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Estética E Semiótica Aplicada Ao Design: Aula 5

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ESTÉTICA E SEMIÓTICA

APLICADA AO DESIGN
AULA 5

Prof. Humberto Costa


CONVERSA INICIAL

Chegou o momento de colocarmos os conceitos teóricos em prática. Se a


análise estética nos ajuda a melhorar nossa capacidade de leitura dos objetos
(signos) e nossa habilidade de elaboração de mensagens comunicativas, a
análise semiótica irá ampliar tal capacidade e habilidade. Isso acontece porque
iremos lançar um olhar diferenciado, livre de pré-conceitos e interpretações
imediatas.
Tanto o preconceito quanto as interpretações imediatas nos aprisionam
no reino da terceiridade, e estar ali aprisionado é debilitante em situações em
que a criatividade, a inovação, o pensamento sagaz são necessários. Tal prisão
enfraquece nossa capacidade de leitura, de criação, de atuação, de existência e
nos tornamos cidadãos quase-inertes.
Só evoluímos (e inovamos) quando nossa capacidade de leitura e de
criação são ampliadas. Quando lemos o mundo com olhares novos, quando
exploramos outras perspectivas, quando duvidamos de visões de mundo
estabelecidas e questionamos os padrões, as normas, as regras, estamos
melhorando como pessoas. Ora, é a pessoa o centro do mundo! No design,
assim como em qualquer outra área do saber e do fazer humano, são as pessoas
o ponto de partida e de chegada de qualquer processo (direta ou indiretamente).
Vamos aproveitar todo o potencial que a estética e a semiótica nos
oferecem para melhorarmos. Melhorarmos como pessoas, como profissionais,
como cidadãos.

CONTEXTUALIZANDO

O que há em comum entre algumas invenções que foram capazes de


modificar nossa maneira de ver o mundo? Todas são fruto de olhares
desarmados, postura questionadora e mente aberta. São várias as invenções
inovadoras e a maioria das pessoas conhecem a sua história: o velcro, o
paraquedas, post-it etc. Outas histórias são desconhecidas da maioria das
pessoas, como os relógios Swatch e a Nintendo. Ainda, há outras histórias de
inovações bem-sucedidas que só alguns privilegiados conhecem, como é o caso
da lâmpada Metamorfosi, fabricada pela Artemide.

2
Quando lançada, a lâmpada Metamorfosi mudou o conceito de
iluminação. Em outras palavras, mudou o significado de lâmpada, luminária e
iluminação. A Metamorfosi, ao invés de iluminar, criava uma ideia de iluminação
que poderia variar com, por exemplo, o estado de humor do usuário. O conceito
da Metamorfosi já foi copiado e encontramos lâmpadas similares que podem
mudar a tonalidade da luz e criar ambientes multicoloridos, capazes de se
adequar ao estado de humor das pessoas ou aos eventos1.
O que nos interessa é: como os inventores conceberam tais criações? Na
maioria dos casos, não se trata de genialidade ou de revelação divina. Trata-se
de algo mais mundano e humano: comportamento! Ou melhor, mudança de
comportamento.
Ao nos comportarmos de forma aberta e atenta, livrando-se de pré-
conceitos e visões concebidas, conseguimos dar outros significados aos objetos.
Tudo isso começa com a curiosidade e o questionamento. Quantas vezes nos
perguntamos, diante de uma determinada situação: por que é assim? Há outra
forma de uso? Posso fazer diferente? E se não fosse assim, mas de outro jeito?
É com o intuito de promover uma mudança na forma como olhamos para
os fenômenos que faremos nosso percurso. Assim, nesta aula, iremos tratar de
um percurso para realizarmos uma leitura semiótica de objetos. Iniciaremos
falando do signo e seu fundamento, abordaremos o poder sugestivo e
representativo do signo, bem como consideraremos os níveis de interpretação
do signo. Terminaremos o percurso com uma análise semiótica em que teremos
a chance de aplicar o conhecimento adquirido. Nosso objetivo, agora, será
aprendermos a elaborar uma análise estética de objetos, bem como
compreender sua importância.

