UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
CENTRO DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGUÍSTICA
MARCELA LANGA LACERDA BRAGANÇA
Uma proposta de articulação teórico-metodológica entre os campos
variacionista, funcionalista e dialógico para o tratamento de
variação/mudança: reflexões a partir da expressão do futuro do
presente
Florianópolis
2017
MARCELA LANGA LACERDA BRAGANÇA
Uma proposta de articulação teórico-metodológica entre os campos
variacionista, funcionalista e dialógico para o tratamento de
variação/mudança: reflexões a partir da expressão do futuro do
presente
Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação
em Linguística da Universidade Federal de Santa
Catarina, área de concentração Teoria e Análise
Linguística, como requisito para a obtenção do
título de Doutora em Linguística.
Orientadora: Profª. Drª. Edair Maria Görski
Florianópolis
2017
Ficha de identificação da obra elaborada pelo autor,
através do Programa de Geração Automática da Biblioteca Universitária da UFSC.
Bragança, Marcela Langa Lacerda
Uma proposta de articulação teórico-metodológica
entre os campos Variacionista, funcionalista e
dialógico para o tratamento de variação/mudança:
reflexões a partir da expressão do futuro do
presente / Marcela Langa Lacerda Bragança ;
orientador, Edair Maria Görski, 2017.
696 p.
Tese (doutorado) – Universidade Federal de Santa
Catarina, Centro de Comunicação e Expressão, Programa
de Pós-Graduação em Linguística, Florianópolis, 2017.
Inclui referências.
1. Linguística. 2. Abordagem transdisciplinar. 3.
Sociofuncionalismo enunciativo-discursivo. 4.
Estilo. 5. Variação/Mudança na expressão do Futuro do
presente.. I. Görski, Edair Maria . II. Universidade
Federal de Santa Catarina. Programa de Pós-Graduação
em Linguística. III. Título.
À Eda,
por motivos sem-fim.
AGRADECIMENTOS
Esta tese resulta de uma longa jornada na qual muitos estiveram
comigo. A esses, agradeço:
Às lindas flores do meu jardim, a começar pela mais bela e
aromática, o meu amor, e na ordem em que nasceram para mim:
margarida, maurinho, nana, guto, cadio e nenel, pelo amor, pelo apoio,
por serem a minha força, mas, acima de tudo, simplesmente por
existirem;
Ao Vinícios, pela vida até aqui compartilhada;
À inesquecível Eda, pelo acolhimento, pela generosidade, pelas
explicações, reexplicações, pela direção segura, pela dedicação
inarrável, por me pôr a pensar, por não desistir de mim, por ser, enfim, o
melhor de mim nesta pesquisa – na esperança de seguir seus honrosos
passos;
Aos colegas mais chegados que irmãos Carlos Borges, por ter
sido, em muitos dias, a alegria que me faltava, e Carla Valle, pela
acolhida em sua casa, em sua vida, em seu coração;
Aos colegas do Varsul e de disciplinas por me inspirarem. Em
especial, aos colegas Salete, Maíra, Anderson, Camila, Vanessa,
Alejandra, Charlene, Fernanda, Leandro, Ivelã, Cris, Éderson e Ana
Kaciara, com os quais partilhei, em diferentes momentos, as
(des)esperanças da vida;
Aos homens-da-lei-e-do-bem deste país Fabrício, Nicola e
Rogini, pelos conselhos e consolos;
A todos os estudantes que já passaram por mim, por me
ensinarem, a cada dia, a ver a vida (e a língua) de forma renovada;
Aos amigos da fé, pelas orações;
A todos os professores do Programa de Pós-Graduação em
Linguística da UFSC, por contribuírem para a minha formação com
palestras, debates e reflexões. Especialmente, aos professores Adair
Bonini, Cristine Gorski Severo, Fábio Luiz Lopes da Silva, Heronides
Maurílio de Melo Moura, Isabel de Oliveira e Silva Monguilhott, Izete
Lehmkuhl Coelho, Leandra de Oliveira, Marcos Antônio Baltar, Marco
Antônio Martins, Mary Elizabeth Cerutti-Rizzatti, Rosangela Hammes,
com os quais cursei disciplinas;
Aos professores Leandra de Oliveira, Cristine Gorski Severo e
Rodrigo Acosta Pereira, pelas contribuições e direções no Exame de
Qualificação e também depois dele – em minhas memórias, exemplos de
solidariedade e comprometimento;
Aos membros da Banca constituída para exame deste trabalho –
Maria Alice Tavares, Sebastião Carlos Leite Gonçalves, Carla Regina
Martins Valle, Cristine Gorski Severo, Rodrigo Acosta Pereira e
Leandra de Oliveira –, por aceitarem ler e contribuir com as revisões
necessárias para seu desenvolvimento;
À CAPES, pelo suporte financeiro;
À Universidade Federal da Fronteira Sul, pelo afastamento
concedido para a formação;
À linda Floripa.
O ETERNO está comigo, na figura daqueles que me ajudam
(Salmos 118:7).
Ao ETERNO, pela vida.
“Pelo que vivenciei e compreendi [...], devo
responder com a minha vida para que todo o
vivenciado e compreendido nela não
permaneçam inativos”
(BAKHTIN, 2011 [1919], p. xxxiii-xxxiv).
“Melhor é o fim posterior dum
assunto do que o seu princípio”.
(ECLESIASTES 7: 8).
RESUMO
A literatura dos campos variacionista e funcionalista, particularmente o
de vertente norte-americana, tem se voltado, em suas tendências atuais,
para compreensão, dentre outros aspectos e respectivamente, (i) da
variação estilística, compreendida de diferentes modos a depender da
fase variacionista que se toma como referência para investigação desse
tipo de variação, e (ii) das condições de produção e de recepção dos
usos efetivos da língua. Com isso, esses dois campos, ora implícita ora
explicitamente, aproximam-se de questões relacionadas ao estudo de
gêneros textuais/discursivos. No que diz respeito a fenômenos em
variação/mudança no Português do Brasil, a literatura sobre a expressão
do futuro do presente indicia pontos ainda não investigados e que
também evocam, em alguma medida, tópicos de abordagens de análise
de gênero. Frente a esse duplo cenário, nesta tese apresentamos uma
proposta de articulação teórico-metodológica entre os campos
variacionista, funcionalista e dialógico para constituição de uma
abordagem transdisciplinar para tratamento de fenômenos em
variação/mudança, com o objetivo de promover uma nova chave de
leitura, suficientemente ampla para acomodar preceitos dos três campos
teóricos mencionados, especialmente para exame da expressão do futuro
do presente e de fenômenos similares. A pesquisa baseia-se na literatura
sobre (i) esse fenômeno, visto sob uma ótica funcionalista; (ii) o campo
funcionalista que orienta a literatura sobre esse fenômeno; (iii) o campo
variacionista, considerando mais detidamente aspectos históricos do
surgimento e do desenvolvimento desse campo, que enseja, em termos
prototípicos, três diferentes fases epistemológicas; e (iv) o campo
bakhtiniano, com menção a alguns de seus principais aspectos
filosóficos, teóricos e metodológicos. A partir da revisão dessa literatura
e de problematização de alguns de seus tópicos, tecemos um diálogo
entre os campos, levando-se em conta pontos passíveis de serem
conjugados, apesar das especificidades com que são abordados em cada
campo. O diálogo promovido orienta-se, então, pelos seguintes tópicos
de discussão: (i) concepção sobre o fazer científico; (ii) concepção sobre
sujeito e cognição; (iii) concepção sobre língua; (iv) concepção sobre a
relação entre língua, indivíduo e sociedade; (v) explicações sobre a
mudança linguística. Da articulação entre os campos em tela, por essas
via, propomos uma nova abordagem, designada nesta tese de
sociofuncionalismo enunciativo-discursivo. Dentre os aspectos que
caracterizam essa abordagem, destacam-se: (i) inscrição dos usos
linguísticos no âmbito das práticas sociais, com reconhecimento de que
eles constituem uma prática estilística e distintiva; (ii) concepção de que
a ideologia é o centro das práticas de uso da língua; (iii) circunscrição
do estudo da língua aos gêneros do discurso; (iv) eleição do estilo dos
gêneros como objeto de estudo; (v) exame das formas/funções de
fenômenos em variação/mudança sob a perspectiva de que elas integram
o estilo dos gêneros; (vi) visão de que a mudança linguística percorre
um caminho de experimentação de gêneros e de estilos; (vii) design
metodológico multidimensional e multinível (do tipo top down). Sob
esse novo olhar, indicamos o modo como algumas facetas sobre a
expressão do futuro do presente ainda podem ser examinadas, bem
como vislumbramos a possibilidade (i) de potencialização do estudo de
fenômenos em variação/mudança, quando esses são tomados em relação
a dinâmicas sociais particulares, por meio da eleição dos gêneros do
discurso como locus de análise da variação linguística (/estilística),
considerando ser nesse âmbito que se dá a relação entre formas, funções
e significado social da variação, e (ii) de produção de respostas para o
papel do significado das práticas sociais para os usos efetivos da língua
e, reversamente, o papel desses para a constituição daquele.
Palavras-chave: Abordagem transdisciplinar. Sociofuncionalismo
enunciativo-discursivo. Estilo. Variação/Mudança. Futuro do presente.
ABSTRACT
The literature of variation and functionalism, particularly in North
America, has been currently trending towards understanding: (i) stylistic
variation, understood differently depending on the variationist phase
taken as reference to investigate this variation type, and (ii) conditions
of production and reception of actual language use. Thus, these two
fields approach issues related to the study of textual/discursive genres -
sometimes implicitly, at other times explicitly. Regarding variation or
change phenomena in Brazilian Portuguese, the literature on the
expression of simple future tense shows paths not yet investigated that
also evoke topics of genre analysis approaches to some extent. Facing
this double-phenomena scenario, we propose in this dissertation a
theoretical-methodological reasoning between the variationist
functionalist, and dialogical fields to compose a transdisciplinary
approach to deal with variation and change phenomena. Such proposal
intends to promote a new reading key that is broad enough to include
precepts of the three theoretical fields, especially to examine the
expression of simple future tense and similar phenomena. The research
is based on literature about (i) this grammatical phenomenon from a
functionalist standpoint; (ii) the functionalist field that guides literature
on this phenomenon; (iii) variation field in which we need closer
consideration on historical aspects of emergence and development,
which entails three different epistemological phases, in prototypical
terms; and (iv) the Bakhtinian field, regarding some of its main
philosophical, theoretical, and methodological [Link] weave
dialogue between the fields from the review of this literature and the
problematization of some of its topics, considering points that can be
combined despite the specifics with which they are approached in each
field. The following concepts of discussion guided this dialogue: (i)
scientific doing; (ii) subject and cognition; (iii) language; (iv) the
relationship between language, individuals, and society; (V)
explanations on linguistic change. From the articulation between the
fields, we thus propose a new approach designed in this thesis of
Enunciative-discursive sociofunctionalism. Among the aspects that
characterize this approach, the following stand out: (i) linguistic uses
entries within the scope of social practices, with the knowledge that they
constitute a stylistic and distinctive practice; (ii) the concept that
ideology is at the center of language use practices; (iii) circumscription
of language study to discourse genres; (iv) election of genre styles as an
object of study; (v) a revision of forms/functions of variation/change
phenomena from a perspective that integrates genre styles; (vi) view that
linguistic change follows a path of experimentation of genres and styles;
(vii) multidimensional and multilevel methodological design (top down
style). In view of this new perspective, we indicate how some facets of
the expression of simple future tense can still be examined, as well as
glimpse the possibility (i) of potentializing the study of variation/change
phenomena, when these are taken into account with particular social
dynamics, through the choice of discourse genres as locus of linguistic
variation (/stylistic) analysis, considering that the relationship between
forms, functions, and social meaning of variation is set in this context,
and (ii) of production of definitions for the role of social practices
meaning for the actual uses of language and, reversely, their role in the
constitution of the language.
Keywords: Transdisciplinary Approach. Enunciative-Discursive
Sociofunctionalism. Style. Variation/Change. Simple future tense.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: Diagrama representacional do escopo da futuridade e
de suas relações com habitualidade e
imperativo/comando ....................................................... 47
Figura 2: Especificação do (macro)domínio funcional TAM a
partir de T (tempo) até chegar ao (sub)domínio
funcional do futuro do presente e suas (sub)funções ...... 54
Figura 3: Proposta da representação gramatical de tempo nas
línguas humanas ............................................................. 59
Figura 4: Diagrama representacional do conceito de presente
estendido......................................................................... 60
Figura 5: Diagrama da representação temporal que se ancora no
momento de fala ............................................................. 62
Figura 6: Diagrama representacional do tempo futuro anterior ou
perfeito ........................................................................... 64
Figura 7: Representação da trajetória de mudança de formas que
codificam, inicialmente, desejo e movimento para e
passam a codificar futuro................................................ 74
Figura 8: De Whitney a Labov ....................................................... 203
Figura 9: Esquematização da relação entre contexto e estilo ......... 252
Figura 10: Representação da árvore de decisão ............................... 258
Figura 11: Derivação da variação intrafalante da variação
interfalante por meio da avaliação .................................. 269
Figura 12: Campo Indexical de (ING) (baseado em Campbell-
Kibler 2007a, 2007b. Em negrito = significados para a
variante de velar; em cinza = significados para a
variante apical variante ................................................... 294
Figura 13: Representação do padrão de mudança ilustrado pela
curva em S ...................................................................... 341
Figura 14: Relações entre os elementos da situação de
comunicação, as práticas de linguagem e gêneros do
discurso........................................................................... 465
Figura 15: Relação entre esferas culturais, gêneros do discurso,
forma e função linguísticas ............................................. 550
Figura 16: Rota de gramaticalização da modalidade, nos termos de
Bybee, Perkins e Pagliuca (1994) ................................... 644
LISTA DE QUADROS
Quadro 1: Definição de futuro do presente, tendo em vista a
relação entre os elementos envolvidos na expressão
temporal ......................................................................... 66
Quadro 2: Notação para as variantes de futuro mais prototípicas ... 84
Quadro 3: Especificação da definição de futuro do presente ......... 132
Quadro 4: Correlação entre questões sobre a expressão do futuro
do presente ainda não investigadas e campos teóricos
que podem produzir conhecimento sobre cada uma
delas .............................................................................. 139
Quadro 5: Representação do conceito de língua/gramática, no
âmbito dos estudos funcionalistas, assumido na
pesquisa......................................................................... 159
Quadro 6: Visão geral das principais características das três
ondas dos estudos variacionistas ................................... 244
Quadro 7: Tipos de contexto na entrevista sociolinguística
segundo o método de “isolamento de estilos
contextuais” .................................................................. 253
Quadro 8: Continuum de níveis estilísticos no eixo de
formalidade na entrevista sociolinguística .................... 254
Quadro 9: Descrição dos critérios contextuais de cada eixo
estilístico que compõe a estrutura organizacional
“árvore de decisão” ....................................................... 257
Quadro 10: Padrão de mudança, baseado em padrão de
frequência, segundo Nevalainen e Raumolin-Brunberg
(1996)............................................................................ 342
Quadro 11: Conjunto de aspectos sócio-históricos, linguísticos e
culturais para explicação da variação e da mudança
linguística (continua) .................................................... 344
Quadro 12: Resumo de alguns contrastes entre a perspectiva
estrutural e a discursiva da variação linguística, no
âmbito dos estudos variacionistas (continua)................ 362
Quadro 13: Ilustração dos tipos de esferas ideológicas e da direção
dos efeitos de mudanças sociais nas formas típicas de
interação e de uso da língua .......................................... 406
Quadro 14: Relação entre gêneros e ideologia................................. 450
Quadro 15: Diretrizes metodológicas, segundo os Escritos do
Círculo de Bakhtin ........................................................ 472
Quadro 16: Representação dos diferentes tipos de história que
constituem o ser humano concreto e identificação do
tipo de história que interessa a cada um dos campos
em tela .......................................................................... 495
Quadro 17: Tipologia de aspecto proposta por Castilho (2002) ...... 628
Quadro 18: Cline de gramaticalidade das funções de ir+infinitivo . 647
Quadro 19: Síntese dos aspectos metodológicos que caracterizam
o sociofuncionalismo enunciativo-discursivo
(continua)...................................................................... 649
Quadro 20: Especificação das questões gerais e específicas da tese 651
LISTADE TABELAS
Tabela 1: Distribuição das formas de futuro ao longo dos séculos,
segundo as pesquisas consultadas ..................................... 86
Tabela 2: Distribuição das formas de futuro em textos da
modalidade escrita nos séculos XX e XXI (continua) ..... 105
Tabela 3: Comparação entre resultados de pesquisas que
analisaram entrevistas sociolinguísticas para investigar a
variação na expressão do FP (continua) ............................ 117
LISTA DE ABREVIATURAS
DF – Domínio Funcional
EC – Escritos do Círculo
FP – Futuro do Presente
FS – Futuro Sintético
FUNC/GRA – Funcionalismo/Gramaticalização
IR/FS – Futuro perifrástico com ir no futuro + infinitivo
IR/PRE – Futuro perifrástico com ir no presente + infinitivo
P – Presente do indicativo
PB – Português do Brasil
PH – Perífrase com haver de
TAM – Tempo, Aspecto e Modalidade
TOV – Terceira Onda Variacionista
WLH – Weinreich, Labov e Herzog
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO: CONTEXTUALIZAÇÃO DA PESQUISA ........... 29
PARTE I: A EXPRESSÃO VARIÁVEL DO FUTURO DO
PRESENTE ............................................................. 39
CAPÍTULO 1: CIRCUNSCREVENDO O FENÔMENO E O
ESTADO DA ARTE ................................................ 43
1.1 O (Macro)Domínio funcional TAM e a Expressão do
Futuro do Presente .................................................................... 44
1.1.1 O (Macro)Domínio Funcional TAM ......................................... 45
1.1.2 A complexidade da expressão gramatical de tempo e de
tempo futuro: a questão da ancoragem ..................................... 55
1.1.3 As trilhas do futuro.................................................................... 72
1.2 Mapeamento de Pesquisas Brasileiras ...................................... 82
1.2.1 Investigações diacrônicas em amostras escritas dos séculos
XIII ao XXI .............................................................................. 84
1.2.2 Investigações sincrônicas em amostras escritas do século XX
e XXI ........................................................................................ 105
1.2.3 Investigações em entrevistas sociolinguísticas ......................... 115
1.2.4 Investigações em amostras diversas de fala ............................. 126
1.3 Retomando e Avançando .......................................................... 131
PARTE II: OS CAMPOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS ..... 141
CAPÍTULO 2: O FUNCIONALISMO NORTE-AMERICANO E
A ABORDAGEM DA GRAMATICALIZAÇÃO .. 145
2.1 Concepção de Língua e de Gramática ..................................... 150
2.2 A Gramaticalização numa perspectiva funcionalista ............. 155
2.2.1 Concepção de Gramaticalização – e outras implicações sobre
a concepção de Língua e de Gramática ................................... 155
2.2.2 Motivações e mecanismos para a gramaticalização ................. 159
2.2.3 Direção e caracterização do processo de mudança................... 168
2.2.4 O papel da frequência ............................................................... 175
2.3 Orientação metodológica – e (algumas) tendências atuais da
pesquisa funcionalista no Brasil ............................................. 177
2.4 Retomando e avançando ........................................................... 184
CAPÍTULO 3: A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA: DE
UMA PERSPECTIVA ESTRUTURAL A UMA
PERSPECTIVA DISCURSIVA ............................. 189
3.1 A Gênese da Sociolinguística Variacionista ............................ 202
3.2 Constituição de um programa de pesquisa e desdobramentos ... 210
3.2.1 Língua, variação e mudança: as primeiras delimitações .......... 210
3.2.2 Problematizações sobre o conceito de variável ........................ 219
3.2.3 Os problemas empíricos para uma teoria de variação e
mudança: reposicionando o problema da avaliação ................ 225
[Link] Os problemas da restrição, do encaixamento, da transição e
da implementação ................................................................ 226
[Link] O problema da avaliação: da primeira especificação à
reconfiguração...................................................................... 231
3.2.4 O locus de investigação e a tensão entre indivíduo e
sociedade nas três ondas variacionistas ................................... 238
3.3 A Questão da Variação Estilística ........................................... 247
3.3.1 A abordagem Attention to speech ............................................ 251
3.3.2 Críticas à proposta laboviana ................................................... 258
3.3.3 Novos pressupostos para o estudo da variação estilística:
perspectivas multidimensionais ............................................... 265
[Link] A abordagem Audience Design ............................................ 266
[Link] As abordagens Speaker Design ............................................. 275
[Link].1 Visão antropológica de estilo e a conexão entre discurso,
gênero discursivo, forma e função..................................... 280
[Link].2 Estilização como ato de identidade, de produção de
significado social e de prática discursiva .......................... 292
[Link].3 Um estudo de terceira onda ................................................ 308
3.4 Orientação metodológica .......................................................... 315
3.4.1 O objeto de estudo do campo: da variável sociolinguística ao
estilo ........................................................................................ 318
3.4.2 Os dados ................................................................................... 326
[Link] A amostra .............................................................................. 327
[Link] Tipos de dados, fontes e procedimentos de coleta ................ 330
3.4.3 A análise................................................................................... 339
[Link] A orientação quantitativa ...................................................... 340
[Link] A orientação qualitativa e quantitativa .................................. 346
[Link] A orientação qualitativa ........................................................ 348
3.5 Retomando e avançando ........................................................... 351
CAPÍTULO 4: OS ESCRITOS DO CÍRCULO DE BAKHTIN: O
MATIZ DIALÓGICO PARA A ANÁLISE DA
LÍNGUA(GEM) ...................................................... 369
4.1 O primeiro projeto intelectual: a filosofia de Bakhtin ........... 373
4.1.1 A filosofia bakhtiniana ............................................................. 374
4.1.2 A concepção dialógica de linguagem ....................................... 378
4.1.3 A questão do discurso .............................................................. 385
4.2 O segundo projeto intelectual: a teoria das manifestações
da superestrutura...................................................................... 388
4.2.1 As diferentes realidades do signo linguístico ........................... 389
4.2.2 A relação entre signo e consciência e entre sujeito e
sociedade ................................................................................. 396
4.2.3 As esferas de atividade humana e a questão da mudança
social ........................................................................................ 400
4.2.4 Da infraestrutura à superestrutura – e a questão da mudança
linguística ................................................................................ 408
4.3 Enunciado: a real e concreta unidade da comunicação
discursiva ................................................................................... 412
4.3.1 A dimensão social da enunciação............................................. 413
4.3.2 Peculiaridades do enunciado .................................................... 426
4.3.3 Sentido e significação............................................................... 430
4.4 Os gêneros do discurso: formas típicas de enunciado ............ 435
4.4.1 A constituição sócio-histórica dos gêneros do discurso ........... 435
4.4.2 As dimensões constitutivas dos gêneros do discurso:
conteúdo temático, estilo verbal e composição ....................... 440
4.4.3 Gêneros primários, secundários e a questão do plurilinguismo 449
4.5 Diretrizes metodológicas ........................................................... 458
4.6 Retomando e avançando ........................................................... 465
PARTE III: TECENDO DIÁLOGOS ........................................... 475
CAPÍTULO 5: O CAMPO VARIACIONISTA, O CAMPO
FUNCIONALISTA E O CAMPO
BAKHTINIANO: TECENDO DIÁLOGOS ........... 479
5.1 O fazer científico, o sujeito, a cognição, a linguagem e a
sociedade: fazendo concessões ................................................. 482
5.1.1 Sobre o fazer científico ............................................................ 483
5.1.2 Concepção sobre sujeito e sobre cognição ............................... 486
5.1.3 Concepção sobre língua(gem) .................................................. 496
[Link] Os EC e a TOV...................................................................... 497
[Link] Os EC e o FUNC/GRA ......................................................... 510
5.1.4 A relação entre indivíduo e sociedade, língua e cognição ....... 518
5.1.5 Explicação da mudança linguística .......................................... 525
5.2 A relação entre estilo e gêneros do discurso ........................... 537
5.2.1 Concepção e tratamento de objetos estéticos no campo
bakhtiniano .............................................................................. 538
5.2.2 A visão estética de linguagem para tratamento da
variação/mudança .................................................................... 541
5.2.3 Tendências atuais de estudo da Variação Estilística no Brasil. 550
[Link] Variação Estilísticaentre pesquisadores brasileiros............... 551
[Link] Novos caminhos da Linguística – A terceira onda de
estudos variacionistas ........................................................... 570
5.3 Por um sociofuncionalismo enunciativo-discursivo ............... 576
5.3.1 Uma interface já praticada: o sociofuncionalismo ................... 577
5.3.2 Em busca de uma nova interface: o sociofuncionalismo
enunciativo-discursivo ............................................................ 585
[Link] Concepções gerais ................................................................. 585
[Link] Concepção de mudança linguística ....................................... 589
[Link] Especificação do objeto de estudo ........................................ 591
[Link] Aspectos metodológicos ....................................................... 593
[Link].1 Etapa 1: Exame da organização socioeconômica da
sociedade em que se localiza a prática de uso da língua
em foco ............................................................................. 598
[Link].2 Etapa 2: Exame do intercâmbio comunicativo social ........ 599
[Link].3 Etapa 3: Exame da interação verbal ................................... 601
[Link].4 Etapa 4:Exame das enunciações......................................... 602
[Link].5 Etapa 5: Exame das formas gramaticais ............................. 613
[Link] Reflexões sobre TAM ........................................................... 622
[Link] Sintetizando o design metodológico ..................................... 648
5.4 Retomando e avançando ........................................................... 650
CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................... 659
REFERÊNCIAS .............................................................................. 665
29
INTRODUÇÃO: CONTEXTUALIZAÇÃO DA PESQUISA
CONTEXTUALIZAÇÃO DA PESQUISA
Desde o curso de graduação em Letras, pela Universidade
Federal do Espírito Santo (UFES), inscrevo-me em projetos e programas
de pesquisa vinculados ao campo da Sociolinguística Variacionista, o
principal eixo de minha formação acadêmica. A busca pela relação entre
língua e sociedade, bem como a visão de que a língua é um fenômeno
constitutivamente variável são marcas tão comuns do meu trabalho, do
meu pensamento que nem mais imagino como se possa fazer e ver de
modo diferente. O fato é que essa tradição de pesquisa me conduziu ao
estudo de um fenômeno variável particular: a expressão do futuro do
presente1, a que me dedico desde a dissertação de mestrado
(BRAGANÇA, 2008), desenvolvida no Programa de Mestrado em
Estudos Linguísticos da UFES.
Atualmente, há tantos estudos sobre esse fenômeno no
Português do Brasil (doravante, PB) (BALEEIRO, 1988; A. SANTOS,
1997; SILVA, 1997; J. SANTOS, 2000; GIBBON, 2000; NUNES,
2003; OLIVEIRA, 2006; BRAGANÇA, 2008; MALVAR E
POPLACK, 2008; FONSECA, 2010a; SILVA, 2010; STRONGENSKI,
2010; TESCH, 2011; GIBBON, 2014; VIEIRA, 2014; dentre outros) –
orientados principalmente (i) pelo campo variacionista, evocando uma
perspectiva laboviana (LABOV, 1978; 1982; 1994; 2001a; 2001b; 2003;
2006 [1966]; 2008 [1972]; 2010; WEINREICH, LABOV, HERZOG,
2006 [1968]; GUY, 2000; 2001); e (ii) pelo campo funcionalista, no
âmbito do qual se inscreve a abordagem da gramaticalização2
(HOPPER, 1991; 1998; HEINE; CLAUDI; HÜNNEMEYER, 1991a;
1991b; BYBEE; PERKINS; PAGLIUCA, 1994; GIVÓN, 1995; 2001;
2002; 2005; 2012 [1979]; TRAUGOTT, 2001; 2010; 2012; 2014;
1
Nesta tese, uso itálico (i) para chamar a atenção do leitor quanto ao uso de
termos, de conceitos, de pontos de argumentação, e (ii) para retomar citações
diretas já apresentadas, mas fazendo minhas as palavras dos autores. Citações
diretas são mantidas entre [Link] negrito para conferir ainda mais destaque
a alguns termos.
2
Destaque-se que há pesquisas de linha formalista que também abordam a
gramaticalização – cf., por exemplo, Vitral e Ramos (2006). Neste texto, a
referência é a trabalhos que abordam a gramaticalização a partir da linha
funcionalista.
30
HEINE, 2002; HEINE; KUTEVA, 2002; 2007; BYBEE, 2003; 2010;
HOPPER; TRAUGOTT, 2003; TRAUGOTT; DASHER, 2005) –, que
parece nem se ter mais o que acrescentar sobre a expressão do futuro do
presente no PB, especialmente numa tese, gênero acadêmico que requer
um enfoque original.
Contudo, ao revisar sistematicamente e problematizar um
conjunto de dissertações e de teses sobre esse fenômeno, identifiquei
alguns pontos ainda não tratados. Todos eles evocam tópicos de
discussão do âmbito dos campos mencionados (variacionista e
funcionalista), mas também tópicos típicos de abordagens (i) de análise
de gênero textual, mais voltadas para a descrição da materialidade
textual, ou (ii) de análise de gêneros do discurso, mais voltadas para o
“estudo das situações de produção dos enunciados ou textos em seus
aspectos sócio-históricos”3 (ROJO, 2005, p. 185), alternadamente, com
foco, particularmente, no modo como os gêneros (e aspectos atinentes a
eles) podem condicionar os processos de variação/mudança envolvidos
na expressão do futuro do presente. Tais constatações me motivaram a
aprofundar a investigação do fenômeno em pauta, porém focando a
atenção, basicamente, em questões de natureza epistemológica e teórica
(e também metodológica), consideradas, entre outras, como demanda
prioritária no âmbito dos estudos linguísticos no século XXI.
Especificamente no que diz respeito à expressão do futuro do
presente, destaque-se que se trata de um fenômeno complexo, por vários
motivos, a começar por sua própria nomeação – futuro do presente
designa concomitantemente: (i) forma verbal, evocando a noção de
categoria verbal gramaticalmente codificada na língua para expressar
tempo; e (ii) função de referência temporal, também relacionada a
valores aspectuais e modais interconectados; nesse último caso, o futuro
do presente pode ser visto como um domínio funcional que recobre as
funções de tempo, aspecto e modalidade – TAM (GIVÓN, 2001) – e
cuja compreensão exige tratamento de um complexo quadro de
3
Cf. em Acosta-Pereira e Rodrigues (2009) especificação de perspectivas
teórico-metodológicas de estudo dos gêneros do discurso/textuais. Dentre as
indicadas pelos autores, localizamos, no conjunto de dissertações e teses
revisadas nesta tese, inclinação ora para a perspectiva sociocognitiva (para
análise de gêneros textuais), que toma como referência autores como Koch
eMarcuschi, ora para a perspectiva dialógica da linguagem (para análise de
gêneros do discurso), que toma como referência os Escritos do Círculo de
Bakhtin.
31
processos de variação e mudança (FLEISCHMAN, 1982; HOPPER,
1991; BYBEE; PERKINS; PAGLIUCA, 1994; HEINE; 1994; GIVÓN,
2002; HOPPER; TRAUGOTT, 2003; BYBEE, 2003; LEHMANN,
2011).
A complexidade desse fenômeno (assim como de toda
referência temporal) também se revela em sua definição como expressão
do tempo cronológico das situações (i) em relação ao momento de fala
(quer direta, quer indiretamente) e/ou (ii) em relação a outras situações
dadas no contexto (seja linguístico ou situacional) – podendo, pois, se
mostrar como de natureza dêitica ou anafórica –, estando essa relação
ainda sob o escopo do modo como os falantes concebem/percebem as
situações a que se reportam. (REICHENBACH, 1947; FLEISCHMAN,
1982; COMRIE, 1985; GIVÓN, 2001; CORÔA, 2005).
Uma vez caracterizado o fenômeno em pauta (visto a partir de
uma ótica funcionalista), retornando aos campos teórico-metodológicos
que tradicionalmente orientam os estudos sobre esse fenômeno,
encontram-se: (i) o campo variacionista subdividido em três fases/ondas
que indiciam, cada uma delas, diferentes modos de se compreender a
variação linguística (partindo-se de uma perspectiva estrutural em
direção a uma perspectiva discursiva que toma a língua como
manifestação de identidade (no sentido de que ela envia uma mensagem,
de que se dirige à sociedade) e como recurso estilístico, da ordem do
discurso (/do conteúdo ideológico)); e (ii) o campo funcionalista, em
suas tendências atuais, voltando-se também para o estudo do texto e de
suas condições de produção, bem como para análises qualitativas e
holísticas, particularmente para compreensão do contexto pragmático e
sociocultural dos usos linguísticos. A literatura desses campos também
indicia, portanto, em diferentes medidas e em diferentes pontos, tópicos
relativos a abordagens de gêneros.
Considerando que (i) a conjugação dos resultados da revisão de
literatura (a) do fenômeno em tela e (b) dos campos teóricos
mencionados converge, de algum modo, com uma abordagem de análise
de gêneros de base histórico-cultural e que toma o aspecto ideológico
como o centro da prática de linguagem; e que (ii) as experiências que
vivenciei no exercício da docência me fizeram compreender que “[a]
língua, no seu uso prático, é inseparável de seu conteúdo ideológico ou
relativo à vida” (BAKHTIN [VOLOCHÍNOV], 2014 [1929], p. 116),
assumi a premissa de que o campo dialógico dos estudos linguísticos
32
pode entrar em diálogo com o campo variacionista e o funcionalista,
resultando numa contribuição significativa para o estudo de fenômenos
em variação e mudança.4
Esta tese, portanto, (i) dando continuidade aos estudos sobre a
expressão do futuro do presente iniciados desde o mestrado; (ii)
considerando a revisão de literatura sobre esse fenômeno e sobre os
campos teórico-metodológicos mencionados; e (iii) dando vazão a
motivações pessoais, apresenta uma proposta de articulação teórico-
metodológica entre os campos variacionista, funcionalista e dialógico
para constituição de uma abordagem transdisciplinar5 no tratamento
de fenômenos em variação/mudança. O que se busca, com isso, é a
proposição de uma nova chave de leitura para fenômenos dessa
natureza: uma suficientemente ampla para acomodar preceitos dos três
4
Ressalte-se que outras abordagens de análise de gêneros do discurso – como
(i) a sociossemiótica (EGGINS, 1994; HALLIDAY & HASAN, 1989;
HALLIDAY 1978; 1994; THOMPSON, 1996; FAIRCLOUGH, 1989; 1992;
1995; WODAK, 2001), (ii) a interacionista-sociodiscursiva (SCHNEUWLY;
DOLZ 2004; BRONCKART 1997; 1999), (iii) a semiodiscursiva
(CHARAUDEAU, 2004; 2006; MAINGUENEAU, 2001; 2004), e ainda as
vertentes de análise do discurso (iv) Anglosaxã, cuja base central é Fairclough
(1989; 1992; 1995), e (v) Francesa, cuja base central é Foucault (2000), Orlandi
(2007) e Pêcheux (1988) – poderiam ter sido constituídas para o
desenvolvimento desta tese, uma vez que elas também compreendem a
ideologia como matriz para a constituição da língua – cf. explanação sobre essas
abordagens e sobre as referências mencionadas em Acosta-Pereira e Rodrigues
(2005). Elegeu-se, contudo, o campo dialógico porque ele está implícita ou
explicitamente indiciado tanto no campo funcionalista (cf. Capítulo 2) quanto
no variacionista (cf. Capítulo 3), estando marcadamente presente em estudos
mais recentes de pesquisadores brasileiros sobre variação estilística (cf. [Link]).
5
A abordagem proposta, mais do que estabelecer interação entre diferentes
campos linguísticos a partir de conceitos organizados em torno de aspectos
compartilhados (concepção que evoca a noção de interdisciplinaridade), projeta
uma nova prática de pesquisa, ampla o suficiente para acomodar também
diferentes, e até divergentes, interesses, com cooperação de todos os campos
acionados (concepção que evoca a noção de transdisciplinaridade). Contudo,
neste texto objetiva-se tecer um diálogo que leva em conta pontos passíveis de
serem conjugados, apesar das especificidades com que são abordados em cada
campo, ficando para trabalhos futuros a especificação de dissensos, de pontos
nefrálgicos entre os campos.
33
campos acionados, sem que haja nisso postura eclética que
desconsidere fronteiras epistemológicas.
Vale ressaltar que já há na literatura uma interface promovida
entre os campos variacionista e funcionalista, a que se denomina
sociofuncionalismo (TAVARES, 2003; GÖRSKI et al., 2003;
POPLACK, 2011; TAVARES; GÖRSKI, 2012; TAVARES, 2013;
VALLE, 2014; TAVARES; GÖRSKI, 2015; GÖRSKI; TAVARES,
2017; dentre outros). Como essa interface tem se mostrado produtiva
para o estudo de fenômenos em processo de variação/mudança que
envolvem gramaticalização, tal como é o caso da expressão do futuro do
presente, identificam-se nela aspectos teóricos e categorias de análise,
redirecionando-os para incorporar a perspectiva de estudos de terceira
onda variacionista – e acomodando ainda a isso uma perspectiva
dialógica de linguagem. Nesta tese delineia-se, portanto, uma nova
prática de pesquisa que, por conta dos campos agenciados, denominou-
se sociofuncionalismo enunciativo-discursivo.
Advertências ao leitor
Para chegar à exposição dessa proposta transdisciplinar,
considerando que os leitores desta tese podem ser de diferentes campos
da linguística, optou-se por, antes, fornecer uma base de conhecimento
sobre cada um dos campos agenciados. Essa opção orienta-se pela
consciência de que o percurso do conhecimento pressupõe uma
distinção entre (i) o que é tradição ou erudição mínima, ou seja, um
saber caracterizado por ser um conhecimento produzido por outros e que
nós de algum modo adquirimos, constituindo uma espécie de arquivo do
conhecimento científico (GUIMARÃES; ORLANDI, 2006); e (ii) o que
é inovação ou incorporação de novos elementos à tradição. Na tentativa
de não “misturar alhos com bugalhos”, busquei, então, apresentar
inicialmente, em diferentes capítulos, cada um dos campos agenciados,
para só em seguida tecer diálogo entre eles.
A potencialidade disso é viabilizar ao leitor um caminho mais
seguro para exame do que se propõe, facultando-se a ele, inclusive, a
tarefa de identificar novos pontos de convergência (e também de
divergência) entre os campos agenciados. Nesse sentido, decidiu-se
também usar abundantemente, nesta tese, citação direta, tomando-a
tanto como um recurso de legitimação para a constituição da abordagem
proposta, quanto um recurso para checagem do modo como os conceitos
são apresentados em cada campo, o que facilita a avaliação quanto à
interpretação que fiz deles – admitindo que, inegavelmente, ao trazê-los
34
para cá, os conceitos já se encontram enquadrados em minha linha
argumentativa.
A fragilidade das decisões acima, contudo, está no próprio
volume de informações que se apresenta, não apenas porque demandou
o rastreamento de muitos conceitos, no resgate da erudição mínima de
cada campo, mas também porque o uso de citações diretas de textos em
línguas estrangeiras exigiu o registro delas, no original, em nota de
rodapé. Tem-se, assim, pelo menos uma justificativa para a extensão do
texto que ora se apresenta.
Ademais, adverte-se de que há um conjunto de termos
partilhados entre os campos que evocam, em cada um deles, diferentes
acepções (às quais o leitor deverá estar atento), tais como discurso e
contexto, conforme ilustrado a seguir.
O termo discurso, por exemplo, evoca nos três campos, de
modo geral, a noção de língua em uso. A diferença, contudo, está no
modo como cada campo concebe o uso ou fatores a ele correlacionados:
(i) no campo funcionalista, o termo discurso evoca aspectos tanto
textuais quanto pragmáticos do uso; (ii) no campo dialógico, o termo
evoca, além de questões textuais, relacionadas à materialidade
linguística, a noção de ponto de vista, de perspectiva que se assume na
interação, referindo-se, pois, ao uso ideológico da língua; (iii) já no
campo variacionista, o termo é agenciado com as duas acepções
anteriores (funcionalista e dialógica) a depender da fase/onda para a qual
se volta a atenção.
O termo contexto, nos três campos, faz referência a um amplo
quadro de ambientes implicados na interação social, desde o ambiente
histórico e sociocultural, passando pelo pragmático e pelo textual, até
chegar, de um ponto de vista mais estrito, ao ambiente linguístico
(semântico, morfossintático, fonológico). A diferença, contudo, está em
como cada campo se orienta para o exame de cada um desses tipos de
contexto, o que já decorre do modo como cada um compreende o
fenômeno da interação social e os fatores que a impactam. Assim, se os
campos variacionista e funcionalista, ao longo de seu desenvolvimento
histórico, voltam-secada vez mais para os ambientes contextuais mais
amplos, esses sempre estiveram em primeiro plano no campo dialógico.
Especificações da pesquisa: questões e objetivos
Considerando que há duas frentes de trabalho envolvidas no
desenvolvimento desta tese – uma relacionada ao fenômeno em
variação/mudança que se toma como objeto de reflexão; e outra
35
relacionada ao trabalho de articulação entre os campos teóricos para
proposição de uma abordagem integrada – as questões gerais de
pesquisa desta tese são:
(1) Por quais vias se pode tecer articulação entre os
campos variacionista, funcionalista e dialógico, para
constituição de uma abordagem transdisciplinar?
(2) Quais os efeitos teórico-metodológicos de se pôr os três
campos em diálogo e, sob o escopo desses efeitos,
como o fenômeno em variação/mudança da expressão
do futuro do presente (e fenômenos de similar
natureza) pode(m) ser analisado(s)?
Frente a essas questões, são objetivos gerais desta tese, estando
os três primeiros relacionados à primeira questão de pesquisa, e os dois
últimos, à segunda questão de pesquisa:
(1) Apresentar o fenômeno em variação/mudança a partir
do qual se reflete teórico-metodologicamente, a
expressão do futuro do presente, especificando os
elementos que o complexificam e revisando estudos
brasileiros sobre ele;
(2) Revisitar os três campos teóricos que propomos que
sejam agenciados e articulados para tratamento da
variação/mudança;
(3) Explicitar pontos de convergência (direta ou indireta)
entre os campos variacionista, funcionalista e
dialógico;
(4) Propor uma abordagem transdisciplinar para tratamento
da variação/mudança, tendo em vista reflexões sobre a
expressão do futuro do presente;
(5) Contribuir com as discussões epistemológicas sobre
variação/mudança, no contexto em que esse tema passa
a ser visto como um meio de se compreender a vida
social.
36
São objetivos específicos desta tese:
1) Indicar componentes que envolvem a expressão do
futuro do presente, com foco nas funções semântico-
pragmáticas Tempo, Aspecto e Modalidade (TAM);
2) Mapear e problematizar pesquisas brasileiras sobre esse
fenômeno;
3) Identificar os principais pontos epistemológicos e
teórico-metodológicos que caracterizam: (i) o
funcionalismo norte-americano e a abordagem da
gramaticalização, (ii) a sociolinguística variacionista,
considerando as diferentes fases que a constituem, e
(iii) a perspectiva dialógica – obtendo-se, assim,
diretrizes para a articulação entre os campos;
4) Tecer pontos de diálogo entre os campos, para
promoção de uma nova chave de leitura para exame de
fenômenos em variação/mudança, especificando, em
especial, a relação que se estabelece entre gêneros do
discurso, estilo, formas e funções;
5) Acomodar os principais aspectos metodológicos dos
três campos em um novo design metodológico;
6) Frente à articulação proposta, apontar diretrizes para
tratamento de pontos ainda não considerados na
literatura sobre a expressão do futuro do presente.
Salienta-se que foram apresentados aqui questões e objetivos da
tese. Além disso, outras questões e objetivos mais detalhados podem
emergir no âmbito de cada uma das partes que a constitui.
Organização da tese
Após contextualização da pesquisa, informa-se que esta tese se
organiza em torno de três diferentes partes e do seguinte modo.
A primeira parte, constituída de apenas um capítulo (Capítulo
1), destina-se à exposição do fenômeno da expressão do futuro do
presente, considerando os elementos que a complexificam e um
37
conjunto de pesquisas brasileiras sobre essa expressão no PB –
circunscrevendo o fenômeno e o estado da arte, portanto.
A segunda parte constitui-se em torno de três capítulos
(Capítulo 2, 3 e 4), destinados à apresentação de cada um dos campos
agenciados: o variacionista, o funcionalista e o dialógico, considerando
as diretrizes (epistemológicas, teóricas e metodológicas) de cada um
deles.
A terceira parte, constituída de apenas um capítulo (Capítulo
5), promove um diálogo entre os campos e apresenta a proposta de uma
nova abordagem para tratamento de fenômenos em variação e mudança,
frente a reflexões sobre a expressão do futuro do presente: o
sociofuncionalismo enunciativo-discursivo. Nesse capítulo também são
apresentadas as respostas a que se chegou para as questões da pesquisa.
Encerrando a tese, tecem-se ainda algumas considerações
finais, fazendo um balanço geral da pesquisa.
PARTE I:
A EXPRESSÃO VARIÁVEL DO FUTURO DO PRESENTE
A EXPRESSÃO VARIÁVEL DO FUTURO DO PRESENTE
41
Esta parte da tese contempla o primeiro objetivo geral de
pesquisa, qual seja: “apresentar o fenômeno em variação/mudança a
partir do qual se reflete teórico-metodologicamente, a expressão do
futuro do presente, especificando os elementos que o complexificam e
revisando estudos brasileiros sobre ele”.
Constituída por apenas um capítulo (Capítulo 1), esta parte
orienta-se pelas seguintes questões:
(1) Quais aspectos (semântico-pragmáticos) estão envolvidos na
expressão gramatical do futuro do presente, motivando nela
variação?
(2) De que modo o processo de mudança está implicado na
expressão variável desse fenômeno?
(3) No âmbito das pesquisas brasileiras sobre o PB, como esse
fenômeno variável tem sido investigado e quais são os
principais resultados dessas pesquisas?
(4) Considerando a complexidade que envolve a expressão do
futuro do presente e o conjunto de conhecimento produzido
sobre ela, no PB, sob que ângulo ainda se pode olhar para esse
fenômeno e, assim, amplificar o conhecimento sobre ele?
Tais questões estão atreladas aos dois primeiros objetivos
específicos da tese, reapresentados abaixo:
(i) Indicar os elementos que envolvem a expressão do futuro
do presente, com foco nas funções semântico-pragmáticas
Tempo, Aspecto e Modalidade (TAM) – a partir do que se
procura responder as questões (1) e (2), acima
mencionadas;
(ii) Mapear e problematizar pesquisas brasileiras sobre esse
fenômeno – a partir do que se procura responder as
questões (3) e (4), acima mencionadas.
Ao final, o conjunto de questões aqui tratadas justifica a
configuração da Parte II deste texto, dando continuidade ao
desenvolvimento da pesquisa.
43
CAPÍTULO 1: CIRCUNSCREVENDO O FENÔMENO ESTADO
CIRCUNSCREVENDO O FENÔMENO E O ESTADO DA ARTE
“A multiplicidade das significações é o índice que
faz de uma palavra uma palavra”
(BAKHTIN, 2014 [1929], p. 135; grifos doautor).
“[...] encontramos morfemas de futuro indicando,
junto com seu significadode futuro, um ou mais
dos seguintes significados: desejo,
intenção,obrigação, necessidade, iminência,
habitualidade, verdade geral, comportamento
característico,
comando, solicitação polida, suposição”
(BYBBE; PAGLIUCA, 1987, p. 109).
INTRODUÇÃO
Adotando-se uma visão funcionalista (cf. Capítulo 2) para
exposição do fenômeno em variação/mudança em tela nesta tese, a
saber, a expressão do futuro do presente, considera-se que a
complexidade desse fenômeno é motivada pelos seguintes aspectos:
1) o termo futuro do presente designa, concomitantemente,
conforme se indicou na Introdução desta tese:
a. forma verbal, evocando a noção de categoria
verbal gramaticalmente codificada na língua para
expressar tempo (estando a isso associados valores
modais e aspectuais);
b. função de referência temporal, evocando a noção
de domínio funcional, também correlacionado a
valores aspectuais e modais interconectados;
2) a expressão do futuro do presente, tal como toda expressão
de referência temporal, envolve diferentes elementos, ao
codificar o tempo cronológico das situações a que faz
referência em relação ao tempo de fala e/ou em relação a
outras situações dadas no contexto; com isso, mostra uma
natureza dêitica e/ou anafórica.
44
Este capítulo (i) especifica cada um desses aspectos, além de
indicar por que, na expressão desse tempo, processos de mudança e de
variação estão implicados; e (ii) retoma pesquisas brasileiras já
realizadas sobre a variação/mudança (no domínio funcional) do futuro
do presente, com vistas à obtenção de (a) um panorama quanto à
organização das formas e das funções que elas desempenham nesse
domínio, no PB, e de (b) um diagnóstico dos procedimentos que têm
sido adotados na investigação desse fenômeno.
Para levar a cabo esse intento, o capítulo está organizado em
duas diferentes seções (1.1 e 1.2), que tratam, respectivamente, de cada
um desses tópicos, com vistas a descrever o estado da arte sobre o
fenômeno em questão.
1.1 O (MACRO)DOMÍNIO FUNCIONAL TAM E A
EXPRESSÃO DO FUTURO DO PRESENTE
Nesta seção, discorre-se sobre a noção de futuridade e, mais
especificamente, de futuro do presente, evidenciando a complexidade
que constitui tal noção, a qual envolve (e também é envolvida por)
valores temporais, aspectuais e modais (TAM), em diferentes graus.
