Israel: Sionismo e governo Netanyahu
Israel: Sionismo e governo Netanyahu
Caio Bugiato1
Samuel Rocha2
Vandriele Araújo3
Brenno Olivar4
Lucas Botelho5
Resumo: O objeto de análise deste artigo é o Estado de Israel, sua implantação, sua
orientação político-ideológica – o Sionismo – e a política estatal recente dos governos
liderados por Benjamin Netanyahu (1996 a 1999, 2009 a 2021 e 2022 até hoje). Julgamos
que diante dos novos conflitos no Oriente Médio é importante retomar na área de Relações
Internacionais uma análise como essa para elucidar alguns pontos já debatidos na literatura
e outros ainda pouco conhecidos nos estudos brasileiros sobre a temática. Trabalhamos com
a seguinte hipótese: a implantação do Estado de Israel na Palestina é um processo que
começa com o advento movimento político sionista na Europa em fins do século XIX, que
instala uma unidade política colonizadora na região após o fim da II Guerra Mundial e a
partir de então se expande com o objetivo de conquistar todo o território, eliminando a
população nativa. Nosso enfoque neste artigo não é a chamada questão palestina, que
abordaria os dois lados do conflito, mas sim o Estado de Israel, cuja “natureza” – seguindo
nossa hipótese – está impregnada de uma política de extermínio. Em nossa análise utilizamos
estudos de autores (fontes secundárias) que se dedicaram a pesquisar a história da questão
palestina e do Estado de Israel, o movimento sionista, as guerras e as relações diplomáticas
que envolvem o conflito no Oriente Médio e os governos de Netanyahu.
Palavras-chave: Estado; Israel; Sionismo.
Abstract / Resumen: The object of analysis in this article is the State of Israel, its implantation,
its political-ideological orientation - Zionism - and the recent state policy of the governments led by
Benjamin Netanyahu (1996 to 1999, 2009 to 2021 and 2022 to date). We believe that in view of the
new conflicts in the Middle East, it is important to revisit an analysis like this in the field of
International Relations in order to elucidate some points that have already been debated in the
literature and others that are still little known in Brazilian studies on the subject. We work with the
1
Doutor em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas. Professor de Ciência Política e Relações
Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e no Programa de Pós-graduação em Relações
Internacionais da Universidade Federal do ABC.
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Discente do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
3
Discente do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
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Discente do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
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Discente do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
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BUGIATO, Caio; ROCHA, Samuel; ARAÚJO, Vandriele; OLIVAR, Brenno; BOTELHO, Lucas. Israel: implantação do Estado,
Sionismo e governo Netanyahu. Campos Neutrais: Revista Latino-Americana de Relações Internacionais. Rio Grande. V. 6, N. 1. P. 61
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following hypothesis: the establishment of the State of Israel in Palestine is a process that began with
the advent of the Zionist political movement in Europe at the end of the 19th century, which set up a
colonizing political unit in the region after the end of World War II and then it expanded with the
aim of conquering the entire territory, eliminating the native population. Our focus in this article is
not the so-called Palestinian question, which would address both sides of the conflict, but rather the
State of Israel, whose "nature" - according to our hypothesis - is impregnated with a policy of
extermination. In our analysis, we used studies by authors (secondary sources) who have dedicated
to research the history of the Palestinian question and the State of Israel, the Zionist movement, the
wars and diplomatic relations surrounding the conflict in the Middle East and the Netanyahu
governments.
Keywords / Palabras clave: : State; Israel; Ziosnism
Introdução
1. Antecedentes
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BUGIATO, Caio; ROCHA, Samuel; ARAÚJO, Vandriele; OLIVAR, Brenno; BOTELHO, Lucas. Israel: implantação do Estado,
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Antes da formação do capitalismo na Europa os hebreus, povo originário do Oriente
Médio (assim como outros povos) e seguidor do Judaísmo, dispersaram-se pelo Velho
Continente por causa de, principalmente, dois fenômenos. Primeiro, segundo Samir Amin
(1973), os hebreus eram um povo comerciante, cuja atividade os levou para outros territórios
e “as comunidades judias tiverem funções importantes e particulares, as de uma minoria que
detém o monopólio da organização do comércio entre as diferentes sociedades feudais
fechadas sobre si mesmas” (AMIN, 1973, p. 3). Segundo a região do Oriente Médio é uma
importante rota comercial e um território de ligação entre três contentes, o que gerou disputas
geopolíticas: egípcios, persas, romanos, otomanos, britânicos, entre outros, disputaram e
ocuparam a região; de modo que os hebreus dali se dispersaram (GRINBERG, 2000).
Na Europa os hebreus, então chamados de judeus, foram submetidos a uma intensa
hostilidade, o anti-judaísmo (ou antissemitismo), cujas raízes estão no Cristianismo europeu.
Tal hostilidade passou a ser violenta e sistemática com desenvolvimento do capitalismo, uma
vez que a burguesia contestara o monopólio comercial da comunidade. Foi um processo
complexo de segregação, com pelo menos duas dimensões: na Europa Central e Oriental ele
fora tradicionalmente baseado na religião, enquanto na Europa Ocidental, berço do
capitalismo, ele esteve relacionado ao comércio. Contudo, foi paralelamente um processo de
assimilação de uma pequena parcela dos judeus europeus – que inclusive se miscigenaram
– à classe dominante europeia, dado que seu monopólio foi contestado, não quebrado6
(AMIN, 1973; COGIOLLA, 2023). Na Europa Ocidental tal assimilação foi precedida
6
É interessante notar que no desenvolvimento do capitalismo os judeus europeus seguem a estrutura de classe
da sociedade capitalista: uma imensa maioria proletária e perseguida por várias razões e uma minoria burguesa,
que ascendeu à classe dominante por meio do comércio.
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estabelecer em algum país para contar com capital disponível (KARADY apud
COGIOLLA, 2023, s/p.).
7
A referência para tratar do imperialismo é Lenin (2012) e seu legado teórico.
