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Empregabilidade dos Cortadores de Cana em PE

Zona canavieira e trabalhadores da entressafra

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Empregabilidade do Cortador de Cana-de-

Açúcar da Zona da Mata Pernambucana no


Período de Entressafra1
Luís Henrique Romani de Campos
Pesquisador Adjunto I na FUNDAJ.
Professor da FBV.
Mestre em Economia pela UFPB.
Doutor em Economia pela UFPE.

Isabel Raposo Resumo


Pesquisadora Assistente I na FUNDAJ.
O artigo trata do empregado no corte de cana-de-
Mestre em Economia pela Tulane University, USA. açúcar no Estado de Pernambuco. Baseia-se em pesquisa
Mestre em Economia pela UFPE. de campo realizada em dezembro de 2006, na Mata.
Apresenta uma descrição da tipologia encontrada entre
os trabalhadores, em sua maioria homens. Trata do de-
André Maia
semprego sazonal destes cortadores de cana, buscando,
Pesquisador Assistente I na FUNDAJ. a partir de modelos logit binário e logit multinomial, en-
Mestre em Estatística pela UFPE. contrar quais os fatores que influenciam a probabilidade
de o trabalhador conseguir uma atividade na entressafra.
Doutorando em Ciência da Computação pela UFPE. O modelo logit binário apontou que a experiência anterior
em outras atividades fora da cana-de-açúcar, a crença do
trabalhador em continuar na usina/engenho e o fato de
este ter feito cursos de qualificação afetam esta proba-
bilidade. Contudo, a qualificação apresentou influência
contrária ao esperado. O modelo logit multinomial apre-
senta resultados similares, pois a proporção de familiares
buscando emprego e que recebem auxílio do INSS afetou
a probabilidade de o trabalhador continuar trabalhando
na atividade canavieira na entressafra. Conseguir em-
prego fora do setor canavieiro mostrou-se influenciado
pela experiência anterior em outros empregos. O artigo
conclui que há reduzida quantidade de trabalhadores que
se qualificam, porém esta qualificação não parece estar
sendo adequada.

Palavras-chave:
Empregabilidade; Cortador de Cana-de-Açúcar;
1 Trabalho vencedor do 1º lugar, categoria profissional, no XII Encontro Zona da Mata; Pernambuco; Entressafra; Qualificação
Regional de Economia promovido pelo Banco do Nordeste do Brasil em
Fortaleza, em julho de 2007. Profissional.
1 – INTRODUÇÃO Mata do Estado advinha deste setor. Em Pernambuco,
O crescente interesse internacional sobre a utiliza- a importância deste segmento foi de apenas 1,76%.
ção de biocombustíveis em substituição a combustíveis Ademais, 51,3% da massa salarial do emprego formal
fósseis tem feito com que a atividade canavieira apre- de 2005 derivava das atividades desempenhadas neste
sente uma tendência de crescimento para os próximos segmento no período da entressafra. (BRASIL, 2005).
anos. Contudo, a despeito das vantagens ambientais do
Os fatores que explicam a enorme dependência da
aumento do uso do álcool combustível em detrimento
atividade canavieira na Zona da Mata de Pernambuco
da gasolina, algumas questões se abrem e devem ser
remontam ao período de início desta atividade na região
mais bem exploradas para que não se utilize uma saída
(século XVI). Naquela época, a produção canavieira se
energética com conseqüências sociais excessivamente
estruturou no sistema de plantation, que se baseava
grandes. Duas questões que podem ser feitas neste
no uso intensivo de mão-de-obra escrava, monocultura
campo, uma em nível macro e outra em nível regional,
da cana-de-açúcar em grandes extensões de terra e
são: i) a necessidade de ampliar o plantio de cana redu-
produção voltada para exportação ao mercado mundial.
zirá a produção de alimentos? e ii) a região Nordeste,
Desde então, a cana-de-açúcar ainda é a única cultura
tradicional região produtora, manterá seu atual padrão
com significância econômica, o plantio continua a utilizar
de produção? A primeira questão, apesar de importante,
largas extensões de terra e, embora a mão-de-obra não
não é abordada neste artigo.
seja mais escrava e tenha havido algumas inovações
A segunda questão tem relevância para Pernambu- tecnológicas, o trabalho ainda é intensivamente utilizado
co, uma vez que a produção de cana na Zona da Mata de e mal remunerado.
Pernambuco vem atravessando momentos de queda ou
O fato de a atividade canavieira perdurar de maneira
estagnação desde o início da década de 1990. Mesmo
hegemônica nesta região deve-se, em grande parte, ao
com uma breve recuperação a partir de 2001, o volume
não-desenvolvimento de um mercado interno, à época
produzido no ano de 2005 ainda não alcançou o patamar
de sua criação, que estimulasse uma demanda por
do início dos anos 1990. Segundo o Sindaçúcar, foram
outros tipos de bens e, conseqüentemente, formasse
extintas 20 unidades produtivas de açúcar e álcool, nos
uma mão-de-obra de base técnica capaz de ser em-
últimos 10 anos. (FUNDAJ, 2007).
pregada em diversos tipos de atividades. (FURTADO,
Além desta dinâmica de queda na produção, a ati- 1987 apud HAMASAKI, 1997). A não-diversificação
vidade canavieira, assim como toda atividade agrícola, econômica inviabilizou o rompimento da concentra-
passa por períodos de sazonalidade que produzem efeitos ção fundiária e, por conseguinte, de renda, relegando
diretos sobre a empregabilidade da força de trabalho lo- à população dos municípios da Zona da Mata fracos
cal. Na Zona da Mata de Pernambuco um contingente de indicadores sociais e econômicos. Em 2004, o PIB per
90 a 100 mil trabalhadores é empregado nesta atividade capita desta região foi menor do que o observado em
e cerca de 2/3 desses são dispensados na entressafra. todo o Estado de Pernambuco. Ademais, o percentual
(FUNDAJ, 2007). A redução da taxa de ocupação na de pobres na população da Zona da Mata, no ano de
atividade canavieira neste período seria esperada e, em 2000, foi superior ao verificado na população de todo
grande parte, não-problemática não fossem algumas o Estado. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia
particularidades da economia rural desta mesorregião. A e Estatística (IBGE) para esperança de vida ao nascer
época da entressafra da cana-de-açúcar é particularmente também ilustram que a população da Zona da Mata
problemática na Zona da Mata Pernambucana em virtude não alcança idades mais avançadas quando comparada
da significativa importância que esta atividade exerce
 Para a realização das estimações, utilizou-se uma definição estreita da
em toda a economia da região e, conseqüentemente, no atividade canavieira englobando a produção da cana-de-açúcar, álcool
bem-estar de sua população. Para se ter uma idéia da e açúcar; não considerando atividades a montante e a jusante da cadeia
hegemonia da agroindústria sucroalcooleira, em 2004, produtiva.
14,42% do Produto Interno Bruto (PIB) da Zona da  A modernização tecnológica compreende inovações mecânicas, técnicas,
físico-químicas e biológicas em todas as fases do processo produtivo:
preparo do solo, plantio, tratos culturais e colheita. (FUNDAJ, 2006).
 Para estimar a participação do setor no PIB da mesorregião, foi realizada  Em 2004, o valor do PIB per capita da Zona da Mata Pernambucana foi
uma projeção com base na sua participação no valor agregado do PIB de R$ 5.267,75 (em R$ de 2004) e o de Pernambuco foi de R$ 5.730,17.
estadual disponível na matriz insumo-produto de 1999 (IPSA, 2004), Em 2000, o percentual de pobres foi de 69% na mesorregião e de 66%
considerando-se o percentual médio da produção de cana-de-açúcar que no Estado. Este percentual corresponde a pessoas com renda domiciliar
é a realizada nesta mesma região (IBGE, 2007) e o PIB dos municípios. per capita inferior a R$ 75,50, equivalentes à metade do salário mínimo
(IBGE, 2006). vigente em agosto de 2000. (UNDP, 2000).