Para a definição do fenômeno tomado como objeto, aciona-se o conceito
de domínio funcional (DF), que, neste caso, abriga a relação dinâmica
entre formas e (sub)funções na expressão do futuro do presente,
ajustando-se, desse modo, o foco de discussão desta tese para mudança
e variação no domínio funcional de futuro do presente6 (cf. 1.1.1)
Como, no âmbito de TAM, tempo é o valor prototipicamente
acionado na definição de futuro, reserva-se uma subseção para tratar de
tempo e, mais especificamente, de tempo futuro, além de se considerar
também a constituição da representação temporal nas línguas (cf. 1.1.2).
Esta seção ainda resgata orientações conceituais acerca da constituição
de formas de expressão do futuro em diversas línguas, bem como os
processos de gramaticalização de duas das principais formas verbais que
6
Cabe já adiantar que, ao fazer referência ao termo futuro do presente, temos
em mente o duplo significado anteriormente mencionado: o termo remete tanto
ao domínio funcional como à forma verbal gramaticalizada que codifica esse
domínio (e que, por vezes, também atua em outros domínios interligados). Ou
seja, pode remeter à função e também à forma de codificação de tal função.
Esses aspectos conceituais são aprofundados adiante (cf. 1.1.1).
45
codificam esse domínio no PB: a forma sintética e a forma perifrástica ir
+ infinitivo (cf. 1.1.3). Seguem-se as discussões.
1.1.1 O (Macro)Domínio Funcional TAM
O conceito de domínio funcional emerge no contexto dos
estudos tipológicos associados a uma perspectiva funcionalista de
gramática (cf. Capítulo 2). Segundo Givón (2001), esses estudos foram
fortalecidos na década de 1960, com os trabalhos pioneiros de
Greenberg7, que observou que diferentes línguas apresentavam
diferentes tipos estruturais passíveis de serem agrupados como membros
do que Givón chama de metatipos mais gerais – não de estruturas, mas
de funções (GIVÓN, 2001, p. 20). Em outros termos, a partir de
evidências empíricas, o que se depreende é que, nas diferentes línguas,
diferentes recursos gramaticais codificavam as mesmas funções que, por
isso, são compreendidas, nos estudos funcionalistas, como funções
universais ou tendências gerais de uso da língua.
É a esses metatipos de uso da língua que se designa domínio
funcional,
[...] caracterizado como uma área coberta por
(macro)funções/significações gramaticais que se
projetam, via codificação, em mecanismos
linguísticos que se articulam de forma mais, ou
menos recorrente e regularizada em diferentes
níveis (GÖRSKI; TAVARES, 2017: p. 49).8
Aplicando esse conceito intralinguisticamente, tem-se como
tarefa identificar “os principais meios estruturais pelos quais diferentes
recursos codificam um mesmo domínio funcional” (GIVÓN, 2001, p.
7
O linguista norte-americano Joseph Harold Greenberg é considerado pioneiro
nos estudos de universais sintáticos, estudos que compararam usos empíricos de
diferentes línguas, chegando à conclusão de que certas características
gramaticais numa língua implicam certas outras características (Cf.
FLEISCHMAN, 1982, p. 3-5).
8
Alguns domínios funcionais codificados por diversas línguas são TAM (tempo,
aspecto e modalidade), negação, referencialidade, irrealis, topicalidade,
definitude, concordância, atos de fala, entre outros (HOPPER, 1991; GIVÓN,
2001).
46
23), assumindo-se que diferentes formas de um domínio codificam a
mesma ou similar função (HOPPER, 1991). Trata-se, portanto, de um
conceito no âmbito dos estudos funcionalistas para a investigação da
correlação entre formas e funções.
Porém, como domínios funcionais caracterizam-se (i) por serem
complexos e multidimensionais, (ii) por distribuírem-se num contínuo,
(iii) por apresentarem dimensões subjacentes, além de (iv) poderem ter
algumas porções mais codificadas que outras (GIVÓN, 2001, p. 25-26),
a identificação das fronteiras de um domínio, bem como a identificação
das formas que o codificam, não é tarefa banal. O primeiro aspecto a se
considerar é que, como domínios funcionais se configuram em termos
de escopo funcional gradiente, eles podem ser vistos como um
fenômeno superordenado: macrofunção/macrodomínio >
funções/domínios > subfunções/subdomínios (GÖRSKI et al. 2003;
GIBBON, 2014; GÖRSKI; TAVARES, 2017).
Assim, é possível falar em “(sub)funções de um domínio
funcional”, no sentido de que diferentes valores semântico-pragmáticos
podem ser abrigados no interior de um domínio, a depender do foco da
lente do observador, que define a abrangência e os limites do domínio
que quer investigar. TAM, por exemplo, é um domínio funcional
complexo (macrofunção) ou um macrodomínio em que as categorias de
tempo, aspecto e modalidade atuam articuladamente. Cada uma dessas
categorias pode ser considerada, no entanto, um domínio funcional
específico, como o domínio funcional de tempo, o domínio funcional de
aspecto e o domínio funcional de modalidade, embora todas elas
compartilhem, em alguma medida, traços umas das outras.
O domínio funcional de tempo, que mais diretamente interessa a
esta tese, recobre os subdomínios ou subfunções de anterioridade,
simultaneidade e posterioridade; a posterioridade recobre a futuridade
(cf. 1.1.2), que envolve tanto o domínio do futuro do presente quanto o
do futuro do subjuntivo. Gibbon (2014) considera ainda que o domínio
funcional da futuridade, por exemplo, abrange (i) o domínio funcional
do futuro do presente, (ii) contextos de habitualidade e (iii) atos de fala
diretivos ou de comando.
Como todos esses (sub)domínios estão sob o escopo de TAM,
todos eles codificam, concomitantemente, tempo, aspecto e modalidade,
embora cada (sub)domínio possa marcar, mais proeminentemente, uma
dessas (sub)funções: a expressão do futuro do presente, por exemplo,
aciona, prototipicamente, em sua definição, a (sub)função tempo,
embora também abarque as (sub)funções aspecto e modalidade. Assim,
nas palavras de Gibbon,
47
[e]nquanto no domínio funcional do futuro [do
presente] estão imbricadas as noções de tempo,
modalidade e aspecto, na habitualidade
reconhecemos as noções de aspecto e, em menor
grau, de tempo (futuro); e no comando, as noções
de modalidade e também em menor grau, de
tempo (futuro). Em outras palavras, a
macrofunção de expressar uma situação
projetada a partir do momento de fala é
basicamente realizada pelo domínio funcional do
futuro, sendo perifericamente compartilhada pelos
domínios da habitualidade e do comando.
(GIBBON, 2014, p. 21; grifos nossos).
A seguir, retoma-se a representação do domínio funcional da
futuridade, conforme Gibbon (2014):
Figura 1: Diagrama representacional do escopo da futuridade e de suas relações
com habitualidade e imperativo/comando
Fonte: Gibbon (2014, p. 61)
Destaca-se que o diagrama proposto pela autora faz ver que
diferentes (sub)domínios funcionais, além de correlacionados, podem se
referir ao mesmo conjunto de (sub)funções: a questão, no entanto, é que
cada (sub)domínio pode assegurar com mais proeminência uma dada
função. Assim é que, embora tanto o domínio da habitualidade quanto o
domínio de comando compartilhem com o domínio do futuro a função
temporal, é nesse último que essa função é mais proeminente.
48
O ponto que interessa a esta tese, considerando esse escopo
conceitual, é que a relação entre diferentes domínios funcionais (que
podem se sobrepor ou se interligar parcialmente), bem como a
complexidade de cada domínio, justifica o fato de várias formas serem
acionadas para dar conta da codificação das (sub)funções de um
domínio, ao mesmo tempo em que uma forma pode codificar
(sub)funções de diferentes domínios. A construção ir + infinitivo, por
exemplo, pode atualizar, em cada contexto de uso, diferentes
(sub)funções (tempo-aspecto-modalidade) de um mesmo domínio e até
de diferentes domínios, como se ilustra a seguir.
Considere-se, inicialmente, o primeiro conjunto de dados:
(1)
a) Marido da ministra das Finanças vai ser julgado por cinco
crimes.9
b) Recriada Comissão Especial que analisará revogação do
Estatuto do Desarmamento.10
c) Campo Grande recebe nesta semana duas etapas do projeto
“SED vai às Escolas”.11
Nesses dados, ilustra-se o fato de que uma língua pode codificar
o mesmo domínio funcional por mais de um meio estrutural (GIVÓN,
2001): construção perifrástica, forma verbal de futuro sintético e forma
verbal de presente do indicativo, respectivamente, codificam, nesses
dados, o domínio funcional do futuro do presente. Hopper (1991)
explica que
[e]ssa diversidade formal acontece porque quando
uma forma ou um conjunto de formas emerge em
um domínio funcional, não substitui de imediato o
conjunto de formas funcionalmente equivalente já
existente imediatamente (e talvez nunca), mas os
dois conjuntos de formas coexistem. Eles podem
9
Disponível em: <[Link]
financas-vai-julgado-cinco-crimes>. Acesso em: 18 ago. 2015.
10
Disponível em: <[Link]
Acesso em: 18 ago. 2015.
11
Disponível em: <[Link]
semana-duas-etapas-do-projeto-sed-vai-as-escolas>. Acesso em: 18 ago. 2015.
49
ser especializados para determinados itens lexicais
ou construções, ou registos sociolinguísticos; eles
podem ter significados ligeiramente diferentes,
ou, simplesmente, podem ser reconhecidos como
alternativas"estilísticas". (HOPPER, 1991, p. 23;
grifos do autor).12
Por essa afirmação de Hopper, já se indica por que ocorre
variação na expressão do (domínio funcional) do futuro do presente,
bem como se depreende que, para o estudo da variação no âmbito de um
domínio funcional, (i) itens lexicais ou construções típicas, (ii) registro
sociolinguístico/estilístico e (iii) significado (social e linguístico) da
variação são aspectos que devem ser investigados.
Observe-se agora o segundo conjunto de dados:
(2)
a) Polícia Federal vai investigar explosão de bomba no Instituto
Lula, diz Cardozo.13
b) Sempre que vou falar sobre a questão dos jornais na sala de
aula, começo contando um pouco da minha história porque é
ela que explica o porquê de eu ter me tornado uma jornalista e
também, anos depois, ter me especializado na área da
educação.14
c) Com o tema "Vamos cuidar do Brasil?", o governo pretende
formular novas propostas para o Sisnama, Sistema Nacional
do Meio Ambiente, e quer a participação da sociedade.15
;
12
“This formal divers ty comes about because when a form or set of forms
emerges in a functional domain, it does not immediately (and may never)
replace an already existing set of functionally equivalent forms, but rather the
two sets of forms co-exist. They may be specialized for particular lexical items,
particular classes of constructions, or sociolinguístic registers; they may have
slightly different meanings, or simply be recognized as "stylistic" alternatives”.
13
Disponível em: <[Link]
federal-vai-investigar-explosao-de-bomba-no-instituto-lula-diz-cardozo>.
Acesso em: 18 ago. 2015.
14
Disponível em: <[Link]
jornal/jornal1/MesasRedondas/[Link]>. Acesso em: 18 ago. 2015.
15
Disponível em: <[Link]
CONFERENCIA+DO+MEIO+[Link]>. Acesso em: 18 ago. 2015.
50
Com esse segundo conjunto de dados, ilustra-se o fato de que
uma mesma estratégia estrutural pode codificar mais de um domínio ou
função (LEHMANN, 2011): a construção perifrástica, nos três dados
apresentados, codifica, respectivamente: (i) o domínio funcional do
futuro do presente, (ii) contexto de habitualidade e (iii) contexto de atos
de fala diretivo, nos termos de Gibbon (2014).
Caracterizando ainda a complexidade do domínio funcional do
futuro do presente, há o fato de que uma das características comuns à
categorização gramatical das formas de futuro é justamente a
instabilidade da relação entre formas e funções, tendo em vista que a
“característicaquaseuniversaldas formas de futuroé a sua propensãopara
a mudançasemântica”16 (FLEISCHMAN, 1982, p. 23).
A consequência disso é uma constante dinamicidade entre
formas e funções, no âmbito desse domínio funcional, em particular,
mas também na língua, em geral, de modo que, segundo a perspectiva
funcionalista, mudança e variação são movimentos constantes na língua.
Disso se conclui que as categorias linguísticas não podem ser
vistas como discretas, mas como distribuídas num continuum, no âmbito
do qual, entre uma categoria e outra, no processo de mudança, pode
haver ocorrências ambíguas ou com traços sobrepostos. Sob essa ótica,
opera-se, então, com o conceito de distribuição categorial escalar,
segundo o qual os membros de uma categoria, num modelo gradiente de
organização, podem ser mais, ou menos, prototípicos a depender de um
conjunto de fatores – cf. Givón (2001, p. 32).
Nesse contexto, Gibbon (2014) e Görski e Tavares (2017) vêm
chamando atenção para usos que podem ser duplamente interpretados
como futuro ou como habitual. A título de exemplificação, observe-se o
excerto a seguir:
(3) Entenda o processo de impeachment
O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), decide
acolher uma das denúncias por crime de responsabilidade da
presidente da República [...] Após a decisão do presidente da
Câmara, é instalada uma comissão especial para analisar o
pedido, com deputados de todos os partidos, em número
16
“[...] a quasi-universal characteristic of future forms is their propensity toward
semantic change”.
51
proporcional ao tamanho da bancada de cada legenda. [...]
Instalada a comissão, a presidente da Repúblicatem, depois de
notificada, prazo de dez sessões para se manifestar [...] Após a
manifestação da defesa, a comissão tem prazo de cinco sessões
para votar o relatório final, com parecer a favor ou contra a
abertura do processo.17
Em (3), as formas verbais destacadas podem indicar (i) tanto
uma situação habitual/ritual (no sentido de que, para todo processo de
impeachment, esse é o procedimento – acolhe-se uma denúncia; instala-
se uma comissão especial; confere-se ao presidente da República prazo
de dez sessões para se manifestar; confere-se, em seguida, um prazo de
cinco sessões para votação do relatório final) e, nesse caso, a
codificação das formas em destaque seria referente ao domínio
funcional da habitualidade; (ii) quanto uma sequência de situações
futurasprevistas para esse impeachment em particular (o presidente da
Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), decide/decidirá/vai decidir
acolheruma das denúncias; é/será/vai ser instalada uma comissão
especial para analisar o pedido; a presidente da Repúblicatem/terá/vai
terprazo de dez sessões para se manifestar; a comissão tem/terá/vai ter
prazo de cinco sessões para votar o relatório final) e, nesse caso, a
codificação seria referente ao domínio funcional do futuro do presente:
“[t]rata-se, pois, de um uso que se situa nos limites interconectados de
dois domínios funcionais, ilustrando um caso de continuum categorial”
(GÖRSKI; TAVARES, 2017, p. 60).
A partir dessa compreensão, assume-se, portanto, que,
intralinguisticamente, há um constante movimento de acomodação entre
formas e funções, de modo que uma categoria pode passar a deslizar
para outra, por meio de um processo lento e gradual de mudança.
A consequência teórica de assim se compreender as categorias
linguísticas, tendo em vista a complexidade que envolve a codificação
de um domínio funcional, é “relativizar a noção de ‘categoria’ em
relação ao discurso18 e, portanto, ver a adesão de uma forma a uma
categoria como sendo algo não determinado com antecedência, mas
17
Disponível em: [Link]
processo-de-impeachment/. Acesso em 03 de abr. de 2017.
18
Discurso, no âmbito do funcionalismo, refere-se à língua em uso (cf. Capítulo
2), podendo evocar aspectos tanto textuais quanto pragmáticos (cf. Capítulo 3).
52
secundário dependente do uso da forma no discurso [...]” (HOPPER,
1991, p. 30; grifos nossos).19
No excerto precedente, em (3), o conhecimento pragmático
sobre o processo de impeachment, considerando-o do ponto de vista
jurídico, por exemplo, poderia desfazer a ambiguidade – uma vez que se
saberia se o que está descrito se refere ao procedimento de todo
impeachment (o que poria em primeiro plano a leitura de habitualidade
das formas em destaque) ou se se refere ao procedimento adotado
apenas para esse impeachment (o que poria em primeiro plano a leitura
da temporalidade das situações, projetadas numa sequenciação
temporal).
Num caso e outro, as formas verbais em destaque dirigem a
própria organização textual, uma vez que, caso a sequenciação fosse
desfeita, haveria, no texto, incoerência pragmática (porque não se pode
instalar uma comissão especial para analisar pedido de impeachment,
antes de o presidente da Câmara decidir se acolhe (ou não) uma
denúncia contra o presidente da República), quer a leitura seja de
habitualidade quer seja de temporalidade. Disso se depreende que há
motivações discursivas para a emergência de formas e de funções (bem
como de correlações entre elas) na expressão do futuro do presente
(especificamente), tal como a necessidade de se garantir certas noções
aspectuais e/ou modais, além de temporais.
Dessa última consideração, destaque-se, por fim, que no âmbito
do domínio funcional do futuro do presente, por exemplo, cada uma das
funções (tempo-aspecto-modalidade) se especifica ainda em outras
subfunções. Assim, para citar alguns exemplos, a função tempo recobre
as subfunções futuro determinado ou não determinado20; afunção
aspecto recobre, por exemplo, as (sub)funções perfectivo semelfactivo,
imperfectivo iterativo, imperfectivo inceptivo semelfactivo etc.; e a
função modalidade, as (sub)funções modalidade orientada para o
agente, modalidade orientada para o falante, modalidade epistêmica,
havendo ainda, casos ambíguos (i) no interior de uma (sub)função (há
19
“The theoretical consequence of seeing categories in this way is to relativize
the notion of "category" to discourse, and hence to see membership in acategory
as being, not determined in advance for a form, but secondary to the
deployment of the form in discourse [...]”.
20
Essas subfunções aparecem também na literatura com os termos futuro
próximo ou distante, evocando outras acepções (cf. 1.2).
53
caso ambíguos entre modalidade orientada para o agente e modalidade
orientada para o falante) ou mesmo (ii) entre funções (como nos casos
em que há ambiguidade entre aspecto e modalidade, por exemplo, o
que reflete justamente o processo (gradual) de mudança funcional das
formas, no âmbito do domínio do futuro do presente (cf. 1.1.3). O ponto
a ser destacado aqui é que, para garantir a expressão de cada uma dessas
funções e subfunções, estabelece-se uma complexa relação entre essas e
as formas do domínio.
Uma representação das noções apresentadas nesta subseção
sobre o (macro)domínio funcional TAM, considerando apenas a
(macro)função T (tempo), que define mais diretamente o domínio
funcional do futuro do presente, até chegar às (sub)funções que esse
domínio codifica, pode ser assim exposta21:
21
Destaque-se, no diagrama, que a futuridade pode ainda recobrir outros
(sub)domínios funcionais, como o do presente do subjuntivo, em contextos de
projeção futura da situação – tal como no seguinte dado: “Espero que você
traga o material amanhã”. Nesta tese, o diagrama apresentado cumpre apenas o
papel de sintetizar as discussões da subseção, e não de apresentar todos os
(sub)domínios e (sub)funções sob o escopo de TAM.
54
Figura 2: Especificação do (macro)domínio funcional TAM a partir de T
(tempo) até chegar ao (sub)domínio funcional do futuro do presente e suas
(sub)funções
Fonte: Elaboração própria
Dessas discussões,destaca-se, então, a visão de que a noção de
mesmo domínio funcional não é absoluta, mas relativa:
um grande domínio [como no caso de TAM]
frequentemente se subdivide em subdomínios que
se interconectam e interagem [como ocorre com
os subdomínios futuro do presente, contextos de
habitualidade e atos de fala diretirvos, por
exemplo].Nesse sentido, o domínio funcional
pode ser visto como superordenado, recobrindo
áreas funcionais gerais [como Tempo,
Posterioridade e Futuridade] ou mais restritas
[como futuro do presente, contextos de
habitualidade e atos de fala diretivos], a depender
do ajuste de foco da lente do analista (GÖRSKI;
TAVARES, 2017, p. 46).
E, porque os domínios funcionais são multidimensionais,
escalares e se distribuem num continuum, ou seja, não são discretos,ao
passo quea estrutura sintática é discreta, a própria estrutura linguística,
enquanto unidade de codicação funcional, precisa ser reconhecida como
flexível – o que explica, assim, tanto o fato de uma forma codificar
55
funções de diferentes domínios quanto o fato de diferentes formas serem
agenciadas para codificar os diferentes matizes funcionais (como futuro
determinado/não determinado; aspecto perfectivo
semefalctivo/imperfectivo iterativo; modalidade orientada para o
agente/ para o falante) de um domínio.
Descrita, em termos de TAM, a complexidade funcional que
envolve a expressão do futuro do presente, especifica-se, a seguir, um
fator adicional que confere complexidade a esse domínio funcional: sua
constituição temporal.
1.1.2 A complexidade da expressão gramatical de tempo e de
tempo futuro: a questão da ancoragem
Esta subseção destina-se à apresentação e discussão dos
elementos implicados na expressão gramatical de tempo, tomando como
ponto de partida uma compreensão lógico-formal da questão, de acordo
com as proposições de Reichenbach (1947)22 e de Corôa (2005), até
chegar a uma perspectiva funcionalista, tendo em mira principalmente
as concepções de Fleischman (1982), de Comrie (1985) e de Givón
(2001). Antes, porém, tecem-se algumas considerações gerais à guisa de
introdução do tópico em pauta.
Uma das experiências mais ricas que temos no mundo é a
experiência temporal. Por meio dela, de maneira geral, contamos nossos
dias, organizamos nosso cotidiano, lembramos do que foi e já não é,
reclamamos de e/ou apreciamos o ponto em que estamos, e vivemos na
expectativa do que pode vir a ser. Tudo isso se relaciona ao modo como
percebemos o tempo no fluxo de nossa existência e, uma vez que essa
percepção se refere a uma noção conceptual, todas as línguas do mundo
codificam, linguisticamente, essa experiência (COMRIE, 1985).
Contudo, há que se distinguir tempo enquanto experiência
(percepção) no mundo e tempo enquanto categoria da língua. No inglês,
essa especificação está garantida lexicalmente: time, para o primeiro
caso; e tense para o segundo. Como não dispomos desse recurso
distintivo no PB, buscamos utilizar, ao longo desta discussão,
22
Reichenbach adverte que não devemos nos surpreender se alguns aspectos da
língua em uso não se encaixarem no esquema lógico-simbólico proposto por
ele, uma vez que a linguagem matemática pode ser coordenada à linguagem real
apenas no sentido de uma aproximação.
56
expressões como tempo verbal, tempo gramatical e categoria de tempo
para a expressão gramatical; e tempo para a experiência temporal que
temos no mundo.
No português, “[a] categoria linguística TEMPO [...] está
gramaticalizada nos tempos verbais” (MATEUS et al., 1989, p.76; grifo
dos autores), embora, nas línguas naturais, a categoria verbal não
codifique apenas tempo, mas, concomitantemente, funções variadas, tais
como valência, voz, aspecto, modo/modalidade e concordância.
Qualquer investigação quanto à categoria de tempo, portanto, lida com
essa multiplicidade funcional.
A depender do contexto, expressões e itens lexicais também
funcionam como localizadores temporais das situações, ampliando
grandemente as possibilidades de os sujeitos23 reportarem tempo na
língua (COMRIE, 1985, p. 9).
Para além do tempo gramatical e do tempo enquanto
experiência no mundo, há mais um tipo de tempo que precisa ser
considerado: o tempo que independe de nossa existência ou percepção e
também independe da própria língua: o tempo cronológico. Em Corôa
(2005) encontra-se a seguinte distinção entre esses três diferentes tipos
de tempo:
O primeiro – tempo cronológico – é caracterizado
por um ponto em contínua deslocação em direção
ao futuro, de duração constante, uniforme e
irreversível. O segundo – psicológico – não tem
duração constante e uniforme porque existe em
função do mundo interno do indivíduo: pode
parar, retroceder, acelerar-se, etc. O terceiro –
gramatical – é aquele caracterizado em português
por um radical acrescido dos morfemas típicos
(CORÔA, 2005, p. 24; grifos nossos).
Se, nos estudos linguísticos, é comum a compreensão de tempo
cronológico enquanto dimensão linear, tal como se verifica no excerto
23
Nesta tese, a princípio, não se faz distinção entre os termos sujeito, indivíduo,
falante e locutor, embora carreguem conotações distintas nos campos teóricos
acionados ao longo da tese.
57
precedente, cujas situações24 estão nela localizadas, tempo gramatical é
definido justamente como “a gramaticalização da localização das
situações no tempo [cronológico]” (COMRIE, 1985, p. vii; grifos
nossos). A questão, porém, não é simples, porque a própria localização
das situações na linha temporal (tempo cronológico) sofre influência do
tempo psicológico, i. é, do modo como os falantes concebem
(/percebem) as situações.
Trazendo essas noções para o âmbito das relações entre formas
e funções – que é a perspectiva que orienta a tese –, pode-se, grosso
modo, associar a ideia de tempo cronológico/psicológico à função, e a
ideia de tempo gramatical à forma. Saliente-se, no entanto, que qualquer
categoria gramatical envolve não apenas a estrutura da língua, mas
também a significação que dada forma codifica. Assim a chamada
categoria tempo gramatical carrega, naturalmente, uma associação entre
forma (codificação gramatical) e função (significação).
Em vista disso, apresentam-se, a seguir, três noções envolvidas
na codificação gramatical do tempo e que, em alguma medida, evocam
as ideias de tempo cronológico e tempo psicológico. Tome-se, como
ponto de partida, a interpretação lógica sobre tempo gramatical
formulada pelo filósofo e matemático Reichenbach (1947), muito
difundida na literatura, por ser “bastante próxima das intuições do
falante e [que] se aplica bem ao português” (ILARI, 1997, p. 13).25
Esse lógico formalizou uma proposta explicativa sobre o
funcionamento da categoria verbal de tempo, alicerçando-se nas
seguintes questões: (i) o tempo gramatical determina o tempo
cronológico das situações em relação ao tempo do ato de fala; nesse
sentido, o tempo (cronológico) ou o momento26 de fala é o ponto de
partida para a referência (gramatical) temporal – o que está antes desse
momento é passado; o que é simultâneo a ele, presente; e o que está
depois dele, futuro, constituindo-se, assim, três tempos verbais; (ii)
como o número de tempos verbais nas línguas naturais é maior que três,
24
Usa-se situações em referência a eventos, estados, processos, etc. para que
não seja necessário especificar a todo instante o conteúdo codificado pelo verbo
(cf. COMRIE, 1990). Por essa razão, na localização de situações futuras na
linha temporal, conforme a seguir, empregamos o termo ‘Situação’ (‘S’).
25
Vale lembrar que Aristóteles foi o primeiro a abordar a categoria de tempo
nos verbos, notando que diferenças na relação temporal com a elocução
promoviam diferenças na forma verbal (NEVES, 2002b, p. 42).
26
Usamos os termos ponto ou momento como alternativos, neste texto.
58
é preciso considerar que a questão é mais complexa: há que se levar em
conta ainda o momento de referência que se toma para se reportar às
situações, as quais, em relação a esse ponto, podem ser anteriores,
simultâneas ou posteriores.
Em vista disso, a explicação de Reichenbach para a constituição
dos tempos gramaticais não abre mão de três momentos a serem
considerados, quais sejam:
1. o momento da fala (point of speech, a que o autor se refere
comoS27), compreendido como o intervalo de tempo de cada oração
no ato da comunicação, referindo-se diretamente ao sujeito que fala;
2. o momento em que ocorre a situação descrita (point of the
event, a que o autor se refere como E28), ou seja, o intervalo de
tempo que se atribui ao referente de um verbo;
3. o momento de referência (point of reference, a que o autor se
refere como R) dos acontecimentos naturais ou históricos, isto é, o
intervalo de tempo da contemplação do ato verbal pelo falante que
transmite essa perspectiva ao ouvinte (REICHENBACH, 1947, p.
288).
Para o autor, é a partir de diferentes combinações entre esses
três momentos ou pontos que os diferentes tempos gramaticais se
constituem29, conforme se pode visualizar na Figura 330, com destaque
(nosso) nas combinações para a expressão do futuro.
27
Para fazer referência a esse momento, utilizaremos ‘F’, em referência à
tradução “momento de fala”.
28
Por termos anunciado que faremos referência a situações e não a eventos,
utilizamos S e não E para nos reportamos ao momento da situação.
29
Reichenbach sugere 13 combinações possíveis para a expressão temporal nas
línguas naturais, embora destaque que a totalidade delas não costuma ocorrer
em uma mesma língua e que apenas nove delas são fundamentais.
30
A Figura 3 exibe, além das 13 fórmulas combinatórias, também os nomes
sugeridos para os nove tempos, alinhados aos nomes tradicionais no inglês. O
leitor deve ainda observar que o autor reúne seis combinações em dois grupos
distintos. A um grupo, denomina posterior past; a outro, anterior future. Esses
dois grupos contêm três diferentes combinações para um mesmo tempo
gramatical, o que significa que diferentes construções gramaticais, apesar de
representarem o mesmo tempo gramatical, provêm de diferentes relações entre
o momento de fala, o de referência e o da situação reportada.
59
Figura 3: Proposta da representação gramatical de tempo nas línguas humanas
New Name Tradicional Name
S–R–F Anterior past Past perfect
S, R – F Simple past Simple past
R – S –F
R –F, S Posterior past _________
R–F–S
S – F, R Anterior past Present perfect
F, R, S Simple present Present
F, R – S Posterior present Simple future
F–S–R
F, S – R Anterior future Future perfect
S–F–R
F – R, S Simple future Simple Future
F–R–S Posterior future _________
Fonte: Reichenbach (1947, p. 297; grifos nossos)
As fórmulas devem ser compreendidas da seguinte maneira: a
vírgula representa coincidência entre os momentos; e o hífen, não
coincidência. Assim é que no tempo verbal present na nomenclatura
gramatical do inglês, e renomeado simple present, na proposta do autor,
a fórmula significa que o momento da situação reportada pelo verbo
coincide com o momento de fala e com o tempo de referência (F, R, S),
como em “I see John” (Eu vejo John).
Em relação à expressão do futuro, a proposta de Reichenbach
prevê que o que se denomina, no inglês, simple future, na verdade, pode
ter duas interpretações, a depender se o ponto de referência coincide
com o momento de fala (F, R – S), ao que o autor designa posterior
present, ou se o ponto de referência coincide com o momento da
situação (F – R, S), ao que o autor designa simple future. A
especificação de um caso ou de outro, segundo o autor, pode decorrer
não da morfologia verbal, mas do uso de circunstanciadores temporais –
para o autor, em “Now I shall go” (Agora eu deverei ir), o ponto de
referência (now) coincide com o momento de fala, ao passo que em “I
shall go tomorrow” (Eu deverei ir amanhã) o ponto de referência
(tomorrow) coincide com o momento da situação.
Considerando o próprio termo que designa a expressão de
futuro em que o ponto de referência coincide com o momento de fala, o
posterior present, Reichenbach (1947) assinala também que alguns
tempos gramaticais indicam, adicionalmente, duração ou repetição de
60
uma situação. Um desses tempos é o que o matemático denomina
present extended. O autor ilustra a argumentação com a sentença “I am
seeing John” (Eu estou vendo John), em que a situação se efetiva no
momento de fala, mas não se encerra ao final dela; antes, é uma situação
que se prolonga por um tempo. A representação para essa sentença, bem
como para o conceito de presente estendido é assim formulada por
Reichenbach (1947).
Figura 4: Diagrama representacional do conceito de presente estendido
Fonte: Reichenbach (1947, p. 291)
Isso posto, tem-se que, como essas situações podem ser vistas
como, embora localizadas no momento de fala, não limitadas nem
necessariamente contemporâneas a ele, mas associadas a uma
fração de tempo que inclui o momento da fala [,]
o presente [pode], às vezes, ser associado ao
passado, às vezes ao futuro: identifica-se mais ora
com a parte da fração de tempo que veio antes do
momento da fala, ora com a parte da fração de
tempo que vem depois do momento da fala
propriamente dito (CORÔA, 2005, p. 44; grifos
nossos).
Considerando especificamente a expressão gramatical do
futuro, a relevância que o falante confere ao estado de coisas do presente
para se reportar a situações previstas tem sido descrita como central para
a indicação de contextos de futuridade, pois, através da avaliação que os
sujeitos fazem do estado de coisas do presente, o futuro passa a ser visto
em termos “daquilo que agora constitui futuro” (CORÔA, 2005, p.40;
grifos da autora).
Destaque-se, contudo, que nem sempre o momento de fala é o
ponto de referência para se reportar a situações futuras. Nesse sentido,
em relação à expressão do futuro, há:
61
(i) casos em que a situação referida é anterior a um ponto de
referência, que pode coincidir ou não com o momento de
fala, ao que Reichenbach denomina anterior future (no
inglês, future perfect); representados a partir das fórmulas
F– S – R/ F, S – R/ S – F – R; e exemplificados a partir de
“I shall have seen John” – Eu deverei ter visto João [antes de
você ir embora];
(ii) casos em que a situação referida é posterior a um ponto de
referência, que, por sua vez, é posterior ao momento de fala,
ao que o autor denomina posterior future31, não havendo,
para essa representação, feita a partir da fórmula F – R – S,
termo no inglês; e cuja exemplificação é feita com a
sentença “I shall be going to see him” – Eu deverei ir vê-lo
[depois de acabar a festa].32
Ademais, para os fins desta tese, destacam-se da proposta de
Reichenbach os seguintes aspectos: (i) o momento de fala ou de
enunciação33 é que é tomado, como ponto de partida para a explicação
dos tempos gramaticais; é, pois, em relação a ele que a situação e o
ponto de referência se localizam; (ii) além disso, assume-se que a
determinação do ponto de referência a partir do qual as situações são
referidas é dada pelo uso contextual da língua: assim, em uma narrativa,
explica o autor, os acontecimentos referidos estão no passado, porque
são vistos a partir do momento de fala; mas alguns eventos de uma
narrativa podem ainda ser referidos em relação ao ponto de referência
determinado pela própria história.
As proposições de Reichenbach também estão presentes nas
considerações funcionalistas sobre a expressão do tempo gramatical –
embora sob uma nova e, por vezes, diferente ótica. Givón (2001), por
exemplo, também considera que, para os casos em que a ancoragem ou
referência temporal coincide com o momento de fala, as situações que
31
Segundo o autor, o futuro posterior focaliza não a situação, mas a preparação
para ela.
32
Note-se que em (i) e (ii) a leitura dos dois tipos de futuro (futuro anterior e
futuro posterior) fica mais evidente com o acréscimo (nosso) de
circunstanciadores temporais.
33
Enunciação, nesta explicação, tem a acepção de momento do ato de fala.
62
estão antes desse momento, referem-se ao passado; as que são
concomitantes a esse momento, ao presente; e as que estão depois dele,
ao futuro, conforme a representação na Figura 5.
Figura 5: Diagrama da representação temporal que se ancora no momento de
fala
Fonte: Givón (2001, p. 286)
Diferentemente de Reichenbach, contudo, depreende-se da
figura anterior a concepção de que a expressão do futuro se ancora no
momento de fala – visão que só está presente em Reichenbach quando o
autor se refere ao posterior presente a uma das representações do
anterior future (F, R –S). Para todos os demais casos de expressão do
futuro, o autor formalista considera que o ponto de referência não
coincide com o momento de fala e sim com o próprio momento do
evento, podendo ser identificado por meio de um circunstanciador
temporal.
Considerando que passado, presente e futuro seriam tempos
naturais (MATEUS et al., 1989, p.76) – porque relacionam,
linearmente, o tempo em relação a um momento de referência específico
(a saber, o momento da fala) –, o aqui/agora do sujeito que fala é, tanto
em Reichenbach quanto na visão funcionalista, o ponto central para a
representação temporal, já que se refere ao “ponto zero” da relação
espaço-tempo do momento de fala. E tempo gramatical, na literatura
funcionalista referida, é categoria relacional ou dêitica, já que relaciona
o tempo da situação reportada ao momento de fala (FLEISCHMAN,
1982; COMRIE, 1985), além de ser também: (i) uma propriedade da
sentença, já que os morfemas verbais temporais representam uma
categoria formal da gramática que indica uma gramaticalização no modo
de referenciar tempo (FLEISCHMAN, 1990, p.43); e (ii) uma
propriedade da pragmática, uma vez que se ancora em unidades que
são externas à língua, tais como o momento de fala e o próprio sujeito
(GIVÓN, 2001). A esses tempos que se ancoram no momento de fala, a
63
literatura da área denomina tempos absolutos (FLEISCHMAN, 1982;
COMRIE, 1985; CORÔA, 2005).
Contudo, há casos também em que o ponto de referência para a
localização temporal de uma situação não coincide com o momento de
fala, mas com outras situações projetadas no contexto. A esses tempos,
que não têm o momento presente como centro dêitico, Comrie (1985)
denomina tempos relativos. No português, casos típicos de tempo
relativo são os que correspondem às formas nominais do verbo
(gerúndio, infinitivo e particípio), presentes nas chamadas orações
reduzidas. Nesses casos, o tempo é dado, geralmente, pelo tempo do
verbo da oração principal – ex: João chegou ao anoitecer (= passado);
João chegará ao anoitecer (= futuro).
Além disso, Comrie também considera o caso de tempos
verbais que combinam esses dois tipos de referência temporal, tendo,
então, como parte de seu significado, referência a uma situação
localizada antes ou depois de um ponto de referência que, por sua vez,
está localizado de forma anterior, posterior ou simultânea ao momento
de fala. A esses tempos Comrie (1985) denomina absoluto-relativos,
“uma vez que seu significado combina localização temporal absoluta de
um ponto de referência com localização temporal relativa de uma
situação” (COMRIE, 1985, p. 65).34
Das discussões sobre tempo absoluto, tempo relativo e
absoluto-relativo pode-se inferir que, se os tempos absolutos são
dêiticos, os tempos relativos, ao ancorar-se em aspectos linguístico-
contextuais (/textuais), são anafóricos, e ostempos absoluto-relativos,
por conseguinte, evocam uma perspectiva dêitico-anafórica. Quer de
uma forma, quer de outra, a questão é que a literatura da área
compreende que “no fundo, o contexto [linguístico] e a situação
[extralinguística] operam conjuntamente para determinar a significação
das palavras de acordo com a intenção do falante”(VARGAS, 2011, p.
42).
Exemplificando o tipo de tempo absoluto-relativo com o caso
do futuro anterior ou futuro perfeito (future perfect) do inglês, uma
oração como “I Will have left” (Eu terei saído/partido), para Comrie
(1985, p. 69), “indica que há um ponto de referência no futuro e que
meu ponto de partida [para reportar a uma situação] está localizado
34
“[...] since their meaning combines absolute time location of a reference point
with relative time location of a situation” (COMRIE, 1985, p. 65).
64
temporalmente antes desse ponto de referência”35 – ou, em outros
termos, indica que uma situação futura se localiza antes de um ponto de
referência, que é posterior ao momento de fala.
Note-se que Givón (2001, p. 294; grifos nossos) considera que
perfect, já que o que está em questão é o futuro perfeito, “é
funcionalmente o aspecto gramatical mais complexo e mais sutil”
porque envolve, dentre outras características, anterioridade e, às vezes,
contra-sequencialidade, associadas, respectivamente, ao fato de que o
ponto de iniciação da situação reportada, nesse tempo, precede o ponto
de referência temporal, localizado no tempo do seguimento seguinte, tal
como na sentença “(Quando ele chegar,) [tempo de referência] Ela (já)
terá comido [tempo da situação/do evento]”36, e ao fato de as situações
serem apresentadas fora da sequência quanto à ordem natural temporal,
já que primeiro, ela comerá; depois, ele chegará.
A representação desse tempo que, no PB, conta com forma
gramaticalizada para sua expressão, pode ser conferida a seguir:
Figura 6: Diagrama representacional do tempo futuro anterior ou perfeito
Fonte: Givón (2001, p. 294).
Para além disso, se Reichenbach considera que alguns tempos
gramaticais indicam duração ou repetição, Givón (2001, p. 286)
reconhece que situações reiteradas constituem mais um tempo (além de
passado, presente e futuro), ao que denomina tempo habitual, também
fazendo ver a noção aspectual associada à expressão temporal –
embora o que Givón entende como tempo, nesse caso, seja mais
comumente tratado na literatura (COMRIE, 1990; TRAVAGLIA, 1994)
como aspecto. Nesse contexto, se o formalista reflete sobre os tempos
35
“[...] indicates that there is a reference point in the future, and that my
departure is located temporally prior to that reference point”.
36
“(When he arrives,) She will have (already) eaten” (GIVÓN, 2001, p. 293).
65
estendidos, como o caso do presente estendido que, incluindo o
momento da fala, associa-se ao futuro, por exemplo, Fleischman (1982)
confere grande destaque ao conceito de relevância do presente, segundo
o qual o falante estabelece (psicologicamente) uma conexão entre
presente e futuro, independentemente do tempo cronológico da situação
futura (pode estar distante ou não do momento de fala), já que essa (a
situação futura) é avaliada pelo falante como estando relacionada ao
estado de coisas do presente.
Justamente por esse motivo, a autora, então, considera que “o
futurorepresentauma projeção dealguns de nossosestados mentais e
emocionais” (FLEISCHMAN, 1982, p. 80)37, do que se depreende a
forte presença da modalidade na expressão do futuro. Dessa visão
funcionalista, infere-se que o modo como o falante avalia/percebe as
situações futuras em relação ao presente (conectando-as a ele ou
apartando-as dele) pode motivar variações quanto à representação da
própria expressão de futuro.
Feitas essas considerações, que põem em relevo a complexidade
da expressão gramatical de tempo frente a seus elementos constituintes
(quais sejam: o momento de fala, o momento da situação e o momento
de referência), passa-se agora a especificar as noções de posterioridade
e de futuridade, sob escopo das quais se situa o domínio funcional do
futuro do presente. Assim, de uma perspectiva hiponímica, com base em
Fleischman (1982) e Görski e Tavares (2017), por exemplo, tem-se a
seguinte hierarquia (cf. Figura 2):
Posterioridade (R – S): refere-se a uma situação que,
cronologicamente, se projeta à direita de um ponto de referência, que
pode estar localizado em qualquer ponto da dimensão temporal;
Futuridade (F – S): refere-se a situações que se estendem para além
do momento de fala; tomando ou não o momento de fala como
referência.
Resta, então, saber, para os fins desta tese, como definir o
domínio funcional do futuro do presente, tendo em vista a relação que se
estabelece entre os elementos envolvidos em sua expressão.
Considerando que em todos os casos o momento de fala está implicado,
37
“[...] the future represents a projection of certain of our mental and emotional
states”.
66
ainda que indiretamente, opta-se, nesta tese, por definir esse domínio
funcional conforme segue no Quadro 1.
Quadro 1: Definição de futuro do presente, tendo em vista a relação entre os
elementos envolvidos na expressão temporal
O DOMÍNIO FUNCIONAL DO FUTURO DO PRESENTE
Refere-se asituações que se projetam para além do momento de fala
e que tomam esse momento (quer direta quer indiretamente)como
ponto de referência, para indicar: (i) uma (única) situação; (ii) duas
ou mais situações em que uma é posterior a outra; (iii) duas ou mais
situações em que uma é cotemporal a outra; (iv) duas ou mais
situações em que uma é anterior (contrasequencial) a outra –
considerando ainda que as situações em (ii), (iii) e (iv)podem estar
ou não sintaticamente contíguas.38
A partir disso, considera-se, portanto, que a expressão do futuro
do presente pode ser dêitica ou dêitico-anafórica, conforme se
exemplifica, a seguir, cada uma das situações descritas na definição,
respectivamente, indicando-se ainda a representação de cada uma delas,
na linha temporal.
(i) Projeção de uma situação futura:
(4) A apresentadora Eliana, de 43 anos, anunciou no finalzinho do
seu programa, neste domingo (2), que está grávida do seu
segundo filho, fruto do relacionamento de dois anos com Adriano
Ricco. “Eu quero compartilhar nesse momento de união, quero
compartilhar com vocês que me acompanham ao longo desses
anos, este que é o momento mais feliz de uma mulher. Deus e
toda a sua generosidade nos abençoou, a mim e ao Adriano, a
nossa família vai crescer, estou grávida mais uma vez”.39
38
Cf. discussão sobre a relevância desse critério (não exigência de contiguidade
sintática) em [Link].
39
Disponível em:
<[Link]
[Link]>. Acesso em: 02 abr.
2017.
67
No excerto acima, tem-se uma situação futura, cujo ponto de
referência é o momento de fala – caso que Fleischman (1982), Comrie
(1985) e Corôa (2005), entre outros, denominam tempo absoluto,
tratando-se, pois, de uma referência de natureza dêitica.
(ii) Projeção de duas ou mais situações futuras em que uma é
posterior à outra:
(5) A posse de Lula no Ministério da Casa Civil provocou polêmica,
especialmente após a divulgação de grampos telefônicos entre o
ex-presidente e a presidente Dilma Rousseff. Muitos viram na
nomeação uma tentativa de obstrução da Justiça, uma vez que o
ex-presidente está sendo investigado por suposto envolvimento
no esquema de corrupção da Petrobras. [...]Logo após Lula ser
empossado, um magistrado de Minas Gerais suspendeu a posse.
[...] O governo já avisou que vai apelar contra a suspensão e a
decisão terá de ser tomada no plenário da corte.40
Já no excerto acima, ilustra-se o caso em que situações futuras
estão em relação de posterioridade, ou seja, trata-se de uma cadeia ou
sequência de situações que, em nossa compreensão, ancoram-se no
momento de fala, ainda que, no caso da segunda situação, essa
ancoragem seja indireta. Assim, estamos considerando (reitere-se) que
todas as situações sequenciais se ancoram no momento de fala, tendo,
por isso, cada uma delas a mesma representação (F, R – S)41, embora
aqui já se veja também referência anafórica.
40
Disponível em:
<[Link]
itica_lgb>. Acesso em: 16 abr. 2017.
41
Em casos desse tipo, Comrie (1985) e Mateus et al. (1989) denominariam a
segunda situação de futuro do futuro, tomando a primeira situação futura como
68
(iii) Projeção de duas ou mais situações futuras em que uma
é cotemporal a outra:
(6) E: O prefeito de São Borja é um gringo?
F: Não, não é gringo. O sobrenome é espanhol, Alvarez, né? O pai
dele é são borjense, ele é são borjense esse rapaz. Mas o que eu
digo é que os gringos começaram a crescer, inclusive. Primeiro
eles eram simples colonos, né? hoje não, tudo que é edifício bom,
tudo que é casa boa que tem aí, tudo que é Santana oitenta e dois
é de gringo, né? E este ano vão lavar a égua, né? O arroz vai dar
uma supersafra aqui em São Borja de arroz, né? Apesar do preço
estar ruim, essa gente vai fazer uma safra muito boa, muito
grande. E essa foi a maior modificação que eu noto na nossa
terra.42
O excerto acima ilustra o caso em que duas ou mais situações
no futuro são cotemporais, podendo a relação de simultaneidade entre
elas ser total ou parcial. De acordo com nosso critério de análise, todas
elas se ancoram no momento de fala.
(iv) Projeção de duas ou mais situações futuras em que uma
é anterior à outra:
(7) Quando foi lançado na Europa, em março deste ano, a quinta
geração do Mercedes-Benz Classe C logo foi apelidada de
"Pequeno Classe S". O apelido expressa sua proposta ambiciosa.
Ou seja, oferecer no sedã médio uma "versão concentrada" dos
atributos do Classe S, sedã grande "top" onde normalmente as
novas tecnologias são introduzidas na linha da marca alemã. No
ponto de referência, que, por sua vez, se ancoraria no momento de fala, da
mesma maneira que Reichenbach formalizaria o posterior future (F – R – S).
42
Excerto disponível em Gibbon (2014, p. 124), referente a trecho de entrevista
sociolinguística.
69
Brasil, já se sabe que o novo Classe C será o primeiro modelo
produzido na futura fábrica paulista de Iracemápolis, com
inauguração prevista para 2016. Antes disso, terá uma missão a
cumprir: retomar a liderança de vendas entre os sedãs de marcas
de luxo, atualmente ocupada pelo BMW Série 3.43
No excerto acima, representa-se o caso de duas situações
futuras em que uma é anterior a outra – note-se que, nesse caso, na
codificação, a ordem dos eventos é alterada: a segunda antecede
cronologicamente a anterior, ilustrando, assim, as características de
anterioridade e contra-sequencialidade do perfect, conforme Givón
(2001). Ademais, destaque-se a relevância dos especificadores
temporais, como, nesse caso, o “antes disso”, explicitando justamente a
relação de anterioridade cronológica da Situaçao 1 em relação à
Situação 2.
Em nossa compreensão, mesmo sendo indiretamente que a
forma verbal “terá” se ancora no momento de fala, havendo no PB,
inclusive, forma gramaticalizada para expressão desse caso (terá tido),
considera-se, nesta tese, que as duas situações (terá, será) tomam esse
momento como ponto de referência.
