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Romance de Amor e Esperança

Um romance de José Rodrigues sobre o amor

Enviado por

Vania
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Um romance de José Rodrigues sobre o amor

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JOSÉ RODRIGUES

Um romance comovente sobre o amor,


a perda e a esperança

«Gosto tanto de ler José Rodrigues!»


Cuca Roseta
J O S É R O D R I G U E S

O QUINTO
PESCADOR
O Quinto Pescador
José Rodrigues

Publicado por:
Porto Editora
Divisão Editorial Literária – Porto
Email: [email protected]

© 2024, José Rodrigues e Porto Editora

Design da capa: Leonardo Fróes


Imagem da capa: © Stock.Adobe.com
Fotografias no interior: Sara Augusto

1.ª edição: abril de 2024

Reservados todos os direitos. Esta publicação não pode ser reproduzida, nem
transmitida, no todo ou em parte, por qualquer processo eletrónico, mecânico,
fotocópia, gravação ou outros, sem prévia autorização escrita da Editora.

Oo
www.portoeditora.pt

Execução gráfica Bloco Gráfico


Unidade Industrial da Maia.
Sistema de Gestão Ambiental
certificado pela APCER,
com o n.º 2006/AMB.258.
DEP. LEGAL 528268/24
A cópia ilegal viola os direitos dos autores.
ISBN 978-972-0-03759-6 Os prejudicados somos todos nós.
JOSÉ RODRIGUES

O QUINTO
PESCADOR

Oo
Prefácio

Não conheço a Praia do Furadouro, mas foi por causa dela que
conheci o José Rodrigues, a propósito de uma publicação numa
rede social, numa dessas modernices que se vivem hoje e que, feliz-
mente, não trazem apenas desgraças, como, por vezes, se apregoa.
A simplicidade das suas palavras chamou-me a atenção e fui ver
quem era o autor. Percebi então que se tratava de um verdadeiro autor,
com quatro obras já escritas. Tomei a decisão de comprar o Voltar a ti,
livro que confesso ter escolhido pelo nome e pela fotografia de capa.
Identifiquei-me com ambas, talvez por, na altura, estar a viver uma
fase em que eu própria voltava a mim e me reconectava com a minha
essência. Li o livro em dois dias, pois parecia que tinha sido escrito
para mim. A personagem principal, Constança, poderia muito bem
ser eu, e identifiquei-me com a história, com o propósito e com
a mensagem. Assim que terminei, fiz a seguinte publicação sobre
a minha leitura: «Acabei de ler este livro e vim aqui dizer que ADO-
REI e que recomendo muito.» Na verdade, Voltar a ti relata a forma
de como a vida nos põe no caminho da felicidade e do amor. Mesmo
quando somos casmurros e fazemos tudo para nos mantermos den-
tro da «gaiola dourada» que criámos, mas o corpo e a alma falam
mais alto. Constança é surpreendida por si mesma, a emoção fala
mais alto do que a razão e um novo desafio convida-a a reconstruir-
-se e a voltar à sua base, à sua raiz, à sua essência…
Não vou contar. Leiam.
Obviamente, depois da primeira obra, li todas as outras que já
tinham sido editadas e fiquei ansiosamente à espera da seguinte.

