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Características do Conhecimento Científico

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09/10/2023, 21:38 lddkls211_pen_cie

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NÃO PODE FALTAR

QUAIS SÃO AS

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seõçatona reV
CARACTERÍSTICAS DO
CONHECIMENTO
CIENTÍFICO?
Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira

Fonte: Shutterstock.

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PRATICAR PARA APRENDER


Provavelmente, você já se perguntou o que torna o conhecimento
científico diferenciado em comparação com outras formas de
conhecimento, razão pela qual diversas grandes potências reservam

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uma parcela de seu PIB para investir em ciência e tecnologia, mas não
encontrou nenhuma explicação dentro de um contexto histórico
apropriado que detalhasse as principais características do
conhecimento científico.

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Sem um contexto adequado é impossível discutir o que é conhecimento

seõçatona reV
científico, bem como explicar quais seriam suas características e o
porquê desse tipo de conhecimento ser único em sua espécie. Por causa
dessa dificuldade de entendimento da ciência, você, em alguma parte
de sua vida, perguntou: “Por que os cientistas estudam planetas
distantes em vez de concentrarem seus esforços em problemas sociais
vigentes, como a desigualdade social, a extrema pobreza e a
desnutrição?” ou “Por que investir milhões de dólares em pesquisas
básicas?”

Com um pouco de tratamento filosófico e história da ciência, seria


possível responder que diversos esforços coletivos promovidos dentro
do contexto da história da Era Espacial contribuíram direta e
indiretamente para o surgimento de tecnologias usadas no dia a dia,
como travesseiros, painéis solares, satélites artificiais, detectores de
fumaça e muitos outros. Poderia também ser respondido que uma
compreensão profunda da genética levou ao desenvolvimento de
alimentos transgênicos, que são ricos em proteínas, contribuem para a
redução do uso de agrotóxicos e auxiliam diretamente no combate à
desnutrição em países do continente africano.

Explicar a origem de todo esse processo de construção de


conhecimento enriquece a cultura à medida que revela como as
características do conhecimento científico auxiliam no progresso
tecnológico, principalmente na produção de vacinas em contextos de
pandemias, como a da Gripe Espanhola e do novo coronavírus (SARS-
CoV-2).

Em uma sala de aula, um professor de Filosofia da Ciência escolhe três


alunos com o objetivo de atribuir a cada escolhido uma disciplina que
alegue o status de ciência: a primeira disciplina é a Astronomia
(atribuída ao aluno A), a segunda disciplina é a Sociologia (atribuída ao
aluno B) e a terceira disciplina é a Psicanálise (atribuída ao aluno C).

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Em seguida, os alunos são convidados a aplicar o ceticismo científico na


disciplina atribuída a eles para avaliar suas hipóteses e teorias, bem
como questionar suas bases analisando a possível compatibilidade com
os resultados da ciência.

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Supondo que os alunos tiveram êxito no trabalho proposto, considere o

seõçatona reV
resultado a que cada aluno chegou:

a. A astronomia é uma ciência porque suas teorias são compatíveis


com os dados disponíveis das melhores agências espaciais.

b. A sociologia é uma ciência porque suas teorias são baseadas em


evidências. Além disso, a sociologia consegue, com base no uso de
modelagem computacional, realizar predições sobre fenômenos
sociais com alto nível de acurácia.

c. A psicanálise não parece ser uma ciência, ou talvez seja uma


pseudociência, porque suas principais hipóteses não constituem
uma teoria científica. Mais ainda, algumas alegações sobre possíveis
entidades ou objetos não podem ser testadas ou demonstradas
empiricamente. Ela também tem outro ponto falho, que consiste na
ausência de uma formalização lógica adequada da qual seja possível
a extração objetiva do significado de um conceito central no campo.

Normalmente, o próprio aluno C poderia indagar sobre o motivo pelo


qual a psicanálise ainda mantém um local prestigiado em universidades
públicas e particulares, sendo que ela falha em cumprir os requisitos
mínimos esperados de um campo que alega produzir conhecimento
científico.

Quais seriam os possíveis indicadores que revelariam o porquê de


certas pseudociências, como a psicanálise, ainda manterem algum
prestígio na academia, mesmo não cumprindo requisitos esperados de
uma atividade que preza pela verdade?


