Fonética e fonologia
[conceitos básicos]
“kit de sobrevivência na graduação”
Prof. Dr. Jorge Viana de Moraes
IELP I – Área de Filologia e Língua Portuguesa
DLCV | FFLCH | USP - 2020
Fonética e Fonologia
▪ São ramos complementares da linguística.
▪ Têm como objetivo investigar e estudar os sons da fala.
▪ Na fonética a unidade mínima é o fone;
▪ Que vem representado entre [ ];
▪ Na fonologia a unidade mínima é o fonema;
▪ Cuja representação se dá entre / /.
A Fonética:
- Estuda os aspectos físicos envolvidos na produção do som: estuda o aparelho
fonador, os movimentos dos lábios e da língua, os pontos de articulação, a
obstrução do ar, a vibração das pregas vocais,...
- Investiga as características físicas dos sons que permitem a sua articulação e
recepção auditiva.
- Analisa e descreve os sons da fala (fones) como entidades isoladas, com base em
características acústicas e perceptivas, em sua realização concreta. Neste sentido
está ligada à parole [fala] saussuriana.
- Utiliza o Alfabeto Fonético Internacional para a representação dos fones e para a
realização de transcrições fonéticas.
Exemplos de análises fonéticas:
• [a]: vogal baixa anterior
• [o]: vogal média alta arredondada
• [p]: consoante oclusiva bilabial surda
• [d]: consoante oclusiva dental-alveolar sonora
A Fonologia/fonêmica*
- Estuda a organização dos sons em sistemas sonoros, entendendo suas
funções e o papel linguístico que desempenham numa determinada língua.
Neste sentido está mais ligada à langue [língua] saussuriana.
- Investiga a combinação de fones em unidades sonoras capazes de distinguir
significado - os fonemas.
- Estuda a estrutura silábica, a acentuação e a entonação.
- Considera apenas as variações sonoras que podem afetar a compreensão da
mensagem.
* Conceito e terminologia de tradição linguística estruturalista norte-americana: (cf. E. Sapir e L. Bloomfield)
A Fonologia/fonêmica
Considera apenas as variações sonoras que podem
afetar a compreensão da mensagem.
vocábulo = > <coração>
A Fonologia/fonêmica
Isso faz diferença? Foneticamente sim, mas não fonologicamente. A
fonologia analisa a função do som numa língua, e ambos os sons [o] e [ɔ],
nesse caso, não atrapalham em nada o entendimento da palavra .
Então a notação fonológica seria a seguinte: /kOɾa’sɐ̃w̃/, a notação
fonológica, como já dissemos, aparece entre barras paralelas inclinadas. O
que é importante ressaltar é que o /O/ é um arquifonema[1] formado
(neutralizado) pelos fones [o] e [ɔ], a notação fonológica não vai levar em
conta exclusivamente como você fala uma palavra, porque ela quer o que
os estruturalistas queriam: transformar algo variável em invariável. Ou
seja, a notação fonológica não é a representação da sua fala, mas sim da
sua língua.
_______________________________________
[1] De acordo com o estruturalismo europeu (Círculo Linguístico de Praga), unidade da fonologia que consiste em um conjunto de traços distintivos comuns a dois ou mais fonemas de uma língua [O
arquifonema ocorre em determinados ambientes fônicos onde a oposição entre esses fonemas é neutralizada, seja porque aí apenas um deles ocorre, seja porque ocorre um terceiro som, diferente
dos dois, mas com traços em comum.].
A Fonologia/fonêmica
Considera apenas as variações sonoras que podem
afetar a compreensão da mensagem.
vocábulo = > <mesmo>
A Fonologia/fonêmica
• Os fonemas /p/ e /b/ são distintivos, ou seja, /’batu/ e
/’patu/ são palavras de significados completamente
diferentes, mas só tem uma diferença fonológica.
• As palavras que mudam seu significado e possuem
uma (e só uma) diferença fonológica são chamadas de
par mínimo.