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Desde a Guerra da Crimeia em 1854, quando britânicos, franceses e otomanos venceram a Rússia, os europeus
já tinha estabelecido seus interesses na região. Fixaram tarifas aduaneiras e controlaram as trocas comerciais
dos endividados otomanos. Apoiaram os movimentos nacionalistas árabes que viriam a fragmentar o Império
Otomano após a Primeira Guerra Mundial (GRINBERG, 2000).
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fronteiras. Em linhas gerais e para nossos propósitos aqui, a Grã-Bretanha assumiu o controle
da Palestina, da Transjordânia e do Iraque, e a França da Síria e do Líbano (BUZETTO,
2022).
No contexto das negociações com os árabes, em 1971 surgiu a Declaração de
Balfour, quando o então ministro britânico das relações exteriores, Arthur Balfour, assinou
e enviou uma carta para Walter Rothschild, o Barão Rothschild, líder da comunidade judaica
na Inglaterra, em que respalda pela primeira vez o estabelecimento de um lar nacional para
o povo judeu na Palestina. Rothschild foi um dos principais proponentes do Sionismo (será
explicado na próxima seção), movimento político que defende a autodeterminação dos
judeus em sua "terra histórica", do Mediterrâneo ao Rio Jordão, ou seja, o território da
Palestina (Palestina histórica). Segundo Pape (2022), de um lado para o governo inglês os
judeus seriam úteis para a derrubada do Império Otomano, o principal objetivo da política
externa britânica na região. Do outro lado, para os judeus sionistas a relação com a política
externa britânica foi decisiva, uma vez que o movimento sionista precisava de um respaldo
de peso para perpetrar a colonização no território e do povo estabelecido na Palestina.
O Acordo Sykes-Picot e a Declaração de Balfour são os registros mais
evidentes de uma série de acordos e declarações secretas pelos quais a política externa
britânica foi dúbia ao se comprometer tanto com os líderes do movimento nacionalista árabe
quanto com os judeus sionistas no país e na Europa, que pretendiam estabelecer um Estado
nacional no Oriente Médio. Bem-sucedido foi o imperialismo britânico que derrubou o
Império Otomano, garantiu acesso ao Canal de Suez e estabeleceu-se em áreas petrolíferas.
Ainda, sob o auspício da Liga das Nações o Estado inglês ficou responsável por “estabilizar”
a região e a Palestina, com o chamado Mandato Britânico na Palestina que durou de 1920
até 1948. Como afirma Buzetto (2022), a Palestina foi incorporada à força, pela violência
colonialista do processo de internacionalização do capital e foi mantida submissa a interesses
de potências capitalistas em ofensiva política e militar na região.
2. As bases do Sionismo
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O Sionismo é uma ideologia e um movimento político que defende a colonização da
Palestina e a criação de um Estado nacional na região como solução para os problemas do
antijudaismo na Europa. Essa proposta surgiu no Velho Continente nos anos de 1860
inspirada pelo Iluminismo, nacionalismo, Primavera dos Povos de 1848 e até pelo
socialismo9, orientando ondas de imigração sionista, com compra de terras, a partir de 1882.
Ela foi transformada em projeto político a partir da publicação do livro O Estado Judeu: uma
solução moderna para a questão judaica em 1896, do austríaco Theodor Herzl, que reagia
às perseguições na Europa Central e Oriental, promovendo congressos internacionais e
tornando-se reconhecida mundo afora. Herzl e os sionistas chegavam a conclusão que a
assimilação cultural nas sociedades ocidentais não acabaria com a segregação, por isso era
necessário colonizar a “terra santa” (PAPPE, 2022).
Sua inspiração religiosa é uma interpretação da Bíblia segundo a qual uma nação
judaica nascida na Palestina foi oprimida por outros povos, no ano 70 os romanos a exilaram
e desde então o território ficou relativamente vazio e/ou ocupado por estranhos (daí a
narrativa israelense de libertação ou independência do Estado) até o retorno sionista.
Sionismo deriva de Sião, em sentido amplo um dos nomes de Jerusalém na Bíblia, cidade
fundada por deus como refúgio e pátria para seu povo escolhido. Para esta terra, também
compreendida como o território entre o Mediterrâneo e o Jordão, o povo judeu deveria
regressar como desejo divino. Ainda segundo tal interpretação, no fim dos tempos
Jerusalém resistirá contra as nações opressoras com a vinda do messias de deus, que será
vitorioso e estabelecerá ali sua residência. Assim Sião propagará paz, sabedoria, justiça e os
ensinamentos divinos para a humanidade (PAPPE, 2022).
9
Duas observações importantes sobre o Sionismo. Primeiro, ele é projeto de parte da comunidade judaica. Os
não sionistas, por exemplo, revindicam uma inserção social por meio de luta política para a emancipação da
comunidade no interior da formação social em que estão. Outros ainda preferem o isolamento da comunidade,
com suas tradições, dentro das sociedades. Não preconizam o “retorno à terra santa”. Segundo, é pertinente
falar em Sionismos, no plural. Pois, por exemplo, um Sionismo de esquerda propõe à instalação de um Estado
na Palestina para a construção de uma sociedade socialista. Contudo, nosso propósito aqui não é discutir o
Sionismo com suas ramificações, mas sim traçar a formação do que consideramos seu eixo, o Sionismo de
extrema-direita. “Apesar de existirem diversas correntes no interior do próprio sionismo, as posições políticas
que se tornaram hegemônicas ao longo do século XX foram as mais conservadoras e pró-imperialistas. Essa
ideologia conservadora serviu de base para a instauração do Estado de Israel” (BUZETTO, 2022, p. 200)
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Entretanto, “para muitos líderes sionistas, a referência bíblica à terra palestina era
apenas um meio de atingir seus fins, não a essência do sionismo” (PAPPE, 2022, p.76) e
(…) “a Bíblia se tornou uma justificativa e um mapa para a colonização da Palestina pelos
sionistas. Historicamente, a Bíblia foi conveniente para o sionismo desde seu surgimento até
a criação do Estado de Israel em 1948” (PAPPE, 2022, p. 77). Esse tipo de uso da Bíblia era
claro para Herzl e líderes sionistas, como exposto em seu artigo The Jewish Chronicle de
1896 (HERZL apud PAPPE, 2022): a alegação divina era um alicerce para reivindicação,
porém a prática da criação do Estado seria obra a política europeia do seu tempo.