A ciência é mais que um corpo de conhecimento, é uma forma de pensar, uma forma cética de
interrogar o universo, com pleno conhecimento da falibilidade humana. Se não estamos aptos a
fazer perguntas céticas para interrogar aqueles que nos afirmam que algo é verdade, e sermos
céticos com aqueles que são autoridade, então estamos à mercê do próximo charlatão político
ou religioso que aparecer.
— Carl Sagan, entrevista de 1996.

CONCEITO-CHAVE
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CONHECIMENTO CIENTÍFICO: SISTEMATICIDADE,


FALIBILIDADE E QUESTIONABILIDADE
Algumas características essenciais do conhecimento científico mostram
como ele é um conhecimento único em sua espécie, trazendo maior

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nível de confiabilidade em comparação com outros tipos de saberes no

seõçatona reV
mundo contemporâneo. Um aspecto central é seu princípio de
sistematização, que é basicamente a forma como seus enunciados são
estruturados logicamente, evitando confusões da linguagem ordinária,
como contradições lógicas e polissemia.

A sistematização do conhecimento científico permite que seus


enunciados não entrem em contradição ao longo de uma explicação a
respeito de algum fenômeno da realidade, evitando a utilização de
jargões desnecessários e, por vezes, incompreensíveis, como sentenças
que fazem parte de muitos sistemas filosóficos dos chamados filósofos
do irracionalismo, como Friedrich Hegel e Martin Heidegger.

A adoção de uma estrutura lógica dentro de enunciados científicos


permitiu que qualquer discurso ou método dialéticos fosse extirpado do
conhecimento científico, contrariando a crença popular de que a
dialética é um elemento indispensável na atividade científica. Isso ocorre
desde o surgimento da ciência moderna, admitindo tacitamente o
Princípio da Não Contradição de Aristóteles, que assegura que
afirmações contraditórias não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.
Portanto, a ciência evita o uso de proposições contraditórias, como
“esse círculo é quadrado”, “toda verdade é uma mentira” e “tudo é
relativo”.

A dialética é um conceito problemático desde Heráclito, significando em


seus primórdios a ideia de que existe um Princípio da Unidade dos
Contrários, ou seja, a ideia de que todas as coisas que existem possuem
uma contraparte ou uma entidade oposta (por exemplo, partículas e
antipartículas). Muitos séculos depois, o filósofo Hegel buscou
desenvolver a dialética dentro de seu sistema filosófico, admitindo
alguns pressupostos da tese original, como a ideia de que existe uma
unidade dos opostos e a noção segundo a qual todas as coisas mudam.
No entanto, Hegel foi muito pouco claro sobre o que ele queria dizer
com “dialética”, de modo que até hoje não existe um consenso entre

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filósofos sobre o que ela é: uma lógica não clássica, que romperia com o
Princípio da Não Contradição da ciência moderna; uma ontologia das
coisas; ou simplesmente ambas. Apesar do extenso debate filosófico
sobre a dialética, ela não conseguiu ganhar espaço em nenhuma ciência

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natural, social ou biossocial – nem mesmo na ciência formal, com a

seõçatona reV
lógica e a matemática.

Outro aspecto central do conhecimento científico é a falibilidade, que


significa que todo discurso científico é passível de correção, evitando
assim qualquer tipo de dogmatismo, como a estagnação de uma
hipótese científica e o culto à autoridade. Esse conceito está presente na
tese do filósofo da ciência Karl Popper (2013), que estipulou que a
falseabilidade ou refutabilidade é a condição para refinar cada vez mais
hipóteses e teorias científicas.

Esse princípio de falseabilidade é importante para a estruturação de


hipóteses iniciais ou primitivas, por polir afirmações destituídas de
evidências científicas, mas não é um critério de demarcação satisfatório
para produzir conhecimento científico. Na verdade, mesmo que alguns
cientistas considerem que a ciência siga o modelo popperiano, nenhum
filósofo da ciência considera-o como um critério satisfatório –
especialmente porque a pseudociência também mantém um nível de
conciliação com o respectivo critério de demarcação.

A falibilidade permite que a ciência progrida com novos dados e


evidências, fazendo também com que as teorias sejam cada vez mais
(re)ajustadas à realidade, produzindo um conhecimento diferenciado
em comparação com os outros, sendo então mais profundo e
verdadeiro. Essa posição também é admitida por filósofos científicos –
ou seja, filósofos que estão em dia com os resultados da ciência e
tecnologia –, que assumem que a ciência produz um tipo de
conhecimento mais profundo e verdadeiro.

