que trabalhar com matches de MT. O
último ponto é sustentado pela constatação, de Carl e Schaeffer,
de que a não literalidade é mais problemática (e mais demorada)
na pós-edição de TA do que na tradução feita do zero. A tudo isso,
podemos acrescentar que muitos tradutores acham agradável o

42
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

fato de não terem mais que executar tarefas que consideravam


entediantes e demoradas: pesquisar palavras e terminologia es-
pecífica em dicionários tradicionais, enciclopédias etc. e codificar/
recodificar cuidadosamente (e digitando) essas palavras e termos
nas traduções. De fato, muitos tradutores hoje provavelmente
acreditam estarem livres para se concentrarem em outros aspectos
da tradução, o que para eles pode ser mais gratificante, como o
gerenciamento de projetos de tradução e as verificações de qua-
lidade (QA).
Como já é de conhecimento comum, hoje as máquinas (ou
robôs) podem realizar funções que antes eram feitas por humanos
em muitas profissões. Sendo assim, já é possível, por exemplo, que
os computadores dirijam carros, diagnostiquem doenças, realizem
cirurgias complexas e respondam a questões legais e administrati-
vas (simples). No entanto, também é sabido que os computadores
podem falhar facilmente e, quando isso acontece, é absolutamente
necessário que os humanos estejam qualificados para assumir o
controle. Como exemplo disso, Højholt (2016) menciona o aciden-
te fatal com o voo 447 da Air France em 2009, quando o piloto
automático se desconectou devido a problemas técnicos. A falha
do piloto automático não causou a queda do avião; o avião caiu
porque a tripulação não tinha experiência prática suficiente para
pilotar a aeronave manualmente. Felizmente, as falhas na tecnologia
da tradução raramente causam acidentes fatais, mas a lição para
os tradutores profissionais é bastante semelhante à dos pilotos:
embora a alta tecnologia seja capaz de assumir processos de tradu-
ção que antes eram realizados por tradutores humanos, e mesmo
que esses processos pareçam estar perfeitos, os humanos ainda
precisarão de treinamento teórico e prático em tradução, e não
há dúvida de que eles precisarão monitorar o trabalho realizado
pelos computadores.
Ainda não sabemos se os tradutores humanos no futuro con-
tinuarão vendo a si mesmos como tradutores ou se será algo um
pouco diferente, no entanto, estamos certos de que eles precisarão

43
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

desenvolver e ampliar habilidades e competências que irão além do


que muitos tradutores profissionais dominam hoje. Os tradutores
do futuro precisarão de mais treinamento em TI, precisarão de
treinamento em novas formas de tradução, como o PEMT (Aran-
berri, nesta edição), e precisarão desenvolver suas competências
como bons comunicadores e produtores de textos. Eles precisarão
realmente entender como interagir bem com outros profissionais e
com computadores em uma grande rede colaborativa. Por isso, ter-
minamos nosso artigo propondo que os programas desenvolvidos
para linguagem e tradução em universidades e outras instituições
transformem os estudantes em especialistas em tecnologia de texto
e tradução. Os alunos graduados nesses programas saberão como
produzir textos altamente funcionais em vários idiomas, o que é
preciso para fornecer traduções de alta qualidade e como fazer
bem tudo isso usando tecnologia avançada e estando em estreita
colaboração com outros especialistas.

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47
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

CAPÍTULO II

PRODUÇÃO CINEMATOGRÁFICA ACESSÍVEL1:


‘LIGANDO OS PONTOS’ ENTRE TRADUÇÃO
AUDIOVISUAL, ACESSIBILIDADE E CINEMA2

Pablo Romero-Fresco, University of Roehampton


Traduzido por Marcella Wiffler Stefanini e Samira Spolidorio

Resumo: Apesar do considerável aumento no volume de pesquisa


na última década, a tradução audiovisual (TAV), a acessibilidade
midiática, e seus principais serviços (dublagem, legendagem,
legendagem para surdos e ensurdecidos e audiodescrição para
cegos e pessoas com baixa visão), são ainda uma consideração
posterior no processo de produção cinematográfica. Isso resulta
em uma falta de investimento nessa área e em uma preocupante
queda na qualidade e condições de trabalho. O foco deste artigo
é a noção de produção cinematográfica acessível como uma pos-
sível forma de integrar TAV e acessibilidade durante o processo de
produção cinematográfica, através da colaboração entre cineastas

1 Nota das tradutoras: Para a expressão “accessible filmmaking”, dentre outras opções como
“cinegrafia acessível” ou “produção audiovisual acessível”, escolhemos aqui o termo usado
por Sara Benvenuto, em sua dissertação de mestrado “Adaptação Fílmica e Audiodescrição:
Uma Proposta de Produção Cinematográfica Acessível para Pessoas com Deficiência Visual”,
defendida em 2013 pelo programa de Linguística Aplicada da Universidade Estadual do Ceará,
em que a proposta da autora de incluir a questão da acessibilidade já no processo de pré-produção
de um filme se assemelha muito com o conteúdo proposto aqui. A dissertação está disponível
no repositório da Universidade no link <http://www.uece.br/posla/dmdocuments/Saramabel.
pdf>. Acesso em 02 de abril de 2018.
2 Publicado originalmente em The Journal of Specialised Translation, 20ª edição, julho de 2013,
sob o título Accessible filmmaking: Joining the dots between audiovisual translation, acces-
sibility and filmmaking, disponível pelo link http://www.jostrans.org/issue20/art_romero.php,
acesso 04 de abril de 2018.

49
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

e tradutores. Depois de uma comparação entre a contextualização


histórica da localização de videogames e da TAV e acessibilidade,
o artigo traz três exemplos atuais de implementação de produção
cinematográfica acessível: design universal aplicado à acessibilida-
de midiática, legendagem parcial e legendagem criativa. O artigo
também apresenta o pequeno documentário ‘Ligando os Pontos’
(Joining the Dots, de Romero-Fresco, 2012)3 como um caso de pro-
dução cinematográfica acessível e discute como essa noção está
sendo aplicada em relação ao ensino, pesquisa e prática, conforme
apresentado no site dedicado à produção cinematográfica acessível:
www.accessiblefilmmaking.org

Palavras-chave:
Acessibilidade; Produção Cinematográfica Acessível; Tradução
Audiovisual; Legenda Parcial; Legenda Criativa; Design Universal.

Introdução

Serviços de tradução audiovisual (TAV) em geral, e serviços de


acessibilidade em particular, estão crescendo exponencialmente
ao redor do mundo. Nova legislação está levando ao aumento do
oferecimento de legendagem para surdos e ensurdecidos (LSE) e
audiodescrição para cegos e pessoas com baixa visão (AD), com
países como o Reino Unido e a França chegando próximo ao 100%
de LSE nos canais abertos. Agora que muitas das cotas estão sen-
do alcançadas, o foco parece estar se deslocando da quantidade
para a qualidade. Novos guias para produção acessível foram
lançados na Espanha (AENOR, 2012) e na França (MFP, 2012), e a

3 Nota das tradutoras: o documentário em questão encontra-se disponível na versão legendada


para o português de Portugal com o título “Unindo os Pontos”. Contudo, como acontece com
a maioria dos filmes, nem sempre os títulos brasileiros e portugueses são os mesmos, uma vez
que há grande diferença entre o público-alvo nos dois países. Assim, neste caso específico,
como não há uma versão ‘oficial’ para o português do Brasil, nossa proposta de tradução foi
a opção por ‘Ligando os Pontos’ por entender que: 1) é assim que a atividade dos livros de
colorir infantis a que ‘join the dots’ em inglês faz referência é conhecida no Brasil; 2) ‘ligar
os pontos’ também pode ser entendida como uma expressão coloquial que significa ‘juntar as
peças ou elementos para entender/compreender algo’, dando um duplo sentido ao título do
artigo semelhante ao duplo sentido do título original.

50
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

pesquisa acadêmica em TAV está se concentrando cada vez mais


em pesquisas experimentais e estudos de recepção que objetivam
melhorar a qualidade da LSE, AD e das modalidades mais ‘tradi-
cionais’ como legendagem e dublagem. Em geral, mesmo assim,
ainda há um obstáculo no caminho de um maior crescimento e
desenvolvimento dessa área: apesar da TAV e da acessibilidade
terem alcançado visibilidade considerável dentro dos Estudos da
Tradução e da indústria da tradução, o mesmo não se pode dizer
dentro dos Estudos Fílmicos e da indústria cinematográfica. Certa-
mente, a descrição da legendagem como sendo “um mal necessário,
deixado para segundo plano, e não como um componente natural
do filme” (SINHA, 2004, p. 174) pode também ser aplicada à LSE,
AD e dublagem.
Paradoxalmente, apesar desses serviços de tradução e acessi-
bilidade representarem apenas 0,1%-1% do orçamento da produção
de um filme (LAMBOURNE, 2012), mais da metade da renda de
filmes de Hollywood, tanto os de maior bilheteria quanto os mais
premiados, vêm de território estrangeiro4:

Filmes que mais arrecadaram entre 2001-2011

Arrecadação Estrangeira
Arrecadação com Dublagem/
Filme Estrangeira Legendagem

Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001) 67,40% 83%

Homem-Aranha (2002) 50,90% 84%

O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei


(2003) 66,30% 79%

Shrek 2 (2003) 52% 72%

Guerra nas Estrelas - Episódio III (2005) 55,20% 88%

Piratas do Caribe: O Baú da Morte (2006) 60,30% 80%

Homem-Aranha 3 (2007) 62,20% 84%

4 Dados obtidos de IMBD, www.boxoffice.guru.com e www.boxofficemojo.com.

51
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

O Cavaleiro das Trevas (2008) 46,80% 72%

Avatar (2009) 72,70% 87%

Toy Story 3 (2010) 61% 75%

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte


2 (2011) 71,30% 81%

Média 60,50% 80,40%

Tabela 1: Porcentagem da arrecadação obtida fora do país de origem pelos filmes que
mais arrecadaram (2001-2011); porcentagem da arrecadação obtida fora do país de
origem gerada por versões dubladas ou legendadas.

Vencedores do Oscar de Melhor Filmes entre 2001-2011

Arrecadação Arrecadação Estrangeira


Filme Estrangeira Dublagem/Legendagem

Uma Mente Brilhante (2001) 45,50% 83%

Chicago (2002) 44,40% 71%

O Senhor dos Anéis: O Retorno


do Rei (2003) 66,30% 79%

Menina de Ouro (2004) 53,60% 86%

Crash - no Limite (2005) 44,50% 71%

Os Infiltrados (2006) 54,30% 78%

Onde os Fracos Não Têm Vez


(2007) 56,70% 80%

Quem Quer Ser um Milionário?


(2008) 62,60% 78%

Guerra ao Terror (2009) 65,40% 78%

O Discurso do Rei (2010) 66,50% 59%

O Artista (2011) 66,50% 76%

Média 57% 76,30%

Tabela 2: Porcentagem da arrecadação obtida fora do país de origem pelos filmes que
ganharam o Oscar de Melhor Filme (2001-2011); porcentagem da arrecadação obtida
fora do país de origem gerada por versões dubladas ou legendadas.

52
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Como mostrado nas tabelas 1 e 2, mais da metade (60,5% e 57%,


respectivamente) da renda obtida pelos filmes que mais arrecadaram
e pelos que ganharam o Oscar de melhor filme entre os anos de 2001
e 2011 vieram do mercado estrangeiro. Disso, mais de três quartos
(80,4% e 76,3%, respectivamente) vieram de países estrangeiros
onde esses filmes foram legendados ou dublados. A renda restante
proveio de territórios onde os filmes foram exibidos em inglês, mas
onde alguns espectadores provavelmente os assistiram com AD e
especialmente LSE. Se essa grande proporção do dinheiro arrecadado
por esses filmes vem das suas versões traduzidas (legendagem/dubla-
gem) ou acessíveis (LSE, AD), é inacreditável que apenas 0,1%-1% do
orçamento desses filmes seja dedicado à tradução e acessibilidade.
Será que algo pode ser feito a respeito dessa falta de atenção dada
à TAV e à acessibilidade na indústria cinematográfica?
O presente artigo introduz a noção de produção cinemato-
gráfica acessível5, a integração entre TAV e acessibilidade como
parte do processo de produção cinematográfica, como uma pos-
sível maneira de enfrentar esse problema. Após uma comparação
inicial entre TAV e localização, na qual algumas medidas já foram
tomadas nessa direção, esse artigo se centrará no estudo do design
universal, legendagem parcial e legendagem criativa como três
exemplos de produção cinematográfica acessível que já estão sendo
implementados e já receberam alguma atenção acadêmica. A seção
seguinte introduzirá o documentário sobre AD ‘Ligando os Pontos’
(2012)6 que servirá para ilustrar como tradução e acessibilidade
podem ser levadas em consideração nas etapas de (pré-)produção
e pós-produção de um filme. Finalmente, a última seção irá mostrar
como essa noção de produção cinematográfica acessível pode ser
implementada do ponto de vista do ensino, pesquisa e prática,
incluindo algumas iniciativas já em andamento.
5 Conforme será explicado na seção 3, o termo “acessível” em “produção cinematográfica aces-
sível” inclui não apenas acessibilidade para pessoas com deficiência sensorial, mas também,
em sentido mais amplo, tradução ou acessibilidade linguística; em outras palavras, fazer um
filme acessível ao público com perda auditiva/visual e ao público falante de outras línguas.
6 Nota das tradutoras: Na versão digital desse artigo, publicado no volume 20 do periódico
eletrônico The Journal of Specialized Translation, o texto do autor inclui um link para o do-
cumentário que pode ser encontrado aqui http://www.jostrans.org/issue20/int_romero.php.

53
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Contexto Histórico: localização de videogames e TAV

Localização de videogames

Diferentemente da TAV, a localização de videogames já alcan-


çou significantes progressos no sentido da integração da tradução
ao processo de produção. Contudo, essa prática só se tornou
comum na virada do século. Durante o surgimento da indústria
do videogame na década de 1970, e com algumas exceções como
Pac-Man, os jogos eram enviados na sua versão original e não ha-
via nenhuma localização ou tradução envolvida (BERNAL-MERINO,
2011). Nos anos 1980, houve a introdução da abordagem “Caixa
e Manuais” (conhecida como Box and Docs, em inglês), na qual a
embalagem e documentação dos jogos, mas não o próprio jogo,
eram traduzidas do inglês para o alemão, francês, espanhol, italia-
no e holandês. Os anos 1990 introduziram a “localização parcial”
(CHANDLER, 2005, p. 14), incluindo tradução para a interface do
usuário e menus, bem como legendas para cenas específicas, o que
tornou esses jogos acessíveis a jogadores com perda auditiva. Isso
foi seguido de uma “localização completa”, que envolveu a gravação
de dublagem nos jogos de maior sucesso para cada língua e colo-
cou a indústria da localização de videogames “como uma parceira
necessária da indústria de games” (BERNAL-MERINO, 2011, p. 15).
A virada do século trouxe o modelo de lançamento simultâneo
(Sim Ship, em inglês) de todas as versões em diferentes línguas de
alguns jogos e, mais importante, a implementação da localização
durante o desenvolvimento do jogo (CHRISTOU et al., 2005). Tan-
to o design quanto algumas partes chave de jogos de quiz, como
Buzz (CROSIGNANI e RAVETTO, 2011), ou jogos de RPG (do inglês,
Role-Playing Games), como os feitos por BioWare (CHRISTOU et al.,
2011) variam dependendo da língua em que serão traduzidos. Em
alguns casos, a localização também é levada em consideração na
etapa de pré-produção, na qual os departamentos de localização
e suas agências de tradução recebem alguns arquivos dos jogos
e metadados (pronúncia, guias, glossários, documentos com as

54
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

perguntas frequentes, etc.) para ajudá-los a revisar e preparar a


tradução.
Esses exemplos, além da inclusão do “Localization Summit”
(um comitê específico para localização) na Game Developers Confe-
rence, o maior evento do gênero que acontece anualmente em São
Francisco, ilustram como a localização de videogames está à frente
da TAV tanto em termos de visibilidade na sua área quanto em ter-
mos de integração ao processo de (pré-)produção. Essa integração
pode ser explicada por vários fatores. Os videogames são adaptados
para os consumidores porque “a customização é parte da própria
natureza da tecnologia que a torna possível, bem como parte da
essência do software de entretenimento” (BERNAL-MERINO, 2011,
p. 15). A localização é, desnecessário dizer, um elemento chave na
customização. Além disso, os videogames são criados sobretudo
como produtos de consumo (e não como obras de arte) e são,
portanto, movidos por vendas e lucros, o que aumenta quando
o mercado estrangeiro também consome. Desde a introdução da
localização na década de 1990, a renda da indústria dos videoga-
mes dobrou (Ibidem). Um fator final pode ser a tecnologia, que é
muito mais centralizada na indústria de videogames do que na
indústria fílmica, já que todos os itens são criados e organizados
por engenheiros em programas de computador, assim, facilitando
a colaboração entre desenvolvedores e localizadores.

TAV e acessibilidade

Uma análise minuciosa da razão pela qual a TAV e a acessibili-


dade não conseguiram obter o mesmo progresso que a localização
está além do escopo desse artigo. Contudo, retomar brevemente
o início da inserção da transferência linguística em filmes pode ser
uma contextualização útil.
Até mesmo antes do surgimento do som no cinema, os filmes
mudos necessitavam da tradução dos intertítulos usados pelos
cineastas para transmitir diálogos ou narração: “Na era dos inter-

55
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

títulos, resolver o problema da tradução foi relativamente fácil.


Os intertítulos originais eram removidos, traduzidos, desenhados
ou impressos em papel, filmados e inseridos novamente no filme”
(IVARSSON, 1992 p. 15). Na maioria das vezes, os estúdios não
terceirizavam essas traduções, que eram feitas no próprio estúdio,
como parte do processo de pós-produção do filme (IZARD, 2011,
p. 190). Contudo, a tradução na era dos filmes mudos também
envolvia outras práticas, incluindo modificações no enredo na
etapa de pré-produção e o uso de tomadas alternativas na etapa
de produção para atender aos mercados estrangeiros ou estar de
acordo com as exigências da censura (VASEY, 1997, p. 54-64). Con-
forme resume Dwyer (2005, p. 302), “a tradução era parte integral
da indústria como um todo”. A introdução de diálogos parcial ou
completamente audíveis em filmes tais como O Cantor de Jazz (1927)
e Lights of New York (1928, sem tradução) trouxe um novo cenário e a
necessidade de um tipo diferente de tradução. Alguns desses filmes
(conhecidos como part-talkies ou talkies – parcialmente-falados ou
falados) usavam intertítulos na língua de chegada para traduzir o
diálogo audível do original, enquanto outros levaram às primeiras
tentativas (na maioria, malsucedidas) de dublagem e legendagem
em francês, alemão e espanhol (IZARD, 2001, p. 196-198). Essas
três formas de tradução tinham em comum o fato de fazerem parte
do processo de pós-produção dos filmes.
Frente às reações negativas dos espectadores a essas tra-
duções, a indústria fílmica optou por uma solução diferente na
forma de “versões em múltiplas línguas” (VINCENDEAU, 1999),
também conhecidas como “multilinguais” ou “versões em línguas
estrangeiras” (UROVIČOVÁ, 1992). Os filmes eram feitos e refeitos
em duas ou três línguas pelo mesmo diretor e, algumas vezes, em
até quatorze línguas com um diretor diferente para cada língua. O
elenco poderia permanecer o mesmo ou mudar, dependendo do
filme e do número de versões a serem produzidas (VINCENDEAU,
1999, p. 208-209). O estúdio Joinville, fundado pela Paramount em
Paris em 1930, fazia múltiplas versões em até 12 línguas, o que,

56
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

normalmente, representava 30% do orçamento total de um filme.


Eles tinham até mesmo um comitê literário para supervisionar a
qualidade das versões traduzidas (IZARD, 2001, p. 201-202). Isso
pode ser considerado uma forma extrema de produção cinemato-
gráfica acessível, na qual a necessidade de fazer filmes acessíveis ao
público estrangeiro não era apenas um elemento de pós-produção,
como era o caso até então, mas um princípio estrutural da produção
fílmica. Uma vez que as técnicas de dublagem e legendagem me-
lhoraram, porém, os estúdios optaram por usar essas modalidades,
pois reduziam os custos com tradução a aproximadamente 10% do
orçamento do filme. Cada vez mais terceirizadas e não supervisio-
nadas pelos cineastas, as traduções perderam seu status como parte
do processo de produção cinematográfica e se tornaram parte do
processo de distribuição, como é o caso atualmente.
A natureza heterogênea e fragmentada da produção cinema-
tográfica (em termos de tempo, locações, processos e tecnologia)
provavelmente facilitou essa mudança. De fato, a TAV e a localização
em videogames parecem ter tomado rumos opostos. Inicialmen-
te considerada apenas na etapa de distribuição, a localização se
tornou hoje um elemento crítico no desenvolvimento de video-
games. Em contraste, a TAV nasceu como parte do processo de
pós-produção em filmes mudos, por um breve período se tornou
parte integral do processo de produção nas versões em múltiplas
línguas (que eram efetivamente localizadas) e, desde então, foram
relegadas ao processo de distribuição.
A introdução da LSE nos Estados Unidos e na Europa durante
os anos 1970 e 1980 não mudou a situação. Desde o começo, os
serviços de acessibilidade eram considerados caros e úteis apenas
para um grupo bem reduzido e específico da população (STEPHA-
NIDIS, 2001). No caso da LSE para televisão, essa marginalização
também foi determinada pela tecnologia usada, baseada em te-
letexto. A legenda era transmitida através de um sinal separado,
criado fora do processo de produção dos programas. O mesmo se
aplica a LSE para o cinema, produzida por terceiros e, portanto,

57
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

não supervisionada (e geralmente desconhecida) pelos membros


da equipe criativa do filme.
Desde então, TAV e acessibilidade são um produto secundário
da indústria fílmica, o que também tem se refletido na pesquisa
e ensino. Algumas tentativas foram feitas por estudiosos da TAV
(CHAUME, 2004; MAS e ORERO, 2005; CATTRYSSE e GAMBIER,
2008; FRYER e FREEMAN, 2012) e estudiosos do cinema (EGOYAN
e BALFOUR, 2004) para construir uma ponte entre essas duas dis-
ciplinas, mas elas continuam escassas e distantes uma da outra. No
que diz respeito ao ensino, cursos de cinema raramente prestam
alguma atenção a questões relacionadas à tradução e acessibilida-
de, e programas de pós-graduação em TAV dificilmente ensinam
sobre cinema. A seção seguinte introduz a noção de produção
cinematográfica acessível como uma maneira possível de começar
a construir essa ponte.

Produção cinematográfica acessível

Antes de tentar oferecer uma definição mais precisa de pro-


dução cinematográfica acessível do que a apresentada acima (a
integração da TAV e acessibilidade como parte do processo de
produção cinematográfica), talvez seja útil apresentar as três ini-
ciativas a seguir.

Design universal

Cunhado pelo arquiteto Ronald L. Mace, o termo “design


universal” é aplicado a prédios, produtos e ambientes que são
acessíveis a pessoas com ou sem deficiências (MACE, 1976). Para
obedecer aos princípios da teoria do design universal, o design de
um produto precisa incluir o máximo possível de usos e usuários,
sendo assim desde sua concepção. No artigo “The Rogue Poster-
Children of Universal Design: Closed Captioning and Audio Description”
(2009), John-Patrick Udo e Deborah Fels aplicam os princípios da

58
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

teoria do design universal à LSE e AD, a fim de verificar se essas


modalidades podem ou não ser consideradas exemplos de design
universal. A LSE é geralmente descrita como um “meio-fio rebai-
xado eletrônico”, ou seja, um serviço que, assim como rampas nas
calçadas, beneficia não apenas seu público-alvo (público com perda
auditiva), mas também um público menos previsível; nesse caso,
aqueles que talvez estejam assistindo à televisão em ambientes
barulhentos ou que precisem da legenda para aprender alguma
língua. No entanto, Udo e Fels descobriram que nem a LSE nem a
AD podem ser consideradas como exemplos de design universal,
porque elas são concebidas depois e não no começo do processo
e porque o “designer” do produto (audiovisual) não está (nem um
pouco) envolvido no processo da LSE/AD:

Considerando que alguns aspectos [do processo de


produção cinematográfica] são moldados para formar
parte de um grande todo indissociável, o CC [clo-
sed captions, termo americano para LSE] e a AD são
partes externas, visivelmente diferentes e que não se
encaixam, uma vez que não foram criadas pela mesma
pessoa, com a mesma visão (UDO; FELS, 2009, p. 27).

