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AULA 1

NEUROCIÊNCIA E
COMPORTAMENTO
HUMANO

Prof. Reginaldo Daniel da Silveira


INTRODUÇÃO

Em nossas existências, ao perguntamos o que nos torna humanos,


respostas apontam o cérebro como o que nos diferencia de outros animais. Ao
atentarmos para esta complexa máquina eletroquímica, nos deparamos com
estruturas cerebrais, líquidos, ventrículos, funções, relações que determinam
ações e reações na interligação entre memória, cognição, emoção e
comportamento. Emocionar, raciocinar, agir e perceber são termos explicativos
para “comportar-se” e estudá-los é pôr em evidência elementos que nos permitem:
a) definir o que é neurociência; b) delinear uma origem histórica; c) avaliar como
ela se desenvolveu; e d) conhecer seus principais avanços.

TEMA 1 – O QUE É NEUROCIÊNCIA E POR QUE ESTUDÁ-LA

Duas estudantes, uma ruiva e uma morena, se encontram e se tocam por


meio de beijinhos laterais no restaurante preferido, um ambiente com cheiro bom
de mar, música boa de ouvir, vinho bom de tomar e um cantinho bom de
conversar. Depois de ouvir três músicas, tomar um copo de vinho e aguardar o
garçom trazer a sopa começaram a conversar sobre o assunto que queriam. A
ruiva pergunta à morena o que ela entende de Neurociência depois de terem
assistido às primeiras aulas de psicologia:
– Me vem à cabeça o estudo de tecnologias de neuroimagem, a
ressonância magnética, a eletroencefalografia, a... eletromiografia facial.
A morena, com ar de “não é só isso”, coloca sua posição:
– Também, mas eu penso num outro sentido. Vejo a Neurociência como
uma ciência do cérebro que estuda as células nervosas, os tais neurônios que se
encontram em pontos da parte cinzenta da cabeça para trocar informações e
interagir.
Nesse instante, o garçom – usando luvas – coloca os pratos e colheres e
posiciona a sopeira no centro da mesa. A morena completa seu raciocínio dizendo
que nos lugares onde os neurônios se encontram, formam-se as sinapses ligadas
às tomadas de decisão. A ruiva pede que ela dê um exemplo, ao mesmo tempo
que ao tocar a sopeira, dá um grito e retira a mão antes mesmo de sentir a dor.
– Você é o exemplo – diz a morena, rindo, diante do olhar espantado da
outra.
– Como?

2
– Aí na sua parte cinzenta, um neurônio sensitivo se encontrou com um
neurônio motor e gerou uma sinapse do arco reflexo.
– Tá, mas não é só isso – alerta a ruiva – temos mais de 80 bilhões de
neurônios, o que implica em um número muito grande de sinapses.
– Sim, além do elevado número, muitas destas sinapses são bem mais
complexas. Estes neurônios, na minha opinião, são como operários de uma
fábrica, em que uma parte deles produz impulsos elétricos e a outra produz
substâncias químicas. O que você acha?
– Concordo. O sistema nervoso, no cérebro, e a medula espinhal percebem
o corpo e o ambiente e respondem, como o grito que você deu. Estes mesmos
sistemas utilizam substâncias químicas que influenciam nossas tomadas de
decisão. Neurônios sensitivos e motores movimentam-se em situações como a
sua, ao tocar a sopeira quente. No final do nosso jantar e de nossa conversa
teremos movimentado nossos neurônios-espelhos, pois o que você e eu falarmos
sobre neurociência estará carregado de expressões faciais, gestos, tom de voz e
posturas, além dos sentidos linguísticos.
A sopa agradável de frutos do mar estava sobre a mesa e as duas se
desafiaram a pensar em coisar surpreendentes que tinha visto recentemente nas
aulas de neurociência.
– Podem ser coisas que eu acho meio malucas? – perguntou a morena.
A ruiva concordou. As duas decidiram que depois do primeiro prato, cada
uma exporia à outra seus registros. Enquanto mexia suavemente a sopa quente
com a colher, a morena foi pensando no que lembrava: Como era possível, uma
massa de 1,5 kg, menos de 3% da massa do corpo, composto com 75% de água,
ter mais conexões que o número de estrelas na galáxia? A ruiva lembrou que a
massa cinzenta era macia que nem manteiga, que o cérebro de Einstein era
menor do que os outros e que era mito aquela ideia de usarmos só 10% do
cérebro. Por fim, ela destacou que embora parecesse inacreditável dava pra viver
só com a metade dele.
Aproveitando o bate papo das duas estudantes, iniciamos nossa breve
introdução à Neurociência refletindo sobre o que ela é e por que devemos estudá-
la. A primeira pergunta que surge é: “isso de que estamos falando se refere a um
conhecimento novo”?
A Society for Neuroscience, uma sociedade profissional sediada em
Washington nos EUA para cientistas e médicos do mundo inteiro, com foco no

3
estudo do cérebro e do sistema nervoso, foi fundada em 1969, o que nos leva a
pensar em Neurociência como uma ciência “jovem”. Entretanto, se juntarmos ao
termo “neurociência” a palavra “cérebro”, veremos que os estudos nesta área são
bastante antigos, como veremos mais adiante. No decurso do tempo, palavras
como tronco cerebral, cerebelo, neurônios, sinapses, ventrículos, músculos,
fibras, foram se incorporando ao que já conhecíamos do cérebro, permitindo-nos
discutir, argumentar e ampliar nosso conhecimento. Num simples bate-papo entre
duas pessoas, notamos que tudo isso ocorre sem que possamos notar
exatamente onde um pensamento foi desencadeado, com quais neurônios
estamos falando ou reagindo e que sinapses são estas que estão acontecendo.
Depois de algumas aulas, a ruiva e a morena aprenderam que além da
transmissão por impulsos elétricos, os neurônios também se comunicam por meio
de impulsos químicos, por meio de substâncias conhecidas como
neurotransmissores, dos quais mais de 60 deles são conhecidos, e que
“diferentes transmissores são responsáveis por influenciar a emoção, o
pensamento e o comportamento” (Gazzaniga; Heatherton, 2005, p. 104). Para
estes autores, todos os neurotransmissores têm efeitos que intensificam ou inibem
potenciais de ação em cada indivíduo. Alguns dos principais neurotransmissores
são: gaba, glutamato, acetilcolina, adrenalina, noradrenalina, dopamina e
serotonina.
O gaba e o glutamato são respectivamente um inibidor e um excitador do
Sistema Nervoso Central (SNC). A acetilcolina ajuda a controlar o tônus muscular,
sempre que a pessoa aprende algo ou se emociona (Russo, 2015). Da adrenalina,
sabe-se que, quando liberada, mantém o corpo em estado de prontidão diante de
emoções fortes, como luta ou fuga. É um neurotransmissor mais presente no
corpo, diferentemente da noradrenalina, que fica mais no cérebro para inibir o
estado de atenção e vigilância. A dopamina controla os movimentos voluntários
(Weiten, 2010), e está relacionada a atividades compensatórias (comida, bebida,
sexo). Já a serotonina é importante para os estados emocionais, controle dos
impulsos e para os sonhos, sendo válida a afirmação de que quando seu nível é
baixo, a pessoa está triste ou ansiosa.
Ao atentarmos para os neurotransmissores, percebemos o entrelaçamento
da neurociência com a cognição e a emoção. Há um número expressivo de
experimentos que dizem que expressões faciais-corporais com força emocional
ocorrem mais em pessoas que associam determinadas imagens a recordações

4
pessoais do que aquelas que não fazem essa associação. Estudos desta natureza
também mostram que regiões cerebrais envolvidas com a emoção (a amígdala,
por exemplo) revelam, em tomografia, maior ativação e maior relação com o
processo de memorização – ou seja, quanto mais emoção, mais marcação.
cérebro.
Processos cognitivos e emocionais no sistema nervoso envolvem o
cérebro, a medula espinhal, os nervos periféricos e aspectos fisiológicos. Se
pudermos estudar estas áreas, avançaremos no entendimento de nossa biologia
essencial. Ampliar tal conhecimento oportuniza detectar e compreender
problemas. Pesquisadores ativos nestas investigações ajudam na prevenção e no
tratamento de disfunções no cérebro, sistema nervoso e corpo. Por outro lado,
saber que felicidade ou prazer se produzem no córtex frontal, que raiva, medo e
tristeza ocorrem na amigdala ou pelo encontro de neurônios em lacunas
denominadas sinapses facilita o entendimento conceitual da Neurociência.

Neurociência é o estudo do fundamento neuronal, no nível biomolecular


ou microscópico do comportamento, da cognição e da emoção; a
investigação do sistema nervoso, sua estrutura, seu desenvolvimento,
funcionamento, evolução, e sua relação com o comportamento e a
mente, assim como suas alterações (Sena, 2015).

O professor ensina, o livro informa, as pessoas conversam. Sem descartar


o encontro das estudantes ruiva e morena, tais condições estabelecem um
repertório de informações armazenadas na estrutura conhecida como hipocampo.
Desta forma, novos neurônios, ao surgir, explicam a evolução do cérebro a partir
de experiências. Histórias produzidas externamente convocam os protagonistas
do enredo, os neurônios, a elaborar um mapa único na mente de cada indivíduo.
Acontece na sua casa, na sua escola, na sua vida, na vida de quem aqui esteve
antes de nós.
Levando-se em conta as experiências com o cérebro, que idade teria a
Neurociência?
Costumamos afirmar que a Neurociência é uma ciência do século XX, a
considerar que estudantes como as duas moças que abriram este estudo, se
deparam hoje com tecnologias inovadoras explicativas do funcionamento cerebral
e o que se lê com frequência é o surgimento de novos experimentos e novas
formas de pensar o cérebro humano. Mas, como falamos há pouco, aprendemos
com experiências armazenadas em nossos hipotálamos e mesmo as teorias que

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rejeitamos no passado como a frenologia, ofereceram subsídios para novas
avaliações. É o que iremos ver.

TEMA 2 – ORIGENS DA NEUROCIÊNCIA: POR QUE FURAR O CÉREBRO?

Imagine dois cenários. De um lado, estão as duas estudantes (homo


sapiens sapiens) que nos acompanham neste estudo, e do outro lado, dois
ancestrais pré-históricos, evolutivamente próximos do gênero Homo
(australopithecus). O alimento das estudantes é uma sopa de frutos do mar e a
dos hominídeos, cascas de árvores. Se compararmos os dois cenários,
perceberemos que as criaturas de cada lado, olham (visão), tocam (tato), ouvem
o som do ambiente (audição), e também sentem o cheiro (olfato) e o sabor da
comida (paladar). Ainda que o alimento não seja semelhante, a diferença mais
visível é o tamanho dos cérebros. Como representantes da espécie Homo
sapiens, o cérebro das moças deve medir em média 1350 cm3 e o cérebro dos
dois exemplares Australopithecus, terá em média 475 cm3 (The Conversation,
2022).
Se considerarmos que os cérebros de primatas, como os gorilas, se
assemelham ao cérebro dos primeiros hominídeos – a exemplo do
australopithecus – é de se ponderar que a diferença entre 30 bilhões de neurônios
deste último para os 86 bilhões do Homo sapiens é uma margem significativa.
Nosso cérebro se desenvolveu em diferentes estágios, cada um deles deixando
os que sobreviveram mais espertos. Deste modo, baseados em Tieppo (2021)
podemos dizer que para sobreviver, aumentamos nossa estrutura cerebral e
triplicamos o número de neurônios, o que não só nos diferencia dos nossos
ancestrais como também das outras espécies animais.
As informações externas que nos chegam pelas sensações químicas
(gustativas e olfatórias), táteis, auditivas e visuais são produzidas como o
movimento de mais de 80 bilhões de neurônios. Estas células nervosas não se
limitam ao “quase um quilo e meio de peso” do encéfalo, mas se espalham por
todo o corpo em integração com o sistema nervoso, resultando numa quase
inimaginável comunicação interneurônios. Por eles, nossos comportamentos se
relacionam às batidas do coração, piscar de olhos, movimentos de braços e
pernas e sobretudo aos pensamentos, que produzem um vai e vem de emoções
em evocações da memória. Como chegamos a este conhecimento que, embora

6
pareça tão avançado, ainda se mostra diminuto, diante da complexidade que é a
natureza neural do cérebro?
Bear, Connors e Paradiso (2017), falam que nossos ancestrais pré-
históricos viam o encéfalo, esta parte de dentro da caixa craniana, como vital,
havendo dados arqueológicos de um milhão de anos atrás com sinais de
traumatismo craniano causado por outros hominídeos, que, em nossa avaliação,
foram relevantes para avanços na Neurociência. Para ficarmos num tempo mais
curto, registros de trepanações de 7 mil anos atrás nos fazem suspeitar que parte
desta prática ocorria em indivíduos vivos, possivelmente para tratar problemas, ou
“afastar maus espíritos”.
Foi por volta de 2500 a. C. que se confirmaram as trepanações cerebrais
feitas para “expulsar demônios” do corpo. O uso de um trépano (pedaço de pedra)
buscava cortar fora a parte do crânio e desse jeito fazer saírem os espíritos
malignos do corpo. De qualquer modo, a prática levava em conta que mexer no
cérebro era proporcionar melhor bem-estar ao indivíduo.
Os autores citados afirmam que nesta época, no Egito, já se sabia dos
sintomas de lesões encefálicas, além de que, para os médicos daquele país, havia
a concepção de que o coração – e não o encéfalo – era a sede do espírito e
repositório de memórias, o que explica a remoção de suas partes e a preservação
do corpo. Este entendimento permaneceu até Hipócrates (460-379 a. C.) que
defendeu a convicção da ligação do cérebro às sensações e à inteligência. É dele
a citação abaixo:

Algumas pessoas dizem que o coração é o órgão com o qual nós


pensamos, e que ele sente dor e ansiedade. Mas não é assim. Os
homens deveriam saber que é o cérebro, e só o cérebro, a origem de
nossos prazeres, alegrias, riso e lágrimas. Por meio dele em especial,
nós pensamos, enxergamos, ouvimos e distinguimos o feio do belo, o
ruim do bom, o agradável do desagradável. (citado por Gazzaniga;
Heatherton, 2005, p. 121).

O médico grego, considerado o pai da medicina, apontava quatro tipos de


humores: o sangue, quente e úmido originado no coração; o fleuma, frio e úmido
originado no cérebro; a bílis negra, fria e seca, que vinha do baço e do intestino e
a bílis amarela, quente e seca, que era originada no fígado (Aguiar, 2004).
Aristóteles (384-322 a. C) não aceitou a visão de Hipócrates e retornou à
consideração de que a inteligência estava no coração e o cérebro era uma espécie
de radiador responsável pelo esfriamento do sangue. O filósofo grego entendia
que ao baixar a temperatura em casos de superaquecimento do coração, o

7
cérebro punha em evidência o temperamento racional humano. Para alguns
olhares, este entendimento coloca o cérebro como aquele “servo fiel” que faz
vento com o leque no seu “grande senhor”, o coração.
De qualquer modo, deve-se atribuir a Aristóteles a concepção do “hábito”
como contribuição à neurociência. Bernacer e Murillo (2014), reportam que a visão
aristotélica defendia que quando se adquire um (bom) hábito, realiza-se uma
ação: (1) mais facilmente; (2) mais eficientemente: e (3) com maior prazer. Esta é
uma ideia-chave para entender como os hábitos induzem à plasticidade
comportamental e a aprendizagem, por envolver áreas cognitivas.
Se os hábitos na teoria aristotélica têm alguma importância na
neurociência, a ideia de que o coração é o centro da inteligência foi
desconsiderada. Nos dias de hoje a explicação é bem diferente. Tieppo (2021) diz
que, em realidade, o coração é “pau mandado do cérebro”. Este órgão, que
bombeia mais de 70 mil litros de sangue todos os dias no organismo, não manda
dados de volta para o cérebro, apenas recebe a informação. Para boicotá-lo, o
coração precisaria deixar de funcionar, mas isso não seria “estar no controle” e
sim “não mais existir”. Nesta perspectiva, outros elementos do corpo são também
importantes, como é o caso das vísceras, que dão respostas racionais ao cérebro,
como acontece na emoção do medo, onde o coração acelera junto com a
respiração.

TEMA 3 – NEUROCIÊNCIA: ENTRE LÍQUIDOS E VENTRÍCULOS

A atenção ao corpo com concepções de espírito celestial e a teoria dos


quatro humores, passando pelas discussões de haver ou não um corpo físico e
um não físico, abriram caminho para maior ênfase ao encéfalo, o que por sua vez
daria espaço para estudar suas estruturas e funções. O decurso das análises
considerava os líquidos que transitavam pelo corpo humano, chamados de
“humores”: a bile negra (terra, secura e frio), a bile amarela (secura e calor), o
sangue (ar, umidade e calor e o fleuma (água, umidade e frio) e os ventrículos
cerebrais1, que produziam as operações mentais, da sensação à memorização.
Foi no Império Romano que o médico Galeno (130-200), depois de ganhar
experiência com cirurgias em gladiadores, interessou-se pelo papel mental do
cérebro. Para ele, o cérebro era o responsável pelas sensações e o cerebelo pelo

1
Veja no texto da aula 2 mais detalhes sobre como os ventrículos surgiram na história.
8
controle dos músculos. Seguindo a teoria humoral de Hipócrates, ele dedicou-se
a estudar os temperamentos. O melancólico, sob o domínio da bile negra, era
triste, suscetível e ligado à arte; o colérico, relacionado à bile amarela, era o
apaixonado, tendente à raiva; o sanguíneo tinha a ver com segurança própria,
alegria, otimismo e sociabilidade e o fleumático caracterizava o fleuma, ou seja
reflexão, tranquilidade e ausência de compromisso.
Cavada (2017) explica que Galeno relacionava os ventrículos cerebrais
com cavidades no coração e acreditava que sensações e movimentos estavam
relacionados aos humores de ou para os ventrículos cerebrais pelos nervos. Pela
teoria galênica, os nervos equivalem-se a condutos de transporte de fluidos do
cérebro e medula espinhal em direção à periferia do corpo.
Conforme Cosenza (2002), Nemesio (320), bispo de Emesia – a Síria de
hoje – baseado em Galeno, ligou os ventrículos às faculdades intelectuais e
colocou-os como responsáveis pelas operações mentais, desde a sensação até a
memorização. Segundo o autor, o primeiro par de ventrículos seria sede do “senso
comum”. A igreja usou os ventrículos para dizer que por eles circulavam espíritos.
Aguiar (2001), destaca que o sistema de Galeno – que integrava a teoria humoral
de Hipócrates com a lógica aristotélica – foi incorporado por médicos árabes após
a queda do império e reintroduzido na Europa após 1250.
As ideias de Galeno influíram no futuro e garantiram ao cérebro a
responsabilidade de ser a sede de todas as faculdades mentais. René Descartes
(1596-1650) concordou em parte com o médico romano, ao argumentar que todo
ser humano tinha um corpo físico e um corpo não-físico. Gazzaniga e Heatherton
(2005) acentuam que o “físico” e o “não-físico”, na visão cartesiana, eram
interligados (dualismo) e o corpo era considerado uma espécie de máquina
comandada por reflexos definidos como unidades de ação mecânica. As funções
mentais, que incluíam a imaginação e as lembranças, eram resultado de funções
corporais.
No futuro, esta visão seria modificada para o entendimento de que a mente
tem uma base física – o encéfalo. Já no final do século XVIII, com o sistema
nervoso dissecado e sua anatomia detalhada, concluiu-se que ele compreendia
uma divisão central, com encéfalo e medula espinhal e uma divisão periférica, que
compreendia uma rede de nervos a percorrer o corpo (Bear, Connors e Paradiso,
2017). A questão que atraia o interesse dos cientistas era entender o que a
diversificação de estruturas poderia representar para o entendimento do cérebro.

9
Entre os séculos XVII e XVIII, os estudiosos do cérebro passaram a dar
importância ao encéfalo em relação à sua “substância cinzenta”, que através de
nervos e fibras, levava informações para outra substância, a branca. Rodrigues e
Ciasca (2010) reportam que estudos como o de Benjamin Franklin (Experimentos
e observações sobre a eletricidade) em 1751, que tratou dos fenômenos elétricos,
estimularam investigações sobre o encéfalo. Na virada do século, Luigi Galvani e
Bois-Reymond trouxeram evidências de que músculos entravam em movimento
diante de estímulos elétricos e neste alinhamento, o encéfalo podia gerar
eletricidade. Já não era apenas a diversificação das estruturas que chamava a
atenção, mas também a quais funções que corresponderiam cada uma das áreas
específicas do cérebro.

TEMA 4 – NEUROCIÊNCIA: LOCALIZACIONISTAS X HOLISTAS

Ao evidenciar-se a busca por teorias localizacionistas no intuito de se saber


onde ficava localizada uma determinada função do cérebro, um jovem austríaco
que estudava medicina, Franz Joseph Gall, se destacou a partir de 1809. Em sua
concepção, havia pelo menos 35 centros ligados à mente e que cada centro ao
se desenvolver aumentaria de tamanho (Cava, 2017). As ideias de Gall foram
controversas, chegando, conforme algumas críticas, a representar um ponto de
parada no desenvolvimento da neurociência. Seu método de investigar a
personalidade e as faculdades mentais de uma pessoa pelo formato de seu crânio
foi chamada de frenologia. Bear, Connors e Paradiso (2017) contam que para
sustentar sua teoria, Gall e seus seguidores mediram o crânio de centenas de
pessoas, desde grandes talentos até psicopatas e, embora as alegações dos
frenologistas não tenham sido levadas a sério pela comunidade científica, estas
ideias se espalharam no imaginário popular da época, tendo um livro-texto sobre
isso vendido mais de 100 mil cópias em 1827.
Um impulso histórico na concepção localizacionista do cérebro veio pelo
anatomista e antropólogo Paul Broca. Rodrigues e Ciasca (2010) lembram o caso
de um paciente de Broca que, após uma lesão na região do giro frontal do córtex
pré-frontal não apresentou problemas motores na língua, boca ou cordas vocais,
mas mostrou-se incapaz de falar frases completas ou expressar o pensamento
por escrito. Broca defendeu que a função da linguagem estaria assim localizada
nesta região específica, a área de Broca, referente à afasia motora. Os autores
destacam ainda que mais tarde outro anatomista, o psiquiatra Karl Wernicke

10
estudou lesões na parte posterior do lobo temporal em pacientes que falavam,
mas não compreendiam o que diziam, apontando-se deste modo que o caráter
motor da fala estaria localizado num ponto que ficou conhecido como a área de
Wernicke, onde se caracterizava a afasia sensorial.
Castro e Landeira-Fernandez (2012) destacam o contraponto à visão
localizacionista, que ganhou impulso em Broca, ao se defender que ideias e
sentimentos verbalizados ou escritos não estariam circunscritos a pontos
específicos localizados no córtex cerebral, mas a uma ação integrada ao cérebro
como um todo. Neste mesmo viés se posicionaram o neurologista britânico John
Hughlings Jackson (1835-1911), Sigmund Freud (1856-1939), Pierre Marie (1853-
1940) e Karl Spencer Lashley (1890-1958).
Outros estudiosos como o psicólogo russo Lev Vygotsky (2004) postularam
a atividade integrada em diversos setores do cérebro, diferenciados e
relacionados hierarquicamente. Seu parceiro Alexander Luria (1992) citado como
pai da Neuropsicologia, propôs que a Neurociência acabou concordando com as
postulações de Vygotsky, mas defendeu que nem o localizacionismo e o holismo
poderiam explicar de modo convincente a ligação entre o cérebro e os processos
psicológicos.
Um fato marcante no século XIX, destacado por Hamdan e Pereira, referiu-
se as alterações comportamentais num homem chamado Phineas Gage, depois
de um acidente que aconteceu quando supervisionava a construção de uma
estrada de ferro. Engenheiro ferroviário, ele detonou inadvertidamente um
explosivo na colocação de trilhos e uma barra acabou por atravessar seu crânio.
Gage perdeu um olho, mas sobreviveu à lesão grave no cérebro. Sua condição
física foi inalterada, bem como a memória e a inteligência, mas ele perdeu o
respeito pelas convenções sociais, comportando-se de forma irresponsável e
sendo considerado par alguns como sociopata.
O acidente com Gage foi em 1848, período em que se buscava argumentos
sobre regiões especializadas para linguagem, movimento e percepção. Ao pensar
que o caso poderia ser de lesão em uma região voltada para o comportamento
racional, o médico de Gage teve seus argumentos rejeitados e como não tinha
dados de autópsia para comprovar, a situação ficou como estava. Cinco anos
depois, com a morte de Gage, o médico pediu à família que o exumasse fim de
que o crânio pudesse ser preservado para futuros estudos. O artefato ficou

11
guardado em uma caixa de vidro no Warren Anatomical Medical Museum da
Universidade de Harvard.
O casal de neurologistas Hanna Damasio e Antonio Damasio, ao
perceberem que podiam usar tecnologias avançadas, fotografaram em 1994, o
crânio de todos os ângulos e os resultados mostraram que os lobos frontais
continham circuitos separados, que se interligavam na tomada de decisão, um
deles no domínio social e o outro, para os objetos, linguagem e aritmética. Desde
então, vários casos de pacientes em situações similares apresentavam déficit nas
tomadas de decisão racional e no processamento das emoções.
Ainda em 1994, Hanna e Antonio Damásio publicaram seus dados, junto
com colegas neurologistas do Hospital e Clínica da Universidade de Iowa, Thomas
Grabowski, Randall Frank e Albert Galaburda. Logo em seguida, Antonio Damasio
publicou O Erro de Descartes, em que contestou o filósofo e matemático francês
que via o ato de pensar como atividade separada do corpo. O caso de Phineas
Gage como entende Muci-Mendoza (2007) acabou por contradizer o dualismo
cartesiano do reducionismo e diagnósticos gerais, abrindo caminho para uma
perspectiva de maior complexidade no contexto social, cultural e ecológico da
mente humana.

