1 Mesclado
1 Mesclado
NEUROCIÊNCIA E
COMPORTAMENTO
HUMANO
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– Aí na sua parte cinzenta, um neurônio sensitivo se encontrou com um
neurônio motor e gerou uma sinapse do arco reflexo.
– Tá, mas não é só isso – alerta a ruiva – temos mais de 80 bilhões de
neurônios, o que implica em um número muito grande de sinapses.
– Sim, além do elevado número, muitas destas sinapses são bem mais
complexas. Estes neurônios, na minha opinião, são como operários de uma
fábrica, em que uma parte deles produz impulsos elétricos e a outra produz
substâncias químicas. O que você acha?
– Concordo. O sistema nervoso, no cérebro, e a medula espinhal percebem
o corpo e o ambiente e respondem, como o grito que você deu. Estes mesmos
sistemas utilizam substâncias químicas que influenciam nossas tomadas de
decisão. Neurônios sensitivos e motores movimentam-se em situações como a
sua, ao tocar a sopeira quente. No final do nosso jantar e de nossa conversa
teremos movimentado nossos neurônios-espelhos, pois o que você e eu falarmos
sobre neurociência estará carregado de expressões faciais, gestos, tom de voz e
posturas, além dos sentidos linguísticos.
A sopa agradável de frutos do mar estava sobre a mesa e as duas se
desafiaram a pensar em coisar surpreendentes que tinha visto recentemente nas
aulas de neurociência.
– Podem ser coisas que eu acho meio malucas? – perguntou a morena.
A ruiva concordou. As duas decidiram que depois do primeiro prato, cada
uma exporia à outra seus registros. Enquanto mexia suavemente a sopa quente
com a colher, a morena foi pensando no que lembrava: Como era possível, uma
massa de 1,5 kg, menos de 3% da massa do corpo, composto com 75% de água,
ter mais conexões que o número de estrelas na galáxia? A ruiva lembrou que a
massa cinzenta era macia que nem manteiga, que o cérebro de Einstein era
menor do que os outros e que era mito aquela ideia de usarmos só 10% do
cérebro. Por fim, ela destacou que embora parecesse inacreditável dava pra viver
só com a metade dele.
Aproveitando o bate papo das duas estudantes, iniciamos nossa breve
introdução à Neurociência refletindo sobre o que ela é e por que devemos estudá-
la. A primeira pergunta que surge é: “isso de que estamos falando se refere a um
conhecimento novo”?
A Society for Neuroscience, uma sociedade profissional sediada em
Washington nos EUA para cientistas e médicos do mundo inteiro, com foco no
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estudo do cérebro e do sistema nervoso, foi fundada em 1969, o que nos leva a
pensar em Neurociência como uma ciência “jovem”. Entretanto, se juntarmos ao
termo “neurociência” a palavra “cérebro”, veremos que os estudos nesta área são
bastante antigos, como veremos mais adiante. No decurso do tempo, palavras
como tronco cerebral, cerebelo, neurônios, sinapses, ventrículos, músculos,
fibras, foram se incorporando ao que já conhecíamos do cérebro, permitindo-nos
discutir, argumentar e ampliar nosso conhecimento. Num simples bate-papo entre
duas pessoas, notamos que tudo isso ocorre sem que possamos notar
exatamente onde um pensamento foi desencadeado, com quais neurônios
estamos falando ou reagindo e que sinapses são estas que estão acontecendo.
Depois de algumas aulas, a ruiva e a morena aprenderam que além da
transmissão por impulsos elétricos, os neurônios também se comunicam por meio
de impulsos químicos, por meio de substâncias conhecidas como
neurotransmissores, dos quais mais de 60 deles são conhecidos, e que
“diferentes transmissores são responsáveis por influenciar a emoção, o
pensamento e o comportamento” (Gazzaniga; Heatherton, 2005, p. 104). Para
estes autores, todos os neurotransmissores têm efeitos que intensificam ou inibem
potenciais de ação em cada indivíduo. Alguns dos principais neurotransmissores
são: gaba, glutamato, acetilcolina, adrenalina, noradrenalina, dopamina e
serotonina.
O gaba e o glutamato são respectivamente um inibidor e um excitador do
Sistema Nervoso Central (SNC). A acetilcolina ajuda a controlar o tônus muscular,
sempre que a pessoa aprende algo ou se emociona (Russo, 2015). Da adrenalina,
sabe-se que, quando liberada, mantém o corpo em estado de prontidão diante de
emoções fortes, como luta ou fuga. É um neurotransmissor mais presente no
corpo, diferentemente da noradrenalina, que fica mais no cérebro para inibir o
estado de atenção e vigilância. A dopamina controla os movimentos voluntários
(Weiten, 2010), e está relacionada a atividades compensatórias (comida, bebida,
sexo). Já a serotonina é importante para os estados emocionais, controle dos
impulsos e para os sonhos, sendo válida a afirmação de que quando seu nível é
baixo, a pessoa está triste ou ansiosa.
Ao atentarmos para os neurotransmissores, percebemos o entrelaçamento
da neurociência com a cognição e a emoção. Há um número expressivo de
experimentos que dizem que expressões faciais-corporais com força emocional
ocorrem mais em pessoas que associam determinadas imagens a recordações
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pessoais do que aquelas que não fazem essa associação. Estudos desta natureza
também mostram que regiões cerebrais envolvidas com a emoção (a amígdala,
por exemplo) revelam, em tomografia, maior ativação e maior relação com o
processo de memorização – ou seja, quanto mais emoção, mais marcação.
cérebro.
Processos cognitivos e emocionais no sistema nervoso envolvem o
cérebro, a medula espinhal, os nervos periféricos e aspectos fisiológicos. Se
pudermos estudar estas áreas, avançaremos no entendimento de nossa biologia
essencial. Ampliar tal conhecimento oportuniza detectar e compreender
problemas. Pesquisadores ativos nestas investigações ajudam na prevenção e no
tratamento de disfunções no cérebro, sistema nervoso e corpo. Por outro lado,
saber que felicidade ou prazer se produzem no córtex frontal, que raiva, medo e
tristeza ocorrem na amigdala ou pelo encontro de neurônios em lacunas
denominadas sinapses facilita o entendimento conceitual da Neurociência.
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rejeitamos no passado como a frenologia, ofereceram subsídios para novas
avaliações. É o que iremos ver.
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pareça tão avançado, ainda se mostra diminuto, diante da complexidade que é a
natureza neural do cérebro?
Bear, Connors e Paradiso (2017), falam que nossos ancestrais pré-
históricos viam o encéfalo, esta parte de dentro da caixa craniana, como vital,
havendo dados arqueológicos de um milhão de anos atrás com sinais de
traumatismo craniano causado por outros hominídeos, que, em nossa avaliação,
foram relevantes para avanços na Neurociência. Para ficarmos num tempo mais
curto, registros de trepanações de 7 mil anos atrás nos fazem suspeitar que parte
desta prática ocorria em indivíduos vivos, possivelmente para tratar problemas, ou
“afastar maus espíritos”.
Foi por volta de 2500 a. C. que se confirmaram as trepanações cerebrais
feitas para “expulsar demônios” do corpo. O uso de um trépano (pedaço de pedra)
buscava cortar fora a parte do crânio e desse jeito fazer saírem os espíritos
malignos do corpo. De qualquer modo, a prática levava em conta que mexer no
cérebro era proporcionar melhor bem-estar ao indivíduo.
Os autores citados afirmam que nesta época, no Egito, já se sabia dos
sintomas de lesões encefálicas, além de que, para os médicos daquele país, havia
a concepção de que o coração – e não o encéfalo – era a sede do espírito e
repositório de memórias, o que explica a remoção de suas partes e a preservação
do corpo. Este entendimento permaneceu até Hipócrates (460-379 a. C.) que
defendeu a convicção da ligação do cérebro às sensações e à inteligência. É dele
a citação abaixo:
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cérebro punha em evidência o temperamento racional humano. Para alguns
olhares, este entendimento coloca o cérebro como aquele “servo fiel” que faz
vento com o leque no seu “grande senhor”, o coração.
De qualquer modo, deve-se atribuir a Aristóteles a concepção do “hábito”
como contribuição à neurociência. Bernacer e Murillo (2014), reportam que a visão
aristotélica defendia que quando se adquire um (bom) hábito, realiza-se uma
ação: (1) mais facilmente; (2) mais eficientemente: e (3) com maior prazer. Esta é
uma ideia-chave para entender como os hábitos induzem à plasticidade
comportamental e a aprendizagem, por envolver áreas cognitivas.
Se os hábitos na teoria aristotélica têm alguma importância na
neurociência, a ideia de que o coração é o centro da inteligência foi
desconsiderada. Nos dias de hoje a explicação é bem diferente. Tieppo (2021) diz
que, em realidade, o coração é “pau mandado do cérebro”. Este órgão, que
bombeia mais de 70 mil litros de sangue todos os dias no organismo, não manda
dados de volta para o cérebro, apenas recebe a informação. Para boicotá-lo, o
coração precisaria deixar de funcionar, mas isso não seria “estar no controle” e
sim “não mais existir”. Nesta perspectiva, outros elementos do corpo são também
importantes, como é o caso das vísceras, que dão respostas racionais ao cérebro,
como acontece na emoção do medo, onde o coração acelera junto com a
respiração.
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Veja no texto da aula 2 mais detalhes sobre como os ventrículos surgiram na história.
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controle dos músculos. Seguindo a teoria humoral de Hipócrates, ele dedicou-se
a estudar os temperamentos. O melancólico, sob o domínio da bile negra, era
triste, suscetível e ligado à arte; o colérico, relacionado à bile amarela, era o
apaixonado, tendente à raiva; o sanguíneo tinha a ver com segurança própria,
alegria, otimismo e sociabilidade e o fleumático caracterizava o fleuma, ou seja
reflexão, tranquilidade e ausência de compromisso.
Cavada (2017) explica que Galeno relacionava os ventrículos cerebrais
com cavidades no coração e acreditava que sensações e movimentos estavam
relacionados aos humores de ou para os ventrículos cerebrais pelos nervos. Pela
teoria galênica, os nervos equivalem-se a condutos de transporte de fluidos do
cérebro e medula espinhal em direção à periferia do corpo.
Conforme Cosenza (2002), Nemesio (320), bispo de Emesia – a Síria de
hoje – baseado em Galeno, ligou os ventrículos às faculdades intelectuais e
colocou-os como responsáveis pelas operações mentais, desde a sensação até a
memorização. Segundo o autor, o primeiro par de ventrículos seria sede do “senso
comum”. A igreja usou os ventrículos para dizer que por eles circulavam espíritos.
Aguiar (2001), destaca que o sistema de Galeno – que integrava a teoria humoral
de Hipócrates com a lógica aristotélica – foi incorporado por médicos árabes após
a queda do império e reintroduzido na Europa após 1250.
As ideias de Galeno influíram no futuro e garantiram ao cérebro a
responsabilidade de ser a sede de todas as faculdades mentais. René Descartes
(1596-1650) concordou em parte com o médico romano, ao argumentar que todo
ser humano tinha um corpo físico e um corpo não-físico. Gazzaniga e Heatherton
(2005) acentuam que o “físico” e o “não-físico”, na visão cartesiana, eram
interligados (dualismo) e o corpo era considerado uma espécie de máquina
comandada por reflexos definidos como unidades de ação mecânica. As funções
mentais, que incluíam a imaginação e as lembranças, eram resultado de funções
corporais.
No futuro, esta visão seria modificada para o entendimento de que a mente
tem uma base física – o encéfalo. Já no final do século XVIII, com o sistema
nervoso dissecado e sua anatomia detalhada, concluiu-se que ele compreendia
uma divisão central, com encéfalo e medula espinhal e uma divisão periférica, que
compreendia uma rede de nervos a percorrer o corpo (Bear, Connors e Paradiso,
2017). A questão que atraia o interesse dos cientistas era entender o que a
diversificação de estruturas poderia representar para o entendimento do cérebro.
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Entre os séculos XVII e XVIII, os estudiosos do cérebro passaram a dar
importância ao encéfalo em relação à sua “substância cinzenta”, que através de
nervos e fibras, levava informações para outra substância, a branca. Rodrigues e
Ciasca (2010) reportam que estudos como o de Benjamin Franklin (Experimentos
e observações sobre a eletricidade) em 1751, que tratou dos fenômenos elétricos,
estimularam investigações sobre o encéfalo. Na virada do século, Luigi Galvani e
Bois-Reymond trouxeram evidências de que músculos entravam em movimento
diante de estímulos elétricos e neste alinhamento, o encéfalo podia gerar
eletricidade. Já não era apenas a diversificação das estruturas que chamava a
atenção, mas também a quais funções que corresponderiam cada uma das áreas
específicas do cérebro.