Pares mínimos
Um par mínimo demonstra o contraste fonêmico entre os sons
em questão. Por exemplo, o par mínimo “pato/bato”
demonstra o contraste fonêmico entre [p] e [b]. Cada par
mínimo encontrado classifica os dois segmentos em questão
como fonemas do português. No caso de “pato/bato” dizemos
que /p/ e /b/ são fonemas distintos no português. p. 137
A Fonologia/fonêmica
Mas nem todos os sons que possuem diferenças, possuem
distinção de significado no português, no nordeste brasileiro, é
comum pronunciar a palavra como [‘tiɐ] e no sul como [‘tʃijɐ],
diante disso, é comum se dizer que [t] e [tʃ] não têm distinção
fonológica no português, então a transcrição fonológica de
seria /’tia/, perceba que a transcrição fonológica é mais “limpa”
ou mais “neutra” que a fonética. Nem todas as línguas acham
que [t] e [tʃ] são iguais, no inglês você tem [‘kæt] e [‘kætʃ],
portanto no inglês /t/ e /tʃ/ são fonemas, mas no português
não. Neste sentido, isso varia de língua para língua.
Exemplo de abordagem fonológica: pares
mínimos e distintivos no alemão
Transcrição fonética
• A transcrição fonética é a representação dos sons da fala através de
símbolos fonéticos. Difere de região para região, de estado para
estado e de pessoa para pessoa, uma vez que representa os diferentes
sotaques.
• Os símbolos fonéticos estão definidos no Alfabeto Fonético
Internacional (IPA - The International Phonetic Alphabet). Estão
diretamente relacionados com as letras do alfabeto, salvo algumas
exceções. Nas transcrições, os símbolos fonéticos são escritos dentro
de colchetes [ ]. O uso do til indica a nasalização da vogal e o uso do
apóstrofo antes de uma sílaba indica a sua tonicidade.
Representação dos
principais sons vocálicos
[a] - som á - pá, gato, amigo.
[ɐ] -som a - cama, cana.
[ɛ] - som é - pé, ferro, teto.
[e] - som ê - medo, regar, saber.
[i] - som i - ir, vida, sede.
[ɔ] - som ó - pó, mola, nova.
[o] - som ô - correr, morar, fome.
[u] - som u - uva, urubu, gato.
[j] - semivogal i nos ditongos - pai, leite, oito.
[w] - semivogal u nos ditongo - céu, pau, tênue.
Representação dos principais
sons consonantais
[b] - som b - banana, bola, boca. [s] - som s - sala, sapo, cinto, céu.
[p] - som p - pé, pato, pó. [z] - som z - zona, zebra, camisa, rosa.
[t] - som t - tábua, topo, tumulto. [r] - som rr - carro, torre, rato.
[tʃ] - som t africado - tia, tigela, tintura. [ɾ] - som r entre vogais - caro, faro, mero.
[d] - som d - dado, dedo, data. [m] - som m - madeira, moça, medo.
[dƷ] - som d africado - dia, ditado, dinheiro. [n] - som n - nó, nada, neve.
[k] - som c e qu - casa, comida, queijo, quintal. [ɲ] - som nh - linho, tenho, ganho.
[g] - som g e gu - gato, gola, guitarra, guerra. [ʃ] - som ch - chuva, xarope, listado, feliz.
[Ʒ] - som j - jeito, hoje, viagem, gim. [l] - som l - lado, luta, limão.
[f] - som f - fala, fome, foto. [ʎ] - som lh - telha, velho, milho.
[v] - som v - vida, volta, valente.
Exemplos de transcrições
fonéticas
casa - ['kazɐ]
data - ['datɐ]
faca - ['fakɐ]
povo - ['povu]
gema - [' Ʒemɐ]
chato - ['ʃatu]
caro - ['kaɾu]
carro - ['karu]
palha - ['paʎɐ]
uso - ['uzu]
bola - ['bɔlɐ]
táxi - [´taksi]
Exemplos de diferentes transcrições
baseadas na pronúncia
tio - [' tʃiu] e ['tiu]
dia - [´dƷiɐ] e [´diɐ]
mal - ['maw] e ['maɬ]
gol - ['gow] e ['goɬ]
baixo - ['baʃu] e ['bajʃu]
ouro - ['oɾu] e ['owɾu]
queijo - ['keƷu] e ['kejƷu]
chave - ['ʃavi] e ['ʃave]
Caracterização fonética:
as fricativas
Todas as línguas naturais possuem vogais e consoantes. Entende-se
por segmento vocálico, um som em cuja produção não haja
interrupção da corrente de ar, não havendo obstrução total nem
parcial. Por outro lado, na produção de um segmento consonantal,
a corrente de ar sofre algum tipo de obstrução nas cavidades
supraglotais de modo que haja uma obstrução total ou parcial da
sua passagem, podendo ou não haver fricção.
