0% acharam este documento útil (0 voto)
45 visualizações8 páginas

Cinco Factores da Personalidade na Educação

Enviado por

Susana Fragoso
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
45 visualizações8 páginas

Cinco Factores da Personalidade na Educação

Enviado por

Susana Fragoso
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Implicações do Modelo dos Cinco Factores da Personalidade em Contextos

Educativos

Margarida Pedroso de Lima


FPCE
Universidade de Coimbra

1. Introdução — O modelo dos cinco factores da personalidade.


O Modelo dos cinco factores da personalidade (Five Factor Model, conhecido
pelas siglas FFM) é uma organização dos traços da personalidade, em termos de cinco
dimensões básicas. Em consequência dos seus contributos, do consenso gerado à sua
volta e da sua abrangência, têm-se diversificado as suas aplicações práticas.
Nesta comunicação após uma breve descrição do modelo apresentaremos as suas
implicações para a investigação e a prática educacional.

O modelo dos cinco factores da personalidade é, actualmente, uma das mais


debatidas propostas no domínio da psicologia da personalidade na idade adulta. Com
raízes na hipótese lexical, nos insights de Sir Francis Galton, na antevisão de Thurstone
sobre a estrutura da personalidade, no legado de Cattell e nas análises seminais de Tupes
e Christal, surge (ou melhor reaparece), num momento histórico, em que a psicologia da
personalidade já tinha exaustivamente debatido as suas críticas e explorado algumas das
alternativas propostas. Apesar da sua longa e conturbada história o modelo é, no
presente, um conjunto útil de dimensões das diferenças individuais, que podem ser
medidas com grande precisão e validade, proporcionando uma boa resposta à questão da
estrutura da personalidade (Digman, 1990; Hogan, 1985; John, 1990; McCrae & Costa,
1989) e às solicitações de várias áreas da psicologia.
O modelo dos cinco factores, cuja crescente aceitação tem marcado inegável e
profundamente o estudo científico da personalidade, é uma versão da teoria dos traços
que considera que as diversas expressões comportamentais podem ser sintetizadas em
cinco dimensões básicas: Extroversão, Neuroticismo, Amabilidade, Conscienciosidade e
Abertura à Experiência. Podemos sintetizar o significado dos domínios, através das
seguintes dicotomias: Extroversão (retraído-sociável; cauteloso-aventureiro);
Neuroticismo (calmo-ansioso; seguro-inseguro); Amabilidade (antagonista-generoso);
Conscienciosidade (irresponsável-responsável; desorganizado-organizado); Abertura à
Experiência (convencional-original).
Cada um dos factores é avaliado, através de cinco escalas de domínios e
trinta escalas de facetas, seis por cada domínio (tabela 1).
O primeiro domínio é o do Neuroticismo (N), que quantifica o contínuo
que vai desde a adaptação à instabilidade emocional. Sujeitos calmos,
relaxados, resistentes, seguros, não emotivos e satisfeitos consigo,
situam-se num pólo, e indivíduos com propensão para a
descompensação emocional, ideias irrealistas, desejos e necessidades
excessivas, e respostas de coping desadequadas, no outro (Lima,
1997).
A segunda dimensão, que tem também uma longa tradição de
investigação na área da Psicologia, é a Extroversão (E). Esta mede a
quantidade e a intensidade das interacções interpessoais, a
sociabilidade, o nível de actividade, a necessidade de estimulação e a
capacidade de exprimir alegria.
A Abertura à Experiência (O) avalia a procura proactiva e a apreciação da
experiência por si própria; a tolerância e exploração do não familiar.
De entre as características do sujeito com pontuação alta encontra-se
a curiosidade, a criatividade, a originalidade e o gosto pelo não
tradicional. Por contraponto, o sujeito com pontuação baixa é mais
convencional, pragmático, tem interesses mais limitados, não tem
inclinações artísticas nem analíticas.
A Amabilidade (A) mede a qualidade da orientação interpessoal, segundo
um contínuo, que vai, desde a compaixão, ao antagonismo nos
pensamentos, sentimentos e acções. O indivíduo muito amável
caracteriza-se por ser sentimental, bondoso, de confiança, prestável,
disposto a perdoar, crédulo e recto. O indivíduo pouco amável é
cínico, rude, desconfiado, pouco cooperativo, vingativo, impiedoso,
irritável e manipulador.
Finalmente, a Conscienciosidade (C) quantifica o grau de organização,
persistência e motivação no comportamento orientado para um
objectivo. Contrasta pessoas que são de confiança e escrupulosas
com aquelas que são preguiçosas e descuidadas.
Facetas NEO-PI-R Características
NEUROTICISMO
N1: Ansiedade Tenso, medroso, apreensivo vs. calmo, corajoso.
N2: Hostilidade Irritável, frustável e zangado vs. amigável, não se ofende.
N3: Depressão Sem esperança, triste vs com esperança, optimista.
N4:Auto Consciência Envergonhado, embaraçável vs. seguro, à vontade.
N5:Impulsividade Incapaz de resistir às tentações vs. resiste aos desejos
N6: Vulnerabilidade Nervoso, com stress vs. calmo, resistente.
EXTROVERSÃO
E1:Acolhimento Amigável, conversador, afectuoso vs. frio, formal.
E2: Gregariedade Gregário, alegre, social vs. evita multidões, solitário.
E3: Assertividade Dominante, confiante, decidido vs. evita afirmar-se.
E4: Actividade Enérgico, com ritmo rápido vs. sem pressa, deliberado.
E5: Procura Excitação Exibicionista, aprecia estimulos e riscos vs. cauteloso.
E6:Emoções Positivas Alegre, espirituoso, divertido vs. plácido, sério.
ABERTURA À EXPERIÊNCIA
O1: Fantasia Imaginativo, elabora fantasias vs. realista, prático.
O2: Estética Valoriza a experiência estética vs. Insensível à beleza.
O3: Sentimentos Emotivo, sensível, empático vs. leque limitado de emoções.
O4: Acções Procura a novidade e variedade vs. prefere o familiar.
O5: Ideias Curioso, orientado teoricamente, analítico vs. pragmático.
O6: Valores Horizontes largos, tolerante vs. dogmático, conformista.
AMABILIDADE
A1: Confiança Atribui intenções benevolentes aos outros vs. cínico.
A2: Rectidão Franco e frontal vs. maquiavélico, calculista.
A3: Altruísmo Altruísta vs. centrado em si próprio.
A4: Complacência Complacente, tolerante, brando vs. antagonista, contestador.
A5: Modéstia Humilde, modesto, simples vs. arrogante, narcisista.
A6: Sensibilidade Guiado por sentimentos ao ajuizar vs. realista, racional.
CONSCIENCIOSIDADE
C1: Competência Sente que é capaz e eficaz vs. Sente-se incapaz.
C2: Ordem Limpo, organizado, ordenado vs. desleixado.
C3: Obediência Dever Adesão a padrões de conduta vs. irresponsável.
C4: Luta Realização Atraído pelo êxito, diligente vs. não ambicioso.
C5:Auto disciplina Persistente vs. prostrado, desiste em face da frustração.
C6: Deliberação Cauteloso e ponderado, planificador vs. espontâneo.
Tabela 1. Os 5 domínios do NEO-PI-R, as suas 30 facetas e respectiva
caracterização