Das discussões até aqui empreendidas, informa-se, em primeiro
lugar, que nosso foco de investigação nesta pesquisa é a expressão
variável do futuro do presente, conforme definição e exemplificação
precedentes. Observando-se ainda que não há formas distintas
gramaticalizadas no PB para indicar cada um desses tipos de ocorrência
de futuro do presente (com exceção do último caso, acima
exemplificado – o futuro perfeito) – daí a possibilidade de coexistirem
diferentes interpretações e designações acerca da expressão desse tempo
–, reitera-se ao leitor que o termo futuro do presente designa tanto uma
categoria verbal gramaticalmente codificada na língua, quanto um
domínio funcional, situado na articulação entre a semântica
43
Disponível em: <[Link]
mercedes-benz-classe-c-e-a-sintese-do-melhor-da-marca>. Acesso em: 02 abr.
2017.
70
proposicional e a pragmática discursiva, nos termos de Givón (2001;
2002) (cf. Capítulo 2).
Em segundo lugar, e conjugando as discussões desta e da
subseção anterior, pode-se depreender que a complexidade do tempo
gramatical assenta-se:
(i) em parte, no fato de o falante sempre acionar uma
referência a partir da qual a predicação é situada
temporalmente, de forma que não há uma relação direta
entre tempo dos acontecimentos no mundo e a expressão
gramatical de tempo, uma vez que entre um e outro há o
trabalho dos sujeitos que, podendo estabelecer diferentes
pontos de referência para se reportar às situações ou
mesmo avaliá-las de diferentes modos, promove também
diferenças linguísticas quanto à representação temporal;
(ii) em parte, porque nuances aspectuais e modais estão
inerentemente presentes na representação do futuro44:
ainda mais porque o “futuro de uma experiência é uma
mera potencialidade” (CORÔA, 2005, p. 60). O modo
como os sujeitos avaliam essa potencialidade (da
possibilidade à certeza, por exemplo) não apenas integra
as formas de se referir ao futuro, como também contribui
para o agenciamento das formas em cada situação de
interação (GIBBON, 2014) e/ou em cada lapso temporal
Orientando, assim, nossa discussão está a compreensão, por um
lado, de que a
44
De acordo com a literatura revisada, as formas puramente temporais para a
expressão do futuro sinalizam para uma evolução gramatical. Por isso, é apenas
a um segundo subsistema do modo indicativo, um subsistema mais
característico de contextos formais de interação, porexemplo, que Mattoso
Câmara (1982) reconhece haver uma superposição de futuro às noçõestemporais
de pretérito e presente: “o futuro do presente [...] traz a assinalização do futuro
em face de um presente indefinido: parto agora; parto todos os dias, em face de
– partirei amanhã.” (MATTOSO CÂMARA., 1982, p. 100; grifos do autor). E
Fleischman (1982, p. 22) também destaca que alguns estudos realizados com
crianças têm indicado que elas aprendem, primeiramente, a expressar o presente
e o passado, e só posteriormente o futuro.
71
comunicação se refere, pois, a estados, eventos,
indivíduos que fazem parte do mundo construído
no discurso, não importando a existência, ou não,
das coisas desse mundo no mundo real. A
construção desse mundo tem ponto de partida nos
propósitos do falante, que constrói seus
enunciados conferindo relevância aos argumentos
segundo o que seja conveniente a esses propósitos
(NEVES, 2006, p. 80; grifos nossos).
De um ponto de vista mais específico, importa, então, investigar
como os falantes localizam temporalmente as situações do futuro sobre
as quais se reportam discursivamente, sinalizando, ao mesmo tempo,
para o modo como estão interpretando e representando linguisticamente
a experiência.
Ademais, nas palavras de Fleischman (1982), por outro lado,
[f]uturossão universalmente temporal/aspectual ou
temporal/modalou todos os três; ea correlação
desses emuma determinada formaestásujeita a
flutuaçõesdiacrônicas,como resultado de uma
‘divisão do trabalho’ dentro do sistema verbalem
vários períodosno desenvolvimentode uma língua
(FLEISCHMAN, 1982, p. 84-85)45.
Pelo exposto até aqui, estudos tipológicos têm identificado, em
muitas línguas mundo afora, que a codificação do domínio funcional em
tela tende a ser abundante. No PB atual, a situação não é diferente, e o
futuro do presente tem sido expresso pelas seguintes formas: (i) futuro
sintético (sairei); (ii) presente do indicativo (saio); (iii) perífrase ir
(presente) + infinitivo (vou sair); (iv) perífrase ir (futuro) + infinitivo
(irei sair); (v) perífrase ir (presente) + estar + gerúndio (vou estar
saindo); (vi) perífrase estar(futuro) + gerúndio (estarei saindo); (vii)
45
“Aspect and modality [...] are as much a part of future reference as the
expression of a temporal sequence. Futures are universally temporal/aspectual
or temporal/modal or all three; and the ratio of these elements to one another in
a given form is subject to diachronic fluctuation as a function of the shifting
'division of labor' within the verbal system at various periods in the
development of a language”.
72
perífrase estar(presente) + gerúndio (estou saindo); perífrase modal +
infinitivo (devo estar saindo; quero estar saindo etc.), dentre outras.
Frente a essa diversidade, pode-se compreender que as formas
coexistentes no domínio funcional do futuro do presente codificam a
mesma função (projeção temporal para além domomento de fala,
tomando esse momento como ponto de referência)ou funções
similares(com diferentes matizes aspectuais e/ou modais associados ao
valor temporal compartilhado, com mais proeminência de um ou de
outro valor), considerando-se então a possibilidade de se ajustar a lente
para capturar funções e subfunções.
Isso posto, quando acionarmos, nesta pesquisa, o conceito de
expressão de futuro, entenda-se, portanto, que se está falando de uma
expressão: (i) que envolve tempo, aspecto e modalidade, embora a
proeminência de uma dessas noções em uma forma esteja sujeita a
mudanças diacrônicas; (ii) que passou pelo filtro da
avaliação/concepção que o falante faz das situações reportadas; e (iii)
que depende também da historicização (diacrônica) dos modos de
constituir essa representação.
Tendo em vista que o tópico (i) já foi considerado na subseção
anterior, a fim de se discorrer sobre o processo de constituição das
principais formas de futuro no PB e, assim, abordar os tópicos (ii) e (iii),
passe-se à próxima subseção.
1.1.3 As trilhas do futuro
Vimos até aqui que a diversidade de formas que codificam o
domínio funcional do futuro decorre tanto da relação que se estabelece
entre os diferentes elementos constituintes da expressão gramatical de
tempo quanto das diferentes (sub)funções no escopo do próprio
domínio, permitindo emergir, desse modo, um cenário em que (i) uma
mesma forma pode codificar diversas funções ou (ii) uma mesma função
pode ser exercida por diversas formas.
Segundo Hopper e Traugott (2003),o inventário de formas
existentes para a codificação de um domínio funcional, numa dada
sincronia, é o inventário das vias evolutivas que lhes deram origem,
“porque a soma total dos vários tipos estruturais que pode codificar um
domínio funcional alvo particular não é senão a soma total das várias
vias de gramaticalização diacrônica de um possível domínio-fonte
73
funcionalmente similar” (GIVÓN, 2001, p. 23).46 Compreender,
portanto, a variação sincrônica em um domínio funcional demanda olhar
para o passado, ao mesmo tempo em que permite visualizar o futuro,
uma vez que “[n]a linguística, [...] as variantes sincrônicas de hoje são
os recursos potenciais para as mudanças diacrônicas de amanhã”
(GIVÓN, 2002, p. 20).47
Assim, podemos inferir que tanto para compreender a variação
sincrônica entre formas/(sub)funções no domínio funcional do futuro
quanto para prognosticar o rumo dessa variação, em direção a possíveis
mudanças, é preciso observar (i) a trajetória diacrônica que conduziu
diferentes formas a esse domínio e (ii) a distribuição de (sub)funções a
cada uma das formas no interior do domínio.
Mas, como formas que codificam funções em outros domínios
podem assumir funções do domínio funcional de futuro? Observe-se a
seguir a representação proposta por Bybee, Perkins e Pagliuca (1994, p.
240), para explicar uma das rotas de mudança pela qual formas que,
inicialmente, codificam funções de diferentes domínios se encontram e
passam a codificar funções do domínio funcional de futuro.
46
“This is so because the sum-total of the various structural types that can code
a particular target functional domain is nothing but the sum total of the various
diachronic grammaticalization pathways from possible — functionally
similar— source domains”.
47
“In linguistics, this is akin to saying that today’s synchronic variants are but
the potential reservoir of tomorrow’s diachronic changes, the so-called Labov
Principle”.
74
Figura 7: Representação da trajetória de mudança de formas que codificam,
inicialmente, desejo e movimento para e passam a codificar futuro
Fonte: Bybee, Perkins e Pagliuca (1994, p. 240)
De acordo com a Figura 7, algumas formas-fonte privilegiadas48
– como as que indicam desejo (verbo querer) e movimento em direção a
(verbo ir), no PB e em muitas outras línguas – desencadeiam
inferências de intenção por parte do falante – ou por questões
pragmáticas ou devido a significados já inerentes a elas, mas que, até
então, estavam em segundo plano. Com a frequência de uso de uma
construção associada a uma inferência desse tipo, intenção se torna parte
do significado da construção ou é realçada, favorecendo, assim, um
segundo tipo de inferência: o de previsão,obrigação – em primeiro
lugar, por parte do falante (1ª pessoa) e depois se estendendo para as
outras pessoas gramaticais (BYBEE; PERKINS; PAGLIUCA, 1994).
Em consequência, intenção é um traço importante do significado de
futuro, de maneira que nuances de intenção e de futuro estão, em muitas
ocorrências, sobrepostas.
Disso decorre a compreensão de que o “futuroé menosuma
categoriatemporal emaisuma categoria de modalidade [...] com
implicações temporaisimportantes” (BYBEE; PERKINS; PAGLIUCA,
48
Com base em dados empíricos de cerca de 500 línguas diferentes, Heine e
Kuteva (2002, p. 331) citam 12 tipos de fonte, cujas construções análogas, em
diversas línguas, costumam gerar formas de futuro: (i) come to, (ii) copula, (iii)
deontic modality, (iv) go to, (v) love, (vi) obligation, (vii) H-possessive, (viii)
take, (ix) then, (x) tomorrow, (xi) venitive e (xii) want.
75
1994, p. 280)49. Por essa razão, verbos modais em perífrases, como em
“posso fazer”, “quero fazer”, “mando fazer”, “devo fazer” etc., podem
codificar futuro. (GIBBON, 2014, p. 23).
Passa-se agora a indicar como algumas construções50 de futuro
se constituem historicamente, do latim ao português, e por que essas
construções codificam, além de uma noção temporal, também aspecto e
modalidade.
Segundo Mattoso Câmara. (1956, p. 29-33), a partir do século
III a.C, o latim apresentava três formas de futuro, a saber: (i) um futuro
arcaico, herdado do sânscrito, do grego e do osco-umbro; (ii) um futuro
de origem subjuntiva; (iii) e um futuro de raiz indo-europeia, marcado
por formas em –bo. No latim vulgar, essas formas especializadas para a
codificação de função puramente temporal perderam espaço, com
exceção da forma sintética em –bo (cantabo), para formas modais com
valor dubidativo, volitivo, desiderativo e hipotético.
Assim, no latim vulgar encontravam-se em variação a forma
sintética em -bo e formas perifrásticas que implicavam valor modal e
aspectual – dentre essas, (i) a forma perifrástica em –urus, que indicava
a iminência de fazer alguma coisa e a combinação de –urus com as
formas de sum (amaratus sum), que indicava intencionalidade e
iminência, por exemplo.
Ao lado dessas duas formas, havia também a forma perifrástica
composta pelo verbo habere (habere no presente + verbo principal),
cujo surgimento foi assim explicado por Mattoso Câmara. (1979):
A combinação do infinitivo imperfeito com o
presente do verbo habere (port. haver), em grande
parte da România, se estabeleceu como uma
locução volitiva, focalizando, do presente, a
vontade que uma ocorrência se desse. [...]
Firmou-se assim no latim vulgar um modo futuro,
por assim dizer, ou futuro modal [...].
49
“future is less a temporal category and more a category [...] modality, with
important temporal implications”.
50
Assim como Tavares (2013), observo que o termo construção pode ser
utilizado em referência a mais de uma instância linguística, ou seja, pode se
referir desde a sintagmas, orações e partes mais extensas do uso da língua, até a
uma única palavra, compreendida como a combinação de diferentes morfemas.
76
(MATTOSO CÂMARA., 1979, p. 130; grifos
nossos).
Embora tenha emergido como uma construção modal, no século
IV habere adquire valor puramente temporal, passando a ocupar uma
posição mais fixa em relação ao verbo principal (amare habeo) até gerar
a construção amar hei. Competindo com as formas análogas amarus
sum e amabo, permaneceu nas línguas românicas, chegando à língua
portuguesa, por exemplo, como amarei (MATTOSO CÂMARA, 1979).
Ao lado da forma sintética, chegou também ao português a
construção haver + infinitivo, ainda hoje registrada no PB; até o século
XIX, essas duas formas eram as que mais diretamente competiam para a
expressão temporal de futuro no PB, até a emergência de uma nova
construção perifrástica: ir + infinitivo.
Bybee, Perkins e Pagliuca (1994), investigando 70 línguas
diferentes quanto aos usos de futuro, captaram que verbos de
movimento, análogos ao verbo ir, no PB, são uma das principais fontes
para a codificação gramatical de futuro em diversas línguas. Os autores,
com base em estudos empíricos, defendem a hipótese de que é de
noções básicas da existência/experiência humana, como movimento no
espaço, estados psicológicos e sociais, que advém a base para os
significados gramaticais das línguas. Ao descrever o contexto de
emergência da construção ir + infinitivo para expressar futuro, por
exemplo, Oliveira (2006) destaca que foi um processo de reanálise de
estruturas com oração principal + oração subordinada adverbial final
reduzida de infinitivo (como em Ele vai para colher alguns grãos)51,
que favoreceu a mudança de fronteira dos constituintes, com o
apagamento da preposição que introduzia o sintagma preposicional
(como em Ele vai colher grãos), conjugado com um processo
metafórico (espaço > tempo), em que deslocamento no espaço passou a
ser reinterpretado como deslocamento no tempo.
A regularidade no uso dessa construção nova passou a exprimir,
inicialmente, modalidade (Ele vai [com a intenção de] colher grãos) e
só posteriormente é que a construção começou a fixar valor temporal,
consolidando-se como uma forma concorrente da forma sintética (Ele
colherá grãos) na medida em que vence barreiras sociolinguísticas. O
51
“E pero aas vegadas vay aos ortos e aos logares pera colher alguus grãos de
semẽtes onde viva”. (séc. XIV) (OLIVEIRA, 2006, p. 82).
77
que se verifica nesse processo é que a perífrase nasce justamente em
contextos linguísticos que contam com um sujeito agente e animado,
dificultando, assim, a distinção entre intenção e futuro.
Hopper e Traugott (2003) observam que a noção de movimento
de verbos como go (análogo ao verbo ir, no PB)só pode ser inferida
como uma noção de intenção por conta da preposição to (no PB,
análogo a para) que aparece com o verbo: é a construção go to (ou ir
para) que permite a inferência de que movimento implica intenção,
volição. Por isso os autores destacam a relevância estrutural para a
consolidação de formas que codificam futuro nas diferentes línguas.
Nessa mesma direção, Bybee (2003, p. 603) compreende que
são construções com seus itens lexicais, e não itens lexicais isolados,
que se gramaticalizam, ou seja, são sequências de palavras que se
tornam mais automatizadas no uso linguístico, fazendo, assim, com que
o locus da mudança morfossintática seja visto como uma construção em
que forma e função se concatenam.
Mas há que se considerar que, além de uma noção modal, uma
noção aspectual também contribuiu para o desenvolvimento dessa
construção de futuro, como se explica a seguir:
Para a constituição de futuro [a partir de um verbo
de movimento] deve haver, inerenteà semânticado
verboou explícitona construção, um
componentealativo, significando "movimento
para” .[...] a fonte de significado para futuros que
advém de verbos de movimento é que "o agente
está emumcaminho se movendopara um objetivo".
Outra parte importantedo significadoé que o
agentejáestá no caminhoe o movimentoestá em
andamento; assim,o aspectoevidenteouinerente
daconstruçãoé progressivo, presente ouimperfeito
(BYBEE; PERKINS; PAGLIUCA, 1994, p.
268).52
52
“To derive future there must be an allative component, 'movement toward',
either inherent in the semantics of the verb or explicit in the construction. [...]
the source meaning for movement futures is that 'the agent is on a path moving
toward a goal'. Another important part of the meaning is that the age is already
on the path and the movement is in progress; thus the overt or inherent aspect of
the construction is progressive, present or imperfective”.
78
Assim, a noção de movimento (ir para) sinaliza, a um só tempo,
tanto para uma noção de intenção quanto para uma de possibilidade de
algo acontecer imediatamente, portanto, uma noção aspectual
progressiva. Uma situação iminente que toma como referência o
momento de fala representa, para o falante, um futuro imediato ou um
presente que se estende (cf. 1.1.2). Por isso, tanto modalidade quanto
aspecto atuam conjuntamente para que a construção ir + infinitivo
assuma as funções do domínio funcional do futuro.
Dentre os significados (subfunções) de “go-futures” já
identificados na literatura, Fleischman (1982) destaca: (i) futuro
imediato ou próximo, (ii) presente inceptivo, (iii) intencionalidade, (iv)
iminência, (v) ulterioridade, (vi) relevância do presente e (vii)
prospecção. Para a autora, esses significados estão sobrepostos, remetem
fortemente a uma noção aspectual, de maneira que, para ela, “[o]go-
future […] envolveudiretamente ummarcador deaspectoprospectivo,
ignorando o estágiomodal” (FLEISCHMAN, 1982, p. 128-129)53.
Mesmo assim, a autora não deixa de localizar a modalidade no
início do processo de constituição de formas de futuro, ao representar
esse tipo de mudança como um processo contínuo que envolve três
estágios, conforme a seguir:
(FLEISCHMAN, 1982, p. 108).
A autora também confere grande destaque ao conceito de
relevância do presente, como visto (cf. 1.1.2). Assim, o falante projeta
as situações (com mais ou menos certeza, referindo-se a um futuro mais
próximo ou mais distante etc.) conforme a avaliação subjetiva que faz
do estado de coisas que conhece no presente. E “o ponto a ser destacado
é que a natureza dessa relação entre presente e futuro é mais de natureza
psicológica do que cronológica, o que explica a capacidade de ‘go-
53
“The go-future [...] envolved directly into a marker of prospective aspect,
bypassing the modal stage”.
79
futures’ ser usado para marcar eventos distantes” (FLEISCHMAN,
1982, p. 96)54.
Em outras palavras, a noção aspectual prospectiva de relevância
do presente independe da distância em que uma situação se encontra no
futuro em relação ao presente, pois por mais distante que esteja
temporalmente, caso o falante a veja como correlacionada ao estado de
coisas do presente, pode representá-la linguisticamente como um futuro
próximo.
Uma das distinções semânticas entre futuro sintético e futuro
perifrástico no PB, incluindo aí não apenas a perífrase com ir, mas todas
as outras também,tem sidoatribuída justamente a essa questão da visão
subjetiva do falante no uso da língua: a relevância do presente tenderia
a desencadear formas perifrásticas, ao passo que a ruptura com o
presente tenderia a desencadear usos da forma sintética
“psicologicamente neutra, distante e imparcial” (SILVA, 1997, p. 197).
Contudo, essa diferença pode ser verificada apenas no início
dos processos de gramaticalização55 (cf. 2.1), pois, conforme os itens
vão se gramaticalizando ou vão exercendo, em alguns contextos,
funções mais gramaticais, tornam-se mais arbitrários, o que faz emergir
novas formas mais transparentes ou icônicas para assegurar matizes
modais/aspectuais na expressão do futuro.
Esse processo cíclico de constituição de forma sintética > forma
analítica > forma sintética parece, segundo Fleischman (1982), ser um
padrão das línguas romance, dirigido por duas forças antagônicas: uma
que impulsiona a construções analíticas e uma outra que gera um padrão
de evolução que alterna formas analíticas e sintéticas. Essa alternância,
no entanto, não pode, segundo a autora, ser vista como uma questão
morfossintática, pois esses “ciclosestão ligados àquestão semânticadaco-
54
“The point to be underscored is the psychological rather than chronological
nature of this link to the present, which explains the ability of go -futures to
mark events located even in the remote future”.
55
Por ora, indica-se que gramaticalização é um processo de mudança linguística
que se dá através de regularização gradual, pela qual um item ou construção
frequentemente utilizado em contextos comunicativos particulares adquire
função gramatical, podendo, uma vez gramaticalizado, continuar a desenvolver
novas funções gramaticais (HOPPER; TRAUGOTT, 1993).
80
presença de modalidade, aspecto etemporalidadeem formas de futuro”
(FLEISCHMAN, 1982, p. 153)56.
Mesmo assim, a autora chama atenção para a seguinte
correlação entre as dimensões semânticas e morfossintáticas na
expressão da futuridade:
formasque expressam principalmente TEMPORALIDADEtendem a
serSINTÉTICAS
formasque expressam principalmente MODALIDADEtendem a
serANALÍTICAS
(FLEISCHMAN, 1982, p. 75; grifos da autora)57
Em uma mesma forma verbal de expressão de futuro, no
entanto, a dimensão aspectual, modal ou temporal oscila, pois quanto
mais modal ou aspectual, menos temporal ela será. E o valor mais
característico de uma forma, numa dada sincronia, é determinado em
relação às outras formas do sistema de referência futura
(FLEISCHMAN, 1982); ou seja, as formas que codificam o domínio
funcional de futuro estão todas inter-relacionadas, de maneira que se
uma forma se especializa para codificar a função modal, tornando-se,
assim, menos temporal, outra forma assume essa última função.
Corôa (2005) destaca que isso ocorre porque, embora o futuro
se associe ao que é incerto e virtual, apenas potencialmente provável e
desejável, vincula-se a um pensamento que parte de um conjunto de
mundos possíveis (m) para um mundo que é avaliado pelos falantes
como certo (mº). À medida que se aproxima de empregos puramente
temporais, a certeza, portanto, cresce na expressão do falante, atenuando
matizes modais ou aspectuais.
Mas quando isso acontece nas línguas, ou seja, quando as
formas assumem função proeminentemente temporal,
[...] os falantes podem, eventualmente, ser
motivados a buscar novas formas –
frequentemente perífrases combinando um
56
“cycles are linked to the semantic issue of the co-presence of modality,
aspect, and temporality in future forms”.
57
“forms expressing primary TEMPORALITY tend to be SYNTHETIC; forms
expressing primary MODALITY tend to be ANALYTIC”.
81
auxiliar modal e um verbo pleno – por meio das
quais restaura-se a modalidade que foi perdida no
processo de temporalização, mas que parece ser
uma parte necessária da percepção de futuro do
homem (FLEISCHMAN, 1982, p. 31).58
Por isso, Fleischman (1982, p. 154) propõe a seguinte trajetória
diacrônica de mudança, no escopo do domínio funcional de futuro:
Modalidade > Aspecto > Tempo > Modalidade
Por fim, dentre as diversas formas que codificam as
(sub)funções do domínio de futuro, do ponto da vista da distribuição
geográfica e sociolinguística, Fleischman (1982, p. 101-102),
sintetizando resultados de diversas investigações realizadas no inglês, no
francês, no espanhol, no português de Portugal e no PB, indica que:
o futuro simples desempenha um papel menor quanto à marcação
de futuro nessas línguas romance, com exceção do inglês, onde formas
contraídas com will ainda são frequentes, como em “I’ll”. Essa forma,
na língua falada, é predominantemente modal, e não temporal; exerce
essa última função, no espanhol, em contextos formais de escrita e da
língua falada culta;
o go-future (comparável a ir + infinitivo, no PB) é, de longe, a
forma de futuro mais frequente na fala espontânea, indicando futuro
próximo ou distante. Além de poder expressar funções modais,
especializa-se para expressar tempo. No PB e no português de Portugal,
tende a substituir a forma sintética, enfrentando apenas um contexto
linguístico de resistência à substituição: verbos monossilábicos.59
58
“[...] speakers may eventually be motivated to seek out new forms –
frequently periphrases combining a modal auxiliary and a full verb – through
which to restore the modality that has been lost in the process of
temporalization, but which is seem-ingly a requisite part of man’s […]
perception of the future”.
59
Gibbon (2014) registra apenas a perífrase com verbo principal ir (vou ir)
como contexto linguístico de resistência para a expansão do uso da forma
perifrástica no PB.
82
Na direção dessas indicações de Fleischman (1982), Heine
(1994, p. 277) considera que “umasituação em que umafunção
gramaticalé expressa por duas ou mais formas linguísticas tende a
mudar para uma onde essa função é expressa por apenas uma forma”60.
Essa mudança se dá por meio de dois diferentes recursos: (i)
especialização por generalização, quando uma das formas pode sofrer
generalização funcional, o que significa absorver as funções das
concorrentes – e essas, por sua vez, podem desaparecer ou podem ser
usadas apenas escassamente; (ii) especialização por especificação,
quando cada forma variante pode se especializar para funções ou
contextos (socioculturais, estilísticos e linguísticos) distintos
(TAVARES, 1999, 2003, 2013).
Como se comporta a expressão do FP no PB é o que se examina
na próxima seção.
1.2 MAPEAMENTO DE PESQUISAS BRASILEIRAS
Recentemente, Gibbon (2014) promoveu uma acurada síntese
de um considerável número de pesquisas sobre esse tema, destacando,
cronologicamente, os trabalhos de [Link] (1997), J. Santos (2000),
Gibbon (2000), Nunes (2003), Oliveira (2006), Bragança (2008),
Malvar e Poplack (2008), Fonseca (2010a), Silva (2010), Strongenski
(2010), Tesch (2011) e Gibbon (s/d). Revisitamos esses mesmos
estudos, valendo-nos da síntese de Gibbon (2014) e expandindo-a,
considerando também as pesquisas de Baleeiro (1988), Silva (1997),
Vieira (2014) e a própria investigação de Gibbon (2014), com o intuito
de diagnosticar a expressão do FP no PB, tendo em vista a correlação
entre formas e funções que se estabelece no âmbito do domínio
funcional do futuro do presente61.
60
“[…] a situation where one grammatical function is expressed by two or more
linguistic forms tends to change to one where that function is expressed by only
one form”.
61
Vale observar que o termo domínio funcional diz respeito ao campo
funcionalista e nem todas as pesquisas reportadas seguem essa orientação
teórica, embora todas tratem de variação e/ou mudança envolvendo as formas
verbais de expressão do futuro do presente. Usamos o termo para nos referir ao
fenômeno em pauta, salientando um dos tripés da ancoragem teórica da tese,
mas esclarecemos que nem todos os autores revisitados o utilizam.
83
Apresenta-se, sinteticamente, dessas pesquisas: (i) a base
teórica que as orienta, (ii) os corpora demarcados, (iii) as formas de
futuro consideradas, (iv) as variáveis de análise controladas e (v) os
resultados gerais obtidos. A breve apresentação desses elementos
objetiva subsidiar algumas problematizações acerca da configuração de
cada investigação e dos resultados a que chegaram.
Organizamos a apresentação desses estudos a partir dos tipos de
amostras examinadas pelos pesquisadores, bem como considerando os
seguintes critérios: (a) amostras compostas por gêneros62 da modalidade
escrita, cuja investigação foi realizada diacronicamente, examinando
dados ao longo dos séculos XIII ao XXI; (b) amostras compostas por
gêneros da modalidade escrita, cuja investigação ou foi sincrônica ou foi
diacrônica, mas com análises apenas dos séculos XX e XXI; (c)
amostras que examinaram especificamente entrevistas sociolinguísticas;
(d) amostras constituídas por gêneros orais de diferentes naturezas.
Embora a expressão do futuro possa ser realizada por diversas
formas linguísticas, sendo, por isso, um território profícuo para um
estudo variacionista, de um ponto de vista mais geral, grande parte das
pesquisas dedicam-se especialmente a quatro formas, com algumas
variações, utilizando as seguintes designações para cada uma delas: (i)
forma canônica ou futuro sintético/futuro simples/futuro do presente
(jantarei), (ii) forma mais inovadora ou futuro perifrástico63/ ir
(presente) + infinitivo (vou jantar), (iii) presente do indicativo/presente
futuro/presente (janto hoje) e (iv) perífrase com haverde (hei de jantar).
Para essas formas mais frequentemente consideradas nos estudos, bem
como para a forma perifrástica com ir no futuro (irei jantar), adota-se,
nesta pesquisa, a seguinte notação:
62
A noção de gênero é fundamental nesta pesquisa. Por ora, informamos que
assumimos gêneros como “tipos relativamente estáveis de enunciados”
(BAKHTIN, 2011 [1952-53], p. 262; grifos do autor); e “enunciados” como o
emprego concreto e único da língua em campos específicos de atividade
humana (BAKHTIN, 2011[1952-53], p. 261).
63
Algumas pesquisas também consideram a forma ir (futuro) + infinitivo (irei
jantar). Ora as pesquisas investigam essa forma isoladamente, como mais uma
variante da expressão de futuro, ora agrupam-na ao futuro perifrástico com ir no
presente, por considerarem que ambas são inovadoras frente à forma sintética.
Anunciaremos, explicitamente, o tipo de procedimento empregado pelos
pesquisadores a que nos referirmos.
84
Quadro 2: Notação para as variantes de futuro mais prototípicas
forma canônica ou futuro sintético/futuro simples/futuro do
presente = FS (jantarei)
futuro perifrástico com ir no presente/ ir (presente) + infinitivo =
IR/PRE (vou jantar)
futuro simples perifrástico/perifrástico com ir no futuro/ ir (futuro)
+ infinitivo = IR/FS (irei jantar)
presente do indicativo/presente futuro/presente = P (janto)
perífrase com haverde = PH (hei de jantar)
O que as investigações têm revelado, no que se refere
especificamente às pesquisas diacrônicas, é que essas formas não
coexistem com mesmo vigor numa mesma época, dado que, em geral,
apenas duas formas competem entre si. Para o estágio atual do PB, as
pesquisas têm indicado uma competição mais acirrada entre FS e
IR/PRE. Já em relação às formas P e PH, as pesquisas têm sinalizado
que elas não são acionadas em todos os contextos de referência futura,
apresentando, assim, usos mais especializados e, por isso, menos
frequentes.
A seguir especifica-se o primeiro grupo de pesquisas
consideradas.
1.2.1 Investigações diacrônicas em amostras escritas dos séculos
XIII ao XXI
Nesta subseção, comparamos os trabalhos de Oliveira (2006),
Malvar e Poplack (2008), Silva (2010), Strogenski (2010), Gibbon (s/d)
e Gibbon (2014) baseando-nos em uma tabela já organizada por essa
última pesquisadora, conforme mencionado. Incluímos nela, com o
intuito de didatizar as informações recapituladas, (i) os tipos de amostras
utilizadas em cada pesquisa diacrônica e (ii) a orientação teórica a que
cada estudioso se filiou.
Essas pesquisas têm em comum o fato de investigarem os usos
das formas FS, PH, IR/PRE e P em diferentes séculos e de focalizarem a
modalidade escrita da língua, uma vez que não seria possível resgatar a
fala espontânea, lugar em que a maioria das mudanças linguísticas se
origina (WEINREICH; LABOV; HERZOG, 2006 [1968]; LABOV,
85
2008 [1972], 1982, 1994), de séculos anteriores ao advento de
gravadores. A Tabela 1 apresenta os resultados gerais dessas pesquisas.
86
Tabela 1 - Distribuição das formas de futuro ao longo dos séculos, segundo as pesquisas consultadas
(continua)
Séculos
XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX XXI
Total
N/% N/% N/% N/% N/% N/% N/% N/% N/%
Oliveira (2006)
Orientação teórica: perspectiva variacionista e funcionalista norte-americana.
Amostra 164 (do século XIII ao XIX): documentos de prosa medieval, cartas e documentos oficiais; (do século XX):
editoriais de jornais (1970 e 1990).
FS
18/55 433/92 65/81 681/87 358/74 105/83 91/86 122/75 – 1.873/84
(jantarei)
PH
15/45 31/7 12/15 90/12 108/22 13/10 6/6 3/2 – 278/12
(hei de jantar)
IR/PRE
0/0 6/1 1/1 3/0 4/1 5/4 8/8 26/16 – 53/2
(vou jantar)
P
0/0 1/0 2/3 5/1 11/2 3/2 1/1 11/7 – 34/2
(janto)
Total 33 471 80 779 481 126 106 162 – 2.238
64
Indicamos “amostra 1” para o caso em que a pesquisa analisou mais de uma amostra; na Tabela 1, consideramos apenas uma
delas.
87
Tabela 1 - Distribuição das formas de futuro ao longo dos séculos, segundo as pesquisas consultadas
(continua)
Séculos
XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX XXI
Total
N/% N/% N/% N/% N/% N/% N/% N/% N/%
Malvar e Poplack (2008)
Orientação teórica: perspectiva variacionista.
Amostra 1 (do século XVI ao XX): comédias, farsas e sátiras.
FS
– – – 198/66 – 169/57 276/53 46/9 – 689/42
(jantarei)
PH
– – – 91/30 – 103/35 104/20 5/1 – 303/19
(hei de jantar)
IR/PRE
– – – 3/1 – 5/2 72/14 384/73 – 464/28
(vou jantar)
P
– – – 10/3 – 19/6 66/13 93/18 – 188/11
(janto)
Total – – – 302 – 296 518 528 – 1.644
88
Tabela 1 - Distribuição das formas de futuro ao longo dos séculos, segundo as pesquisas consultadas
(continua)
Séculos
XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX XXI
Total
N/% N/% N/% N/% N/% N/% N/% N/% N/%
Silva (2010)
Orientação teórica: perspectiva variacionista e funcionalista norte-americana.
Amostra 1 (análise em tempo real65): 46 romances brasileiros escritos entre o século XVIII e o XX.
FS
– – – – – 39/93 616/70 453/28 – 1.108/44
(jantarei)
PH
– – – – – 3/7 105/12 55/3 – 163/6
(hei de jantar)
IR/PRE
– – – – – 0/0 83/9 871/54 – 950/38
(vou jantar)
P
– – – – – 0/0 70/8 239/15 – 309/12
(janto)
Total – – – – – 42 874 1.618 – 2.530
65
Cf. em Labov (1994) especificações quanto aos dois tipos de pesquisa laboviana pelos quais se pode captar mudança em
andamento: (i) pesquisa em tempo aparentee (ii) pesquisa em tempo real.
89
Tabela 1- Distribuição das formas de futuro ao longo dos séculos, segundo as pesquisas consultadas
(continua)
Séculos
XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX XXI
Total
N/% N/% N/% N/% N/% N/% N/% N/% N/%
Strogenski (2010)
Orientação teórica: perspectiva variacionista e funcionalista norte-americana.
Amostra: romances66 brasileiros distribuídos em três períodos: (1) 1850-1900; (2) 1901-1950; (3) 1951-2006).
FS
– – – – – – 572/55 679/45 4/6 1255/48
(jantarei)
PH
– – – – – – 181/18 65/4 1/1 247/9
(hei de jantar)
IR/PRE
– – – – – – 131/13 617/41 63/89 811/31
(vou jantar)
P
– – – – – – 147/14 153/10 3/4 303/12
(janto)
Total – – – – – – 1.031 1.514 71 2.616
66
Conforme detalhado textualmente, a seguir, há na amostra dessa pesquisadora mais dois gêneros literários, além de romances
brasileiros.
90
Tabela 1 - Distribuição das formas de futuro ao longo dos séculos, segundo as pesquisas consultadas
(continua)
Séculos
XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX XXI
Total
N/% N/% N/% N/% N/% N/% N/% N/% N/%
Gibbon (s/d)
Orientação teórica: perspectiva variacionista.
Amostra: peças teatrais, do século XV ao XXI.
FS
– – 8/53 248/73 196/65 140/46 146/56 88/48 13/15 839/56
(jantarei)
PH
– – 2/13 66/20 91/30 94/31 47/18 27/15 3/3 330/22
(hei de jantar)
IR/PRE
– – 1/7 11/3 2/1 28/9 37/14 39/21 53/61 171/11
(vou jantar)
P
– – 4/27 13/4 12/4 44/14 33/13 29/16 18/21 153/10
(janto)
Total – – 15 338 301 306 263 183 87 1.493
91
Tabela 1- Distribuição das formas de futuro ao longo dos séculos, segundo as pesquisas consultadas
(conclusão).
Séculos
XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX XXI
Total
N/% N/% N/% N/% N/% N/% N/% N/% N/%
Gibbon (2014)
Orientação teórica: perspectiva funcionalista.
Amostra: 17 peças teatrais de escritores gaúchos, de 1849 a 2012 (uma peça por década).
FS
– – – – – – 139/52 106/42 5/15 250/43
(jantarei)
PH
– – – – – – 61/23 9/4 1/3 71/12
(hei de jantar)
IR/PRE
– – – – – – 45/17 113/45 22/65 21267/36
(vou jantar)
P
– – – – – – 23/9 23/9 6/18 52/9
(janto)
Total – – – – – – 268 251 34 585
Fonte: Elaborada a partir de Gibbon (2014, p. 203) e de consulta a todas as pesquisas citadas.
67
Gibbon (2014) controla diversos tipos de construções perifrásticas com ir, separadamente. Na Tabela 1, reunimos sob a variante
IR, o que a autora considerou perífrase com ir no presente (vou fazer), perífrase com ir no presente com material interveniente
(vou lá fazer) e perífrase com ir no presente em expressões (vou começar a fazer), a fim de comparar seus resultados com as
demais pesquisas, uma vez que nenhuma delas promove tantas especificações. Assim, a comparação deve ser relativizada. Cf.
tabela apresentada por Gibbon (2014, p. 143).
92
Sinteticamente, as pesquisas podem ser assim apresentadas:
1. O estudo de Oliveira (2006) é um dos mais complexos, no que se
refere à constituição dos corpora examinados, e investiga duas
amostras: uma sincrônica, a que faremos referência posteriormente68, e a
diacrônica referida na Tabela 1. Na amostra diacrônica, a pesquisadora
examinou diferentes gêneros do século XIII ao XX, localizando 2.238
dados, nos seguintes documentos: (1) no século XIII, Testamento de
Afonso II e Foro Real de Afonso X; (2) no século XIV, o documento
Flos Sanctorum69; (3) no século XV, Vida de Tarsis, Vida de uma
Monja, Morte de S. Jerônimo, Vida de Santa Pelágia e Carta de
Caminha; (4) no século XVI, Cartas de D. João III; (5) no século XVII,
Cartas do Pe. Antônio Vieira; (6) no século XVIII, foram analisados
documentos da administração pública, como Cartas oficiais, e
documentos da administração privada, como Cartas de Comércio –
Brasil e Cartas comuns; (7) no século XIX, Cartas Oficiais, Cartas
Pessoais e Cartas de Editores; e (8) no século XX, editoriais de jornais
de Salvador e do Rio de Janeiro das décadas de 1970 e de 1990. Para o
exame dessa amostra, Oliveira (2006) investigou apenas a frequência de
ocorrência das formas de FP consideradas, não controlando, portanto,
grupos de fatores que poderiam condicionar a escolha das variantes nos
contextos em que elas ocorreram; e amalgamou as perífrases com
IR/PRE (vou fazer) e IR/FS (irei fazer), por conta da baixa frequência de
ocorrência dessa última. Oliveira (2006) concluiu que o embrião da
construção ir + infinitivo localiza-se no século XIV, em contextos em
que (i) o sujeito apresenta traço [+ humano], com elemento interveniente
na perífrase, e em que (ii) valores de movimento e de intenção são muito
nítidos – ao lado da ideia de futuridade. Apesar disso, entre os séculos
XIII e XVIII a concorrência no contexto de futuridade ocorre
predominantemente entre FS e PH, sendo a primeira forma a mais
usada; no século XVIII a construção perifrástica começa a expandir seus
68
Essa observação vale para todas as pesquisas apresentadas nesta subseção, ou
seja, apresentam-se aqui apenas amostras diacrônicas.
69
“O Flos Sanctorum é um documento do século XIV, de caráter hagiográfico,
cujo cerne narrativo discorre sobre a vida e feitos de diversos santos e mártires
dos primeiros séculos de difusão do cristianismo na Alta Idade Média,
sobretudo sobre os anacoretas, e servia como suporte ao trabalho de doutrinação
religiosa implementado pela Igreja.” Disponível em:
<[Link] Acesso em: 19
maio 2015.
93
contextos de uso e a concorrer com as demais, ao passo que o uso de PH
decresce nesse mesmo período. No século XX, segundo Oliveira (2006),
já é possível perceber uma reorganização distribucional das variantes,
com (a) acentuado uso da perífrase com IR/PRE, (b) decréscimo de FS e
(c) quase desaparecimento de PH. A forma P foi pouco expressiva em
todos os séculos investigados e, segundo a autora, foi acionada em
contextos muito específicos: quando há indicação mais ou menos
precisa de futuro e em expressões cristalizadas (OLIVEIRA, 2006, p.
103). A despeito da competição entre essas variantes, observa-se na
Tabela 1 que a forma canônica, FS, mantém elevada frequência de
ocorrência em todos os séculos que integram essa amostra: Em geral, a
pesquisadora concluiu que, ao longo da história da língua portuguesa, (i)
a expressão do futuro sempre foi variável; (ii) há gramáticas distintas
para a fala e para a escrita, quanto a esse fenômeno, embora esteja
ocorrendo uma mudança em progresso em ambas (mudança mais lenta
na escrita e quase concluída na fala); e (iii) P é uma variante à margem
da concorrência entre as formas anteriores (FS e IR/PRE).
2. A segunda pesquisa diacrônica sobre esse fenômeno que merece
nossa atenção é a de Malvar e Poplack (2008), de orientação
variacionista; as autoras dividiram seus dados em “diacrônico e
sincrônico; escrito e falado [com o] “objetivo de traçar variação e
mudança no decorrer dos séculos” (MALVAR; POPLACK, 2008, p.
186). Em relação ao corpus diacrônico, as pesquisadoras reuniram
comédias, farças e sátiras, textos representativos, segundo elas, do
português falado nos quatro séculos considerados, uma vez que eram
escritos para serem encenados em lugares públicos e populares, sendo,
portanto, representativos da linguagem coloquial. Assim como o
trabalho de Oliveira (2006), essas pesquisadoras também concluíram,
em relação à frequência de ocorrência de cada forma, que até o século
XVIII a concorrência entre as variantes de futuro se deu entre FS e PH,
sendo a primeira a forma default de futuro desse período. No século
XIX, IR/PRE estava no sistema de referência futura e, no século XX, já
era a variante mais frequente nos corpora investigados. A forma P
apresentou um uso crescente ao longo dos séculos, embora
desempenhando um papel menor na expressão de FP, uma vez que não
se espraiou por todos os contextos linguísticos, ao longo dos séculos,
como ocorreu com a forma IR/PRE. Em relação à análise multivariada,
as autoras testaram 13 grupos de fatores: (a) pessoa gramatical e número
(1ª, 2ª, 3ª); (b) animacidade (animado/inanimado); (c) tipo de sentença
(declarativa, interrogativa, negativa); (d) distância temporal entre o
momento da fala e a predicação (distante, próximo); (e) contingência do
94
evento futuro (contingente, assumido); (f) tipo de verbo (movimento vs.
outros); (g) número de sílabas (monossílabo vs. mais sílabas); (h) tipo
de oração (principal, subordinada, relativa); (i) pronomes clíticos
(presença vs. ausência); (j) presença e tipo de especificação adverbial
(específico, não-específico, sem advérbios); (k) medium (peças vs. fala);
(m) século; (n) nível de escolaridade.70 Com essa análise, as autoras
concluíram, de maneira geral, que IR/PRE entrou no sistema da língua
via contextos que expressavam futuro próximo, contexto anteriormente
ocupado por P, o que pressionou as formas FS e PH para os contextos
que expressavam futuro distante. Além disso, com o decorrer dos
séculos a forma default de futuro passou a ser IR/PRE, já que ela, no
século XX, assumiu todos os contextos antes ocupados pelas outras
formas, restando apenas duas restrições em que, nesses casos, P
“colonizou” o setor de referência futura: contexto contingente e contexto
com especificação adverbial71. Concluíram, assim, que houve uma lenta
mudança entre as variantes de referência futura, ao longo dos séculos,
embora as distinções funcionais e semânticas continuem a ser expressas,
ainda que por diferentes variantes.
3. Silva (2010) constituiu dois corpora de análise para a investigação
diacrônica realizada. Numa primeira amostra, para a análise em tempo
real, a pesquisadora selecionou 46 romances brasileiros compreendidos
entre os séculos XVIII e a última década do século XX72. Na segunda
amostra, para a análise em tempo real de curta duração, Silva (2010)
analisou revistas Pato Donald, considerando desde a edição número 1
(1950) até a de número 2.032 (2004), selecionando edições de dez em
dez anos73. Inicialmente, a pesquisadora considerou as variantes FS, P e
70
Lembramos que as autoras também analisaram dados de fala, por isso os
grupos de fatores medium e nível de escolaridade.
71
Soma-se a esses contextos favorecedores de P, a construção ir (presente) + ir
(vou ir) que, segundo as autoras, sofre estigmatização.
72
Integram essa amostra obras como O Guarani (1857) e Senhora (1875), de
José de Alencar; Ressurreição (1872) e Memorial de Aires (1908), de Machado
de Assis; Uma lágrima de mulher (1880) e O livro de uma sogra, de Aluísio de
Azevedo; Memórias Sentimentais de João Miramar (1924) eA Revolução
Melancólica (1943), de Oswald de Andrade; A vingança do cobra (1997) e O
espelho dos nomes (2002), de Marcos Bagno.
73
Na síntese que realizamos na Tabela 1, apenas os resultados da análise da
primeira amostra estão descritos, uma vez que seguimos os mesmos critérios da
síntese promovida por Gibbon (2014).
95
PH, reunindo sob o rótulo perífrases as seguintes construções: ir
(presente/futuro) + infinitivo (vou/irei chegar); ir + inf + inf (vou poder
ler); futuro do presente + infinitivo, exceto ir + infinitivo (poderemos
topar); presente do indicativo + infinitivo (podemos chegar). Os dados
apresentados na Tabela 1 referem-se apenas à frequência da construção
ir (presente/futuro) + infinitivo74. Os oito grupos de fatores linguísticos
considerados por Silva (2010) foram: (a) contexto desencadeador
(advérbios de dúvida, de intensidade, de lugar, de modo, de afirmação,
de negação, tempo e interrogativos); (b) pessoas gramaticais (1ª – eu,
nós, a gente – e 2ª – tu, você e vocês); (c) TAM (perífrases com verbos
aspectuais e modais, como: começar a, passar a, continuar a, vir a, parar
de, ficar a, permanecer, acabar de, etc.); (d) projeção do fato futuro75
(futuro próximo; futuro distante); (e) tipos de frases (afirmativas,
negativas, interrogativas); (f) extensão fonológica do verbo principal
(verbos com uma, duas, três ou mais de três sílabas); (g) tipos de
perífrases (ir (presente/futuro) + infinitivo (vou/irei fazer); perífrases ir
+ infinitivo + infinitivo (vou poder ler); futuro do presente + infinitivo,
exceto verbo ir + infinitivo (poderemos topar); presente do indicativo +
infinitivo, exceto verbo ir + infinitivo (podemos chegar); a perífrase
haver (presente) + de + infinitivo (hei de); (h) preenchimento da pessoa
pronominal (preenchimento/não preenchimento da pessoa pronominal).
Além desses grupos de fatores linguísticos, a autora também considerou
quatro grupos de fatores extralinguísticos: (a) sexo dos personagens
(masculino, feminino); (b) faixa etária dos personagens (crianças,
adultos); (c) ambiente de ocorrência do tempo futuro (doméstico ou
profissional; com familiares mais velhos, com familiares mais novos,
com pessoas estranhas, de subalterno para superior, de superior para
subalterno, entre iguais, consigo mesmo, no texto do narrador); (d) ano
de publicação da obra76. A hipótese que orientou a pesquisa de Silva
(2010) era a de que a representação de futuro nos textos literários seria
feita, nos textos mais antigos, pelo FS e, com o decorrer dos séculos,
preferencialmente pela perífrase ir + infinitivo, independentemente de a
referência futura ser próxima ou distante. Essa hipótese foi parcialmente
74
A pesquisadora, portanto, amalgamou as formas IR/PRE e IR/FS.
75
A autora considerou futuro próximo, hoje e amanhã; futuro distante, a partir
de depois de amanhã ou quando não há especificação exata.
76
Cf. em Silva (2010), os fatores mais significativos para o condicionamento de
uso de cada uma das formas investigadas.
96
confirmada77. A autora, então, concluiu que a variação examinada
aponta para um caso de mudança em curso.