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estudou lesões na parte posterior do lobo temporal em pacientes que falavam,
mas não compreendiam o que diziam, apontando-se deste modo que o caráter
motor da fala estaria localizado num ponto que ficou conhecido como a área de
Wernicke, onde se caracterizava a afasia sensorial.
Castro e Landeira-Fernandez (2012) destacam o contraponto à visão
localizacionista, que ganhou impulso em Broca, ao se defender que ideias e
sentimentos verbalizados ou escritos não estariam circunscritos a pontos
específicos localizados no córtex cerebral, mas a uma ação integrada ao cérebro
como um todo. Neste mesmo viés se posicionaram o neurologista britânico John
Hughlings Jackson (1835-1911), Sigmund Freud (1856-1939), Pierre Marie (1853-
1940) e Karl Spencer Lashley (1890-1958).
Outros estudiosos como o psicólogo russo Lev Vygotsky (2004) postularam
a atividade integrada em diversos setores do cérebro, diferenciados e
relacionados hierarquicamente. Seu parceiro Alexander Luria (1992) citado como
pai da Neuropsicologia, propôs que a Neurociência acabou concordando com as
postulações de Vygotsky, mas defendeu que nem o localizacionismo e o holismo
poderiam explicar de modo convincente a ligação entre o cérebro e os processos
psicológicos.
Um fato marcante no século XIX, destacado por Hamdan e Pereira, referiu-
se as alterações comportamentais num homem chamado Phineas Gage, depois
de um acidente que aconteceu quando supervisionava a construção de uma
estrada de ferro. Engenheiro ferroviário, ele detonou inadvertidamente um
explosivo na colocação de trilhos e uma barra acabou por atravessar seu crânio.
Gage perdeu um olho, mas sobreviveu à lesão grave no cérebro. Sua condição
física foi inalterada, bem como a memória e a inteligência, mas ele perdeu o
respeito pelas convenções sociais, comportando-se de forma irresponsável e
sendo considerado par alguns como sociopata.
O acidente com Gage foi em 1848, período em que se buscava argumentos
sobre regiões especializadas para linguagem, movimento e percepção. Ao pensar
que o caso poderia ser de lesão em uma região voltada para o comportamento
racional, o médico de Gage teve seus argumentos rejeitados e como não tinha
dados de autópsia para comprovar, a situação ficou como estava. Cinco anos
depois, com a morte de Gage, o médico pediu à família que o exumasse fim de
que o crânio pudesse ser preservado para futuros estudos. O artefato ficou
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guardado em uma caixa de vidro no Warren Anatomical Medical Museum da
Universidade de Harvard.
O casal de neurologistas Hanna Damasio e Antonio Damasio, ao
perceberem que podiam usar tecnologias avançadas, fotografaram em 1994, o
crânio de todos os ângulos e os resultados mostraram que os lobos frontais
continham circuitos separados, que se interligavam na tomada de decisão, um
deles no domínio social e o outro, para os objetos, linguagem e aritmética. Desde
então, vários casos de pacientes em situações similares apresentavam déficit nas
tomadas de decisão racional e no processamento das emoções.
Ainda em 1994, Hanna e Antonio Damásio publicaram seus dados, junto
com colegas neurologistas do Hospital e Clínica da Universidade de Iowa, Thomas
Grabowski, Randall Frank e Albert Galaburda. Logo em seguida, Antonio Damasio
publicou O Erro de Descartes, em que contestou o filósofo e matemático francês
que via o ato de pensar como atividade separada do corpo. O caso de Phineas
Gage como entende Muci-Mendoza (2007) acabou por contradizer o dualismo
cartesiano do reducionismo e diagnósticos gerais, abrindo caminho para uma
perspectiva de maior complexidade no contexto social, cultural e ecológico da
mente humana.
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3. Neurociências de sistemas. Estuda-se neste nível como os diferentes
circuitos neurais, analisam informações sensoriais, formam percepções,
tomam decisões e executam movimentos.
4. Neurociências comportamentais. As respostas procuradas atendem
questões como: de que forma os sistemas neurais trabalham para produzir
comportamentos integrados, onde agem as substâncias que alteram a
mente e como ocorre a regulação do humor e do comportamento.
5. Neurociências cognitivas. O grande desafio é entender o processo pelo
qual ocorrem as atividades mentais superiores como a consciência, a
imaginação e a linguagem.
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REFERÊNCIAS
15
FOUNDATION INNOVACION BANKINTER. The future of neuroscience. 2021.
Disponível em: <[Link]
neroscience/>. Acesso em 10 abr 2022.
16
WEITEN, W. Introdução a psicologia: temas e variações. São Paulo: Cengage
Learning, 2010.
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AULA 2
NEUROCIÊNCIA E
COMPORTAMENTO
HUMANO
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“Quando meus olhos viram a bolinha no ar, jogaram informações para o
sistema nervoso, e ele mandou impulsos nervosos para a medula espinhal, que
mexeu meus músculos para pegar o papelzinho amassado. A bolinha, foi o
estímulo; a visão, o receptor; e, meus músculos, o efeito.”
“Helena é isso que dá estudar neurociência e ter um pai neurologista. Você
está usando seu hemisfério cerebral esquerdo! Eu, hein?”
Helena falou em impulsos nervosos e sistema nervoso (SN), os quais,
ligados às células nervosas, conduzem os impulsos pelo corpo. Diante de
estímulos, os neurônios transmitem dados entre si – as sinapses – que consistem,
justamente, na troca de informações. Para isso acontecer, é preciso um lugar que
abrigue mais de 80 bilhões de células: o SN. Por ser um centro de controle, ele se
vale dos sentidos para detectar a bolinha de papel que Helena jogou, o carro que
buzina na esquina e, enfim, o meio que nos rodeia e que nos leva a prestar
atenção, admirar, lembrar e formar opiniões. A complexidade do SN revela-se
desse modo: um órgão “opaco ao que está no seu interior, convoluto e cheio de
saliências e reentrâncias que escondem umas às outras” (Lent, 2016, p. 20).
O SN é um conjunto complexo de nervos e células nervosas que
transmitem sinais para diferentes setores do corpo. Dizer que ele é uma espécie
de “fiação elétrica” do corpo, não é nenhum exagero. Com o sistema endócrino
(SE), ele controla todos os sistemas orgânicos do corpo. Cabe ao SN, contudo,
comunicar sinais por meio de células e de espaços entre elas, diferentemente do
SE, que faz isso pelas vias circulatórias. Outra diferença entre eles é que o SN
usa sinais eletroquímicos, e não apenas químicos.
A trajetória histórica dos estudos sobre o cérebro passou por reflexões
sobre a trepanação e, depois, pela distribuição da mente para diferentes partes
do corpo. Dois pensamentos vieram à tona: um colocou a mente no coração, e o
outro, no cérebro. O encéfalo, como estrutura central, todavia, não era relacionado
aos nervos.
Após Aristóteles, Herófilo de Calcedônia (335-280 a.C.) e Erasístrato de
Dhio (310-250 a.C.), respectivamente, são considerados pais da anatomia e da
fisiologia; dissecaram cadáveres humanos e apresentaram o sistema nervoso
(Tieppo, 2021). Ao reparar fibras do crânio e espinha saindo para o corpo, eles
distinguiram os nervos motores dos sensitivos, e revelaram os ventrículos,
figurativamente definidos como “buracos” no cérebro. Para os dois médicos
gregos, espíritos fluíam dos ventrículos para os nervos (ocos) e músculos que
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faziam o corpo se mover. Não obstante, a visão equivocada sobre o ar, ou
espíritos, a percepção dos ventrículos e o pensamento de que o corpo humano
funcionava em um processo integrado complexo, representou um avanço para a
neurociência.
Após um período de proibição da dissecação de cadáveres estimulada pelo
Cristianismo, passaram-se 400 anos até que Galeno de Pérgamo juntou, à
concepção dos líquidos presentes na teoria humoral de Hipócrates, a teoria dos
ventrículos, segundo a qual seria onde as funções mentais estariam localizadas.
A partir de então, receberam impulso observações como a de que o cérebro se
divide em substância branca e cinzenta. A revelação de que a parte
esbranquiçada continuava nos nervos ao longo do corpo, informando à substância
cinzenta (Lima et al., 2006), favoreceu a ideia de que o SN se compunha de duas
partes, o que viria a ser comprovado cientificamente.
Entre 1780 e 1790, o médico italiano Luigi Galvani defendeu existir uma
forma intrínseca de eletricidade na condução nervosa e na contração muscular.
Meio século depois, o cientista suíço-alemão Bois-Reymond, afirmou ser o
encéfalo gerador de eletricidade ao demonstrar a movimentação dos músculos
quando os nervos eram estimulados eletricamente. Essa nova perspectiva
deixaria para trás a ideia do refrigerador mental (Tieppo, 2021).
No tempo das discussões entre localizacionistas e holistas, ainda não havia
um conceito acabada sobre os neurônios. Na década de 1870, entretanto, uma
invenção do médico italiano Camilo Golgi, conhecida como coloração de Golgi,
permitiu examinar neurônios isolados (Gazzaniga; Heatherton, 2010). Desse
modo, no final do século XVIII, a anatomia do SN já era conhecida grosseiramente
por meio das dissecações. Um mesmo padrão de saliências (giros) e sulcos
(fissuras) estava presente na superfície cerebral de cada indivíduo, e um olhar ao
cérebro dissecado possibilitou reconhecer as duas divisões que viriam a ser
padronizadas: a central e a periférica. O encéfalo então passou a ser pensado
como uma estrutura que funcionava por duas divisões do SN. Bear, Connors e
Paradiso (2017), com relação a esse momento, chamam a atenção para os
seguintes pontos:
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• O encéfalo apresentava partes diferentes identificáveis e que,
provavelmente, executavam diferentes funções;
• O encéfalo operava como uma máquina, seguindo as leis da natureza.
TEMA 2 – CÉREBRO
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Eagleman (2017) explica que, normalmente, os dois hemisférios se
conectam pelo corpo caloso (feixe de substância branca), que permite que as
metades direita e esquerda se coordenem e trabalhem de modo harmônico. O
autor traz um exemplo acerca da sensação de frio, no qual as duas mãos
cooperam: a bainha do casaco é segurada por uma delas, e o zíper é puxado pela
outra. Quando o corpo caloso é seccionado, pode ocorrer a síndrome da mão
alheia, ou síndrome da mão alienígena, uma desordem neurológica na qual a mão,
por exemplo, passa a agir de modo involuntário, como puxar o zíper para cima
com uma mão e, para baixo, com a outra.
O cérebro comumente é descrito como a “massa cinzenta”, apesar de, em
funcionamento, mostrar-se esbranquiçado e brilhante. Podemos dizer que essa
estrutura é, de certo modo, sede do SN, pois por ela passam sensações,
percepções, pensamentos, a consciência e o gerenciamento das emoções; de
forma mais categórica, pelo cérebro passa a nossa vida, ou a interpretação que
temos dela.
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Psicólogos cognitivos costumam citar a frase de Epiteto, filósofo grego
estoico que viveu como escravo em Roma: “as pessoas ficam perturbadas não
pelas coisas, mas pela imagem que formam delas”. Para além de uma reflexão
cognitivo-comportamental, o cérebro nos mostra que somos influenciados por
luzes, sons, sabores, cheiros e sensações táteis e, ao fazer isso, ele aciona uma
quantidade impressionante de conexões entre células nervosas.
Se perguntássemos a Célia, Helena e a outras pessoas que estudam
neurociência, ouviríamos dizer que o cérebro é a “glória suprema” do SN,
afirmação feita por Weiten (2010) ao salientar que esse órgão, com cerca de 1,5
quilo, que pode ser carregado em uma das mãos, contém bilhões de células
interagindo e integrando informações do exterior e interior do corpo. Tal
complexidade cria um potencial surpreendente de ações e reações. Se alguém
lhe pedir a senha de sua conta bancária, é claro que você não a fornecerá, pois
seu cérebro acionaria o estado de prontidão: Por que entregar sua senha a
terceiros? O cérebro, que ajuda a guardar a senha na memória, possibilita também
falar, pensar, planejar, criar e sonhar.