A robustez do modelo reside, sobretudo, na sua fundamentação empírica.


Efectivamente, as cinco dimensões, ao atravessarem as fronteiras dos métodos e dos
observadores, ao persistirem ao longo do tempo, ao aparecerem na generalidade dos
instrumentos derivados de fontes teoricamente diferentes, e ao discriminarem entre
medidas de personalidade e outras aptidões, como a cognitiva, proporcionam, uma
linguagem comum, através da qual, diferentes resultados podem ser integrados, e a base
para uma análise mais sistemática de novas escalas propostas e para a avaliação
compreensiva dos sujeitos. O modelo pode ainda servir de ponte entre o psicólogo social
e o da personalidade, assim como entre o cientista e o leigo, quando confrontado com a
descrição da personalidade, ou seja, pode constituir um elo de comunicação, uma
linguagem, que congrega os diferentes investigadores. Baseandose naquilo que foi
sedimentado na linguagem de todos os dias e naquilo que foi sistematizado por diversas
taxinomias da personalidade, pode reduzir a distância entre disciplinas e a variabilidade
entre diferentes avaliadores.
Apesar da sua fundamentação empírica e estatística ser suficiente para o adoptar,
nem que seja, como uma ferramenta, um contexto, ainda que inicial, para a descrição
compreensiva da personalidade, a proliferação recente de perspectivas teóricas sobre o
FFM veio enriquecer a proposta, lançandoo para o centro das discussões sobre a
personalidade e situandoo contextualmente. Estas novas tendências, a precisar de
refinamentos, vieram realçar que as teorias futuras sobre a personalidade, mesmo que não
tenham como fulcro os cinco factores, têm que, certamente, os incluir.
O modelo acarretou diversas implicações para alguns dos tópicos principais da
psicologia da personalidade e da psicologia da idade adulta. Nomeadamente, no que
concerne à estrutura da personalidade, representa uma taxinomia consistente e
compreensiva, face ao caos conceptual que aí reinava, oferecendo uma solução
conciliadora, que organiza e categoriza a multiplicidade de conceitos existentes.
Finalmente, no que respeita à polémica questão da mudança na personalidade do adulto
apresenta muitos dados empíricos que sublinham, particularmente, a constância. Mas se a
avalanche de dados, neste sentido, é impressionante, no nosso entender, a flexibilidade da
personalidade só pode ser compreendida, tendo em conta também o seu potencial de
mudança, aliás, documentada por outras linhas de investigação. Efectivamente, a
evolução parece ser formatada, de tal forma que possuímos uma certa dose de constância,
no desenvolvimento, mas também um considerável potencial para mudança. Os cinco
factores devem então ser compreendidos a um determinado nível de análise da
personalidade, no qual, no entanto, a estabilidade relativa dos cinco factores permitiu,
estudos minuciosos sobre as implicações do modelo para a prática psicológica e
educacional. Através da compreensão das diferenças individuais, avaliadas através dos
cinco factores, podemos prever carreiras, consequências de determinados percursos
existenciais, e a capacidade de adaptação a ameaças, perdas, e desafios da vida adulta.
No próximo capítulo analisaremos como as cinco dimensões podem contribuir para a
investigação e a intervenção educacional.

