Hepatite Tóxica: Causas e Diagnóstico
Hepatite Tóxica: Causas e Diagnóstico
Tóxica
SUMÁRIO
1. Definição ........................................................................................................ 3
2. Epidemiologia................................................................................................. 3
3. Classificação .................................................................................................. 6
8. Diagnóstico .................................................................................................. 16
Referências .......................................................................................................................26
1. DEFINIÇÃO
Para efeitos didáticos, por vezes, refere-se à essa entidade por Hepatite tóxica ou
medicamentosa. Contudo, é fundamental conhecer uma outra nomenclatura, a “DILI”
(Drug Induced Liver Injury ou Lesão Hepática Induzida por Drogas). Por outro lado, é
importante estar atento ao fato de que, por definição, a hepatite tóxica não é só cau-
sada por medicamentos, mas também por ervas ou suplementos dietéticos. Embora,
alguns casos sejam assintomáticos e se expressem apenas por alterações nos exa-
mes, alguns pacientes podem evoluir para insuficiência hepática grave.
A hepatite tóxica representa uma entidade clínica desafiante pelo seu grande
espectro de sintomatologia e gravidade, além de necessitar, para sua identificação,
de adequada investigação diagnóstica. É compreendida como uma lesão hepática
desencadeada pela ingestão, que pode ter vias variadas como a inalação ou adminis-
tração parentérica, de agentes "hepatotóxicos", como medicamentos, drogas ilícitas,
ervas e, até mesmo, os suplementos dietéticos comumente utilizados.
Para alguns pacientes, o desenvolvimento dessa enfermidade se dá em algumas ho-
ras ou dias, enquanto que para outros, pode levar meses até que os sinais sejam perce-
bidos. Os sintomas costumam desaparecer após a retirada da toxina. A hepatite tóxica
pode danificar irreversivelmente o fígado, podendo evoluir para insuficiência hepática.
2. EPIDEMIOLOGIA
Há uma estimativa que sua ocorrência anual seja da ordem de 10 a 15 por
10.000 a 100.000 pessoas expostas a medicamentos prescritos. Embora de inci-
dência não tão expressiva, representando 1-3% dos pacientes internados com he-
patite, a hepatite tóxica é causa frequente (entre 25%-30%) de hepatite fulminante,
tendo prognóstico reservado. Acredita-se que a taxa de mortalidade gira em torno
de 12% ao ano. A lesão hepática induzida por drogas é responsável por cerca de
10% de todos os casos de hepatite aguda e é a causa mais comum de insuficiência
hepática nos Estados Unidos.
Hepatite Tóxica 3
Existe uma dificuldade para a detecção do risco potencial de lesão hepática pelo
fármaco antes de sua aprovação, pois a maioria dos novos medicamentos é testada
em menos de 3000 pessoas antes de ser aprovada. Como consequência, a hepatite
tóxica é possível de ocorrer em 1 a cada 10.000 medicamentos novos. Foi sugerido,
então, que para cada 10 casos de elevação da alanina aminotransferase (ALT) até 10
vezes o limite de normalidade, em um ensaio clínico, haverá 1 caso de lesão hepática
mais grave, quando o fármaco estiver disponível.
Além de medicamentos, outras substâncias podem causar agressão hepática
como ervas, chás e drogas ilícitas. O consumo dos produtos naturais ganha relevân-
cia no Brasil, onde as pessoas costumam consumir chás em alta quantidade, sendo
sempre necessário perguntar ativamente ao paciente sobre, aconselhando-o acerca
do uso consciente destes.
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Categoria do teste Medida sérica
Tabela 1: Associação entre a finalidade do teste, sua categoria, e as medidas séricas que são úteis à
investigação de sua respectiva categoria.
Fonte: Autoria própria.