330 Revista Econômica do Nordeste, Fortaleza, v. 38, nº 3, jul-set. 2007


ao resto de Pernambuco. Em 2000, cerca de 85% dos O artigo está organizado da seguinte maneira: a
municípios da Zona da Mata tinham sua população seção 2 apresenta uma caracterização geral dos corta-
vivendo entre 60,1 e 70 anos, ao passo que, em Per- dores de cana, objeto da referida pesquisa; a seção 3
nambuco, esse percentual era de 80%, já que possuía traz discussão metodológica para descrever os proce-
mais municípios com população vivendo na faixa dos dimentos estatísticos adotados; já a seção 4 apresenta
70,1 a 80 anos. Os indicadores educacionais também os resultados dos modelos probabilísticos. Por fim, são
refletem bem o fato de que a força de trabalho da Zona sintetizadas as principais conclusões do artigo.
da Mata não possui alto grau de escolaridade, já que se
especializou quase que exclusivamente para o trabalho
na atividade canavieira que domina a região. Em 2000,
2 – CARACTERIZAÇÃO DO CORTADOR DE
cerca de 21% da população da Mata Pernambucana CANA-DE-AÇÚCAR DA ZONA DA MATA
tinha menos de um ano de estudo, enquanto que, em PERNAMBUCANA
Pernambuco, esse valor era de 16%. A grande maioria Nesta seção, são apresentados os resultados mais
dos habitantes da Zona da Mata (80%) tem apenas sete relevantes da pesquisa de campo realizada entre os
anos ou menos de estudo (IBGE). cortadores de cana da Zona da Mata de Pernambuco. A
finalidade é sintetizar aquelas informações que permitam
Do ponto de vista da dinâmica populacional, al- elaborar uma caracterização geral desses trabalhadores
gumas estatísticas dos Censos do IBGE mostram que quanto à sua faixa etária, gênero, grau de escolaridade,
a atividade canavieira na Mata Pernambucana não tem dados da família, local de trabalho, local de moradia,
atraído contingentes populacionais para esta região. condições de moradia, condições de trabalho e a sua
Entre os anos de 1970 e 2000, a Zona da Mata apre- situação ocupacional na entressafra.
sentou um crescimento populacional inferior ao das
demais mesorregiões do Estado. Isto evidencia que o Em média, os cortadores entrevistados trabalham na
padrão de riqueza gerado por esta atividade não tem atividade do corte há cerca de 15 anos. Considerando que
surtido efeitos positivos na atração de mão-de-obra, a idade média é de 34 anos, isto implica que, desde os
tampouco nos indicadores que mensuram a qualidade 19 anos, os entrevistados se ocupam desta atividade. A
média de vida da população local, como argumentado jornada média de trabalho é de 9,2 horas por dia e, neste
no parágrafo anterior. período, o trabalhador corta cerca de 4,3 toneladas de
cana. Por tal produtividade, recebe aproximadamente R$
Dentro desta perspectiva, é lícito supor que não 434,00 líquidos por mês. Com esta jornada intensa de
haverá grandes mudanças no padrão do emprego do trabalho, a grande maioria dos entrevistados tem o corte
trabalhador da cana-de-açúcar para os próximos anos, da cana como sua única atividade de trabalho. Durante
mesmo com a intensificação do uso do álcool combus- a época da colheita, apenas 4,5% desses exercem uma
tível. Isto faz com que os atuais problemas enfrentados atividade secundária para complementar a renda. Se for
pelos trabalhadores do setor sejam importante objeto suposto que o período de safra dure exatos seis meses,
de estudo, tendo em vista o quadro social descrito um trabalhador que não obtenha qualquer outra fonte de
anteriormente. rendimento no período de entressafra teria uma renda
mensal média de R$ 217,00.
O presente artigo tem por objetivo abordar um dos
vários aspectos ligados à sazonalidade do emprego na De uma maneira geral, seja na safra ou entressafra,
Zona da Mata Pernambucana, a empregabilidade do tra- os entrevistados têm na atividade canavieira sua ocupa-
balhador, ou, em outros termos, que fatores individuais ção principal, já que cerca de 74% deles nunca conse-
contribuem para que o trabalhador da cana-de-açúcar guiram outro trabalho assalariado além do corte da cana.
consiga emprego no período da entressafra. O estudo se Dentre aqueles que um dia tiveram outro tipo de trabalho,
baseia nos microdados de uma pesquisa direta realizada, 26% empregaram-se principalmente na construção
pela Fundaj/Datamétrica, com cortadores de cana no pe-
ríodo do corte (dezembro de 2006). Para analisar como
se determina a empregabilidade desses trabalhadores  Fizeram parte da amostra os municípios de Goiana, Igarassu, Nazaré
da Mata, Vicência, Cabo de Santo Agostinho, Gameleira, Ipojuca,
na entressafra, são estimados dois tipos de modelos Rio Formoso. As entrevistas foram realizadas durante o momento de
probabilísticos, logit binário e logit multinomial, para trabalho nos canaviais de engenhos e usinas/destilarias. Na seção 3,
avaliar que variáveis interferem na probabilidade de são apresentados mais detalhes da amostra.
 Cerca de 92% dos cortadores têm sua carteira assinada na atividade do
obtenção de emprego. corte e 88% contribuem para a previdência social.