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Conhecemo-nos pessoalmente uns meses depois, na Feira do
Livro de Lisboa, quando o José apresentava o seu quinto livro, Dias
de outono.
Na verdade, nunca nos tínhamos visto, mas parecia que sim.
Como escreve o José, «existe uma forma muito especial de afeto que
transforma pessoas que acabaram de se conhecer em amigos de longa
data. De repente, uma primeira conversa parece ser a milésima e um
novo olhar parece ser a cópia de muitos antigos. Como se existisse
uma forma especial de proximidade que consegue fazer parecer que
a distância, afinal, nunca existiu».
Os amigos podem chegar de todo o lado, bem como as pessoas
com quem temos de nos cruzar, e é a vida que se encarrega de as
colocar no nosso caminho.
Posso dizer que nos tornámos grandes amigos. Estamos longe,
eu em Lisboa e o José em Viseu, mas a amizade que nos une faz-nos
estar perto.
O José Rodrigues é uma pessoa que me emociona, não apenas
com as suas obras, mas também com a sua amizade, com as suas
atitudes e com a forma como se entrega e vive a vida. Emociona-me,
acima de tudo, porque põe amor em tudo o que faz.
O Quinto Pescador é a segunda obra do José que fui lendo à me-
dida que ele a foi escrevendo. Não sei como explicar a sensação que
tenho sempre que recebo um capítulo acabado de sair da sua alma,
das suas mãos, como se de um milagre se tratasse. É como se estivesse
a viver um sonho, pois na imaginação dos autores vive uma forma de
magia que eu tenho possibilidade de viver, de presenciar, de sentir.
O convite para escrever estas palavras para a sua nova obra
teve tanto de lisonjeiro como de aterrador, pois eu sou apenas uma
amiga do José que gosta de ler os seus livros, sem autoridade na
matéria da escrita ou da literatura.
A forma como o José nos conta as suas histórias é verdadeira-
mente tocante e apaixonante. As palavras levam-nos para um outro
mundo, onde me vejo a sorrir, onde me emociono, onde os meus
batimentos cardíacos aceleram e os meus lábios cerram ansiosos
pelos desfechos. Onde o meu corpo sente, através de cada palavra
e de cada descrição, a vivência de todas as emoções.

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Tal como nas obras anteriores, em O Quinto Pescador é muito
fácil a identificação com as personagens, com os seus pensamen-
tos, com o desenvolvimento da narrativa, incluindo os lugares des-
critos, permitindo-nos que os pormenores nos façam visualizar de
forma detalhada cada espaço – como se estivéssemos realmente
a passear naquelas ruas e nos fosse permitido encontrar o caminho
para a Praia do Limoeiro, para o casebre, conversar com o busto de
São Pedro ou ir tomar um café à tasca de Manuel Lopes. Também
espreitar junto à casinha que fica no beco e sentir o cheiro dos pe-
tiscos da avó Marília. Tudo isto porque a forma como o José escreve
é de uma simplicidade grandiosa e rica.
O Quinto Pescador é o sexto romance do autor. Esta apaixonante
história mostra-nos como é possível voltar a acreditar na vida, no
amor, mesmo perante um aparente fim de caminho. Francisco, de 45
anos, bem-sucedido profissional e pessoalmente, vê a sua vida mudar
numa fração de segundo, e a desgraça passa a tomar conta de todos
os seus sentidos.
Mais uma vez, o José mostra-nos que é o amor que salva o mundo
e a Humanidade. O amor de Jaime e de Manuel, duas pessoas que
nunca te viram, mas que te acolhem, o amor de uma criança como
Pedro, que se atravessa vezes sem conta à tua frente, para te lembrar
de que estás vivo e que ainda existem pessoas que precisam de ti,
o amor dos pais e dos amigos.
O amor, só o amor.
Talvez saibamos todos que o amor é uma energia de bem, mas,
se lhe dermos espaço, ele manifestar-se-á sempre. Até mesmo atra-
vés de um animal como Rafa, ou de um busto de pedra construído
no Cabo da Graça que não te responde, mas que te ouve e desafia.
Quando se permite experimentar o amor, mesmo depois de tris-
tezas profundas, ele encontra rumo, espaço e liberdade para se rea-
lizar e salvar.
«Sim, o amor. Dar a quem se ama o primeiro lugar, da primeira
fila, do pico da montanha mais alta de onde melhor se possa ver o Sol.»