4. A pesquisa de Strogenski (2010) também analisou esse fenômeno,
juntamente com a expressão do futuro do pretérito, em obras literárias,
partindo dos pressupostos de que a forma IR/PRE estaria substituindo a
forma FS e de “ser a escrita uma representação na qual há uma maior
formalidade quanto ao uso da língua, por ser uma linguagem mais
elaborada”. (STROGENSKI, 2010, p. 2; grifos nossos). O corpus da
pesquisa constituiu-se de (a) 13 romances78 de autores diversos, (b) do
livro de contos Cidades Mortas, de Monteiro Lobato, e (c) de uma
coletânea de textos do autor Paulo Coelho, Manual do Guerreiro da
Luz, publicada no jornal A Folha de São Paulo, no ano de 1997. Essas
publicações compreendem três períodos históricos (de 1850 a 1900, de
1901 a 1950 e de 1951 a 2006) e o objetivo da pesquisa foi promover
um levantamento diagnóstico dos usos79 desses dois tipos de futuro (do
presente e do pretérito) ao longo desses períodos. A pesquisadora
analisou os dados frente aos períodos históricos e apenas dois grupos de
fatores linguísticos: (a) contexto oracional (orações absolutas,
principais, interrogativas, subordinadas, coordenadas, temporais
condicionais) e (b) número de sílabas dos verbos principais. Os
resultados indicaram que a frequência de uso de FS decresce
radicalmente ao longo dos três períodos analisados; PH praticamente
desaparece; P apresenta baixa frequência, em geral, e também decresce
no período, ocorrendo especialmente em orações coordenadas, ao passo
que o uso de IR/PRE80 aumenta consideravelmente, sendo favorecido
77
Segundo Silva (2010), estaticamente, “[a] perífrase ir + infinitivo apresenta
tendência a ocorrer em contextos de futuridade próxima, mas também se
apresenta em contextos cuja ação futura se encontra em uma projeção bastante
distante” (SILVA, 2010, p. 156).
78
A lista completa dos romances analisados pode ser conferida em Strogenski
(2010, p. 52).
79
A autora fez análise estatística apenas das formas FS, P, PH e da construção ir
+ infinitivo. Analisou separadamente: perífrases com gerúndio (vou retirando,
termina sarando), construções com preposições + infinitivo (para acabar de) e
construções com dois infinitivos (ir ver).
80
Não localizamos informações no trabalho quanto ao tratamento da forma
IR/FS: a pesquisadora se refere à “construção ir + infinitivo” e não localizamos
a apresentação de dados com IR/FS. Como a hipótese da pesquisa girou em
torno da construção IR/PRE, inferimos que a forma IR/FS não foi considerada.
97
pelos contextos de orações absolutas e condicionais.81 Embora presente
em todos os períodos analisados, IR/PRE substitui a forma PH no
segundo período, concorrendo mais diretamente com FS e P no terceiro
período. Para a autora, IR/PRE está substituindo FS na expressão de
futuro no PB, embora P também seja uma forma muito expressiva na
representação de futuro.
5. A pesquisa de Gibbon (s/d), que examinou peças teatrais do século
XV ao XXI, com o objetivo de mapear a frequência das formas que
concorrem para a codificação de futuro no domínio funcional do futuro,
tinha como hipótese que FS seria suplantado pela perífrase ir +
infinitivo nos últimos séculos da investigação. Os resultados da pesquisa
confirmam (a) o decréscimo no uso de FS, (b) o quase desaparecimento
de PH, (c) um aumento moderado no uso de P e (d) um aumento
significativo no uso da construção com ir, ao longo dos séculos
analisados. Para a autora, o verbo ir da perífrase inovadora já entra na
modalidade escrita da língua funcionando como auxiliar, o que significa
dizer que o traço de movimento, significado mais concreto do item, já
estava atenuado na construção perifrástica.
6. Por fim, a pesquisa de Gibbon (2014) investiga, em uma amostra
composta por 17 peças de teatro82 de escritores do Rio Grande do Sul,
selecionadas desde o ano de 1849 até 2012, compreendendo uma peça
por década83, a hipótese de que a construção mencionada encontra-se em
processo de expansão contextual, gramaticalizando-se ainda mais,
considerando o uso, sem estigma no Rio Grande do Sul, da construção
vou ir. Nesse estudo, interessou à pesquisadora mapear todas as formas
que na amostra constituída expressassem futuridade84. Os resultados
81
Para o grupo de fatores número de sílabas do verbo principal, a autora não
pôde chegar a uma conclusão, uma vez que tanto a forma FS quanto a
construção perifrástica com ir ocorreram com verbos mais extensos e com
verbos menos extensos, homogeneamente (STROGENSKI, 2010, p. 126).
82
A especificação das 17 peças de teatro analisadas nesse estudo pode ser
conferida em Gibbon (2014, p. 113).
83
A pesquisadora adotou os seguintes critérios para a seleção da amostra: (i)
textos escritos por gaúchos e (ii) textos que supostamente refletissem, tanto
quanto possível, os padrões da língua falada (GIBBON, 2014, p. 113; grifos
nossos)
84
A autora registrou a ocorrência das seguintes construções perifrásticas na
amostra constituída: (a) perífrase IR (presente) (vou sair), (b) perífrase IR
(presente) material interveniente (vou lá comprar), (c) perífrase IR (presente)
98
indicaram a mesma tendência de uso dessas formas já verificada nas
pesquisas anteriores. Interessante notar os grupos de fatores eleitos pela
pesquisadora para análise dos contextos de uso da construção
perifrástica, pois eles foram elaborados, principalmente, a partir das
funções semântico-pragmáticas tempo, aspecto e modalidade
(TAM).85A pesquisadora concluiu que a construção perifrástica continua
se expandindo, apresentando-se, portanto, com diferentes graus de
gramaticalidade; além disso, Gibbon (2014) destaca que essa construção
pode assumir, ora mais ora menos, o traço de futuridade, pois há
contextos em que ganha relevo a noção aspectual, sobretudo o aspecto
habitual, como em sempre vou ver, há outros em que se destaca a
modalidade, considerando o modo imperativo/comando, como em vão
brincar, e há casos ainda em que a construção se organiza em torno de
um valor discursivo, como em vamos supor/vamos dizer (GIBBON,
2014, p. 267-268).
***
Problematizando esses estudos, pode-se inferir que as pesquisas
acima mencionadas focalizaram tanto o fenômeno da variação na
expressão do FP, quanto o processo de gramaticalização da construção
perifrástica com ir, resgatando, assim, a regularização dessa forma, que
goza de alta produtividade no estágio atual do PB.
Nesse sentido, diferentes perspectivas teóricas orientaram as
pesquisas revisitadas, tendo em vista dois diferentes focos
investigativos: (a) ou a perspectiva variacionista – Malvar e Poplack
(2008); Gibbon (s/d) –; ou (b) a perspectiva funcionalista norte-
americana dos estudos linguísticos – Gibbon (2014) –; ou ainda (c) esses
dois campos, de forma complementar, quando se observa tanto o
em expressões (vou começar a trabalhar), (d) verbo IR no presente doindicativo
(vou na padaria), (e) perífrase IR (gerúndio) (vou saindo), (f) futuro do presente
(sairei), (g) haver de + infinitivo (hei de sair), (h) locução modal/aspectual
(poderei fazer/começo a fazer), (i) presente do indicativo (faço amanhã). Para
efeitos de comparabilidade com as pesquisas anteriores mencionadas, reitera-se
que apresentamos, na Tabela 1, para os dados de IR/PRE, a soma das
frequências de uso apenas dos três primeiros tipos de perífrases (a, b, c), já que
as demais pesquisas não especificam todas essas formas.
85
Cf. grupos de fatores, bem como quais foram relevantes estatisticamente em
Gibbon (2014).
99
processo de gramaticalização das formas que assumem a função de
expressar futuro do presente, quanto à variação ocasionada por esse
processo (OLIVEIRA, 2006; SILVA, 2010; STROGENSKI, 2010).
Além de diferentes campos teóricos, o ponto de partida para a
investigação não é sempre o mesmo, visto que algumas pesquisas
partem da forma (SILVA, 2010; STROGENSKI, 2010; BRAGANÇA,
2008; TESCH, 2011; GIBBON, 2014) e outra da função, como Malvar e
Poplack (2008) que consideraram explicitamente:
Neste estudo investigamos a variação tendo como
ponto de partida o contexto de referência temporal
futura, ao invés das formas variantes. Assim, o
locus da variação, ou contexto variável, é toda e
qualquer referência não ambígua a um estado,
evento ou ação posterior ao momento da fala.
(2008, p. 189; grifo das autoras).
Vale destacar, nesse ponto, que nem sempre o que as pesquisas
intitulam futuro perifrástico refere-se à mesma forma: Oliveira (2006) e
Silva (2010)amalgamaram as perífrases IR/PRE e IR/FS, ao passo que
Gibbon (2014) controla as duas formas separadamente; em Malvar e
Poplack (2008) e Strogenski (2010) não se encontra referência à forma
IR/FS.
Além disso, sob a forma ir + infinitivo costumam ser
classificadas diversas construções que aparecem especificadas em
Gibbon (2014) como: perífrases com material interveniente (vai o
amiguinho dizer); perífrases com gerúndio (vai ficar repetindo) e com
verbos modais (vai poder encontrar) (STROGENSKI, 2010); e
construções do tipo ir + infinitivo + infinitivo (vou poder ler) (SILVA,
2010).86
Como as pesquisas geralmente assumem a hipótese “de
alternância cíclica entre construções sintéticas e construções analíticas”
(MERCER, 2011, p. 390), acredita-se que reunir diferentes formas
perifrásticas sob um mesmo rótulo não causa prejuízo a cada pesquisa,
em particular, tendo em vista que o interesse investigativo está no
contraste entre esses dois tipos de construção.
86
Silva (2010) tem o cuidado de avisar ao leitor sobre esses amalgamentos,
principalmente porque na apresentação de seus resultados chega a um ponto em
que separa as demais construções da construção ir + infinitivo.
100
O problema, no entanto, emerge quando se intenta comparar os
resultados de diferentes pesquisas, pois, nesse caso, como cada uma
classifica os dados de diferentes maneiras, nem sempre explicitando
essas decisões87, perde-se a possibilidade de generalizações quanto ao
fenômeno e
[c]omo um dos objetivos da Sociolinguística
variacionista é obter resultados que possam ser
generalizados, sua metodologia deve ser pautada
em confiabilidade (os mesmos resultados devem
ser repetidos na análise do mesmo fenômeno) e
intersubjetividade (dois pesquisadores diferentes
devem obter os mesmos resultados seguindo a
mesma metodologia) (FREITAG; MARTINS;
TAVARES, 2012, p. 918; grifos nossos).
Nesse sentido, a comparação que aqui realizamos entre os
resultados dessas pesquisas reportadas, na esteira da comparação já
efetuada por Gibbon (2014), deve ser relativizada, especialmente no que
tange aos usos do que consideramos IR/PRE, na Tabela 1, tendo em
vista que não há homogeneidade quanto ao que os pesquisadores
classificam como construção perifrástica com ir. Essa observação vale
para todas as demais seções em que os estudos são apresentados
comparativamente.
Além disso, destacam-se os diferentes tipos de amostras
constituídas em cada investigação. Na pesquisa de Oliveira (2006), por
87
Para a investigação do que os trabalhos consideraram forma perifrástica,
tivemos que recorrer, em muitas pesquisas revisitadas ao longo desta seção, aos
dados apresentados, uma vez que grande parte delas não explicita se, com esse
rótulo, está considerando exclusivamente IR/PRE (vou trabalhar) ou também
construções diversas, como: vou lá trabalhar, vou poder ir lá trabalhar, vou
começar a trabalhar, irei trabalhar, vou trabalhando, poderei trabalhar,
começo a trabalhar, etc. Além de observar os dados apresentados, também
verificamos, para o levantamento dessa informação, os grupos de fatores. As
pesquisas que constituíram grupos de fatores para o controle de perífrases
diversas, como o grupo TAM, da pesquisa de Silva (2010), procederam de duas
maneiras: ou trataram essas outras construções separadamente, em relação às
variantes observadas, ou as classificaram como uma das variantes e apenas
verificaram a influência, para o condicionamento de uso, do grupo de fatores
constituído.
101
exemplo, considerando apenas alguns gêneros examinados, podemos
citar testamento, cartas oficiais, cartas pessoais, editoriais,além de
narrativas e descrições religiosas. Nas pesquisas de Malvar e Poplack
(2008), Gibbon (s/d) e Gibbon (2014) foram analisadas peças teatrais.
Silva (2010) analisou romances brasileiros e Strogenski (2010), além de
também analisar romances dessa mesma nacionalidade, incluiu na
amostra um conto e uma coletânea de textos publicados em um jornal de
grande circulação nacional.
Com efeito, Lobato (2009), em dissertação intitulada Gênero
textual na metodologia de pesquisa em Gramaticalização, defende que,
para a organização de um corpus de pesquisa que investigue a realidade
linguística de determinado fenômeno variável, é preciso considerar (i)
diferentes gêneros e (ii) e gêneros que sejam de diferentes natureza.
Com isso, pode-se inferir que há na literatura dos estudos variacionistas
recomendação de que fenômenos variáveis sejam investigados por meio
dessa instância. Resta saber por que, exatamente e quais as implicações
disso: são implicações de natureza metodológica, exclusivamente, ou
são também de natureza teórica? O que está em questão ao se convocar
os gêneros para os estudos de fenômenos em processo de
variação/mudança linguística?
Além disso, destaque-se que, mesmo que as pesquisas
considerem diferentes gêneros, eles são reunidos – pelos autores e
também por nós, aqui nesta comparação, a fim de dar visibilidade à
questão – sob um mesmo rótulo: amostra escrita. Assim, Oliveira
(2006) analisa editoriais de jornal e testamento sem promover uma
discussão sobre a natureza desses gêneros. Da mesma maneira,
Strogenski (2010) analisa romances e uma coletânea de textos
publicados em jornal sem fazer distinção entre as especificidades de
cada de gênero e do lugar em que são publicados.
Nossa observação, neste ponto do trabalho, é que, na
investigação de fenômenos variáveis, a comparação entre diferentes
gêneros precisa vir acompanhada de uma explanação sobre a própria
natureza deles, pois diferentes gêneros podem promover diferentes usos
das formas de FP, por exemplo, já que a mobilização de formas
linguísticas decorre de um planejamento comunicativo, que depende de
diferentes relações entre os sujeitos (falante/escritor, ouvinte/leitor)
envolvidos em uma dada interação.
Notemos, por exemplo, que, dentre as pesquisas mencionadas, a
de Oliveira (2006) opera com uma amostra cujos gêneros são mais
padronizados e, talvez, por isso, dentre outros fatores, a forma sintética,
forma canônica e mais prototípica de gêneros normativizados, tenha
102
apresentado alta frequência do século XIII (55%) ao XX (75%). Por isso
a autora chega a “levantar a hipótese de que a escrita selecionaria o
futuro simples ao passo que a fala selecionaria o futuro perifrástico com
ir + infinitivo” (OLIVEIRA, 2006, p. 103).
Adverte-se, porém, que, nesse tipo de afirmação, parece estar
implícita uma compreensão de que fala e escrita são polarizadas. De
igual forma, quando Strogenski (2010) afirma que a “representação
escrita é uma expressão muito mais conservadora da língua”,
compreende a modalidade escrita como uma instância homogênea. Os
dois posicionamentos teóricos tendem a deixar escapar que fala e escrita
constituem um quase-infinito de práticas sociais, indo desde uma
realização mais informal até a mais formal, tendo, cada eixo,
especificidades comunicativas relevantes.
Em relação à pesquisa de Malvar e Poplack (2008), por
exemplo, a dicotomia peças vs. fala, como representante da dicotomia
escrita vs. fala, parece não se sustentar, tendo em vista que as peças
foram selecionadas justamente com a hipótese de que representam, em
alguma medida, a fala, como podemos observar pelas próprias palavras
das autoras:
[p]ara acessar o português falado de séculos
anteriores, compilamos um segundo corpus
diacrônico formado por comédias, farças e sátiras
[...]. [...] assumimos que os diálogos foram
escritos assemelhando-se de alguma forma à
linguagem coloquial da época [...] (MALVAR;
POPLACK, 2008, p. 187).
Nesse sentido, então, os gêneros escritos considerados por
Oliveira (2006) não são de mesma natureza que os considerados por
Malvar e Poplack (2008), uma vez que esses últimos aproximam-se
muito mais da fala espontânea. Embora os resultados gerais da pesquisa
de Malvar e Poplack (2008) tenham seguido a mesma direção da
pesquisa de Oliveira (2006), não é de se estranhar que a frequência de
uso de FS nas peças teatrais, do século XX, seja de apenas 9%, enquanto
a frequência de IR/PRE seja de 73%. Conforme Oliveira (2006) já tinha
atestado, no século XX, já havia uma reorganização distribucional das
variantes para expressar o FP, fazendo com que as formas em
competição, de fato, passassem a ser FS e IR/PRE: se a mudança
começa, geralmente, nos contextos de fala espontânea e essas peças
teatrais buscam representar esse tipo de uso da língua, o que Malvar e
103
Poplack (2008) encontram, considerando os dados do século XX, são
representações aproximadas de contextos de fala espontânea, ainda que
os textos estejam escritos. Prova disso é que as autoras encontram “um
paralelo marcante entre a frequência de uso das variantes nas peças e na
fala” (MALVAR; POPLACK, 2008, p. 199; grifos das autoras).88
Podemos, então, questionar até que ponto é possível comparar
os resultados da análise de Oliveira (2006), que focalizou, em geral,
textos escritos institucionais/oficiais, por isso, mais padronizados, com
os resultados da análise de Malvar e Poplack (2008), que tinham por
objetivo analisar textos representativos da fala espontânea. O fato de
termos retomado essa comparação proposta por Gibbon (2014) cumpre
justamente o objetivo de problematizar esse procedimento e de chamar
atenção para a relevância das decisões metodológicas na investigação de
fenômenos variáveis.
De acordo com a ótica sob a qual estamos realizando a leitura
dos trabalhos, reiteramos que os resultados dessas pesquisas, por conta
da natureza das amostras, não são adequadamente comparáveis, de
modo que mais adequado seria comparar os resultados das pesquisas de
Malvar e Poplack (2008) e os de Gibbon (2014) com pesquisas que
examinam textos também informais, quer da modalidade escrita quer da
modalidade oral.
Para finalizar, comparemos os grupos de fatores constituídos
para investigar os contextos de uso das formas de FP, nos trabalhos de
Malvar e Poplack (2008) e de Silva (2010):89
Malvar e Poplack (2008): (a) pessoa gramatical e número; (b)
animacidade; (c) tipo de sentença; (d) distância temporal entre o
momento da fala e a predicação; (e) contingência do evento futuro;
(f) tipo de verbo; (g) número de sílabas, (h) tipo de oração, (i)
pronomes clíticos; (j) presença e tipo de especificação adverbial;
(l) medium.
88
Os resultados dessa pesquisa em relação à amostra que contempla um tipo de
texto oral serão apresentados na seção 1.2.3
89
Lembramos que as pesquisas de Oliveira (2006), Strogenski (2010) e de
Gibbon (s/d) analisaram apenas a frequência de ocorrência das formas de FP ao
longo dos séculos e que o estudo de Gibbon (2014) investigou apenas os
contextos de uso de construções com ir, por isso esses trabalhos não são
mencionados quanto a esse tópico.
104
Silva (2010): (a) contexto desencadeador; (b) pessoas gramaticais;
(c) TAM; (d) projeção do fato futuro; (e) tipos de frases; (f)
extensão fonológica do verbo principal; (g) tipos de perífrases; (h)
preenchimento/não preenchimento da pessoa pronominal; (i) tipo
de frase; (j) sexo (dos personagens); (l) faixa etária (dos
personagens); (m) ambiente de ocorrência do tempo futuro
(doméstico ou profissional); (n) ano de publicação da obra.
De um ponto de vista mais geral, observamos que, quando os
autores se referem a “contextos de uso” das variantes do fenômeno,
estão se referindo a contextos que recobrem os níveis morfossintático e
semântico, prioritariamente, e, num segundo plano, com bem menos
fôlego, os contextos de níveis pragmático, textual e social mais amplo.
Uma variável que, embora não muito comum nas investigações
sobre a variação de FP, volta-se para esses níveis de análise mais
silenciados nesse conjunto de pesquisas e que foi bastante produtiva é a
utilizada por Silva (2010), qual seja ambiente de ocorrência do tempo
futuro (doméstico ou profissional). Tal variável, além de observar a
representação da linguagem em dois diferentes campos de atividade
humana (cf. 4.2.3), volta-se também para as relações de
simetria/assimetria entre os participantes da interação à qual o dado se
vincula90, evocando, assim, a consideração de questões pragmáticas e/ou
histórico-culturais.
A seguir, examinam-se mais algumas pesquisas que analisaram
dados de gêneros da modalidade escrita.
90
Vale destacar que o controle da simetria nas interações parece já ter avançado
no âmbito da pesquisa variacionista: Coelho e Nunes de Souza (2014)
apresentam proposta metodológica para o estudo da variação estilística na
escrita com foco nas relações entre locutor-interlocutor, considerando a
combinação de variáveis sociais clássicas labovianas com variáveis estilísticas.
Segundo as autoras, com essa proposta metodológica que se orienta por
variáveis socioestilísticas de análise, “a categorização de uma relação como
simétrica ou assimétrica passaria a ser um resultado da análise, e não mais um
pressuposto anterior ao processo” (COELHO; NUNES DE SOUZA, 2014, p.
176). Volta-se a fazer referência a esse estudo em [Link].
105
1.2.2 Investigações sincrônicas em amostras escritas do século XX e
XXI
Aqui, são apresentadas as pesquisas de Santos (1997), Bragança
(2008), Tesch (2011) e Vieira (2014), investigações, cujas amostras
representam usos dos séculos XX e XXI91, conforme Tabela 2.
Tabela 2: Distribuição das formas de futuro em textos da modalidade escrita
nos séculos XX e XXI (continua)
Santos (1997) - abordagem sincrônica
Orientação teórica: perspectiva variacionista
Amostra: Diário do Congresso Nacional e Revista IstoÉ coletados entre
1994 e 1995
FS
772/73% – – –
(jantarei)
IR/PRE
233/22% – – –
(vou jantar)
IR/FS
31/3% – – –
(irei jantar)
P
19/1% – – –
(janto)
Total 1.055 – – –
Bragança (2008) - abordagem sincrônica
Orientação teórica: perspectiva variacionista e funcionalista norte-
americana
Amostra: Editoriais do Jornal A Gazeta- ES do ano de 2006
FS 622/75% – – –
IR/PRE 81/9,7 – – –
IR/FS 124/15,3% – – –
Total 827 – – –
91
As pesquisas desta subseção são sincrônicas, com exceção da pesquisa de
Tesch (2011) que, embora diacrônica, não se configura como as pesquisas
doprimeiro grupo: enquanto essas compararam a expressão de futuro ao longo
de séculos, Tesch (2011) examina duas décadas do século XX e um ano do
século XXI. Por isso, optamos por apresentá-la juntamente com as pesquisas
que focalizam esses dois últimos séculos.
106
Tabela 2:Distribuição das formas de futuro em textos da modalidade escrita nos
séculos XX e XXI(conclusão)
Tesch (2011) – abordagem diacrônica
Orientação teórica: perspectiva variacionista e funcionalista norte-
americana
Amostra: Gêneros (notícia, propaganda, editoria, artigo de opinião, carta
do leitor, manifesto, discurso92, notas de falecimento) do Jornal A
Gazeta- ES, década de 1930, de 1970 e do ano de 2008
Década de Década de Ano de
1930 1970 2008
FS 178/88% 324/81,8% 368/54,3% –
IR/PRE 14/7% 42/10,6% 136/20% –
P 8/4% 27/6,8% 158/23,3% –
IR/FS 2/1% 3/0,8% 16/2,4% –
Total 202 396 678
Vieira (2014) - abordagem sincrônica
Orientação teórica: sociofuncionalismo
Amostra: jornais Diário do Nordeste, O Estado, O Povo e Aqui CE, do
estado do Ceará, do ano de 2014
Diário do Aqui CE
O Estado O Povo
Nordeste
FS 308/60,9% 403/55,2% 284/57,6% 186/40,8%
IR/PRE +
65/12,9% 89/12,2% 70/14,2% 73/16%
IR/FS
P 133/26,2% 237/32,6% 139/28,2% 197/43,2%
Total 506 729 493 456
Fonte: Elaborada a partir de consulta a todas as pesquisas citadas
1. Santos (1997), sob a perspectiva variacionista, elegeu como corpus
para a análise três exemplares do Diário do Congresso Nacional e da
revista IstoÉ, coletados entre os anos de 1994 e 1995, cujos textos
foram considerados, pela autora, cultos, formais e representativos da
modalidade escrita. Os gêneros do Diário examinados foram:
discursos, apartes nos discursos dos parlamentares, diálogos entre
Mesa do Congresso e parlamentares. Os textos da revista: artigos,
92
Trata-se de “reproduções fiéis de discursos de políticos, realizados na
Assembleia Legislativa” (TESCH, 2011, p. 111), não sendo possível identificar,
segundo a autora, se esses discursos são registros de fala ou reprodução da
escrita.
107
reportagens e entrevistas93 . Considerou-se que alguns textos dessas
duas fontes representavam também, em alguma medida, a língua
falada, uma vez que eram transcritos diretamente de situações de
entrevista ou de pronunciamentos, conservando, assim, tanto o grau
de formalidade da situação de interação, quanto sinais de
espontaneidade da oralidade, como improvisos.94 Para análise
multivariada, os 12 grupos de fatores considerados foram: (a) tipo de
texto (redigido, transcrito); (b) adjunto adverbial de tempo
(inexistência de adjunto adverbial de tempo, tempo indefinido da
ocorrência do fato, até uma semana da ocorrência do fato, mais de
uma semana da ocorrência do fato), (c) modo verbal do período
(indicativo – realis, subjuntivo – irrealis); (d) pessoa do verbo (1ª, 2ª
ou 3ª); (e) gradação temporal (há gradação temporal no período, não
há gradação temporal no período); (f) paralelismo discursivo
(ocorrência isolada do verbo, primeiro verbo de série, verbo
antecedido por futuro simples, verbo antecedido por futuro
perifrástico, verbo antecedido por presente, verbo antecedido por
futuro simples perifrástico); (g) número de sílabas (uma, duas ou
mais de três sílabas no infinitivo do verbo principal); (h) predicação
(verbo transitivo, intransitivo, de ligação, na voz passiva analítica);
(i) cadeia de verbos (verbos em cadeia, verbos fora de cadeia); (j)
tipo de verbo (verbos especiais – auxiliares e modais, demais
verbos); (l) verbo de movimento ou estado (aplicável à variante
presente do indicativo); (m) fonte do dado (extraído do Diário do
Congresso Nacional, extraído da revista IstoÉ)95. Em geral, a alta
frequência de FSfoi atribuída ao fato (i) de essa forma ser a preferida
pelas pessoas que “gozam de prestígio social e exercem atividades
socioeconômicas que exigem boa apresentação para o público”
93
Dos exemplares analisados, das duas fontes consideradas, a autora excluiu
alguns gêneros que poderiam enviesar os dados por apresentarem uma forma
fixa de redação. Da revista, a autora desconsiderou textos publicitários e cartas
de leitores (SANTOS, 1997, p. 45).
94
Os textos que a pesquisadora considerou como representativos da língua
falada, no Diário e na revista foram, respectivamente:
discursos/pronunciamentos não redigidos previamente, diálogos entre Mesa e
parlamentares e apartes; entrevistas das primeiras páginas e citações de fala de
terceiros.
95
Cf. grupos de fatores relevantes, de acordo com a análise estatística, em
Santos (1997).
108
(SANTOS, 1997, p. 113), (ii) ao caráter formal dos textos analisados
e (iii) ao contexto em que os dados estão inseridos – compreendendo
contexto como fonte dos dados (Diário ou IstoÉ) e, dentro de cada
uma dessas fontes, o gênero em que o dado aparece.
2. Bragança (2008), orientando-se tanto pela perspectiva variacionista
quanto pela funcionalista norte-americana, investigou a variação de
FP, sincronicamente, a partir de duas amostras: uma oral, constituída
de entrevistas com universitários, do projeto “O português falado na
cidade de Vitória” (PortVix)96; e uma escrita, composta por editoriais
do jornal A Gazeta, publicado no Estado do Espírito Santo durante
todo o ano de 2006. O objetivo central era investigar tanto o estágio
da gramaticalização do verbo ir, quanto à variação de formas para a
expressão de FP nas duas modalidades da língua, com destaque para
a relação formalidade/informalidade dos gêneros que constituíram
cada amostra, uma vez que eles seriam representantes de pontos
opostos no continuum oral/escrito. De acordo com os dados, a
frequência de ocorrência de FS foi bastante alta, ao passo que a
frequência da forma IR/PRE (9,79%) ainda foi baixa. Por isso,
diferentemente do tratamento que Santos (1997) conferiu aos usos
investigados, Bragança (2008), optou por amalgamar as duas
perífrases em análise97, obtendo-se um percentual de 25% de formas
inovadoras na amostra. Com esse procedimento, argumentou-se,
seguindo a mesma direção das pesquisas diacrônicas, que esses
resultados poderiam ser considerados indícios de mudança também
em textos mais formais da modalidade escrita da língua, uma vez que
já manifestavam a presença da forma inovadora. Os grupos de
fatores investigados na pesquisa foram: (a) perífrase com verbo
modal (poder, dever); (b) extensão lexical do verbo principal (uma,
duas ou três sílabas); (c) paradigma verbal (regular, irregular); (d)
conjugação verbal (1ª, 2ª ou 3ª); (e) natureza semântica do verbo
principal (estado, ação ou processo); (f) marca de futuridade fora da
96
Esse projeto de orientação variacionista é desenvolvido na Universidade
Federal do Espírito Santo (UFES) e coordenado pela professora doutora Lilian
Coutinho Yacovenco. Para mais informações, cf. Yacovenco et al. (2012).
97
Na análise multivariada, a pesquisadora considerou as três variantes e só
reunia IR/PRE e IR/FS para contrastar os usos de perífrases com os usos da
forma sintética.
109
morfologia verbal (presença de advérbio, presença de oração
temporal, presença discursiva, ausência de marca); (g) paralelismo
(ocorrência isolada,primeira ocorrência de uma série, ocorrência em
cadeia precedida de forma sintética, ocorrência em cadeia precedida
de forma perifrástica com IR no presente, ocorrência em cadeia
precedida de forma perifrástica com IR – ou os modais poder e dever
– no futuro).98Tendo em vista a alta frequência da forma mais
conservadora de FP nos editorais, num período histórico em que
diversas pesquisas com dados orais de fala espontânea apontam para
um uso quase categórico de IR/PRE, conforme se apresenta na
próxima subseção, Bragança (2008) concluiu que (i) especificidades
da escrita, (ii) tipo de gênero e (iii) tipologia textual poderiam estar
condicionando os usos desse fenômeno.
3. A pesquisa de Tesch (2011) se orientou pelos campos funcionalista
norte-americano e variacionista, e também investigou duas diferentes
amostras, uma oral e uma escrita, no Estado do Espírito Santo: para a
amostra oral, a autora promoveu uma análise sincrônica, focalizando
22 entrevistas do projeto PortVix; para a amostra escrita, realizando
uma análise diacrônica, também considerou o jornal A gazeta,
contemplando as décadas de 1930, data de veiculação das primeiras
edições desse jornal, de 1970 e de 1990, além das publicações do ano
de 2008. Para a análise, Tesch (2001) considerou 11 grupos de
fatores: (a) paralelismo (ocorrência isolada; primeira ocorrência de
uma série; ocorrência em cadeia precedida de futuro; ocorrência em
cadeia precedida de presente; ocorrência em cadeia precedida de ir
no presente + verbo no infinitivo; ocorrência precedida de gatilho em
futuro; ocorrência precedida de gatilho em presente; ocorrência
precedida de gatilho em ir no presente + verbo no infinitivo); (b)
extensão lexical do verbo principal (uma, duas, três ou mais sílabas);
(c) verbo modal (verbo modal; verbo não modal); (d) marca de
futuridade fora do verbo (presença de marca; ausência de marca); (e)
projeção de futuridade (futuro próximo; futuro distante; futuro
indefinido99); (f) conjugação verbal (1ª, 2ª, 3ª); (g) escala de
98
Cf. fatores relevantes em Bragança (2008).
99
A pesquisadora considerou futuro próximo “as ocorrências que remetiam a
fatos que aconteceriam em um mês ou dados que apresentassem marcas que
deixassem clara a proximidade da efetivação da ação” (TESCH, 2011, p. 81).
110
modalidade (extremo epistêmico; possibilidade epistêmica;
possibilidade deôntica; extremo deôntico); (h) tipo semântico do
verbo (processos materiais; processos mentais; processos relacionais;
processos comportamentais; processos verbais; processos
existenciais; processos metereológicos); (i) tipos de texto/ sequências
textuais (argumentativo/expositivo; injuntivo; narrativo/descritivo;
narrativa/projetada; lista); (j) tipo de sentença (declarativa;
interrogativa; negativa), (k) gênero textual (notícia; propaganda;
editorial; artigo de opinião; carta de leitor; manifesto; discurso; notas
de falecimento)100. Aventados na conclusão de Bragança (2008),
Tesch (2011) confirmou, quantitativamente, por exemplo, a
relevância dos grupos de fatores gênero e tipologia textual101 para o
fenômeno em tela102. Por isso, consideramos que essa pesquisadora
inova, metodologicamente, a investigação desse fenômeno, ao eleger
para a análise esses grupos (tipo textual/ sequências textuais, e
100
Cf. fatores relevantes em Tesch (2011).
101
Tipologia textual, nos termos da autora, difere de tipo de texto (ou gênero):
quando a autora fala em tipologia textual está se referindo a sequências
linguísticas, nos termos de Marcuschi (2004; 2008). Quanto ao termo gênero
textual, a autora usa a definição desse último autor e usa alternadamente os
termos gênero textual e gênero discursivo.
102
Destaca-se que pesquisas anteriores a de Tesch (2011) (SILVA, 1997;
SANTOS, 1997; OLIVEIRA, 2006; FONSECA, 2010) já tinham, em alguma
medida, considerado esses grupos de fatores, mas em diferentes tipos de análise
e com muita divergência quanto aos conceitos de gênero e de tipologia textual:
Silva (1997) destaca a relevância da tipologia, em análise qualitativa; Santos
(1997) trabalha com o grupo de fatores tipo de texto para se referir a textos
redigidos ou transcritos; Oliveira (2006) trabalha com uma grande quantidade
de textos diferentes, mas controla apenas a variável independente modalidade
(oral, escrita); Fonseca (2010) controla o grupo de fatores tipo de texto, para
considerar os fatores narrativa, descrição, relato de procedimento e relato de
opinião. Por isso estamos considerando que a pesquisa de Tesch (2011) é a
primeira a investigar, de forma conjunta, gênero e tipologia textual, deixando
mais marcada a diferença entre um e outro conceito e atestando
quantitativamente a relevância dos dois grupos de fatores para a realização do
FP. Destaque-se que a variável gênero tem sido considerada, com resultados
significativos, em estudos de outros fenômenos linguísticos: Berlinck, Biazolli e
Balsalobre (2014) – ordem dos clíticos pronominais e uso das preposições a e
para; Tavares (2014) – uso dos conectores e, aí e então; Rost Snichelotto
(2014) – uso dos marcadores discursivos olha e vê; entre outros.
111
gênero textual), embora (SANTOS, 1997) já tivesse considerado a
localização dos dados em diferentes gêneros, através da variável tipo
de texto.103
4. Vieira (2014), orientando-se pela abordagem sociofuncionalista, nos
termos de Tavares (2003) (cf. 5.3.1), teve como objetivo descrever a
expressão desse futuro na mídia impressa cearense, o que a conduziu
à seleção do seguinte corpus de análise: dez edições de cada um dos
quatro jornais (Diário do Nordeste, O Povo, O Estado e Aqui CE)
que integram a mídia impressa cearense, considerando apenas as
editorias Política, Esporte e Entretenimento. Para a análise, a autora
constituiu nove grupos de fatores: (a) extensão do vocábulo (verbo
com uma, duas ou mais sílabas); (b) marca de futuridade (pista
temporal de natureza semântica;pista temporal de natureza
pragmática); (c) polaridade (afirmativa; negativa); (d) pessoa do
discurso (quem fala – singular [eu]; quem fala – plural [nós; a gente];
com quem fala – singular [tu; você]; com quem fala – plural [vós;
você]; de quem ou sobre o que fala – singular [ele; ela]; de quem ou
sobre o que fala – plural [eles; elas]); (e) distanciamento temporal
(futuro imediato ou próximo; futuro intermediário ou distante104;
futuro indeterminado); (f) tipo de verbo (atividade; achievement;
accomplishment; estado); (g) editoria(política, esporte;
entretenimento); (h) veículo (O Povo;Diário do Nordeste;O
Estado;Aqui CE); (i) origem (matéria; coluna)105. Como o foco da
pesquisa foi a variação (e não a mudança), a pesquisadora concluiu
que FS é a forma preferida para referência ao futuro na mídia
impressa cearense.
***
103
Embora a variável “tipo de texto” (redigido, transcrito), em Santos (1997),
esteja, talvez, mais relacionada com a identificação de características das
modalidades da língua, também consideramos que, no contexto em que foi
controlada, funciona, em alguma medida, como critério distintivo de gêneros.
104
A autora considerou futuro próximo fatos previstos para acontecerem no
mesmo mês ou em até 30 dias; e considerou futuro distante fatos previstos para
após um mês do enunciado. Reforçamos a crítica que fizemos em [Link],
quando destacamos que não um há acordo entre as pesquisas quanto à definição
do que é futuro próximo ou distante.
105
Cf. grupos de fatores relevantes em Vieira (2014).
112
Problematizando esse conjunto de pesquisas, percebe-se que
compartilha com o primeiro conjunto apresentado o fato de divergirem
quanto ao tratamento dado às formas: ora reúnem IR/PRE e IR/FS
(BRAGANÇA, 2008; VIEIRA, 2014106) ora analisam essas formas
separadamente (SANTOS, 1997; TESCH, 2011); ora analisam à parte os
verbos modais (retirando da análise quantitativa ocorrências como
deverá atuar, poderão realizar, etc.) (SANTOS, 1997), ora essas
ocorrências são classificadas como uma das variantes sob análise,
havendo ainda divergência quanto a esse ponto: enquanto alguns autores
classificam ocorrências do tipo poderá estar, deverá ser, poderá haver
como perífrases (com verbos modais) (BRAGANÇA, 2008, p.102),
outros as classificam como FS (TESCH, 2011, p. 155; VIEIRA, 2014, p.
99).107
Uma das razões para esses diferentes procedimentos pode estar
no próprio interesse analítico do pesquisador, como é possível observar
em uma das decisões metodológicas de Bragança (2008). Como a
pesquisadora decidiu amalgamar os dois tipos de construção perifrástica
(IR/PRE e IR/FS), a frequência de uso da “forma nova”, na amostra,
aumentou consideravelmente, e todos os resultados foram lidos a partir
desse total. Isso gerou o entendimento de que o percentual da forma
nova era alto nos textos escritos, um indicativo, portanto, de mudança, já
que os editoriais foram tomados pela pesquisadora como um contexto
resistente à construção perifrástica.
Mas, e se a pesquisadora não tivesse assim reunido os dados?
Como a construção IR/FS preserva morfologia de forma sintética,
podendo ser considerada “uma perífrase do futuro [que] se diferencia do
futuro perifrástico” (SANTOS, 1997, p. 67), como teriam sido
interpretados os dados, nesse caso? Esse exemplo valida a consideração
de que não se pode perder de vista que “as decisões e as interpretações
na lida descritiva seriam decorrentes das intenções que se tem” (LIMA-
HERNANDES, 2015, p. 19).
106
Em nota de rodapé, Vieira (2014, p. 74) explica que reconhece haver
diferenças entre as formas IR/PRE e IR/FS, especialmente no que se refere à
formalidade dessa última, e informa que o amalgamento das duas formas se deu
por conta da baixa frequência de uso de IR/FS: das 297 ocorrências de
perífrases, apenas 12 foram com essa forma.
107
Não encontramos em Vieira (2014) um tratamento específico para os verbos
modais, mas, pelos dados apresentados, é possível inferir como a autora
classificou ocorrências desses verbos.
113
Também um breve exame dos resultados das pesquisas
mencionadas nesta subseção permite-nos observar que o gênero
constituído como amostra para a investigação dessefenômeno pode
conduzir a diferentes resultados ou a resultados até contraditórios quanto
àindicação da forma default de futuro do PB. Concluir, então, que a alta
frequência de forma canônica de FP em um corpus se justifica por ela
ser a forma preferida das pessoas que “gozam de prestígio social e
exercem atividades socioeconômicas que exigem boa apresentação para
o público” (SANTOS, 1997, p. 113) simplifica demasiadamente a
questão, apagando a relevância das diferentes práticas sociais em que os
sujeitos se engajam, tendo em vista que esses mesmos sujeitos que
gozam de prestígio social podem, em diferentes contextos de uso,
acionar diferentes formas para expressar o FP, inclusive a forma nova,
uma vez que ao “falar espontaneamente, as pessoas cultas se utilizam
predominantemente da forma perifrástica” (SILVA, 1997, p. 191).
Outro resultado que chama atenção para o fato de que é preciso
compreender as práticas sociais às quais os usos da língua se vinculam
refere-se à frequência de uso de P: em Santos (1997) os usos dessa
forma nos dois tipos de fontes consideradas, Diário do Congresso
Nacional e revista IstoÉ, foram muito pouco significativos, ao passo que
em Tesch (2011) e em Vieira (2014) foram os usos que mais cresceram
ao longo das décadas examinadas e que mais diretamente concorreram
com os usos de FS. Poderíamos perguntar: por que textos jornalísticos,
com considerável grau de formalidade, favorecem tantos usos dessa
forma?
Nesse sentido, embora a pesquisa de Tesch (2011), em nossa
avaliação, represente um avanço metodológico por considerar tipo e
gênero textual como variáveis independentes na análise quantitativa,
obtendo resultados inéditos na literatura sobre esse fenômeno, ainda
careceu, de acordo com nossa perspectiva, de uma fundamentação
teórica mais consistente sobre o funcionamento dos gêneros e do lugar
em que eles ocorrem (nesse caso, no jornal), uma vez que “[o] gênero
somente ganha sentido quando se percebe a correlação entre formas e
atividades” (FIORIN, 2008, p. 69).
Vieira (2014) também registra que só constituiu o grupo de
fatores origem, durante a coleta e codificação dos dados, momento em
que a pesquisadora percebeu “haver muitas peculiaridades entre dados
oriundos de matérias e dados oriundos de colunas” (p. 107). Mesmo
assim, não encontramos em seu trabalho nenhuma discussão sobre uma
possível correlação entre a constituição dessas “origens” e os usos de
FP.
114
Alguns grupos de fatores de Vieira (2014) merecem destaque,
dentre os quais: pessoa do discurso, editoria, veículo e origem. O grupo
pessoa do discurso, constituído a partir de critérios semânticos, não é
exclusivo dessa pesquisa: Santos (1997), para fazer referência apenas ao
conjunto de pesquisas desta subseção, também o controlou, mas com a
nomenclatura pessoa do verbo. Em nossa compreensão, essa diferença
terminológica resulta de diferenças epistemológicas, o que promove
diferenças também metodológicas. Para além de um recurso linguístico,
conforme parece enfatizar a terminologia de Santos (1997), o tratamento
que Vieira (2014) deu a esse grupo de fatores realça especialmente a
língua em uso, o cenário comunicativo (jornalístico), constituído por
sujeitos que falam, localizados no tempo e no espaço, sobre alguma
coisa.
Os outros três grupos de fatores dessa pesquisadora (editoria,
veículo e origem) investigaram, respectivamente, se eixos temáticos, se
os diferentes perfis dos jornais e se diferentes gêneros influenciam os
usos de FP. Embora já tenhamos visto com outros trabalhos até aqui
apresentados que os diferentes gêneros, bem como as diferentes fontes
em que os gêneros são veiculados, são, de fato, relevantes para os usos
desse fenômeno, o estudo de Vieira (2014) lança luz sobre mais um
elemento que condiciona os usos desse fenômeno: o eixo temático dos
gêneros. Temos, assim, indicativos de que fatores bem mais amplos e
diversificados estão atuando na seleção das formas de futuridade no PB.
De maneira geral, poderíamos perguntar ainda se a presença da
forma mais inovadora para expressar FP em alguns gêneros da escrita
significa expansão da forma inovadora em contextos mais resistentes à
mudança ou indica que são alguns gêneros escritos, especialmente os
jornalísticos, que estão sendo construídos de modo a refletir as
interações mais espontâneas da fala cotidiana.
Nesse segundo caso, o que está em questão é que a presença de
formas inovadoras que expressam o FP em determinados gêneros da
escrita jornalística, por exemplo, não significa necessariamente indícios
de mudança na “escrita”, em geral, uma vez que há inúmeras práticas
sociais, de diferentes naturezas, mediadas pela escrita. Poderia, por
exemplo, tratar-se de mudanças nos próprios gêneros do jornal.
Com isso, não estamos afirmando que esse fenômeno não seja
um caso de mudança em progresso no PB, mas que se faz necessária a
formulação de alguns premissas, a fim de se obter um aparato
investigativo da mudança linguística na escrita a partir da compreensão
de que essa modalidade da língua é uma instância heterogênea, tanto
115
quanto é a oralidade – além de ser necessário explicitar a relação entre
elas (oralidade e escrita).
A fim de tecer considerações finais quanto a essa discussão,
destacamos um último ponto. Tesch (2011, p. 134) registrou um uso de
FP, na amostra de 2008, em que o escritor do texto deixou passar um
“erro de digitação”. Esse erro, no entanto, é significativo porque indica
que os sujeitos apresentam uma atitude avaliativa frente às formas de
FP, embora, aparentemente, essas variantes não estejam sujeitas à
avaliação e, principalmente, a estigmas. A seguir, tanto o uso sob exame
quanto a análise de Tesch (2011) em relação a ele podem ser
recuperados:
Mais sete ônibus articulados vão serão
incorporados ao Sistema Transcol na próxima
segunda-feira. Desse total, quatro veículos vão
atender à linha 504 (Terminal de Itacibá X
Terminal de Jacaraípe). Já os outros três serão
utilizados na linha 591, (Serra Sede X Terminal
de Campo Grande). (A Gazeta, 04 de julho de
2008). (TESCH, 2011, p. 134; grifos da autora).
A primeira ocorrência na expressão de futuro –
vão serão – sugere que o autor do texto ficou em
dúvida se usaria vão ser ou serão. Temos fortes
indícios dessa indecisão ao verificar as demais
formas no futuro, uma vez que utiliza as duas
variantes: ir no presente + verbo no infinitivo –
vão atender – e no futuro do presente – serão.
Esse dado demonstra que o falante tem
consciência de que há diferentes formas para
expressar o futuro. (TESCH, 2011, p. 134; grifos
da autora).
Podemos dizer que esse dado, além de ser indício de que os
sujeitos têm consciência de que há diferentes formas para expressar o
futuro, sugeretambém que eles (os falantes) avaliam essas formas.
1.2.3 Investigações em entrevistas sociolinguísticas
Nesta subseção, são apresentados os resultados de algumas
pesquisas que elegeram, para a análise, entrevistas sociolinguísticas (cf.
3.3.1) integrantes de diferentes bancos de dados brasileiros: Santos
(2000), Oliveira (2006), Gibbon (2000), Nunes (2003), Malvar e
116
Poplack (2008), Bragança (2008), Tesch (2011), Fonseca (2010a) e
Gibbon (2014). Dispensa-se atenção apenas aos resultados quanto às
frequências de uso das formas analisadas em cada pesquisa, tendo em
vista o elevado uso da forma mais inovadora nesse contexto
sociolinguístico. A problematização aqui é bem reduzida, tendo em vista
que esses resultados já reforçam as considerações das subseções
anteriores.
Na tentativa de mapear como os usos desse fenômeno se
distribuem pelo território nacional, reunimos as pesquisas a partir dos
estados em que as amostras foram coletadas. Nesse sentido, relatamos a
distribuição dos usos das formas de FP nos seguintes estados,
considerando a ordem de publicação dos trabalhos:
Rio de Janeiro, com os estudos de Santos (2000) e
Oliveira (2006);
Santa Catarina, com Gibbon (2000);
Rio Grande do Sul, com Nunes (2003) e Gibbon
(2014);
Bahia, com Oliveira (2006);
Distrito Federal, com Malvar e Poplack (2008)
Espírito Santo, com Bragança (2008) e Tesch (2011);
São Paulo, com Fonseca (2010a).
As frequências de ocorrência das formas de FP podem ser
visualizadas, comparativamente108, na Tabela 3.
108
Gibbon (2014, p. 191) organizou, pela primeira vez, uma tabela desse tipo,
comparando os resultados de quase todas essas pesquisas – apenas não
considerou a pesquisa de Malvar e Poplack (2008). A partir dela, organizamos a
nossa, procedendo a uma remodelação na apresentação dos resultados, seguindo
o critério, como já mencionado, de apresentação a partir dos estados brasileiros
investigados.