A ciência também mantém em seu núcleo um aspecto de


questionabilidade ou ceticismo, que significa dúvida metodológica e
consiste na adoção do ceticismo científico, que é o princípio segundo o
qual todas as hipóteses e teorias devem ser questionadas de forma
metódica, responsável e cientificamente orientada. Isso significa que a
ciência não adota um tipo de ceticismo conhecido como radical, em que

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tudo deve ser questionado, que advoga por um questionamento


absoluto, irresponsável, descontrolado e, portanto, dogmático. A
questionabilidade promovida na ciência é a que submete alegações e
hipóteses destituídas de evidências razoáveis à crítica de outros

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cientistas, promovendo um diálogo construtivo, sadio e útil para o

seõçatona reV
desenvolvimento da ciência.

O ceticismo científico não deve ser confundido com o negacionismo da


ciência, que é a posição que defende a rejeição completa ou parcial do
conhecimento científico. O negacionismo da ciência está atrelado a
posições ideológicas de seus praticantes, entrando em cena quando a
ciência revela um fato em relação ao qual a pessoa está em desacordo
por alguma razão política, religiosa ou cultural. Alguns exemplos de
negacionismo da ciência incluem a negação de efetividade das vacinas, a
rejeição da circunferência da Terra, a depreciação das consequências
das mudanças climáticas e a resistência em aceitar a evolução biológica
das espécies através do processo de seleção natural.

OBJETIVIDADE, POSITIVIDADE, RACIONALIDADE E


EXPLICABILIDADE
No contexto do conhecimento científico, o conceito de objetividade não
deve ser confundido com objetivismo, que é doutrina ideológica e
pseudofilosófica de Ayn Rand. A objetividade se refere à pretensão clara
e objetiva na formulação de enunciados científicos, evitando o
subjetivismo interpretativo, que é a noção segundo a qual é possível a
extração de diversas interpretações e múltiplos significados de um
determinado texto. Por conta de a linguagem científica ser diferente da
linguagem ordinária, principalmente pela sua construção lógica e
sistematização, o subjetivismo não faz parte das proposições científicas.

A objetividade é atrelada a uma concepção positiva de ciência, cujo


papel é o acúmulo gradual de conhecimento por meio da confirmação
empírica, em vez de uma estrutura desordenada que desmorona a cada
nova revolução científica, como defendeu de forma irresponsável o
filósofo e historiador da ciência Thomas Kuhn. Segundo Kuhn (2017), a
ciência muda como a moda, de modo que o objetivo da ciência não seria
mais a verdade. No entanto, essa concepção ignora que todas as
revoluções científicas são sempre parciais, que elas nunca rompem

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totalmente com o conhecimento anterior, como é o caso da mecânica


clássica de Newton, que, mesmo após o surgimento da teoria da
relatividade geral e da mecânica quântica, ainda permanece válida para
calcular a trajetória de objetos terrestres e continua sendo usada para

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enviar foguetes ao espaço.

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A teoria da evolução de Charles Darwin também é outro exemplo dessa
característica positiva da ciência, pois ela foi atualizada com os dados da
genética e da biologia molecular, revelando um panorama ainda mais
abrangente sobre a evolução das espécies, explicando até a origem de
certos traços comportamentais nos seres humanos modernos. No
entanto, a ciência não progride apenas com base em experimentos, ela
precisa de racionalidade.

A racionalidade presente no conhecimento científico pode ser


explicada de duas formas, pelo menos: a ideia de que todo discurso
científico é debatível de forma organizada (com o exercício do uso da
razão) ou a ideia de que o raciocínio formal é um alicerce na construção
do conhecimento científico. A primeira ideia pressupõe tacitamente
características anteriormente explicadas, como as noções de
sistematização e de objetividade, de modo que apenas com uma
linguagem compreensível, logicamente e objetivamente coerente, é
possível discutir racionalmente conhecimentos e problemas científicos,
enquanto a segunda exprime a ideia de que a construção de conceitos
lógicos e formais serve para representar objetos que possuem
existência concreta, material e real na realidade, como campos,
partículas e cérebros.

De acordo com a última definição, sem o raciocínio formal, o qual


consiste na ciência formal da lógica e da matemática, nenhum
conhecimento seria possível, pois são necessários sempre símbolos e
expressões matemáticas não apenas para representar objetos, mas
também para quantificar os dados oriundos da investigação científica.
Até mesmo a filosofia contemporânea, como a filosofia analítica e a
filosofia científica, trata o raciocínio lógico-matemático como essencial
para a produção de conhecimento filosófico. No entanto, o
conhecimento científico busca trabalhar com o raciocínio formal visando

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fornecer uma explicação mais adequada com base nos dados e nas
evidências da investigação científica, de modo que não é um mero
exercício lógico destituído de valor empírico.

