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Esquizofrenia

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DEFINICÃO

O TÊRMO esquizofrenia é aqui empregado para designar um grupo de doenças mentais


caracterizadas por sintomas psicológicos específicos e que determinam, na maioria dos ca-
sos, uma desorganização da personalidade do paciente. Os sintomas atingem o pensamento,
as emoções, a volição e o comportamento motor, e cada uma dessas funções de forma
característica. A desorganização da personalidade freqüentemente resulta em invalidez
crônica e hospitalização permanente apesar de ausência de sinais ou sintomas somáticos

graves.
O desfecho desfavorável e o início na juventude ou no comêço da idade adulta for-
neceram os elementos fundamentais para Kraepelin reunir os vários quadros clínicos sob
o nome de "demência precoce em"1896. Esta denominação foi introduzida por Morel
(1860) para designar um pequeno grupo de características semelhantes. Êstes casos até
então haviam sido considerados não como uma doença única mas como várias doenças
distintas e o nôvo conceito de Kraepelin foi combatido pela maioria dos psiquiatras seus
'Com um golpe de gênio' (Adolf Meyer) Kraepelin reuniu na nova en-
contemporâneos.
tidade mórbida uma multidão de doentes os quais eram até então, e ainda o são, a maioria
dos pacientes crônicos internados nos hospitais psiquiátricos. Sua descrição clássica da
doença não foi suplantada e tem resistido à prova do tempo. Seus conceitos foram sendo
progressivamente aceitos. Foi confirmado e consolidado por Bleuler que na monografia
The Schizophrenias (1911), através de estudo profundo de extenso material clínico, fê
uma tentativa importante de estabelecer a presença de um distúrbio primário comum a
todos os casos do grupo. Introduziu o têrmo 'esquizofrenia baseando-se na natureza
dêste distúrbio fundamental, usando o plural devido à incerteza de que o grupo tivesse
unidade etiológica. Esta dúvida ainda persiste. A esquizofrenia de Bleuler inclui uma
série mais ampla de pacientes do que a demência precoce de Kraepelin, e engloba os casos
mais leves sem um surto psicótico claramente definido, incluídos posteriormente por Kret-
schmer nas personalidades que denominou esquizóides.
Fizeram-se numerosas tentativas para subdividir o grande grupo sem nenhum sucesso.
Nas últimas edições de seu tratado o próprio Kraepelin isolou a 'paranóia pré-senil,
a Spaetkatatonie (catatonia tardia) e a 'parafrenia' como subdivisões do grupo, colocan-
do-as ora dentro, ora nos limites do círculo da demência precoce. Estas subdivisões não
tiveram uma aceitação tão geral como o grupo principal, embora os problemas de clas-
sificação de alguns dêstes grupos ainda não estejam resolvidos (veja pág. 309). Por outro
lutiva doenças
lado, quedemonstrar
e alcoólica, êle e outrosano
consideraram entidadesselacionadas
estar rastreitamente separadas, como
com àa Parando
paranóiagrupo
invo-

esquizofrênico. Este até agora resistiu à dissolução e foi englobado no sistema psicobio-
lógico de Adolf Meyer como o tipo de reação parergásica. O esfôrço de Kleist e seguidores
para tornar a dividi-lo em numerosas pequenas entidades, cada qual com síndrome e evo-
ução diferentes, deve parecer, na ausência de qualquer patologia estabelecida, como um
passo retrógrado no sentido da confusão pré-kraepeliniana do século XIX.
(2) A Constituição Esquizóide