117
Tabela 3: Comparação entre resultados de pesquisas que analisaram entrevistas sociolinguísticas para investigar a variação na
expressão do FP (continua)
FS IR/PRE P
Autor/Amostra (jantarei) (vou jantar) (janto) Total
(N/%) (N/%) (N/%)
Rio de Janeiro
Santos (2000)
Corpus Gryner/Rio de Janeiro-RJ 1980 54/6 486/56 331/38 871
Sexo; Escolaridade; Idade
Oliveira (2006) (DIDs)
NURC/Rio de Janeiro-RJ 1970 17/9 149/75 32/16 198
Escolaridade; Idade
NURC/Rio de Janeiro-RJ 1990
5/4 96/79 20/17 121
Escolaridade; Idade
Santa Catarina
Gibbon (2000)
VARSUL/Florianópolis-SC (1990) 10/1 453/61 280/38 743
Escolaridade; Idade
118
Tabela 3: Comparação entre resultados de pesquisas que analisaram entrevistas sociolinguísticas para investigar a variação na
expressão do FP (continua)
FS IR/PRE P
Autor/Amostra (jantarei) (vou jantar) (janto) Total
(N/%) (N/%) (N/%)
Rio Grande do Sul
Nunes (2003)
BDS Pampa/Pelotas-RS 1990 33/5 621/95 - 654
Escolaridade; Idade
Gibbon (2014)
VARSUL-RS 1990 83/7,5 934/84 93/8,5 1.110
Escolaridade; Idade
Bahia
Oliveira (2006) (DIDs)
NURC/Salvador-BA 1970 8/28 15/54 5/18 28
Escolaridade; Idade
NURC/Salvador-BA 1990
- 41/89 5/11 46
Escolaridade; Idade
119
Tabela 3: Comparação entre resultados de pesquisas que analisaram entrevistas sociolinguísticas para investigar a variação na
expressão do FP (continua).
FS IR/PRE P
Autor/Amostra (jantarei) (vou jantar) (janto) Total
(N/%) (N/%) (N/%)
Distrito Federal
Malvar e Poplack (2008)109
Residentes urbanos de Brasília (século XX)’ 4/1 613/85 104/14 721
Idade; Escolaridade
Espírito Santo
Bragança (2008)
PortVix/Vitória-ES 2000 5/1 350/99 - 355
Escolaridade e Idade
Tesch (2011)
PortVix/Vitória-ES 2000 4/0,4 867/80,5 206/19,1 1.077
Escolaridade; Idade
109
Não há muitas informações sobre a constituição da amostra de fala examinada pelas pesquisadoras, no trabalho consultado.
120
Tabela 3: Comparação entre resultados de pesquisas que analisaram entrevistas sociolinguísticas para investigar a variação na
expressão do FP (conclusão).
FS IR/PRE P
Autor/Amostra (jantarei) (vou jantar) (janto) Total
(N/%) (N/%) (N/%)
São Paulo
Fonseca (2010a)
Iboruna/SP 2000 14/3 541/97 - 555
Escolaridade; Idade
TOTAL 315 4.858 1.045 6.295
Fonte: Elaborado a partir de Gibbon (2014, p. 191) e de consulta a todas as pesquisas reportadas
121
De acordo com a Tabela 3, todas as pesquisas encontram raras
ocorrências de FS, e frequências mais significativas de IR/PRE e de P.
1. Do trabalho de Santos (2000), apresentou-se na Tabela 4 apenas a
amostra referente ao que a autora considerou “português informal”:
entrevistas da amostra informal do corpus Gryner110, da década de
1980111. Conforme ilustra a Tabela 3, a frequência de uso da forma
mais conservadora foi de apenas 6%, contra 56% de IR/PRE e 38%
de P, num universo de 871 ocorrências. Destaca-se, portanto, nessa
amostra, a alta frequência de uso de P (38%), o que pode ter
contribuído para que a frequência de IR/PRE fosse relativamente
baixa (56%), quando comparada com as frequências de ocorrência
dessa mesma forma nas demais regiões.
2. Já a amostra de fala espontânea da pesquisa de Oliveira (2006)
constituiu-se de dados da cidade de Salvador e do Rio de Janeiro;
apresentamos, inicialmente, os dados da amostra do Rio de Janeiro.
Essa amostra considerou dados das décadas de 1970 e de 1990, do
corpus Projeto da Norma Urbana Oral Culta (NURC)112. Para a
amostra de 1970, Oliveira (2006) considerou as EFs, representantes
de uma fala mais monitorada, e os DIDs, representantes de uma fala
menos monitorada. Para a amostra de 1990, contemplou apenas os
DIDs. Na Tabela 4, apresentamos apenas os resultados das pesquisas
com os DIDs, referindo-se a 12 entrevistas (6 para cada década
considerada), a fim de manter certa comparabilidade com as demais
110
Disponível no banco de dados do PEUL/UFRJ:
<[Link] Acesso em: 20 maio 2015.
111
Essa amostra compõe-se de 32 entrevistas com sujeitos de diferentes regiões
da cidade do Rio de Janeiro, estratificados em relação às variáveis sexo (16
homens e 16 mulheres), escolaridade (8 informantes do primeiro segmento do
Ensino Fundamental, 8 do segundo segmento do Ensino Fundamental, 8 do
Ensino Médio e 8 informantes universitários) e faixa etária (15 – 24 anos, 25 –
34 anos, 35-49 anos, 50 anos ou mais).
112
Esse corpus reúne entrevistas com cariocas com nível superior, nascidos no
Rio de Janeiro e filhos de pais cariocas. Essas entrevistas foram catalogadas em:
(1) diálogos entre informante e documentador (DIDs); (2) diálogos entre dois
informantes (D2). Além disso, integram o corpus e locuções formais (EFs),
como aulas, conferências, palestras etc. Para mais informações, conferir:
<[Link]
122
pesquisas, já que elas não examinaram textos orais de interações
mais monitoradas. Os resultados indicam que, da década de 1970
para a década de 1990, os usos de FS diminuíram, embora já fossem
pouco frequentes; os usos de IR/PRE já eram altos e assim se
mantiveram, com ligeiro aumento; e os usos de P se mantiveram.
3. Para a investigação dos usos de FP na fala espontânea de
Florianópolis, Gibbon (2000) examinou 36 entrevistas do Banco de
Dados do Projeto VARSUL (Variação Linguística na Região Sul),
realizadas no município de Florianópolis, na década de 1990.113 A
Tabela 4 mostra uma frequência de uso das formas de FP nessa
localidade bem próxima da encontrada no Rio de Janeiro, por Santos
(2000), sendo a frequência de uso de FS ainda menor em
Florianópolis: 6% naquela cidade e apenas 1% nesta. Novamente, a
forma mais acionada para expressar FP é a mais inovadora (61%),
seguida de P (38%).
4. A dissertação de Nunes (2003) investigou os usos de FP na cidade de
Pelotas, no Rio Grande do Sul, utilizando 24 entrevistas, da década
de 1990, do “Banco de Dados Sociolinguísticos da fronteira e da
campanha sul-rio-grandense” (BDS Pampa)114. A pesquisa comparou
os usos de FS e IR/PRE, obtendo uma frequência de 95% de IR/PRE
nesse contexto mais espontâneo da oralidade, contra apenas 5% de
FS.
5. Gibbon (2014) também investigou dados do estado gaúcho,
ancorando-se em duas amostras de fala. A que nos interessa
constituiu-se de entrevistas sociolinguísticas do Banco de Dados do
113
O informantes desse Banco são de área urbana, estratificados em relação às
variáveis sexo (18 homens e 18 mulheres), faixa etária (15 - 24 anos, 25 – 49
anos, mais de 50 anos) e escolaridade (primário, ginásio, colegial). Além disso,
Uma das amostras constituiu-se de usos de vou ir, coletados informalmente em
diálogos que a pesquisadora ouvia ou dos quais participava no cotidiano, desde
o ano de 2000. Esses dados não são aqui apresentados porque não são
comparáveis com os dados das demais pesquisas.
114
Nesse Banco, os informantes estão estratificadas em sexo (12 homens e 12
mulheres), escolaridade (de analfabetos à 5ª série do Ensino Fundamental; a
partir do 1º ano do Ensino Médio) e faixa etária (16 – 25 anos; 26 – 49 anos;
mais de 50 anos).
123
ProjetoVARSUL, realizadas nas cidades de Porto Alegre, Flores da
Cunha, Panambi e São Borja, na década de 1990115. Os resultados,
assim como nos trabalhos anteriores, indicaram a mesma tendência,
destacando-se a superioridade do uso de IR/PRE (79%) em relação à
FS (10%), e com a forma P sendo a segunda mais utilizada, embora
com frequência bem menor (11%) que as encontradas nas pesquisas
do Rio de Janeiro (38%), por Santos, e de Florianópolis (38%), por
Gibbon (2000).
6. Os usos de FP na fala espontânea da Bahia, considerando a cidade
de Salvador, estão representados pela amostra da pesquisa de
Oliveira (2006). Essa amostra, que faz parte do Projeto NURC,
contemplou 12 entrevistas homogeneamente distribuídas entre as
décadas de 1970 e de 1990. Conforme resultados da Tabela 4, na
década de 1970 a frequência de uso de FS ainda era de 28%,
percentual que destoa dos resultados de todas as outras pesquisas.
Esse resultado, no entanto, era previsto pela pesquisadora a partir da
hipótese de que Salvador seria uma cidade mais conservadora que o
Rio de Janeiro, comparando-se as duas localidades, por ser, essa
última um “grande centro irradiador de cultura (OLIVEIRA, 2006, p.
147), à época. Os resultados da década de 1990, porém, indicam que
a cidade de Salvador superou a do Rio de Janeiro quanto aos usos da
forma nova: 89% contra 79%.
7. Representando o Distrito Federal, a pesquisa de Malvar e Poplack
(2008), anteriormente contextualizada, analisou a língua falada por
sujeitos urbanos da classe trabalhadora de Brasília com as seguintes
características: de 10 a 30 anos de idade e estratificados de acordo
com a escolaridade (primário, secundário e universitário), seguindo a
hipótese de que encontrariam mais formas de FS na fala dos
universitários. Conforme a Tabela 4, as pesquisadoras encontraram,
de maneira geral, 1% de usos de FS, 14% de P e 85% de IR/PRE.
115
Em cada cidade foram realizadas 24 entrevistas, organizadas em torno das
variáveis sexo (12 homens e 12 mulheres), escolaridade (primário: de 4 a 5 anos
de escolarização; ginasial: de 8 a 9 anos; colegial: de 11 a 12 anos) e faixa etária
(25 – 49 anos; mais de 50 anos). Nessa amostra, cujos resultados estão
apresentados na Tabela 4, Gibbon (2014) analisou, portanto, 96 entrevistas.
124
8. Representando o Estado do Espírito Santo, têm-se as pesquisas de
Bragança (2008) e de Tesch (2011), já contextualizadas na subseção
anterior. As amostras orais das duas pesquisadoras foram compostas
por entrevistas do Banco de Dados PortVix, gravadas no ano de
2000, composto de 46 entrevistas. Bragança (2008) examinou apenas
as 12 entrevistas realizadas com os universitários, distribuídas
homogeneamente a partir de diferentes faixas etárias (15 – 25 anos;
26 – 49 anos; 50 anos ou mais), dos dois sexos (6 homens e 6
mulheres), e de diferentes localidades da cidade (Jucutuquara,
Maruípe, Camburi, Centro e Praia do Canto). Tesch (2011) analisou
22 entrevistas, considerando um informante116 para cada uma das
estratificações mencionadas. Tesch (2011) controlou o uso de P, o
que Bragança (2008) não fez, obtendo uma frequência de 19% dessa
forma. Para os usos de FS, os resultados dos dois estudos foram na
mesma direção, no sentido de concluir que essa não é uma forma
produtiva nas amostras consideradas: Bragança (2008) encontrou 1%
e Tesch (2011) encontrou apenas 0,5% dessa forma em sua amostra.
A forma IR/PRE, portanto, realizou-se em 99% das ocorrências da
pesquisa de Bragança (2008) e em 99,5% das ocorrências do estudo
de Tesch (2011)117.
9. O último estado a ser considerado é o de São Paulo, com a pesquisa
de Fonseca (2010a). Em dissertação intitulada Perífrase verbal
ir+infinitivo e o futuro do dialeto riopretano: um estudo na interface
sociolinguística/gramaticalização, a autora investigou esse
fenômeno a partir de 38 entrevistas do Banco de Dados
IBORUNA118, que integra o Projeto ALIP (Amostra Linguística do
Interior Paulista), reunindo amostras do português falado no interior
do Estado de São Paulo, considerando os seguintes municípios: Bady
116
Para a faixa etária 7 – 14 anos, Tesch (2011) considerou dois informantes, a
fim de suprir a falta de informantes nessa faixa etária com as escolaridades
Ensino Médio e Ensino Universitário.
117
A fim de comparar essas duas pesquisas capixabas, desconsideramos os usos
de P da pesquisa de Tesch (2011), uma vez que Bragança (2008) não controlou
essa forma e, assim, chegamos a esses percentuais de Tesch (2011) aqui
apresentados. Na Tabela 4, no entanto, preservamos os resultados gerais da
autora, que incluem os usos de P.
118
Para mais informações:
<[Link]
125
Bassitt, Cedral, Guapiaçu, Ipiguá, Mirassol, Onda Verde e São José
do Rio Preto119. Os resultados da investigação de contextos de fala
espontânea nesse estado também revelam o quase desaparecimento
de FS (3%) e a prevalência de IR/PRE (97%).
***
Encerradas as apresentações de cada pesquisa, passa-se a uma
breve discussão, chamando atenção apenas para o seguinte aspecto:
todas as pesquisas revisitadas nesta subseção, frente à alta frequência (i)
da construção perifrástica inovadora, em primeiro lugar, e (ii) do
presente do indicativo, em segundo lugar, bem como considerando a
baixa frequência de uso da forma sintética, concluem estar diante de um
processo de mudança na expressão do FP, cuja tendência é o
desaparecimento gradual da forma sintética na fala informal ou a
especialização de formas (para a fala e para a escrita, também
ponderando os resultados das pesquisas descritas nas subseções
precedentes).
Considerando, contudo, que todas as pesquisas reportadas nesta
subseção investigam o mesmo tipo de contexto comunicativo, indaga-se
sobre até que ponto essa generalização é aplicável a todos os tipos de
fala informal. Com isso, estamos, na verdade, problematizando a própria
concepção de fala informal, uma vez que, se a conversa entre familiares
ou entre amigos é informal, a conversa cotidiana entre profissionais de
uma mesma área, por exemplo, é igualmente informal, embora talvez se
oriente por outros aspectos, como tipo de léxico e de construções
“formulaicas” típicas. Até que ponto, então, os resultados obtidos por
esse conjunto de pesquisas não viabilizam generalizações aplicáveis
(apenas) ao próprio contexto de entrevista sociolinguística é uma
questão para se refletir. Destaque-se, aliás, que essa é uma reflexão a ser
feita seja qual for o contexto comunicativo investigado – ou seja: até
119
As entrevistas desse banco de dados, além de estratificadas de acordo com as
variáveis dos demais bancos (sexo, faixa etária e escolaridade), também operam
com a variável renda: mais de 25 salários mínimos; de 11 a 24 salários
mínimos; de 6 a 10 salários mínimos; até 5 salários mínimos. A pesquisadora,
no entanto, não controlou essa variável (FONSECA, 2010, p. 80). Vale destacar
que, além da variação da expressão do FP, essa pesquisa investigou a
gramaticalização da construção ir + infinitivo e a variação na expressão do
futuro do pretérito.
126
que ponto generalizações não se aplicam apenas ao contexto
comunicativo (ao gênero) investigado; e, mais que isso, até que ponto é
possível fazer generalizações acerca de um mesmo gênero se ele próprio
pode não se apresentar sempre do mesmo modo – considere-se, por
exemplo, como as próprias entrevistas sociolinguísticas, a depender de
um conjunto de fatores, podem ser diferentes entre si, ora aproximando-
se de uma conversa espontânea, ora de uma entrevista mais formal.
A fim de sinalizar para o perigo de generalizações de resultados
de pesquisas sobre fenômenos variáveis (sobre esse fenômeno,
especificamente), com previsões sobre os rumos do fenômeno “na
língua”, “no português do Brasil”, “na escrita”, “na fala”, “na fala de
Florianópolis ou mesmo “na fala informal” (em geral), sem se atentar
para o fato de que cada uma dessas instâncias constitui um complexo
conjunto de práticas – cada uma delas singular – de uso da língua, parte-
se imediatamente para a apresentação do próximo conjunto de
pesquisas.
1.2.4 Investigações em amostras diversas de fala
Esta subseção apresenta e problematiza os trabalhos de Baleeiro
(1988), Silva (1997) e Oliveira (2006). Essas pesquisas têm em comum
o fato de terem analisado amostras de diferentes gêneros da modalidade
oral da língua, que não as clássicas entrevistas sociolinguísticas de modo
que a apresentação delas amplia nossa compreensão quanto à expressão
do FP nessa modalidade. Optamos por apresentá-las apenas
textualmente, especialmente pelo fato de as pesquisas de Baleeiro
(1988) e Silva (1997) serem qualitativas. Além disso, a problematização
dessas pesquisas é mais objetiva, assim como a das anteriores,
cumprindo a função de reforçá-las. Segue-se à apresentação.
1. O estudo de Baleeiro (1988) analisa três tipos de amostras, assim
organizadas: 23 inquéritos do tipo “diálogo entre informante e
documentador” (DID); 5 inquéritos do tipo “diálogo entre dois
informantes” (D2) e 3 inquéritos do tipo “elocução formal” (EF).
Interessa-nos, mais diretamente, a análise das EFs, por serem tipos
de situações que mais se diferem das entrevistas sociolinguísticas. O
objetivo da pesquisadora era descrever qualitativamente formas
verbais que expressam a futuridade e a posterioridade, assumindo
uma distinção entre um futuro que se destaca do presente e um futuro
que se sobrepõem a ele (BALEEIRO, 1988, p. 19). Ocorrências do
tipo poderá ter (p. 38) e irá encontrar (p. 41) foram classificadas
127
como FS, embora a pesquisadora tenha analisado as diferentes
funções (temporal, aspectual, modal, operador argumentativo, etc.)
associadas a cada tipo de forma. De modo geral, a pesquisadora
encontrou nos corpora constituídos: 80 ocorrências de FS, 42 de P e
385 de ocorrências com a construção ir + infinitivo, mas não
informou a distribuição de cada uma das formas/construção pelos
três gêneros analisados, por isso só foi possível apresentar aqui os
dados relativos às EFs. Nessa amostra, o FS foi mais produtivo que
nos outros tipos de interação, embora essa forma tenha sido utilizada
com funções específicas e por determinados sujeitos. Esse dado
chama atenção para o fato de que, para além das frequências de uso,
o controle das funções que as formas desempenham, bem como de
cada falante, é fator relevante para a compreensão da distribuição dos
usos variáveis: Baleeiro (1988, p. 183) observou que em EF, a
frequência de FS foi maior, por hora de gravação; mas a um
segundo exame, verificou que um dos informantes não usou essa
forma, outro só a empregou em operadores conversacionais e um
terceiro foi responsável por 7 das 9 ocorrências desta categoria.
2. A tese de Silva (1997) analisou, aproximadamente, seis horas e meia
de gravações. considerando: (a) duas EFs do projeto NURC, (b) onze
conversas telefônicas, (c) um diálogo interativo entre duas donas de
casa, (d) quatro entrevistas (DID) também do projeto NURC, (e)
notícias de programas de TV e de rádio120. Trata-se, portanto, de um
corpora com gêneros diversificados. Essa escolha decorreu do fato
de o trabalho ter a preocupação de verificar os valores temporais,
aspectuais e modais das formas verbais, a partir de uma abordagem
textual e discursiva121 do verbo. A hipótese central do estudo era a de
que o contexto discursivo é responsável pela seleção e distinção das
120
O pesquisador só selecionou essas notícias, mais formais, como um segundo
recurso analítico, uma vez que no corpus original, contendo os tipos de textos
descritos de (a) a (d), encontrou apenas quatro ocorrências de FS.
121
A concepção de “discursivo” assumida pelo autor, com base em Travaglia
(1991) e em Orlandi (1983), é: “qualquer atividade produtora de efeitos de
sentido entre interlocutores, portanto, qualquer atividade comunicativa (não
apenas no sentido de transmissão de informação, mas também de interação) e o
processo de sua enunciação, que é regulado por exterioridade sócio-histórica e
ideológica que determina as regularidades linguísticas e seu uso” (SILVA,
1997, p. 10).
128
formas variantes consideradas: futuro do presente, presente do
indicativo e construção perifrástica com ir. Vale destacar, no entanto,
que o autor considerou “contexto discursivo”, a despeito do conceito
de “discursivo” que adotou, o contexto linguístico em que as formas
aparecem, convocando, assim, a noção de tipologia textual para o
enquadramento discursivo das formas analisadas. Silva (1997)
associou cada um dos tipos textuais a diferentes atitudes do
enunciador frente ao objeto de dizer122 e, como adotou os postulados
de Weinrich (1964), que reúne as tipologias dissertação e descrição
sob o rótulo de comentário, considerou as seguintes atitudes
comunicativas: comentadoras, narrativas, injuntivas e preditivas
(SILVA, 1997, p. 110). A análise do autor indicou que: (a) a
construção perifrástica foi a mais frequente nos corpora, seguida do
presente do indicativo; o futuro sintético foi menos frequente; (b) o
traço mais característico da forma perifrástica foi a noção aspectual
de relevância do presente; o do presente do indicativo foi a noção
modal de comprometimento do falante em relação ao que enuncia no
momento da fala; e o da forma sintética, a ausência da noção de
certeza, gerada pela ruptura com a relevância do presente, o que a
torna psicologicamente neutra, distante e imparcial, produtiva,
portanto, para contextos mais formais e injuntivos; (c) as formas de
presente do indicativo e perifrástica se aproximam por estarem
associadas à relevância do presente, por serem mais frequentes em
situações comentadoras, preditivas e em discursos diretos, além de
estarem associadas às modalidades epistêmica e deôntica123(cf.
122
Lemos em Silva (1997, p. 110): “Na descrição, o enunciador conhece algo e
diz como é. Na dissertação, reflete, avalia e conceitua o conhecimento para
fazer saber. Na narração, simplesmente conta os fatos. Na injunção, fala sobre
aquilo que quer ou deseja [...]. Na predição, antecipa os acontecimentos [...]”.
123
Há, na literatura, uma ampla variedade terminológica para definir os tipos de
funções modais. Givón (2001, 2002), por exemplo, diferencia modalidade
deôntica e epistêmica, especificando-as do seguinte modo: associa a modalidade
deôntica às noções de desejo, intenção, obrigação, manipulação; e a modalidade
epistêmica às noções de probabilidade, certeza, crença, julgamento, indicando,
assim, o grau de comprometimento do falante com a verdade daquilo que
enuncia, por meio de uma escala que vai de mais certeza (pressuposição e
realis) a menos certeza (irrealis e asserção negativa), sendo as expressões de
futuro todas consideradas irrealis. Para mais considerações sobre esse tópico,
cf. [Link].
129
[Link]). Em Silva (1997), portanto, já se vê que tipologia textual,
bem como diferentes gêneros podem favorecer os usos de formas
que expressam futuridade. Mesmo assim, de lá para cá, apenas no
trabalho de Tesch (2011) encontramos esses elementos
operacionalizados em análise quantitativa. E, embora Silva (1997) e
Tesch (2011) tenham trabalhado com diferentes abordagens
conceituais quanto à classificação das tipologias textuais124, o que os
resultados dos dois trabalhos indicam é que esses dois componentes
(gênero e tipologia textual) são relevantes para o condicionamento de
uso das formas de FP. De maneira mais geral, Silva (1997) concluiu
que o FS tende a ocorrer em estruturas mais formulaicas quer da
fala espontânea quer da fala oficial mais formal, enquanto as demais
formas tendem a acorrer na fala informal espontânea (SILVA, 1997,
p. 198).
3. Oliveira (2006) também analisou 12 inquéritos do tipo EF, do
projeto NURC, da década de 1970, homogeneamente
representativos das cidades de Salvador e do Rio de Janeiro, dos
dois sexos e das três faixas etárias em que se estratifica esse banco
de dados. A pesquisadora encontrou os seguintes resultados: 81
(17%) usos de FS; 358 (73%) de perífrases com ir; 51 (10%) de P,
totalizando 490 ocorrências. Nota-se, portanto, nessa amostra, a
presença de FS na expressão de futuridade, embora com frequência
de uso bem menor que a da forma perifrástica.
***
Desse conjunto de pesquisas, chama-se atenção para o seguinte
aspecto, dando continuidade à argumentação empreendida na discussão
da subseção anterior. Essas pesquisas têm em comum o fato de
encontrarem poucos registros da forma sintética em diversos contextos
da oralidade, embora o uso dessa forma, nesses contextos, seja bem
mais expressivo que no contexto de entrevistas sociolinguísticas. Com
isso, reforça-se o ponto de nossa argumentação: a frequência de uso das
formas de um fenômeno variável deve ser vista, quanto à prospecção
124
Tesch (2011) adotou propostas de diferentes autores (SCHIFFRIN, 1994;
COSTA, 1997; BONINI, 2005; entre outros) quanto à classificação dos tipos
textuais, mas não adotou a proposta de Weinrich (1964), forte em Silva (1997).
130
dos rumos do fenômeno em termos do que ela representa
especificamente no âmbito do contexto de uso (/gênero) analisado.
Para reforçar essa compreensão, além das discussões já
apresentadas, convoca-se a pesquisa de Barbosa (2007), publicada no
artigo A expressão do futuro no português brasileiro contemporâneo,
pois seus resultados são esclarecedores. Partindo das considerações de
Silva (1997) de que diferentes tipologias, bem como a sobreposição
modal/temporal, são relevantes para os usos das variantes de FP, essa
pesquisadora analisou um corpus com diferentes tipos de textos da
modalidade escrita, que representam grau máximo de formalidade125.
Com isso, encontrou os seguintes resultados: 240 usos de FS, contra
apenas 2 de IR/PRE e 2 de P. Nesse sentido, a forma mais conservadora
não apenas ocorreu, mas predominou nesses tipos de textos, que
constituem, na verdade, um híbrido entre fala e escrita, uma vez que, em
termos de produção, esses textos são escritos, mas em termos de
recepção, são oralizados.
Com isso, o prognóstico de substituição da forma sintética pela
perifrástica na língua ou em contextos orais (em geral) perde força,
fazendo ver que prognósticos desse tipo podem ser feitos apenas para
tipos específicos de uso da língua (/de gêneros), o que já não interessa
muito à vertente da Sociolinguística Variacionista que orienta as
pesquisas revisadas em toda esta seção (1.2), pois seu objetivo é
justamente obter resultados que possam ser generalizados – cf. Freitag,
Martins e Tavares (2012). Como lidar com esse impasse?
Tendo em mira ainda alguns aspectos específicos das pesquisas
aqui apresentadas, observa-se que a análise de Silva (1997) ratifica a
relevância dos fatores tipo de discurso (leia-se, nesse autor, tipologia
textual)e (tipo de) modalidade (oral/escrita) da língua para o
condicionamento dos usos de FP. Como vimos, Silva (1997) encontra
125
A autora examinou: (a) discurso de posse do presidente Collor (1990); (b)
discurso de posse do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995); (c)
discurso de abertura do Fórum Nacional sobre a reforma fiscal do senador
Mauro Benevides (1991); (d) pronunciamento do ex-ministro das Relações
Exteriores Celso Lafer: A Inserção Internacional do Brasil (1993); (e)
pronunciamento de Pedro Simon no Senado (1993); (f) discurso do senador
Pedro Simon dedicado a Ulisses Guimarães; (g) discurso de posse do senador
Gilberto Miranda no Senado (1990); (h) carta-discurso do senador Mauro
Benevides em homenagem a Darcy Ribeiro (1993); (i) carta-discurso de posse
de Darcy Ribeiro na Academia Brasileira de Letras (1993).
131
registros dessa forma mais conservadora no discurso injuntivo, por
exemplo, observando ainda que “[é] preciso acrescentar a proximidade
do discurso injuntivo e normativo ao polo daescrita, no contínuo
tipológico das práticas sociais de produção textual” (SILVA, 1997, p.
198). Subjacente a esta conclusão, portanto, está a compreensão de que
há um contínuo entre fala e escrita, organizado em torno da formalidade.
Considerando que cada tipo de modalidade de uso da língua
constitui-se de um conjunto de práticas, acrescentaríamos às
considerações de Silva (1997, p. 198) que influencia/pode influenciar o
uso de FS a proximidade do discurso injuntivo e normativo, tendo em
vista o gênero da escrita em que os dados se localizam. Nesse caso, a
foco não recai apenas sobre os aspectos relativos à oralidade ou à
escrita (em geral), mas, sobretudo, sobre os aspectos constitutivos de
determinado gênero, cuja análise se dá verticalmente, considerando as
especificidades dos gêneros, para além da modalidade (oral/escrita) em
que se apresenta.
1.3 RETOMANDO E AVANÇANDO
Neste primeiro capítulo, focalizando o fenômeno em
variação/mudança em tela – a expressão do futuro do presente – busquei
assinalar alguns aspectos que envolvem (e complexificam), a expressão
do futuro do presente, quais sejam: (i) o fato de essa expressão codificar
as (sub)funções de tempo, aspecto e modalidade, articuladamente, uma
vez que está sob o escopo do domínio funcional TAM; (ii) o fato de a
categoria gramatical de tempo se alicerçar, com base na distinção entre
tempo cronológico, tempo psicológico e tempo gramatical, propriamente
dito, em três diferentes elementos (o momento de fala, o momento de
ocorrência das situações referidas e o momento de referência), tornando-
se, assim, uma categoria dêitico-anafórica, de escopo sintático e também
pragmático-discursivo.
Frente a esses aspectos, destaquei da literatura a compreensão
de que a referência ao futuro está fortemente associada à avaliação que
os falantes fazem do estado de coisas que conhecem no presente – daí a
expressão desse tempo representar, na verdade, uma projeção de alguns
estados mentais e emocionais dos falantes, associando-se, então, menos
ao tempo dos acontecimentos no mundo do que à avaliação que os
falantes fazem sobre a potencialidade de ocorrência desses
acontecimentos. Como consequência disso, adotei a compreensão de
que a expressão do futuro faz parte, na verdade, do mundo construído
132
discursivamente (leia-se, comunicativamente, por meio da linguagem), e
não do mundo real.
Tendo em vista que a expressão de futuro envolve situações
temporais de posterioridade, de futuridade e de futuro do presente,
sendo esse último o fenômeno em questão, nesta tese, adotei para ele a
definição a seguir, tomando como critério a noção de tempo.
Quadro 3: Especificação da definição de futuro do presente
Futuro do presente:
Refere-se a situações que se projetam para além do momento de fala e que
tomam esse momento (quer direta quer indiretamente) como ponto de
referência, contemplando os seguintes casos:
(i) uma (única) situação;
(ii) duas ou mais situações em que uma é posterior a outra;
(iii) duas ou mais situações em que uma é cotemporal a outra;
(iv) duas ou mais situações em que uma é anterior a outra –
considerando ainda que as situações em (ii), (iii) e (iv)podem ser
ou não sintaticamente contíguas.
Além disso, considerei que o termo futuro do presente remete
tanto a uma categoria verbal, evocando a noção de forma, quanto a um
domínio funcional, evocando a noção de função, o que significa dizer,
nesse último caso, que, para cada referência a situações futuras, as
formas agenciadas para tal podem atualizar três tipos de funções
correlacionadas: a temporal, propriamente dita, mas também a aspectual
e a modal, uma vez que o domínio funcional do futuro do presente está
sob o escopo do (macro)domínio funcional TAM.
Por essa razão, assumi também que as diferentes formas do
domínio funcional do futuro codificam a mesma função (conforme
especificação do Quadro 3, estando nisso implicadas as funções TAM)
ou funções similares (visto que as formas podem codificar mais
proeminentemente ou tempo ou aspecto ou modalidade).
Nesse contexto, explanei que, segundo a literatura da área, o
inventário das variantes existentes para a codificação de um domínio
funcional, numa dada sincronia, é, na verdade, a soma total das várias
vias de gramaticalização diacrônica, partindo de um possível domínio-
fonte funcionalmente similar. Para a expressão do futuro do presente,
estudos tipológicos indicam que há formas-fontes privilegiadas comuns
em muitas línguas, dentre elas as que indicam desejo e movimento em
direção a, tal como o verbo querer e ir, no PB, respectivamente.
Assim, é por meio do processo de gramaticalização que
diferentes construções passam a codificar as funções do domínio
133
funcional de futuro ou, dito de outro modo, é em decorrência de
processos de mudança que se instaura variação no âmbito desse domínio
funcional. Panoramicamente, resgatei como forma sintética e
construção perifrástica com ir + infinitivo chegam ao PB, embora tenha
assinalado também que as funções que essas formas expressam são
codificadas, atualmente, por um amplo conjunto de formas, a ponto de
se constituir, no âmbito do domínio funcional de futuro do presente, a
seguinte situação: (i) várias formas codificam suas (sub)funções
(podendo algumas se especializar para expressar com mais
proeminência um tipo de função); (ii) uma forma pode codificar funções
desse e de outros domínios funcionais; (iii) havendo ainda casos em que
uma forma codifica funções ambíguas.
Embora a literatura indique, por um lado, (i) que formas que
expressam principalmente tempo tendem a ser sintéticas e formas que
expressam principalmente modalidade (e aspecto, pelo que
compreendemos) tendem a ser analíticas – sendo, inclusive, o processo
cíclico forma sintética > forma analítica>forma sintética um padrão das
línguas romances, a fim de se garantir a codificação proeminente dessas
três funções –, indica também, por outro lado, (ii) que a relação
forma/função se estabelece a depender: (a) do conjunto de relações
estabelecidas entre todas as formas e funções do domínio, visto que
ocorre uma distribuição de (sub)funções a cada uma das formas
constitutivas do domínio; (b) do grau de gramaticalização das formas
quanto à codificação das (sub)funções do domínio (uma vez que as
formas vão assumindo determinadas funções e subfunções a depender
do ponto em que estão na seguinte rota de gramaticalização:
aspecto/modalidade tempo modalidade); e (c) do próprio uso
efetivo da língua, passível de atualizar essa relação. Com isso, verifica-
se que instabilidade é uma característica comum à categorização das
formas de expressão de futuro – porque elas são propensas à mudança
semântica. Os efeitos disso, do ponto de vista teórico, são: (i) a assunção
de continuum categorial e (ii) a relativização da noção de categoria ao
discurso (leia-se à língua em uso).
Embora a literatura admita que as formas e funções de um
domínio funcional estão todas inter-relacionadas, a ponto de admitir que
as variantes sincrônicas de hoje são os recursos potenciais para as
mudanças diacrônicas de amanhã, admite também que quando uma
função é expressa por duas ou mais formas, tende a mudar para um
cenário em que a função passe a ser expressa por apenas uma forma –
ou porque uma das formas absorve as funções das demais (caso de
especialização por generalização) ou porque cada forma variante se
134
especializa para codificar um tipo de função ou ocorre em um
determinado tipo de contexto sociocultural, estilístico e linguístico (caso
de especialização por especificação).
Todos esses pontos foram tratados em 1.1 e tinham por
objetivo indicar as noções que envolvem a expressão do futuro do
presente.
Na sequência, na seção 1.2, passei a mapear pesquisas
brasileiras sobre a expressão desse futuro, no PB, a fim de obter um
panorama quanto às relações constituídas entre formas e funções, bem
como diagnosticar os procedimentos teórico-metodológicos constituídos
por essas pesquisas na investigação do fenômeno em tela, com vistas ao
estado da arte sobre esse tema.
Revisitando um conjunto de 16 pesquisas (A. SANTOS, 1997;
J. SANTOS, 2000; GIBBON, 2000; NUNES, 2003; OLIVEIRA, 2006;
BRAGANÇA, 2008; MALVAR; POPLACK; 2008; FONSECA, 2010a;
SILVA, 2010; STRONGENSKI, 2010; TESCH, 2011; GIBBON (s/d);
BALEEIR, 1988; SILVA, 1997; VIEIRA, 2014; GIBBON, 2014),
referentes a dissertações e teses, e agrupando-as, para efeitos de análise,
de acordo com os tipos de amostras constituídas em cada uma delas,
observei os seguintes aspectos:
(i) A base teórica que as orienta é:
a. a perspectiva variacionista, quando o foco dos
pesquisadores é a variação no domínio funcional do
futuro do presente, embora grande parte das pesquisas
não acione esse último conceito, e sim o de variável
linguística;
b. a perspectiva funcionalista norte-americana, quando o
foco dos pesquisadores é o processo de
gramaticalização principalmente da construção ir +
infinitivo;
c. as duas perspectivas anteriores de forma
complementar, quando os pesquisadores observam
tanto o processo de gramaticalização das formas que
passam a assumir funções do domínio funcional de
futuro quanto a variação que esse processo suscita.
(ii) O ponto de partida das pesquisas é:
135
a. Predominantemente as formas (e não a(s)função(ões)
do domínio funcional), tendo em vista, mais
frequentemente, as seguintes formas: FS, IR/PRE,
IR/FS, P e PH – embora nem sempre haja equivalência
entre as pesquisas quanto ao modo como classificam as
formas (em termos de futuro sintético ou perifrástico).
(iii) Do ponto de vista metodológico:
a. as pesquisas são predominantemente quantitativas;
b. examinam diferentes tipos de amostras, constituídas
por diferentes tipos de gêneros;
c. as variáveis de análise controladas são
predominantemente de natureza morfossintática e
semântica e, em segundo plano, com bem menos
fôlego, de natureza pragmática, textual e social, tendo
em vista, nesse último caso, categorias macrossociais.
(iv) Os resultados obtidos, em geral, indicam:
a. competição mais acirrada entre FS e IR/PRE;
b. processo de mudança em curso ou quase completado,
com previsões de substituição da forma sintética (na
língua, na oralidade, na oralidade informal) pela
construção ir + infinitivo, ou especialização delas – a
primeira para a escrita e a segunda, para a fala.
Desse conjunto de informações, problematizei especialmente
questões relacionadas aos aspectos metodológicos e ao modo de se
compreender os resultados, indicando, por exemplo, que:
(i) embora as pesquisas acionem dados de diferentes gêneros –
fazendo ou não menção a esse conceito – tendem a fazer
referência à amostra a partir da perspectiva da modalidade
(amostra escrita e amostra oral), não identificando, portanto, as
especificidades dos diferentes tipos de gêneros que constituem
uma amostra escrita ou uma amostra oral; com isso, verificam-se
generalizações do tipo a escrita seleciona a forma sintética e a
oralidade, a perifrástica com ir + infinitivo; nisso, verifica-se
uma dicotomização entre fala e escrita, além de não termos
localizado nas pesquisas ponderações teóricas sobre a relação
136
entre fala e escrita, que poderiam, por exemplo, orientar a análise
de dados coletados em gêneros híbridos. Considerando que fala e
escrita constituem um quase infinito de práticas sociais, como
compreender a relação entre gêneros e as modalidades sem, nesse
último caso, dicotomizá-las (mesmo que em polos de um
continuum)? Como compreender o processo de migração de
mudanças que se iniciam em gêneros da fala e chegam a gêneros
da escrita?
(ii) a despeito de as variáveis independentes controladas na análise
desse fenômeno serem predominantemente de natureza
morfossintática e semântica, o controle de variáveis como campo
de atividade humana (ou domínio social), com vistas ao controle
do tipo de interação (assimétrica ou simétrica) que se estabelece
entre os participantes, mostrou-se significativa, o que indica que
aspectos pragmáticos e/ou histórico-culturais são relevantes no
condicionamento da expressão do futuro do presente, embora
esses aspectos ainda tenham sido pouco examinados; assim,
aventa-se a hipótese de esses aspectos serem produtivos,
merecendo, talvez, análise qualitativa;
(iii) embora as pesquisas consultadas indiquem que a concorrência na
expressão do futuro é entre FS e IR/PRE, alguns estudos
identificaram concorrência entre FS e P, do que se depreende que
esse é um ponto a ser investigado em termos de contexto de uso –
e não generalizável para todos os usos possíveis da língua; com
isso, considerei que generalizações de resultados poder ser feitas
em relação ao próprio contexto de uso examinado, compreensão
que entra em conflito com os interesses da própria
sociolinguística variacionista que orienta os trabalhos: como lidar
com o impasse entre orientação teórica e resultados de pesquisa?
Além disso, observei ainda o seguinte ponto: segundo Hopper
(1991), a diversidade formal de um domínio funcional pode se
especializar em termos de: (i) itens lexicais ou construções; (ii) registros
sociolinguísticos; e as formas de um domínio podem ainda ter (iii)
significados ligeiramente diferentes; e (iv) serem reconhecidas como
alternativas estilísticas. Considerando que as pesquisas revisadas dam
conta da investigação do tópico (i), nos termos de Hopper, caberia ainda
investigar de que modo os demais aspectos motivam a expressão do
futuro do presente, tendo em mira que:
137
(i) registro sociolinguístico é definido, no âmbito da
Sociolinguística Variacionista, de um perspectiva ampla, “como
um tipo de gênero social do uso linguístico, [e] poderia
equivaler a um tipo de gênero textual ou discursivo” (DA
HORA, p. 77)126; assim, esse tópico demandaria análise de
gêneros (textuais ou discursivos) para compreensão dos
fenômenos variáveis, o que já se vê ser relevante também em
resultados de pesquisa que controlaram gênero como variável
independente;
(ii) significados ligeiramente diferentes evocam o estudo tanto das
especificações funcionais das formas, tendo em vistas as
(sub)funções TAM, quanto do significado social das formas
variantes. O primeiro tipo de especificação se faz com o
controle das (sub)funções TAM que as formas atualizam;
porém, como visto, grande parte das pesquisas não focaliza
essas funções, mas as formas de FP: tem-se, assim, um
importante ponto de análise que não pode ser desconsiderado no
exame da expressão do futuro do presente, sobretudo porque
essa expressão constitui-se fundamentadamente a partir dessas
funções. O segundo tipo de especificação (o significado social)
não foi tratado por nenhuma das pesquisas, ao que se poderia
indagar por que, dando ensejo ainda à pergunta sobre como
seria o tratamento metodológico dessa questão, no âmbito dos
campos teóricos agenciados;
(iii) alternativas estilísticas demandam o exame do estilo, aspecto
que também não foi considerado pelas pesquisas, no exame
desse fenômeno. O que é estilo, no âmbito dos estudos que
focalizam a variação, e como se faz metodologicamente uma
análise estilística desse fenômeno é um ponto ainda a ser
investigado.
126
DA HORA, Dermeval. Aula de Sociolinguística. Disponível em:
<[Link] Acesso em:
06 abr. 2017.
138
Deste capítulo, então, concluí que, embora o fenômeno em tela
seja vastamente estudado na literatura, ainda há um conjunto de pontos
não investigadas, estando esses especialmente ligadas, dentre outros
aspectos:
a) à correlação entre formas e (sub)funções TAM, no âmbito desse
domínio funcional – questão tratada nos estudos examinados,
mas que ainda deixou espaço para correlações mais detalhadas;
b) ao significado social dessa variação;
c) à correspondência entre aspectos socioculturais e usos desse
fenômeno;
d) à relação entre tipo de registro sociolinguístico ou gênero
(textual ou discursivo) e formas e funções agenciadas para a
expressão do futuro; nesse âmbito ainda, à correlação entre
alternativa estilística e expressão de futuro.
***
Apenas considerando os aspectos elencados, é possível inferir
que, para além dos campos explicitamente agenciados para tratamento
desse fenômeno (quais sejam, o funcionalista e o variacionista), uma
abordagem sobre análise de gêneros parece também estar indiciada,
tanto na literatura sobre fenômenos variáveis (em geral) quanto nos
resultados das pesquisas brasileiras sobre esse fenômeno (em
particular): mas, qual tipo de abordagem de gênero agenciar para o
exame de fenômenos variáveis e em processo de gramaticalização –
uma abordagem textual ou discursiva?
Tendo em vista que, além dos resultados da revisão da literatura
mencionada, a visão de que a língua é inseparável de seu conteúdo
ideológico também dirige esta pesquisa, opta-se por acionar uma
perspectiva discursiva de análise de gênero para se refletir sobre como
essa abordagem de gênero poderia integrar o campo teórico-
metodológico a partir do qual o fenômeno em tela é investigado (o
variacionista e o funcionalista) e assim contribuir para o exame das
questões ainda não consideradas sobre ele – bem como para o exame de
fenômenos em variação/mudança de natureza similar, em geral.
Além disso, considerando que há diferentes vertentes teórico-
metodológicas no âmbito dos estudos linguísticos que se dedicam ao
139
estudo do discurso127, elege-se a perspectiva bakhtiniana, uma
abordagem de natureza histórico-cultural e com amplo tratamento sobre
a questão dos gêneros (do discurso). Com isso, assume-se a premissa de
que a expressão do futuro do presente ainda pode ser examinada sob um
novo ângulo, o ângulo discursivo.
Acomodando, então, as questões apresentadas (quanto aos
aspectos ainda não investigados), no âmbito dos campos já acionados
para o estudo desse fenômeno (o funcionalista e o variacionista), bem
como considerando a perspectiva bakhtiniana, é possível estabelecer
(por hipótese) a associação, apresentada no Quadro 4, quanto à tratativa
dos tópicos mencionados, tendo em vista os interesses típicos (mais
proeminentes) de cada um deles.
Quadro 4:Correlação entre questões sobre a expressão do futuro do presente
ainda não investigadas e campos teóricos que podem produzir conhecimento
sobre cada uma delas
a. Estudo da correlação entre
formas e (sub) funções TAM, Perspectiva funcionalista norte-
tendo em vista o conceito de americana
domínio funcional
b. Estudo do significado social da Perspectiva sociolinguística
variação variacionista
c. Estudo da correspondência Perspectiva bakhtiniana
entre aspectos socioculturais e Perspectiva funcionalista norte-
usos desse fenômeno americana
d. Estudo da relação entre tipo de
registro sociolinguístico ou Perspectiva bakhtiniana
gênero (textual ou discursivo) Perspectiva sociolinguística
e formas agenciadas para a variacionista
expressão do futuro
e. Estudo da correlação entre Perspectiva bakhtiniana
alternativa estilística e Perspectiva sociolinguística
expressão de futuro variacionista
Com isso, estamos compreendendo que o tratamento das
questões ainda não investigadas sobre esse fenômeno parece convocar
127
Dentre elas: (i) a francófona, representada pelos estudos de Foucault,
Pêcheux, Maingueneau e Charaudeau; e (ii) a anglo-saxã, representada pelos
trabalhos de Fairclough, Kress e Talbot, dentre outros.
140
os três campos teóricos, concomitantemente. O que precisa ser
examinado, contudo, é:
a) Até que ponto essas três perspectivas teóricas podem entrar em
diálogo para produzir conhecimento sobre fenômenos variáveis
e, especificamente, sobre o fenômeno da expressão do futuro do
presente, tendo em vista as questões acima mencionadas, ainda
não consideradas na literatura? É possível depreender do
diálogo entre esses campos, uma abordagem transdisciplinar
para tratamento de fenômenos em variação/mudança?
b) Até que ponto os tópicos de análise recobertos por mais de uma
abordagem recebem o mesmo tratamento? Por exemplo: no
estudo da correlação entre alternativa estilística e expressão do
futuro, a perspectiva variacionista e a bakhtiniana entendem do
mesmo modo a concepção de “alternativa estilística”, isto é,
entendem do mesmo modo a concepção de “estilo”?
Tendo em vista essas questões, organiza-se a Parte II desta tese
em torno de revisões quanto à fundamentação teórico-metodológica dos
três campos acima considerados, com vistas, na sequência (Parte III), a
respostas quanto à identificação de vias pelas quais se pode promover
uma interface entre eles para a investigação de fenômenos variáveis, em
geral, e da expressão variável de futuro do presente, em particular.
Segue-se a Parte II desta tese.
PARTE II
OS CAMPOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS
143
Esta parte da tese contempla o segundo objetivo geral de
pesquisa, qual seja: “revisitar os três campos teóricos que propomos que
sejam agenciados e articulados para tratamento da variação/mudança”.
Nessa empreitada, orienta-se pela seguinte questão:
(1) Quais são os principais pontos epistemológicos e teórico-
metodológicos que caracterizam: (i) o funcionalismo norte-
americano e a abordagem da gramaticalização, (ii) a
sociolinguística variacionista, considerando as diferentes
fases que a constituem, e (iii) a perspectiva discursiva
bakhtiniana?
Constituindo-se em torno de três capítulos (Capítulo 2, 3 e 4),
essa parte apresenta os campos mencionados a partir do critério de
contiguidade teórico-conceitual em relação à ótica sob a qual se tomou o
fenômeno em foco. Assim, apresenta-se, inicialmente, o campo
funcionalista; na sequência, o variacionista; e, por fim, o campo que se
convoca para integrar abordagens sobre variação/mudança, o dialógico.
Com essa revisão, objetiva-se (especificamente) obter diretrizes
(epistemológicas, teóricas e metodológicas) para o exame dos seguintes
aspectos, retomados na Parte III (Capítulo 5) da tese:
a) Em que medida gêneros do discurso, formas e funções se
articulam?
b) Como estudar o significado social da variação, à luz dessas
três perspectivas teóricas?
c) De que modo aspectos socioculturais (e quais aspectos)
estão (podem estar) implicados na expressão de fenômenos
variáveis?
d) Qual a relação entre estilo (e o que é estilo?) e expressão
variável?
Para além da identificação de conceitos e de métodos típicos de
cada campo, o que se busca é a possibilidade de se constituir uma
abordagem cuja chave de leitura, para fenômenos em
variação/mudança, seja suficientemente ampla para acomodar questões
relacionadas a uma possível associação entre gêneros do discurso,
formas e funções, sem se perder de vista que estamos também em busca
de uma abordagem linguística que dê conta da relação que se estabelece
entre língua e ideologia.
145
CAPÍTULO 2
O FUNCIONALISMO NORTE-AMERICANO E A ABORDAGEM
DA GRAMATICALIZAÇÃO
“Não se pode estudar a evolução da palavra dissociando-a da evolução da
verdade”. (BAKHTIN [VOLOCHÍNOV], 2014 [1929], p. 202).