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A pretensão de elaborar cada vez mais proposições e teorias ajustadas à
realidade revela o aspecto de explicabilidade da ciência. Sem a

seõçatona reV
pretensão de explicar a realidade, ou algum de seus níveis em particular
(físico, químico, biológico, psicológico, social, artificial, etc.), os cientistas
não teriam qualquer motivo para investigar o mundo e produzir
conhecimento científico. A explicabilidade, portanto, refere-se
simplesmente ao papel da ciência em investigar o mundo e prover
conhecimentos cada vez mais profundos sobre as coisas.

ASSIMILE

1. O conhecimento científico advoga pelo princípio de


racionalidade, de modo que seu discurso é
universalmente compreensível.

2. O aspecto corretivo do conhecimento científico é sempre


guiado pelas evidências da realidade.

3. Toda a atividade científica cultiva o questionamento


cético moderado ou razoável, que é orientado pela
evidência.

REVISIBILIDADADE, AUTONOMIA, ACUMULABILIDADE E


VERIFICABILIDADE
O conhecimento científico é justamente difícil de definir por conta de
suas diversas características. Em comparação com o conhecimento
religioso, por exemplo, apenas o conhecimento científico tem como
preocupação a revisibilidade de seus conceitos e teorias mediante a
investigação científica. Enquanto o conhecimento religioso admite
múltiplas interpretações de um texto como igualmente válidas, o que
importa no conhecimento científico é a compatibilidade de seu corpo de
conhecimento com as evidências, independente do que um cientista
pensa a respeito. Pelo mesmo motivo, a ciência não deve ser
comparada com a política, pois seu conhecimento não é decidido como
verdadeiro mediante uma votação por decreto ou escolha da

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população. O conhecimento científico é tratado como verdadeiro


quando os resultados de uma investigação apontam numa determinada
direção.

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Já a autonomia existente na ciência pode se referir ao âmbito individual
e coletivo, como quando um cientista tem liberdade para investigar -

seõçatona reV
seguindo os protocolos éticos da pesquisa científica - e quando a ciência
tem liberdade para investigar problemas que contradizem anseios
políticos. Por exemplo, quando os cientistas sociais podem estudar
livremente os impactos das desigualdades sociais nas populações de
baixa renda, ou quando o objeto de estudo são os efeitos sistêmicos das
mudanças climáticas, que, normalmente, contradizem interesses
privados de empresas ou políticos. Contraexemplo: quando os cientistas
são impedidos de investigar por conta de sua nacionalidade ou etnia,
como ocorreu com os físicos judeus durante a emergência do nazismo
na Alemanha, ou quando os pesquisadores são perseguidos pelo
governo com a desculpa de serem infiltrados de uma potência mundial
rival ou advogarem por uma suposta ideologia contrária à aceita pelo
Estado, como aconteceu no caso dos geneticistas de plantas na antiga
União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Mesmo com todas as dificuldades que a história da ciência revela sobre


o processo de construção do conhecimento científico ao longo dos
séculos, toda a experiência passada é traduzida em conhecimento
sociológico, revelando que a ciência e a política, embora sejam
atividades completamente distintas, dependem de uma relação
amigável para prosperarem, seja para promover a investigação científica
fornecendo recursos financeiros do Estado, seja para usar os resultados
científicos na elaboração de políticas públicas mais justas.

A acumulabilidade do conhecimento científico é o que justifica seu


aspecto de progresso, justamente porque exemplos de experimentos
malsucedidos são considerados, não apenas para refletir sobre os
desafios metodológicos e epistemológicos da ciência, mas também para
aumentar o rigor necessário durante a avaliação dos trabalhos que são
submetidos para revistas científicas. Mais ainda, os resultados negativos
na ciência, com base no olhar sociológico, podem revelar aspectos que
foram negligenciados sistemicamente durante a época de aceitação ou

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implementação de uma ideia. Por exemplo, a aplicação política de ideias


pseudocientíficas, que já não eram muito bem aceitas, no início do
século XX, como a eugenia e o darwinismo social, levou ao extermínio de
judeus, negros, pobres e pessoas com deficiência, sob o pretexto de

0
“busca pela pureza genética”.

seõçatona reV
A elucidação da pseudociência só foi possível graças ao princípio de
verificabilidade da ciência, que é a ideia segundo a qual um enunciado,
uma hipótese ou uma teoria deve ser passível de ser colocada à prova.
No entanto, o conceito de verificabilidade requer um contexto
adequado por conta de sua polissemia.