TEMA 1 – PERCURSO PARA A REALIZAÇÃO DE UMA ANÁLISE SEMIÓTICA

A semiótica, assim como a estética, amplia nossa capacidade de leitura e


de produção de mensagens. Todavia, no que concerne à produção de
mensagens, ela está diretamente ligada à nossa capacidade de leitura. Assim,
quanto melhor for a nossa capacidade de ler o mundo, melhor será a nossa
capacidade de criação de mensagens.

1
Veja um exemplo da lâmpada Metamorfosi no site da Artemide. Disponível em:
<[Link] Acesso em: 14 maio 2020.

3
A análise semiótica é outro meio que usamos para ler o mundo. A análise
estética nos auxilia nas questões estruturais da mensagem e a análise semiótica
nos auxilia nas questões simbólicas. Na verdade, uma boa leitura não faz
distinção entre uma análise e outra. Ambas complementam a leitura. Só fizemos
tal divisão, aqui, porque estamos aprendendo. A partir do momento em que
estiver familiarizado com a temática, você fará ambas as análises,
automaticamente.
Para que possamos elaborar uma boa análise semiótica, é imprescindível
que executemos algumas etapas. Na verdade, não há um jeito certo ou errado
de se fazer uma análise semiótica, mas há uma forma que nos poupa tempo e
nos ajuda a atingir o propósito.
Vamos propor um roteiro que deve ser rigorosamente respeitado para
chegarmos a uma análise semiótica plausível e rica em conteúdo. Tal roteiro é
comporto por três etapas:

1) Contemplação;
2) Observação;
3) Generalização.

Na primeira etapa, vamos nos encontrar com as qualidades do signo. Na


segunda etapa, vamos olhar para a singularidade do signo. Na terceira etapa,
vamos extrair o geral do particular com relação ao signo.
A seguir, vamos tratar de cada uma das etapas.

TEMA 2 – OLHAR PARA O SIGNO E SEU FUNDAMENTO

Qual a diferença entre um pôr do sol outonal e um pôr do sol de verão?


Há diferença entre a cor azul de um céu de primavera e a cor azul de um céu
invernal? Você só vai conseguir responder a essas simples perguntas se alguma
vez já parou para contemplar cada um dos quatro objetos. A resposta para
ambas as perguntas é sim. Há diferença nada sutil entre o pôr do sol de verão e
o pôr do sol outonal, assim como há diferença nada sutil entre a cor azul de um
céu de primavera e a cor azul de um céu invernal.
As perguntas acimas foram elaboradas tomando por base a qualidade de
um fenômeno. Para que possamos perceber as qualidades de um objeto, temos
de contemplá-lo.

4
Contemplar um objeto (um fenômeno) é tornar-se disponível a ele quando
ele se apresenta aos nossos sentidos (Santaella, 2002), investigando-o,
deixando-o mostrar-se. Nesse momento, não cabe interpretações imediatas. No
nosso dia a dia, tendemos a interpretar os fenômenos imediatamente. Esse ato
é importante para muitas operações básicas que temos de lidar, mas é muito
prejudicial quando estamos a contemplar algo. Temos de limpar nossa mente
dos pensamentos e deixar que o momento nos toque pelo contexto e pelo frescor
daquilo que se apresenta. Assim, temos a chance de nos aproximar do estado
desarmado que é próprio da primeiridade (Santaella, 2002).
Por exemplo, olhar para o azul dos olhos de uma pessoa e interpretá-lo
imediatamente como olho azul termina o processe de leitura. Perdemos, com
isso, os demais detalhes que poderiam enriquecer uma conclusão mais
elaborada. Disso, vemos que o ato de contemplar demanda tempo e paciência.
As qualidades de um fenômeno só podem ser contempladas. Por sua
natureza, qualidades somente sugerem, evocam, aludem e apenas podemos
senti-las. Aquilo que apela para a nossa sensibilidade são qualidades, e é por
isso que na primeiridade, o sentimento e os sentidos são os mais importantes.
Sentimentos não podem ser definidos, tal como definimos uma forma,
como um círculo. É por isso que é muito difícil (senão, impossível) definirmos o
sentimento de amor, felicidade, raiva etc. O máximo que conseguimos é exprimir
sentimento usando símbolos (a pomba branca que representa a paz, por
exemplo).