Os clínicos observadores logo perceberam que muitos esquizofrênicos mostravam


certas peculiaridades psíquicas antes do início da doença pròpriamente dita. Observaram-
-se características similares nos consangüíneos dos pacientes. Era difícil dizer precisamente
quais eram estas peculiaridades. Berze (1910) mencionou certas características nos pais
de pacientes: incapacidade para advertir-se da doença de seus filhos, timidez e excentri-
cidade. Bleuler estava inclinado a ver 'esquizofrênicos latentes nestes excêntricos. In-
sistiu que a psicose freqüentemente apenas aumentava quantitativamente as caracterís-
ticas de caráter presentes nos parentes ou na personalidade pré-psicótica do próprio
ciente
Kretschmer (1936) reuniu estas observações e formulou uma teoria global da consti-
tuição esquizofrênica. Introduziu o têrmo esquizoide e construiu um sistema simétrico
paralelo ao sistema de relações entre as constituições afetivas básicas e as psicoses afetivas.
Na sua opinião, a psicologia do esquizofrênico pré-psicótico, psicótico e pós-psicótico
em remissão é idêntica à do esquizóide, isto é, parente consanguíneo não psicótico do pa-
ciente. "Apenas ao se considerar tôdas estas como uma, e uma só, pode-se chegar a um
quadro correto.
A teoria de Kretschmer das psicoses e de suas bases constitucionais, da qual a per-
sonalidade esquizóide e a constituição corporal associada são uma parte, à primeira
parece completa. Suas deficiências são particularmente evidentes no campo da esquizo-
Frenia. O autor e seus discípulos tentaram de tôdas as formas substituir os conceitos intui-
tivos originais por métodos mais exatos, experimentais e quantitativos. Inicialmente des-
cuidou-se êle do levantamento dos índices de distribuição na população geral, tanto para
seu tipo psicológico como para o físico. Mesmo que isso fôsse corrigido e que se fizesse
uma concessão para as outras dificuldades e discrepâncias do método, ainda permanece-
riam sérias objeções a algumas de suas idéias fundamentais. A validade da identificação
dos sintomas de uma psicose que determina a deterioração da personalidade, com certas
características superficialmente semelhantes nos pacientes antes do início da doença ou
em seus parentes, não foi aceita fora da própria escola de Kretschmer.
, Por outro lado, a existência da constituição esquizóide tem sido geralmente reconhe-
cida. Um dos mais prudentes dos seguidores de Kretschmer, Manfred Bleuler, inclui os
seguintes tipos entre os esquizóides mais graves: o desconfiado hipersensível, o pedante,
o indiferente e insensível, o paranóide, o tímido e delicado, o fanático, o religioso fanático
e o excêntrico. Entre 351 esquizofrênicos internados, Bleuler encontrou 34% pertencentes a um
dêstes tipos anteriores à sua psicose, e mais 29% com características esquizóides isoladas
266 MAYER-GROSS, SLATER E ROTH

menos marcantes. Avaliados pelo passado pré-mórbido, os esquizofrênicos eram


zóides com uma frequência dez vêzes maior que os próprios pais (não esquizofrênicos)
três vêzes mais freqüente que seus consangüíneos, e acima de 50 vêzes mais que a população
média. Slater (1953) fêz observações semelhantes nas famílias de gêmeos que sofriam de
esquizofrenia. Os desvios de personalidade, que eram típicos das famílias de esquizofrê.
nicos, mais do que nas famílias de casos de distúrbios afetivos, psicopáticos ou orgânicos,
podiam ser reunidos em 4 grupos de traços: traços paranóides revelando-se sob a forma
de descon ança, sensibilidade, rancor, ciúme e atitudes críticas; excentricidades,
pedantismo, falta de senso de humor, irritabilidade e fanatismo falta de sentimentos,
observada nos impassíveis, frios, calculistas, antipáticos, indelicados e egoístas, que têm
pouca capacidade de entusiasmar-se e geralmente são reservados; finalmente temos a
tendência à abulia. As personalidades psicopáticas de outros tipos não são mais fregüen-
tes nos esquizofrênicos pré-psicóticos e seus parentes do que na população geral (M. Bleuler,
1941a). Outros observadores, usando critérios diferentes, identificaram cêrca de 50%
de personalidades pré-psicóticas esquizóides entre os esquizofrênicos.
Um relatório preliminar de um estudo projetado para investigar a importância
tiva dos aspectos ambientais e hereditários da esquizofrenia difere em alguns pontos dos
resultados obtidos por Bleuler. Atkinson et al. (1968) observaram maior incidência de dis-
túrbios psíquicos e de personalidades anormais em famílias de pacientes esquizofrênicos
do que nas famílias-contrôle, de pacientes neuróticos ou cirúrgicos agudos. O máximo
global de anormalidade - incluindo psicose, neurose e distúrbio de personalidade - atingiu
níveis estatîsticamente significativos, tanto nos pais como nos consangüíneos. Além disto,
os parentes de primeiro grau, não psicóticos, de esquizofrênicos atingiram níveis médios
na avaliação de distúrbio de pensamento que estavam entre as médias dos esquizofrênicos
e dos grupos de contrôle (Romney, 1967). (Veja também pág. 332). Não havia indícios
de bipolaridade na distribuição dos resultados dos testes psicológicos, nem a distribuição
de anormalidades nas famílias de 73 esquizofrênicos correspondia às leis mendelianas
simples. A incidência, relativamente grande, de personalidades anormais nos parentes
de primeiro grau, tanto nas gerações anteriores como nas seguintes do pequeno grupo
que tinha doença esquizofrênica, tem um interêsse especial. Isto está em conformidade
com observações em outros estudos e foi relatado, por exemplo, por Heston (1966) entre
os filhos adotivos de mães esquizofrênicas. Se estas personalidades anormais têm qualquer
afinidade constitucional com os casos de esquizofrenia ou refletem a atuação de fatôres
ambientais adversos dentro da família, ou talvez se êstes dois fatôres estão atuando, são
questões que merecem uma investigação cuidadosa. Se estas personalidades são mesmo
• consideradas formas frustras, elas são preferíveis à psicose.
Embora se tenha estabelecido a relação entre a personalidade esquizóide e a esqui
zofrenia, deve-se lembrar que 30% a 50% dos casos não apresentam anormalidade mental
antes do início da doença esquizofrênica. A relação entre a esquizofrenia e um ou mais
tipos de constituição física ainda está sob debate, exceto quanto ao fato de que ela é rara
nos indivíduos de constituição pícnica típica. Se ela ocorrer em pacientes com esta cons-
tituição, é aconselhável fazer-se cuidadosa reconsideração diagnóstica (veja Diagnóstico
diferencial, pág. 334).
fi
dado ao processo de desenvolvimento para aumentar o risco de esquizofrenia.