Baseado em seu livro (HERZL, 1998), em que discorre sobre o futuro Estado,
imigração, compra de terras, edificações, leis e idioma, Herzl organizou o Primeiro
Congresso Sionista Mundial, que acabou sendo realizado na Basileia em agosto de 1897. O
congresso fundou a Organização Sionista Mundial, sob a presidência de Herzl. Na discussão
sobre onde deveria ser o novo Estado, venceram os partidários da Palestina sob a
argumentação de que era na Antiguidade a região de origem do povo judeu. Logo, o
“Programa da Basileia” estabeleceu a garantia de uma pátria na Palestina e suas resoluções
incentivavam a colonização da região por judeus operários agrícolas, trabalhadores em
construção civil e de outros ofícios, diante da decomposição do Império Otomano.
Posteriormente a Organização chegou a discutir uma solução para criação do Estado por vias
diplomáticas, mas prevaleceu a operacionalização pela colonização. Ademais em anotações
pessoais, em seu diário Herzl escrevera que como grande saldo do Congresso da Basileia ele
havia fundado o Estado Judeu. O próprio fundador do Sionismo escreveu ao chanceler
alemão Otto von Bismarck, dizendo que a implantação de um Estado judeu no caminho mais
curto para o Oriente, o que englobava o Canal de Suez, seria funcional para a política externa
alemã na região. Então complementava que, a fim de angariar apoio, os judeus eram um
povo obrigado a ingressar em partidos revolucionários por causa das discriminações que
sofriam (COGIOLLA, 2023, s/p.).
10
Buzetto (2022, p. 198-199) complementa: “Portanto, o sionismo é uma corrente política nacionalista judaica
que serviu como linha auxiliar do colonialismo/imperialismo desde o seu nascimento até seu ápice, que ocorre
com a criação do Estado de Israel, cinquenta e um anos depois da fundação da Organização Sionista Mundial.
De 1948 até os dias atuais deixou de ser somente a linha auxiliar do imperialismo no mundo árabe e no mundo
muçulmano. O sionismo tornou-se a vanguarda, a linha de frente, a tropa de choque dos EUA, França e
Inglaterra na confrontação com qualquer movimento e caráter anti-imperialista, seja de natureza comunista ou
islâmica. Todo e qualquer pensamento sionista torna-se, inevitavelmente, nas lutas políticas e sociais, uma
posição pró-colonialista, pró-imperialista, que vai buscar justificativas para a política racista de apartheid,
genocídio e limpeza étnica conduzida por todos os governos do “Estado de Israel” contra os palestinos. O
sionismo e sua entidade política vão manter uma aliança estratégica com EUA, OTAN e União Europeia para
vigiar/monitorar, perseguir/reprimir, isolar ou mesmo eliminar/destruir qualquer partido, movimento,
liderança, organização ou governo que seja considerado uma ameaça aos interesses desse conjunto de forças
que tem dado sustentação política, diplomática e militar a Israel desde a sua criação”.
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Como em todos movimentos colonialistas anteriores, a resposta a esses problemas
[da colonização] foi a dupla lógica da aniquilação e desumanização. A única forma
de expandir seu controle de 7 por cento das terras a garantir uma maioria
demográfica seria excluir os nativos de sua terra natal. O sionismo é, portanto, um
projeto colonialista de povoamento ainda inconcluso. A demografia palestina não
é de todo judaica, e embora o Estado de Israel tenha controle político sobre todo o
território por diversos meios, ainda está colonizando – construindo novas colônias
na Galileia, no Neguev e na Cisjordânia com o intuito de aumentar o número de
judeus lá –, desalojando os palestinos e negando o direito dos nativos à sua pátria
(PAPPE, 2022, p. 102-103).
Porém, não encontraram uma terra vazia como preconiza a ideologia sionista. Suas
ideias de “a Palestina é uma terra vazia”, “os judeus são um povo sem terra”, “a Palestina é
a pátria histórica dos judeus”, e “os judeus são o povo escolhido por deus” só ganhariam
tração tempos depois. Pappe (2022) e Coggiola (2023) afirmam que, apesar dos esforços
sionistas, apenas 7% do território palestino pertencia aos imigrantes judeus até a criação do
Estado de Israel. A proposta sionista ainda era fraca diante de alternativas de emigração para
fugir das perseguições na Europa, como Argentina e Estados Unidos, e de lutas
antissegregacionistas, como o Bund, partido operário judeu na Rússia, Lituânia e Polônia.
Por outro lado, a Palestina nunca esteve vazia. Pelo menos desde a ocupação otomana
em 1517 integrava um mosaico de culturas do Império, com uma localização cultural bem
estabelecida. A sociedade formada naquele território tinha características de uma região
rural, com pequenos centros urbanos, de maioria muçulmana e onde predominava o idioma
árabe, como as outras sociedades árabes a sua volta. Os palestinos passaram pelos mesmos
processos de nacionalismo e modernização que os povos da região, inclusive pelo processo
de dominação do imperialismo europeu, especialmente do Acordo Sykes-Picot. Não fosse o
Sionismo, a Palestina teria tido destino semelhante a países da região (PAPPE, 2022).