A parte que compõe os dois hemisférios é denominada grande cérebro; o
cerebelo é o pequeno cérebro, dividido em dois hemisférios cerebelares, com uma
região denominada vérmis, e outra superficial, chamada córtex cerebelar. Em uma
porção mais interna, está a substância branca, onde se encontram núcleos do
cerebelo (núcleos centrais). Do ponto de vista funcional, o cerebelo é receptor de
informações sobre a posição de articulações, comprimento dos músculos,
estímulos auditivos e visuais. Lent (2016) destaca que, atualmente, há evidências
de que o cerebelo oferece funções mais complexas do que apenas o controle da
motricidade, incluindo funções sensoriais, emocionais e cognitivas.
Diferentemente dos hemisférios cerebrais, seu lado esquerdo é relacionado ao
lado esquerdo do corpo, e o lado direito é ligado aos movimentos do lado direito.
Outras áreas do cérebro abrangem os lobos, que respondem por funções
como cognição, movimentos voluntários e linguagem (nos frontais), processos
visuais (nos occipitais), informações sensoriais (nos parietais), e audição,
interpretação de sons e memória (nos temporais) (Cherry, 2022). Conhecemos
também: os gânglios de base – estruturas subcorticais ligadas à iniciação de
movimentos planejados; a área de Broca – envolvida com a fala; a medula oblonga
– a região de comunicação entre cérebro e medula; o hipotálamo – o setor de
regulação da temperatura, emoções, comportamento sexual e motivação; o
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tálamo – que recebe as informações sensoriais antes de chegarem ao córtex; e,
a área que processa informações emocionais e associa fatos a emoções: a
amígdala (Gazzaniga; Heatherton, 2005).
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Para visualizar o interior do encéfalo, é necessário seccioná-lo em duas
metades; a direita e a esquerda correspondem ao plano mediano, e os cortes
paralelos a ele são o plano sagital. Outros dois planos anatômicos são o
horizontal, paralelo ao solo, entre os olhos e as orelhas (correspondente aos
planos dorsal e ventral); e, o plano coronal, que é a divisão perpendicular ao solo
e ao plano sagital.
Estruturalmente, o SN é constituído por duas partes: o sistema nervoso
central (SNC) e o sistema nervoso periférico (SNP).
Créditos: Pikovit/Shutterstock.
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3.1 Anatomia do sistema nervoso central
Ler, escrever, falar, calcular, escrever poesia, criar, lembrar o que passou
e projetar o futuro são funções do telencéfalo. Para Lent (2016), a parte mais
importante do telencéfalo é o córtex cerebral, não apenas pelo seu volume, mas
pela complexidade de suas funções. É ele que interpreta as informações
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sensoriais, gerando percepções de que somos capazes, além de planejar, de
programar e enviar à medula comandos para a motricidade.
O diencéfalo, por meio do tálamo, tem funções relacionadas à motricidade,
ao comportamento emocional, à ativação cortical e à sensibilidade. No
hipotálamo, a função relaciona-se ao controle do SNA e do sistema endócrino,
fome, sede, temperatura, sono e vigília (Oliveira; Campos Neto, 2015).
O cerebelo está funcionalmente relacionado ao tônus muscular. Eagleman
(2017) postula que, no ato de aprender uma nova habilidade, o cerebelo ordena o
fluxo necessário de movimentos para precisão e controle do tempo.
Nos primeiros dias de aprendizagem de uma nova habilidade motora, o
cerebelo tem um papel particularmente importante, ordenando o fluxo necessário
de movimentos para a precisão e o controle perfeito do tempo.
O tronco encefálico é um receptor de informações sensitivas de estruturas
cranianas e um controlador dos músculos da cabeça, dispondo de circuitos
nervosos que transmitem informações da medula para outras regiões do encéfalo
(Oliveira; Campos Neto, 2015). Para esses autores, elementos do tronco
encefálico, como o mesencéfalo, respondem por estímulos da visão, audição e
movimentos dos olhos e do corpo; a ponte, tem a função de transmitir informações
da medula e do bulbo ao córtex, e o bulbo conduz os impulsos nervosos do
cérebro para a medula, e vice-versa.
Outro componente do SNC, a medula espinhal tem como função transmitir
os impulsos nervosos do cérebro para todo o corpo.
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ativada, Célia sente-se recompensada, e o lóbulo frontal executa uma resposta;
e, (4) os músculos fazem Célia abraçar carinhosamente o rapaz.
O SNA inerva todo o corpo humano, agindo sobre sistemas fisiológicos em
função de demandas energéticas de atividade conforme a situação em que o
indivíduo se encontra. Entre as alterações fisiológicas em situações de perigo
estão o aumento das frequências cardíaca e respiratória, e sudorese (Loureiro,
2018).
No SNS, axônios motores somáticos se originam de neurônios motores
para comandar a contração muscular; no SNA, axônios sensoriais autônomos
carreiam informação sobre funções viscerais fora do controle voluntário do
indivíduo (Bear; Connors; Paradiso, 2017).
O SNAs pode ser considerado como um sistema de excitação diante de
determinadas situações, e está relacionado à produção de adrenalina e
noradrenalina. Já o SNAp atua em oposição ao SNAs, levando o organismo ao
estado de calma e relaxamento; para isso, ele se vale do neurotransmissor
acetilcolina.
Voltando ao encontro de Célia com o rapaz por quem se sentia atraída,
podemos crer que seu coração tenha aumentado os batimentos, assim como sua
respiração; deve ter havido transpiração, e é até possível que suas pupilas tenham
se dilatado, o que denota sinais de excitação provocados pela adrenalina ligada à
divisão simpática.
13
de eventos? Tem duas coisas que eu queria ver: o Guerra e Paz, aquele painel
famoso do Candido Portinari, e um recital na Mostra de Música de Câmara. Se a
gente for agora, dá tempo de ver as duas coisas. Estou louca pra saber quem é o
músico que vai se apresentar hoje.”
Por que temos tantos elementos celulares no sistema nervoso? Essa seria
uma boa pergunta. Se você decidisse respondê-la, talvez se aventurasse a dizer
que é para poder transportar uma quantidade imensa de informações para todas
as partes do corpo. Mas se existem tantos nervos e fibras assim, o que lhe dá
suporte para funcionar é o SN, com uma tropa volumosa de células nervosas que
se relacionam com os nervos; os nervos são projeções reais do neurônios,
constituindo-se de feixes fechados, como se fossem uma cabo de axônios e fibras
nervosas presentes no SN. Os neurônios, por sua vez, são células envolvidas na
transmissão de informação por meio de sinais elétricos e químicos.
Se nos atentarmos para a substância branca, veremos que ela é composta
de fibras e, a cinzenta, é formada por células. Fibra e célula são partes do mesmo
elemento: o neurônio, que transmite impulsos eletroquímicos.
5.1 Neurônios
14
Figura 4 – Neurônio
15
pseudounipolares. Os neurônios multipolares estão localizados no encéfalo,
possuindo um ou mais prolongamentos, e ocorrem com maior frequência; os
neurônios bipolares possuem apenas um axônio e um dendrito, e são encontrados
na mucosa olfatória, na retina e nos gânglios coclear e vestibular; e, os neurônios
pseudounipolares possuem um corpo celular e somente um prolongamento, que
se divide em dois. Eles podem ser encontrados nos gânglios espinais.
16
células gliais são mantidas, embora mudem de formato e propriedades
moleculares a fim de desempenharem funções diferentes (Ratey, 2002)
17
REFERÊNCIAS
CHERRY, K. The Central Nervous System in Your Body. Very Well Mind, 2022.
Disponível em: <[Link]
system-
2794981#:~:text=Central%20Nervous%20System%20Structure,control%20how
%20the%20body%20responds>. Acesso em: 20 jul. 2022.
GOMES, F. C. A.; TORTELLI, V. P.; DINIZ, L. Glia: dos velhos conceitos às novas
funções de hoje e as que ainda virão. Estudos Avançados, 2013, v. 27, n.
Disponível em:
<[Link] Acesso
em: 20 jul. 2022.
TIEPPO, C. Uma viagem pelo cérebro: a via rápida para entender neurociência.
São Paulo: Conectomus, 2021.
19
AULA 3
NEUROCIÊNCIA E
COMPORTAMENTO
HUMANO
TEMA 1 – INTRODUÇÃO
2
Coisas que não tem uso se atrofiam. Conexões neurais sem uso deixam a gente
preguiçoso. Não foi o que falou a professora?
— Sim, a gente só aprende porque memoriza e só memoriza porque
aprende, mas sem uso nenhuma delas funciona.
O bate-papo nos leva a pensar que cérebro e sistema nervoso são
formações determinadas pela evolução humana. Em sentido amplo, funcionamos
como qualquer membro da espécie homo sapiens; em sentido menor,
funcionamos com o que marca as diferenças entre nós mesmos. Nas duas
situações, é pelas mudanças no ambiente, na genética e no comportamento, que
nos definimos.
Em outubro de 2014, um grupo de 69 pesquisadores cerebrais, em carta
aberta ao Centro de Longevidade de Stanford (Estados Unidos) e Instituto Max
Planck para o Desenvolvimento Humano (Alemanha), advertiu haver pouca
evidência da eficácia da ginástica cerebral nas habilidades cognitivas. Uma
posição contrária veio semanas depois, por meio de 100 estudiosos do Instituto
de Pesquisa do Cérebro e da Mente da Universidade Sydney. A advertência e a
resposta foram relatadas em artigo da revista americana Fast Company
(Brownstone, 2014). A ginástica cerebral com supervisão mostrava-se eficaz,
defendiam os pesquisadores de Sydney.
A carta aberta de advertência pode ter sido motivada pela desconexão
entre o marketing e ciência, disse um dos coautores da resposta publicada, já que
havia interesses financeiros em jogo. De qualquer modo e em nome do que
diferencia um indivíduo do outro, não podemos desconsiderar que além da
genética somos alterados pelos estímulos ambientais e comportamentais que
ocorrem em nossas vidas.
O jornal britânico The Guardian publicou em 2012 um artigo da
Universidade da Pensilvânia sobre influências no desenvolvimento do cérebro.
Durante 20 anos, 64 indivíduos foram pesquisados em suas vidas domésticas
sobre experiências a partir da infância. Os resultados apresentados em uma
reunião da Society for Neuroscience, em Nova Orleans, mostraram que a
estimulação cognitiva dos pais aos quatro anos de idade permitiu prever o
desenvolvimento de várias partes do córtex (a massa cinzenta) 15 anos depois.
Os pesquisadores visitaram as casas e fizeram registros como número de livros
infantis, brinquedos com cores, números ou letras, instrumentos musicais e
outros. Entre 17 e 19 anos, os participantes tiveram seus cérebros escaneados, e
os resultados mostraram que o desenvolvimento do córtex no final da
3
adolescência estava vinculado à estimulação cognitiva aos quatro anos. Outros
fatores como nutrição em diferentes idades e estimulação cognitiva aos oito anos
não tiveram efeito.
O artigo citado destaca que, à medida que o cérebro amadurece na infância
e na adolescência, as células do córtex são podadas, e assim que as células
desnecessárias são eliminadas, o córtex fica mais fino. A pesquisadora Martha
Farah que liderou a pesquisa disse ter descoberto que quanto mais estímulo uma
criança tem aos quatro anos, mais fino e, portanto, mais desenvolvido fica o seu
córtex. Por outro lado, espera-se que a estimulação em pessoas envelhecidas
também tenha efeitos positivos. Eagleman (2017) postula que “quanto mais
mantemos nosso cérebro apto do ponto de vista cognitivo, desafiando-o com
tarefas difíceis e novas, inclusive a interação social, mais as redes neurais formam
novas vias para ir de A para B”.
A importância das mudanças ambientais e comportamentais
independentemente da idade é também corroborada em pesquisas. Sachdeva,
Kumar e Anand (2015) ressaltam uma busca em artigos na base de dados
Pubmed sobre idosos, com os termos não farmacológico e cognitivo no título.
Publicados entre 2000 e 2014, 10 estudos considerados relevantes de um total de
11 mostraram dados sobre idosos submetidos a treinamentos cognitivos não
invasivos. O repertório interventivo considerou: exercícios físicos, sono regular,
meditação e yoga, espiritualidade, musicoterapia, exercícios cognitivos para
memória, atenção e resolução de problemas, estimulação cerebral transcraniana
e aplicação de jogos de computador. Os resultados revelaram melhorias
cognitivas gerais com duas ressalvas: a necessidade de mais evidências
quantitativas na musicoterapia e a ausência de melhoria cognitiva em aspectos
de espiritualidade.