Figura 1 – As qualidades de uma pintura de Miró

Crédito: [Link]/Shutterstock.

5
Quando olhamos para a Figura 1, o que nos salta aos olhos são
qualidades. Esta é a primeira coisa que deve ser procurada num fenômeno.
Qualidade das formas, das cores, dos movimentos, dos pesos, da organização
espacial, o peso dos pontos, das linhas, o equilíbrio etc. Se perguntarmos de
início “o que o artista quis dizer com isso?”, interrompemos nossa leitura. Aliás,
o que nos interessa saber o que alguém quis dizer com a sua obra? O que
sentimos com a obra de alguém é o que realmente importa.
Foi o olhar contemplativo, concentrado nas qualidades do agarrar e do
soltar do carrapicho2 que facilitou a concepção do velcro. Quantas outras ideias
nasceram desse olhar contemplativo? Várias!
Então, nesse primeiro momento, devemos desenvolver e exercitar o
nosso olhar contemplativo, uma vez que precisamos, primeiramente, considerar
a pura possibilidade qualitativa do signo. Para tanto, necessitamos ter a
porosidade para suas qualidades, sem a pressa das interpretações já prontas. A
capacidade para apreender qualisignos deve ser aprendida e, então, temos de
expor com muita paciência os nossos sentidos às qualidades dos fenômenos,
buscando suas qualidades.

Figura 2 – As qualidades presentes em uma pintura de Rothko

Crédito: neftali/Shutterstock.

2
Veja uma imagem do carrapicho, caso você não conheça a planta. Disponível em:
<[Link] Acesso em: 14
maio 2020.

6
A imagem presente na Figura 2 mostra uma pintura do artista Mark
Rothko, produzida em 1956. O que podemos extrair desse signo senão
qualidades? Qualidades estas que estão presentes nas cores, nas formas, nas
texturas, no movimento (do pincel, do pintar). Ao analisar esse tipo de fenômeno,
devemos nos deter naquilo que as qualidades nos sugerem. Nas emoções que
evocam e naquilo que sentimos. Mesmo objetos mais prosaicos, como uma
colher, são dotados de qualidades, evocam emoções e nos levam a sentir algo.
Detenha-se nas qualidades da colher presente na Figura 3. Faça o mesmo
exercício, olhando para a escultura de Constantin Brancusi (Figura 5) e para a
montanha da Figura 6.

Figura 3 – Fotografia de uma colher

Crédito: Africa Studio/Shutterstock.

Figura 4 – Mademoiselle Pogany, escultura de Constantin Brancusi

Crédito: MariaAlexa/Shutterstock.

7
O próximo passo é nos concentrarmos na singularidade do signo. Eis que
a nossa capacidade perceptiva deve entrar em ação para exercitarmos nosso
olhar observacional. Vamos nos concentrar na existência singular do fenômeno
para conseguir discriminar os limites que o diferenciam do contexto ao qual ele
está imerso, visando distinguir partes e todo (Santaella, 2002).

Figura 5 – Fotografia de uma montanha

Crédito: FROGtograph/Shutterstock.

Olhe para a imagem da montanha presente na Figura 5. Esta foto, que


retrata uma montanha, tem várias singularidades: a foto foi capturada por uma
pessoa específica, em um tempo específico, em uma determinada posição e
horário, utilizando determinada câmera etc. São essas singularidades que
devem ser evidenciadas e que enriquecem uma análise. Atente para o fato de
que estamos considerando a fotografia, e não o objeto fotografado, pois se fosse
este, o teor da análise seria diferente.
Outro exemplo: o seu monitor de computador, mesmo sendo um produto
que é fabricado em massa, tem particularidades que são só dele. Pode ser que
ele esteja arranhado ou decorado, e isso faz com que ele seja único. Esse
segundo tipo de fundamento do signo requer que observemos o modo particular
como algo se corporifica — ou seja, a observação de suas características
existenciais —, que nele é único e irrepetível. Então, é necessário desenvolver