PSICOPATOLOGIA
Uma vez que não se conhece a existência de uma patologia física da esquizofrenia,
a psicologia da doença deve ser de importância primária mesmo para aquêles que, como
nós, acreditam que ela tenha uma causa física. Atualmente os sintomas psicológicos são
a base de nosso diagnóstico e atividade terapêutica e qualquer teoria da doença deve ser ba-
seada em sua psicopatologia. Na realidade, uma grande parte da psicopatologia das psi-
coses, bem como das neuroses, foi desenvolvida em material esquizofrênico e em relação
com os fenômenos observados na esquizofrenia.
Antes do aparecimento do trabalho de Eugen Bleuler, e até certo ponto antecipando
seu conceito de 'cisão' (splitting), Stransky (1914), usando uma metáfora da neurologia,
propôs a "ataxia intrapsíquica como o sintoma básico da demência precoce. Descreveu
êste autor uma falta de coordenação entre emoções ('thymo-psyche°) e pensamento (noö-
-psyche), fenômeno atualmente aceito e referido como incongruência de afeto. Bleuler
observou o splitting dentro do próprio pensamento e sendo um adepto da psicologia asso-
ciacionista de Wundt pensou que o afrouxamento na associação de ideias fôsse o distúrbio
primário e fundamental. Os desejos instintivos e os desejos inconscientes podem imiscuir-
-se na consciência do paciente através dos elos partidos da cadeia de associações; seus com-
plexos reprimidos assumem uma grande importância e podem dirigir completamente sua
vida e seu comportamento. O resultado é a desorganização ou distorção de sua persona-
lidade. Fica à mercê de suas emoções e se afasta da realidade sempre que esta se opõe
aos caprichos de seus complexos.
A introdução da teoria freudiana na psicologia bleuleriana da esquizofrenia foi
parada por Jung (1907) que trabalhou com Bleuler naquela época. Entretanto, enquanto
Jung, usando seus estudos diagnósticos sôbre a associação, pensava que a psicologia de
esquizofrenia era idêntica à dos sonhos, histeria e outros estados neuróticos, Bleuler sus-
tentava a idéia de que a dissociação do pensamento era uma entidade primária, indepen-
dente das influências vindas do inconsciente. Outros sintomas, embora não da mesma
ordem que o distúrbio do pensamento, e que Bleuler considerou primários são: o enfra-
quecimento da fôrça de vontade, a rigidez e o embotamento afetivos e a ambivalência.
Os delírios, as alucinações e os sintomas catatônicos são considerados secundários ou aces-
sórios. O autismo (alheamento) é colocado em uma posição intermediária entre êstes dois
grupos no sistema de Bleuler, e é usado livremente para explicar outros sintomas.
Bleuler procurava um distúrbio fundamental, na esperança de que os sintomas pudes
sem ser explicados como uma reação da mente do paciente a êste distúrbio. Esta idéia
foi adotada de uma forma sistemática por Berze (1914), que pensou que a insuficiência
e a diminuição da atividade psíquica', baseadas num dano orgânico de natureza desconhe-
cida, fôssem o sintoma primário da esquizofrenia. Os pacientes freqüentemente relatam falta
de força de vontade, de contrôle e de espontaneidade; Berze fornece uma coleção enorme
destas descrições. A atividade mental diminuída pode impedir que o doente distinga cla-
ramente entre o real e o imaginário, de forma a fazê-lo recair em formas delirantes de
samento e comportamento. Outros autores usaram como comparação o estado de semi-
consciência do indivíduo normal que está para dormir. Um indivíduo neste estado pode
ter dificuldade semelhante em pensar claramente e em distinguir entre a realidade e a ima-
ginação. Para explicar a hiperatividade e o aumento de produtividade em certos estados
280 MAYER-GROSS, SLATER E ROTH