Então, leitor, da relação entre seu pai e sua mãe nasceu você, uma bolinha
de fermento dentro da barriga materna. O que isto significa? Significa que você
era um punhado de pequenas células grudadas, um embrião com três camadas
dispostas uma sobre a outra: a parte mais interna, o endoderma, originou vísceras
e tecidos internos e da capacidade torácica, a parte mais externa originou a pele,
o SN propriamente dito, enquanto no meio das duas, o mesoderma, viria a formar
o coração e as glândulas entre outros (Tieppo, 2021).
4
O desenvolvimento do SN segue um padrão de complexidade dinâmica
evoluída de uma sequência instrumentalizada por fatores genéticos, ambientais,
químicos e físicos. Durante duas semanas, células se amontoam, e na terceira
semana, começa propriamente o desenvolvimento em três estágios: (1) uma parte
do ectoderma engrossa, formando uma placa; (2) a placa se dobra para dentro
formando o sulco neural. Estes dois estágios representam o ponto de partida para
a formação do SN; (3) à medida que as bordas laterais (pregas neurais) se
aproximaram o aprofundamento cria a goteira neural. Esta estruturazinha,
parecida com uma gota, apresenta orelhinhas, chamadas de cristas, que mais
tarde originam os gânglios espinhais e cranianos. Com eles, vêm os elementos
para o sistema nervoso autônomo, e o apoio para a bainha de nervos e meninges
que formam o cérebro. Podemos dizer de forma simples que quando tudo isso
ocorre no cérebro, as pregas neurais se fundem, as orelhinhas se separaram e
cria-se o tubo neural.
Este ponto da formação do tubo neural acontece entre a terceira e quarta
semana de vida. Lent (2016) considera que o cérebro não dispõe de neurônios já
constituídos e não há evidências de atividades neurais. O embrião ainda não
demonstra sensações, percepções e funções típicas do SN, uma vez que não
existe a comunicação que em breve ocorrerá por meio de circuitos nervosos. Não
ter nessa idade os neurônios que hoje conhecemos não significa que sua
produção nesta área esteja demorada. Ratey (2002) diz que nas primeiras
semanas e meses de vida, há uma intensa produção de células, com a criação a
cada minuto de 250 mil neuroblastos, ou células nervosas primitivas.
À medida que o tubo neural se fecha, ele incha, e dobras começam a
aparecer e gradualmente se tornam mais perceptíveis. Durante a quarta semana,
existem três dessas protuberâncias presentes. Elas são chamadas de vesículas
primárias: o prosencéfalo, que depois se divide em telencéfalo e diencéfalo; o
rombencéfalo, cuja divisão compreende o milencéfalo e metencéfalo; e o
mesencéfalo, que se mantém como estrutura única (Lent, 2016). A medula
primitiva que permaneceu cilíndrica, depois das primeiras semanas, dá origem à
medula espinhal. Pode-se dizer que a cavidade do tubo neural cheia de líquido
amniótico se torna o seu encéfalo e sua medula espinhal. Como se sabe, as
principais partes cerebrais, com destaque para o córtex, passam a ser observadas
em sete semanas, período em que o cérebro se desenvolve de forma visível.
Se você pudesse imaginar como era com 11 semanas de vida, deveria
ponderar que o cérebro já estava aumentando de tamanho. Você era um cabeção
5
com corpo pequeno, onde olhos e ouvidos já se moviam. O rombencéfalo, aquela
parte posterior da sua cabeça, veio assim a dar origem ao cerebelo e ao tronco
encefálico.
Após a 12ª semana de gestação, acontece a migração de neurônios por
meio de sinalizações química, genética e o desenvolvimento do córtex frontal e
do tálamo. A mielinização passa a ocorrer com a camada lipoproteica, envolvendo
e protegendo a condução nervosa de axônios. Neste período, ganham destaque
as sinapses. Como uma sinapse corresponde a uma área de proximidade entre
neurônios, possibilitando a comunicação entre eles (Tieppo, 2021), é de se
considerar que para isso ocorrer é necessária uma transformação nas próprias
células que, ao nascerem, são pequenas “bolinhas” sem a capacidade de receber
ou transmitir estímulos. Lent (2016) explica que quando os neurônios migram, se
alongam por meio de um prolongamento anterior e outro posterior e na sequência
o desenvolvimento aponta a emissão de novos prolongamentos, dendritos e um
único axônio que na proximidade com células vizinhas (dendritos e ramificações
do axônio) estabelecem a comunicação.
Da vida intrauterina até o nascimento, dificilmente virão novas células
neurais, e as que já existem desenvolvem mais sinapses com outras células.
Então, no primeiro ano de vida com base na literatura vigente, um neurônio cortical
no cérebro estabelece até 100 mil sinapses com outros neurônios.
As sinapses são como fios elétricos conectando uma infinidade de luz em
diferentes pontos cerebrais, e como no bebê conexões que ele jamais utilizará
crescem de modo intenso. Para Gazzaniga e Heatherton (2005), isto significa
dizer que o cérebro adota a política do “use ou perca”. Conexões frequentemente
usadas são preservadas e as outras removidas, processo conhecido como poda
sináptica.
O desenvolvimento do sistema nervoso e do cérebro envolve a interação
com fatores genéticos e ambientais. Stiles e Jernigan (2010) defendem que
cérebros não se desenvolvem normalmente na ausência de sinalização genética
e não ocorre o desenvolvimento normal na ausência de insumos ambientais
essenciais. Para os autores, o período embriológico marcou processos interativos
com maior frequência no nível das interações célula-célula. Esta condição
evidencia o papel genético na geração de sinais moleculares que interferem no
desenvolvimento de determinadas células. E ressaltando ainda que mesmo neste
período inicial, fatores ambientais são relevantes para o desenvolvimento do
cérebro embrionário.
6
Então, você, leitor (a), que corre, anda, fala, respira e sente o batimento
cardíaco, você desenvolveu um sistema neural apto a alterar ações responsivas
a estímulos e a reorganizar-se estrutural e funcionalmente. E tudo isso acontece,
como dizem Mateos-Aparicio e Rodríguez-Moreno (2019), pela capacidade que
têm os neurônios de modificar a força e a eficácia da transmissão sináptica por
meio da plasticidade que é o nosso tópico a seguir sináptica.
7
posições de setores funcionais ao redirecionar circuitos neurais ou em outro
sentido um simples fato novo presenciado pode levar a alterações sinápticas
moleculares de memorização por um longo tempo de vida. Em ambos os casos,
e em posições intermediárias, estamos tratando da plasticidade.
Turistas costumam dizer que Londres parece ser formada por um
emaranhado de fios viários que chega a ser surpreendente ver motoristas de táxi
circularem tão facilmente por ela como se trafegassem em uma pequena cidade.
A neurocientista Eleanor Maguire, da University College London (UCL), mostrou
uma curiosidade sobre isso. Sabendo que entre pássaros e esquilos o hipocampo
é maior do que em outras espécies, ela queria saber se, como estes animais que
apresentavam um hipocampo maior do que outras espécies, os taxistas londrinos
não exibiam hipocampos maiores que outras pessoas. Em Londres, para obter
uma licença, o motorista tem que passar de três a quatro anos dirigindo em
ciclomotores, guardando na memória as 25 mil ruas num raio de 10 quilômetros
da estação de trem Charing Cross.
Os resultados da pesquisa de Maguire durante quatro anos revelaram que
os taxistas londrinos apresentavam mais massa cinzenta no hipocampo posterior
do que motoristas comuns, ensejando que quanto mais tempo alguém dirigia um
táxi, maior o seu hipocampo (Jabr, 2011).
Como vimos no desenvolvimento embrionário, o SN é construído e
reconstruído seguindo a genética e o ambiente, resultando assim na plasticidade,
o que nos leva a considerar que estamos sempre prontos a novos circuitos e,
como diz fulano de tal, a novos hábitos, além de eliminar os antigos. Nossa
constituição neuronal é assim flexível e mutável com diferenças entre os
indivíduos (Tieppo, 2021).
Para Lent (2016), mesmo depois de seu desenvolvimento, o SN não perde
sua capacidade plástica. O que muda na plasticidade adulta é o caráter mais
celular e molecular sobre a sinapse. Aqui, a plasticidade sináptica é a base da
memória, e desse modo representa a capacidade cognitiva dos cérebros.
— Se nos adultos acontece mais esta plasticidade sináptica, o que
acontece na infância quando os mecanismos plásticos são interrompidos na
própria formação das nossas estruturas? — perguntou Helena ao pai.
— Existem sim diferenças entre o cérebro de uma criança e de um adulto,
mas de qualquer modo o cérebro humano é flexível.
Quem surge para apoiar o neurologista é Eagleman (2021), ao dizer que
esta plasticidade é uma chave para o futuro por abrir a porta para modificações
8
no próprio equipamento. Ele lembra isso com o exemplo de Cameron Mott, que a
partir de 3 anos de idade foi assolada por convulsões incapacitantes que atacaram
seu cérebro. Seu diagnóstico — síndrome de Rasmussen — obrigou que ela
usasse um capacete o tempo todo para se proteger de convulsões agressivas que
a jogavam contra o chão. Estes sintomas vistos por neurologistas a levariam
primeiro a uma paralisia e depois à morte, havendo uma única e drástica solução:
cirurgia do cérebro. Após o procedimento, o lado esquerdo (que era controlado
pelo lado direito removido do cérebro) ficou paralisado, o que fez com que a
plasticidade assumisse o controle: um mês depois ela voltou a andar, meses de
reabilitação a fizeram voltar a escola, e num curto período de anos Cameron voltou
a ser uma garota saudável.
Diante da pergunta: o SN se regenera? Intuitivamente, dizemos que não,
mas diante dos avanços recentes, a pergunta pode ser melhor respondida com
um “depende”:
9
circuitos, a estabilização de conexões transitórias, o brotamento colateral de
axônios em regiões lesadas ou inativas e as diferentes combinações dessas
possibilidades.
Durante um certo tempo, imaginou-se que o cérebro estava totalmente
desenvolvido aos vinte e poucos anos. Pesquisas, contudo, mostram que a
plasticidade que muda o cérebro acontece na vida adulta, envolvendo fatores
como doenças, drogas, emoções variadas criadas em eventos e formadas na
memória (Gazzaniga; Heatherton, 2005).
Se considerarmos que entre as estruturas cerebrais o neurônio pode ser
modificado, falamos em diferentes tipos de plasticidade neural: a plasticidade
axônica ocorre a partir de uma lesão sobre o axônio e assim há um recrescimento
do coto proximal (parte restante da área lesionada) do mesmo axônio. Lent (2004)
junta a esta explicação a plasticidade dendrítica, por ele classificada como
alterações no número, no comprimento das ramificações dendríticas e na sua
densidade. Por estas condições, a plasticidade sináptica enseja que a
transmissão de mensagens entre os neurônios, longe de ser rígida e imutável,
pode ser modulável conforme os eventos.
TEMA 4 – A MEMÓRIA
10
— Cruzes, Célia!
A conversa entre as amigas sugere uma reflexão mais ampla. Se a
lembrança de Nestor a abraçando e falando no ouvido não está armazenada no
hipocampo, no lobo frontal ou occipital, se não é um filme, onde está e o que é.
“Não está em nenhum destes lugares e está em todos eles”, diz alguém. “Não é
uma câmera que capturou sons e imagens”, diz outro. No primeiro caso, Ratey
(2002, p. 209) instiga: “É o espaço de armazenagem ou o ato de estratégia de
recuperação? […] É o ato de vasculhar a memória ou é, em primeiro lugar, a
energia dedicada à formação da memória? No segundo caso, Gazzaniga e
Heatherton (2005, p. 2017) anunciam que “a memória não é como uma câmera
de vídeo que captura fielmente imagens objetivas. Em vez disso, a memória é
uma história que pode ser sutilmente alterada por relatos e novos relatos”.
A memória no olhar dos dois últimos autores citados define-se como a
capacidade do SN de adquirir e reter habilidades e conhecimentos aproveitáveis,
permitindo aos organismos vivos se beneficiar desta condição. Vinculada ao SN,
esta capacidade não funciona como as informações que são organizadas em uma
enciclopédia. Nesta perspectiva, vale o entendimento de Pliszka (2004, p. 77)
sobre não haver um lugar no cérebro “no qual as memórias, por exemplo, da
quarta série primária estão armazenadas bem ao lado das memórias da quinta
série”. Para ele, a memória humana é completamente diferente daquela do disco
rígido de um computador. Neste, cada fração de informações fica num lugar
específico, cada arquivo tem um endereço usado para localização. É só abrir a
máquina e a procura acontece até chegar no endereço. Isso ocorre rapidamente,
já a transmissão neuronal não funciona desse modo.