Revista Econômica do Nordeste, Fortaleza, v. 38, nº 3, jul-set. 2007 331


civil e prestação de serviços. Estes parecem ser os que mês. Apesar de haver uma predominância dos domicí-
flutuam na atividade do corte; são predominantemente lios na zona rural (55,9%), registrou-se um percentual
empregados não-agrícolas que vêem na atividade da cana significativo de 44,1% de cortadores habitando em áreas
uma estratégia secundária de sobrevivência. Em média, urbanas. Como já afirmado, os cortadores residentes
57% desses trabalhadores (o que representa apenas 14% em zonas urbanas são trabalhadores mais inseridos no
do total) moram em áreas urbanas e trabalham mais mercado de trabalho, pois realizam mais freqüentemen-
freqüentemente em atividades não-agropecuárias. te outras atividades além do corte da cana. De acordo
com os dados levantados, um percentual de 32,08%
O trabalho do corte da cana é realizado quase que dos moradores de áreas urbanas já teve outro trabalho
exclusivamente por homens: 98,8% dos entrevistados assalariado que não o do corte da cana, enquanto que
eram do sexo masculino. Esta é uma característica espe- este percentual entre os residentes de áreas rurais foi
rada, tendo em vista que é uma atividade que demanda de apenas 20,83%.
intenso vigor físico e apresenta remuneração diretamente
vinculada à produtividade do trabalhador. Sendo assim, A relação de mobilidade dos entrevistados entre
na decisão de maximização da utilidade familiar, os município de moradia e município de trabalho é ilustrada
homens da casa são eleitos para trabalharem no corte no Gráfico 1. De uma maneira geral, observa-se que a
da cana, ao passo que as mulheres devem-se ocupar de maioria dos cortadores de cana tende a morar no mesmo
outras tarefas. município em que se encontra trabalhando. Contudo,
há percentuais expressivos que revelam um certo grau
A renda média familiar e a renda per capita dos de mobilidade da mão-de-obra na atividade canavieira.
cortadores de cana pesquisados são inferiores àquelas Na maior parte dos casos, essa mobilidade ocorre entre
observadas para a população da Zona da Mata do Estado, municípios vizinhos. Por exemplo: 31,4% dos cortadores
como indica a Tabela 1. Uma das fontes da renda média de cana que trabalham em Vicência moram em Buenos
familiar são os benefícios concedidos pelos programas go- Aires, há apenas 9km de distância; 68% dos de Goiana
vernamentais de transferência de renda; aproximadamente moram em Aliança e 30% em Condado, que distam 31km
45% das famílias dos trabalhadores entrevistados recebem e 14km, respectivamente, daquele município. Contudo,
algum tipo de benefício com um valor médio de R$ 67,36 registra-se também a presença de cortadores que moram
ao mês. O recebimento de pensão por parte de membros em localidades relativamente distantes. Dos entrevista-
da família e o cultivo de outras culturas também compõem dos que trabalham em Nazaré da Mata, cerca de 42%
o leque de estratégias de sobrevivência. Cerca de 5% dos moram em Cabo de Santo Agostinho, que dista 76km
moradores do domicílio recebem pensões/aposentadorias do seu local de trabalho. Outro exemplo é Ipojuca, onde
e 21% dos entrevistados têm acesso à área de plantio. Eles cerca de 6% dos trabalhadores engajados no corte da
cultivam mais freqüentemente macaxeira, feijão, milho, cana moram em Vicência, que fica a 104km do seu local
inhame, mandioca e banana, e a maioria dessas culturas de trabalho. Esta mobilidade de maior distância parece
se destina ao consumo de subsistência, sendo reservado estar ligada ao grupo econômico contratante, pois as
algum excedente para venda. cidades exportadoras de mão-de-obra são vizinhas e as
cidades importadoras também. Além disso, um mesmo
Aproximadamente 60% dos entrevistados possuem grupo econômico possui usinas nas duas localidades
domicílio próprio, 28% habitam em casas cedidas e 11% (exportadoras e importadoras).
em moradias alugadas, pagando em média R$ 62 por

Tabela 1 – Renda Média Familiar Mensal


Média Renda média mensal (R$) Renda média mensal per capita (R$)
Média entre entrevistados 622,28 149,22
Média da Zona da Mata 1
759,72 215,58
Fontes: FUNDAJ (2007) e Dados obtidos do Censo Demográfico do IBGE de 2000.
Nota: Os valores foram atualizados para R$ de dez/2006 pelo Índice Nacional de Preço ao Consumidor (INPC).

 Um percentual de 34% do que é colhido se destina ao consumo e/ou


Ao final do período da colheita, cerca de 94% dos
venda. Contudo, vale notar que o tamanho médio dessas áreas de cortadores entrevistados são dispensados pela usina/
plantio é de somente 3,24ha, o que não permite uma produção que gere engenho. Os que permanecem vinculados à propriedade
percentuais significativos para venda. Logo, desses 34%, é possível que
grande parte se destine ao autoconsumo familiar e não à venda. podem ser considerados empregados “fixos”, já que tra-

332 Revista Econômica do Nordeste, Fortaleza, v. 38, nº 3, jul-set. 2007


Gráfico 1 – Município Onde o Entrevistado Está Trabalhando por Local de Moradia
Fonte: FUNDAJ (2007).

balham em média 5,5 meses, tempo que coincide com a vernamentais, ajuda financeira de parentes e amigos e
duração da entressafra. Dentre os que são dispensados, aposentadorias.
a grande maioria não consegue trabalho após o corte da
cana, representando 53% do total. Os que conseguem Dificuldades relativas à escolaridade e capacitação
empregar-se inserem-se, sobretudo, nas atividades profissional foram mencionadas pelos entrevistados
agropecuárias (inclusive pesca e cana), como pode ser como os principais empecilhos na obtenção de emprego
visto na Tabela 2. na entressafra. Contudo, embora 62% desses apontem
a baixa escolaridade e 10% indiquem a falta de expe-
Nesta época de entressafra, a renda média familiar riência/capacitação como obstáculos na obtenção de
cai de R$ 622,28 (no período de corte) para R$ 294,7410, emprego, apenas 2% buscaram qualificar-se na entres-
e as principais fontes de renda advêm dos rendimentos safra. De fato, o grau de escolaridade dos cortadores
de trabalho (sobretudo agropecuário), programas go- pesquisados é relativamente mais baixo do que o da

Tabela 2 – Principais Atividades em que se Empregam os Trabalhadores Safristas


Atividades %
Atividades agropecuárias (inclusive pesca) 51,69%
Construção civil e serviços ligados ao segmento 15,54%
Atividades ligadas à cana 15,20%
Atividades ligadas a serviços 11,49%
Atividades ligadas ao comércio 6,08%
Fonte: FUNDAJ (2007).