3. A implantação do Estado
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O imperialismo britânico transformou a Palestina em um protetorado, que entre 1920
e 1948 ajudou os sionistas a se instalar na região. Na década de 1920, a população árabe
constituía 93% da população do território e a população judaica aproximadamente 7%. A
aliança entre os britânicos e o movimento sionista permitiu o desenvolvimento da migração
judaica para a região e, assim, a comunidade judaica na Palestina (Yishuy) chegou a controlar
7% do território da Palestina. Ela estabeleceu sua própria organização proto-governamental,
a Agência Judaica para a Palestina, uma espécie de embrião do Estado de Israel (AMIN,
1973).
Ao longo Mandato Britânico as colônias sionistas cresceram e entraram em conflitos
com os palestinos, formando grupos terroristas/paramilitares que espalhavam pânico e
promoviam atentados contra a população nativa, com a intenção de fazê-los abandonar suas
terras. Esses grupos depois se transformaram nas Forças de Defesa de Israel. Além da
organização militar, buscavam apoio político de organizações e governos para seu projeto e
recursos financeiros com empresários e banqueiros judeus e não judeus para instalação das
colônias. Ademais, por meio de uma indústria cultural, justificavam a colonização com a
ideologia sionista, resumida na ideia de “direito histórico e sagrado dos judeus” (BUZETTO,
2022). A nova onda de antijudaismo na Europa no entreguerras intensificava a imigração e
alimentava essa situação (GRINBERG, 2000).
Perante aumento da beligerância entre palestinos e sionistas, os britânicos perderam
o controle da situação e levaram o problema para a ONU, que na Assembleia Geral (AG) de
novembro de 1947 decidiu pelo fim do Mandato. Os britânicos retiraram suas tropas em
maio de 1948. Para Amin (1973, p. 10) esse é o momento em que “o sionismo passa do
protetorado inglês, que tinha permitido a criação progressiva do Estado de Israel, para o
protetorado dos EUA”. Então, afora suas organizações militares, políticas, econômicas e
culturais, a grande cartada do Sionismo foi sua organização diplomática, em boa parte
justificada pelo Holocausto. Tal ação diplomática, chancelada pelos estadunidenses11,
11
É digno de nota que os EUA são o país que tem a maior comunidade judaica fora de Israel, cerca de 6 milhões.
Mas apesar de representar 2% da população, no congresso estão super-representados com cerca de 6% dos
membros e contam com uma poderosa organização lobista, o Comitê de Assuntos Públicos EUA-Israel, com
3 milhões de membros de base. Os judeus estadunidenses são uma comunidade com renda elevada: cerca de
metade afirma que o seu rendimento familiar anual é de pelo menos US$ 100.000 dólares, muito maior do que
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resultou na partilha da Palestina em dois Estados autônomos e independentes, um palestino
e um judeu.
A mesma AG da ONU em novembro de 1947 aprovou por dois terços a resolução
181, com o apoio das grandes potências12, que resultou no plano de partilha da Palestina. O
documento foi preparado pelo Comitê Especial das Nações Unidas sobre a Palestina, cujos
membros, de acordo com Pappe (2022), não tinham conhecimento sobre a questão. A ideia
que prevaleceu no Comitê veio do movimento sionista, segundo o qual a divisão territorial
seria a melhor solução. Chegaram a propor que 80% da Palestina fosse um Estado judeu e o
resto poderia ser um Estado palestino ou entregue ao Reino da Jordânia. Por outro lado, o
Alto Comando Árabe, a Liga Árabe e o conselho político representativo dos palestinos
boicotaram o Comitê ao saber que haveria qualquer plano de partilha e os direitos dos
palestinos à pátria não seriam respeitados (PAPPE, 2022).
O Comitê revisou os planos, expandiu o território palestino, decidiu pela criação dos
dois Estados e levou o documento para a AG. Os colonos judeus então proprietários de 7%
das terras e 30% da população local (chegaram a cerca 600 mil habitantes), teriam 56% do
território. Os palestinos, 70% da população (1,3 milhão), teriam os outros 44%. Em termos
territoriais o Estado de Israel teria 14 mil km², incluindo a Galileia Oriental, as faixas
territoriais de Haifa até Telaviv e do deserto de Neguev ao Golfo de Ácaba; o Estado da
Palestina teria 11 mil km², incluindo a Cisjordânia e a faixa de Gaza. Em termos
a média das famílias não judias no país. Cerca de um em cada quatro judeus (23%) afirma ter uma renda
familiar de US$ 200.000 ou mais. Em comparação, apenas 4% dos adultos estadunidenses relatam esse nível
de renda familiar (PEW RESEARCH CENTER, 2021).
Israel é o país que mais recebeu auxílio dos EUA: entre 1946 e 2023 foram US$ 260 bilhões, mais de metade
como auxílio militar. Os EUA usaram seu poder de veto na ONU para barrar qualquer medida contrária a Israel
devido à ocupação da Palestina, considerada ilegal pela Organização. Foram mais de 80 vezes e em geral os
EUA foram o único voto dos 15 membros (SANCHES, 2021).
12
“O interessante é que a União Soviética foi ainda mais leal à postura sionista e não demonstrou nenhuma
hesitação. Com o auxílio dos membros do Partido Comunista Palestino (PCP), eles facilitaram o fornecimento
de armas da Tchecoslováquia para as forças judaicas antes e depois de maio de 1948. Os leitores de hoje talvez
estranhem isso , mas o apoio do PCP à causa sionista era possível por duas razões. A primeira é que a União
Soviética acreditava que o novo Estado judeu seria socialista e antibritânico (e, portanto, mais inclinado ao
Bloco Oriental na Guerra Fria emergente). A segunda é que o PCP acreditava que a libertação nacional era
uma etapa necessária ao caminho para uma revolução social mais completa, e considerava tanto os palestinos
como os sionistas movimentos nacionais (é por isso que o partido ainda hoje apoia a solução de dois Estados)”
(PAPPE, 2022, p. 121-122). Contudo, os acontecimentos futuros evidenciaram o lado de Israel como enclave
ocidental e força político-militar para destruir movimentos árabes nacionalistas, progressistas e socialistas,
apoiados pela URSS.