Pliszka argumenta que, se para lembrarmos o número de nosso telefone
tivéssemos que repassar todas as memórias para localizar a informação, o
cérebro não terminaria a tarefa a ponto de darmos o telefonema. Além disso, a
memória também é altamente contextual. O autor destaca que estar num
determinado lugar desencadeia associações do tipo lugar-evento. Um odor, uma
imagem, por exemplo, acessa rapidamente memórias. Isso não acontece como
quem liga um dispositivo que representa exatamente como o evento se deu.
Ocorre uma recriação. É frequente para qualquer pessoa ouvir a mesma história
sendo contada por uma outra mais de uma vez e sempre com diferença.
Sobre questões de localização da memória…
1
Ratey baseia-se numa pesquisa da Universidade de Yale sobre redes neurais no cérebro.
12
informação — o processo de repetidamente verbalizar ou pensar na
informação.
• Memória de longo prazo: este nível é um depósito de capacidade ilimitada
que pode manter informação por períodos mais longos. A memória de longo
prazo é considerada ainda num ponto de vista de permanência. O
esquecimento ocorreria pelo fato de as pessoas não reterem a informação
necessária. Weiten refere-se a uma analogia com “bolinhas de gude”
guardadas num local. Nos esquecimentos, as pessoas simplesmente não
são capazes de procurá-las, mas elas estão lá em algum lugar.
Bear, Connors e Paradiso (2017) reporta que, nos anos 1960, foram
reconhecidos vários tipos de memórias de curto prazo. A memória de trabalho é
uma forma temporária de armazenamento da informação, com capacidade
limitada sendo caracterizada por repetição/ensaio para ser guardada, mesmo que
por pouco tempo. O exemplo é quando alguém lhe dá um número de telefone e
você para retê-lo fica repetindo o número para si mesmo.
TEMA 5 – A APRENDIZAGEM
14
pequenas modificações em sinapses que estão distribuídas no encéfalo. Esta
condição a coloca em desafio para estudar a aprendizagem em nível sináptico.
Os autores se valem da memória de procedimentos para valorizar a
investigação da aprendizagem. Estas memórias são robustas e formam-se ao
longo de vias reflexas simples que ligam sensações a movimentos. A
aprendizagem neste sentido compreende um procedimento (resposta motora) em
reação a um estímulo sensorial tipicamente dividido em dois tipos que veremos a
seguir.
15
condição, qualquer que seja o estímulo seguinte, ele provocará a mesma
reação (Lent, 2004). Ou, como explicam Gazzaniga e Heatheerton (2005),
um choque elétrico na cauda da aplysia leva à sensibilização. Após o
choque, um pequeno toque em qualquer parte do corpo a faz retrair as
guelras. Uma pessoa está caminhando numa praça central da cidade, por
exemplo, e de repente um blecaute deixa tudo escuro. Ao ouvir passos e
sons atrás, ela acelera o passo para sair do lugar.
16
Vamos ver as duas formas de aprendizagem sob o olhar de Bear, Connors
e Paradiso (2017). No condicionamento clássico, ocorre uma associação entre o
estímulo que evoca resposta mensurável e um segundo estímulo que,
normalmente, não há resposta (estímulo incondicionado). Em Pavlov, ao ver a
carne, o cão saliva. O segundo estímulo, não evocador, é o estímulo
condicionado, já que requer treino antes de produzir uma resposta. Ao associar
uma campainha segundos antes de colocar a carne, de modo repetitivo, fazia com
que o animal salivasse ainda sem ver a carne.
No condicionamento operante, o indivíduo associa uma resposta, um ato
motor a um estímulo significativo, tipicamente uma recompensa que pode ser a
comida como exemplo. Um rato, ao ser colocado num ambiente fechado, de
repente esbarra numa alavanca e vê a comida cair a sua frente. Quando ele, sem
se dar conta, esbarra outras vezes na alavanca e percebe que sempre que cai o
alimento, ele aprende a pressionar a alavanca, comportamento aprendido por uma
recompensa. O modelo operante diz respeito ao condicionamento de
comportamento voluntário, controlável por meio das suas consequências que são
o reforço e a punição.
O reforço surge quando uma resposta é seguida de consequências
compensadoras à tendência dos seres vivos a produzir essa resposta aumenta
(Weiten, 2010, p. 178). O autor explica que no reforço positivo, uma resposta é
fortalecida quando seguida pela apresentação de um estímulo de recompensa.
No reforço negativo, a resposta é seguida da remoção de um estímulo aversivo
(desagradável). Neste caso, como exemplo, o rato é reforçado quando precisa
pressionar uma alavanca para desligar um choque elétrico. É importante ressaltar
aqui que este reforço não é uma punição. Ele aumenta a probabilidade de um
comportamento, já a punição diminui esta probabilidade. Ela pode ser punição
positiva, quando diminui a probabilidade de ocorrência de um comportamento pela
administração de um estímulo aversivo ou punição negativa quando diminui a
probabilidade de um comportamento ao retirar um estímulo agradável.
Se memória e atenção estão ligadas à aprendizagem que envolve
estímulos, o mesmo pode se falar do fator emocional. Além das mensagens
verbais, estímulos não verbais podem influenciar o ato de aprender, gerando
respostas ao que o sistema nervoso do indivíduo interpreta de uma situação. Uma
relação sobre sensações que envolvem o estimulador e o estimulado não se limita
às palavras expressadas, mas à intensidade das sensações que são provocadas
pela verbalização e não verbalização da mensagem. Silveira (2002) fala no estado
17
de prontidão para a aprendizagem. As conexões sinápticas a favor de uma nova
informação ocorrem quando há um estado de ânimo no aprendente. Esta
condição envolve tanto a emoção quanto a memória e a atenção. Estímulo-
emoção-atenção-memória referem-se assim aos fatores envolvidos no processo.
A prontidão abre caminho para a atenção e a memória. Este professor é legal,
quero ver o que ele diz! Nossa! Que interessante! Tem a ver com um pouco do
que eu já sabia.
Depois que o nosso sistema nervoso e nosso cérebro se formaram,
seguimos um fluxo de desenvolvimento e aprendizagem. Aprendemos hoje como
aprendíamos quando éramos crianças.
[…] não se aprende nada de novo que não tenha algum vínculo com o
velho. Isto é, não se consegue adquirir um novo conhecimento se não
se dispuser de elos (a parte guarda na memória) que estabeleçam a
conexão como novo. Na medida em que, de acordo com o crescimento,
a criança adquire estruturas cognitivas ela responde a novos conceitos
de inteligência. (Silveira, 2002, p. 53)
18
REFERÊNCIAS
BROWNSTONE, S. Enjoy Those Games, But DIY Brain Training Won’t Make Your
Brain Feel Young Again. Fast Company, 2014. Disponível em:
<[Link]
training-wont-make-your-brain-feel-young-again>. Acesso em: 20 mar. 2022.
19
STILES, J.; JERNIGAN, T. L. The basics of brain development. Neuropsychol
Rev., v. 20, n. 4, p. 327-348, 2010. Disponível em:
<[Link] Acesso em: 20 mar.
2022
TIEPPO, C. Uma viagem pelo cérebro: a via rápida para entender neurociência.
São Paulo: Conectomus, 2021.
20
AULA 4
NEUROCIÊNCIA E
COMPORTAMENTO
HUMANO
2
Na cena da TV de fato, a moça começou a discutir com o rapaz e Nestor
se manifestou.
– Gente, olha ele oferecendo um copo de água para acalmar a nervosa.
Sabem o que é isto? É o sistema motor que estamos estudando. Primeiro, ele
estava na outra peça pensando, aí decidiu ir para a cozinha. A moça reparou que
ele estava por perto, pensou e foi querer discutir. Ele viu que ela estava nervosa
e ofereceu água. Gente! Ele usou a parte mais importante do nosso sistema
nervoso, o córtex cerebral. Não acha Célia?
– Sim! Aconteceu ali o potencial de ação, os sinais neurais. Os neurônios
dele, quando perceberam que ela estava esquentada, passaram a transmitir
impulsos eletromagnéticos pelo corpo.
– E aí – interrompeu Nestor – os neurônios eferentes acionados pelo córtex
cerebral carrearam informações de que a moça estava mal e geraram impulsos.
O que aconteceu? Os músculos se movimentaram e o esqueleto levou o rapaz
até a geladeira, pegou o copo, botou água e ofereceu a água. Os dois se
movimentaram pelas percepções que tiveram.
Vamos deixar de lado, por ora, os quatro colegas de faculdade com a sua
conversa sobre o reality show e o sistema motor, e vamos buscar entender como
os músculos esqueléticos de nosso corpo se movem.
O ponto de partida é dado pelas mensagens do SN que causam as
contrações musculares. Podemos resumir esse entendimento em três passos:
4
TEMA 2 – CÓRTEX MOTOR PRIMÁRIO
5
Figura 1 – Homúnculo cortical
6
Podemos entender a dinâmica do córtex motor primário considerando os
seguintes aspectos:
7
cérebro, há prejuízo de movimento no lado oposto do corpo. Se a área do dano
estiver localizada em uma determinada parte do córtex motor primário, como a
área da mão do homúnculo, ela afetará os movimentos apenas da parte
correspondente do corpo, o que pode ocorrer, por exemplo, com a mão.
8
planejamento do movimento, além de orientar o movimento espacial, o movimento
sensorial, a compreensão das ações externas e o uso de padrões abstratos para
tarefas específicas.
Lent (2016) define que tanto a área motora pré-primária quanto a área
motora suplementar foram inicialmente definidas como regiões corticais cuja
estimulação elétrica era também capaz de induzir movimentos, desde que as
correntes aplicadas apresentassem intensidade considerável. O autor cita o
estudo do neurofisiologista americano Michael Graziano, o qual demonstra que,
junto com o córtex motor primário, as áreas pré-motoras produzem movimentos
que envolvem várias articulações, à semelhança dos movimentos naturais de
preensão e alcance ou de esquiva.
Estudos com macacos, citados por Tassinari e Durange (2014), mostram
que neurônios-espelhos no córtex pré-motor têm papel importante na atenção e
no movimento comportamental. Esse tipo de neurônio não só dispara quando o
macaco faz uma ação, mas também quando o animal observa alguém que
executa aquela mesma ação. Os autores reportam que, com o uso da
Ressonância Magnética Funcional (fMRI) em humanos, é possível presumir a
presença de neurônios-espelho no espelhamento de sentimentos, o que nos leva
à expectativa de circuitos neurais como base para o comportamento empático,
desencadeado por ações responsivas ao sofrimento de outras pessoas.
9
outra em PM e uma terceira em AMS, quando um macaco aperta três botões em
sequência. Inicialmente, a sequência se dava em pistas visuais. À medida que o
animal se acostumava com uma sequência, a intensidade de luz no experimento
era diminuída. até que o macaco realizasse a tarefa de memória. Os neurônios
em M1 mantinham uma atividade neural similar, independentemente da forma
como a tarefa era realizada (visual ou disparada por pistas internas). O neurônio
PM, porém, era mais ativo em resposta às pistas visuais em comparação às
internas, enquanto o oposto acontecia com o neurônio da AMS.
Na condição reportada por Lent (2016), se a ação requer o uso de
sequências motoras aprendidas, acredita-se que a maior contribuição para a
realização da tarefa ocorrE pela AMS. No exemplo do jogador de tênis que precisa
saber onde a bola está, para preparar o movimento da raquete, ocorre uma
integração entre o plano motor aprendido e a retroação sensorial. De outra forma,
o sinal sensorial externo é o primeiro a ser recrutado no caso de um motorista com
o carro parado em frente a um semáforo, esperando o sinal de trânsito para pisar
no acelerador e mudar a marcha.
Nestor convidou Célia, Helena e Lucas para dar uma volta no carro que
ganhou do pai. Ao andar pelo centro da cidade, os amigos notaram que os olhos
de Nestor não paravam quietos. Helena então perguntou:
– Por que a gente mexe tantos os olhos?
– Depende. No trânsito eu tenho que ficar atento a tudo.
– Eu não me refiro só ao trânsito, mas a tudo. Quando eu visito a minha
avó no sítio, eu vejo que a galinha e a coruja mantêm os olhos fixos, é a cabeça
que se mexe.
– É que esses bichos não têm aquela manchinha amarela no centro da
retina. É por ali que se forma a imagem que vai para o cérebro. Como é que é o
nome mesmo? – foi a pergunta de Lucas.