Uma vez que a inserção da LSE e da AD pode afetar a interpre-


tação do público sobre o filme, Udo e Fels questionam de que forma
terceiros, sem nenhum acesso à equipe criativa, podem assumir
a tarefa de transmitir a visão do diretor. A fim de enfrentar esse
problema, os autores propõem um modelo alternativo:

Nós afirmamos que os audiodescritores e legendadores


devem operar em um sistema semelhante [ao do resto
da equipe cinematográfica], relatando ou, ao menos,
consultando um diretor de serviços de acessibilidade.
Essa equipe iria, assim, se encontrar com o diretor de
produção para desenvolver uma estratégia de acessibi-
lidade que reinterpretasse a “imagem e sentimento” da
produção. As equipes de legendagem e audiodescrição

59
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

iriam, então, trabalhar juntas para desenvolver protó-


tipos que, por sua vez, seriam aprovados pelo diretor
antes de serem produzidos. O produto final deveria
receber atenção semelhante (Ibidem, p. 24).

Essa proposta é muito semelhante à abordagem adotada por


Raina Haig, a cineasta britânica com deficiência visual, cujo filme
de estreia, Drive (1997), foi o primeiro a incluir AD como parte
do processo de produção. Para Haig (2002), a fim de fornecer ao
público com deficiência visual “escolhas comerciais equitativas e
de qualidade artística”, a AD precisa ser construída “em consulta
ou até colaboração com o cineasta”, portanto, considerando “o
trabalho de AD como parte da indústria fílmica”. Conforme apon-
tado por Udo e Fels (2009), esse modelo não requer que os dire-
tores de filmes sejam especialistas em serviços de acessibilidade.
Eles podem confiar no diretor de serviços de acessibilidade ou no
legendador/audiodescritor assim como eles confiam no diretor
de iluminação ou no diretor de fotografia. Contudo, o ideal seria
que eles se familiarizassem com conceitos básicos de AD (e LSE),
a fim de tomar decisões informadas. Da mesma forma, Haig (2002)
sugere que audiodescritores precisam “aprender como se afinar
com a visão do cineasta”, o que requer treinamento (e estudo) em
filmes “para ter um entendimento de como e por que as sequências
fílmicas são montadas do jeito que são” (Ibidem).
Esse modelo colaborativo esboçado por Udo e Fels e coloca-
do em prática por Haig pode ser observado no filme apresentado
aqui, ‘Ligando os Pontos’ (2012), e em outros filmes e iniciativas
mencionadas na seção cinco a seguir. Todos eles pertencem à
noção de produção cinematográfica acessível, que foi escolhida
aqui em vez de ‘design universal’. Apesar de design universal ser um
conceito útil e amplamente reconhecido, ele tem inconvenientes.
Em primeiro lugar, a fim de avaliar se um dado produto pode ou
não ser considerado um exemplo de design universal, Udo e Fels se
sentem obrigados a aplicar os sete princípios do design universal
indicados por Connell et. al. (1997). Esses princípios foram, no

60
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

entanto, criados para um tipo diferente de acessibilidade e, como


Udo e Fels reconhecem, muitos deles não são relevantes para a
acessibilidade midiática “porque eles não são entidades físicas”
(2009, p. 20). Mais importante, em seu modelo de design universal,
Udo e Fels apenas lidam com serviços de acessibilidade (LSE e AD)
e não com tradução. Contudo, para um novo modelo de produção
ser bem-sucedido na indústria fílmica, ele deve ser o mais rentável
e ter o maior alcance possível. Se ele apenas se aplicar a serviços
de acessibilidade, ele corre o risco de ser considerado caro e vol-
tado apenas às necessidades de um grupo pequeno e específico
da população (STEPHANIDIS, 2001), mesmo que isso não seja
verdade. Ao integrar TAV e acessibilidade como parte do processo
cinematográfico, produção cinematográfica acessível contempla
todos os elementos que os cineastas devem levar em consideração
a fim de fazer seus filmes acessíveis não apenas aos espectadores
com perda auditiva ou visual, mas também aos espectadores em
outras línguas. Desse modo, não estamos mais nos referindo a uma
minoria, mas a uma grande parte do público.

Legendagem parcial

Línguas estrangeiras foram utilizadas em filmes originais


desde a introdução do som, mas elas foram tradicionalmente
relegadas a desempenharem um papel de “cartão postal” (WAHL
apud O’SULLIVAN, 2008, p. 82). O cinema anglófono é acusado
de “ventriloquizar o mundo” e “falar por outros em seu idioma
nativo” (SHOHAT e STAM, 1985, p. 36). Filmes como A Lista de
Schindler (SPIELBERG, 1993) ou Operação Valquíria (SINGER, 2008)
são exemplos dessa tendência homogeneizadora, na qual persona-
gens poloneses e alemães contam a história da Alemanha Nazista
em inglês (com um pouco de sotaque). Contudo, a última década
testemunhou o desenvolvimento de uma imaginação multilíngue
no cinema anglófono dominante (O’SULLIVAN, 2008) que está
cada vez mais recorrendo ao diálogo estrangeiro não apenas para

61
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

realçar localidades ou nacionalidades ‘exóticas’, mas para conduzir


o desenvolvimento do enredo e dos personagens. Essa tendência,
descrita por Sternberg (1981) como “correspondência veicular
entre línguas” (vehicular matching), pode se manifestar em pelo
menos três maneiras. Filmes apresentando mais de uma língua
podem escolher deixar a língua estrangeira sem tradução (se, por
exemplo, o objetivo for ela não ser compreendida pelo público),
ter interpretação diegética (tradução por um dos personagens
do filme), ou, como é cada vez mais frequente, traduzir a língua
estrangeira através de legenda. Isso é o que O’Sullivan chama de
legendagem parcial.

Legendagem parcial é entendida aqui simplesmente


como uma estratégia para fazer um filme, gravado
em duas ou mais línguas, acessível ao público. Dife-
rentemente das legendas convencionais, as legendas
parciais são inseridas apenas em uma parte do diálogo,
são planejadas em uma etapa inicial da produção do
filme, e são voltadas para o público cuja língua primária
é a língua do filme. Esses filmes não terão uma versão
‘original’, sem legenda, mas serão parcialmente legen-
dados para todos os públicos (2008, p.81).

Em alguns casos, a legendagem parcial pode até ter um im-


pacto significante no diálogo final do filme. O diretor americano
de filmes independentes, John Sayles, cujos filmes geralmente
apresentam múltiplas línguas, viu-se escrevendo um diálogo “para
se encaixar no formato de 32 caracteres por linha da legenda”
(MOLYNEAUX apud MILLER, 2003, p. 143). Mas a legendagem parcial
não está presente apenas em filmes independentes. Pelo contrário,
ela se tornou a norma em filmes de sucesso que apresentam várias
línguas, tais como Quem quer ser um milionário? (2008), Avatar (2009)
e Bastardos Inglórios (2009), nos quais a legenda corresponde a 70%
dos diálogos.

62
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

De modo interessante, as legendas parciais em alguns desses


filmes não são exatamente uma tradução do diálogo que aparece
em tela, mas uma “pseudotradução” (O’SULLIVAN, 2011, p. 118).
O diálogo original é o apresentado no roteiro em inglês, que é,
então, traduzido para a “língua estrangeira” para ser falado pelos
personagens do filme como se fosse o diálogo original e, subse-
quentemente, legendado em inglês para os espectadores. Conforme
descrito por O’Sullivan (2011, p. 120), esses filmes são, portanto,
filmes de língua inglesa para espectadores falantes do inglês, que,
por acaso, “tiram umas férias curtas” em outras línguas durante o
percurso. Esses exemplos de legendagem parcial contrastam com
outros que não são pseudotraduções, tais como aqueles encon-
trados em Trem Mistério (1989) ou Uma Noite Sobre a Terra (1991)
de Jim Jarmusch. Nesses filmes, o diálogo não-inglês é criado em
colaboração com os atores, mas não necessariamente como uma
tradução do roteiro originalmente escrito em inglêDe qualquer
forma, e independentemente de elas constituírem ou não casos de
pseudotradução, as legendas parciais devem ser consideradas um
exemplo de produção cinematográfica acessível. Em vez de serem
pensadas ao término do processo cinematográfico, elas são con-
sideradas na etapa de pré-produção, quando o roteiro está sendo
desenvolvido, e produzidas durante a etapa de pós-produção pelos
roteiristas e cineastas, geralmente em colaboração com os traduto-
res. O crescente uso de multilinguismo em filmes e a popularidade
da legendagem parcial para transmiti-lo sugere que esse tipo de
produção cinematográfica acessível chegou para ficar.

Legendagem criativa

Como mencionado na seção dois, depois da era de criativida-


de presente no uso e tradução de intertítulos do cinema mudo,
quando a tradução ficou relegada ao processo de distribuição,
as legendas tornaram-se simples e desprovidas de criatividade.
As legendas (e os legendadores) tinham que seguir as regras e

63
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

padrões definidos, tornando as legendas algo apenas funcional


que tinha como intenção cumprir o papel meramente relacionado
ao conteúdo linguístico. A informação contida nas palavras era
o mais importante e não havia lugar para outros aspectos que
poderiam ser expressos pelo uso de fontes, tamanhos e cores
diferentes. Essas legendas representaram um retrocesso, pois
eram produzidas sem a supervisão da equipe criativa e geralmen-
te interferindo nos enquadramentos cuidadosamente pensados
pelos diretores. Contudo, como aponta McClarty (2012), a recen-
te virada prática na tradução para o teatro, na qual tradutores
estão colaborando com diretores e atores (JOHNSON, 2012), e
especialmente o surgimento das fansubs (legendas feitas pelos
fãs, que normalmente não obedecem aos padrões tradicionais
da legendagem) indica que essa tendência talvez esteja prestes
a mudar. Nos últimos anos, um crescente número de cineastas
tem usado as legendas como estímulo visual para seus filmes.
Esse é o caso de Tony Scott em Chamas da Vingança (2004), no
qual legendas parciais são tratadas como personagens em cena,
com sua própria profundidade, tipografia e exibição. McClarty se
refere a esse fenômeno como legendagem criativa:

Em vez de aderir a um conjunto restritivo de normas,


a prática da legendagem criativa dialoga com as qua-
lidades específicas do texto de um filme em particular,
dando ao legendador criativo mais liberdade para criar
uma estética que corresponda a do texto de partida,
em vez de ser obrigado a seguir o padrão de tipos de
fonte, tamanho e posição. Legendas criativas podem
ser sutis ou chamativas, fortes ou neutras, selvagens ou
contidas, mas elas dialogarão sempre com o texto do
filme em particular, ou até com momentos específicos
dentro do texto do filme. (2012, p. 139-140)

Legendas criativas são geralmente produzidas pelos diretores


e editores para interagir com a mise en scène no filme original.
Como ocorre em Quem quer ser um milionário? (2008), por exem-

64
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

plo, o papel tradutório dessas legendas (e até mesmo sua legibi-


lidade) muitas vezes ocupa uma posição secundária em relação
ao uso afetivo de cores e à posição para antecipar o enredo e
o desenvolvimento dos personagens. Mas as legendas criativas
não são apenas encontradas como legendagem parcial em filmes
‘originais’. Exemplos tais como o do filme russo Guardiões da Noite
(2004), cuja tradução para o inglês é apresentada em legendas
que emergem do fundo, mostra que esse uso criativo das legen-
das pode também fazer parte do processo de pós-produção para
distribuição estrangeira7.
Em todo caso, com a integração da legendagem como parte
do processo cinematográfico para cumprir tanto uma função
linguística quanto uma função estética no filme, a legendagem
criativa se coloca como outro exemplo de produção cinemato-
gráfica acessível. Diferentemente da legendagem parcial padrão,
ela não apenas pede uma abordagem colaborativa, mas também
uma expansão do papel atual do legendador. Em primeiro lugar,
se os legendadores devem produzir legendas que dialoguem
com a natureza individual de um filme em particular, eles preci-
sam ser capazes de ‘ler’ o filme e entender como o significado é
criado através do uso da linguagem fílmica e da estética visual.
Em segundo lugar, eles precisam ser capazes de usar softwares de
edição e se tornarem “tradutores-designers de legendas”, capazes
de produzir legendas linguística e esteticamente apropriadas
para o filme:

Disso, portanto, resulta que o tradutor-designer de


legendas, em vez de continuar por fora do processo
cinematográfico, deve se tornar parte da equipe de
pós-produção, trabalhando ao lado dos editores e
designers de títulos do filme. Isso iria permitir que o
tradutor-designer de legendas obtivesse acesso mais
próximo ao trabalho da equipe de produção do filme,
7 Autores como Nornes (1999) e Fozooni (2006) advogam que a tradução de um filme por meio
de “legendagem abusiva”, em vez de lutar por invisibilidade, objetiva assumir um papel mais
explícito.

65
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

incluindo o diretor, e, consequentemente, alcançasse


maior percepção do estilo do filme e das intenções
do diretor. Em troca, iria promover uma legendagem
criativa que realmente dialogasse com o filme e, além
disso, se tornasse uma extensão estética do próprio
filme. (MCCLARTY, 2012, p. 149).

Em suma, como exemplos de produção cinematográfica


acessível, o design universal, a legendagem parcial e a legenda-
gem criativa ajudam a substanciar a definição dessa noção como
“a integração da TAV e acessibilidade como parte do processo
cinematográfico, muitas vezes envolvendo a colaboração entre
o tradutor e a equipe criativa do filme”. Ou, em outras palavras,
“a consideração, durante o processo de filmagem (e através da
colaboração entre o tradutor e a equipe criativa do filme) de
alguns aspectos que são necessários para fazer o filme acessível
a espectadores em outras línguas e espectadores com perda
auditiva ou visual”.
Do ponto de vista da pesquisa e ensino, produção cinema-
tográfica acessível implica uma troca entre os estudos fílmicos e
a TAV, na qual os acadêmicos e estudiosos do cinema aprendam
sobre os aspectos da TAV e acessibilidade que podem ter algum
efeito na realização e recepção de (seus) filmes, enquanto os
acadêmicos da TAV e os estudiosos da tradução exploram os
elementos da produção cinematográfica e dos estudos fílmicos
que possam contribuir para a teoria e a prática da tradução e
acessibilidade.
Embora isso possa parecer idealista, alguns dos exemplos in-
cluídos aqui mostraram que a produção cinematográfica acessível
já é uma realidade em alguns contextos. As duas seções a seguir
incluem mais evidências da sua viabilidade, em termos de prática
(seções quatro e cinco), treinamento e pesquisa (seção cinco).

66
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

‘Joining the Dots’ (‘Ligando os Pontos’)8

O filme

‘Ligando os Pontos’ (2012) é um documentário em curta-me-


tragem de 12 minutos sobre AD usado aqui como um exemplo de
produção cinematográfica acessível. Conta a história de Trevor, que
perdeu a visão aos 60 anos. Depois de um período de depressão,
Trevor encontrou um caminho para se recuperar através da audio-
descrição, o que também permitiu que ele pudesse retomar sua
paixão pelo cinema e pelo teatro. Dirigi e editei o filme em 2012
em colaboração com Martina Trepzyck (diretora de fotografia),
Geetika Sood (operadora de câmera), Panagiotis Papantonopoulos
(edição e mixagem de som), Linda Koncz (pesquisa e produção),
e a equipe de tradução: Soledad Cano (espanhol), Elisa Beniero,
Sabrina Delcuratolo, Matteo Campanile e Benedetta Alpigiani
(italiano), Anne-Claude Ruet (francês), Renata Mliczak (polonês),
Stephanie Kolsch e Robert Hollinshead (alemão), Radha Case (ja-
ponês), Diana Costa (português), Denisse Kreeger (inglês LSE) e
Rosamund Webster (AD). ‘Ligando os Pontos’ foi exibido durante o
69º Venice Film Festival e selecionado para diversos festivais, como o
London Spanish Film Festival de 2012, o 12º Watch Docs International
Human Rights Film Festival, na Polônia, o Travelling Film Festival Watch
Docs e o Roll International Film Festival sobre deficiências na Suíça.
Desde fevereiro de 2013, o filme está arquivado no site da União
Internacional de Telecomunicações (ITU) da ONU9.

8 Notas das tradutoras: Na versão digital desse artigo, o texto do autor inclui um link para o
documentário disponível em http://www.jostrans.org/issue20/int_romero.php e um link para
uma resenha crítica do filme disponível em http://latinolife.co.uk/?q=node/865 (em inglês).
9 Nota das tradutoras: Na versão digital desse artigo, o texto do autor inclui um link para a página
da ITU na ONU, disponível em https://www.itu.int/en/ITU-T/focusgroups/ava/Pages/default.
aspx.

67
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Tornando ‘Joining the Dots’ (‘Ligando os Pontos’)


acessível.

Por enfocar a narração de Trevor e não as imagens, o primei-


ro corte do filme não possuía o necessário “apoio visual para as
falas” (VAN SIJLL, 2005, p. 6) para que os espectadores refletissem
sobre a história. Isso foi um problema tanto do ponto de vista
cinematográfico, quanto do ponto de vista da TAV. Esse corte
continha muitas falas de Trevor, por exemplo, e passava uma
“autoimagem passiva” que frequentemente “desestimula quem
conta as histórias, porque os personagens retratados parecem
passivos” (RABIGER, 2009, p. 29). No que diz respeito à TAV, a
falta de apoios visuais e a prevalência de narração resultou em
um filme carregado de legendas, tanto para os espectadores com
dificuldades auditivas quanto para os espectadores estrangeiros,
principalmente por causa da curta duração do filme. Também
tornou as coisas complicadas para AD, já que não havia espaços
para descrever os três principais cenários (trem, teatro, jardim)
que apareciam nos três atos do filme. Nessa etapa da produção,
o filme era sobre acessibilidade que não era acessível; um filme
sobre cegos, mas não para cegos. A solução para esse problema
foi gravar mais imagens, principalmente tomadas de transição
que traziam apoios visuais para o documentário, além de uma
camada extra de significado poético: uma janela com gotas de
chuva enquanto a frase “Eu podia ver você afundando nas pro-
fundezas do desespero”, sombras de pessoas descendo uma
plataforma levemente inclinada e a frase “É aí que a depressão
toma conta” etc.:

68
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Figura 1. Tomada de transição: janela do trem.

Figura 2. Tomada de transição: pessoas


descendo a plataforma do trem.

Apesar de a maior parte dessas tomadas transitórias terem


aliviado a carga das legendas e criado alguns espaços para a AD,
algumas ainda estavam cobertas pela narração de Trevor. É provável
que isso tenha um efeito na aceitação do filme, como mostrado
por evidências coletadas durante um experimento de rastreamento
ocular conduzido na Universidade de Roehampton. O experimento
foi feito com 10 falantes nativos de inglês, na versão original do
filme, e 10 falantes nativos de espanhol, na versão com legendas
em espanhol. Enquanto 8 de 10 espectadores do filme original
foram capazes de lembrar de imagens e do conteúdo da narração
nessas cenas de transição, nenhum dos espectadores espanhóis
lembraram de imagens, muito provavelmente porque seus olhos
(os pontos vermelhos marcados na tela) estavam fixos nas legendas:

69
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Figura 3. Tomada de transição com as marcas do estudo de rastreamento ocular:


visão da janela do trem.

Com o passar dos anos, a pesquisa de rastreamento ocular


enfatizou a recepção (e percepção) de filmes originais (SMITH,
2006; SMITH et al., 2008) e filmes traduzidos (PEREGO, 2012), mas
pode também ser necessário comparar as duas experiências. Como
e quanto as legendas afetam a recepção de um filme?
A necessidade de “apoios visuais” foi resolvida na produção,
porém outros problemas foram resolvidos na pós-produção, du-
rante o processo de edição. Um exemplo disso é a placa a seguir,
a qual é essencial para que o espectador acompanhe o terceiro
ato do filme:

Figura 4. Placa no jardim de Trevor e Mags


(onde lê-se ‘uma dama adorável e um velho ranzinza moram aqui!’).

70
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

A narração de Trevor (“ela sabe o que tem ali embaixo, eu não


tenho certeza”) cobriu a maior parte dessa imagem. Isso significa que
o responsável pela legenda teve que escolher entre traduzir o conte-
údo da placa ou o conteúdo da narração, mas não ambos, e a pessoa
responsável só teve tempo de fazer uma breve descrição do texto na
placa. Felizmente, a abordagem colaborativa proposta pela produção
cinematográfica acessível proporcionou uma solução audiovisual rápi-
da para algo que, de outra maneira, teria sido um problema linguísti-
co. Ao trazer a narração de Trevor alguns frames à frente, tornou-se
possível criar um espaço grande o suficiente para a legenda traduzir
o conteúdo da placa e para a audiodescrição descrever o conteúdo
da placa sem comprometer a visão e a fluidez da cena.
Ao fim, vários problemas relacionados à acessibilidade não
foram resolvidos na pós-produção e poderiam ter sido solucio-
nados na etapa da pré-produção. O mais notório são as roupas
usadas pelos participantes do documentário. Como é comum em
produção de documentários, pode ser solicitado que participantes
evitem certos padrões e cores (muito claros ou muito escuros) que
podem ter uma aparência estranha quando registrada por câmeras.
Sabendo que o filme seria legendado, os cineastas deveriam ter
alertado os participantes a não usar listras pretas e brancas...

Figura 5. Mags no jardim.

... e eles deveriam ter pensado em não fazer o enquadramento de


Trevor com uma mesa preta e branca na parte de baixo da imagem:

71
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Figura 6. Entrevista de Trevor.

Antes de concluir essa seção, é digno de menção que o filme


apresentado aqui é um caso muito particular de produção cinema-
tográfica acessível no qual o diretor/editor está envolvido durante
a gravação e trabalhou bem próximo aos tradutores. Contudo, a
implementação de produção cinematográfica acessível não neces-
sariamente envolve uma mudança dramática na prática comum
do cinema. Só requer a consideração de alguns desses pontos, os
quais frequentemente são ignorados:

Pré-produção:
disponibilização de material para tradutores, incluindo não somente
o roteiro (em histórias ficcionais) ou as transcrições (em documentá-
rios) mas também quaisquer outras informações disponíveis, como
o material de pesquisa, o tratamento, o storyboard e o roteiro de
gravações, que podem ser muito úteis para os responsáveis pela
audiodescrição;
se legendas forem usadas, atenção para as cores do figurino;
colaboração entre os responsáveis pela legenda e o time criativo
durante a produção, se legendas forem usadas como parte do filme
original (legendagem parcial).

Produção:
atenção ao enquadramento se legendas forem usadas. Isso é parti-
cularmente importante no caso de closes com diálogos ou narração.

72
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Pós-produção:
colaboração entre a equipe de tradução e a de pós-produção;
atenção a títulos (particularmente em documentários) e texto na
tela, quando diálogos ou narração estiverem sendo usados por cima
deles. A menos que a tomada seja estendida, os espectadores do
filme podem acabar perdendo ou o diálogo/narração ou a tradução
do texto;
acesso aos editores de som, ou ao processo de edição de som,
pode ser muito útil para legendadores de LSE. A experiência pode
contribuir para o entendimento de termos úteis que podem ajudar a
descrever a música, os efeitos especiais e a atmosfera para pessoas
com surdas ou ensurdecidas.

Essa lista não está completa, mas pode servir como um ponto
de início que permitirá a colaboração entre cineastas e tradutores,
necessária para a implementação da produção cinematográfica
acessível.

Produção cinematográfica acessível na prática:


ensino e pesquisa.