esquizofrênicos, Berze recorre à idéia de que nêles houve uma supressão das inibições
formam parte da atividade normal: a excitação esquizofrênica, de acordo com esta teoria,
É realmente improdutiva e processa-se num nível psicológico mais baixo de execução.
Portanto não é incompatível com a redução de energia exigida pela teoria de insuficiência
de atividade mental. Outra distinção importante é a que Berze traçou entre os sintomas
da doença aguda e os sintomas de defeito e adaptação após a interrupção do processo da
doença aguda, tendo sido amplamente reconhecida e provada ser muito útil. Alguns dos
sintomas mais surpreendentes dos esquizofrênicos crônicos, como as grotescas estereoti.
pias da linguagem e comportamento, negativismos e muitas das dificuldades na vida insti-
tucional, quase desapareceram, uma vez que a tendência à formação do hábito (Adolf Meyer)
foi reconhecida como um defeito típico do paciente desta classe, recebendo tratamento ade-
quado.
As primeiras teorias da psicopatologia da esquizofrenia são numerosas e complexas.
Para uma descrição lúcida e crítica deve-se consultar o trabalho de Fish (1962).
tôdas as teorias mostram falhas por 'explicar numa só parte da sintomatologia - os sinto-
mas negativos, não os positivos - ou são tão vagas que não têm valor heurístico, como
no caso das teorias existencialistas.
Durante a última década testaram-se hipóteses sôbre a natureza do distúrbio psicoló
gico fundamental subjacente aos sintomas esquizofrênicos através de investigações de pa-
cientes esquizofrênicos e contrôles com a ajuda de testes cuidadosamente elaborados. Al-
gumas destas pesquisas uniram-se às abordagens da psicologia experimental, da psicodi-
nâmica e da genética. Os resultados obtidos desta abordagem integrada foram bons e
promissores. Um dos pontos iniciais foi o conceito de Norman Cameron (Cameron,
1939) do pensamento 'superinclusivo. como o defeito essencial; êste foi definido como
consequente da incapacidade de preservar os limites conceituais, resultando na incorpo-
ração de idéias irrelevantes levando a um pensamento vago e confuso. Payne (1962) suge-
riu que a "superinclusão pode surgir do colapso num mecanismo de filtro hipotético que
normalmente barra êstes estímulos, tanto internos como externos, e que são irrelevantes
para a tarefa do momento, de sorte a permitir o processamento mais eficiente da informação
que interessa. O pensamento 'superinclusivo é considerado como característico dos
cientes esquizofrênicos, mas ocorre em apenas metade dos casos estudados que apresenta-
vam esquizofrenia aguda (Payne, 1962). Este parece ser um distúrbio relativamente espe-
cífico, bastante independente da inteligência e do retardo psicomotor observados em muitos
pacientes psicóticos. Contudo, êle influencia o desempenho numa variedade de testes
e emerge como um fator claramente definido quando se faz uma análise fatorial das inter-
correlações do teste. Payne sugeriu que o pensamento superinclusivo pode ser relacio-
nado com a presença de delírios, mas êste relacionamento ainda não tem provas satisfa-
tórias.
Testes do tipo classificação e ordenação de objetos também foram usados por Lovi-
bond (1954) e McConaghy (1959). Este último mostrou que um ou ambos os pais de pa-
cientes esquizofrênicos apresentavam um distúrbio do pensamento conceitual pelo teste
de Lovibond. Êste resultado foi extremamente significativo em contraste com o obtido
nos pacientes de contrôle. Como estas técnicas favoreceram um meio possível de identi-
ficação de personalidade esquizóide, elas têm implicações importantes para as pesquisas,
tanto genéticas como psicopatológicas. Lidz et al. (1958b) atraíram a atenção para os
distúrbios de comunicação frequentemente observados nas famílias de pacientes esquizo-
frênicos que são devidos às personalidades esquizóides ou paranóides de um ou de ambos
os pais; isto pode solapar gradualmente a capacidade do paciente de testar a realidade,
avaliando e reagindo adequadamente às reações emocionais dos outros membros da famí
lia. Entretanto, esta 'transmissão de irracionalidade' poderá manifestar-se simplesmente
PSIQUIATRIA CLÍNICA 281