TEMA 5 – NEUROCIÊNCIA ENTRE O HOJE E O AMANHÃ

Percebe-se, nos dias de hoje, que na busca de maior conhecimento a


Neurociência ganhou um sentido multidisciplinar, condição observável na busca
de métodos aplicáveis ao tratamento de doenças e no alargamento de sua
parceria com outras áreas do saber. Com base nos avanços obtidos e
considerando a contribuição de Bear, Connors e Paradiso (2017) é possível
estabelecer-se níveis gradativos de investigação:

1. Neurociências moleculares. Este nível, o mais elementar de todos,


apresenta a matéria encefálica como uma constituição diversificada de
molécula, muitas delas exclusivas do sistema nervoso.
2. Neurociências celulares. Nível que estuda como as moléculas interagem
para dar ao neurônio suas propriedades particulares. Busca-se saber
quantos diferentes tipos de neurônios existem, como eles diferem em suas
funções e como se interconectam.

12
3. Neurociências de sistemas. Estuda-se neste nível como os diferentes
circuitos neurais, analisam informações sensoriais, formam percepções,
tomam decisões e executam movimentos.
4. Neurociências comportamentais. As respostas procuradas atendem
questões como: de que forma os sistemas neurais trabalham para produzir
comportamentos integrados, onde agem as substâncias que alteram a
mente e como ocorre a regulação do humor e do comportamento.
5. Neurociências cognitivas. O grande desafio é entender o processo pelo
qual ocorrem as atividades mentais superiores como a consciência, a
imaginação e a linguagem.

Do ponto de vista científico, a situação atual das Neurociências dá atenção


à observação aplicada a experimentos para testar hipóteses, replicação, que
envolve repetições de experimentos em diferentes sujeitos tantas vezes quanto
for necessário e a verificação da aplicabilidade dos estudos, passível de ser
reproduzida por qualquer cientista competente e que permita estabelecer fatos
científicos. Quando os resultados são negativos, deve-se sugerir novas
interpretações para a observação original.
A Fundação Bankinter (2022), voltada para inovação e empreendedorismo,
sediada na Espanha e Portugal, ao falar sobre o futuro da Neurociência, destaca
o tratamento de doenças, a melhoria da saúde, o aumento do bem-estar, a análise
de informações e a personalização de dispositivos. Mesmo que considera a
necessidade de se superar desafios na regulamentação de novas tecnologias
para uso em humanos, a fundação aponta perspectivas futuras.

1. Evolução nas técnicas de neuroimagem. A previsão é que esses


sistemas continuarão a ser desenvolvidos, apostando-se que até 2030, o
desenvolvimento tecnológico permitirá maiores informações sobre
diferentes tipos de células cerebrais e suas conexões. Espera-se que estas
técnicas forneçam maiores informações sobre os tipos de neurônios e
como eles se conectam. Os benefícios se estendem a processos mentais
como memória e sono que aparecem em várias patologias.
2. Tratamento diferente para todos. Prevê-se o desenvolvimento de
ferramentas tecnológicas para antever possíveis distúrbios e permitir
gerenciá-los melhor, considerando-se tratamentos personalizados. A
depressão é colocada como exemplo por ser uma doença diferente
dependendo do paciente. Um desafio neste procedimento serão as
13
questões éticas na previsão de transtornos e a forma como este novo
conhecimento afetará a sociedade.
3. Mais conhecimento, melhoria para todos. Em 2030 haverá mais
graduados universitários do que agora no mundo e o trabalho em sala de
aula será cada vez mais online. Estima-se que neste ano, 90% da
população mundial terá acesso à Internet.
4. Humanos aprimorados. Prevê-se para o futuro, a aquisição de sensores
inteligentes e wearables (dispositivos para uso como roupa, relógio ou
óculos) baseados em neurotecnologia para aprimorar capacidades
humanas. Estima-se que os seres humanos possam enfrentar melhor a
solidão e aqueles com deficiências poderão aumentar a autonomia.
Avanços para comunicação telepática são aguardados para 2050.
5. Cura de distúrbios incuráveis. Estudiosos anteveem a descoberta das
causas primárias do Alzheimer e um tratamento a partir de 2026. Alguns
anos à frente prenuncia-se a cura deste mal. Para 2027 acredita-se em
tratamentos pré e pós-natais para deficiências intelectuais ou de
aprendizado.
6. Novas perspectivas e tratamentos na saúde mental. Uma previsão
anunciada são os tratamentos menos invasivos em distúrbios do SNC,
como depressão e transtorno bipolar. Em 2026, calcula-se maior
compreensão da base neural dos transtornos mentais. Distúrbios
psiquiátricos e neurológicos ainda não serão dominados a nível de
tratamento, mas avanços serão vistos para derrubar tabus e estigmas em
situações sociais ou familiares.

Em relação às disciplinas que compõem o caráter multidisciplinar na


Neurociência, aguarda-se desdobramentos para o que já existe em campos como
neurologia, psiquiatria, neuropsicologia, neurocirurgia e neuropatologia. O avanço
deve compreender os ramos de: neurociência afetiva, neurociência
comportamental e cognitiva, neurociência computacional, neurociência cultural,
neurociência celular e molecular, neurociência do desenvolvimento,
neuroengenharia, neuroimagem, neurofisiologia, neuroetologia e
neuropedagogia, também se espera a ampliação de especialistas em
neurociências, hoje concentrados em neuroanatomistas, neurofisiologistas,
neuropsicólogos, neurofisiologistas, neurofarmacologistas e neurobiólogos.

14
REFERÊNCIAS

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2004

16
WEITEN, W. Introdução a psicologia: temas e variações. São Paulo: Cengage
Learning, 2010.

17
AULA 2

NEUROCIÊNCIA E
COMPORTAMENTO
HUMANO

Prof. Reginaldo Daniel da Silveira


CONVERSA INICIAL

Sistema nervoso e cérebro: organização anatômica e funcional

Ao longo da história da espécie humana, dissecar cadáveres, estudar


cérebros de animais e relacionar lesões localizadas com funções específicas
foram alguns dos registros que impulsionaram discussões sobre o funcionamento
do sistema nervoso e do cérebro. Esta área, que alguns chamam de “computador
central do corpo humano”, com um hemisfério intuitivo e outro racional, faz uso de
uma vasta rede de comunicação conhecida como sistema nervoso, cuja função é
nos fazer produzir pensamentos, ações e emoções.
Ao ler conteúdos sobre neurociência, é usual nos depararmos com termos
como sistema nervoso central, sistema nervoso periférico, neurônios, entre outros,
nomes esses que, ao estudarmos mais aprofundadamente, nos chamam a
atenção sobre onde se localizam e, sobretudo, quais suas funções. Decisões
simples, como escolher a cor de uma camisa, e decisões mais complexas, como
decidir entre trocar de emprego ou ficar na zona de conforto, envolvem
percepções e sensações, das quais não nos damos conta. Isso ocorre porque,
enquanto nos expomos ao ambiente, processamentos neurofisiológicos
antecipam a interpretação de nossos sentidos.
Ao estudar o sistema nervoso, a fim de conhecer melhor as células
nervosas (que transportam estímulos e geram respostas em nosso organismo),
avançamos não só no entendimento do que é cérebro, sistema nervoso e
neurociência, mas também no entendimento dos processos do sistema nervoso,
os quais nos fazem interpretar o mundo, e sermos quem somos. É o que veremos
nesta etapa.

TEMA 1 – BREVE HISTÓRIA DO SISTEMA NERVOSO

Célia e Helena, a ruiva e a morena, do nosso conteúdo anterior, conversam


em uma salinha da biblioteca universitária.
“Tem muito material. Separei cinco livros e li dez páginas. E você?”
“Separei quatro. Uma coisa que li aqui me lembrou de quando você me
atirou a bolinha de papel na escada para o setor de ciências aplicadas.”
“Como assim?”

2
“Quando meus olhos viram a bolinha no ar, jogaram informações para o
sistema nervoso, e ele mandou impulsos nervosos para a medula espinhal, que
mexeu meus músculos para pegar o papelzinho amassado. A bolinha, foi o
estímulo; a visão, o receptor; e, meus músculos, o efeito.”
“Helena é isso que dá estudar neurociência e ter um pai neurologista. Você
está usando seu hemisfério cerebral esquerdo! Eu, hein?”
Helena falou em impulsos nervosos e sistema nervoso (SN), os quais,
ligados às células nervosas, conduzem os impulsos pelo corpo. Diante de
estímulos, os neurônios transmitem dados entre si – as sinapses – que consistem,
justamente, na troca de informações. Para isso acontecer, é preciso um lugar que
abrigue mais de 80 bilhões de células: o SN. Por ser um centro de controle, ele se
vale dos sentidos para detectar a bolinha de papel que Helena jogou, o carro que
buzina na esquina e, enfim, o meio que nos rodeia e que nos leva a prestar
atenção, admirar, lembrar e formar opiniões. A complexidade do SN revela-se
desse modo: um órgão “opaco ao que está no seu interior, convoluto e cheio de
saliências e reentrâncias que escondem umas às outras” (Lent, 2016, p. 20).
O SN é um conjunto complexo de nervos e células nervosas que
transmitem sinais para diferentes setores do corpo. Dizer que ele é uma espécie
de “fiação elétrica” do corpo, não é nenhum exagero. Com o sistema endócrino
(SE), ele controla todos os sistemas orgânicos do corpo. Cabe ao SN, contudo,
comunicar sinais por meio de células e de espaços entre elas, diferentemente do
SE, que faz isso pelas vias circulatórias. Outra diferença entre eles é que o SN
usa sinais eletroquímicos, e não apenas químicos.
A trajetória histórica dos estudos sobre o cérebro passou por reflexões
sobre a trepanação e, depois, pela distribuição da mente para diferentes partes
do corpo. Dois pensamentos vieram à tona: um colocou a mente no coração, e o
outro, no cérebro. O encéfalo, como estrutura central, todavia, não era relacionado
aos nervos.
Após Aristóteles, Herófilo de Calcedônia (335-280 a.C.) e Erasístrato de
Dhio (310-250 a.C.), respectivamente, são considerados pais da anatomia e da
fisiologia; dissecaram cadáveres humanos e apresentaram o sistema nervoso
(Tieppo, 2021). Ao reparar fibras do crânio e espinha saindo para o corpo, eles
distinguiram os nervos motores dos sensitivos, e revelaram os ventrículos,
figurativamente definidos como “buracos” no cérebro. Para os dois médicos
gregos, espíritos fluíam dos ventrículos para os nervos (ocos) e músculos que

3
faziam o corpo se mover. Não obstante, a visão equivocada sobre o ar, ou
espíritos, a percepção dos ventrículos e o pensamento de que o corpo humano
funcionava em um processo integrado complexo, representou um avanço para a
neurociência.
Após um período de proibição da dissecação de cadáveres estimulada pelo
Cristianismo, passaram-se 400 anos até que Galeno de Pérgamo juntou, à
concepção dos líquidos presentes na teoria humoral de Hipócrates, a teoria dos
ventrículos, segundo a qual seria onde as funções mentais estariam localizadas.
A partir de então, receberam impulso observações como a de que o cérebro se
divide em substância branca e cinzenta. A revelação de que a parte
esbranquiçada continuava nos nervos ao longo do corpo, informando à substância
cinzenta (Lima et al., 2006), favoreceu a ideia de que o SN se compunha de duas
partes, o que viria a ser comprovado cientificamente.
Entre 1780 e 1790, o médico italiano Luigi Galvani defendeu existir uma
forma intrínseca de eletricidade na condução nervosa e na contração muscular.
Meio século depois, o cientista suíço-alemão Bois-Reymond, afirmou ser o
encéfalo gerador de eletricidade ao demonstrar a movimentação dos músculos
quando os nervos eram estimulados eletricamente. Essa nova perspectiva
deixaria para trás a ideia do refrigerador mental (Tieppo, 2021).
No tempo das discussões entre localizacionistas e holistas, ainda não havia
um conceito acabada sobre os neurônios. Na década de 1870, entretanto, uma
invenção do médico italiano Camilo Golgi, conhecida como coloração de Golgi,
permitiu examinar neurônios isolados (Gazzaniga; Heatherton, 2010). Desse
modo, no final do século XVIII, a anatomia do SN já era conhecida grosseiramente
por meio das dissecações. Um mesmo padrão de saliências (giros) e sulcos
(fissuras) estava presente na superfície cerebral de cada indivíduo, e um olhar ao
cérebro dissecado possibilitou reconhecer as duas divisões que viriam a ser
padronizadas: a central e a periférica. O encéfalo então passou a ser pensado
como uma estrutura que funcionava por duas divisões do SN. Bear, Connors e
Paradiso (2017), com relação a esse momento, chamam a atenção para os
seguintes pontos:

• Lesões no encéfalo podiam causar desorganização das sensações,


movimentos e pensamentos, e levar o indivíduo à morte;
• O encéfalo se comunicava com o corpo por meio dos nervos;

4
• O encéfalo apresentava partes diferentes identificáveis e que,
provavelmente, executavam diferentes funções;
• O encéfalo operava como uma máquina, seguindo as leis da natureza.

Esses dados nos indicam que o cérebro controla o que pensamos,


sentimos, lembramos, falamos e nos movemos, além de também ser responsável
por ações inconscientes, como os batimentos cardíacos e a digestão de
alimentos. Fazemos tudo isso pelo SN, que, embora tenha subdivisões que
mantêm, cada uma, suas características estruturais e funcionais, pertencem a um
sistema único e altamente integrado. A seguir, conheceremos melhor as divisões
central e periférica.

TEMA 2 – CÉREBRO

“O nosso cérebro é o melhor brinquedo já criado: nele se encontram todos


os segredos, inclusive, o da felicidade”. Essa frase de Charles Chaplin pode ser,
para alguns, ingênua; para outros, revela o grande poder dessa estrutura.
Centro de controle do corpo humano, o cérebro administra o que fazemos.
Se pensamos sobre uma decisão na empresa, se sonhamos com coisas que
aconteceram no dia a dia, se corremos no parque, ou, se simplesmente tiramos
uma soneca, ele está envolvido. Isso acontece porque ele recebe e envia
informações, e nos mantém em comunicação constante com o mundo.
Constituindo-se na maior parte do encéfalo – 80% de sua massa total –, o
cérebro se divide em dois hemisférios: o esquerdo, considerado responsável pelo
lado racional, ligado à linguagem; e, o direito, responsável pela porção intuitiva,
criativa e emocional. Lesões no hemisfério esquerdo podem ocasionar perda da
linguagem e, no lado direito, déficits de produção e reconhecimento emocional
(Tieppo, 2021).
A análise que Célia, uma de nossas personagens, fez sobre o ato de pegar
a bolinha de papel relacionada à chamada de um livro na biblioteca, mereceu de
Helena a afirmação de que ela estava usando o hemisfério esquerdo do cérebro,
ou seja, sua porção racional. Mais tarde, Helena faria diversos elogios a quadros
pintados por Candido Portinari e a um recital de música de câmara. Não seria
errado se sua amiga dissesse que ela estaria usando o hemisfério direito do
cérebro – responsável pelo lado artístico. O fato é que, dentro de nós, há um
gerenciador de ações, escolhas e emoções.

5
Eagleman (2017) explica que, normalmente, os dois hemisférios se
conectam pelo corpo caloso (feixe de substância branca), que permite que as
metades direita e esquerda se coordenem e trabalhem de modo harmônico. O
autor traz um exemplo acerca da sensação de frio, no qual as duas mãos
cooperam: a bainha do casaco é segurada por uma delas, e o zíper é puxado pela
outra. Quando o corpo caloso é seccionado, pode ocorrer a síndrome da mão
alheia, ou síndrome da mão alienígena, uma desordem neurológica na qual a mão,
por exemplo, passa a agir de modo involuntário, como puxar o zíper para cima
com uma mão e, para baixo, com a outra.
O cérebro comumente é descrito como a “massa cinzenta”, apesar de, em
funcionamento, mostrar-se esbranquiçado e brilhante. Podemos dizer que essa
estrutura é, de certo modo, sede do SN, pois por ela passam sensações,
percepções, pensamentos, a consciência e o gerenciamento das emoções; de
forma mais categórica, pelo cérebro passa a nossa vida, ou a interpretação que
temos dela.

Figura 1 – Hemisférios cerebrais esquerdo e direito

Créditos: JIR Moronta/Shutterstock.

6
Psicólogos cognitivos costumam citar a frase de Epiteto, filósofo grego
estoico que viveu como escravo em Roma: “as pessoas ficam perturbadas não
pelas coisas, mas pela imagem que formam delas”. Para além de uma reflexão
cognitivo-comportamental, o cérebro nos mostra que somos influenciados por
luzes, sons, sabores, cheiros e sensações táteis e, ao fazer isso, ele aciona uma
quantidade impressionante de conexões entre células nervosas.
Se perguntássemos a Célia, Helena e a outras pessoas que estudam
neurociência, ouviríamos dizer que o cérebro é a “glória suprema” do SN,
afirmação feita por Weiten (2010) ao salientar que esse órgão, com cerca de 1,5
quilo, que pode ser carregado em uma das mãos, contém bilhões de células
interagindo e integrando informações do exterior e interior do corpo. Tal
complexidade cria um potencial surpreendente de ações e reações. Se alguém
lhe pedir a senha de sua conta bancária, é claro que você não a fornecerá, pois
seu cérebro acionaria o estado de prontidão: Por que entregar sua senha a
terceiros? O cérebro, que ajuda a guardar a senha na memória, possibilita também
falar, pensar, planejar, criar e sonhar.
A parte que compõe os dois hemisférios é denominada grande cérebro; o
cerebelo é o pequeno cérebro, dividido em dois hemisférios cerebelares, com uma
região denominada vérmis, e outra superficial, chamada córtex cerebelar. Em uma
porção mais interna, está a substância branca, onde se encontram núcleos do
cerebelo (núcleos centrais). Do ponto de vista funcional, o cerebelo é receptor de
informações sobre a posição de articulações, comprimento dos músculos,
estímulos auditivos e visuais. Lent (2016) destaca que, atualmente, há evidências
de que o cerebelo oferece funções mais complexas do que apenas o controle da
motricidade, incluindo funções sensoriais, emocionais e cognitivas.
Diferentemente dos hemisférios cerebrais, seu lado esquerdo é relacionado ao
lado esquerdo do corpo, e o lado direito é ligado aos movimentos do lado direito.
Outras áreas do cérebro abrangem os lobos, que respondem por funções
como cognição, movimentos voluntários e linguagem (nos frontais), processos
visuais (nos occipitais), informações sensoriais (nos parietais), e audição,
interpretação de sons e memória (nos temporais) (Cherry, 2022). Conhecemos
também: os gânglios de base – estruturas subcorticais ligadas à iniciação de
movimentos planejados; a área de Broca – envolvida com a fala; a medula oblonga
– a região de comunicação entre cérebro e medula; o hipotálamo – o setor de
regulação da temperatura, emoções, comportamento sexual e motivação; o

7
tálamo – que recebe as informações sensoriais antes de chegarem ao córtex; e,
a área que processa informações emocionais e associa fatos a emoções: a
amígdala (Gazzaniga; Heatherton, 2005).

TEMA 3 – ASPECTOS ANATÔMICOS DO SISTEMA NERVOSO

Célia e Helena, frequentam há pouco tempo a biblioteca da universidade.


Para localizar setores como o acervo de empréstimos especiais, o setor
cartográfico, o setor multimeios, ou setor de periódicos, elas não precisam saber
onde o sol nasce, ou se põe, mas se valem de pontos de referência que operam
de modo similar ao dos pontos cardeais: na entrada são feitas a devolução e
retirada de livros; no fundo, fica a sala de eventos; à direita está o acervo para
empréstimo e, à esquerda, o acervo para consulta local.
Procurar setores do SN não é como procurar setores de uma biblioteca,
mas o modo de procura é equivalente. Bear, Connors e Paradiso (2017) relatam
que as partes do SN de um rato, cujos dados estruturais são típicos dos
mamíferos: na parte superior está o encéfalo; apontada para baixo, em direção à
cauda, segue a medula espinhal; na direção de um dos lados (costas), está a parte
dorsal e, na direção oposta (barriga), está a parte ventral. Assim como a biblioteca
frequentada por Célia e Helena, há, no SN, duas áreas grandes e iguais em suas
dimensões: o lado direito do encéfalo e da medula espinha é a imagem especular;
o lado esquerdo dessas estruturas é a chamada simetria bilateral.

Figura 2 – Cortes no cérebro

Crédito: Olga Bolbot/Shutterstock.

8
Para visualizar o interior do encéfalo, é necessário seccioná-lo em duas
metades; a direita e a esquerda correspondem ao plano mediano, e os cortes
paralelos a ele são o plano sagital. Outros dois planos anatômicos são o
horizontal, paralelo ao solo, entre os olhos e as orelhas (correspondente aos
planos dorsal e ventral); e, o plano coronal, que é a divisão perpendicular ao solo
e ao plano sagital.
Estruturalmente, o SN é constituído por duas partes: o sistema nervoso
central (SNC) e o sistema nervoso periférico (SNP).

Figura 3 – Sistema nervoso

Créditos: Pikovit/Shutterstock.

9
3.1 Anatomia do sistema nervoso central

O SNC é formado por encéfalo (cérebro, cerebelo) e tronco encefálico. Ele


possui meninges que são como envoltórios, que protegem de impactos e levam
nutrientes, além de distribuírem células de defesa – são chamadas de pia-máter,
aracnoide-máter e dura-máter. A dura-máter – a mais externa – apresenta-se
como um tecido conjuntivo denso, com duas porções, uma externa, em contato
com os ossos, e outra interna. A aracnoide é uma membrana serosa, mediante as
outras meninges; sua estrutura parece a de uma teia de aranha. Entre ela e a pia-
máter existe um líquido denominado cefalorraquidiano, ou cerebrospinal. A pia-
máter é mais interna, e é vascularizada. Seu contato com o SNC é direto,
acompanhando as ondulações do cérebro.
Localizado dentro do crânio e da coluna espinhal, o cérebro é um dos
órgãos do encéfalo que compõem o sistema nervoso central. Está localizado no
interior do esqueleto axial (cavidade craniana e canal vertebral). O cérebro é
composto pelo telencéfalo, com seus dois hemisférios cerebrais unidos pelo corpo
caloso, e o diencéfalo, a parte caudal que ocupa a região central do cérebro. Sobre
o diencéfalo estão as seguintes partes: o tálamo, localizado na porção mais central
do encéfalo; e, o hipotálamo, localizado abaixo do tálamo.
O tronco encefálico situa-se na parte mais caudal do encéfalo, e é
composto de:
• Mesencéfalo – Segmento mais curto do tronco encefálico localizado na face
posterior do crânio;
• Ponte – Localiza-se entre o mesencéfalo e o bulbo;
• Bulbo – Porção mais inferior do tronco cerebral, apresenta-se em forma de
um tronco de cone.

A medula espinhal, por sua vez, localiza-se ao longo do canal vertebral,


estendendo-se desde o bulbo, até a vértebra lombar.

3.2 Anatomia do sistema nervoso periférico (SNP)

O SNP distribui-se em nervos e gânglios responsáveis por interligar partes


do corpo ao SNC. Ele se divide em dois tipos: somático e autônomo.
Os nervos do sistema nervoso somático (SNS) partem da medula espinhal,
de onde se formam gânglios nervosos paralelos à medula, distante dos órgãos
por eles inervados.
10
O sistema nervoso autônomo (SNA) é formado por nervos que se ligam ao
coração, aos vasos sanguíneos, aos músculos lisos e às glândulas (Weiten,
2010). Ele se subdivide em sistema nervoso autônomo simpático (SNAs) e
sistema nervoso autônomo parassimpático (SNAp). O SNAs se localiza na região
torácica e lombar da medula; o SNAp, por sua vez, ocupa a região do tronco
encefálico e a região sacral da medula.

TEMA 4 – ASPECTOS FUNCIONAIS DO SISTEMA NERVOSO

Quando nossas personagens Célia e Helena caminharam até a biblioteca,


refletiram sobre o que deveriam pesquisar, riram ao falar de situações envolvendo
colegas da faculdade e falaram sobre coisas que gostariam de fazer no final de
semana. Anatomistas e fisiologistas nos mostram que o SNC controla
pensamentos, movimentos, emoções e desejos, além de trabalhar sobre nossa
respiração, frequência cardíaca, temperatura, entre outros.
No setor de ciências aplicadas, Célia foi abraçada por Nestor, um rapaz por
quem está interessada, e sentiu um calor lhe percorrer o corpo, além de seu
coração ter se acelerado. Ela não parou para pensar sobre isso, mas no jantar em
que precisou retirar rapidamente a mão da sopeira quente para não se queimar,
seu coração também bateu mais forte por instantes. Nessas duas ocasiões, não
era ela quem controlava o batimento cardíaco. Os responsáveis por essa reação
são os neurônios, que se movem pelo seu corpo pelo SNP.
Sabemos que um único neurônio em contato com outro neurônio dá
passagem a sinais elétricos, e usamos isso para estender nossa compreensão de
modelos que explicam o funcionamento do sistema nervoso. Ainda estamos longe
de decifrar como tudo acontece, no entanto. Do que está ao nosso alcance,
podemos afirmar que o cérebro é o órgão mais importante do SN, pois ele controla
movimentos, recebe e interpreta estímulos sensitivos, além de coordenar ações
que exigem raciocínio, memória e imaginação.