2. Implicações do modelo para a investigação e a prática educacional.


Claude Bernard (1865), há já algumas décadas, sublinhou que não há teorias falsas,
nem teorias verdadeiras, há, sim, teorias fecundas e teorias estéreis. O FFM
(operacionalizado através do Inventário da Personalidade NEO-PI-R; Costa e McCrae,
1992) pode ser útil na compreensão de alunos de todas as idades, ao longo do seu
percurso académico, já que possibilita a descrição abreviada das principais características
da personalidade. Efectivamente, variáveis como a delinquência, a realização escolar e o
QI têm relações importantes e significativas com os cinco grandes (Robins, John e Caspi,
1994). Contudo, são, sobretudo, dois os principais domínios do NEO-PI-R, que parecem
promissores na área da psicologia da educação: a Abertura à Experiência e a
Conscienciosidade. VandenplasHolper e colaboradores (1995) verificaram, por exemplo,
que as dimensões Abertura à Experiência e Conscienciosidade eram fortes preditoras da
performance escolar dos alunos.
Efectivamente, os alunos conscienciosos são pessoas bem organizadas, persistentes
e com objectivos bem definidos. Ora, existe evidência que indica que estes traços levam
a um rendimento académico superior (Digman, 1990).
Por sua vez, a Abertura apresenta relações modestas com medidas de inteligência e
um pouco mais elevadas com o pensamento divergente (McCrae, 1987) e a inovação
(Cardoso, 19961). Está também relacionada com a aquisição independente de
conhecimentos (Achievement via Independence) que, por sua vez, é um preditor do nível
de sucesso académico na universidade (McCrae, Costa, & Piedmont, 1992).
A Abertura à Experiência é, também, uma variável-chave para compreender e
fazer face àquilo que Abreu (1994, p.75) sintetizou ao dizer que “a caducidade do
conhecimento aumenta a um ritmo crescente, e mesmo que a escola tente acompanhar o
ritmo dos avanços obtidos pela investigação científica, muito daquilo que ela consegue
transmitir neste momento não será de grande utilidade, em termos informativos, na
resolução de problemas de prática profissional, num futuro próximo”. É, por conseguinte,
necessário, para o sucesso dos empreendimentos educativos vindouros, uma educação
virada para o futuro, para a exploração de alternativas e para a inovação pedagógica, na
qual é preciso ter em consideração a dimensão O.
Costa e McCrae (1992) consideram que se podem colocar à investigação

1Esta investigação encontra-se ainda em curso.


Porém, os resultados preliminares indicam que a
dimensão O apresenta relações positivas (.45, p= .001)
com as atitudes dos professores face à inovação
pedagógica (Cardoso, 1996).
educacional algumas questões relacionadas com esta dimensão. Por exemplo, será que os
estudantes abertos à experiência mais facilmente aderem, e tiram proveito, das
oportunidades de enriquecimento educacional? Ou, pelo contrário, será que se sentem
frustados, nas classes tradicionais, por estas serem demasiado convencionais?
Finalmente, será que a Abertura, em si, é algo que se pode conseguir com a educação,
como a educação liberal tem defendido?
Finalmente, Victor (1994) encontrou correlações entre os cinco factores e as
medidas de problemas comportamentais (na infância), indicando que o modelo pode
servir como um quadro de referência para uma compreensão unificadora do
comportamento social e emocional das crianças em idade escolar.