Célia ia dizer que era fóvea, mas nem pode abrir a boca, pois Nestor fez
uma manobra brusca e freou o carro de súbito, exclamando:
- Céus! Foi por pouco! Gente, o que vocês acham de a gente dar uma
paradinha ali naquela lanchonete perto do Passeio Público e comer um daqueles
sanduíches que vem com dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial,
cebola e picles num pão com gergelim. Tem que ver se ela está aberta.
10
– Eu vou comer dois deles – disse Lucas.
– Eu não! Vocês sabiam que um sanduíche desses tem mais de quinhentas
calorias? Eu, hein! – respondeu Helena.
Já na lanchonete, nossos estudantes começaram a conversar sobre o que,
como e onde ocorria, no cérebro, aquele processo que fez Nestor ficar mexendo
os olhos, cuidando do trânsito, até a freada brusca. No bate-papo, eles falaram
sobre a evolução humana, que nos faz caminhar usando os dois pés, sobre o
hábito aprendido em relação ao ato de dirigir, além do uso de processos cognitivos
diretamente nos gânglios basais e no cerebelo.
Leisman, Moustafa e Shafir (2016) definem que a associação entre função
motora e cognição oferece subsídio para entender o bipedismo como
característica evolutiva humana. Por conta disso, criou-se uma base para um
maior desenvolvimento do neocórtex humano. Caminhar apoiado apenas nos pés
é uma característica humana (mesmo que pássaros no solo, alguns mamíferos e
primatas também caminhem de modo similar). No ser humano, o bipedismo
trabalha com a coluna ereta, ao contrário de outros seres. Por conta disso, os
processos cognitivos tornaram-se mais sofisticados, estando associados à
necessidade de adaptação a movimentos mais complexos. Nessa evolução, a
função cognitiva e a motora passaram a ser controladas por certas áreas do
cérebro, como lobos frontais, cerebelo e gânglios da base, em uma interação
coletiva com governança e controle executivo, dando impulso à intencionalidade
dos movimentos.
Os gânglios basais agrupam estruturas como núcleo caudado, putâmen,
globo pálido e núcleo subtalâmico (Bear; Connors; Paradiso, 2017), que
estabelecem respostas musculares. Tieppo (2021) destaca que eles “estão
estreitamente ligados ao nosso comportamento voluntário inconsciente – aquele
em anuência com nossa vontade, mas sem a consciência direta de sua
realização”. Os gânglios basais recebem inputs do córtex cerebral, enviando-os
para os centros motores do tronco cerebral, antes de retornarem para a área de
planejamento do motor do córtex. Gazzaniga e Heatherton (2005) reportam que
eles estão envolvidos na aprendizagem de hábitos. Lembramos que Nestor, ao
dirigir, tinha o hábito automático de olhar o tráfego de veículos no trânsito.
O cerebelo, ligado ao tronco encefálico, é um importante centro de controle
do movimento (Bear; Connors; Paradiso, 2017). A ação brusca de Nestor ao frear
o veículo é um ato de aprendizagem motora envolvido com o cerebelo. “Treinado”
11
pelo sistema nervoso, ele opera de modo independente-inconsciente (Gazzaniga
e Heatherton, 2005), permitindo que Nestor consiga dirigir, olhar o trânsito e
pensar no assunto da conversa ao mesmo tempo.
Encadeamentos apreendidos em circuitos neurais fazem com que Nestor
consiga trocar as marchas do veículo sem estar completamente focado. Caminhar
ou andar de bicicleta também é resultado de aprendizagens baseadas em
processos cognitivos básicos, que envolvem percepção, atenção e memória,
relacionados a processos cognitivos superiores, como o raciocínio e a tomada de
decisão.
13
– Você não vai mais se movimentar e infelizmente deixará de viver em dois
ou três anos!
Imagine ouvir isso aos 21 anos de idade, como ocorreu com Stephen
Hawking! Diagnosticado como portador de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), o
físico inglês viveu até os 76 anos, motivado (dizem) por sua força psicológica e
uma imensa vontade de viver e de superar novos desafios. A doença de Stephen
Hawking degenerou os neurônios motores no cérebro, interferindo na transmissão
de mensagens para os músculos do corpo. Com os músculos atrofiados, ele
perdeu o controle voluntário, embora outros tipos de neurônios continuassem
trabalhando, o que não afetou a inteligência, a memória e a personalidade.
No estudo dos movimentos, descobertas recentes sobre o modo como as
atividades estão ligadas às estruturas cerebrais têm sido importantes, pois nos
ajudam a entender a atividade neural ligada ao movimento, por meio do estudo
de potenciais de prontidão que aparecem, por exemplo, em exames de
eletroencefalograma. Tais potenciais aparecem em torno de um segundo antes
da realização dos movimentos (Lent, 2016).
O autor atribui às técnicas de neuroimagem, com base em medidas do fluxo
sanguíneo e da atividade metabólico cerebral, o domínio mais apurado que temos
do mapeamento das regiões cerebrais que participam da produção de movimento.
Lent defende ainda que a estimulação transcraniana nos ajuda a entender a
atividade neuromotora induzida.
Os avanços da tecnologia confirmam que, para interagir com pessoas,
objetos e ambiente, precisamos ter controle voluntário sobre os movimentos do
corpo. Perdemos o controle voluntário em situações nas quais o organismo se
movimenta sem a nossa percepção. Músculos como a parede do estômago não
recebem controle voluntário, mas sim o controle de outras regiões cerebrais, como
o hipotálamo. Quando uma pessoa se alimenta, o estômago se contrai, sem que
a pessoa tenha conhecimento, o que garante a digestão, mesmo quando a pessoa
dorme.
Controle voluntário não significa simplesmente estender o braço e pegar ou
jogar alguma coisa, andar, correr ou nadar. Precisamos que as nossas cabeças
se mexam, que os nossos olhos explorem imagens, que as nossas expressões
faciais transmitam emoções pela comunicação de lábios, língua e boca. Tais
movimentos voluntários são comandados pelo córtex motor, partindo da sua
localização atrás do lobo frontal. A mensagem neural se move por meio do tronco
14
cerebral, pela medula espinhal, até o músculo que vai ser comandado, que se
contrai em resposta a uma ordem.
Pessoas que sofrem traumatismo craniano ou degeneração dos neurônios
motores, como vimos nos exemplos, perdem a capacidade de controlar os
movimentos do corpo. E o que isso significa? Como acontece com outras partes
do cérebro, danos nos neurônios do córtex motor primário significam que eles
nunca se regeneram ou são reparados. Contudo, o cérebro pode se curar e
recuperar certas funções a partir da neuroplasticidade. Nesse caso, partes não
danificadas podem buscar outras conexões, criando um novo mapa, que envolve
outras áreas, para assumir a função, compensando danos no córtex motor.
A reabilitação física é base essencial da neuroplasticidade, usada em
fisioterapia, para auxiliar pacientes que sofreram acidente vascular cerebral. Tal
prática permite a recuperação da função motora, uma vez que, quando um
movimento específico é realizado, vemos melhoradas as chances de novos
caminhos cerebrais. Uma pessoa que tenha sofrido, por exemplo, um derrame
que afeta os movimentos da perna esquerda, efeito de danos no lado direito do
cérebro, precisará de acompanhamento fisioterápico em sequências ou padrões
de caminhada, buscando ativar o controle de grupos musculares específicos da
perna esquerda. A concentração ao usar os músculos estabelece novos caminhos
neurais, buscando compensar as áreas danificadas. Com a repetição dessa
prática, novos caminhos surgem e se fortalecem, em benefício do movimento
correto, o que passa a exigir menos concentração.
15
REFERÊNCIAS
16
TASSINARI, M. A.; DURANGE, W. T. Experiência empática: da neurociência à
espiritualidade. Rev. abordagem gestalt., Goiânia, v. 20, n. 1, p. 53-60, jun.
2014. Disponível em:
<[Link]
68672014000100007&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 13 maio 2022.
TIEPPO, C. Uma viagem pelo cérebro: a via rápida para entender neurociência.
São Paulo: Conectomus, 2021.
17
AULA 5
NEUROCIÊNCIA E
COMPORTAMENTO
HUMANO
2
impulsos neurais. A maioria das informações sensoriais vai primeiro para
o tálamo, uma estrutura no meio do cérebro. Os neurônios conectores
do tálamo levam então a informação até o córtex, onde o cérebro
interpreta, os impulsos neurais que chegam como visão, cheiro, som,
toque ou sabor. (Gazzaniga; Heatherton, 2005, p. 147)
3
• Estímulo ambiental: vivemos entre estímulos que nos atraem a atenção por
meio de vários sentidos. Compreende tudo no ambiente com potencial para
ser percebido. O mundo está repleto de estímulos que podem atrair a
atenção por meio de vários sentidos. Por exemplo: no instante em que você
lê este texto, pode haver sons no ambiente que não estejam sendo
percebidos, embora possa ser provado que seus neurônios do ouvido
estejam ativos, o que mostra que a percepção é mais seletiva que os
sentidos.
• Estímulo assistido: corresponde ao objeto específico no ambiente no qual a
atenção está focada.
• Imagem na retina: a luz passa pela córnea, pupila e lente do olho. A córnea
ajuda a focalizar a luz quando a íris do olho controla o tamanho das pupilas
para determinar quanta luz deixar entrar. A córnea e o cristalino agem juntos
para projetar uma imagem invertida na retina.
• Transdução: a imagem na retina é transformada em sinais elétricos pelo
processo conhecido como transdução. Nesta condição, as mensagens
visuais são transmitidas ao cérebro para serem interpretadas.
• Processamento neural: os sinais elétricos passam por um processamento
neural. O caminho de determinado sinal depende do tipo (ou seja, um sinal
auditivo ou um sinal visual).
• Percepção: é neste ponto que, ao se perceber o objeto de estímulo no
ambiente, a pessoa tem consciência do estímulo.
• Reconhecimento: a consciência do estímulo não garante a percepção, pois
é necessário ao cérebro categorizar e interpretar o que a pessoa está
sentido. A capacidade de interpretar e dar significado ao objeto caracteriza
o passo do reconhecimento, o que no exemplo da professora Janete não
aconteceu.
• Ação: nesta fase, ocorre algum tipo de atividade motora em resposta ao
estímulo reconhecido. Se assim ocorresse com a professora Janete ao ver
sua ex-aluna Celia, ela poderia responder com uma fala de cumprimento,
uma expressão facial ou um gesto. Vejamos a seguir.
2.1 Sensação
5
(audição); uma gota de perfume em uma casa de 6 cômodos (olfato) ou uma colher
de chá de açúcar em um galão d’água (sabor).
Os estímulos não detectados 50% do tempo entram no campo da persuasão
subliminar. Fracos, esses estímulos não são notados conscientemente. É deste
modo, como frisam os autores, que: “grande parte do nosso processamento de
informações ocorre automaticamente, fora da vista, fora da tela do radar da nossa
mente consciente”.
A psicofísica também é usada para medir a diferença mínima entre dois
estímulos que um sujeito é capaz de perceber, o que é chamado de limiar
diferencial ou diferença mínima perceptível (Lent, 2016). Exemplos: a menor
diferença no som para percebermos uma mudança no volume do rádio; a diferença
mínima de peso para percebermos uma mudança entre dois montes de areia ou a
diferença mínima na intensidade da luz para percebermos uma diferença entre
duas lâmpadas.
Um outro conceito importante é o da adaptação sensorial ilustrado por
Myers e DeWall (2022), quando uma pessoa entra num ambiente cheirando a mofo.
Após a exposição contínua ao estímulo (odor), as células nervosas disparam com
menos frequência, e a pessoa passa a ter menos consciência deste estímulo. A
adaptação sensorial é, desta forma, a diminuição da sensibilidade como
consequência de Estimulação Constante.
2.2 Percepção
Seja lá o que você fez antes de estar lendo este texto ou que vai fazer depois
dele, seus receptores sensoriais estiveram, estão e estarão o tempo todo coletando
informações do ambiente. Em última análise, é assim que interpretamos e agimos
com o que está ao nosso redor. Ao processarmos, organizarmos e interpretarmos
os sinais sensórios, criamos uma representação interna do estímulo, resultando no
que chamamos de percepção (Gazzaniga; Heatherton, 2005).
Na percepção, encontramos duas formas de processamento. No
processamento de baixo para cima, denominado botton-up, as percepções são
construídas a partir de informações sensoriais. Já a forma como interpretamos
essas sensações é influenciada pelo nosso conhecimento disponível, nossas
experiências e nossos pensamentos. Isso é chamado de processamento de cima
para baixo denominado top-down. Para que isso ocorra, nossos sentidos: recebem
estímulos sensoriais, na maioria das vezes utilizando células receptoras
6
especializadas; transformam esses estímulos em impulsos neurais e entregam a
informação neural para nossos cérebros.