Inês Roseta
Kerala, Índia

7
8
I

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Cabo da Graça, último dia de setembro

– De certeza que quer mesmo arrendar a casa no estado em que


está? Não faço conta de fazer obras e, como lhe disse há pouco, tam-
bém não lhe posso passar recibo.
– Serve perfeitamente. Quer receber já o valor combinado ou
pode esperar até amanhã? Não trago dinheiro suficiente, mas posso
passar-lhe um cheque.
– Não se preocupe com isso. O senhor parece uma pessoa séria;
se bem que, hoje em dia, não podemos confiar nas pessoas pela apa-
rência. Já lá vai o tempo em que o aperto de mão era suficiente para
que um acordo se tornasse válido. No tempo dos meus pais, que Deus
tem, era sagrado.
– Outros tempos, senhor Jaime.
– Graças a Deus que nasci nesse tempo. E olhe que por aqui toda
a gente faz questão de fazer com que a palavra tenha algum valor.
Se for por aí fora, à exceção de uma ou outra ovelha negra, pode ter
a certeza de que se lhe disserem hoje que é azul, amanhã lhe volta-
rão a dizer que é azul.
– Eu acredito, senhor Jaime. Eu acredito.
– Antes do final do ano chegarei aos 80, se Deus quiser. Já vi muita
coisa nesta vida. Conheço aquele mar como poucos. Quando tinha
a sua idade, ninguém me segurava. Nunca me deixei ficar na cama
com preguiça de ir para a faina. Só me lembro de ter ficado mais
de dois dias seguidos sem me poder levantar, quando uma maldita

11
infeção num dente se alastrou pelo corpo todo e a febre não tinha
modos de baixar. E olhe, se não tivesse sido a raça do Dr. Jorge, que
mais parecia adivinho, a salvar-me, teria ido desta para melhor.
Jaime, quase octogenário e pescador reformado, acabava de ar-
rendar uma pequena casa a Francisco. «Casa», como quem diz. Um
pequeno espaço, com uns 25 metros quadrados. Quatro paredes,
revestidas a blocos de cimento e com a pintura gasta pelo tempo,
brancas. A porta de madeira, empenada desde o primeiro dia de
inverno, exigia dois sacalões fortes para que a chave talvez funcio-
nasse. Depois de aberta, bastavam dez segundos para ficar a conhe-
cer os quatro cantos daquele espaço. Do lado direito, um pequeno
lava-louça suportado por um velho móvel, com dois tachos encar-
didos e uma frigideira com a asa partida em cima. Em frente, um
divã de ferro, de corpo e meio, com duas mantas de retalhos e uma
almofada de sobras de esponja, ao lado de um armário de madeira
com as maçanetas arrancadas. A menos de um metro, uma sanita
e um lavatório, disfarçados por um biombo de couro rasgado.
– Era para aqui que eu vinha quando me zangava com a minha
Augusta. Arranjava qualquer coisa para comer e só voltava quando
me passava a telha.
Jaime não parava de falar enquanto mostrava as traseiras do es-
paço a Francisco – um reservatório com uma botija de gás e uma
base de chuveiro ferrugenta, com um esquentador na parede.
– Funcionam? – Francisco apontava para o chuveiro e esquentador.
– Sim, mas deixe correr um pouco a água. O esquentador era
o que tinha em minha casa, antes de fazer obras, e nunca me deixou
ficar mal. A água e a luz não faltam e são por minha conta, não se
preocupe. A botija de gás está quase cheia e deve durar uns meses.
– Já vi que sim.
A luz e a água eram por conta do senhorio, claro. Era ele que se
encarregava da manutenção de um pequeno monumento, a menos
de 20 metros, de homenagem a São Pedro, padroeiro dos pesca-
dores. Ao lado do santo, um bebedouro de base redonda, feito em
granito; o conjunto era iluminado por dois pequenos candeeiros de
rua. Não era difícil de adivinhar de onde vinha a água e a luz para
o casebre.