“Se a pragmática é, em algumas ocasiões, logicamente anterior à semântica,
uma teoria linguística geral simplesmente deve incorporar a pragmática
como componente ou nível de uma teoria integrada global”
(LEVINSON, 1983 apud GIVÓN, 2005, p. 36).128
INTRODUÇÃO
O objetivo deste capítulo é apresentar alguns dos principais
aspectos que constituem o campo funcionalista dos estudos linguísticos
e, no âmbito dela, a abordagem da gramaticalização129, visto que o
processo de variação no escopo do domínio funcional do futuro do
presente decorre também de mudança por gramaticalização.
Ressalte-se que, por conta da natureza do fenômeno em
variação/mudançaem tela, alguns aspectos funcionalistas já foram
considerados no Capítulo 1, tais como a noção de domínio funcional, a
da relação entre formas e funções que se estabelece nesse âmbito, a da
multifuncionalidade das formas em processo de gramaticalização. Além
disso, a fim de didatizar a articulação entre os três campos agenciados
nesta tese (o funcionalista, o variacionista e o discursivo/bakhtiniano),
opta-se por apresentar alguns (novos) elementos que caracterizam o
campo funcionalista (e também os demais) no próprio capítulo em que
se promove a articulação, o Capítulo 5. Com isso, adverte-se que as
considerações funcionalistas estão, nesta tese, distribuídas em diferentes
128
“[…] if pragmatics is, on occasions, logically prior to semantics, a general
linguistic theory simply must incorporate pragmatics as a component or level in
the overall integrated theory”.
129
Bybee (2016 [2010]) toma a gramaticalização como uma teoria, não apenas
porque ela faz previsões diacrônicas fortes, mas também porque traz
consequências para a análise sincrônica da língua – e isso a torna uma teoria,
para a autora. Outros autores preferem designá-la como uma abordagem ou
perspectiva teórica. Nesta tese, não se faz diferença entre os termos, podendo-se
usar indistintamente um ou outro.
146
capítulos: neste, focalizam-se questões atinentes à abordagem da
gramaticalização, embora também se contemple questões funcionalistas
mais amplas.
Feita essa observação, resgate-se, antes de se tratar de questões
funcionalistas mais específicas, que essa abordagem dos estudos
linguísticos costuma ser definida em oposição à abordagem formalista,e
caracteriza-se por reconhecer que (i) a língua é competência
comunicativa, (ii) as estruturas linguísticas não são objetos autônomos,
(iii) a explicação linguística deve ser buscada nos usos linguísticos130.
Mesmo o funcionalismo não sendo uma abordagem monolítica, uma vez
que congrega um conjunto de diferentes vertentes, todas elas têm em
comum o fato de contextualizar a língua na situação social em que
ocorre a interação verbal, tendo em vista a premissa de que a estrutura
linguística codifica as necessidades sociais de expressão e de
intercomunicação, devendo, pois, os estudos linguísticos esclarecer as
relações entre forma e função, e especificar as funções que exercem
influência na estrutura gramatical (CASTILHO, 2012).
Nesse contexto, o próprio termo que caracteriza o campo, a
saber, função, pode ser empregado, mais comumente, com cinco
diferentes acepções, no âmbito dos estudos funcionalistas, segundo
identifica Nichols (1984): (i) função/interdependência, no sentido de
que há uma inter-relação entre diversos fatores que influenciam um
fenômeno linguístico, ou seja, função, nessa acepção, assume o valor
matemático de “grandeza dependente de diversas variáveis”; (ii)
função/fim, compreendendo-se que a língua é usada com finalidades
específicas (como pedir, exortar, convencer, etc.); (iii) função/contexto,
considerando, nessa acepção, que a língua é reflexo do contexto
comunicativo131; (iv) função/relação, destacando-se a relação entre uma
unidade estrutural mais alta e suas partes integrantes; (v)
função/significação, em que o termo função assume um sentido mais
amplo, recobrindo aspectos pragmáticos, como a finalidade de uso da
130
Uma visão geral idealizada da dicotomia entre perspectiva funcional e
formal, proposta por Dik (1978, p. 4) (Functional Grammar), pode ser
conferida em Figueroa (1994, p. 22-23).
131
Logo a seguir, com a indicação de algumas especificações do tipo de
funcionalismo com o qual lidamos nesta tese, a noção de que a língua é reflexo
do contexto comunicativo é ressignificada – para a noção de que a língua
interpreta o mundo.
147
língua, como visto em (ii), e a relevância do contexto em que se insere
um ato de fala, como visto em (iii).
Partindo imediatamente para o debate que mais interessa a esta
tese, o funcionalismo aqui abordado focaliza o estudo da função tal
como definição em (v), e filia-se ao funcionalismo norte-americano,
também denominado funcionalismo da Costa Oeste e, mais
recentemente, Linguística centrada no uso ou, ainda, Linguística
cognitivo-funcional (BYBEE, 2003; 2010; BYBEE; PERKINS;
PAGLIUCA, 1994; GIVÓN, 1995; 2001; 2002; 2005; 2012 [1979];
HEINE, 2002; HEINE; CLAUDI; HÜNNEMEYER, 1991a; 1991b;
HEINE; KUTEVA, 2002; 2007; HOPPER, 1991; 1998; HOPPER;
TRAUGOTT, 2003; TRAUGOTT, 2001; 2010; 2012; 2014;
TRAUGOTT; DASHER, 2005; BRAGA; PAIVA, 2015; CEZÁRIO,
2012; MARTELOTTA; ALONSO, 2012; SOUSA, 2015, TAVARES,
2003; 2013; 2014, dentre outros). Desse ponto em diante, então, ao se
fazer referência ao funcionalismo, entenda-se esse funcionalismo,
especificamente.
Sobre as recentes designações desse campo, pode-se considerar
que elas identificam diretamente a natureza das investigações
desenvolvidas em seu âmbito, visto que um de seus principais
pressupostos de trabalho é o de que o conhecimento linguístico dos
falantes se constitui a partir de experiências ou situações comunicativas
particulares, e quanto mais recorrentes forem as experiências com
determinadas formas, mais elas podem impactar as representações
cognitivas dos sujeitos em relação à língua (BYBEE, 2010).
Compreende-se, assim, que a estrutura gramatical se constitui
ininterruptamente, de maneira dinâmica, o que leva alguns autores dessa
vertente funcionalista a afirmar, inclusive, que não há gramática, mas
gramaticalizações (CASTILHO, 2012). A abordagem da
gramaticalização, com isso, é um dos principais focos desse
funcionalismo.
Ademais, como, no âmbito desse campo presume-se uma
indissociável correlação entre uso da língua e cognição132 cabe, de
132
Cognição, no âmbito dessa vertente funcionalista, pode ser entendida como
“processo neurorracional de construção do conhecimento humano a partir da
interação do organismo com o meio [...] diz respeito ao conjunto de operações
mentais configuradoras de nosso sistema conceitual, tendo como base o contato
148
saída, indicar com que linha cognitivista uma abordagem (também)
centrada no uso linguístico se harmoniza, conforme a literatura do
campo – qual seja: (i) com aquela que não acredita na existência de um
nível estrutural ou sistêmico de significação linguística distinto do nível
em que o conhecimento do mundoestá associado a formas linguísticas –
o que aponta para a concepção de que a linguagem interpreta (e não
espelha) o mundo; (ii) que opera com o conceito de iconicidade e com a
visão de que as categorias linguísticas não são discretas; (iii) que recusa
qualquer correlação de causa e efeito entre processos cognitivos e
propriedades linguísticas, dada a compreensão de que a organização
cognitiva da mente humana é (parcialmente) determinada por fatores
culturais; (iv) pelo motivo anterior, com aquela que correlaciona
biologia e cultura, compreendendo essa correlação como sócio-
historicamente mediada (CASTILHO, 2012; MARTELOTTA;
ALONSO, 2012).
Além disso, tanto o funcionalismo praticado por autores como
Givón, Hopper, Bybee e Traugott, sobretudo no que tange ao conjunto
de fenômenos associados à gramaticalização, quanto a linguística
cognitivista com que essa vertente funcionalista dialoga têm em comum
o fato de se inscreverem “no programa geral das teorias que
preconizam a instabilidade do significado atrelado à forma linguística”
(p. 93; grifos nossos), porque essa (a forma) passa a ser vista não como
portadora de significado (estável), mas como “porta para construção
do sentido” (MARTELOTTA; ALONSO, 2012, p. 92). A noção de
cognição, nessa vertente funcionalista, evoca, pois, esses aspectos –
dentre outros.
Sobre a distinção entre significado e sentido, no âmbito dos
estudos funcionalistas, vale destacar o que Castilho (2012) considera ser
um achado na Moderna gramática portuguesa133, de Evanildo Bechara
(1999), que ilustra justamente o raciocínio funcionalista quanto a essa
questão134: Bechara distingue três tipos de conteúdo linguístico, quais
do indivíduo com o ambiente físico e sociocultural em que vive” (CUNHA;
BISPO; SILVA, 2013, p. 18).
133
Essa é uma das gramáticas funcionalistas publicadas no Brasil, segundo
Castilho (2012).
134
Note-se que Castilho está apontando o raciocínio funcionalista de Bechara
em relação a um ponto específico – distinção entre três tipos de conteúdo
linguístico. De igual modo, ao retomarmos as observações de Castilho, não
estamos considerando que todo o pensamento de Bechara é funcionalista.
149
sejam: (i) a designação (que é a referência a uma realidade
extralinguística); (ii) o significado (que é um conteúdo ou a especial
configuração da designação em uma língua particular); e (iii) o sentido
(que é “o especial conteúdo linguístico que se expressa mediante a
designação e o significado, sentido que [...] vai além desses outros
conteúdos e o que corresponde às atitudes, intenções ou suposições do
falante”) (p. 26; grifos nossos).
Exemplificando a questão, Castilho considera que se em “a
porta está fechada” tem-se a designação de uma realidade
extralinguística; em “fulano é uma porta fechada”, tem-se um
significado que ultrapassa as designações de “porta” e “fechada”,
embora se ancore nelas, para a constituição de uma “especial
configuração”; agora, se, contudo, numa tarde de calor se comente com
alguém que a porta (de um dado recinto) está fechada, “estou sugerindo
que ele abra a porta, somando, com isso, a designação e o significado,
para atingir o sentido, ou seja, para ‘dizer o que não foi dito’”
(CASTILHO, 2012, p. 27; grifos nossos) – e este é precisamente o
raciocínio funcionalista que Castilho destaca em Bechara:não se deve
limitar a mirada investigativa, nos estudos linguísticos, às estruturas
gramaticais, pois a Semântica (= domínio da designação e da
significação, na terminologia de Bechara, segundo Castilho) e o
Discurso (= domínio do sentido) são indispensáveis para o melhor
entendimento do funcionamento de uma língua natural, dada a premissa
de instabilidade da relação entre significado e forma linguística, com
vistas à produção de sentido.
Note-se que, pela especificação acima, o que o discurso produz,
ao ser tomado, no âmbito funcionalista, como o uso real da língua em
situações específicas de comunicação e sendo visto como “composto por
elementos de inovação (o que torna aquele discurso único, diferente de
qualquer outro) e de repetição (de construções gramaticais, de palavras e
mesmo da moldura discursiva, como gênero e tipo de texto)”
(CEZÁRIO, 2012, p. 22), é sentido contextual – por meio da ancoragem
na significação e na designação (para preservar os termos acima
mencionados).
Incorporando, portanto, no estudo da língua, preocupações que
vão muito além da forma, em busca do que não está dito, mas que
constitui o cerne do dizer – se se pode assim considerar –, os estudos
funcionalistas focalizam, de modo geral, aspectos cognitivos e
pragmático-discursivos (além de sociais e estruturais) envolvidos,
articuladamente, no uso da língua. Desse modo, esse campo faz ver
como os usos linguísticos evocam concomitantemente aspectos
150
semânticos e discursivo-pragmáticos; contingentes e regulares;
cognitivos, interacionais e culturais.
A fim de apresentar a explicação funcionalista para alguns
desses aspectos e, com isso, aprofundar o conhecimento sobre o
fenômeno em variação/mudança em foco nesta tese, este capítulo se
organiza do seguinte modo: em 2.1, especifica-se a concepção de língua
e de gramática do campo; em 2.2, considera-se a abordagem da
gramaticalização, focalizando motivações e mecanismos pelos quais ela
se dá, sua caracterização e o papel da frequência de uso para o processo
de mudança; em 2.3, apresentam-se algumas diretrizes metodológicas
dos estudos sobre gramaticalização, destacando tendências (teórico-
metodológicas) atuais sobre esses aspectos, conforme reflexões
desenvolvidas por pesquisadores brasileiros; e, por fim, em 2.4,
sintetizam-se as discussões do capítulo.
2.1 CONCEPÇÃO DE LÍNGUA E DE GRAMÁTICA
Nesta seção apresentam-se brevemente concepções de língua e
de gramática, no âmbito dos estudos funcionalistas norte-americanos,
para disso se depreender, no Capítulo 5, alguns aspectos quanto à
concepção de cognição e de sujeito do campo.
Tendo em vista o pressuposto epistemológico de que cognição e
cultura se articulam no fenômeno da linguagem (cf. 5.1.2), conforme
brevemente se observou na introdução deste capítulo, há que se ter bem
presente que a perspectiva funcionalista é a de que a língua tem “a
capacidade de descrever situações como os humanos as veem”
(BYBEE, 2016 [2010], p. 295). A língua, então, segundo Givón (2001,
2002, 2005), articula o que é da ordem da cognição e o que é da ordem
da comunicação/pragmática, podendo ser dividida em dois subsistemas:
o sistema de representação cognitiva e o sistema de codificação
comunicativa.
O sistema de representação cognitiva é composto, segundo o
autor, por três níveis correlacionados: (i) o léxico conceitual, (ii) a
semântica proposicional e (iii) o discurso/pragmática
multiproposicional. O léxico conceitual caracteriza-se por ser um
repertório de conceitos convencionalizados pela experiência
(codificados por rótulos perceptuais), que são relativamente estáveis (o
que significa que esses conceitos não estão em fluxo de mudanças
rápidas) e socialmente compartilhados (em termos de graus),
constituindo um mapa cognitivo estocado na memória semântica das
experiências dos sujeitos. Pode representar uma entidade relativamente
151
estável no tempo (tipicamente um nome); um evento mais temporário
(tipicamente um verbo); uma qualidade estável ou estado temporário
(tipicamente um adjetivo).
Ainda de acordo com Givón, o nível cognitivo da semântica
proposicional diz respeito ainformações sobre eventos/estados e
entidades participantes. Tais informações são processadas e estocadas
na memória episódico-declarativa e correspondem, no plano gramatical,
ao âmbito da estrutura argumental, ou da oração. Já o nível cognitivo do
discurso multiproposicional – nível predominante no discurso humano –
refere-se ao processamento e armazenamento, na memória episódico-
declarativa, da combinação de informações sobre eventos/estados e
participantes, e corresponde ao âmbito da pragmática discursiva135 ou da
pragmática comunicativa, que abarca orações combinadas num discurso
coerente. (GIVÓN, 2001, 2002). Esses três diferentes níveis funcionam
articuladamente, tanto em termos de processamento (ordem da
cognição) como em termos de uso efetivo da língua (ordem da
pragmática comunicativa).
Já o sistema de codificação comunicativa, segundo
Givón,envolve os seguintes instrumentos de codificação: (i) os códigos
periféricos sensório-motores (relacionados aos domínios da fonética, da
fonologia e da neurologia) que codificam o léxico, e (ii) o código
gramatical, que codifica, de forma articulada, a semântica proposicional
e o discurso/a pragmática multiproposicional. Nesse sentido, é no
contexto de uso que se observa a função comunicativa das construções
gramaticais, que refletem as intenções comunicativas dos interlocutores
e cujo escopo são as relações coerentes entre as proposições e seu
contexto discursivo-pragmático.
A gramática, por sua vez, pode ser vista, nos termos givonianos,
como função adaptativa e como estrutura. A primeira (função
adaptativa) concerne ao papel da gramática no processamento da
informação, envolvendo tanto (i) representação cognitiva quanto (ii)
comunicação da experiência ou do conhecimento – nos termos já
descritos nos parágrafos precedentes. A segunda (estrutura) corresponde
ao código gramatical, que envolve um conjunto de mecanismos mais
primários – morfologia, entonação, ritmo e ordem sequencial de
135
Reitera-se que no funcionalismo discurso se refere, de maneira geral, tanto à
língua em uso, como a porções textuais (multiproposicionais) para além do
nível da sentença.
152
morfemas ou palavras –, e níveis mais abstratos de organização
gramatical – organização hierárquica de constituintes; relações
gramaticais (como sujeito e objeto); categorias gramaticais (como nome,
verbo, sintagma nominal); relações de escopo e relevância (como nome–
modificador e sujeito–predicado); relações de regência e controle (como
concordância, correferência, finitude). (GIVÓN, 2005).
Além disso, gramática, segundo Bybee (2010), também “pode
ser pensada como a organização cognitiva da experiência com a
língua” (BYBEE, 2010, p. 8; grifos nossos)136 e, portanto, como um
repertório mais regularizado de conhecimento linguístico embora, por
ser constituído nas e pelas experiências de uso, seja passível de
mudanças.
O papel da gramática, como já dito, é o de codificar
simultaneamente os níveis da semântica proposicional e da pragmática
discursiva, o que é realizado mediante os seguintes subsistemas
principais: papéis gramaticais (sujeito, objeto direto); definitude e
referência; anáfora, pronome e concordância; tempo, aspecto,
modalidade e negação; de-transitividade; topicalização; foco e contraste;
relativização; atos de fala; junção oracional e subordinação. (GIVÓN,
2001, 2002). Esses subsistemas desempenham funções discursivo-
pragmáticas, tais como: de coerência referencial (papéis gramaticais,
definitude e referência etc.); de coerência de eventos, com
estabelecimento de grounding temporal, aspectual e epistêmico-deôntico
(tempo, aspecto e modalidade); de coerência de cadeia de eventos
(conectores oracionais etc.) (GIVÓN, 2005). A gramática, portanto,
pode ser vista como um código de relações de coerência entre a
proposição e o contexto mais amplo do discurso.
Precisamente por esse último motivo, a gramática, do ponto de
vista funcionalista, não é estática, mas dinâmica e emergente (HOPPER,
1998), uma vez que precisa compatibilizar a dimensão gramatical à
pragmático-discursiva (OLIVEIRA, 2012). Disso resulta que a
gramática pode ser caracterizada como tendo uma estrutura complexa
adaptativa, fortemente dependente do processamento on-line na
interação (GIVÓN 2001, 2002), pressionado por diversos fatores em
competição (fatores de natureza cognitivo-comunicativa e
sociolinguística) (HOPPER; TRAUGOTT, 2003).
136
“[...] grammar be thought of as the cognitive organization of one’s
experience with language.”
153
Comparando as concepções de língua e de gramática, conforme
se apresentou até aqui, pode-se depreender que a visão funcionalista é a
de que ambas (i) estabelecem uma relação de coerência entre proposição
e contexto discursivo-pragmático e (ii) (por isso mesmo) são dinâmicas
e emergentes.
Sendo, então, língua e gramática um conjunto de princípios
decorrentes da adaptação contextual – a visão funcionalista, inclusive, é
a de que a faculdade da linguagem decorre de uma evolução gradual,
uma adaptação para fins de uma comunicação cada vez mais eficiente
(MARTELOTTA; ALONSO, 2012) –, duas premissas são aceitas nos
estudos funcionalistas137: (i) a de que a língua (e gramática) é (são) uma
atividade, uma forma de ação verbal138que não pode ser estudada sem
se considerar suas principais condições de efetivação; e (ii) a de que é na
contingência da efetivação da atividade linguística que se manifesta a
competência comunicativa dos falantes, depreendida a partir de
regularidades linguísticas.
Essas duas premissas parecem estar em consonância com a
perspectiva tipológica funcionalista, que consiste em localizar
diferenças e similitudes entre as diferentes línguas e a maneira como os
falantes, em cada uma delas, representam o mundo – daí Givón
desenvolver uma abordagem tipológica da gramática (GIVÓN, 2001;
2002) e poder afirmar, por exemplo, que “as línguas podem codificar o
mesmo domínio funcional por mais de um meio estrutural”(GIVÓN,
2002, p. 22)139. A visão, portanto, de que os usos linguísticos se
realizam sob determinadas condições de efetivação e, por isso, são
contingentes, justifica a inclinação funcionalista para uma ampla gama
de aspectos implicados nos usos linguísticos, “sejam eles culturais,
137
Essas premissas se fazem presentes, por exemplo, na coleção Gramática do
português culto falado no Brasil. Cf. Castilho (2012).
138
Segundo Martelotta e Alonso (2012), tanto o Funcionalismo quanto a
Linguística cognitiva são de inspiração wittgensteiniana, para quem língua é
atividade (ação), é forma de vida, no sentido de que representa o mundo,
conforme o sistema de crenças do falante. A influência desse filósofo remonta
ao pensamento sofista, segundo o qual não há verdades universalmente válidas,
uma vez o aspecto subjetivo do homem filtra todas as coisas.
139
“[...] languages can code the same functional domain by more than one
structural means”.
154
comunicativos, de processos de desenvolvimento diacrônicos,
cognitivos, neurológicos ou biológicos” (ibid., p. 22).140
Ilustrando a aproximação dos conceitos de língua e de
gramática, no âmbito dos estudos funcionalistas, bem como
considerando a concepção de que a competência linguístico-
comunicativa dos falantes é constituída e atualizada a partir das
experiências, Givón (2001, 2002, 2005), por exemplo, um dos principais
pesquisadores dessa vertente, orientando-se por preceitos de diversas
áreas do conhecimento, como a biologia, a filosofia, a antropologia e a
psicologia, compreende que
[t]odas as pressões adaptativo-funcionais que
moldam a estrutura sincrônica – idealizada – das
línguas são exercidas durante o desempenho real.
Este é o lugar onde a língua é adquirida, e onde a
gramática emerge e muda. É o lugar onde a forma
se ajusta – de modo criativo e sob estímulo de
interpretações específicas do contexto – a novas
funções e significados estendidos. Este é também
o lugar em que variação e indeterminação são
ingredientes necessários do real mecanismo que
modela e remodela a competência linguística.
(GIVÓN, 2001, p. 6; grifos nossos)141.
Frente a essas considerações sobre língua e gramática, se se
considerar a definição de gramática de Bybee (uma organização
cognitiva da experiência com usos linguísticos efetivos), conforme
anteriormente indicado, pode-se depreender que a própria concepção de
cognição, no âmbito dos estudos funcionalistas, é, para usar os termos
de Givón, moldada durante o desempenho real, lugar em que ela é
constantemente (re)modelada.
140
“[...] be they cultural, communicative, developmental, diachronic, cognitive,
neurological or biological”.
141
“All functional-adaptive pressures that shape the synchronic — idealized —
structure of language are exerted during actual performance. This is where
language is acquired, and where grammar emerges and changes. This is where
form adjusts itself — creatively and on the spur of the moment’s opportunistic
construal of context — to novel functions and extended meanings. This is also
where slop, variation and indeterminacy are necessary ingredients of the actual
mechanism that shapes and reshapes competence.”
155
Na seção seguinte, a partir da própria discussão em torno da
concepção de gramaticalização, recuperam-se e ampliam-se os conceitos
de língua e de gramática dos estudos funcionalistas.
2.2 A GRAMATICALIZAÇÃO NUMA PERSPECTIVA
FUNCIONALISTA
Nesta seção, apresentam-se a concepção funcionalista de
gramaticalização (2.2.1), os aspectos que a motivam e os mecanismos
pelos quais se efetiva o processo (2.2.2), sua caracterização e a direção
da mudança (2.2.3), conferindo ainda destaque ao papel da frequência
de uso de construções em processo de gramaticalização (2.2.4).
2.2.1 Concepção de gramaticalização – e outras implicações sobre
a concepção de língua e de gramática
Uma das grandes questões a que se dedica o funcionalismo
norte-americano tem sido o processo de constituição da gramática,
fenômeno visto como fortemente afetado pelos usos linguísticos, pelos
motivos apresentados na seção anterior. Pode-se dizer, portanto, que
esse campo funcionalista se dedica à compreensão de processos
contínuos e graduais que fazem com que formas e/ou funções que
estiveram num estado X passem a um estado Y, esse último
caracterizado, via de regra, por ser um estado mais abstrato e de uso
mais automático e regular (em termos de processamento), ao que se
chega por meio de muitos estágios sucessivos de mudança. Esse
processo de constituição da gramática ou esse processo de mudança
linguística é o que se denomina gramaticalização, vista como
[...] um ramo da linguística que se dedica a duas
questões: (i) um quadro investigativo para estudar
as relações entremateriais lexicais, gramaticais e
construções na língua, tanto diacrônica quanto
sincronicamente, em línguas particulares/ou
interlinguisticamente; (ii) um termo que se refere
à mudança pelo qual itens lexicais e construções
vêm em certos contextos linguísticospara servir
funções gramaticaise, uma vez gramaticalizados,
continuam a desenvolver novas funções
156
gramaticais. (HOPPER; TRAUGOTT, 2003, p.
18; grifos nossos).142
Por essa especificação, a gramaticalização143, em qualquer uma
de suas designações (ou quadro investigativo ou processo de mudança
pelo qual passa um item da gramática), evoca a relação entre forma e
função e, assim, indicia também a imbricação dos conceitos de
gramática e de língua, como temos argumentado. Se a relação forma-
função é o que está em questão no processo de constituição da
gramática, também é o que está em questão na própria concepção de
língua dos estudos funcionalistas, como se vê em excertos que admitem
que língua também pode ser definida “como um sistema simbólico de
pares de forma e de sentido [leia-se, esse último termo,
função/significação), [sendo a gramaticalização] a teoria das relações
entre pares de forma-sentido” (OLIVEIRA, 2015, p. 23; grifos nossos).
Uma vez que a gramática é vista como a estrutura da língua em
sua face mais regular e automática, considerações do campo
funcionalista sobre o processo de gramaticalização vêm requerendo uma
ampliação em relação ao próprio conceito de gramática (e de língua).
Hopper (1998, p. 148) assim se pronuncia quanto à questão: “[u]ma
visão mais ampla de gramaticalização exige uma modificação da nossa
perspectiva sobre gramática, para uma que conceba a estrutura da
língua como intrinsecamente instável e não fixa, ou seja, como
emergente”144 (HOPPER, 1998, p. 148; grifos nossos).145
142
“For us it is a two-pronged branch of linguistics: (i) a research framework for
studying the relationships between lexical, constructional, and grammatical
material in language, diachronically and synchronically, both in particular
languages and cross- linguistically, and (ii) a term referring to the change
whereby lexical items and constructions come in certain linguistic contexts to
serve grammatical functions and, once grammaticalized, continue to develop
new grammatical functions”.
143
Cf. diversas definições de gramaticalização em Campbell e Janda (2001).
144
Ao final dessa consideração, o autor ainda sugere que, pensando de um ponto
de vista mais amplo, o termo gramaticalização talvez pudesse ser substituído
por termos como estruturação e rotinização, emprestados do campo da
sociologia, em referência aos trabalhos de Giddens (1984) e de Haiman (1994).
Cf. referência desses autores em Hopper (1998).
145
“A wider view of grammaticalization demands a modification of our
perspective on grammar, one which sees structure in language as intrinsically
unfixed and unstable, in other words as emergent”.
157
Numa visão funcionalista moderada, contudo, admite-se a
coexistência de emergências (/inovações) e regularidades, flexibilidades
e estabilidades linguísticas. Pode-se compreender língua como um
contínuo de possibilidades de usos linguísticos em que, numa linha
imaginária, usos criativos (emergentes, flexíveis) estão mais à esquerda,
e usos rotinizados ou mais gramaticalizados, à direita. Entre um extremo
e outro, os usos são caracterizados em termos de graus: menos
gramaticalizados, conforme se aproximam do polo mais à esquerda do
contínuo; e mais gramaticalizados, conforme se aproximam do polo
mais à direita, havendo, inclusive, usos ambíguos.
É nessa direção que Hopper e Traugott (2003, p. 2) assumem
que na língua há uma “tensão entre o que é fixo e menos fixo [tendo em
vista] a relativa indeterminação da língua”146, por ter que se
compatibilizar a dimensão gramatical à dimensão pragmático-discursiva
(cf. 2.1). Desse modo, por conta da própria abordagem da
gramaticalização (e dos resultados de pesquisa sobre esse processo,
nesse quadro teórico), tensão (entre regular e irregular), indeterminação,
variação e mudança são termos essenciais na caracterização do conceito
de língua, a ponto de a demarcação entre os conceitos de língua e
gramática ser fluida.
Pode-se dizer, então, que usos linguísticos mais criativos e
inovadores também fazem parte da língua/gramática, embora nem
sempre sejam compartilhados socialmente. Para que isso aconteça, deve
haver um processo de mudança linguística que, paulatinamente,
regularize, entre um corpo social, os usos inovadores. Nas palavras de
Traugott (2014, p. 105), “se eu inovar com alguma estrutura linguística
nova, mesmo que eu a repita ao longo de toda a minha vida, isso não se
caracteriza como mudança, porque não foi transmitida a outra pessoa”.
A gramaticalização ou o processo de constituição da língua/gramática,
nesse sentido, envolve uma dinâmica de ampliação do
compartilhamento de representações da experiência, tendo em vista o
requisito primordial de “transmissão da representação a outra pessoa”.
Nesse contexto, vale destacar também o princípio da
iconicidade, formulado no âmbito dos estudos funcionalistas, em
oposição ao princípio da arbitrariedade, e segundo o qual as formas são
146
“the tension between the fixed and the less lixed in language [...]. It provides
the conceptual context for a principled account of the relative indeterminacy in
language and [...]”.
158
motivadas pelas funções que exercem no discurso, embora a iconicidade
não seja vista como absoluta, mas como “uma questão de grau”147
(GIVON, 2001, p. 34). Isso significa assumir que a língua não é icônica
biunivocamente, no sentido de se presumir a existência de uma forma
para cada função – essa visão mais radical é a de Bolinger (1997),
segundo indica Givón (2001, p. 2) –, dado que, à medida que alguns
usos linguísticos se tornam socialmente compartilhados,
convencionalizam-se, ficando, então, mais arbitrários. “A existência de
algum grau de arbitrariedade no código gramatical é, portanto,
esperada”. (GIVÓN, 1995, p. 11).148
A questão a se destacar é que o processo de gramaticalização é
lento e gradual, de modo que entre os usos mais icônicos, verificados no
início do processo de gramaticalização, e os usos mais arbitrários,
verificados em estágios mais avançados desse processo, as formas,
devido ao processo de expansão polissêmica – uma das etapas do
caminho de gramaticalização –, podem assumir mais de uma função (e
também funções ambíguas), ao mesmo tempo em que diferentes formas
em rota de gramaticalização podem também assumir funções que já são
codificadas por outras formas.
Em suma, os estudos funcionalistas concebem que a
língua/gramática, na verdade, resulta de um compromisso (dos falantes)
em operacionalizar pressões funcionais conflitantes: o uso da língua
demanda adaptação a diferentes necessidades comunicativas, o que lhe
exige flexibilidade e processamento menos veloz, porque a relação entre
forma e função tende a ser fortemente dependente do contexto (no que
se verifica a iconicidade); mas, demanda também automatismo,
agilidade, processamento mais veloz, o que lhe exige regularidades e
menos dependência do contexto (no que se verifica a arbitrariedade).
Por esse motivo, no uso efetivo da língua, “a transparência da relação
forma-função (isomorfismo, iconicidade) compete com a economia de
processamento” (GIVÓN, 2002, p. 21).149A estrutura sincrônica de uma
língua, então, com elementos ao mesmo tempo icônicos e arbitrários,
reflete o impacto do percurso de gramaticalização das construções
147
“[…] a matter of degree”.
148
“The existence of some measure of arbitrariness in the grammatical code is
thus to be expected”.
149
“[...] form-function transparency (isomorphism, iconicity) competes with
processing economy”.
159
linguísticas sob pressão de fatores em competição – por isso, a
codificação de um domínio funcional, como a do futuro do presente, é
tão variável.
O quadro a seguir esquematiza as discussões ate aqui
empreendidas, tendo em vista a concepção de língua e de gramática
depreendida da concepção de gramaticalização, no âmbito dos estudos
funcionalistas.
Quadro 5: Representação do conceito de língua/gramática, no âmbito dos
estudos funcionalistas, assumido na pesquisa
Fonte: Elaboração própria
A seguir, discorre-se sobre o processo de gramaticalização,
considerando os seguintes aspectos que acompanham os estágios do
processo: motivações comunicativas e cognitivas, transformações em
todos os níveis linguísticos (semântico-pragmático, morfossintático e
fonológico) e o modo como as formas em mudança são avaliadas
socialmente. A primeira questão a se abordar, então, para explicação
desses aspectos, é: o que pode acionar um processo de
gramaticalização?
2.2.2 Motivações e mecanismos para a gramaticalização
De acordo com a literatura sobre o tema, processos de
gramaticalização podem ser acionados por fatores de natureza
pragmática/comunicativa, cultural e cognitiva – embora, em nossa
compreensão, o último se refira, na verdade, aos mecanismos pelos
quais a gramaticalização se desenvolve, conforme se explica a seguir.
Do ponto de vista pragmático/comunicativo, Traugott e Dasher
(2005), tendo em vista a complexa relação entre falante/escritor e
ouvinte/leitor na interação, em reconhecimento do “papel ativo
160
dodestinatário/leitor naelaboração de estratégiasretóricas e de indexar e
organizaroato comunicativo” (TRAUGOTT; DASHER, 2005, p. 5)150,
chamam a atenção para as inferências induzidas pelo contexto como
motivação para o desencadeamento de processos de mudança.
Destacando as relações intersubjetivas, Traugott (2010a, p. 2),
para além de considerar a semantização de implicaturas, destaca que “o
falante/escritor evoca implicaturas e convida o ouvinte/leitor a inferi-
las”151. Desse modo, para esses autores, uma inferência já nasce da
relação entre os participantes da interação – não se trata, portanto, de
significados produzidos por um falante apenas, mas por um
falante/escritor em sua relação com um ouvinte/leitor.
De igual modo, para Hopper e Traugott (2003), a constituição
dos recursos mais rotinizados da língua é dirigida por motivações
pragmático-discursivas, entendidas como estratégias comunicativas dos
(inter)locutores, uma vez que, tendo experiências muito particulares e
individuais com a língua, suas representações cognitivas podem ser
diferentes em inúmeros aspectos e, por isso, numa dada interação,
precisam assumir a “responsabilidade para o sucesso da comunicação”
(HOPPER; TRAUGOTT, 2003, p. 72)152.
Com esse compromisso, os (inter)locutores transcendem os
limites do material linguístico dos enunciados, promovendo adaptações
comunicativas, como inferências ou implicaturas conversacionais, para
atingirem seus propósitos, constituídos à luz de contextos específicos de
interação. Considera-se, pois, que a mudança semântico-pragmática, por
exemplo, nodal no processo de gramaticalização, é motivada pela
atitude subjetiva do falante, que inscreve sua perspectiva na interação,
enriquecendo o que é dito (HOPPER; TRAUGOTT, 2003).
Essa noção converge com a visão de que
[s]e a língua é um instrumento de comunicação,
então é bizarro tentar entender a estrutura sem
referência ao contexto comunicativo e à função
comunicativa. Portanto, restrições gramaticais,
regras de sintaxe, transformações estilísticas e
150
“[…] active role of addressee/reader in rhetorical strategizing, indeed
indexing and choreographing the communicative act”.
151
“[…] speaker/writer evokes implicatures and invites the addressee/reader to
infer them”.
152
“[...] speakers take responsibility for success in communication”.
161
coisas assim não estão lá “porque elas são pré-
instaladas no código genético do organismo”.
Nem estão lá sem razão alguma. Ao contrário,
elas estão lá para servir a funções comunicativas
específicas (GIVÓN, 2012 [1979], p. 49, grifos
nossos).
Operando, portanto, com uma concepção interacional de língua,
reconhece-se que as intenções comunicativas orientam as escolhas
linguísticas:
[o] comunicador humano não é um usuário
determinístico de uma gramática autônoma,
subconsciente, conforme Chomsky nos faria crer.
Ao contrário, ele faz escolhas comunicativas. Ele
usa regras para obter um efeito comunicativo
(GIVÓN, 2012 [1979], p. 50; grifos do autor).
Pelo motivo anterior, então, admite-se que o “elo entre
gramática e uso153 se concretiza na relação entre falante e ouvinte, que
negociam sentido de maneira interativa, tanto respondendo ao
contextoquanto criando contexto” (MARTELOTTA; ALONSO, 2012,
p.92).
Já do ponto de vista cultural, Hopper (1998), por exemplo,
argumenta que a gramaticalização tem início em tipos específicos de
texto. Para exemplificar o ponto de vista, o autor retoma, dentre outros,
o estudo de Susan Herring (1991)154 sobre perguntas retóricas na língua
Tamil (falada no sul da Índia e também no sul e no leste da África).
Segundo esse estudo, a gramaticalização de frases retóricas
nessa língua se iniciou com uma mudança nos hábitos culturais dos
falantes: comum entre contadores de história para atrair a atenção dos
ouvintes, as perguntas retóricas passaram para a cultura geral dos
falantes de Tamil, assumindo a função de organizar as informações nos
mais diversos pronunciamentos dos falantes; tornando-se mais
153
Em nossa compreensão, a referência, nesse excerto, à gramática e uso
(/discurso) refere-se às faces mais e menos regulares da língua, respectivamente.
154
HERRING, S. The grammaticalization of rhetorical questions in Tamil. In:
E. Traugott and B. Heine (eds.). Approaches to Grammaticalization, Volume I.
Amsterdam/Philadelphia: Jonh Benjamins, 1991, p. 253-285.
162
frequentes em um número maior de contextos de uso, essas perguntas se
gramaticalizaram na língua (HOPPER, 1998).
Segundo Hopper, o que esse estudo evidencia é que há “uma
estreita ligação entrepráticas culturaisespecíficas emudanças
linguísticas” (HOPPER, 1998, p. 151; grifos nossos)155, de maneira que
um importante princípio dos estudos sobre gramaticalização deve ser a
investigação das fontes de um item gramatical, tendo em vista discursos
específicos de que derivam.
Para o autor, mesmo que não se tenha certeza dessas fontes, em
muitos casos de gramaticalização, o princípio não pode ser invalidado,
pois “[n]ão devemos perder de vista o fato de que o contexto [cultural]
é muito importante [para os processos de mudança], nem sucumbir
muito facilmente à tentação de assumir protótipos cognitivos e saltos
cognitivos em cadeias de gramaticalização” (HOPPER, 1998, p. 153;
grifos nossos).156
Do ponto de vista das motivações cognitivas, destacam-se as
necessidades de resolução de problemas (quanto à representação
cognitiva), de modo que, nesse contexto, a gramaticalização consiste no
“resultado de um processoque tema resolução de problemas [de
representação cognitiva] como seu principalobjetivo, e sua
funçãoprincipal éa conceituaçãoexpressandouma coisa emtermos de
outra [ao que se denomina] princípio da exploração de significados
antigos para novas funções”157(HEINE; CLAUDI; HÜNNEMEYER,
1991a, p. 150).
Antes de se especificar as motivações cognitivas para esse
processo, é importante destacar que, como os problemas de
representação só emergem por conta das adaptações contextuais do uso
da língua, essas motivações podem ser vistas, na verdade, como
decorrentes de problemas de comunicação pragmática. Nesse sentido,
as motivações cognitivas para a gramaticalização referem-se, na
verdade, a fatores ou mecanismos que ocorrem na mente dos falantes
155
“[...] a close link between specific cultural practices and linguistic changes”.
156
“We should not lose sight of the fact that context is all important, nor
succumb too readily to the temptation to assume cognitive prototypes and
cognitive leaps in grammaticalization chains”.
157
“[...] result of a process which has problem-solving as its main goal, its
primary function being conceptualization by expressing one thing in terms of
another [...] principle of the exploitation of old means for novel functions”.
163
para a efetivação da eficácia comunicativa, tendo em vista a necessidade
de se fazer referência a conteúdos para os quais não há designações
linguísticas adequadas. Em outros termos, os processos cognitivos
considerados no estudo da gramaticalização se referem a processos que
criam a estrutura linguística (BYBEE, 2016 [2010]).
Esses processos cognitivos e fatores a eles relacionados, no
processamento da gramaticalização, costumam ser assim especificados
na literatura: (i) metáfora, (ii) metonímia, (iii) reanálise, (iv) analogia,
(v) contexto, (vi) frequência de uso, (vii) inferência, (viii)
direcionalidade, (ix) desbotamento ou generalização semântica (HEINE,
2002, p. 84), com destaque ainda para a (x) inferência sugerida (invited
inference) e (xi) (inter)subjetivização (TRAUGOTT; DASHER, 2005;
TRAUGOTT, 2010a)158. Interessam a esta pesquisa, particularmente, os
mecanismos cognitivos da metáfora e da metonímia, e os processos a
eles relacionados de reanálise e de analogia, além de também se
destacar a unidirecionalidade, a (inter)subjetivização e a frequência –
embora nenhum desses aspectos sejam exclusivos do processo de
gramaticalização, dado que outros tipos de mudança podem contar com
esses mesmos recursos.
Os fatores metáfora, metonímia, reanálise, analogia e
direcionalidade podem ser explicados conjuntamente. O processo
metafórico, para Hopper e Traugott (2003), é mais impactante no
processo de mudança e caracteriza-se por promover o mapeamento de
um domínio ou conceito mais abstrato, como os significados
gramaticais, em termos de domínios ou conceitos mais concretos, de
modo discreto, ou seja, sem estágios intervenientes. Trata-se de uma
mudança paradigmática, motivada por analogia, que permite que
experiências não físicas sejam compreendidas em termos de
experiências físicas.
É o que acontece na gramaticalização do verbo ir, por exemplo,
em que tempo é compreendido em termos de espaço (ESPAÇO>
TEMPO), em conformidade com uma trajetória unidirecional, em que
os domínios à direita (mais abstratos) são compreendidos nos termos
dos domínios mais à esquerda (mais concretos). Heine, Claudi,
Hünnemeyer (1991a), propuseram a representação a seguir sobre esse
tipo de mudança entre domínios conceptuais:
158
Não é objetivo desta pesquisa discutir todos esses mecanismos, fartamente
descritos na literatura.
164
PESSOA > OBJETO > ESPAÇO > TEMPO > QUALIDADE
(HEINE, CLAUDI, HÜNNEMEYER, 1991a)
Já a metonímia, vista como o processo mais produtivo da
gramaticalização (HOPPER; TRAUGOTT, 2003, p. 87), consiste numa
transferência semântico-pragmática, por reinterpretação induzida pelo
contexto ou inferência, mediante implicaturas conversacionais, que pode
levar a mudança entre as fronteiras dos itens em gramaticalização, por
um processo sintagmático de reanálise estrutural. A frequência de uso
desses itens reorganizados pode promover a semantização, ou
convencionalização, de novos significados que antes estavam apenas
implícitos no contexto (HOPPER; TRAUGOTT, 2003). Analogia e
reanálise são, portanto, mecanismos associados a metáfora e metonímia,
respectivamente.
Assim, enquanto metáfora correlaciona-se com a tarefa de
resolver problemas de representação cognitiva, nos termos de Givón
(2001), a metonímia e a semantização de inferências pragmáticas
correlacionam-se com a resolução de problemas de comunicação
pragmática de expressar atitudes do falante, além do fato de que
[m]udança metafórica envolve especificação de
uma coisa, mais abstrata em termos de outra, que
não está presente no contexto. Mudança
metonímica, por outro lado, envolve especificação
de um significado em termos de outro que está
presente no contexto. (HOPPER, TRAUGOTT,
2003, p. 93)159.
No caso da gramaticalização da construção ir + infinitivo,
argumenta-se (BYBEE; PERKINS; PAGLIUCA, 1994; HOPPER;
TRAUGOT, 2003) que não se tratou de uma transferência metafórica
(espaço > tempo), mas metonímica, em primeiro lugar, tendo em vista
que o significado temporal que passou a dominar a semântica da
construção já estava presente, como uma inferência, no significado
159
Metaphorical change involves specifying one, usually more complex, thing
in terms of another not present in the context. Metonymic change on the other
hand, involves specifying one meaning in terms of another that is present, even
if only covertly, in the context.
165
espacial do verbo ir, pois movimento no espaço implica movimento no
tempo. Tratou-se, muito mais, portanto, de semantização de inferência
pragmática motivada pelo verbo ir e também pela preposição para. Em
outras palavras, tratou-se da resolução do problema de expressar
atitudes do falante.
Em relação aos fatores ou mecanismos desencadeadores de
mudança semântica de que falam Traugott e Dasher (2005) e Traugott
(2010a), tem-se a subjetivização e a intersubjetivização, compreendidas
como mecanismos independentes do processo de gramaticalização, uma
vez que também atuam em outros processos de mudança.
Enquanto (inter)subjetividade refere-se à manifestação
sincrônica da subjetividade, (inter)subjetivização consiste em
mecanismos diacrônicos de semantização da subjetividade e da
intersubjetividade (TRAUGOTT, 2010a). Embora reconhecendo que o
fato de haver comunicação entre duas pessoas implica
(inter)subjetividade, a questão de pesquisa a que se dedica Traugott
(2010a) são itens linguísticos (inter)subjetivizados, ou seja, itens que
codificam semanticamente significado (inter)subjetivo e os processos
dos quais esses itens decorrem.
Para a autora, subjetivização refere-se a um mecanismo pelo
qual significados são recrutados pelo falante para codificar suas
atitudes e crenças; e intersubjetivização, a um mecanismo pelo qual
significados, uma vez subjetivizados, podem ser recrutados para
codificar significados centrados no destinatário.
Destaca-se que a autora sinaliza para uma forte correlação entre
gramaticalização e, especialmente, a subjetivização, uma vez que “a
gramaticalização por definição envolve recrutamento de itens que
marcam a perspectiva do falante” (TRAUGOTT, 2010a, p. 7).160 A
gramaticalização da construção ir + infinitivo no PB, e também nas
demais línguas românicas em que processos análogos a esse ocorrem,
acionou, portanto, o mecanismo da subjetivização, semantizando
nuances modais/aspectuais implicadas nos contextos de origem dessa
construção. O verbo ir estaria mais subjetivizado na construção
perifrástica de futuro que o verbo de movimento, uma vez que “overbo
160
Traugott (2012) também passou a considerar a relação entre
intersubjetivização e gramaticalização, principalmente porque tem se ocupado
de estudos sobre marcadores discursivos, recursos linguísticos de forte natureza
interativa.
166
de movimentoexige quea direção do movimentosejaancorada tanto
nosujeito quanto no pontovista [Link] podeserancorado
apenas no ponto de vista subjetivodo falante, e não no ponto de vista de
vista do sujeito” (HOPPER; TRAUGOTT, 2003, p. 92)161, como em
“parece que vai chover”.
Traugott (2010a, p. 18) observa ainda que o que motiva a
subjetivização é a “subjetividade do evento discursivo”162, dada a
constante negociação de significados entre falante e ouvinte. Sendo
assim, a autora afasta uma visão passiva de gramaticalização e de
(inter)subjetivização, reconhecendo que desempenham importante papel
na mudança linguística toda a organização social (crianças,
adolescentes e adultos) e destacando que um modelo sobre a relação
entre os participantes de uma interação é fundamental para a
abordagem:“[p]or causa dasalternânciasdêiticasentrefalante
eouvintenodiálogo da díade,precisamos de um modelode mudança
quedê conta decomo acontece a interação” (TRAUGOTT, 2010a, p.
18).163
Dentre os fatores sobre os quais os falantes podem imprimir sua
perspectiva, Traugott (2010a) destaca, dentre outros: (i) tempo,
considerando como uma proposição (ou expressão ideacional) se
relaciona com o momento de fala ou com a temporalidade de outra
proposição; (ii) modalidade, tendo em vista a relativização de uma dada
situação em relação às crenças do falante, (iii) pessoa do discurso, pois
as de relação mais estreita com o falante são emocionalmente mais
salientes, por isso mais propensas a participarem da codificação da
subjetivização; (iv) polaridade do enunciado, considerando que a
expectativa do falante é incongruente com a negação; (v) tipos de
verbos, como verbos de atitude avaliativa e cognitivos; (vi)
transitividade, tendo em vista que contextos de baixa transitividade
161
“A similar development to increased subjectivity is evidenced by be going
to; the motion verb requires that the direction of motion be anchored in the
subject as well as in the speaker's viewpoint. But the auxiliary can be anchored i
n the speaker's subjective viewpoint alone, not in that of the subject”.
162
“the subjectivity of the speech event”.
163
“Because of the deictic shifts of Speaker and Addressee in the speaking
dyad, we need a model of change that accounts for how members of the dyad
interact, and aboveall a production model of how speakers construct “arguments
about propositions, and [assign] degrees or statements of confidence to those
propositions” (Moxey and Sanford 1997: 229)”.
167
tendem a ser mais subjetivos; (vii) usos ilocucionários de atos de fala;
(viii) modais epistêmicos, que codificam a atitude do falante para com a
verdade de uma proposição.