4.1 Funções do sistema nervoso central

Ler, escrever, falar, calcular, escrever poesia, criar, lembrar o que passou
e projetar o futuro são funções do telencéfalo. Para Lent (2016), a parte mais
importante do telencéfalo é o córtex cerebral, não apenas pelo seu volume, mas
pela complexidade de suas funções. É ele que interpreta as informações

11
sensoriais, gerando percepções de que somos capazes, além de planejar, de
programar e enviar à medula comandos para a motricidade.
O diencéfalo, por meio do tálamo, tem funções relacionadas à motricidade,
ao comportamento emocional, à ativação cortical e à sensibilidade. No
hipotálamo, a função relaciona-se ao controle do SNA e do sistema endócrino,
fome, sede, temperatura, sono e vigília (Oliveira; Campos Neto, 2015).
O cerebelo está funcionalmente relacionado ao tônus muscular. Eagleman
(2017) postula que, no ato de aprender uma nova habilidade, o cerebelo ordena o
fluxo necessário de movimentos para precisão e controle do tempo.
Nos primeiros dias de aprendizagem de uma nova habilidade motora, o
cerebelo tem um papel particularmente importante, ordenando o fluxo necessário
de movimentos para a precisão e o controle perfeito do tempo.
O tronco encefálico é um receptor de informações sensitivas de estruturas
cranianas e um controlador dos músculos da cabeça, dispondo de circuitos
nervosos que transmitem informações da medula para outras regiões do encéfalo
(Oliveira; Campos Neto, 2015). Para esses autores, elementos do tronco
encefálico, como o mesencéfalo, respondem por estímulos da visão, audição e
movimentos dos olhos e do corpo; a ponte, tem a função de transmitir informações
da medula e do bulbo ao córtex, e o bulbo conduz os impulsos nervosos do
cérebro para a medula, e vice-versa.
Outro componente do SNC, a medula espinhal tem como função transmitir
os impulsos nervosos do cérebro para todo o corpo.

4.2 Funções do sistema nervoso periférico

O SNP está funcionalmente comprometido com a condução de estímulos


detectados em outras estruturas, ou externamente, para processá-los no SNC.
Gazzaniga e Heatherton (2005, p. 111) postulam que, depois que o SNC recebe
as informações, ele as organiza, avalia e “orienta o SNP para realizar
comportamentos ou fazer ajustes corporais específicos”.
Para entendermos o funcionamento do SNP, atentemos para o abraço que
Célia recebeu do rapaz com quem pensa em namorar: (1) os nervos sensitivos da
pele enviaram a informação ao encéfalo pela medula espinhal; (2) os neurônios a
transmitiram pelos gânglios basais; por meio dos gânglios basais, os neurônios
disparam uma quantidade de dopamina em direção ao lóbulo frontal; (3) o lóbulo
frontal recebe a sensação agradável em forma de motivação e, com a dopamina

12
ativada, Célia sente-se recompensada, e o lóbulo frontal executa uma resposta;
e, (4) os músculos fazem Célia abraçar carinhosamente o rapaz.
O SNA inerva todo o corpo humano, agindo sobre sistemas fisiológicos em
função de demandas energéticas de atividade conforme a situação em que o
indivíduo se encontra. Entre as alterações fisiológicas em situações de perigo
estão o aumento das frequências cardíaca e respiratória, e sudorese (Loureiro,
2018).
No SNS, axônios motores somáticos se originam de neurônios motores
para comandar a contração muscular; no SNA, axônios sensoriais autônomos
carreiam informação sobre funções viscerais fora do controle voluntário do
indivíduo (Bear; Connors; Paradiso, 2017).
O SNAs pode ser considerado como um sistema de excitação diante de
determinadas situações, e está relacionado à produção de adrenalina e
noradrenalina. Já o SNAp atua em oposição ao SNAs, levando o organismo ao
estado de calma e relaxamento; para isso, ele se vale do neurotransmissor
acetilcolina.
Voltando ao encontro de Célia com o rapaz por quem se sentia atraída,
podemos crer que seu coração tenha aumentado os batimentos, assim como sua
respiração; deve ter havido transpiração, e é até possível que suas pupilas tenham
se dilatado, o que denota sinais de excitação provocados pela adrenalina ligada à
divisão simpática.

TEMA 5 – ELEMENTOS CELULARES DO SISTEMA NERVOSO

Assim que as duas amigas saíram do setor de ciências aplicadas da


biblioteca, Célia deu um pequeno safanão no ombro esquerdo.
“O que houve, amiga?”
“Uma mosca varejeira!”
“Célia, você é uma pessoa nervosa.”
“Só por isso, Helena? Você é tão nervosa quanto eu.”
“Não entendi, você é uma das pessoas mais calmas que conheço.”
“Não estou mentindo, Helena. Somos nervosas não por nosso estado
emocional, mas por que, da cabeça aos pés, somos constituídas de nervos. Se
fôssemos pintar nossos nervos de amarelo, seriamos criaturas amarelas!”
“Legal! Calmas ou não, somos nervosas, e isso penso que são os nervos,
as fibras e um montão de células nervosas. Vamos dar uma passadinha na sala

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de eventos? Tem duas coisas que eu queria ver: o Guerra e Paz, aquele painel
famoso do Candido Portinari, e um recital na Mostra de Música de Câmara. Se a
gente for agora, dá tempo de ver as duas coisas. Estou louca pra saber quem é o
músico que vai se apresentar hoje.”
Por que temos tantos elementos celulares no sistema nervoso? Essa seria
uma boa pergunta. Se você decidisse respondê-la, talvez se aventurasse a dizer
que é para poder transportar uma quantidade imensa de informações para todas
as partes do corpo. Mas se existem tantos nervos e fibras assim, o que lhe dá
suporte para funcionar é o SN, com uma tropa volumosa de células nervosas que
se relacionam com os nervos; os nervos são projeções reais do neurônios,
constituindo-se de feixes fechados, como se fossem uma cabo de axônios e fibras
nervosas presentes no SN. Os neurônios, por sua vez, são células envolvidas na
transmissão de informação por meio de sinais elétricos e químicos.
Se nos atentarmos para a substância branca, veremos que ela é composta
de fibras e, a cinzenta, é formada por células. Fibra e célula são partes do mesmo
elemento: o neurônio, que transmite impulsos eletroquímicos.

5.1 Neurônios

Weiten (2010, p. 63) define de modo objetivo os neurônios como “células


individuais do sistema nervoso, que recebem, integram e transmitem informação”.
Se essas pequenas células esféricas, estreladas ou piramidais nos ajudam a
pensar, rir, ou chorar, então, como brinca Tieppo (2021), estudar os nervos e não
conhecer o neurônio é algo pior do que ir a Paris e não conhecer a Torre Eiffel.
Desse modo, não podemos entender o cérebro e o sistema nervoso sem saber
como os neurônios funcionam.
O que sabemos é que eles são os elos básicos que possibilitam a
comunicação no SN. Weiten (2010) explica que a maior parte dos neurônios se
comunica entre si, mas uma minoria recebe sinais diretamente do estímulo, ou
seja, os sinais que vêm de fora e que são captados pelos órgãos sensoriais. Outra
parte deles transmite mensagens do sistema nervoso diretamente aos músculos,
tornando possível o movimento corporal

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Figura 4 – Neurônio

Créditos: ranjith ravindran/Shutterstock.

5.1.2 Estrutura do neurônio

São três as estruturas essenciais do neurônio: dendrito, axônio e corpo


celular. De acordo com Weiten (2010, p. 63-64), dendrito é a parte do neurônio
especializada em receber informação; axônio é uma fibra longa e fina, que
transmite sinais do corpo celular a outros neurônios, ou a músculos ou glândulas;
quanto ao corpo celular, essa é a parte do neurônio na qual estão o núcleo e o
citoplasma que cobre o núcleo.

5.1.3 Tipos de neurônio

Há três tipos básicos de neurônios: sensoriais, motores e interneurônios.


De acordo com Gazzaniga e Heatherton (2005), neurônios sensoriais são os que
recebem a informação do mundo físico e a repassam ao cérebro, quase sempre
pela medula espinal; os neurônios motores agem na musculatura na contração ou
relaxamento, produzindo movimento; e, os interneurônios, comunicam-se em
circuitos locais, ou de curta distância.
Além de serem tipificados por suas funções, os neurônios podem ser
classificados de acordo com a morfologia em neurônios multipolares, bipolares ou

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pseudounipolares. Os neurônios multipolares estão localizados no encéfalo,
possuindo um ou mais prolongamentos, e ocorrem com maior frequência; os
neurônios bipolares possuem apenas um axônio e um dendrito, e são encontrados
na mucosa olfatória, na retina e nos gânglios coclear e vestibular; e, os neurônios
pseudounipolares possuem um corpo celular e somente um prolongamento, que
se divide em dois. Eles podem ser encontrados nos gânglios espinais.

5.2 Células da glia

Ao assistirem à execução da Quinta Sinfonia, de Beethoven, por um quarteto


de cordas no salão de eventos da biblioteca, Helena sentiu os olhos molhados de
emoção; Célia também ficou tocada pela música, que lhe lembrou do filme
Fantasia, de Walt Disney, que vira na infância.
Encantadas, as duas estudantes olharam bem para os músicos – dois
rapazes e duas moças –, e seus instrumentos musicais, e refletiram sobre talento,
magia e êxtase. Aquele talvez não fosse o momento para pensar nos neurônios
que antes estiveram a pesquisar, mas se misturassem os dois hemisférios
cerebrais, unindo razão e emoção, notariam que, assim como os músicos, os
neurônios, personagens principais de nossos enlevos mentais, precisam de alguém
na retaguarda. O quarteto musical era a grande atração do recital; foi por eles que
a Quinta Sinfonia de Beethoven, naquela apresentação na biblioteca, ganhou mais
relevância. Todavia, havia ali um suporte nos bastidores: técnicos e operadores de
som, luz e montagem, equipe de limpeza, seguranças, assessores de imprensa,
enfim, uma grande equipe para garantir que tudo funcionasse bem. Com os
neurônios, o show também é assim.
Quando começaram a ser estudadas, há cerca de 150 anos, as células da
glia não tinham a importância que hoje lhes é dada. De figurantes e passivas, elas
passaram a ser vistas de uma nova forma. Notadamente, há duas décadas, com
as mudanças havidas na neurociência, elas passaram por uma mudança de
paradigma relacionada a sua função e ao seu papel na fisiologia e patologia neural
(Gomes; Tortelli; Diniz, 2013). Sem a equipe de apoio, ou os músicos do recital, a
apresentação não aconteceria; da mesma forma que, sem as células da glia, o SN
não funcionaria.

Durante sua viagem, os neurônios são alimentados e guiados por células


gliais que, agindo como suas zeladoras, formam um envoltório ao longo
do qual os neurônios migram – uma treliça de apoio, direção, proteção e
nutrição. Depois que os neurônios chegam ao seu lugar de destino, as

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células gliais são mantidas, embora mudem de formato e propriedades
moleculares a fim de desempenharem funções diferentes (Ratey, 2002)

De modo objetivo, podemos dizer que as células gliais “são células


especializadas do cérebro que protegem os neurônios, fornecendo-lhes nutrientes
e oxigênio, removendo dejetos e, de modo geral, sustentando-os” (Eagleman,
2017). Em função da dimensão celular, classificam-se em: macroglia, que são os
numerosos prolongamentos no espaço interneural (astrócitos), e prolongamentos
que emergem do soma, mas não tão numerosos (oligodendrócitos); e, micróglia,
que são os corpos celulares pequenos e com poucos prolongamentos.
Para complementar, é oportuno destacar que outros corpos celulares dão
apoio ao sistema nervoso, como as artérias, formadas por fibras musculares, que
conduzem o sangue do coração a diversos órgãos; as veias, que são vasos
condutores de sangue de forma centrípeta, em relação ao coração; e, os capilares,
que são vasos nos quais ocorre a troca de substâncias entre o sangue e os tecidos
adjacentes.

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REFERÊNCIAS

ALVAREZ, A.; LEMOS, I. de C. Os neurobiomecanismos do aprender: a aplicação


de novos conceitos no dia a dia escolar e terapêutico. Rev. psicopedag., São
Paulo, v. 23, n. 71, p. 181-190, 2006. Disponível em:
<[Link]
84862006000200011>. Acesso em: 20 jul. 2022.

BEAR, M. F.; CONNORS, B. W.; PARADISO, M. A. Neurociências: desvendando


o sistema nervoso. Porto Alegre: Artmed, 2017.

CHERRY, K. The Central Nervous System in Your Body. Very Well Mind, 2022.
Disponível em: <[Link]
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EAGLEMAN, D. Cérebro, uma biografia. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

GAZZANIGA, M. S.; HEATHERTON, T. F. Ciência psicológica: mente, cérebro


e comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2005.

GOMES, F. C. A.; TORTELLI, V. P.; DINIZ, L. Glia: dos velhos conceitos às novas
funções de hoje e as que ainda virão. Estudos Avançados, 2013, v. 27, n.
Disponível em:
<[Link] Acesso
em: 20 jul. 2022.

LENT, R. (Coord.) Neurociência da mente e do comportamento. Rio de Janeiro:


Guanabara Koogan, 2016.

LIMA, R. R. et al. Lesão da substância branca e doenças neurodegenerativas.


Rev. Para. Med., Belém, v. 20, n. 4, p. 41-45, dic. 2006. Disponível em:
<[Link]
59072006000400008&lng=es&nrm=iso>. Acesso em: 20 jul. 2022.

LOUREIRO, J. P. Respostas fisiológicas de homens saudáveis a variações


de nível de dificuldade de um videogame tipo puzzle. Rio de Janeiro:
UFRJ/COPPE, 2018.

OLIVEIRA, A. de A.; CAMPOS NETO, F. H. Anatomia e fisiologia: a incrível


máquina do corpo humano. Fortaleza: EdUECE, 2015.
18
RATEY, J. J. O cérebro: uma guia para o usuário – como aumentar a saúde,
agilidade e longevidade de nossos cérebros através das mais recentes
descobertas cientificas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

TIEPPO, C. Uma viagem pelo cérebro: a via rápida para entender neurociência.
São Paulo: Conectomus, 2021.

WEITEN, W. Introdução à psicologia: temas e variações. São Paulo: Cengage


Learning, 2010.

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AULA 3

NEUROCIÊNCIA E
COMPORTAMENTO
HUMANO

Prof. Reginaldo Daniel da Silveira


INTRODUÇÃO

O que veremos no conteúdo a seguir é uma intersecção de informações


que compõem um todo. Não se trata de tópicos colocados um ao lado do outro,
mas de cruzamentos que explicam como somos, o que somos e como nos
tornamos assim. Conhecer o desenvolvimento do sistema nervoso é entender
ações e reações que explicam nossos comportamentos pelo desenvolvimento de
estruturas ligadas aos aspectos genéticos e ambientais. Nossa condição genética
é colocada diante de estímulos ambientais, e este cruzamento provoca mudanças
que inclusive mudam nossa biologia. O que guardamos em nossa memória é
assim produzido porque partes do nosso cérebro a ela se dedicam, tanto quanto
somos aguçados pela atenção desencadeada por nossos sentidos. É deste modo
que nascemos, crescemos e nos transformamos, como produto de uma grande
aprendizagem.

TEMA 1 – INTRODUÇÃO

Duas amigas se encontram na lanchonete da faculdade. Celia percebe que


Helena tem uma expressão de preocupação e pergunta:
— Helena, está tudo bem? Vi que você estava aérea na aula. Aconteceu
alguma coisa?
— Não, não! É o meu avô. Passei o dia hoje pensando nele e nas coisas
que estamos aprendendo sobre o sistema nervoso. Lá em casa, a família toda
está notando que ele está ficando mais esquecido, tem dificuldade de lembrar
detalhes do cotidiano, esquece objetos. “Mudança de hábitos, exercícios para
ginástica mental” foi o que indicou a médica. Fico imaginando: “será que isso ajuda
de verdade”?
— Não sei te dizer! Acho que você está em dúvida sobre o que vimos na
semana passada sobre a carta dos estudiosos da Universidade de Stanford sobre
não haver evidência de que o exercício mental ajuda contra o declínio cognitivo.
— Aí é que está! Depois, vieram outros dizendo que com o treino cognitivo
as células se regeneram e a pessoa tem melhor desempenho. E aí, Célia?
— Eu acho que melhora, é só ver as crianças! As que crescem em
ambientes sem estímulos têm baixo rendimento na escola.
— Então? Se precisamos de estímulos para ter um bom desenvolvimento,
também precisamos deles para desafiar nossa mente quando envelhecemos!

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Coisas que não tem uso se atrofiam. Conexões neurais sem uso deixam a gente
preguiçoso. Não foi o que falou a professora?
— Sim, a gente só aprende porque memoriza e só memoriza porque
aprende, mas sem uso nenhuma delas funciona.
O bate-papo nos leva a pensar que cérebro e sistema nervoso são
formações determinadas pela evolução humana. Em sentido amplo, funcionamos
como qualquer membro da espécie homo sapiens; em sentido menor,
funcionamos com o que marca as diferenças entre nós mesmos. Nas duas
situações, é pelas mudanças no ambiente, na genética e no comportamento, que
nos definimos.
Em outubro de 2014, um grupo de 69 pesquisadores cerebrais, em carta
aberta ao Centro de Longevidade de Stanford (Estados Unidos) e Instituto Max
Planck para o Desenvolvimento Humano (Alemanha), advertiu haver pouca
evidência da eficácia da ginástica cerebral nas habilidades cognitivas. Uma
posição contrária veio semanas depois, por meio de 100 estudiosos do Instituto
de Pesquisa do Cérebro e da Mente da Universidade Sydney. A advertência e a
resposta foram relatadas em artigo da revista americana Fast Company
(Brownstone, 2014). A ginástica cerebral com supervisão mostrava-se eficaz,
defendiam os pesquisadores de Sydney.
A carta aberta de advertência pode ter sido motivada pela desconexão
entre o marketing e ciência, disse um dos coautores da resposta publicada, já que
havia interesses financeiros em jogo. De qualquer modo e em nome do que
diferencia um indivíduo do outro, não podemos desconsiderar que além da
genética somos alterados pelos estímulos ambientais e comportamentais que
ocorrem em nossas vidas.
O jornal britânico The Guardian publicou em 2012 um artigo da
Universidade da Pensilvânia sobre influências no desenvolvimento do cérebro.
Durante 20 anos, 64 indivíduos foram pesquisados em suas vidas domésticas
sobre experiências a partir da infância. Os resultados apresentados em uma
reunião da Society for Neuroscience, em Nova Orleans, mostraram que a
estimulação cognitiva dos pais aos quatro anos de idade permitiu prever o
desenvolvimento de várias partes do córtex (a massa cinzenta) 15 anos depois.
Os pesquisadores visitaram as casas e fizeram registros como número de livros
infantis, brinquedos com cores, números ou letras, instrumentos musicais e
outros. Entre 17 e 19 anos, os participantes tiveram seus cérebros escaneados, e
os resultados mostraram que o desenvolvimento do córtex no final da
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adolescência estava vinculado à estimulação cognitiva aos quatro anos. Outros
fatores como nutrição em diferentes idades e estimulação cognitiva aos oito anos
não tiveram efeito.
O artigo citado destaca que, à medida que o cérebro amadurece na infância
e na adolescência, as células do córtex são podadas, e assim que as células
desnecessárias são eliminadas, o córtex fica mais fino. A pesquisadora Martha
Farah que liderou a pesquisa disse ter descoberto que quanto mais estímulo uma
criança tem aos quatro anos, mais fino e, portanto, mais desenvolvido fica o seu
córtex. Por outro lado, espera-se que a estimulação em pessoas envelhecidas
também tenha efeitos positivos. Eagleman (2017) postula que “quanto mais
mantemos nosso cérebro apto do ponto de vista cognitivo, desafiando-o com
tarefas difíceis e novas, inclusive a interação social, mais as redes neurais formam
novas vias para ir de A para B”.
A importância das mudanças ambientais e comportamentais
independentemente da idade é também corroborada em pesquisas. Sachdeva,
Kumar e Anand (2015) ressaltam uma busca em artigos na base de dados
Pubmed sobre idosos, com os termos não farmacológico e cognitivo no título.
Publicados entre 2000 e 2014, 10 estudos considerados relevantes de um total de
11 mostraram dados sobre idosos submetidos a treinamentos cognitivos não
invasivos. O repertório interventivo considerou: exercícios físicos, sono regular,
meditação e yoga, espiritualidade, musicoterapia, exercícios cognitivos para
memória, atenção e resolução de problemas, estimulação cerebral transcraniana
e aplicação de jogos de computador. Os resultados revelaram melhorias
cognitivas gerais com duas ressalvas: a necessidade de mais evidências
quantitativas na musicoterapia e a ausência de melhoria cognitiva em aspectos
de espiritualidade.

TEMA 2 – DESENVOLVIMENTO DO SISTEMA NERVOSO

Então, leitor, da relação entre seu pai e sua mãe nasceu você, uma bolinha
de fermento dentro da barriga materna. O que isto significa? Significa que você
era um punhado de pequenas células grudadas, um embrião com três camadas
dispostas uma sobre a outra: a parte mais interna, o endoderma, originou vísceras
e tecidos internos e da capacidade torácica, a parte mais externa originou a pele,
o SN propriamente dito, enquanto no meio das duas, o mesoderma, viria a formar
o coração e as glândulas entre outros (Tieppo, 2021).

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O desenvolvimento do SN segue um padrão de complexidade dinâmica
evoluída de uma sequência instrumentalizada por fatores genéticos, ambientais,
químicos e físicos. Durante duas semanas, células se amontoam, e na terceira
semana, começa propriamente o desenvolvimento em três estágios: (1) uma parte
do ectoderma engrossa, formando uma placa; (2) a placa se dobra para dentro
formando o sulco neural. Estes dois estágios representam o ponto de partida para
a formação do SN; (3) à medida que as bordas laterais (pregas neurais) se
aproximaram o aprofundamento cria a goteira neural. Esta estruturazinha,
parecida com uma gota, apresenta orelhinhas, chamadas de cristas, que mais
tarde originam os gânglios espinhais e cranianos. Com eles, vêm os elementos
para o sistema nervoso autônomo, e o apoio para a bainha de nervos e meninges
que formam o cérebro. Podemos dizer de forma simples que quando tudo isso
ocorre no cérebro, as pregas neurais se fundem, as orelhinhas se separaram e
cria-se o tubo neural.
Este ponto da formação do tubo neural acontece entre a terceira e quarta
semana de vida. Lent (2016) considera que o cérebro não dispõe de neurônios já
constituídos e não há evidências de atividades neurais. O embrião ainda não
demonstra sensações, percepções e funções típicas do SN, uma vez que não
existe a comunicação que em breve ocorrerá por meio de circuitos nervosos. Não
ter nessa idade os neurônios que hoje conhecemos não significa que sua
produção nesta área esteja demorada. Ratey (2002) diz que nas primeiras
semanas e meses de vida, há uma intensa produção de células, com a criação a
cada minuto de 250 mil neuroblastos, ou células nervosas primitivas.
À medida que o tubo neural se fecha, ele incha, e dobras começam a
aparecer e gradualmente se tornam mais perceptíveis. Durante a quarta semana,
existem três dessas protuberâncias presentes. Elas são chamadas de vesículas
primárias: o prosencéfalo, que depois se divide em telencéfalo e diencéfalo; o
rombencéfalo, cuja divisão compreende o milencéfalo e metencéfalo; e o
mesencéfalo, que se mantém como estrutura única (Lent, 2016). A medula
primitiva que permaneceu cilíndrica, depois das primeiras semanas, dá origem à
medula espinhal. Pode-se dizer que a cavidade do tubo neural cheia de líquido
amniótico se torna o seu encéfalo e sua medula espinhal. Como se sabe, as
principais partes cerebrais, com destaque para o córtex, passam a ser observadas
em sete semanas, período em que o cérebro se desenvolve de forma visível.
Se você pudesse imaginar como era com 11 semanas de vida, deveria
ponderar que o cérebro já estava aumentando de tamanho. Você era um cabeção
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com corpo pequeno, onde olhos e ouvidos já se moviam. O rombencéfalo, aquela
parte posterior da sua cabeça, veio assim a dar origem ao cerebelo e ao tronco
encefálico.
Após a 12ª semana de gestação, acontece a migração de neurônios por
meio de sinalizações química, genética e o desenvolvimento do córtex frontal e
do tálamo. A mielinização passa a ocorrer com a camada lipoproteica, envolvendo
e protegendo a condução nervosa de axônios. Neste período, ganham destaque
as sinapses. Como uma sinapse corresponde a uma área de proximidade entre
neurônios, possibilitando a comunicação entre eles (Tieppo, 2021), é de se
considerar que para isso ocorrer é necessária uma transformação nas próprias
células que, ao nascerem, são pequenas “bolinhas” sem a capacidade de receber
ou transmitir estímulos. Lent (2016) explica que quando os neurônios migram, se
alongam por meio de um prolongamento anterior e outro posterior e na sequência
o desenvolvimento aponta a emissão de novos prolongamentos, dendritos e um
único axônio que na proximidade com células vizinhas (dendritos e ramificações
do axônio) estabelecem a comunicação.
Da vida intrauterina até o nascimento, dificilmente virão novas células
neurais, e as que já existem desenvolvem mais sinapses com outras células.
Então, no primeiro ano de vida com base na literatura vigente, um neurônio cortical
no cérebro estabelece até 100 mil sinapses com outros neurônios.
As sinapses são como fios elétricos conectando uma infinidade de luz em
diferentes pontos cerebrais, e como no bebê conexões que ele jamais utilizará
crescem de modo intenso. Para Gazzaniga e Heatherton (2005), isto significa
dizer que o cérebro adota a política do “use ou perca”. Conexões frequentemente
usadas são preservadas e as outras removidas, processo conhecido como poda
sináptica.
O desenvolvimento do sistema nervoso e do cérebro envolve a interação
com fatores genéticos e ambientais. Stiles e Jernigan (2010) defendem que
cérebros não se desenvolvem normalmente na ausência de sinalização genética
e não ocorre o desenvolvimento normal na ausência de insumos ambientais
essenciais. Para os autores, o período embriológico marcou processos interativos
com maior frequência no nível das interações célula-célula. Esta condição
evidencia o papel genético na geração de sinais moleculares que interferem no
desenvolvimento de determinadas células. E ressaltando ainda que mesmo neste
período inicial, fatores ambientais são relevantes para o desenvolvimento do
cérebro embrionário.
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Então, você, leitor (a), que corre, anda, fala, respira e sente o batimento
cardíaco, você desenvolveu um sistema neural apto a alterar ações responsivas
a estímulos e a reorganizar-se estrutural e funcionalmente. E tudo isso acontece,
como dizem Mateos-Aparicio e Rodríguez-Moreno (2019), pela capacidade que
têm os neurônios de modificar a força e a eficácia da transmissão sináptica por
meio da plasticidade que é o nosso tópico a seguir sináptica.

