Caderno de actividade de Introdução à Filosofia – 11ª classe Prof: Eusébio Feliciano Come
UNIDADE DIDÁCTICA II _________________________________________Introdução à Filosofia
UNIDADE II: A PESSOA COMO SUJEITO MORAL
1. ÉTICA E MORAL
Ética Moral
Origem Ethos: conduto; modo de ser Mores: costume; hábitos
etimológica
Ética: estuda e reflete sobre a Moral: conjunto de princípios, regras,
Definição
moral e as normais de normas que são vigentes numa
conduto humana. determinada sociedade (grupo cultural).
Moral: é o critério do bem e do mal.
Tempo Atemporal: as reflexões Temporal: os costumes sociais mudam
filosóficas são prementes. com tempo (não são prementes).
Função Teórica: reflete sobre a Pratica: lida com agir (acção) humano.
moralidade.
Dimensão Universal: preocupa-se com Local: preocupa-se com a acção
a humanidade da pessoa concreta (do indivíduo) em sociedade.
(dignidade da pessoa
humana).
Objectivo Felicidade humana: prover o A moral é obrigatória (dever): o
bem-estar, a justiça, individuo tem de agir em conformidade
liberdade. com as obrigações sociais.
2. DEFINIÇÃO ETIMOLÓGICA DE PESSOA
A palavra “Pessoa” deriva do grego “Prosopon” e do latim “personare” – que significa
“mascara”, ou seja, um instrumento que um determinado actor coloca no seu rosto
durante a apresentação de uma peca teatral.
definição de pessoa segundo certos filósofos
Para Boécio, “a pessoa é uma substancia individual de natureza racional”.
Para São Tomas de Aquino, “a pessoa é um subsistente de natureza racional”.
Segundo Cícero, “a pessoa como sujeito de direitos e deveres”.
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Segundo Emmanuel Kant, “a pessoa é um fim em si mesmo e não um meio ao serviço
dos outros”. A pessoa é um valor absoluto.
Para Martin Buber, Emmanuel Lévinas e Emmanuel Mounier “a pessoa é um ser de
relação com os outros e a sua abertura ao transcendente (Deus)”.
2.2. CARACTERÍSTICAS DA PESSOA
A pessoa como sujeito moral fundamenta-se acima de tudo pelas seguintes
características: singularidade, unidade, interioridade, autonomia, abertura, projecto
e valor em si.
Singularidade: cada ser humano é uno, original, autentico, irrepetível e
insubstituível; ou seja, ninguém é copia de ninguém, há sempre uma diferença.
“cada pessoa é ela mesma”.
Unidade: a pessoa é uma totalidade, isto é, as diferentes partes que a
constituem formam um todo coeso, uma unidade psicológica e moral.
Interioridade: em cada ser humano há um espaço de reserva e de intimidade,
inacessível e inviolável: é a consciência.
Autonomia: o ser humano, na sua qualidade de pessoa, é um centro de
decisão e acção, tem em si o principio e a causa do seu agir; a pessoa tem a
capacidade de autogovernar e autodeterminar.
Abertura: quando o ser humano, percebe a necessidade do outro, ela revela-
se um ser para o outro, torna-se pessoa na sua relação com os outros e com a
natureza: essa dimensão relacional é assegurada pela comunicação.
Projecto: o ser humano não nasce acabado, ele vai se realizando por si próprio
de modo a tornar-se como tal.
Valor em si: a pessoa é um valor absoluto e, como tal, não pode ser usado
como um meio ao serviço de um fim.
3. CONSCIÊNCIA MORAL: ETAPAS DO SEU DESENVOLVIMENTO HUMANO
Para os filósofos antigos, a consciência moral é algo inato (nasce com ser humano.)
Para os modernos a consciência moral é algo adquirido (aprendizagem).
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A consciência é a faculdade de alerta, que nos permite perceber o mundo interior e
exterior a nós mesmos e fazer juízos de valores sobre o mundo.
A consciência moral é a faculdade que o Homem tem de distinguir o bem e do mal,
apreciar os seus actos e adoptar uma determinada forma de comportamento.
Descrição da consciência moral:
Voz interior: que anuncia um dever ou uma obrigação.
Juiz interior: que condena ou aprova os actos de incidência moral.