Hepatite Tóxica 5
3. CLASSIFICAÇÃO
Para acessar melhor o estado clínico dos pacientes hepatopatas e classificá-los,
é importante conhecer os diferentes estágios da doença hepática e suas apresenta-
ções. De início, a hepatite aguda nada mais é do que um aumento das transamina-
ses que está entre 2 a 3 vezes o limite superior de normalidade. Com a progressão
da doença, haverá transaminases elevadas associadas a coagulopatia (RNI maior ou
igual a 1,5) e icterícia, prejuízo ao metabolismo da bilirrubina. Por fim, na insuficiên-
cia hepática aguda, pacientes apresentam todos os achados citados anteriormente
e encefalopatia hepática. Nesses pacientes, é fundamental buscar ativamente a
encefalopatia, com dados como flapping, hiperreflexia ou hiporreflexia, já que esses
indivíduos são fortes candidatos à transplante hepático.
Por outro lado, temos a classificação quanto à lesão hepática apresentada pelo
paciente e seus diferentes mecanismos fisiopatológicos. Dessa forma, a lesão resul-
tante da toxicidade de drogas pode ser classificada de diferentes formas:
• Apresentação clínica:
• Lesão hepatocelular (citotóxica);
• Lesão colestática;
• Lesão mista.
• Mecanismo de hepatotoxicidade:
• Previsível;
• Idiossincrática.
• Achados histológicos:
• Hepatite;
• Colestase;
• Esteatose.
A apresentação clínica costuma ser de acordo com o tipo de lesão hepática: cito-
tóxica, colestática ou mista, esta última envolvendo as duas outras. O tipo de lesão
hepática pode ser identificado através de exames laboratoriais hepáticos e, a partir de-
les, do cálculo do valor de R. O valor de R nada mais é do que a razão entre o aumento
da transaminase (ALT) sobre o aumento da enzima canalicular fosfatase alcalina (FA).
Para valores de R maiores que 5, podemos inferir que há predomínio de lesão hepato-
celular. Quando R assume valores entre 2 e 5, há lesão mista. Finalmente, quando R
está abaixo de 2, a lesão tem predomínio colestático. Em suma, temos:
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• Lesão colestática (colestase): elevação desproporcional da fosfatase alcalina
em comparação com as aminotransferases séricas; a bilirrubina sérica pode
estar elevada; testes da função sintética podem ser anormais.
4. METABOLIZAÇÃO HEPÁTICA
Você pode estar se perguntando: como o medicamento, ainda que não seja des-
tinado ao fígado, é capaz de lesar esse órgão? Os próximos tópicos certamente irão
esclarecer esse questionamento.
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Figura 1: Anatomia intra-hepática
Fonte: Designua
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metabolizadoras, do fluxo sanguíneo hepático e da ligação às proteínas plasmáticas,
e da depuração própria intrínseca da substância. Em outras palavras, a capacidade
de ser depurada depende, primordialmente, do peso molecular e da lipossolubilidade
da substância em questão.
Substâncias com elevada depuração intrínseca são rapidamente captadas pelo
hepatócito (apresentam elevado metabolismo de primeira-passagem), e o fator li-
mitante ao seu metabolismo é, basicamente, o fluxo sanguíneo hepático. Fármacos
como a nitroglicerina e a lidocaína são ineficazes por via oral, devido a sua rápida
inativação. Outras, como a teofilina, por possuírem baixa depuração intrínseca, de-
pendem da eficácia dos sistemas enzimáticos para seu metabolismo adequado e,
por outro, independem, relativamente, do fluxo sanguíneo.
O objetivo da atividade metabolizadora do fígado é possibilitar a excreção renal
ou biliar de substâncias lipossolúveis a partir de reações que as tornem o mais hi-
drossolúveis possível. Esse processo se dá por reações de fase I, envolvendo os
complexos Citocromo C redutase e Citocromo P450. Utilizando o NADPH citosólico
como cofator, realizam-se reações de hidrólise, oxidação ou redução. Outras rea-
ções alternativas desta fase empregam a enzima álcool-desidrogenase e reações de
metilação.