numa predisposição inata à doença esquizofrênica. McGhie (1961), que verificou que as
mães de esquizofrênicos diferiam das de neuróticos de forma característica, observa que
as explicações da esquizofrenia em têrmos de relacionamento deformado entre mãe e filho
também devem explicar o fato de que a maioria dos irmãos de esquizofrênicos sobrevi-
vem à sua criação de forma a conseguir um ajuste satisfatório na vida adulta. Conclui
que, tanto a predisposição genética no sentido do 'desenvolvimento inadequado do ego',
como as influências familiares que podem ajudar o enfraquecimento da captação da rea-
lidade pelo paciente, devem ser consideradas para explicar a esquizofrenia. Como estas
novas técnicas de investigação podem servir para identificar portadores de genes anormais
e fontes de influência psicológica anormal dentro da família, poderão também ajudar
a definir a importância relativa dêsses dois fatôres. Talvez não devamos esperar definir
um distúrbio psicológico fundamental subjacente a todos os sintomas esquizofrênicos,
particularmente porque existem dúvidas sôbre a uniformidade do atual conceito de esqui-
zofrenia do ponto de vista etiológico. No atual estado de conhecimento, tudo que se pode
fazer é agrupar as anormalidades psicológicas essenciais da forma pela qual afetam as dife-
rentes funções mentais e construir os síndromes mais típicos a partir desta anormalidade.

(1) Distúrbio do Pensamento


Ao descrevermos o distúrbio do pensamento esquizofrênico, referimo-nos a uma anor
malidade do processo do pensamento, e não à anormalidade das idéias que tal processo ex-
pressa. Um aspecto é observado na cisão (splitting) e no afrouxamento das associações,
que Bleuler considerou como o sintoma fundamental da esquizofrenia, e que de fato é o
mais característico e importante. Entretanto, o distúrbio tem outros aspectos além da sim-
ples desconexão do pensamento ou de idéias completamente incoerentes.
Nos casos precoces, frequentemente surge como uma vagueza 'confusa"°, ou como uma
sequência inconsciente de expressões colaterais que desviam do tema principal da conver-
sação. O efeito é bastante perturbador se ainda não se suspeitar da esquizofrenia e o clí-
nico somente poderá conscientizar-se de que há algo errado quando dez minutos de uma
conversação cuidadosa não levarem a nada. O pensamento do paciente é dirigido por
aliterações, analogias, associações sonoras, associações com os acidentes de seu
ambiente, simbólicos e a condensação de várias idéias, talvez mutuamente contraditórias.
significados
Às vêzes o efeito é de sagacidade e pode dar-se o caso de ser genuinamente inteligente e
o paciente poderá parecer brincalhão ou jocoso quando fala sôbre assuntos sérios. As
palavras são usadas fora do contexto, e o paciente emprega um significado concreto quando
seria adequado um abstrato e vice-versa. O esquizofrênico apega-se a detalhes sem
portância,
im- no que se assemelha ao epiléptico, permitindo que o objetivo de seu pensamento
se perca, não tendo discriminação em seus processos de pensamento. (Veja também Lâ-

minas VII e VIII).