Em conclusão, embora o modelo se apresente como uma proposta promissora para


a investigação e a prática educacional investigações suplementares, sobretudo em
contexto português, são ainda necessárias.

Bibliografia
ABREU, M. V. (1994), Para um diálogo entre a perspectiva macroscópica e a
perspectiva microscópica do sistema educativo,, Actas do Colóquio Educação e
Sociedade.
COSTA, P. T. & McCRAE, R. R. (1992),The NEO PI-R / NEO-FFIManual
Supplement, Odessa, FI: Psychological Assessment Resources.
DIGMAN, J. M. (1990), Personality Structure: Emergence of the Five-Factor
Model, Annual Review of Psychology, 41, 417-440.
HOGAN, R., (1985), Hogan Personality Inventory manual. Minneapolis, MN:
National Computer System.
JOHN, O. P. (1990), The "Big-Five" Factor Taxonomy: Dimensions of Personality
in the Natural Language and in Questionnaires, in PERVIN, L.(Ed.), Handbook of
Personality Theory and Research., New York: Guilford.
McCRAE, R. R. (1987), Creativity, Divergent Thinking, and Openness to
Experience, Journal of Personality and Social Psychology, 1987, 52 (6), 1258-1265.
McCRAE, R. R. & COSTA, P. T. (1989), The Structure of Interpersonal Traits:
Wiggins's Circumplex and the Five-Factor Model, Journal of Personality and Social
Psychology; Apr, 56 (4), 586-595.
McCRAE, R. R. et al., (1992), Discriminant Validity of NEO-PIR Facet Scales,
Educational and Psychological Measurement, 1992 Spr, 52 (1), 229-237.
ROBINS, W. et al. (1994), Major Dimensions of Personality in Early
Adolescence: The Big Five and Beyond, in HALVERSON Jr. et al. (eds.), The
Developing Structure of Temperament and Personality from Infancy to Adulthood, USA,
Lawrence Erlbaum Ass., 267-292.
VICTOR J. (1994), The Five-Factor Model Applied to Individual Differences in
School Behavior, in HALVERSON Jr. et al. (eds.), The Developing Structure of
Temperament and Personality From Infancy to Adulthood, USA, Lawrence Erlbaum
Ass., 355-366.

3. Conclusões de estudos com amostras de estudantes universitários portugueses


NEO-PI-R é uma medida das cinco principais dimensões, ou domínios, da
personalidade, assim como de algumas das facetas ou traços que definem cada um dos
domínios. Em conjunto, as cinco escalas dos domínios (N: Neuroticismo, E: Extroversão,
O: Abertura à Experiência, A: Amabilidade e C: Conscienciosidade) e as trinta escalas
das facetas permitem uma avaliação compreensiva da personalidade adulta.
Apesar de os autores (Costa & McCrae, 1992) considerarem que os traços da
personalidade são relativamente estáveis, ao longo da vida adulta, aceitam a existência de
mudanças significativas entre a adolescência e a primeira adultez (até por volta dos 30
anos). No que concerne às pontuações obtidas nos cinco factores, os resultados
confirmaram os dados recolhidos com outras investigações, a saber, que os sujeitos mais
novos tendem a obter resultados mais elevados em N, E e O e mais baixas em A e C. Os
estudantes pontuam um desvio-padrão acima dos adultos, em E5 (Procura de Excitação)
— resultado, aliás, condizente com os de Zukerman (1979), em estudos sobre a procura
de sensações (sensation seeking). Estes dados normativos, de acordo com Costa e
McCrae (1992, p.43), “foram recolhidos em estudantes universitários, mas uma análise
comparativa, com uma amostra de recrutas militares da mesma idade, revelou um grande
paralelismo e sugere que as normas para estudantes universitários são apropriadas para
sujeitos entre os 17 e os 20 anos, quer eles frequentem ou não a universidade”.

Muito embora Costa e McCrae (1995) e Goldberg e Saucier (1995) considerem


que grande parte das apreciações críticas do FFM são leituras parciais e tendenciosas dos
dados, eles próprios não defendem que o modelo seja a última palavra, mas um bocado
de ‘terra firme’ no estudo da personalidade, a ponta do iceberg das diferenças individuais
(“a tip of the iceberg of individual differences”; Halverson, 1994),

Você também pode gostar