Hepatite Tóxica 9
Saiba mais! Vários fatores podem alterar a atividade de metaboli-
zação dos medicamentos no fígado, como exemplo:
- Fatores genéticos: Numerosos polimorfismos genéticos nas isoenzimas do
CYP podem culminar em metabolismo diminuído, falta de metabolismo ou me-
tabolismo excessivo de um composto. Essa variabilidade genética pode ser a
origem de algumas reações de hipersensibilidade a medicamentos específicos.
- Consumo de álcool: A ingestão crônica pode aumentar a atividade de algumas
CYPs. O álcool também inibe a síntese de glutationa. Drogas como acetamino-
feno, isoniazida, cocaína e metotrexato foram relatadas como tendo hepatotoxi-
cidade aumentada quando associadas ao álcool.
- Presença de outros medicamentos: O uso concomitante de dois ou mais me-
dicamentos pode ser um dos fatores mais importantes que afetam os compo-
nentes do sistema CYP e influenciam o metabolismo dos medicamentos. Um
medicamento pode atuar como inibidor do citocromo P450 e retardar o meta-
bolismo de outro, ou, pode induzir o CYP450 e acelerar o metabolismo de outro.
Por isso, cuidado ao prescrever múltiplos fármacos! Certifique-se sempre se
esta interação é possível entre as classes prescritas.
- Dados demográficos do paciente: Foi relatado um decréscimo geral na ativida-
de da CYP com o aumento da idade. Além disso, reações de conjugação (fase
II) mostram-se reduzidas em idosos frágeis, embora isso não seja visto consis-
tentemente. Cuidado com a prescrição de medicamentos para idosos!
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Pontuamos, no entanto, que esta é uma divisão didática, visto que a lesão do
hepatócito, a participação de outras células hepáticas e a ativação de mecanismos
imunes estão conectados e passíveis de modulação por fatores predisponentes, tan-
to individuais quanto ambientais.
A lesão ao hepatócito pode decorrer de diferentes mecanismos de agressão,
como ligação covalente às estruturas celulares, peroxidação lipídica, reações de
oxidação e depleção de glutationa. Essas agressões podem culminar em alterações
patológicas e prejudiciais à estruturas vitais da célula, como o arcabouço mitocon-
drial, o citoesqueleto celular ou, por fim, as alterações celulares de homeostase
iônica. A depender no nível de comprometimento mitocondrial e do balanço entre
fatores ativadores e inibidores das vias intracelulares de sinalização, o destino da
célula pode ser a necrose ou a apoptose, iniciando assim o processo inflamatório.
Droga
Metabólito
Ligação covalente/
Depleção de glutationa/
Peroxidação lipídica/
Oxidação
Homeostase iônica
Edema celular;
aumento Ca+2
Enzimas citolíticas
Distorção da
Depleção de ATP Necrose/apoptose
arquitetura celular
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Os hepatócitos lesados podem liberar produtos de peroxidação lipídica, interme-
diários reativos de oxigênio e IL-8, ativando assim as células de Kupffer. Estas, por
sua vez, liberam diversas citocinas, tais como TNF, IL-1, IL-8 e também intermediários
reativos de oxigênio, que lesam diretamente o hepatócito, ativam as células de Ito,
responsáveis por desencadear a fibrose hepática, e as células endoteliais dos vasos
sanguíneos, favorecendo o recrutamento e ativação de polimorfonucleares.
Droga
Endotoxinas Metabólito
ERO, IL-8, PPL
TNF, ERO, IL
Célula de Ito
ERO,
Fibrose
Proteases
TNF, ERO, IL
Células endoteliais IL-8
Adesão
venoclusiva
IL-8
Polimorfonucleares
Fluxograma 2: Fluxograma ilustrando a participação dos diferentes tipos celulares presentes no fíga-
do e suas contribuições para a lesão hepática.
Fonte: Autoria própria.