TEMA 3 – PLASTICIDADE NEURAL

O carro estava na revisão, e então o médico neurologista pegou um táxi e


foi buscar a filha Helena na faculdade. Celia, que ia estudar com a colega,
aproveitou a carona. No meio do caminho, o taxista respondeu a uma pergunta
de Helena sobre a rua que estavam seguindo:
— Esta é a Brigadeiro Franco.
— A gente não passou por ela para fazer o exame no cérebro do vô, pai?
Antes do Dr. Aníbal responder, o motorista explicou que ela deveria estar
se referindo à Rua Emiliano Perneta, e a conversa se estendeu com o rapaz
falando sobre várias outras ruas e locais da cidade, o que levou Helena a
perguntar:
— O senhor conhece todas as ruas da cidade?
— Quase todas, afinal, são anos andando por estes lugares.
— Você me lembra um daqueles motoristas de táxis pretos de Londres —
disse o neurologista. — Eles passam dois anos memorizando as ruas da cidade
e mudando seu cérebro para poderem trabalhar.
Assim que desceram, as duas estudantes perguntaram a Aníbal o que ele
queria dizer com os motoristas de táxis pretos de Londres e aquela história de
cérebro. Antes de contar a história, o médico falou sobre o cérebro, dizendo que
cada um de nós tem uma enorme capacidade de se adaptar ao mundo, graças à
nossa plasticidade cerebral. Estas características, de acordo com Eagleman
(2017), nos fazem ir a diferentes ambientes, obter peculiaridades locais que
usamos como a língua, as pressões ambientais ou as exigências culturais locais.
Lent (2016) emprega o termo neuroplasticidade para falar que o sistema
nervoso usa esta propriedade para alterar funções ou estruturas em resposta às
influências ambientais que o atingem. Em seu entendimento, as alterações
plásticas, tanto quanto as influências ambientais que as provocam, variam entre
alta e baixa intensidade. Nessa perspectiva, uma lesão traumática pode mudar

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posições de setores funcionais ao redirecionar circuitos neurais ou em outro
sentido um simples fato novo presenciado pode levar a alterações sinápticas
moleculares de memorização por um longo tempo de vida. Em ambos os casos,
e em posições intermediárias, estamos tratando da plasticidade.
Turistas costumam dizer que Londres parece ser formada por um
emaranhado de fios viários que chega a ser surpreendente ver motoristas de táxi
circularem tão facilmente por ela como se trafegassem em uma pequena cidade.
A neurocientista Eleanor Maguire, da University College London (UCL), mostrou
uma curiosidade sobre isso. Sabendo que entre pássaros e esquilos o hipocampo
é maior do que em outras espécies, ela queria saber se, como estes animais que
apresentavam um hipocampo maior do que outras espécies, os taxistas londrinos
não exibiam hipocampos maiores que outras pessoas. Em Londres, para obter
uma licença, o motorista tem que passar de três a quatro anos dirigindo em
ciclomotores, guardando na memória as 25 mil ruas num raio de 10 quilômetros
da estação de trem Charing Cross.
Os resultados da pesquisa de Maguire durante quatro anos revelaram que
os taxistas londrinos apresentavam mais massa cinzenta no hipocampo posterior
do que motoristas comuns, ensejando que quanto mais tempo alguém dirigia um
táxi, maior o seu hipocampo (Jabr, 2011).
Como vimos no desenvolvimento embrionário, o SN é construído e
reconstruído seguindo a genética e o ambiente, resultando assim na plasticidade,
o que nos leva a considerar que estamos sempre prontos a novos circuitos e,
como diz fulano de tal, a novos hábitos, além de eliminar os antigos. Nossa
constituição neuronal é assim flexível e mutável com diferenças entre os
indivíduos (Tieppo, 2021).
Para Lent (2016), mesmo depois de seu desenvolvimento, o SN não perde
sua capacidade plástica. O que muda na plasticidade adulta é o caráter mais
celular e molecular sobre a sinapse. Aqui, a plasticidade sináptica é a base da
memória, e desse modo representa a capacidade cognitiva dos cérebros.
— Se nos adultos acontece mais esta plasticidade sináptica, o que
acontece na infância quando os mecanismos plásticos são interrompidos na
própria formação das nossas estruturas? — perguntou Helena ao pai.
— Existem sim diferenças entre o cérebro de uma criança e de um adulto,
mas de qualquer modo o cérebro humano é flexível.
Quem surge para apoiar o neurologista é Eagleman (2021), ao dizer que
esta plasticidade é uma chave para o futuro por abrir a porta para modificações
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no próprio equipamento. Ele lembra isso com o exemplo de Cameron Mott, que a
partir de 3 anos de idade foi assolada por convulsões incapacitantes que atacaram
seu cérebro. Seu diagnóstico — síndrome de Rasmussen — obrigou que ela
usasse um capacete o tempo todo para se proteger de convulsões agressivas que
a jogavam contra o chão. Estes sintomas vistos por neurologistas a levariam
primeiro a uma paralisia e depois à morte, havendo uma única e drástica solução:
cirurgia do cérebro. Após o procedimento, o lado esquerdo (que era controlado
pelo lado direito removido do cérebro) ficou paralisado, o que fez com que a
plasticidade assumisse o controle: um mês depois ela voltou a andar, meses de
reabilitação a fizeram voltar a escola, e num curto período de anos Cameron voltou
a ser uma garota saudável.
Diante da pergunta: o SN se regenera? Intuitivamente, dizemos que não,
mas diante dos avanços recentes, a pergunta pode ser melhor respondida com
um “depende”:

A regeneração de um tecido após uma lesão geralmente é associada à


proliferação de células-tronco disponíveis nas proximidades para
recompor os tipos celulares desse tecido. No caso do sistema nervoso,
a palavra-chave é neogênese, ou seja, a capacidade de proliferação
neuronal. […] Tornou-se então realista supor a existência de uma certa
capacidade regenerativa do sistema nervoso adulto. (Lent, 2016)

Um outro aspecto a ser destacado é que algumas doenças ocorrem devido


a situações patológicas na neuroplasticidade. Entres as enfermidades, estão a dor
neuropática (sensações de queimação, agulhadas, choques), sequelas da
sincinesia, que são mais frequentes, são movimentos involuntários de músculos
independentes, musculares independentes e tinnitus (zumbido no ouvido,
vinculado a ruídos na parte interna do cérebro).
Uma outra questão sobre a plasticidade: ela é sempre um processo
compensatório? Lent (2004) reporta que há evidências experimentais de que a
plasticidade pode ser danosa e cita situações em que o córtex cerebral sofre uma
reorganização plástica, ocasionando a sensação da “dor fantasma” que ocorre
num membro ausente e que causa bastante sofrimento. Seria a plasticidade
maléfica. Já a plasticidade benéfica põe em destaque o fator compensatório. Os
cegos são um exemplo. Pessoas que não enxergam têm maior acuidade auditiva
do que as que enxergam. O autor fala em referências nas quais a percepção
somestésica é mais apurada e possivelmente seja a responsável pelo ganho na
sensibilidade e rapidez na leitura em Braille. De qualquer modo, a plasticidade
compensatória ainda requer maiores evidências, pois precisam esclarecer os

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circuitos, a estabilização de conexões transitórias, o brotamento colateral de
axônios em regiões lesadas ou inativas e as diferentes combinações dessas
possibilidades.
Durante um certo tempo, imaginou-se que o cérebro estava totalmente
desenvolvido aos vinte e poucos anos. Pesquisas, contudo, mostram que a
plasticidade que muda o cérebro acontece na vida adulta, envolvendo fatores
como doenças, drogas, emoções variadas criadas em eventos e formadas na
memória (Gazzaniga; Heatherton, 2005).
Se considerarmos que entre as estruturas cerebrais o neurônio pode ser
modificado, falamos em diferentes tipos de plasticidade neural: a plasticidade
axônica ocorre a partir de uma lesão sobre o axônio e assim há um recrescimento
do coto proximal (parte restante da área lesionada) do mesmo axônio. Lent (2004)
junta a esta explicação a plasticidade dendrítica, por ele classificada como
alterações no número, no comprimento das ramificações dendríticas e na sua
densidade. Por estas condições, a plasticidade sináptica enseja que a
transmissão de mensagens entre os neurônios, longe de ser rígida e imutável,
pode ser modulável conforme os eventos.

TEMA 4 – A MEMÓRIA

— Nestor está estudando inglês e francês.


— Uai! Por que dois idiomas?
— Ele quer fazer mestrado no Canadá, até já fez contato com uma
instituição lá da capital… Como é o nome da cidade?
— Ottawa!
— É isso mesmo. Helena, acho que estou atraída pelo Nestor.
— O que te faz pensar assim?
— Toda hora estou lembrando os nossos dois encontros. O filme vem de
cara na minha mente, ele me abraçando, ele falando no meu ouvido. Não sei por
que, mas acho que isto tem peso na memória. Aproveitando que estamos
estudando sobre a memória, eu lembro de outras situações envolvendo pessoas,
lugares, o filme está lá naquele lugar, o hipocampo, e vem prontinho.
— Pois é, mas você não está lembrando filmes, a gente não tem esta coisa
guardada, não, e nem dá para dizer que está naquele determinado lugar. O que
você lembra não é a coisa, você na verdade revive e lembra ligações que
integradas recriam a coisa.

10
— Cruzes, Célia!
A conversa entre as amigas sugere uma reflexão mais ampla. Se a
lembrança de Nestor a abraçando e falando no ouvido não está armazenada no
hipocampo, no lobo frontal ou occipital, se não é um filme, onde está e o que é.
“Não está em nenhum destes lugares e está em todos eles”, diz alguém. “Não é
uma câmera que capturou sons e imagens”, diz outro. No primeiro caso, Ratey
(2002, p. 209) instiga: “É o espaço de armazenagem ou o ato de estratégia de
recuperação? […] É o ato de vasculhar a memória ou é, em primeiro lugar, a
energia dedicada à formação da memória? No segundo caso, Gazzaniga e
Heatherton (2005, p. 2017) anunciam que “a memória não é como uma câmera
de vídeo que captura fielmente imagens objetivas. Em vez disso, a memória é
uma história que pode ser sutilmente alterada por relatos e novos relatos”.
A memória no olhar dos dois últimos autores citados define-se como a
capacidade do SN de adquirir e reter habilidades e conhecimentos aproveitáveis,
permitindo aos organismos vivos se beneficiar desta condição. Vinculada ao SN,
esta capacidade não funciona como as informações que são organizadas em uma
enciclopédia. Nesta perspectiva, vale o entendimento de Pliszka (2004, p. 77)
sobre não haver um lugar no cérebro “no qual as memórias, por exemplo, da
quarta série primária estão armazenadas bem ao lado das memórias da quinta
série”. Para ele, a memória humana é completamente diferente daquela do disco
rígido de um computador. Neste, cada fração de informações fica num lugar
específico, cada arquivo tem um endereço usado para localização. É só abrir a
máquina e a procura acontece até chegar no endereço. Isso ocorre rapidamente,
já a transmissão neuronal não funciona desse modo.
Pliszka argumenta que, se para lembrarmos o número de nosso telefone
tivéssemos que repassar todas as memórias para localizar a informação, o
cérebro não terminaria a tarefa a ponto de darmos o telefonema. Além disso, a
memória também é altamente contextual. O autor destaca que estar num
determinado lugar desencadeia associações do tipo lugar-evento. Um odor, uma
imagem, por exemplo, acessa rapidamente memórias. Isso não acontece como
quem liga um dispositivo que representa exatamente como o evento se deu.
Ocorre uma recriação. É frequente para qualquer pessoa ouvir a mesma história
sendo contada por uma outra mais de uma vez e sempre com diferença.
Sobre questões de localização da memória…

Atualmente está bem esclarecido que as memórias não estão


armazenadas em uma localização específica do cérebro. Ao invés disso,
11
as memórias estão armazenadas em múltiplas regiões do cérebro e
ligadas por circuitos de memória. […] Isto não significa que todas as
áreas do cérebro estão igualmente envolvidas na memória. (Gazzaniga;
Heatherton, 2005, p. 231)

Não há, portanto, destacam os autores, uma área considerada o repositório


final da memória, mas estruturas que a ela importam, como a seção medial dos
lobos temporais onde se inserem a amígdala, o hipocampo e o córtex rinal.
Estimular estas áreas em pacientes de epilepsia levam a relatos de eventos
passados. Por outro lado, lesões nelas impedem o armazenamento de
informações, sem prejudicar o acesso ao material antigo.
Voltando a Ratey (2002), se não temos um lugar ipsis litteris de
armazenamento da memória, temos as “zonas de convergência” destacadas por
Antonio Damásio e entendidas como próximas aos neurônios sensoriais, ou seja,
junto às conexões sinápticas a respeito “daquilo” que interessa naquele momento.
Se as conexões forem satisfatórias, estas zonas de convergência nos habilitam a
conceber automaticamente objetos, ideias ou interações com um todo. O autor
fala em ativar conexões com as muitas características do objeto e também lembra
que existem neurônios especializados para diferentes tipos de memórias — traços
característicos, padrões, localização, direção1.
Quando as conexões são feitas no cérebro, as informações são
processadas em três níveis de estágios.

4.1 Modelo modal de memória

O modelo modal é considerado um modelo comum ou padrão. Vejamos


conceitualmente em Weiten (2010, p. 209-211) cada um dos três estágios básicos
da memória:

• Memória sensorial: é a memória que preserva a informação em sua forma


sensorial original por um curto período, geralmente apenas uma fração de
segundo. Exemplo: ao olhar para alguma coisa e rapidamente se desviar a
pessoa pode formar a imagem e lembrar detalhes.
• Memória de curto prazo: trata-se de um armazenamento de capacidade
limitada que pode manter informação não reprocessada por até 20
segundos. Este tempo pode ser superado pelo reprocessamento da

1
Ratey baseia-se numa pesquisa da Universidade de Yale sobre redes neurais no cérebro.
12
informação — o processo de repetidamente verbalizar ou pensar na
informação.
• Memória de longo prazo: este nível é um depósito de capacidade ilimitada
que pode manter informação por períodos mais longos. A memória de longo
prazo é considerada ainda num ponto de vista de permanência. O
esquecimento ocorreria pelo fato de as pessoas não reterem a informação
necessária. Weiten refere-se a uma analogia com “bolinhas de gude”
guardadas num local. Nos esquecimentos, as pessoas simplesmente não
são capazes de procurá-las, mas elas estão lá em algum lugar.

Bear, Connors e Paradiso (2017) reporta que, nos anos 1960, foram
reconhecidos vários tipos de memórias de curto prazo. A memória de trabalho é
uma forma temporária de armazenamento da informação, com capacidade
limitada sendo caracterizada por repetição/ensaio para ser guardada, mesmo que
por pouco tempo. O exemplo é quando alguém lhe dá um número de telefone e
você para retê-lo fica repetindo o número para si mesmo.

4.2 Sistemas de memória

Os sistemas de memória se diferenciam de modo distinto entre si pela


lembrança consciente e pela lembrança sem intenção consciente. Gazzaniga e
Heatherton (2005, p. 224-225) explicam.

• Memória explícita: envolve os processos empregados para lembrar


informações específicas. Quando a informação é recuperada na memória
explícita é conhecida como memória declarativa (informação cognitiva
trazida à mente pelo conhecimento declarado). O exemplo seria lembrar do
que aprendeu numa aula na faculdade. Outra distinção da memória
explícita é a memória episódica e a memória semântica. A memória
episódica diz respeito a experiências passadas, por exemplo, lembrar de
uma festa de formatura em um curso. A memória semântica está
relacionada a conhecimentos de eventos triviais ou importantes
independentes da experiência pessoal. Um exemplo seria entender a
diferença entre uma vaca e uma galinha.
• Memória implícita: ocorre quando a pessoa mostra uma intensificação da
memória, na maioria das vezes pelo comportamento, sem esforço
intencional e sem consciência de estar lembrando. Exemplo: digitar no
teclado do computador. A memória implícita também é ilustrada pela
13
memória de procedimento ou motora relacionada a movimentos
musculares como andar de bicicleta ou seguir regras no trânsito.

A memória é a capacidade de reter e recuperar informações


posteriormente, o que a aproxima da aprendizagem. As duas trabalham juntas,
garantindo que a informação que se aprende seja armazenada no cérebro. É o
que veremos a seguir.

TEMA 5 – A APRENDIZAGEM

Estudar a aprendizagem é relacioná-la à memória. As duas estão ligadas,


a ponto de resgatarmos uma fala de Célia a Helena, as duas estudantes que nos
acompanham nesta disciplina. Em uma de suas conversas, ela disse que “a gente
só aprende porque memoriza e só memoriza porque aprende, mas sem uso
nenhuma delas funciona”. A fala de Helena não é uma condição ad hoc, mas é
inegável que memória e aprendizagem estão integradas entre si tanto quanto a
atenção está interligadas a elas.
Gazzaniga e Heatherton (2005) explicam que memória e aprendizagem
compartilham aspectos comuns, ambas se referem a mudanças diante do
ambiente e não obstante estudiosos as verem como separadas, a distinção entre
as duas é um tanto arbitrária pela sobreposição significativa que se tem sobre
elas.
Por outro lado, a atenção está ligada às duas quando se sabe como diz
Weiten (2010) que ela “envolve a focalização consciente de uma classe restrita
de estímulos ou evento”. Neste momento, por exemplo, em que você lê este texto,
coisas acontecem ao seu redor, sons, sensações, o tempo lá fora, a sensação
térmica, uma lembrança de algo que aconteceu antes, enfim várias informações
ao mesmo tempo, mas para haver aprendizagem, você precisa se sentir atraído
pelo que lê, você precisa do foco. Atenção só existe quando está voltado ou para
um único ou mais estímulos, o que faz variar o nível de aprendizagem. Se ela não
é voltada para nenhum estímulo, não há aprendizagem.
Considerando-se a memória e a aprendizagem, informações que são
facilmente esquecidas estão mais relacionadas à memória declarativa. Celia,
numa das conversas com Helena, não se lembrava da capital do Canadá e foi
ajudada por Helena, que disse: Ottawa. Bear, Connors e Paradiso (2017)
reportam que a aprendizagem que se refere à memória declarativa está ligada a

14
pequenas modificações em sinapses que estão distribuídas no encéfalo. Esta
condição a coloca em desafio para estudar a aprendizagem em nível sináptico.
Os autores se valem da memória de procedimentos para valorizar a
investigação da aprendizagem. Estas memórias são robustas e formam-se ao
longo de vias reflexas simples que ligam sensações a movimentos. A
aprendizagem neste sentido compreende um procedimento (resposta motora) em
reação a um estímulo sensorial tipicamente dividido em dois tipos que veremos a
seguir.

5.1 Aprendizagem não associativa

A aprendizagem não associativa envolve Weiten a modificação de uma


resposta (comportamento) frente a um único estímulo. Bear, Connors e Paradiso
(2017) destacam que ela descreve a modificação que ocorre ao longo do tempo,
em resposta a um único tipo de estímulo. Dois são os tipos (Gazzaniga e
Heatherton):

• Habituação: refere-se a uma diminuição na resposta comportamental após


uma exposição repetida a estímulos não ameaçadores. Estudos foram
feitos com a aplysia, um caramujo marinho mais comum no Pacífico Norte.
Este invertebrado tem um sistema nervoso simples com apenas 20 mil
neurônios e um repertório comportamental reduzido (Lent, 2004). Ao se
deparar com um estímulo, o animal presta atenção, o que é conhecido
como resposta de orientação (Gazzaniga; Heatherton, 2005). Aos primeiros
toques, a aplysia retrai suas guelras, mas depois de várias repetições, não
se retrai mais, ou seja, entra num estado de habituação que dura várias
semanas. Circuitos de neurônios sensitivos que inervam pontos do corpo
da aplysia, conectam-se com neurônios motores que ativam a resposta.
Este tipo de aprendizagem também ocorre em humanos. Se o estímulo não
é prejudicial nem compensador, o efeito é ignorá-lo. Se o telefone tocar
você corre para atendê-lo, mas se depois de várias vezes atendendo, você
perceber que as ligações não são para você, a tendência é ignorar quando
tocar.
• Sensibilização: trata-se de um processo mais complexo que a habituação.
Refere-se a um aumento na resposta comportamental após uma exposição
a estímulos ameaçadores. Diante de um estímulo muito forte, há uma
reação e um estado de prontidão para outros que podem vir. Nesta

15
condição, qualquer que seja o estímulo seguinte, ele provocará a mesma
reação (Lent, 2004). Ou, como explicam Gazzaniga e Heatheerton (2005),
um choque elétrico na cauda da aplysia leva à sensibilização. Após o
choque, um pequeno toque em qualquer parte do corpo a faz retrair as
guelras. Uma pessoa está caminhando numa praça central da cidade, por
exemplo, e de repente um blecaute deixa tudo escuro. Ao ouvir passos e
sons atrás, ela acelera o passo para sair do lugar.

O que se tem como elemento conclusivo é que alterações sinápticas


produzem tanto habituação como sensibilização. Neurônios pré-sinápticos
reduzem a liberação de neurotransmissores na habituação e aumentam a
liberação na sensibilização.

5.2 Aprendizagem associativa

Nesta aprendizagem, formamos associações entre eventos e geralmente


distinguidos dois tipos (Weiten, 2010):

• Condicionamento clássico: é um tipo de aprendizagem na qual um estímulo


adquire a capacidade de evocar uma resposta que originalmente era
evocada por outro estímulo. Suponha-se que você adore pastel de
camarão. Ao sentir o cheiro e ao ver aquela massa de trigo (estímulo
incondicionado EI), você fica excitado, com desejo de comer (resposta
incondicionada RI). Agora, imagine que você sente esta mesma sensação
ao notar na bandeja de um garçom uma embalagem. Você não vê o que
está dentro dela, mas se sente estimulado a comer e resmunga oba!
Naquele lugar do shopping, o pastel de camarão é sempre servido numa
embalagem laranja e simplesmente ao vê-la você se sente esfomeado e
resmunga: oba! A embalagem amarela é o seu estímulo condicionado (EC),
e sua excitação com o resmungo de oba é a resposta condicionada (RC).
Neste condicionamento, o EC inicialmente neutro, torna-se condicionado
pela frequência com que é ligado ao EI, o pastel de camarão, e como tal
produz a RC.
• Condicionamento operante: é uma forma de aprendizagem em que o
estímulo condicionado funciona como se fosse um estímulo não
condicionado.

16
Vamos ver as duas formas de aprendizagem sob o olhar de Bear, Connors
e Paradiso (2017). No condicionamento clássico, ocorre uma associação entre o
estímulo que evoca resposta mensurável e um segundo estímulo que,
normalmente, não há resposta (estímulo incondicionado). Em Pavlov, ao ver a
carne, o cão saliva. O segundo estímulo, não evocador, é o estímulo
condicionado, já que requer treino antes de produzir uma resposta. Ao associar
uma campainha segundos antes de colocar a carne, de modo repetitivo, fazia com
que o animal salivasse ainda sem ver a carne.
No condicionamento operante, o indivíduo associa uma resposta, um ato
motor a um estímulo significativo, tipicamente uma recompensa que pode ser a
comida como exemplo. Um rato, ao ser colocado num ambiente fechado, de
repente esbarra numa alavanca e vê a comida cair a sua frente. Quando ele, sem
se dar conta, esbarra outras vezes na alavanca e percebe que sempre que cai o
alimento, ele aprende a pressionar a alavanca, comportamento aprendido por uma
recompensa. O modelo operante diz respeito ao condicionamento de
comportamento voluntário, controlável por meio das suas consequências que são
o reforço e a punição.
O reforço surge quando uma resposta é seguida de consequências
compensadoras à tendência dos seres vivos a produzir essa resposta aumenta
(Weiten, 2010, p. 178). O autor explica que no reforço positivo, uma resposta é
fortalecida quando seguida pela apresentação de um estímulo de recompensa.
No reforço negativo, a resposta é seguida da remoção de um estímulo aversivo
(desagradável). Neste caso, como exemplo, o rato é reforçado quando precisa
pressionar uma alavanca para desligar um choque elétrico. É importante ressaltar
aqui que este reforço não é uma punição. Ele aumenta a probabilidade de um
comportamento, já a punição diminui esta probabilidade. Ela pode ser punição
positiva, quando diminui a probabilidade de ocorrência de um comportamento pela
administração de um estímulo aversivo ou punição negativa quando diminui a
probabilidade de um comportamento ao retirar um estímulo agradável.
Se memória e atenção estão ligadas à aprendizagem que envolve
estímulos, o mesmo pode se falar do fator emocional. Além das mensagens
verbais, estímulos não verbais podem influenciar o ato de aprender, gerando
respostas ao que o sistema nervoso do indivíduo interpreta de uma situação. Uma
relação sobre sensações que envolvem o estimulador e o estimulado não se limita
às palavras expressadas, mas à intensidade das sensações que são provocadas
pela verbalização e não verbalização da mensagem. Silveira (2002) fala no estado
17
de prontidão para a aprendizagem. As conexões sinápticas a favor de uma nova
informação ocorrem quando há um estado de ânimo no aprendente. Esta
condição envolve tanto a emoção quanto a memória e a atenção. Estímulo-
emoção-atenção-memória referem-se assim aos fatores envolvidos no processo.
A prontidão abre caminho para a atenção e a memória. Este professor é legal,
quero ver o que ele diz! Nossa! Que interessante! Tem a ver com um pouco do
que eu já sabia.
Depois que o nosso sistema nervoso e nosso cérebro se formaram,
seguimos um fluxo de desenvolvimento e aprendizagem. Aprendemos hoje como
aprendíamos quando éramos crianças.