Há diferentes tipos de produção cinematográfica acessível, da


mesma forma como há diferentes graus de envolvimento e cola-
boração entre cineastas e tradutores. Contudo, isso não significa
que produção cinematográfica acessível seja inviável ou irrealista.
Exemplos de produção cinematográfica acessível estão se
tornando mais e mais comuns na indústria cinematográfica, como
mostram os números crescentes de filmes independentes e filmes
comerciais que incluem legendas em suas versões originais, além
de filmes que incluem legendas criativas, originais ou traduzidas.
Outros exemplos podem ser encontrados em filmes independentes
como Rainfall (2012) de Peter Middleton e James Spinney, Secret
City (2012) de Michael Chanan, e Home Sweet Home (2012) de Enrica
Collusso (todos sem tradução para o português), que envolveram
uma grande colaboração entre diretores e tradutores. A indústria da
TAV parece estar se movendo na mesma direção. No Reino Unido,

73
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

a Screen, uma empresa líder do mercado no setor, está incentivando


a inclusão de TAV e acessibilidade como parte do processo de pro-
dução cinematográfica (LAMBOURNE, 2012) e na Bélgica o principal
canal estatal VRT está incorporando aspectos de AD e LSE nas etapas
de pré-produção de alguns de seus programas. Essa tendência foi
resumida nas palavras a seguir, pronunciadas pela cineasta britânica
Raina Haig, que se referem ao caso específico de AD, mas que tam-
bém poderiam facilmente se aplicar à TAV e acessibilidade em geral:

Você tem um grupo de artistas: roteirista, diretor, atores


e designers que colaboram no projeto criativo, no caso
o filme. Bom, o responsável pela audiodescrição é so-
mente mais um participante nesse projeto. Como eles
podem trabalhar como parte de uma equipe altamente
qualificada sem uma base sólida de conhecimentos
sobre como os filmes funcionam? (...) Eu gostaria de
ver roteiristas e cineastas treinando e trabalhando com
profissionais da audiodescrição. Qual é o trabalho do
roteirista, no fim das contas, se não traduzir o mundo
dos filmes em palavras para uma audiência metafori-
camente cega? (HAIG, 2002, s/p).

Como apontado por Haig, produção cinematográfica acessível


também requer a colaboração e troca entre as áreas acadêmicas de
cinema e TAV na etapa de treinamento dos profissionais. Felizmen-
te, alguns cursos de mestrado em cinema, como o da Universidade
Kingston (Londres), estão começando a incluir aulas sobre TAV e
acessibilidade, assim como cursos de graduação e pós-graduação
em cinema na Universidade de Valladolid (Espanha) e a Escola Central
de Discurso e Drama (Londres). Da mesma maneira, cursos de TAV
estão começando a abrir as portas para conteúdos relacionados ao
cinema, como é mostrado no mestrado em Acessibilidade e Cinema
na Universidade de Roehampton (Londres), onde estudantes apren-
dem não somente a fazer filmes, mas também a como torná-los
acessíveis em outras línguas e para espectadores com dificuldades
auditivas e visuais.

74
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Em termos acadêmicos, a produção cinematográfica acessível


poderia ser útil para cineastas e estudantes de cinema explorarem
os aspectos de TAV e acessibilidade que terão um impacto na recep-
ção de seus filmes (traduzidos) e para estudantes de TAV e tradu-
tores a identificarem os elementos da produção cinematográfica e
estudos fílmicos que podem contribuir para a teoria e a prática de
tradução. Algumas das mais recentes contribuições em legendagem
parcial (O’SULLIVAN, 2008), legendagem criativa (FOERSTER, 2010;
MCCLARTY, 2012), multilinguismo em filmes (VERMEULEN, 2012;
SERBAN, 2012) e estudos de recepção (PEREGO, 2012; FRYER e
ROMERO-FRESCO, 2013) são avanços promissores nessa direção. O
mesmo é válido para uma série de novas iniciativas para a criação
de fóruns para trocas entre as duas áreas, como o painel sobre
acessibilidade organizada por Sub-ti e FRED Film Radio no 69º Veni-
ce Film Festival em 2012, onde ‘Joining the Dots’ (Ligando os Pontos’)
foi exibido, o seminário de produção cinematográfica acessível
que aconteceu durante o 67º Edinburgh Film Festival em junho de
2013, e a aula magna de produção cinematográfica acessível pla-
nejada como parte da International Film Critics’ Week no 70º Venice
Film Festival, em setembro de 2013. Informações sobre isso, além
de informação sobre filmes, eventos e publicações relacionadas a
produção cinematográfica acessível, estão disponíveis em www.
accessiblefilmmaking.org. O site também inclui uma reportagem
especial publicada no jornal Espanhol El País10 (ROMERO-FRESCO,
2013) sobre um projeto de produção cinematográfica acessível
executado no Quênia.

Conclusão
Eles desenharam um círculo e me deixaram de fora.
Nós desenhamos um círculo maior e inclui todos nós.
(ditado popular nativo-americano)

10 Nota das tradutoras: Na versão digital desse artigo, o texto do autor inclui um link para a pá-
gina em que a reportagem foi publicada. Disponível em https://elpais.com/elpais/2013/03/27/
africa_no_es_un_pais/1364367600_136436.html

75
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

A ideia por trás da produção cinematográfica acessível não


é nova. Como vimos neste artigo, data dos primeiros dias do ci-
nema, quando a transferência de linguagem era parte integral do
processo de (pós-)produção. Desde então, a TAV, diferentemente
da localização de videogames, foi relegada à etapa de distribui-
ção. A introdução de acessibilidade na forma de LSE e AD nos
anos 1980 não mudou essa tendência, talvez porque tenha sido
(erroneamente) considerada como um serviço menor e transmitido
na televisão como um sinal separado criado fora do processo de
produção do filme.
O fato é que TAV e acessibilidade continuam custando uma
porção mínima do orçamento total de um filme e contribuem para
mais da metade do lucro da bilheteria das grandes produções de
Hollywood. Dependendo para quem se pergunta, isso pode com
certeza ser usado para defender essa mudança (já que não seria
muito cara) ou para argumentar contra (por que mudar um sistema
tão lucrativo?). Contudo, o que precisa ser destacado é como a
invisibilidade de TAV e acessibilidade na indústria cinematográfica
afeta a qualidade dos filmes traduzidos e as condições de trabalho
dos tradutores. A maior parte dos espectadores talvez jamais terá
a experiência do diálogo escrito pelo roteirista e supervisionado
pelo cineasta por vários meses ou anos. Ao invés disso, eles ou-
vem (dublagem e AD) ou leem (legendagem e LSE) o diálogo e as
descrições produzidas por tradutores em menos de três dias, por
pouca remuneração e sem nenhum acesso a nenhuma das pessoas
que fizeram o filme. Não importa o quão bons possam ser os tra-
dutores, a qualidade de suas traduções (e a visão geral do cineasta)
inevitavelmente é prejudicada por causa desse sistema; ao mesmo
tempo, as estruturas estabelecidas tendem a evitar que o cineasta
tome consciência do problema11.
11 Em uma entrevista com Ken Loach, Irene de Higes Andino (a ser publicada) mostra como o
cineasta britânico não tinha ciência que o multilinguismo de seus filmes geralmente se perdia
nas versões traduzidas. Por exemplo, em Mundo Livre (2007), uma cena em que um intérprete
traduz a conversa entre trabalhadores poloneses e o empregador deles em Londres que só fala
inglês, na versão dublada em espanhol, vira uma conversa entre os trabalhadores poloneses
(que falam em espanhol não-padrão) e o empregado (que fala em espanhol padrão), enquanto
o intérprete virou um secretário que participa da conversa. Em Apenas Um Beijo (2004), que

76
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

O objetivo de produção cinematográfica acessível é integrar


TAV e acessibilidade como parte do processo de produção cine-
matográfica através da colaboração entre tradutores e a equipe
criativa do filme. É importante não restringir essa ideia à LSE e AD,
mas incluir a tradução audiovisual em geral. Afinal, traduzir um filme
é fazer com que ele seja acessível a espectadores em outras línguas.
Longe de ser irrealista ou aplicável somente em casos especiais
como o do documentário ‘Ligando os Pontos’ (2012) apresentado
aqui, a viabilidade de produção cinematográfica acessível é apoia-
da por muitos exemplos recentes na indústria cinematográfica. A
presença de multilinguismo em filmes, o crescente uso de legendas
em versões originais de filmes independentes e comerciais, a cola-
boração incipiente entre cineastas independentes e tradutores e a
consciência geral de acessibilidade mostram que esse é o momento
apropriado para buscar essa mudança. É verdade que produção
cinematográfica acessível pode ser mais fácil de implementar em
pequenas produções do que em filmes com grandes orçamentos
que podem ser traduzidos para muitas línguas, o que torna a cola-
boração entre o cineasta e os tradutores mais complicada. Contudo,
mesmo nesses casos, os cineastas poderiam supervisionar a LSE, a
AD e um modelo básico de legendagem, que formariam as bases
das subsequentes traduções em outras línguas.
As definições de produção cinematográfica acessível inclusas
na seção 3 ainda são gerais, mas haverá tempo para refiná-las
conforme esse conceito evoluir, idealmente em colaboração com
praticantes e pesquisadores de cinema e TAV. No momento, a
noção de produção cinematográfica acessível coloca mais ênfase
no lugar em que acessibilidade e TAV estão inclusos no processo
de produção do que na extensão na qual os filmes são realmente
acessíveis. Isso pode levar somente a meras atitudes simbólicas que
não resultem em colaboração efetiva entre tradutores e cineastas.
se passa em Glasgow, as conversas de alguns personagens em Punjabi, que tem legendas em
inglês na versão original, são dubladas em espanhol na versão distribuída na Espanha. De novo,
todos os personagens falam espanhol. Ao descobrir isso, Loach e seu roteirista Paul Laverty
mencionaram como essa abordagem ‘destrói os filmes’ e que isso quebra ‘completamente a
confiança entre você e sua audiência’.

77
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Por esse lado, pode ser uma boa ideia trabalhar em um conjunto
futuro de requisitos mínimos para um filme atingir o padrão de
produção cinematográfica acessível, o qual incluiria não somente
a tradução, LSE e AD, mas também um grau (ou diferentes graus)
de colaboração entre a equipe criativa e os tradutores.
Por ora, no entanto, é essencial destacar que a mudança de-
fendida aqui não precisa alterar a experiência da audiência original
do filme ou comprometer a visão do cineasta. Pelo contrário, a
mudança visa assegurar que essa visão também seja preservada
na tradução. Depende de os cineastas decidirem qual é o grau de
colaboração que eles querem ter com os tradutores.
Em resumo, produção cinematográfica acessível não visa res-
tringir ou conter, mas sim somar e garantir que espectadores em
outras línguas e espectadores com deficiências auditivas e visuais
não sejam deixados de fora.

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Diversas faces da tradução na contemporaneidade

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Filmes

APENAS um beijo. Direção: Ken Loach. Reino Unido, 2004.


AVATAR. Direção: James Cameron. EUA, 2009.
DRIVE (sem tradução). Direção: Raina Haig. Reino Unido, 1997.
HOME Sweet Home (sem tradução). Direção: Enrica Colusso. Reino Unido/
França, 2012.
BASTARDOS Inglórios. Direção: Quentin Tarantino. EUA, 2009.
MUNDO Livre. Direção: Ken Loach. Reino Unido, 2007.
O CANTOR de Jazz. Direção: Alan Crosland. EUA, 1927.
JOINING the Dots (Ligando os Pontos, em tradução livre). Direção: Pablo
Romero-Fresco, Reino Unido, 2012.
LUZES de Nova Iorque. Direção: Bryan Foy. EUA, 1928.
CHAMAS da Vingança. Direção: Tony Scott. EUA, 2004.
TREM Mistério. Direção: Jim Jarmusch. EUA, 1989.
UMA noite sobre a Terra. Direção: Jim Jarmusch. EUA, 1991.
GUARDIÕES da noite. Direção: Timur Bekmambetov e Sergei Lukyanenko.
Rússia, 2004.
RAINFALL (sem tradução). Direção: Peter Middleton e James Spinney.
Reino Unido, 2012.
LISTA de Schindler. Direção: Spielberg. EUA, 1993.
SECRET City (sem tradução). Direção: Michael Chanan. Reino Unido, 2012.
QUEM quer ser um milhonário?. Direção: de Danny Boyle. Reino Unido,
2008.
OPERAÇÃO Valquíria. Direção: Bryan Singer. EUA, 2008.

81
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Websites

PRODUÇÃO cinematrográfica acessível. Disponível em: <www.


accessiblefilmmaking.org>, acesso em 11 jun. 2013.
BOX Office Guru. Disponível em: <www.boxoffice.guru.com>, acesso
em 11 jun. 2013.
BOX Office Mojo. Disponível em: <www.boxofficemojo.com>, acesso
em 11 jun. 2013.

82
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

CAPÍTULO III

DISSIPANDO A NÉVOA QUE ENCOBRE A TELA:


MANIPULAÇÃO IDEOLÓGICA NA TRADUÇÃO
AUDIOVISUAL1

Jorge Díaz-Cintas, University College London


Traduzido por Giulia Sanches Bassani, Marcella Wiffler Stefanini e
Samira Spolidorio

Resumo: o presente artigo propõe uma abordagem crítica e me-


todológica da manipulação e da tradução no campo audiovisual.
Considerando as potencialidades desencadeadas pela virada cul-
tural nos Estudos da Tradução, o artigo oferece, como ponto de
partida, um panorama das principais dificuldades e problemáticas
a serem consideradas ao se adotar uma linha de pesquisa centra-
da na compreensão de que a maneira como os valores culturais
são traduzidos depende não apenas das assimetrias linguísticas
entre as línguas, mas também de decisões fundamentais baseadas
em poder, domínio e ideologia. Como parte de um debate que
poderia se provar frutífero no mundo da tradução audiovisual
(TAV), o conceito de manipulação será discutido, seguido de uma
apresentação da distinção entre manipulação técnica e ideológica.
Depois de considerar o caso especial da censura e alguns dos novos
desenvolvimentos no uso da legenda como uma ferramenta de
empoderamento local, sugere-se que as fronteiras da pesquisa em
1 O artigo foi publicado na revista Meta: journal de traducteurs, vol. 57, n° 2, 2012, p. 279-293,
com o título Clearing the Smoke to See the Screen: Ideological Manipulation in Audiovisual
Translation, e está disponível através do link https://www.erudit.org/en/journals/meta/2012-
v57-n2-meta0432/1013945ar/, acesso em 04 de abril de 2018.

83
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

TAV vão além da sua tradicional esfera linguística, concentrando-se


mais em desvendar a lógica por trás de mudanças ideologicamente
motivadas e em contextualizá-las dentro de uma conjuntura socio-
cultural mais ampla.

Palavras-chave: tradução audiovisual, legendagem, manipulação,


ideologia, censura.

Introdução

Desde a origem da escrita até os dias de hoje, os seres huma-


nos continuamente buscam melhorar seus meios de comunicação a
fim de torná-los mais eficientes. Com a passagem dos séculos e de
acordo com seus costumes e tradições, as pessoas foram desenvol-
vendo novos métodos de escrita (GOODY, 1968, p.168). Hieróglifos,
papiro, runas, letras, cartas, livros, faxes e, mais recentemente,
páginas digitais e todo tipo de tela – TVs, computadores, tabletes,
aparelhos móveis e smartphones – representam alguns marcos nessa
evolução. Hoje, poucos discordariam do fato de que a sociedade
está completamente imersa em uma era de comunicação digital
e audiovisual.
Em contraste com o cenário da crescente onipresença da comu-
nicação audiovisual em todas as esferas da vida pública e privada, é
fato irrefutável que houve um enorme boom quantitativo nas últimas
décadas, tanto na produção de tradução audiovisual (TAV), quanto
na pesquisa dentro dessa área. Uma prática profissional realizada
desde a origem do cinema, atitudes voltadas para o seu estudo aca-
dêmico eram relativamente apáticas até que finalmente despertou
o interesse da academia. Do lento e instável começo no final dos
anos 1950 e começo dos 1960, a pesquisa nessa área vivenciou
um crescimento notável e sem precedentes no final do século XX,
desencadeado pela revolução digital dos anos 1990 e pelo sólido
estabelecimento da tradução como disciplina acadêmica e de pes-

84
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

quisa em nível universitário. Atualmente, o interesse por essa área


é maior do que nunca, graças ao terreno fértil proporcionado pela
prolífera indústria audiovisual em suas múltiplas facetas – cinema,
televisão, internet, DVD, Blu-Ray, 3D – a TAV se tornou uma área
de pesquisa acadêmica proeminente, que se mantém firme e forte
dentro dos Estudos da Tradução. Legendagem, dublagem, voice-over,
legendagem para surdos e ensurdecidos e audiodescrição para
cegos e deficientes visuais são algumas das muitas modalidades de
audiovisual que atraíram a atenção dos acadêmicos, transformando
a TAV em uma das áreas mais interessantes em ascensão dentre
dos Estudos da Tradução atualmente.
Contudo, apesar do grande interesse demonstrado pelos cír-
culos acadêmicos e educacionais e dos numerosos livros e artigos
que chegaram às livrarias, a TAV pode ser considerada uma área
relativamente recente dos Estudos da Tradução. Isso indicaria que,
entre outras coisas, ainda existem muitas áreas em aberto para
serem investigadas. No começo, o campo de pesquisa em TAV
tendeu a se limitar a discussões de ideias banais, destacando a
natureza aplicada da área, tais como o confronto entre dublagem e
legendagem, e descrevendo os mecanismos e as variadas restrições
técnicas em jogo. Felizmente, nos últimos anos, testemunhou-se
uma abordagem mais ampla em termos de subsídios acadêmicos,
e comparações com julgamentos de valor e discussões sobre qual
modalidade era melhor foram substituídas por uma nova ênfase
focada em entender essas modalidades como diferentes práticas
tradutórias que merecem uma análise crítica.
De uma perspectiva tanto profissional quanto acadêmica, os
anos 1990 foram considerados por muitos como os anos dourados
da TAV. O surgimento da tecnologia digital, com a rápida comercia-
lização de filmes e outros materiais audiovisuais em DVD, levou a
uma proliferação de empresas que trabalham quase que exclusiva-
mente com legendagem, assim como o que pareceu, na época, uma
necessidade inesgotável por legendadores profissionais. Do ponto
de vista dos subsídios acadêmicos, as universidades começaram a

85
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

desenvolver os primeiros cursos voltados exclusivamente para a


TAV, e a área se tornou objeto de uma abordagem de pesquisa mais
sistemática, com a publicação de livros, coletâneas e monografias,
a organização de grandes conferências internacionais centradas na
disciplina, a conclusão da primeira tese de doutorado sobre o tema
e a criação da European Association for Studies in Screen Translation
(ESIST)2. Contudo, apesar desse turbilhão de atividades, pode-se
dizer que a TAV está atrasada nessas novas (e não tão novas) viradas
e desenvolvimentos que marcaram a pesquisa na área da tradução
nas últimas décadas.

A Virada Cultural

De modo interessante, a era de ouro da indústria coincidiu


com o surgimento e a consolidação do que foi designado como
Estudos Descritivos da Tradução, uma linha de pensamento baseada
nas premissas e teorias propostas por autores como Holmes (1972/
1994); Even-Zohar (1978; 1979), particularmente o conceito de po-
lissistemas; e Toury (1980; 1985; 1995) e sua noção de normas. Nesse
sentido, não surpreende o fato de que muitas das primeiras teses
de doutorado e monografias escritas sobre TAV fizeram amplo uso
desse aparato teórico (DÍAZ CINTAS, 1997; CHAUME, 2000; FRAN-
CO, 2000; KARAMITROGLOU, 2000; BALLESTER CASADO, 2001).
Foi também nesse período, em que os princípios de manipula-
ção propostos por Hermans (1985) e seus colegas na coletânea de
ensaios intitulada The Manipulation of Literature, que se tornou um
trabalho de referência, e a aparente frustração de alguns estudiosos
a respeito da abordagem excessivamente prescritiva e dogmática
dos Estudos da Tradução, pavimentaram o caminho para uma virada
cultural. Esse novo paradigma, defendido por autores como Lefevere
(1992) e Bassnett e Lefevere (1998) entre outros, contribuiu para a
expansão do propósito e da missão da tradução, tradicionalmente
preocupada demais com (ínfimas) questões linguísticas, e enfatizou
2 European Association for Studies in Screen Translation (ESIST). Disponível em <http://www.
esist.org>. Acesso em 30 de junho de 2012.

86
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

seu intrínseco caráter sociocultural. O impacto dessa abordagem


repercutiu em todas as esferas da tradução, apesar de ter sido mais
fortemente percebido na área da tradução literária do que na área
da tradução especializada ou na TAV, por exemplo, nas quais os
estudiosos demoraram para adotá-la. Existem, é claro, trabalhos
sobre TAV que são firmemente enraizados nos princípios da virada
cultural, mas esses ainda são minoria.
Essa aparente falta de maiores contribuições acadêmicas
centradas na perspectiva cultural da TAV é, talvez, um dos mui-
tos paradoxos da área, uma vez que as produções audiovisuais,
particularmente os programas de ficção, pareciam conduzir per-
feitamente a TAV para esse tipo de abordagem, dada a riqueza de
informação cultural transmitida por elas e o fato de que o tecido
linguístico é apenas uma parte do conjunto semiótico como um
todo. Certamente, traduzir somente o componente linguístico de
qualquer material audiovisual, desconsiderando completamente
o resto da informação transmitida pelos canais auditivo e visual,
seria um desastre. Em termos de comunicação, o destaque dado às
produções audiovisuais na sociedade atual as tornam um veículo
de transmissão poderoso e ideal, não apenas de informação fac-
tual, mas também de suposições, valores morais, senso comum e
estereótipos; uma das muitas razões pelas quais elas se destacam
como objeto que merece ser estudado.
Como campo de prática discursiva, a mídia audiovisual e sua
tradução exercem um papel importante na articulação de conceitos
culturais como feminilidade, masculinidade, raça, alteridade, entre
outros. Ela pode contribuir muito para a perpetuação de certos
estereótipos raciais, delineando preconceitos étnicos e de gêne-
ro, e apresentando aos espectadores modelos padrões datados
e conceitos de bem e mal considerados rígidos e diametralmente
opostos. Autores como De Marco (2007), por exemplo, apoiam uma
perspectiva centrada em como a linguagem presente nos diálogos
dos filmes, originais e dublados, afeta ou é afetada pelos construtos
sociais, como gênero.

87
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Outro efeito resultante da apreciação cultural da tradução é a


percepção de que não são as assimetrias linguísticas entre as lín-
guas, mas sim o poder e o domínio político que agem como fatores
que motivam e catalisam a forma como os valores culturais são
traduzidos e negociados entre as partes interessadas. Atualmente,
muitos estudiosos estão cientes do importante papel da tradução
em nossa sociedade e, nas palavras de Gentzler e Tymoczko (2002,
p. xv), “articularam a importância central da tradução e dos tra-
dutores em estabelecer, manter e resistir às estruturas de poder”.
Como no caso de qualquer outra atividade social, a tradução não
é realizada no vácuo e, portanto, não pode ser isenta de um certo
grau de subjetividade e tendencionismo por parte do tradutor e
dos demais agentes envolvidos no processo tradutório. À maneira
como a realidade e a ficção são transmitidas nos originais, conce-
bidos através da lente subjetiva do diretor, tradução e tradutores
também acrescentam sua visão particular, condicionada pelo meio
sociocultural e pelas regras que governam o período no qual eles
trabalham. Na transferência da língua de partida para a língua de
chegada, mudanças subjetivas provavelmente irão acontecer, pro-
vocando o deslocamento de parte do sentido original, consciente
ou inconscientemente, voluntária ou involuntariamente. Gentzler e
Tymoczko vão um passo à frente quando afirmam que a tradução:

não é um simples ato de reprodução fiel, mas, ao


contrário, um ato deliberado e consciente de seleção,
montagem, estruturação e fabricação – e até, em alguns
casos, de falsificação, recusa de informação, adulte-
ração e criação de códigos secretos. Dessa forma, os
tradutores, tanto quanto escritores criativos e políticos,
participam do ato poderoso que cria o conhecimento e
molda a cultura (GENTZLER e TYMOCZKO, 2002, p.xxi).

