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Véus Rasgados

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O táxi ziguezagueava por entre o trânsito do


aeroporto. O calor do Luisiana palpitava à sua
volta. Gwen deixou escapar um longo suspiro e
mudou de posição ao notar que o tecido fino da
blusa de linho cor de marfim se colava às costas.
O alívio foi efémero. Enquanto olhava pela janela
com os olhos semicerrados, decidiu que o sol de
julho não mudara nos dois anos que estivera fora.
O táxi virou bruscamente, afastando-se do centro
de Nova Orleães, e rumou ao sul. Gwen pensou
que muito poucas coisas tinham mudado naque-
les dois anos, além de ela mesma. O musgo escuro
ainda pendia das árvores na berma da estrada,
dando um ar de sonolência à tarde ensolarada. A
brisa ainda transportava o aroma denso e pene-
trante das flores. O ambiente estava impregnado
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NORA ROBERTS

de uma indolência lânguida que Gwen quase ti-


nha esquecido durante os dois anos que vivera
em Manhattan. «Sim», pensou, esticando o pes-
coço para vislumbrar um braço do rio quase ta-
pado pelas árvores, «Eu é que mudei. Cresci».
Tinha vinte e um anos e uma inocência cheia
de idealismo quando partira do Luisiana. Agora,
aos vinte e três, sentia-se amadurecida e expe-
riente. Era a adjunta do editor de moda da revista
Style e estava habituada a enfrentar prazos de en-
trega e modelos caprichosas, e inclusive conse-
guia manter a sua vida privada no meio da agita-
ção da sua carreira profissional. De facto, tinha
aprendido a valer-se sozinha, sem contar com o
apoio de pessoas e lugares conhecidos. A melan-
colia insidiosa que sentira durante os seus primei-
ros meses em Nova Iorque tinha caído no esque-
cimento e o suplício da insegurança e do medo
de estar sozinha tinha-se esfumado na sua memó-
ria. Gwen Lacrosse não só tinha sobrevivido à
mudança da terra das magnólias para o cimento,
como também tinha a sensação de ter triunfado.
«Sou uma rapariga de uma vila do sul que sabe
desenvencilhar-se sozinha», pensou, com um bri-
lho de insolência. Não tinha voltado a casa de vi-
sita, nem para passar um verão sabático. Tinha
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VÉUS RASGADOS

voltado com uma missão. Cruzou os braços num


gesto inconsciente de determinação.
Pelo espelho retrovisor, o taxista via uma cara
ovalada, rodeada de uma cabeleira comprida de
caracóis acobreados. A estrutura facial da sua pas-
sageira era elegante, mas os traços tinham um ar
sério. Os olhos castanhos enormes fixavam o ho-
rizonte e a boca carnuda não sorria. Apesar da ex-
pressão severa, pensou o taxista, tinha uma cara
linda.
Alheia ao escrutínio, Gwen continuou a fran-
zir o sobrolho, absorta nos seus pensamentos. A
paisagem desaparecera da sua visão.
«Como pode ser tão ingénua uma mulher de
quarenta e sete anos? Que maneira de cair no ri-
dículo! A mamã sempre foi sonhadora e pouco
prática, mas isto! É tudo culpa dele», pensou, res-
sentidamente. Sentiu um novo acesso de raiva e
semicerrou os olhos. A sua tez pálida ruborizou-se.
«Luke Powers», Gwen apertou os dentes ao re-
cordar o nome. «O famoso romancista e argu-
mentista, o viajante, o desejado solteiro... Que
canalha!», concluiu Gwen, enquanto torcia, sem
se dar conta, a alça da sua mala de couro com um
gesto que se parecia suspeitosamente ao de torcer
um pescoço. Um canalha de trinta e cinco anos.
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NORA ROBERTS

«Bom, senhor Powers, o seu pequeno romance


com a minha mãe acabou. Percorri todos estes
quilómetros para o pôr na rua. E é o que penso
fazer, a bem ou a mal».
Recostou-se no banco, soprou os caracóis que
lhe caíam sobre os olhos e imaginou como poria
Luke Powers fora da vida da sua mãe. «A docu-
mentar-se para o seu novo livro!», pensou, com
desdém. «Pois, terá de escrever o seu livro sem se
documentar também sobre a minha mãe.» Fran-
ziu o sobrolho ao recordar as cartas que a sua mãe
lhe enviara durante os três meses anteriores. Luke
Powers aparecia em quase todas aquelas folhas de
papel violeta perfumado: a ajudar a sua mãe no
jardim, a levá-la ao cinema, a pregar pregos...
Tornando-se, em resumo, imprescindível.
Ao princípio, Gwen tinha prestado pouca
atenção àquelas referências a Luke. Estava habi-
tuada a que a sua mãe se entusiasmasse com as
pessoas, àquela visão idealista e sentimental do
mundo. «E, para ser sincera», pensou Gwen, com
um suspiro, «estive concentrada nas minhas coi-
sas, nos meus problemas». Os seus pensamentos
voaram de repente para Michael Palmer. Mi-
chael, tão prático, tão brilhante, tão egoísta, tão
de fiar. Uma nuvenzinha de aflição ameaçou aba-
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VÉUS RASGADOS