Vejamos o processamento de baixo para cima da figura a seguir. Nas linhas,
verticais e horizontais, não se observa um contexto que possa atribuir-se um
significado e nesta condição o processamento se dá de baixo para cima.
I3
Na próxima figura, criaram-se à forma dois contextos diferentes. O cérebro
vê letras sequenciais, e o que se percebe são as linhas formando a letra “B”. O
processamento de cima para baixo usa o contexto para dar significado à imagem.
A I3 C
Agora, na figura seguinte, cercado por números, a mesma forma agora se
parece com o número “13”. Quando dado um contexto, sua percepção é
impulsionada por suas expectativas cognitivas. Agora você está processando a
forma de cima para baixo.
12 I3 14
TEMA 3 – INFLUÊNCIAS NA PERCEPÇÃO
Num bate papo entre os estudantes Celia, Helena, Nestor e Lucas, este
último perguntou o que influenciaria a percepção.
— Experiências passadas – disse Helena.
— Educação, valores e cultura – apresentou-se Nestor.
— Preconceitos e circunstâncias presentes – completou Celia.
— Sabem aquele teste de Rorschach, das manchas que parecem
morcegos? – manifestou-se Lucas — Eu fiz o dito. No início parecia um esquema
de tarô, mas o psicólogo depois me disse que o que eu via ali era o que eu percebia
e que era diferente do que outras pessoas percebiam.
Em outras palavras, o grupo de amigos disse que aquilo que se constrói
como percepção se torna realidade. Neste processo, existem fatores focados no
observador, na situação ou no alvo. O conjunto perceptivo integra Informações
7
sensoriais que se encontram com experiências vividas, por meio das quais cria-se
expectativas, explora-se contextos e na motivação e emoção se completa a
percepção, que é diferente em cada indivíduo.
Myers e DeWall (2022, p. 193) afirmam “ver é acreditar. Embora nos agrade
menos, acreditar é ver”. O argumento leva em conta que pela experiência,
passamos a esperar resultados. Tais expectativas, ao nosso ver, se constroem
pelo modo como estamos motivados, pela emoção que nos afeta e deste modelo
chegamos ao conjunto perceptivo, definido pelos autores como “um conjunto de
tendências e pressupostos mentais que afetam (de cima para baixo) o que
ouvimos, experimentamos, sentimos e vemos”.
Informações processadas encadeiam cognições no padrão estímulo-
resposta e estabelecem processos seletivos que gerenciam respostas
comportamentais. A experiência com avaliação psicológica nos mostra que uma
mancha de tinta do teste de Rorschach 1, por exemplo, ativa esquemas mentais
combinando o contexto do momento com as experiências armazenadas na
memória. O componente perceptivo é a percepção da totalidade global vivenciada
em uma multiplicidade difusa e uma impressão holística que enseja reações de
humor. Villemor-Amaral e Werlang (2011) destacam que, neste teste, as cores
das manchas oscilando entre claro e escuro se dissolvem entre si e provocam
impressões. O humor é eufórico em tons claros e disfórico em escuros, conforme
a percepção do observador. A ambiguidade de uma imagem, de qualquer modo,
depende do ponto de vista do observador, conforme verificamos na figura a seguir,
onde a clássica imagem “vaso de Rubin”, se focada no preto ou no branca, nos
faz ver faces ou um vaso. Na figura a seguir, por meio da experiência, formamos
conceitos, ou esquemas, que organizam e interpretam informações que não são
familiares. Nossos esquemas preexistentes para monstros e troncos de árvore
influenciam como aplicamos o processamento de cima para baixo (top-down) para
interpretar sensações ambíguas (Myers; DeWall, 2022, p. 193).
1
O Teste de Rorschach, elaborado em forma de questionário, usa cartões com manchas de tinta
para identificar traços da personalidade de uma pessoa. Um ponto crítico curioso é que o aplicador
está sujeito ao seu próprio conjunto perceptivo para interpretar as respostas.
8
Figura 1 – Conjunto perceptivo (Vaso Rubin)
3.1 Expectativas
9
3.2 Contexto
10
e mais facilmente são detectados. As evidências mostram que a percepção é
sistematicamente alterada na busca de metas, pela emoção que altera a
percepção para motivar escolhas e afastar perigos.
11
X Vago Misto Função ligada à digestão e frequência cardíaca
XI Acessório Motor Controla músculos do pescoço e ombro
XII Hipoglosso Motor Controla músculos da língua
Fonte: Silveira, 2022.
4.1 Visão
12
occipital, mantendo relações espaciais de forma que as adjacências da retina
correspondem às adjacências no córtex visual primário. O nervo óptico é o
responsável pela visão, e o nervo oculomotor está relacionado ao movimento
ocular, o movimento das pálpebras e a função da pupila e do cristalino.
4.2 Audição
13
do nervo auditivo/vestibular é que conduz impulsos nervosos relacionadas com a
audição.
4.3 Olfação
4.4 Gustação
4.5 Tato
15
Ao vermos um objeto sobre a mesa, dizemos: é um livro. Essa resposta é
provocada por um significado atribuído a uma informação visual. O autor reforça
que alguém que nunca viu um livro na vida não seria capaz desta dedução. Antes
das cognições vem as sensações, como exterocepção, interceptação e
propriocepção, ou seja, a percepção do exterior, a percepção do interior e a posição
do nosso corpo no ambiente. A sequência desse processo é determinada pela
atenção e motivação. Nossa percepção do mundo é finalizada e orientada conforme
a atuação dos nossos órgãos sensoriais, mas também pelos nossos centros de
interesse e conhecimento prévio. Andamos, corremos, dançamos, conversamos,
discutimos, mas para cada indivíduo, se os sentidos se assemelham aos outros
indivíduos, a percepção de todos esses eventos é individualizada pelo seu próprio
aprendizado pessoal.
Pela nossa perspectiva, percepção e cognição estão amplamente
relacionadas, pois uma afeta a outra e vice-versa. Uma coleta informações, a outra
a molda pelo raciocínio, intuição e experiências armazenadas. Podemos considerar
que as informações perceptivas têm o efeito de orientar decisões e ações e deste
modo moldar crenças. Estas crenças influenciam o modo como percebemos
pessoas e o que está em nossa volta. Deste modo, aspectos internos e externos
nos levam a tomar decisões que produzem determinados comportamentos. Isso
ocorre tanto inconscientemente como conscientemente. Nesse último caso, ela
depende da intensidade informativa do estímulo no comportamento de outra
pessoa, ou do ambiente. As duas formas estão relacionadas a processos
cognitivos. Vejamos como isso ocorre em Weiten (2010) e Cherry (2022).
16
• A aprendizagem nos leva a assimilar coisas novas, sintetizar informações
e integrá-las ao conhecimento prévio. Trata-se de uma mudança
relativamente duradoura num comportamento ou conhecimento adquirido
devido à experiência.
• A memória nos permite codificar, armazenar e recuperar informações. Sua
importância está relacionada à perspectiva de reter o conhecimento sobre
o mundo e suas histórias pessoais. Um conceito ligado à memória é o
esquema, que pode ser entendido como um conjunto de conhecimentos
sobre um objeto ou evento abstraído pela experiência anterior.
• A aprendizagem requer processos cognitivos envolvidos em assimilar
coisas novas, sintetizar informações e integrá-las ao conhecimento prévio.
• A emoção impacta como percebemos e respondemos ao mundo ao nosso
redor, como interpretamos e, posteriormente julgamos as ações do outro.
Ela envolve uma experiência subjetiva (componente cognitivo), uma
estimulação física (componente fisiológico) e uma manifestação específica
(componente comportamental). 2
• O pensamento é uma parte essencial de todo processo cognitivo. Ele
permite que as pessoas se envolvam na tomada de decisões, na resolução
de problemas e no raciocínio superior. É por ele que relacionamos
informações, desenvolvemos operações cognitivas e construímos
representações mentais.
2
Weiten (2010), p. 292) apresente o seguinte exemplo: ”se você estiver preso em um
engarrafamento, provavelmente classificará esta estimulação como raiva. Se estiver se
submetendo a um exame importante, talvez a defina como ansiedade. Se estiver comemorando
seu aniversário, provavelmente irá chamá-la de alegria”
17
REFERÊNCIAS
BRADFORD, A.; HARVEY, A. The five (and more) human senses. LIVE
SCIENCE, 8 mar. 2022. Disponível em: <[Link]
[Link]>. Acesso em: 16 maio 2022.
TIEPPO, C. Uma viagem pelo cérebro: A via rápida para entender neurociência.
São Paulo: Editora Conectomus, 2021.
18
VILLEMOR-AMARAL, E. de; WERLANG, B. S. G. Atualizações em métodos
projetivos para avaliação psicológica. São Paulo: Cassa do Psicólogo, 2011.
19
AULA 6
NEUROCIÊNCIA E
COMPORTAMENTO
HUMANO
2
determinado estímulo provoca determinada recompensa, e isso pode ser
relacionado a sistemas neurais separados e que exercem um papel mediador
entre um objeto ou evento estimulador e a resposta comportamental do indivíduo.
A recompensa é facilmente ligada à ideia de reforço positivo, e a pergunta
que surge é: como chegamos à concepção de que os mecanismos neurais
respondem pelo reforço produzido no indivíduo? Gazzaniga e Heatherton (2005)
explicam que tudo começou na década de 1950, em estudos sobre a estimulação
elétrica de uma região específica do cérebro que facilitaria a aprendizagem. Num
experimento, James Olds e Peter Milner destacados pelos autores, aplicaram um
eletrodo ao cérebro de ratos quando eles estavam posicionados num ponto
específico de uma jaula. Pela lógica, com o procedimento aversivo, os ratos
deveriam evitar aquele local, mas um pequeno erro cirúrgico fez os pesquisadores
aplicarem o estímulo elétrico na parte errada do cérebro, e por consequência, em
vez de evitar a área da jaula associada ao procedimento aversivo, os ratos ali
permaneceram querendo mais.
Myers e DeWall (2022) reportam que, ao se dar conta de que invés de
implantar o eletrodo na formação reticular do rato, o dispositivo foi colocado em
uma região do hipotálamo, Olds e Milner se depararam com um centro cerebral
que fornece recompensas prazerosas. No relato, os dois neuropsicólogos da
McGill University de Montreal ampliaram o experimento em locais específicos do
cérebro no procedimento referido por Gazzaniga e Heatherton (2005) como
autoestimulação intracraniana (ICSS). O estudo localizou outros centros de prazer
no cérebro à não atribuição de sentimentos humanos aos ratos. Hoje, estes pontos
são vistos como centros de recompensa ao invés de centros do prazer. “Quando
puderam pressionar alavancas para ativar sua própria estimulação, os animais as
vezes o faziam mais de mil vezes por hora” (Myers e Dewall, 2022, p. 61).
Para Gazzaniga e Heatherton (2005), grande parte dos psicólogos vê a
ICSS, como a ativação de pontos do cérebro por reforços naturais como alimento,
água e sexo. Nos ratos, eletrodos aplicados aos centros de recompensa eliciam
comportamentos como comer, beber e copular com um parceiro disponível. Privar
um animal do alimento ou de água aumenta a ICSS, o que indicaria a tentativa de
se chegar ao estado subjetivo da recompensa natural. As ações humanas, são,
portanto, impulsionadas. Dois fatores contribuem para isso: as necessidades
relacionadas à alimentação, sono e evitação da dor e as recompensas. Objetos,
eventos e atividades transformam-se em recompensa se provocarem motivação.
Como isso acontece?
3
Criaturas humanas que somos, damos sentido às coisas que acontecem
no mundo que nos cerca. Pensamos, lembramos, falamos, mexemos os braços,
caminhamos, respondemos a eventos geradores de emoções, como perder um
emprego, apaixonar-se, ficar doente, ganhar um presente significativo. Quando
isso acontece, podemos sentir os batimentos cardíacos, a velocidade da
respiração. Duas coisas são importantes neste processo: as estruturas cerebrais
e as substâncias químicas. Circuitos neurais estão ligados a estas duas coisas.
Damos sentido às coisas ao nosso redor pela visão, olfação, audição, tato e
paladar, recebendo e enviando mensagens, muitas vezes ao mesmo tempo.