[…] não se aprende nada de novo que não tenha algum vínculo com o
velho. Isto é, não se consegue adquirir um novo conhecimento se não
se dispuser de elos (a parte guarda na memória) que estabeleçam a
conexão como novo. Na medida em que, de acordo com o crescimento,
a criança adquire estruturas cognitivas ela responde a novos conceitos
de inteligência. (Silveira, 2002, p. 53)

18
REFERÊNCIAS

BROWNSTONE, S. Enjoy Those Games, But DIY Brain Training Won’t Make Your
Brain Feel Young Again. Fast Company, 2014. Disponível em:
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RATEY, J. J. O cérebro – uma guia para o usuário: como aumentar a saúde,


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SACHDEVA, A.; KUMAR, K.; ANAND, K. S. Non Pharmacological Cognitive


Enhancers - Current Perspectives. J Clin Diagn Res., v. 9, n. 7, 2015. Disponível
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19
STILES, J.; JERNIGAN, T. L. The basics of brain development. Neuropsychol
Rev., v. 20, n. 4, p. 327-348, 2010. Disponível em:
<[Link] Acesso em: 20 mar.
2022

TIEPPO, C. Uma viagem pelo cérebro: a via rápida para entender neurociência.
São Paulo: Conectomus, 2021.

20
AULA 4

NEUROCIÊNCIA E
COMPORTAMENTO
HUMANO

Prof. Reginaldo Daniel da Silveira


INTRODUÇÃO

Movimento: sistema motor e cognição – primeiras palavras

Para interagir com pessoas, objetos e o ambiente que nos rodeia,


precisamos ter controle voluntário sobre os movimentos do corpo. Isso não
significa apenas controlar braços e pernas, mas tudo aquilo que se mexe em
nosso organismo, incluindo cabeça, olhos, expressões faciais, articulações dos
músculos da boca e da língua, além de vários outros pontos corporais. Afinal,
todos eles estão relacionados à comunicação motora.
Nos lobos frontais, encontramos o sistema motor do cérebro. Ele começa
com áreas pré-motoras, importantes para planejar e coordenar movimentos
complexos, e termina com o córtex motor primário, região de saída e envio pela
medula espinhal, que causa contrações e movimentos de músculos específicos.
Observamos neste estudo os argumentos de que os processos motores
estão funcionalmente relacionados com processos cognitivos. A informação
apoiada por dados clínicos e neurais nos mostra que algumas regiões do cérebro
integram funções motoras e cognitivas.

TEMA 1 – INTRODUÇÃO À BASE NEURAL DO MOVIMENTO

Na casa de Helena, ela, Célia, Nestor e Lucas se reuniram para preparar a


apresentação na semana seguinte de um trabalho sobre sistema motor e
cognição. Os quatro universitários conversaram, discutiram, escreveram e depois
decidiram dar uma paradinha. O pai de Helena tinha acabado de chegar, e ao vê-
lo no corredor Lucas o cumprimentou sorrindo:
– Como vai, Dr. Aníbal:
Depois, para relaxar, ligaram a TV em um reality show. Helena se espantou
com um participante do programa e exclamou:
– Nossa! Olha o fulano! Ele fica paradão, com os olhos fixos para o nada.
Ele é bem diferente dos outros, não acha, Lucas?
– Ele está pensando, alguém vai dizer que ele está pirando, mas o cara é
tranquilo, não tem problema. Acho que ele ficou chateado com alguém. Olha, ele
foi para a cozinha, Helena!
– Vai dar problema, a sicrana que criticou ele publicamente está lá. Ih! Ela
se posicionou como quem quer encarar ele!

2
Na cena da TV de fato, a moça começou a discutir com o rapaz e Nestor
se manifestou.
– Gente, olha ele oferecendo um copo de água para acalmar a nervosa.
Sabem o que é isto? É o sistema motor que estamos estudando. Primeiro, ele
estava na outra peça pensando, aí decidiu ir para a cozinha. A moça reparou que
ele estava por perto, pensou e foi querer discutir. Ele viu que ela estava nervosa
e ofereceu água. Gente! Ele usou a parte mais importante do nosso sistema
nervoso, o córtex cerebral. Não acha Célia?
– Sim! Aconteceu ali o potencial de ação, os sinais neurais. Os neurônios
dele, quando perceberam que ela estava esquentada, passaram a transmitir
impulsos eletromagnéticos pelo corpo.
– E aí – interrompeu Nestor – os neurônios eferentes acionados pelo córtex
cerebral carrearam informações de que a moça estava mal e geraram impulsos.
O que aconteceu? Os músculos se movimentaram e o esqueleto levou o rapaz
até a geladeira, pegou o copo, botou água e ofereceu a água. Os dois se
movimentaram pelas percepções que tiveram.
Vamos deixar de lado, por ora, os quatro colegas de faculdade com a sua
conversa sobre o reality show e o sistema motor, e vamos buscar entender como
os músculos esqueléticos de nosso corpo se movem.
O ponto de partida é dado pelas mensagens do SN que causam as
contrações musculares. Podemos resumir esse entendimento em três passos:

• A informação vai do SN para o sistema muscular. Quando isso acontece,


diferentes reações químicas são estabelecidas.
• As reações químicas fazem com que fibras musculares se organizem,
contraindo a musculatura e provocando a ação motora.
• À medida que o sinal do SN desaparece, o processo químico se inverte, as
fibras musculares se reorganizam e a musculatura relaxa.

Podemos dizer que a contração muscular começa com o potencial de ação


– em outras palavras, quando ocorre “uma mudança muito breve na carga elétrica
de um neurônio que viaja ao longo de um axônio” (Weiten, 2010). Essa viagem
acontece por meio de um neurônio motor, que contacta a célula muscular formada
por fibras. No momento em que o SN se comunica com a junção neuromuscular,
a mensagem química é liberada pelo neurônio motor. Nesse ponto, um
neurotransmissor, chamado de acetilcolina, se liga a receptores externos da fibra
muscular. Assim ocorre a reação química no músculo.
3
O processo molecular da viagem motora passa por algumas etapas a partir
do momento em que a acetilcolina se liga aos receptores. Dentro das fibras
musculares, proteínas são organizadas em longas cadeias, que interagem entre
si para contrair ou relaxar. Ao cessar a estimulação do neurônio motor, a reação
química é interrompida e vemos revertido o processo químico nas fibras
musculares; assim, a musculatura relaxa.
Segundo Lent (2016), para realizar um ato motor, existe a necessidade de
um “arquivo” de predição do que é necessário para que ele exista. O
planejamento, a correção e a execução dos movimentos devem estar inscritos em
redes neurais a partir do córtex pré-frontal. Participam desse processo o córtex
motor primário, o córtex não primário, com as áreas motora e suplementar, o
córtex parietal, o córtex cingulado, o cerebelo e os núcleos de base. Também
devem ser levados em conta os núcleos talâmicos, os núcleos do tronco
encefálico e a medula espinhal.
Podemos assim verificar uma orquestração entre as redes cerebrais
corticais, subcorticais e medulares, interconectadas em série e em paralelo. A
forma como isso acontece depende da experiência individual, da integridade da
rede neural, do tipo e da complexidade do movimento a ser executado,
considerando ainda a perspectiva de plasticidade, em mudanças por
aprendizagens ou por lesões centrais e periféricas.
As ações de planejar e controlar o movimento podem não ser pensadas,
mas isso não significa que ações como tocar violão, jogar bola, escrever ou comer
com talheres sejam simplesmente atos reflexos. Leisman, Moustafa e Shafir
(2016) definem que o movimento não é simplesmente desencadeado por um
estímulo externo, como a reação a um objeto quente. Ele pode ser resultado de
processos mentais cognitivos, mesmo quando não há nenhum movimento.
Os mesmos autores reportam que o movimento e a ação muitas vezes são
entendidos como a mesma coisa. Eles esclarecem que, no movimento, partes do
corpo são deslocadas no espaço físico, de forma voluntária ou involuntária, para
uma atividade direcionada a um objetivo. No exemplo da conversa entre os quatro
estudantes, o rapaz do reality show se depara com uma pessoa nervosa, olha
para ela e decide caminhar até a geladeira e pegar água, colocar no copo e
oferecer aos outros. Tal ação motora envolve, implicitamente, várias funções
cognitivas integradas, de modo a permitir um desempenho motor bem-sucedido.

4
TEMA 2 – CÓRTEX MOTOR PRIMÁRIO

Na área do lobo frontal, encontramos o sistema motor, que se inicia nas


áreas pré-motoras, buscando planejar e coordenar movimentos complexos, e
finaliza com o córtex motor primário. Nesse local, a saída é enviada pela medula
espinhal para causar contração e movimentar músculos específicos. No lado
esquerdo do cérebro, o córtex motor primário (designado como M1) controla o
movimento do lado direito do corpo, da mesma forma que o córtex motor direito
controla o movimento do lado esquerdo do corpo. A sua representação corporal é
chamada de somatotópica (Lent, 2016), entendida como movimento de diferentes
partes do corpo, centrado em regiões específicas do córtex. A área do córtex
motor é a mais sensível à estimulação elétrica, uma vez que requer a menor
quantidade de estimulação para produzir um movimento muscular
correspondente.
O processamento, quando diferentes áreas do córtex motor primário se
conectam e controlam o movimento de diferentes partes do corpo, forma uma
espécie de mapa corporal, conhecido como homúnculo. O tamanho da área no
homúnculo determina o nível de controle de movimento finos que o indivíduo tem
com essa região do corpo. Sabemos que grande parte do córtex motor primário
está ligado ao controle com precisão das mãos, do rosto e dos lábios, como vemos
representado na Figura 1. Podemos dizer, assim, que as áreas dedicadas a
polegar, dedos, bocas e lábios são vitais para manipular objetos e articular a fala.
O modelo de homúnculo, também chamado de “homúnculo de Penfield”, é
uma representação artística mapeada do cérebro com diferentes pontos da
superfície do corpo, considerando o mapa neural sobre a sensibilidade corporal
(Silva, 2013). A Figura 1 é uma visão representativa da diferença de tamanho de
sensibilidade, que revela por exemplo que os movimentos motores de nosso corpo
são executados especialmente pelas mãos. Podemos verificar ainda a dimensão
da boca e da língua, a área de movimentos complexos e finos, além de outras
áreas do tronco.

5
Figura 1 – Homúnculo cortical

Crédito: shumpc/adobe stock.

Experimentos com cães mostrados na literatura indicam que, quando


partes do córtex recebem estimulação elétrica, são provocados movimentos em
diferentes áreas do corpo. Em 1870, os médicos Gustav Theodor Fritsch e Eduard
Hitzig, usando cães acordados como sujeitos, estimularam eletricamente a área
do cérebro que veio a ser chamada de córtex motor, descobrindo que o movimento
dos cães era involuntário em resposta à estimulação. A estimulação fazia com que
os cães se movessem involuntariamente (Purves et al., 2008). Esse experimento
levou à identificação do córtex motor como área primária do nosso cérebro,
envolvida no planejamento e na execução de movimentos voluntários.
A estimulação em um hemisfério cerebral resulta em movimento no lado
oposto do corpo, o que ajuda a entender o controle e a execução de movimentos
do corpo pelo envio de sinais ao cerebelo e à medula espinhal. Desse modo, o
córtex motor primário é fundamental para iniciar os movimentos motores (Guy-
Evans, 2021).

6
Podemos entender a dinâmica do córtex motor primário considerando os
seguintes aspectos:

• As suas áreas correspondem precisamente a partes específicas do corpo;


• Nele encontramos os grandes neurônios, chamados de neurônios motores
superiores (ou neurônios piramidais) e as células de saída primárias do
córtex motor;
• A largada no fluxo do movimento se desenvolve quando os axônios dos
neurônios motores superiores saem do córtex motor com informações
sobre movimentos voluntários;
• Ao entrar em um dos tratos do sistema piramidal (vias ligadas com a
motricidade voluntária), os neurônios motores superiores levam
informações para a medula espinhal; eles viajam por meio do trato (vias)
córtico-espinhal;
• Logo que a informação chega à medula espinhal, ela é usada para os
movimentos;
• Para suprir os músculos esqueléticos no movimento, os neurônios motores
superiores formam conexões com outros neurônios, chamados de
neurônios motores inferiores (ou neurônios eferentes), que conectam o
sistema nervoso central aos músculos;
• Quando os neurônios motores superiores percorrem o trato córtico-bulbar,
eles transportam informações motoras para o tronco encefálico, onde os
núcleos dos nervos cranianos são estimulados em movimentos de cabeça,
pescoço e face.

Ambos os tratos, portanto, carregam informações específicas sobre


movimentos voluntários do cérebro. O trato córtico-espinhal carrega movimentos
que sinalizam os movimentos na medula espinhal. O trato córtico-bulbar
transporta sinais para o tronco cerebral para causar movimento de cabeça,
pescoços e rosto. O córtex motor primário geralmente não controla os músculos
diretamente, mas tende a iniciar movimentos individuais ou sequências de
movimentos que dependem da atividade de muitos grupos musculares.
A conexão do córtex motor primário com os músculos do corpo é tão
importante que qualquer dano acarreta uma capacidade prejudicada de
movimento. Como veremos mais à frente, se uma pessoa sofre um derrame, que
causa, por exemplo, danos ao córtex motor primário, em apenas um lado do

7
cérebro, há prejuízo de movimento no lado oposto do corpo. Se a área do dano
estiver localizada em uma determinada parte do córtex motor primário, como a
área da mão do homúnculo, ela afetará os movimentos apenas da parte
correspondente do corpo, o que pode ocorrer, por exemplo, com a mão.

TEMA 3 – CÓRTEX PRÉ-MOTOR

Encontramos o córtex pré-motor (PM) na área anterior ao córtex motor


primário. Embora o nome possa sugerir um papel secundário ao córtex motor
primário, ele desempenha importante papel no movimento. Abrange duas áreas:
a área pré-motora (APM) e a área motora suplementar (AMS). Ambas as áreas
estão envolvidas em diferentes aspectos do movimento, como o planejamento da
ação e a seleção de tarefas com base no contexto ambiental (Purves et al., 2008).
A APM, como uma área envolvida no controle do movimento voluntário
(Bear; Connors; Paradiso, 2017), está localizada à frente da mas, que planeja
movimentos complexos e coordena as duas mãos, e também à frente do córtex
motor primário, que controla o movimento dos músculos próximos ao eixo do
corpo. Nas últimas décadas, foram desenvolvidos inúmeros estudos sobre o
sistema motor; ainda assim, parece haver um consenso entre os estudiosos sobre
a necessidade de melhor entendimento das funções exatas nas duas áreas do
córtex pré-motor.
Outro dado dos pesquisadores refere-se à ideia de que o PM é mais ativo
do que o M1, durante o planejamento, e não na execução do movimento. Purves
et al. (2008) abordam ainda a possibilidade de a AMS ter papel relevante para a
execução sequencial de movimentos, a aquisição de habilidades motoras e o
controle executivo, o que envolveria decisões relativas a mudanças, de acordo
com informações sensoriais. Vejamos a seguir alguns aspectos de cada uma
dessas áreas.

3.1 Área pré-motora

O córtex motor pré-primário tem sido objeto de estudo especialmente com


humanos e macacos. Pelo que os estudos até aqui levantaram, ele se projeta
diretamente para a medula espinhal, de modo que desempenha um papel
importante no controle direto do comportamento, notadamente nos músculos do
tronco do corpo. Conforme já definimos, essa área está relacionada ao

8
planejamento do movimento, além de orientar o movimento espacial, o movimento
sensorial, a compreensão das ações externas e o uso de padrões abstratos para
tarefas específicas.
Lent (2016) define que tanto a área motora pré-primária quanto a área
motora suplementar foram inicialmente definidas como regiões corticais cuja
estimulação elétrica era também capaz de induzir movimentos, desde que as
correntes aplicadas apresentassem intensidade considerável. O autor cita o
estudo do neurofisiologista americano Michael Graziano, o qual demonstra que,
junto com o córtex motor primário, as áreas pré-motoras produzem movimentos
que envolvem várias articulações, à semelhança dos movimentos naturais de
preensão e alcance ou de esquiva.
Estudos com macacos, citados por Tassinari e Durange (2014), mostram
que neurônios-espelhos no córtex pré-motor têm papel importante na atenção e
no movimento comportamental. Esse tipo de neurônio não só dispara quando o
macaco faz uma ação, mas também quando o animal observa alguém que
executa aquela mesma ação. Os autores reportam que, com o uso da
Ressonância Magnética Funcional (fMRI) em humanos, é possível presumir a
presença de neurônios-espelho no espelhamento de sentimentos, o que nos leva
à expectativa de circuitos neurais como base para o comportamento empático,
desencadeado por ações responsivas ao sofrimento de outras pessoas.

3.2 Área motora suplementar

A área motora suplementar (AMS), entre o córtex primário e o córtex motor,


está envolvida no planejamento de movimentos complexos e na coordenação de
movimentos envolvendo ambas as mãos. Lent (2016) destaca que a estimulação
da AMD leva a movimento bilaterais, com frequência, o que sugere a sua
participação na coordenação de movimentos que envolvem os dois lados do
corpo.
Estudos eletrofisiológicos com primatas treinados concluíram que a
atividade neuronal da AMS pode estar relacionada com sequências memorizadas
de movimentos, iniciados voluntariamente, enquanto os neurônios do córtex pré-
motor estariam ativos de modo preferencial em atividades dependentes de uma
pista sensorial visual.
Lent (2016) complementa esses dados ao citar um experimento com
macacos, em que a atividade neural se desenrola por três células: uma em M1,

9
outra em PM e uma terceira em AMS, quando um macaco aperta três botões em
sequência. Inicialmente, a sequência se dava em pistas visuais. À medida que o
animal se acostumava com uma sequência, a intensidade de luz no experimento
era diminuída. até que o macaco realizasse a tarefa de memória. Os neurônios
em M1 mantinham uma atividade neural similar, independentemente da forma
como a tarefa era realizada (visual ou disparada por pistas internas). O neurônio
PM, porém, era mais ativo em resposta às pistas visuais em comparação às
internas, enquanto o oposto acontecia com o neurônio da AMS.
Na condição reportada por Lent (2016), se a ação requer o uso de
sequências motoras aprendidas, acredita-se que a maior contribuição para a
realização da tarefa ocorrE pela AMS. No exemplo do jogador de tênis que precisa
saber onde a bola está, para preparar o movimento da raquete, ocorre uma
integração entre o plano motor aprendido e a retroação sensorial. De outra forma,
o sinal sensorial externo é o primeiro a ser recrutado no caso de um motorista com
o carro parado em frente a um semáforo, esperando o sinal de trânsito para pisar
no acelerador e mudar a marcha.

TEMA 4 – COGNIÇÃO E MOVIMENTO

Nestor convidou Célia, Helena e Lucas para dar uma volta no carro que
ganhou do pai. Ao andar pelo centro da cidade, os amigos notaram que os olhos
de Nestor não paravam quietos. Helena então perguntou:
– Por que a gente mexe tantos os olhos?
– Depende. No trânsito eu tenho que ficar atento a tudo.
– Eu não me refiro só ao trânsito, mas a tudo. Quando eu visito a minha
avó no sítio, eu vejo que a galinha e a coruja mantêm os olhos fixos, é a cabeça
que se mexe.
– É que esses bichos não têm aquela manchinha amarela no centro da
retina. É por ali que se forma a imagem que vai para o cérebro. Como é que é o
nome mesmo? – foi a pergunta de Lucas.
Célia ia dizer que era fóvea, mas nem pode abrir a boca, pois Nestor fez
uma manobra brusca e freou o carro de súbito, exclamando:
- Céus! Foi por pouco! Gente, o que vocês acham de a gente dar uma
paradinha ali naquela lanchonete perto do Passeio Público e comer um daqueles
sanduíches que vem com dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial,
cebola e picles num pão com gergelim. Tem que ver se ela está aberta.

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– Eu vou comer dois deles – disse Lucas.
– Eu não! Vocês sabiam que um sanduíche desses tem mais de quinhentas
calorias? Eu, hein! – respondeu Helena.
Já na lanchonete, nossos estudantes começaram a conversar sobre o que,
como e onde ocorria, no cérebro, aquele processo que fez Nestor ficar mexendo
os olhos, cuidando do trânsito, até a freada brusca. No bate-papo, eles falaram
sobre a evolução humana, que nos faz caminhar usando os dois pés, sobre o
hábito aprendido em relação ao ato de dirigir, além do uso de processos cognitivos
diretamente nos gânglios basais e no cerebelo.
Leisman, Moustafa e Shafir (2016) definem que a associação entre função
motora e cognição oferece subsídio para entender o bipedismo como
característica evolutiva humana. Por conta disso, criou-se uma base para um
maior desenvolvimento do neocórtex humano. Caminhar apoiado apenas nos pés
é uma característica humana (mesmo que pássaros no solo, alguns mamíferos e
primatas também caminhem de modo similar). No ser humano, o bipedismo
trabalha com a coluna ereta, ao contrário de outros seres. Por conta disso, os
processos cognitivos tornaram-se mais sofisticados, estando associados à
necessidade de adaptação a movimentos mais complexos. Nessa evolução, a
função cognitiva e a motora passaram a ser controladas por certas áreas do
cérebro, como lobos frontais, cerebelo e gânglios da base, em uma interação
coletiva com governança e controle executivo, dando impulso à intencionalidade
dos movimentos.
Os gânglios basais agrupam estruturas como núcleo caudado, putâmen,
globo pálido e núcleo subtalâmico (Bear; Connors; Paradiso, 2017), que
estabelecem respostas musculares. Tieppo (2021) destaca que eles “estão
estreitamente ligados ao nosso comportamento voluntário inconsciente – aquele
em anuência com nossa vontade, mas sem a consciência direta de sua
realização”. Os gânglios basais recebem inputs do córtex cerebral, enviando-os
para os centros motores do tronco cerebral, antes de retornarem para a área de
planejamento do motor do córtex. Gazzaniga e Heatherton (2005) reportam que
eles estão envolvidos na aprendizagem de hábitos. Lembramos que Nestor, ao
dirigir, tinha o hábito automático de olhar o tráfego de veículos no trânsito.
O cerebelo, ligado ao tronco encefálico, é um importante centro de controle
do movimento (Bear; Connors; Paradiso, 2017). A ação brusca de Nestor ao frear
o veículo é um ato de aprendizagem motora envolvido com o cerebelo. “Treinado”

11
pelo sistema nervoso, ele opera de modo independente-inconsciente (Gazzaniga
e Heatherton, 2005), permitindo que Nestor consiga dirigir, olhar o trânsito e
pensar no assunto da conversa ao mesmo tempo.
Encadeamentos apreendidos em circuitos neurais fazem com que Nestor
consiga trocar as marchas do veículo sem estar completamente focado. Caminhar
ou andar de bicicleta também é resultado de aprendizagens baseadas em
processos cognitivos básicos, que envolvem percepção, atenção e memória,
relacionados a processos cognitivos superiores, como o raciocínio e a tomada de
decisão.

O cérebro capta e processa muitas informações, que não chegam todas


à consciência - podem vir a se tornar conscientes, através da atenção,
da focalização consciente de algumas informações ou de partes da
realidade. Inicialmente, a execução de muitas tarefas é realizada por
processos controlados, conscientes e posteriormente automáticos.
Muitas tarefas, principalmente aquelas que requerem prática, precisam
ser inicialmente percebidas conscientemente. (Balbinota; Zarob; Timm,
2011)

Os efeitos do processamento cognitivo no movimento envolvem três fases:


a fase perceptiva, responsável pela síntese aferente das condições externas e
internas; a fase da tomada de decisão, que analisa uma situação para predispor
à ação; e a fase efetora, que atende à execução do movimento programado
(Gonzales, 1999). Assim, podemos entender que movimentos como equilibrar-se
em uma viga, lançar objetos e deslocar-se demandam processos cognitivos de
menor complexidade. Por outro lado, movimentos relacionados a papéis, ou
atribuições com a participação de pessoas e objetos, requerem uma
representação simbólica para a tomada de decisão.
Segundo Weiten (2010), nossas vidas são repletas de tomadas de decisão.
Ler um livro, levantar-se, lavar o rosto, escovar o dente, tomar ou não tomar o café
são arbítrios da nossa rotina que fazemos com pouco esforço. Às vezes, contudo,
temos que tomar decisões que requerem maior concentração.
No momento em que chegou na lanchonete, Helena vivenciou um jogo
mental que a fez lembrar da última consulta com o seu médico, que relatou com
preocupação o resultado de exames recentes: aumento de glicose e do IMC
(índice de massa corporal), além de sinais de sensibilidade a insulina, foram os
gatilhos determinantes para a tomada de decisão. Enquanto os outros iam até o
caixa, ela permaneceu sentada.
– Come pelo menos um sanduíche de pão integral, geleia light e uma fatia
de queijo light ! – gritou Célia.
12
– Não, obrigada – respondeu Helena.
Como os demais, ela levantou-se e foi até o caixa.
Gazzaniga e Heatherton (2005) abrodam a tomada de decisão a partir de
dois fatores: (1) as perdas pesam mais do que os ganhos; e (2) as decisões
envolvem a imaginação de eventos hipotéticos. Os autores explicam que, no
chamado modelo satisficing, a tomada de decisão está ligada a um único fator,
por exemplo entrar na lanchonete porque ela está aberta. Helena está bem
relacionada aos fatores 1 e 2. No primeiro caso, a sua decisão, com base nos
autores citados, está ligada à teoria da perspectiva: qual o custo e os benefícios
da decisão? Sujeitar-se a fugir de uma regra, pois se comprometera a não vacilar
com a alimentação, o que implica perder um momento saboroso com amigos. O
segundo caso refere-se ao raciocínio contrafactual. Por um lado, ela irá se sentir
bem em comer o sanduíche e ficar à vontade com os colegas; embora isso seja
uma coisa positiva, ela irá dormir se culpando por ter vacilado com a saúde.