Seguindo essa linha de pensamento, pode-se afirmar que a


prática tradutória nunca é um ato neutro de comunicação. Ela
sempre implica uma manipulação e reescrita (LEFEVERE, 1985),

88
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

uma vez que nenhuma tradução pode ser igual ao original e, des-
sa forma, irá necessariamente partir do original ampliando-o ou
restringindo-o. Analisada por esse ângulo, a tradução não apenas
abre as portas para grandes potencialidades, mas também para
grandes riscos, uma vez que ela pode produzir diferentes tipos de
encontros, desde a interpretação mútua, se o fluxo da tradução
conduzir para as duas direções, até uma hegemonia cultural, assi-
milação, ou até supressão, quando o contato se torna uma via de
mão única de bens e produtos de uma cultura mais poderosa para
uma mais fraca. No caso da TAV, a hegemonia global do maquinário
de Hollywood na produção de filmes é uma ilustração eloquente
dos potenciais riscos.
A fim de afastar alguns dos equívocos anteriores que entendem
a tradução como uma prática inócua, que atua como uma ponte
inocente entre culturas e comunidades, estudiosos pioneiros como
Hermans (1985) e Lefevere (1992) começaram a analisar a tradução
a partir de uma perspectiva um pouco diferente; uma que iria des-
tacar qualquer discrepância significativa entre os textos de partida
e de chegada, considerados de uma perspectiva sociocultural,
em vez de puramente linguística, e que examinaria as possíveis
razões para essas desvios. Nesse novo paradigma, os tradutores
deixariam de ser linguistas, no sentido tradicional – por exemplo,
profissionais com conhecimento das duas línguas –, para se tornar
agentes e mediadores interculturais, cuja fidelidade emanaria dos
seus trabalhos e poderia ser desvendada pelos estudiosos. Migran-
do de um papel passivo como mero transmissor de informação, os
tradutores agora são considerados agentes ativos que participam
na formação de um discurso ideológico de sua cultura, cujo sistema
de valores eles podem consciente ou inconscientemente aceitar,
contribuindo para sua disseminação ou subversão.
Isso, é claro, não é tão simples como pode parecer e as lutas
de poder por domínio e autoria final são mais evidentes ainda em
uma área tão complexa como a TAV, na qual uma infinidade de
profissionais – tradutores, técnicos, escritores de diálogos, atores

89
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

e diretores de dublagem – e partes interessadas – diretores, pro-


dutores, distribuidores, departamento de marketing, conselhos de
classificação etária – estão sempre envolvidos na montagem final
do produto. Nesse contexto, o conceito de patronagem se torna
uma ferramenta muito frutífera e heurística. Definido por Lefevere
(1985, p.227-228) como um grupo de “poderes (pessoas, institui-
ções) que ajudam ou prejudicam a escrita, leitura e reescrita da
literatura [e que] podem ser exercidos por pessoas, [...], grupos de
pessoas [...], uma classe social, uma corte real, editores [...] e, por
último, mas não menos importante, a mídia”, patronagem ajuda a
consolidar o estudo de fatores extralinguísticos conectados com
as forças socioeconômicas e ideológicas que permeiam todas as
interações sociais, incluindo a TAV.
Quanto aos estudantes e acadêmicos, sua nova função é aju-
dar a esclarecer essas conexões, que muitas vezes permanecem
ocultas das pessoas, tais como as potenciais correlações entre
língua, poder e ideologia. Para melhor elaborar a metáfora usada
no título desse artigo: com a pesquisa, eles irão dissipar a névoa
ideológica que confunde a mensagem original em uma tentativa
de ver a imagem por trás dela.
Por esse prisma, parece que o mais importante é considerar
apropriadamente as implicações ideológicas das escolhas linguís-
ticas do tradutor. Os fenômenos observados pelo estudioso de
tradução durante a análise estilística dos textos de partida e de
chegada são usados para desvendar as razões subjacentes a algumas
soluções alcançadas e as estratégias escolhidas pelos tradutores. O
principal objetivo dos acadêmicos é entender a relação que existe
entre essas soluções e estratégias e as questões sociopolíticas que
estão dissimuladas por trás delas, em uma tentativa de elucidar as
normas tradutórias (TOURY, 1980; 1995) e as tendências dominan-
tes em certos períodos históricos.
Como seres sociais, os tradutores passam por um processo de
socialização durante o qual eles são expostos a normas e valores

90
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

do seu meio sociocultural. Isso significa que eles desenvolvem suas


próprias opiniões a respeito da natureza essencial da tradução e
da relação que se espera manter entre um tipo particular de texto
de partida e o texto de chegada correspondente. A respeito disso,
e de acordo com Toury (1995, p.54), devido a sua condição social,
os tradutores são programados para adotar um comportamento
baseado em um grupo de normas aceitas, resultantes de conven-
ções bem estabelecidas. A princípio, essas normas socialmente
aceitas não são obrigatórias e a conformidade com elas tende a
resultar no feedback positivo da tradução e no reconhecimento do
papel do tradutor. Contudo, há ocasiões em que a força prescritiva
das normas é tão grande que elas se tornam decretos, geralmente
formulados explicitamente como diretrizes emitidas por uma au-
toridade com poder de impor sanções por seu não cumprimento,
como no caso de censuras rigorosas, por exemplo.
Além das interferências dessas forças exógenas na própria
tradução, Toury (1995, p.166) destaca o fato de que o processo de
importação de produções estrangeiras para uma cultura de chegada
sempre implica na penetração de elementos não familiares, que
certamente serão manipulados ou ajustados por uma ideologia
dominante na cultura de chegada. Em outras palavras, o que é
traduzido e como é traduzido é determinado pelos interesses e
pela estrutura do sistema da cultura de chegada. Embora Toury
trate apenas da tradução literária, parece legítimo supor que o
mesmo ocorre com a tradução de materiais audiovisuais (DÍAZ
CINTAS, 2004).
As tensões entre língua e ideologia são melhor destacadas
por Lefevere, quando afirma que “em qualquer nível do processo
tradutório, pode ser mostrado que, se as considerações linguísticas
entram em conflito com considerações de natureza ideológicas e/
ou poetológicas, essa última tende a prevalecer” (LEFEVERE, 1992,
p.39).

91
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Manipulação técnica x ideológica

O conceito de manipulação na prática tradutória tem sido


frequentemente colocado em evidência nos círculos acadêmicos,
apesar de ainda permanecer, de modo geral, um termo bastante
nebuloso, intimamente relacionado a conceitos como poder, ideologia
e censura. Antes de continuar, pode ser útil pesquisar alguns signi-
ficados culturalmente aceitos para a palavra manipulação. O termo
não possui necessariamente uma conotação negativa e, de acordo
com uma das primeiras definições estabelecidas pelo OED (BROWN,
1993)3, manipular é “manusear, especialmente com destreza (física
ou mental); lidar, trabalhar ou tratar manualmente ou através de
recursos mecânicos”. A definição mais recente, disponível online, é
semelhante “manusear ou controlar (uma ferramenta, mecanismo,
informação, etc.), de maneira habilidosa”4. Ao mesmo tempo em que
em áreas como a tradução literária a ativação dessa definição mais
prática possa ser mais difícil de se justificar, ela pode ser apropria-
damente usada em TAV para se referir àquelas instâncias nas quais
mudanças e alterações no texto original são incorporadas em função
de considerações técnicas. Nesse sentido, a necessidade de mudar o
texto de partida a fim de respeitar o sincronismo labial na dublagem
ou de condensá-lo para que ele caiba em uma determinada legenda
podem ser considerados exemplos do que poderia ser chamado de
manipulação técnica. A princípio, esses deslocamentos textuais são
compulsórios na prática profissional da TAV e podem ser justificados
de uma perspectiva técnica, pois não devem implicar uma mudança
significativa e deliberada do sentido, que contradiria a natureza do
texto de partida. No caso específico da legendagem, por exemplo,
a presumida velocidade de leitura do público é um conceito chave
que irá determinar a necessidade ou não da condensação ou até
mesmo da exclusão do diálogo original.

3 BROWN, Leslie, ed. (1993): The New Shorter Oxford English Dictionary. Oxford: Claredon
Press.
4 Oxford Dictionaries. Disponível em <http://oxforddictionaries.com/definition/english/
manipulate?q=manipulate>. Acesso em 30 de junho de 2012.

92
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Muito comumente, a redução do texto de partida é requerida


como uma força manipulativa necessária, não tanto como o re-
sultado de uma decisão política ou moral provocada por algumas
agências, mas sim como uma solução imperativa para lidar com
certos limites técnicos e com a natureza do texto e sua migração
da modalidade oral para a modalidade escrita. Como Gottlieb
corretamente aponta:

a ideia de não reduzir o tamanho do texto na legenda-


gem seria contraprodutiva para a melhor compreensão
do público – e resultaria em uma tradução ruim. A
questão aqui é que grande parte da redução (ainda
encontrada) na legendagem resulta diretamente da sua
natureza diassemiótica; a supressão ou condensação de
redundâncias da oralidade é uma necessidade quando
se transpõe do oral para o escrito – uma modalidade
linguística mais concisa do que o discurso oral (GOT-
TLIEB, 2005, p.19).

Na TAV, as restrições visual, temporal e espacial não deveriam


servir como desculpas para amenizar ou omitir elementos con-
troversos ou sensíveis presentes no diálogo original, tais como
palavrões, blasfêmias, referências sexuais ou comentários políticos.
Contudo, a realidade é que essas limitações técnicas e diferenças
diassemióticas podem ser frequentemente mal interpretadas e
aproveitadas abertamente para justificar algumas soluções desa-
gradáveis, como tem sido o caso em regimes de censura, tanto no
passado como no presente.
A segunda definição apresentada pelo OED (BROWN, 1993)
é claramente mais ajustada ao tópico principal desse artigo e de-
fine o verbo manipular como “controlar com destreza através de
artifícios (especialmente injustos) e influência”. O mesmo viés se
encontra na definição alternativa: “controlar ou influenciar (uma
pessoa ou situação) hábil ou inescrupulosamente”. As conotações
negativas do adjetivo injusto, o substantivo artifício e o advérbio

93
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

inescrupulosamente são a chave para entender essa ação, pelo menos


por alguns, como uma interferência desagradável e indesejável em
qualquer processo, nesse caso particular: na TAV. Quando ocorrem
mudanças injustas que desequilibram a relação entre os produtos de
partida e de chegada propositada e inescrupulosamente, as razões
por trás delas podem ser diversas, compreendendo desde motivos
políticos ou religiosos até considerações morais ou financeiras.
A tarefa do pesquisador sagaz e curioso, que tem como objetivo
levar a tradução para além da sua tradicional esfera linguística
ao contextualizá-la dentro de uma conjuntura sociocultural mais
ampla, envolve, dessa forma, um entendimento das razões pelas
quais essas mudanças ideologicamente motivadas podem ocorrer,
e para o benefício de quem. Nessa circunstância, manipulação cor-
responde a essa segunda definição, por exemplo, à incorporação,
no texto de chegada, de qualquer mudança (incluindo omissões e
adições) que deliberadamente partem do que é dito (ou mostrado)
no original. É sobre esse posterior sentido de manipulação ideoló-
gica, em oposição à manipulação técnica, que este artigo discorre.
Equivalência em relação ao texto de partida é um conceito
chave que, de certo modo, tem pesado nas discussões teóricas
sobre tradução, e também contribuído para a perpetuação de
metáforas sobre infidelidade (les belles infidèles), traição (traduttore,
traditore) e perda. Abordagens mais recentes abriram as portas
para uma análise do papel da tradução na construção de identi-
dades subjetivas e coletivas, com temáticas como gênero, etnia,
pós-colonialismo, poder e conflito no centro das discussões. O
mapa atual da tradução vai bem além da transferência linguística
e envolve novas realidades, como tecnologia, ideologia, sociolo-
gia, multimidialidade, multiculturalidade e multilinguismo, entre
outras. Da rígida fidelidade ao original, postulada pelos acadêmi-
cos tradicionais, os Estudos da Tradução parecem ter avançado,
representados por um paradigma no qual desvios do original são
considerados admissíveis e a típica primazia do texto de partida
pode ser derrubada em favor dos interesses da cultura de chegada.

94
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Visto dessa perspectiva, o papel de quem pesquisa tradução é des-


vendar a ideologia que motiva e justifica precisamente esses desvios
e, ao fazê-lo, expor a luta de poder em jogo entre os diferentes
agentes sociais que participam do processo tradutório. Apesar de
a tradução fiel poder ajudar a propagar e perpetuar algumas ideias
e comportamentos semelhantes em certos regimes e estruturas
dominantes, especialmente quando os produtos audiovisuais a
serem traduzidos resumem os valores centrais propagados por
esse poder, é o desvio da tradução que se torna o objeto de estudo
realmente interessante. Contudo, não se pode esquecer que, pelo
lado negativo, questões como ativismo na tradução não estão ne-
cessariamente relacionadas a atos de inovação e subversão, uma
vez que eles também podem ser estimulados e representados por
tradução conservadoras e reacionárias.

Fazendo incursões ideológicas na pesquisa em TAV

A chamada inicial para uma virada cultural nos Estudos da Tra-


dução foi acompanhada pela publicação de artigos cujos principais
argumentos tratavam do reflexo da cultura de partida na cultura
de chegada, embora vista por uma perspectiva bastante geral que
tendia a enfatizar principalmente o processo de tradução em vez
de enfocar o resultado propriamente e as implicações de sua inte-
gração com a cultura de chegada. Exemplos típicos desse tipo de
abordagem na TAV incluem o estudo de referências culturais (SAN-
TAMARIA, 2001; PEDERSEN, 2007) ou a transferência de sentidos
humorísticos (MARTÍNEZ SIERRA, 2004; SCHRÖTER, 2005; VEIGA,
2006), com o objetivo final de destacar as estratégias tradutórias
implementadas por profissionais ao dublá-las ou legendá-las para
se encaixarem em uma língua e cultura diferentes. Abordagens
quantitativas e estatísticas, dois dos pilares em que os Estudos Des-
critivos da Tradução se baseiam, tendem a ser favorecidas nesses
estudos como um meio de fundamentar os resultados.

95
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Mais recentemente, no entanto, os Estudos da Tradução têm


visto um ligeiro distanciamento das análises das questões culturais
gerais em direção a uma crescente consciência do papel crucial de-
sempenhado nas trocas culturais pelas estruturas de poder e pela
ideologia social prevalente, quer sejam elas implícitas ou explici-
tamente verbalizadas (TYMOCZKO e GENTZLER, 2002). A relação
entre tradução, poder e conflito começou também a ser discutida
na arena acadêmica (BAKER, 2006), trazendo consigo novos insights
sobre ética, agência e posicionamento adotados por tradutores e
intérpretes em um mundo cada vez mais globalizado e turbulento.
Ainda que esses tópicos tenham despertado o interesse de alguns
estudiosos, particularmente na tradução literária, o fato é que,
em se tratando de TAV, eles ainda são pouco discutidos. De fato,
a maioria dos estudos iniciais nesse campo tendiam a salientar a
mecânica da TAV e eram vistos como uma disciplina autônoma,
destacando sua natureza e restrições únicas e tirando pouco
proveito de outras áreas. A situação, no entanto, está evoluindo
rapidamente e muitos estudiosos atualmente preferem enfatizar a
dependência da TAV em outras disciplinas relacionadas como uma
forma de expandir horizontes de pesquisa e contribuir para um
entendimento poliédrico do assunto.
Certamente esses tópicos não são completamente novos
nessa área e alguns deles, como a censura, têm sido frequente-
mente discutidos no passado por estudiosos, embora muitos deles
através de perspectivas como estudos do cinema, tocando apenas
marginalmente na tradução. Aliás, embora a manipulação e a cen-
sura sejam dois termos usados quase como sinônimos por alguns
autores e suas fronteiras e limites possam ser difíceis de delinear,
o entendimento nestas páginas é de que a última está agrupada
dentro da primeira, isto é, a censura é vista como uma força mais
restritiva e coercitiva quando comparada à manipulação.
Curiosamente, o poder em potencial que o cinema exerce
sobre as audiências sempre foi reconhecido por regimes políticos
de todas as cores e de todos os tempos. Governos abordaram esse

96
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

aspecto através da aprovação de legislações destinadas ao controle


de ambas produções originais e importadas. Como destacado por
Billiani, quando se refere implicitamente a produções audiovisuais:

os meios de comunicação em geral, e sobretudo os


meios de comunicação de massa, dirigem-se a uma
audiência bastante ampla e socialmente diversa que,
mais do que no caso dos textos literários, precisa ser
mantida sob controle e organizada em seus gostos
e opiniões por um poder censório visível e invisível.
(BILLIANI, 2007, p.5)

Um caso em questão remonta aos primeiros anos do cinema,


quando tradutores audiovisuais desempenharam um papel crucial
na internacionalização da sétima arte e estavam intimamente
empenhados na renegociação da língua, da cultura e do conceito
de nação em países como a Alemanha, Itália e Espanha, onde a
dublagem se tornou obrigatória (dando prioridade, desse modo,
à língua nacional) às custas da legendagem (o que teria permitido
que a língua do Outro fosse ouvida nas telas). Quando se tratava
de tradução, as pressões de fazer malabarismos com os interesses
de todas as partes envolvidas eram visíveis tanto em casa, com re-
gimes políticos ditatoriais em poder naquela época e vários atores
que controlavam comitês de censura e os circuitos de exibição,
quanto em um nível mais amplo, nas negociações com as principais
empresas de distribuição, a maioria delas dos Estados Unidos. A
hegemonia esmagadora dos filmes estadunidenses retratando seu
estilo de vida único daquele tempo, juntamente com o crescente
domínio linguístico e a colonização da língua inglesa, incitaram
reações em defesa das línguas e culturas nacionais (por exemplo,
na escolha da dublagem em oposição à legendagem), controles
mais rígidos para preservar a pureza das línguas nacionais, legis-
lações para tentar garantir o bem-estar financeiro da indústria
cinematográfica nacional por meio da imposição de cotas para
filmes estrangeiros. Em suma, questões sobre poder, manipulação,

97
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

ideologia e finanças eram tão relevantes e cruciais naquela época


quanto são hoje.
A tradução em geral, e em particular a tradução audiovisual,
presta-se como um estudo de caso ideal para investigar a realização
de forças censórias em jogo em qualquer período histórico, dado
que, como foi discutido por Billiani (2007), o ato de traduzir é uma
das principais e mais recorrentes formas que as culturas têm de
lidar com a influência estrangeira. Nessa negociação de valores
socioculturais, a censura é frequentemente ativada na arena do-
méstica como um meio político e ideológico poderoso de articular
essas representações de uma maneira que se adeque aos interesses
investidos daqueles que detêm autoridade.
Relatos históricos de como as forças censórias moldaram a
tradução de programas audiovisuais em diferentes países, particu-
larmente através da dublagem, foram realizados por autores como
Pruys (1997) na Alemanha, Fabre (2007) na Itália, e Ávila (1997),
Gutiérrez Lanza (1999) e Vandaele (2006) na Espanha. No caso do
último, vale ressaltar o trabalho que por muitos anos vem sendo
conduzido pelo grupo TRACE (TRAnslations Censored)5. O corpus de
análise consiste em uma compilação de traduções de textos origi-
nalmente escritos em inglês, os quais apareceram na Espanha entre
1939 e 1985. Tais textos são divididos em três grupos, de acordo
com seus gêneros – narrativa, cinema e teatro – e seu objetivo final
é expor as regularidades e normas subjacentes que definem o com-
portamento do tradutor e o papel da tradução quando comparado
ao contexto histórico, político, ideológico e cultural do regime de
Franco na Espanha. O recém-criado Tralima (Traducción, Literatura y
Medios Audiovisuales)6, um grupo de pesquisa internacional com sede
na Universidade do País Basco, na Espanha, compartilha as mesmas
metas e objetivos que seu irmão TRACE, isto é, o desdobramento
dos mecanismos linguísticos e socioculturais que caracterizam a
5 Grupo TRACE (TRAnslations Censored). Disponível em <http://www.ehu.es/trace/ home-
eng.html>. Acesso em 30 de junho de 2012.
6 Tralima (Traducción, Literatura y Medios Audiovisuales). Disponível em <http://www.
ehu.es/tralima>. Acesso em 30 de junho de 2012.

98
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

tradução literária e de programas audiovisuais sob forças censó-


rias. Com escopo parecido, embora não tão claramente focado na
tradução, é o projeto de pesquisa Italia Taglia7, o qual se centra na
dinâmica da censura cinematográfica na Itália com o objetivo triplo
de: arquivar todo o material audiovisual que tenha sido sujeito à
intervenção censória; sistematizar toda a informação contida nos
relatórios de censura, e expor esses dados ao público em geral.
A censura e, em menor extensão, a manipulação, são con-
ceitos que tendem a ser equiparados ao passado e/ou a regimes
autoritários, uma relação que não poderia estar mais distante da
verdade. Tradução não é, e nunca foi, uma atividade inocente, e
a manipulação de textos (audiovisuais) foi ganhando espaço ao
longo do tempo e continua a ser abundante, independentemente
dos regimes políticos que estão no poder. Do mesmo modo que
os recentes eventos geopolíticos do mundo tornaram bastante
evidente, o abuso e a manipulação ideológica da informação não
são uma ocorrência do passado, tampouco são feitos exclusivos
de regimes totalitários e antidemocráticos. Nas palavras de Billia-
ni (2007, p.22): “a censura continua sendo um fenômeno atual e
difundido que opera de diversas formas e sob diversos pretextos,
e [...] a tradução continua sendo um dos meios mais poderosos de
que dispomos atualmente para moldar a interação entre culturas”
e comunidades. Certamente, os tentáculos da intervenção censória
se espalharam para além dos mais tradicionais campos da literatura
e do cinema para abranger novas formas de cultura popular, tais
como a tradução de mangás e animes japoneses e de videogames.
Como uma revolta contra essas interferências indesejadas,
novas práticas de tradução que promovem o envolvimento ativo de
seus participantes têm surgido nos últimos anos. Graças à disponi-
bilidade de equipamentos gratuitos de legendagem na internet e
toda sorte de materiais audiovisuais, atividades como o fansubbing
criaram raízes na sociedade (DÍAZ CINTAS, 2010). A legendagem
é rápida, barata, flexível e fácil de produzir, qualidades que fazem
7 Italia Taglia. Disponível em <http://www.italiataglia.it>. Acesso em 30 de junho de 2012.

99
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

essa forma de tradução a aliada perfeita da globalização e o modo


preferido de TAV na world wide web. Esse crescimento exponencial e
a presença na internet é que tem permitido o surgimento de novas
vozes – vozes de dissidentes levantadas por internautas em todo
o mundo, que normalmente trabalham em prol da desautorização,
ao invés da sustentação da construção do discurso público domi-
nante. Se o objetivo básico por trás do feito do primeiro fansubber
era a difusão do entretenimento japonês, vinte anos depois, a
motivação por trás de muitos dos legendadores amadores mudou
consideravelmente. Atualmente, a blogosfera é tida como terreno
fértil para a crescente cultura participativa do ativismo político e,
juntamente, a legendagem tem sido adotada por muitos indivídu-
os politicamente engajados como uma ferramenta necessária por
meio da qual se resiste às ideologias dominantes (PÉREZ GONZÁ-
LEZ, 2010). A legendagem tornou-se simultaneamente um meio
de aculturação global explorada pelas grandes multinacionais e
também uma ferramenta para o empoderamento local.
Um exemplo desse último é a iniciativa de financiamento co-
letivo lançada pelo Mosireen Project8 através do Translation Studies
Portal9. Mosireen é um coletivo de mídia sem fins lucrativos com
sede em Cairo, nascido da explosão da mídia cidadã e do ativismo
cultural no Egito durante a revolução. Sua agenda política é anun-
ciada explicitamente em sua página na web:

Armados com celulares e câmeras, milhares e milhares


de cidadãos mantinham o equilíbrio da verdade em
seus países através do registro de eventos enquanto
eles aconteciam diante deles, despistando a censura e
fortalecendo a voz de quem trazia as perspectivas das
ruas. [...] Filmamos a revolução em curso, publicamos
vídeos que desafiam as narrativas dos meios de comuni-
cação estatal. [...] Estamos em um momento crucial na
8 Mosireen Project. Disponível em <http://mosireen.org>. Acesso em 30 de junho de 2012.
9 O Translation Studies Portal oferece um forum para pesquisadores e estudantes de tradução no
mundo de língua árabe, Irã e Turquia. Disponível em <http://www.translationstudiesportal. org/
index.php/news/entry/call_for_volunteer_translators_for_mosireen_project>. Acesso em
30 de junho de 2012.

100
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

história, pois temos a chance de melhorar nossa socie-


dade, de caminhar rumo à justiça social, de aumentar
as oportunidades para mais pessoas, de diminuir as
divisões entre as classes. E isso será um pouco mais
fácil com a sua ajuda. (Mosireen Project; ver nota 8).