 Parte deste contingente possui área própria para plantio, de sorte que
o desemprego aberto (pessoas que efetivamente não possuem qualquer
tipo de ocupação) é de 41,9%.
10 O período de referência foi o do mês anterior ao do começo do corte.

Revista Econômica do Nordeste, Fortaleza, v. 38, nº 3, jul-set. 2007 333


população da Zona da Mata como um todo. A maioria Y02: Variável categórica assumindo o valor zero para
dos entrevistados, 46,60%, tem escolaridade concluída os trabalhadores que não tiveram ocupação na última
da 1ª à 4ª série. O percentual de analfabetos entre os entressafra, um para o trabalhador que continuou tra-
cortadores entrevistados, assinando ou não o nome, é de balhando na usina/engenho; dois para o trabalhador que
30,70%, valor relativamente elevado quando comparado obteve ocupação em outra atividade, mas com caráter
ao percentual de pessoas sem instrução ou com menos temporário; três para o trabalhador que obteve ocupação
de um ano de estudo da população de toda a Zona da em outra atividade, mas com caráter fixo; e quatro para
Mata, que é de 21%. o trabalhador que obteve ocupação em outra atividade,
tendo permanecido também na usina/engenho. Esta
variável foi elaborada a partir das mesmas perguntas
3 – METODOLOGIA DA PESQUISA que deram origem à variável anterior. Esta variável foi
A finalidade do artigo é detectar, a partir da utiliza- utilizada como variável dependente na estimação do
ção de técnicas econométricas, os fatores associados à modelo logit multinomial.
empregabilidade dos cortadores de cana na entressafra.
Com este objetivo, foram avaliadas duas técnicas de IDADE: trata-se da idade declarada do trabalhador.
regressão multivariada, mais especificamente, dois
modelos de regressão logit. O primeiro envolveu um ESCOLARIDADE: variável categórica assumindo o
modelo logit em que a variável dependente era o fato de valor zero para os trabalhadores analfabetos, um para os
o trabalhador ter conseguido algum tipo de emprego na trabalhadores com o primeiro grau incompleto; dois para
entressafra passada. O segundo envolveu um modelo trabalhadores com segundo grau incompleto; e quatro
logit multinomial em que a variável dependente incluía para trabalhadores com o segundo grau completo.
o tipo de colocação que este empregado conquistou
na safra passada. Importante notar que, no primeiro ESTUDO: variável binária assumindo o valor zero
modelo, a variável resposta é dicotômica (binária), ou para aqueles trabalhadores que não estavam estudando
seja, há apenas duas respostas possíveis, enquanto que, e um para os trabalhadores que estavam estudando.
no segundo modelo, a variável resposta pode assumir
múltiplos valores. CAPACIT: variável binária assumindo o valor zero
para os trabalhadores que não fizeram nenhum curso de
Os dados foram obtidos em pesquisa de campo capacitação profissional e um para os trabalhadores que
realizada durante o mês de dezembro de 2006 junto a fizeram algum curso de capacitação profissional.
601 trabalhadores do corte da cana. Estes trabalhadores
foram entrevistados de forma aleatória em 143 proprie- RURAL: variável binária assumindo valor zero para
dades, 2 destilarias, 12 usinas e 26 engenhos da Zona aqueles trabalhadores que moravam na zona urbana e um
da Mata de Pernambuco. O questionário era estruturado, para os trabalhadores que moravam na zona rural.
com poucas perguntas permitindo respostas abertas,
mas, mesmo assim, estas respostas não implicavam PROP_EMP: proporção dos membros da família
juízo de valor. A partir do questionário foi possível separar que estão procurando emprego. Trata-se de uma variável
algumas características dos trabalhadores que pudessem contínua no intervalo entre zero e um.
influenciar sua empregabilidade. As variáveis utilizadas
PROP_TRAB: proporção dos membros da família
nas estimações foram:
que têm renda de trabalho. Trata-se de uma variável
Y01: Variável binária assumindo o valor zero para contínua no intervalo entre zero e um.
os trabalhadores que não tiveram ocupação na última
PROP_INSS: proporção dos membros da família
entressafra e um para os trabalhadores que tiveram
que têm renda de pensão ou aposentadoria. Trata-se de
algum tipo de ocupação na última entressafra. Esta va-
uma variável contínua no intervalo entre zero e um.
riável foi montada combinando-se as respostas obtidas
às questões em que se perguntava se o trabalhador BOLSA: variável binária assumindo valor zero para
continuou trabalhando na usina/engenho após a safra e aqueles trabalhadores que não têm nenhum membro da
em que se perguntava se o trabalhador teve algum tipo família sendo atendido por algum tipo de programa de
de ocupação temporária ou fixa após o término da última transferência de renda por parte do governo e um para
safra. Esta variável foi utilizada como variável dependente aqueles trabalhadores que apresentam algum membro
na estimação do modelo logit.

334 Revista Econômica do Nordeste, Fortaleza, v. 38, nº 3, jul-set. 2007


da família sendo atendido por algum tipo de programa um trabalhador safrista encontrar algum tipo de ocupa-
de transferência de renda por parte do governo. ção na entressafra dado um conjunto de características
associadas a ele. Assim, para concepção do modelo de
PROFI: variável binária assumindo valor zero para regressão logística com esta finalidade, a variável de
aqueles trabalhadores que não têm outra profissão de- interesse (resposta) é definida da seguinte forma:
finida e um para aqueles que têm uma outra profissão
definida.

ASSAL: variável binária assumindo valor zero para Seja , com , a probabili-
aqueles trabalhadores que nunca tiveram outro trabalho dade do i-ésimo indivíduo ter tido ocupação. Desta forma,
assalariado além do corte de cana e um para aqueles tra- a probabilidade está relacionada com as variáveis
balhadores que já tiveram outro trabalho assalariado. explicativas através do modelo logístico:

T_TRAB: variável contínua indicando o tempo em


anos desde o último trabalho assalariado, fora o de
cortador de cana.