8
considerações situacionais sobre o universo no qual o signo se manifesta e do
qual ele é parte.
Por fim, chegamos ao terceiro tipo de olhar que devemos dirigir aos
fenômenos, ou seja, o olhar generalizante. Aquele olhar que brota do
desenvolvimento da capacidade de generalização. Temos de extrair o geral do
particular, ou seja, pinçar dos fenômenos aquilo que ele tem em comum com
todos os outros fenômenos com que forma uma classe geral (Santaella, 2002).
Usando o exemplo do seu monitor, ele faz parte de uma classe de produtos
produzidos em série; faz parte de uma categoria de produto eletrônico; é
acessório de um tipo específico de máquina; e assim por diante. Essas
generalizações estão no âmbito do aspecto de lei do signo.
Do que falamos, deve ser retido que o olhar contemplativo visa os
qualisignos do fenômeno (qualidades), o olhar observacional visa as
singularidades do fenômeno e o olhar generalizante está em busca do geral no
particular.

TEMA 3 – CONSIDERAR O PODER DE SUGESTÃO E REPRESENTAÇÃO DO


SIGNO

Depois desse estágio, passamos para o segundo estágio em que


analisamos o objeto do signo e exploramos o poder sugestivo, indicativo e
representativo do signo. Para facilitar nossa análise, questões simples como “a
que o signo se refere?”, “a que ele se aplica?”, “o que ele denota?”, “o que ele
representa?” devem ser respondidas.
A forma ideal de iniciarmos nossa análise do objeto do signo é olhar para
o objeto imediato. O objeto imediato do signo diz respeito à maneira como o
objeto dinâmico se apresenta. Funciona como um indicador do recorte que o
leitor faz no contexto (objeto dinâmico), que determina o signo (Santaella, 2002).
Para relembrarmos o que é o objeto imediato e objeto dinâmico, coloco a
questão: qual o objeto imediato e o dinâmico de um olhar?
Imagine que o seu melhor amigo lhe chamou para uma festa e marcou de
se encontrar em um determinado local. Quando você chega lá, você dá de cara
com seu amigo e, nesse momento, uma avalanche de signos irá aparecer
imediatamente. Nessa situação, podemos dizer que o objeto dinâmico é a

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pessoa física diante de você com seus gestos, tom de voz, modo de falar, de se
vestir etc., imerso no contexto que a rodeia. O objeto imediato é somente aquilo
que você consegue capturar das múltiplas outras dimensões que aquela pessoa
tem: a que distância você está da pessoa, sob qual ângulo a vê, o cheiro do
perfume que ela usa, o penteado, os adornos corporais etc. Por exemplo, se
você estiver de frente para o seu amigo, você não verá os detalhes que estão
nas costas dele (e vice-versa).
Ao analisarmos o objeto do signo, também devemos lançar aqueles três
olhares: contemplativo, observacional e generalizante.
A primeira espécie de olhar é aquela que considera a qualidade. Vamos
nos deter nas sugestões, evocações, associações que a aparência do signo
exibe, uma vez que qualidades de aparência podem assemelhar a quaisquer
outras qualidades de aparência (Santaella, 2002). Por exemplo, a pele lisa de
uma jovem mulher pode se assemelhar à pele lisa de uma maçã.
Na sequência, vamos observar e considerar apenas o aspecto existente
de um signo. Nesse caso, o objeto imediato diz respeito à materialidade do signo
como parte do universo a que o signo existencialmente pertence (Santaella,
2002). Aqui, o objeto imediato se presentifica como parte de um outro existente
(o objeto dinâmico) que está fora dele. É o caso de uma foto cujo objeto imediato
está no enquadramento e ângulo específicos que aquela foto fez do objeto
fotografado. Quer dizer, a imagem que aparece na foto é somente um pedaço
de algo maior e que a foto não pode dar conta por inteiro.

Figura 6 – Objeto imediato e dinâmico do signo

Crédito: Maxisad/Shutterstock.