Seus materiais audiovisuais são principalmente filmados


pelos árabes em árabe como um modo de “contornar a barreira
representada pela mídia local tendenciosa”9, para que a verdadeira
situação dos egípcios seja divulgada documentando a situação
e para “divulgar internacionalmente o que realmente está acon-
tecendo no Egito” (ver nota 9). Os obstáculos linguísticos que
devem ser superados para que sua campanha produza resultados
são inequivocamente reconhecidos: “Para continuar fazendo isso,
precisamos de tradutores para legendar nossos vídeos” (ver nota
9), caso contrário, sua mensagem pode não ser ouvida. Com essa
solicitação, eles esperam capitalizar através do potencial oferecido
por comunidades virtuais de internautas e explorar sua inteligência
coletiva. A estratégia dos egípcios é, notadamente, apelar para a
empatia e a afinidade narrativa de possíveis colaboradores, desta-
cando um dos pilares definidores da cultura participativa: o de agir.
Eles estão procurando por voluntários que gostariam de fazer sua
“parte pela revolução egípcia” (ver nota 9) legendando pequenos
documentários em diferentes idiomas, tornando-se parcialmente
comprometidos, desse modo, com a causa de compartilhar conheci-
mento e espalhar a verdade para o resto do mundo. A legendagem
torna-se, por esta razão, uma pièce de résistance contra as forças
no poder; uma ferramenta usada para escapar à manipulação a
que seus programas inevitavelmente sofrerão sob a patrulha das
forças estatais e um meio de combater e de contrariar o discurso
difundido pela ideologia hegemônica.

101
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

“O que há em uma palavra?”: os limites da expressão

Países diferentes têm diferentes ideias acerca dos contornos


da liberdade de expressão, um fato que inevitavelmente leva ao
conflito linguístico ao ter que lidar com a tradução de certas ideias
e valores sociais de uma língua e cultura para outra língua e ou-
tro cenário cultural. Porém, um ataque preventivo à liberdade de
expressão pode ser lançado em um estágio muito anterior, antes
mesmo do processo de tradução, como atestado pela decisão do
Google e do Twitter de remover postagens em blogs e bloquear
tuítes em uma medida feita país a país para submeter-se às leis
locais e em resposta às solicitações de regimes opressivos (WAU-
GH, 2012)10. Se essa tendência for seguida por mais empresas
com controle direto sobre a distribuição de mídia audiovisual, o
futuro da liberdade de expressão, juntamente com a natureza de
uma internet verdadeiramente global, está claramente ameaçado
em favor de um mundo online cada vez mais balcanizado, sujeito
a uma colcha de retalhos de leis locais.
Voltando ao nosso tópico principal, há pouca dúvida de que
a linguagem é uma ferramenta muito poderosa e, como Redmond
(1991, p.46) astutamente destaca, ainda que “sexo e violência sejam
o negócio de todas as mídias [...] é o uso da linguagem que parece
levar pessoas à apoplexia”. Realmente, todas as culturas parecem
ter uma infinidade de palavras e expressões em seu repertório
lexical cuja utilização tende a ser restrita porque são consideradas
tabus e ofensivas. Tentativas de restringir seu uso são muito co-
muns na mídia (audiovisual) e, por exemplo, o argumento de que
a TV tem uma responsabilidade pela educação do público é muito
forte e frequentemente usado para justificar algumas das decisões
tomadas, como a proibição de usar certos termos. O controle da
linguagem ainda é prevalente na maioria dos países e o público em
10 WAUGH, Rob. ‘Google joins Twitter in censorship storm: Site may now block blog posts in
line with requests from oppressive regimes’. Mail Online. 3 de fevereiro de 2012. Disponível
em <http:// www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-2095328/Google-joins-Twitter-
censorship-storm-Site- block-blog-posts-line-requests-repressive-governments.html>.
Acesso em 30 de junho de 2012.

102
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

geral tende a ignorar o tamanho do esforço que é canalizado para


controlar ambos os textos originais e os traduzidos, o que muitas
vezes contraria o conceito tradicional de tradução fiel e ética. No
outro extremo do espectro, entretanto, aqueles espectadores que
são capazes de avaliar a fidelidade da tradução, particularmente
no caso da legendagem, tendem a culpar os tradutores pela ate-
nuação, por suavizar interpretações do que eles podem ouvir na
língua original. Naturalmente, a maioria dos telespectadores con-
tinuam alheios a tudo isso, enquanto os tradutores profissionais
são atingidos no fogo cruzado e, involuntariamente, se tornam
parte integrante dessa luta pelo poder.
A maioria das soluções manipulativas alcançadas por aqueles
em posições de poder podem ser descritas como comparativamente
criativas. Dado que xingar e falar palavrões foi sempre visto com
maus olhos, recorrer a asteriscos para substituir termos obscenos
é comum, como no caso da popular peça Shopping and F***ing, de
Mark Ravenhill. O uso de grawlixes ou obscenicons, ou seja, a série
de símbolos tipográficos, como @#*?$*!, tradicionalmente usados
em desenhos animados e quadrinhos para representar palavrões de
uma maneira elíptica, também tem sido adotado por muitos anos.
Ambas as abordagens entraram no campo da TAV, particularmente
na legendagem e legendagem de surdos e ensurdecidos, em que
o uso de linguagem imprópria sempre foi de grande preocupação.
Outra solução possível é, com certeza, a censura com um
“bip” da trilha sonora original. Alegando que a Comissão Federal
de Comunicações dos EUA “exige que a linguagem indecente ou
repreensível seja censurada pela TV e pelo rádio” e que “tecnica-
mente, é uma violação da legislação federal transmitir linguagem
indecente ou profana entre as 6h e 22h,” a empresa Vox Frontera
criou um impressionante aplicativo chamado WordStopper™11.
Persuadindo o canal ou a estação a atrasar brevemente seu sinal
de áudio e de vídeo, o programa, que vem com um vocabulário de

11 Vox Frontera Inc. Disponível em <http://www.translatetv.com/wordstopper.php>. Acesso


em 30 de junho de 2012.

103
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

mais de 70 palavras censuráveis, identifica as palavras erradas e,


automaticamente, aparece o “bip” quase em tempo real. De uma
natureza ainda mais perturbadora é a invenção de um censor de
TV pessoal baseado em legendas. Um computador conectado a um
aparelho de TV ou a um gravador de vídeo monitora eletronicamen-
te guias de programação junto com as legendas para os telespec-
tadores com deficiência auditiva. O aplicativo procura então por
palavras-chave duvidosas e decide, baseando-se nas preferências
do usuário, se bloqueia o programa todo ou simplesmente silencia
o som por um curto período. Fox (2007)12 fornece alguns exemplos
reveladores: se o programa usar as palavras serial killer (assassino
em série), o sistema pode bloqueá-las completamente; a palavra
damn (maldição) poderia ser aceitável no Discovery Channel, mas
silenciada em todos os canais de filmes; a palavra bitch (vaca, cadela)
pode apenas ser permitida durante programas sobre animais, mas
nunca precedido por sua.
Talvez a manipulação em voice-over de sotaques estrangeiros
seja menos óbvia porque acontece no plano fonológico e pode
ser usada para definir o limite entre uma comunidade de falantes
nativos e o seu exterior e, ao fazê-lo, arrisca-se enfatizar estere-
ótipos que tendem à discriminação racial (STEFFENSEN, 2012).
Permitir que o Outro seja ouvido por meio de dublagem ou que
seja lido através de legendas é um assunto espinhoso que tende
a ser resolvido com a padronização do registro usado no texto
de chegada e o apagamento de quaisquer traços do estrangeiro.
Um paradoxo não resolvido gira em torno da questão de por que
alguns sotaques e socioletos estrangeiros são purificados até mes-
mo naqueles países onde filmes linguisticamente provocantes são
produzidos em língua materna e em suas variantes.
Uma situação intimamente relacionada surge quando edito-
res e produtores de produtos audiovisuais são confrontados com
o que é considerado o sotaque forte de alguns falantes e tomam
12 FOX, Barry. ‘Invention: Personal TV censor’. NewScientist. 29 de janeiro de 2007.
Disponível em <http://www.newscientist.com/article/dn11054-invention-
personal-tv-censor.html>. Acesso em 30 de junho 2012.

104
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

decisões, em nome da clareza, que às vezes podem levar a uma


visão desconfortável. Lawson (2012)13 ilustra esse ponto referindo-
se a um documentário sobre Usain Bolt, transmitido pela BBC, no
qual o inglês de sotaque jamaicano do velocista, dos seus parentes
e de seu treinador foi legendado, uma prática normalmente reser-
vada a idiomas estrangeiros. Para o autor, por causa da história de
discriminação racial, o uso dessa técnica “é, inevitavelmente, mais
sensível quando parece estar penalizando alguns falantes negros
com sotaque por não darem suas contribuições ao que se costu-
mava chamar de inglês da Rainha ou da BBC” (LAWSON, 2012)13.
Ele continua afirmando que:

O problema com a prática de legendar alguns sotaques


é que isso implica automaticamente que esses falantes
estão desviando de algum padrão comumente aceito
de pronúncia compreensível (sic). E é quase impossível
definir esse padrão sem implicações provavelmente
racistas ou baseadas em classe e, tão insultante quan-
to, assumindo um ouvido comum entre o público.
(LAWSON, 2012)

Todos esses exemplos ilustram claramente que a linguagem


e o uso que os tradutores fazem dela continuam a ser o material
e a essência de qualquer atividade tradutória; mas eles também
demonstram claramente que as ramificações de seu impacto final
na sociedade vão além do domínio linguístico e interferem no novo
habitat sociocultural que abriga os produtos traduzidos.

Conclusão

Como discutido nas páginas anteriores, o ato de traduzir en-


tre línguas, ou diassemioticamente dentro da mesma linguagem,
da oral para a escrita, nunca é neutro, e a concepção idílica da

13 LAWSON, Mark. ‘When does subtitling risk becoming racially offensive?’. The Guardian.
19 de julho de 2012. Disponível em <http://www.guardian.co.uk/tv-and-radio/tvandradiob-
log/2012/jul/19/ subtitling-risk-racially-offensive>. Acesso em 30 de junho de 2012.

105
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

tradução como uma ponte conectando culturas precisa de uma


revisão urgente. Já foi provado, repetidas vezes, que a tradução
pode também enfatizar diferenças, perpetuar estereótipos errados
e, deliberadamente desinformar, destruindo, portanto, aquelas
mesmas pontes que ela supostamente deveria construir.
Visto como um dos campos mais importantes, tanto do ponto de
vista social quanto profissional, em termos de quantidade absoluta de
programas traduzidos, o rendimento que gera e o vasto número de
pessoas que alcança, a TAV presta-se adequadamente a uma discussão
e investigação de questões relativas ao poder, ideologia, dominância,
intervenção, ética, identidade e manipulação. A carga cultural intrín-
seca canalizada através de materiais audiovisuais, especialmente
programas de ficção, mas também factuais, como jornais, é outra
razão para uma investigação crítica mais aprofundada. E, no entan-
to, até agora, pouquíssimos estudiosos atreveram-se a trilhar esse
território tão pouco conhecido. Existem, é claro, múltiplas razões
para essa negligência, algumas das quais são meramente práticas,
por exemplo, a falta de acesso aos materiais, e algumas delas estão
mais profundamente enraizadas na própria essência dessa atividade
complexa na qual vários agentes intervêm com suas agendas ide-
ológicas diferentes, sejam pessoais ou corporativas. Desvendar os
meandros dessa rede de relações hierárquicas e seu impacto final
sobre a tradução real e os consumidores dessas traduções não é
tarefa fácil. No entanto, essa dificuldade não deve servir como um
impedimento para o avanço de pesquisas sérias e comprometidas
em um campo florescente como o da TAV.

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Diversas faces da tradução na contemporaneidade

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109
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

CAPÍTULO IV

ECOTRADUTOLOGIA: FOCOS DE PESQUISA


E PERSPECTIVAS1/2

Gengshen Hu
Traduzido por Xinwei Zhou e Yu Pin Fang

Resumo: Como método de pesquisa interdisciplinar, a Ecotraduto-


logia é um estudo abrangente da tradução pautado na lógica e na
perspectiva da ecologia. O presente artigo pretende reunir e elu-
cidar os nove focos de pesquisa e perspectivas teóricas da Ecotra-
dutologia, a saber: 1) Paradigma ecológico; 2) Cadeia associativa; 3)
Lógica ecológica; 4) Tradução como atuação; 5) Ambiente ecológico
de tradução; 6) Centralidade do(a) tradutor(a); 7) Adaptação/Sele-
ção; 8) Transformação “tridimensional”; e 9) “Penalidade retroativa”.
Segundo estudos bibliográficos, os pontos mencionados acima
e desenvolvidos neste artigo, além de serem conceitos-chave da
Ecotradutologia, são também fundamentação teórica de trabalhos
de pós-graduandos nas universidades nacionais; e constituem uma
proposta e perspectiva teóricas comentadas e mais citadas pelos
estudiosos da tradução.

1 Publicado originalmente em 中国翻译 [Chinese Translators Journal], 2011, n.2, sob o título
生态翻译学的研究焦点与理论视角.
2 O presente artigo é parte do projeto contemplado pelo Fundo Nacional de Ciências Sociais,
intitulado The Eco-Translatology: An Ecological Perspective of Translatology (N. 08BYY007)
e coordenado pelo autor; bem como recebeu financiamento do projeto de pesquisas científicas
do Instituto Politécnico de Macau, intitulado Translation School Study: The Eco-Translation
School (RP/ESLT-06/2009).

111
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Palavras-chave: Ecotradutologia; foco de pesquisa; perspectiva


teórica.

Introdução

O presente artigo foi escrito por três motivos. Primeiramente,


antes da proposição dos estudiosos chineses, a Ecotradutologia
era “algo que não existia no mundo”3, ou seja, podemos dizer que
ela “nasceu do nada”. Ao mesmo tempo, a Ecotradutologia parte
de uma nova perspectiva, completamente diferente daquela dos
estudos anteriores, para examinar e discutir macro e sistemati-
camente sobre a tradução. Há, portanto, expressões técnicas e
conceitos novos. Podemos dizer que a Ecotradutologia “fala de si
na sua própria língua”4. Nesse contexto, é pertinente perguntar: o
que exatamente “nasceu” do nada na Ecotradutologia? Que língua
é essa de que a Ecotradutologia “fala”? O presente artigo pretende
responder de maneira sucinta estas questões e exemplificá-las.
Em segundo lugar, há mais de centenas de artigos publicados
tanto na China quanto no exterior sobre os estudos teóricos e
aplicados da Ecotradutologia, assim como há professores e alunos
(mestrado/doutorado) de mais de 60 instituições de ensino supe-
rior que utilizam as teorias básicas da Ecotradutologia para servir
de fundamentação teórica de seus trabalhos, visando a obtenção
de titulação e publicação de artigos. Considerando a publicação
desses artigos de diversos gêneros, incluindo as dissertações e
teses, cabe questionar: quais são as perspectivas teóricas que
esses estudos tomam como base? Qual é a relação entre as pers-
pectivas de pesquisa adotadas nesses estudos mencionados e a
do estudo como um todo da própria Ecotradutologia? O presente
3 Nota do autor: “Oferecer ao mundo algo que não tinha antes.” QIAN, Guanlian. (钱冠连) 外
语研究创新略 [Uma breve discussão sobre inovação de estudos de língua estrangeira]. In.
Foreign Languages and Their Teaching. 2000, n.1, p. 10 – 14.
4 Nota do autor: “Na construção de teorias acadêmicas, estamos ainda, basicamente, ‘falando
o que foi falado’ e ‘continuando aquilo que foi dito’. Falta a vontade, crença e capacidade de
‘falar de si na sua própria língua’.” YANG, Wuneng. (杨武能) 营造良好的文学翻译生态环
境 [Criar um ambiente ecológico apropriado da tradução literária (primeiras palavras da edição
inaugural)]. In. East Journal of Translation.2009, edição inaugural, p. xii – xiii.

112
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

artigo pretende discorrer sobre tais questões e apresentar seus


devidos exemplos.
Por fim, a Ecotradutologia está completando seus dez primei-
ros anos na China. Em termos de extensão da história chinesa, dez
anos se passam em um instante; porém, em relação a uma meto-
dologia de pesquisa ou um sistema de discurso, dez anos consti-
tuem um período crucial. Sendo assim, após dez anos de exame
teórico e prático, quais são as proposições teóricas e perspectivas
acadêmicas já reconhecidas ou paulatinamente aceitas? E quais são
aquelas que estão sendo aos poucos aprimoradas ou eliminadas
naturalmente? O presente artigo também pretende organizar e
realizar uma breve retrospectiva em relação às questões propostas.

Do “Paradigma Ecológico”

Paradigma é um conceito abrangente que envolve “direção”


e “princípios” gerais de determinadas áreas de estudo. Em outras
palavras, paradigma se refere a uma metodologia de pesquisa ou
linhas gerais, julgamento de valor e método de pesquisa de um
modelo de estudo.
A Ecotradutologia tentou se posicionar diversas vezes em
relação ao “paradigma” de suas teorias da tradução. Por exemplo,
aponta-se como objetivo de estudo da base teórica da Ecotra-
dutologia – 翻译适应选择论 (Teoria da Adaptação e Seleção na
Tradução) – “a tentativa de encontrar um paradigma da tradução
de fundamentação filosófica adequada e adaptada aos princípios
básicos da tradução” (HU, 2004, p. 9). Além disso, a visão da
tradução apresentada neste estudo é “centrar-se no ‘indivíduo’,
dedicar-se à cadeia clara para que tudo se encaixe em ordem5, e
finalmente, estabelecer “‘a tradução = adaptação + seleção’ como
5 Nota das tradutoras: Tem-se um jogo de palavras entre o provérbio clássico chinês (chengyu)
e a taxonomia. O provérbio é 纲举目张 gang ju mu zhang, que literalmente significa ao abrir
a rede de pesca, todos poros da rede se abrem, simbolizando que ao acertar o ponto chave de
algo, tudo se desenvolve fluidamente em cadeia. O jogo reside no uso comum dos ideogramas
纲 e 目, que significam respectivamente cordão principal da rede de pesca e poros da rede de
pesca, os quais, na taxonomia, são “classe” e “ordem” respectivamente.

113
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

paradigma teórico no qual o(a) tradutor(a) ocupa a posição de


centro.” (Idem, p. 70). A teoria de adaptação e seleção na tradução
ainda é considerada “capaz de proporcionar uma nova interpreta-
ção ao paradigma teórico da tradução, que tem como orientação
princípios e ideias de ‘adaptação e seleção’ do Darwinismo; como
tema principal ‘a tradução como adaptação e seleção’; e como
ideologia ‘a centralidade do(a) tradutor(a)’”. (Idem, p. 181). A teoria
ecotradutológica “se esforça para revelar e reapresentar a natureza
intrínseca da tradução, além de tentar encontrar um paradigma
de tradução de fundamentação filosófica adequada e adaptada
aos princípios básicos da tradução”. (Idem, p. 181-182). Em suma,
a Ecotradutologia, na qualidade de um método de pesquisa com
característica interdisciplinar, consiste em estudos holísticos da
tradução a partir da lógica ecológica; em um paradigma ecológico
e área de pesquisa considerando “a tradução como adaptação e
seleção”. (HU, 2003, p. 278; 2004, p. 41; 2006; 2008; 2009).
De acordo com The New Oxford English-Chinese (2007), a
definição de paradigm é: a world view underlying the theories and
methodology of a particular scientific subject6. O filósofo da ciência
Thomas Kuhn afirma que “ciência não consiste em mero amon-
toado de fatos, teorias e métodos, tampouco simples acúmulo
de conhecimentos, mas sim um processo constante de revolução
por meio de transformações incessantes de paradigmas” (Wu,
2000, p.19). Hermans também aponta que “paradigma” determina
“diretrizes” para os Estudos da Tradução; consiste em “metodolo-
gia de estudos e resolução de problemas específicos” (Hermans,
1999: p. 9-10). Portanto, na realidade, paradigma abrange todas
as hipóteses teóricas, modelos de estudo, métodos de pesquisa,
parâmetros de valores e princípios metafísicos da comunidade
acadêmica; é a “somatória” de visão de mundo, orientação de
valores e metodologia dos membros que integram uma determi-
nada comunidade.

6 Nota das tradutoras: paradigma é uma visão de mundo subjacente às teorias e metodologia de
um determinado assunto científico.

114
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

No âmbito da Ecotradutologia, o “paradigma ecológico” elucida-


do previamente a partir da perspectiva da ecologia está em processo
de consolidação e de reconhecimento. O maior símbolo disso é a
inclusão, por muitos estudiosos, da abordagem de pesquisa ecotra-
dudológica, tanto no que se refere a conceitos básicos, julgamento
de valores, métodos de estudo dos problemas, quanto à terminologia
adotada e conclusões relacionadas ao campo de estudo da tradução.
Esses estudiosos reunidos na “comunidade” da Ecotradutologia
concordam com as descrições básicas dadas à tradução, aceitam
as diretrizes ecotradutológicas e seguem os métodos de pesquisa
relevantes para essa teoria. Ao investigarem determinadas questões,
esses estudiosos adotam também o mesmo parâmetro de valores
da Ecotradutologia. Sendo assim, os estudos ecotradutológicos já
não são mais considerados isolados e independentes, mas podem
ser vistos como estudos que compartilham o paradigma teórico da
Ecotradutologia. Conforme mostra a estatística de dados bibliográ-
ficos parciais, em mais de centenas de artigos, dissertações e teses
sobre estudos teóricos e aplicados da Ecotradutologia, seis foram
publicados em 2005; dez em 2006; quinze em 2007, quinze em
2008; trinta em 2009; e em 2010, a previsão era de mais de quarenta
publicações (incluídos os trabalhos aceitos para publicação). Sendo
assim, podemos perceber que, nos últimos anos, sob o “paradigma”
da Ecotradutologia, tem havido uma tendência de crescimento paula-
tino de trabalhos de estudos da tradução que são tanto classificados
na área quanto nomeados diretamente da Ecotradutologia.
É preciso observar ainda que o quadro apresentado acima traz
apenas os resultados vistos na primeira década de história da Eco-
tradutologia. Em 2011, inicia-se seu segundo decênio. Na esteira da
criação da “International Conference on Ecological Translation Studies”,
da realização do “I Internacional Symposium on Ecological Translation
Studies”, da publicação do “Journal of Ecological Translation Studies”,
do contínuo crescimento da equipe de estudos ecotradutológicos, a
tendência de desenvolvimento do segundo decênio do “paradigma”
dos estudos ecotradutológicos deve ser ainda mais considerável.

115
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Da “Cadeia Associativa”

Desde o início dos estudos teóricos da Ecotradutologia, já


explicamos a característica associativa e interativa entre as ativi-
dades de tradução (ecologia da tradução) e a natureza (ecologia da
natureza). Traçamos uma cadeia com lógica interna de expansão
do campo cognitivo com conexões inerentes da “tradução” à “na-
tureza”. Provisoriamente, foi denominada, de “cadeia associativa”.
Esta “cadeia associativa” consiste em considerar que a tradução é
transformação de línguas; línguas são parte da cultura; cultura é
uma herança acumulada de atividades humanas; e o ser humano é
parte da natureza. Sendo assim, podemos deduzir dessas relações
uma interligação bastante significativa:

Esta “cadeia associativa” demonstra um caminho de expansão


do campo cognitivo e do aprimoramento racional do ser humano.
Além disso, ela se encontra em conformidade com os princípios
de evolução da capacidade de raciocínio do ser humano, assim
como possui algumas características, tais como interatividade e
progressividade. Pode-se dizer que a cadeia associativa moldurou
a sequência lógica do desenvolvimento progressivo do campo
cognitivo do ser humano, bem como seu mecanismo interno de
interligação e direcionamento. O foco dos Estudos da Tradução
parte da tradução em si para a língua, cultura, ecologia do ser
humano. Há, ainda, neste percurso, repetições e interações contí-
nuas, refletindo exatamente a cadeia acima e suas características.
Pode-se verificar, ainda, a interrelação entre as atividades de tra-
dução e os seres vivos da natureza, bem como as características

116
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

básicas da interação comum entre o ecossistema e sistema social


do ser humano.
A relevância dessa “cadeia associativa” fez com que fosse uma
importante premissa e fundamento para a formação e desenvolvi-
mento da Ecotradutologia. Nos últimos anos, cada vez mais estu-
diosos dedicam seus estudos ao conteúdo da “cadeia associativa”,
além de aplicá-la e desenvolvê-la.
Fanjun Meng (2010) apontou no seu artigo intitulado 翻译适
应选择论初探 (Estudos da Tradução Contemporânea na Perspec-
tiva da Ecotradutologia) que Estudos da Tradução é uma discipli-
na que apresenta a mesma característica que demais disciplinas
acadêmicas, ou seja, após investigação ontológica do seu objeto,
segue mudanças de paradigma teórico conforme a seguinte ordem:
“Linguística - Estudos Culturais - Sociologia - Antropologia - Ecolo-
gia”. Meng entende que a mudança de paradigma dos Estudos da
Tradução não significa alteração de perspectiva teórica, mas uma
ampliação de seu horizonte de estudos. Esta ampliação pode ser
demonstrada na imagem abaixo:

Ecologia

A partir da perspectiva teórica da “cadeia associativa”, no


âmbito da Ecotradutologia, de “tradução” (ecologia da tradução)
à “natureza” (ecologia da natureza) há características claras de

117
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

interligação, interação e progressão. A sequência lógica de pro-


gressão do campo cognitivo do ser humano e suas interfaces
associativas, traçada a partir desta perspectiva teórica, “Tradução
– Língua – Cultura – Ser Humano e Natureza”, é mais abrangente
e sistemática e, portanto, mais próxima da verdade da tradução,
seja pelo Estudo da Tradução como um todo, seja pelos estudos e
análises dos textos traduzidos.