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Saiba mais! Os achados histológicos da hepatite tóxica podem
exibir colestase aguda ou crônica, esteatose e esteato-hepatite, granulomas,
necrose zonal e fosfolipidose. Além disso, pode evidenciar sinas de obstrução
da saída venosa hepática, síndrome de obstrução sinusoidal e peliose hepática
que é uma condição rara, caracterizada por proliferação de capilares sinusoi-
dais que resultam em cavidades císticas cheias de sangue, com capacidade
expansiva e parecida com lesões malignas.
6. FATORES DE RISCO
Apesar da imprevisibilidade das reações de hepatotoxicidade, os idosos apresen-
tam menor depuração hepática devido a um menor volume hepático e redução do
fluxo sanguíneo. Raramente, ocorre em crianças. Contudo as formas idiossincráticas
exibem incidência superior neste grupo etário, quando comparado com adultos.
De forma geral, existe maior propensão das mulheres a desenvolverem quadros
de hepatotoxicidade. Doença hepática prévia, especialmente cirrose, condiciona a
metabolização, funcionando também como fator de risco. A insuficiência renal, por
dificultar a excreção de fármacos ou metabólitos, também é um predisponente. A
obesidade modifica a distribuição e metabolização de fármacos muito lipossolúveis,
além de predispor à existência prévia de esteatose/esteato-hepatite.
Exposição anterior a determinados medicamentos pode funcionar como fator
sensibilizador. Pacientes soropositivos (HIV+) também parecem estar mais sujeitos
à hepatotoxicidade a certos antibióticos. Como é de se esperar, deficiências nutricio-
nais, seja por dieta inadequada ou prejuízo à absorção desses compostos, também
podem elevar a probabilidade de reações que resultem em lesão hepática diante de
fármacos como o paracetamol, devido à depleção hepática de glutationa.
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Padrão de lesão hepática induzida por medicamentos e tóxicos
Padrão de Exemplos de agentes
Achados morfológicos
lesões associados
Sulfonamidas, amiodarona,
Epitelioides não caseosos
Granulomas isoniazida
Granulomas com anel de fibrina
Alopurinol
Tabela 2: Principais padrões de lesão hepática, seus achados morfológicos e exemplos de agentes
etiológicos compatíveis.
Fonte: Autoria própria.
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7. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS
A sintomatologia não é específica, podendo variar de pessoa para pessoa. Os
sintomas podem incluir dor abdominal, cansaço, fraqueza, febre, náusea, vômito, ina-
petência, urina escura, fezes acólicas e icterícia. Além disso, anormalidades leves e
assintomáticas nos testes hepáticos e colestase com prurido e icterícia, remetendo
a um quadro de hepatite viral e insuficiência hepática aguda, podem estar presentes.
A lesão hepática crônica, causada por substâncias químicas, pode ser semelhante
a outras causas de doença hepática crônica, como hepatite autoimune, cirrose biliar
primária, colangite esclerosante ou doença hepática alcóolica. Em alguns pacientes,
a lesão crônica hepatotóxica pode progredir para cirrose.
Muitos pacientes são assintomáticos e recebem o diagnóstico apenas devido a
testes laboratoriais de rotina. A hepatomegalia pode ser percebida ao exame físico, e
em casos graves, podem ocorrer coagulopatia e encefalopatia hepática, indicando in-
suficiência hepática aguda. Pacientes em quadros crônicos podem exibir fibrose ou
cirrose significativa e apresentar sinais e sintomas associados à cirrose ou descom-
pensação hepática, como, por exemplo, icterícia, eritema palmar e ascite.
O paciente pode manifestar ainda uma reação de hipersensibilidade, com febre e
erupção cutânea, ou uma doença semelhante à mononucleose (pseudomononucleo-
se). Em alguns casos, o paciente tem outros órgãos afetados, havendo toxicidade da
medula óssea, rim, pulmão, pele e vasos sanguíneos.
MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS NA HEPATITE TÓXICA.