OUTRO_TRA: variável binária assumindo valor zero Em geral, modelos deste tipo envolvem um back-
para os trabalhadores que não exercem outro trabalho ground teórico para a seleção das variáveis. No caso
em simultâneo ao do corte de cana e um para os traba- desta pesquisa, as diversas variáveis descritas na seção
lhadores que exercem outra atividade simultânea. anterior foram testadas para checar quais as que apre-
sentam influência estatisticamente significante.
CONT: variável binária assumindo valor zero para
os trabalhadores que não acham que vão continuar Esta abordagem, partindo de um grande volume de
trabalhando na usina/engenho ou não sabem ou não possíveis variáveis explicativas e excluindo-se as que não
quiseram responder e um para os trabalhadores que se mostram significantes, é utilizada pela escola inglesa
acham que vão continuar trabalhando na usina/engenho de econometria e tem um importante uso nesta pesquisa.
após a safra. Uma vez que se destaquem as variáveis que são signifi-
cantes, ao mesmo tempo, chega-se a evidências de que
QUALI: variável binária assumindo valor zero para as demais não interferem na empregabilidade, ou seja,
os trabalhadores que não procuraram se qualificar na levantam-se questões sobre a efetividade de medidas
entressafra e um para os trabalhadores que procuraram tomadas por trabalhadores na busca por emprego, ou
se qualificar na entressafra. até de medidas de governo.

Os modelos logit e multinomial foram estimados a No modelo logit multinomial ou regressão logística
partir de procedimento exploratório, objetivando averi- multinomial, a variável resposta pode assumir múltiplas
categorias. Neste modelo, a variável dependente foi Y02
guar quais seriam as características que influenciam a
que representa o tipo de ocupação que o trabalhador con-
empregabilidade.
seguiu na última entressafra. Como neste caso existem
Modelos de regressão são técnicas adequadas para cinco respostas possíveis, o modelo geral seria dado
estudar o efeito que variáveis explicativas exercem sobre pela seguinte equação:
uma variável resposta. Em particular, o modelo logit,
ou a regressão logística, como é conhecido, é útil para
situações em que se quer predizer a presença ou ausência
de uma determinada característica baseada em valores
de um conjunto de variáveis preditoras. Esta regressão é Para resolver a indeterminação deste modelo,
similar a um modelo de regressão linear, porém é aplicada Greene (2000) sugere supor que o vetor de parâmetros
para modelos em que a variável dependente (resposta) da probabilidade do caso-base (nesta pesquisa, perma-
é dicotômica. necer desempregado) seja nulo. Desta forma o modelo
resume-se a:
No contexto desta pesquisa, e levando-se em conta
a definição da variável Y01, o modelo em questão irá
buscar quais os fatores que afetam a possibilidade de

Revista Econômica do Nordeste, Fortaleza, v. 38, nº 3, jul-set. 2007 335


A qualidade do ajustamento pode ser vista a partir
das informações de razão de verossimilhança do caso-
base (quando nenhuma variável explicativa é utilizada)
e a razão de verossimilhança do modelo em si. Quanto
Ou seja, são realizadas quatro regressões para
mais elevado este indicador, melhor é a qualidade do
se estimar um conjunto de quatro parâmetros. As
modelo ajustado. Este ganho de aproximadamente 15
regressões são realizadas, assim como no modelo
é testado formalmente no LR test, que cumpre papel
logit binário, usando-se um procedimento de máxima
semelhante ao teste F de significância global do mo-
verossimilhança e estimando-se todas as regressões
delo. O modelo como um todo se mostrou altamente
de forma simultânea.
significante, o que leva a crer que, mesmo com baixo
ajustamento, o modelo é capaz de acrescentar infor-
4 – RESULTADOS mações relevantes em explicar quais fatores afetam
Nesta seção, são apresentados os resultados das a probabilidade de um trabalhador da cana-de-açúcar
estimações nas duas abordagens, a logit e a multino- conseguir emprego na entressafra.
mial.
Os fatores que se mostraram significantes foram:
i) o fato de o trabalhador já ter experiência anterior em
4.1 – Modelo Logit outra atividade, que se mostrou diretamente relacionado;
Nesta seção, é apresentado apenas o modelo que ii) o fato de os trabalhadores acharem que continuarão
melhor se ajustou aos dados, não tendo apresentado trabalhando, que se mostrou diretamente relacionado;
problemas sob as pressuposições dos modelos econo- e iii) o fato de os trabalhadores terem feito algum tipo
métricos.11 A Tabela 3 apresenta os resultados principais de curso de qualificação na última entressafra, que se
da estimação. As estimações foram feitas com o uso do mostrou inversamente relacionado.
software Rats.
A leitura destes coeficientes não é similar à feita em
Como o modelo logit é calculado a partir de máxima uma regressão linear convencional. Utilizando-se a média
verossimilhança, utilizou-se o método de Newton-Raph- das variáveis explicativas, é possível calcular os efeitos
son, o mais indicado para este tipo de função de verossi- marginais de cada uma. Os resultados dos cálculos estão
milhança segundo Greene (2000). A Tabela 3 mostra que expostos na Tabela 4.
a convergência foi obtida com quatro interações, o que
mostra que as estimativas são estáveis. Como apenas Estes resultados indicam que as três variáveis são
três variáveis independentes foram significantes, o mo- altamente significantes. O fato de um trabalhador já ter tido
delo apresenta 597 graus de liberdade, o que permite que experiência em outras funções além do corte de cana eleva
as qualidades assintóticas dos estimadores de máxima a possibilidade de conseguir emprego na entressafra em
verossimilhança estejam presentes. alguma atividade. Isto mostra um grave problema para os

Tabela 3 – Resultados da Estimação do Modelo Logit


Binary Logit Estimation by Newton-Raphson
Convergence in 4 Iterations Final criterion was 0.0000007 < 0.0000100
Dependent Variable Y01 Usable Observations 601 Degrees of Freedom 597
Log Likelihood -400.661739 Average Likelihood 0.5134213
Pseudo-R**2 0.047995 Log Likelihood(Base) -415.181866
LR Test of Coefficients(3) 29.040 Significance Level of LR 0.0000022
Variable Coeff Std Error T-Stat Signif
Constant -0.333147595 0.102389505 -3.25373 0.00113901
ASSAL 0.763071840 0.194273863 3.92782 0.00008572
CONT 0.881640716 0.326032251 2.70415 0.00684790
QUALI -0.946834421 0.346459247 -2.73289 0.00627816
Fonte: Elaboração Própria dos Autores.