Da “Lógica ecológica”

Hu (2009; 2010) uma vez resumiu a lógica ecológica da tradu-


ção nas seguintes abordagens: priorizar a totalidade/associação;
enfatizar a dinâmica/equilíbrio; refletir a estética ecológica, cuidar
da “comunidade de tradução”7 e promover a diversidade/univer-
salização.
A abordagem da totalidade/associação consiste em não nos
limitarmos isoladamente a um determinado sub-ecossistema (como
o ecossistema ontológico da tradução) ou a um determinado inte-
resse (como os financiadores das traduções). Do ponto de vista da
lógica ecológica, é preciso considerar a interrelação entre diferentes
ecossistemas e a integridade de cada um.
Já a abordagem da dinâmica/equilíbrio visa a formar um siste-
ma de equilíbrio dinâmico dos ecossistemas interdependentes da
tradução, por meio da observação de efeitos e influências mútuas
entre sujeito e objeto da tradução, bem como entre sujeito e am-
biente ecológico externo.
A abordagem da estética/unificação, por sua vez, busca inces-
santemente, durante os estudos da tradução, e independentemente
da macro ou microesfera, pelo belo e pela “simetria”, “equilíbrio”,
“contraste”, “ordem”, “ritmo”, “melodia”, entre outros elementos
estéticos e princípios ecológicos da estética.
7 Nota das tradutoras: As palavras “共同体” e “群落”, que literalmente significam “corpo
coletivo” e “biocenose” em chinês, foram igualmente traduzidas para “comunidade” em
português. Optamos por essa tradução por ser um termo que pode abranger, minimamente, as
duas concepções (coletividade e associação de organismos com características comuns).

118
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

A “comunidade da tradução” refere-se às “pessoas” envolvidas


nas atividades da tradução, o que anteriormente era conhecido
como “atores” da tradução, incluindo tradutor(a)(s), leitor(a)(s),
autor(a)(s), patrocinador(a)(s), editor(a)(s), crítico(a)(s), etc. O(A)
tradutor(a) é a representação principal desses atores. Cuidar da
“comunidade da tradução” significa, portanto, cuidar dos atores
como um todo, tendo os tradutores como representação geral. Essa
perspectiva nasce do viés de que todo ecossistema da tradução
compreende uma “lógica ecológica” coletiva, interligada, dinâmica
e equilibrada, e também é uma característica e ponto forte para
dar devida importância ao(à) tradutor(a).
Por fim, a abordagem diversidade/universalidade demonstra
os princípios de universalização e oposição da vida do ser humano
com a natureza. O universo é um todo harmônico de diversidade
e universalidade. A “diversidade” reside nas diferenças dos seres,
enquanto a “universalidade” mostra a semelhança compartilhada
ou interligação do coletivo. Seguir essa lógica ecológica e estudar
o ecossistema da tradução é bastante significativo para promover
a diversidade/universalidade tanto na estruturação de um macros-
sistema de Estudos da Tradução e na construção de um sistema
teórico intermediário. Nesse contexto, acredita-se que toda teoria
é universal em alguns aspectos. No entanto, deve haver uma teoria
que seja universal em geral.
É exatamente por meio das cinco lógicas ecológicas (totalidade/
associação; dinâmica/equilíbrio; estética ecológica; “comunidades
de tradução” e diversidade/universalização) que se fundamentam
as macrodiretrizes conceituais para a construção do discurso da
Ecotradutologia. A teoria ecológica de tradução fundamentada
nas lógicas ecológicas apresentadas, por sua vez, reflete um pen-
samento holístico, orgânico, interligado e processual, que, de um
lado, dá importância à combinação e universalização de análises
e sínteses, de outro, enfatiza a influência do ambiente ecológico
no comportamento do(a) tradutor(a). Dá importância, ainda, para
a interligação e coordenação entre “estudos da tradução”, “teorias

119
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

da tradução”, “textos traduzidos”, além de buscar a integração e


unificação do(a) “tradutor(a)”, “texto” e “ambiente”.
As cinco lógicas ecológicas supra listadas exercem um papel
fundamental de orientação na criação do sistema de discurso da
Ecotradutologia. Acredita-se que haverá cada vez mais pesquisas
de teoria e prática da tradução fundamentas na perspectiva da
lógica ecológica.

Da “Tradução como atuação”

Uma das teorias da Ecotradutologia é a “tradução como atu-


ação” cujo significado se manifesta em duas dimensões: 1) O(A)
tradutor(a) tem sua própria motivação para exercer seu ofício (com
foco na motivação subjetiva); 2) Há fins diferentes para as traduções
feitas (com foco no efeito objetivo).
Em relação à primeira dimensão, o(a) tradutor(a) exerce seu
ofício para suprir as necessidades de subsistência e de desejos,
para alcançar reputação e fortuna, para acreditar na ética e moral;
pela crença religiosa; para, ainda, saciar o desejo de compreender
os enigmas do universo. Portanto, do ponto de vista da motiva-
ção subjetiva do(a) tradutor(a), a “tradução como atuação” pode
ser interpretada das seguintes maneiras: 1) atuar para sobreviver,
2) atuar para engrandecer, 3) atuar para se divertir, 4) atuar para
“transferir”8, 5) atuar para competir, etc.
Em relação à segunda dimensão, não se pode negar a gran-
diosidade e mérito dos efeitos da tradução. Do ponto de vista da
“tradução e valores”, os efeitos da tradução se refletem em: 1)
incentivar os diálogos e comunicações, 2) engatilhar a inovação de
línguas, 3) motivar a progressão de cultura, 4) acelerar a revolução
social, 5) promover o desenvolvimento dos Estudos da Tradução,
etc.
8 Nota das tradutoras: É uma figura de linguagem na qual o escritor sujeito transfere/projeta
seus sentimentos e emoções em objetos descritos. A imagem desses objetos já projetados de
sentimentos e emoções do autor sujeito (re)influencia seu estado espiritual. Temos aqui uma
união do sujeito com objeto.

120
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

No artigo intitulado ‘不作为’:译者的一种适应性 (Não-


atuação: a adaptabilidade do(a) tradutor(a)), Jianzhong Xu (2010)
acredita que o(a) tradutor(a), na qualidade de um homem nobre9,
deve saber quando atuar e quando não atuar. Segundo o autor, a
ação do(a) tradutor(a) recusar seu ofício pode ser compreendida a
partir da perspectiva de adaptação e seleção da tradução, pois é
resultado da seleção adaptada e adaptação seletiva.

Do “Ambiente ecológico de tradução”

O conceito de “ambiente ecológico de tradução” apareceu


pela primeira vez no artigo intitulado 翻译适应选择论初探 (Estu-
do preliminar da teoria de adaptação e seleção na tradução) (HU,
2001). As razões pelas quais o autor ter optado por introduzir este
conceito novo e não por reproduzido as ideias de “contexto linguís-
tico” ou “contexto cultural” são duas: 1) o uso do termo ambiente
“ecológico” combina melhor com os conceitos de “adaptação” e
“seleção” da Teoria de Evolução Biológica de Darwin; 2) em ter-
mos de conceitos básicos, escopo e abordagem, existe um hiato
considerável entre “ambiente ecológico de tradução” e contexto
linguístico e cultural.
O contexto linguístico consiste em um ambiente onde há lín-
gua em uso, enquanto o contexto cultural apresenta unicamente
um foco nos estudos culturais ou no emprego de termos especí-
ficos da área. O contexto tem como referência o modo de usar a
língua, não levando em consideração, contudo, a língua em si ou o
uso da língua, enquanto a constituição do “ambiente ecológico de
tradução” compreende língua de partida, texto original e sistema
de língua de chegada, o que, geralmente, consiste em um ambien-
te onde convivem o(a) tradutor(a) e o texto traduzido. Portanto,
consideramos que o conceito “ambiente ecológico de tradução” é
mais abrangente que a ideia do “contexto linguístico” da tradução.

9 Nota das tradutoras: Expressão que se refere a um homem culto e virtuoso.

121
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Na esteira do aprofundamento dos estudos, o significado do


“ambiente ecológico de tradução” ficou ainda mais claro, isto é,
o conceito apresentado consiste em um mundo constituído pelo
texto original, língua de partida e língua de chegada. Em outras
palavras, é um lugar que integra língua, comunicação, cultura, so-
ciedade, bem como a interligação e interação entre autor, leitor,
financiadores, entre outros atores. Assim, os elementos constituti-
vos do “ambiente ecológico de tradução” incluem língua de partida,
texto original e sistema da língua de chegada, onde convivem o(a)
tradutor(a) e o texto traduzido. Além disso, esse ambiente ecoló-
gico não só é um conjunto de elementos diversos com intuito de
condicionar o(a) tradutor(a) para melhorar a adaptação e otimizar
a seleção, mas também constitui a premissa e fundamentação da
adaptação multidimensional e seleção adaptativa do(a) tradutor(a).
(HU, 2003, p. 288; 2004, p. 128).
Nos últimos anos, a definição do “ambiente ecológico de tra-
dução” se tornou ainda mais abrangente, e se refere ao coletivo
formado por texto envolvido, contexto cultural e “comunidade
da tradução”, bem como elementos espirituais e físicos. Aliás, o
ambiente ecológico se classifica ainda em níveis distintos, a saber:
macro, médio e microambientes, além de agregar ambiente físico
e espiritual. Em outras palavras, em termos da tradução, tudo que
estiver fora do(a) tradutor(a) pode ser considerado componente
do ambiente ecológico de tradução; e ao mesmo tempo, todo(a)
tradutor(a) é parte do ambiente ecológico do outro. (HU, 2006Como
o “ambiente ecológico de tradução” é um dos conceitos essenciais
da Ecotradutologia, sua definição e extensão têm sido constante-
mente reajustadas e ampliadas, particularmente nos últimos anos.
Por isso, esse conceito tem atraído a atenção dos estudiosos da
área.
Assim como o famoso ditado inglês “No context, no text” [Sem
contexto, sem texto], o ambiente ecológico de tradução desem-
penha um papel primordial na produção de textos traduzidos.
Em termos do ofício da tradução, desde questões estilísticas até

122
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

problemas de seleção terminológica, tudo terá necessariamente


relação com o ambiente ecológico de tradução. Entretanto, essa
relação pode ser expressa em diferentes formatos (por exemplo,
direta ou indiretamente, física ou espiritualmente) ou níveis (por
exemplo, mais íntimos ou mais distantes), etc. Sendo assim, cabe
dizer que é preciso que sejam ampliados os estudos dirigidos a
esse conceito específico.

Da “Centralidade do(a) tradutor(a)”

Uma das questões fundamentais da teoria da tradução é como


descrever e explicar o papel desempenhado pelo(a) tradutor(a)
no processo tradutório. A relevância exercida pelo(a) tradutor(a)
durante o processo tradutório faz com que essa questão se torne
um dos clássicos assuntos na área de tradução.
A Ecotradutologia estuda a questão da relação entre o(a)
tradutor(a) e o ambiente ecológico de tradução. Nesse sentido,
o(a) tradutor(a) é um indivíduo independente e as atividades tra-
dutórias devem ser concluídas, do início ao fim, com a atuação da
consciência e a liderança do sujeito tradutor. O(A) tradutor(a) se
encontra no cruzamento dos diversos tipos de força entre idio-
mas e culturas diferentes, desempenhando tanto o papel de ator
principal do processo tradutório quanto o da pedra angular que
fundamenta a tradução.
A Ecotradutologia entende que o(a) tradutor(a) é a somatória
de toda “contradição” existente no processo tradutório. A ideia da
“centralidade do(a) tradutor(a)” é colocar o(a) tradutor(a) vivo(a),
emotivo(a) e criativo(a) no meio do palco, fazendo com que a
teoria da tradução se construa com base no(a) tradutor(a) real e
concreto(a). A introdução desta ideia ajuda a estender o escopo
dos Estudos da Tradução no que diz respeito ao(à) tradutor(a),
elevando também o nível da teoria; além de promover autoestima,
autodisciplina e aprimoramento das qualidades do(a) tradutor(a).

123
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

A teoria de tradução pautada na centralidade, controle e su-


jeito do(a) tradutor(a) tem se mostrado cada dia mais relevante,
fazendo com que haja mais estudos dirigidos a esse assunto.

Da “Adaptação/Seleção”

Qual é a relação entre “adaptação” e “seleção”? Antes da emer-


gência das pesquisas sobre Ecotradutologia, havia pouca discussão
sobre a “teoria de adaptação na tradução”, raras ainda eram as pes-
quisas voltadas a esse tema específico, com descrições e elucidações
sistemáticas sobre o assunto. Segundo a teoria de adaptação e sele-
ção na tradução, é preciso que o(a) tradutor(a) adapte e selecione. As
seleções feitas na adaptação são as adaptativas, enquanto as adapta-
ções feitas na seleção são as seletivas. As características específicas
de seleção adaptativa e adaptação seletiva são: 1) “Adaptação”: o(a)
tradutor(a) adapta ao ambiente ecológico de tradução; 2) “Seleção”:
O (A) tradutor(a), na qualidade do ambiente ecológico de tradução,
realiza a seleção de texto traduzido. Nesse sentido, a tradução é
descrita como um processo cíclico de alternância entre adaptação
e seleção do(a) tradutor(a). A lógica interna desse ciclo leva em con-
sideração que: o objetivo da adaptação consiste na sobrevivência
e eficácia, e o meio usado para tal é a otimização de escolhas; já o
princípio de seleção é a da “sobrevivência do mais apto”. Assim, o
padrão de crítica de tradução também é expresso por essa mesma
visão, apresentando a seguinte abordagem: a melhor adaptação é a
seletiva; a melhor seleção é a adaptativa; a melhor tradução é aquela
capaz de “alcançar a maior integração entre adaptação e seleção”
(vide ponto 9 do presente artigo).
Como “adaptação/seleção” é o conceito fundamental dos
estudos da Ecotradutologia, há um número relativamente maior
de pesquisas que adotam essa perspectiva, sob paradigma da
Ecotradutologia. Podemos dizer que, a partir de 2005, os estudos
da tradução fundamentados nessa perspectiva têm aumentado ao
longo dos anos.

124
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Da “Transformação ‘Tridimensional’”

A Ecotradutologia sintetiza os métodos de tradução em uma


transformação “tridimensional”, isto é, à luz do princípio de “adap-
tação multidimensional e seleção adaptativa”, a transformação tri-
dimensional consiste em enfocar a mudança de seleção adaptativa
em três dimensões: a de língua, cultura e comunicação.
A “transformação de seleção adaptativa na dimensão de lín-
gua” consiste em, durante o processo tradutório, o(a) tradutor(a)
transformar a forma da língua conforme a seleção adaptativa. Essa
seleção adaptativa da língua ocorre em diferentes maneiras e níveis.
A “transformação de seleção adaptativa na dimensão de cultura”,
por sua vez, manifesta-se na atenção dedicada à transmissão e
interpretação das conotações culturais das duas línguas durante
o processo tradutório. Esse tipo de transformação de adaptação
e seleção na dimensão cultural diz respeito à diferença existente
na natureza e no conteúdo das culturas de língua de partida e de
chegada, evitando distorção de interpretação do texto original
a partir do viés cultural da língua de chegada, e a atenção do(a)
tradutor(a) para a adaptação enquanto estiver fazendo a transforma-
ção para a língua de chegada. Por fim, esse tipo de “transformação
de seleção adaptativa na dimensão de comunicação” requer que
o(a) tradutor(a) saliente o aspecto comunicativo, além da trans-
formação da informação linguística e transmissão da conotação
cultural, observando, ainda, se a intenção comunicativa do texto
original foi devidamente expressa no texto traduzido.
Sendo assim, é fácil de perceber que a transformação “tridi-
mensional” acontece principalmente no nível das operações de
tradução, que é um foco de pesquisas aplicadas.

Da “Penalidade retroativa”

A “Penalidade retroativa” não se refere a métodos ou formas de


tradução, mas a requisitos ou diretrizes voltados tanto para teoria

125
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

de tradução quanto para comportamento de tradutores. Ela é uma


expressão metafórica que, em vez de “ensinar”, “advertir”, “limitar”
previamente o(a) tradutor, enfatiza que o(a) tradutor(a) é ativo(a) em
todas as etapas do processo da tradução para “manipular/decidir/
organizar/reescrever”. Isto é, tudo é adaptado pelo(a) tradutor(a),
contudo, após cada escolha, ou “a posteriori” (depois da tradução),
são direcionados julgamento e avaliação à versão final da tradução.
Em palavras concretas, a “penalidade retroativa” consiste em fazer
re-seleção e julgamento das escolhas do(a) tradutor(a), à luz dos
princípios de “sobrevivência do mais apto” e “seleção natural”.
Compartilham a mesma ideia a “penalidade retroativa”, “sobre-
vivência do mais apto” e “seleção natural”. A não orientação e não
penalidade antes e durante o processo tradutório são coerentes
com as perspectivas da “centralidade do(a) tradutor(a)” e “controle”
total do(a) tradutor(a) na tradução. Entretanto, depois da tradução
produzida, esta obedece à seleção da “natureza”, eliminando de
diversas maneiras aqueles (tanto o(a) tradutor(a) quanto o texto
traduzido) “não aptos” por meio de cancelamento de publicação,
venda baixa, crítica, entre outras formas. Ou seja, essas formas
de eliminação podem ser consideradas tipos de “penalidade”, a
chamada “penalidade retroativa”, o que é comum nas atividades
de tradução.
Por exemplo, em todos os tipos de concurso promovidos na
área de tradução, embora todos os participantes adaptem, sele-
cionem, decidem e criem de maneira justa e igual, ao entregarem
“a obra traduzida”, o destino fica alheio a seus autores. Em outras
palavras, exceto o primeiro colocado, os demais participantes
sofreram eliminação de grau maior ou menor, isto é, foram “pena-
lizados retroativamente” de maneira diferente.
Shiqiu Liang participou dos preparativos do espetáculo de
Hamlet. Sua tradução também cometeu os mesmos erros que a
de Han Tian, não sendo apropriada para performance no palco
(...) consequentemente, o espetáculo não foi bem-sucedido em

126
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Chongqing, em 1942. Obviamente, deveu-se ao script da peça


parte da responsabilidade do fracasso” (Zhou, 1981, p. 387-389).
Entendemos que ao dizer “não sendo apropriada para performance
no palco” e “não foi bem-sucedido”, além das críticas da tradução
em questão, tudo reflete a característica inapta do texto traduzido
na apresentação da peça, ou seja, é uma forma de “eliminação”
ou “penalidade”.
Não é raro também o caso de substituição de intérprete duran-
te a intepretação. Podemos interpretar que nesse tipo de situação
a falha do(a) intérprete na “adaptação/seleção” desencadeou sua
“eliminação”, ou o comportamento inapropriado do performance
local do(a) intérprete levou à sua “penalidade”.
Podemos perceber que, durante o processo tradutório, o(a)
tradutor(a) é a autoridade suficientemente justificada, podendo
praticar plenamente suas habilidades de adaptação, julgamento,
seleção e criação. Em síntese, o(a) tradutor(a) pode desempenhar
livremente seus pontos fortes para tomar todas e quaisquer de-
cisões. No entanto, somente após a produção do texto traduzido
(obras, casos), o comportamento e desempenho do(a) tradutor(a)
são selecionados e julgados, à luz de dos princípios naturais do
ambiente ecológico de tradução – “sobrevivência dos mais aptos”
e “seleção natural”.
Sobre o mecanismo da “penalidade retroativa” em função da
adaptação e seleção do(a) tradutor(a), parece não haver tanta aten-
ção na academia. É por essa razão que ainda faltam pesquisas na
área sobre tal tema, o que abre possibilidade para estudos futuros.
A análise de casos de prejuízo grave (diplomacia, economia, ciência
e tecnologia, educação, comunicação interpessoal etc.) decorrentes
dos “erros de tradução”, a partir do viés da “penalidade retroativa”,
poderia originar tópicos de pesquisa significativos.

127
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Conclusão

O exposto acima constitui alguns focos e perspectivas teóricas


do primeiro estágio de estudos da Ecotradutologia. Dentre eles,
em termos de macroesfera, temos: paradigma ecológico, lógica
ecológica, ambiente ecológico de tradução, tradução como atuação
e centralidade do(a) tradutor(a); já na microesfera, temos: cadeia
associativa, adaptação/seleção, transformação “tridimensional” e
“penalidade retroativa”. De acordo com o levantamento biblio-
gráfico, as perspectivas teóricas tais como adaptação/seleção,
transformação “tridimensional”, centralidade do(a) tradutor(a),
tradução como atuação, paradigma ecológico e ambiente ecológico
de tradução são mais aceitáveis nos Estudos da Tradução, tendo
maior aplicabilidade nas pesquisas. Em compensação, perspectivas
como lógica ecológica, cadeia associativa e “penalidade retroati-
va”, por sua vez, parece não ter atraído ainda atenção suficiente,
cabendo maior espaço de desenvolvimento de pesquisas futuras.
Paralelamente, além dos focos de pesquisa e perspectivas teóricas
mencionados acima, há poucos artigos ainda que se propõem a
discutir alguns conceitos a serem desenvolvimentos detalhadamen-
te, a saber: “grau de seleção adaptada como um todo”, “sistema
ecológico de tradução”, “comunidade da tradução” e “interligação e
interação interdisciplinar”. Embora o presente trabalho tenha men-
cionado esses conceitos, porém, em função do tamanho restrito
do artigo, eles foram apresentados de forma sucinta e superficial,
apresentando somente conteúdo e conclusão básica. Não foram,
tampouco, discutidos a fundamentação teórica e o processo de
argumentação teórica desses conceitos. Cabe ao leitor interessado
nos temas consultar a bibliografia especializada.

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estrutura da Ecotradutologia a partir dos termos técnicos essenciais).
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128
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

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chinês da Hamlet). Hong Kong: 中文大学出版社 (Editora da Universidade
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129
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

CAPÍTULO V

O OFÍCIO DE TRADUZIR: DE ALGUNS TRADUTORES


NA NARRATIVA ARGENTINA DOS ANOS NOVENTA E
PRIMEIRA DÉCADA DO SÉCULO XXI1

Gersende Camenen
Traduzido por Juliana Aparecida Gimenes e Thaís Marques Soranzo

Resumo: Este artigo analisa a figura do tradutor como artesão em


três romances argentinos da última década do século XX e a pri-
meira do seguinte. Figura tradicional na cultura latino-americana,
o tradutor é caracterizado aqui pela sua precariedade laboral e
institucional e sua correlativa aproximação material da atividade
de traduzir. A representação ficcional do tradutor como Homo faber
coincide, aliás, com o discurso dos tradutores reais e as últimas
orientações da teoria sobre a tradução. Desde a ficção, o pensa-
mento reflexivo e a teoria, a tradução lê a literatura desde sua
especificidade material: é texto, linguagem e estilo. Figura algo
anacrônica, o tradutor artesanal aparece como um dos artífices da
autonomia crítica da literatura.