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populacionais, Israel teria 498 mil judeus e 497 mil palestinos e a Palestina 725 palestinos e
10 mil judeus. Jerusalém teria status internacional, com uma população de 100 mil judeus e
105 mil palestinos (ZUCCHI, 2018).
As lideranças sionistas aceitaram a partilha nos termos da ONU, pois sabiam que os
árabes a rejeitariam. Igualmente sabiam que a partilha seria determinada pelas medidas
concretas do Sionismo na Palestina e não por negociações de comitê. A resolução da AG,
apesar de não ser imperativa como as do Conselho de Segurança, legitimou
internacionalmente a criação do Estado de Israel, que já se organizava militarmente para
estabelecer os limites fronteiriços do futuro, diante dos vizinhos árabes. A resolução também
chancelou um processo violento de expropriação e expulsão de palestinos, que marca a
história dos povos.
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importante Porto de Gaza, saída para o mediterrâneo –, a Cisjordânia, as Colinas de Golã
(da Síria) – fundamental pela visão estratégica que dá para os vizinhos e possui importantes
recursos hídricos como a nascente do Jordão e o Mar da Galileia. A rápida vitória israelense
em 6 dias mudou o equilíbrio de forças na região, pois agora estava clara a superioridade
militar de Israel – que triplicou seu território –, representou uma grande humilhação para os
países vizinhos e causou o aumento da hostilidade árabe. Para Pappe (2022) 1967 é
continuação da oportunidade desperdiçada em 1948-1949: ocupar toda Palestina histórica,
do Rio Jordão até o Mar Mediterrâneo, e criar a Grande Israel.
As constantes tensões na região proporcionaram a retaliação contra Israel na
chamada Guerra do Yom Kippur (Dia do Perdão, dia sagrado do ano judaico) em 1973. Uma
resolução da Cúpula da Liga Árabe, a Resolução de Cartum, apresentou medidas de
assistência para os países mais afetados pela guerra de 1967, assim como proclamou no
terceiro parágrafo do documento o que ficou conhecido como “os três nãos”: “sem paz com
Israel, sem reconhecimento de Israel e sem negociação com ele. Um dos líderes tanto político
como militar das retaliações árabes foi Nasser. Após forte investimento bélico mediante
financiamentos e fornecimentos de armas soviéticas, que reorganizaram as forças militares
do Egito e da Síria, tropas destes países invadiram Israel em outubro de 1973. Ao início do
confronto Israel ocupava todo o território do antigo Mandato Britânico na Palestina,
incluindo as áreas estratégicas da Cisjordânia, Faixa de Gaza, Colinas de Golã e a Península
do Sinai. A ofensiva conjunta surpreendeu o governo israelense que embora suspeitasse de
um confronto não estava inicialmente preparado para um embate bélico. Os três primeiros
dias da guerra representaram uma vitória inicial dos árabes, que conseguiram pressionar as
tropas de Israel, impor muitas baixas e avançar sobre o território. Entretanto esse avanço não
seria duradouro, pois os EUA, através da operação que ficou conhecida como Operação
Nickel Grass, forneceu um suporte militar, através de uma ponte área, que foi capaz de
inverter drasticamente os rumos da guerra. Aeronaves militares, incluindo um caça
bombardeiro supersônico que na década de 60 obtivera muito destaque, o F-4 Phantom II e
suprimentos militares como armas e vestimentas de combate, foram prontamente enviadas
para Israel através de ordens do então presidente Richard Nixon. A guerra de 1973 não se
encerrou com um acordo de paz, mas sim com um cessar-fogo mediado pelos EUA e pela
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URSS, com cerca de 2000 baixas israelenses e 13000 baixas árabes. Em 1978 através
novamente da mediação dos EUA, o Egito chegou a um acordo de paz com Israel, sendo o
primeiro país árabe a reconhecê-lo de fato como um Estado legítimo. Sem vitórias
espetaculares dos beligerantes, a Guerra do Yom Kippur teve consequências para o cenário
econômico e político internacional. Os países árabes, que representavam uma parte
expressiva dos produtores de petróleo, decidiram de maneira conjunta retaliar o apoio
fornecido pelos EUA para Israel, através de um movimento que ficou conhecido como o
primeiro Choque do Petróleo. O preço do barril dessa commoditie chegou a aumentar cerca
de 400%, refletindo inclusive no Brasil, que, como alternativa para tal entrave energético,
promoveu a implementação do programa Pro-álcool.
Depois do tratado de paz com o Egito o Estado israelense ocupava toda a região da
Palestina histórica, menos a Faixa de Gaza e a Cisjordânia (ainda que nesta tivesse diversas
incursões civis e militares) onde então (sobre)viviam os palestinos. Israel ocupava também
as Colinas de Golã. Sem perspectiva de uma paz duradoura, um levante popular espontâneo
ocorreu dentro da Faixa de Gaza, que se estendeu à Cisjordânia e a Jerusalém, contra a
ocupação militar israelense, conhecido como a Primeira Intifada (1987-1993). Segundo a
ONU Nações Unidas (UNITED NATIONS, 2008, p.27), essa mobilização envolveu
protestos de diferentes segmentos da sociedade palestina – jovens, comerciantes,
trabalhadores, mulheres e crianças – envolvendo boicotes econômicos, resistência fiscal e
ataques contra as forças de ocupação israelenses. Por sua vez, as forças armadas de Israel
responderam com severidade desde o início aos protestos. De acordo com a ONU (UNITED
NATIONS, 2008), entre 1987 e 1993, mais de mil palestinos foram mortos e dezenas de
milhares ficaram feridos. Essa situação se deu devido à discrepância entre as partes
beligerantes. Enquanto grande parte dos manifestantes palestinos eram crianças e jovens
desarmados, que atiravam pedras e outros objetos contra as forças de ocupação, do outro
lado havia um exército israelense bem equipado que empregava espancamentos, tortura e,
ocasionalmente, o uso letal de gás lacrimogêneo, além de munição real. Além disso, as
autoridades de ocupação, na tentativa de reprimir as rebeliões, também empregaram diversas
formas de retaliação coletiva, como toques de recolher, redução dos serviços básicos, prisões
em massa, demolição de residências e restrições econômicas.