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Na Figura 6, vemos uma fotografia do que parece ser um homem
ajeitando sua gravata. Tal foto mostra apenas um recorte (objeto imediato) de
algo maior (objeto dinâmico).
A terceira espécie de olhar que devemos dirigir ao objeto do signo é
aquela que leva em conta a propriedade da lei como fundamento. Dessa forma,
o objeto imediato é um certo recorte do objeto dinâmico. Para exemplificar, pense
em como a mulher era representada no cinema na década de 1950, e como a
mulher é representada em dias atuais.
Tratar do objeto dinâmico significa falar em como o signo se reporta àquilo
que ele representa. Ora, o objeto dinâmico determina o signo, mas só temos
acesso àquilo que o signo representa através do objeto imediato. Assim, há três
modos através dos quais os signos se reportam aos seus objetos dinâmicos:
icônico, indicial e simbólico (ver Figura 7).

Figura 7 – Objeto imediato e dinâmico do signo

O ícone é um tipo de signo que representa seu objeto por apresentar


qualidades em comum. As referências dos ícones são abertas e indeterminadas.
Quando exploramos os aspectos icônicos do signo, devemos atentar para o
poder sugestivo dos qualisignos, pois é desse poder que depende a possível
referencialidade dos ícones.
Com referência aos índices, a referencialidade é direta. A análise da
indexicalidade é a mais fácil de ser realizada, bastando nos atentar para as

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direções em que o sin-signo aponta. Ora, índices têm a forma de vestígios,
traços, deixam marcas e são com eles que mais lidamos no dia a dia.
Embora menos simples, o aspecto simbólico pode ser muito rico. Tendo
sua base nos legi-signos, que na semiose humana são quase sempre
convenções culturais, o exame do símbolo nos leva para um vasto campo de
referências que incluem os costumes, valores culturais e todos os tipos de
padrões estéticos e comportamentais (Santaella, 2001).

TEMA 4 – CONSIDERAR OS NÍVEIS DE INTERPRETAÇÃO

Agora vamos para o último estágio: o interpretante do signo. Vimos que o


signo peirceano é triádico, portanto, é somente na relação com o interpretante
que o signo completa sua ação como signo. Isso quer dizer que quando o signo
é interpretado, esse ato de interpretar engloba os outros dois aspectos do signo:
o fundamento e o objeto. Nesse processo de interpretação, temos que tomar
cuidado, pois quando interpretamos signos, nossas interpretações são intuitivas,
e podemos não nos dar conta da complexidade das relações que estão
implicadas nesse processo. Caso contrário, é bem provável que o intérprete
chegue a uma interpretação já pronta, retirada de um repertório comum
(Santaella, 2001) e que não apresenta nada de novo.
Como visto, são três os níveis do interpretante, dos quais a análise
semiótica deve dar conta. O primeiro nível é o do interpretante imediato, que diz
respeito ao potencial que o signo tem para produzir certos efeitos. O interpretante
imediato situa-se no reino das possibilidades, esperando por um intérprete para
efetivar, no nível subsequente, o do interpretante dinâmico, alguma de suas
possibilidades (Santaella, 2002).
O nível seguinte é o do interpretante dinâmico. Nesse nível, vamos
explicitar os níveis interpretativos que as diferentes facetas dos signos
efetivamente produzem em um intérprete. Segundo Santaella (2002), os níveis
interpretativos efetivos distribuem-se em três níveis: emocional, energético e
lógica. O nível emocional diz respeito às qualidades de sentimento e de emoção
que o signo é capaz de produzir no intérprete. O nível energético, o signo impele
uma ação física ou puramente mental. No nível lógico, ocorre um aprendizado.
Por exemplo, os intérpretes que não têm conhecimento musical ficam sob
o domínio do interpretante emocional ou do energético. Ou seja, quando dançam

12
sob efeito da música ou fazem algum esforço para compreender seus
significados, mas não atingem o interpretante lógico. Nada além da simples
constatação de que se trata de algum tipo de música: popular, clássica,
instrumental etc.
Quanto ao interpretante final, este não pode ser nunca atingido por um
intérprete. Tem a ver com o teor coletivo da interpretação. Trata-se de um limite
ideal, mas inatingível, para o qual os interpretantes dinâmicos tendem
infinitamente. Isso acontece pelo simples motivo de que jamais podemos esgotar
o significado de um signo.