TEMA 5 – CONTROLE E REABILITAÇÃO DO MOVIMENTO

Comportamentos são produzidos por movimentos que colocam os


músculos em ação. Fazemos isso ao andar, falar, comer, beber, inspirar, expirar,
movimentos que compreendem uma imensa gama de comportamentos, como um
simples “Como, vai Dr. Aníbal?”, dito por Lucas ao pai de Helena. Para que o
movimento aconteça, precisamos de estruturas cerebrais e de células nervosas.
A integração entre as estruturas está baseada em diferentes tipos de neurônios.
Em linguagem mais simples, está ligada ao estímulo sensorial e à resposta
comportamental; os neurônios sensoriais captam, os neurônios motores levam e
os interneurônios comunicam. Isso não acontece quando há lesão em uma área
cerebral relacionada ao movimento ou à degeneração de neurônios motores,
condições que impedem respostas musculares.
– Nossa! Você viu o acidente com aquele famoso? Bateu o carro, teve um
traumatismo craniano e não consegue mais articular as palavras.
Nesse exemplo, o traumatismo craniano provocou disartria, entendida
como dificuldade de utilizar os músculos da fala, ou mesmo a sua fraqueza. À
primeira impressão, parece ser um problema de linguagem, mas se trata de um
problema motor. Lesões que afetam o tronco cerebral causam uma condição
neurológica que altera a pronúncia e a articulação da fala.

13
– Você não vai mais se movimentar e infelizmente deixará de viver em dois
ou três anos!
Imagine ouvir isso aos 21 anos de idade, como ocorreu com Stephen
Hawking! Diagnosticado como portador de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), o
físico inglês viveu até os 76 anos, motivado (dizem) por sua força psicológica e
uma imensa vontade de viver e de superar novos desafios. A doença de Stephen
Hawking degenerou os neurônios motores no cérebro, interferindo na transmissão
de mensagens para os músculos do corpo. Com os músculos atrofiados, ele
perdeu o controle voluntário, embora outros tipos de neurônios continuassem
trabalhando, o que não afetou a inteligência, a memória e a personalidade.
No estudo dos movimentos, descobertas recentes sobre o modo como as
atividades estão ligadas às estruturas cerebrais têm sido importantes, pois nos
ajudam a entender a atividade neural ligada ao movimento, por meio do estudo
de potenciais de prontidão que aparecem, por exemplo, em exames de
eletroencefalograma. Tais potenciais aparecem em torno de um segundo antes
da realização dos movimentos (Lent, 2016).
O autor atribui às técnicas de neuroimagem, com base em medidas do fluxo
sanguíneo e da atividade metabólico cerebral, o domínio mais apurado que temos
do mapeamento das regiões cerebrais que participam da produção de movimento.
Lent defende ainda que a estimulação transcraniana nos ajuda a entender a
atividade neuromotora induzida.
Os avanços da tecnologia confirmam que, para interagir com pessoas,
objetos e ambiente, precisamos ter controle voluntário sobre os movimentos do
corpo. Perdemos o controle voluntário em situações nas quais o organismo se
movimenta sem a nossa percepção. Músculos como a parede do estômago não
recebem controle voluntário, mas sim o controle de outras regiões cerebrais, como
o hipotálamo. Quando uma pessoa se alimenta, o estômago se contrai, sem que
a pessoa tenha conhecimento, o que garante a digestão, mesmo quando a pessoa
dorme.
Controle voluntário não significa simplesmente estender o braço e pegar ou
jogar alguma coisa, andar, correr ou nadar. Precisamos que as nossas cabeças
se mexam, que os nossos olhos explorem imagens, que as nossas expressões
faciais transmitam emoções pela comunicação de lábios, língua e boca. Tais
movimentos voluntários são comandados pelo córtex motor, partindo da sua
localização atrás do lobo frontal. A mensagem neural se move por meio do tronco

14
cerebral, pela medula espinhal, até o músculo que vai ser comandado, que se
contrai em resposta a uma ordem.
Pessoas que sofrem traumatismo craniano ou degeneração dos neurônios
motores, como vimos nos exemplos, perdem a capacidade de controlar os
movimentos do corpo. E o que isso significa? Como acontece com outras partes
do cérebro, danos nos neurônios do córtex motor primário significam que eles
nunca se regeneram ou são reparados. Contudo, o cérebro pode se curar e
recuperar certas funções a partir da neuroplasticidade. Nesse caso, partes não
danificadas podem buscar outras conexões, criando um novo mapa, que envolve
outras áreas, para assumir a função, compensando danos no córtex motor.
A reabilitação física é base essencial da neuroplasticidade, usada em
fisioterapia, para auxiliar pacientes que sofreram acidente vascular cerebral. Tal
prática permite a recuperação da função motora, uma vez que, quando um
movimento específico é realizado, vemos melhoradas as chances de novos
caminhos cerebrais. Uma pessoa que tenha sofrido, por exemplo, um derrame
que afeta os movimentos da perna esquerda, efeito de danos no lado direito do
cérebro, precisará de acompanhamento fisioterápico em sequências ou padrões
de caminhada, buscando ativar o controle de grupos musculares específicos da
perna esquerda. A concentração ao usar os músculos estabelece novos caminhos
neurais, buscando compensar as áreas danificadas. Com a repetição dessa
prática, novos caminhos surgem e se fortalecem, em benefício do movimento
correto, o que passa a exigir menos concentração.

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REFERÊNCIAS

BALBINOTA, A.; A. ZAROB, M.; I. TIMM, M. Funções psicológicas e cognitivas


presentes no ato de dirigir e sua importância para os motoristas no trânsito. Ciênc.
cogn., Rio de Janeiro, v. 16, n. 2, p. 13-29, ago. 2011. Disponível em:
<[Link]
58212011000200003&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 13 maio 2022.

BEAR, M. F.; CONNORS, B. W.; PARADISO, M. A. Neurociências: desvendando


o Sistema Nervoso. Porto Alegre: Artmed, 2017.

GAZZANIGA, M. S.; HEATHERTON, T. F. Ciência psicológica: mente, cérebro


e comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2005.

GONZALES, F. J. Influência do nível de desenvolvimento cognitivo na tomada de


decisão durante jogos motores de situação. Movimento, ano V, n. 10, 1999.
Disponível em:
<[Link] Acesso em:
13 maio 2022.

GUY-EVANS, O. Motor cortex function and location. Simply Psychology, 2021.


Disponível em: <[Link]/[Link]>. Acesso em: 13
maio 2022.

LEISMAN, G.; MOUSTAFA, A. A.; SHAFIR T. Thinking, Walking, Talking:


Integratory Motor and Cognitive Brain Function. Frontiers in Public Health, v. 4,
2016. Disponível em:
<[Link] Acesso em: 13
maio 2022.

LENT, R. (Coord.) Neurociência da mente e do comportamento. Rio de Janeiro:


Guanabara Koogan, 2016.

PURVES D. et al. Neurociência. 4. ed. Sunderland, MA: Associados Sinauer;


2008.

SILVA, S. G. da. A gênese cerebral da imagem corporal: algumas considerações


sobre o fenômeno dos membros fantasmas em Ramachandran. Physis: Revista
de Saúde Coletiva, v. 23, n. 1, 2013. Disponível em:
<[Link]
g=pt>. Acesso em: 13 maio 2022.

16
TASSINARI, M. A.; DURANGE, W. T. Experiência empática: da neurociência à
espiritualidade. Rev. abordagem gestalt., Goiânia, v. 20, n. 1, p. 53-60, jun.
2014. Disponível em:
<[Link]
68672014000100007&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 13 maio 2022.

TIEPPO, C. Uma viagem pelo cérebro: a via rápida para entender neurociência.
São Paulo: Conectomus, 2021.

WEITEN, W. Introdução a psicologia: temas e variações. São Paulo: Cengage


Learning, 2010.

17
AULA 5

NEUROCIÊNCIA E
COMPORTAMENTO
HUMANO

Prof. Reginaldo Daniel da Silveira


INTRODUÇÃO

Nosso conteúdo sobre sensação, percepção e comportamento diz respeito


a processos separados que estão intimamente relacionados. A sensação é a
nossa entrada no mundo físico por meio de receptores sensoriais. A percepção é
o caminho por onde o cérebro seleciona, organiza e interpreta as sensações.
Esses dois processos se desenvolvem com a participação dos sentidos, que são
a base fisiológica da percepção, e juntos eles se conectam com o fator cognição
construído por meio de elementos como a aprendizagem, memória, emoções e
expectativas individuais. É dessa forma que determinamos nossos
comportamentos.

TEMA 1 – UMA BREVE INTRODUÇÃO

O casal de namorados foi ao litoral aproveitar os dias quentes. No segundo


dia, Lucas ligou pra Célia contando que a Helena havia pisado numa pedra e
estava reclamando de desconforto.
— Machucou muito, ela precisou fazer algum procedimento médico?
— Que nada Célia! Ela está usando isso para aprender mais sobre o que a
sensação causa, como ela reagiu na hora do pisão e quais os reflexos disso.
— Lucas, acho que nós somos uns pirados. Tudo que acontece com a
gente nós usamos a neurociência pra compreender. Por certo ele deve estar
falando da sensação que foi pisar na pedra. Ainda sobre isso, quero te falar
daquela nossa professora do ensino médio. Te ligo daqui a pouco.
Entendida como a forma pela qual os órgãos dos sentidos respondem aos
estímulos externos e transmitem as respostas ao cérebro (Gazzaniga; Heatherton,
2005), a sensação refere-se a como aspectos do ambiente físico são codificados
por diferentes impulsos neurais. A luz verde no semáforo é codificada pelos
neurônios na retina do olho, o pisão de Helena na pedra resultou em circuitos
neurais que sinalizaram a dor.
Os autores referenciados explicam que os receptores são neurônios
especializados nos órgãos dos sentidos. Eles enviam impulsos aos neurônios
conectores no momento em que ocorre a estimulação física ou química, num
processo chama de transdução.

Depois da transdução nos receptores, os neurônios conectores nos


órgãos dos sentidos transmitem informações para o cérebro na forma de

2
impulsos neurais. A maioria das informações sensoriais vai primeiro para
o tálamo, uma estrutura no meio do cérebro. Os neurônios conectores
do tálamo levam então a informação até o córtex, onde o cérebro
interpreta, os impulsos neurais que chegam como visão, cheiro, som,
toque ou sabor. (Gazzaniga; Heatherton, 2005, p. 147)

Em conteúdos anteriores sobre o sistema nervoso (SN), vimos que ele se


divide em sistema nervoso central (SNC) e sistema nervoso periférico (SNP). O
primeiro (cérebro e medula espinhal se combina com o segundo (nervos
sensoriais e motores). Quando Helena pisou numa pedra, o SNP entrou em cena
por meio de um nervo sensorial que diferenciou a pedra de outro objeto mais
macio como uma bolinha de papel. O arranjo envolveu uma rede neural em que
diferentes fibras nervosas respondendo ao pisão produziram uma resposta
química que determinou uma interpretação. Nesse caso, se a dor foi alta, os
nervos enviaram sinais associados ao pisão. Se a dor foi baixa, os nervos
enviaram sinais associados ao toque leve. Helena sentiu e percebeu a dor? A
resposta indica que sensação e percepção parecem se fundir num processo
contínuo, mas existem pontos distintos. Vejamos o telefonema que Celia deu a
Lucas instantes depois.
— Lembra da professora Janete do ensino médio? Outro dia ela me
encontrou num supermercado e não me reconheceu. Depois que entramos na
faculdade falei diversas vezes com ela, mas não fui reconhecida. Me disseram
que ela também não reconhece outras pessoas com quem conviveu ou teve
relações. O problema pelo que soube chama-se prosopagnosia, uma espécie de
cegueira facial. Dizem que ela nem se reconhece quando olha no espelho.
Se considerarmos Myers e DeWall (2022), quando a professora Janete olha
para sua ex-aluna ou outras pessoas com quem conviveu sua sensação é
normal, os receptores sensoriais detectam a informação e o sistema nervoso a
transmite para o cérebro. Contudo, sua percepção é quase normal. Ela pode
reconhecer as pessoas pelo jeito de andar, a cor do cabelo, a voz ou compleição
física, mas não pelo rosto. Celia, soube depois que sua ex-professora sofreu um
derrame há cerca de oito meses, o que poderia explicar a prosopagnosia.
Doenças degenerativas ou ferimentos podem causar danos a alguma das regiões
cerebrais especializadas em processar faces.
O exemplo referido nos aguça a curiosidade sobre o impacto da percepção
visual em Cherry (2020) por meio dos fatores: estímulo ambiental e assistido,
imagem na retina, transdução, processamento neural, percepção,
reconhecimento e ação.

3
• Estímulo ambiental: vivemos entre estímulos que nos atraem a atenção por
meio de vários sentidos. Compreende tudo no ambiente com potencial para
ser percebido. O mundo está repleto de estímulos que podem atrair a
atenção por meio de vários sentidos. Por exemplo: no instante em que você
lê este texto, pode haver sons no ambiente que não estejam sendo
percebidos, embora possa ser provado que seus neurônios do ouvido
estejam ativos, o que mostra que a percepção é mais seletiva que os
sentidos.
• Estímulo assistido: corresponde ao objeto específico no ambiente no qual a
atenção está focada.
• Imagem na retina: a luz passa pela córnea, pupila e lente do olho. A córnea
ajuda a focalizar a luz quando a íris do olho controla o tamanho das pupilas
para determinar quanta luz deixar entrar. A córnea e o cristalino agem juntos
para projetar uma imagem invertida na retina.
• Transdução: a imagem na retina é transformada em sinais elétricos pelo
processo conhecido como transdução. Nesta condição, as mensagens
visuais são transmitidas ao cérebro para serem interpretadas.
• Processamento neural: os sinais elétricos passam por um processamento
neural. O caminho de determinado sinal depende do tipo (ou seja, um sinal
auditivo ou um sinal visual).
• Percepção: é neste ponto que, ao se perceber o objeto de estímulo no
ambiente, a pessoa tem consciência do estímulo.
• Reconhecimento: a consciência do estímulo não garante a percepção, pois
é necessário ao cérebro categorizar e interpretar o que a pessoa está
sentido. A capacidade de interpretar e dar significado ao objeto caracteriza
o passo do reconhecimento, o que no exemplo da professora Janete não
aconteceu.
• Ação: nesta fase, ocorre algum tipo de atividade motora em resposta ao
estímulo reconhecido. Se assim ocorresse com a professora Janete ao ver
sua ex-aluna Celia, ela poderia responder com uma fala de cumprimento,
uma expressão facial ou um gesto. Vejamos a seguir.

TEMA 2 – CONCEITOS BÁSICOS

A sensação e a percepção são dois processos separados-relacionados. A


sensação, podemos dizer, é a porta de entrada do mundo físico obtida por nossos
4
receptores sensoriais, e a percepção é o processo no qual o cérebro seleciona,
organiza e interpreta essas sensações. Ao vermos uma maçã, por exemplo, temos
a sensação dos seus contornos redondos ou de sua cor vermelha e de outra
forma, nossa experiência com a fruta como um objeto unitário (redondo e
vermelho) ocorre graças à percepção. A atenção vincula as qualidades
elementares do objeto e a integra como objeto unitário. Esta distinção sensação-
percepção, contudo, envolve mecanismos perceptivos complexos que nos permite
ver o vermelho conforme o padrão de luminosidade, o que nos dá limiares de
sensibilidade a estímulos. De forma objetiva, dizemos que os sentidos
representam a base fisiológica da percepção e isso varia de indivíduo para
indivíduo, porque o cérebro de cada um é sujeito a aprendizagem, a memória e
as emoções.

2.1 Sensação

Quando sentimos algo, nossos receptores sensoriais (neurônios


especializados) respondem a tipos específicos de estímulos. Ao ser detectada a
informação sensorial por um receptor sensorial ocorre a sensação. Desse modo,
podemos dizer que sensação é a estimulação dos órgãos dos sentidos (Weiten,
2010). Como exemplo, temos a luz, que ao chegar ao olho, provoca alterações
químicas nas células oculares que por sua vez transmitem mensagens, na forma
de potenciais de ação para o SNC. Essa conversão é a transdução que vimos a
pouco. Para acontecer, ela depende de valores mínimos detectáveis no estímulo:
os limiares da estimulação, estudados pela psicofísica (relação entre estímulos
físicos e suas sensações).
Num cinema escuro, o celular de alguém, ao se iluminar ante uma
mensagem de texto, chama a atenção de outras pessoas. Num pequeno e bem
iluminado anfiteatro durante uma palestra um celular também brilha, mas não
chama a atenção dos outros espectadores. O brilho no celular não muda, mas a
capacidade para ser detectado varia em contextos diferentes.
Myers e DeWall (2022, p. 189) explicam que limiar absoluto é a intensidade
na qual uma pessoa consegue detectar um estímulo na metade das vezes. Os
testes de audição localizam estes limiares para várias frequências. Ele se refere ao
mínimo de um estímulo que causa uma sensação. Exemplos: chama de uma vela
a 48 quilômetros de distância (visão); a batida de um relógio que gira a 6 metros

5
(audição); uma gota de perfume em uma casa de 6 cômodos (olfato) ou uma colher
de chá de açúcar em um galão d’água (sabor).
Os estímulos não detectados 50% do tempo entram no campo da persuasão
subliminar. Fracos, esses estímulos não são notados conscientemente. É deste
modo, como frisam os autores, que: “grande parte do nosso processamento de
informações ocorre automaticamente, fora da vista, fora da tela do radar da nossa
mente consciente”.
A psicofísica também é usada para medir a diferença mínima entre dois
estímulos que um sujeito é capaz de perceber, o que é chamado de limiar
diferencial ou diferença mínima perceptível (Lent, 2016). Exemplos: a menor
diferença no som para percebermos uma mudança no volume do rádio; a diferença
mínima de peso para percebermos uma mudança entre dois montes de areia ou a
diferença mínima na intensidade da luz para percebermos uma diferença entre
duas lâmpadas.
Um outro conceito importante é o da adaptação sensorial ilustrado por
Myers e DeWall (2022), quando uma pessoa entra num ambiente cheirando a mofo.
Após a exposição contínua ao estímulo (odor), as células nervosas disparam com
menos frequência, e a pessoa passa a ter menos consciência deste estímulo. A
adaptação sensorial é, desta forma, a diminuição da sensibilidade como
consequência de Estimulação Constante.

2.2 Percepção

Seja lá o que você fez antes de estar lendo este texto ou que vai fazer depois
dele, seus receptores sensoriais estiveram, estão e estarão o tempo todo coletando
informações do ambiente. Em última análise, é assim que interpretamos e agimos
com o que está ao nosso redor. Ao processarmos, organizarmos e interpretarmos
os sinais sensórios, criamos uma representação interna do estímulo, resultando no
que chamamos de percepção (Gazzaniga; Heatherton, 2005).
Na percepção, encontramos duas formas de processamento. No
processamento de baixo para cima, denominado botton-up, as percepções são
construídas a partir de informações sensoriais. Já a forma como interpretamos
essas sensações é influenciada pelo nosso conhecimento disponível, nossas
experiências e nossos pensamentos. Isso é chamado de processamento de cima
para baixo denominado top-down. Para que isso ocorra, nossos sentidos: recebem
estímulos sensoriais, na maioria das vezes utilizando células receptoras

6
especializadas; transformam esses estímulos em impulsos neurais e entregam a
informação neural para nossos cérebros.
Vejamos o processamento de baixo para cima da figura a seguir. Nas linhas,
verticais e horizontais, não se observa um contexto que possa atribuir-se um
significado e nesta condição o processamento se dá de baixo para cima.

Processamento de baixo para cima

I3
Na próxima figura, criaram-se à forma dois contextos diferentes. O cérebro
vê letras sequenciais, e o que se percebe são as linhas formando a letra “B”. O
processamento de cima para baixo usa o contexto para dar significado à imagem.

Processamento de cima para baixo

A I3 C
Agora, na figura seguinte, cercado por números, a mesma forma agora se
parece com o número “13”. Quando dado um contexto, sua percepção é
impulsionada por suas expectativas cognitivas. Agora você está processando a
forma de cima para baixo.

Processamento de cima para baixo

12 I3 14
TEMA 3 – INFLUÊNCIAS NA PERCEPÇÃO

Num bate papo entre os estudantes Celia, Helena, Nestor e Lucas, este
último perguntou o que influenciaria a percepção.
— Experiências passadas – disse Helena.
— Educação, valores e cultura – apresentou-se Nestor.
— Preconceitos e circunstâncias presentes – completou Celia.
— Sabem aquele teste de Rorschach, das manchas que parecem
morcegos? – manifestou-se Lucas — Eu fiz o dito. No início parecia um esquema
de tarô, mas o psicólogo depois me disse que o que eu via ali era o que eu percebia
e que era diferente do que outras pessoas percebiam.
Em outras palavras, o grupo de amigos disse que aquilo que se constrói
como percepção se torna realidade. Neste processo, existem fatores focados no
observador, na situação ou no alvo. O conjunto perceptivo integra Informações

7
sensoriais que se encontram com experiências vividas, por meio das quais cria-se
expectativas, explora-se contextos e na motivação e emoção se completa a
percepção, que é diferente em cada indivíduo.
Myers e DeWall (2022, p. 193) afirmam “ver é acreditar. Embora nos agrade
menos, acreditar é ver”. O argumento leva em conta que pela experiência,
passamos a esperar resultados. Tais expectativas, ao nosso ver, se constroem
pelo modo como estamos motivados, pela emoção que nos afeta e deste modelo
chegamos ao conjunto perceptivo, definido pelos autores como “um conjunto de
tendências e pressupostos mentais que afetam (de cima para baixo) o que
ouvimos, experimentamos, sentimos e vemos”.
Informações processadas encadeiam cognições no padrão estímulo-
resposta e estabelecem processos seletivos que gerenciam respostas
comportamentais. A experiência com avaliação psicológica nos mostra que uma
mancha de tinta do teste de Rorschach 1, por exemplo, ativa esquemas mentais
combinando o contexto do momento com as experiências armazenadas na
memória. O componente perceptivo é a percepção da totalidade global vivenciada
em uma multiplicidade difusa e uma impressão holística que enseja reações de
humor. Villemor-Amaral e Werlang (2011) destacam que, neste teste, as cores
das manchas oscilando entre claro e escuro se dissolvem entre si e provocam
impressões. O humor é eufórico em tons claros e disfórico em escuros, conforme
a percepção do observador. A ambiguidade de uma imagem, de qualquer modo,
depende do ponto de vista do observador, conforme verificamos na figura a seguir,
onde a clássica imagem “vaso de Rubin”, se focada no preto ou no branca, nos
faz ver faces ou um vaso. Na figura a seguir, por meio da experiência, formamos
conceitos, ou esquemas, que organizam e interpretam informações que não são
familiares. Nossos esquemas preexistentes para monstros e troncos de árvore
influenciam como aplicamos o processamento de cima para baixo (top-down) para
interpretar sensações ambíguas (Myers; DeWall, 2022, p. 193).

1
O Teste de Rorschach, elaborado em forma de questionário, usa cartões com manchas de tinta
para identificar traços da personalidade de uma pessoa. Um ponto crítico curioso é que o aplicador
está sujeito ao seu próprio conjunto perceptivo para interpretar as respostas.
8
Figura 1 – Conjunto perceptivo (Vaso Rubin)

Créditos: Peter Hermes Furian/Shutterstock.

3.1 Expectativas

Trafton (2019) informa que há décadas pesquisas mostraram que a


percepção do mundo é influenciada por nossas expectativas, também chamadas
de crenças anteriores. Elas nos ajudam a dar sentido ao que estamos percebendo
no presente, com base em experiências passadas semelhantes. Uma sombra não
percebida na imagem de raio-x de um paciente por um estagiário é interpretada
por um médico experiente como um sinal ainda que fraco. A combinação do
conhecimento prévio com evidências incertas conhecido como “integração
bayesiana” impacta a percepção. Se o indivíduo não consegue dizer o que
exatamente é algo, ele usa a experiência anterior e cria uma expectativa do que
deveria ser.
A autora relata que num estudo assinado por Mehrddad Jazayere,
pesquisador do Massachusetts Institute of Technology (MIT), em que foram
registradas as atividades de 1400 neurônios do córtex frontal de animais, revelou-
se que o uso de experiências anteriores no cérebro modifica a dinâmica neural e
geram sequências de atividades neurais em imprecisões da percepção. Para isso
são usados os esquemas mentais formados.
Uma citação anterior falou que esquemas preexistentes de monstros
influenciam o processamento perceptivo de cima para baixo. Ao lembrar a
publicação de um jornal britânico em 1972 com imagens e o título O Monstro do
Lago Ness, Myers e DeWall (2022) asseguram que quem criar em si mesmo as
expectativas que as imagens causaram à maioria dos leitores do jornal, também
há de ver monstros em fotografias similares.

9
3.2 Contexto

Um estímulo desencadeia percepções diferentes em parte devido a um


contexto imediato. O lugar em que a pessoa está, o número de pessoas ou
objetos, a luz, o calor, os sons, quando caracterizam determinado contexto
influenciam o processo perceptivo. A seleção de estímulos é condicionada pelas
circunstâncias organizacionais em que a pessoa e o ambiente se encontram. Uma
sala de aula, uma cancha de esportes, um hospital, um clube de dança, oferecem
diferentes enquadramentos que influenciam diferentes perfis profissionais, como
o professor, o atleta, o médico ou o músico.
Diante de um contexto, há uma distinção em situações de natureza fraca
ou forte, a dizer estímulo mais ou menos claro. Neste âmbito, Alvareza, Merinoa
e Gonzalez (2011) ressaltam o grau de nitidez do estímulo e confiabilidade da
fonte que influenciam a seleção do estímulo. Se o seu nome é Saulo ou Maria e
você vai a um posto de saúde para ser atendido e ouve uma voz em algum canto
com as palavras aula, sala, ou Mara, guria, você vira a cabeça imaginando que
alguém lhe chamou. O que vale é o limiar absoluto do som da voz e o local em
que você está. Se você estiver vendo um jogo de futebol no estádio, sua atenção
perceptiva será outra.