Os mecanismos neurais por trás da autoestimulação craniana, ao envolver
tanto as estruturas cerebrais como as substâncias químicas, formam a base
biológica da recompensa. O hipotálamo, por exemplo, uma parte vital do sistema
límbico, é a área que por meio do desenvolvimento humano, e levando-se em
conta os circuitos neurais, produz múltiplos mensageiros químicos, chamados
hormônios. São estas substâncias que controlam os níveis de água no corpo, os
ciclos do sono, a temperatura corporal e a ingestão de alimentos. Vejamos, na
sequência, as principais estruturas cerebrais e substâncias químicas vinculadas
ao que chamamos de sistemas de recompensa.
4
informações ao hipotálamo, que regula funções autonômicas (frequência
cardíaca, regulação térmica, metabolismos como fome, sede e reprodução).
Estendidas por várias regiões do cérebro, a área tegmental ventral transmite
mensagens para o que resta do circuito de recompensa, influindo na liberação da
substância química dopamina (Tassin, 2021), vista como a “molécula do prazer”.
2.2 Hipotálamo
5
estrutura regula tanto a química do sangue quanto as ordens oriundas de outras
partes do cérebro.
Um exemplo dado pelos autores mostra que, ao receber sinais do cérebro
de que a pessoa está pensando em sexo, o hipotálamo secreta hormônios que
ativam a “glândula mestra” do sistema endócrino, a hipófise, para induzir suas
glândulas sexuais e liberar seus hormônios que acentuam o pensamento sobre
sexo no córtex cerebral. Desta forma, o cérebro afeta o sistema endócrino e este
afeta o cérebro. A experiência antes citada por Olds e Milner foi determinante para
avançarmos no entendimento do papel do hipotálamo no sistema de recompensa.
2.3 Amígdala
6
2.3 Hipocampo
7
liberação de dopamina. Os dois psicólogos, professores e neurocientistas
destacam que a comida tem melhor sabor na fome e a água é mais
recompensadora na sede porque existe maior liberação de dopamina em
situações de privação do que de não privação.
3.1 Feromônios
8
reações fisiológicas ou comportamentais. Neste entendimento, estas substâncias
não eliciam “cheiros” conscientes, mas se processam de modo similar aos
estímulos olfatórios.
Para algumas espécies, os feromônios são essenciais para a sobrevivência
e a interação social. Entre as formigas, por exemplo, há um tipo determinado de
feromônio que faz um indivíduo seguir atrás do outro alinhadamente em busca de
comida. Trata-se do “feromônio recrutador”, mas dependendo de qual seja a
comunicação, cria-se uma expectativa de resposta a ser produzida em diferentes
situações como autodefesa, acasalamento ou alimentação, por exemplo, em que
ele exerce o papel respectivo de “feromônio sinalizador”, “feromônio excitador” ou
“feromônio desencadeador”.
Alguns estudos relacionados aos feromônios têm apontado a participação
dessas substâncias na recompensa. Num deles, publicado da revista Frontiers in
Neuroanatomy e produzido por pesquisadores da Universitat de Valencia da
Universitat Jaume I, ratas são atraídas pelos feromônios masculinos. Nesta
condição, ocorre uma liberação de dopamina no núcleo accumbens do cérebro, a
região que controla o comportamento direcionado à aquisição de recompensas
(Sánchez-Catalán, 2017).
Sabe-se que existem diferentes formas dos feromônios serem excretados:
alerta de perigo, sinalização de comida, encontrar um parceiro. Há um debate em
vigência sobre a existência desta substância em seres humanos, e o que se
evidencia é o crédito que cientistas e pesquisadores dão ao potencial humano de
se comunicar com outros pela produção de feromônios, algo que merece mais
estudos.
3.2 Hormônios
9
hormônios que ativam a chamada glândula mestra do sistema endócrino — a
hipófise, que ativa a liberação de hormônios que por sua vez darão ênfase à ideia
de sexo no córtex cerebral.
É importante que se ressalte a condição de peça-chave do hipotálamo em
relação aos hormônios. Tieppo (2021) enfatiza que é por ele que ocorre a
secreção de praticamente todos os hormônios do corpo humano, incluindo-se
aqueles secretados pelo córtex da glândula suprarrenal, que libera os
corticosteroides, hormônios que orquestram respostas fisiológicas em situações
estressantes.
Os hormônios, a exemplo dos neurotransmissores que veremos a seguir,
como se percebe, transportam sinais de uma parte do corpo para outra e ocupa
papel relevante na fisiologia do corpo, controlando uma variedade de funções,
sejam físicas, sejam psicológicas, onde se inclui o nosso humor, padrões
alimentares e ciclos do sono.
3.3 Neurotransmissores
10
conexões. Nesta dinâmica, parte da reconfiguração é orientada por sistemas de
recompensa que colocam em destaque a dopamina. Atuando como mediadores,
os neurotransmissores exercem a função de correio. Além da dopamina, são
exemplos a noradrenalina, a histamina, a tirosina e a serotonina, que é ligada à
felicidade por transmitir a sensação de bem-estar, ajudar a conciliar o sono e por
reduzir o desejo exagerado de doces (Fernandes, 2016).
4.1 Dopamina
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dopamina age como corretora de erros: uma avaliadora química que atualiza
avaliações.
A dopamina é, portanto, uma moduladora final de entradas físicas e
psíquicas. Neurônios dopaminérgicos (principal fonte de dopamina) modulam a
hierarquia das estruturas corticais e subcorticais a fim de que a ação desejada
(motora, se for algo como correr ou andar, ou psíquica, se exigir atenção) possa
ser realizada. Como dissemos, a dopamina é o modulador final de entradas físicas
e psíquicas. Isso significa que, dependendo das informações recebidas a
montante, neurônios dopaminérgicos modulam a hierarquia das estruturas
corticais e subcorticais para que a ação desejada (motora, se for uma questão de
correr ou andar, ou psíquica, se for uma questão de concentrar a atenção) pode
ser realizada (Tassin, 2021).
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A ocitocina é ligada à redução da ansiedade e insegurança, sendo
chamada de hormônio do amor. Muitas pesquisas também indicam a ligação entre
a ocitocina e a saúde sexual, potencializando o desejo sexual feminino e o
orgasmo masculino. Ela também está presente na hora do parto, estimulando as
contrações do útero e a liberação do primeiro leite. Pliszka (2004) reporta que
quando a ocitocina é liberada em fêmeas prenhas, ela provoca contrações
uterinas e desencadeia a lactação. Ele também afirma que o som do choro do
bebê, leva neurônios hipotalâmicos a liberar ocitocina..
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recompensa em ações repetitivas que a aproximem do alvo da atração. Quando
voltou ao parque no outro dia e reparou Nestor, Célia voltou a sentir o efeito da
dopamina. Dali para frente, o córtex pré-frontal (CPF), o núcleo accumbens (NA)
e a área tegmental ventral (ATV) viriam a ser ativados. No início de tudo, disse
ela, a sensação de prazer ativa a produção de neurotransmissores (neste caso, a
dopamina), desencadeando o sistema de recompensa.
Célia “deu um jeito” de se mostrar visualmente e Nestor parou a fim de
cumprimentá-la, o que lhe provocou uma situação interna típica àqueles
momentos em que os níveis de dopamina no NA do cérebro aumentam pela
projeção de neurônios que viajam na via mesolímbica por meio da ATV.
Quando começou a conversar com Nestor, Célia vivenciou em seu cérebro
movimentos neurais que levaram a informação ao CPF, que a fez pensar se não
estava se oferecendo, se ele estava sendo gentil, se valia ou não valia a pena ter
buscado encontrá-lo. Neste ponto, lembrou de alguns olhares trocados na
faculdade, em alguém que com ele se encontrou, em trabalhos que ele
apresentou, ao mesmo tempo que olhava seu porte físico, seu sorriso cúmplice.
Isso tudo movimentava seu cérebro sobre o passo seguinte. As mensagens
chegadas ao CPF são trabalhadas na atenção, memória, motivação e
planejamento de ação. Neste processo de modulação, o cérebro prepara-se para
colocar o lado racional frente ao lado emocional.
À medida que avançou no bate-papo, Célia pensou: “será que eu quero
estar com ele?”. “Será que eu já gostava dele antes sem me dar conta?” Neste
momento — disse a Helena —, é quando o córtex pré-frontal desfila suas razões
e a área tegmental ventral expõe suas emoções.
A conversa se estendeu. Ele pareceu até esquecer que a corrida fora
interrompida e por um momento colocou a mão nos ombros de Célia. Nesse
instante, ela sentiu o pulso acelerar, a respiração mudar e as bochechas a
esquentar (o que estava acontecendo?). Célia, não falou numa quinta etapa,
apenas disse que no seu caso a emoção do amor venceu, o que levou Helena a
perguntar:
— Mas, e aquilo que aconteceu em setembro passado, que você teve uma
crise de ciúme, disse que iria acabar o namoro e coisa e tal?
— Menina, aquilo foi quando eu inventei de achar que estava muito gorda
e resolvi fazer uma dieta. Naqueles dias, passei mal, fui ao médico e ele me disse
que eu estava carente de vitamina B. Fui ao psicólogo, ao neurologista e me
disseram que provavelmente eu estava com problemas de serotonina.
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— Sei, aí você tomou fluoxetina?
— Negativo. Basicamente, decidi mudar meus hábitos, passei a comer
alimentos ricos em triptofano (aquela substância que produz serotonina) na minha
alimentação, passei a caminhar mais vezes no parque. Depois disso, sabe o que
aconteceu? Diminuiu minha irritabilidade, a insônia, os problemas
gastrointestinais e entendi que meus ciúmes do Nestor era uma coisa minha,
boba. Na verdade, amiga, o curso que estamos fazendo na faculdade me ajudou
nisso. Quando pensei nisso nesse assunto, lembrei de alguns livros que nós lemos
falando sobre a diminuição de neurotransmissores nas fendas sinápticas, coisa
que acontecia comigo.
Célia se referia a coisas do tipo neurônios não produzirem o suficiente de
um neurotransmissor específico, desativação por enzima, reabsorção muito
rápida e, no seu caso, pelo que entendeu do que ouviu dos profissionais, era a
falta da serotonina. Em determinadas situações em que as pessoas não denotam
bem-estar, elas podem estar carentes deste neurotransmissor. Isso pode estar
relacionado ao que Fernandes (2016) explica quando fala em desequilíbrio
químico de serotonina: pouca presença de serotonina nas lacunas sinápticas,
fazendo com que as vias serotonérgicas no cérebro fiquem: <hipoativas.
— Célia, você e o Nestor estão namorando há um ano e meio, e em um
ano nos formamos. Você pensa em alguma coisa séria? Ainda está loucamente
apaixonada por ele?
— Olha, a minha dopamina não está mais disparando. Isso não significa
que nós nos desapaixonamos, mas que temos que seguir em frente. Ao que tudo
indica, vamos nos casar, sim, no momento certo. No início, era aquela atração
física; hoje, eu gosto dele como um todo. Existe um amor companheiro na nossa
relação. Você sabe que se uma pessoa ficar só dominada pela dopamina, ela não
fica satisfeita por muito tempo, existem os outros neurotransmissores. Eu acho
que a ocitocina entrou em campo; acredito que ela me ajuda a reduzir a
ansiedade, me dá confiança, me ajuda a ter conexões com pessoas como você.
Minha recaptação está ok, acredito.
— É verdade. Esta coisa de reabsorção do neurotransmissor é que nos
equilibra. Se um neurotransmissor é reabsorvido por um neurônio a seguir à
transmissão de um impulso nervoso, isso previne atividades prolongadas dele
sobre seus receptores e enfraquece seus efeitos. E sobre a ocitocina, eu a sinto
em mim. Não tenho namorado, nem projeto, mas amo minha família.
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Produzida pelo hipotálamo, como a dopamina, a ocitocina está vinculada
ao apego, sendo frequentemente apelidada de hormônio do abraço. A literatura é
pródiga em dizer que a ocitocina ajuda a construir conexões, formando laços
sociais que com a sua forte presença proporciona bem-estar. Para Brenan (2021),
a falta de conexão é uma forma de estresse que faz com que o corpo libere
ocitocina e o envie à procura de interação com outras pessoas.
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REFERÊNCIAS
SANTÉ LOG. Planification: Ces neurones de l'amygdale prêts à tout pour une
récompense, 2015. Disponível em:
<[Link]
prets-tout-pour-une-recompense>. Acesso em: 19 abr. 2022.
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TASSIN, J.-P. Le circuit de la récompense. Planet Vie, 2021. Disponível em:
<[Link]
hormonal/le-circuit-de-la-recompense>. Acesso em: 19 abr. 2022.
TIEPPO, C. Uma viagem pelo cérebro: a via rápida para entender neurociência.
São Paulo: Conectomus, 2021. Edição do Kindle.
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