Palavras-chave: Pedro Mairal; romance argentino; materialidade;


tradutor personagem; tradução

1 Publicado originalmente em Cuadernos de Literatura, 2016, v. 20, n. 40, p. 449-464, sob o


título El oficio de traducir: de algunos traductores en la narrativa argentina de los años noventa
y primera década del siglo XXI. Disponível em: <http://revistas.javeriana.edu.co/index.php/
cualit/article/viewFile/17272/14048>.

131
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Em El Año del desierto2, segundo romance de Pedro Mairal,


publicado em 2005, uma mulher conta que mora em algum lugar
da Europa onde fala uma língua que não é sua língua materna.
Trabalha em uma biblioteca e em seu tempo livre desdobra velhos
mapas nos quais ainda aparece o país em que nasceu. Percorre com
o dedo as ruas desaparecidas na tentativa impossível de transitar
por elas de novo. O leitor descobre, então, que ali onde existia um
país só resta uma mulher. Do seu refúgio europeu, María Valdés
Neylán relembra um ano de sua vida e a história de um fantasma:
Argentina. Nos trezentos e sessenta e cinco dias evocados por Ma-
ría condensam-se duzentos anos de história contados em sentido
inverso, desde a crise de 2001 até o princípio do deserto, quando
o vazio do território era a maior ameaça que cercava o argentino.
A história nacional é aqui o relato de um fracasso: uma inexorável
marcha a ré em que o passado torna-se o único futuro possível.
O destino de María corre em paralelo ao de seu país. Enquan-
to a Argentina retrocede até desaparecer, ela passa por todos os
avatares da mulher argentina, desde os mais ancestrais até os mais
contemporâneos. No decorrer do ano, a secretária de um arranha-
céu de vidro e aço é enfermeira, pioneira da colonização e presa
dos braucos3. Esta mulher camaleônica deve sua sobrevivência a
uma capacidade que vai desenvolvendo à medida que o deserto
avança até invadir a cidade: traduzir. O inglês das canções herda-
das de sua mãe irlandesa faz com que ela consiga os favores dos
marinheiros escoceses nos prostíbulos do porto; nas extensões da
pampa, seu bom ouvido e seus dotes linguísticos salvam-na da ira
dos índios e de uma morte certeira. María deve sua salvação a seu
2 Nota das tradutoras: Dos romances citados neste artigo, apenas El pasado (O passado) tem
tradução no Brasil [cf. PAULS, Alan. O Passado. Trad. Josely Vianna Baptista. São Paulo:
Cosac Naify, 2007]. No entanto, as traduções de todos os trechos dos romances são nossas.
Ressaltamos ainda que as páginas indicadas referem-se à numeração dos originais.
3 Nota das tradutoras: Tribo indígena que também apresenta traços de “torcidas organizadas”
(BERTAZZA, J. P. A la intemperie. Página 12, Argentina, 2006. Disponível em: <https://www.
pagina12.com.ar/diario/suplementos/libros/10-1904-2006-01-09.html>, acesso em 26 de mar.
de 2018). Também são descritos como “bárbaros sem redenção” (DURÁN, M. A. S. El mito de
la cautiva: desplazamientos y proyecciones en la literatura contemporánea argentina. Cuadernos
Lirico, 2014. Disponível em: <http://journals.openedition.org/lirico/1708?lang=fr>, acesso em
26 de mar. de 2016).

132
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

ofício, porque traduzir é, antes de tudo, ressemantizar as palavras


de maneira constante para adaptar-se a um mundo ominoso de
objetos reciclados (o chassis de um ônibus portenho transformado
em uma cabana de um chefe huelche4, as banheiras arrancadas das
casas durante as invasões indígenas transformadas em alambique
para fermentar a coca). É também o último refúgio da linguagem
contra o peso morto dos objetos (bicicletas, tacos de golfe, teclados
elétricos) surrupiados, incongruentes no silêncio da ameaça. Por
isso María sente o fim chegar quando cessa a possibilidade de tra-
duzir: “Tinham espantado de mim a pomba profunda da linguagem.
Só via coisas e ouvia murmúrios” (MAIRAL, 2010, p. 304). Por isso
também contar, como faz depois, estando na Europa e recuperando
a língua materna, é também traduzir, desintumescer o castelhano
sepultado debaixo do inglês, as palavras debaixo das coisas:

Fiquei cinco anos em silêncio, até que as palavras


voltaram, primeiro em inglês, aos poucos, depois em
castelhano, com tudo, em frases e tons que me trazem
de volta caras e diálogos. Às vezes tenho que me fe-
char aqui para falar sem que me vejam, sem que me
ouçam, tenho que dizer frases que havia perdido e que
agora reaparecem e me ajudam a cobrir a pastagem,
a sobrepor a luz de minha língua materna sobre esta
luz traduzida em que respiro cada dia. É como voltar
sem me mexer, voltar em castelhano, entrar em casa de
novo. Isso não se desfez, não se perdeu; o deserto não
comeu minha língua. Eles estão comigo se os nomeio,
inclusive as Marías que eu fui, as que tive que ser, que
consegui ser, que pude ser (Ibidem, p. 8).

María Valdés Neylán, a sobrevivente romântica, pertence a


um novo grêmio da narrativa argentina: os personagens traduto-
res. Junto com Rímini (El pasado de Alan Pauls, 2003), O’Jaral (El
testamento de O’Jaral de Marcelo Cohen, 1995), Ricardo Zevi (El

4 Nota das tradutoras: Palavra de origem mapuche. O termo pode ser usado como substantivo
próprio, como sobrenome.

133
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

traductor de Salvador Benesdra, 1998) e muitos mais5, María traça


os contornos do que Martín Gaspar, em um ensaio recente, cha-
ma de uma condição tradutora. Gaspar postula que a multiplicação
destes protagonistas revela um novo momento em uma crítica da
tradução especificamente latino-americana. Embora o tradutor
sempre tenha estado ali (de María-Malintzin e Felipillo a Pierre
Menard e Aureliano Babilonia), era essencialmente uma figura. O
tradutor versado de Samiento, o aclimatador de Darío, o intérprete
irreverente de Borges eram o pivô de uma reflexão sobre a tradu-
ção como operação linguística ou literária própria de uma cultura
definida como “em tradução” desde suas origens. Seus sucessores
contemporâneos, escreve Gaspar, encarnam uma atividade. Os es-
critores contemporâneos usam a negociação entre idiomas como
um motivo de indagação psicológica e nem tanto como um tema
cultural, o que explicaria que o tradutor tenha deixado seu lugar
relativamente secundário, teórico ou especulativo, e seja hoje pro-
tagonista de ficções. Em suma, a tradução deu lugar gradualmente
ao tradutor, a figura ao personagem, o plano alegórico ao plano
pessoal e íntimo (GASPAR, 2014, p. 16).
A promoção do tradutor ao estatuto de personagem acompa-
nha uma certa maneira de conceber a tradução. Esta deixa de ser
uma virtude da figura do tradutor e passa a ser uma necessidade
do personagem do tradutor, uma realidade que o vincula, como
María Valdés Neylán, com o mundo material, os objetos e, sobre-
tudo, com o dinheiro porque, como diz Marcelo Cohen, escritor e
tradutor ,“cada frase é uma pequena fração do dinheiro que é ne-
cessário para viver” (COHEN, 2014, contracapa). Nos três romances
mencionados, os personagens estão destituídos de tudo o que não
tenha a ver com a tradução para se dedicar exclusivamente a essa
tarefa. Na nudez material e moral na qual se encontram, a tradução
torna-se uma atividade física e mental que vem para preencher um
5 Gaspar menciona, entre outros, La traducción de Pablo Santis (1998); El intérprete, de Néstor
Ponce (1998); Budapeste, de Chico Buarque (2003); Historia del Abasto, de Mariano Siskind
(2007); Historia del pelo, de Alan Pauls (2009); El viajero del siglo, de Andrés Neuman (2010),
e as poéticas de César Aira e Mario Bellatin “saturadas de operações de tradução” (2014, p.
12).

134
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

vazio, um trabalho que ocupa tanto a mente como as mãos e, às


vezes, o corpo inteiro.
Nesse sentido, a virada subjetiva que Martín Gaspar adverte
no uso da tradução como tema narrativo é também uma virada
material. A “condição” do tradutor que veremos descrita na análise
dos três romances é fruto de uma conjuntura de crise na qual a
realidade mais material surgiu de maneira dramática e manifesta-
se na concepção da literatura como aproximação da matéria da
linguagem. É esta última dimensão que nos propomos a analisar
nos retratos dos personagens-tradutores esboçados pelos três ro-
mances mencionados. Os tradutores dessas ficções traçam a figura
do tradutor como artesão maníaco que beira a enfermidade mental,
como trabalhador precário real e simbolicamente.
Uma breve observação do discurso do tradutor parece con-
firmar algumas orientações de sua representação ficcional nos
romances. A análise da recente recompilação de ensaios de Marcelo
Cohen, Música prosaica (cuatro piezas sobre traducción), permitirá de-
linear, em um segundo momento, duas orientações em um discurso
paradigmático da postura de muitos tradutores contemporâneos.
Cohen, tradutor argentino que começou sua carreira na Espanha
nos anos setenta, insiste nas circunstâncias materiais em que se
traduz. A tradução aparece como uma atividade situada e frágil,
submetida às evoluções do mercado do livro. A este primeiro traço,
chamativo por sua ocorrência, parece corresponder uma reflexão
sobre a prática da tradução como trabalho da matéria. Nas mãos do
tradutor, a literatura é texto e o texto é montagem de sons, ritmos
e formas que se trabalham com precisão, lentidão e repetição.
Ficcional ou real, o tradutor executa um ofício, com suas regras
e sua ética. Em suas mãos, a literatura é questão de técnica, e a
escrita, domínio da matéria da linguagem; de maneira que o tra-
dutor, este duplo tradicional do escritor, pensado aqui como Homo
faber, poderia apontar uma orientação nova da prática da escrita e
da recepção da literatura. A pergunta é a seguinte: observa-se na

135
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

literatura um movimento similar ao da arte contemporânea em que


palavras como movimento, técnica ou savoir-faire, que haviam sido
tabus durante muito tempo voltam, e com elas uma concepção da
arte como execução (AZIMI, 2015, p. 2)? E, se for o caso, como
interpretar essa evolução?
Ao definir sua atividade como “trabalho” ou “tarefa”, o tradutor
reintroduz a concepção da escrita como manuseio da materialidade
da linguagem e, ao fazê-lo, parece deslocar a noção vanguardista
do procedimento. De mãos dadas com a “tarefa”, as noções de
“estilo”, “boa escrita” ou “métier” voltam com força, reprovadas
por uma modernidade literária preocupada com eliminar restos de
um condenável formalismo do século XIX. É o tradutor o agente
de um neoformalismo? Uma figura anacrônica de escritor maldito
ou o sintoma de uma nova oscilação no movimento pendular da
história da literatura? Sua literatura material seria a outra face de
uma literatura conceptual?
Por outra parte, que sentido dar ao elogio da lentidão e da
ética artesanal que sua figura acarreta? Ilustram uma forma de
ludismo contemporâneo, uma reação nostálgica de recuo diante
de fenômenos econômicos e sociais vividos como uma ameaça,
a saber, por um lado, a reorganização neoliberal do mercado do
livro sofrida com particular intensidade na Argentina; por outro,
as mutações tecnológicas que mudam a fabricação e a distribuição
e, em últimas instâncias, os valores da literatura? Ou a figura do
tradutor como artesão seria, ao contrário, parte de uma reflexão
mais ampla sobre o lugar do indivíduo no trabalho? E nesse caso,
encarnaria uma esperança humanista nas possibilidades futuras do
Homo faber (SENNETT, 2009, p. 8)?
É nossa hipótese que, na ficção e além dela, o tradutor, como
aquele que pensa a literatura a partir da technè, nos convidará
a apresentar em novos termos uma série de categorias críticas
que concernem tanto à própria evolução da literatura como seus
poderes.

136
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Tradutores de papel e osso

Os personagens tradutores dos três romances mencionados


nos ensinam que não se pode pensar a tradução fora de um con-
texto. Nas tramas, são as circunstâncias - marcadas pelas crises,
econômica e psicológica - que levam - encurralam - os personagens
à tradução. Esta se vive como uma tarefa concreta e uma maneira
de interpretar a realidade que, ao beirar com a loucura, define um
estado de exceção e, finalmente, determina um uso materialista
da linguagem.

Encurralados

Nos três romances, argentinos e escritos entre 1995 e 2005,


chama a atenção o peso que exercem as condições materiais na
atividade do tradutor. A situação histórica em que se movem os
personagens tradutores e em que os romances foram escritos é
decisiva: o auge neoliberal e a crise econômica definem a tradução
como uma atividade encarnada e dramaticamente situada. Não é
insignificante que seja um momento de crise em que a economia
ocupa todo o cenário, em um clima generalizado de saque e cor-
rupção, quando a tradução passa a ser uma ocupação material.
Em El traductor (1998), romance realista ambientado nos anos
noventa, Ricardo Zevi, tradutor trotskista e duplo do próprio Be-
nesdra, debate-se em vão contra a mutação neoliberal de Turba,
antigo bastião da edição progressista portenha. O’Jaral, o tradutor
dissidente da distopia de Marcelo Cohen (El testamento de O’Jaral,
1995), vive afastado da sociedade do espetáculo e prepara-se para
uma revelação que nunca chegará. María, a tradutora à intempérie
(nome dado de maneira recorrente ao deserto que ameaça a cidade)
de El año del desierto (2005), vive a involução histórica da Argentina
como uma progressiva e sistemática demolição material.
A ameaça econômica torna evidente a frágil condição do tra-
dutor como trabalhador. O inseguro equilíbrio material de O’Jaral

137
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

depende dos encargos de seu editor, especializado na publicação


pirata de best sellers descerebrados. Depois de lutar de modo infru-
tífero contra a direção de Turba com as receitas de um sindicalismo
esgotado, Ricardo Zevi termina como taxista. Rímini, o tradutor
de um dramalhão sentimental de Alan Pauls, é o que melhor ex-
põe, metaforicamente, essa engrenagem econômica da tradução.
Sofía, sua ex-namorada, persegue-o desde que se separaram e a
caçada em que se lançou esta harpia do amor materializa-se em
sua neurótica insistência para que dividam entre si as fotos de sua
antiga vida de casal. Rímini sente-se em dívida com seu passado
sentimental. Encontra sua única maneira de saldar as contas com
Sofía na prática frenética e mecânica da tradução, como atividade
entregue à velocidade da produção. “Traduzia três livros ao mes-
mo tempo, para três editoriais diferentes, a um ritmo de quarenta
páginas diárias. Já não se afogava: era um operário feliz” (PAULS,
2003, p. 84). O outrora “ourives” de “lealdade laboriosa” ao amor
de Sofía é agora um “operário feliz”, pura quantificação, vertigem
e produção alienada (Ibidem, p. 106). O tempo não passa invisível,
torna-se matéria divisível, cronometrada em livros. “O livro tinha
princípio e fim [...] e cada frase traduzida, cada hora que gastava
traduzindo frases, ia abreviando inexoravelmente a distância que
o separava do ponto final. Dez, nove, oito, sete, seis… Tinha que
terminar” (Ibidem, p. 108).
Com máxima ironia, Pauls sublinha o caráter híbrido da tarefa
do tradutor, entre trabalho intelectual e atividade remunerada. O
tradutor é aquele que experimenta o texto como objeto e mer-
cadoria. E este último aspecto, para além do tradutor, apaga de
um só golpe toda pretensão a uma autonomia da literatura. Final-
mente, o romance sentimental de Pauls evidencia as engrenagens
econômicas da tradução que os outros dois romances, o realista
de Benesdra e o romance de antecipação de Cohen, articulam em
um discurso explicitamente político.
Os três romances, com seus heróis, participam das normas
e práticas culturais que surgiram no clima econômico e social da

138
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Argentina dos anos noventa e, sobretudo, na primeira década do


século XXI, metaforizado por Pedro Mairal em seu romance, e que
destacavam as experiências materiais, por exemplo, no setor do
livro que viu a eclosão de editoras artesanais como a emblemática
Eloísa Cartonera. Frutos da escassez de meios, essas práticas de
braconnage culturel (DE CERTEAU, 1980, p. 53) desenvolveram uma
ética da difusão da literatura - aproximar o leitor do livro, encurtar
as distâncias materiais e simbólicas impostas pelos grandes gru-
pos editoriais - e uma estética “pobre” (EPPLIN, 2015, p. 8). Não é
exagero pensar que os tradutores dos romances são atores dessa
mutação estética e política que marcou a cultura argentina das
décadas de final e começo de século.

Freaks

Para além do implacável rigor econômico, os sujeitos desses


romances se veem impactados pelo mundo com uma intensidade
incômoda. Nesse contexto de extrema fragilidade, a tradução é
uma atividade que se impõe aos personagens e deixa sua impressão
em sua personalidade. Existe, nesses romances, uma verdadeira
caracterologia do tradutor, desse singular grêmio ou, como o defi-
nia Valéry Larbaud, o escritor e tradutor francês, amigo de Ricardo
Güiraldes e um dos introdutores da literatura latino-americana na
França de entre guerras, desta gent irritable (LARBAUD, 1997, p.
100). Minucioso, exaustivo, obsessivo, maníaco, o tradutor é um
ser estranho, um ser único que vive em grande medida isolado
do mundo social, um freak à beira do caso psiquiátrico. Sua sen-
sibilidade extremada faz com que ele se pareça como o escritor
hiperestésico do modernismo. Não é casual, ambos compartilham
uma mesma indisposição com a sociedade burguesa, agravado
quiçás no caso do tradutor pela evolução histórica.
Na exageração poética do retrato do tradutor radica, no en-
tanto, certa verdade da ética da profissão, um saber esvaziar-se de
si mesmo, fingir invisível. Essa exigência se dá nos romances como

139
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

um apagar-se para entregar-se vertiginosamente a uma atividade


única. Nos romances, esse processo se concreta em duas dispo-
sições mentais simétricas que são duas maneiras de lidar com os
objetos: o asceta e o viciado.
O’Jaral, o tradutor ermitão do romance de Marcelo Cohen, vive
à margem da agonizante metrópole fictícia de Talecuona, onde o
papel outrora protagonista do Estado foi eclipsado por “Consór-
cios”. O passado foi apagado e substituído pela implantação de
um “vício do futuro”, ou seja, na fé ilimitada em um progresso que
emergirá do consumo frenético. O’Jaral espera uma misteriosa re-
velação e, para recebê-la, prepara-se mental e corporalmente. Em
sua austera rotina, a dieta monástica e a observação escrupulosa
de um estrito programa de exercícios físicos e aprendizagens enci-
clopédicas completam-se com a prática diária da tradução. Traduz
por encomenda “sagas cósmicas, folhetins de enredos de vizinhos,
catálogos de gemas e catálogos de móveis [...] uma enciclopédia
de economia doméstica, manuais de cozinha oriental ou de inicia-
ção às finanças, biografia de banqueiros e cantores de ópera e de
assassinos regenerados” (COHEN, 1995, p. 55). O tradutor nutre
seu ascetismo militante com a abundante e repetitiva matéria da
“democracia concentracionária”, com o discurso coisificado da
sociedade do espetáculo. Seu exercício mecânico da tradução é
uma depuração ideológica.
Ao mesmo tempo que Rímini engaja-se na tradução compul-
siva, começa a consumir cocaína de maneira frenética. Traduz,
droga-se, masturba-se. Assim vai formando-se um círculo fechado
e introspectivo sob o signo do vício. Rímini é quem estabelece as
equivalências: droga-se para traduzir e traduzir é sua droga. “A dro-
ga, a verdadeira droga, era traduzir: a verdadeira sujeição, o anseio,
a promessa” (PAULS, 2003, p. 106). O personagem está submetido a
uma lei que não pode cumprir e que, portanto, repete-se até o final
do romance. É que busca na tradução algo impossível: libertar-se
de Sofía, do passado. No consumo, de livros e de drogas, busca
conjurar o espectro de Sofía, a mulher zumbi (título inicial de El

140
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

pasado) que o persegue arrastando o peso de um passado comum


preso em uma série de objetos-chave, metonímicos, como a caixa
de fotos que sobreviveu à inundação de uma casa, ou alegóricos,
como o quadro do pintor inglês Riltse, Spectres’Portrait, que cifra a
verdade romântica de sua própria história (“o amor é uma torrente
contínua” [Ibidem, p. 46]). Para Rímini, o exercício mecânico da
tradução é uma desintoxicação sentimental.

O louco da analogia

Lançado ao trabalho de tradução por um mundo que irrompe,


o tradutor desenvolve uma maneira singular de relacionar distintos
planos da realidade. Os mecanismos da tradução são a tal ponto
interiorizados que determinam o modo pelo qual os personagens
configuram seu mundo. O tradutor é aquele que, por deformação
profissional, conecta os distintos planos da realidade, material e
concreta, intelectual e espiritual. A analogia é sua arma, ou melhor,
seu habitus mental, já que as operações de seu trabalho, ao se in-
ternalizarem, definem uma disposição, um temperamento (GASPAR,
2014, p. 203). Ante um mundo que impõe sua violência econômica
ou sentimental, o tradutor não busca uma resposta na reprodução
nem na abstração, mas sim na comparação, a aproximação entre
realidades distantes. O impulso do tradutor não é mimético nem
alegórico, mas analógico: o impele a buscar coordenadas e equi-
valências.
Todo o romance de Pauls pode ser lido por uma chave ana-
lógica. Para escapar de seu passado amoroso, Rímini precisa tra-
duzir: “Rímini, o tradutor, era quem tinha que traduzir para pagar
a dívida” (PAULS, 2003, p. 107). No romance, entretanto, a dívida
não é quitada e vai se transformando até o final. A solução está em
assumir a eterna recapitalização da dívida sentimental: a caixa de
fotos do casal se transforma no quadro de Riltse, e ambos objetos
se reúnem na imagem final de Rímini e Sofía, unidos em um mor-
tal e eterno abraço (“Seguiam dessangrando-se”, [Ibidem, p. 551]),

141
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

verdadeiro tableau vivant (GASPAR, 2014, p. 110), no qual culmina


a rede de analogias do romance.
A analogia também é uma motivação psicológica explícita nos
romances políticos de Benesdra e Cohen. O extenso romance do
primeiro começa assim: “Me convenci, afinal, de que talvez fosse
verdade que as ideologias estão mortas; me deliciei ao ver, através
da janela do bar, como o sol quente da primavera de Buenos Aires
começava a fundir todas as convicções do inverno” (BENESDRA,
2012, p. 17). Zevi estabelece uma equivalência entre a evolução
ideológica mundial e o clima de Buenos Aires. Comparar estado de
ânimo e paisagem é um procedimento clássico do realismo, her-
dado do romantismo. Aqui, no entanto, aparece como uma marca
subjetiva, um traço do caráter, uma constância na maneira de viver
os acontecimentos e interpretá-los. Zevi, o tradutor erudito, des-
prezado em uma editora em plena reestruturação neoliberal, quer
encontrar “pontes” (Ibidem, p. 453) entre idiomas e conhecimentos,
relações possíveis entre o laboral (a situação na editora), o público
(a situação do país), o histórico (após a queda do Muro de Berlim)
e o pessoal (sua difícil relação sentimental com Romina) e um texto
de ultradireita que está traduzindo. O incipit se apresenta assim:

Suspeitava pela primeira vez de que podia existir um


prazer na vertigem de flutuar nesse caldo uniforme, o
qual, há tempos, havia se apoderado de todos os es-
paços do planeta. O sol derramava sua elegância sobre
todos os objetos dessa esquina, mas eu sentia que,
por todas as partes, escoava uma noite acinzentada de
gatos universalmente pardos, uma apoteose da indife-
renciação que, pela primeira vez, não me despertava
medo. (Ibidem, p. 17)

Para o melancólico Zevi, produzir sentido em um mundo


atrelado à indiferenciação é uma operação perceptiva: devolver
sentido a um mundo em perdição é distinguir outra vez os con-
tornos dos objetos.