Sentimentos: sentimento daquilo que se passa connosco, isto é, testemunho ou
julgamento secreto da alma que aprova as acções boas ou rejeita as más.
Forca: que mobiliza e empurra ou impede a acção.
Intimidade: é algo intimo e secreto que exige respeito e não deve ser violado por
ninguém.
3.2. Etapas do desenvolvimento da consciência moral: Piaget (1896-1980)
Segundo Piaget, a consciência moral evolui em paralelo com a inteligência humana, ou
seja, desenvolve-se a medida que a inteligência humana se vai desenvolvendo, seguindo
um processo delineado por três etapas fundamentais:
Etapas da consciência Características
moral segundo Piaget
1ª etapa: moral de obrigação Reina a obrigação: a criança vive numa atitude unilateral de
ou heteronomia (entre 2 e 6 respeito absoluto para com os mais velhos e as normas são
anos) totalmente exteriores a si
2ª etapa: moral da Respeito mutuo e honestidade: o respeito unilateral é
solidariedade (entre 7 e os 11 substituído pelo respeito mutuo e começa a desenvolver uma
anos) ideia de igualdade entre todos e as normas de condutas são
aplicadas de forma rigorosa.
3ª etapa: moral de equidade Altruísmo e compaixão: interessa-se pelo outro e a
ou autonomia (a partir dos 12 compaixão, e a moral se torna autónoma. A observância pelas
anos) normais sociais assume um carater pessoal.
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3.3. Etapas do desenvolvimento da consciência moral: Lawrence Kohlberg (1927-
1987)
Lawrence Kohlberg considera que, a consciência moral forma-se a partir de interacção
do individuo com a sociedade, através de aprendizagem. Kohlberg divide o
desenvolvimento da consciência moral em três níveis:
Etapas da consciência Características
moral Kohlberg
1º nível: pré-convencional castigo ou premio. As pessoas respeitam as normas sociais,
(pré-moral) mas receiam o castigo se não as cumprirem ou esperam uma
recompensa pelo seu cumprimento
2º nível: convencional Respeito pela ordem estabelecida ou convencional. As
pessoas respeitam as normas sociais porque consideram
importantes que cada um desempenhe o seu papel numa
sociedade moralmente organizada.
3º nível: pós-convencional Princípios universais: estabelece que as pessoas se
(moral de princípios) preocupam com um juízo autónomo e com o estabelecimento
de princípios universais
4. ACÇÃO HUMANA E DO HOMEM
4.1. Acção humana
Acção humana é toda a actividade (acto) que um sujeito pratica duma forma deliberada
e intencional ou consciente. Na acção humana interligam-se três principais conceitos:
Projecto ou intenção do agente;
Vontade: a possibilidade de poder ou não fazer algo; e
Justificação ou explicação que é a indicação do motivo ou razão que leva o
individuo a agir.
O termo “acção” comporta essencialmente dois tipos de significados: involuntárias e
voluntarias.
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a. Acções involuntárias (actos do homem)
Acções involuntárias (actos do homem): são acções que o Homem prática sem
intenção (instintivas) e esses são comuns a outros animais. Por exemplo: mastigar,
ressonar, esticar o braço em autodefesa, envelhecer, gritar de susto etc.
b. Ações voluntarias (actos humanos)
Acções voluntarias (actos humanos): são acções que o Homem pratica com intenção
deliberada. Estas acções são refletidas, estudas, premeditadas ou até projectadas a
longo prazo, tendo em vista atingir determinados objectivos.
Para que uma acção seja considerada voluntaria devem apresentar os seguintes
elementos:
Agente: um sujeito da acção que é capaz de se reconhecer como autor da acção
e que age com consciência e livre-arbítrio (capaz de optar e tomar decisões
livremente).
Motivo: A razão que justiça a acção; o que nos leva a agir ou fazer algo. A
pergunta é: por que fizeste ou vais fazer isto ou aquilo?
Intenção: a intenção refere-se aquilo que o sujeito pretende fazer ou ser com sua
acção. A pergunta é: “Que quer fazer aquele que age?” que fazes?
Fim: o fim da acção é a possessa daquilo para que se quer na acção.