TEMA 5 – ANÁLISE SEMIÓTICA DE UMA LOGOMARCA

Para exercitarmos o que vimos aqui, vamos analisar a marca Nike. Esta
análise considerou como base os trabalhos de Santaella (2001; 2002).
Tomaremos como ponto de partida a imagem presente na Figura 8 e
consideraremos que a relação que se estabelece entre a marca e os
consumidores suscita uma relação de identificação semiótica, por meio da qual
as características da marca provocam determinados comportamentos.

Figura 8 – A marca da Nike

Crédito: Rose Carson/Shutterstock.

Primeiramente, é importante que conheçamos a história da Nike e de sua


marca. Tanto a figura da asa que está na marca Nike, bem como o próprio nome
da marca, foi inspirada na deusa grega da vitória, a deusa Nice. A marca foi
criada por Carolyn Davidson em 1971 e vendida à empresa por US$ 35.

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Analisando a marca, no nível do fundamento do signo, podemos identificar
que a marca possui alguns quali-signos, tais como as cores preta e branca e as
curvas que formam o desenho da asa e a palavra Nike. Assim que as cores e as
formas se corporificam à forma da asa e à palavra Nike, destacando seus
contornos, então temos um sin-signo, pois se está relacionando duas qualidades
(cor e forma), gerando um sentido que nos leva a identificar o desenho da asa e
a palavra Nike. O texto que está presente na marca e que funciona como uma
palavra e que apresenta um sentido inteligível, só funciona assim por força de
lei, oriunda de um consenso social. Quando lemos tal texto, entendemos o que
ele quer dizer e podemos entender seu significado. Temos, então, um legi-signo.
Outro ponto: quando nos damos conta de que, mais uma vez e por intermédio
de uma lei, a junção entre o desenho da asa e a palavra Nike passa a
representar, por consenso social, a marca Nike, novamente temos um legi-signo.
O próximo passo da análise é identificarmos os objetos do signo. Como
visto, temos o objeto direto e o objeto dinâmico. O objeto dinâmico diz respeito
a algo a que o signo se refere. Neste caso, seria a vitória e todos os benefícios
que os produtos da marca oferecem aos seus usuários. A perspectiva que o
signo recorta do objeto dinâmico ao representá-lo constitui-se no objeto imediato
(o modo como o signo representa aquilo a que ele se refere), que pode ser uma
sugestão, uma alusão ao objeto dinâmico. Por primeiro, o objeto imediato indica
o objeto dinâmico, pois temos uma representação da marca Nike. No entanto, o
caráter fundamental do objeto imediato está no seu aspecto icônico (aquilo que
o ícone é capaz de sugerir), que diz respeito à vitória, de velocidade, de ocupar
o lugar mais alto que, em uma rede icônica, faz chegar a um interpretante
dinâmico (o efeito que o signo efetivamente produz em um intérprete) — neste
caso, o público-alvo dessa campanha, que são os esportistas, os atletas etc.
Pormenorizando, note que a forma da asa que está na marca funciona
como ícone da própria marca e de tudo que está relacionado a marca: os seus
produtos e os consumidores de tais produtos. Tal relação se dá por semelhança
e, portanto, trata-se de uma relação icônica que consiste em estabelecer uma
ligação entre o desenho da asa e a marca, por intermédio de traços de
semelhança. Com isso, a marca intenta criar junto ao consumidor signos que
indiquem que ao se apropriar dos produtos Nike, o consumidor está se dotando
de características que se assemelhem tanto à marca como à deusa que dá