ter-se sobre ela ao recordar o fracasso estrepitoso


da sua relação. «Michael merecia mais do que eu
podia dar-lhe», pensou, com tristeza. Os seus
olhos encheram-se de lágrimas quando pensou na
sua incapacidade de se entregar como Michael
queria. Pusera um travão ao seu corpo e à sua
alma, incapaz de se comprometer ou pouco dis-
posta a isso. Afastou rapidamente o desânimo e
recordou que, apesar de ter fracassado com Mi-
chael, tinha muito sucesso no seu trabalho.
Aos olhos da maioria das pessoas, o mundo da
moda era sofisticado, elegante e repleto de gente
bonita que saltava alegremente de festa em festa.
Gwen esteve prestes a rir-se ao pensar no absurdo
daquela imagem. O mundo da moda, como ela
o conhecia, era, na realidade, um mundo louco
e frenético, um trabalho cansativo, cheio de ar-
tistas temperamentais, modelos desenquadradas e
prazos de entrega impossíveis de cumprir. «E eu
sou boa a enfrentar tudo isso», pensou, endirei-
tando automaticamente os ombros. Gwen La-
crosse não tinha medo do trabalho árduo, assim
como não tinha medo dos desafios.
Os seus pensamentos voltaram novamente a
Luke Powers. As cartas da sua mãe denotavam
afeto por ele e o nome aparecia com frequência
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NORA ROBERTS

suficiente para lhe causar uma certa inquietação.


Durante os três meses anteriores, aquele desassos-
sego fora-se transformando em preocupação, até
que se tinha sentido impelida a dar cartas no as-
sunto e tinha pedido um mês de licença na em-
presa. Estava convencida de que lhe correspondia
proteger a sua mãe de um mulherengo como
Luke Powers.
A reputação de Powers com as palavras, e com
as mulheres, não lhe causava nenhum medo. «Di-
zem que é perito em ambas», refletiu, «mas eu sei
como cuidar da minha mãe e de mim mesma. O
problema da mamã é que é muito crédula. Só vê
o que quer ver. Não gosta de ver os defeitos». A
sua boca suavizou-se num sorriso e a sua cara ad-
quiriu inesperadamente uma beleza assustadora.
«Eu cuidarei dela», pensou, com decisão. «Como
sempre fiz.»
A rua que levava à casa de infância de Gwen
era ladeada por magnólias frágeis. Quando o táxi
começou a avançar por ela, Gwen sentiu os pri-
meiros estremecimentos de um prazer genuíno.
Sentiu o aroma da glicínia antes de ver a casa. Ti-
nha três andares elegantes de tijolo caiado, com
janelas altas e varandas de ferro forjado. Um al-
pendre percorria a fachada da casa, pela qual subia
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VÉUS RASGADOS

livremente a glicínia. Não era uma casa tão antiga


e esmerada como muitas outras do Luisiana an-
teriores à guerra, mas possuía o encanto e a gra-
ciosidade típicos daquele período. Gwen tinha a
impressão de que aquela casa combinava com o
caráter da sua mãe. As duas eram delicadas, boni-
tas e pouco práticas.
Levantou o olhar para o segundo andar, en-
quanto o táxi se aproximava do fim do caminho.
Continha quatro pequenas suítes que tinham sido
remodeladas para os «convidados», como a sua
mãe lhes chamava, ou, como Gwen os denomi-
nava com maior precisão, para os «hóspedes». As
contribuições pecuniárias dos «convidados» tor-
navam possível que a casa se mantivesse no seio
da família e em bom estado. Gwen, que tinha
crescido com aqueles convidados, aceitava-os
como se aceitava uma leve comichão. Agora, no
entanto, contemplava, carrancuda, as janelas do se-
gundo andar. Numa daquelas suítes hospedava-se
Luke Powers. «Mas não por muito tempo», pen-
sou, enquanto saía do táxi, levantando o queixo.
Depois de pagar ao taxista, olhou distraida-
mente para o lugar de onde procedia um tambo-
rilar baixo e monótono. No jardim lateral, além
de uma camélia em flor, havia um homem a des-
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NORA ROBERTS