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– A casa não é bem minha, mas sou eu que trato da limpeza e da
manutenção da estátua e do altar em pedra. Já não para por aqui
gente como antigamente, mas, de vez em quando, lá vão ficando uma
ou duas noites, quando vêm ver o mar. Os dois candeeiros e o chafa-
riz estão impecáveis. Foram oferecidos por um brasileiro que é dono
da maioria das casas da aldeia. E não sei se sabe, mas o meu primo
Carlos é o presidente da Junta. Se for preciso alguma coisa, ele está
sempre às ordens. Ou melhor, é político, sabe como são os políticos,
mas já os vi piores. Há uns tempos ajudou-me a substituir as chapas
de zinco do telhado, por outras mais modernas que sobraram das
obras da escola primária.
– Se faltar alguma coisa, eu digo. Mas não se preocupe, porque
não o devo chatear, senhor Jaime.
Francisco não gostava de incomodar. Nunca gostou.
Luzinha, a aldeia a pouco mais de dois quilómetros, era onde o ex-
-pescador vivia. Augusta, a mulher, agora praticamente surda, tinha
visto o filho emigrar para os Estados Unidos há década e meia e há
muito que ele insistia, contra a vontade do pai, que a mãe fosse viver
com ele. O tempo foi passando e por ali foi ficando com Jaime. Cada
vez viam menos gente a viver na aldeia.
Pouco depois, Francisco abeirou-se do penhasco e olhou o mar.
Como era bela a natureza… aquela vista infinita, sem mais ne-
nhuma casa à volta…
O Cabo da Graça, um dos pontos mais ocidentais de Portugal,
não tinha farol. Apenas aquela amostra de monumento de homena-
gem a São Pedro, dois candeeiros, o chafariz e o casebre construído
de favor, sem nunca ninguém ter posto em causa a sua clandestini-
dade ou a autoridade do presidente da Junta. Os dois milhares de
metros que a separavam de Luzinha eram quase todos preenchidos
por arbustos rasteiros, próprios de um penhasco do litoral alente-
jano. A natureza completava a decoração com as folhas verdes das
beldroegas-da-praia e as suas flores roxas pareciam encurtar a dis-
tância até à aldeia. A ausência de acessos até ao Cabo impedia que
houvesse trânsito, embora, com esforço, se conseguisse conduzir
uma viatura até ali.
– Senhor Jaime, esqueceu-se de alguma coisa?

13
– Esqueci-me de o convidar para vir almoçar a minha casa ama-
nhã. Se gostar de febras, não se vai arrepender. Conto consigo?
Francisco demorou a responder, como se há muito não fosse
convidado para nada. Jaime sorriu e voltou à carga.
– Então, homem? Não gosta de febras de porco preto? Ou é pes-
soa de cerimónias?
Desviou os olhos do mar e fixou-os na expressão de Jaime, que
abria os braços como quem esperava uma resposta.
– Pode contar comigo. Vou, sim. Não deverá ser difícil descobrir
onde é a sua casa.
– Pergunte pelo Jaime da mouca. Toda a gente sabe quem eu
sou. Até a rapaziada mais nova me conhece bem. Se for em frente,
do lado esquerdo da rua principal, vai ver o café Lopes, que tam-
bém é de um primo meu; ele também lhe dará as indicações.
A mouca era Augusta, a senhora que aturava o pescador há mais
de 50 anos, doente e dependente dos cuidados do marido.
Jaime voltou a afastar-se, mas não ficou satisfeito com o pouco
que soube acerca do inquilino. Sem o pretexto do contrato de ar-
rendamento, parecia-lhe mal estar a perguntar o nome completo e a
idade – e muito menos a profissão, embora fosse claramente alguém
requintado e de estudos. Educado era, sem a mínima dúvida.
Francisco virou-se novamente para ocidente e voltou a contem-
plar o mar. Sentou-se entre dois calhaus arredondados, a pouco mais
de dois metros da ravina, e ficou imóvel até ter ficado com um pé
dormente. Levantou-se e aproximou-se da estátua de São Pedro.
Cabo da Graça. Sim, senhor. Nunca tinha ouvido falar deste lugar
e muito menos sabia que és o santo padroeiro dos pescadores. Ouvi,
em tempos, uma senhora brasileira, que vivia perto da minha tia,
dizer que a Nossa Senhora Aparecida era quem protegia os pescado-
res. Afinal és tu. A avaliar pelo que está aqui escrito, é bem capaz de
ser verdade. Se eu soubesse como, até rezava uma oração; já tenho
idade mais do que suficiente para saber rezar. Essa barba confirma
que talvez sejas uma figura respeitável, mas quem sou eu para achar
ou deixar de achar, se, afinal, nunca te dei importância. Aqui para
nós, que ninguém nos ouve, devo dizer-te que também já não será
agora que ta vou dar…