Dor no quadrante
Ascite
superior do abdome
Inapetência Fadiga
Hepatite Tóxica 15
Se liga! Os pacientes com lesão hepatocelular terão elevação des-
proporcional de suas aminotransferases, enquanto os pacientes com lesão co-
lestática terão predominantemente uma elevação do seu ALP. No caso de lesão
hepatocelular aguda, a elevação das aminotransferases pode estar 25x acima
do limite superior normal.
A bilirrubina sérica pode estar elevada tanto na lesão hepatocelular, quanto na
colestática. Pacientes com reações de hipersensibilidade podem ter eosinofilia
periférica, enquanto aqueles com doença semelhante à mononucleose podem
apresentar linfocitose e linfócitos atípicos.
8. DIAGNÓSTICO
Sintomas inespecíficos que surgem após a introdução de um medicamento (náu-
sea, anorexia, mal-estar, fadiga, prurido e dor no quadrante superior do abdome)
podem servir como indicativo de toxicidade do medicamento. Dessa forma, o diag-
nóstico envolve a obtenção de uma anamnese detalhada e a realização de exames
de sangue para procurar outras causas de lesão. Havendo evidência de colestase,
também é recomendado o emprego de exame de imagem, para afastar obstrução
biliar.
Assim, pontua-se, sobre a dificuldade deste diagnóstico, que depende de uma
história detalhada e da exclusão de outras causas potenciais, não existindo biomar-
cadores específicos ou características histológicas próprias de lesão hepática por
medicamentos. Todavia, uma vez que o diagnóstico de hepatotoxicidade é feito de
forma precoce e precisa, a subsequente suspensão da substância causadora con-
segue interromper a progressão da doença e sua evolução para apresentações cada
vez mais graves ou crônicas. Assim, deve ser avaliado:
Hepatite Tóxica 16
Clinicamente, muitas escalas têm sido propostas para auxiliar na avaliação desse
quadro. Contudo, nenhuma ainda consegue cobrir com certeza as diversas nuances
dessa doença. Se o teste para causas alternativas de lesão hepática for negativo e o pa-
ciente tiver sido exposto a um medicamento que se associe com a lesão hepática, nor-
malmente não é realizada biópsia hepática.
Do ponto de vista do diagnóstico histológico, a lesão mais encontrada é a hepa-
tocelular aguda (aproximadamente 90% dos casos). Leva à necrose ou apoptose
hepatocelular, esteatose e/ou degeneração celular. A lesão hepatocelular pode
ser irregular, afetando hepatócitos isolados, ou confluente, afetando grupos de
hepatócitos.
Necrose zonal é característica de compostos com toxicidade intrínseca previsível,
dependente da dose, como halotano (zona 3), tetracloreto de carbono (zona 3), ace-
taminofeno (zona 3) e cocaína (zona 1). A necrose isolada nas zonas 1 e 2 é rara, e
necrose centrolobular (zona 3) é o tipo mais comum. Pode haver pouca ou nenhuma
resposta inflamatória, mas as células danificadas podem acumular gordura.
A necrose não zonal aparece em padrão semelhante ao da hepatite viral. Ocorre
mais comumente nos compostos que produzem lesão idiossincrática (fenitoína, me-
tildopa, isoniazida, diclofenaco). Alguns medicamentos, como a aspirina, produzem
um padrão inespecífico de lesão, que é tipicamente reversível e raramente progride à
insuficiência hepática progressiva.
A lesão aguda pode progredir para lesão crônica em 5%-10% dos casos, e esta
lesão se assemelha com a doença hepática crônica decorrente de hepatite autoimu-
ne, viral ou doença hepática alcoólica crônica. Alguns dos agentes que mais se as-
sociam com progressão para cronicidade são amoxicilina-clavulanto, atorvastatina,
metotrexato, heroína, produtos à base de plantas e suplementos alimentares. Drogas
que evoluem para cirrose incluem metotrexato, isoniazida, amiodarona, enalapril e
ácido valpróico.