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Diante de tal cenário, o Conselho de Segurança condenou veementemente as práticas
perpetradas por Israel no território ocupado durante a resolução 605 de 1987, destacando que
essa ocupação estava impedindo o avanço em direção a uma paz abrangente, justa e
duradoura no Oriente Médio. Por seu turno, o Conselho Nacional Palestino (CNP) – a alta
cúpula da Organização para Libertação da Palestina13 – emitiu dois comunicados
importantes. O primeiro, um comunicado político afirmando a determinação do CNP em
buscar uma solução política para a questão palestina de acordo com a carta da ONU e suas
resoluções. O segundo foi a Proclamação da Independência do Estado da Palestina, na qual
o CNP anunciou o estabelecimento deste Estado, conforme os princípios do direito
internacional, incluindo a resolução 181 da AG da ONU, a resolução da partilha original da
Palestina de 1947. Esses documentos desempenharam um papel crucial no reconhecimento
pela OLP da existência do Estado de Israel. Isso foi confirmado pelo presidente da OLP,
Yasser Arafat, durante a reunião da Assembleia Geral da ONU em 1988. Na ocasião, o
movimento palestino reconheceu o direito de todas as partes envolvidas nos conflitos do
Oriente Médio de existir em paz e em segurança, incluindo os Estados da Palestina, Israel e
demais vizinhos, em conformidade com a resolução 242 de 1967 do Conselho de Segurança
da ONU.
Entretanto, à medida que a intifada prosseguia e Israel persistia em aplicar a força
militar para suprimir a revolta, os esforços diplomáticos para resolver o conflito árabe-
israelense foram intensificados. Com isso, em dezembro de 1990, o Conselho de Segurança
declarou que uma conferência internacional deveria facilitar os esforços para alcançar um
acordo negociado sobre o conflito e estabelecer uma paz duradoura. Como desdobramento
disso, aconteceu a Conferência de Paz do Oriente Médio em Madrid no ano de 1991, que
reuniu as partes conflitantes sob a co-presidência dos Estados Unidos e da União Soviética.
Essa conferência foi responsável por estabelecer faixas de negociação bilaterais para Israel
13
A OLP é uma organização política palestina fundada em maio de 1964, com apoio da Liga Árabe, com o
objetivo inicial de libertação da Palestina mediante luta armada – utilizou-se por muito tempo de táticas de
guerrilha –, retomada do território palestino como aquele do tempo do Mandato Britânico e combate ao
Sionismo. Foi considerada pelos Estados Unidos e pelo Ocidente uma organização terrorista.
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e os países árabes vizinhos, Líbano, Jordânia, Síria, e os palestinos. No entanto, até meados
de 1993, como apontado pela ONU (UNITED NATIONS, 2008), as negociações bilaterais
pareciam ter estagnado em uma variedade de questões políticas e de segurança. Contudo, em
segredo, conversas privadas entre Israel e a OLP estavam ocorrendo na Noruega, o que
resultou nos Acordos de Oslo. Os Acordos de Oslo puseram fim à Primeira Intifada.
Em 10 de setembro de 1993, Israel e a OLP trocaram cartas de reconhecimento
mútuo. Enquanto a OLP reconheceu o direito de Israel à existência, Israel reconheceu a OLP
como representante do povo palestino. Três dias depois, na Casa Branca, sob a supervisão
do presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, e outros líderes mundiais, foi assinada por
Arafat e pelo primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin a Declaração de Princípios sobre
Arranjos Interinos de Autogoverno, mundialmente conhecida como os Acordos de Oslo.
Esses acordos delinearam um plano gradual para retirada do exército israelense dos
territórios palestinos ocupados, além do estabelecimento de uma Autoridade Palestina (AP)
autônoma para administrar uma parte da Cisjordânia e a Faixa de Gaza.
Segundo Pappe (2022), os Acordos de Oslo fracassaram porque uma tática foi
adotada por Israel e dois princípios permaneceram sem resposta ao longo das negociações.
A tática foi a de fazer dos palestinos seguranças terceirizados, pois precisavam provar que
eram capazes de evitar guerrilhas e ataques terroristas. Já o primeiro princípio foi considerar
a partilha territorial como o único alicerce da paz. Os acordos previam que uma população
autóctone dividiria sua terra com os colonizadores e aceitaria um compromisso de paz como
um povo colonizado e derrotado. Até o encontro final da cúpula em Camp David (EUA) no
ano 2000 os sionistas travaram as negociações sobre a delimitação do Estado palestino e as
tropas israelenses em nada ou pouco deixaram o território ocupado. O segundo princípio foi
a negação dos direitos dos refugiados ao retorno e sua exclusão das negociações, uma vez
que os sionistas, e os estadunidenses envolvidos, temiam que os refugiados promovessem
atividades políticas, sociais e culturais. As negociações deixaram aberto o número de
refugiados que poderia voltar para os territórios controlados pela AP, “contudo, todas as
partes envolvidas sabiam que essas áreas abarrotadas não podiam comportar mais gente, e
que havia espaço de sobra para repatriação de refugiados no resto de Israel e da Palestina”
(PAPPE, 2022, p.186).
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Em 1995 Yitzhak Rabin foi assassinado por um fundamentalista religioso judeu. Um
atentado assim nunca tinha sido cometido por um judeu, Ygal Amir, que manifestou sua
indignação contra Rabin por estar impedindo o projeto messiânico. Então o processo foi
interrompido e as hostilidades de ambos os lados escalaram; o discurso dos sionistas se
voltou contra as negociações e resultou em 1996 na vitória em eleições nacionais do partido
Likud, liderado por Benjamin Netanyahu, o qual travou o processo por “mau
comportamento” dos palestinos. Apesar de várias tentativas após 1995, as negociações de
paz permaneceram paralisadas e as promessas de desocupação por parte de Israel não foram
cumpridas, o que levou rapidamente à deterioração da situação (GRINBERG, 2000).