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Aproximou-se, esticou os braços e apoiou as mãos no pequeno
altar de pedra polida.
Mandas no tempo, isso eu sei. Por isso te puseram essa chave na
mão e é com ela que abres e fechas as portas do Céu. Mas que gran-
des responsabilidades te deram… Seres o culpado pelas secas e pelas
grandes inundações. Seres o culpado pela trovoada e, às páginas tan-
tas, és bem capaz de ser também o culpado pelo aquecimento global,
não sei se já ouviste falar… Quanta honra a minha, estar perante tão
ilustre figura.
Honra talvez não. Tristeza, sim.
Francisco perdera a mulher e os filhos.
No dia do seu 45.º aniversário, a 12 de abril, a sua mulher, Carla,
e os seus pequenos, Filipe e Guilherme, de 9 e 11 anos, sofreram um
trágico acidente de viação. Naquela tarde de sábado, Carla e os meni-
nos foram colhidos num cruzamento a pouco mais de 100 metros do
gabinete de Francisco, tendo tido morte imediata. A tragédia parali-
sou toda a população do Porto, que conhecia bem a família. Não ape-
nas por Carla ser vereadora da autarquia, mas também por Francisco
ser um dos mais prestigiados engenheiros da cidade. Os seus meni-
nos, doces, foram desejados desde o dia em que Francisco e Carla se
beijaram pela primeira vez. Um amor com dias repletos de felicidade,
que faziam com que os outros, os menos bons, se tornassem insig-
nificantes. O golpe mais duro da vida de Francisco fez com que os
seus objetivos de vida se apagassem mais depressa do que um trovão.
Pensando bem, se te tivesse conhecido há uns meses, talvez te tivesse
pedido para criares um temporal suficientemente forte para obrigar
toda a gente a ficar em casa, no dia dos meus anos. Os carros arru-
mados nas garagens, as escolas fechadas e os filhos juntinhos aos pais.
A ver televisão aninhados num sofá ou a jogar um jogo qualquer, des-
ses que ajudam a passar aquele tempo que, no fim de contas, nunca
queríamos que passasse. Por outro lado, acredito que a culpa não seja
tua e que também vivas em hierarquia, fazendo apenas aquilo que te
mandam.
Levantou a cabeça e voltou a olhar para o mar. Enfiou as mãos
nos bolsos e encolheu os ombros, enquanto sentia no rosto os pe-
quenos sopros de vento de início de outono.