Quando o paciente desenvolver colestase aguda, os achados podem incluir coles-
tase pura, com pouco dano, ou inflamação hepatocelular. Geralmente, a obstrução
do canalículo ocorre na zona 3. Esse tipo de lesão é comumente observada em pa-
cientes que fazem uso de esteroides anabolizantes ou contraceptivos orais.
Os medicamentos causadores deste tipo de lesão interferem na secreção dos
constituintes biliares e de outras substâncias pigmentares e corantes através da
proteína excretora do sal biliar. A colestase crônica induzida por medicamentos se
assemelha, histologicamente, a outras causas de colestase crônica, como as entida-
des colestáticas primordiais, a CEP e a CBP, colangite esclerosante primária e cirrose
biliar primária, respectivamente.
Drogas que interrompem a beta-oxidação mitocondrial de lipídios e a produção
de energia oxidativa levam à esteatose, relacionada com esteato-hepatite, causa-
da por alta dose de tetraciclina intravenosa, ácido valproico, ácido acetilsalicílico e
amiodarona. Esta, tipicamente, é microvesicular e composta, predominantemente,
por triglicerídeos. Por sua vez, a esteatose crônica induzida por medicamentos é
macrovesicular.
Hepatite Tóxica 17
Pacientes que exibem granulomas hepáticos induzidos por medicamentos os exi-
bem nas áreas periportal e portal, mas eles também podem ser visualizados no pa-
rênquima. Geralmente, são não necrosantes e não associados aos ductos biliares.
Síndrome de Budd-Chiari pode surgir por trombose induzida por drogas nas veias
hepáticas ou na veia cava inferior. Os achados histológicos incluem congestão cen-
trozonal, necrose hepatocelular e hemorragia. Síndrome de obstrução sinusoidal
hepática também pode ocorrer, mas a obstrução ao fluxo venoso aqui se dá por oclu-
são de vênulas terminais e dos sinusoides.
Fosfolipidose também é descrita, consistindo em lisossomos ingurgitados de
fosfolipídios, resultando em hepatócitos espumosos. Acredita-se que haja uma alte-
ração entre o fosfolipídio e a droga agressora que leva à formação de um complexo
que evita a degradação das moléculas de fosfolipídios. Parece haver elevada inci-
dência de cirrose em pacientes com este tipo de lesão.
A peliose hepática é rara e caracteriza-se por múltiplas, pequenas e dilatadas ca-
vidades com sangue no parênquima. Os medicamentos que podem levar à peliose
incluem andrógenos, esteroides contraceptivos e drogas quimioterápicas.
Ao ser diagnosticada a lesão hepática induzida por fármacos, os causadores de-
vem ser suspensos, instituindo suporte clínico ao paciente. Para alguns medicamen-
tos existem antídotos, e discutiremos mais detalhadamente sobre estas questões no
tópico seguinte.
A partir de uma história clínica bem coletada, torna-se fundamental, na investiga-
ção de hepatopatias, conhecer quais exames complementares devem ser solicitados
para cada tipo de lesão. Nos casos de conhecida lesão hepatocelular ou mista, que
aprendemos anteriormente como chegar a tal informação a partir do hepatograma,
devemos solicitar as sorologias virais, para afastar hepatites A, B, C, ou por CMV, EBV
ou Herpes. Ainda nesse contexto, é importante afastar a hepatite autoimune com
a solicitação dos complexos e componentes do sistema imune. Já nos casos de
conhecida lesão colestática, os exames complementares fundamentais são os de
imagem, como US, TC e CPRM, para investigar patologias como coledocolitíase, co-
lestase esclerosante primária (CEP) ou cirrose biliar primária (CBP).