Um jovem paciente disse: Sinto que tudo é relacionado com todos e que
indivíduos
alguns são muito mais suscetíveis a esta teoria da relatividade do que outros,
por- tiveram ancestrais ligados de alguma forma a lugares ou coisas, ou porque acredi
que
tam, ou ainda porque deixam um rastro quando passam por uma sala que conhecem.
Algumas pessoas deixam rastros diferentes e tudo passa desta forma. Este paciente
afirmou que esta declaração estava clara, e mostrou sinais de ira quando pedimos que
O exemplo seguinte foi extraído de uma carta: acabo de procurar a palavra "sim-
a elucidasse.
plicidade" e o dicionário diz "sim = um, plicare = dobrar, uma dobra". Eu disse ao
MAYER-GROSS, SLATER E ROTH
28
Dr. H - que sonhei que êle havia me devolvido a estória que eu lhe havia enviado e que
Ele havia dobrado seis vêzes quando eu havia dobrado uma vez tornando-a dupla. Jesus
disse que o carneiro que Ale chamou faria uma dobra. Na ocasião pensei que o corres.
pondente latino de seis fôsse sexo, e que o número da bêsta fôsse 666. Então o sexo
é bestial? Acho que deixarei que você estabeleça a diferença entre 6 e 666 e 6 dobras
em substituição a uma dobra; pois o número da bêsta é um

É necessário dar estas ilustrações aqui - outras serão fornecidas quando da discussão
dos sintomas - pois mesmo a descrição mais pormenorizada não pode oferecer a impres-
são que produz o distúrbio de pensamento esquizofrênico com a mesma clareza de um
exemplo. As produções artísticas dos esquizofrênicos freqüentemente representam seu
pensamento e sentimento de uma forma particularmente clara (Lâmina X). Por outro
lado, deve-se lembrar que os sintomas negativos, as falhas, a pobreza, a hesitação e a
cisão não estão totalmente representados nestes exemplos. Além disto, êstes sintomas
erra.
são necessàriamente formulados na linguagem falada ou escrita e podem corresponder
ao que, no processo do pensamento, pode ser um distúrbio mais grave ou qualitativamente
diferente, pois, evidentemente, o paciente tenta superar suas dificuldades e, em suas expres-
sões, não é fácil separar o distúrbio primário dos ajustes secundários.
Alguns pacientes não percebem seu distúrbio e acham que sua imprecisão é profun-
didade e que suas associações bizarras são originalidade; desta forma seu interêsse pode
voltar-se para temas filosóficos e místicos e se forem ativos e produtivos poderão sentir-se
es
impulsionados a escrever livros, entrar em sociedades e fazer palestras. Entretanto, geral-
mente o paciente conserva uma certa consciência, particularmente no início da doença
e se queixa de perplexidade e desorientação, dificuldades de concentração ou sentimento
de vazio. Também poderá queixar-se de outras coisas mais características. É impossível
0 fornecer uma ilustração de bloqueio de pensamento, no qual o paciente se torna consciente
de uma pausa súbita no curso do pensamento, e pode patenteá-lo em seu comportamento,
~ ou de pressão de pensamentos, na qual sente que há um grande número de idéias passando
pela sua mente. Ambos os sintomas são patognomônicos de esquizofrenia. Entretanto,
a seguinte autodescrição é útil e fornece uma boa idéia da experiência subjetiva de pensa-
mento impôsto, que é observado na queixa esquizofrênica de 'roubo de pensamento, de
pensamentos falados, 'echo de pensée e de pensamentos que são colocados em sua mente:

"Parece que me ocorre tôda sorte de "pensamentos", como se alguém os estivesse


"falando" dentro de minha cabeça. Quando não estou sozinho isto parece piorar (pro-
vâvelmente alguma forma de autoconsciência). Eu não quero ter êstes "pensamentos"
mas continuo "escutando-os" como se os ouvisse e às vêzes é necessária uma grande
fôrça de vontade para parar de "pensar" (em forma de "palavras") as coisas mais
surdas e embaraç[Link] "pensamentos" não significam nada para mim e provocam
"falta de concentração em tudo que eu esteja fazendo. Quando escuto uma música
sinto que as palavras da canção me ocorrem involuntàriamente, e se eu não souber
a letra da música que está tocando, eu "escolho palavras" para ela contra minha vontade.
Outro fato semelhante ao anterior é que se eu ouço um estampido ou qualquer ruído
semelhante, faço a mesma coisa, ou seja,"imagino" "palavras" que "rimem"
se poderia dizer - com qualquer ruído que eu ouvir'.
- como