Caracterização fonética:
as fricativas
Na produção de um segmento consonantal fricativo, os articuladores
se aproximam produzindo uma fricção no momento da passagem da
corrente de ar, sem provocar obstrução completa e sim parcial,
dizemos que esse segmento é fricativo ou constritivo. O termo
fricativo é utilizado porque, em termos perceptuais, temos um ruído
de fricção específico ao ponto de articulação, podendo a fricção
ocorrer em qualquer parte do aparelho fonador, da glote até os lábios.
Caracterização fonética:
as fricativas
Segundo Silva (2002,
p.37), temos os
seguintes sons
fricativos em
Língua Portuguesa:
Caracterização fonética:
as fricativas
Denominam-se as fricativas alveolares de sibilantes e as fricativas
alveopalatais, ou palatais, de chiantes, como também o faz Câmara
Jr., quando fala do fenômeno da neutralização, bem como em
diversos pontos de sua obra:
Um bom exemplo em português é o desaparecimento do contraste
entre sibilantes e chiantes (/s/ e /x/, /z/ e /j/) em posição pós-vocálica
(In: CAMARA Jr., Mattoso. Para o estudo da fonêmica portuguesa. Rio
de Janeiro: Organizações Simões, 1953, p. 46).
Caracterização fonética:
as fricativas
Segundo Silva (2002,
p.37), temos os
seguintes sons
fricativos em
Língua Portuguesa:
Consoantes quanto ao modo de
articulação são classificadas em:
oclusivas - formadas pela interrupção completa da passagem do ar
através do contato do articulador ativo contra o articulador passivo em
determinado ponto de articulação. Exemplos: [p b t d k g]
nasais - formadas pelo impedimento total do ar na cavidade oral,
simultaneamente à abertura do véu palatino, fazendo com que o ar entre
na cavidade nasal e saia pelas narinas. Exemplos [m n ɲ]
fricativas - formadas quando o ar passa por um canal estreito formado
pelo impedimento semi-completo da cavidade oral, de modo a causar
estridência audível. Exemplos: [s z ʃ ʒ]
Consoantes quanto ao modo de
articulação são classificadas em:
aproximantes - Consoantes formadas pela aproximação do articulador ativo ao articulador passivo sem que
haja contato ou estreitamento do canal de passagem do ar. Também chamadas de semivogais ou ainda de
semiconsoantes. Apesar do som assemelhar-se ao de uma vogal, são consoantes por possuírem modo e ponto
de articulação. Exemplos [ w j ]
vibrantes - Consoantes formadas à mesma maneira das oclusivas, diferenciando-se destas pelo fato de o
articulador ativo fazer múltiplos contatos acelerados contra o articulador passivo. Exemplos [ r R ]
Retroflexa: produzida com o levantamento e encurvamento da ponta da língua (articulador ativo) em direção ao
palato duro (articulador passivo), ou melhor, com a elevação do reverso da ponta da língua em direção ao palato
(DUBOIS, 1973). As cavidades nasais estão obstruídas pelo levantamento do véu palatino não permitindo que o
ar passe através delas. O som retroflexo [ ɻ ] pode ser percebido na pronúncia do “r” no dialeto caipira ou por um
americano produzindo palavras como: mar [ ‘m a ɻ ] e porca [ ‘p ɔ ɻ k ɐ ].
laterais - Consoantes formadas pelo bloqueio do ponto de articulação pela parte frontal da língua, sem oclusão
lateral, de modo que o ar escapa pelas laterais da cavidade oral [l ł ]
Bibliografia
CAGLIARI, Luiz Carlos. Análise fonológica: introdução à teoria e à prática com especial
atenção para o modelo fonêmico. Campinas, SP: Mercado das Letras, 2002.
CAVALIERE, Ricardo. Pontos Essenciais em Fonética e Fonologia. Rio de Janeiro:
Lucerna, 2005.
CÂMARA JR., Joaquim. Para o estudo da fonêmica portuguesa. Rio de Janeiro:
Organizações Simões, 1953.
CRISTÓFARO SILVA, Thaïs. Fonética e Fonologia do Português: Roteiro de Estudos e
Guia de Exercícios. 6ª ed. São Paulo: Contexto, 2002.
DUBOIS, J. et al. Dicionário de Linguística. São Paulo: Cultrix, 1973.
FIM