3.3 Motivação e emoção

A percepção influenciada de cima para baixo vai além das expectativas e


contextos ao falarmos na relação entre motivação e emoção como fatores de
influência. Pessoas com sede percebem um copo d’água mais rapidamente do
que as que não tem sede. Isso é mostrado em evidências recentes, afirmam Zadra
e Clore (2019), ao afirmar que o sistema perceptivo é ajustado para que o mundo
seja visto de forma consistente com a motivação. Por outro lado, a emoção tem
influência em níveis de percepção visual e em uma variedade de estímulos
afetivos. Para os autores, a valência afetiva e a excitação transmitem informações
sobre o valor e importância de objetos e eventos. Neste entendimento, a emoção
do medo aumenta as chances de se perceber ameaças em potencial, o humor
positivo estimula um modo atual de ver o mundo e o humor negativo estimula
mudar.
Pelo que se depreende em Myers e DeWall (2022) e Zadra e Clore (2019),
objetos no ambiente com relevância emocional e motivacional atraem a atenção

10
e mais facilmente são detectados. As evidências mostram que a percepção é
sistematicamente alterada na busca de metas, pela emoção que altera a
percepção para motivar escolhas e afastar perigos.

TEMA 4 – OS SENTIDOS E A PERCEPÇÃO

As informações que recebemos por meio dos órgãos sensoriais


determinam os comportamentos que manifestamos. Quaisquer que sejam esses
órgãos, eles são especialistas em gerar respostas que envolvem perspectivas
temporais, espaciais ou moleculares. No processo de transdução, uma fonte de
energia informacional se transforma em energia utilizável pelo sistema nervoso no
espaço neural. Transduzidos em impulsos elétricos os estímulos sensoriais são
transmitidos para o cérebro por meio dos nervos cranianos em pares e que
conectam o cérebro à cabeça, pescoço e tronco.
É oportuno salientar a importância dos nervos cranianos nos sentidos. Eles
são um conjunto de 12 pares de nervos na parte de trás do cérebro que enviam
sinais elétricos entre o cérebro, rosto, pescoço e tronco. Seus nervos cranianos
ajudam você a saborear, cheirar, ouvir e sentir sensações. Eles também ajudam
você a fazer expressões faciais, piscar os olhos e mover a língua (veja a figura a
seguir).

Figura 2 – Nervos cranianos

Nervo Tipo Função


I Olfatório Sensorial Informação olfativa
II Óptico Sensorial Informação visual
III Oculomotor Motor Função muscular na pupila e no globo ocular
IV Troclear Motor Movimenta o globo ocular para
cima/baixo/frente e para trás
V Trigêmeo Misto Envolve-se com movimento faciais (bochecha,
mandíbula)
VI Abducente Motor Controla o movimento dos olhos
VII Facial Misto Ligado à expressão facial, mandíbula, língua e
ouvidos
VIII Auditivo/vestibular Sensorial Funções ligadas à audição e equilíbrio
IX Glossofaríngeo Misto Função gustativa posterior da língua e controle
muscular da faringe

11
X Vago Misto Função ligada à digestão e frequência cardíaca
XI Acessório Motor Controla músculos do pescoço e ombro
XII Hipoglosso Motor Controla músculos da língua
Fonte: Silveira, 2022.

4.1 Visão

Quando nossos olhos focalizam a luz na retina, temos no nível fisiológico


uma percepção visual. É no interior da retina que se encontram células
fotorreceptoras que transformam a luz em sinais eletroquímicos transmitidos ao
cérebro. A percepção visual ocorre no córtex cerebral, mais precisamente no
córtex visual primário, também chamado de área V (de visual) conforme indicam
os autores a pouco citados. Nas células fotorreceptoras estão as opsinas,
moléculas responsáveis pela fototransdução (Lent, 2016), que transforma a
energia luminosa em sinais elétricos. Deste modo, raios luminosos entram no olho
pela pupila, atravessam o cristalino e seguem em direção ao fundo do olho, onde
formam imagens. Pegar uma luz e transformá-la em algo compreensível exige
distinguir o primeiro plano, do plano de fundo, o que implica reconhecer objetos
no meio de uma diversidade espacial.
Para o reconhecimento visual ocorrer, a luz dos fotorreceptores (sinais
eletroquímicos) se vale de comunicação neuronal que chega atrás da retina. Eles
ajudam a detectar contrastes numa imagem (luminosidade, bordas) e ao fazer
esse registro, passam os sinais eletroquímicos alterados, via nervo óptico, para o
cérebro.
São dois os tipos de fotorreceptores – cones e bastonetes. Os primeiros,
estão no centro da retina (fóvea) e trabalham com tarefas visuais de alta acuidade,
como leitura e visão de cores. Myers e DeWall (2022) explicam que boa parte dos
cones tem linha direta para o cérebro, transmitindo a mensagem para a única célula
bipolar envolvida com a transmissão. Eles permitem perceber cores. Os bastonetes
localizam-se nas áreas periféricas da retina e respondem a baixos níveis de luz, o
que explica sua importância para a visão noturna. Eles não dispõem da linha direta
destacada pelos autores quanto aos cones e assim, compartilham células bipolares
com outros bastonetes, enviando mensagens combinadas. Os bastonetes
possibilitam a visão em preto e branco.
Gazzaniga e Heatherton (2005) destacam na visão a organização
retinotópica que se refere à ordenação do caminho neuronal da retina ao lobo

12
occipital, mantendo relações espaciais de forma que as adjacências da retina
correspondem às adjacências no córtex visual primário. O nervo óptico é o
responsável pela visão, e o nervo oculomotor está relacionado ao movimento
ocular, o movimento das pálpebras e a função da pupila e do cristalino.

4.2 Audição

O sentido da audição à luz de Myers e Dewall (2022), Bradford e Harvey


(2022) e Lent (2016) pode ser entendido como o som que, ao chegar até nós, é
canalizado pelo ouvido e enviado para o canal auditivo externo, onde ondas
sonoras atingem o tímpano, cujo tecido conjuntivo vibra quando ondas sonoras o
atingem. As vibrações são transferidas para três pequenos ossos (martelo,
bigorna e estribo) da cavidade cheia de ar do ouvido médio e batem contra a
abertura do ouvido interno. Este, por sua vez, é formado por canais cheios de
líquido, incluindo a cóclea em forma de espiral. À medida que os pequenos ossos
se afastam, células especializadas na cóclea (tubo em formato de caracol no
ouvido externo) detectam pressão no fluido e ativam receptores nervosos
enviando sinais ao cérebro.
Diferentemente da visão, que para ocorrer se vale de fotorreceptores, a
audição é entregue aos mecanorreceptores (Lent, 2016), que são entendidos
como receptores da pele humana, sensíveis à pressão mecânica. Isso acontece
por meio de várias estruturas que filtram, amplificam e ajustam a estimulação das
células sensoriais. Essas estruturas estão localizadas na orelha externa, média e
interna. De modo objetivo, podemos dizer que no processo de audição:

O ouvido externo coleta as ondas sonoras, que são traduzidas em ondas


mecânicas pelo ouvido médio e transformadas em ondas e fluidos no
ouvido interno. O nervo auditivo traduz a energia em ondas elétricas e
as envia para o cérebro, que percebe e interpreta o som. (Myers; DeWall,
2022, p. 215)

A audição tem sua localização no lobo temporal. Neurônios auditivos no


tálamo direcionam-se para o córtex auditivo primário (chamado A1) mais
especificamente para uma área chamada de giro de Heschl. Gazzaniga e
Heatherton (2005) lembram que experimentos mostram que A1 tem uma
organização tonotópica, o que significa que neurônios na extremidade posterior do
giro de Heschl respondem melhor a frequências mais baixas, e neurônios na
extremidade dianteira respondem melhor a frequências mais altas. A parte auditiva

13
do nervo auditivo/vestibular é que conduz impulsos nervosos relacionadas com a
audição.

4.3 Olfação

A olfação, assim como a gustação que veremos na sequência, tem um


sentido químico. Na mucosa olfatória, há uma grande quantidade de receptores
sensíveis a um tipo diferente de moléculas, que nos possibilita sentir e distinguir os
mais variados cheiros. A proximidade entre olfato e paladar faz Tieppo (2021)
lembrar daqueles dias em que estamos com o nariz entupido por uma gripe, por
exemplo. Ao não sentirmos o cheiro das coisas, dizemos que a comida está
insossa, sem sabor.
As partículas de odor passam pelo nariz e pelas porções superior e posterior
da cavidade nasal (Gazzaniga e Heatherton, 2005). Quando sentimos o cheiro ao
inalar substâncias químicas pelo nariz, ativamos os receptores que desencadeiam
sinais. Os sinais viajam por fibras nervosas, por meio do epitélio olfativo (camada
de células sensíveis ao odor) do osso do crânio em direção aos bulbos olfativos até
chegar à área olfativa do córtex cerebral. As fibras nervosas constituem o nervo
olfatório, o primeiro dos doze nervos cranianos. Elas são fibras aferentes (que vão
do SNP ao SNC) e eferentes (do SNC ao SNP).
Seres humanos tem um sentido olfativo inferior à maioria das espécies
animais que dele fazem uso para alimentar-se, acasalar-se, reproduzir-se e se
organizarem socialmente. A espécie humana é mais sujeita à consciência, o que
não lhe tira um papel relevante na interação com o ambiente (Lent, 2016).

Somos capazes de perceber muitos milhares de cheiros diferentes, e já


se sabe que possuímos cerca de 500 a 1000 genes para as moléculas
receptoras do olfato. Trata-se, até o momento, da maior família de genes
já descoberta. Ainda assim, a diversidade da família dos receptores
moleculares do olfato não é suficiente para explicar a nossa capacidade
discriminativa (Lent, 2004, p. 202)

4.4 Gustação

O paladar é um estímulo que se dissolve na saliva. Gazzaniga e Heatherton


(2005) informam que o ser humano tem cerca de 10 mil botões de paladar que
contém os receptores e que estão localizados principalmente na língua. Os botões
formam as papilas, que são células gustativas agrupadas que nos fazem distinguir
o sabor. Ao nos alimentarmos, os produtos químicos do que comemos chegam às
papilas gustativas, que ativam os receptores nervosos. Estes, por sua vez, enviam
14
sinais para as fibras dos nervos fácil, glossofaríngeo e vago. Desse ponto, os
nervos carregam os sinais para a medula oblonga (área que comunica o cérebro
com a medula espinhal) que os retransmitem para o tálamo e o córtex cerebral.
Os nervos envolvidos são o facial, o glossofaríngeo e o nervo vago.

4.5 Tato

Células receptoras no interior de três camadas de tecidos da pele (epiderme


externa, derme média e hipoderme interna) detectam sensações táteis e
transmitem sinais por nervos periféricos em direção ao cérebro. O tato é uma
mistura de quatro sentidos básicos: pressão, tepidez, frio e dor (Myers; Dewall,
2022). Células na parte caudal do nervo trigêmeo recebem impulsos de tato leve
das regiões proximais da face. Uma lesão neste nervo causa alterações tróficas da
mucosa nasal, envolvendo a sensação do tato e temperatura. Esta última é
informada por termorreceptores que são células nervosas de toque na pele. Os
mecanorreceptores, também receptores de toque, executam movimentos que
desencadeiam impulsos nervosos. Ambos os tipos também transmitem a sensação
de pressão e dor.
Em relação à dor, os autores há pouco citados postulam que não há um tipo
específico de estímulo que a determine, mas diferentes nociceptores (neurônios
que enviam sinais de percepção de dor em resposta a um estímulo ou dano
decidual). Esses neurônios que são receptores de temperatura, toque e dor, têm
sua posição terminal na camada mais externa da pele, a epiderme.
Bradford e Harvey (2022) acrescenta um outro sentido relacionado a como
o cérebro entende onde o corpo está no espaço, a propriocepção. Ela inclui a
sensação do movimento e posição dos membros e músculos. Um exemplo seria o
toque na ponta do nariz, mesmo de olhos fechados, ou a pessoa que sobre os
degraus de uma escada sem olhar.

TEMA 5 – PERCEPÇÃO E COGNIÇÃO NO COMPORTAMENTO

A recepção de informações da realidade caracteriza a percepção, mas, além


disso, esses dados são selecionados, decodificados e interpretados em três
estágios: sensorial, perceptivo e cognitivo. Vimos que a fase sensorial é aquela em
que receptores identificam o ambiente externo, a fase perceptiva dá uma forma aos
dados sensoriais e à luz de Dortier (2007) vamos ver como ocorre a fase cognitiva.

15
Ao vermos um objeto sobre a mesa, dizemos: é um livro. Essa resposta é
provocada por um significado atribuído a uma informação visual. O autor reforça
que alguém que nunca viu um livro na vida não seria capaz desta dedução. Antes
das cognições vem as sensações, como exterocepção, interceptação e
propriocepção, ou seja, a percepção do exterior, a percepção do interior e a posição
do nosso corpo no ambiente. A sequência desse processo é determinada pela
atenção e motivação. Nossa percepção do mundo é finalizada e orientada conforme
a atuação dos nossos órgãos sensoriais, mas também pelos nossos centros de
interesse e conhecimento prévio. Andamos, corremos, dançamos, conversamos,
discutimos, mas para cada indivíduo, se os sentidos se assemelham aos outros
indivíduos, a percepção de todos esses eventos é individualizada pelo seu próprio
aprendizado pessoal.
Pela nossa perspectiva, percepção e cognição estão amplamente
relacionadas, pois uma afeta a outra e vice-versa. Uma coleta informações, a outra
a molda pelo raciocínio, intuição e experiências armazenadas. Podemos considerar
que as informações perceptivas têm o efeito de orientar decisões e ações e deste
modo moldar crenças. Estas crenças influenciam o modo como percebemos
pessoas e o que está em nossa volta. Deste modo, aspectos internos e externos
nos levam a tomar decisões que produzem determinados comportamentos. Isso
ocorre tanto inconscientemente como conscientemente. Nesse último caso, ela
depende da intensidade informativa do estímulo no comportamento de outra
pessoa, ou do ambiente. As duas formas estão relacionadas a processos
cognitivos. Vejamos como isso ocorre em Weiten (2010) e Cherry (2022).

• A percepção propriamente dita é um processo cognitivo que permite


receber informações pelos sentidos como forma de responder e interagir
com o mundo.
• Por meio da atenção, as pessoas se concentram em um estímulo
específico do ambiente. Esse processo cognitivo leva em conta a
focalização consciente de uma determinada classe de eventos ou
estímulos.
• A linguagem é um processo cognitivo vinculado à capacidade de entender
e expressar pensamentos por meio de palavras faladas ou escritas. Tal
condição nos permite comunicar-se com outras pessoas e tem papel
relevante para o pensamento.

16
• A aprendizagem nos leva a assimilar coisas novas, sintetizar informações
e integrá-las ao conhecimento prévio. Trata-se de uma mudança
relativamente duradoura num comportamento ou conhecimento adquirido
devido à experiência.
• A memória nos permite codificar, armazenar e recuperar informações. Sua
importância está relacionada à perspectiva de reter o conhecimento sobre
o mundo e suas histórias pessoais. Um conceito ligado à memória é o
esquema, que pode ser entendido como um conjunto de conhecimentos
sobre um objeto ou evento abstraído pela experiência anterior.
• A aprendizagem requer processos cognitivos envolvidos em assimilar
coisas novas, sintetizar informações e integrá-las ao conhecimento prévio.
• A emoção impacta como percebemos e respondemos ao mundo ao nosso
redor, como interpretamos e, posteriormente julgamos as ações do outro.
Ela envolve uma experiência subjetiva (componente cognitivo), uma
estimulação física (componente fisiológico) e uma manifestação específica
(componente comportamental). 2
• O pensamento é uma parte essencial de todo processo cognitivo. Ele
permite que as pessoas se envolvam na tomada de decisões, na resolução
de problemas e no raciocínio superior. É por ele que relacionamos
informações, desenvolvemos operações cognitivas e construímos
representações mentais.

Embora não exista até o presente momento estudos determinantes sobre


uma divisão nítida entre os domínios das habilidades cognitivas e habilidades
perceptivas, é inegável que as duas compartilham informações. Enquanto a
percepção é a coleta de informações, a cognição é a aquisição de conhecimento
por meio do uso dos processos cognitivos.

2
Weiten (2010), p. 292) apresente o seguinte exemplo: ”se você estiver preso em um
engarrafamento, provavelmente classificará esta estimulação como raiva. Se estiver se
submetendo a um exame importante, talvez a defina como ansiedade. Se estiver comemorando
seu aniversário, provavelmente irá chamá-la de alegria”
17
REFERÊNCIAS

ALVAREZA, M. V. S.; MERINOA, M. T. G.; GONZALEZ, E. V. La percepción


directiva: influencia del perfil cognitivo y de factores contextuales. Cuadernos de
Economía y Dirección de la Empresa CEDE, v. 14, n. 2, 2011. Disponível em:
<[Link]
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Acesso em: 16 maio 2022.

BRADFORD, A.; HARVEY, A. The five (and more) human senses. LIVE
SCIENCE, 8 mar. 2022. Disponível em: <[Link]
[Link]>. Acesso em: 16 maio 2022.

CHERRY K. What Is Perception? Verywell Mind, 2020. Disponível em:


<[Link]
Acesso em: 16 maio 2022.

_____. What Is Cognition? Verywell Mind, 2022. Disponível em


<[Link] Acesso em: 16 maio
2022.

DORTIER, J.-F. La perception, une lecture du monde. Grands Dossiers, n. 7,


2007. Disponível em <[Link]
lecture-du-monde_fr_21020.html>. Acesso em: 16 maio 2022.

GAZZANIGA, M. S. e HEATHERTON, T. F. Ciência psicológica: mente, cérebro


e comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2005.

LENT, R. Cem bilhões de neurônios: conceitos fundamentais de neurociência.


São Paulo: Editora Abreu, 2004

LENT, R. (Coord.) Neurociência da mente e do comportamento. Rio de Janeiro:


Guanabara Koogan, 2016.

MYERS, D. G. E.; DEWALL, C. N. Psicologia. Rio de Janeiro: LTC, 2022.

TIEPPO, C. Uma viagem pelo cérebro: A via rápida para entender neurociência.
São Paulo: Editora Conectomus, 2021.

TRAFTON, A. How expectation influences perception. MIT News, 15 jul. 2019.


Disponível em: <[Link]
perception-0715>. Acesso em: 16 maio 2022.

18
VILLEMOR-AMARAL, E. de; WERLANG, B. S. G. Atualizações em métodos
projetivos para avaliação psicológica. São Paulo: Cassa do Psicólogo, 2011.

WEITEN, W. Introdução à psicologia: temas e variações. São Paulo: Cengage


Learning, 2010.

ZADRA, J. R.; CLORE, G. L. Emoción y percepción: el papel de la información


afectiva. BIONEUROEMOCIÓN, jun. 19, 2019. Disponível em
<[Link]
information/>. Acesso em: 15 maio 2022.

19
AULA 6

NEUROCIÊNCIA E
COMPORTAMENTO
HUMANO

Prof. Reginaldo Daniel da Silveira


INTRODUÇÃO

Além da motivação, a recompensa é outro fator que impulsiona a vida


humana. Objetos, pessoas, eventos podem se transformar em recompensa,
gerando sensações de prazer. A forma como isso acontece compreende o circuito
cerebral da recompensa. Comunicações produzidas pela rede de neurônios no
cérebro, por meio de substâncias químicas, mobilizam determinadas áreas
cerebrais e provocam a sensação de recompensa. Que áreas são estas e que
substâncias químicas são importantes em todo o processo é o que veremos a
seguir.

TEMA 1 – O REFORÇO E A RECOMPENSA

Uma rede de nervos entre o tronco encefálico, que desempenha papel


relevante no controle da excitação, referida como formação reticular (Myers;
DeWall, 2022), foi a protagonista de dois erros em experimentos que vieram a
trazer maior conhecimento sobre o estado de alerta e a recompensa. Esta área,
que agrega de forma relativamente difusa neurônios de tamanhos e tipos
diferentes e que ocupa a parte central do tronco encefálico, trouxe ao
conhecimento, por meio de um erro casual, uma noção sobre onde poderia estar
a consciência.
Lent (2016) relata que, em 1949, o americano Horace Magoun e o italiano
Giuseppe Moruzzi por engano acabaram estimulando a formação reticular do
mesencéfalo de um gato anestesiado. O eletroencefalograma, que estava
relacionado a uma resposta de sono profundo, imediatamente mudou para um
estado de vigília. Os dois cientistas, ao avançarem no experimento, perceberam
que o estímulo dessa região do cérebro provoca um estado de alerta de
consciência em animais não anestesiados que estavam sonolentos ou
adormecidos. Se a descoberta de um centro “causador de consciência” chamou a
atenção da comunidade científica, um outro erro em procedimentos com outros
pesquisadores levaria à descoberta dos “centros de recompensa”.
Quando ouvimos falar em sistema de recompensa, considerando-se os
estudos da neurociência, logo pensamos na interação de vários sistemas neurais.
Neste ponto, buscamos uma visão geral de neurotransmissores e regiões
cerebrais que se envolvem na recompensa. Falar em sistemas neurais e sua
relevância é incluir áreas do cérebro envolvidas no aprendizado de que

2
determinado estímulo provoca determinada recompensa, e isso pode ser
relacionado a sistemas neurais separados e que exercem um papel mediador
entre um objeto ou evento estimulador e a resposta comportamental do indivíduo.
A recompensa é facilmente ligada à ideia de reforço positivo, e a pergunta
que surge é: como chegamos à concepção de que os mecanismos neurais
respondem pelo reforço produzido no indivíduo? Gazzaniga e Heatherton (2005)
explicam que tudo começou na década de 1950, em estudos sobre a estimulação
elétrica de uma região específica do cérebro que facilitaria a aprendizagem. Num
experimento, James Olds e Peter Milner destacados pelos autores, aplicaram um
eletrodo ao cérebro de ratos quando eles estavam posicionados num ponto
específico de uma jaula. Pela lógica, com o procedimento aversivo, os ratos
deveriam evitar aquele local, mas um pequeno erro cirúrgico fez os pesquisadores
aplicarem o estímulo elétrico na parte errada do cérebro, e por consequência, em
vez de evitar a área da jaula associada ao procedimento aversivo, os ratos ali
permaneceram querendo mais.
Myers e DeWall (2022) reportam que, ao se dar conta de que invés de
implantar o eletrodo na formação reticular do rato, o dispositivo foi colocado em
uma região do hipotálamo, Olds e Milner se depararam com um centro cerebral
que fornece recompensas prazerosas. No relato, os dois neuropsicólogos da
McGill University de Montreal ampliaram o experimento em locais específicos do
cérebro no procedimento referido por Gazzaniga e Heatherton (2005) como
autoestimulação intracraniana (ICSS). O estudo localizou outros centros de prazer
no cérebro à não atribuição de sentimentos humanos aos ratos. Hoje, estes pontos
são vistos como centros de recompensa ao invés de centros do prazer. “Quando
puderam pressionar alavancas para ativar sua própria estimulação, os animais as
vezes o faziam mais de mil vezes por hora” (Myers e Dewall, 2022, p. 61).
Para Gazzaniga e Heatherton (2005), grande parte dos psicólogos vê a
ICSS, como a ativação de pontos do cérebro por reforços naturais como alimento,
água e sexo. Nos ratos, eletrodos aplicados aos centros de recompensa eliciam
comportamentos como comer, beber e copular com um parceiro disponível. Privar
um animal do alimento ou de água aumenta a ICSS, o que indicaria a tentativa de
se chegar ao estado subjetivo da recompensa natural. As ações humanas, são,
portanto, impulsionadas. Dois fatores contribuem para isso: as necessidades
relacionadas à alimentação, sono e evitação da dor e as recompensas. Objetos,
eventos e atividades transformam-se em recompensa se provocarem motivação.
Como isso acontece?
3
Criaturas humanas que somos, damos sentido às coisas que acontecem
no mundo que nos cerca. Pensamos, lembramos, falamos, mexemos os braços,
caminhamos, respondemos a eventos geradores de emoções, como perder um
emprego, apaixonar-se, ficar doente, ganhar um presente significativo. Quando
isso acontece, podemos sentir os batimentos cardíacos, a velocidade da
respiração. Duas coisas são importantes neste processo: as estruturas cerebrais
e as substâncias químicas. Circuitos neurais estão ligados a estas duas coisas.
Damos sentido às coisas ao nosso redor pela visão, olfação, audição, tato e
paladar, recebendo e enviando mensagens, muitas vezes ao mesmo tempo.
Os mecanismos neurais por trás da autoestimulação craniana, ao envolver
tanto as estruturas cerebrais como as substâncias químicas, formam a base
biológica da recompensa. O hipotálamo, por exemplo, uma parte vital do sistema
límbico, é a área que por meio do desenvolvimento humano, e levando-se em
conta os circuitos neurais, produz múltiplos mensageiros químicos, chamados
hormônios. São estas substâncias que controlam os níveis de água no corpo, os
ciclos do sono, a temperatura corporal e a ingestão de alimentos. Vejamos, na
sequência, as principais estruturas cerebrais e substâncias químicas vinculadas
ao que chamamos de sistemas de recompensa.

TEMA 2 – SISTEMA DE RECOMPENSA

Vimos anteriormente que dentro do tronco encefálico, entre os nossos


ouvidos, está localizada a formação reticular, vista por Myers e DeWall (2022)
como uma “rede” de neurônios que vão da medula espinhal até o tálamo. Nesta
viagem, entre a medula espinhal e o tálamo, parte das informações sensoriais se
ramificam para a formação reticular, que filtra os estímulos aferentes, transmite
informações relevantes para outras estruturas e desempenham a função de
controle da excitabilidade. Foi buscando esta região do cérebro que os
experimentos de Moruzzi e Magoun, Olds e Milner, por meio de erros nos levaram
a dar atenção a determinadas estruturas ligadas ao sistema de recompensa como
o córtex pré-frontal, o núcleo accumbens e a área tegmental. Esta região responde
pela vontade e tomada de decisão e resulta em sensações de prazer e satisfação.
De forma objetiva, podemos dizer que o córtex pré-frontal trabalha a
motivação e o foco da atenção e está envolvido com a amígdala, vista como base
das emoções e o hipocampo, o regulador da memória. A conexão e o movimento
motor são atribuídos ao núcleo accumbens. Estas estruturas estendem-se em

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informações ao hipotálamo, que regula funções autonômicas (frequência
cardíaca, regulação térmica, metabolismos como fome, sede e reprodução).
Estendidas por várias regiões do cérebro, a área tegmental ventral transmite
mensagens para o que resta do circuito de recompensa, influindo na liberação da
substância química dopamina (Tassin, 2021), vista como a “molécula do prazer”.