11 Por exemplo, em modelos logit, a heterocedasticidade leva a viés na


estimação dos parâmetros.

336 Revista Econômica do Nordeste, Fortaleza, v. 38, nº 3, jul-set. 2007


Tabela 4 – Efeitos Marginais das Variáveis
Variable Coeff Std Error T-Stat
Constant -0.08287 0.02508 -3.3042
ASSAL 0.18982 0.04834 3.9268
CONT 0.21931 0.08114 2,7028
QUALI -0.23553 0.08612 -2,7349
Fonte: Elaboração Própria dos Autores.

trabalhadores mais jovens e sem experiência. Os fatores probabilidade de cada uma das variáveis em questão. A
como educação e o fato de estar-se capacitando não se razão de probabilidade consiste na divisão entre o cenário
mostraram significantes, ou seja, na atual conjuntura da alternativo e o cenário-base, em que todas as variáveis
Zona da Mata, há uma armadilha que dificulta a entrada binárias são iguais a zero. Cada cenário alternativo cor-
destes jovens no emprego durante a entressafra. responde a um trabalhador que tenha apenas uma das
variáveis explicativas com o valor um. Traduzindo isto
O trabalhador considerar que será mantido na usina/ para os termos desta pesquisa, o cenário-base corres-
engenho também eleva a probabilidade de ele manter-se ponde a um trabalhador que não tenha outra experiência
em alguma ocupação durante a entressafra. Neste ponto, em trabalho, que não acha que vai ser mantido na usina/
o modelo pode estar capturando uma inversão de causa- engenho e que não fez curso de qualificação profissional
lidade, ou seja, como estes trabalhadores mantiveram-se na última entressafra. Um cenário alternativo seria um
empregados na usina/engenho na entressafra anterior, trabalhador que apenas tem experiência anterior em
eles estão fazendo a mesma previsão para este ano. outros trabalhos.

O mais surpreendente é a relação inversa entre o fato Além da razão de probabilidade, a Tabela 5 também
de o trabalhador ter buscado qualificação na entressafra apresenta o percentual em que a variável em questão
passada e a probabilidade de conseguir um emprego na aumenta a empregabilidade do trabalhador. Os dados
própria entressafra. Esta relação pode estar revelando a revelam, então, que o fato de o trabalhador já ter uma
tentativa dos desempregados em aumentar sua empre- experiência anterior em outra atividade eleva em 45%
gabilidade, mas cujos esforços ainda não tenham surtido a sua probabilidade de conseguir uma ocupação na
efeito. Em outras palavras, os trabalhadores podem estar entressafra. Já o fato de o trabalhador considerar que
buscando a capacitação somente após terem esgotado será mantido na usina/engenho eleva a probabilidade de
totalmente a possibilidade de conseguir uma ocupação manter-se ocupado em 51,82%. Por fim, ter procurado
na entressafra. Dos 43 trabalhadores que declararam qualificar-se reduz em 47,89% a probabilidade de o
qualificar-se, nenhum foi mantido no engenho/usina, trabalhador conseguir emprego.
um conseguiu ocupação fixa, 10 ocupação temporária
e 32 continuaram desempregados. Como a atividade na Estes resultados, em conjunto, revelam dois grandes
lavoura é, muitas vezes, incompatível com a capacitação, problemas: 1) a lógica da qualificação em educação não
tendo em vista as longas jornadas de trabalho, pode-se está funcionando na empregabilidade dos trabalhadores de
inferir que a hipótese de que a capacitação está sendo cana; e 2) há uma armadilha que prende aqueles que ainda
buscada, após o trabalhador ter tomado consciência de não tiveram oportunidade em colocação fora do corte de
que não conseguirá colocação, é válida. cana a esta única atividade e ao desemprego sazonal.

Outra maneira de ler os resultados do modelo logit é Um último indicador que costuma ser analisado em
analisando a razão de probabilidade. Esta é mais indicada estimativas de modelos binários é a tabela de esperan-
para este caso, em que todas as variáveis explicativas ça/previsão. Nesta tabela são relatados os acertos do
também são binárias. A Tabela 3 apresenta a razão de modelo e o ganho total de explicação que o modelo está

Tabela 5 – Mensuração dos Fatores que Afetam a Empregabilidade


Variável Razão de Probabilidade Empregabilidade
ASSAL 1,4513 45,13%
CONT 1,5182 51,82%
QUALI 0,5211 -47,89%
Fonte: Elaboração Própria dos Autores.

Revista Econômica do Nordeste, Fortaleza, v. 38, nº 3, jul-set. 2007 337


incorporando em relação ao cenário-base. Os resultados relatando-se somente a regressão que melhor se ajustou.
mostram que o modelo previu que 426 casos estariam Os resultados estão apresentados na Tabela 7. Em cada
na situação de desemprego, tendo acertado 256 destas coluna são relatados os coeficientes estimados para
previsões. Além disto, o modelo previu que 175 casos cada uma das situações além da considerada básica
estariam empregados na entressafra, tendo acertado (trabalhador permanecer desempregado). Abaixo do
110 destas previsões. Em síntese, o modelo acrescen- coeficiente estimado, está relatada a estatística do teste
tou um percentual de acerto de 7,49% em relação ao t, que foi calculada com um estimador robusto para a
caso-base. Este índice pode ser considerado baixo, o presença de heterocedasticidade.
que leva à tentativa de procurar um modelo que melhor
se ajuste com os dados. Este modelo é apresentado na Os dados da Tabela 7 revelam que os fatores que
próxima seção. afetam a probabilidade de um trabalhador manter-se na
usina (Y02=1) são sua crença em continuar na usina,
a proporção dos moradores da residência que estão
4.2 – Modelo Logit Multinomial procurando emprego e a proporção dos trabalhadores
Assim como no exercício do logit binário, foram na família que recebem benefício do INSS. Já para
testadas todas as variáveis descritas na primeira seção, os trabalhadores que conseguiram outra atividade
fora da usina, mas em caráter temporário (Y02=2)
Tabela 6 – Esperança / Previsão
Dependent Variable: Y01
Method: ML - Binary Logit (Newton-Raphson)
Prediction Evaluation (success cutoff C = 0.5)
Estimated Equation Constant Probability
Dep=0 Dep=1 Total Dep=0 Dep=1 Total
P(Dep=1)<=C 256 170 426 321 280 601
P(Dep=1)>C 65 110 175 0 0 0
Total 321 280 601 321 280 601
Correct 256 110 366 321 0 321
% Correct 79.75 39.29 60.90 100.00 0.00 53.41
% Incorrect 20.25 60.71 39.10 0.00 100.00 46.59
Total Gain* -20.25 39.29 7.49
Percent Gain** NA 39.29 16.07
Fonte: Elaboração Própria dos Autores.