Hepatite Tóxica 18
9. EXEMPLOS CLÁSSICOS DE
FÁRMACOS HEPATOTÓXICOS
Analgésicos
Paracetamol (acetaminofeno): a hepatotoxicidade é rara com doses de até 4 g/
dia, porém frequente em doses a partir de 7,5 g/dia e doses superiores a 140 mg/kg
estão associadas com apresentações graves da doença, como hepatite fulminante
e, até mesmo, falência hepática aguda. Em pacientes com hepatopatias prévias, al-
cóolatras, desnutridos ou em uso de medicação indutora do citocromo P450, doses
baixas (2 g/dia) podem ser hepatotóxicas.
A metabolização do paracetamol por uma enzima do complexo CYP tem como
subproduto o N-acetil-p-Benzoquinona, que, por sua vez, será inativado por ligação
covalente com a glutationa. Porém, ocorrendo produção excessiva desse metabólito
ou depleção de glutationa, o NAPQI conjuga-se a proteínas celulares. Essa ligação
causa desnaturação proteica, com consequente perda da função, provocando, além
disso, peroxidação lipídica.
A lesão histológica característica, como dito anteriormente, é a necrose centro-
lobular (zona 3), por ser nessa região em que há maior concentração de citocromo
P4502E1. As manifestações clínicas que levam o indivíduo aos serviços de saúde
comumente são dor abdominal, náuseas e vômitos associados à icterícia. Todavia, é
preciso se atentar para o fato de que esses pacientes podem progredir para formas
graves como a falência hepática aguda. Nesse contexto, na busca pela substância,
a dosagem do paracetamol sérico pode ser realizada até 24h após ingestão, sendo
mais útil entre a 4a e 12a hora.
Para a overdose dessa droga existe um antídoto, a N-acetilcisteína, porém sua ins-
tituição será inferida a partir do Normograma de Rumack-Mattew. A N-acetilcisteína
é um precursor da glutationa e, ao aumentar o depósito de glutationa no fígado, di-
minuirá a ação tóxica do paracetamol. Ela auxilia, dessa forma, na desativação do
NAPQI, mas não reverte o dano já feito. Após 24h de intoxicação pelo paracetamol, o
uso desse antídoto é questionável, mas ainda se recomenda sua administração, por
via oral ou intravenosa.
Hepatite Tóxica 19
Esse antídoto pode ser administrado por via oral ou intravenosa, diluído em soro
glicosado a 5%. Na primeira opção, é realizada uma dose de impacto de 140mg/kg.
Depois, de 4 em 4 horas são realizadas doses adicionais com a metade da quantida-
de inicial, 70mg/kg. Pelo sabor desagradável, sua ingestão oral pode causar náusea
e vômitos. A fim de evitá-los, ela pode ser administrada diluída em sucos de frutas ou
bebida carbonada, em proporção de 1:4. Se ainda assim houver enjoo, os antieméti-
cos podem ser empregados. Se houver vômito após uma hora da ingestão, será ne-
cessário repetir a dose. Por fim, é incomum que pacientes tenham reações alérgicas
ao medicamento.
Já por via endovenosa, faremos uma dose de impacto com 150mg/kg diluida em
200ml de soro glicosado a 5% e administrada em sua inteireza dentro de 15 minutos.
Em seguida, nas primeiras 16 horas, a cada 4 horas, serão administradas doses de
manutenção (50mg/kg em 500ml de soro glicosado a 5%), seguidas de doses de 100
mg/kg, em 1000 mL de soro glicosado a 5%. No manejo para crianças, é recomenda-
do realização de ajuste de doses para que o volume a ser descartado seja diminuído.
O carvão ativado é administrado caso se presuma que o paracetamol continue no
organismo. Diante de pacientes com conhecida insuficiência hepática em apresenta-
ção fulminante, o transplante hepático é recomendado.