A oferta final de Israel em Camp David propunha um pequeno Estado palestino, com
capital em Abu Dis, mas sem o desmantelamento de assentamentos e sem perspectiva de
retorno dos refugiados. Os palestinos rejeitaram.
Portanto o processo de paz de 1990 mal pode ser chamado assim. A insistência na
partição e a retirada de pauta da questão dos refugiados reduziu o processo de
Oslo, na melhor das hipóteses, a um remanejo militar, uma reestruturação do
controle israelense na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. […] Após 1995, ficou
dolorosamente evidente que, na prática, o resultado do Acordo de Oslo não havia
sido a paz, mas a ruína da sociedade palestina. Após o assassinato de Rabin e a
eleição de Netanyahu em 1996, o Acordo virou um discurso de paz sem qualquer
relevância para a realidade cotidiana. Durante o período das conversas – entre
1996 e 1999 – novos assentamentos foram construídos e novas punições coletivas
foram impostas aos palestinos. […] Como o processo de Oslo não foi um processo
de paz genuíno, a participação dos palestinos nele e sua relutância em levá-lo
adiante não indica uma suposta cultura política violenta e intransigente, mas uma
resposta natural à farsa diplomática que consolidou e aprofundou o controle
israelense sobre os territórios ocupados (PAPPE, 2022, p. 186-187).
14
Segundo PAPPE (2022) os governos do Estado de Israel tomam medidas sob orientação do Sionismo, o que
o leva a avaliar que o projeto sionista é contínuo e enraizado tanto na burocracia quanto nas diferentes coalizões
políticas que governaram desde 1948. Tais governos elaboraram leis como Lei do Retorno de 1950, Lei de
Terras de Israel de 1960, Lei de Cidadania e Entrada em Israel de 2003, Lei da Nakba de 2011, Lei do Estado-
Nação de 2018, entre outras, com caráter de segregação social em relação aos palestinos que vivem em Israel
(BERMÚDEZ, 2021).
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algum envolvimento. Os que se opõem a essa norma acreditam que a justificativa “velada”
para a lei se manter em vigor se dá no receio institucional de que a vinda massiva de cônjuges
oriundos da Palestina possa impactar no equilíbrio demográfico (e político) de Israel
(BERMÚDEZ, 2021).
Sob a perspectiva territorial, com a criação do Estado de Israel um número abundante
de terras foram confiscadas de populações palestinas, passando à administração da
burocracia do novo Estado. Ainda nesse sentido, posteriormente no governo Netanyahu no
ano de 2011 foi aprovada uma lei que estabelece comissões que avaliam grupos que possam
vir ou não habitar tais assentamentos, o que pode vir favorecer a novos colonos judeus em
detrimento de palestinos, sendo àqueles assegurados do direito à cidadania pela Lei do
Retorno de 1950 (BERMÚDEZ, 2021). No ano de 2018 foi aprovada a lei do Estado-Nação
que reconhece Israel como uma nação do povo judeu, o que causou revolta das comunidades
palestinas residentes em Israel em decorrência da negligência para com as demais
comunidades que demandam, também, reconhecimento constitucional e direito de
autodeterminação. Isto é, o Estado é exclusivo do povo judeu, já que a lei não prevê
igualdade constitucional frente os outros povos ali existentes (BERMÚDEZ, 2021). No
mesmo ano, Israel estabeleceu que os assentamentos judaicos passariam a ser reconhecidos
como “valor nacional” e que passariam sob a cobertura da lei Estado-Nação a ser promovidos
por vias legais conforme o relatório do B’Tselem - Israeli Information Center for Human
Rights in the Occupied Territories (2021). Este também explicita o contraste na vida dos
palestinos que são aglomerados em enclaves e se veem com pouquíssimas terras para a
construção, recorrendo a irregularidade estando suscetíveis a demolição dessas
infraestruturas.
Uma questão imperiosa que também é abordada no relatório (B’TSELEM, 2021) foi
o seu direito à liberdade de locomoção que afetou a vida de milhares de palestinos entre os
territórios ocupados. A Faixa de Gaza por exemplo está bloqueada desde o ano de 2007,
sendo proibida a movimentação de pessoas, ao passo que os cidadãos israelenses são
providos do direito de sair e retornar do país a qualquer instante (B’TSELEM, 2021).
Somando-se todas essas questões descritas que segregam e dividem comunidades inteiras,
os territórios ocupados não realizam eleições desde o ano de 2006, justamente sob o poder
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de controle e mitigador do Estado de Israel que cerceia desde a imigrações, questões
territoriais e opera militarmente onde um número próximo a 5 milhões de palestinos não
exercem seu direito de voto e participação na política (B’TSELEM, 2021).
Como mencionado anteriormente, foi iniciada a construção de um muro da
Cisjordânia como resultado também da Segunda Intifada a fim de estabelecer uma divisão,
agora de concreto e mais que física entre os territórios palestinos na Cisjordânia e de
assentamento judeus. De acordo com Andrade (2022), é a prova mais que concreta de um
sistema segregacionista e um regime de apartheid se estendendo por 760 quilômetros,
reforçando uma divisão colossal de entre os palestinos e em relação aos israelenses na região.
A construção do muro foi julgada pela Corte Internacional de Justiça (CIJ) e Israel foi
condenado a demolí-lo, todavia, o mesmo não fez e continuou sua expansão sob o governo
de Netanyahu (CORTE INTERNACIONAL DE JUSTIÇA, 2004). Andrade (2022) aponta
que a política segregacionista do Estado de Israel justificada em prol da segurança evidencia
o que não é dito abertamente: “os judeus, em grande parte, reconhecem que a vida dos
palestinos piorou depois da construção do muro, porém, acreditam que a segurança do povo
judeu vale mais que a liberdade de um árabe” (ANDRADE, 2022, p. 132).