A noção mais forte de verificabilidade foi apresentada pelo lógico


Rudolph Carnap, durante a emergência do positivismo lógico do Círculo
de Viena. Esse círculo era formado por um grupo de cientistas e
filósofos interessados nos problemas filosóficos, históricos e
sociológicos da ciência. A despeito dos mitos que circulam sobre o
círculo, eles defendiam teses bastantes heterogêneas, tinham
preocupações políticas e sociais sobre a atividade científica, não eram
ingênuos e nem reducionistas (não reduziam todo o conhecimento às
ciências naturais) e buscavam uma linguagem universal para a ciência.
No entanto, a tese de Carnap ficou imensamente conhecida ao ponto de
ser tratada equivocadamente como representativa de todo o círculo.

A tese verificacionista de Carnap postulava que uma proposição tem


sentido se, e somente se, existir alguma circunstância que permita sua
verificação. Se não existisse alguma possibilidade de verificação, a
proposição seria considerada como destituída de sentido e significado e,
portanto, ela não faria outra coisa a não ser trazer pseudoproblemas.
Essa tese foi duramente golpeada, justamente por outro filósofo que era
simpatizante do círculo, mas que não fazia parte dele: Karl Popper.

Karl Popper enfatizou que a tese não era suficiente como um critério
para proposições, além de diversos outros problemas enumerados em
sua obra A Lógica da Pesquisa Científica (2013), argumentando que a
condição de verificabilidade não é suficiente para que uma proposição
ou teoria seja considerada científica, mas simplesmente a condição de
sua possível refutação. Para Popper, uma teoria é científica se, e
somente se, existir alguma circunstância que permita sua refutação. Se

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não existir nenhuma circunstância passível de refutação, a teoria não é


considerada científica. Com isso, Popper lançou as bases de sua hoje
conhecida tese: o falseacionismo.

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REFLITA

1. Dado o sucesso do conhecimento científico na explicação

seõçatona reV
de diversos fenômenos da realidade, o que torna a
ciência um campo confiável?

2. Dado o contexto de negacionismo anticientífico na


sociedade contemporânea, por que é importante adotar
o ceticismo científico?

3. Por que a lógica é um elemento indispensável dentro do


conhecimento científico?

FACTUALIDADE, ANALITICIDADE E COMUNICABILIDADE


A ciência não se resume a uma atividade puramente empírica. Ela
também contempla disciplinas que lidam com aspectos formais do
método científico, que usam seu aspecto de racionalidade para
investigar problemas matemáticos, lógicos e semânticos. Para clarificar
essa abrangência, é necessária uma distinção rápida sobre esses dois
tipos de ciências: a ciência fática (ou factual) e a ciência formal.

Como explica o filósofo Mario Bunge em seu livro La Ciencia, su Método


y su Filosofía (2014), a ciência fática lida com entes concretos ou
materiais (como campos, partículas, animais, pessoas), adequa-se aos
fatos e possui consistência empírica (como a física, a química, a biologia,
a psicologia, a sociologia), enquanto a ciência formal lida com entes
ideais (como números, conceitos, axiomas), adequa-se a um conjunto de
regras e possui consistência racional (como a lógica e matemática). No
entanto, tanto a ciência fática como a ciência formal normalmente se
cruzam em um processo de enriquecimento contínuo.

A ciência formal fornece à fática a analiticidade essencial para sua


sistematização, formalização e objetividade. Com esse tratamento
analítico, o conhecimento científico se torna mais exato, porque evita-se
a ambiguidade e a armadilha da linguagem ordinária. Desse modo,
justifica-se a definição de Bunge (2014) da ciência como um tipo de

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conhecimento sistemático, racional, exato, verificável e, portanto, falível,


sendo a melhor reconstrução conceitual do mundo do qual fazemos
uso.

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Finalmente, a ciência preza pela comunicabilidade, ou seja, os
resultados científicos são passíveis de serem comunicáveis de forma

seõçatona reV
objetiva para quaisquer pesquisadores ao redor do mundo. Mais ainda,
os resultados podem ser traduzidos na linguagem ordinária com o
objetivo de visar à popularização da ciência e ao enriquecimento
cultural através da atividade de divulgação científica.