5. NOÇÃO DE VALOR
Os Valores são critérios segundo os quais damos ou não importância as coisas
Os Valores são as razoes que justificam ou motivam as nossas acções, tornando-
as preferíveis a outras.
5.1. Tipos de Valores
As nossas acções é que ditam os valores de acordo com as nossas preferências, isto é,
em optar em agir nisto e não naquilo. A partir desse ponto de vista, temos vários tipos de
valores:
a. Valores espirituais:
Religiosos: relação do Homem com a transcendência.
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Estéticos: Valores de expressão de beleza, harmonia, elegância.
Éticos: refere-se as normas de conduta que afectam todas as áreas da nossa
actividade.
Políticos: dizem respeito ao Homem na sua qualidade de cidadão (convivência com
os outros na sociedade.
Intelectuais: conhecimento-erro; exato-aproximado; evidente-provável; etc.
b. Valores materiais ou sensíveis:
Valores do agradável e do prazer: exprimem sensações de prazer e de
satisfação (comida, bebida, vestuário).
Valores vitais: referem-se ao estado físico (saúde, forca, resistência física).
Valores de utilidade ou económicos: aqueles que referem a habitação, dinheiro,
meios de comunicação, vestuário.
Bipolaridade de valores: apresentam-se sempre em pares opostos, numa
polaridade negativa/negativa, bom/mau, belo/ feio.
Hierarquia dos valores: encontram-se sempre dispostos numa hierarquia que
implica a superioridade e prioridade de uns sobre os outros – cada pessoa ou grupo
social possui a sua própria hierarquia de valores.
Historicidade dos valores: seleção, a hierarquização e o próprio conteúdo dos
valores sofrem condicionalismos e influencia da época em que são enunciados.
5.2. A SUBJECTIVIDADE (RELATIVIDADE) E A OBJECTIVIDADE DOS VALORES
Existem duas posições sobre os valores, onde uns defendem a existência de valores
objectivos e, outros defendem os valores subjetivos.
Posição subjectiva dos valores: defendem que os valores estão sempre a mudar.
Esta posição foi assumida pelos sofistas, por Protágoras, na antiguidade, ao afirmarem
que a verdade ou a moral não passava de convenção que variam de sociedade para
sociedade, de individuo para individuo, de cultura para cultura.
Posição objectiva dos valores: defendem que a moral é objectiva, isto é, os valores
designam padrões de comportamento coletivamente reconhecidos e adotados por um
grupo social. estes valores são absolutos, invariáveis e inquestionáveis. Esta posição
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é defendida na maioria pela Religião (islâmica, cristã etc.); por Platão ao considerar o
bom, o belo e o justo entidades ideais, imutável e incondicional e, é também defendida
por Max Scheler e Nicolai Hartmann.
Posição objectivo-subjectiva dos valores: defendem que, certos valores, em cada
época ou cultura, são atribuídos o “caracter absoluto e inquestionáveis”, pois devem
ser obedecidos e seguidos (por exemplo: a liberdade, a igualdade, e solidariedade são
direitos e valores universais e absolutos), em detrimento de outros que são considerados
relativos e menos “obrigatórios”.
5. LIBERDADE E RESPONSABILIDADE
5.1. Noção de liberdade
O termo liberdade designa a capacidade que todo o Homem possui de agir de acordo
com a sua própria decisão: é a capacidade de autodeterminação.
Conceito de liberdade segundo vários filósofos:
Para Sócrates: a liberdade é o domínio da racionalidade em relação a
animalidade.
Para Descartes: a liberdade é o processo de pensar (cogito), ao nível do pensar,
sente-se a liberdade.
Segundo Kant, a liberdade é a razão de ser da lei moral e simultaneamente a
afirmação do sujeito que age como pessoa, segundo a vontade, e que mesmo
agindo por dever, age livremente pois obedece a sua própria lei.
Jean Paul Sartre: identifica o Homem como liberdade. “o Homem está
condenado a ser livre”, e uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo
que faz, isto é, “total liberdade, absoluta responsabilidade.
Como condição do agir humano, a liberdade pressupõe:
autonomia do sujeito: o homem tem a liberdade de tomar a sua própria acção (ou
decisão), isento de determinismo externo ou interno.