Tabela 7 – Regressões Estimadas


Y02=1 Y02=2 Y02=3 Y02=4
C -5,2364 -0,4364 -4,7710 -3,9019
-7,0840 -3,7255 -6,8055 -6,8594
CONT 3,9282 -0,2451 0,8706 3,1587
4,4285 -0,5610 0,7251 5,0044
PROP_EMP 3,2515 -0,4041 0,8003 1,4811
1,7313 -1,1328 0,8823 1,5960
PROP_INSS 0,0417 0,0354 0,0430 -5,1211
3,8953 1,3875 0,7015 -1,0452
OUTRO_TRA 1,8277 -0,0857 1,0728 1,2582
1,1902 -0,1936 1,1992 1,2753
ASSAL 0,0759 0,6258 2,6550 0,4099
0,0416 3,1134 3,1864 0,5309
Pseudo r2 0,1997
LR Teste 1.266,575 Sig. 0,0000
Fonte: Elaboração Própria dos Autores.

338 Revista Econômica do Nordeste, Fortaleza, v. 38, nº 3, jul-set. 2007


o único fator que afeta a probabilidade é o fato de já a razão de probabilidade para as duas situações, com a
ter tido algum trabalho assalariado anteriormente. Os variável igual a zero e com a variável igual a 1. Após isto,
trabalhadores que caíram na situação de conseguir faz-se a razão entre estas duas razões de probabilidades.
um trabalho fora da usina/engenho com caráter fixo Este procedimento isola o efeito de uma variável expli-
(Y02=3) também apresentaram como único fator sig- cativa sobre a probabilidade em questão.12
nificante o trabalho assalariado anterior. Por fim, os
trabalhadores que se mantiveram na usina e também Já para as variáveis contínuas, foi estimado o
conseguiram uma atividade fora tiveram como um úni- logaritmo da razão de probabilidades para proporções
co fator determinante a sua expectativa em continuar variando entre 5% e 100% das pessoas nas famílias para
na usina/engenho. a variável com que se desejava analisar o impacto, com
as demais variáveis cotadas em sua média amostral.
Para analisar melhor estes resultados, é preciso Feito isto estes resultados são normalizados utilizando-
analisar os efeitos marginais das variáveis. Esta análise é se a variável contínua em questão com proporção nula.
feita a partir do logaritmo da razão de probabilidades, que Então, é possível fazer o gráfico em que a probabilidade
apareça em função da proporção.
é dado por: . O vetor x foi montado consi-
Os resultados complementam as conclusões en-
derando as variáveis em sua média. No caso específico de contradas no modelo logit, descritas na seção anterior,
se analisar o impacto de uma variável dummy, calcula-se porém, permitindo um melhor detalhamento. O fator que

Gráfico 2 – Influência da Procura de Emprego sobre a Empregabilidade


Fonte: Elaboração Própria dos Autores.

12 Para ver isto note que , quando a variável dummy assume

o valor 1. e , quando a variável dummy assume o valor

0. A razão das duas é dada por: .

Revista Econômica do Nordeste, Fortaleza, v. 38, nº 3, jul-set. 2007 339


se mostra determinante na continuidade do trabalhador pessoas da família que estavam procurando emprego
na usina/engenho é a sua expectativa em continuar. Re- mostra um aumento exponencial na probabilidade de
alizando os cálculos descritos anteriormente, conclui-se o trabalhador manter-se na usina/engenho, conforme
que a probabilidade de o trabalhador continuar emprega- aumenta a proporção. A média desta variável na amostra
do aumenta aproximadamente 51 vezes, se ele considerar foi de 0,1661, ou seja, em média, 16,61% dos membros
possível ser mantido pela usina/engenho. A leitura que das famílias estavam procurando emprego. No nível
pode ser feita é que os trabalhadores que costumam médio, o crescimento na probabilidade de o trabalha-
manter-se empregados nas usinas acabam formando dor manter-se na usina/engenho é de apenas 1,7161
esta expectativa, ou seja, existe uma retroafirmação do vezes. Isto significa que o alto nível de desalento entre
emprego, tornando difícil para os trabalhadores que estão os trabalhadores da cana-de-açúcar ajuda que eles se
fora deste núcleo conseguir entrar. mantenham desempregados na entressafra. De fato,
os dados da pesquisa mostram que, em cada domicílio
Uma diferença que se pôde notar entre o modelo que possui em média cinco moradores, há pelo menos
logit binário e o modelo logit multinomial foi a signifi- um membro da família em idade ativa que não procura
cância da proporção de membros da família que estão emprego por desalento13.
procurando emprego e a proporção dos membros da
família que recebem algum benefício do INSS. Os Grá- Já o Gráfico 3, onde se mostram os efeitos do au-
ficos 2 e 3 mostram o aumento da probabilidade, dada mento da proporção do número de familiares que recebem
uma elevação na proporção. O gráfico da proporção das benefícios do INSS sobre a probabilidade de o trabalhador

Gráfico 3 – Influência do Recebimento de Benefícios do INSS sobre a Empregabilidade


Fonte: Elaboração Própria dos Autores.

13 A configuração familiar revela que, dentre os moradores do domicílio,


apenas dois contribuem com as despesas da casa; o restante, por
exclusão, depende financeiramente dos contribuintes. Se, para cada
família, apenas um morador em média tem menos de 10 anos e somente
um morador está procurando emprego, isto implica que há pelo menos
um membro da família em idade ativa que não procura emprego por
desalento.