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origem à sua logomarca, ou seja, a vitória. Em outras palavras, a marca Nike
intenta ser igual à deusa Nice, assim como seus produtos e seus consumidores.
Também podemos dizer que a marca Nike tenta criar uma relação lógica, na
medida em que a marca e a argumentação da marca estabelecem uma relação
de existência com a deusa Nice: o consumidor, ao usar os produtos da Nike, se
sentirá mais próximo da vitória.
Com relação aos interpretantes, é importante ressaltar que o processo
interpretativo implica um interpretante imediato (tudo aquilo que o signo está apto
a produzir em um intérprete), que permite que o signo tenha sua própria
interpretabilidade antes mesmo de ter encontrado um intérprete. Ou seja, toda a
apresentação de imagens, toda a relação imagem-palavra que o torna apto a
produzir um efeito em uma mente interpretadora — este efeito sendo aqui a
sugestão de vitória. Vale também ressaltar que a imagem da asa (uma sugestão)
que, em conjunto com as formas rápidas da escrita NIKE, compõe uma metáfora
de velocidade para a vitória. Assim, o interpretante imediato da marca estaria na
intenção de que todos aqueles que usam os produtos Nike estão aptos a vencer
qualquer disputa, pois fazem uso de produtos desenvolvidos para vencer. O
interpretante dinâmico se refere à vitória que os usuários dos produtos da Nike
obtêm por usarem tais produtos. Com relação ao interpretante final, há a
esperança de que a marca Nike se torne um consenso entre o público em geral,
de que este produto é o melhor quando o assunto é vencer e ser um vencedor.

TROCANDO IDEIAS

Nesta aula, aprendemos os passos necessários para a elaboração de


uma análise semiótica. No início, é possível se deparar com algumas
dificuldades, especialmente no que tange ao olhar contemplativo. Nosso ritmo
de vida nos impele a agir rapidamente, tirando de nós a paz necessária a
contemplação. Geralmente, quando olhamos para algo, nós imediatamente o
interpretamos, em um processo automático. Essa postura automática é ainda
mais evidente quando se trata de algo que já conhecemos. Para exercitar,
escreva um pequeno texto, ou faça um desenho que represente algo de forma
diferente. Por exemplo, como você descreveria (ou desenharia) o gosto de uma
laranja, ou o toque de um abraço?

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Não há maneira certa ou errada de executar o exercício acima. Seria
interessante que houvesse a troca e, para tanto, leia ou veja o trabalho dos
colegas. Questione-o acerca do trabalho, mas jamais deixe que qualquer
barreira lhe leve a julgar o trabalho. Não é o momento de julgamentos, mas de
aprendizado, de trocas de ponto de vista.

NA PRÁTICA

Nesta atividade, vamos colocar em prática os conhecimentos adquiridos


na aula. Você deve efetuar uma análise de cada um dos elementos abaixo e
identificar o que se pede.

Crédito: Mykhailo Saicap/Shutterstock.

Faça uma análise semiótica da imagem acima, identificando o signo, os


objetos e os interpretantes.

Crédito: Vivienstock/Shutterstock.

Analise apenas o olhar do cão que está na foto e identifique o signo, os objetos
e os interpretantes.

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FINALIZANDO

Nesta aula, ampliamos ainda mais nossa compreensão acerca da


semiótica e nos apropriamos dos passos necessários e importantes para uma
análise semiótica. Ao analisarmos semioticamente um fenômeno, imergimos em
sua dinâmica de funcionamento íntima e emergimos com o entendimento de seu
funcionamento.
A atividade de realizar uma análise, uma leitura, nos torna leitores
capacitados e amplia qualitativamente nossas interpretações acerca do
fenômeno analisado. Ora, vimos que essa leitura demanda esforço,
especialmente para livrarmos de conceitos estabelecidos. uma vez que nos
livramos de tais conceitos, estamos aptos a analisar com base em nossos
conhecimentos.
Essa atividade de análise reforça e amplia nossa capacidade de leitura e
nos torna leitores atentos, pois temos de nos abrir para inúmeros detalhes para
chegarmos a um resultado relevante. A parte interessante do processo é que
quanto mais nos dispomos a ler o mundo com olhos desarmados, mais nos
tornamos leitores ativos e produtores de mensagens diferenciadas. Eis um
processo que vale cada minuto dispendido.

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REFERÊNCIAS

SANTAELLA, L. Matrizes da linguagem e pensamento. São Paulo: Iluminuras,


2001.

_____. Semiótica aplicada. 2. ed. São Paulo: Pioneira, 2002.

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