Consciência da acção: acção humana é a manifestação de uma vontade livre e,
portanto, consciente dos seus actos.
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Escolhas fundamentadas em valores: acção implica sempre a manifestação de
certas preferências. porém, nem toda liberdade é consciente, embora sempre se
materializa na própria acção.
5.2. Formas e Tipos de Liberdade
A liberdade divide-se em: liberdade interior e exterior.
a. A Liberdade interior compreende:
Liberdade psicológica: capacidade que o Homem tem de fazer ou não uma
determinada coisa, ou seja, é a capacidade de decidir por si mesmo.
Liberdade moral: ausência de qualquer constrangimento de ordem moral. É a
liberdade de escolha ou de não escolha que torna o homem digno de si próprio.
b. A Liberdade exterior compreende:
Liberdade sociológica: autonomia do sujeito face aos constrangimentos
impostos pela sociedade.
Liberdade física: ausência de qualquer constrangimento físico.
Liberdade politica: ausência de qualquer constrangimento de natureza politica.
6. DA LIBERDADE HUMANA À RESPONSABILIDADE MORAL
A responsabilidade humana é a característica em virtude da qual a pessoa deve
responder pelos seus actos, reconhecendo-os como seus e assumindo as suas
consequências ou efeitos perante os outros e perante a si mesmo e a sua consciência.
Todo o acto moralmente responsável exige as seguintes condições:
Imputabilidade: só é responsável por um determinado acto aquele a quem esse
mesmo acto é imputado (a quem é atribuída a sua autoria).
Consciência: o sujeito age conscientemente, com o conhecimento de causa.
Intencionalidade: deriva de uma decisão consciente, voluntária e livre do sujeito,
pois não é forcado a agir de uma determinada forma.
7. A JUSTIÇA E O DEVER
7.1. A Justiça
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A justiça é uma virtude ou qualidade humana que consiste na vontade firme e constante
de dar a cada um o que lhe é devido (Aristóteles).
Segundo Carlos Dias Hernández, a noção de justiça exprime uma tripla dimensão,
nomeadamente:
Ético-pessoal: refere ao homem justo, com virtude pessoal, designa a
imparcialidade e capacidade de, nas relações com os outros, antepor as
exigências morais aos interesses subjectivos.
Ético-social: é a sociedade ou o sistema politica justo, no qual existem relações
sociais institucionalizadas, ordenadas e coerentes, no interior das quais cada um
recebe o que é seu.
Jurídico-legal: A justiça é aplicada quando a lei é cumprida.
7.2. NOÇÃO DE DEVER
O dever é uma realidade interior que leva a vontade a agir de determinada maneira, sem
violentar, mas que, no entanto, se impõe como expressão de uma ordem que impera
absoluta e incondicionalmente e que é cumprimento e respeito pela lei moral.
Segundo Kant, o dever é um imperativo categórico e não hipotética, isto é, uma
obrigação, visto que impera incondicionalmente. Este imperativo é obrigatório no
sentido em que é fruto da escolha da vontade, ou seja, o individuo pode escolher, é livre
de escolher as suas acções e nem sempre escolhe uma acção por dever, mas quando
decide e opta por uma acção conforme ao dever, quando segue o imperativo
categórico que é uma lei moral, sua vontade é uma vontade boa e é realizada uma
acção moral.
A formulação do imperativo categórico de Kant é a seguinte: “age como se a máxima
da tua acção se devesse tornar, pela tua vontade, em lei universal” [age de tal
maneira que a sua acção se torna numa máxima (lei) universal].
A lei moral, ou dever, não diz o que se deve fazer nesta ou naquela situação, mas indica
ao ser humano como se deverá comportar em todas as situações.
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O dever encontra a sua fundamentação em tendências que podem ser resumidas em:
Tendência teísta: defende que o verdadeiro fundamento do dever é Deus, criador
e legislador supremo da Natureza e do Homem.
Tendência positivista: defende o dever como algo resultante da expressão
exercida pela sociedade sobre os indivíduos que, com o tempo, se foi introduzindo
e se transformou em obrigação de consciência.
Tendência racionalista: defende como fundamento do dever a própria razão
humana, autora de todas as leis e, por isso, também das leis morais. É a razão
que criar o dever, esta é a tendência onde se enquadra o imperativo categórico
de Kant.