Note-se que os fatores (i) tempo, (ii) modalidade, (vii) usos
ilocucionários e (viii) modais epistêmicos estão diretamente
relacionados com as formas que codificam o domínio funcional da
futuridade; já os fatores (iii), (iv) e (v) podem ser investigados, quanto à
expressão do futuro, via variáveis independentes (cf. [Link].5) , a fim
de se detectar a relação entre esses itens linguísticos subjetivizados e a
expressão de futuro.
Por fim, cabe novamente acentuar que todos os mecanismos de
mudança vistos nesta subseção não são exclusivos do processo de
gramaticalização: outros tipos de mudança contam com esses mesmos
recursos e, inclusive, tendem a seguir a mesma direção de mudança
(concreto > abstrato).
Traugott e Dasher (2005, p. xi), por exemplo, referindo-se à
mudança semântica de modo mais abrangente, alertam que as
tendências de mudança [que] são notáveis e
amplamente comprovadas, [...] podem ser
violadasgeralmente porcircunstâncias sociais
particulares, circunstâncias que variam,
considerando desdemudanças de valores
ideológicos até o desenvolvimento de
tecnologias164(TRAUGOTT; DASHER, 2005, p.
xi; grifos nossos).
Nesse sentido, entende-se que universalidade e direcionalidade
são características da gramaticalização em termos de tendências gerais
que devem ser verificadas a cada fenômeno investigado.
A despeito desse amplo leque de aspectos que, em diferentes
instâncias, envolvem a gramaticalização, destaque-se, porém, que a
motivação de processos de gramaticalização de fenômenos específicos
tem sido mais frequentemente investigada em termos cognitivos e
sociocomunicativos ou pragmáticos, com foco na análise de contextos
164
“tendencies that are remarkably widely attested, but that can be violated
under particular, often social, circumstances ranging from shifts in ideological
values to the development of various technologies”.
168
linguísticos165 que propiciam a mudança, a despeito do alerta de Hopper
de que, se quisermos entender fases iniciais ou finais de processos de
gramaticalização, é indispensável observar o uso de textos, a fim de se
compreender informações contextuais, “expandindo a imagem do
domínio linguístico” (HOPPER, 1998, p. 156).166
2.2.3 Direção e caracterização do processo de mudança
Conforme visto até aqui, gramaticalização se caracteriza por ser
um processo que envolve uma cadeia de alterações contínuas, lentas,
graduais e cíclicas, que converte padrões discursivos em padrões
gramaticais, devido à trajetória de mudança que ruma à abstração e
generalização crescente de funções e de contextos de uso dos itens
linguísticos.
Nesse processo, novas fórmulas gramaticais de um item são
geradas paulatinamente. Hopper (1998, p. 154) fornece a seguinte
representação do processamento da mudança: A > A/B > B. A fórmula
indica que a cada etapa de gramaticalização as funções vão se
diferenciando, embora etapas subsequentes carreguem traços das etapas
precedentes, constituindo um estágio marcado por ambiguidades (A/B).
Bybee, Perkins e Pagliuca (1994) consideram que o significado
da construção fonte (A) determina o significado da construção alvo (B).
Como visto no primeiro capítulo desta pesquisa, o significado da
construção ir para, no sentido de movimento, também enseja predição
de se fazer algo posteriormente, do que decorre a noção de futuro.
Os usos de uma construção em estágio A/B ou até mesmo já em
estágio B, por exemplo, podem ainda fazer ver significados de A, em
que é possível depreender da construção ir + infinitivo tanto a noção de
165
Recupere-se de 1.1.3 que, no caso da emergência da construção perifrástica,
por exemplo, o contexto linguístico, é o de oração principal + oração
subordinada adverbial final reduzida de infinitivo, que requeria um sujeito
animado e agentivo, em que o traço de intenção e predição estão imbricados.
166
“Expanding the picture of the linguistic field to include, crucially, contextual
information brings into focus the complex ensemble of processes and relations
involved in language change”.
169
movimento quanto a de tempo futuro, como em: “Lula vai viajar o
Brasil levando mensagem de otimismo, diz líder da Força Sindical”.167
Trata-se, portanto, de um período de expansão polissêmica, ou
de multifuncionalidade, em que mais de uma função é codificada por
uma forma, embora a diferença funcional possa ser ambígua. Traugott e
Dasher (2005, p. 11-12) consideram que isso ocorre porque “o que é
típico [na mudança semântica] é o acréscimo de mais e mais
significados ao longo do tempo”168. Daí sugerirem que a mudança
semântica se inscreve em uma teoria da polissemia, e não da
homonímia, tendo em vista que as funções de uma forma B derivam da
mesma forma-fonte A, já que se trata de um estágio do processo de
gramaticalização.
Assim, mesmo que itens subsequentes na trajetória não sejam
mais da mesma categoria sintática gramatical que o item antecedente,
por conta de transformações (morfossintáticas) já ocorridas, a relação
entre suas funções pode ser considerada polissêmica, desde que se
compreenda que o significado é parcialmente indeterminado, ou seja,
pode ser contextualmente interpretado de diferentes maneiras
(TRAUGOTT; DASHER, 2005, p. 140).
A consequência da retenção semântica nas construções em
processo de mudança é que, assumindo-se a hipótese de que o
desenvolvimento semântico é previsível, pode-se localizar, ao longo de
uma trajetória ou contínuo de mudança, o ponto em que usos múltiplos
de uma mesma forma se localizam. Em outras palavras, os usos
múltiplos sincronicamente de um item não estão distribuídos
aleatoriamente, de maneira que compreender as diversas funções que
desempenha permite reconstruir a trajetória diacrônica de
gramaticalização, pois “múltiplos usos ea retenção
deespecificidadeslexicaispodem ser empregados
comodiagnósticosdahistória anteriordo materialgramatical,mesmo
167
Disponível em: <[Link]
o-brasil-levando-mensagem-de-otimismo--diz-lider-da-forca-
sindical,1735216>. Acesso em: 13 set. 2015.
168
“What is typical is the accretion of more and more meanings over time”.
170
emlínguas para as quaiscomprovaçãohistóricaé escassaou inexistente”
(BYBEE; PERKINS; PAGLIUCA, 1994, p. 18).169
Diacronicamente, as trajetórias representam o percurso pelo
qual itens em gramaticalização são conduzidos, linear e
irreversivelmente. Assim, A ocorre antes de B – itens lexicais se
transformam em itens gramaticais, itens gramaticais se tornam ainda
mais gramaticais ou adquirem diferentes funções gramaticais e
conceitos mais concretos se estendem para conceitos mais abstratos.
Além da trajetória de mudança cognitivamente motivada já
apresentada na subseção precedente (pessoa > objeto > espaço > tempo
>qualidade), destaca-se a trajetória a seguir, comunicativamente
motivada, postulada por Givón (2012 [1979):
DISCURSO > SINTAXE > MORFOLOGIA >
MORFONONÊMICA > ZERO
(GIVÓN, 2012 [1979])
O caráter unidirecional da mudança não significa que ela
precisa percorrer todos os pontos da trajetória, mas apenas sinaliza para
“fortes restrições sobre como pode ocorrer uma mudança e sobre a
direcionalidade da mudança, embora nós ainda não compreendamos
plenamente todos os fatores que motivam essa
direcionalidade”(HOPPER; TRAUGOTT, 2003, p. 131)170.
Considerando que nos estudos de gramaticalização o foco é
compreender a relação entre o uso da língua e seu contexto real, Hopper
e Traugott (2003, p. 133) preferem caracterizar a unidirecionalidade não
como um princípio absoluto, mas como uma tendência forte, dada a
regularidade com que pode ser atestada nos estudos empíricos.
Preocupado com a questão de como diagnosticar itens em
processo de gramaticalização, principalmente na fase inicial171, Hopper
169
“[...] multiple uses and the retention of lexical specificities can be employed
as diagnostics of the earlier history of grammatical material, even in languages
for which historical attestation is sparse or nonexistent”.
170
“[…] there are strong constraints on how a change may occur and on the
directionality of the change, even though we do not yet fully understand all the
factors that motivate this directionality”.
171
Lehmann (1985), segundo Hopper (1991), já havia formulado cinco
princípios de gramaticalização, mas esse último autor os considerou como
característicos principalmente de etapas avançadas do processo, não sendo,
171
(1991) formula cinco princípios que auxiliam nessa identificação, quais
sejam:
Estratificação: Em um amplo domínio funcional,
novas camadas estão continuamente
[Link] isso acontece, as camadas
mais antigas não são necessariamente descartadas,
ao contrário, podem coexistir e interagir com as
camadas mais recentes.
Divergência: Quando uma unidade lexical muda
para um clítico ou afixo, a unidade lexical original
pode permanecer como um elemento autônomo e
sofrer as mesmas mudanças que itens lexicais
comuns.
Especialização: Dentro de um domínio funcional,
uma variedade de formas com diferentes nuances
semânticas pode ser possível em um dado estágio.
À medida que a gramaticalização ocorre, essa
variedade de possibilidades formais diminui e um
número menor de formas selecionadas assume
significados gramaticais mais gerais.
Persistência: Quando uma forma sofre
gramaticalização de uma função lexical para uma
função gramatical, mesmo tendo um papel
gramatical, alguns traços de seus significados
lexicais originais tendem a aderir a ela e detalhes
de sua história lexical podem ser refletidos em sua
distribuição gramatical.
Decategorização: Formas em gramaticalização
tendem a perder ou terem neutralizadas as marcas
morfológicas e sintáticas características de
categorias como substantivos e verbos, e a
assumir características de categorias secundárias,
portanto, suficientes para o reconhecimento de características das fases iniciais.
Hopper (1991) sugere que seus princípios sejam vistos como complementares
aos princípios de Lehmann (1985). Os princípios propostos por esse último
autor são: “paradigmatização (tendência de as formas gramaticalizadas serem
rearranjadas em paradigmas); obrigatoriedade(tendência de as formas opcionais
tornarem-se obrigatórias); condensação(erosão das formas); coalescência(união
de formas adjacentes); fixação(ordens lineares livres tornam-se fixas)”
(HOPPER, 1991, p. 20-21; grifos nossos).
172
como adjetivo, particípio, preposição, etc.
(HOPPER, 1991, p. 22, grifos nossos)172.
Para o autor, porém, esses princípios, não são exclusivos do
processo de mudança por gramaticalização e, como ela não tem um
ponto final, esses critérios devem ser vistos como recursos para a
identificação de itens mais ou menos gramaticalizados.
Heine e Kuteva (2007), baseando-se na suposição de que a
gramaticalização afeta aspectos pragmáticos, semânticos,
morfossintáticos e fonológicos, consideram que os processos que
envolvem esses níveis estruturais podem ser identificados e descritos
pelos seguintes parâmetros:
[Link]ão, ou seja, o surgimento denovos
significadosgramaticaisquandoexpressões
linguísticassão estendidasa novos contextos
(reinterpretação induzida pelocontexto);
[Link]ção173 (ou ''apagamento
semântico''), ou seja, a perda (ou generalização)
de significado;
172
“(1) Layering - Within a broad functional domain, new layers are continually
emerging. As this happens, the older layers are not necessarily discarded, but
may remain to coexist with and interact with the newer layers”; (2) Divergence
- When a lexical form undergoes grammaticization to a clitic or affix, the
original lexical form may remain as an autonomous element and undergo the
same changes as ordinary lexical items”; (3) Specialization - Within a
functional domain, at one stage a variety of forms with different semantic
nuances may be possible; as grammaticization takes place, this variety of formal
choices narrows and the smaller number of forms selected assume more general
grammatical meanings”; (4) Persistence - When a form undergoes
grammaticization from a lexical to a grammatical function, so long as it is
grammatically viable some traces of its original lexical meanings tend to adhere
to it, and details of its lexical history may be reflected in constraints on its
grammatical distribution”; (5) De-categorialization - Forms undergoing
grammaticization tend to lose or neutralize the morphological markers and
syntactic privileges characteristic of the full categories Noun and Verb, and to
assume attributes characteristic of secondary categories such as Adjective,
Participle, Preposition, etc.".
173
Quanto ao termo dessemantização, Heine e Kuteva (2007) relembram que
Hopper e Traugott (2003) preferem falar de inferência sugerida, subjetivização
e fortalecimento pragmático. Mas, como muitos processos de gramaticalização
173
[Link]ção, ou seja, perda de propriedades
morfossintácticas características de formas menos
gramaticalizadas ou lexicais;
[Link]ão (''redução fonética''), ou seja, perda
desubstânciafonética. (HEINE; KUTEVA, 2007,
p. 34; grifos nossos)174.
Segundo os autores, a ordem de apresentação dos parâmetros
reflete a sequência diacrônica na qual o processo ocorre, uma vez que
ele é desencadeado com a extensão de significados (aspecto pragmático)
das formas já existentes, passando, posteriormente, à dessemantização
(aspecto semântico), à decategorização (aspecto morfossintático) e, por
fim, à erosão (aspecto fonológico), embora esse último estágio não seja
obrigatório, nem tampouco o processo ocorra de forma absoluta
segundo essa ordem, tendo em vista a confluência de muitas forças em
competição atuando sobre os processo de mudança.
Para os autores ainda, o primeiro parâmetro é o mais complexo
por, em primeiro lugar, envolver forças de três diferentes tipos, a saber:
sociolinguísticas, pragmático-textuais e semânticas. Retomam-se, assim,
as questões que já vinham sendo discutidas desde o início desta seção,
em relação à relevância dos usos inovadores em situações específicas de
interação:
O componente sociolinguístico diz respeito ao fato
de que gramaticalização começa com a inovação
(ou ativação) de um ato individual, em que alguns
falantes (ou um pequeno grupo de falantes)
propõem um novo uso para uma forma ou
construção existente, que é posteriormente
adotado por outros falantes, difundindo a
inovação, em tese, para toda comunidade de fala.
não envolvem nenhum desses três fatores, bem como há casos em que
inferências não implicam dessemantização, Heine e Kuteva (2007, p. 40)
preferem manter o termo (dessemantização).
174
“extension, i.e. the rise of new grammaticalmeanings when linguistic
expressions are extended to new contexts (context-induced reinterpretation);
desemanticization (or ‘‘semantic bleaching’’), i.e. loss (or generalization) in
meaning content; decategorialization, i.e. loss in morphosyntactic properties
characteristic of lexical or other less grammaticalized forms; erosion (‘‘phonetic
reduction’’), i.e. loss in phonetic substance”.
174
[...]. O componente pragmático-textual envolve a
extensão de um contexto usual para um novo
contexto ou conjunto de contextos, e da
propagação gradual de paradigmas mais gerais de
contextos [...]. O componente semântico conduz
finalmente de um significado existente para um
outro significado que é evocado ou apoiado no
novo contexto. Assim, os componentes
pragmático-textuais e a extensão semântica são
dois aspectos de um único e mesmo processo
geral caracterizado pela emergência de novas
estruturas gramaticais (HEINE; KUTEVA, 2007,
p.35).175
Das discussões realizadas até aqui, no que tange à
caracterização e direção do processo de mudança, adverte-se que
[a] instauração do processo de gramaticalização
produz consequências para a forma e para a
função dos elementos. Promove alterações
semânticas, morfológicas, sintáticas e fonético-
fonológicas nos sistemas envolvidos, aos quais
são de tal modo inter-relacionados que nem
sempre é possível delimitar claramente suas
fronteiras e/ou verificar uma hierarquia entre elas.
O que desenha a rota, contudo, não são esses
elementos linguísticos, mas a maneira como as
pessoas concebem o mundo e como organizam (e
associam) mentalmente seus hábitos e rotinas
(CASSEB-GALVÃO; LIMA-HERNANDES,
2012, p. 167; grifos nossos).
175
“The sociolinguistic component concerns the fact that grammaticalization
starts with innovation (or activation) as an individual act, whereby some speaker
(or a small group of speakers) proposes a new use for an existing form or
construction, which is subsequently adopted by other speakers, ideally diVusing
throughout an entire speech community [...]. The text-pragmatic component
involves the extension from a usual context to a new context or set of contexts,
and the gradual spread to more general paradigms of contexts [...]. The semantic
component finally leads from an existing meaning to another meaning that is
evoked or supported by the new context. Thus, textpragmatic and semantic
extension are Janusian sides of one and the same general process characterizing
the emergence of new grammatical structures”.
175
Mesmo admitindo, portanto, a existência de capacidades
cognitivas gerais e a relevância delas no processamento da
gramaticalização, esse campo assume que são as pessoas, ao longo da
vida, “particularmente interessados na formação de identidade e na
marcação das diferenças” (TRAUGOTT, 2014, p. 104; grifos nossos),
que são responsáveis pela mudança.
2.2.4 O papel da frequência
Como visto anteriormente, a frequência de uso de uma
estratégia comunicativa exerce grande influência no processo de
constituição de usos mais rotinizados, porque promove um
“armazenamento na memória dos detalhes da experiência com a língua,
incluindo detalhe fonético de palavras e frases, contextos de uso,
significados e inferências associadas a enunciados” (BYBEE, 2010, p.
7)176.
O armazenamento na memória177 desses detalhes faz com que
as estratégias comunicativas de uso frequente sejam mais acessíveis e de
processamento mais automático. Por isso o processo de automatização,
rotinização ou gramaticalização dos usos criativos cumpre a função de
agilizar a comunicação, uma vez que se pode chegar a
conclusões/compreensões mais rapidamente, demandando menos
atenção consciente e menos monitoramento do contexto, à medida que
as formas adquirem significados gramaticais, ou seja, significados mais
abstratos. A frequência, assim, tanto estabelece quanto mantém a
língua/gramática.
Bybee e Hopper (2001), por exemplo, analisam os seguintes
efeitos da frequência na rotinização de elementos da língua em uso: (1)
redução fonológica em palavras e frases de alta frequência; (2) alteração
funcional devido à alta frequência; (3) formação de construções; (4)
acessibilidade; (5) retenção de características conservadoras; e (6) noção
de que uma gramática estocástica é um resultado do conhecimento
176
“[...] memory storage of the details of experience with language, including
phonetic detail for words and phrases, contexts of use, meanings and inferences
associated with utterances”.
177
Memória, para Bybee (2016 [2010], p. 27), “se refere à estocagem mental de
detalhes da experiência com a língua”.
176
linguístico com base na experiência. Nessa direção, Bybee (2010),
destaca que a frequência ou repetição de itens impacta tanto a (i) a
ritualização de fenômenos culturais em geral quanto (ii) a representação
cognitiva, estando, por isso, diretamente relacionada com a
gramaticalização, uma vez que pode tanto promover mudança quanto
retercaracterísticas[...], mesmo em face de novos
padrõesmorfossintá[Link]
Thompson(1997) afirmam que até
mesmoconstruçõesmorfossintáticaspodem
apresentar essetipo deenraizamento, devido à
força da representaçãodaconstrução (BYBEE,
2003, p. 619)178.
Ainda segundo a autora, a frequência de uso dos itens
em processo de mudança é proporcional ao estágio da mudança: quanto
mais avançada, mais frequente é o item em mudança, porque a alta
frequência token– que se refere ao o número total de ocorrências de um
item - desencadeia mudança quanto aos padrões cognitivos de
representação, facilitando, assim, o aumento da frequência type – que se
refere à frequência dos diferentes tipos de funções exercidas por um
item. Pode-se ilustrar esses tipos de frequência com a construção ir +
infinitivo: a contagem de ocorrências dessa construção em um corpus,
por exemplo, constitui a frequência token, ao passo que a contagem das
diferentes funções que ela desempenha constitui a frequência type179.
Afrequência de uso de itens em processo de gramaticalização é,
portanto, um importante fator analítico para o diagnóstico do estágio em
que se encontram no processo – muito embora há que se ter em conta
também que uma construção pode ser frequente em um determinado
contexto e isso não representar o estágio de gramaticalização da
178
“High frequency constructions can also retain conservative morphosyntactic
characteristics even in the face of new productive morphosyntactic patterns.
Bybee and Thompson (1997) argue that even morphosyntactic constructions can
exhibit this type of entrenchment due to the strength of the representation of the
construction”.
179
Fonseca e Gonçalves (2009), por exemplo, analisando a multifuncionalidade
dessa construção no Banco de dados IBORUNA 179, examinam as funções do
complexo TAM e encontram 550 ocorrências expressando tempo (frequência
token); dentre elas, 532 ocorrências expressando futuro próximo e 18, futuro
remoto (frequências type).
177
construção, além do fato de que, segundo Heine e Kuteva (2007), nem
sempre formas gramaticalizadas são mais usadas do que os itens dos
quais se originam.
Além disso, “como a gramaticalização não ocorre na verdade
com o item – também envolve o contexto em que o item está –, é preciso
também se observar a frequência de tudo que aparece junto com ele”
(CEZÁRIO, 2012, p. 26; grifos nossos.). Ilustrando a questão com o
caso de gramaticalização de verbo pleno a auxiliar (como ocorre com o
verbo ir), a autora sugere observar, por exemplo, (i) o tipo semântico de
sujeitos, (ii) o tipo semântico de verbos que ocorrem com o verbo em
processo de mudança ou mesmo cada item verbal que se combina com
ele (na perífrase, por exemplo).
Frente a essas considerações, admite-se que além da
criatividade humana em fazer mapeamento entre diferentes domínios e
das inferências pragmáticas, há algo a mais (relacionado à frequência de
uso das construções) que motiva e conduz o processo de constituição da
gramática e cujas consequências se sentem em todos os níveis – do
fonológico ao textual (CEZÁRIO, 2012).
2.3 ORIENTAÇÃO METODOLÓGICA – E (ALGUMAS)
TENDÊNCIAS ATUAIS DA PESQUISA FUNCIONALISTA NO
BRASIL
Nesta seção, objetiva-se apresentar brevemente alguns aspectos
metodológicos que orientam o campo funcionalista, em geral, e a
abordagem da gramaticalização, de modo mais particular. Nesse
contexto, focalizam-se alguns aspectos que são considerados tendências
atuais dos estudos funcionalistas, segundo indicação de pesquisadores
brasileiros.
Do ponto de vista metodológico, o funcionalismo, de um modo
mais geral, se ocupa da correlação que se estabelece entre forma e
função, no uso efetivo da língua, focalizando, nesse âmbito, a
multifuncionalidade dos recursos linguísticos – que pode ou não estar
associada ao processo de gramaticalização, à mudança categorial das
formas. Ao se dedicar, de um ponto de vista mais específico, ao
processo de gramaticalização, o campo funcionalista fornece uma
explicação sobre como e por que categorias gramaticais emergem e se
desenvolvem ao longo do tempo.
Os estudos de gramaticalização, então, costumam conferir
tratamento empírico aos recursos linguísticos, sob três perspectivas: (i)
histórica ou diacrônica – investigação das fontes de formas gramaticais
178
e das etapas de mudança pelas quais passam; (ii) sincrônica –
investigação de fenômenos sintático-semântico-pragmáticos do ponto de
vista dos padrões fluidos da língua em uso; (iii) pancrônica –
investigação que reúne, de modo complementar, as duas dimensões
anteriores (HOPPER; TRAUGOTT, 2003).
Em termos gerais, uma vez definido o fenômeno a ser
pesquisado, a primeira tarefa metodológica dos estudos sobre
gramaticalização é o estabelecimento de um corpus para a investigação.
Como esses estudos, na perspectiva diacrônica, buscam a origem e o
percurso de mudança semântico-pragmática e categorial de uma forma,
a fim de se detectar as funções que foi exercendo durante a trajetória,
dados de diferentes épocas e de diferentes tipos de textos são mais
produtivos, uma vez que, como explica Tavares (2003, p. 70),
orientando-se por Craig (1991)180, “é raro mapearmos todos os elos de
uma cadeia de gramaticalização em textos referentes a um período de
tempo particular, mas elos ‘perdidos’ podem aparecer em textos de
outro período”.
Já na perspectiva sincrônica, o estudo da gramaticalização é
considerado a partir de um ponto de vista sintático e semântico-
pragmático, tendo em vista o princípio da persistência (cf. 2.2.3),
segundo o qual nuances estruturais e semântico-pragmáticas de uma
forma fonte são preservadas na construção em gramaticalização; com
isso, dos diversos usos (ou da multifuncionalidade sincrônica) da
construção sob exame se pode depreender diferentes graus de
gramaticalização e, com isso, projetar, retrospectivamente, seu percurso
de mudança. Nos termos de Braga e Paiva (2015, p. 142), nesse tipo de
procedimento está implicado
o pressuposto [...] de que os diferentes
usos/significados de uma mesma
forma/construção [podem] ser alocados em um
continuum segundo o grau de gramaticalidade de
cada uso, continuum este que [corresponde] aos
estágios do processo diacrônico que
180
Craig, Colette. 1991. Ways to go in Rama: a case study in
polygrammaticalization. In: Elizabeth C. Traugott & Bernd Heine (eds.).
Approaches to Grammaticalization. Vol.2: Focus on Types of Grammatical
Markers. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins. p. 455-492.
179
[desencadeou] a mudança de estatuto categorial da
referida forma/construção.
Contudo, considerando que nem sempre o continuum sincrônico
de gramaticalização corresponde aos estágios diacrônicos de mudança
(BRAGA; PAIVA, 2015), admite-se que a perspectiva pancrônica
atribui um grau maior de adequação e confiabilidade às análises, pois os
resultados de análises empíricas de estudos diacrônicos lançam luz sobre
a variação sincrônica, explicando, com isso, a distribuição dos usos –
que pode se mostrar como aparentemente aleatória.
Seja qual forma a perspectiva a partir da qual se olha para os
fenômenos em processo de mudança, os corpora de análise mais
produtivos são aqueles cujos dados são provenientes de diferentes
épocas e de diferentes tipos de textos, pela razão mencionada. Nesse
âmbito, cabe destacar que, considerando que a pesquisa diacrônica pode
ser inviabilizada pela ausência de registro de usos de um determinado
fenômeno, os estudos funcionalistas podem, nesses casos, ou examinar
os graus de gramaticalidade sincrônica de uma determinada construção
ou também recorrer a métodos variacionistas desenvolvidos para estudar
a mudança linguística em geral, como o do tempo real de curta
duração181 (BRAGA; PAIVA, 2015).
Além disso, em qualquer uma das dimensões precedentes, no
estudo da gramaticalização o levantamento da frequência de uso é
metodologicamente relevante: quantifica-se (i) o número total de
ocorrências de um item (frequência token) e também (ii) a frequência
dos diferentes tipos de funções exercidas pelo item (frequência type) nos
diferentes contextos linguísticos do corpus sob exame – porque a
frequência aponta para o grau de gramaticalização da construção, ao
mesmo tempo em que promove a gramaticalização (BYBEE, 2003).
Para os fins desta tese, o que mais diretamente importa destacar
nesta seção são algumas tendências teórico-metodológicas atuais do
funcionalismo (em geral) e do estudo da gramaticalização (em
particular), conforme indicações de pesquisadores brasileiros.
De modo geral, destaca-se a reflexão de Sousa (2015) sobre o
fato de que, se cabe ao funcionalismo explicar a correlação entre
padrões linguísticos e funções comunicativas, a associação entre formas
181
Cf. em Labov (1994) especificações quanto ao tipo de pesquisa denominado
tempo real de curta duração.
180
linguísticas e suas propriedades semânticas recebeu historicamente
prioridade, uma vez que conforme Givón (1998)182 mesmo adverte,
segundo a autora, a intuição semântico-proposicional (sobre agentes,
pacientes etc.) (do analista) é mais acessível e replicável do que a
intuição pragmático-discursiva sobre a função comunicativa da
gramática. O efeito disso, ainda segundo a pesquisadora, é uma falta de
uniformidade (quer em termos terminológicos quer em termos de
concepção quanto ao que sejam as funções comunicativas) e de
abrangência da análise. Mais importante que essa constatação, para os
fins desta tese, é a consideração de Sousa quanto ao que motiva esse
fato: a “ausência de uniformidade nas concepções [...] do que seja o
fenômeno da comunicação edos fatos a ela concernentes passíveis de
exercerem pressões sobre as estruturas gramaticais” (SOUSA, 2015, p.
88; grifos nossos).
Em nossa compreensão, essas constatações quanto à falta de
consonância, entre os autores, em relação a esses aspectos está no cerne
do que Oliveira (2015) aponta como “verdadeiro desafio aos
funcionalistas” (p. 22): a questão da tratativa do contexto de uso da
língua e da especificação de seus aspectos constitutivos e motivadores
dos fenômenos linguísticos. O contexto, segundo a pesquisadora,
mesmo sendo uma questão cara aos estudos funcionalistas, ainda “é
tratado como entidade vaga, genérica, de contornos pouco ou nada
definidos e, por isso mesmo, sua abordagem, tanto do ponto de vista
teórico quanto do metodológico, tona-se tarefa de difícil e complexa
execução” (p. 22).
Tomando como base a proposição de Croft (2001) e Croft &
Cruse (2004), no âmbito dos estudos da gramaticalização de
construções183, Oliveira adverte que a análise da dimensão contextual
182
The functional approach to grammar. In: Michael Tomasello (edição), The
new psychology of language: cognitive and functional approaches to language
structure, New Jersey: Lawrence Erlbaum, 1998, p. 41-66.
183
A perspectiva da gramaticalização de construções, conforme formulação de
Traugott (2008; 2011), também em interface com estudos cognitivistas na linha
de Croft (2001) e Croft & Cruse (2004) – cf. referências em Oliveira (2015) –
,distingue-se da perspectiva da gramaticalização considerada nesta tese (cf.
algumas das principais características dessa perspectiva e o modo como
pesquisadores brasileiros vêm operacionalizando-a na obra Linguística centrada
no uso: teoria e método, de Oliveira e Rosário (2015), por exemplo). Mesmo
assim, há também entre elas muitos aspectos compartilhados, de modo que
181
dos usos linguísticos deve dar conta da correlação entre o contexto do
nível da forma (em suas propriedades sintáticas, morfológicas e
fonológicas) e o contexto do nível da função (em suas propriedades
semânticas, pragmáticas e discursivo-funcionais). Assim, no estudo do
processo de gramaticalização, todos esses aspectos contextuais devem
ser levados em conta.
Especificando ainda mais essa questão, Oliveira cita o estudo de
Machado (2010)184, que formulou, para cada um desses seis aspectos
contextuais correlacionados, um conjunto de parâmetros implicados nos
usos do fenômeno investigado (a construção marcadora discursiva
“vamos lá”). Mesmo se referindo a parâmetros constituídos para o
exame de um fenômeno específico, destaca-se aqui o parâmetro
contextual discursivo-funcional, uma vez que ele convocou questões
relacionadas aos participantes da interação, ao gênero e à tipologia
textual, no exame de fenômenos em processo de gramaticalização.
Nessa mesma direção, Hopper e Traugott (2003, p. 82) já
haviam destacado que “antes de se chegar a conclusões sobre a
gramaticalização, é essencial olhar, além de sentenças individuais, para
contextos mais amplos”185, tendo em vista que nos casos em que uma
forma se especializa para uma dada função nem sempre as demais
formas desaparecem, porque
a especialização não implica necessariamente a
eliminação de alternativas, mas pode
manifestar-se simplesmente como
preferênciastextuais,condicionadas por tipos
semânticos, contextos sociolinguísticos, gêneros
estamos estendendo as discussões sobre a questão do contexto, no âmbito da
perspectiva da gramaticalização de construções, para o estudo de processos de
gramaticalização em geral.
184
Ana Claudia Machado Teixeira, Padrões de uso de ‘vá lá’ e ‘vamos lá’ na
norma brasileira do português: microconstruções e gramaticalização,
dissertação de mestrado em Língua Portuguesa pelo Instituto de Letras, Niterói:
UFF, 2010.
185
“it is essential to look beyond individual sentences to larger contexts before
reaching too hasty conclusions that change has occurred”.
182
do discurso e outros fatores (HOPPER;
TRAUGOTT, 2003, p. 116).186
Tem-se assim, na literatura sobre o processo de
gramaticalização, a indicação para se analisar gêneros (ora textuais, ora
do discurso) a fim de se compreender o contexto mais amplo
(discursivo-pragmático) dos usos linguísticos. Nesse sentido, caberia
explorar também, no âmbito de cada domínio funcional em que uma
forma pode atuar ao longo de sua trajetória, quais seriam as formas
concorrentes na codificação daquele domínio em diferentes tipos de
gêneros.
Além disso, revisando, por exemplo, algumas das principiais
gramáticas funcionalistas publicadas no Brasil, Castilho (2012) destaca
que tanto a Gramática de usos do português, de Moura Neves (2000),
quanto a coleção Gramática do português falado noBrasil tomam o
texto como lugar ideal para se depreender o funcionamento da língua em
uma perspectiva funcional. Com isso, verifica-se a premissa de que uma
mesma forma pode exercer diferentes funções a depender do contexto
(do texto) em que é agenciada.
Soma-se a esse desafio metodológico (tomar o texto como
parâmetro para análise do contexto dos usos linguísticos) as seguintes
tendências atuais da pesquisa funcionalista, considerando a linha de
Traugott, Bybee, Hopper e Givón, entre outros, conforme Oliveira
(2012) : (i) a revisão da concepção de uso, a fim de incorporar um
leque cada vez maior de práticas interacionais a serem observadas, o
que demanda observar um leque cada vez maior de tipos de textos (ou
de gêneros); (ii) o redimensionamento das concepções de discurso e de
gramática, a fim de se admitir que as ocorrências de usos novos (e
criativos) da língua se dá em meio a muitos usos mais estabilizados; (iii)
a especificação de que o foco do campo está nos contextos efetivos dos
usos linguísticos, fazendo com que aspectos pragmático-discursivos
ganhem relevo na investigação; isso conduz à compreensão de que o
perfil dos envolvidos na interação sob exame (considerando, sua
história, seu nível de habilidade comunicativa e sua representação na
comunidade linguística) deva ser investigado.
186
“specialization does not necessarily entail the elimination of alternatives, but
may be manifested s imply as textual preferences, conditioned by semantic
types, sociolinguistic contexts, discourse genres, and other factors”.
183
Todos esses aspectos “conferem aos fenômenos e objetos
pesquisados a marca da contingência e da especificação” (OLIVEIRA,
2012, p. 137), o que faz com que a abordagem funcionalista e da
gramaticalização, em termos metodológicos, se afaste das práticas de
coleta e de análise de dados prioritariamente quantitativos “em prol de
uma abordagem mais holística e qualitativa” (ibid. p. 137; grifos
nossos), admitindo-se que, o que se perde em poder de generalização na
pesquisa, sob essa nova ótica, ganha-se em especificação no tratamento
dos dados. Assim, se a dimensão quantitativa mensura “em termos
absolutos e percentuais, a recorrência dos fatores selecionados para a
análise”, a dimensão qualitativa “diz respeito ao caráter descritivo e
interpretativo da análise e ao enfoque indutivo baseado na observação
das amostras coletadas” (CUNHA; BISPO; SILVA, 2013, p. 22).
Desse modo, mesmo a análise quantitativa – com medição da
frequência de uso das construções em gramaticalização, por exemplo –
permanecendo relevante no estudo da gramaticalização, novos
elementos ganham relevo, de sorte que uma série de aspectos atinentes
ao contexto de uso dos fenômenos passa a ser incorporada (e tida como
central) no campo – além de a própria concepção de contexto demandar
especificações teóricas.
Dentre esses fatores, estão, por exemplo, justamente as
condições de produção dos textos, uma vez que
[o] investimento na pesquisa contingencial da
interação faz destacar seus aspectos pragmático-
discursivos, trazendo ao pesquisador em
funcionalismo indagações como: Quem
fala/escreve?Quem ouve/lê? Qual o perfil desses
atores, em termos de letramento, representação na
comunidade e propósitos discursivos? Que uso
linguístico se investiga, no tocante ao gênero e à
sequência em elaboração? (OLIVEIRA, 2012, p.
148).
Por essas breves indicações, pode-se depreender que alguns dos
novos desafios da pesquisa funcionalista são de natureza metodológica,
muito embora na base disso estejam desafios epistemológicos – como a
própria especificação da concepção do que seja comunicação e dos
aspectos a ela concernentes e passíveis de exercerem pressões sobre a
estrutura linguística –, para que se dê conta do quadro atual do campo
funcionalista, interessado em harmonizar o viés quantitativo e o
qualitativo, para, assim, harmonizar a dimensão gramatical e a
184
discursiva, enredadas por questões pragmático-comunicativas,
cognitivas e socioculturais.
2.4 RETOMANDO E AVANÇANDO
Na introdução deste capítulo, considerando que uma das
principais premissas dessa vertente funcionalista é a contextualização da
língua na situação social em que ocorre – para estudo da correlação
entre formas e funções –, indicou-se como um dos pressupostos que o
conhecimento linguístico dos falantes se constitui a partir de
experiências comunicativas particulares, de modo que, quanto mais
recorrentes forem determinadas experiências, mais elas impactam as
representações cognitivas dos sujeitos em relação à língua. Essa
concepção harmoniza os estudos funcionalistas com a linha cognitivista
dos estudos linguísticos, convergindo na aceitação de uma correlação
entre usos linguísticos e cognição, e entre cultura e biologia, do que
decorre a assunção de que (i) a linguagem não espelha, mas interpreta o
mundo; e de que (ii) a correlação entre processos cognitivos e
propriedades linguísticas não é de causa e efeito. Outro pressuposto
destacado é o da instabilidade do significado atrelado à forma
linguística, uma vez que essa não é portadora de significado estável, mas
porta para a construção do sentido. Na esteira da significação, fez-se
uma distinção entre (i) a designação e (ii) o significado (ambos do
domínio da semântica) e (iii) o sentido (do domínio do discurso,
envolvendo atitudes, intenções e suposições dos falantes) – este último
se ancorando nos dois primeiros, mas todos indispensáveis para a
compreensão da língua em uso. Viu-se, pois, que os usos linguísticos
evocam concomitantemente aspectos semânticos e discursivo-
pragmáticos, cognitivos, interacionais e culturais.
Em (2.1), abordou-se a concepção (i) de língua – que articula o
sistema de representação cognitiva com o sistema de codificação
comunicativa, correlacionando o que é da ordem da cognição com o que
é da ordem da pragmática; e a concepção (ii) de gramática – vista como
uma organização cognitiva da experiência com a língua, através de uma
correlação entre a função adaptativa (concernente à representação
cognitiva e à comunicação da experiência/informação) e a estrutura (o
código gramatical, que articula os níveis da semântica proposicional e
da pragmática discursiva). Dada a visão de que a dimensão gramatical, a
pragmático-discursiva e a cognitiva são compatibilizadas nos usos
linguísticos, mostrou-se que tanto a língua quanto a gramática partilham
as propriedades de (i) estabelecerem uma relação de coerência entre
185
proposição e contexto discursivo-pragmático; e de (ii) serem dinâmicas
e emergentes – uma (constante) atividade, cuja investigação demanda
considerar as condições de sua efetivação, visto que é na contingência
que se manifesta a competência dos falantes, depreendida das próprias
regularidades linguísticas.
Na sequência (2.2), apresentou-se a concepção de
gramaticalização vista como (i) um quadro investigativo para exame
das relações entre materiais lexicais, gramaticais e construções em
línguas particulares ou interlinguisticamente; e/ou (ii) um processo de
mudança pela qual itens lexicais e construções vêm a servir a funções
gramaticais e, uma vez gramaticalizados, continuam a desenvolver
novas funções gramaticais. Sob essa ótica, reconfigurou-se a própria
concepção de língua e de gramática, já que ambas passam a ser vistas
como um continuum de possibilidades de usos linguísticos: (i) numa
ponta, encontram-se usos mais criativos da língua, itens mais lexicais,
funções menos gramaticais e um processamento menos veloz (com forte
atuação do princípio da iconicidade, por conta da alta dependência
contextual); e (ii) na outra ponta, encontram-se usos mais regularizados,
itens mais gramaticalizados, funções mais gramaticais e um
processamento mais automático (com maior atuação do princípio da
arbitrariedade, tendo em vista a parca dependência contextual) –
evidenciando-se aí a atuação de motivações conflitantes. Verificou-se
que os fatores desencadeadores da gramaticalização podem ser de
natureza (i) pragmática/comunicativa (papel ativo dos interlocutores,
para negociação de sentido no ato comunicativo); (ii) cultural (vínculo
entre prática cultural e tipo específico de texto/de usos linguísticos); e
(iii) cognitiva (necessidade de resolução de problemas relacionados à
representação cognitiva). Entre os mecanismos de gramaticalização,
explanaram-se os seguintes: (i) metáfora, (ii) metonímia, (iii) reanálise,
(iv) analogia, (v) contexto, (vi) frequência de uso, (vii) inferência, (viii)
direcionalidade, (ix) desbotamento ou generalização semântica, (x)
inferência sugerida (invited inference) e (xi) (inter)subjetivização.
Quanto à emergência e expansão de um processo de gramaticalização,
foi dito que: (i) em sua origem, a gramaticalização de uma construção
começa com a inovação de um ato individual, que instaura um novo uso
para uma forma já existente; (ii) em sua expansão, (a) a trajetória de
mudança ruma à abstração e generalização crescente de funções e de
contextos de uso dos itens linguísticos; (b) nesse percurso, novas
fórmulas gramaticais são geradas, por polissemia, provocando
constantes realinhamentos nas relações entre formas e funções; (c) além
de alteração semântico-pragmática, o processo de gramaticalização
186
também produz consequências morfológicas, sintáticas e fonético-
fonológicas nas construções envolvidas – o que pode ser avaliado
mediante os seguintes parâmetros: extensão, dessemantização,
decategorização e erosão. Além disso, foram apresentados cinco
princípios que auxiliam na identificação de itens em processo de
gramaticalização: estratificação, divergência, especialização,
persistência e decategorização. Considerando a frequência de uso,
destacou-se que: (i) ela impacta a ritualização de fenômenos culturais
rotinizando-os e, com isso, a própria representação cognitiva; (ii) seus
efeitos consistem tanto em reter características (devido à força da
representação cognitiva das construções) quanto em promover
alterações; (iii) ela tende a ser proporcional ao estágio da mudança –
quanto mais frequente um item, mais avançada está a mudança; (iv)
deve-se observar a frequência não apenas da construção em foco, mas
também do que coocorre com ela. Enfatizou-se, por fim, que o que
desenha a rota de gramaticalização não são elementos linguísticos, mas
a maneira como as pessoas concebem o mundo e como organizam seus
hábitos e rotinas.
Por fim, na última seção do capítulo (2.3), apresentaram-se
algumas diretrizes metodológicas dos estudos funcionalistas,
especialmente no que tange ao processo de gramaticalização,
destacando-se (i) três perspectivas de análise: histórica/diacrônica,
sincrônica e pancrônica; (ii) o estabelecimento do corpus de pesquisa –
considerado mais produtivo se composto por diferentes tipos de textos,
provenientes, cada um deles, de diferentes épocas; mas podendo
também ser constituído sincronicamente; (ii) o método de análise – que
pode ser emprestado de análises variacionistas, além de computar
frequências token e type de uma construção sob exame, uma vez que
essa medida aponta para o seu grau de gramaticalização. Também foram
consideradas algumas tendências teórico-metodológicas atuais do
funcionalismo no Brasil, destacando-se o desafio (teórico-metodológico)
de lidar com a noção de contexto – entidade ainda tratada como vaga e
genérica, no campo –, bem como avançar na compreensão do fenômeno
de comunicação e dos fatores nele envolvidos. Nesse ponto, indicou-se
que a tentativa de ligar com essa questão tem conduzido os estudos
funcionalistas ao exame de novos elementos, tais como (i) qualidade da
interação social, (ii) gêneros (referidos na literatura como textual e/ou
discursivo) e (iii) tipologia textual. Nessa direção, o texto e suas
condições de produção passam a ser vistos como instância ideal para se
depreender o funcionamento da língua. Como consequência, os
fenômenos linguísticos passam a ser vistos a partir da marca da
187
contingência e da especificação, o que afasta o campo – em suas
tendências atuais – de práticas prioritariamente quantitativas, em prol de
práticas prioritariamente qualitativas.
***
Tendo em vista principalmente essas últimas considerações,
infere-se que o campo funcionalista ainda precisa lidar com a
especificação dos elementos do contexto social que podem exercer
pressões sobre os usos linguísticos, independentemente do fenômeno
sob exame. Mas, para isso, há que se delinear bem claramente, em
primeiro lugar, a própria concepção quanto ao fenômeno da
comunicação, como bem alerta a literatura revisada. Sob quais
circunstâncias, por exemplo, aspectos históricos exercem pressão mais
forte, sobre a configuração dos usos linguísticos, do que aspectos
pragmáticos? Considerando que o campo se volta para o texto como
instância ou locus de análise linguística, quais categorias analíticas
podem ser constituídas para ele, a fim de se observar, por elas, indícios
das condições de sua produção?
Frente a essas questões e a todo o quadro teórico-metodológico
desse campo, argumenta-se que tanto o campo variacionista – já
evocado metodologicamente pelos estudos funcionalistas, como se
indicou anteriormente – quanto o campo bakhtiniano podem contribuir
para o enfrentamento dos desafios mais atuais do funcionalismo, não
apenas porque elas têm desenvolvido uma teorização sobre a interação
social, mas também porque, para isso, dedicam-se fortemente
justamente à questão do contexto de uso da língua. Nesse sentido,
antecipa-se ao leitor que os gêneros do discurso (e não os gêneros
textuais), pelas concepções teórico-metodológicas que evocam, no
quadro dos estudos dialógicos, são bastante produtivos para as questões
(tradicionais e atuais) funcionalistas. A seguir, explanam-se,
primeiramente, alguns dos principais aspectos constitutivos do campo
variacionista, realçando, então, como ele lida com as questões
mencionadas e, assim, como os campos funcionalista e variacionista se
encontram.
189
CAPÍTULO 3
A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA: DE UMA
PERSPECTIVA ESTRUTURAL A UMA PERSPECTIVA
DISCURSIVA
“Por causa da construção de um sistema
linguístico abstrato, os linguistas chegaram a
separar o apreciativo do significativo, e a
considerar o apreciativo como um elemento
marginal da significação”
(BAKHTIN, 2014 [1929], p. 135).
“[...] os pesquisadores precisam desenvolver uma
consciência dos pressupostos subjacentes à prática
em seus campos, para que eles possam, se
necessário ou apropriado, consultar de forma
coerente essas suposições. Eles também precisam
desenvolver uma consciência contínua das
relações entre os seus próprios campos e outros –
e dos antecedentes históricos que constituíram seu
campo - às vezes, fornecendo um quadro contra o
qual os profissionais reagem”
(MILROY; GORDON, 2003, p. ).187
INTRODUÇÃO
Este capítulo objetiva apresentar alguns dos principais pontos
constitutivos do Programa de Pesquisa Variacionista, considerando suas
primeiras delimitações e, por conta das sucessivas revisões pelas quais
essas têm passado ao longo de mais de 50 anos de pesquisa, as
delimitações mais recentes que, de certo modo, rompem com aquelas.
Nesse sentido, indica-se como o campo variacionista acomoda
atualmente uma perspectiva estrutural e também uma perspectiva
187
“[...] researchers need to develop an awareness of the assumptions
underlying practice in their fields, so that they may, if necessary or appropriate,
coherently query those assumptions. They also need to develop an ongoing
awareness of the relationships between their own fields and others – and of the
historical antecedents that have shaped their field – sometimes by providing a
framework against which practitioners react”.
190
discursiva de língua, sendo essa última a via pela qual se promove o
diálogo entre os campos acionados nesta tese.
Ressalve-se que entre uma perspectiva e outra, no âmbito dos
estudos variacionistas, muitos pontos de divergência entre os próprios
pesquisadores do campo foram (e estão sendo) registrados, de modo que
uma compreensão mais acurada do estado atual da arte desse campo –
considerando seus aspectos epistemológicos, teóricos e metodológicos –
exige um escorço histórico (i) dos debates que (em nossa compreensão)
conduziram à fragmentação do campo variacionista e, antes disso, (ii)
do próprio contexto de constituição da Sociolinguística.
Colocando, inicialmente, esse último aspecto sob escrutínio,
vale destacar que, de um ponto de vista historiográfico, a inauguração de
uma perspectiva sociolinguística da língua não coincide com o registro
do termo na literatura visto que, muito antes, já se havia reconhecido sua
natureza social188 (PAULSTON; TUCKER, 2003).
Embora não haja consenso na literatura quanto ao primeiro uso
do termo “Sociolinguística” (cf. MARRA; MILANI, 2012), Nevalainen
e Raumolin-Brunberg (2012) localizam o fato numa revista de estudos
antropológicos, na Índia, em 1939, embora o campo só tenha se
estabelecido oficialmente a partir da década de 1960, nos Estados
Unidos, “motivado por uma reação contra o formalismo linguístico”
(FIGUEROA, 1994, p. 01), praticado especialmente pelo estruturalismo
e pelo gerativismo189. Mesmo assim, definir com exatidão o que é
Sociolinguística, enquanto uma das áreas da Linguística, é tarefa
penosa, uma vez que o termo recobre diferentes práticas de pesquisa,
188
Em contraste com as ideias naturalistas de August Schleicher (1821-1868),
linguista e estudioso das ciências naturais e cujas concepções dominaram a
linguística do século XIX, o alemão Wilhelm von Humboldt (1767-1835) e o
norte-americano William Whitney (1827- 1894) já chamavam atenção para o
aspecto sócio-histórico da língua. Para mais informações sobre o pensamento
desses autores, cf.: Robins (1983); Lyons (1979);Milani (2000; 2007);Faraco
(2005a); Humboldt (2006);Severo (2008b);Whitney (2010);Mattoso Câmara
(2011); Koerner (2014), dentre outros.