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Afinal, o Todo-Poderoso é o teu chefe e talvez não mereças a sua
plena confiança. A gestão das tempestades, dos tufões, da chuva e do
sol exige uma grande responsabilidade, e parece-me que já não tens
idade para tamanhas façanhas. Será por isso que esta tua estátua
está de costas para o mar, quando devia estar de frente, para contro-
lares as marés?
Francisco nunca tinha estado naquele lugar. Conhecia o Alen-
tejo e toda a sua costa, mas nunca tinha ouvido falar no Cabo da
Graça. Algumas semanas depois da tragédia, pediu ao pai que tra-
tasse de tudo e que não lhe falasse mais sobre o assunto. Depois das
doses industriais de medicamentos que consumira e do sono que
lhe foi imposto como tentativa de salvar o que lhe sobrava como
pessoa, foi fácil escolher o primeiro carro velho que lhe apareceu,
o mais adequado à idade da sua triste alma.
Francisco virou as costas ao mar e acercou-se do carro. Na mala,
um saco de viagem castanho, carregado de roupa mal dobrada
e uma pequena mochila com algumas garrafas de vodka. Assim que
encostou a porta do casebre, ficou paralisado durante alguns minu-
tos. De olhos postos na cama, sentiu as sapatilhas coladas ao chão
de mosaico cinzento e teve a certeza de que só passaria a contro-
lar os seus movimentos depois de visualizar cada segundo depois
de acordar os seus filhos, pela manhã. Durante alguns instantes,
aquele divã passou a ser a cama de corpo e meio de Guilherme,
o mais velho, quando acolhia Filipe, o menino que tinha pesade-
los e fugia do seu quarto a meio da noite, para a cama do mano.
De manhã, Francisco, para os acordar sem sobressaltos, deitava-se
entre ambos e começava a fazer-lhes cócegas do tipo amo-vos para
sempre. Carla completava a visão, apressando o trio, porque a es-
cola tinha horas de entrada. O quadro repetia-se no turno da noite,
voltando também os avisos de mãe, ao retomar o sentido de respon-
sabilidade para que dormissem as horas suficientes para reencon-
trarem a boa-disposição matinal.
Francisco sentou-se na cama, depois de ter pousado o saco de
viagem. Sacou uma garrafa da mochila presa ao ombro direito e en-
fiou dois goles de vodka pela garganta abaixo. Voltou a paralisar,
fixou os olhos na banca e a amostra de frigideira que viu levou-o

16
para a sua cozinha moderna, encomendada a uma das empresas
mais conceituadas do país. Viu Carla, a única mulher que amou,
a fazer panquecas para os meninos, com as suas mãos delicadas.
E, enquanto os mandava sentarem-se à mesa, fixava no marido
o seu olhar mais doce, como se o quisesse fazer lembrar do toque
da noite anterior.
Mágica é a fórmula que junta a memória e o amor. Grande é o
coração que a guarda para sempre…
Entre mais duas goladas e um murro numa das lâmpadas com
a luz intermitente, voltou ao exterior, sem largar a garrafa. Sen-
tiu frio, mas não quis saber. O frio do fim de tarde e de início de
outono nada tinha que ver com o frio do inverno que lhe tomava
a alma. Não é possível derreter o gelo que o coração ganha com
o fim da rotina das emoções mais felizes da vida.
Sem manhãs, sem tardes, sem noites. Assim eram os dias de Fran-
cisco, desde a perda da família. Um pouco menos escuros, quando
visitava os pais e um ou outro amigo mais próximo. Deixou de conse-
guir fazer um risco, de olhar para a planta de uma casa ou de assumir
fosse o que fosse em termos profissionais. O seu sócio, Eduardo, que
era arquiteto, assumira o negócio e há meses que não o incomodava
com nada, deixando para depois a resolução do que houvesse para
tratar em termos de sociedade ou de distribuição de lucros. O salá-
rio, mesmo sem a sua presença, nunca deixara de lhe cair na conta.
Depois do dia trágico, Francisco não quis voltar a casa, deixando
para os pais a carga de tratar de tudo o que ele não conseguira fazer,
incluindo a sua venda. Pediu ao pai, Norberto, que não lhe falasse em
valores e muito menos em negócios. Ao senhor, também engenheiro
de profissão e há muito reformado de uma empresa pública, Fran-
cisco deixara uma procuração para que ele pudesse tratar de toda
a parte material, como muito bem entendesse.
Na verdade, Francisco nunca fora muito agarrado ao dinheiro,
e os últimos meses pareciam confirmar-lhe que fortuna nenhuma
lhe voltaria a trazer o mais importante da sua vida.

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QPESC-2

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