2.1 Córtex pré-frontal

Tieppo (2021) vê o córtex pré-frontal (CPF) como a “torre de controle”, a


parte do cérebro das funções executivas que orienta o comportamento para
ganhos futuros, planeja etapas de projeto e responde pela organização à qual
chamamos por nossa parte de “estruturação racional”. As habilidades de
selecionar estratégias de movimento para respostas são determinantes para
garantir a sobrevivência de um animal. Neste sentido, o CPF é apontado como
uma região cortical aprimorada na supervisão da seleção de tarefas relevantes
num dado contexto (Lent, 2016).
Ter todos os predicados de uma torre de controle não garante que todas as
decisões sejam determinadas pelo CPF e assim seguidas. Um exemplo é quando
a pessoa come o chocolate preferido e experimenta a sensação de satisfação.
Nesse instante, registra-se algo agradável e prazeroso que “precisará ser repetido
em outro momento”. Como o cérebro detectou que o chocolate é bom, o sistema
de recompensa ensaia um: “repita o ato”. O CPF, então, estabelece a modulação,
onde a racionalidade busca assumir a situação e determinar a tomada de decisão.
Neste momento o CPF se vê frente a frente com o sistema límbico (amígdala,
hipotálamo, hipocampo) e a área tegmental ventral. Como resultado, poderemos
ver o CPF garantir a decisão racional ou o sistema límbico defender o lado
emocional. Neste caso, o comportamento prazeroso será repetido.

2.2 Hipotálamo

Situado logo abaixo do tálamo, o hipotálamo tem participação efetiva na


cadeia de comando responsável pela manutenção do organismo. Determinados
agrupamentos neurais nesta estrutura têm influência na fome, outros na sede, na
temperatura corporal e no comportamento sexual, elementos que juntos atuam na
homeostase interna (Myers; DeWall, 2022). O hipotálamo recebe informações do
CPF, e como dizem os autores, ao monitorar o estado do organismo, esta

5
estrutura regula tanto a química do sangue quanto as ordens oriundas de outras
partes do cérebro.
Um exemplo dado pelos autores mostra que, ao receber sinais do cérebro
de que a pessoa está pensando em sexo, o hipotálamo secreta hormônios que
ativam a “glândula mestra” do sistema endócrino, a hipófise, para induzir suas
glândulas sexuais e liberar seus hormônios que acentuam o pensamento sobre
sexo no córtex cerebral. Desta forma, o cérebro afeta o sistema endócrino e este
afeta o cérebro. A experiência antes citada por Olds e Milner foi determinante para
avançarmos no entendimento do papel do hipotálamo no sistema de recompensa.

2.3 Amígdala

A amígdala não é descrita de modo frequente como relacionada ao circuito


de recompensa, mas sim ao circuito do medo, por desempenhar papel significativo
na resposta aos estímulos eliciadores do medo. Gazzaniga e Heatherton (2005,
p. 132) explicam que “o processamento afetivo de estímulos assustadores na
amígdala é um circuito resistente, que se desenvolveu no curso da evolução para
proteger os animais do perigo”. Um aspecto que a aproxima do circuito de
recompensa é que, além do papel vital para aprendermos a associar fatos no
mundo com respostas emocionais, a amígdala nos leva a associar, por exemplo,
um novo alimento com seu sabor.
Um artigo publicado pela plataforma francesa de informações médicas
Santé Log (2015) destaca o papel da amígdala no planejamento de ações para
obter recompensas. A publicação envolvendo um estudo da Universidade de
Cambridge ressalta que durante um experimento com macacos, foi registrada
atividade de diferentes áreas do cérebro por meio do uso de eletrodos que
possibilitaram acompanhar a sequência de tomada de decisão. Os animais foram
observados em situações em que deveriam decidir se tomavam um sumo de fruta
em cada uma de alguma das etapas ou deixavam para consumi-lo em maior
volume mais tarde. Quando os macacos decidiam por uma escolha de longo
prazo, ou seja, vários passos a mais para obter uma recompensa maior, os
neurônios na amígdala mostravam um padrão de atividade que refletia
planejamento. O planejamento do macaco era atualizado à medida que o plano
avançava, até que a recompensa planejada pudesse ser obtida.

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2.3 Hipocampo

Diante de alguma coisa que nos intriga, conexões entre os centros de


recompensa e o hipocampo, responsável pela consolidação dos circuitos de
memória, são ativadas no cérebro. Ao manter-se por algum tempo, esta condição
torna mais fácil lembrar e aprender não só o que nos interessa, mas também
outras informações recebidas ao mesmo tempo. Este entendimento, em
Gambarini (2014), é por ele mesmo destacado no estudo de um grupo de
neurocientistas e psicólogos da Universidade da Califórnia. Voluntários foram
submetidos a exames de ressonância magnética enquanto respondiam a
perguntas, algumas intrigantes e outras indiferentes. Os participantes foram
levados a tentar responder, mas apenas por um período de tempo durante o qual
uma série de rostos era mostrada na tela.
O estudo demonstrou que se a curiosidade dos sujeitos fosse despertada,
eles teriam mais facilidade para aprender não apenas o que os estimulou, mas
também informações mais bem lembradas sem qualquer interesse particular
como os rostos mostrados. Outro resultado apontado foi de que quando a
curiosidade é estimulada, a atividade nos circuitos da recompensa aumenta,
conforme também ocorre com o hipocampo, região do cérebro importante para a
formação de novas memórias. Gambarine (2014) destaca que estas interações
entre o sistema de recompensa e o hipocampo parecem colocar o cérebro numa
condição mais provável para aprender e reter informações, mesmo aquelas que
não sejam de interesse ou relevância particular.

2.4 Núcleo accumbens

O conjunto de neurônios localizados dentro da área cortical do


prosencéfalo, denominado núcleo accumbens (NA), está vinculado à recompensa
pela ativação dos seus neurônios de dopamina. Myers e DeWall (2022) citam sua
descoberta como um centro de recompensa pelos estudos feitos em golfinhos e
macacos. Nestes trabalhos, revelou-se a presença daquele transmissor ligado à
sensação de prazer e motivação.
Gazzaniga e Heatherton (2005) lembram que na maioria das vezes que
fazemos algo agradável, o prazer obtido é consequência da ativação de neurônios
da dopamina no NA. A apreciação da comida depende da atividade do referido
mensageiro químico, o que enseja considerar que a fome está relacionada à

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liberação de dopamina. Os dois psicólogos, professores e neurocientistas
destacam que a comida tem melhor sabor na fome e a água é mais
recompensadora na sede porque existe maior liberação de dopamina em
situações de privação do que de não privação.

2.5 Área tegmental

O núcleo accumbens recebe informações de uma outra estrutura localizada


na parte superior do tronco encefálico, a área tegmental ventral (ATV). Trata-se
de um grupo de neurônios particularmente importante no circuito de recompensa,
por fazer parte de um circuito de mensagens de várias outras regiões sobre o grau
de satisfação das necessidades básicas, ou mais especificamente humanas.
A transmissão da ATV para o NA ocorre graças ao mensageiro químico que
vem ocupando nossa atenção neste encontro, a dopamina. O aumento deste
neurotransmissor no núcleo accumbens e em outras regiões terá então um efeito
reforçador sobre comportamentos que nos permitem satisfazer nossas
necessidades básicas.

TEMA 3 – A QUÍMICA CEREBRAL NA RECOMPENSA

Substâncias químicas produzidas no interior de organismos e liberadas


interna ou externamente produzem respostas tanto internas como externas. A
comunicação possibilitada por estas substâncias em mensagens regulares e
rápidas afeta o modo como o indivíduo se sente e funciona. Este modo de
comunicação corresponde a eventos no ambiente que evocam uma percepção
fisiológica ou comportamental e que para ocorrer enseja a existência de um
emissor e um receptor da informação. Entre as substâncias químicas que nos
interessam para compreender os mecanismos de funcionamento dos sistemas de
recompensa estão os feromônios, os hormônios e os neurotransmissores.

3.1 Feromônios

Podemos considerar que feromônios são quaisquer sinais químicos usados


na comunicação entre indivíduos de uma espécie, sinais estes produzidos de
forma endógena em quantidades mínimas por organismo. Na definição de
Gazzaniga e Heatherton (2005, p. 162), “os feromônios são substâncias químicas
liberadas por animais, incluindo provavelmente os humanos” que desencadeiam

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reações fisiológicas ou comportamentais. Neste entendimento, estas substâncias
não eliciam “cheiros” conscientes, mas se processam de modo similar aos
estímulos olfatórios.
Para algumas espécies, os feromônios são essenciais para a sobrevivência
e a interação social. Entre as formigas, por exemplo, há um tipo determinado de
feromônio que faz um indivíduo seguir atrás do outro alinhadamente em busca de
comida. Trata-se do “feromônio recrutador”, mas dependendo de qual seja a
comunicação, cria-se uma expectativa de resposta a ser produzida em diferentes
situações como autodefesa, acasalamento ou alimentação, por exemplo, em que
ele exerce o papel respectivo de “feromônio sinalizador”, “feromônio excitador” ou
“feromônio desencadeador”.
Alguns estudos relacionados aos feromônios têm apontado a participação
dessas substâncias na recompensa. Num deles, publicado da revista Frontiers in
Neuroanatomy e produzido por pesquisadores da Universitat de Valencia da
Universitat Jaume I, ratas são atraídas pelos feromônios masculinos. Nesta
condição, ocorre uma liberação de dopamina no núcleo accumbens do cérebro, a
região que controla o comportamento direcionado à aquisição de recompensas
(Sánchez-Catalán, 2017).
Sabe-se que existem diferentes formas dos feromônios serem excretados:
alerta de perigo, sinalização de comida, encontrar um parceiro. Há um debate em
vigência sobre a existência desta substância em seres humanos, e o que se
evidencia é o crédito que cientistas e pesquisadores dão ao potencial humano de
se comunicar com outros pela produção de feromônios, algo que merece mais
estudos.

3.2 Hormônios

Se os feromônios são produzidos internamente e funcionam fora do corpo,


os hormônios são produzidos e agem dentro do corpo de um organismo. Eles
também atuam como mensageiros químicos e sua produção se dá por meio de
glândulas endócrinas que viajam pela corrente sanguínea e afetam outros tecidos
(Myers; DeWall, 2022).
Quando falamos do hipotálamo anteriormente, destacamos que a tarefa de
monitorar o organismo faz com que esta estrutura regule a química do sangue e
as ordens do cérebro. Imagine um movimento sináptico do córtex pré-frontal em
que o pensamento é voltado para o sexo. Nesta condição, o hipotálamo secreta

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hormônios que ativam a chamada glândula mestra do sistema endócrino — a
hipófise, que ativa a liberação de hormônios que por sua vez darão ênfase à ideia
de sexo no córtex cerebral.
É importante que se ressalte a condição de peça-chave do hipotálamo em
relação aos hormônios. Tieppo (2021) enfatiza que é por ele que ocorre a
secreção de praticamente todos os hormônios do corpo humano, incluindo-se
aqueles secretados pelo córtex da glândula suprarrenal, que libera os
corticosteroides, hormônios que orquestram respostas fisiológicas em situações
estressantes.
Os hormônios, a exemplo dos neurotransmissores que veremos a seguir,
como se percebe, transportam sinais de uma parte do corpo para outra e ocupa
papel relevante na fisiologia do corpo, controlando uma variedade de funções,
sejam físicas, sejam psicológicas, onde se inclui o nosso humor, padrões
alimentares e ciclos do sono.

3.3 Neurotransmissores

Entre os aspectos que diferenciam neurotransmissores de hormônios, está


o fato de que estes se incluem no sistema endócrino e aqueles no sistema
nervoso. Considera-se que a comunicação via neurotransmissores pelo sistema
nervoso é mais imediata, ocorrendo de um neurônio pré-sináptico que cruza a
sinapse e é recebido pelo neurônio pós-sináptico que transmite o impulso nervoso.
Já os hormônios atuam na comunicação celular pelo envio de sinais entre tecidos
distantes, que são despejados diretamente no sangue e dirigem-se ao alvo.
Nos últimos quarenta anos, vários progressos aconteceram na
identificação dos neurotransmissores e suas funções. Gazzaniga e Heatherton
(2005) postulam que até um certo tempo acreditava-se haver poucas destas
substâncias envolvidas com a atividade cerebral. Hoje, estima-se que mais de
cem diferentes tipos de neurotransmissores desempenham papel significativo na
atividade mental e comportamento. Há um interesse visível entre os cientistas em
estudar comportamentos recompensadores associados ao neurotransmissor
chamado dopamina no núcleo accumbens.
Os neurotransmissores são, portanto, os protagonistas no transporte de
sinais entre neurônios. Eagleman (2017) argumenta que dependendo do histórico
da atividade, as conexões podem ser mais fracas ou mais fortes. Quando
enfraquece, a conexão murcha e desaparece; quando se fortalece, origina novas

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conexões. Nesta dinâmica, parte da reconfiguração é orientada por sistemas de
recompensa que colocam em destaque a dopamina. Atuando como mediadores,
os neurotransmissores exercem a função de correio. Além da dopamina, são
exemplos a noradrenalina, a histamina, a tirosina e a serotonina, que é ligada à
felicidade por transmitir a sensação de bem-estar, ajudar a conciliar o sono e por
reduzir o desejo exagerado de doces (Fernandes, 2016).

TEMA 4 – O NEUROTRANSMISSOR DO PRAZER E OUTRAS SUBSTÂNCIAS

4.1 Dopamina

A dopamina, muitas vezes referida como “neurotransmissor do prazer”, é


uma das substâncias químicas mais conhecidas do sistema nervoso. Sua função
principal é ativar os circuitos de recompensa do cérebro, além de outras funções
menos conhecidas. Ela atua tanto na ativação quanto na inibição da atividade
cerebral dependendo do lugar em que é liberada.
Se uma pessoa come quando está com fome, bebe quando tem sede ou
faz sexo quando está excitada, ela ativa os receptores de dopamina e vivencia o
prazer (Gazzaniga; Heatherton, 2005). Algumas drogas têm papel agonista em
relação à dopamina. Os autores afirmam num exemplo que a cocaína bloqueia a
reabsorção de dopamina nas vesículas pré-sinápticas e possibilita um efeito mais
prolongado da dopamina sobre os receptores pós-sinápticos, ensejando uma
excitação aumentada e a sentimentos de euforia. Ratos em experimentos
aprendem rapidamente a se autoadministrar cocaína, o que reforça a ideia das
qualidades recompensatórias.
Eagleman (2017) ilustra o papel da dopamina num passeio ao parque. A
pessoa faz uma previsão no cérebro quando será recompensador ir até aquele
local. Se lá estiverem amigos e por consequência o passeio for melhor do que a
pessoa esperava, haverá um aumento da avaliação na próxima vez em que ela
tomar esta decisão. Se por outro lado, o parque mostrar abandono e chover a
avaliação na próxima ocasião será menor. Isso é explicado pelo grupo de células
no mesencéfalo que falam a língua da dopamina. Diante de um descompasso
entre expectativa e realidade, a dopamina transmite um sinal que reavalia o nível
do valor. Se as coisas ocorreram melhor do que o esperado, há um aumento
explosivo de dopamina; se foi pior, há uma diminuição da substância. Ocorre um
ajuste de expectativa para a próxima vez se aproximar mais da realidade. A

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dopamina age como corretora de erros: uma avaliadora química que atualiza
avaliações.
A dopamina é, portanto, uma moduladora final de entradas físicas e
psíquicas. Neurônios dopaminérgicos (principal fonte de dopamina) modulam a
hierarquia das estruturas corticais e subcorticais a fim de que a ação desejada
(motora, se for algo como correr ou andar, ou psíquica, se exigir atenção) possa
ser realizada. Como dissemos, a dopamina é o modulador final de entradas físicas
e psíquicas. Isso significa que, dependendo das informações recebidas a
montante, neurônios dopaminérgicos modulam a hierarquia das estruturas
corticais e subcorticais para que a ação desejada (motora, se for uma questão de
correr ou andar, ou psíquica, se for uma questão de concentrar a atenção) pode
ser realizada (Tassin, 2021).

4.2 Outras substâncias químicas

Outras substâncias não tão referidas à recompensa, como a dopamina, são


citadas pelas sensações de alegria, gratificação e bem-estar. Liberados pelo
próprio organismo, apresentam-se em determinadas situações e são observados,
por exemplo, em práticas esportivas, meditação e outros. Entre eles, estão a
serotonina, a endorfina e a ocitocina.
A exemplo da dopamina, a serotonina tem função moduladora e atua em
diferentes regiões do cérebro. Sua relevância é observada em estados
emocionais, controle de impulsos e no sonhar. Pessoas com baixos níveis de
serotonina podem apresentar humor triste e estado de ansiedade; algumas
sentem voracidade por alimentos e também agressividade. Ela também é referida
na mediação de funções fisiológicas importantes, como os movimentos
peristálticos, a manutenção da circulação sanguínea e a integridade
cardiovascular.
A endorfina atua na redução natural da dor e na recompensa. Ao atuar nas
células nervosas específicas, nos faz sentir menos desconforto. Além disso, ela
ajuda a controlar a resposta do corpo ao estresse. Pesquisas apontam ainda
potencial para inibir o crescimento de células cancerígenas e equilibrar a produção
de outros hormônios. Esta substância está associada ao humor eufórico, condição
que nos ajuda a entender por que drogas como a heroína ou a morfina, que imitam
as endorfinas, quando se unem aos seus receptores tornam-se aditivas
(Gazzaniga; Heatherton, 2005).

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A ocitocina é ligada à redução da ansiedade e insegurança, sendo
chamada de hormônio do amor. Muitas pesquisas também indicam a ligação entre
a ocitocina e a saúde sexual, potencializando o desejo sexual feminino e o
orgasmo masculino. Ela também está presente na hora do parto, estimulando as
contrações do útero e a liberação do primeiro leite. Pliszka (2004) reporta que
quando a ocitocina é liberada em fêmeas prenhas, ela provoca contrações
uterinas e desencadeia a lactação. Ele também afirma que o som do choro do
bebê, leva neurônios hipotalâmicos a liberar ocitocina..

TEMA 5 – AMOR, BEM-ESTAR E APEGO EM CIRCUITOS NEUROQUÍMICOS

As duas amigas da faculdade, que por vezes aparecem em nosso estudo,


se reuniram para estudar para uma prova de Neuropsicologia. Na casa de Helena,
num pequeno intervalo para o café, Célia passou a fazer confidências de sua
experiência amorosa com Nestor, até que a amiga disse:
— O que você acha de ligar a sua história ao que estamos aprendendo no
curso?
— Como assim, Helena?
— Você já está há algum tempo namorando o Nestor, lembro como tudo
isso iniciou. Aí tem circuitos neurais, tem neurotransmissores, tem cérebro. Vamos
reconstruir um pouco da sua história por este caminho? Quais as etapas deste
circuito?
— Quatro ou cinco.
— Não, Célia, deve haver mais!
— Sim, claro, mas estou me referindo ao início de tudo no meu caso, claro.
Celia rememorou o momento em que se interessou por Nestor. Eles já se
conheciam da faculdade, mas não tinham proximidade. Um dia em que foi
caminhar no Parque Barigui, reparou em Nestor correndo. Ele vestia uma
camiseta preta t-shirt running com lateral e manga estampados em azul claro.
Nunca o vira daquele jeito, charmoso, olhos no horizonte, peito se alargando nas
passadas, braços a se mexer graciosamente. Ficou admirando a corrida até ele
se perder ao longe.
— Aquela visão produziu dopamina no meu cérebro, que me levou a vir ao
parque durante a semana mais três vezes no mesmo horário até vê-lo de novo.
A atração que uma pessoa sente por outra envolve paixão, motivação e
prazer, estados ativadores de estruturas num circuito cerebral vinculado à

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recompensa em ações repetitivas que a aproximem do alvo da atração. Quando
voltou ao parque no outro dia e reparou Nestor, Célia voltou a sentir o efeito da
dopamina. Dali para frente, o córtex pré-frontal (CPF), o núcleo accumbens (NA)
e a área tegmental ventral (ATV) viriam a ser ativados. No início de tudo, disse
ela, a sensação de prazer ativa a produção de neurotransmissores (neste caso, a
dopamina), desencadeando o sistema de recompensa.
Célia “deu um jeito” de se mostrar visualmente e Nestor parou a fim de
cumprimentá-la, o que lhe provocou uma situação interna típica àqueles
momentos em que os níveis de dopamina no NA do cérebro aumentam pela
projeção de neurônios que viajam na via mesolímbica por meio da ATV.
Quando começou a conversar com Nestor, Célia vivenciou em seu cérebro
movimentos neurais que levaram a informação ao CPF, que a fez pensar se não
estava se oferecendo, se ele estava sendo gentil, se valia ou não valia a pena ter
buscado encontrá-lo. Neste ponto, lembrou de alguns olhares trocados na
faculdade, em alguém que com ele se encontrou, em trabalhos que ele
apresentou, ao mesmo tempo que olhava seu porte físico, seu sorriso cúmplice.
Isso tudo movimentava seu cérebro sobre o passo seguinte. As mensagens
chegadas ao CPF são trabalhadas na atenção, memória, motivação e
planejamento de ação. Neste processo de modulação, o cérebro prepara-se para
colocar o lado racional frente ao lado emocional.
À medida que avançou no bate-papo, Célia pensou: “será que eu quero
estar com ele?”. “Será que eu já gostava dele antes sem me dar conta?” Neste
momento — disse a Helena —, é quando o córtex pré-frontal desfila suas razões
e a área tegmental ventral expõe suas emoções.
A conversa se estendeu. Ele pareceu até esquecer que a corrida fora
interrompida e por um momento colocou a mão nos ombros de Célia. Nesse
instante, ela sentiu o pulso acelerar, a respiração mudar e as bochechas a
esquentar (o que estava acontecendo?). Célia, não falou numa quinta etapa,
apenas disse que no seu caso a emoção do amor venceu, o que levou Helena a
perguntar:
— Mas, e aquilo que aconteceu em setembro passado, que você teve uma
crise de ciúme, disse que iria acabar o namoro e coisa e tal?
— Menina, aquilo foi quando eu inventei de achar que estava muito gorda
e resolvi fazer uma dieta. Naqueles dias, passei mal, fui ao médico e ele me disse
que eu estava carente de vitamina B. Fui ao psicólogo, ao neurologista e me
disseram que provavelmente eu estava com problemas de serotonina.
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— Sei, aí você tomou fluoxetina?
— Negativo. Basicamente, decidi mudar meus hábitos, passei a comer
alimentos ricos em triptofano (aquela substância que produz serotonina) na minha
alimentação, passei a caminhar mais vezes no parque. Depois disso, sabe o que
aconteceu? Diminuiu minha irritabilidade, a insônia, os problemas
gastrointestinais e entendi que meus ciúmes do Nestor era uma coisa minha,
boba. Na verdade, amiga, o curso que estamos fazendo na faculdade me ajudou
nisso. Quando pensei nisso nesse assunto, lembrei de alguns livros que nós lemos
falando sobre a diminuição de neurotransmissores nas fendas sinápticas, coisa
que acontecia comigo.
Célia se referia a coisas do tipo neurônios não produzirem o suficiente de
um neurotransmissor específico, desativação por enzima, reabsorção muito
rápida e, no seu caso, pelo que entendeu do que ouviu dos profissionais, era a
falta da serotonina. Em determinadas situações em que as pessoas não denotam
bem-estar, elas podem estar carentes deste neurotransmissor. Isso pode estar
relacionado ao que Fernandes (2016) explica quando fala em desequilíbrio
químico de serotonina: pouca presença de serotonina nas lacunas sinápticas,
fazendo com que as vias serotonérgicas no cérebro fiquem: <hipoativas.
— Célia, você e o Nestor estão namorando há um ano e meio, e em um
ano nos formamos. Você pensa em alguma coisa séria? Ainda está loucamente
apaixonada por ele?
— Olha, a minha dopamina não está mais disparando. Isso não significa
que nós nos desapaixonamos, mas que temos que seguir em frente. Ao que tudo
indica, vamos nos casar, sim, no momento certo. No início, era aquela atração
física; hoje, eu gosto dele como um todo. Existe um amor companheiro na nossa
relação. Você sabe que se uma pessoa ficar só dominada pela dopamina, ela não
fica satisfeita por muito tempo, existem os outros neurotransmissores. Eu acho
que a ocitocina entrou em campo; acredito que ela me ajuda a reduzir a
ansiedade, me dá confiança, me ajuda a ter conexões com pessoas como você.
Minha recaptação está ok, acredito.
— É verdade. Esta coisa de reabsorção do neurotransmissor é que nos
equilibra. Se um neurotransmissor é reabsorvido por um neurônio a seguir à
transmissão de um impulso nervoso, isso previne atividades prolongadas dele
sobre seus receptores e enfraquece seus efeitos. E sobre a ocitocina, eu a sinto
em mim. Não tenho namorado, nem projeto, mas amo minha família.

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Produzida pelo hipotálamo, como a dopamina, a ocitocina está vinculada
ao apego, sendo frequentemente apelidada de hormônio do abraço. A literatura é
pródiga em dizer que a ocitocina ajuda a construir conexões, formando laços
sociais que com a sua forte presença proporciona bem-estar. Para Brenan (2021),
a falta de conexão é uma forma de estresse que faz com que o corpo libere
ocitocina e o envie à procura de interação com outras pessoas.

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REFERÊNCIAS

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