O termo apartheid de oriundo da África do Sul se destacou pela separação em virtude
da cor de pele, enquanto em Israel se dá por outros meios que envolvem a segregação social,
a privação dos direitos políticos e de votar e o direito a autodeterminação exclusivo aos
judeus, entre outros15. A soma dos elementos apresentados aqui (e outros) evidenciam a
segregação social, o domínio judeu sobre os palestinos e a existência de dois regimes
distintos, em que um se sobrepõe ao outro a ponto de controlá-lo (B’TSELEM, 2021). Todo
o processo histórico visto e as políticas do Estado sob o governo Netanyahu (e outros) criam
uma situação em que os colonizadores se veem como pertencentes a terra,
15
O insuspeito ex-presidente estadunidense Jimmy Carter, do país que mais apoia Israel, declarou: “‘Um
sistema de apartheid, com dois povos ocupando a mesma terra, mas completamente separados uns dos outros,
com os israelenses totalmente dominantes e com extrema violência, privando os palestinos de seus direitos
humanos básicos’. […] Como afirmou um proeminente israelense: ‘receio estar nos aproximando de um
governo como o da África do Sul, com uma dupla sociedade de governantes judeus e povos árabes com poucos
direitos de cidadania […] com os palestinos restantes completamente cercados por muros, cercas e postos de
controle israelenses, vivendo como prisioneiros dentro da pequena porção de terra que lhes resta’” (apud
ANDRADE, 2019, p. 215).
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independentemente se houve ou há um povo que ali habite, de modo que o habitante inicial
passa a ser um invasor, estando suscetível a extermínio étnicos.
Em termos de política externa, como apresentado, historicamente o Estado de Israel,
e portanto o próprio governo Netanyahu, adquiriu três dimensões da atuação: 1) relações
proveitosas como as potências capitalistas ocidentais, particularmente com os EUA e seu
auxílio militar; 2) as relações conturbadas com os países em seu entorno geopolítico, no qual
busca pelo via diplomática e militar consolidar a soberania do Estado; e 3) a colonização da
Palestina histórica até o ponto de reconfigurá-la na Grande Israel, com o mínimo possível de
palestinos. Nesse último caso, é emblemática a posição do próprio Netanyahu na AG da
ONU em setembro de 2023, quando ele apresenta um mapa do Oriente Médio onde a
Palestina não existe. Na ocasião ele demonstra o projeto do gasoduto EastMed, o maior do
mundo, que ligaria Israel à Europa para reduzir a dependência do Velho Continente em
relação à Rússia. O campo de gás, chamado de Leviatã, fica na Bacia do Levante, a 130 km
a oeste de Haifa, na Palestina (LEMOS, 2023)16.
Complementar às dimensões da política externa de Israel, Priego (2021) aponta que o
governo Netanyahu promoveu uma “Doutrina Netanyahu” alicerçada em três pilares: o de
segurança, apontando o Irã como principal ameaça ao Estado de Israel, acompanhado do
Hamas na Síria; o pilar econômico (subordinado ao primeiro e ao terceiro), cujo objetivo foi
superar a crise econômica que se arrastava desde 2009, com maior gravidade em 2019 até
2020; e o diplomático, que na prática se afasta de quaisquer acordos de paz.
O pilar de segurança se concentra na questão nuclear do Irã. Em uma conduta
nacionalista reiterou o perigo do país persa armado e com o intuído de mitigar uma
proliferação nuclear na região, o governo fez o improvável e se aproximou de monarquias
sunitas, em uma tentativa de isolar o Irã. “Netanyahu fez da necessidade uma virtude e,
usando a ameaça iraniana como “desculpa”, inverteu a relação com Estados como os
Emirados, o Bahrein, o Sudão, Marrocos ou mesmo a Arábia Saudita, transformando os seus
16
Nesse mesmo sentido, uma organização de colonos chamada Nachala (pátria) que por décadas tem
organizado a criação de assentamentos, já planeja ocupar e construir infraestrutura e moradia na Faixa de Gaza
diante do atual massacre das forças armadas israelenses na área, que tem exterminado os palestinos. Ver
Guerin, 2024.
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inimigos em potenciais aliados” (PRIEGO, 2021, p.197). O pilar econômico se desdobrou
em resposta à crise da pandemia, com três subpilares. Primeiro, a liberalização econômica,
que foi pautada na redução de impostos, com o objetivo de atrair capital estrangeiro,
sobretudo, empresas da área de tecnologia; os esforços para ligar o nome de Israel a essas
empresas, as start-ups. Terceiro, e por último, o pilar da energia, viabilizando a produção de
gás natural dos depósitos descobertos entre 2009 e 2012, o que fez o país se tornar exportador
para seus vizinhos Jordânia e Egito. O pilar mais emblemático, o diplomático, só reitera a
postura do governo Netanyahu (e do Estado de Israel) de opositor à ideia de dois Estados. É
preciso salientar que a Doutrina Netanyahu de política externa é assimétrica, pois o pilar de
segurança está acima de todos, respaldando o direito de Israel “se proteger”, enquanto o pilar
da economia se projeta de maneira subordinada como uma ferramenta para os demais
(PRIEGO, 2021).
Nesse sentido, e por fim, cabe observar o aparato militar chamado de Domo de Ferro,
uma estrutura de defesa aérea para interceptar mísseis e foguetes, que é símbolo da política
de segurança ao Estado de Israel. A construção tem origem em uma pesquisa colaborativa
com os Estados Unidos na década 80, com financiamento de US$200 milhões, finalizada em
2011. Apesar do êxito, tido como “satisfatório”, o escudo antiaéreo recebe críticas de
especialistas, uma vez que o domo corrobora a política de violência contínua e um fracasso
na projeção de estabilidade na região e políticas externas que perpetuam uma postura
agressiva e ineficaz para resolução imediatada do conflito (CUETO, 2021).
Considerações finais
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