EXEMPLIFICANDO

1. O conhecimento científico tem uma estrutura lógica


ordenada, a qual permite a extração de proposições
objetivas.

2. O conhecimento científico visa explicar a realidade em


sua totalidade, adequando sua metodologia científica
para o estudo de cada nível (físico, químico, biológico,
psicológico, social e artificial).

3. O conhecimento científico progride ao longo do tempo,


ajustando suas teorias às evidências, corrigindo
imprecisões e mantendo seu aspecto questionador frente
a uma gama de hipóteses sobre o mundo.

Devido à natureza peculiar do conhecimento científico, suas diversas


características revelam o porquê de ele poder ser considerado como um
tipo de conhecimento mais profundo, verdadeiro e confiável. Embora
muitos argumentem que o aspecto autocorretivo seja uma sentença de
risco, o que levaria a duvidarmos cada vez mais do nível de verdade e
profundidade desse tipo de conhecimento, ignora-se que a requerida
compatibilidade das teorias com as evidências é o que aproxima a
ciência da descrição mais precisa o possível da realidade.

FAÇA VALER A PENA


Questão 1

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O ceticismo científico é uma das características fundamentais da ciência


e de toda a atividade intelectual. O astrônomo e divulgador científico
Carl Sagan escreveu uma obra chamada O Mundo Assombrado Pelos
Demônios (2006), em que ele descreve exemplos de aplicação do

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ceticismo científico na vida cotidiana. O ceticismo, argumenta Sagan, é

seõçatona reV
uma ferramenta indispensável para não deixar enganar a nós mesmos.

Qual é a definição de ceticismo científico?

a. Uma abordagem filosófica que adota a suspensão de juízo pela impossibilidade de provar
algum fenômeno.

b. Uma abordagem niilista que considera a ciência isenta de valores.

c. A negação absoluta do conhecimento científico.

d. Uma abordagem que consiste na dúvida metódica ou razoável aplicada a situações e


afirmações destituídas de boas evidências.

e. A crença religiosa no poder da ciência.

Questão 2
A verificabilidade é a noção que advoga a preocupação com o teste
experimental. No entanto, essa posição não pode ser confundida com o
verificacionismo do Círculo de Viena e nem com o falseacionismo do
filósofo da ciência Karl Popper.

O que significa verificacionismo?

a. Um critério de demarcação entre ciência e pseudociência.

b. Um critério para verificar através da observação se certos enunciados são significativos.

c. Um critério ético para a ciência.

d. Um axioma matemático.

e. Uma lógica não clássica.

Questão 3
A lógica é uma ciência formal, embora possa ser aplicada na ciência
fática com o objetivo de proporcionar melhor clareza e objetividade
para os enunciados científicos. Seu uso evita a ambiguidade da
linguagem ordinária, facilita o entendimento conceitual e impede a
contradição no conhecimento científico. A dialética, por outro lado,
tolera contradições e ambiguidades da linguagem ordinária. No entanto,

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ela ainda é considerada por muitos como uma ferramenta essencial


para a ciência, os quais acabam ignorando suas implicações com o
Princípio da Não Contradição de Aristóteles e defendendo que ela serve
como uma técnica de comparabilidade entre ideias aparentemente

0
distintas, a partir da qual, de alguma forma, seria possível a extração de

seõçatona reV
uma nova ideia ou hipótese.

Historicamente, qual pensador é considerado o pai da dialética?

a. Friedrich Hegel.

b. Friedrich Nietzsche.

c. Martin Heidegger.

d. Aristóteles.

e. Heráclito.

REFERÊNCIAS
BUNGE, M. La Ciencia, su Método y su Filosofía. [S.l.]: Editora
Sudamericana, 2014.

CARNAP, R. The Logical Structure of the World and Pseudoproblems


in Philosophy. [S.l.]: Editora Open Court, 2003.

MARCONDES, D. Textos Básicos de Filosofia e História das Ciências: a


revolução científica. [S.l.]: Editora Zahar, 2016.

POPPER, K. A Lógica da Pesquisa Científica. 2. ed. [S.l.]: Editora Cultrix,


2013.

SAGAN, C. O Mundo Assombrado Pelos Demônios: a ciência vista


como uma vela no escuro. [S.l.]: Editora Companhia de Bolso, 2006.

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