142
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

O’Jaral, o tradutor do romance futurista de Cohen, também


sente o impulso à analogia:

Que fique claro. Na hora de ganhar o pão, o tradutor


pode ser um mercenário, mas em sua essência é um
intérprete universal. Traduz tanto entre idiomas quan-
to entre um sistema simbólico a outro. O tradutor de
verdade é um revelador de mistérios. (COHEN, 1995,
p. 111)

O’Jaral, o “mercenário do mínimo” (GASPAR, 2014, p. 207),


revela, no entanto, a ambição totalizante do tradutor como in-
térprete, figura recorrente do discurso tradutológico. A tradução
simbolizadora é uma prática em tensão entre duas maneiras de
experimentar o mundo, duas escalas da realidade (a cotidiana
e tangível, a intelectual e espiritual, a nutrição mundana e a
mística). A busca de sentido verbalizada pelo melancólico Zeli
manifesta-se na prosa de Cohen no plano estilístico. Metáfo-
ras, efeitos de sinestesia e, sobretudo, zeugmas (o tropo que
domina sua prosa6) criam uma escrita densa, na qual abundam
correspondências entre matéria e ideia, objeto e sentimento.
Com Cohen, a analogia não apenas apodera-se da trama, mas
também insere-se no estilo.
O tradutor é, então, aquele que, ao perceber as coordenadas
entre matéria e ideia, quer entrelaçar mundos; mas seu gesto
hermenêutico depende de fenômenos de percepção aleatórios
– Zevi procura reestabelecer a profundidade do mundo através
da “estereoscopia” (BENESDRA, 2012, p. 456) – ou artificiais –
a lucidez oferecida pela droga –, de maneira que este grande
simbolizador é um ser frágil, sempre à beira do desabamento
ou do silêncio melancólico. Rímini é afetado por um “precoce

6 Alguns exemplos desta figura que caracteriza o estilo do romance de Cohen: “O ar carregado
de fumaça de chumbo e mensagens” (p. 57), “soltar o pranto pelos olhos e caralhos pela boca”
(p. 74), “Goitía deixou livre a O’Jaral sua biblioteca, sua mesa, os segredos de seu casamento,
as fixações de sua mente socialista, as dúvidas de sua consciência e o caminho até um cargo
administrativo mais louvável”(p. 76).

143
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Alzheimer linguístico” (PAULS, 2003, p. 282), que o faz tropeçar


nas palavras mais simples – enroscou na palavra valise em plena
interpretação de uma memorável conferência de Derrida em
Buenos Aires –, O’Jaral enreda-se misteriosamente na linguagem
e esquece o equivalente em espanhol cocodrilo do inglês alligator
(COHEN, 1995, p. 205) e Zevi renunciará definitivamente a sua
atividade.
O fracasso do tradutor procede da indigência das suas ferra-
mentas hermenêuticas: a analogia é o parente pobre da interpre-
tação, a arma de quem não tem acesso à causalidade explicativa.
Visceralmente predispostos à analogia (GASPAR, 2014, p. 204),
os tradutores desses romances são incapazes de recompor claras
linhas causais em sua experiência; em vez disso, buscam estrutu-
ras afins entre realidades distantes. Nesses romances que relatam
tentativas fracassadas, traduzir tornou-se o único modo de inteli-
gibilidade disponível da realidade.

Matéria vs. Símbolo

Ambígua, inconclusa, a leitura que o tradutor faz da sua


experiência deriva de uma concepção do seu próprio instrumento:
para ele, a linguagem é matéria antes de ser signo. Os tropeços
dos personagens tradutores indicam de fato a singular relação
que os vincula à linguagem. O ofício desenvolve uma consciência
artesanal que aguça o olhar e afina o ouvido, mas que se eclipsa
por alguns momentos, e essa falha técnica é sua vulnerabilidade.
O tradutor é, definitivamente, um artesão: a matéria é sua exce-
lência e sua debilidade. As palavras são uma matéria com suas
qualidades sensíveis e que aprimora a percepção do mundo; mas
também oferece sua resistência e pode obscurecer a compreensão
do mundo. O tradutor encontra-se, então, no meio do caminho
entre o copista e o comentarista, entre o objeto (livro, página,
papel e letra) e o discurso. O tradutor é um hermeneuta que não
se esqueceu de sua condição artesanal e de que sua primeira

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Diversas faces da tradução na contemporaneidade

função – chave do seu trabalho – é saber “retirar a fuligem da


língua” (COHEN, 2014, p. 72)7.
Essa dupla condição torna-o sensível à manipulação ideológi-
ca da linguagem. A figura do artesão é, naturalmente, política. O
empirismo dessa figura pré-moderna é a base e a justificativa de
uma crítica aguda da linguagem “abstrata”, esvaziada de conteúdos
de poder. O’Jaral deturpa levemente a prosa dos best sellers para
ressaltar a doxa e a mediocridade que emanam do texto fonte.
Sua tradução cafona evidencia os estereótipos dos folhetins para
“desnaturalizar”8 esses vetores da ideologia e dirigir-se a um lei-
tor crítico (LOGIE, 2011, p. 183). Suas soluções irônicas revelam
um deleite com a matéria linguística (a frase original “Paul suava”
transforma-se em “Paul tinha a testa perolada de suor”) (COHEN,
1995, p. 67), por meio do qual pretende quebrar a capa petrificada
da linguagem.
A sabotagem de O’Jaral consiste na consciência linguística que
o impulsiona, por outro lado, a encontrar uma coerência funda-
mental entre as palavras e as coisas. O tradutor é o produtor de
verdadeiros símbolos, já que ele não se esquece de que o símbolo
tem um pé na matéria9. O tradutor é aquele que reúne as duas par-
tes do súmbulon (σύμβολον, “objeto cortado em dois”), sabe que a
simbolização é um processo dialético que obriga a pular a barreira
entre matéria e símbolo, mas que é sempre possível voltar atrás.
Armado com esse saber técnico, O’Jaral, o tradutor dissidente, luta
tanto contra o “vômito de símbolos” (Ibidem, p. 137), as abstrações
7 O tradutor percebe o mundo através de seu ofício. A deformação profissional o faz ver o mundo
por meio de categorias gramaticais, usos verbais e seleções lexicais. Assim, quando lhe acontece
algo, O’Jaral se pergunta qual seria o verbo “que um bom tradutor usaria para aquela situação”
(COHEN, 1995, p. 206). A interpretação psicológica é a solução de um problema de tradução:
“Calisandru começava a se tornar uma frase complicada, daquelas que os maus tradutores
deixavam para o final” (Ibidem, p. 199).
8 Em Mitologias (1957), Roland Barthes constatou que os “mitos” da “ideologia burguesa”
são construções históricas que se apresentam como atemporais e naturais. Esse essencialismo
favorece a confusão entre história e natureza e explica o porquê de o mito ser entendido como
uma linguagem inocente e despolitizada. Mitologias se apresenta como um ensaio de “desna-
turalização” desses mitos.
9 Em O Cru e o Cozido (1964), Lévi-Strauss demonstrou que o valor simbólico é inseparável da
consciência da condição material do objeto. Seus criadores elaboraram ambas as dimensões ao
mesmo tempo.

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Diversas faces da tradução na contemporaneidade

falsas, as palavras ocas desmaterializadas da doxa quanto contra “o


crescimento transbordante da realidade material” (Ibidem, p. 107),
que são as duas caras de um mesmo fenômeno10.
Assim, a concepção da linguagem como matéria manifesta-se
não apenas na trama dos romances, mas também em sua compo-
sição e no estilo dos autores: é uma ideia performativa. A exten-
são do relato ou a densidade da escrita experimentam-se como
matérias que colocam a leitura à prova. El traductor e El pasado
são, para começar, romances com mais de seiscentas páginas. Sua
extensão é um primeiro desafio para o equilíbrio do relato. A oni-
presença de discursos ideológicos no primeiro e a proliferação de
linhas narrativas e ensaísticas no segundo ameaçam a legibilidade
do texto. O hipertrofiado romance de Pauls é, como a história de
Sofía e Rímini, uma “abundância sentimental” (PAULS, 2003, p. 65),
um “catálogo do mundo e sua caricatura” (SARLO, 2007, p. 446)
que, ademais, exerce a minuciosidade do detalhe. Esse romance é
um folhetim míope, de sintaxe hiperanalítica e tortuosa, com um
defeito do discurso tradutológico – apresentado em sua época por
São Jerônimo –, a obscura diligentia11: a ambição de esclarecer que,
no final, acaba por obscurecer (GASPAR, 2014, p. 102).
No caso de Cohen, é o seu estilo sofisticado que trava o
andamento do relato. El testamento de O’Jaral é um romance de
leitura lenta em franca polêmica com as demandas do mercado,
tematizadas na trama. A densidade estilística é aqui programática,
e o trabalho manual militante de O’Jaral é o fruto da reflexão e da
prática de Cohen como tradutor.

10 No romance de Cohen, o arquivista Néstor, que coleciona manuscritos e reúne histórias pes-
soais em sua “fábrica de comunicação complexa” (COHEN, 1995, p. 119), é outro agente da
desnaturalização dos mitos da sociedade do espetáculo. Ambos jogam a matéria (manuscritos
e palavras-objeto) contra as abstrações da doxa.
11 Na célebre Epistula LVII. Ad Pammachium de Optimo Genere Interpretandi, o patrono dos
tradutores formulou de forma mais evidente o dilema enfrentado pelo tradutor, dividido entre
a tentação de esclarecer e o risco de obscurecer seu próprio texto. Na realidade, São Jerônimo
retoma uma polêmica apresentada por Terêncio no prólogo de sua primeira comédia, Andria.
Ao defender sua adaptação da comédia grega de Menandro em relação à de seus rivais, o dra-
maturgo latino defende uma poética da tradução regida pela neclegentia (entendida de maneira
positiva como “liberdade criativa”) em detrimento da tradução guiada pela obscura diligentia,
a exatidão, a virtude dos puristas que, ao tornar-se excessiva, ofusca o sentido do texto.

146
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Miséria e esplendor do tradutor

Os tradutores de livros impressos dos três romances eviden-


ciam uma evolução mais ampla que poderia se definir como o fim,
já anunciado, da “invisibilidade” do tradutor real (VENUTI, 1995).
Em 1937, Ortega y Gasset registrava que “no campo intelectual, não
há tarefa mais humilde. No entanto, acaba sendo extraordinária”
(1994, p. 434). Como um eco a essa reivindicação, o discurso tra-
dutológico tem se interessado cada vez mais pelo tradutor como
sujeito que deixa sua marca no texto, como um ator da produção
do livro e como crítico que possa melhor falar de tradução e, talvez,
de literatura, uma vez que a conhece como técnico. Chama atenção
a importância das metáforas materiais no discurso tradutológico.
Quando se pensa na atividade de tradução, abundam comparações
com o artesanato ou outras artes, nas quais as formas materiais
parecem mais decisivas que na literatura. Assim, para o tradutor,
a literatura é matéria e ritmo (MESCHONNIC, 1999), isto é, como
escreve Cohen, para ele, “existem livros que concentram e livros
de expansão incessante” (2014, p. 57). O texto original é uma
“distribuição particular de densidades” (BERMAN, 1990, p. 67) que
o tradutor recompõe “pesando as palavras” em suas “balanças”
(LARBAUD, 1997, p. 76). A experiência é essencial nesse tipo de
discurso, pois não apenas o alimenta, como também o legitima
frente à teoria, que é vista com certa desconfiança.
O último livro de Marcelo Cohen, Música prosaica (cuatro pie-
zas sobre traducción), uma recopilação de textos breves, é um bom
exemplo desse tipo de discurso do tradutor no qual são mesclados
as especulações linguísticas gerais e o manifesto por uma língua
renovada, a reflexão metodológica e os exemplos concretos que
revelam a técnica do especialista, a consciência artesanal e a realida-
de da “indústria” (2014, p. 83). Diário de bordo de trabalho, o livro
ilustra a heterogeneidade constitutiva do gênero e da postura do
tradutor, sempre no meio do caminho entre a matéria e o símbolo.

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Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Assim, Cohen rejeita a figura tradicional do “hermeneuta” para


se definir como um “executante” (Ibidem, p. 11), um músico da
prosa, empurrado por um “impulso à tradução”12 (BERMAN, 1990,
p. 139) que se expressa em uma metáfora musical, a “fantasia” de
'tocar' literatura” (COHEN, 2014, p. 23). Com o pé na matéria, o
tradutor está, de certa forma, disposto a experimentar a dimensão
referencial do discurso literário. Ao descrever sua rotina cotidiana
de um dia de trabalho, Marcelo Cohen anota:

Depois corro por vinte minutos. [...] A rigidez mental


se afrouxa na rua desarticulada do amanhecer. Presto
atenção na energia liberada e na sombra dos barulhos,
com um sabiá se exibindo feito uma prima-dona, mas
de cada coisa que vejo surge uma palavra decisiva: os
tocos das bananeiras dizem podar, os cortes vermelhos
no céu dizem nublado (2014, p. 71).

Como se nota nesse trecho, o tradutor se move entre a lógica


da linguagem e a insistência das coisas, o protesto do signo e a
presença pertinaz do referente. Um pouco mais adiante, continua:
“O tempo passa em períodos gramaticais de uma mente que se
tornou transporte. Entre cada termo e sua tradução, simultanea-
mente, o referente perde nitidez, ou melhor, amplia-se, e, como
nas metáforas, segrega algo a mais” (Ibidem, p. 75).
A posição intermediária entre a linguagem e o referente, entre
a matéria e o símbolo é o “algo a mais” que o tradutor oferece. Esse
“algo a mais” é o valor criado pela tradução, o processo da technè que
define o espaço de autonomia crítica da literatura. O tom de Cohen
é, apenas aparentemente, menor. A escolha da técnica consiste, na
verdade, em uma ambição muito grande, comparável à que Emily Apter
atribui às figuras parentes do tradutor, o filólogo e o crítico genético
(2013, p. 293-294). Seria nada menos que salvar o destino da literatura
ou, no caso da crítica norte-americana, o dos estudos literários. Por
12 Nota das tradutoras: Designação cunhada pelos tradutores Marie-Hélène C.Torres, Mauri
Furlan e Andreia Guerini na edição brasileira do livro. Cf. BERMAN, Antoine. A Tradução e
a Letra ou o Albergue do Longínquo. 2.ed. Florianópolis: PGET/UFSC, 2013.

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Diversas faces da tradução na contemporaneidade

essa ambição, o tradutor é, sem dúvida, o herói. Cohen aponta: “Não


somos poucos os que pensamos que, se a literatura tem futuro, será
graças a um volumoso depósito de livros intraduzíveis ou, ao menos
para nós tradutores, aparentemente intraduzíveis” (2014, p. 53).

Referências Bibliográficas

APTER, Emily. Against World Literature: On the Politics of Untranslatability.


London/New York: Verso, 2013.
AZIMI, Roxana. L’art retrouvé du geste. Le Monde. Cahier Culture et Idées,
Paris 13 de junio de 2015, C-2.
BARTHES, Roland. Mitologias (1957). Trad. Rita Buongermino, Pedro de
Souza e Rejane Janowitzer. 2.ed. Rio de Janeiro: Difel, 2006.
BERMAN, Antoine. La traduction et la lettre ou l’auberge du lointain. Paris:
Seuil, 1990.
BENESDRA, Salvador. El traductor. Buenos Aires: Eterna Cadencia, 2012.
CERTEAU DE, Michel. L’Invention du quotidien. Vol. I: Arts de faire. Paris:
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COHEN, Marcelo. El testamento de O’Jaral. Barcelona: Anaya & Mario
Muchnik, 1995.
_______. Música prosaica (cuatro piezas sobre traducción). Buenos Aires:
Entropía, 2014.
EPPLIN, Craig. Late Book Culture in Argentina. New York: Bloomsbury, 2015.
GASPAR, Martín. La condición traductora: sobre los nuevos protagonistas de
la literatura latinoamericana. Rosario: Beatriz Viterbo, 2014.
LARBAUD, Valéry. Sous l’invocation de saint Jérôme. Paris: Gallimard, 1997.
LEVI-STRAUSS, Claude. O Cru e o Cozido (1964). Trad. Beatriz Perrone-
Moisés. 2.ed. São Paulo: Cosac Naify, 2010.
LOGIE, Ilse. En busca de lo nuevo: El testamento de O’Jaral (1995) de
Marcelo Cohen. Revista de Crítica Literaria Latinoamericana v. 37, n. 74,
p. 171-191, 2011.
MAIRAL, Pedro. El año del desierto. Madrid: Salto de Página, 2010.
MESCHONNIC, Henri. Poétique du traduire. Paris: Verdier, 1999.
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SARLO, Beatriz. La extensión. Escritos sobre literatura argentina. Buenos
Aires: Siglo XXI, 2007, p. 444-448.
VENUTI, Lawrence. The Translator’s Invisibility: A History of Translation.
London: Routledge, 1995.

149
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

SOBRE OS AUTORES

Anne Schjoldager é professora associada com PhD da School of Communi-


cation and Culture da Universidade de Aarhus, na Dinamarca. Seus campos
de pesquisa incluem estudos sobre ferramentas de tradução assistida por
computador, interpretação, prática profissional da tradução e revisão e
edição de textos. Contato: [email protected].

Érica Lima é bacharel em Tradução pela Universidade Estadual Paulista


Júlio de Mesquita Filho (UNESP), de São José do Rio Preto, mestre em
Linguística Aplicada à Tradução pela Universidade Estadual de Campinas
(UNICAMP) e doutora em Letras também pela UNESP de São José do
Rio Preto. Atualmente, é professora na graduação em Letras e na pós-
graduação em Linguística Aplicada da UNICAMP. Desenvolve pesquisas
sobre a representação do tradutor nas redes sociais, formação de tradu-
tores e tradução e ensino de línguas. Contato: [email protected].

Gengshen Hu é professor emérito da Universidade de Tsinghua, em Bei-


jing, e professor visitandte da Universidade de Zhengzhou, China. Tem
doutorado em Estudos da Tradução e é considerado um dos fundadores
da Ecotradutologia. Suas áreas de pesquisa envolvem: Ecotradutologia,
comunicação intercultural, ensino de língua e cultura inglesa. Contato:
[email protected]

Gersende Camenen é professora de tradução e de literatura latino-


americana na Université François-Rabelais-Tours, na França. É doutora em
Letras pela Université Paris 8, na França. É autora de Roberto Arlt, Ecrire au
temps de l’image (PUR, Presses Universitaires des Rennes, 2012). Contato:
[email protected].

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Diversas faces da tradução na contemporaneidade

Jorge Díaz-Cintas é professor no Centro de Estudos da Tradução na Univer-


sity College London (Reino Unido). É graduado em Filologia Anglogermânica
pela Universidade de Valência (Espanha) e doutor em Tradução Audiovi-
sual, com ênfase em legendagem, pela mesma instituição. Atualmente,
desenvolve pesquisas na área de tradução audiovisual e acessibilidade.
Contato: [email protected].

Marian Flanagan atua como professora associada da School of Communi-


cation and Culture da Universidade de Aarhus, na Dinamarca. Seus campos
de pesquisa na área de tradução incluem tradução automática, tradução
para legendagem, memórias de tradução e pós-edição. Contato: marfl@
cc.au.dk.

Pablo Romero-Fresco é professor honorário de Tradução e Cinema na


Universidade de Roehampton (Londres, Reino Unido) e bolsista Ramón
y Cajal na Universidade de Vigo (Espanha). É autor dos livros Subtitling
through Speech Recognition: Respeaking (Routledge) e Accessible Filmmaking
(Routledge), e editor de The Reception of Subtitles for the Deaf and Hard of
Hearing in Europe (Peter Lang). Também trabalha com governos, universi-
dade e empresas para melhorar o acesso a eventos ao vivo por pessoas
com perda auditiva. Contato: [email protected].

Tina Paulsen Christensen é professora associada com PhD da School of


Communication and Culture da Universidade de Aarhus, na Dinamarca. Seus
campos de pesquisa incluem o estudo do processo tradutório, com foco
em traduções assistidas por computador (como tradução automática e
pós-edição), interpretação jurídica e tradução de textos legais. Conta-
to: [email protected]

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Diversas faces da tradução na contemporaneidade

SOBRE OS TRADUTORES

Carlos César da Silva é bacharel em Letras – Tradução e Revisão de Textos


(Português e Inglês) pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas
(PUC-Campinas). Atualmente, é mestrando no programa de Linguística
Aplicada da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), em que
desenvolve pesquisa sobre traduções shakespearianas. Contato: 1996.
[email protected].

Giulia Sanches Bassani é bacharel e licenciada em Ciências Sociais pela


Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), aluna de graduação em
Letras e mestranda no programa de Linguística Aplicada, ambos pela
UNICAMP.  Atualmente trabalha como professora bolsista do programa
Idiomas sem Fronteiras ministrando aulas de inglês. Desenvolve pes-
quisas sobre a ética da traduções livres no contexto de redes sociais.
Contato: [email protected].

Juliana Aparecida Gimenes é bacharel em Linguística, licenciada em Le-


tras Português, mestre em Linguística Aplicada e atualmente é aluna de
doutorado também em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de
Campinas (UNICAMP), na linha de pesquisa em Tradução. Desenvolve sua
tese sobre as traduções de Machado de Assis para o espanhol. Contato:
[email protected].

Marcella Wiffler Stefanini é licenciada em Letras Português pela Univer-


sidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e mestranda no Programa de
Pós-Graduação em Linguística Aplicada pela mesma instituição, na linha
de pesquisa em Tradução. Durante a graduação, foi bolsista de Inicia-

153
Diversas faces da tradução na contemporaneidade

ção Científica e realizou sua pesquisa sobre Legendagem para Surdos e


Ensurdecidos e Audiodescrição. Tem interesse e desenvolve pesquisas
sobre Tradução Audiovisual e acessibilidade. Contato: marcella.wiffler@
gmail.com.

Mariana Ormenese Dias é licenciada e bacharel em Letras: Português-


Inglês pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campi-
nas), pós-graduada em Tradução pela Universidade Gama Filho (UGF)
e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada
da Universidade Estadual de Campinas (IEL-UNICAMP). Atualmente, é
tradutora e revisora profissional e professora na graduação em Letras
na PUC-Campinas. Desenvolve pesquisas sobre tecnologia e tradução.
Contato: [email protected].

Samira Spolidorio é licenciada em Letras - Língua Portuguesa pela


Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP), certificada como
professora de inglês para falantes de outras línguas (TESOL) pela
Anaheim University, especialista em Língua Portuguesa com Ênfase na
Formação de Leitores e em Língua Inglesa e Tradução pela UNIMEP,
mestre em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Cam-
pinas (UNICAMP), e doutoranda em Linguística Aplicada também pela
UNICAMP. Atualmente, é professora na graduação em Letras - Inglês
(Licenciatura e Bacharelado em Tradução e Interpretação) na UNIMEP.
Tem interesse e desenvolve pesquisas sobre tradução audiovisual,
tradução audiovisual acessível e formação de tradutores. Contato: sa-
[email protected].

Thaís Soranzo é bacharel em Estudos Literários pela Universidade


Estadual de Campinas (UNICAMP) e mestranda em Teoria e História
Literária pela mesma instituição. Durante a graduação, foi membro por
um ano da comissão editorial da Revista Arcádia (IEL/UNICAMP) e bol-
sista de Iniciação Científica nas áreas de Literatura e Tradução. Cursou
um semestre acadêmico na Universidad Carlos III de Madrid, Espanha,
e realizou também, através do programa High School, um intercâmbio
de um ano em Ohio, Estados Unidos. Desenvolve pesquisa na área de

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Diversas faces da tradução na contemporaneidade

literatura comparada, com o estudo dos romances The Picture of Dorian


Gray, de Oscar Wilde e Esther Waters, de George Moore. Contato: thais.
[email protected].

Yu Pin Fang (Peggy) é licenciada em pedagogia pela Universidade Estadual


de Campinas (UNICAMP) e atualmente é graduanda em Licenciatura de
Letras e Literatura em Espanhol na Universidade Federal de Santa Maria
(UFSM) e mestranda em Linguística Aplicada à Tradução na UNICAMP. O
foco da sua pesquisa é a tradução de poesia clássica chinesa para
o português. Contato: [email protected].

Xinwei Zhou é licenciada em Língua e Cultura Portuguesa pela Univer-


sidade BLCU, de Beijing, China. Atualmente é mestranda em Linguística
Aplicada, na área de Linguagem e Tradução, na Universidade Estadual
de Campinas (UNICAMP), onde desenvolve pesquisas sobre a literatura
chinesa traduzida para o português. Contato: [email protected]

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