8. A SANÇÃO E O MÉRITO
Sanção é o premio ou o castigo infligido pelo cumprimento ou violação de uma lei.
Sancionar uma acto, é sublinhar o seu valor reconhecendo-o como bom, por meio de
elogios ou recompensas, ou tomando-o como mau, através de censuras ou castigos.
O Mérito de uma pessoa são as qualidades susceptíveis de admiração, e os méritos
incluem geralmente, virtudes como a benevolência, temperança, justiça e misericórdia.
Ou seja, mérito é também uma virtude, entendendo por virtude a disposição habitual que
a pessoa tem para cumprir o dever, seja qual for a forma pela qual este se apresenta.
A virtude é uma forma moral para fazer o bem e adquire-se pela pratica de bons actos.
9. A PESSOA COMO UM SER DE RELAÇÕES
Em geral, a pessoa pode se relacionar consigo próprio, com o outro, com a natureza
e com o trabalho.
1. Relação consigo próprio
Na sua relação consigo próprio, a consciência é a base do individuo moral. A
consciência moral, sempre ligada à razão, é a capacidade que permite ao ser humano
conhecer-se a si próprio. A pessoa na sua relação consigo mesmo é chamada a cultivar
bons e nobres sentimentos (amor, amizade, solidariedade, justiça, altruísmo); a
respeitar-se como homem e mulher, reconhecendo a sua dignidade; a desenvolver
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bons hábitos em conformidade com as normas morais vigentes na sua sociedade,
evitando a ganancia, inveja, o rancor e ciúme.
Entre estas características, vamos refletir sobre algumas que dizem respeito a pessoa
consigo própria (ética-individual):
a. A indiferença: é uma atitude mediante a qual elevemo-nos acima dos outros,
ignorando-os.
b. Odio (despromoção do outro): é uma atitude da qual o Homem abonadona a
pretensão de realizar uma união com o outro e pretende destruí-lo.
c. Amor (promoção do outro): representa um projeto de lição com o outro.
d. Paixão: é um sentimento arrasador que aparece independentemente de nós, da
nossa vontade ou escolha. A paixão é irracional enquanto o amor é racional.
2. A relação com o outro
A relação da pessoa com o outro pode ser entendida em dois âmbitos opostos:
1. A descoberta de si próprio corre na existência da sociabilidade que permite o
Homem interpelar-se na existência do outro. É no resto do outro que eu me
descubro - eu sou eu na relação com o outro, pois nele eu me reconheço e
me projecto como uma pessoa.
2. A Relação com o outro é estabelecida mediante um “contrato” que estabelece
um conjunto de regras que vinculam uns aos outros, estabelecendo acordos de
vontade. Estes contratos estão na base da convivência social (são
estabelecidos onde existem o Estado, Politica e o direito e. é o garante da justiça).
3. Relação com o trabalho
O trabalho pode ser definido como: “toda a actividade, seja ela, material ou espiritual,
com vista a um resultado útil”. O trabalho humano é resultado da intervenção de
condições internas (comportamento, intelecto e etc.), e condições físicas (técnicas,
económicas e sociais), que são de natureza externa em relação ao sujeito que trabalha.
Na relação com o trabalho, “o Homem é chamado não apenas a transformar o
mundo, mas fundamentalmente, a humaniza-lo”, ou seja, o Homem é chamado a
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tornar o mundo cada vez naus habitável, hospitaleiro e confortável. Portanto, pelo
trabalho, o Homem dignifica-se, pois este possui, para si, um valor personalista.
4. Relação com a natureza
Na relação do homem com a natureza, desenvolveu o conceito de ética ambiental e/ou
ecologia.
A ética ambiental é um conceito filosófico que visa ampliar o conceito da ética, enquanto
forma de agir responsável do homem em relação à natureza.
Segundo Severino Elias Ngoenha, o problema do meio ambiente é global, pois envolve
a toda humanidade. E, advoga a necessidade de se estabelecer um “contrato” moral e
politico com a natureza. Este contrato consiste na exploração cuidada dos recursos que
a natureza possui de forma a manter o equilíbrio natural e a pensar no futuro das
gerações vindoura (o chamado desenvolvimento sustentável).