truir um carvalho morto há muito tempo. Estava


nu da cintura para cima e usava as calças de ganga
muito descaídas. Tinha as costas e os braços,
bronzeados e musculosos, cobertos de uma camada
brilhante de suor. O cabelo castanho-escuro, com
madeixas mais claras que testemunhavam o gosto
pelo sol, frisava-se, húmido, no pescoço e na testa.
Tinha um ar eficiente e seguro de si mesmo.
Apoia-se firmemente nas pernas e balançava-se
sem esforço sobre elas. Embora não conseguisse
ver-lhe a cara, Gwen compreendeu que estava a
apreciar a sua tarefa: o calor, o suor, o esforço. Fi-
cou parada no caminho enquanto o táxi se afas-
tava e admirou o seu aspeto viril, tosco e elemen-
tar, e a eficácia arrogante dos seus movimentos.
O machado cravava-se no centro da árvore com
uma elegância violenta. De repente, pensou que
há meses que não via um homem a fazer um es-
forço físico que não fosse correr por Central
Park. Curvou os lábios num sorriso de admiração
enquanto via o machado a subir e a descer, e os
músculos a contrair-se e a relaxar. O machado, a
árvore e o homem formavam um todo perfeito,
belo e elementar. Gwen tinha esquecido como a
simplicidade podia ser bonita.
A árvore estremeceu e gemeu. Em seguida,
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VÉUS RASGADOS

hesitou por um instante, cambaleou e caiu ao


chão. Ouviu-se um vaio rápido e uma pancada
seca. Gwen sentiu o desejo ridículo de aplaudir.
– Não gritou «Madeira!» – disse, levantando a
voz.
Ele tinha levantado o braço para secar o suor
da testa e virou-se ao ouvi-la. O sol refulgia nas
suas costas. Gwen semicerrou os olhos, mas não
conseguiu ver a sua cara claramente. Havia à sua
volta uma aura de luz solar que silhuetava o seu
corpo alto e fibroso, e o seu cabelo encaracolado.
Parecia um deus, como uma imagem primitiva de
virilidade. Enquanto o observava, ele apoiou o ma-
chado contra a árvore e aproximou-se dela. Me-
xia-se como se estivesse mais habituado a andar so-
bre areia ou erva do que sobre asfalto. Gwen
sentiu-se de repente ameaçada e atribuiu a confusão
estranha que sentia ao facto de não conseguir dis-
tinguir os seus traços. Era um homem sem rosto e,
portanto, a encarnação da masculinidade, forte e ex-
citante. Gwen protegeu os olhos do sol com a mão.
– Fê-lo muito bem – sorriu, atraída pela mas-
culinidade franca. Não se apercebera de como se
tornara aborrecida com os seus fatos e as suas
mãos suaves. – Espero que não lhe importe ter
público.
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NORA ROBERTS

– Não. Nem toda a gente sabe apreciar uma


árvore bem cortada.
Quando falava, não arrastava as vogais. Não havia
o mínimo sotaque do Luisiana na sua voz. Quando
a sua cara adquiriu finalmente nitidez, Gwen viu
com espanto a energia que irradiava. Era uma cara
fina e cinzelada, com uma covinha no queixo. Ele
não se barbeara e a sombra da barba acentuava a vi-
rilidade do rosto. Os seus olhos eram azul-acinzen-
tados. Tinham um olhar sereno, quase surpreenden-
temente inteligente sob as sobrancelhas grossas. A
sua calma, impregnada de autoridade, cativava.
Gwen compreendeu imediatamente que aquele ho-
mem se conhecia bem. Apesar de estar intrigada,
sentiu-se incomodada sob o escrutínio do seu olhar.
Tinha quase a certeza de que conseguia esquadri-
nhar além das palavras, até ler o pensamento.
– Eu diria que tem muito talento – disse-lhe e
pensou que havia nele uma certa distância, mas
não a distância fria do desinteresse. «É afetuoso»,
pensou, «mas não entrega o seu afeto a qualquer
um». – Acho que nunca vi uma árvore a cair com
tanta delicadeza – dedicou-lhe um sorriso gene-
roso. – Faz muito calor para usar um machado.
– Tem demasiada roupa em cima – replicou
ele, com simplicidade.
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