340 Revista Econômica do Nordeste, Fortaleza, v. 38, nº 3, jul-set. 2007


manter-se na usina/engenho cresce muito pouco, não trabalhadores para verificar quais influenciaram a proba-
atingindo 1,05 vez. A proporção média de pessoas da bilidade de estes conseguirem ocupação na entressafra.
família beneficiárias do INSS foi de 0,771 na amostra. O O modelo logit apresentou resultados surpreendentes ao
que leva a um aumento de 1,0327 vez a situação-base, indicar que cursos de qualificação não estão elevando
em que nenhum familiar recebe benefícios do INSS. Este esta probabilidade, mas, sim, reduzindo-a. O modelo
efeito, apesar de pequeno, é positivo, pois o fato de estar logit multinomial mostrou que há diferenças nos fatores
havendo concessões do INSS não está diminuindo a em- que determinam a empregabilidade, dependendo do tipo
pregabilidade dos trabalhadores, ou seja, a transferência de colocação na entressafra. Manter-se no emprego da
de renda não está afetando negativamente os incentivos a cana-de-açúcar depende das expectativas dos trabalha-
trabalhar. Talvez até pela pequena monta destas transferên- dores quanto a isto (o que corrobora as conclusões do
cias e também por serem domicílios com maior razão de modelo logit) e também da proporção de pessoas da
dependência, ou seja, com uma maior proporção relativa família que procuraram emprego na entressafra e que
de pessoas não economicamente ativas. recebem benefícios do INSS. Conseguir emprego fora
da atividade canavieira mostrou-se dependente apenas
Outra variável que foi significante no modelo logit foi
da experiência profissional anterior.
o fato de o trabalhador já ter alguma experiência anterior
em trabalhos assalariados. A diferença é que esta variável A partir destas conclusões parciais, é possível destacar
apenas foi significante para os trabalhadores que conse- que escolaridade e qualificação não estão afetando a empre-
guiram alguma atividade (fixa ou temporária) em outra gabilidade de forma positiva, o que leva à necessidade de
atividade além da canavieira. O fato de o trabalhador já
analisar dois importantes aspectos em pesquisas futuras.
ter uma experiência anterior com o trabalho assalariado
O primeiro é a adequabilidade e qualidade do ensino e dos
aumenta a sua probabilidade de conseguir uma atividade
cursos de qualificação que estão sendo oferecidos. Se estes
assalariada com caráter temporário em 1,8698 vez. No
não se mostrarem adequados, o mercado não utilizará esta
caso de o trabalho ser assalariado fixo este aumento é na
característica individual como determinante na contratação
ordem de 14,2245 vezes, muito maior. Ou seja, a armadilha
do trabalhador. O segundo aspecto é no tocante à demanda
descrita no modelo anterior de dificuldade de inserção dos
de trabalhadores. Se os empregos gerados em outras ativi-
trabalhadores com pouca experiência em outras atividades
na entressafra confirma-se neste modelo. dades no período da entressafra forem de qualidade muito
baixa, a escolaridade e qualificação profissional não serão
A probabilidade de que um trabalhador consiga importantes na contratação.
manter-se na usina/engenho e também consiga outra
atividade assalariada é afetada significantemente apenas Desta forma, uma importante implicação na elabo-
pela sua crença de que irá manter-se na usina. Neste ração de políticas públicas para atacar o problema da
caso o acréscimo é na ordem de 23,5397 vezes maior entressafra é a necessidade de se conjugarem melhorias
quando o trabalhador acredita que irá permanecer na no ensino e na qualificação com a geração de emprego
usina/engenho. e renda em atividades que agreguem mais valor e dêem
oportunidade à contratação de trabalhadores com pouca
experiência anterior.
5 – CONCLUSÕES
Apesar de ser a região com o melhor potencial agrí-
Agradecimentos
cola do Estado, com atividade secular e de produto com
mercado mundial em expansão, a Zona da Mata Pernam- “Os autores agradecem à Coordeção Geral de Eco-
bucana apresenta indicadores socioeconômicos abaixo da nômicos e Populacionais da Fundação Joaquim Nabuco
média do Estado, destacando-se a estrutura fundiária alta- por ter cedido os microdados da pesquisa Instantâneos
mente concentrada, reduzidos níveis de escolaridade e de da Realidade Social 2: Desemprego Sazonal na Atividade
renda per capita. Além disto, a região tem problemas com Açucareira Pernambucana: Zona da Mata e Região Me-
a sazonalidade do emprego, uma vez que, no período da tropolitana do Recife.”
entressafra, um contingente de aproximadamente 41.000
trabalhadores homens fica desempregado, dependendo de
transferências de renda para sobreviver.
Abstract
O artigo explorou com modelos econométricos This paper is about the worker employed in the su-
diversas características individuais e familiares dos gar cane harvest in the State of Pernambuco. It is based

Revista Econômica do Nordeste, Fortaleza, v. 38, nº 3, jul-set. 2007 341


on a field research made in December 2006, in Zona da HAMASAKI, C. O setor sucroalcooleiro e seus
Mata region. The article describes the typology of the trabalhadores: emprego e pobreza na zona da mata
workers, who were male in their majority, and addresses de Pernambuco. 1997. 118 f. Dissertação (Mestrado)
to the question of seasonal unemployment in the period – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 1997.
between harvests. The goal was to find which factors
determine the probability of a sugar cane worker to get IBGE. Produção agrícola municipal. Rio de Janeiro,
a job after the harvest. Binary logit and multinomial logit 2007.
models were estimated to explain such probability. The
binary logit model showed that variables such as previous
______. Produto interno bruto dos municípios: 2004.
experience in other kind of activity different from the
Rio de Janeiro, 2006.
sugar cane one, the worker’s belief in keep on working
in the sugar cane properties or plants after the harvest
and the engagement in qualification courses affect the IPSA. Matriz insumo-produto de Pernambuco: 1999.
probability of employment. However, the impact of the Recife, 2004.
qualification courses had a different result from what
is expected. The multinomial logit presented similar UNDP. Atlas do desenvolvimento humano: Brasil.
results and, in addition, it revealed that the proportion Brasília, DF, 2000.
of family members searching for a job and receiving
INSS aid influenced the worker’s probability on keep on
working in the sugar cane activity in the period between Recebido para publicação em 22.08.2007
harvests. The probability of getting a job outside this
activity was affected by previous experienced in other
kind of activity different from the sugar cane one. The
paper concludes that there is a small fraction of workers
who get qualification, but this experience does not seem
to be effective.

Key words:
Employment; sugar cane worker; Zona da Mata;
Pernambuco; Periods between harvests; Professional
Qualification.

REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Relação
Anual de Informações Sociais: RAIS. Brasília, DF,
2005.

FUNDAJ. Instantâneos da realidade social 2:


desemprego sazonal na atividade açucareira da zona
da mata pernambucana: relatório de pesquisa. Recife,
2007.

FURTADO, C. Formação econômica do Brasil. 22. ed.


São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1987.

GREENE, W. H. Econometric analysis. 4. ed. Upper


Saddle River: Prentice Hall, 2000.

342 Revista Econômica do Nordeste, Fortaleza, v. 38, nº 3, jul-set. 2007

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