Acetaminofeno
95% 5%
Detoxificação por
Atividade da CYP2E1
enzimas de fase II
Excreção na urina
como conjugado de Conjugação com GSH NAPQ
glicuronato ou sulfato
Adutos de proteínas
Ausência de toxicidade
Peroxidação lipídica
Necrose de hepatócitos
Insuficiência hepática
Fluxograma 4: Vias de metabolização do Acetaminofeno e suas etapas até a lesão hepática com ne-
crose de hepatócitos e insuficiência hepática.
Fonte: Autoria própria.
Hepatite Tóxica 20
Salicilatos: Em doses superiores a 3g/dia, mais da metade dos indivíduos apre-
sentam elevação da dosagem sérica das transaminases. No exame histológico, é
possível observar necrose focal, com ou sem granulomas e evidente colestase. A re-
lação entre ingestão da substância e lesão hepática é dose-dependente e rapidamen-
te reversível. Destaca-se ainda a relação entre a síndrome de Reye, ainda na infância,
com administração de salicilatos, presumivelmente pela ação inibitória sobre a beta-
-oxidação dos ácidos graxos de cadeia longa.
Hepatite Tóxica 21
Anticonvulsivantes
Fenitoína: pode ser a causa de, a nível biomolecular, citólise e colestase. Contudo,
a progressão da doença com a manutenção do uso do medicamento pode evoluir
para hepatites fulminantes. Costuma ocorrer nas primeiras 4 semanas de uso da
droga e é acompanhada de manifestações sistêmicas, incluindo apresentação gas-
trointestinal com náusea, vômito e anorexia, e sintomas relacionados ao SNC, como
sonolência, fadiga, nistagmo, ataxia, distúrbios visuais, confusão e tontura.
Hepatite Tóxica 22
A hiperamonemia e a hepatotoxicidade induzidas pelo ácido valpróico podem
ser mediadas, em parte, pela deficiência de carnitina. Assim, a suplementação de
carnitina pode prevenir e atenuar esses efeitos adversos. Recomenda-se essa suple-
mentação para pacientes em coma, com hepatotoxicidade grave, encefalopatia hi-
peramonêmica ou ainda em pacientes com hiperamonemia assintomática, mas com
condições de toxicidade significativa.
A descontaminação gastrointestinal com carvão ativado em dose única é reco-
mendada para todos os pacientes com suspeita de envenenamento pela droga em
questão. A lavagem orogástrica não é recomendada rotineiramente para a elimina-
ção aprimorada do ácido valpróico, porque a morbidade desse procedimento supera
suas vantagens teóricas sobre o carvão ativado sozinho.
Hepatite Tóxica 23
10. MANEJO
O tratamento dos pacientes com hepatite medicamentosa possui dois grandes
pilares: o manejo da toxicidade da droga consumida previamente e o manejo dos
sintomas associados, principalmente o prurido, comumente associado à hiperbilirru-
binemia. No tópico anterior, já foram discutidos alguns dos tratamentos específicos
para as diferentes drogas associadas à DILI. Aqui, de forma breve, discutiremos ou-
tras modalidades de manejo. Em casos de conhecida hipersensibilidade ou padrão
histológico semelhante ao de HAI, é recomendado introdução de terapia com corti-
coides. Já para manejo do prurido, as drogas de escolha são a colestiramina ou anti-
-histamínicos. Por fim, retomando tópico anterior, é importante não esquecer que nos
indivíduos com encefalopatia, ou seja, com insuficiência hepática grave, é recomen-
dado transplante hepático com brevidade. Para estes pacientes e para os demais, é
fundamental acompanhar, com o hepatograma, a evolução do paciente após retirada
do medicamento possível causador da doença.
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Conduta de acordo
Previsível
com droga empregada
Idiossincrática Fenitoína
Exames laboratoriais Clínico
Mecanismo Acetaminofeno
Idade Inapetência
Causa 25 a 30% de
hepatite fulminante
Genética Fadiga
12 % de mortalidade
Consumo de álcool
Mapa mental com um resumo dos tópicos abordados, desde a classificação até o diagnóstico da hepatite tóxica/medicamentosa.
Fonte: Autoria própria.
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