189
A partir deste ponto, faz-se referência a essas duas abordagens (estruturalista
e gerativista) como linguística formal: a primeira, porque admite que os
sentidos dos termos se definem internamente ao sistema; e a segunda, porque
utilizam uma metalinguagem técnica quase lógica, porque privilegiam a forma
gramatical como autônoma e porque admitem que as línguas naturais são um
cálculo (PIRES DE OLIVEIRA, 2004).
191
havendo, por isso, diferentes acepções para ele (FIGUEROA, 1994;
COULMAS, 1998).
Todas elas têm em comum pelo menos duas características: (i)
afastam-se, em alguma medida, das abordagens formalistas e (ii)
correlacionam o mundo linguístico com o mundo social, sendo, por isso,
abordagens que se caracterizam por serem ponto de encontro entre a
Linguística e outras ciências sociais, tais como a Sociologia, a
Antropologia etc. (PAGOTTO, 2006; TAGLIAMONTE, 2012). Pode-se
dizer, portanto, em sentido amplo, que o princípio fundamental da
Sociolinguística é a natureza social da língua (COUPLAND, 2007),
tendo esse princípio se desenvolvido justamente no momento em que o
formalismo linguístico estava em seu auge, nos Estados
Unidos190(ALKMIM, 2004).
Considerando os acontecimentos históricos que marcam o
estabelecimento da Sociolinguística como área da Linguística, Shuy
(2003) cita os seguintes eventos, todos ocorridos no ano de 1964:
(i) a Conferência em Lake Arrowhead, Califórnia, para falar sobre
Sociolinguística,e da qual participaram, dentre outros
pesquisadores, John Gumperz, Raven I. McDavid, Jr., Dell Hymes,
John Fischer, Charles Ferguson e Willian Labov – esse último,
convidado para descrever sua pesquisa sobre a fala de Nova Iorque
(cf. 3.1). Importante destacar que “[e]ste quadro de participantes
representou uma série de tradições de pesquisa bastante diferentes
– geografia linguística, contato linguístico, mudanças históricas,
etnografia e planejamento da linguagem” (SHUY, 2003, p. 11)191 –
e que os trabalhos dessa Conferência foram reunidos por Bright,
com o título Sociolinguística, e publicados em 1966, propondo que
o objeto de estudo da Sociolinguística seria a diversidade
linguística. A tarefa do campo, então, seria correlacionar a variação
linguística com a variação social. Além disso, Alkmim (2004)
também destaca que, orientando a prescrição dessa tarefa, estava a
190
Para resgatar os motivos pelos quais o formalismo marca o contexto
linguístico norte-americano, cf., por exemplo, Mattoso Câmara (2011); Faraco
(2005a).
191
“[...] This cadre of participants represented a number of quite different
research traditions – linguistic geography, language contact, historical changes,
ethnography, and language planning”.
192
hipótese de que os seguintes fatores sociais estariam
correlacionados à diversidade linguística: (i) a identidade social do
falante; (ii) a identidade social do ouvinte; (iii) o contexto social
da comunicação (formal ou informal); (iv) as atitudes dos falantes,
ou seja, julgamento social do falante em relação ao ouvinte e ao
próprio comportamento linguístico;
(ii) Ainda como resultado da Conferência anteriormente mencionada,
estabeleceu-se que dois cursos deveriam ser oferecidos no Instituto
LSA, tarefa que coube a Ferguson e Gumperz: "Linguagem e
Sociedade" e "Sociolinguística"; assim, inicialmente, esses termos
designavam, alternativamente, os trabalhos que iniciavam o campo,
embora, posteriormente, desses cursos, duas diferentes linhas de
trabalho tenham se diferenciado, conforme se apresenta a seguir;
(iii) Além dos cursos desses autores, o Instituto LSA sediou também
uma Conferência com a temática Dialetos sociais e aprendizagem
de línguas, contando com 25 participantes, dentre eles,
educadores, sociólogos e psicólogos – Gumperz, Labov,
MacDavid e Ferguson estavam presentes, dando continuidade às
discussões da Conferência de Lake Arrowhead. As publicações dos
trabalhos dessa Conferência focalizaram, dentre outras questões,
igualdade de dialetos, necessidade de pesquisa sobre língua urbana,
adequação da pesquisa dialetológica, utilidade pedagógica de
informações mais profundas sobre a variação.
Desse modo, foi “[c]om a reunião de Lake Arrowhead, com o
Instituto LSA, com os cursos de Gumperz e Ferguson em
sociolinguística e com a conferência sobre Dialetos, [que] o verão de
1964 foi muito importante para o estabelecimento do campo da
sociolinguística (SHUY, 2003, p. 12).192
192
“With the Lake Arrowhead meeting, with the LSA Institute, with Gumperz’
and Ferguson’s courses in sociolinguistics and with the conference on Social
Dialects, the Summer of 1964 was very important for the establishment of the
field of sociolinguistics”.
193
Do ponto de vista da constituição interdisciplinar do campo, três
áreas se destacam, ainda segundo Shuy (2003), na constituição desse
campo: a dialetologia, a antropologia193 e a sociologia, admitindo-se que
[p]ara que o campo da sociolinguística pudesse se
beneficiar plenamente das disciplinas combinadas
em que se baseava, [...] [a]s ideias etnográficas
dos antropólogos, a teoria social e os métodos da
sociologia e as informações básicas da linguística
[deveriam] ser fundidas (SHUY, 2003, p. 8)194.
Não por acaso, portanto, as rotinas de trabalho da sociologia e
da antropologia – considerando abordagens quantificáveis para exame
do status socioeconômico dos falantes, dados de censos, procedimentos
de amostragem e de coleta de dados, metodologia etnográfica, como a
observação participante etc. – estavam presentes na fundação da
Sociolinguística.
O campo, em seus primeiros dias, porém, teve que lidar com o
seguinte impasse: por um lado, os sociólogos estavam interessados em
variáveis linguísticas, mas não exatamente em linguística; por outro,
“Labov argumentou que a quantidade de treinamento linguístico
necessário para provocar uma mudança no caráter da pesquisa e na
teoria linguística básica era tão grande que ele preferia treinar apenas
aqueles comprometidos com a linguística” (SHUY, 2003, p. 8).195
193
Há quem diga, inclusive, que a Sociolinguística é uma versão moderna da
linguística antropológica, uma vez que a definição clássica de antropologia é
“análise mais ampla do comportamento humano, seus padrões e princípios”
(SHUY, 2003, p. 5), e o que a Sociolinguística se propõe a fazer é justamente se
concentrar em aspectos da cultura, para a análise linguística. Nesse
contexto,Hymes, por exemplo, considerou, na década de 1960, que antropologia
e linguística, embora não sejam coincidentes, se sobrepõem, já que, em sua
perspectiva, a descrição linguística demandava a especificação do contexto
(sociocultural) dos dados. (SHUY, 2003).
194
“In order for the field of sociolinguistics to fully benefit from the combined
disciplines upon which it was based, [...] The ethnographic insights of
anthropologists, the social theory and methods of sociology and the basic
information of linguistics had to be merged more comfortably.
195
“Labov argued that the sheer amount of linguistic training needed to bring
about a change in the character of basic linguistic research and theory was so
great that he preferred to train only those committed to linguistics”.
194
Do impasse promovido pela interdisciplinaridade– com cada
área querendo manter seu campo, suas metas e teorias –, emergiram, no
final de 1960, várias vertentes sociolinguísticas, cada uma delas com
diferentes práticas de pesquisa, culminando em um campo amplo, dado
que as vertentes tinham interesses díspares196. Isso especializou o campo
em dois polos: (i) o da macrossociolinguísticaou Sociolinguística da
Sociedade, que se voltou para a compreensão dos aspectos sociais da
língua, ou seja, do que a sociedade faz com a língua em suas diferentes
práticas; e (ii) o da microssociolinguísticaouSociolinguística da
Linguagem – ou ainda Sociolinguística em sentido estrito – que se
voltou para os aspectos linguísticos da sociedade, ou seja, para a
compreensão do sistema linguístico de uma determinada sociedade.
(COULMAS, 1998).
No âmbito da macrossociolinguística, inscrevem-se vertentes
como a (i) Sociologia da linguagem, representada, por exemplo, por
Bernstein e Fishman, cujos temas de interesse giram, principalmente,
em torno de planejamento linguístico, situações de bilinguismo e
dialetais com análise de fatores sociais em grande escala; a (ii)
Etnografia da fala, associada especialmente ao nome de Dell Hymes,
cujo foco de descrição são as regras que dirigem os eventos de fala,
tendo em vista as relações contraídas entre os interlocutores em
diferentes processos comunicativos; e a (iii) Abordagem Interacionista
desenvolvida, por exemplo, por Gumperz, com foco na explicação de
como e por meio de quais aspectos verbais e não verbais a interação se
organiza.
Já no âmbito da microssociolinguística, inscreve-se,
prioritariamente, a Sociolinguística VariacionistaouQuantitativa,
desenvolvida a partir dos trabalhos de Labov e cujo foco tem sido o
estudo da estrutura e da evolução linguística, a partir da explicação da
variação. Essa última vertente, dada a relevância e repercussão que teve
para a consolidação do próprio campo sociolinguístico tem sido, muitas
vezes, tomada “como se fosse a sociolinguística” (CAMACHO, 2013, p.
20, grifo do autor), “ofuscando”, assim, as abordagens que se inscrevem
no âmbito da macrossociolinguística.
Importante destacar que Labov (2008 [1972]) delimita
explicitamente seus interesses de pesquisa a partir de uma relação
196
A título de exemplificação, cf. em Nevalainen e Raumolin-Brunberg (2012, p.
31) como algumas vertentes sociolinguísticas estão sumarizadas na literatura.
195
contrastiva com os interesses da Sociologia da linguagem e da
Etnografia da fala, por exemplo. O excerto a seguir, além de ilustrar essa
questão, faz ver também tanto os pontos de interesse dessas duas
vertentes de que Labov se distancia, quanto os tópicos a que o autor se
dedica:
Uma área de pesquisa que tem sido incluída na
‘sociolinguística’ talvez seja rotulada mais
adequadamente de ‘sociologia da linguagem’. O
estímulo linguístico [para os estudos dessa
vertente] é primordialmente o de que dada pessoa
ou grupo usa a língua X num contexto ou domínio
social Y. [...] não tentarei lidar com tais questões
e tal pesquisa aqui. Existe outra área de estudo às
vezes incluída na ‘sociolinguística’ que se
preocupa mais com os detalhes da língua no uso
real – o campo que Hymes tem chamado de
‘etnografia da fala’ (1962). Há muito o que fazer
na descrição e na análise dos padrões de uso das
línguas e dialetos dentro de uma cultura
específica: as formas de ‘eventos de fala’; as
regras para a seleção adequada dos falantes; as
inter-relações entre falante, ouvinte, público,
tópico, canal e contexto; e os modos como os
falantes se valem dos recursos de sua língua para
desempenhar certas funções. [...] [A pesar disso,
trato] do estudo da estrutura e da evolução da
língua dentro do contexto social da comunidade
de fala. (LABOV, 2008 [1972], p. 215-216; grifos
nossos).
Como se vê no excerto precedente, Labov se orienta para o
estudo do sistema linguístico, diferentemente do que fazem as demais
vertentes do campo, admitindo, inclusive, que, a não ser pela
necessidade de esclarecer que se ocupa do estudo da língua em seu
contexto social, “preferiria dizer que [seu trabalho] se trata
simplesmente de linguística” (LABOV, 2008 [1972], p. 216).
Com isso, destaque-se que, embora, inegavelmente, o campo
sociolinguístico se afaste, inicialmente, da linguística formal, como
mencionado, as diferentes vertentes parecem se afastar desigualmente
dela, o que traz como consequência o fato de a explicação da relação
entre mundo linguístico e mundo social, embora sendo relevante para o
196
campo em geral, não se dê pela mesma via nas diferentes práticas de
pesquisas sociolinguísticas.
Para Figueroa (1994), além disso, o que orienta as diferentes
práticas do campo decorre de questões que são anteriores ao próprio
fazer científico: questões de natureza epistemológica ou metateórica,
tais como o conceito de realidade e de conhecimento. Há, por exemplo,
abordagens sociolinguísticas que são realistas, pois se orientam pela
crença de que o mundo existe independentemente do conhecimento que
se tem sobre ele e, desse modo, todo conhecimento produzido seria uma
descrição exata do mundo, tal como ele é. E há também abordagens
sociolinguísticas relativistas, pois se orientam pela crença de que não há
existência independente do conhecimento, ou seja, o conhecimento e a
própria realidade são assumidos como contingentes, pois, sob este ponto
de vista, é a percepção que cria a realidade (EDWARDS, 2009).
Por tudo isso, pode-se dizer que, desde seus primeiros dias, a
Sociolinguística é um campo heterogêneo e dedicado a muitos temas
diferentes197. Conforme avança e se complexifica em seus objetivos, ao
longo de mais de 50 anos de trabalho, a Sociolinguística tem mantido a
orientação de campo híbrido, e entrado em diálogo com diversos outros
campos para dar conta quer de novos temas quer da releitura de velhos
temas198. Só por esse aspecto, já se pode antecipar ao leitor que manter
diálogo com outros campos de pesquisa – tal como se pretende fazer
nesta tese – está na direção da própria vocação dos estudos
sociolinguísticos.
Neste ponto vale mencionar o conceito de paradigma científico
de Kuhn (1998 [1962])199. Embora o autor mencione que considera “[...]
197
Dentre eles: variação e mudança, multilinguismo, contato linguístico,
atitudes em relação à língua, relação entre papéis sociais e projeção de
identidade por meio da língua, descrição de contextos sociais de uso da
linguagem etc.
198
Há quem considere que os desenvolvimentos recentes da análise do discurso
e da pragmática, por exemplo, são parte da Sociolinguística; e há também quem
os veja como campos apartados (SHUY, 2003), mas abertos ao diálogo com ela.
199
A obra de Kuhn (1998 [1962]) é sobre a história da Ciência, entendida como
um processo sócio-histórico. Nesse sentido, a história científica é vista não em
termos lineares, mas em termos de conflitos, de concorrências, dados os valores
sociais conflitantes e concorrentes dos próprios cientistas. A cada sistema de
valores concorrentes é o que Kuhn denomina paradigma científico. Figueroa
(1994), no entanto, ressalva que, como o trabalho de Kuhn é no âmbito das
197
‘paradigmas’ as realizações científicas universalmente reconhecidas
que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares
para uma comunidade de praticantes de uma ciência” (KUHN, 1998
[1962], p. 13), Figueroa (1994) aponta três diferentes acepções do termo
na obra do autor, que constituem três diferentes níveis que se
correlacionam na prática científica: (i) paradigma como visão de mundo
ou estrutura perceptual que funciona como pré-requisito para a própria
visão de mundo; (ii) paradigma como matriz disciplinarou crenças
compartilhadas na prática de um grupo de pesquisadores (o que conta
como dados, como argumentos válidos, como organização metodológica
etc.); (iii) paradigma como exemplar, referindo-se aos exemplos
tradicionais a que um novato em um campo científico é exposto e deve,
em seguida, dominar para ser considerado um membro do campo.
Assim, os exemplos de um campo a que um iniciante é exposto
introduzem uma matriz de valores e crenças, que passam a constituir o
quadro perceptual a partir do qual se vê o mundo; ou, de outro modo,
uma visão de mundo específica é sustentada por uma matriz disciplinar
e por exemplos típicos de trabalho que atuam no sentido de reforçar
cada vez mais a visão de mundo (FIGUEROA, 1994).
ciências duras, especificamente no da física, o autor compreende que
paradigmas científicos de diferenças irreconciliáveis se substituem, por meio de
revoluções científicas. Para Figueroa, a visão de paradigmas que se substituem
não se aplica à história da Linguística e nem à da Sociolinguística, pois nelas
paradigmas concorrentes coexistem – cf. discussão em Figueroa (1994). Além
disso, recentemente Damázio e Pires de Oliveira (2016) também questionam a
própria adequação do conceito de paradigma para os estudos linguísticos,
pondo, assim, em debate se a proposta epistemológica de Kuhn faz sentido para
essa área, uma vez que, entre as diferentes práticas de pesquisa linguística há
mais miscigenação e encontros, “fluxos de conversa que se cruzam” (p. 10) do
que separação, do que “caixas” teóricas. Adverte-se, contudo, que
operamos,nesta tese, com a noção kuhniana de paradigma científico pela
seguinte razão: é possível historicamente identificar pontos de dissonância, de
ruptura entre diferentes práticas linguísticas e também dentro de uma mesma
prática; e é justamente por meio desses pontos que determinadas práticas
podem, então, passar a manter uma conversa com outras práticas. Assim, feitas
as devidas ressalvas quanto à aplicação da noção de paradigma científico ao
campo da linguística, conforme fazem Figueroa (1994) e Damázio e Pires de
Oliveira (2016), parece ser possível identificar, a depender do foco
dopesquisador, miscigenação, mas também rupturas entre as diferentes práticas
de pesquisa e/ou no âmbito de uma mesma prática.
198
Essa noção de paradigma científico faz ver que a
Sociolinguística, num “sentido [ainda] não refinado do termo”
(FIGUEROA, 1994, p. 26, grifos nossos)200, apresenta certa unidade,
tanto pelos aspectos anteriormente mencionados quanto por se
harmonizar, numa perspectiva dicotômica de Linguística, com o
paradigma funcional da linguagem, em oposição ao paradigma
formal201 (FIGUEROA, 1994).
Por outro lado, como já se destacou, a Sociolinguística, num
sentido mais refinado, não é um paradigma científico uniforme, mas
comporta diferentes matrizes disciplinares, nos termos de Kuhn (1998
[1962]), que se orientam por diferentes visões de mundo. O que parece
haver, então, é um contínuo de vertentes, das que dialogam, em alguma
medida, com teorias formais202 às que dialogam com teorias funcionais
e/ou discursivas, e também um contínuo de pesquisadores que não se
ajustam plenamente às práticas científicas de uma vertente específica e,
200
“It is obvious that sociolinguistics, in the unrefined sense of the term that we
are using [...]”.
201
Neste ponto do texto não estão em questão as mudanças ocorridas no
pensamento laboviano, a partir da década de 1980, e que o conduziram a
posições antifuncionaisface à reiteração de princípios formais (CAMACHO,
2013). Isso se discute em 3.2.2. Por ora, trata-se de pressupostos fundamentais
da Sociolinguística, enquanto área da Linguística, e é nesse sentido que
Figueroa localiza a perspectiva em questão no paradigma funcional da
linguagem. Ademais, cabe ainda fazer a seguinte ressalva: é importante não
exagerar na impenetrabilidade das fronteiras entre sociolinguística e teorias
formais (como a teoria gerativa, por exemplo), tendo em vista os inúmeros
trabalhos variacionistas desenvolvidos dentro de um quadro teórico de
princípios e parâmetros, tais como: Henry (1995), Nagy e Reynolds (1997), Guy
(1997), Cornips (1998), dentre outros (cf. temática e referências desses
trabalhos em Milroy e Gordon (2003)). No Brasil, destaque-se que essa linha de
investigação teve início com a proposta de Tarallo e Kato (1989).
202
Cabe lembrar que a Sociolinguística Paramétrica, proposta por Tarallo e
Kato (2007 [1989]), por exemplo, ilustra uma prática científica que parece
contradizer a localização da Sociolinguística, em geral, no paradigma funcional
da linguagem, conforme propõe Figueroa (1994) a partir de Dik (1978).
Martins, Coelho e Cavalcante (2015), por exemplo, afirmam que esse
“casamento” (p. 221) entre Gerativismo e Sociolinguística Variacionista, ao
articular cuidadosamente conceitos dos dois campos, têm contribuído
significativamente para os estudos de variação e mudança, sobretudo os que
focalizam fenômenos sintáticos.
199
por isso, configuram práticas de natureza híbrida, promovendo, assim,
ampliações teóricas e metodológicas de determinadas vertentes e da
própria Sociolinguística.
Esse é o panorama geral da Sociolinguística, a partir do que este
capítulo revisita a vertente Variacionista, por ser a que se dedica ao
tema da variação e da mudança linguística, orientando, inclusive, as
pesquisas sobre a expressão do futuro do presente no PB (cf. 1.2). Com
isso, este capítulo apresenta como a vertente variacionista, tal como a
própria Sociolinguística, é um campo híbrido, constituído de diferentes
paradigmas (em nossa perspectiva), embora todos eles busquem
respostas para a seguinte questão:
[...] quanto do que acorre com a língua, em termos
de variação e mudança, é resultado do trabalho
social de seus usuários a partir da identidade
social específica de que são dotados ou o
resultado de padrões formais, estruturais, que
regem, por si sós, os processos de estabilidade e
mudança [?] (CAMACHO, 2013, p. 21).
A fim de explicitar como essa vertente pode pender a resposta
ora para um lado ora para outro, neste capítulo revisitam-se: (i)
concepções de orientação laboviana203 (LABOV, 1978; 1982; 1994;
2001a; 2001b; 2003; 2006 [1966]; 2008 [1972]; 2010; WEINREICH,
LABOV, HERZOG, 2006 [1968]; GUY, 2000; 2001); e (ii) aspectos a
partir dos quais uma nova coalizão de autores (LAVANDERA, 1978;
FIGUEROA, 1994; COULMAS, 1998; LE PAGE, 1998; MILROY;
MILROY, 1998; ECKERT, 1998; 2000; 2001; 2005; 2008; 2012; 2016;
LEITNER, 1998; ROBERTS; STREET, 1998; BELL, 2001;
TAGLIAMONTE, 2006; 2012; COUPLAND, 2001; 2007; EDWARDS,
2009; POPLACK, 2011; SCHILLING-ESTES, 2007; SCHILLING,
2013; WOLFRAM, 2013, dentre outros), dedicados à compreensão do
mesmo tema (variação e mudança) promovem releituras das concepções
labovianas e, com isso, ampliam alteram o escopo teórico-metodológico
a partir do qual se examina variação e mudança linguística.
203
As concepções labovianas, em nossa perspectiva, não se limitam às ideias de
Labov, mas se estendem também às de autores, como Guy, por exemplo; ambos
compartilham, em nossa leitura, mesma “visão de mundo” e, por isso, se
orientam pelo mesmo conjunto de práticas científicas.
200
Admite-se, então, que essa nova coalizão de autores, por meio
de diferentes práticas de pesquisa, marcam o campo variacionista em
três diferentes fases ou ondas (ECKERT, 2005; 2008), isso significando
uma expansão (ou fissura?) epistemológica e teórico-metodológica que
tem convocado, no âmbito dos estudos variacionistas204, um olhar
discursivo por duas diferentes vias:
pelo interesse em fenômenos de “[...] qualquer nível da
gramática, que vão da fonética ao discurso, da fonologia à
sintaxe” (TAGLIAMONTE, 2006, p. 75, grifos nossos)205, ou
seja, pela ampliação do tipo de variável linguística206 válida no
âmbito dos estudos variacionistas, partindo-se de variáveis
fonológicas em direção a variáveis discursivas, o que põe em
evidência a complexa relação forma/função nos contextos reais
de uso da língua;
pela contestação de pressupostos epistemológicos assumidos
pela Sociolinguística Variacionista, a partir do que se
redimensionam conceitos e métodos para tratamento da língua
enquanto discurso, terreno no qual o foco recai sobre a relação
entre língua, contexto sociocultural, sistemas ideológicos e
projeção/construção/negociação de identidades, personas
sociais etc.
Pela primeira via, discurso se refere a um dos níveis da
gramática que passa a integrar os estudos variacionistas, já como
consequência de uma primeira expansão conceitual da vertente
laboviana (cf. 3.2.2), remetendo à noção de organização linguística
acima do nível da sentença (em direção ao texto) e à de uso interacional,
envolvendo aspectos pragmáticos. Como o que está em questão, nessa
204
Os trabalhos referenciados neste capítulo estão em diversosHandbooks de
Sociolinguísticaou de Variação e Mudança Linguística (cf. Referências), por
isso são lidos como representantes da área, para os objetivos deste texto, ainda
que seus autores também desenvolvam trabalhos em outras linhas da
Linguística.
205
“The linguistic variable can exist at virtually any level of the grammar,
ranging from phonetics to discourse, from phonology to syntax [...]”.
206
Cf. definição do termo em 3.2.1.
201
expansão, é a questão da significação, vista no âmbito da relação
forma/função optou-se por denominar o conjunto de estudos que tratam
dessa questão (LAVANDERA, 1978; TROUGOTT, 2001; TAVARES,
2003; GÖRSKI et al., 2003; POPLACK, 2011; TAGLIAMONTE, 2006;
2012; TAVARES; GÖRSKI, 2012; TAVARES, 2013; VALLE, 2014;
GÖRSKI; VALLE, 2016) de perspectiva funcional da variação – via
pela qual o campo variacionista entra em diálogo com o campo
funcionalista.
Pela segunda via, discurso se refere ao uso ideológico da língua
de modo que evoca um conjunto de pressupostos epistemológicos
diferentes e até divergentes da primeira vertente variacionista. Acerca
dos trabalhos que se inscrevem nessa perspectiva (FIGUEROA, 1994;
COULMAS, 1998; LE PAGE, 1998; COUPLAND, 2001; 2007;
ECKERT, 2005; 2008; 2012; 2016, dentre outros), optou-se por referi-
los como representantes da perspectiva discursiva da variação – via
pela qual o campo variacionista entra em diálogo com o campo
bakhtiniano.
Como nem todos os trabalhos se encaixam exatamente nessa
sistematização, ela deve ser lida com ressalvas, pois cumpre apenas o
objetivo de didatizar a exposição do capítulo (i) quanto às graduais
modificações pelas quais o estudo da variação e da mudança tem
passado nos últimos 50 anos, saindo de uma perspectiva estrutural em
direção a uma perspectiva discursiva, bem como (ii) quanto às diferentes
possibilidades de enfoque dos estudos variacionistas – todas em vigor
atualmente.
São objetivos deste capítulo, então: (i) apresentar a gênese de
constituição da sociolinguística laboviana, frente à Linguística que lhe
antecede; (ii) deslindar a base teórico-conceitual dessa vertente,
conforme proposta inicialmente por Labov; (iii) acionar as revisões
pelas quais ela tem passado, ensejando a consolidação de novas fases
nos estudos variacionistas; (iv) focalizar a terceira fase variacionista, a
partir das concepções que envolvem a discussão sobre variação
estilística; (v) apresentar diferentes diretrizes metodológicas que
constituem o campo variacionista.
Organizou-se, com isso, o capítulo do seguinte modo: na
primeira seção (3.1), apresenta-se a gênese dos estudos variacionistas;
na segunda (3.2), discorre-se, panoramicamente, sobre a constituição do
Programa de Pesquisa Variacionista, focalizando, as primeiras
delimitações quanto: (i) às concepções de língua, de variação e de
mudança, (ii) aos problemas empíricos para uma teoria de variação e de
mudança, (iii) ao locus de investigação da variação; para cada um desses
202
tópicos, indica-se como problematizações atinentes a eles culminam em
ampliação do campo, rumo a constituição de diferentes tradições de
pesquisa; na terceira seção (3.3), aborda-se a questão da variação
estilística, a fim de realçar como ela, de tópico secundário, no âmbito
das primeiras delimitações do campo variacionista, passa a tópico
central, nos estudos mais recentes; na quarta (3.4), destacam-se as
diretrizes metodológicas do campo; e, por fim, na quinta seção (3.5)
encerra-se o capítulo com uma síntese das discussões, além de se
contrastar as duas vertentes mais extremas do contínuo de práticas
científicas no âmbito da Sociolinguística Variacionista.
3.1 A GÊNESE DA SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA
Esta seção apresenta uma versão sobre a gênese207 dos estudos
variacionistas, considerando, brevemente: (i) o cenário científico a partir
do qual Labov desenvolve seu pensamento; (ii) elementos da própria
história de vida do autor que motivaram parte de suas decisões teóricas;
(iii) os estudos que inauguraram a prática científica variacionista.
Essa vertente sociolinguística, que se denomina Sociolinguística
Variacionista (doravante, SV) e se confunde, por vezes, com a Teoria
da Variação e Mudança (doravante, TVM), é representada
especialmente por William Labov,eresulta de uma “síntese de várias
linhas de investigação” (KOERNER, 2014, p. 123), em parte,
rapidamente explicitada a partir da genealogia do campo, esboçada por
Koerner (2014, p. 128), conforme pode ser destacado a seguir:
207
Cavaliere (2014), citando Koerner (1991), destaca que a história da
Sociolinguística ainda carece de estudos mais aprofundados, de modo que as
fontes sobre a questão não devem ser vistas como definitivas. Tendo em vista
que a historiografia do campo não é o foco deste texto, apresenta-se uma visão
geral das influências do campo, deixando, assim, o alerta sobre a necessidade de
estudos mais profundos quanto ao tema.
203
Figura 8: De Whitney a Labov
Fonte: Koerner (2014, p. 128)
Embora Koerner (2014) considere essa linhagem um pouco
simplista, ela tem o mérito de, em primeiro lugar, rapidamente recuperar
o afastamento da SV, quanto à concepção de língua, de visões
naturalistas, como a de Schleicher, no século XIX (cf. ROBINS, 1983),
e sinalizar para a concepção social de língua do campo; e de, em
segundo lugar, também recuperar a seguinte “corrente de influências,
[...] devido às relações acadêmicas desses linguistas” (MARRA,
MILANI, 2012, p. 3):
i. Saussure, mesmo inserido na tradição dos estudos histórico-
comparativos, filiou-se às ideias de Whitney, principalmente no
que tange à concepção de língua como fato social, afastando-se,
assim, da tradição neogramática de seu tempo que via a língua
como um fenômeno de natureza psicológica e pertencente ao
indivíduo;
ii. Meillet, aluno de Saussure, herdou essas noções, embora as
tenha levado a cabo com mais radicalidade208, na medida em
que considerou que, se língua é um fato social, sua explicação
demandaria compreensão da dinâmica social na qual se insere e,
por isso, passou a convocar os aspectos sociais para a
208
Sobre a questão, cf. Koerner (2014) e Faraco (2005a).
204
explicação dos fatos linguísticos; essa concepção promoveu
uma aproximação com os estudos antropológicos, que
buscavam compreender a constituição da cultura por diferentes
regiões do mundo, e também com a sociologia de Durkheim,209
passando, então, a se assumir língua (social) como um fato que
independe de indivíduos particulares;
iii. Meillet, por sua vez, foi professor de Martinet, linguista que se
dedicou ao estudo de seu dialeto, num período em que o cerne
dos estudos dialetológicos estava em questões macroculturais,
tais como religião, arte e moral, de modo que compreender os
usos linguísticos embasava a compreensão de valores que
distinguiam os subgrupos étnicos; além disso, Martinet também
tratou a mudança linguística como um fenômeno sistêmico,
diferentemente de Saussure, que tratava mudança isoladamente;
iv. com essa perspectiva, Martinet orientou Weinreich em sua tese
de doutorado que consistiu em um estudo geográfico do
bilinguismo; por fim, “só precisamos de recordar o facto de
William Labov ter adquirido ambos os graus acadêmicos
(mestrado e doutorado) com Weinreich” (KOERNER, 2014, p.
128).
209
Segundo Durkheim (1978), a unidade de análise da sociologia denomina-se
fato social, de que são exemplos a moral, as práticas religiosas, as profissionais
e as próprias línguas naturais. As propriedades que caracterizam um fato social
são: (i) generalidade, porque ele pertence não ao indivíduo, mas a uma
comunidade; (ii) exterioridade, porque ele é exterior a consciências individuais;
(iii) independência, em relação a manifestações individuais; (iv) coercitividade,
porque ele se impõe aos indivíduos de uma comunidade. Como se pode notar,
todos esses aspectos realçam a soberania da comunidade sobre o indivíduo,
noção que reverbera nos trabalhos de Labov, para quem o objeto de descrição
linguística é a gramática da comunidade de fala, entendida como o “sistema de
comunicação usado na interação social” (LABOV, 1982, p. 18). Cabe acentuar
que, na visão laboviana, não é por ser usada na comunicação interindividual que
a língua seria social: “Em vez disso, para Labov a língua como fato social
pertence a uma comunidade, é geral a essa comunidade e exerce forças
coercitivas claras sobre seus membros” (MAY, 2011, p. 117). Cf. mais
informações sobre a relação entre Durkheim e Labov em Severo (2007) e May
(2011).
205
Essa linha histórica das relações entre os pesquisadores faz ver,
simplificadamente, o modo como concepções de diferentes campos e de
diferentes linguistas chegaram até Labov, fazendo com que o tema da
mudança linguística, cerne dos estudos do século XIX e preocupação
“eliminada do programa da linguística do século XX” (LABOV, [1972]
2008, p. 14), renascesse de forma renovada, na segunda metade do
século XX, ao se conciliar “vertentes de pesquisa linguística, geográfica
e antropológica (com sensível viés etnográfico)” (CAVALIERE, 2014,
p. 613).
Das vertentes de pesquisa linguística, há ressonâncias tanto do
estruturalismo quanto do gerativismo na abordagem
variacionista210(FIGUEROA, 1994; TAGLIAMONTE, 2006;
CAMACHO, 2013; COELHO et al., 2015), que preserva,
principalmente: (i) do estruturalismo, a noção de língua como sistema
abstrato; e (ii) do gerativismo, a concepção formal de língua como
sistema de regras, substituindo a noção gerativa de regra opcional pela
noção de regra variável “na qual se propõe uma forma subjacente e uma
regra gerativa que convert[e] a forma subjacente [...] em uma forma
210
Essas ressonâncias da linguística formal na SV talvez se devam ao modo
como o próprio precursor dessa vertente avaliou suas contribuições frente aos
estudos linguísticos da época, acreditando que a proposta era muito menos de
natureza teórica do que (i) de ordem metodológica e (ii) de revisão de alguns
princípios teóricos já praticados na linguística dominante. Labov, por exemplo,
admite que seu trabalho não consistia em “prover à linguística uma nova teoria
da língua, mas, antes, um novo método de trabalho” (LABOV, 2008 [1972], p.
242) e afirma também não acreditar “que necessitemos, neste ponto, de uma
nova ‘teoria da linguagem’; em vez disso, precisamos de um novo modo de
fazer linguística que produza soluções decisivas” (LABOV, 2008 [1972],
p.298). Em consonância com essas ponderações, até hoje, no âmbito dos
estudos variacionistas, se afirma que “[...] a interface entre a Teoria da
Variação e Mudança e teorias linguísticas se faz sempre necessária para a
explicação de um dado fenômeno linguístico, tendo em vista o fato de não ser o
foco da Teoria da Variação e Mudança a explicação linguística em si e por si,
mas a teorização do processo de mudança linguística, entendido sempre como o
resultado de um processo de variação” (MARTINS; COELHO;
CAVALCANTE, 2015, p. 222 grifos nossos).
206
superficial diferente. Essa regra pode se aplicar ou não (isto é, aplica-se
variavelmente)” (GUY; ZILLES, 2007, p. 37).211
Dos estudos dialetológicos, herda-se a prática de pesquisa
norte-americana de se descrever línguas contemporâneas, de centros
urbanos e de falantes de diferentes níveis sociais, mas com modificações
radicais (i) no método da dialetologia tradicional212, (ii) no tratamento
dos elementos linguísticos – de unidade isolada a partes de um sistema
(MILROY; GORDON, 2003) – e (iii) no modo de compreender a
relação sincronia/diacronia, pois, para longe de se fixar na estrutura
sincrônica, a vertente variacionista passou a compreender que a rede de
isoglossas de um estudo dialetológico “representa o equivalente
sincrônico do problema da transição213” (WLH, 2006 [1968], p. 90), ou
seja, da trilha da mudança diacrônica. Também do próprio contexto
norte-americano os estudos variacionistas herdam a orientação dos
estudos antropológicos, com sensível viés etnográfico e com foco na
descrição da forma linguística de áreas geográficas específicas.
Da linguística histórica, há que se falar também das
ressonâncias dos estudos neogramáticos na SV, que herda a
compreensão de que a mudança é regular, embora WLH (2006 [1968])
dediquem parte da obra para discordar de alguns pressupostos
neogramáticos, como por exemplo, dos de que (i) a língua é de natureza
psicológica e individual, (ii) as mudanças fonéticas são motivadas por
fatores psicofisiológicos e (iii) os dialetos são agrupamentos de idioletos
idênticos.
Destaca-se ainda que grande parte da renovação na prática
científica proposta por Labov, além da influência da linhagem
acadêmica, também se deu pela própria história de vida do autor que,
tendo ficado uma década afastado da universidade, trabalhando como
químico industrial, havia se convencido de que “o mundo cotidiano era
rebelde, mas consistentemente rebelde, desconcertante no início, mas
recompensador em longo prazo para aqueles que se apegavam a seu
211
Segundo Camacho (2013, p. 129), o argumento gerativo contra a inclusão de
regras variáveis na gramática era o de que esse tipo de regra consiste em regras
do desempenho e não da competência linguística. O que Labov faz é defender
“a ideia de que a habilidade de aceitar, preservar e interpretar regras variáveis é
um aspecto importante da competência linguística dos usuários de uma língua
natural”.
212
Cf. em 3.4 discussões sobre método da sociolinguística laboviana.
213
Cf. explicação sobre o problema da transição em [Link].
207
caráter racional” (LABOV, 2008 [1972], p. 13). Um mundo real que
pudesse ser examinado do ponto de vista de suas consistências ou
regularidades é, pois, a mira dos trabalhos de Labov.
Com essa visão, ao voltar para a universidade interessado em
observar mudanças na língua inglesa a partir de dados do mundo
secular, Labov rapidamente percebeu que a pesquisa empírica ou uma
linguística socialmente realista não tinha lugar na prática científica da
época. Essa constatação, aliada ao pressuposto teórico de que “não se
pode entender o desenvolvimento de uma mudança linguística sem levar
em conta a vida social da comunidade em que ela ocorre” (LABOV,
2008 [1972], p. 21) encaminharam Labov para o desenvolvimento dos
seguintes estudos considerados fulcrais para a fundação do campo
variacionista.
O estudo de Martha’s Vineyard
Em 1963, em sua dissertação de mestrado intitulada A história
social de uma mudança sonora na ilha de Martha’s Vineyard (The
Social History of a Sound Change on the Island of Martha’s
Vineyard)214, Labov investigou possíveis correlações entre (i) o
fenômeno da centralização dos ditongos (ay) e (aw) (como em “righ” e
“house”, respectivamente) que, dentre todos os traços linguísticos dos
vineyardenses, constituía o “mais amplo espectro possível de variação e
o mais complexo padrão de distribuição” (LABOV, 2008 [1972], p. 25)
e (ii) as condições sócio-históricas na ilha.215
Tendo em vista que o uso desses ditongos pelos habitantes da
ilha, datados de 30 anos antes dessa pesquisa, assemelhava-se, quanto à
tendência de mudança, aos usos dos falantes do continente, mas que, na
ocasião da pesquisa de Labov, indicava reversão, entre os ilhéus, quanto
à tendência de mudança, o autor pensou poder traçar correlações seguras
entre a história da ilha e de seus habitantes com a história da mudança
linguística, a fim de explicar a diferenciação linguística que se constituía
entre falantes do continente e os da ilha.
214
LABOV, William. The social motivation of a sound change. Word 19, 1963,
p. 273-309.
215
O trabalho de Labov (1963) é aqui retomado a partir de Labov (2008
[1972]).
208
Para estudar a questão, Labov precisou desenvolver um método
a partir do qual pudesse obter o maior número possível de usos do
fenômeno investigado. O método consistiu em, além de observações dos
falantes em situações espontâneas, como em lanchonetes, restaurantes,
bares etc., organizar um modelo formal de entrevista que fomentasse o
uso dos ditongos (discute-se esse modelo de entrevista em 3.3.1).
Com isso, o autor obteve 69 entrevistas a partir das quais
investigou a possível influência, para a realização dos ditongos, de
fatores linguísticos216 e extralinguísticos217, descobrindo que a
centralização estava diretamente correlacionada com o significado
social do item linguístico: a centralização era traço de identidade local, e
fazia oposição à baixa centralização dos veranistas que estavam
tomando conta da ilha (comprando e ocupando grandes áreas e
obrigando, assim, os moradores nativos a migrarem para regiões mais
interioranas da ilha ou mesmo a se retirarem dela). Com esse primeiro
estudo, configurado teórica e metodologicamente de modo inédito,
Labov concluiu: “podemos dizer que os resultados dão uma boa
confirmação do tema principal do estudo: a correlação de padrões
sociais com o padrão distribucional de uma variável linguística” 218
(LABOV, 2008 [1972], p. 62).
O estudo de Nova York
Em 1966, em sua tese de doutorado intitulada Aestratificação
social do (r) nas lojas de departamentos na cidade de Nova York (The
Social Stratification of English in New York City)219, Labov investigou
as variações na realização da consoante (r) em posição pós-vocálica
(como em “car”, “four”, “fourth” etc.) a partir da seguinte hipótese: “se
dois grupos de falantes nova-iorquinos estão dispostos numa escala de
216
Os fatores linguísticos considerados no referido estudo são: (i) ambiente
segmental (considerando consoante antecedente e subsequente); (ii) fatores
prosódicos (considerando tonicidade); (iii) influência estilística; (iv) item lexical
em que ocorria o ditongo.
217
Os fatores extralinguísticos considerados no referido estudo são: (i) faixa
etária do falante; (ii) região da ilha em que o falante residia; (iii) ocupação do
falante; (iv) grupo étnico; e (v) sexo do falante.
218
Cf. o conceito de variável linguística em 3.2.1.
219
LABOV, William. The Social Stratification of English in New York
[Link], D.C.: Center for Applied Linguistics, 1966.
209
estratificação social, logo estarão dispostos na mesma ordem por seu uso
diferenciado do (r)” (LABOV, 2008 [1972], p. 65).220
Assim, Labov buscou possíveis efeitos, sobre o uso de (r), da
estratificação social dentro de um mesmo grupo ocupacional, a saber:
vendedores de grandes lojas de departamento de Manhattan. O autor
selecionou três grandes lojas, cada uma orientada para um perfil social
específico de clientes, com a hipótese de que o prestígio estratificado
das lojas também estratificaria a avaliação social que os empregados
faziam de seus empregos; e, em decorrência, a impressão social geral
dos empregados sobre os clientes seguiria a mesma ordem de
estratificação das lojas. Por ordem de prestígio social, de status superior
a status inferior, as lojas selecionadas para a pesquisa foram: Saks Fifith
Avenue, Macy’s e S. Klein.
Para a coleta de dados empíricos, Labov adotou a seguinte
metodologia: um entrevistador (no caso, ele mesmo) se aproximava dos
empregados em cada loja como se fosse um cliente e fazia perguntas
cujas respostas acionassem o uso do fenômeno linguístico investigado.
Considerando um total de 264 entrevistas e seis horas e meia de
gravação nas três lojas, o autor confirmou sua hipótese de que havia um
padrão regular na pronúncia de r entre os vendedores e que este padrão
seguia a mesma tendência de estratificação social das lojas em que os
vendedores trabalhavam.
Em síntese, esses dois estudos de Labov, orientados por
Weinreich, constituíram os trabalhos seminais dos estudos
variacionistas.
Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança linguística
Posteriormente, aos resultados dos dois trabalhos referidos,
foram incorporados os (i) resultados da pesquisa de Marvin Herzog,
também orientando de doutorado de Weinreich, sobre dialetologia, e a
(ii) visão geral do orientador de Labov e de Herzog sobre os fatos de
língua e sobre a própria história da linguística, para a constituição do
ensaio que legitimou de vez o campo: Fundamentos empíricos para uma
teoria da mudança Linguística, apresentado no Simpósio “Direções para
220
Tal como Labov (1963), Labov (1966) é resgatado, neste texto,
principalmente a partir de Labov (2008 [1972]), com consultas específicas à
obra original.
210
a Linguística Histórica”, na Universidade do Texas, em 1966, e
publicado, com revisões de Weinreich, em 1968 (FARACO, 2006;
LABOV, 2008 [1972]).
Essa obra é considerada “um clássico em linguística histórica”
(FARACO, 2006, p. 29), porque apresenta as bases empíricas a que uma
teoria de mudança linguística deve considerar, “com vistas a uma teoria
linguística adequada” (LABOV, 2008 [1972], p. 215), “uma linguística
racional e realista” (ibid.; p. 15, grifos nossos).
Como variação, para esse campo,é a chave para a compreensão
da mudança (MILROY; GORDON, 2003), conforme se apresenta a
seguir, pode-se dizer que os primeiros estudos variacionistas nascem
com o objetivo de explicar a relação entre (i) variação e mudança
linguística e (ii) estrutura linguística enquanto realidade ordenada, com
vistas à formulação de fundamentos empíricos para uma teoria de
mudança linguística.
3.2 CONSTITUIÇÃO DE UM PROGRAMA DE PESQUISA E
DESDOBRAMENTOS
Se a seção anterior se dedicou à apresentação de uma versão da
gênese da Sociolinguística Variacionista, nesta se retratam alguns dos
principais pontos constitutivos do Programa de Pesquisa Variacionista,
considerando: em 3.2.1, as primeiras delimitações do campo quanto às
concepções de língua, de variação e de mudança, a partir do que se
visualizam, de modo mais geral, as principais noções do pensamento
laboviano; em 3.2.2, as discussões em torno da concepção de variável
linguística, indicando-se como, por meio disso, o campo variacionista
passa a dialogar com o funcionalista; em 3.2.3, os problemas empíricos
para uma teoria de variação e de mudança, destacando as discussões que
reposicionam o problema da avaliação; em 3.2.4, os diferentes loci da
pesquisa variacionista e como, no centro das discussões sobre eles, está
a questão da relação entre usos sociais e individuais da língua; nessa
subseção, indica-se ainda como esse último aspecto, de tão importante
que é para o campo, suscita três diferentes modos de se pensar a própria
variação linguística, impactando (/fragmentando), com isso, toda a
primeira versão do programa de pesquisa sob exame.
3.2.1 Língua, variação e mudança: as primeiras delimitações
Na introdução deste capítulo apresentou-se que a
Sociolinguística, em geral, definiu como objeto de estudo a diversidade
211
linguística, aspecto negligenciado pelas grandes correntes linguísticas
até então consolidadas ou mesmo extirpado delas. Com isso, a SV
passou a postular que toda língua é um sistema variável e que “aprende-
se a falar na convivência” social (ALKMIM, 2004, p. 37). Admitiu-se,
com isso, que a realidade mais fundamental da língua é sua
heterogeneidade, tendo em vista que as sociedades são heterogêneas:
“numa língua que serve a uma comunidade complexa (i.e.; real), a
ausência de heterogeneidade [...] é que seria disfuncional” (WLH, 2006
[1968], p. 36). Esse é, portanto, um dos primeiros pilares da SV: o
rompimento da identificação entre sistema linguístico e
homogeneidade221 e a defesa de que a língua é um sistema heterogêneo.
Por outro lado, a SV admitiu também que a heterogeneidade
linguística é estruturada, ou seja, é sistemática, sendo motivadapor um
conjunto de fatores correlacionados, que são tanto de natureza
linguística quanto de natureza extralinguística. Os fatores de natureza
linguística – ou fatores internos – referem-se às características do
próprio ambiente linguístico que podem motivar a variação. Já os fatores
extralinguísticos correlacionados à diversidade foram explicados
inicialmente: (i) em termos geográficos, considerando que os modos
sociais de falar podem se tipificar geograficamente; (ii) em termos
sociais222, considerando que uma série de traços que constituem a
identidade sociocultural dos falantes interfere nas escolhas linguísticas;
(iii) em termos contextuais, considerando que o tipo de situação social
(das mais informais à mais formais) em que ocorre a interação promove
variação. Variações motivadas por esses três tipos de fatores
extralinguísticos são denominadas, respectivamente, (i) variação
diatópica, (ii) variação diastrática e (iii) variação estilística223 ou
registro.
221
Nesse aspecto, a SV rompe também com o neogramático Paul e com
Saussure já que, para esses “a variabilidade e a sistematicidades se excluíam
mutuamente” (WLH, 2006 [1968], p. 87).
222
Labov destaca que, por variação social, entende “aqueles traços da língua
que caracterizam vários subgrupos numa sociedade heterogênea” (LABOV,
2008 [1972], p. 313). A variação social refere-se, portanto, à variação entre
diferentes grupos de falantes, ou seja, interfalantes.
223
Por variação estilística, Labov entende “as alternâncias pelas quais um
falante adapta sua linguagem ao contexto imediato do ato de fala” (LABOV,
2008 [1972], p. 313). A variação estilística refere-se, portanto, à variação de um
mesmo falante (intrafalante) em diferentes contextos.
212
A partir das informações apresentadas anteriormente, pode-se
dizer que os pressupostos da TVM estão norteados pela compreensão de
que a língua é um sistema heterogêneo, mas também é um sistema
estruturado porque a variação, a depender de um conjunto de fatores
correlacionados (linguísticos, sociais e estilísticos), ocorre
sistematicamente.
Acrescenta-se ainda outro axioma da TVM, segundo o qual
“[n]em toda variabilidade e heterogeneidade na estrutura linguística
implica mudança; mas toda mudança implica variabilidade e
heterogeneidade” (WLH, 2006 [1968], p. 126, grifos nossos). É,
portanto, com vistas à explicação da mudança linguística que a SV se
interessa pela variação, já que é pela compreensão desta que se chega a
previsões quanto a possíveis mudanças linguísticas.
WLH, assumindo que, para dar conta de explicar os processos
históricos da mudança linguística, é preciso compreender como a