Segundo a jurista Edith B. Weiss, cada geração tem uma obrigação moral de
conservar a natureza como património que herdamos dos nossos antepassados.
Temos o direito de usufruir os bens da natureza tal como farão as gerações futuras.
Michel Serres, propõe um “contrato natural”, que subverta as relações do Homem com a
natureza. O homem deve estar consciente de que “o que está em risco é a terra na
sua totalidade, e os homens, em seu conjunto”. A natureza não fala, mas ela dá
resposta.
10. NOÇÃO DA BIOÉTICA
O termo “bioética” é um neologismo que resulta da combinação de duas palavras
gregas: “bio” quer dizer “vida”, e “ethos”, relativo a “ética”.
A “bioética” vai significar a “ética da vida”, ou seja, o estudo sistemático da conduta
humana na área das ciências da vida e cuidados de saúde, enquanto essa conduta é
examinada à luz dos princípios morais e valores.
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O termo bioética1 foi introduzido por biólogo e médico oncologista Van Rensslaer Potter,
em 1971, na sua obra “Bioética: Ponte para o Futuro”.
10.1. Objecto e funções da bioética
A bioética tem como objecto o esclarecimento e a resolução de questões éticas que
advém dos progressivos avanços e aplicações das tecnologias biomédicas.
A bioética tem uma tripla função, a saber: descritiva, normativa e protecionista.
Função descritiva: consiste em descrever e analisar os conflitos que surgem nas
sociedades, provocados pelos progressos da técnica e da ciência na área da
medicina.
Função normativa: consiste em estabelecer normas com relação a tais conflitos,
por um lado, prescrevendo os comportamentos reprováveis e, por outro,
descrevendo os comportamentos moralmente aceitáveis.
Função protecionista: consiste em proteger, na medida do possível, os
envolvidos em disputas da natureza axiológica (de valores), dando maior primazia
aos mais fracos.
10.2. Principais temas da bioética
1. Eutanásia e distância
Etimologicamente, a palavra “eutanásia” provem do grego “eu”, que significa “bem ou
boa”, e “thanasia”, quer dizer “morte”. Por isso, o termo “eutanásia” significa “boa
morte”, isto é, morte apropriada, ou seja, “morte tranquila”.
A eutanásia corresponde a uma morte deliberada - causada a uma pessoa que padece
de uma enfermidade classificada tecnicamente como incurável; é uma morte que visa
aliviar o doente que se encontra no estado terminal. O doente tem o direito de morrer
em paz, evitando sofrimento doloroso e prolongado.
A distanásia é um procedimento medico que consiste no uso da tecnologia medica para
prolongar a vida do paciente que se encontra em fase terminal.
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Foi utilizado pela primeira vez por Alemão Paul Max Fritz Jahr, em 1927.
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Quadro sobre a diferença entre a distanásia e eutanásia:
Aspectos Eutanásia Distanásia
Divergentes Morte imediata: preocupa-se Morte mediata: prolongar ao
com a qualidade da vida humana máximo a duração da vida humana,
na sua fase terminal (aliviar a dor combatendo a morte como o
do paciente). grande e ultimo inimigo.
Comuns A preocupação com a morte do ser humano e a maneira mais adequada
de lidar com isso.
1.1. avaliação moral numa perspectiva religiosa
Para a Religião, a eutanásia e a distanásia é “um acto pecaminoso e ilícito.
2. O aborto
O aberto é a interrupção da gravidez quando o feto ainda não pode subsistir fora do
ventre materno. O aborto pode ser:
Abordo espontâneo: aquele que ocorre devido a causas naturais, sem a
intervenção da vontade humana.
Aborto provocado: é aquele em que se procura intencionalmente a morte do feto.
As principais razões são, por um lado, as causas económicas - falta de recursos
para cuidar e criar o filho e, por outro lado, as causas sócio-psíquicas - o desejo
de não se ser mãe solteira; o ter sido vitima de violência ou a fecundação não foi
livre e consentida pela mulher.
Aborto terapêutico: aquele que resulta como forma de salvar a vida da mãe,
seriamente ameaçada. Ou seja, é a interrupção da gravidez por motivos de saúde
quando poe em risco a vida do futuro bebé e da própria mãe.
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