O teste psicométrico para o distúrbio do pensamento é discutido na pág. 331. O dis-


túrbio de pensamento freqüentemente é difícil de detectar e pode estar completamente
ausente quando o paciente é interrogado pelo psiquiatra numa entrevista em que se esforce
para concentrar tôda a sua atenção. Quando lhe é permitido exprimir-se livremente, por
PSIQUIATRIA CLINICA 283

exemplo, explicando um provérbio ou repetindo uma fábula curta, como a 'estória do va-
queiro' ou o 'burro e o sal', o distúrbio poderá demonstrar-se facilmente. Outros
cientes só exibem o distúrbio de pensamento sob uma certa tensão emocional, por exemplo,
quando falam diante de uma reunião de muitas pessoas ou sob a influência do álcool.
Respostas lacônicas, como 'quiça', 'talvez, 'não sei', geralmente são provocadas
pelo embaraço decorrente do distúrbio do pensamento do qual o paciente está mais ou
menos consciente. Analogamente a repetição monótona de frases, como 'quero ir para casa',
'quero ver minha mãe', sem nenhum afeto ou tentativa de alcançar êstes objetivos, fre-
qüentemente não passa de um sinal de que as idéias estão vazias e vagas. O paciente
tenta prender-se, por assim dizer, a algo concreto enquanto tudo mais em sua mente está
difuso, insípido e enevoado.
Muitos autores fizeram estudos especiais sôbre a teoria do distúrbio de pensamento
esquizofrénico. O próprio Bleuler (1921) estudou o papel do pensamento autista' ou
"dereísta' (não adaptado à realidade) na psicologia normal. Neste estudo deu maior im-
portância ao conteúdo do que ao distúrbio funcional do pensamento. N. Cameron (1938)
estudou o lado funcional do distúrbio em sua subdivisão de três tipos de desorganização
de pensamento na esquizofrenia: a 'assindese que seria uma escassez de elementos de
conexão funcional; a 'metonímia', uma substituição da palavra correta por outra
ximada mas insuficiente e expressões verbais totalmente inadequadas, o que, entretanto,
parece satisfazer o paciente; e finalmente a 'interpretação, onde as idcias relacionadas
com/a realidade e a fantasia estão completamente misturadas. Os tipos de Cameron
pela tentativa de combinar muitos aspectos - lógicos, semânticos, relações com a reali-
dade e relações sociais - para sua formação.
A teoria de Paul Schilder (1920) do pensamento esquizofrênico não é, como a de
Bleuler, bascada na concepção obsoleta da associação de idéias numa cadeia contínua.
Nesta concepção, o pensamento consciente é guiado por uma idéia determinante. Tem um
objetivo através do qual progridem os pensamentos claros e relevantes, cercados por uma
orla de idéias e lembranças menos importantes e menos precisas, que sempre acompanham
o fluxo principal de pensamento. De acórdo com Schilder, o esquizofrênico não é capaz
de manter-se na idéia condutora determinante e focalizar sua atenção sôbre o centro. As
idéias associadas secundárias, da penumbra, interferem constantemente na clareza de seu
pensamento; daí o caráter peculiar do pensamento esquizofrênico que sempre está fora
de foco, incoerente, mas frequentemente ainda guarda algum sentido. Estas formulações
tem afinidades claras com o conceito moderno de 'superinclusão' que já foi discutido.

(2) Distúrbio das Emoções


As emoções do esquizofrênico não surgem como simples acompanhamento de
vida mental, que incluem seus sintomas. Elas podem estar primariamente perturbadas
em seu caráter, intensidade e em relação com outras experiências paíquicas.
O embotamento emocional no esquizofrênico estabilizado era considerado por Krac-
pelin como uma característica da alteração de personalidade nos casos crônicon. Palava
de 'demência afetiva em contraste com a 'demência intelectual observada em pacientes

com Alesão
perdacerebral
da capacidade para experimentar certas emoções pode ser um sintoma inicial
demonstrável.
e, em alguris casos, o único sinal da doença por longo tempo. A redução da reação emo.
cional progride desde os mais refinados e ternos sentimentos de simpatia e consideração
para a família e amigos, as emoções primitivas de mêdo, ira, laridade o erotismo. Fre
mimite
güentemente este último persiste quando reações diferenciadas

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